Posições acerca da Natureza e Existência de Deus
Várias foram as formas de entender a existência de Deus. Podemos, em
geral, dizer que são diferentes perspetivas sobrea relação entre razão e fé.
Assim, temos:
O agnosticismo. Esta perspetiva nega que seja possíveluma demonstração
racional da existência de Deus. Não podemos saber se Deus existe ou qual
a sua essência. Deus é incognoscível, escapa ao nosso poder de
conhecimento. Por isso não podemos provar nem que existe nem que não
existe. Deus pode existir, mas, mesmo nesse caso, será para nós um
mistério absolutamente incompreensível, completamente inacessível à
nossa razão.
Ateísmo. Consistena completa negação de Deus. Deus não é nem criador
do universo nem a totalidade do Universo. Deus nada é. A crença em Deus
é um obstáculo à plena realização do homem, que deve tentar
compreender o mundo e deixar de perder tempo com ilusões.
O teísmo. Esta perspetiva concebe Deus como Criador Transcendente do
Universo, de tudo o que existe. Deus é para os teístas a fonte e o
fundamento dos valores morais e o princípio supremo das leis naturais e
das verdades lógicas. Deus é concebido como Pessoa, ser absolutamente
livre que, apesar da sua transcendência, pode entrar em relação pessoal
com o ser humano. Ser perfeito, todo-poderoso (omnipotente) e
sumamente bom, Deus é, para o teísta, misterioso e infinito, mas isso não
significa que não se possa provar, através de argumentação racional, a sua
existência. Podemos não compreender os desígnios da Providência divina
(o modo como Deus age e governa todas as coisas), mas épossívelprovar a
sua existência.
Deísmo. Esta perspetiva considera possível descobrir Deus através da
razão,mas concebeDeus como serpuramente racionale não como Pessoa.
Entre o homem e Deus não há relação pessoal. Nega-se a Providência
divina. Deus criou o mundo, mas a partir daí deixou-o entregue a simesmo.
Fideísmo: Esta perspetiva considera que acreditar em Deus é dar um salto
para lá dos limites e da capacidade de compreensão da razão. Fé e razão
são incompatíveis. “Perder a razão para ganhar Deus é a essência da fé”. A
fé começa onde a razão acaba, é sentimento e compromisso subjetivo sem
qualquer garantia objetiva. De Deus podemos dar testemunho, mas não
provas. Como diz Pascal, “A fé não precisa de provas, olha-as mesmo como
inimigas”. Com efeito, ela aposta no Desconhecido e no Improvável.
Argumento a favor da existência de Deus
Suponhaqueao atravessarumamata tropeçonuma pedra e meperguntam
como foi ela ali parar. Poderia talvez responder que, tanto quanto me é
dado a saber, a pedra sempre ali esteve; e talvez não fosse muito fácil
mostrar o absurdo desta resposta. Mas suponha que eu tinha encontrado
um relógio no chão e procurava saber como podia ele estar naquele lugar.
Muito dificilmente me poderia ocorrer a resposta que tinha dado antes —
que, tanto quanto me era dado saber, o relógio poderia sempre ali ter
estado. Contudo, por que razão esta resposta, queserviu para a pedra, não
serve para o relógio? Por que razão não é esta resposta tão admissível no
segundo caso como no primeiro? Por esta razão e por nenhuma outra: a
saber, quando inspecionamos o relógio, vemos (o que não poderia
acontecer no caso da pedra) que as suas diversas partes estão forjadas e
associadas com um propósito; por exemplo, vemos que as suas diversas
partes estão fabricadas e ajustadas de modo a produzir movimento e que
esse movimento está regulado de modo a assinalar a hora do dia; e vemos
que se as suas diversas partes tivessem uma forma diferente da que têm,
se tivessemum tamanho diferente do que têm ou tivessem sido colocadas
de forma diferente daquela em que estão colocadas ou se estivessem
colocadas segundo uma outra ordem qualquer, a máquina não produziria
nenhum movimento ou não produziria nenhum movimento que servisse
para o que este serve. (...) Tendo este mecanismo sido observado (...),
pensamos que a inferência é inevitável: o relógio teve de ter um criador;
teve de existir num tempo e num ou noutro espaço, um artífice ou artífices
que o fabricaram para o propósito que vemos ter agora e que
compreenderam a sua construção e projetaram o seu uso. (...) Pois todo o
sinal de invenção, toda a manifestação de desígnio, que existia no relógio,
existe nas obras da natureza, coma diferença de que na natureza são mais,
maiores e num grau tal queexcede toda a computação. Quero dizer que os
artefactos da naturezaultrapassam os artefactos da arteem complexidade,
em subtileza eem curiosidadedo mecanismo;e, sepossível,ainda vão mais
além deles em número e variedade; e, no entanto, num grande número de
casos não são menos claramente mecânicos, não são menos claramente
artefactos, não são menos claramente adequados ao seu fim ou menos
claramente adaptados à sua função do que as produções mais perfeitas do
engenho humano. (...) Em suma, após todos os esquemas e lutas de uma
filosofia relutante, temos necessariamente de recorrer a uma Deidade. Os
sinais de desígnio são demasiado fortes para serem ignorados. O desígnio
tem de ter um projetista. Esse projetista tem de ser uma pessoa. Essa
pessoa é DEUS.
