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Nota da Edição Brasileira

Na presente edição, traduzimos os termos científicos para o Português. Nosso
objetivo é contribuir para a consolidação de uma terminologia científica em
língua portuguesa e, ao mesmo tempo, possibilitar a compreensão do texto
também pelo leitor não especialista.

Solicitamos aos leitores que contribuam para o aprimoramento dessa terminolo-
gia e nos enviem sugestões.

Ao manter, nesta edição brasileira, as considerações sobre os sistemas de ensi-
no e de financiamento à pesquisa americanos, tivemos o objetivo de fornecer
subsídios que possam resultar na redação de um documento voltado para o
sistema de fomento à pesquisa e de políticas educacionais nacionais.


                                                   São Paulo, setembro de 2002



                                                        João Stenghel Morgante
                                                                     Editor de Livros
                                                                                 SBG
                                                          Editoria_livros@sbg.org.br
Documento anexo serve como resumo executivo.
Para obter cópias em inglês deste documento,
consulte o portal http://www.amnat.org;
cópias em português podem ser obtidas no portal
da Sociedade Brasileira de Genética http://www.sbg.org.br.


Preparado por representantes das sociedades científicas abaixo.
Todas essas sociedades endossaram o documento final.
   American Society of Naturalists
   Animal Behavior Society
   Ecological Society of America
   Genetics Society of America
   Paleontological Society
   Society for Molecular Biology and Evolution
   Society of Systematic Biologists
   Society for the Study of Evolution

Endosso adicional do:
   American Institute of Biological Sciences

Com patrocínio financeiro de:
   A. P. Sloan Foundation
   National Science Foundation

Editor Chefe:
    Douglas J. Futuyma. State University of New York-Stony Brook

Organização:
   Thomas R. Meagher, Rutgers, The State University of New Jersey

Comissão Orientadora:
   Michael J. Donoghue, Harvard University
   James Hanken, University of Colorado
   Charles H. Langley, University of California-Davis
   Linda Maxson, University of Iowa

Grupo de Trabalho:
   Albert F. Bennett, University of California-Irvine
   H. Jane Brockmann, University of Florida
   Marcus W. Feldman, Stanford University
   Walter M. Fitch, University of California-Irvine
   Laurie R. Godfrey, University of Massachusetts
   David Jablonski, University of Chicago
   Carol B. Lynch, University of Colorado
   Leslie Real, Indiana University
   Margaret A. Riley, Yale University
   J. John Sepkoski, Jr., University of Chicago
   Vassiliki Betty Smocovitis, University of Florida

Edição em inglês projetada e produzida pelo Office of University Publications.
Rutgers. The State University of New Jersey

Edição em português:
   Tradução: Nicole S. Loghin-Grosso
   Responsável pela edição brasileira: João Stenghel Morgante
   Produção: Sociedade Brasileira de Genética
   Editoração: Virtuale Comunicação




                                                                                 3
ÍNDICE

RESUMO EXECUTIVO
        XECUTIVO              5


P REÂMBULO         6


I.   INTRODUÇÃO          7


II. O     QUE É   E VOLUÇÃO?        9


III. QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DA BIOLOGIA E VOLUTIVA?
                   BJETIVOS                OLUTIVA                 12
     A. Subdisciplinas da Biologia Evolutiva 12
     B. Perspectivas a partir da Biologia Evolutiva         14


IV. COMO
IV.          SE   ESTUDA
                   STUDA     A   E VOLUÇÃO?      16


V. D E    QUE   M ODO A BIOLOGIA E VOLUTIVA C ONTRIBUI PARA A S OCIEDADE?
                                    OLUTIVA                     OCIEDADE         20
     A.    Saúde Humana e Medicina 20
     B.    Agricultura e Recursos Naturais 25
     C.    Descoberta de Produtos Naturais Úteis         128
     D.    Meio Ambiente e Conservação 29
     E.    Aplicações Fora da Biologia 31
     F.    Compreensão da Humanidade 32


VI. D E   QUE   M ODO A BIOLOGIA E VOLUTIVA C ONTRIBUI PARA A CIÊNCIA B ÁSICA?
                                    OLUTIVA                                            34
     A. Realizações no Estudo da Evolução 34
     B. Contribuições para Outras Disciplinas Biológicas          40


