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Um rouxinol cantou..




        Coleção Barbara Cartland nº 76




1
Na escuridão do parque, Tybalt só viu o vulto branco do vestido da
   moça. Mas as coisas que ela disse naquele encontro mágico lhe
    deram forças para continuar vivendo. Dois anos já haviam se
 passado, e ele ainda se lembrava de cada palavra, do perfume dos
lilases, do canto solitário de um rouxinol e, principalmente, do doce
sabor dos lábios dela. Algo lhe dizia que aquela desconhecida era a
 mulher de sua vida e que nunca amaria nenhuma outra. Mas como
     procurá-la, se nem sabia como era seu rosto? E se às vezes
 chegava a imaginar que tinha estreitado nos braços o corpo etéreo
  de uma deusa, descida à Terra por uma única noite para salvá-lo
                             do desespero?




2
CAPÍTULO 1


                                   1919


     Através das janelas sem cortinas do velho casarão da praça Berkeley, as
silhuetas dos dançarinos se recortavam sobre um fundo dourado. A música da
bateria e do saxofone espalhava-se pela praça, quando um homem desceu os
degraus da entrada, passou pelos criados, cocheiros e motoristas que
conversavam, atravessou a alameda e entrou no jardim.
     Normalmente, o portão ficava fechado, e só moradores da praça, a mais
exclusiva de Londres, tinham a chave.
     Alguns casais passavam entre as moitas de lilases, mas o homem seguia
lentamente por uma pequena alameda, mergulhado em pensamentos, sem
prestar atenção às pessoas que passavam por ele.
     Afinal, no centro da praça, chegou a um pequeno templo, que dominava
uma urna georgiana e tinha pilares na entrada. Lá dentro estava escuro. Ele
parou junto a um dos pilares e voltou-se para olhar os casarões antigos,
recortados contra o céu estrelado.
     Enfiou a mão no bolso do fraque, procurando uma cigarreira. quando
percebeu um leve movimento atrás de onde estava. Olhou, achando que talvez
fosse só impressão, pois mais tinha sentido do que ouvido, mas viu que havia
mais alguém ali.
     Com uma sombra de sorriso nos lábios, perguntou:
     — Estou atrapalhando? Se estiver, vou embora.
     Houve um momento de silêncio antes de uma vozinha hesitante
responder:
     — Não… não. Claro que não. Eu… eu estou sozinha.
     O homem voltou-se na direção da voz, dentro do templo. Notou que havia
um banco de pedra e nele estava uma moça vestida de branco. Era impossível
distinguir-lhe o rosto, mas, pelo tom da voz, achou que era muito jovem.
     — Sozinha? O que aconteceu com seu par?
     — Eu… eu nunca tive par. Foi por isso que… que vim para cá.
     — Não tem par? Isso é mau e garanto que não vai encontrar nenhum,
escondida nessa escuridão.
     — Eu sei. Mas é horrível ficar lá, sentada, olhando… esperando. Parece
que não há nenhum homem sobrando.
     Isso, ele sabia, não era verdade.
     Havia muitos homens sem par na festa, e os deixara conversando -uns
com os outros, bebericando no bar ou reunidos na sala de jogos.
     Pensou que ele próprio estava se aborrecendo, naquele baile em que
conhecia pouquíssimas pessoas e onde havia mistura de gente muito velha
com gente muito nova, sem que ninguém combinasse com sua idade e gostos.
     — Se não me engano, está começando a temporada e este deve ser seu
primeiro baile, não?
3
— Sim. E eu estava esperando tanto dele!
     — E ficou decepcionada. Isso acontece muito na vida. É difícil a realidade
corresponder às nossas expectativas.
     — Mas não é sempre assim, espero.
     — Quase sempre. É então que uma pessoa começa a ficar desiludida e
cínica.
     Estava brincando, mas a moça o levou a sério.
     — Não se pode pensar desse jeito! Principalmente agora que já não há a
guerra fazendo todo mundo se sentir apavorado e apreensivo o tempo todo.
     — É assim que você se sente?
     — É.
     Gostou de ela ser simples e franca.
     — A guerra tem suas compensações.
     — Como pode dizer isso?
     — Acho que tenho direito de dar minha opinião, já que participei dela.
     — Esteve em Flandres?
     — Durante quatro anos.
     — Oh! — Houve um silêncio; então, ela disse: — Deve ter sido terrível…
horrível! Não posso pensar no que os nossos soldados sofreram nas
trincheiras.
     — Bem, admito que foi bastante desagradável. Mas, como disse, houve
compensações.
     — Que… que compensações?
     — A camaradagem, a sensação de se ter uma mesma finalidade na vida.
Não se tratava apenas de derrotar os alemães, mas também de conservarmos
a vida. Às vezes, dava para a gente ver o lado engraçado daquilo tudo.
     — Acho que deve ser muito corajoso… O homem sorriu.
     — Gostaria de poder concordar com essa opinião, mas não é verdade.
Muitas vezes senti medo. E fiquei agradecido por ter saído com vida. Muitos de
meus companheiros e amigos foram mortos. Voltar para casa foi como
começar a viver de novo.
     — Isso deve ser excitante!
     — É, sim. Um primeiro baile também é excitante para uma moça. No
entanto, este aqui está sendo decepcionante para você.
     — Bem, não uma decepção completa. Tudo aqui é tão lindo… Nunca tinha
visto uma casa tão maravilhosa. As senhoras, com suas jóias, ficam tão lindas,
dançando. Mas me senti sem jeito, porque ninguém me tirou.
     — Deve ter vindo ao baile com alguém, não?
     — Com minha madrinha. Vim com ela para Londres. É muito bonita e
todos os homens quiseram dançar com ela.
     O homem riu de novo, um tanto cinicamente. Entendia muito bem o que
estava acontecendo. As aias e damas de companhia tinham saído de moda e
todas as mães, tias e, como nesse caso, madrinhas que acompanhavam as
debutantes eram tiradas para dançar. Podia imaginar a mocinha encostada na
parede, sem jeito por não despertar o interesse de ninguém.
     Atravessou o templo e, guiado mais pelo instinto do que pela visão,
sentou-se no banco de pedra ao lado da moça. Percebeu que ela estremecia de
leve, lembrou-se de que devia ser muito jovem e inexperiente, e achou a
situação comovente.
4
— Agora não está mais sozinha. Eu, como você, conheço pouquíssimas
pessoas aqui. Podemos consolar um ao outro.
     — Talvez isso seja… errado.
     — Errado?
     — Não fomos apresentados. Ele riu.
     — Isso pode ser facilmente corrigido. Vamos fazer de conta que você é a
deusa do templo e eu sou o aventureiro que a descobriu.
     — Do jeito que você fala, tudo fica tão excitante!
     — Vai ver que é mesmo. Conte-me como se sente, agora que cresceu e,
acho, saiu da escola.
     — Nunca fui a escolas. Uma governanta me educou.
     — Era uma boa governanta?
     — Não muito esperta, mas sempre gostei de ler, e isso me fez ficar
conhecendo bastante do mundo… até que descobri que sou uma ignorante em
danças, por exemplo, e qüe isso pode atrapalhar muito a gente.
     — Está precisando de um bom rapaz que cuide de você. Ouvi dizer que a
guerra acabou com velhos preconceitos e que moças podem sair sozinhas com
rapazes, para dançar.
     — Isso, se… forem convidadas. Ele riu de novo.
     — Aceito a correção. Claro, só se forem convidadas. E como você acaba
de chegar a Londres, não conhece ninguém que possa convidá-la.
     — Isso mesmo.
     — Garanto a você que a cada dia, a cada semana, as coisas vão melhorar.
Tenho certeza de que logo haverá uma porção de rapazes ansiosos para que
dance com eles.
     — Como pode dizer isso, se ainda não me viu?
     — Sou juiz de vozes. Como a sua voz é muito atraente, sei que você
também é.
     Era um elogio dos mais banais, mas percebeu que ela estremeceu,
nervosa, como um gatinho que não tem certeza de poder confiar na mão que
se estende para acarinhá-lo.
     — Gostaria que tivesse razão — disse a moça, depois de um momento. —
Mas Londres me parece tão grande e, de certo modo, assustadora. Sei que vou
fazer muitas coisas erradas.
     — Todos nós cometemos erros, quando fazemos alguma coisa pela
primeira vez. Eu me lembro de quando me juntei a meu regimento.
     Estava apavorado, com medo de fazer alguma coisa contrária ao
regulamento e me tornar o palhaço dos outros soldados.
     — E fez?
     — Não fiz nada de tão horroroso, mas entendo perfeitamente como está
se sentindo. Isso vai passar, com o tempo.
     — Você é animador.
     — Quero ser. Olhe, você está começando uma vida, com tudo novínho em
folha. Eu estou tendo que pegar os fios soltos de uma velha vida para
continuar vivendo e isso é mais difícil, de certo modo.
     — Por quê?
     — Acho que porque perdi muita coisa, porque tenho motivos para sentir
desgosto…
     A moça suspirou.
5
— Neste momento, eu queria ser cinco anos mais velha. Ele riu.
     — Daqui a cinco anos, não dirá isso! Vai começar a ficar aflita por estar
mais velha, e, daqui a dez anos, vai querer tirar cinco de sua idade.
     — É assim que as mulheres fazem? Sim, acho que tem razão! Tenho
certeza de que minha madrinha é mais velha do que diz.
     — Bom, pelo menos essa é uma coisa com que não precisa se preocupar…
por enquanto.
     — Espero que, quando for mais velha, aprenda a não me preocupar com
coisas tão sem importância.
     — As mulheres não acham isso sem importância. Para elas, é muito
importante.
     — E para os homens?
     — Os homens têm aborrecimentos e preocupações muito mais sérios. Pelo
menos nesta época.
     — Acho que está querendo dizer que anda procurando emprego?
     — Que sensibilidade a sua! Como adivinhou?
     — Todo mundo anda dizendo que é muito difícil, para os homens que
voltaram das trincheiras, arranjar trabalho. Os que não foram lutar tomaram
conta dos melhores empregos. Agora, os soldados desmobilizados andam atrás
de empregos que, diz meu pai, não existem.
     — Seu pai está certo. Foi isso mesmo que descobri.
     — Sinto muito por você. O que sabe fazer?
     — Para dizer a verdade, não sei. Não tenho idéia, mas preciso ganhar
dinheiro.
     — Acho que vai ser muito difícil.
     — É o que também estou achando. Mas vamos falar de você. Posso
predizer seu futuro facilmente.
     — Como?
     — Bem, você logo vai se aprumar, encontrar o homem certo e casar.
     Ela suspirou.
     — Sei que isso é o que todo mundo espera que eu faça, mas tenho…
medo.
     — Medo?
     — Não quero casar com ninguém, a não ser alguém que eu ame muito.
     — E como vai saber se está amando?
     — Estive pensando nisso e sei que será uma coisa maravilhosa e muito
diferente de tudo o que senti até agora. Não é nada como esperar dançar com
alguém ou estar com alguém. É muito mais.
     — De que jeito?
     — É difícil explicar. Acho que será uma coisa muito linda, como a neblina
sobre o lago ou como a primeira estrela da tarde brilhando no céu quando o
Sol ainda não se pôs. — Havia um leve tremor na voz dela. — Quando eu vinha
vindo para cá, sozinha, para me esconder neste templo, vi as estrelas
brilhando no céu e pensei que fosse impressão, mas ouvi rouxinóis cantando
entre as árvores.
     — E acha que isso faz parte do amor?
     — Acho que, quando me apaixonar, sentirei algo assim, só que mais
arrebatador, mais perfeito, porque o verdadeiro amor vem de Deus.
     — Acredita em Deus?
6
— Acredito, claro. Você não?
     — Quero muito acreditar, mas acho difícil, depois do que passei e vi os
outros passarem nas trincheiras. Não dá para acreditar que Deus estava se
importando conosco, enquanto tudo aquilo acontecia.
     — Mas estava, sim! Tenho certeza. Afinal de contas, nós ganhamos a
guerra!
     — A um preço terrivelmente caro.
     Percebeu que ela fazia um movimento e viu que unia as mãos, antes de
dizer:
     — Mas você… está vivo.
     — É, estou vivo.
     — E você, assim como seus companheiros, os que sobreviveram e os que
morreram, fizeram muita coisa pela paz.
     — Acho que os políticos estão usando isso para fazer a maior confusão.
     — Não pode deixar que façam isso! Tem que ter certeza de que você e
seus companheiros não sofreram tanto e não morreram… em vão!
     — Quem lhe falou sobre essas coisas?
     — Ninguém. Eu leio jornais.
     — Isso não é muito comum. Pensei que as mocinhas só ligassem para
roupas e, claro, para o amor.
     — Tenho pouquíssima roupa em que pensar e, do amor, só sei o que li até
agora. Você achou graça no que falei… do amor?
     — Não, não! Claro que não! Está muito certa. É esse o amor que você
deve procurar e que, espero, vai encontrar. Só desejo que esse homem,
quando o encontrar e se apaixonar por ele, não a decepcione.
     — Quem sabe, eu é que vou decepcioná-lo.
     — Acho que não.
     — Por quê?
     — Porque a maioria dos rapazes, pelo menos os que conheço, não é
idealista como você.
     — Agradeço por você não ter dito “romântica”.
     — Por quê?
     — Acho a palavra “romance” horrível, sentimentalóide e sem significado.
O amor que eu quero é muito diferente. — Fez uma pausa e perguntou,
temerosa: — E se eu não o encontrar?
     — Aí, acho que vai fazer como muita gente faz: vai escolher o melhor que
estiver a seu alcance.
     — Detesto isso! Seria trair tudo aquilo em que acredito! Havia uma
intensidade apaixonada na voz dela que o alarmou.
     — Se aspirar a coisas grandes, altas demais; se quiser alcançar as
estrelas, pode se desiludir. E eu ficaria muito triste, se isso acontecesse.
     — Está me aconselhando a aceitar o que houver de melhor para escolher?
Não esperava que você dissesse isso.
     — Por que não?
     — Porque, quando estávamos conversando sobre a guerra, achei que você
parecia um daqueles cavaleiros do tempo das
     Cruzadas, que lutavam com ardor porque defendiam o cristianismo ou
porque estavam procurando o Santo Graal.
     — Talvez eu também tenha me sentido assim, alguns anos atrás, mas
7
agora esqueci os sonhos e as cruzadas que queria fazer.
     — Os sonhos vão voltar. A gente jamais os esquece completamente,
porque são parte de nós.
     O homem pensou por uns momentos.
     — Quando cheguei aqui e comecei a conversar com você, achei que era
muito, mas muito jovem, mesmo. Agora, estou achando que é velha e
experiente em muitas coisas.
     — Está caçoando de mim!
     — Não, juro que não estou. Só acho que você não existe, não é real; que
estou sentado sozinho neste banco de pedra, conversando com minha
consciência ou meu coração.
     — É uma idéia linda!
     — Você conseguiu me fazer pensar.
     — Você também me fez pensar e já não estou tão assustada com este
novo mundo.
     — Isso é bom. Não deve se assustar com ele. Tenho certeza de que você
vai conseguir conquistá-lo. Mas cuidado para que ele não estrague você.
     — Por que iria me estragar?
     — Porque esse mundo pode fazer você achar que o que pensa agora não é
tão importante assim, que as brilhantes lantejoulas que vai encontrar são mais
valiosas, mais reais. Só que isso não é verdade!
     — Como vou conseguir separar o verdadeiro do falso?
     — Seu instinto lhe dirá. Siga seu instinto. É o melhor conselho que posso
lhe dar, apesar de ter certeza de que você conhece melhor o seu caminho do
que eu conheço o meu.
     — Sabe que isso não é verdade.
     — Pode parecer esquisito, mas é, sim.
     Houve um silêncio.
     — Acho que tenho que voltar. Minha madrinha deve estar preocupada
comigo.
     — Ela devia tomar mais conta de você e apresentá-la a alguns rapazes.
     — Ela me apresentou, mas, assim que me cumprimentavam, eles se
afastavam. Acho que é porque não pareço muito simpática.
     — Isso é coisa muito fácil de remediar. O importante é que não mude a
essência de seu modo de pensar.
     — Vou… tentar.
     Ela fez um leve movimento para se levantar.
     O homem estendeu a mão e segurou-lhe o braço.
     — Não, não vá. Quero ir primeiro, porque acho que muita coisa estaria
perdida, se nós nos víssemos. Com a nossa conversa, você abriu novos
horizontes diante de mim.
     — E você… para mim.
     — Ótimo. Então, vamos deixar que continue assim. Se eu a levar até o
salão, se dançarmos, talvez nós dois fiquemos desiludidos. Seria uma pena.
     — É, seria.
     — Vou sair daqui primeiro, mas não irei para o salão. Vou andar um
pouco, pensar no que dissemos e tentar olhar meu futuro de um modo
diferente de como olhei até agora.
     — Espero que consiga tudo o que deseja.
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— Talvez você tenha me dado a idéia do que devo desejar. Ainda não sei.
Tenho que pensar nisso.
     — Eu também… tenho que pensar.
     — Pense, sim. Mas não se esqueça do que eu lhe disse: não deixe que
nada a estrague. Defenda seus ideais e nunca, nunca mesmo, faça uma
segunda escolha.
     O homem levantou-se enquanto falava e ela percebeu, pelo vulto
delineado na semi-escuridão, que era alto e forte. Ele estendeu-lhe a mão e a
fez levantar-se.
     — Quero lhe desejar boa sorte. E quero também me despedir de meu
coração e de minha consciência.
     Puxou-a para mais perto. Ela não se agitou nem tentou evitá-lo. Ele teve
a sensação de que a moça também sentia que aquilo tudo não era real.
     Então, com delicadeza, como se beijasse uma flor, procurou-lhe os lábios.
     Foi um beijo quase etéreo. A maciez e inocência dos lábios dela o
envolveram em um encantamento que jamais sentira. Instintivamente, o
abraço tornou-se mais forte, seus lábios mais exigentes, e um estremecimento
percorreu o corpo da moça.
     Então, sem dizer nada, ele a soltou, atravessou o templo, passou pelos
pilares e saiu para o jardim.
     Andou para o portão sem olhar para trás, e teve certeza de ouvir um
rouxinol cantando entre as árvores.


                                    1921

     Durante o longo trajeto até sua casa, sir Harry Wayte foi se distraindo,
pensando que, realmente, nunca tinha visto lugar mais bonito e agradável do
que aquele.
     Kings Wayte era uma mansão construída no começo do reinado de
Elizabeth I. Nela haviam morado Wayte ricos, Wayte pobres, Wayte que
esbanjavam dinheiro e Wayte que tinham que contar cada moeda. E sir Harry
pensava, enquanto dirigia o carro pela ponte sobre o lago, que jamais tinha
havido um Wayte tão sem dinheiro como ele agora.
     Como se o pensamento atraísse o azar, o carro começou a soltar fumaça e
a estremecer, até que parou, a alguns metros da entrada da mansão.
     Antes que ele saltasse, uma moça desceu os degraus, correndo.
     — Você chegou, Harry! Eu estava preocupada, achando que tinha
acontecido alguma coisa.
     — Foi uma viagem infernal, Aleta — respondeu o irmão. — Assim que
parti, começou a falhar um dos cilindros.
     Depois, fiquei sem gasolina!
     — Deixe que Hitchen cuide do carro. Você está aqui, e é o que interessa.
     Harry tirou o capacete e os óculos protetores. O automóvel era um
modelo 1910 sem capota, pelo qual pagara pouco, mas lhe dera dores de
cabeça desde o primeiro dia.
     A irmã deu o braço a sir Harry e caminharam juntos para os degraus da
entrada.
     — O chá está pronto. Se estiver com fome, pode comer um ovo quente.
9
— Não, eu espero o jantar. Parece que está mais magra. O que andou
fazendo?
     — Acho que ando muito preocupada: é preciso fazer uma porção de coisas
na casa.
     — E podemos fazer?
     — Creio que não.
     — Tenho uma solução para acabar com essas preocupações em pouco
tempo, mas acho que você não vai gostar.
     A irmã olhou-o, apreensiva.
     Harry jogou o capacete e os óculos numa cadeira e afastou os bonitos
cabelos pretos da testa. Era um rapaz atraente e muito parecido com a irmã.
Só que os olhos de Aleta eram cinzentos, e não azuis como os dele.
     — Diga logo qual é a solução, Harry. Depois, tenho más notícias para
você.
     — Más notícias?
     — O teto da Sala das Tapeçarias está desabando. Ouvi um baru-lhão à
noite e pensei que a casa ia cair. Não pode imaginar que caos ficou a sala!
     — É o terceiro desabamento neste mês. Devia ter mandado consertar.
     — Consertar? Com que dinheiro?
     — Era justamente disso que eu queria falar com você. Aleta observou-o,
preocupada, enquanto o irmão entrava numa sala enorme, bonita, com uma
parede envidraçada dando vista para o lago. Era um aposento agradável, cujos
móveis estavam ali há gerações. Mas os tapetes tinham as marcas do tempo e
as cortinas eram apenas uma pálida lembrança do cor-de-rosa original.
     Havia uma mesinha de chá junto da vidraça, com uma bandeja de prata e
um serviço de chá com o brasão dos Wayte gravado. As peças, no entanto,
não pertenciam todas ao mesmo período, pois as maiores e mais preciosas
tinham sido vendidas há um mês.
     Aleta serviu uma xícara de chá para o irmão e disse:
     — Você falou que tinha uma… solução.
     Pelo tom de voz e a ansiedade nos olhos dela, ele percebeu que estava
assustada. Disse depressa:
     — Não, não pretendo me desfazer da casa. Pelo menos, por enquanto.
     — Oh, Harry! Fiquei acordada a noite inteirinha, aflita. Não posso
continuar parada, vendo a Kings Wayte cair aos pedaços!
     — É o que vamos acabar tendo que fazer, do jeito que as coisas vão.
Como é que papai morreu deixando tantas dívidas?
     Era uma pergunta que já haviam feito a si mesmos milhares de vezes. Se
bem que Aleta soubesse algumas respostas mais ou menos razoáveis, não se
deu ao trabalho, de mencioná-las. Simplesmente, esperou que Harry
continuasse.
     — O que vou dizer — começou ele, hesitante, pegando um sanduíche de
pepino da bandeja à sua frente — pode deixar você chocada. Ao mesmo
tempo, acho que vai ter que concordar em que é uma boa possibilidade.
     Aleta prendeu a respiração e não fez comentários.
     — Pensei em alugar a casa por um ano.
     Depois de um desagradável silêncio, Aleta disse, baixinho:
     — Alugar? Mas… para quem?
     — Um americano. — Como se achasse que isso a ajudaria a se sentir
10
melhor, acrescentou depressa: — Foi Cosgrove quem sugeriu. Eu estava no
clube, pensando se podia me permitir um drinque, quando ele comentou que
tinha um cliente americano que quer vir morar aqui por um ano e exige uma
casa grande e tradicional como a nossa. Parece que ele está querendo casar a
filha com um duque. Cosgrove até ironizou, dizendo que era uma pena eu não
ser marquês ou conde. — Harry fez uma pausa. Depois disse, indignado: —
Tive vontade de dar um soco nele. Você o conhece. Esse tipo de piada é bem
do gosto dele!
      Na verdade, Aleta nunca tinha visto Cosgrove, mas o irmão já lhe falara
muito a seu respeito. Havia se arvorado em uma espécie de resolve-tudo e
andava ganhando muito dinheiro com isso. Tinha servido no mesmo regimento
de Harry, e, enquanto os outros soldados viviam sonhando com o que fariam
quando a guerra terminasse, o capitão Charles Cosgrove já começara a ganhar
fama de ser capaz de conseguir qualquer coisa que alguém encomendasse.
      Se um amigo queria um caçador de confiança, ele conhecia um; se
alguém queria um carro baratíssimo ou caríssimo, Cosgrove arranjava.
Corriam boatos de que tinha também os telefones de várias mulheres muito
atraentes, mas esse tipo de informação Harry não havia dado à irmã.
      — Eu estava para dizer que não pretendia alugar Kings Wayte a ninguém,
ainda menos para um americano, quando Cosgrove segredou que seu cliente
estava disposto a pagar uma fortuna e que ele pretendia cobrar um aluguel de
cinco mil libras por mês, mais os encargos pagos à parte.
      — Cinco mil libras?! — Aleta exclamou, espantada. — Impossível ele ter
dito isso!
      — Disse, e eu logo me interessei. Explicou que esse Wardolf, o americano,
é multimilionário, dono da metade das estradas de ferro da América e de
tantos campos de petróleo que Cosgrove perdeu a conta!