William Paley, Teologia Natural, 1802, Cap. 1, 3 e 27

Posições acerca da natureza e existência de deus

  • 1.
    Posições acerca daNatureza e Existência de Deus Várias foram as formas de entender a existência de Deus. Podemos, em geral, dizer que são diferentes perspetivas sobrea relação entre razão e fé. Assim, temos: O agnosticismo. Esta perspetiva nega que seja possíveluma demonstração racional da existência de Deus. Não podemos saber se Deus existe ou qual a sua essência. Deus é incognoscível, escapa ao nosso poder de conhecimento. Por isso não podemos provar nem que existe nem que não existe. Deus pode existir, mas, mesmo nesse caso, será para nós um mistério absolutamente incompreensível, completamente inacessível à nossa razão. Ateísmo. Consistena completa negação de Deus. Deus não é nem criador do universo nem a totalidade do Universo. Deus nada é. A crença em Deus é um obstáculo à plena realização do homem, que deve tentar compreender o mundo e deixar de perder tempo com ilusões. O teísmo. Esta perspetiva concebe Deus como Criador Transcendente do Universo, de tudo o que existe. Deus é para os teístas a fonte e o fundamento dos valores morais e o princípio supremo das leis naturais e das verdades lógicas. Deus é concebido como Pessoa, ser absolutamente livre que, apesar da sua transcendência, pode entrar em relação pessoal com o ser humano. Ser perfeito, todo-poderoso (omnipotente) e sumamente bom, Deus é, para o teísta, misterioso e infinito, mas isso não significa que não se possa provar, através de argumentação racional, a sua existência. Podemos não compreender os desígnios da Providência divina (o modo como Deus age e governa todas as coisas), mas épossívelprovar a sua existência. Deísmo. Esta perspetiva considera possível descobrir Deus através da razão,mas concebeDeus como serpuramente racionale não como Pessoa. Entre o homem e Deus não há relação pessoal. Nega-se a Providência divina. Deus criou o mundo, mas a partir daí deixou-o entregue a simesmo. Fideísmo: Esta perspetiva considera que acreditar em Deus é dar um salto para lá dos limites e da capacidade de compreensão da razão. Fé e razão são incompatíveis. “Perder a razão para ganhar Deus é a essência da fé”. A fé começa onde a razão acaba, é sentimento e compromisso subjetivo sem qualquer garantia objetiva. De Deus podemos dar testemunho, mas não
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    provas. Como dizPascal, “A fé não precisa de provas, olha-as mesmo como inimigas”. Com efeito, ela aposta no Desconhecido e no Improvável. Argumento a favor da existência de Deus Suponhaqueao atravessarumamata tropeçonuma pedra e meperguntam como foi ela ali parar. Poderia talvez responder que, tanto quanto me é dado a saber, a pedra sempre ali esteve; e talvez não fosse muito fácil mostrar o absurdo desta resposta. Mas suponha que eu tinha encontrado um relógio no chão e procurava saber como podia ele estar naquele lugar. Muito dificilmente me poderia ocorrer a resposta que tinha dado antes — que, tanto quanto me era dado saber, o relógio poderia sempre ali ter estado. Contudo, por que razão esta resposta, queserviu para a pedra, não serve para o relógio? Por que razão não é esta resposta tão admissível no segundo caso como no primeiro? Por esta razão e por nenhuma outra: a saber, quando inspecionamos o relógio, vemos (o que não poderia acontecer no caso da pedra) que as suas diversas partes estão forjadas e associadas com um propósito; por exemplo, vemos que as suas diversas partes estão fabricadas e ajustadas de modo a produzir movimento e que esse movimento está regulado de modo a assinalar a hora do dia; e vemos que se as suas diversas partes tivessem uma forma diferente da que têm, se tivessemum tamanho diferente do que têm ou tivessem sido colocadas de forma diferente daquela em que estão colocadas ou se estivessem colocadas segundo uma outra ordem qualquer, a máquina não produziria nenhum movimento ou não produziria nenhum movimento que servisse para o que este serve. (...) Tendo este mecanismo sido observado (...), pensamos que a inferência é inevitável: o relógio teve de ter um criador; teve de existir num tempo e num ou noutro espaço, um artífice ou artífices que o fabricaram para o propósito que vemos ter agora e que compreenderam a sua construção e projetaram o seu uso. (...) Pois todo o sinal de invenção, toda a manifestação de desígnio, que existia no relógio, existe nas obras da natureza, coma diferença de que na natureza são mais, maiores e num grau tal queexcede toda a computação. Quero dizer que os artefactos da naturezaultrapassam os artefactos da arteem complexidade, em subtileza eem curiosidadedo mecanismo;e, sepossível,ainda vão mais além deles em número e variedade; e, no entanto, num grande número de casos não são menos claramente mecânicos, não são menos claramente artefactos, não são menos claramente adequados ao seu fim ou menos claramente adaptados à sua função do que as produções mais perfeitas do engenho humano. (...) Em suma, após todos os esquemas e lutas de uma filosofia relutante, temos necessariamente de recorrer a uma Deidade. Os
  • 3.
    sinais de desígniosão demasiado fortes para serem ignorados. O desígnio tem de ter um projetista. Esse projetista tem de ser uma pessoa. Essa pessoa é DEUS. William Paley, Teologia Natural, 1802, Cap. 1, 3 e 27