VII. O    QUE O   F UTURO R ESERVA
                            ESERV       PARA A   BIOLOGIA E VOLUTIVA?
                                                             OLUTIVA    43
     A. Ciência Aplicada 43
     B. Ciência Básica 50


VIII.     M ECANISMOS PARA ENFRENTAR OS D ESAFIOS DO F UTURO
                            NFRENTAR                                     56
     A. Progredir na Compreensão pela Pesquisa 56
     B. Progredir na Compreensão pela Educação 58
     C. Progredir na Compreensão pela Comunicação 60


IX. CONCLUSÃO            62


BIBLIOGRAFIA        64


A PÊNDICES        66
     I. Evolução: Fato, Teoria, Controvérsias    66
     II. Como Este Documento Foi Produzido       68
     III. Glossário de Termos Freqüentemente Usados     69
     IV. Associação entre a Pesquisa Evolutiva e as Missões de Órgãos Públicos    71



                                                                                            4
A
         Biologia Evolutiva é o estudo da história da vida e dos
        processos que levam à sua diversidade. Baseada nos
        princípios da adaptação, no acaso e na história, a Biologia
Evolutiva procura explicar todas as características dos organismos,
ocupando por isso uma posição central dentro das ciências biológicas.




           DA          EVOLUTIV
                         OLUTIVA
RELEVÂNCIA DA BIOLOGIA EVOLUTIVA
                 NACIONAL
PARA O PROGRAMA NACIONAL DE PESQUISA

       O século vinte e um será o “Século da       mos de aplicar as pesquisas em Evolução aos
Biologia”. Impulsionadas por uma convergên-        problemas da sociedade e devemos incluir as
cia de preocupações públicas em aceleração,        implicações de tais pesquisas na educação de
as ciências biológicas serão convocadas cada       uma cidadania cientificamente informada.
vez mais para tratar de questões vitais para o           A fim de promover essas metas, repre-
nosso bem-estar futuro: ameaças à qualida-         sentantes de oito destacadas sociedades ci-
de ambiental, necessidades de produção de          entíficas profissionais dos Estados Unidos,
alimentos devido a pressões populacionais,         cuja temática principal inclui a Evolução, pre-
novos perigos para a saúde humana gerados          pararam este documento. Ele inclui contribui-
pelo aparecimento de resistência a antibióti-      ções de especialistas de várias outras áreas.
cos e de novas doenças, e a explosão de no-        Conseguiu-se obter da comunidade de biólo-
vas tecnologias na biotecnologia e na com-         gos norte-americanos que estudam a Evolu-
putação. A Biologia Evolutiva em particular        ção respostas referentes a esboços anterio-
está destinada a prestar contribuições muito       res e a minuta foi tornada pública pela Inter-
significativas. Ela contribuirá diretamente para   net. Os representantes chegaram a uma série
desafios prementes da sociedade, bem como          de recomendações que tratam das áreas abai-
para informar e acelerar outras disciplinas bi-    xo.
ológicas.
       A Biologia Evolutiva estabeleceu de for-    PROGRESSO NA COMPREENSÃO
ma inequívoca que todos os organismos evo-         POR MEIO DA PESQUISA
luíram a partir de um ancestral comum, no
decorrer dos últimos 3,5 bilhões de anos; do-            A fim de maximizar o potencial da Bio-
cumentou muitos acontecimentos específicos         logia Evolutiva como princípio organizador e
da história da evolução; e desenvolveu uma         integrador, insistimos em que:
teoria muito bem validada sobre os mecanis-
mos genéticos, ecológicos e de desenvolvi-         • sejam incorporadas perspectivas evoluti-
mento das mudanças evolutivas. Os métodos,           vas como fundamento para pesquisas
conceitos e perspectivas da Biologia Evolutiva       interdisciplinares que tratam de problemas
deram e continuarão dando importantes con-           científicos complexos;
tribuições a outras disciplinas biológicas, tais
como a Biologia Molecular e do Desenvolvi-         • os biólogos estudiosos da Evolução traba-
mento, a Fisiologia e a Ecologia, bem como a         lhem no sentido de construir vínculos sig-
outras ciências básicas como Psicologia, An-         nificativos entre a pesquisa básica e a apli-
tropologia e Informática.                            cação prática;
       A fim de que a Biologia Evolutiva reali-
ze todo o seu potencial, os biólogos devem         • a Biologia Evolutiva desempenhe um pa-
integrar os métodos e resultados da pesquisa         pel mais explícito na missão mais ampla
em Evolução com aqueles de outras discipli-          dos órgãos federais que possam se benefi-
nas, tanto dentro como fora da Biologia. Te-         ciar de contribuições feitas por esta área.