      — Mas… cinco mil libras por mês!… — repetiu Aleta, num sussurro.
      — Achei que você ia ficar impressionada. E tem mais.
      — Mais o quê?
      — Parece que o americano não é casado e quer que a casa esteja em
perfeito funcionamento para ele e a filha, quando chegarem. Pretendem
aproveitar ao máximo essa temporada aqui e quer que providenciemos
criadagem, cavalos, automóveis, jardineiro, enfim, todo o necessário para que
uma propriedade como a nossa funcione perfeitamente.
      Aleta estava sem fala e ficou apenas olhando para o irmão, que
continuava a fazer planos:
      — Não vai ser fácil. Temos apenas um mês para organizar tudo, porque
ele chega no fim de maio.
      — Mas, Harry…
      — Eu sei, eu sei! E Cosgrove também sabe que não temos o dinheiro
necessário para deixar a casa em ordem. Precisamos fazer consertos, pintar,
comprar cortinas e tapetes novos para isto ficar decente. Tudo que Wardolf
quer é se instalar aqui e dar fabulosas festas para apresentar a filha às
pessoas certas… — Harry riu. — Cosgrove paga tudo, disso você pode ter
certeza.
      — Mas… como podemos? É… impossível!
      — Pois temos que fazer o impossível, porque nós dois sabemos que não
só as cinco mil libras por mês vão nos ajudar muito, como também as outras
11
coisas. Por exemplo, teremos finalmente tapetes novos nesta sala.
     — Mas, Harry, onde vamos encontrar pedreiros, pintores e toda essa
gente para fazer o trabalho em um mês?
     — Temos que encontrar. E digo mais: acho que devo ficar aqui, para
supervisionarmos tudo juntos depois, quando a casa estiver alugada.
     — Você quer dizer… que vamos ficar aqui… com nossos inquilinos?
     Harry ficou em silêncio por alguns segundos.
     — Talvez não goste muito disso, Aleta, mas Cosgrove acha que é melhor
nós dois tomarmos conta de tudo. Incógnitos, claro.
     — Não entendo.
     — Então, me deixe explicar direitinho: você pode administrar a casa e eu
ajudarei.
     — Você disse… incógnitos.
     — É claro! Seria embaraçoso se o americano soubesse que somos os
donos da propriedade. Ficaremos como criados dos donos e encarregados por
eles de cuidar da propriedade. O único problema, então, é escolher nossos
novos nomes.
     Aleta pôs-se de pé.
     — Acho que você ficou louco! Não podemos fazer isso! É melhor parar
com essas idéias. E é impossível pôr a casa em ordem nesse tempo.
     Os lábios de Harry entreabriram-se num sorriso.
     — Não, se tivermos dinheiro ilimitado para gastar.
     — Ilimitado?
     — Foi o que Cosgrove disse. Acontece que ele está numa encrenca.
Tentou todas as outras mansões de Londres que poderiam agradar a Wardolf e
nenhuma delas está para alugar. Esta é a última esperança dele e o homem
não está disposto a perder a comissão que vai ganhar se arranjar o que o
americano quer. Por isso, ele nos ajudará de todo jeito, pode ficar certa disso.
     — Então, eu seria a… governanta!
     — Você sabe que não podemos contratar criados sem que haja alguém
para organizar tudo, dar ordens.
     Isso era verdade, e Aleta ficou calada. As poucas velhas empregadas que
restavam na casa não podiam ser mandadas embora e também não saberiam
como agir com empregados e patrões estranhos, a não ser que ela estivesse
por perto.
     Não se sentia mal por achar a posição de governanta vergonhosa, mas
porque tudo aquilo parecia uma responsabilidade tão grande que a assustava.
Havia tantos detalhes importantes que deviam ser cuidados!
     Sabia melhor do que Harry o estado da casa. Tinha ficado vazia durante a
guerra, com apenas poucos empregados muito velhos. O pai deles passara a
maior parte do tempo em Londres, tendo um vago emprego, que jamais fora
claramente definido, no Departamento de Guerra.
     Morrera no ano anterior e ambos ficaram atordoados, ao descobrir a
incrível soma de dinheiro que ele devia.
     Ao voltar da França, onde passara o último ano da guerra, Harry havia
chorado ao ver o estado da casa, da estrebaria e do jardim.
     Para pagar os credores do pai, foram obrigados a vender várias das peças
preciosas da família.
     Aleta sabia que isso partira o coração de Harry, não apenas por se
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desfazerem da metade da prataria antiga, um patrimônio há várias gerações,
como também de alguns quadros.
     Agora, esse americano se instala em Kings Wayte, e Aleta se ressentia
disso, apesar de saber que era tolice…
     — Você está mesmo… resolvido?
     — O que mais podemos fazer, a não ser vender outros quadros? Harry
estava lutando para conservar retratos da família feitos por Reynolds e
Lawrence, que ambos adoravam, mas a cada dia que passava tudo o que
restava corria o risco de acabar num leilão.
     Foi a lembrança de um quadro de Gainsborough que fez Aleta se resolver.
     — Faço qualquer coisa por cinco mil libras! E não se esqueça de que
vamos ter tudo consertado, tapeçarias e cortinas novas, sem gastar nada!
     — Temos que consertar a estrebaria também. Não se pode colocar sequer
um cavalo lá dentro, com todos aqueles buracos no teto.
     — Eu sei…
     Harry tirou um papel do bolso e pôs em cima da mesa de chá. Aleta olhou.
Era um cheque de mil libras.
     — Oh, Harry!
     — Isto é para as primeiras despesas. Cosgrove disse que todas as contas
grandes, como as de consertos, reformas, móveis, decoração e tudo o mais
devem ser mandadas para ele.
     Aleta arregalou os olhos. Começava a compreender o que aquilo
significava e sentiu uma cálida onda de excitação ir crescendo em seu íntimo.
     — Não posso acreditar que isso é verdade! Acho que você está brincando.
     — É verdade, sim! Vamos poder pagar a maior parte das dívidas de papai
e fazer os consertos que Kings Wayte está precisando tanto.
     Aleta foi sentar-se ao lado dele e passou os braços em volta de seu
pescoço.
     — Temos que trabalhar feito escravos para conseguir que tudo fique
pronto a tempo. Oh, Harry! Fiquei tão aflita, quando pensei que nossa última
saída seria vender a casa e todas as terras que temos!
     — Para dizer a verdade, eu nunca teria coragem de fazer isso. Sei que
falamos nessa possibilidade, mas estava fora de cogitação. Se eu vendesse
nossa casa, não poderia encarar o filho que um dia vou ter.
     Havia lágrimas nos olhos de Aleta, mas ela sorria.
     — Nossa sorte está mudando — disse, animada. — A nuvem negra está
indo embora e o sol já começa a brilhar.
     — Não posso fazer nada sem sua ajuda.
     — E é claro que vou ajudar você! Será até divertido, porque estaremos
juntos. Mas temos que começar a trabalhar agora mesmo.
     — Foi isso que pensei. Por isso, parei na cidade, quando vinha para cá.
Johnson disse que estaria aqui dentro de uma hora, no máximo.
     — Então, é melhor que ele já traga as ferramentas! — Aleta riu. — Vai
precisar delas já!




13
CAPÍTULO II



     Aleta suspirou profundamente e sentou-se no sofá.
     — Não posso mais! Se alguma coisa não estiver do jeito que eles gostam,
só eles mesmos vão poder resolver!
     — Você foi maravilhosa! — disse Harry. — Quando falei a Johnson que ele
e seus homens teriam uma gratificação, realmente fizeram milagres!
     — É, fizeram, sim… A casa está bem diferente.
     Relanceou os olhos pela sala de visitas. Tinha ficado muito mais bonita
com o tapete e as cortinas novos. Gostaria que o pai a visse agora.
     O tapete era, na verdade, uma peça recuperada, um valioso persa que
eles jamais poderiam sequer sonhar em comprar e que o capitão Cosgrove,
daquele jeito miraculoso tão dele, providenciara.
     Aleta fizera arranjos de plantas e flores até mesmo nos cômodos que não
tinham redecorado por falta de tempo.
     Os andares de cima tinham sido mexidos, também. Um grande número de
quartos e salas estava apresentável, mas ainda havia muito trabalho a ser
feito. O que não era de estranhar, já que Kings Wayte tinha cerca de trezentos
cômodos.
     Johnson, o marceneiro e decorador local, contratara carpinteiros e
pedreiros do condado inteiro. O grupo conseguira fazer um trabalho bem-feito,
no tempo determinado, Johnson conhecia aquela mansão desde criança,
adorava-a e cuidou dela como se fosse o verdadeiro herdeiro. Não só teria
ficado profundamente ofendido, se chamassem gente de fora para os reparos e
decoração, como o capitão Cosgrove tinha sugerido, como também ninguém
trabalharia em Kings Wayte com sua dedicação e carinho.
     Aleta achara que os velhos criados da família deviam ter preferência por
qualquer profissional vindo de Londres, que provavelmente olharia os antigos
empregados com desprezo, podendo criar problemas. Chegou a fazer mais,
apesar de Harry achar que não daria certo: não apenas contratou novamente
os antigos criados, como também decidiu que a nova criadagem seria
composta de moças dos arredores.
     — As mais velhas ensinam as novas, e vou estar aqui a fim de cuidar para
que tudo saia bem.
     — Preferia que você se mantivesse afastada dos inquilinos o mais
possível.
     Aleta riu do irmão.
     — Foi o que pensei, também… mas, talvez, não pelos mesmos motivos.
     — Acho isso importante, porque é muito moça e bonita demais. Não vou
gostar, se esse americano se engraçar com você.
     Para resolver o problema, Aleta decidiu chamar a antiga governanta, que
trabalhara em Kings Wayte durante quarenta anos. A princípio, Harry ficou
horrorizado com a idéia.
     — A velha sra. Abbott? Acho que ela até já morreu!
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— Não, não morreu. Mora com a irmã, em St. Albans. Vou até lá, dizer-lhe
que estou precisando muito da ajuda dela.
     — Deve estar com uns cem anos, agora! Aliás, quando nós éramos
crianças, eu já achava que ela estava com essa idade.
     — Deve ter uns oitenta — admitiu Aleta. — Mas, se ainda conseguir andar,
quero que venha para cá. Então, os americanos darão as ordens a ela, que as
transmitirá para mim.
     Afinal, Harry acabou concordando, porque não queria ter mais problemas.
Já estava bastante sobrecarregado de responsabilidade com os consertos da
estrebaria e a missão de contratar cavalariços e motoristas.
     — Quatro motoristas! Para que será que precisam de tantos assim?
     — Os muito ricos estão sempre prontos a esbanjar — respondeu Charles
Cosgrove. — Na América, Wardolf tem um trem particular, uma frota de
automóveis, lanchas, iates e um avião sempre pronto para levá-lo a qualquer
lugar do mundo aonde cisme de ir, a qualquer momento.
     — Ninguém pode ser tão rico assim! Mas Cosgrove riu.
     — Vocês não podem se gabar de estar nas mesmas condições dele, mas
têm uma coisa que Cornelius Wardolf jamais terá.
     — O quê? — perguntou Aleta, curiosa.
     — Uma casa que não apenas é um perfeito monumento arquitetônico,
como também representa uma árvore genealógica de deixá-lo verde de inveja.
     Todos riram, mas Aleta, pensando no assunto mais tarde, achou que o
capitão Cosgrove tinha toda a razão. Dinheiro algum podia comprar a história
de sua família. Dinheiro algum podia comprar uma casa como Kings Wayte,
com aquela atmosfera, com seus fantasmas e com a amadurecida beleza dos
séculos.
     Adoro esta casa, disse a si mesma, olhando o pôr-do-sol no lago.
     Tinha certeza de que nenhum outro lugar seria tão perfeito, que jamais se
sentiria parte de qualquer outro lugar do mundo. Nenhum sacrifício que Harry
e ela fizessem para manter a propriedade seria demais.
     Sabia que devia ser grata, humildemente grata, ao sr. Cornelius Wardolf
por ela e o irmão não precisarem se preocupar com o futuro, pelo menos
durante um ano. Desde a morte do pai, havia compreendido que estavam
travando uma luta sem esperança e que a derrota era inevitável. E então,
como um céu azul começando a aparecer por entre pesadas nuvens, a cada
prego que os operários enfiavam na madeira da antiga mansão, a cada telha
que recolocavam no teto, a cada vidraça que repunham no lugar, crescia mais
a frágil esperança dentro dela.
     Talvez agora pudessem voltar a morar tranqüilamente em Kings Wayte,
sem o medo de vê-la cair aos pedaços, em ruínas, como estava começando a
acontecer um mês antes.
     — Obrigada, muito obrigada, meu Deus — dizia todas as manhãs, quando
se levantava, muito cedo, para começar a trabalhar.
     Dizia as mesmas palavras antes de se deitar, exausta, depois de ter feito
suas preces.
     — A que horas eles vão chegar? — perguntou a Harry, olhando o relógio
em cima da lareira, que funcionava pela primeira vez, desde que a guerra
começara.
     — Daqui a uma hora, mais ou menos. Precisa de mais alguma coisa para
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nossos quartos? Se precisar, posso providenciar para você.
      — Acho que já está tudo em ordem.
      Quando haviam compreendido que teriam de desocupar seus quartos,
tinham conversado para resolver onde dormiriam. Aleta não podia ficar nas
dependências dos empregados e teve a brilhante idéia de reabrir os quatros
que ocupavam quando crianças, no terceiro andar.
      — Vai ser até divertido dormir onde dormíamos quando éramos pequenos.
Além disso, são quartos bem familiares e não vamos nos sentir como
estranhos em nossa própria casa.
      Harry concordara, mas sem se mostrar muito interessado. Aleta sabia
que, sem dúvida, passaria várias horas sozinha. Seria muito reconfortante
poder sentar-se no salão de brinquedos, diante da lareira com guarda-fogo de
bronze, na cadeira preferida da pajem, olhando o painel cheio de
decalcomanias e cartões de Natal. Isso a ajudaria a ter coragem e disposição
para a situação que tinha que enfrentar.
      Havia levado para lá tudo o que não queria que as outras pessoas
tocassem; coisas que haviam sido de sua mãe e os livros preferidos do pai.
      O que mais sentia era deixar a enorme biblioteca. Mesmo durante a
guerra, insistira em que os criados mantivessem a biblioteca aberta e sempre
muito limpa. De vez em quando, costumava procurar um ou outro livro numa
das muitas estantes que iam do chão ao teto. Depois, sentava-se com o livro
escolhido numa poltrona perto de uma das janelas e se esquecia da vida,
lendo.
      De qualquer modo, pensou, posso pegar o livro que quiser, quando quiser,
porque ninguém vai reparar. Mas não será a mesma coisa que estar sentada
na biblioteca, onde sempre fiquei, sabendo que, se não gostar do livro que
peguei, posso escolher entre milhares de outros.
      Mas isso era o de menos.
      Valia a pena ver como a velha mansão estava bonita com as cortinas
novas, com grossos tapetes, os móveis estofados, sem o tecido puído e
remendado.
      Charles Cosgrove tivera a brilhante idéia de ir a lojas de leilão e comprar
cortinas que, se bem que um tanto usadas, eram bastante aproveitáveis e
vistosas.
      — Muita gente foi vendendo o que tinha durante a guerra — tinha
explicado. — Por isso, podem-se comprar cortinas muito boas e móveis de
estilo a bons preços.
      — Quem costuma comprar essas coisas? — perguntou Aleta. O capitão
Cosgrove riu um tanto cinicamente.
      — Preciso, responder? Os americanos estão comprando a Europa toda.
Ouvi dizer que o duque de Westminster, que é o mais rico dos nossos duques,
está vendendo seu Menino Azul.
      — Ah, não! Como pode fazer isso? Esse quadro pertence à Inglaterra. Ele
não tem o direito de mandá-lo para o outro lado do Atlântico.
      O capitão Cosgrove deu de ombros.
      — Acho que ele precisa de dinheiro, como qualquer outra pessoa. Se a
senhorita não tivesse insistido em dar o trabalho a pessoas daqui, eu teria um
bom número de ex-oficiais que ficariam muito felizes em vir trabalhar para
esses novos-ricos.
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— Está assim tão difícil conseguir emprego?
     — Quase impossível! E todos que empregaram suas economias em
granjas, sítios ou coisas parecidas, perderam tudo. Se eu quisesse ter mil
homens trabalhando para mim, era só estalar os dedos.
     Essas palavras fizeram Aleta pensar se o homem com quem tinha
conversado há mais de um ano, no templo da praça Berkeley, teria ou não
arranjado o emprego que procurava.
     Nunca se esqueceria daquela noite estranha, encantada, quando havia
sido beijada pela primeira vez na vida e ouvira rouxinóis cantando entre as
árvores, lá fora. Parecia um sonho lindo, do qual não acordara de repente, mas
que fora esmaecendo lentamente, sem jamais se apagar completamente, sem
ser esquecido.
     Ainda se lembrava, palavra por palavra, de toda a conversa com aquele
homem cujo rosto nunca tinha visto.
     Imaginou, mais uma vez, como ele seria. Sabia, com certeza, que tinha
uma voz profunda e agradável, era alto e forte, de ombros largos. Achava que
devia ser moreno e bonito.
     Estava contente por ele não ter podido vê-la também. Tinha dito que a
voz dela era simpática, atraente, e que, portanto, ela devia ser assim. Se a
visse, Aleta achava que ficaria decepcionado.
     Às vezes olhava-se no espelho e ficava imaginando o quanto mudara,
desde aquela noite em que, perdida, nervosa e muito insegura, havia fugido do
salão de seu primeiro baile e encontrado, num pequeno templo de jardim,
aquela magia inesquecível.
     Como poderia saber, como adivinhar, que uma aventura assim estaria à
sua espera?
     Depois do que o estranho lhe havia dito, tudo mudara. Tinha voltado para
o salão de baile com um sorriso nos lábios e dançado muito, até a madrinha
dizer que era hora de irem embora.
     Depois disso, não foi difícil se acostumar com a vida em sociedade.
     Às vezes tinha a impressão de que estava num barquinho perdido e que o
homem do templo a livrava da tempestade, mostrando-lhe que era capaz de
governá-lo perfeitamente bem.
     Mas não teve muito tempo para conhecer tudo o que Londres podia
oferecer. Um mês depois do baile na praça Berkeley, recebeu um telegrama de
casa, avisando que o pai estava doente. Correu para Kings Wayte, e um só
olhar para o pai lhe deu a certeza de que estava mesmo muito doente. Avisou
Harry imediatamente.
     Sir Hugo havia apanhado a gripe virulenta que assolava a Europa e
ceifava mais vidas do que a própria guerra. Em seu caso, a gripe provocou
uma pneumonia que foi fatal.
     Só então Aleta e Harry ficaram a par de sua verdadeira situação
financeira. Daí em diante, nunca mais tiveram oportunidades de ir a bailes ou
festas. Os dois irmãos travaram uma luta desesperada para sobreviver e não
perder o que ainda lhes restava.
     Era preciso pagar os criados que iam parar de trabalhar, assim como os
que iam ficar, pois só tinham Kings Wayte para morar. Havia, principalmente,
as pesadas dívidas do pai. Muitas vezes Harry se desesperou:
     — Não adianta! Que tudo vá para o inferno!
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Precisaram vender muita coisa, e a cada quadro que era tirado da parede,
a cada peça de prata retirada da baixela, parecia a Aleta que lhe arrancavam
um pedacinho do próprio corpo.
     Sabia a história de tudo o que havia na casa, parecia que laços especiais a
ligavam aos objetos, e tinha certeza de que Harry sofria do mesmo jeito.
     Quando os quadros foram recolhidos pelo leiloeiro, Harry saiu de casa
muito cedo e não voltou antes do anoitecer. Foi Aleta que os viu irem embora,
num carro que atravessou a ponte de pedra tão necessitada de consertos e
seguiu o caminho esburacado, saltando como doido ao passar pelos buracos.
     — O que mais irá embora? O que mais? — perguntou a si mesma. Agora,
Aleta pensava que, pelo menos durante um ano, não haveria perigo de ter que
se fazer tais perguntas.
     — Você parece muito cansada — disse Harry, solícito. — Vou preparar
uma bebida. O que quer?
     — Se eu tomar bebida alcoólica, vou ficar tonta. Nenhum de nós comeu
nada, hoje.
     — É mesmo! Eu nem pensei nisso. Estive tão ocupado! — Levantou-se,
dando uma gargalhada. — Tive uma idéia!
     — O quê?
     — Você e eu vamos aceitar a hospitalidade de nosso patrão, abrindo uma
garrafa do excelente champanhe dele!
     — Harry, não pode fazer isso!
     — Mas vou fazer. E se acha desonesto, peço que se lembre de que
carreguei uma porção de caixotes de bebida lá para baixo, que estou ganhando
um ordenado indigno de um simples operário e que o que fiz vale mais do que
uma garrafa de champanhe!
     Saiu da sala antes que Aleta pudesse dizer qualquer coisa. A moça
recostou-se no estofamento novo, de cetim, e pensou que jamais se sentira
tão cansada em toda sua vida.
     Antes, quando cavalgava em companhia do pai, ficava bastante fatigada,
mas não daquele jeito, sentindo doerem todos os músculos do corpo e com a
impressão de que a cabeça ia estourar.
     Sabia que isso era porque, aquele tempo todo, exigia de si mesma um
esforço contínuo, quase que de vinte e quatro horas por dia, do mesmo modo
que Harry. Kings Wayte tinha que recuperar a dignidade e beleza do tempo de
seu avô.
     Infelizmente, ele não tivera dinheiro suficiente para levar uma vida em
grande estilo, digna daquela impressionante mansão da família, mas a esposa
dele tinha renda própria.
     Quando faleceu, o dinheiro dela foi dividido entre a família.
     Daí por diante, a propriedade entrou em decadência, acabando de um
modo triste.
     Aleta era obrigada a reconhecer que o pai não havia feito esforço algum
para evitar aquela decadência. Simplesmente foi gastando o que precisava
para viver, deixando que os filhos se arranjassem, depois de sua morte.
     Bem, afinal de contas, ele aproveitou, pensou Aleta. E Harry também vai
aproveitar; pelo menos, durante um ano.
     Sabia que o que mais agradava ao irmão naquilo tudo era restaurar as
cocheiras e comprar novos cavalos.
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— O sr. Wardolf gosta de cavalgar? — perguntara a Charles Cosgrove.
      — Não sei. Mas tenho certeza de que ele quer participar completamente
do modo de vida inglês e, você sabe, os cavalos estão incluídos nisso.
      Não foi preciso insistir para que Harry cuidasse das cocheiras, e Aleta
sabia que, se surgisse uma oportunidade, também treinaria os cavalos em
corridas e saltos de obstáculos pelo parque.
      — Hoje gastei uma fortuna — tinha dito ele, ao voltar das compras em
Tattersall. — Cosgrove pagou tudo sem piscar!
      — Só espero que o sr. Wardolf não pisque! — comentou Aleta, com uma
pontinha de medo na voz. — Imagine só,
      Harry, se ele não gostar das coisas que compramos e se recusar a pagar?
      — O problema seria de Cosgrove, não nosso. Pare de se preocupar. Se
quer saber, acho que. ele vai reclamar por não termos feito extravagâncias.
      Foi o captião Cosgrove que apontou uma falha, em uma de suas rápidas
visitas a Kings Wayte.
      — Há uma coisa da qual os americanos, na certa, sentirão muita falta —
disse, ao examinar as reformas da mansão.
      — O quê? — perguntou Harry.
      — Uma piscina.
      Por instantes, os irmãos ficaram parados, como se não entendessem.
      Afinal, Harry arriscou:
      — Eles acham, mesmo, uma piscina muito necessária?
      — Os americanos adoram nadar. Também tenho medo de que ele ache
pouco a duas banheiras que vocês têm aqui. Não duvido de que mande
construir outras, assim que chegar.
      — Espero que não… — suspirou Harry. — Já estamos cansados de ver
pedreiros fazerem desordens na casa!
      — Os americanos são um povo muito limpo… — disse o capitão Cosgrove,
com uma careta.
      — Mas quem é que usa piscina?!
      — Todos eles! Inclusive o pessoal que costuma ir a festas, ou dar festas,
em Hollywood. Essas festas sempre com gente toda vestida dentro das
piscinas.
      — Tenho impressão de que esse não é um jeito muito agradável de se
divertir — comentou Aleta, com frieza.