                                                                                                5
PROGRESSO NA COMPREENSÃO                         PROGRESSO NA COMPREENSÃO
POR MEIO DA EDUCAÇÃO                             POR MEIO D A COMUNICAÇÃO


      Incentivamos esforços de vulto para re-         Recomendamos enfaticamente aos bi-
forçar os currículos das escolas primárias e     ólogos dedicados ao estudo da Evolução que
secundárias, bem como os das faculdades e        desempenhem seus papéis:
universidades, incluindo:
                                                 • na comunicação, aos órgãos de fomento à
• apoio a treinamento suplementar para pro-        pesquisa federais e estaduais e a outras
  fessores primários e/ou treinamento de           instituições que apoiam a pesquisa básica
  reciclagem em Biologia Evolutiva para pro-       ou aplicada, da relevância da Biologia
  fessores de Ciências do curso secundário;        Evolutiva na realização das missões des-
                                                   sas organizações;
• maior ênfase na Evolução nos currículos
  das faculdades de Biologia e Medicina, com     • na formação da próxima geração de biólo-
  cursos alternativos acessíveis a estudan-        gos dedicados ao estudo da Evolução, para
  tes de outras áreas;                             que tenham consciência da relevância do
                                                   seu campo para as necessidades da socie-
• integração de conceitos relevantes da Evo-       dade;
  lução no treinamento de todos os biólogos
  formados e de profissionais de áreas tais      • na informação ao público sobre a nature-
  como Medicina, Direito, Agricultura e Ci-        za, os progressos e as implicações da Bio-
  ências Ambientais.                               logia Evolutiva.




PREÂMBULO

       Três grandes temas permeiam as ciên-      tudos dessas disciplinas, referentes a meca-
cias biológicas: função, unidade e diversida-    nismos biológicos, com explanações basea-
de. Grande parte da Biologia, desde a Biolo-     das na História e na adaptação. Em todo o
gia Molecular até a Biologia do Comportamen-     campo das ciências biológicas, a perspectiva
to, da Bacteriologia à Medicina, preocupa-se     evolutiva fornece uma estrutura útil, muitas
com os mecanismos que fazem os organis-          vezes indispensável, para organizar e inter-
mos funcionar. Muitos desses mecanismos          pretar observações e fazer previsões. Como
são adaptações: características que favorecem    foi enfatizado em recente relatório da Acade-
a sobrevivência e a reprodução. Algumas des-     mia Nacional de Ciências dos Estados Unidos
sas características são encontradas apenas em    (37), a evolução biológica é “o mais impor-
certos grupos de organismos, enquanto ou-        tante conceito da Biologia Moderna – um con-
tras são compartilhadas por quase todos os       ceito essencial para a compreensão de aspec-
seres vivos, refletindo a unidade da vida. Ao    tos chave dos seres vivos”.
mesmo tempo, a diversidade de característi-            Apesar de sua posição central entre as
cas entre as milhões de espécies da Terra é      ciências da vida, a Biologia Evolutiva ainda
espantosa.                                       não representa, nos currículos educacionais
       A unidade, a diversidade e as caracte-    e na concessão de verbas para pesquisa, uma
rísticas adaptativas dos organismos são con-     prioridade à altura de suas contribuições in-
seqüências da história evolutiva e só podem      telectuais e de seu potencial para contribuir
ser plenamente compreendidas nesta pers-         com as necessidades da sociedade. As razões
pectiva. A ciência da Biologia Evolutiva é o     disso talvez incluam a percepção errônea de
estudo da história da vida e dos processos que   que todas as questões científicas importantes
levaram à sua unidade e diversidade. A Bio-      referentes à Evolução já foram respondidas e
logia Evolutiva esclarece fenômenos estuda-      a controvérsia entre alguns maus cientistas a
dos nos campos da Biologia Molecular, da Bi-     respeito da realidade da Evolução e da per-
ologia do Desenvolvimento, da Fisiologia, do     cepção dela como ameaça a certos valores
Comportamento, da Paleontologia, da Ecolo-       tradicionais da sociedade. Entretanto, a Bio-
gia e da Biogeografia, complementando os es-     logia Evolutiva é uma disciplina intelectual e

                                                                                             6
tecnologicamente dinâmica, que inclui algu-         der necessidades da sociedade e na edu-
mas das mais empolgantes descobertas atu-           cação para a ciência.
ais das ciências biológicas.
      Os principais objetivos deste documen-            Este documento foi preparado para pes-
to são:                                          soas cujas decisões são responsáveis pela ori-
                                                 entação da pesquisa científica básica e apli-
• descrever a nossa compreensão atual da         cada e pela elaboração de currículos educa-
  Evolução e das principais conquistas inte-     cionais para todos os níveis. Ele foi elabora-
  lectuais da Biologia Evolutiva;                do por representantes de oito das mais im-
                                                 portantes sociedades científicas profissionais
• identificar as principais questões e desafi-   dos Estados Unidos cuja temática inclui a Evo-
  os da ciência da Evolução passíveis de pro-    lução. Também contribuíram outros especia-
  gresso no futuro próximo;                      listas em vários assuntos. A minuta deste do-
                                                 cumento foi revisada com base nos comentá-
• descrever contribuições da Biologia Evolu-     rios recebidos da comunidade de biólogos de-
  tiva, passadas e esperadas no futuro, tan-     dicados ao estudo da Evolução norte-ameri-
  to para outras ciências como para neces-       canos e do público, que teve acesso à minuta
  sidades sociais em áreas tais como as ci-      em reuniões científicas e pela Internet. Em-
  ências da saúde, a agricultura e as ciênci-    bora não se possa esperar concordância ple-
  as ambientais; e                               na em todos os detalhes e pontos em desta-
                                                 que, os principais assuntos e conclusões con-
• sugerir maneiras pelas quais se possa fa-      tidos nas páginas a seguir representam a opi-
  cilitar o progresso na pesquisa básica, nas    nião da grande maioria dos profissionais da
  aplicações da Biologia Evolutiva para aten-    Biologia da Evolução dos Estados Unidos.




I. INTRODUÇÃO

      “Que obra de arte é um homem! A be-        tivo e respiratório, que têm o inconveniente
leza do mundo, a flor dos animais!”. Assim       de se cruzarem, colocando-nos em risco de
como o Hamlet de Shakespeare, nós também         sufocar com comida?
nos maravilhamos diante das admiráveis ca-              Considerando a nossa espécie de for-
racterísticas da nossa espécie, mas, decorri-    ma ampla, vemos uma variação quase infini-
dos quatro séculos, fazemo-lo com muito mais     ta. Diferenças de tamanho, conformação e
conhecimento. Pensem, por exemplo, no cor-       pigmentação entre as pessoas não são mais
po humano: um manual de Biologia, uma li-        do que a ponta do iceberg. Quase todo mun-
ção de Evolução.                                 do tem traços faciais e características de iden-
      Impressionam-nos, em primeiro lugar,       tificação pelo DNA (“fingerprints”) singulares,
as incontáveis características que nos permi-    existe uma variação hereditária na susce-
tem funcionar. Quer consideremos os nossos       tibilidade a doenças infecciosas e um certo
olhos, o nosso cérebro ou o nosso sistema        número de pessoas desafortunadas herda al-
imunológico, encontramos características         gum dos muitos, porém raros, defeitos gené-
complexas, admiravelmente adequadas às           ticos. Qual é o responsável por toda essa va-
funções que desempenham. Tais característi-      riação?
cas que servem para a nossa sobrevivência e             Ampliando o nosso campo visual e
reprodução são chamadas adaptações. Como         comparando-nos com outros organismos,
foi que elas surgiram?                           encontramos uma série de características
      Se olharmos mais de perto, também          que compartilhamos com muitas outras es-
encontramos anomalias que não têm nenhum         pécies. Estamos ligados aos macacos pelas
sentido adaptativo. Como podemos explicar        unhas dos dedos; a todos os mamíferos pe-
o nosso apêndice sem função, mamilos nos         los cabelos, pelo leite e pela estrutura dos
homens, dentes do siso que nascem de forma       dentes e das mandíbulas; aos répteis, aves e
dolorosa ou nem chegam a nascer, ou a pe-        anfíbios pela estrutura básica de nossos bra-
culiar disposição dos nossos aparelhos diges-    ços e pernas; e a todos os vertebrados, in-