      — Espero que não dêem esse tipo de festa por aqui — disse Harry. — Se
estragarem alguma coisa, vão ter que pagar.
      — Isso já está no acordo — explicou o capitão Cosgrove. — Incluí uma
cláusula a respeito, no contrato. Aliás, se quiserem, podem obrigá-lo a pagar
por tudo o que estragar na casa.
      Harry percebera que Aleta ia protestar; por isso tratou de dizer, depressa:
      — Está bem. Sei que podemos confiar em você, Charles, que está
cuidando bem dos nossos interesses.
      — Espero ter feito isso do melhor modo possível.
      Quando ele saiu, Aleta disse ao irmão:
      — Sei que está sendo muito amável, mas não consigo gostar do capitão
Cosgrove. Há alguma coisa nele que me dá a impressão de que só pensa em
dinheiro.
      — E com toda razão. Ele não afundou, está conseguindo sobreviver, mas
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muitos de nossos companheiros de regimento não tiveram essa chance.
Benson matou-se com um tiro, na semana passada.
     — Oh, não!
     — Ele não conseguiu arranjar emprego e a mulher o abandonou. Benson
sempre foi sensível demais, quase histérico.
     — Está tudo errado… é tão cruel! Esses homens que lutaram por sua
pátria agora estão sem dinheiro e sem possibilidade de ganhar para viver. O
governo tinha que fazer alguma coisa por eles!
     Era o grito que os jornais lançavam todos os dias, mas que ninguém
parecia ouvir. Se bem que fosse difícil de acreditar, Aleta sabia que havia
desemprego no país inteiro.
     Vai ver que até vamos ter que ficar agradecidos aos americanos, pensou,
amargurada.
     Ao mesmo tempo, parecia-lhe intrigante que, apesar de eles também
terem sofrido a guerra, saíssem dela mais ricos do que quando haviam
entrado. Harry voltou com o champanhe e tomaram uma taça.
     — Agora, acho que vou subir. Não quero que o sr. Wardolf chegue e me
encontre sentada aqui.
     — Claro que não! — concordou Harry. — Também vou subir num minuto.
     Aleta saiu da sala para o hall e viu dois criados usando a libre da Casa
Wayte, com grandes botões prateados, muito dignos, de pé aos lados da porta
de entrada.
     Sorriram para ela de modo familiar, porque eram rapazes da cidade.
Tinham sido treinados pelo velho Barlow, mordomo de Kings Wayte antes da
guerra e que, apesar de quase com setenta e cinco anos, ficara encantado por
voltar ao trabalho.
     — Pode deixar tudo comigo, srta. Aleta — dissera. — Vou pôr esses dois
rapazes trabalhando direitinho e não teremos com eles os problemas que
teríamos com londrinos. Jamais gostei dos criados que tivemos em Londres.
     Era uma referência ao tempo do avô de Aleta, quando existia uma mansão
Wayte em Curzon Street. Essa casa tinha sido vendida anos antes e
transformada em sede de um clube.
     — Vejo que estão prontos para receber o sr. Wardolf — disse Aleta aos
criados, dirigindo-se para a escada.
     — Isso mesmo, senhorita -: responderam ao mesmo tempo.
     — Não se esqueçam: haja o que houver, não devem se referir a mim ou
ao sr. Harry por nossos verdadeiros nomes. Somos o sr. e srta. Dunstan, caso
alguém lhes pergunte. Mas é melhor que não digam nada, a não ser que sejam
obrigados.
     — Nós entendemos, senhorita — responderam os homens, novamente em
coro, e Aleta subiu a escada.
     Tinham levado algum tempo para escolher o nome falso. A maioria dos
citados parecia muito comum para o gosto de Aleta ou ridículo demais para o
gosto de Harry. Afinal concordaram em adotar o primeiro sobrenome que
aparecesse num livro apanhado a esmo na biblioteca, desde que lhes
parecesse adequado.
     O nome era Dunstan.
     — Este serve — disse Harry. — Soa bem classe média, o que pretendemos
dar a impressão de ser.
20
Aleta riu.
      — Garanto que você não dá essa impressão! Achava que Harry não
apenas tinha porte muito aristocrático, como também era bonito demais,
principalmente usando roupas de montaria.
      Como estava realmente muito cansada, subiu devagar a escada estreita
que levava ao segundo andar e, depois, ao terceiro.
      A sala dos antigos aposentos infantis estava bem mais confortável e
bonita, com os móveis trazidos do andar de baixo e as cortinas e estofamentos
novos que o capitão Cosgrove insistira em comprar.
      — Se vocês não estiverem bem acomodados — explicou a Aleta, quando
ela tentou recusar —, não vão poder trabalhar direito, e isso será desastroso
em todos os sentidos.
      Sentia-se um tanto culpada por explorar seus inquilinos-patrões, mas a
verdade era que o tecido alegre das cortinas e estofados tornava a sala bem
mais atraente e acolhedora.
      Tinha colocado um enorme jarro com rosas na mesa do centro e um vaso
com esporinhas brancas e azuis numa mesinha de canto.
      — Do lar para o lar! — disse Aleta, brincando, ao entrar na sala. — E
agora, srta. Dunstan, lembre-se de que é preciso ser uma empregada
eficiente.
      Atravessou a sala em direção a uma das janelas que davam para a frente
da casa.
      Por momentos, viu apenas o brilho dourado das águas do lago ao sol da
tarde, e, como sempre, seu pensamento voou para os contos de fadas que
adorava quando era criança.
      De repente, notou que um carro enorme, reluzente, estava chegando,
acompanhado por outros seis.
      — São eles! — imaginou, apreensiva, se Harry teria tempo de sumir da
sala de visitas com a garrafa de champanhe vazia.
      Achou que ele conseguiria. Ficou observando, um tanto nervosa, os carros
passarem pela ponte e depois entrarem no pátio, bem embaixo de onde
estava. O sr. Wardolf realmente viajava em grande estilo!
      Por momentos, sentiu um irrefreável ressentimento por ele ser rico e
americano. Depois, repreendeu-se por agir de modo infantil. Devia ser grata a
ele, muito, mesmo! Estava ajudando não apenas aos dois, como a todos ali.
Pessoas como o velho Barlow e a sra. Abbott iam ganhar os melhores
ordenados de toda sua vida!
      Esticando o pescoço, viu que o primeiro carro já havia parado diante da
porta principal.
      Dois criados se aproximaram. Um abriu a porta e o outro ficou de lado,
para ajudar os passageiros a descerem.
      A primeira pessoa a sair foi uma mulher. Embora não pudesse ver bem as
feições, Aleta notou que era magra e elegante.
      Imaginou se seria a filha do sr. Wardolf, a tal que devia casar com um
duque.
      — Como é o nome dela? — tinha perguntado a Charles Cosgrove.
      — Lucy-May.
      — Dois nomes?
      — Não exatamente. São unidos por hífen.
21
— Que engraçado!
     — Os americanos costumam usar nomes assim. Geralmente, significa que
a mãe queria um nome, e o pai, outro, e que acabaram entrando em acordo.
     — Imagine, então, se os avós tivessem outras preferências.
     — Aí, os nomes que eles preferissem seriam incorporados de algum jeito…
Eles adoram nomes pomposos. O sr. Wardolf é um americano típico. Chama-se
Cornelius Fiske Wardolf Júnior.
     — Júnior?
     — Como o pai também se chamava Cornelius, ele teve que ser Cornelius
Wardolf Júnior. Por mais estranho que pareça, mesmo depois que o pai
morreu, continuou conservando o Júnior.
     — Coisa mais complicada!
     Essa deve ser Lucy-May, pensou ela, então.
     Viu um homem alto, de cabelos grisalhos, sair do carro logo depois da
moça e apertar as mãos dos dois criados.
     Aleta riu baixinho, imaginando a surpresa dos empregados, que,
naturalmente, nem sonhavam com uma coisa daquelas.
     O primeiro carro já se afastava, e parecia que um pequeno exército de
jovens descia dos outros.
     Interessadíssima, Aleta abriu a janela e ouviu as vozes, bastante altas e
animadas, enquanto eles subiam a escada que dava para a casa.
     Tinham se preparado para um grupo e, de fato, um grande grupo acabara
de chegar.
     Começou a se preocupar, pensando se tudo estaria em ordem, se nada
tinha sido esquecido. Bem, fosse como fosse, já não podia fazer mais nada.
     O jeito, agora, era sentar-se e ficar esperando que os problemas, se
houvesse algum, fossem levados até ela.
     Cavalgando pelo parque, Harry pensava que tudo parecia correr muito
bem.
     Tinha decidido, com Charles Cosgrove, que seria melhor apresentar-se
como administrador da propriedade e dizer ao sr. Wardolf que tudo que
quisesse, mesmo fora da casa, devia ser solicitado a ele.
     Cornelius Wardolf fora apresentado a Harry uma hora depois de chegar a
Kings Wayte.
     — Quero apertar sua mão, sr. Dunstan, e dizer que estou maravilhado
com a magnífica mansão que o capitão Cosgrove conseguiu para mim.
     — Fico satisfeito em saber que gosta dela, senhor.
     — O capitão me fez um resumo da história local. Disse que, se eu
quisesse saber de mais alguma coisa a respeito, era só perguntai ao senhor.
Espero que, quando tiver tempo, me conte tudo sobre este lugar lindíssimo.
     — Farei o melhor que puder — respondeu Harry, imaginando de que jeito
poderia condensar cerca de quatro séculos de história.
     — Agora, gostaria de saber o que foi organizado para divertimento de
meus hóspedes. — O americano sentou-se. — Sente-se, rapaz, e fume, se
quiser. É melhor deixarmos a cerimônia de lado, já que vamos trabalhar
juntos.
     — Obrigado, senhor.
     Harry gostou do homem à primeira vista. Devia estar beirando os
cinqüenta anos e tinha um ar de quem sabe muito bem o que quer da vida e
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não recua diante de obstáculos.
     Falou rapidamente dos cavalos e charretes. O sr. Wardolf ouviu com
atenção e perguntou:
     — Salão de baile?
     Por instantes, Harry não entendeu.
     — Ah, está querendo saber se temos um? Sim, claro. Temos um enorme
salão de baile, com o soalho bem encerado e tudo o mais em ordem.
     — Isso é ótimo! Vamos dar um baile nos próximos dias. Onde posso
conseguir uma lista do pessoal daqui para convidar?
     Harry pareceu surpreso.
     — Pretende convidar os vizinhos, senhor?
     — Por que não? Acho que é o melhor modo de conhecê-los.
     Harry hesitou. Sabia que as famílias do condado achariam aquilo
esquisito: um estranho nao devia convidá-los, antes de ser convidado pelos
habitantes locais.
     Depois, disse a si mesmo que estava sendo antiquado demais. Tinha
certeza de que os jovens, pelo menos, ficariam encantados com o convite para
um baile em Kings Wayte, e as regras de etiqueta, na certa, não os impediriam
de comparecer em peso.
     — Entrego-lhe uma lista amanhã de manhã, senhor.
     — Obrigado. Acho que pode também arranjar alguém que mande os
convites, não?
     Imediatamente Harry pensou que Aleta poderia muito bem cuidar disso e
concordou.
     — Bom! Muito bom! — disse o sr. Wardolf. — Quero uma orquestra, a
melhor, mesmo que tenha que mandar vir de Londres. Se o cozinheiro daqui
não puder atender às necessidades para fazer um grande banquete, teremos
que providenciar ajudantes.
     — Quer que eu cuide disso, senhor?
     — Claro que sim! Meu secretário deve chegar amanhã ou depois, mas vai
estar muito ocupado, cuidando de vários negócios que tenho em Londres.
Enquanto isso, gostaria que providenciasse tudo para mim.
     — Pois não.
     Essa era uma coisa pela qual Harry não esperava; Cosgrove devia tê-lo
avisado. No entanto, não se tratava de nada de que não pudesse dar conta, e
quando contou a Aleta, ela simplesmente sorriu.
     — Então, ele não se queixou de nada e está planejando dar um baile em
Kings Wayte! Que maravilha! Está aí uma coisa que eu sempre quis ver!
     — Está aí uma coisa que você não vai ver — respondeu Harry, depressa.
— Nós dois temos que tomar cuidado para não sermos vistos pelos vizinhos,
senão seremos descobertos e desmascarados.
     — Sim, claro… É isso mesmo. Mas seria gostoso dançar no salão de baile,
onde nunca mais houve uma festa, desde antes de eu nascer.
     — Papai e mamãe não pensavam em bailes. Mas me lembro de que
davam muitos jantares.
     — Isso é diferente, um baile é uma coisa especial.
     Pensou em seu primeiro baile, aquele na praça Berkeley, com as mulheres
de vestidos compridos, justos na cintura, e com saias muito rodadas, dançando
no enorme salão.
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Agora os vestidos eram curtos e Charles Cosgrove lhe havia dito que
existiam novas danças.
     Ainda bem que não ia a esse baile. Iria se sentir terrivelmente fora de
moda.
     Imaginou se o homem que falara com ela no templo da praça Berkeley
ainda costumava ir dançar em Londres e se pensava nela como ela pensava
nele. Talvez nunca mais tivesse lembrado de sua existência, depois de se
separarem, apesar de a ter beijado.
     Um arrepio percorreu seu corpo.
     Mesmo agora, passados dois anos, ainda sentia o calor daquele beijo que
parecera transportá-la até as estrelas, fazendo-a tornar-se parte da beleza da
noite e ouvir o canto de rouxinóis.
     Harry passou o braço por seus ombros.
     — Parece que você ficou triste… Sei que gostaria de ir ao baile. Claro que
eu também gostaria que fosse, mas sabe que é impossível.
     — Lógico que é. Mas também vai ser divertido ouvir a música e saber que
Kings Wayte está viva de novo.
     — Você tem que ficar completamente fora disso — disse Harry, com
firmeza. — Ah! Antes que me esqueça, sente-se aí e faça a lista das pessoas
que Wardolf deve convidar. Acho que lembra de todos, não? Eu fiquei muito
tempo fora e acho que esqueci os nomes de muitos de nossos conhecidos.
     — Uma porção deles se mudou. Ou morreu na guerra. Enquanto falava,
ela pensava nas crianças que costumavam ir às festas em Kings Wayte e nas
festas a que tinha ido com a mãe. Era tão excitante ir na carruagem fechada,
com um xale de lã sobre o vestido de festa, os cabelos presos em duas grossas
tranças. Podia até ouvir o barulho das patas dos cavalos nas alamedas
próximas às casas enormes, com todas as janelas iluminadas.
     Lá dentro, encontrava as crianças que conhecia desde pequenina.
Brincavam de “dança das cadeiras”, “céu-inferno”, e às vezes havia prendas
que os meninos tinham vergonha de entregar. Depois, um delicioso chá com
torradas, bolachas e geléias.
     Quando voltava para casa, em geral adormecia na carruagem, com os
braços da mãe a ampará-la, carinhosos.
     Muitos dos rapazes daquela época deviam ter perdido a vida em
Flandres… Ou muitos, como o vizinho mais próximo, estavam aleijados pelos
ferimentos. Seria uma grosseria convidá-los, num caso desses.
     De repente, um pensamento lhe ocorreu.
     — Não sou só eu que não posso ir ao baile, Harry — disse ela. — Você
também não pode. É pena… Dança tão bem!
     — Podemos dançar aqui em cima — respondeu Harry. — Ou melhor,
podemos ir dançar numa das salas que não estão sendo usadas, de onde se
ouça bem a música.
     Aleta bateu palmas, entusiasmada. — Harry, você é formidável! Adorei a
idéia, e não poderia conse guir par melhor!
     Só que vai ter que me ensinar o shimmy.
     — Não tenho certeza de saber essa dança direito…
     — Mas já dançou, não?
     — Já. Só que continuo preferindo o foxtrote.
     — Garanto que os hóspedes do sr. Wardolf sabem todas essas danças
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novas. Se a gente pudesse dar uma espiada, iríamos aprender como se faz.
     — Não, Aleta. E não adianta choramingar, implorar! Sabe muito bem que
não podemos nos arriscar a ser vistos.
     — Sei, é claro… Só estava brincando. Mesmo que eu fosse convidada para
o baile, como a Cinderela, não teria o que vestir.
     — É a melhor coisa que ouvi até agora. Porque assim tenho certeza de
que não vai ser tentada a aparecer, de modo algum.
     Ele estava caçoando, e Aleta lhe atirou uma almofada. Harry apanhou-a
no ar e colocou de volta no sofá.
     — Cuidado, menina, esses móveis e estofados novos vão durar a vida
toda…
     — A não ser que você case com uma herdeira riquíssima, como Lucy-May.
     Harry deu uma risada.
     — Confesso que também pensei nisso, mas cheguei atrasado.
     — Atrasado, como?
     — Ela está prestes a agarrar um duque. O sr. Wardolf me contou, agora
há pouco.
     — Contou o quê?
     — Ele disse: “Quero que você tenha certeza, meu rapaz, de que tudo está
preparado para receber bem o duque de Stadhampton, que vai chegar
amanhã. Acho que seus criados sabem como tratar um duque, não? Cuide
para que ele seja tratado com toda a atenção e tenha tudo o que quiser”.
Depois me perguntou se a família do duque era muito antiga. Contei que os
Stadhampton são uma das famílias mais tradicionais da Inglaterra. Ele ficou
muito contente com a informação e confessou que queria que o duque casasse
com a filha.
     — Verdade? Ele falou isso? Deve estar impressionadíssímo com o duque.
     — Está, sim. Não tenho a menor chance de entrar em competição.
     — Como é ela?
     — Ainda não a vi. Acho que se parece com todas as moças americanas:
alegre, entusiasta, um tanto impulsiva e sonhando com um título de nobreza.
No momento, os duques são os preferidos das americanas, os ingleses mais do
que os franceses.
     Aleta deu uma risada.
     — Você fala como se eles estivessem fazendo uma compra, um negócio.
     — E é isso mesmo! O preço, aliás, é sempre muito alto. Outro dia me
contaram o dote que os Vanderbilt deram à filha, que casou com o duque de
Marlborough. Esqueci quanto foi, exatamente, mas trata-se de uma fortuna
astronômica!
     Aleta fez uma careta.
     — Acho degradante alguém vender o título. E mais: vender a si mesmo.
     — Bem, garanto que isso não vai acontecer com você ou comigo, Aleta. E
se quer saber a verdade, não quero, por mais pobre que fique, ter uma mulher
rica que me lembre a todo instante que é com o dinheiro dela que compro tudo
o que tenho.
     — Não posso nem imaginar isso acontecendo com você. Ao mesmo
tempo, pelo bem dela, espero que a mulher com quem você casar tenha pelo
menos dinheiro para a compra de alguns vestidos…
     — Isso é diferente — disse o irmão, ríspido. — É ótimo para uma mulher
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ter dinheiro para os alfinetes. No entanto, qualquer coisa mais do que isso
faria com que eu me sentisse humilhado, e não tenho a mínima intenção de
um dia me sentir assim.
     — Não, claro que não! Mas tenho certeza de uma coisa, Harry: qualquer
mulher o amaria por você mesmo. É o homem mais bonito que já vi!
     Beijou o irmão no rosto e ele se afastou, dizendo, com ar embaraçado:
     — É melhor eu descer e ver se tudo está em ordem, se bem que acho que
o Barlow pode se sair perfeitamente bem.
     — Também acho. Do mesmo jeito que confio na sra. Abbott. Mais tarde
vou até o quarto dela para saber as novidades.
     Garanto que vai me contar direitinho como Lucy-May é. A sra. Abbott sabe
julgar as mulheres muito bem.
     — Como Barlow sabe julgar os homens. Ele está sempre dizendo que
perfeito cavalheiro era o vovô, e acho que não pensa o mesmo de mim…
     Aleta, riu, e Harry pensava agora naquele riso da irmã, enquanto
cavalgava pela propriedade. Fez o cavalo diminuir o passo.
     Aleta havia sido maravilhosa em tudo. Se não tivesse cooperado, ele não
poderia estar, naquele momento, mantendo um dos melhores cavalos que já
vira na vida e pelo qual faria qualquer sacrifício… se pudesse tê-lo.
     Cavalgava devagar. Não tinha pressa de chegar à estrebaria, pois sabia
que uma porção de coisas a resolver estariam à sua espera.
     Como fazia o papel de administrador, tomara posse do escritório do andar
térreo, que ficava na ala da casa e não era usado desde o tempo do avô.
     Seu pai havia aposentado o velho administrador e não o substituíra, se
bem que vivesse dizendo que ia fazer isso. Então, a guerra começou, faltou
dinheiro para pagar um administrador e, na verdade, não havia muito para um
empregado desse nível fazer ali.
     O escritório ficara lá, com seus enormes arquivos, mapas de propriedade
e da região e uma impressionante escrivaninha.
     — Vai servir para parecer que estou trabalhando — disse Harry, ao vê-la.
     Mas não precisou fingir. Estava trabalhando mesmo. E muito.
     Até que era divertido. Melhor do que ficar sentado, sentindo-se infeliz,
imaginando quando poderia comprar o próximo pedaço de pão.
     Sentia-se como Aleta, em relação à casa, e achava que qualquer sacrifício
valia a pena, desde que Kings Wayte continuasse pertencendo aos dois, como
ambos pertenciam à mansão.
     Tivemos muita sorte, pensou.
     Seus olhos passaram da fachada da casa para o imenso jardim, que tinha
ficado muito tempo abandonado, mas que agora recuperava a beleza do
passado.
     A grama e os arbustos ao redor do lago estavam precisando de uma boa
poda, notou, se bem que a vegetação, refletindo-se nas águas, era muito
pitoresca:
     Então, um movimento no meio do lago chamou-lhe a atenção. Pensou que
devia ser uma lontra. Havia tanto tempo que não via uma! Fez o cavalo seguir
na direção da água. Quando se aproximou, percebeu que não era uma lontra,
mas uma pessoa nadando.
     Ficou surpreso. Foi até a margem e esperou. A cabeça do nadador
emergiu e Harry verificou, atônito, que era uma mulher.
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Ela também o viu, sorriu e. com rápidas e vigorosas braçadas, aproximou-
se.
     — Olá! Quem é você? — perguntou, saindo da água.
     Para maior espanto de Harry, ela usava um maiô preto, sem saiote, que
lhe pareceu ousado demais e muito revelador. Na verdade, estava chocado.
     A moça caminhou pela grama, até chegar perto do cavalo. Parou e tirou a
touca preta de borracha.
     Os cabelos curtos, fartos, eram ondulados e de um ruivo escuro. Da cor
que os pintores venezianos usavam tanto em seus quadros.
     Ela o encarou e percebeu que o rapaz a observava com ar estupefato.
     — Perguntei quem é você. Sou Lucy-May Wardolf, se é que lhe interessa
saber.
     Foi com dificuldade que Harry desmontou e disse:
     — Bom dia, srta. Wardolf. Sou o administrador da propriedade… Harry
Dunstan.
     Sem se perturbar nem um pouco com o fato de o maio molhado grudar-se
ao corpo esguio, marcando as linhas suaves da silhueta atraente, a moça
estendeu a mão.
     — Prazer em conhecê-lo. Papai me contou que havia um administrador
cuidando de tudo e que o achava muito eficiente. Vindo de meu pai, é um
grande elogio!
     — Fico satisfeito com isso. A senhorita sempre nada desse jeito?
     — Preferi o nado mais convencional por ser mais rápido, apesar de não
ser o mais elegante e bonito.
     Harry sorriu.
     — Faz muito tempo que não vejo ninguém nadando nesse lago. Desde
meus tempos de garoto.
     Depois de falar, achou que tinha sido imprudente e indiscreto, porém
Lucy-May, não pareceu notar.
     — Então, bem que você podia me fazer companhia, qualquer dia desses.
Perguntei a alguns de nossos hóspedes se queriam vir nadar, mas as garotas
inglesas ficaram horrorizadas.
     Harry se surpreendeu com isso.
     — A água deve estar fria.
     — Não, está ótima. Minha toalha ficou do outro lado. Tenho que voltar a
nado para pegá-la.
     Relanceou os olhos pelo lago e continuou:
     — Quero dar uma volta a cavalo ainda hoje de manhã. E quero que seja
um bom cavalo.
     — Vou providenciar para que um dos melhores esteja à sua espera, na
porta da casa, na hora que a senhorita quiser. Quer. que alguém a
acompanhe?
     — Se você puder ir comigo, sim. Pode-se ver que é um bom cavaleiro.
     — Obrigado.
     — Não há por que agradecer. Vi você vindo pelo parque e notei que monta
diferente da maioria dos homens que montam na avenida Rotten, ou sei lá
como se chama aquela avenida de Hyde Park.
     — Alameda Rotten.
     ��� Bem, eles não são exatamente o que eu chamaria de cavaleiros —
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disse Lucy-May. — Acho que não sobreviveriam no rancho de meu pai.
     — Seu pai tem um rancho?
     — Vários. Do que mais gosto é o rancho onde criamos os melhores
cavalos. Arranje-me um que seja bravo. Não quero montar nenhuma mula
velha.
     Sorriu para ele de novo e, sem dizer mais nada, pôs a touca e mergulhou,
nadando de um modo que Harry nunca tinha visto, tratando-se de uma
mulher.
     Então, achou que podia estar sendo atrevido, olhando-a com tanta
insistência. Tratou de ir embora, sentindo-se admirado e intrigado ao mesmo
tempo.
     Lucy-May era muito diferente do que havia pensado.




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CAPÍTULO III



      O sr. Wardolf olhou com satisfação para a filha, que entrava na sala.
Usava calça comprida, franjada à mexicana, igual à que costumava usar no
rancho, uma blusa verde que fazia o tom de cobre dos cabelos sobressair e
botas pretas, com grandes esporas douradas.
      Pensou, como já pensara tantas vezes, que era um homem de sorte por
ter uma filha que, não apenas possuía a vitalidade e caráter firme, mas
também era muito bonita.
      — Pelo jeito, você vai andar a cavalo.
      — Vou, papai. Não quer ir comigo?
      — Estou muito ocupado conhecendo a casa. Por enquanto, ela me parece
um enorme labirinto, e já andei me perdendo pelos corredores.
      Lucy-May riu.
      — Você está é pensando que gostaria de mostrar esta casa para nossos
amigos, para vê-los morrer de inveja.
      — De fato, esse pensamento me passou pela cabeça.
      — Vou conhecer as terras e espero que o administrador, ou sei lá como
devo chamá-lo, tenha me arranjado um cavalo digno de ser montado.
      — Acho que arranjou, sim. Pelo menos, estou pagando bastante caro para
isso.
      — Ele cavalga muito bem. Por isso, acho que deve saber escolher um bom
cavalo.
      — Deixe o jovem Dunstan em paz — advertiu o pai. — E cuide bem do
duque. Ele já se decidiu?
      — Se está querendo saber se o duque me pediu em casamento, a
resposta é “não”. Mas, do jeito que você está pressionando o homem, acho
que isso não demora.
      Notou que o pai se descontraía. Sorria, quando disse:
      — Quero ver você duquesa. Isso significa muito, por aqui, e mais ainda
em Nova York.
      — Acontece que quem vai ter que viver com o duque sou eu, e não você,
papai…
      — O Hampton é um bom rapaz e bem mais inteligente do qüe a maioria
dos ingleses que conheci até agora.
      — Não esqueça que o nome dele é Stadhampton… — corrigiu Lucy-May. —
Espero que os criados saibam que devem tratá-lo de Sua Alteza.
      — Está querendo dizer que devo ensinar os ingleses como tratar os
próprios aristocratas? Eu disse a Dunstan que providenciasse para que ele
fosse tratado de acordo e vai haver o diabo se não for!
      — Não se zangue à toa, papai. Tybalt Stadhampton não está diferente do
que era quando você o conheceu numa festa em Nova York e lhe deu um
emprego pelo qual ele lhe é agradecido até hoje.
      — E que não fosse! Não é qualquer homem, principalmente um inglês,
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que pode se gabar de trabalhar para mim.
      — Ele está contribuindo com bons dividendos… — lembrou Lucy-May,
sorrindo. — E tenho certeza de que vai ficar impressionado com Kings Wayte.
Pelo menos, acho esta casa a mais fascinante que já vi!
      — Tenho que agradecer a Charles Cosgrove por isso. E também a mim,
que estou gastando um bom dinheiro!
      — É um investimento, se conheço bem você. Bom, se não quer me
acompanhar, eu vou indo.
      — Alguém vai acompanhá-la? — perguntou o pai, áspero.
      — O Sr. Dunstan — respondeu a moça, por cima do ombro. Já estava
perto da porta, quando o pai gritou:
      — O que aconteceu com todos os seus amigos?
      — Estão dançando.
      Assim que os dois cavalos começaram a andar, lado a lado, Harry
perguntou quase a mesma coisa que o pai dela:
      — Seus amigos não quiseram acompanhá-la?
      Os olhos dele percorriam o corpo esguio de Lucy-May. Nunca tinha visto
uma amazona tão extraordinária nem uma mulher tão atraente.
      A blusa, aberta em “V” no pescoço, revelava a pele branca e macia. Não
usava chapéu. No entanto, o que surpreendia Harry, mais do que o maio que a
vira usando, era o fato de Lucy-May cavalgar como homem, e não de lado.
      Quando saíra da Inglaterra, durante a guerra, as únicas mulheres que
usavam calça comprida eram as que trabalhavam nas fábricas de munições.
Mas, como uma concessão ao recato feminino, usavam também longos
casacos do mesmo tecido dos chapéus que lhes protegiam os cabelos.
      Jamais imaginara que, um dia, acompanharia uma dama de calça
comprida e montando como homem. Sim, era verdade que Lucy-May montava
muitíssimo bem e que a apreensão dele, pensando que talvez tivesse alguma
dificuldade em dominar o fogoso cavalo que escolhera, era completamente
inútil.
      Galoparam até ficarem ofegantes. Depois, voltaram a passo lento, lado a
lado.
      — Foi você que escolheu? — perguntou Lucy-May, e ele percebeu que se
referia ao cavalo.
      — Fui.
      — Meus parabéns por ter comprado este cavalo, seja quanto for que ele
tenha custado.
      — Tinha esperança de que me dissesse isso. Há outros parecidos na
estrebaria.
      — Então, acho que vou gostar muito da temporada em Kings Wayte.
      — Achou que não ia gostar?
      — Não tinha certeza. Haviam me dito que os ingleses são muito
orgulhosos e convencionais.
      — Mudamos muito, durante a guerra, e acho que vai verificar, assim como
seu pai, que estamos bem preparados para aceitar vocês como são.
      Harry respondera de modo seco, um tanto ressentido com o fato de uma
moça ser tão rica e segura de si.
      Com uma percepção profunda, que ele jamais suspeitaria haver nela,
Lucy-May pareceu ler seu pensamento.
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— Pare de ser invejoso! Se nós americanos não podemos ter séculos de
história, nem sangue azul, tínhamos que ter alguma coisa… Era o único jeito!
      Harry ficou embaraçado por ter sido apanhado em flagrante.
      — Na verdade, não tenho inveja de vocês. Só que a estrutura do mundo
foi alterada e acho difícil ser complacente, tendo que aceitar a parte pior.
      — É isso? Vocês estão com a parte pior? Pois me recuso a sentir pena.
Acho que devia estar dizendo, neste momento, que está muito contente em
poder cavalgar a meu lado, num lugar lindo como este!
      Harry jogou a cabeça para trás e riu.
      — Costuma dizer a seus acompanhantes quais os elogios e cumprimentos
que devem lhe fazer?
      — Sim, sempre que são inábeis como você! Ele riu de novo.
      — Já me chocou duas vezes, hoje… e acho que esta é a terceira.
      — Choquei você? — Lucy-May olhou-o surpresa. — Ah! Já sei a que se
refere! — disse, de repente. — Meu maiô, minha roupa de montar e, acho,
minha franqueza.
      Viu, pela expressão de Harry, que havia acertado e deu uma risadinha.
      — Quando nos encontrarmos, hoje à noite, não deixe de me lembrar que
devo sorrir por trás do leque.
      — Está livre disso. Não vamos nos encontrar à noite.
      — Por quê?
      — Porque sou o encarregado de cuidar da propriedade, não da casa
propriamente dita. Os empregados de fora não participam das atividades de
dentro e vice-versa.
      — Regras inglesas?
      — Claro que sim!
      — Então, quem sabe podemos quebrar essas regras… Acho que se pode
fazer isso, não?
      — É uma coisa que nunca vai ficar sabendo, senhorita.
      — Quer apostar?
      — Não. Só estou expondo um fato. Vai aprender, srta. Wardolf, que na
Inglaterra as classes se mantêm em seus devidos lugares.
      — E de que classe você é?
      — Para todos os efeitos e propósitos, sou empregado de seu pai, uma vez
que administro esta propriedade e tudo o que ela contém para um terceiro.
      — E quemué esse terceiro?
      — Um cavalheiro chamado sir Harry Wayte.
      — Vou conhecê-lo?
      — É muito pouco provável.
      — Acho que gostaria de conhecer esse homem. Ele deve saber que é um
felizardo, por ter uma casa como esta.
      — Que não pode sustentar!
      — Foi por isso que a alugou?
      — Exatamente!
      — Gostaria de dizer a ele que há muita coisa que se precisa fazer aqui. A
primeira é instalar algumas banheiras. O povo inglês deve ser um bocado sujo!
      — E o americano é limpo até demais! — explodiu Harry. — Exagero em
banhos pode ser atribuído ao desejo de limpar uma consciência suja.
      — Está brincando comigo ou sendo profundamente ofensivo? Deixe-me
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informá-lo, sr. Dunstan, que minha consciência está muito tranqüila e que não
tenho inibições de espécie alguma.
     — Quantas banheiras quer que sejam instaladas?
     — Acho que umas doze dariam, para começar.
     — Está brincando!
     — Não. Aliás, estive falando nisso com papai, hoje cedinho, e ele vai lhe
dar ordens para que sejam providenciadas imediatamente.
     Por instantes, Harry ficou sem fala.
     Queria dizer que aquela era uma idéia ridícula, além de desnecessária,
uma vez que só ficariam na casa um ano.
     Então, de repente, compreendeu que Cosgrove tinha razão, ao dizer que,
alugando a mansão, ela seria beneficiada por várias inovações, o que faria seu
valor subir muito, apesar de já ser astronômico.
     Começou a ver a enorme vantagem de ter banheiras e chuveiros
modernos em Kings Wayte, nos toaletes anexos aos quartos. Isso evitaria que
os criados carregassem água da cozinha, escada acima, trabalho que se
tornava penoso com a idade. Evitaria também as longas e sofridas
caminhadas, durante o inverno, até os dois únicos banheiros com banheiras,
uma delas com água aquecida a gás, por um aquecedor que se recusava
constantemente a funcionar.
     Pela primeira vez, Harry ficou realmente alegre por ter os Wardolf como
inquilinos.
     Se bem que tentasse reprimir, experimentava também um certo
ressentimento por ver sua velha casa invadida por estranhos que, por mais
caro que pagassem, estavam completamente desinformados do modo de vida
inglês e eram muito mais esquisitos do que ele e Aleta tinham imaginado.
     Lembrou-se de que Lucy-May esperava uma resposta. Com um sorriso
luminoso, que tornou seu rosto mais bonito, disse:
     — Vai ter suas banheiras, srta. Wardolf, o mais depressa possível. Para
comemorar, vamos apostar uma corrida até o fim deste campo!
     Aleta desceu a escada de trás para ir ao quarto da governanta. A velha
estava sentada numa confortável poltrona, uma xícara de chá nas mãos e os
pés apoiados numa banqueta, diante da lareira.
     — Não se levante, Abby! Quero falar com você, mas não precisa se
incomodar por isso.
     — Não acho nada correto, srta. Aleta. Mas, para dizer a verdade, minhas
pernas me fizeram ficar acordada metade da noite. Doeram bastante.
     — Por isso mesmo, deixe que fiquem apoiadas assim, sempre que puder,
e evite subir e descer escadas. Acho que Rose está conseguindo se sair muito
bem no trabalho.
     — Todos estão trabalhando muito bem, senhorita. Mas, apesar de serem
moças dispostas, é melhor não facilitar muito como minha velha mãe dizia…
     — Elas vão se sair bem — disse Aleta, confiante. — Acho que as hóspedes
não são exigentes e implicantes nem a metade do que eram as damas do
tempo de vovô!
     — Não, de fato. E as roupas delas também não são as mesmas. A
senhorita acredita… — A sra. Abbott abaixou a voz e continuou, em tom
chocadíssimo: — … que elas usam roupas de baixo pequenas, minúsculas,
mesmo?
32
Aleta riu intimamente. Manteve-se séria, ao responder:
     — Isso significa menos trabalho para as lavadeiras e passadeiras. Pelo
som do gramofone, lá embaixo, parece que estão dançando.
     — Dançando! É só o que elas sabem fazer! Dançar de manhã, logo depois
do café! A senhorita já tinha visto uma coisa dessas? A patroa jamais
acreditaria que isso aconteceria, um dia.
     Aleta sabia que a “patroa” era sua avó, e não sua mãe, porque a sra.
Abbott vivia muito no passado, no tempo em que dirigia aquela casa com pulso
de aço. O maior motivo de orgulho para a velha sempre havia sido os
convidados de Kings Wayte afirmarem que se sentiam melhor lá do que em
qualquer outra casa em que tinham sido hospedados.
     — Desde que todos se sintam bem, acho que o resto não tem importância
— disse Aleta, pensativa.
     — Roupas modernas ou não, essas moças deixam o quarto numa
desordem terrível! Roupas espalhadas por todos os lados, e, a senhorita nem
vai acreditar, vi caixas de pó-de-arroz em todas as penteadeiras!
     Aquilo havia chocado a sra. Abbott muito mais do que o tamanho reduzido
das roupas de baixo. Aleta disse, suavemente:
     — Quando estive em Londres, vi que todas as moças usavam pó-de-arroz
e batom.
     A velha ergueu as mãos, num gesto de horror.
     — Não sei onde o mundo vai parar, senhorita. Não sei mesmo! Ouça o que
digo: uma dama que usasse batom, antes da guerra, não era considerada uma
pessoa de bons princípios!
     Aleta sabia que aquilo significava a condenação máxima e mudou de
assunto:
     — Será gostoso ter um baile aqui de novo. Vamos ter a impressão de
estar de volta aos bons tempos.
     — Foi o que pensei, quando ouvi, mas a senhorita sabe que eles estão
pensando em contratar uma orquestra de negros?!
     Aquilo era tão horripilante, que a voz da governanta se tornara quase um
sussurro inaudível.
     — Essas orquestras são muito apreciadas em Londres — disse Aleta,
depressa.
     — Uma orquestra de negros em Kings Wayte é uma coisa que jamais
pensei em ver!
     Aquele era outro assunto perigoso e Aleta tratou de desviar-se dele.
     — Gosto de música e bem que queria ir ao baile também… Sabe? Acho
que tenho um jeito de ver o baile, apesar de meu irmão não concordar.
     — Ver, senhorita? Como?
     — Bem, hoje em dia, a orquestra não costuma ficar separada, na galeria
dos músicos, como antigamente. Agora os bailes são mais íntimos e as
orquestras ficam no mesmo nível que os dançarinos. Então, posso ficar na
galeria dos músicos e assistir ao baile lá de cima.
     — Precisa tomar cuidado. Não quer ser reconhecida, quer?
     — Serão poucas as pessoas que poderiam me reconhecer. Parecia um
tanto triste, o que fez a sra. Abbott dizer, depressa:
     — Quando tudo isso estiver terminado e esses americanos forem embora,
a senhorita e sir Harry poderão dar suas festas. Talvez não bailes, mas
33
jantares para os amigos.
     — Sim, claro. Será muito bom. Bem, acho que agora vou deixá-la
descansar. Está tudo bem, não?
     Como se só esperasse por aquela pergunta, a sra. Abbott começou um
longo relato de como algumas das moças do condado eram tolas, já tivera que
mostrar a elas mil vezes de que jeito deviam arrumar as camas e dobrar as
camisolas das damas.
     Estava também indignada porque os criados deixaram cair um pouco de
água pelo caminho, ao carregá-la para alguns dos hóspedes que tinham
banheira no quarto.
     Os cavalheiros que costumavam hospedar-se em Kings Wayte
antigamente utilizavam um dos banheiros comuns, por menos cômodos e
adequados que fossem, e as senhoras banhavam-se em tinas colocadas diante
da lareira, em seus quartos.
     Aleta sabia que sua mãe ficaria horrorizada à idéia de andar pelos
corredores de robe e que nem ela nem sua avó sequer pensariam na
possibilidade de usarem as banheiras de uso comum.
     Tudo tinha mudado muito, com a guerra. Ela e a governanta haviam sido
obrigadas a se utilizar dos banheiros comuns, pela simples razão de não ter
ficado ninguém na casa capaz de carregar enormes baldes de água quente lá
para cima.
     Pensava que seria ótimo ter criadas e criados para cuidar deles de novo,
quando percebeu que a sra. Abbott tinha dito algo sobre Sua Alteza. Prestou
mais atenção.
     — O cavalheiro americano é muito ansioso e nervoso. Perguntou se o
“Quarto da Rainha” era suficientemente bom para Sua Alteza! Tive vontade de
responder: “Se foi bom para a rainha Anne, é mais do que bom para qualquer
duque moderno!” Mas acho que esses americanos não entendem isso, não é,
senhorita?
     — O sr. Wardolf quer muito que o duque se sinta bem aqui, porque vai
casar com a srta. Lucy-May.
     — Foi o que ouvi dizer. E, se quer saber minha opinião, é uma pena que
um nobre como Sua Alteza chegue ao ponto de se vender dessa maneira.
     Aleta ficou surpresa com o conhecimento que a sra. Abbott tinha da
situação. Depois, lembrou-se de que nada podia ser escondido dos criados.
     — Acho que o duque está numa situação pior do que a nossa — disse
baixinho.
     — Sempre rezo para que sir Harry não precise casar com uma americana
— disse a sra. Abbott, com desdém. — Eles têm muito dinheiro, é verdade,
mas, francamente, não sabem se comportar. Não como nós.
     Aleta disfarçou um sorriso.
     — O modo de os americanos viverem é diferente do nosso, claro. Mas
sejam de que nacionalidade forem, americanos, franceses ou alemães, todos
são gente.
     — Os alemães! — fungou a sra. Abbott.— Eles não são gente! Para mim,
são feras com aparência humana.
     Aleta sabia que aquele era um tema dos mais explosivos; por isso,
levantou-se, dizendo:
     — Enquanto estão todos lá embaixo dançando, vou dar uma volta pela
34
casa e ver se está tudo certo. Assim, a senhora não precisa se levantar.
Prometa ficar aqui, quietinha, e dormir um pouco.
     — A senhorita é um amor. De fato, estou me sentindo um pouco cansada.
     — Então, deixe que eu cuido de tudo. Depois venho contar para a
senhora.
     Saiu do quarto da governanta e atravessou o corredor até a porta, oculta
pela pesada cortina verde, que dava para a parte nobre da casa.
     A música chegava ali bem mais nítida e ela reconheceu a melodia.
     Era Estou Furiosa com Harry, e Aleta pensou como combinava com o dono
da casa, se bem que ninguém soubesse.
     Começou a cantarolar, enquanto andava pelo corredor que ia dar nos
quartos que haviam sido reformados.
     Não tinha sido feita muita coisa, mas a colocação de um ou outro quadro,
de cortinas novas, tornara-os bem diferentes dos quartos escuros,
empoeirados e abandonados, que pareceram tão horríveis para Harry, quando
voltara da França.
     Aleta entrou em vários deles, verificando se as criadas tinham arrumado
tudo direitinho, limpado como recomendara e posto um vaso com flores em
cada penteadeira.
     Chegou ao “Quarto da Rainha” e não pôde deixar de se lembrar de sua
mãe, ao abrir a porta.
     O “Quarto do Rei”, onde o pai dormia, e o “Quarto da Rainha” formavam
uma suíte independente. Aleta imaginara que Lucy-May e o pai iam querer
ficar lá. Mas o sr. Wardolf deixara bem claro que ficaria no “Quarto do Rei” e o
duque de Stadhampton, no segundo melhor, de modo que lhe reservaram o
famoso aposento ocupado pela rainha Anne em 1710.
     Era um quarto muito grande, com um leito de quatro colunas, dossel com
cortinas de brocado, cuja cúpula exibia deuses e deusas que tinham dado um
trabalhão para ficarem bem limpos.
     Era também o quarto preferido de Aleta. Ao entrar nele, naquele
momento, sentiu como se a mãe ainda estivesse ali; chegou a sentir o delicado
perfume de rosas que pairava no ar, quando, ainda criança, abria as gavetas
da cômoda.
     Aleta sempre se opusera terminantemente a que tirassem qualquer coisa
daquele aposento.
     Agora, seus olhos passeavam, apreciadores, pelos móveis franceses com
entalhes dourados, os espelhos lapidados e as porcelanas chinesas sobre a
lareira.
     Pelo menos o duque saberia apreciar tudo aquilo, pensou, e tentou se
lembrar de alguma coisa a respeito dele.
     Era um nome familiar, mas nunca tinha ouvido Harry ou os amigos
falarem dele. No entanto, tinha-os ouvido falar muito de Chatsworth. E,
durante sua estada em Londres, havia sido convidada pelo duque e a duquesa
de Devonshire para um baile de Devonshire House. Mas não chegou a
conhecer os duques nem pôde ir ao baile, porque, na véspera, foi avisada de
que o pai estava passando mal e partiu imediatamente para Kings Wayte.
     Depois disso, nunca mais tinha saído de lá. Muitas vezes ficava triste por
não ter conhecido mais Londres e as casas nobres que aos poucos iam se
desmantelando, perdendo muito ou tudo de sua grandeza original.
35
Vai ver, o duque está na mesma situação que nós, pensou.
     Em seguida, teve certeza de que era por isso que ele ia passar uns dias
em Kings Wayte e casar com uma milionária americana: para salvar seu
brasão, sua casa e propriedade. Coisa que talvez Harry também tivesse que
fazer. Quando os ricos inquilinos fossem embora, eles estariam mais ou menos
diante dos mesmos problemas que tinham até então.
     — Sempre dinheiro, dinheiro, dinheiro! — disse, sentindo-se
miseravelmente mal.
     Depois de inspecionar o quarto inteiro, saiu e voltou pelo mesmo caminho.
Atravessou depressa o patamar de mármore, com medo de se encontrar com
alguém antes de estar, sã e salva, junto da porta oculta pela cortina verde,
que dava para a ala dos criados. Nesse momento, ouviu um carro parar na
porta principal.
     Instintivamente, foi até o parapeito para ver quem era.
     Quando o criado abriu a porta, ouviu uma voz de homem dizer, aflita:
     — Preciso falar com o sr. Wardolf, depressa! Houve um acidente! Aleta
ficou gelada.
     Imediatamente pensou que alguma coisa tinha acontecido com Harry. Viu
Barlow chegar ao hall correndo e esbarrar com violência no recém-chegado.
     — O senhor disse que houve um acidente?
     — Sim, isso mesmo. Foi com um dos convidados do sr. Wardolf. Havia
dois cavalheiros no carro, mas, segundo me disseram, o duque é que se
machucou.
     — Sinto muito ouvir isso — disse Barlow. — O sr. Wardolf vai ficar
profundamente chocado. Se fizer o favor de esperar um momento, senhor, vou
avisá-lo de sua presença.
     Aleta pôde ver então o homem. Pelas roupas, assim como pelo modo de
falar, percebeu que era um fazendeiro, um agricultor ou algo parecido.
     Sabia que Barlow na certa o havia medido de alto a baixo e, como não se
tratava de um cavalheiro, ia deixá-lo esperando no hall enquanto avisava o sr.
Wardolf.
     Um dos criados perguntou:
     — Foi um acidente muito sério?
     Excitado e sempre pronto para falar, o fazendeiro respondeu:
     — Eles estavam correndo muito! Mas os jovens são assim mesmo.
Fizeram a curva da travessa Lane de modo muito perigoso e o carro teria
batido de frente num outro, se o motorista não desviasse e saísse da estrada.
     — Saiu da estrada?
     — É. Não teria acontecido nada, se não houvesse uma árvore bem ali. No
momento do choque, o duque, que estava no assento do passageiro, bateu
com a cabeça no pára-brisa.
     — Que tipo de carro é?
     — Um desses mais novos, que correm demais para o meu gosto.
     Acho que é… um Bentley.
     — Um Bentley! — repetiu o criado, obviamente impressionado. Ia fazer
uma outra pergunta, quando Barlow voltou com o sr. Wardolf.
     — O que foi? Que aconteceu? Um acidente com o duque? Como é que
uma coisa assim pôde acontecer?
     O fazendeiro explicou de novo, interrompido de vez em quando por
36
ansiosas perguntas do americano.