                                                                                               7
cluindo os peixes, pelas vértebras e muitas       outras, tais como o vírus que causa a AIDS e
outras características do nosso esqueleto.        o protozoário que causa a malária, que são
Investigando mais a fundo, vemos que a es-        nossos temíveis inimigos.
trutura das nossas células nos une a todos              Essas reflexões despertam algumas das
os animais e que as funções bioquímicas das       questões mais abrangentes e profundas da
nossas células são virtualmente idênticas em      Biologia. Como podemos explicar a unidade
todo um grupo ainda maior de organismos,          da vida? E a sua espantosa diversidade? Qual
os eucariontes: não apenas animais, mas           é a explicação para a extraordinária adapta-
também plantas, fungos e protozoários tais        ção de todas as espécies, inclusive a nossa,
como as amebas. Os elementos mais funda-          bem como para suas características não-
mentais de tudo são o DNA, veículo da here-       adaptativas? Qual a explicação para as varia-
ditariedade, uma variedade de aminoácidos         ções, tanto dentro das espécies como entre
que constituem os “tijolos” das proteínas e o     elas?
código específico contido no DNA para cada              Essas são as questões fundamentais da
um desses aminoácidos. Todas essas carac-         ciência da Biologia Evolutiva. O empenho em
terísticas são as mesmas em todos os seres        respondê-las, bem como as milhares de ou-
vivos, desde as bactérias até os mamíferos.       tras delas decorrentes, gerou teorias e méto-
Tantas coisas comuns entre espécies exigem        dos que vêm aprofundando continuamente a
uma explicação.                                   nossa compreensão do mundo dos seres vi-
       Este mundo de espécies com as quais        vos — no qual estamos incluídos. Cada tema
temos tanto em comum — quão extraordina-          das ciências biológicas foi enriquecido pela
riamente diverso ele é, apesar de sua unida-      perspectiva evolutiva. A Evolução, que forne-
de! Olhe para um quintal, para uma valeta à       ce uma estrutura explicativa para fenômenos
beira de uma estrada ou até mesmo para um         biológicos que vão de genes a ecossistemas,
terreno abandonado na cidade e encontrará         é a única teoria unificadora da Biologia.
uma variedade espantosa de plantas, insetos             A ciência da Evolução explica a unida-
e fungos e talvez algumas aves e mamíferos.       de da vida por meio de sua história, segundo
Com uma lupa ou um microscópio, descobri-         a qual todas as espécies se originaram de an-
ria diversos ácaros, vermes nematódeos e          cestrais comuns, ao longo dos últimos 4 bi-
bactérias. Até você mesmo tem uma vicejante       lhões de anos. Explica a diversidade e as ca-
comunidade de muitos tipos de bactérias na        racterísticas, tanto adaptativas como não-
pele, na boca e no intestino. E este é apenas o   adaptativas, dos organismos por meio de pro-
começo. Do mais árido deserto até as escal-       cessos de alteração genética, influenciada por
dantes fendas no fundo dos oceanos, o mun-        circunstâncias ambientais. Elabora, a partir de
do fervilha de organismos — pelo menos 2          princípios gerais, explicações para as diver-
milhões e talvez mais de 10 milhões de espé-      sas características dos organismos, desde seus
cies — que diferem entre si das maneiras mais     traços moleculares e bioquímicos até o seu
impressionantes. Seu tamanho vai das gigan-       comportamento e atributos ecológicos. Ao
tescas sequóias e baleias até os vírus que não    elaborar tais explicações, os biólogos dedica-
passam muito de uma grande molécula. Ali-         dos ao estudo da Evolução aperfeiçoaram mé-
mentam-se por fotossíntese, por síntese quí-      todos e conceitos que estão sendo aplicados
mica e pela ingestão de plantas, de madeira       em outros campos, como a Lingüística, a Me-
seca, pêlos ou animais vivos ou mortos. Al-       dicina e até mesmo a Economia. Assim, a
guns deles conseguem viver quase em qual-         perspectiva elaborada pela Biologia Evolutiva
quer lugar; outros são tão especializados que     pode trazer informações para o estudo de uma
só conseguem comer uma espécie de planta          ampla gama de fenômenos, mas o alcance do
ou viver dentro das células de uma única es-      pensamento evolutivo não pára aí. Embora
pécie de inseto. Podem reproduzir-se de for-      tendo sido alvo de controvérsias, a perspecti-
ma sexuada ou por clones, têm sexos separa-       va evolutiva criada por Darwin abalou os fun-
dos ou não, cruzam com outros indivíduos ou       damentos da Filosofia, deixou a sua marca na
se autofertilizam. O comportamento deles          Literatura e nas Artes, afetou profundamente
pode ser tão simples quanto a orientação em       a Psicologia e a Antropologia e trouxe pers-
direção à luz ou tão complexo a ponto de          pectivas inéditas ao significado de ser huma-
envolvê-los em redes de cooperação. Entre         no. Poucas descobertas científicas tiveram um
esses milhões de espécies, há algumas sem         impacto tão abrangente — e desafiador — no
as quais não conseguiríamos sobreviver e          pensamento humano.

                                                                                               8
Este documento trata do papel funda-        Evolutiva deve assumir na pesquisa biológica
mental da Ciência da Evolução na Biologia         e na educação. Para tratar dessas questões, é
Moderna, suas aplicações às preocupações e        preciso descrever primeiro a natureza da pes-
necessidades da sociedade, das principais li-     quisa em Evolução e destacar suas realiza-
nhas futuras da pesquisa em Evolução e suas       ções, tanto como ciência básica como aplica-
aplicações e a posição crítica que a Biologia     da.




            EVOLUÇÃO?
II. O QUE É EVOLUÇÃO?

       A evolução biológica consiste na mu-       nos e macacos tiveram um ancestral comum
dança das características hereditárias de gru-    relativamente recente; que um ancestral co-
pos de organismos ao longo das gerações.          mum mais remoto deu origem a todos os
Grupos de organismos, denominados popu-           primatas; e que ancestrais sucessivamente
lações e espécies, são formados pela divisão      mais remotos deram origem a todos os ma-
de populações ou espécies ancestrais; poste-      míferos, a todos os vertebrados quadrúpedes
riormente, os grupos descendentes passam a        e a todos os vertebrados, incluindo os peixes.
modificar-se de forma independente. Portan-              A Teoria da Evolução é um conjunto de
to, numa perspectiva de longo prazo, a Evo-       afirmações a respeito dos processos da Evo-
lução é a descendência, com modificações, de      lução tidos como causadores da história dos
diferentes linhagens a partir de ancestrais co-   eventos evolutivos. A evolução biológica (ou
muns. Desta forma, a História da Evolução tem     orgânica) ocorre como conseqüência de vári-
dois componentes principais: a ramificação        os processos fundamentais. Esses processos
das linhagens e as mudanças dentro das li-        são tanto aleatórios como não-aleatórios.
nhagens (incluindo a extinção). Espécies ini-            A variação nas características dos orga-
cialmente similares tornam-se cada vez mais       nismos de uma população surge por meio de
diferentes, de modo que, decorrido o tempo        mutação aleatória de seqüências de DNA
suficiente, elas podem chegar a apresentar di-    (genes) que afetam aquelas características.
ferenças profundas.                               Aqui, “aleatório” significa que as mutações
       Todas as formas de vida, dos vírus ao      ocorrem sem levar em conta suas possíveis
pau-brasil e aos humanos, são ligadas por         conseqüências na sobrevivência ou na repro-
cadeias contínuas de descendência. Os pa-         dução. Formas variantes de um gene surgidas
drões hierarquicamente organizados de as-         por mutação são freqüentemente chamadas
pectos comuns entre as espécies — tais como       alelos. A variação genética é aumentada pela
as características comuns de todos os prima-      recombinação durante a reprodução sexuada,
tas, de todos os mamíferos, todos os verte-       que resulta em novas combinações de genes.
brados, todos os eucariontes e todos os seres     A variação também é aumentada pelo fluxo
vivos — refletem uma história na qual todas       gênico, o aporte de novos genes de outras po-
as espécies vivas podem ser seguidas retros-      pulações.
pectivamente ao longo do tempo, até se che-              Uma mudança evolutiva dentro de uma
gar a um número cada vez menor de ances-          população consiste na mudança das propor-
trais comuns. Esta história pode ser descrita     ções (freqüências) dos alelos nesta população.
pela metáfora da árvore filogenética (ver box     Assim, por exemplo, a proporção de um alelo
1). Uma parte desta história está gravada no      raro pode aumentar a tal ponto que acabe
registro fóssil, que documenta a vida simples,    substituindo completamente o alelo que, an-
do tipo das bactérias, nos tempos remotos de      tes, era comum. As mudanças nas proporções
3,5 bilhões de anos atrás, seguida de uma lon-    dos alelos podem ser devidas a qualquer um
ga história de diversificação, modificação e      dos dois processos pelos quais certos indiví-
extinção. As provas da descendência de an-        duos deixam mais descendentes do que ou-
cestrais comuns também residem nas carac-         tros, desta forma legando mais genes às ge-
terísticas comuns dos organismos vivos, in-       rações subseqüentes. Um desses processos,
cluindo sua anatomia, seu desenvolvimen-          a deriva genética, é resultado da variação ale-
to embrionário e seu DNA. Baseados nisso,         atória da sobrevivência e da reprodução de
podemos concluir, por exemplo, que huma-          genótipos diferentes. Na deriva genética, as