     Depois, ele perguntou:
     — E onde está o duque? O que aconteceu com ele?
     — Está sendo trazido para cá, numa carroça. Acharam que não ficaria
bem acomodado em minha charrete.
     — Depressa! Depressa! Um médico. Precisamos de um médico!
     — O dr. Goodwin está viajando, senhor, mas há alguém no lugar dele, até
sua volta.
     — Um médico?
     — Acho que sim, senhor.
     — Então, vá buscá-lo! Traga-o para cá, depressa!
     — Sim, senhor — disse o fazendeiro. Mas o sr. Wardolf não ouvia nada;
dava ordens:
     Diga à governanta para ver se o quarto do duque está pronto e
providenciar bandagens e mais o que for preciso para um curativo. Entendeu?
     — Sim, senhor.
     Um dos criados subiu a escada correndo. Aleta parou diante dele, quando
ia se dirigir para a porta coberta pela cortina verde.
     — Está tudo bem, James. Ouvi a conversa e sei o que aconteceu. Trate de
fazer com que sir Harry… quero dizer, o sr.
     Dunstan… fique sabendo o que houve, o mais depressa possível, e venha
para casa. Deixe o recado para ele na estrebaria.
     — Sim, senhorita.
     O americano continuava dando ordens e mais ordens no hall lá embaixo.
     Isto veio transtornar os planos dele, Aleta pensou.
     Mas não ficou muito preocupada com o milionário nem com o duque que
estava namorando a filha dele.
     Os dois têm que passar por aflições e dificuldades, como todo mundo,
pensou. E se dirigiu depressa para os aposentos da criadagem, para contar a
novidade à sra. Abbott.
     O duque sentia-se como no final de um longo e tenebroso túnel, mas
podia ouvir vozes. Não entendia o que diziam e ficou irritado porque o
acordaram.
     Então, uma voz suave disse:
     — Está tudo bem, Abby. Não se aflija. O médico disse que não é provável
que ele volte a si antes de vinte e quatro horas. Amanhã chega uma
enfermeira de Londres.
     — Não fica bem a senhorita ficar sozinha com um cavalheiro. Sabe muito
bem disso! — disse uma voz mais velha e severa.
     Houve o som abafado de uma risadinha.
     — Se está preocupada por não haver ninguém aqui para me proteger,
Abby, posso garantir que estou fora de qualquer perigo!
     — Sua mãe não aprovaria isto, senhorita! Houve silêncio por momentos.
     — Sinto que aqui, no quarto de minha mãe, ela estará cuidando de mim.
Vá se deitar, Abby, querida, e volte amanhã bem cedinho, antes que os outros
acordem.
     — Não gosto disso. Não gosto nada disso!
     — É só por uma noite — tornou a explicar Aleta, com paciência.
     — O médico disse que alguém precisa ficar com ele. Sabe perfeitamente
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Encontro no templo

  • 1. Um rouxinol cantou.. Coleção Barbara Cartland nº 76 1
  • 2. Na escuridão do parque, Tybalt só viu o vulto branco do vestido da moça. Mas as coisas que ela disse naquele encontro mágico lhe deram forças para continuar vivendo. Dois anos já haviam se passado, e ele ainda se lembrava de cada palavra, do perfume dos lilases, do canto solitário de um rouxinol e, principalmente, do doce sabor dos lábios dela. Algo lhe dizia que aquela desconhecida era a mulher de sua vida e que nunca amaria nenhuma outra. Mas como procurá-la, se nem sabia como era seu rosto? E se às vezes chegava a imaginar que tinha estreitado nos braços o corpo etéreo de uma deusa, descida à Terra por uma única noite para salvá-lo do desespero? 2
  • 3. CAPÍTULO 1 1919 Através das janelas sem cortinas do velho casarão da praça Berkeley, as silhuetas dos dançarinos se recortavam sobre um fundo dourado. A música da bateria e do saxofone espalhava-se pela praça, quando um homem desceu os degraus da entrada, passou pelos criados, cocheiros e motoristas que conversavam, atravessou a alameda e entrou no jardim. Normalmente, o portão ficava fechado, e só moradores da praça, a mais exclusiva de Londres, tinham a chave. Alguns casais passavam entre as moitas de lilases, mas o homem seguia lentamente por uma pequena alameda, mergulhado em pensamentos, sem prestar atenção às pessoas que passavam por ele. Afinal, no centro da praça, chegou a um pequeno templo, que dominava uma urna georgiana e tinha pilares na entrada. Lá dentro estava escuro. Ele parou junto a um dos pilares e voltou-se para olhar os casarões antigos, recortados contra o céu estrelado. Enfiou a mão no bolso do fraque, procurando uma cigarreira. quando percebeu um leve movimento atrás de onde estava. Olhou, achando que talvez fosse só impressão, pois mais tinha sentido do que ouvido, mas viu que havia mais alguém ali. Com uma sombra de sorriso nos lábios, perguntou: — Estou atrapalhando? Se estiver, vou embora. Houve um momento de silêncio antes de uma vozinha hesitante responder: — Não… não. Claro que não. Eu… eu estou sozinha. O homem voltou-se na direção da voz, dentro do templo. Notou que havia um banco de pedra e nele estava uma moça vestida de branco. Era impossível distinguir-lhe o rosto, mas, pelo tom da voz, achou que era muito jovem. — Sozinha? O que aconteceu com seu par? — Eu… eu nunca tive par. Foi por isso que… que vim para cá. — Não tem par? Isso é mau e garanto que não vai encontrar nenhum, escondida nessa escuridão. — Eu sei. Mas é horrível ficar lá, sentada, olhando… esperando. Parece que não há nenhum homem sobrando. Isso, ele sabia, não era verdade. Havia muitos homens sem par na festa, e os deixara conversando -uns com os outros, bebericando no bar ou reunidos na sala de jogos. Pensou que ele próprio estava se aborrecendo, naquele baile em que conhecia pouquíssimas pessoas e onde havia mistura de gente muito velha com gente muito nova, sem que ninguém combinasse com sua idade e gostos. — Se não me engano, está começando a temporada e este deve ser seu primeiro baile, não? 3
  • 4. — Sim. E eu estava esperando tanto dele! — E ficou decepcionada. Isso acontece muito na vida. É difícil a realidade corresponder às nossas expectativas. — Mas não é sempre assim, espero. — Quase sempre. É então que uma pessoa começa a ficar desiludida e cínica. Estava brincando, mas a moça o levou a sério. — Não se pode pensar desse jeito! Principalmente agora que já não há a guerra fazendo todo mundo se sentir apavorado e apreensivo o tempo todo. — É assim que você se sente? — É. Gostou de ela ser simples e franca. — A guerra tem suas compensações. — Como pode dizer isso? — Acho que tenho direito de dar minha opinião, já que participei dela. — Esteve em Flandres? — Durante quatro anos. — Oh! — Houve um silêncio; então, ela disse: — Deve ter sido terrível… horrível! Não posso pensar no que os nossos soldados sofreram nas trincheiras. — Bem, admito que foi bastante desagradável. Mas, como disse, houve compensações. — Que… que compensações? — A camaradagem, a sensação de se ter uma mesma finalidade na vida. Não se tratava apenas de derrotar os alemães, mas também de conservarmos a vida. Às vezes, dava para a gente ver o lado engraçado daquilo tudo. — Acho que deve ser muito corajoso… O homem sorriu. — Gostaria de poder concordar com essa opinião, mas não é verdade. Muitas vezes senti medo. E fiquei agradecido por ter saído com vida. Muitos de meus companheiros e amigos foram mortos. Voltar para casa foi como começar a viver de novo. — Isso deve ser excitante! — É, sim. Um primeiro baile também é excitante para uma moça. No entanto, este aqui está sendo decepcionante para você. — Bem, não uma decepção completa. Tudo aqui é tão lindo… Nunca tinha visto uma casa tão maravilhosa. As senhoras, com suas jóias, ficam tão lindas, dançando. Mas me senti sem jeito, porque ninguém me tirou. — Deve ter vindo ao baile com alguém, não? — Com minha madrinha. Vim com ela para Londres. É muito bonita e todos os homens quiseram dançar com ela. O homem riu de novo, um tanto cinicamente. Entendia muito bem o que estava acontecendo. As aias e damas de companhia tinham saído de moda e todas as mães, tias e, como nesse caso, madrinhas que acompanhavam as debutantes eram tiradas para dançar. Podia imaginar a mocinha encostada na parede, sem jeito por não despertar o interesse de ninguém. Atravessou o templo e, guiado mais pelo instinto do que pela visão, sentou-se no banco de pedra ao lado da moça. Percebeu que ela estremecia de leve, lembrou-se de que devia ser muito jovem e inexperiente, e achou a situação comovente. 4
  • 5. — Agora não está mais sozinha. Eu, como você, conheço pouquíssimas pessoas aqui. Podemos consolar um ao outro. — Talvez isso seja… errado. — Errado? — Não fomos apresentados. Ele riu. — Isso pode ser facilmente corrigido. Vamos fazer de conta que você é a deusa do templo e eu sou o aventureiro que a descobriu. — Do jeito que você fala, tudo fica tão excitante! — Vai ver que é mesmo. Conte-me como se sente, agora que cresceu e, acho, saiu da escola. — Nunca fui a escolas. Uma governanta me educou. — Era uma boa governanta? — Não muito esperta, mas sempre gostei de ler, e isso me fez ficar conhecendo bastante do mundo… até que descobri que sou uma ignorante em danças, por exemplo, e qüe isso pode atrapalhar muito a gente. — Está precisando de um bom rapaz que cuide de você. Ouvi dizer que a guerra acabou com velhos preconceitos e que moças podem sair sozinhas com rapazes, para dançar. — Isso, se… forem convidadas. Ele riu de novo. — Aceito a correção. Claro, só se forem convidadas. E como você acaba de chegar a Londres, não conhece ninguém que possa convidá-la. — Isso mesmo. — Garanto a você que a cada dia, a cada semana, as coisas vão melhorar. Tenho certeza de que logo haverá uma porção de rapazes ansiosos para que dance com eles. — Como pode dizer isso, se ainda não me viu? — Sou juiz de vozes. Como a sua voz é muito atraente, sei que você também é. Era um elogio dos mais banais, mas percebeu que ela estremeceu, nervosa, como um gatinho que não tem certeza de poder confiar na mão que se estende para acarinhá-lo. — Gostaria que tivesse razão — disse a moça, depois de um momento. — Mas Londres me parece tão grande e, de certo modo, assustadora. Sei que vou fazer muitas coisas erradas. — Todos nós cometemos erros, quando fazemos alguma coisa pela primeira vez. Eu me lembro de quando me juntei a meu regimento. Estava apavorado, com medo de fazer alguma coisa contrária ao regulamento e me tornar o palhaço dos outros soldados. — E fez? — Não fiz nada de tão horroroso, mas entendo perfeitamente como está se sentindo. Isso vai passar, com o tempo. — Você é animador. — Quero ser. Olhe, você está começando uma vida, com tudo novínho em folha. Eu estou tendo que pegar os fios soltos de uma velha vida para continuar vivendo e isso é mais difícil, de certo modo. — Por quê? — Acho que porque perdi muita coisa, porque tenho motivos para sentir desgosto… A moça suspirou. 5
  • 6. — Neste momento, eu queria ser cinco anos mais velha. Ele riu. — Daqui a cinco anos, não dirá isso! Vai começar a ficar aflita por estar mais velha, e, daqui a dez anos, vai querer tirar cinco de sua idade. — É assim que as mulheres fazem? Sim, acho que tem razão! Tenho certeza de que minha madrinha é mais velha do que diz. — Bom, pelo menos essa é uma coisa com que não precisa se preocupar… por enquanto. — Espero que, quando for mais velha, aprenda a não me preocupar com coisas tão sem importância. — As mulheres não acham isso sem importância. Para elas, é muito importante. — E para os homens? — Os homens têm aborrecimentos e preocupações muito mais sérios. Pelo menos nesta época. — Acho que está querendo dizer que anda procurando emprego? — Que sensibilidade a sua! Como adivinhou? — Todo mundo anda dizendo que é muito difícil, para os homens que voltaram das trincheiras, arranjar trabalho. Os que não foram lutar tomaram conta dos melhores empregos. Agora, os soldados desmobilizados andam atrás de empregos que, diz meu pai, não existem. — Seu pai está certo. Foi isso mesmo que descobri. — Sinto muito por você. O que sabe fazer? — Para dizer a verdade, não sei. Não tenho idéia, mas preciso ganhar dinheiro. — Acho que vai ser muito difícil. — É o que também estou achando. Mas vamos falar de você. Posso predizer seu futuro facilmente. — Como? — Bem, você logo vai se aprumar, encontrar o homem certo e casar. Ela suspirou. — Sei que isso é o que todo mundo espera que eu faça, mas tenho… medo. — Medo? — Não quero casar com ninguém, a não ser alguém que eu ame muito. — E como vai saber se está amando? — Estive pensando nisso e sei que será uma coisa maravilhosa e muito diferente de tudo o que senti até agora. Não é nada como esperar dançar com alguém ou estar com alguém. É muito mais. — De que jeito? — É difícil explicar. Acho que será uma coisa muito linda, como a neblina sobre o lago ou como a primeira estrela da tarde brilhando no céu quando o Sol ainda não se pôs. — Havia um leve tremor na voz dela. — Quando eu vinha vindo para cá, sozinha, para me esconder neste templo, vi as estrelas brilhando no céu e pensei que fosse impressão, mas ouvi rouxinóis cantando entre as árvores. — E acha que isso faz parte do amor? — Acho que, quando me apaixonar, sentirei algo assim, só que mais arrebatador, mais perfeito, porque o verdadeiro amor vem de Deus. — Acredita em Deus? 6
  • 7. — Acredito, claro. Você não? — Quero muito acreditar, mas acho difícil, depois do que passei e vi os outros passarem nas trincheiras. Não dá para acreditar que Deus estava se importando conosco, enquanto tudo aquilo acontecia. — Mas estava, sim! Tenho certeza. Afinal de contas, nós ganhamos a guerra! — A um preço terrivelmente caro. Percebeu que ela fazia um movimento e viu que unia as mãos, antes de dizer: — Mas você… está vivo. — É, estou vivo. — E você, assim como seus companheiros, os que sobreviveram e os que morreram, fizeram muita coisa pela paz. — Acho que os políticos estão usando isso para fazer a maior confusão. — Não pode deixar que façam isso! Tem que ter certeza de que você e seus companheiros não sofreram tanto e não morreram… em vão! — Quem lhe falou sobre essas coisas? — Ninguém. Eu leio jornais. — Isso não é muito comum. Pensei que as mocinhas só ligassem para roupas e, claro, para o amor. — Tenho pouquíssima roupa em que pensar e, do amor, só sei o que li até agora. Você achou graça no que falei… do amor? — Não, não! Claro que não! Está muito certa. É esse o amor que você deve procurar e que, espero, vai encontrar. Só desejo que esse homem, quando o encontrar e se apaixonar por ele, não a decepcione. — Quem sabe, eu é que vou decepcioná-lo. — Acho que não. — Por quê? — Porque a maioria dos rapazes, pelo menos os que conheço, não é idealista como você. — Agradeço por você não ter dito “romântica”. — Por quê? — Acho a palavra “romance” horrível, sentimentalóide e sem significado. O amor que eu quero é muito diferente. — Fez uma pausa e perguntou, temerosa: — E se eu não o encontrar? — Aí, acho que vai fazer como muita gente faz: vai escolher o melhor que estiver a seu alcance. — Detesto isso! Seria trair tudo aquilo em que acredito! Havia uma intensidade apaixonada na voz dela que o alarmou. — Se aspirar a coisas grandes, altas demais; se quiser alcançar as estrelas, pode se desiludir. E eu ficaria muito triste, se isso acontecesse. — Está me aconselhando a aceitar o que houver de melhor para escolher? Não esperava que você dissesse isso. — Por que não? — Porque, quando estávamos conversando sobre a guerra, achei que você parecia um daqueles cavaleiros do tempo das Cruzadas, que lutavam com ardor porque defendiam o cristianismo ou porque estavam procurando o Santo Graal. — Talvez eu também tenha me sentido assim, alguns anos atrás, mas 7
  • 8. agora esqueci os sonhos e as cruzadas que queria fazer. — Os sonhos vão voltar. A gente jamais os esquece completamente, porque são parte de nós. O homem pensou por uns momentos. — Quando cheguei aqui e comecei a conversar com você, achei que era muito, mas muito jovem, mesmo. Agora, estou achando que é velha e experiente em muitas coisas. — Está caçoando de mim! — Não, juro que não estou. Só acho que você não existe, não é real; que estou sentado sozinho neste banco de pedra, conversando com minha consciência ou meu coração. — É uma idéia linda! — Você conseguiu me fazer pensar. — Você também me fez pensar e já não estou tão assustada com este novo mundo. — Isso é bom. Não deve se assustar com ele. Tenho certeza de que você vai conseguir conquistá-lo. Mas cuidado para que ele não estrague você. — Por que iria me estragar? — Porque esse mundo pode fazer você achar que o que pensa agora não é tão importante assim, que as brilhantes lantejoulas que vai encontrar são mais valiosas, mais reais. Só que isso não é verdade! — Como vou conseguir separar o verdadeiro do falso? — Seu instinto lhe dirá. Siga seu instinto. É o melhor conselho que posso lhe dar, apesar de ter certeza de que você conhece melhor o seu caminho do que eu conheço o meu. — Sabe que isso não é verdade. — Pode parecer esquisito, mas é, sim. Houve um silêncio. — Acho que tenho que voltar. Minha madrinha deve estar preocupada comigo. — Ela devia tomar mais conta de você e apresentá-la a alguns rapazes. — Ela me apresentou, mas, assim que me cumprimentavam, eles se afastavam. Acho que é porque não pareço muito simpática. — Isso é coisa muito fácil de remediar. O importante é que não mude a essência de seu modo de pensar. — Vou… tentar. Ela fez um leve movimento para se levantar. O homem estendeu a mão e segurou-lhe o braço. — Não, não vá. Quero ir primeiro, porque acho que muita coisa estaria perdida, se nós nos víssemos. Com a nossa conversa, você abriu novos horizontes diante de mim. — E você… para mim. — Ótimo. Então, vamos deixar que continue assim. Se eu a levar até o salão, se dançarmos, talvez nós dois fiquemos desiludidos. Seria uma pena. — É, seria. — Vou sair daqui primeiro, mas não irei para o salão. Vou andar um pouco, pensar no que dissemos e tentar olhar meu futuro de um modo diferente de como olhei até agora. — Espero que consiga tudo o que deseja. 8
  • 9. — Talvez você tenha me dado a idéia do que devo desejar. Ainda não sei. Tenho que pensar nisso. — Eu também… tenho que pensar. — Pense, sim. Mas não se esqueça do que eu lhe disse: não deixe que nada a estrague. Defenda seus ideais e nunca, nunca mesmo, faça uma segunda escolha. O homem levantou-se enquanto falava e ela percebeu, pelo vulto delineado na semi-escuridão, que era alto e forte. Ele estendeu-lhe a mão e a fez levantar-se. — Quero lhe desejar boa sorte. E quero também me despedir de meu coração e de minha consciência. Puxou-a para mais perto. Ela não se agitou nem tentou evitá-lo. Ele teve a sensação de que a moça também sentia que aquilo tudo não era real. Então, com delicadeza, como se beijasse uma flor, procurou-lhe os lábios. Foi um beijo quase etéreo. A maciez e inocência dos lábios dela o envolveram em um encantamento que jamais sentira. Instintivamente, o abraço tornou-se mais forte, seus lábios mais exigentes, e um estremecimento percorreu o corpo da moça. Então, sem dizer nada, ele a soltou, atravessou o templo, passou pelos pilares e saiu para o jardim. Andou para o portão sem olhar para trás, e teve certeza de ouvir um rouxinol cantando entre as árvores. 1921 Durante o longo trajeto até sua casa, sir Harry Wayte foi se distraindo, pensando que, realmente, nunca tinha visto lugar mais bonito e agradável do que aquele. Kings Wayte era uma mansão construída no começo do reinado de Elizabeth I. Nela haviam morado Wayte ricos, Wayte pobres, Wayte que esbanjavam dinheiro e Wayte que tinham que contar cada moeda. E sir Harry pensava, enquanto dirigia o carro pela ponte sobre o lago, que jamais tinha havido um Wayte tão sem dinheiro como ele agora. Como se o pensamento atraísse o azar, o carro começou a soltar fumaça e a estremecer, até que parou, a alguns metros da entrada da mansão. Antes que ele saltasse, uma moça desceu os degraus, correndo. — Você chegou, Harry! Eu estava preocupada, achando que tinha acontecido alguma coisa. — Foi uma viagem infernal, Aleta — respondeu o irmão. — Assim que parti, começou a falhar um dos cilindros. Depois, fiquei sem gasolina! — Deixe que Hitchen cuide do carro. Você está aqui, e é o que interessa. Harry tirou o capacete e os óculos protetores. O automóvel era um modelo 1910 sem capota, pelo qual pagara pouco, mas lhe dera dores de cabeça desde o primeiro dia. A irmã deu o braço a sir Harry e caminharam juntos para os degraus da entrada. — O chá está pronto. Se estiver com fome, pode comer um ovo quente. 9
  • 10. — Não, eu espero o jantar. Parece que está mais magra. O que andou fazendo? — Acho que ando muito preocupada: é preciso fazer uma porção de coisas na casa. — E podemos fazer? — Creio que não. — Tenho uma solução para acabar com essas preocupações em pouco tempo, mas acho que você não vai gostar. A irmã olhou-o, apreensiva. Harry jogou o capacete e os óculos numa cadeira e afastou os bonitos cabelos pretos da testa. Era um rapaz atraente e muito parecido com a irmã. Só que os olhos de Aleta eram cinzentos, e não azuis como os dele. — Diga logo qual é a solução, Harry. Depois, tenho más notícias para você. — Más notícias? — O teto da Sala das Tapeçarias está desabando. Ouvi um baru-lhão à noite e pensei que a casa ia cair. Não pode imaginar que caos ficou a sala! — É o terceiro desabamento neste mês. Devia ter mandado consertar. — Consertar? Com que dinheiro? — Era justamente disso que eu queria falar com você. Aleta observou-o, preocupada, enquanto o irmão entrava numa sala enorme, bonita, com uma parede envidraçada dando vista para o lago. Era um aposento agradável, cujos móveis estavam ali há gerações. Mas os tapetes tinham as marcas do tempo e as cortinas eram apenas uma pálida lembrança do cor-de-rosa original. Havia uma mesinha de chá junto da vidraça, com uma bandeja de prata e um serviço de chá com o brasão dos Wayte gravado. As peças, no entanto, não pertenciam todas ao mesmo período, pois as maiores e mais preciosas tinham sido vendidas há um mês. Aleta serviu uma xícara de chá para o irmão e disse: — Você falou que tinha uma… solução. Pelo tom de voz e a ansiedade nos olhos dela, ele percebeu que estava assustada. Disse depressa: — Não, não pretendo me desfazer da casa. Pelo menos, por enquanto. — Oh, Harry! Fiquei acordada a noite inteirinha, aflita. Não posso continuar parada, vendo a Kings Wayte cair aos pedaços! — É o que vamos acabar tendo que fazer, do jeito que as coisas vão. Como é que papai morreu deixando tantas dívidas? Era uma pergunta que já haviam feito a si mesmos milhares de vezes. Se bem que Aleta soubesse algumas respostas mais ou menos razoáveis, não se deu ao trabalho, de mencioná-las. Simplesmente, esperou que Harry continuasse. — O que vou dizer — começou ele, hesitante, pegando um sanduíche de pepino da bandeja à sua frente — pode deixar você chocada. Ao mesmo tempo, acho que vai ter que concordar em que é uma boa possibilidade. Aleta prendeu a respiração e não fez comentários. — Pensei em alugar a casa por um ano. Depois de um desagradável silêncio, Aleta disse, baixinho: — Alugar? Mas… para quem? — Um americano. — Como se achasse que isso a ajudaria a se sentir 10