                                                                                               9
freqüências dos alelos oscilam por puro aca-          te. (A palavra “adaptação” também é usada
so. No final, um dos alelos acaba substituin-         para designar características que evoluíram
do os outros (i.é, será fixado na população). A       em conseqüência da seleção natural). A sele-
deriva genética é da maior importância quan-          ção natural tende a eliminar alelos e caracte-
do os alelos de um gene são neutros — ou seja,        rísticas que reduzem o valor adaptativo (tais
quando eles não diferem substancialmente              como mutações que causam defeitos congê-
quanto a seus efeitos na sobrevivência ou na          nitos graves nos humanos e em outras espé-
reprodução — e seu progresso é tão mais rá-           cies) e atua também como uma “peneira” que
pido quanto menor for a população. A deriva           preserva e aumenta a abundância de combi-
genética resulta em mudança evolutiva, po-            nações de genes e características que aumen-
rém não em adaptação.                                 tam o valor adaptativo, mas cuja ocorrência
      A outra causa principal de mudança nas          por mero acaso seria rara. Desta forma, a se-
freqüências alélicas é a seleção natural, nome        leção tem um papel “criativo” ao tornar o im-
dado a qualquer diferença consistente (não-           provável muito mais provável. O efeito da se-
aleatória) entre organismos portadores de             leção freqüentemente será a substituição
alelos ou genótipos diferentes quanto à sua           completa de genes e características previa-
taxa de sobrevivência ou de reprodução (i.é,          mente comuns por outras novas (processo
seu valor adaptativo), devido a diferenças            chamado seleção direcionada), mas, em algu-
quanto a uma ou mais características. Na mai-         mas circunstâncias, a “seleção equilibrada”
oria dos casos, há circunstâncias ambientais          pode manter indefinidamente diversas vari-
que influem na determinação de qual varian-           antes genéticas em uma população (situação
te terá maior valor adaptativo. A relevância          chamada polimorfismo genético, como no caso
das circunstâncias ambientais depende                 das hemoglobinas siclêmica e “normal” en-
grandemente do tipo de vida de cada orga-             contradas em algumas populações humanas
nismo, sendo que elas não incluem apenas              da África).
fatores físicos tais como a temperatura, mas                 A seleção natural é a causa derradeira
também outras espécies, bem como outros               de adaptações tais como os olhos, os contro-
membros da mesma espécie, com os quais o              les hormonais do desenvolvimento e os com-
organismo compete, cruza ou mantém outras             portamentos de “cortejo” para atrair parcei-
interações sociais.                                   ros, mas não pode produzir tais adaptações,
                                                      sem que a mutação e a recombinação gerem
                                                      uma variação genética sobre a qual possa agir.
                                                      No decorrer de um período suficientemente
                                                      longo, novas mutações e recombinações,
                                                      selecionadas por deriva genética ou por sele-
                                                      ção natural, podem alterar muitas caracterís-
                                                      ticas, podendo alterar cada uma delas tanto
                                                      quantitativa como qualitativamente. O resul-
                                                      tado pode ser uma mudança indefinidamente
                                                      grande, a ponto de uma espécie descendente
                                                      diferir flagrantemente de seu ancestral remo-
                                                      to.
                                                             A movimentação de indivíduos entre
                                                      populações, seguida de cruzamentos (i.é, flu-
                                                      xo gênico), permite que novos genes e carac-
                                                      terísticas se espalhem a partir de sua popula-
                                                      ção de origem para toda a espécie. Se o fluxo
Evolução
                                                      gênico entre populações diferentes, separa-
por Seleção Natural
                                                      das geograficamente, for pequeno, as mudan-
Os biólogos do século dezenove Charles Darwin e       ças genéticas que aparecerão nessas popula-
Alfred Russel Wallace estabeleceram as bases para a
Teoria da Evolução.
                                                      ções podem ser diferentes. Uma vez que as
                                                      populações passam por histórias diferentes de
     Uma conseqüência comum da seleção                mutação, deriva genética e seleção natural
natural é a adaptação, uma melhora da capa-           (esta última sendo especialmente provável, se
cidade média dos membros da população de              os seus meios ambientes forem diferentes),
sobreviver e reproduzir no seu meio ambien-           elas seguem caminhos diferentes de mudan-