  • 11. melhor, acrescentou depressa: — Foi Cosgrove quem sugeriu. Eu estava no clube, pensando se podia me permitir um drinque, quando ele comentou que tinha um cliente americano que quer vir morar aqui por um ano e exige uma casa grande e tradicional como a nossa. Parece que ele está querendo casar a filha com um duque. Cosgrove até ironizou, dizendo que era uma pena eu não ser marquês ou conde. — Harry fez uma pausa. Depois disse, indignado: — Tive vontade de dar um soco nele. Você o conhece. Esse tipo de piada é bem do gosto dele! Na verdade, Aleta nunca tinha visto Cosgrove, mas o irmão já lhe falara muito a seu respeito. Havia se arvorado em uma espécie de resolve-tudo e andava ganhando muito dinheiro com isso. Tinha servido no mesmo regimento de Harry, e, enquanto os outros soldados viviam sonhando com o que fariam quando a guerra terminasse, o capitão Charles Cosgrove já começara a ganhar fama de ser capaz de conseguir qualquer coisa que alguém encomendasse. Se um amigo queria um caçador de confiança, ele conhecia um; se alguém queria um carro baratíssimo ou caríssimo, Cosgrove arranjava. Corriam boatos de que tinha também os telefones de várias mulheres muito atraentes, mas esse tipo de informação Harry não havia dado à irmã. — Eu estava para dizer que não pretendia alugar Kings Wayte a ninguém, ainda menos para um americano, quando Cosgrove segredou que seu cliente estava disposto a pagar uma fortuna e que ele pretendia cobrar um aluguel de cinco mil libras por mês, mais os encargos pagos à parte. — Cinco mil libras?! — Aleta exclamou, espantada. — Impossível ele ter dito isso! — Disse, e eu logo me interessei. Explicou que esse Wardolf, o americano, é multimilionário, dono da metade das estradas de ferro da América e de tantos campos de petróleo que Cosgrove perdeu a conta! — Mas… cinco mil libras por mês!… — repetiu Aleta, num sussurro. — Achei que você ia ficar impressionada. E tem mais. — Mais o quê? — Parece que o americano não é casado e quer que a casa esteja em perfeito funcionamento para ele e a filha, quando chegarem. Pretendem aproveitar ao máximo essa temporada aqui e quer que providenciemos criadagem, cavalos, automóveis, jardineiro, enfim, todo o necessário para que uma propriedade como a nossa funcione perfeitamente. Aleta estava sem fala e ficou apenas olhando para o irmão, que continuava a fazer planos: — Não vai ser fácil. Temos apenas um mês para organizar tudo, porque ele chega no fim de maio. — Mas, Harry… — Eu sei, eu sei! E Cosgrove também sabe que não temos o dinheiro necessário para deixar a casa em ordem. Precisamos fazer consertos, pintar, comprar cortinas e tapetes novos para isto ficar decente. Tudo que Wardolf quer é se instalar aqui e dar fabulosas festas para apresentar a filha às pessoas certas… — Harry riu. — Cosgrove paga tudo, disso você pode ter certeza. — Mas… como podemos? É… impossível! — Pois temos que fazer o impossível, porque nós dois sabemos que não só as cinco mil libras por mês vão nos ajudar muito, como também as outras 11
  • 12. coisas. Por exemplo, teremos finalmente tapetes novos nesta sala. — Mas, Harry, onde vamos encontrar pedreiros, pintores e toda essa gente para fazer o trabalho em um mês? — Temos que encontrar. E digo mais: acho que devo ficar aqui, para supervisionarmos tudo juntos depois, quando a casa estiver alugada. — Você quer dizer… que vamos ficar aqui… com nossos inquilinos? Harry ficou em silêncio por alguns segundos. — Talvez não goste muito disso, Aleta, mas Cosgrove acha que é melhor nós dois tomarmos conta de tudo. Incógnitos, claro. — Não entendo. — Então, me deixe explicar direitinho: você pode administrar a casa e eu ajudarei. — Você disse… incógnitos. — É claro! Seria embaraçoso se o americano soubesse que somos os donos da propriedade. Ficaremos como criados dos donos e encarregados por eles de cuidar da propriedade. O único problema, então, é escolher nossos novos nomes. Aleta pôs-se de pé. — Acho que você ficou louco! Não podemos fazer isso! É melhor parar com essas idéias. E é impossível pôr a casa em ordem nesse tempo. Os lábios de Harry entreabriram-se num sorriso. — Não, se tivermos dinheiro ilimitado para gastar. — Ilimitado? — Foi o que Cosgrove disse. Acontece que ele está numa encrenca. Tentou todas as outras mansões de Londres que poderiam agradar a Wardolf e nenhuma delas está para alugar. Esta é a última esperança dele e o homem não está disposto a perder a comissão que vai ganhar se arranjar o que o americano quer. Por isso, ele nos ajudará de todo jeito, pode ficar certa disso. — Então, eu seria a… governanta! — Você sabe que não podemos contratar criados sem que haja alguém para organizar tudo, dar ordens. Isso era verdade, e Aleta ficou calada. As poucas velhas empregadas que restavam na casa não podiam ser mandadas embora e também não saberiam como agir com empregados e patrões estranhos, a não ser que ela estivesse por perto. Não se sentia mal por achar a posição de governanta vergonhosa, mas porque tudo aquilo parecia uma responsabilidade tão grande que a assustava. Havia tantos detalhes importantes que deviam ser cuidados! Sabia melhor do que Harry o estado da casa. Tinha ficado vazia durante a guerra, com apenas poucos empregados muito velhos. O pai deles passara a maior parte do tempo em Londres, tendo um vago emprego, que jamais fora claramente definido, no Departamento de Guerra. Morrera no ano anterior e ambos ficaram atordoados, ao descobrir a incrível soma de dinheiro que ele devia. Ao voltar da França, onde passara o último ano da guerra, Harry havia chorado ao ver o estado da casa, da estrebaria e do jardim. Para pagar os credores do pai, foram obrigados a vender várias das peças preciosas da família. Aleta sabia que isso partira o coração de Harry, não apenas por se 12
  • 13. desfazerem da metade da prataria antiga, um patrimônio há várias gerações, como também de alguns quadros. Agora, esse americano se instala em Kings Wayte, e Aleta se ressentia disso, apesar de saber que era tolice… — Você está mesmo… resolvido? — O que mais podemos fazer, a não ser vender outros quadros? Harry estava lutando para conservar retratos da família feitos por Reynolds e Lawrence, que ambos adoravam, mas a cada dia que passava tudo o que restava corria o risco de acabar num leilão. Foi a lembrança de um quadro de Gainsborough que fez Aleta se resolver. — Faço qualquer coisa por cinco mil libras! E não se esqueça de que vamos ter tudo consertado, tapeçarias e cortinas novas, sem gastar nada! — Temos que consertar a estrebaria também. Não se pode colocar sequer um cavalo lá dentro, com todos aqueles buracos no teto. — Eu sei… Harry tirou um papel do bolso e pôs em cima da mesa de chá. Aleta olhou. Era um cheque de mil libras. — Oh, Harry! — Isto é para as primeiras despesas. Cosgrove disse que todas as contas grandes, como as de consertos, reformas, móveis, decoração e tudo o mais devem ser mandadas para ele. Aleta arregalou os olhos. Começava a compreender o que aquilo significava e sentiu uma cálida onda de excitação ir crescendo em seu íntimo. — Não posso acreditar que isso é verdade! Acho que você está brincando. — É verdade, sim! Vamos poder pagar a maior parte das dívidas de papai e fazer os consertos que Kings Wayte está precisando tanto. Aleta foi sentar-se ao lado dele e passou os braços em volta de seu pescoço. — Temos que trabalhar feito escravos para conseguir que tudo fique pronto a tempo. Oh, Harry! Fiquei tão aflita, quando pensei que nossa última saída seria vender a casa e todas as terras que temos! — Para dizer a verdade, eu nunca teria coragem de fazer isso. Sei que falamos nessa possibilidade, mas estava fora de cogitação. Se eu vendesse nossa casa, não poderia encarar o filho que um dia vou ter. Havia lágrimas nos olhos de Aleta, mas ela sorria. — Nossa sorte está mudando — disse, animada. — A nuvem negra está indo embora e o sol já começa a brilhar. — Não posso fazer nada sem sua ajuda. — E é claro que vou ajudar você! Será até divertido, porque estaremos juntos. Mas temos que começar a trabalhar agora mesmo. — Foi isso que pensei. Por isso, parei na cidade, quando vinha para cá. Johnson disse que estaria aqui dentro de uma hora, no máximo. — Então, é melhor que ele já traga as ferramentas! — Aleta riu. — Vai precisar delas já! 13
  • 14. CAPÍTULO II Aleta suspirou profundamente e sentou-se no sofá. — Não posso mais! Se alguma coisa não estiver do jeito que eles gostam, só eles mesmos vão poder resolver! — Você foi maravilhosa! — disse Harry. — Quando falei a Johnson que ele e seus homens teriam uma gratificação, realmente fizeram milagres! — É, fizeram, sim… A casa está bem diferente. Relanceou os olhos pela sala de visitas. Tinha ficado muito mais bonita com o tapete e as cortinas novos. Gostaria que o pai a visse agora. O tapete era, na verdade, uma peça recuperada, um valioso persa que eles jamais poderiam sequer sonhar em comprar e que o capitão Cosgrove, daquele jeito miraculoso tão dele, providenciara. Aleta fizera arranjos de plantas e flores até mesmo nos cômodos que não tinham redecorado por falta de tempo. Os andares de cima tinham sido mexidos, também. Um grande número de quartos e salas estava apresentável, mas ainda havia muito trabalho a ser feito. O que não era de estranhar, já que Kings Wayte tinha cerca de trezentos cômodos. Johnson, o marceneiro e decorador local, contratara carpinteiros e pedreiros do condado inteiro. O grupo conseguira fazer um trabalho bem-feito, no tempo determinado, Johnson conhecia aquela mansão desde criança, adorava-a e cuidou dela como se fosse o verdadeiro herdeiro. Não só teria ficado profundamente ofendido, se chamassem gente de fora para os reparos e decoração, como o capitão Cosgrove tinha sugerido, como também ninguém trabalharia em Kings Wayte com sua dedicação e carinho. Aleta achara que os velhos criados da família deviam ter preferência por qualquer profissional vindo de Londres, que provavelmente olharia os antigos empregados com desprezo, podendo criar problemas. Chegou a fazer mais, apesar de Harry achar que não daria certo: não apenas contratou novamente os antigos criados, como também decidiu que a nova criadagem seria composta de moças dos arredores. — As mais velhas ensinam as novas, e vou estar aqui a fim de cuidar para que tudo saia bem. — Preferia que você se mantivesse afastada dos inquilinos o mais possível. Aleta riu do irmão. — Foi o que pensei, também… mas, talvez, não pelos mesmos motivos. — Acho isso importante, porque é muito moça e bonita demais. Não vou gostar, se esse americano se engraçar com você. Para resolver o problema, Aleta decidiu chamar a antiga governanta, que trabalhara em Kings Wayte durante quarenta anos. A princípio, Harry ficou horrorizado com a idéia. — A velha sra. Abbott? Acho que ela até já morreu! 14
  • 15. — Não, não morreu. Mora com a irmã, em St. Albans. Vou até lá, dizer-lhe que estou precisando muito da ajuda dela. — Deve estar com uns cem anos, agora! Aliás, quando nós éramos crianças, eu já achava que ela estava com essa idade. — Deve ter uns oitenta — admitiu Aleta. — Mas, se ainda conseguir andar, quero que venha para cá. Então, os americanos darão as ordens a ela, que as transmitirá para mim. Afinal, Harry acabou concordando, porque não queria ter mais problemas. Já estava bastante sobrecarregado de responsabilidade com os consertos da estrebaria e a missão de contratar cavalariços e motoristas. — Quatro motoristas! Para que será que precisam de tantos assim? — Os muito ricos estão sempre prontos a esbanjar — respondeu Charles Cosgrove. — Na América, Wardolf tem um trem particular, uma frota de automóveis, lanchas, iates e um avião sempre pronto para levá-lo a qualquer lugar do mundo aonde cisme de ir, a qualquer momento. — Ninguém pode ser tão rico assim! Mas Cosgrove riu. — Vocês não podem se gabar de estar nas mesmas condições dele, mas têm uma coisa que Cornelius Wardolf jamais terá. — O quê? — perguntou Aleta, curiosa. — Uma casa que não apenas é um perfeito monumento arquitetônico, como também representa uma árvore genealógica de deixá-lo verde de inveja. Todos riram, mas Aleta, pensando no assunto mais tarde, achou que o capitão Cosgrove tinha toda a razão. Dinheiro algum podia comprar a história de sua família. Dinheiro algum podia comprar uma casa como Kings Wayte, com aquela atmosfera, com seus fantasmas e com a amadurecida beleza dos séculos. Adoro esta casa, disse a si mesma, olhando o pôr-do-sol no lago. Tinha certeza de que nenhum outro lugar seria tão perfeito, que jamais se sentiria parte de qualquer outro lugar do mundo. Nenhum sacrifício que Harry e ela fizessem para manter a propriedade seria demais. Sabia que devia ser grata, humildemente grata, ao sr. Cornelius Wardolf por ela e o irmão não precisarem se preocupar com o futuro, pelo menos durante um ano. Desde a morte do pai, havia compreendido que estavam travando uma luta sem esperança e que a derrota era inevitável. E então, como um céu azul começando a aparecer por entre pesadas nuvens, a cada prego que os operários enfiavam na madeira da antiga mansão, a cada telha que recolocavam no teto, a cada vidraça que repunham no lugar, crescia mais a frágil esperança dentro dela. Talvez agora pudessem voltar a morar tranqüilamente em Kings Wayte, sem o medo de vê-la cair aos pedaços, em ruínas, como estava começando a acontecer um mês antes. — Obrigada, muito obrigada, meu Deus — dizia todas as manhãs, quando se levantava, muito cedo, para começar a trabalhar. Dizia as mesmas palavras antes de se deitar, exausta, depois de ter feito suas preces. — A que horas eles vão chegar? — perguntou a Harry, olhando o relógio em cima da lareira, que funcionava pela primeira vez, desde que a guerra começara. — Daqui a uma hora, mais ou menos. Precisa de mais alguma coisa para 15
  • 16. nossos quartos? Se precisar, posso providenciar para você. — Acho que já está tudo em ordem. Quando haviam compreendido que teriam de desocupar seus quartos, tinham conversado para resolver onde dormiriam. Aleta não podia ficar nas dependências dos empregados e teve a brilhante idéia de reabrir os quatros que ocupavam quando crianças, no terceiro andar. — Vai ser até divertido dormir onde dormíamos quando éramos pequenos. Além disso, são quartos bem familiares e não vamos nos sentir como estranhos em nossa própria casa. Harry concordara, mas sem se mostrar muito interessado. Aleta sabia que, sem dúvida, passaria várias horas sozinha. Seria muito reconfortante poder sentar-se no salão de brinquedos, diante da lareira com guarda-fogo de bronze, na cadeira preferida da pajem, olhando o painel cheio de decalcomanias e cartões de Natal. Isso a ajudaria a ter coragem e disposição para a situação que tinha que enfrentar. Havia levado para lá tudo o que não queria que as outras pessoas tocassem; coisas que haviam sido de sua mãe e os livros preferidos do pai. O que mais sentia era deixar a enorme biblioteca. Mesmo durante a guerra, insistira em que os criados mantivessem a biblioteca aberta e sempre muito limpa. De vez em quando, costumava procurar um ou outro livro numa das muitas estantes que iam do chão ao teto. Depois, sentava-se com o livro escolhido numa poltrona perto de uma das janelas e se esquecia da vida, lendo. De qualquer modo, pensou, posso pegar o livro que quiser, quando quiser, porque ninguém vai reparar. Mas não será a mesma coisa que estar sentada na biblioteca, onde sempre fiquei, sabendo que, se não gostar do livro que peguei, posso escolher entre milhares de outros. Mas isso era o de menos. Valia a pena ver como a velha mansão estava bonita com as cortinas novas, com grossos tapetes, os móveis estofados, sem o tecido puído e remendado. Charles Cosgrove tivera a brilhante idéia de ir a lojas de leilão e comprar cortinas que, se bem que um tanto usadas, eram bastante aproveitáveis e vistosas. — Muita gente foi vendendo o que tinha durante a guerra — tinha explicado. — Por isso, podem-se comprar cortinas muito boas e móveis de estilo a bons preços. — Quem costuma comprar essas coisas? — perguntou Aleta. O capitão Cosgrove riu um tanto cinicamente. — Preciso, responder? Os americanos estão comprando a Europa toda. Ouvi dizer que o duque de Westminster, que é o mais rico dos nossos duques, está vendendo seu Menino Azul. — Ah, não! Como pode fazer isso? Esse quadro pertence à Inglaterra. Ele não tem o direito de mandá-lo para o outro lado do Atlântico. O capitão Cosgrove deu de ombros. — Acho que ele precisa de dinheiro, como qualquer outra pessoa. Se a senhorita não tivesse insistido em dar o trabalho a pessoas daqui, eu teria um bom número de ex-oficiais que ficariam muito felizes em vir trabalhar para esses novos-ricos. 16
  • 17. — Está assim tão difícil conseguir emprego? — Quase impossível! E todos que empregaram suas economias em granjas, sítios ou coisas parecidas, perderam tudo. Se eu quisesse ter mil homens trabalhando para mim, era só estalar os dedos. Essas palavras fizeram Aleta pensar se o homem com quem tinha conversado há mais de um ano, no templo da praça Berkeley, teria ou não arranjado o emprego que procurava. Nunca se esqueceria daquela noite estranha, encantada, quando havia sido beijada pela primeira vez na vida e ouvira rouxinóis cantando entre as árvores, lá fora. Parecia um sonho lindo, do qual não acordara de repente, mas que fora esmaecendo lentamente, sem jamais se apagar completamente, sem ser esquecido. Ainda se lembrava, palavra por palavra, de toda a conversa com aquele homem cujo rosto nunca tinha visto. Imaginou, mais uma vez, como ele seria. Sabia, com certeza, que tinha uma voz profunda e agradável, era alto e forte, de ombros largos. Achava que devia ser moreno e bonito. Estava contente por ele não ter podido vê-la também. Tinha dito que a voz dela era simpática, atraente, e que, portanto, ela devia ser assim. Se a visse, Aleta achava que ficaria decepcionado. Às vezes olhava-se no espelho e ficava imaginando o quanto mudara, desde aquela noite em que, perdida, nervosa e muito insegura, havia fugido do salão de seu primeiro baile e encontrado, num pequeno templo de jardim, aquela magia inesquecível. Como poderia saber, como adivinhar, que uma aventura assim estaria à sua espera? Depois do que o estranho lhe havia dito, tudo mudara. Tinha voltado para o salão de baile com um sorriso nos lábios e dançado muito, até a madrinha dizer que era hora de irem embora. Depois disso, não foi difícil se acostumar com a vida em sociedade. Às vezes tinha a impressão de que estava num barquinho perdido e que o homem do templo a livrava da tempestade, mostrando-lhe que era capaz de governá-lo perfeitamente bem. Mas não teve muito tempo para conhecer tudo o que Londres podia oferecer. Um mês depois do baile na praça Berkeley, recebeu um telegrama de casa, avisando que o pai estava doente. Correu para Kings Wayte, e um só olhar para o pai lhe deu a certeza de que estava mesmo muito doente. Avisou Harry imediatamente. Sir Hugo havia apanhado a gripe virulenta que assolava a Europa e ceifava mais vidas do que a própria guerra. Em seu caso, a gripe provocou uma pneumonia que foi fatal. Só então Aleta e Harry ficaram a par de sua verdadeira situação financeira. Daí em diante, nunca mais tiveram oportunidades de ir a bailes ou festas. Os dois irmãos travaram uma luta desesperada para sobreviver e não perder o que ainda lhes restava. Era preciso pagar os criados que iam parar de trabalhar, assim como os que iam ficar, pois só tinham Kings Wayte para morar. Havia, principalmente, as pesadas dívidas do pai. Muitas vezes Harry se desesperou: — Não adianta! Que tudo vá para o inferno! 17
  • 18. Precisaram vender muita coisa, e a cada quadro que era tirado da parede, a cada peça de prata retirada da baixela, parecia a Aleta que lhe arrancavam um pedacinho do próprio corpo. Sabia a história de tudo o que havia na casa, parecia que laços especiais a ligavam aos objetos, e tinha certeza de que Harry sofria do mesmo jeito. Quando os quadros foram recolhidos pelo leiloeiro, Harry saiu de casa muito cedo e não voltou antes do anoitecer. Foi Aleta que os viu irem embora, num carro que atravessou a ponte de pedra tão necessitada de consertos e seguiu o caminho esburacado, saltando como doido ao passar pelos buracos. — O que mais irá embora? O que mais? — perguntou a si mesma. Agora, Aleta pensava que, pelo menos durante um ano, não haveria perigo de ter que se fazer tais perguntas. — Você parece muito cansada — disse Harry, solícito. — Vou preparar uma bebida. O que quer? — Se eu tomar bebida alcoólica, vou ficar tonta. Nenhum de nós comeu nada, hoje. — É mesmo! Eu nem pensei nisso. Estive tão ocupado! — Levantou-se, dando uma gargalhada. — Tive uma idéia! — O quê? — Você e eu vamos aceitar a hospitalidade de nosso patrão, abrindo uma garrafa do excelente champanhe dele! — Harry, não pode fazer isso! — Mas vou fazer. E se acha desonesto, peço que se lembre de que carreguei uma porção de caixotes de bebida lá para baixo, que estou ganhando um ordenado indigno de um simples operário e que o que fiz vale mais do que uma garrafa de champanhe! Saiu da sala antes que Aleta pudesse dizer qualquer coisa. A moça recostou-se no estofamento novo, de cetim, e pensou que jamais se sentira tão cansada em toda sua vida. Antes, quando cavalgava em companhia do pai, ficava bastante fatigada, mas não daquele jeito, sentindo doerem todos os músculos do corpo e com a impressão de que a cabeça ia estourar. Sabia que isso era porque, aquele tempo todo, exigia de si mesma um esforço contínuo, quase que de vinte e quatro horas por dia, do mesmo modo que Harry. Kings Wayte tinha que recuperar a dignidade e beleza do tempo de seu avô. Infelizmente, ele não tivera dinheiro suficiente para levar uma vida em grande estilo, digna daquela impressionante mansão da família, mas a esposa dele tinha renda própria. Quando faleceu, o dinheiro dela foi dividido entre a família. Daí por diante, a propriedade entrou em decadência, acabando de um modo triste. Aleta era obrigada a reconhecer que o pai não havia feito esforço algum para evitar aquela decadência. Simplesmente foi gastando o que precisava para viver, deixando que os filhos se arranjassem, depois de sua morte. Bem, afinal de contas, ele aproveitou, pensou Aleta. E Harry também vai aproveitar; pelo menos, durante um ano. Sabia que o que mais agradava ao irmão naquilo tudo era restaurar as cocheiras e comprar novos cavalos. 18
  • 19. — O sr. Wardolf gosta de cavalgar? — perguntara a Charles Cosgrove. — Não sei. Mas tenho certeza de que ele quer participar completamente do modo de vida inglês e, você sabe, os cavalos estão incluídos nisso. Não foi preciso insistir para que Harry cuidasse das cocheiras, e Aleta sabia que, se surgisse uma oportunidade, também treinaria os cavalos em corridas e saltos de obstáculos pelo parque. — Hoje gastei uma fortuna — tinha dito ele, ao voltar das compras em Tattersall. — Cosgrove pagou tudo sem piscar! — Só espero que o sr. Wardolf não pisque! — comentou Aleta, com uma pontinha de medo na voz. — Imagine só, Harry, se ele não gostar das coisas que compramos e se recusar a pagar? — O problema seria de Cosgrove, não nosso. Pare de se preocupar. Se quer saber, acho que. ele vai reclamar por não termos feito extravagâncias. Foi o captião Cosgrove que apontou uma falha, em uma de suas rápidas visitas a Kings Wayte. — Há uma coisa da qual os americanos, na certa, sentirão muita falta — disse, ao examinar as reformas da mansão. — O quê? — perguntou Harry. — Uma piscina. Por instantes, os irmãos ficaram parados, como se não entendessem. Afinal, Harry arriscou: — Eles acham, mesmo, uma piscina muito necessária? — Os americanos adoram nadar. Também tenho medo de que ele ache pouco a duas banheiras que vocês têm aqui. Não duvido de que mande construir outras, assim que chegar. — Espero que não… — suspirou Harry. — Já estamos cansados de ver pedreiros fazerem desordens na casa! — Os americanos são um povo muito limpo… — disse o capitão Cosgrove, com uma careta. — Mas quem é que usa piscina?! — Todos eles! Inclusive o pessoal que costuma ir a festas, ou dar festas, em Hollywood. Essas festas sempre com gente toda vestida dentro das piscinas. — Tenho impressão de que esse não é um jeito muito agradável de se divertir — comentou Aleta, com frieza. — Espero que não dêem esse tipo de festa por aqui — disse Harry. — Se estragarem alguma coisa, vão ter que pagar. — Isso já está no acordo — explicou o capitão Cosgrove. — Incluí uma cláusula a respeito, no contrato. Aliás, se quiserem, podem obrigá-lo a pagar por tudo o que estragar na casa. Harry percebera que Aleta ia protestar; por isso tratou de dizer, depressa: — Está bem. Sei que podemos confiar em você, Charles, que está cuidando bem dos nossos interesses. — Espero ter feito isso do melhor modo possível. Quando ele saiu, Aleta disse ao irmão: — Sei que está sendo muito amável, mas não consigo gostar do capitão Cosgrove. Há alguma coisa nele que me dá a impressão de que só pensa em dinheiro. — E com toda razão. Ele não afundou, está conseguindo sobreviver, mas 19
  • 20. muitos de nossos companheiros de regimento não tiveram essa chance. Benson matou-se com um tiro, na semana passada. — Oh, não! — Ele não conseguiu arranjar emprego e a mulher o abandonou. Benson sempre foi sensível demais, quase histérico. — Está tudo errado… é tão cruel! Esses homens que lutaram por sua pátria agora estão sem dinheiro e sem possibilidade de ganhar para viver. O governo tinha que fazer alguma coisa por eles! Era o grito que os jornais lançavam todos os dias, mas que ninguém parecia ouvir. Se bem que fosse difícil de acreditar, Aleta sabia que havia desemprego no país inteiro. Vai ver que até vamos ter que ficar agradecidos aos americanos, pensou, amargurada. Ao mesmo tempo, parecia-lhe intrigante que, apesar de eles também terem sofrido a guerra, saíssem dela mais ricos do que quando haviam entrado. Harry voltou com o champanhe e tomaram uma taça. — Agora, acho que vou subir. Não quero que o sr. Wardolf chegue e me encontre sentada aqui. — Claro que não! — concordou Harry. — Também vou subir num minuto. Aleta saiu da sala para o hall e viu dois criados usando a libre da Casa Wayte, com grandes botões prateados, muito dignos, de pé aos lados da porta de entrada. Sorriram para ela de modo familiar, porque eram rapazes da cidade. Tinham sido treinados pelo velho Barlow, mordomo de Kings Wayte antes da guerra e que, apesar de quase com setenta e cinco anos, ficara encantado por voltar ao trabalho. — Pode deixar tudo comigo, srta. Aleta — dissera. — Vou pôr esses dois rapazes trabalhando direitinho e não teremos com eles os problemas que teríamos com londrinos. Jamais gostei dos criados que tivemos em Londres. Era uma referência ao tempo do avô de Aleta, quando existia uma mansão Wayte em Curzon Street. Essa casa tinha sido vendida anos antes e transformada em sede de um clube. — Vejo que estão prontos para receber o sr. Wardolf — disse Aleta aos criados, dirigindo-se para a escada. — Isso mesmo, senhorita -: responderam ao mesmo tempo. — Não se esqueçam: haja o que houver, não devem se referir a mim ou ao sr. Harry por nossos verdadeiros nomes. Somos o sr. e srta. Dunstan, caso alguém lhes pergunte. Mas é melhor que não digam nada, a não ser que sejam obrigados. — Nós entendemos, senhorita — responderam os homens, novamente em coro, e Aleta subiu a escada. Tinham levado algum tempo para escolher o nome falso. A maioria dos citados parecia muito comum para o gosto de Aleta ou ridículo demais para o gosto de Harry. Afinal concordaram em adotar o primeiro sobrenome que aparecesse num livro apanhado a esmo na biblioteca, desde que lhes parecesse adequado. O nome era Dunstan. — Este serve — disse Harry. — Soa bem classe média, o que pretendemos dar a impressão de ser. 20
  • 21. Aleta riu. — Garanto que você não dá essa impressão! Achava que Harry não apenas tinha porte muito aristocrático, como também era bonito demais, principalmente usando roupas de montaria. Como estava realmente muito cansada, subiu devagar a escada estreita que levava ao segundo andar e, depois, ao terceiro. A sala dos antigos aposentos infantis estava bem mais confortável e bonita, com os móveis trazidos do andar de baixo e as cortinas e estofamentos novos que o capitão Cosgrove insistira em comprar. — Se vocês não estiverem bem acomodados — explicou a Aleta, quando ela tentou recusar —, não vão poder trabalhar direito, e isso será desastroso em todos os sentidos. Sentia-se um tanto culpada por explorar seus inquilinos-patrões, mas a verdade era que o tecido alegre das cortinas e estofados tornava a sala bem mais atraente e acolhedora. Tinha colocado um enorme jarro com rosas na mesa do centro e um vaso com esporinhas brancas e azuis numa mesinha de canto. — Do lar para o lar! — disse Aleta, brincando, ao entrar na sala. — E agora, srta. Dunstan, lembre-se de que é preciso ser uma empregada eficiente. Atravessou a sala em direção a uma das janelas que davam para a frente da casa. Por momentos, viu apenas o brilho dourado das águas do lago ao sol da tarde, e, como sempre, seu pensamento voou para os contos de fadas que adorava quando era criança. De repente, notou que um carro enorme, reluzente, estava chegando, acompanhado por outros seis. — São eles! — imaginou, apreensiva, se Harry teria tempo de sumir da sala de visitas com a garrafa de champanhe vazia. Achou que ele conseguiria. Ficou observando, um tanto nervosa, os carros passarem pela ponte e depois entrarem no pátio, bem embaixo de onde estava. O sr. Wardolf realmente viajava em grande estilo! Por momentos, sentiu um irrefreável ressentimento por ele ser rico e americano. Depois, repreendeu-se por agir de modo infantil. Devia ser grata a ele, muito, mesmo! Estava ajudando não apenas aos dois, como a todos ali. Pessoas como o velho Barlow e a sra. Abbott iam ganhar os melhores ordenados de toda sua vida! Esticando o pescoço, viu que o primeiro carro já havia parado diante da porta principal. Dois criados se aproximaram. Um abriu a porta e o outro ficou de lado, para ajudar os passageiros a descerem. A primeira pessoa a sair foi uma mulher. Embora não pudesse ver bem as feições, Aleta notou que era magra e elegante. Imaginou se seria a filha do sr. Wardolf, a tal que devia casar com um duque. — Como é o nome dela? — tinha perguntado a Charles Cosgrove. — Lucy-May. — Dois nomes? — Não exatamente. São unidos por hífen. 21
  • 22. — Que engraçado! — Os americanos costumam usar nomes assim. Geralmente, significa que a mãe queria um nome, e o pai, outro, e que acabaram entrando em acordo. — Imagine, então, se os avós tivessem outras preferências. — Aí, os nomes que eles preferissem seriam incorporados de algum jeito… Eles adoram nomes pomposos. O sr. Wardolf é um americano típico. Chama-se Cornelius Fiske Wardolf Júnior. — Júnior? — Como o pai também se chamava Cornelius, ele teve que ser Cornelius Wardolf Júnior. Por mais estranho que pareça, mesmo depois que o pai morreu, continuou conservando o Júnior. — Coisa mais complicada! Essa deve ser Lucy-May, pensou ela, então. Viu um homem alto, de cabelos grisalhos, sair do carro logo depois da moça e apertar as mãos dos dois criados. Aleta riu baixinho, imaginando a surpresa dos empregados, que, naturalmente, nem sonhavam com uma coisa daquelas. O primeiro carro já se afastava, e parecia que um pequeno exército de jovens descia dos outros. Interessadíssima, Aleta abriu a janela e ouviu as vozes, bastante altas e animadas, enquanto eles subiam a escada que dava para a casa. Tinham se preparado para um grupo e, de fato, um grande grupo acabara de chegar. Começou a se preocupar, pensando se tudo estaria em ordem, se nada tinha sido esquecido. Bem, fosse como fosse, já não podia fazer mais nada. O jeito, agora, era sentar-se e ficar esperando que os problemas, se houvesse algum, fossem levados até ela. Cavalgando pelo parque, Harry pensava que tudo parecia correr muito bem. Tinha decidido, com Charles Cosgrove, que seria melhor apresentar-se como administrador da propriedade e dizer ao sr. Wardolf que tudo que quisesse, mesmo fora da casa, devia ser solicitado a ele. Cornelius Wardolf fora apresentado a Harry uma hora depois de chegar a Kings Wayte. — Quero apertar sua mão, sr. Dunstan, e dizer que estou maravilhado com a magnífica mansão que o capitão Cosgrove conseguiu para mim. — Fico satisfeito em saber que gosta dela, senhor. — O capitão me fez um resumo da história local. Disse que, se eu quisesse saber de mais alguma coisa a respeito, era só perguntai ao senhor. Espero que, quando tiver tempo, me conte tudo sobre este lugar lindíssimo. — Farei o melhor que puder — respondeu Harry, imaginando de que jeito poderia condensar cerca de quatro séculos de história. — Agora, gostaria de saber o que foi organizado para divertimento de meus hóspedes. — O americano sentou-se. — Sente-se, rapaz, e fume, se quiser. É melhor deixarmos a cerimônia de lado, já que vamos trabalhar juntos. — Obrigado, senhor. Harry gostou do homem à primeira vista. Devia estar beirando os cinqüenta anos e tinha um ar de quem sabe muito bem o que quer da vida e 22
  • 23. não recua diante de obstáculos. Falou rapidamente dos cavalos e charretes. O sr. Wardolf ouviu com atenção e perguntou: — Salão de baile? Por instantes, Harry não entendeu. — Ah, está querendo saber se temos um? Sim, claro. Temos um enorme salão de baile, com o soalho bem encerado e tudo o mais em ordem. — Isso é ótimo! Vamos dar um baile nos próximos dias. Onde posso conseguir uma lista do pessoal daqui para convidar? Harry pareceu surpreso. — Pretende convidar os vizinhos, senhor? — Por que não? Acho que é o melhor modo de conhecê-los. Harry hesitou. Sabia que as famílias do condado achariam aquilo esquisito: um estranho nao devia convidá-los, antes de ser convidado pelos habitantes locais. Depois, disse a si mesmo que estava sendo antiquado demais. Tinha certeza de que os jovens, pelo menos, ficariam encantados com o convite para um baile em Kings Wayte, e as regras de etiqueta, na certa, não os impediriam de comparecer em peso. — Entrego-lhe uma lista amanhã de manhã, senhor. — Obrigado. Acho que pode também arranjar alguém que mande os convites, não? Imediatamente Harry pensou que Aleta poderia muito bem cuidar disso e concordou. — Bom! Muito bom! — disse o sr. Wardolf. — Quero uma orquestra, a melhor, mesmo que tenha que mandar vir de Londres. Se o cozinheiro daqui não puder atender às necessidades para fazer um grande banquete, teremos que providenciar ajudantes. — Quer que eu cuide disso, senhor? — Claro que sim! Meu secretário deve chegar amanhã ou depois, mas vai estar muito ocupado, cuidando de vários negócios que tenho em Londres. Enquanto isso, gostaria que providenciasse tudo para mim. — Pois não. Essa era uma coisa pela qual Harry não esperava; Cosgrove devia tê-lo avisado. No entanto, não se tratava de nada de que não pudesse dar conta, e quando contou a Aleta, ela simplesmente sorriu. — Então, ele não se queixou de nada e está planejando dar um baile em Kings Wayte! Que maravilha! Está aí uma coisa que eu sempre quis ver! — Está aí uma coisa que você não vai ver — respondeu Harry, depressa. — Nós dois temos que tomar cuidado para não sermos vistos pelos vizinhos, senão seremos descobertos e desmascarados. — Sim, claro… É isso mesmo. Mas seria gostoso dançar no salão de baile, onde nunca mais houve uma festa, desde antes de eu nascer. — Papai e mamãe não pensavam em bailes. Mas me lembro de que davam muitos jantares. — Isso é diferente, um baile é uma coisa especial. Pensou em seu primeiro baile, aquele na praça Berkeley, com as mulheres de vestidos compridos, justos na cintura, e com saias muito rodadas, dançando no enorme salão. 23
  • 24. Agora os vestidos eram curtos e Charles Cosgrove lhe havia dito que existiam novas danças. Ainda bem que não ia a esse baile. Iria se sentir terrivelmente fora de moda. Imaginou se o homem que falara com ela no templo da praça Berkeley ainda costumava ir dançar em Londres e se pensava nela como ela pensava nele. Talvez nunca mais tivesse lembrado de sua existência, depois de se separarem, apesar de a ter beijado. Um arrepio percorreu seu corpo. Mesmo agora, passados dois anos, ainda sentia o calor daquele beijo que parecera transportá-la até as estrelas, fazendo-a tornar-se parte da beleza da noite e ouvir o canto de rouxinóis. Harry passou o braço por seus ombros. — Parece que você ficou triste… Sei que gostaria de ir ao baile. Claro que eu também gostaria que fosse, mas sabe que é impossível. — Lógico que é. Mas também vai ser divertido ouvir a música e saber que Kings Wayte está viva de novo. — Você tem que ficar completamente fora disso — disse Harry, com firmeza. — Ah! Antes que me esqueça, sente-se aí e faça a lista das pessoas que Wardolf deve convidar. Acho que lembra de todos, não? Eu fiquei muito tempo fora e acho que esqueci os nomes de muitos de nossos conhecidos. — Uma porção deles se mudou. Ou morreu na guerra. Enquanto falava, ela pensava nas crianças que costumavam ir às festas em Kings Wayte e nas festas a que tinha ido com a mãe. Era tão excitante ir na carruagem fechada, com um xale de lã sobre o vestido de festa, os cabelos presos em duas grossas tranças. Podia até ouvir o barulho das patas dos cavalos nas alamedas próximas às casas enormes, com todas as janelas iluminadas. Lá dentro, encontrava as crianças que conhecia desde pequenina. Brincavam de “dança das cadeiras”, “céu-inferno”, e às vezes havia prendas que os meninos tinham vergonha de entregar. Depois, um delicioso chá com torradas, bolachas e geléias. Quando voltava para casa, em geral adormecia na carruagem, com os braços da mãe a ampará-la, carinhosos. Muitos dos rapazes daquela época deviam ter perdido a vida em Flandres… Ou muitos, como o vizinho mais próximo, estavam aleijados pelos ferimentos. Seria uma grosseria convidá-los, num caso desses. De repente, um pensamento lhe ocorreu. — Não sou só eu que não posso ir ao baile, Harry — disse ela. — Você também não pode. É pena… Dança tão bem! — Podemos dançar aqui em cima — respondeu Harry. — Ou melhor, podemos ir dançar numa das salas que não estão sendo usadas, de onde se ouça bem a música. Aleta bateu palmas, entusiasmada. — Harry, você é formidável! Adorei a idéia, e não poderia conse guir par melhor! Só que vai ter que me ensinar o shimmy. — Não tenho certeza de saber essa dança direito… — Mas já dançou, não? — Já. Só que continuo preferindo o foxtrote. — Garanto que os hóspedes do sr. Wardolf sabem todas essas danças 24
  • 25. novas. Se a gente pudesse dar uma espiada, iríamos aprender como se faz. — Não, Aleta. E não adianta choramingar, implorar! Sabe muito bem que não podemos nos arriscar a ser vistos. — Sei, é claro… Só estava brincando. Mesmo que eu fosse convidada para o baile, como a Cinderela, não teria o que vestir. — É a melhor coisa que ouvi até agora. Porque assim tenho certeza de que não vai ser tentada a aparecer, de modo algum. Ele estava caçoando, e Aleta lhe atirou uma almofada. Harry apanhou-a no ar e colocou de volta no sofá. — Cuidado, menina, esses móveis e estofados novos vão durar a vida toda… — A não ser que você case com uma herdeira riquíssima, como Lucy-May. Harry deu uma risada. — Confesso que também pensei nisso, mas cheguei atrasado. — Atrasado, como? — Ela está prestes a agarrar um duque. O sr. Wardolf me contou, agora há pouco. — Contou o quê? — Ele disse: “Quero que você tenha certeza, meu rapaz, de que tudo está preparado para receber bem o duque de Stadhampton, que vai chegar amanhã. Acho que seus criados sabem como tratar um duque, não? Cuide para que ele seja tratado com toda a atenção e tenha tudo o que quiser”. Depois me perguntou se a família do duque era muito antiga. Contei que os Stadhampton são uma das famílias mais tradicionais da Inglaterra. Ele ficou muito contente com a informação e confessou que queria que o duque casasse com a filha. — Verdade? Ele falou isso? Deve estar impressionadíssímo com o duque. — Está, sim. Não tenho a menor chance de entrar em competição. — Como é ela? — Ainda não a vi. Acho que se parece com todas as moças americanas: alegre, entusiasta, um tanto impulsiva e sonhando com um título de nobreza. No momento, os duques são os preferidos das americanas, os ingleses mais do que os franceses. Aleta deu uma risada. — Você fala como se eles estivessem fazendo uma compra, um negócio. — E é isso mesmo! O preço, aliás, é sempre muito alto. Outro dia me contaram o dote que os Vanderbilt deram à filha, que casou com o duque de Marlborough. Esqueci quanto foi, exatamente, mas trata-se de uma fortuna astronômica! Aleta fez uma careta. — Acho degradante alguém vender o título. E mais: vender a si mesmo. — Bem, garanto que isso não vai acontecer com você ou comigo, Aleta. E se quer saber a verdade, não quero, por mais pobre que fique, ter uma mulher rica que me lembre a todo instante que é com o dinheiro dela que compro tudo o que tenho. — Não posso nem imaginar isso acontecendo com você. Ao mesmo tempo, pelo bem dela, espero que a mulher com quem você casar tenha pelo menos dinheiro para a compra de alguns vestidos… — Isso é diferente — disse o irmão, ríspido. — É ótimo para uma mulher 25
  • 26. ter dinheiro para os alfinetes. No entanto, qualquer coisa mais do que isso faria com que eu me sentisse humilhado, e não tenho a mínima intenção de um dia me sentir assim. — Não, claro que não! Mas tenho certeza de uma coisa, Harry: qualquer mulher o amaria por você mesmo. É o homem mais bonito que já vi! Beijou o irmão no rosto e ele se afastou, dizendo, com ar embaraçado: — É melhor eu descer e ver se tudo está em ordem, se bem que acho que o Barlow pode se sair perfeitamente bem. — Também acho. Do mesmo jeito que confio na sra. Abbott. Mais tarde vou até o quarto dela para saber as novidades. Garanto que vai me contar direitinho como Lucy-May é. A sra. Abbott sabe julgar as mulheres muito bem. — Como Barlow sabe julgar os homens. Ele está sempre dizendo que perfeito cavalheiro era o vovô, e acho que não pensa o mesmo de mim… Aleta, riu, e Harry pensava agora naquele riso da irmã, enquanto cavalgava pela propriedade. Fez o cavalo diminuir o passo. Aleta havia sido maravilhosa em tudo. Se não tivesse cooperado, ele não poderia estar, naquele momento, mantendo um dos melhores cavalos que já vira na vida e pelo qual faria qualquer sacrifício… se pudesse tê-lo. Cavalgava devagar. Não tinha pressa de chegar à estrebaria, pois sabia que uma porção de coisas a resolver estariam à sua espera. Como fazia o papel de administrador, tomara posse do escritório do andar térreo, que ficava na ala da casa e não era usado desde o tempo do avô. Seu pai havia aposentado o velho administrador e não o substituíra, se bem que vivesse dizendo que ia fazer isso. Então, a guerra começou, faltou dinheiro para pagar um administrador e, na verdade, não havia muito para um empregado desse nível fazer ali. O escritório ficara lá, com seus enormes arquivos, mapas de propriedade e da região e uma impressionante escrivaninha. — Vai servir para parecer que estou trabalhando — disse Harry, ao vê-la. Mas não precisou fingir. Estava trabalhando mesmo. E muito. Até que era divertido. Melhor do que ficar sentado, sentindo-se infeliz, imaginando quando poderia comprar o próximo pedaço de pão. Sentia-se como Aleta, em relação à casa, e achava que qualquer sacrifício valia a pena, desde que Kings Wayte continuasse pertencendo aos dois, como ambos pertenciam à mansão. Tivemos muita sorte, pensou. Seus olhos passaram da fachada da casa para o imenso jardim, que tinha ficado muito tempo abandonado, mas que agora recuperava a beleza do passado. A grama e os arbustos ao redor do lago estavam precisando de uma boa poda, notou, se bem que a vegetação, refletindo-se nas águas, era muito pitoresca: Então, um movimento no meio do lago chamou-lhe a atenção. Pensou que devia ser uma lontra. Havia tanto tempo que não via uma! Fez o cavalo seguir na direção da água. Quando se aproximou, percebeu que não era uma lontra, mas uma pessoa nadando. Ficou surpreso. Foi até a margem e esperou. A cabeça do nadador emergiu e Harry verificou, atônito, que era uma mulher. 26
  • 27. Ela também o viu, sorriu e. com rápidas e vigorosas braçadas, aproximou- se. — Olá! Quem é você? — perguntou, saindo da água. Para maior espanto de Harry, ela usava um maiô preto, sem saiote, que lhe pareceu ousado demais e muito revelador. Na verdade, estava chocado. A moça caminhou pela grama, até chegar perto do cavalo. Parou e tirou a touca preta de borracha. Os cabelos curtos, fartos, eram ondulados e de um ruivo escuro. Da cor que os pintores venezianos usavam tanto em seus quadros. Ela o encarou e percebeu que o rapaz a observava com ar estupefato. — Perguntei quem é você. Sou Lucy-May Wardolf, se é que lhe interessa saber. Foi com dificuldade que Harry desmontou e disse: — Bom dia, srta. Wardolf. Sou o administrador da propriedade… Harry Dunstan. Sem se perturbar nem um pouco com o fato de o maio molhado grudar-se ao corpo esguio, marcando as linhas suaves da silhueta atraente, a moça estendeu a mão. — Prazer em conhecê-lo. Papai me contou que havia um administrador cuidando de tudo e que o achava muito eficiente. Vindo de meu pai, é um grande elogio! — Fico satisfeito com isso. A senhorita sempre nada desse jeito? — Preferi o nado mais convencional por ser mais rápido, apesar de não ser o mais elegante e bonito. Harry sorriu. — Faz muito tempo que não vejo ninguém nadando nesse lago. Desde meus tempos de garoto. Depois de falar, achou que tinha sido imprudente e indiscreto, porém Lucy-May, não pareceu notar. — Então, bem que você podia me fazer companhia, qualquer dia desses. Perguntei a alguns de nossos hóspedes se queriam vir nadar, mas as garotas inglesas ficaram horrorizadas. Harry se surpreendeu com isso. — A água deve estar fria. — Não, está ótima. Minha toalha ficou do outro lado. Tenho que voltar a nado para pegá-la. Relanceou os olhos pelo lago e continuou: — Quero dar uma volta a cavalo ainda hoje de manhã. E quero que seja um bom cavalo. — Vou providenciar para que um dos melhores esteja à sua espera, na porta da casa, na hora que a senhorita quiser. Quer. que alguém a acompanhe? — Se você puder ir comigo, sim. Pode-se ver que é um bom cavaleiro. — Obrigado. — Não há por que agradecer. Vi você vindo pelo parque e notei que monta diferente da maioria dos homens que montam na avenida Rotten, ou sei lá como se chama aquela avenida de Hyde Park. — Alameda Rotten. ��� Bem, eles não são exatamente o que eu chamaria de cavaleiros — 27
  • 28. disse Lucy-May. — Acho que não sobreviveriam no rancho de meu pai. — Seu pai tem um rancho? — Vários. Do que mais gosto é o rancho onde criamos os melhores cavalos. Arranje-me um que seja bravo. Não quero montar nenhuma mula velha. Sorriu para ele de novo e, sem dizer mais nada, pôs a touca e mergulhou, nadando de um modo que Harry nunca tinha visto, tratando-se de uma mulher. Então, achou que podia estar sendo atrevido, olhando-a com tanta insistência. Tratou de ir embora, sentindo-se admirado e intrigado ao mesmo tempo. Lucy-May era muito diferente do que havia pensado. 28
  • 29. CAPÍTULO III O sr. Wardolf olhou com satisfação para a filha, que entrava na sala. Usava calça comprida, franjada à mexicana, igual à que costumava usar no rancho, uma blusa verde que fazia o tom de cobre dos cabelos sobressair e botas pretas, com grandes esporas douradas. Pensou, como já pensara tantas vezes, que era um homem de sorte por ter uma filha que, não apenas possuía a vitalidade e caráter firme, mas também era muito bonita. — Pelo jeito, você vai andar a cavalo. — Vou, papai. Não quer ir comigo? — Estou muito ocupado conhecendo a casa. Por enquanto, ela me parece um enorme labirinto, e já andei me perdendo pelos corredores. Lucy-May riu. — Você está é pensando que gostaria de mostrar esta casa para nossos amigos, para vê-los morrer de inveja. — De fato, esse pensamento me passou pela cabeça. — Vou conhecer as terras e espero que o administrador, ou sei lá como devo chamá-lo, tenha me arranjado um cavalo digno de ser montado. — Acho que arranjou, sim. Pelo menos, estou pagando bastante caro para isso. — Ele cavalga muito bem. Por isso, acho que deve saber escolher um bom cavalo. — Deixe o jovem Dunstan em paz — advertiu o pai. — E cuide bem do duque. Ele já se decidiu? — Se está querendo saber se o duque me pediu em casamento, a resposta é “não”. Mas, do jeito que você está pressionando o homem, acho que isso não demora. Notou que o pai se descontraía. Sorria, quando disse: — Quero ver você duquesa. Isso significa muito, por aqui, e mais ainda em Nova York. — Acontece que quem vai ter que viver com o duque sou eu, e não você, papai… — O Hampton é um bom rapaz e bem mais inteligente do qüe a maioria dos ingleses que conheci até agora. — Não esqueça que o nome dele é Stadhampton… — corrigiu Lucy-May. — Espero que os criados saibam que devem tratá-lo de Sua Alteza. — Está querendo dizer que devo ensinar os ingleses como tratar os próprios aristocratas? Eu disse a Dunstan que providenciasse para que ele fosse tratado de acordo e vai haver o diabo se não for! — Não se zangue à toa, papai. Tybalt Stadhampton não está diferente do que era quando você o conheceu numa festa em Nova York e lhe deu um emprego pelo qual ele lhe é agradecido até hoje. — E que não fosse! Não é qualquer homem, principalmente um inglês, 29
  • 30. que pode se gabar de trabalhar para mim. — Ele está contribuindo com bons dividendos… — lembrou Lucy-May, sorrindo. — E tenho certeza de que vai ficar impressionado com Kings Wayte. Pelo menos, acho esta casa a mais fascinante que já vi! — Tenho que agradecer a Charles Cosgrove por isso. E também a mim, que estou gastando um bom dinheiro! — É um investimento, se conheço bem você. Bom, se não quer me acompanhar, eu vou indo. — Alguém vai acompanhá-la? — perguntou o pai, áspero. — O Sr. Dunstan — respondeu a moça, por cima do ombro. Já estava perto da porta, quando o pai gritou: — O que aconteceu com todos os seus amigos? — Estão dançando. Assim que os dois cavalos começaram a andar, lado a lado, Harry perguntou quase a mesma coisa que o pai dela: — Seus amigos não quiseram acompanhá-la? Os olhos dele percorriam o corpo esguio de Lucy-May. Nunca tinha visto uma amazona tão extraordinária nem uma mulher tão atraente. A blusa, aberta em “V” no pescoço, revelava a pele branca e macia. Não usava chapéu. No entanto, o que surpreendia Harry, mais do que o maio que a vira usando, era o fato de Lucy-May cavalgar como homem, e não de lado. Quando saíra da Inglaterra, durante a guerra, as únicas mulheres que usavam calça comprida eram as que trabalhavam nas fábricas de munições. Mas, como uma concessão ao recato feminino, usavam também longos casacos do mesmo tecido dos chapéus que lhes protegiam os cabelos. Jamais imaginara que, um dia, acompanharia uma dama de calça comprida e montando como homem. Sim, era verdade que Lucy-May montava muitíssimo bem e que a apreensão dele, pensando que talvez tivesse alguma dificuldade em dominar o fogoso cavalo que escolhera, era completamente inútil. Galoparam até ficarem ofegantes. Depois, voltaram a passo lento, lado a lado. — Foi você que escolheu? — perguntou Lucy-May, e ele percebeu que se referia ao cavalo. — Fui. — Meus parabéns por ter comprado este cavalo, seja quanto for que ele tenha custado. — Tinha esperança de que me dissesse isso. Há outros parecidos na estrebaria. — Então, acho que vou gostar muito da temporada em Kings Wayte. — Achou que não ia gostar? — Não tinha certeza. Haviam me dito que os ingleses são muito orgulhosos e convencionais. — Mudamos muito, durante a guerra, e acho que vai verificar, assim como seu pai, que estamos bem preparados para aceitar vocês como são. Harry respondera de modo seco, um tanto ressentido com o fato de uma moça ser tão rica e segura de si. Com uma percepção profunda, que ele jamais suspeitaria haver nela, Lucy-May pareceu ler seu pensamento. 30
  • 31. — Pare de ser invejoso! Se nós americanos não podemos ter séculos de história, nem sangue azul, tínhamos que ter alguma coisa… Era o único jeito! Harry ficou embaraçado por ter sido apanhado em flagrante. — Na verdade, não tenho inveja de vocês. Só que a estrutura do mundo foi alterada e acho difícil ser complacente, tendo que aceitar a parte pior. — É isso? Vocês estão com a parte pior? Pois me recuso a sentir pena. Acho que devia estar dizendo, neste momento, que está muito contente em poder cavalgar a meu lado, num lugar lindo como este! Harry jogou a cabeça para trás e riu. — Costuma dizer a seus acompanhantes quais os elogios e cumprimentos que devem lhe fazer? — Sim, sempre que são inábeis como você! Ele riu de novo. — Já me chocou duas vezes, hoje… e acho que esta é a terceira. — Choquei você? — Lucy-May olhou-o surpresa. — Ah! Já sei a que se refere! — disse, de repente. — Meu maiô, minha roupa de montar e, acho, minha franqueza. Viu, pela expressão de Harry, que havia acertado e deu uma risadinha. — Quando nos encontrarmos, hoje à noite, não deixe de me lembrar que devo sorrir por trás do leque. — Está livre disso. Não vamos nos encontrar à noite. — Por quê? — Porque sou o encarregado de cuidar da propriedade, não da casa propriamente dita. Os empregados de fora não participam das atividades de dentro e vice-versa. — Regras inglesas? — Claro que sim! — Então, quem sabe podemos quebrar essas regras… Acho que se pode fazer isso, não? — É uma coisa que nunca vai ficar sabendo, senhorita. — Quer apostar? — Não. Só estou expondo um fato. Vai aprender, srta. Wardolf, que na Inglaterra as classes se mantêm em seus devidos lugares. — E de que classe você é? — Para todos os efeitos e propósitos, sou empregado de seu pai, uma vez que administro esta propriedade e tudo o que ela contém para um terceiro. — E quemué esse terceiro? — Um cavalheiro chamado sir Harry Wayte. — Vou conhecê-lo? — É muito pouco provável. — Acho que gostaria de conhecer esse homem. Ele deve saber que é um felizardo, por ter uma casa como esta. — Que não pode sustentar! — Foi por isso que a alugou? — Exatamente! — Gostaria de dizer a ele que há muita coisa que se precisa fazer aqui. A primeira é instalar algumas banheiras. O povo inglês deve ser um bocado sujo! — E o americano é limpo até demais! — explodiu Harry. — Exagero em banhos pode ser atribuído ao desejo de limpar uma consciência suja. — Está brincando comigo ou sendo profundamente ofensivo? Deixe-me 31
  • 32. informá-lo, sr. Dunstan, que minha consciência está muito tranqüila e que não tenho inibições de espécie alguma. — Quantas banheiras quer que sejam instaladas? — Acho que umas doze dariam, para começar. — Está brincando! — Não. Aliás, estive falando nisso com papai, hoje cedinho, e ele vai lhe dar ordens para que sejam providenciadas imediatamente. Por instantes, Harry ficou sem fala. Queria dizer que aquela era uma idéia ridícula, além de desnecessária, uma vez que só ficariam na casa um ano. Então, de repente, compreendeu que Cosgrove tinha razão, ao dizer que, alugando a mansão, ela seria beneficiada por várias inovações, o que faria seu valor subir muito, apesar de já ser astronômico. Começou a ver a enorme vantagem de ter banheiras e chuveiros modernos em Kings Wayte, nos toaletes anexos aos quartos. Isso evitaria que os criados carregassem água da cozinha, escada acima, trabalho que se tornava penoso com a idade. Evitaria também as longas e sofridas caminhadas, durante o inverno, até os dois únicos banheiros com banheiras, uma delas com água aquecida a gás, por um aquecedor que se recusava constantemente a funcionar. Pela primeira vez, Harry ficou realmente alegre por ter os Wardolf como inquilinos. Se bem que tentasse reprimir, experimentava também um certo ressentimento por ver sua velha casa invadida por estranhos que, por mais caro que pagassem, estavam completamente desinformados do modo de vida inglês e eram muito mais esquisitos do que ele e Aleta tinham imaginado. Lembrou-se de que Lucy-May esperava uma resposta. Com um sorriso luminoso, que tornou seu rosto mais bonito, disse: — Vai ter suas banheiras, srta. Wardolf, o mais depressa possível. Para comemorar, vamos apostar uma corrida até o fim deste campo! Aleta desceu a escada de trás para ir ao quarto da governanta. A velha estava sentada numa confortável poltrona, uma xícara de chá nas mãos e os pés apoiados numa banqueta, diante da lareira. — Não se levante, Abby! Quero falar com você, mas não precisa se incomodar por isso. — Não acho nada correto, srta. Aleta. Mas, para dizer a verdade, minhas pernas me fizeram ficar acordada metade da noite. Doeram bastante. — Por isso mesmo, deixe que fiquem apoiadas assim, sempre que puder, e evite subir e descer escadas. Acho que Rose está conseguindo se sair muito bem no trabalho. — Todos estão trabalhando muito bem, senhorita. Mas, apesar de serem moças dispostas, é melhor não facilitar muito como minha velha mãe dizia… — Elas vão se sair bem — disse Aleta, confiante. — Acho que as hóspedes não são exigentes e implicantes nem a metade do que eram as damas do tempo de vovô! — Não, de fato. E as roupas delas também não são as mesmas. A senhorita acredita… — A sra. Abbott abaixou a voz e continuou, em tom chocadíssimo: — … que elas usam roupas de baixo pequenas, minúsculas, mesmo? 32
  • 33. Aleta riu intimamente. Manteve-se séria, ao responder: — Isso significa menos trabalho para as lavadeiras e passadeiras. Pelo som do gramofone, lá embaixo, parece que estão dançando. — Dançando! É só o que elas sabem fazer! Dançar de manhã, logo depois do café! A senhorita já tinha visto uma coisa dessas? A patroa jamais acreditaria que isso aconteceria, um dia. Aleta sabia que a “patroa” era sua avó, e não sua mãe, porque a sra. Abbott vivia muito no passado, no tempo em que dirigia aquela casa com pulso de aço. O maior motivo de orgulho para a velha sempre havia sido os convidados de Kings Wayte afirmarem que se sentiam melhor lá do que em qualquer outra casa em que tinham sido hospedados. — Desde que todos se sintam bem, acho que o resto não tem importância — disse Aleta, pensativa. — Roupas modernas ou não, essas moças deixam o quarto numa desordem terrível! Roupas espalhadas por todos os lados, e, a senhorita nem vai acreditar, vi caixas de pó-de-arroz em todas as penteadeiras! Aquilo havia chocado a sra. Abbott muito mais do que o tamanho reduzido das roupas de baixo. Aleta disse, suavemente: — Quando estive em Londres, vi que todas as moças usavam pó-de-arroz e batom. A velha ergueu as mãos, num gesto de horror. — Não sei onde o mundo vai parar, senhorita. Não sei mesmo! Ouça o que digo: uma dama que usasse batom, antes da guerra, não era considerada uma pessoa de bons princípios! Aleta sabia que aquilo significava a condenação máxima e mudou de assunto: — Será gostoso ter um baile aqui de novo. Vamos ter a impressão de estar de volta aos bons tempos. — Foi o que pensei, quando ouvi, mas a senhorita sabe que eles estão pensando em contratar uma orquestra de negros?! Aquilo era tão horripilante, que a voz da governanta se tornara quase um sussurro inaudível. — Essas orquestras são muito apreciadas em Londres — disse Aleta, depressa. — Uma orquestra de negros em Kings Wayte é uma coisa que jamais pensei em ver! Aquele era outro assunto perigoso e Aleta tratou de desviar-se dele. — Gosto de música e bem que queria ir ao baile também… Sabe? Acho que tenho um jeito de ver o baile, apesar de meu irmão não concordar. — Ver, senhorita? Como? — Bem, hoje em dia, a orquestra não costuma ficar separada, na galeria dos músicos, como antigamente. Agora os bailes são mais íntimos e as orquestras ficam no mesmo nível que os dançarinos. Então, posso ficar na galeria dos músicos e assistir ao baile lá de cima. — Precisa tomar cuidado. Não quer ser reconhecida, quer? — Serão poucas as pessoas que poderiam me reconhecer. Parecia um tanto triste, o que fez a sra. Abbott dizer, depressa: — Quando tudo isso estiver terminado e esses americanos forem embora, a senhorita e sir Harry poderão dar suas festas. Talvez não bailes, mas 33
  • 34. jantares para os amigos. — Sim, claro. Será muito bom. Bem, acho que agora vou deixá-la descansar. Está tudo bem, não? Como se só esperasse por aquela pergunta, a sra. Abbott começou um longo relato de como algumas das moças do condado eram tolas, já tivera que mostrar a elas mil vezes de que jeito deviam arrumar as camas e dobrar as camisolas das damas. Estava também indignada porque os criados deixaram cair um pouco de água pelo caminho, ao carregá-la para alguns dos hóspedes que tinham banheira no quarto. Os cavalheiros que costumavam hospedar-se em Kings Wayte antigamente utilizavam um dos banheiros comuns, por menos cômodos e adequados que fossem, e as senhoras banhavam-se em tinas colocadas diante da lareira, em seus quartos. Aleta sabia que sua mãe ficaria horrorizada à idéia de andar pelos corredores de robe e que nem ela nem sua avó sequer pensariam na possibilidade de usarem as banheiras de uso comum. Tudo tinha mudado muito, com a guerra. Ela e a governanta haviam sido obrigadas a se utilizar dos banheiros comuns, pela simples razão de não ter ficado ninguém na casa capaz de carregar enormes baldes de água quente lá para cima. Pensava que seria ótimo ter criadas e criados para cuidar deles de novo, quando percebeu que a sra. Abbott tinha dito algo sobre Sua Alteza. Prestou mais atenção. — O cavalheiro americano é muito ansioso e nervoso. Perguntou se o “Quarto da Rainha” era suficientemente bom para Sua Alteza! Tive vontade de responder: “Se foi bom para a rainha Anne, é mais do que bom para qualquer duque moderno!” Mas acho que esses americanos não entendem isso, não é, senhorita? — O sr. Wardolf quer muito que o duque se sinta bem aqui, porque vai casar com a srta. Lucy-May. — Foi o que ouvi dizer. E, se quer saber minha opinião, é uma pena que um nobre como Sua Alteza chegue ao ponto de se vender dessa maneira. Aleta ficou surpresa com o conhecimento que a sra. Abbott tinha da situação. Depois, lembrou-se de que nada podia ser escondido dos criados. — Acho que o duque está numa situação pior do que a nossa — disse baixinho. — Sempre rezo para que sir Harry não precise casar com uma americana — disse a sra. Abbott, com desdém. — Eles têm muito dinheiro, é verdade, mas, francamente, não sabem se comportar. Não como nós. Aleta disfarçou um sorriso. — O modo de os americanos viverem é diferente do nosso, claro. Mas sejam de que nacionalidade forem, americanos, franceses ou alemães, todos são gente. — Os alemães! — fungou a sra. Abbott.— Eles não são gente! Para mim, são feras com aparência humana. Aleta sabia que aquele era um tema dos mais explosivos; por isso, levantou-se, dizendo: — Enquanto estão todos lá embaixo dançando, vou dar uma volta pela 34
  • 35. casa e ver se está tudo certo. Assim, a senhora não precisa se levantar. Prometa ficar aqui, quietinha, e dormir um pouco. — A senhorita é um amor. De fato, estou me sentindo um pouco cansada. — Então, deixe que eu cuido de tudo. Depois venho contar para a senhora. Saiu do quarto da governanta e atravessou o corredor até a porta, oculta pela pesada cortina verde, que dava para a parte nobre da casa. A música chegava ali bem mais nítida e ela reconheceu a melodia. Era Estou Furiosa com Harry, e Aleta pensou como combinava com o dono da casa, se bem que ninguém soubesse. Começou a cantarolar, enquanto andava pelo corredor que ia dar nos quartos que haviam sido reformados. Não tinha sido feita muita coisa, mas a colocação de um ou outro quadro, de cortinas novas, tornara-os bem diferentes dos quartos escuros, empoeirados e abandonados, que pareceram tão horríveis para Harry, quando voltara da França. Aleta entrou em vários deles, verificando se as criadas tinham arrumado tudo direitinho, limpado como recomendara e posto um vaso com flores em cada penteadeira. Chegou ao “Quarto da Rainha” e não pôde deixar de se lembrar de sua mãe, ao abrir a porta. O “Quarto do Rei”, onde o pai dormia, e o “Quarto da Rainha” formavam uma suíte independente. Aleta imaginara que Lucy-May e o pai iam querer ficar lá. Mas o sr. Wardolf deixara bem claro que ficaria no “Quarto do Rei” e o duque de Stadhampton, no segundo melhor, de modo que lhe reservaram o famoso aposento ocupado pela rainha Anne em 1710. Era um quarto muito grande, com um leito de quatro colunas, dossel com cortinas de brocado, cuja cúpula exibia deuses e deusas que tinham dado um trabalhão para ficarem bem limpos. Era também o quarto preferido de Aleta. Ao entrar nele, naquele momento, sentiu como se a mãe ainda estivesse ali; chegou a sentir o delicado perfume de rosas que pairava no ar, quando, ainda criança, abria as gavetas da cômoda. Aleta sempre se opusera terminantemente a que tirassem qualquer coisa daquele aposento. Agora, seus olhos passeavam, apreciadores, pelos móveis franceses com entalhes dourados, os espelhos lapidados e as porcelanas chinesas sobre a lareira. Pelo menos o duque saberia apreciar tudo aquilo, pensou, e tentou se lembrar de alguma coisa a respeito dele. Era um nome familiar, mas nunca tinha ouvido Harry ou os amigos falarem dele. No entanto, tinha-os ouvido falar muito de Chatsworth. E, durante sua estada em Londres, havia sido convidada pelo duque e a duquesa de Devonshire para um baile de Devonshire House. Mas não chegou a conhecer os duques nem pôde ir ao baile, porque, na véspera, foi avisada de que o pai estava passando mal e partiu imediatamente para Kings Wayte. Depois disso, nunca mais tinha saído de lá. Muitas vezes ficava triste por não ter conhecido mais Londres e as casas nobres que aos poucos iam se desmantelando, perdendo muito ou tudo de sua grandeza original. 35
  • 36. Vai ver, o duque está na mesma situação que nós, pensou. Em seguida, teve certeza de que era por isso que ele ia passar uns dias em Kings Wayte e casar com uma milionária americana: para salvar seu brasão, sua casa e propriedade. Coisa que talvez Harry também tivesse que fazer. Quando os ricos inquilinos fossem embora, eles estariam mais ou menos diante dos mesmos problemas que tinham até então. — Sempre dinheiro, dinheiro, dinheiro! — disse, sentindo-se miseravelmente mal. Depois de inspecionar o quarto inteiro, saiu e voltou pelo mesmo caminho. Atravessou depressa o patamar de mármore, com medo de se encontrar com alguém antes de estar, sã e salva, junto da porta oculta pela cortina verde, que dava para a ala dos criados. Nesse momento, ouviu um carro parar na porta principal. Instintivamente, foi até o parapeito para ver quem era. Quando o criado abriu a porta, ouviu uma voz de homem dizer, aflita: — Preciso falar com o sr. Wardolf, depressa! Houve um acidente! Aleta ficou gelada. Imediatamente pensou que alguma coisa tinha acontecido com Harry. Viu Barlow chegar ao hall correndo e esbarrar com violência no recém-chegado. — O senhor disse que houve um acidente? — Sim, isso mesmo. Foi com um dos convidados do sr. Wardolf. Havia dois cavalheiros no carro, mas, segundo me disseram, o duque é que se machucou. — Sinto muito ouvir isso — disse Barlow. — O sr. Wardolf vai ficar profundamente chocado. Se fizer o favor de esperar um momento, senhor, vou avisá-lo de sua presença. Aleta pôde ver então o homem. Pelas roupas, assim como pelo modo de falar, percebeu que era um fazendeiro, um agricultor ou algo parecido. Sabia que Barlow na certa o havia medido de alto a baixo e, como não se tratava de um cavalheiro, ia deixá-lo esperando no hall enquanto avisava o sr. Wardolf. Um dos criados perguntou: — Foi um acidente muito sério? Excitado e sempre pronto para falar, o fazendeiro respondeu: — Eles estavam correndo muito! Mas os jovens são assim mesmo. Fizeram a curva da travessa Lane de modo muito perigoso e o carro teria batido de frente num outro, se o motorista não desviasse e saísse da estrada. — Saiu da estrada? — É. Não teria acontecido nada, se não houvesse uma árvore bem ali. No momento do choque, o duque, que estava no assento do passageiro, bateu com a cabeça no pára-brisa. — Que tipo de carro é? — Um desses mais novos, que correm demais para o meu gosto. Acho que é… um Bentley. — Um Bentley! — repetiu o criado, obviamente impressionado. Ia fazer uma outra pergunta, quando Barlow voltou com o sr. Wardolf. — O que foi? Que aconteceu? Um acidente com o duque? Como é que uma coisa assim pôde acontecer? O fazendeiro explicou de novo, interrompido de vez em quando por 36
  • 37. ansiosas perguntas do americano. Depois, ele perguntou: — E onde está o duque? O que aconteceu com ele? — Está sendo trazido para cá, numa carroça. Acharam que não ficaria bem acomodado em minha charrete. — Depressa! Depressa! Um médico. Precisamos de um médico! — O dr. Goodwin está viajando, senhor, mas há alguém no lugar dele, até sua volta. — Um médico? — Acho que sim, senhor. — Então, vá buscá-lo! Traga-o para cá, depressa! — Sim, senhor — disse o fazendeiro. Mas o sr. Wardolf não ouvia nada; dava ordens: Diga à governanta para ver se o quarto do duque está pronto e providenciar bandagens e mais o que for preciso para um curativo. Entendeu? — Sim, senhor. Um dos criados subiu a escada correndo. Aleta parou diante dele, quando ia se dirigir para a porta coberta pela cortina verde. — Está tudo bem, James. Ouvi a conversa e sei o que aconteceu. Trate de fazer com que sir Harry… quero dizer, o sr. Dunstan… fique sabendo o que houve, o mais depressa possível, e venha para casa. Deixe o recado para ele na estrebaria. — Sim, senhorita. O americano continuava dando ordens e mais ordens no hall lá embaixo. Isto veio transtornar os planos dele, Aleta pensou. Mas não ficou muito preocupada com o milionário nem com o duque que estava namorando a filha dele. Os dois têm que passar por aflições e dificuldades, como todo mundo, pensou. E se dirigiu depressa para os aposentos da criadagem, para contar a novidade à sra. Abbott. O duque sentia-se como no final de um longo e tenebroso túnel, mas podia ouvir vozes. Não entendia o que diziam e ficou irritado porque o acordaram. Então, uma voz suave disse: — Está tudo bem, Abby. Não se aflija. O médico disse que não é provável que ele volte a si antes de vinte e quatro horas. Amanhã chega uma enfermeira de Londres. — Não fica bem a senhorita ficar sozinha com um cavalheiro. Sabe muito bem disso! — disse uma voz mais velha e severa. Houve o som abafado de uma risadinha. — Se está preocupada por não haver ninguém aqui para me proteger, Abby, posso garantir que estou fora de qualquer perigo! — Sua mãe não aprovaria isto, senhorita! Houve silêncio por momentos. — Sinto que aqui, no quarto de minha mãe, ela estará cuidando de mim. Vá se deitar, Abby, querida, e volte amanhã bem cedinho, antes que os outros acordem. — Não gosto disso. Não gosto nada disso! — É só por uma noite — tornou a explicar Aleta, com paciência. — O médico disse que alguém precisa ficar com ele. Sabe perfeitamente 37