                                                                                                 10
ça, divergindo em sua constituição genética e             É importante fazer a distinção entre a
nas características individuais dos organismos     História da Evolução e os processos conside-
(variação geográfica). As diferenças acumula-      rados como explicativos desta história. A mai-
das acabam fazendo com que as diferentes           oria dos biólogos considera a História da Evo-
populações se tornem reprodutivamente iso-         lução — a proposta de que todas as espécies
ladas: isto é, se seus membros se encontra-        sejam descendentes, com modificações, de
rem, não trocarão genes, porque não cruza-         ancestrais comuns — como um fato — isto é,
rão entre si ou, se o fizerem, a prole “híbrida”   uma afirmação sustentada por provas tão con-
será inviável ou infértil. As populações dife-     tundentes que é aceita como verdadeira. O con-
rentes agora são espécies diferentes. O signi-     junto de princípios que descreve os proces-
ficado deste processo de especiação é que, a       sos causais da Evolução, tais como mutação,
partir daí, as novas espécies poderão evoluir      deriva genética e seleção natural, constitui a
de forma independente. Algumas podem ori-          Teoria da Evolução. O termo “teoria” é usado
ginar ainda outras espécies, que poderão aca-      aqui da mesma forma como em toda a ciên-
bar se tornando extremamente diferentes en-        cia, como em “Teoria Quântica” ou “Teoria
tre si. Eventos sucessivos de especiação, as-      Atômica,” significando não mera especulação
sociados à divergência, dão origem a aglome-       e sim um bem estabelecido sistema ou conjun-
rados de ramos na árvore filogenética dos          to de afirmações que explicam um grupo de fe-
seres vivos.                                       nômenos. Embora a maioria dos detalhes da
       Embora, separadamente, cada um dos          História da Evolução ainda tenha de ser des-
processos envolvidos na Evolução pareça re-        crita (o que também é verdade em relação à
lativamente simples, a Evolução não é tão di-      História humana), a afirmação de que houve
reta quanto possa parecer por este resumo.         uma história de ancestrais comuns e de mo-
Os vários processos da Evolução interagem          dificação é fato tão plenamente confirmado
de maneiras complexas e cada um deles, por         quanto qualquer outro na Biologia. Contras-
sua vez, tem numerosos matizes e complexi-         tando com isso, a Teoria da Evolução, como
dades. Um gene pode afetar vários caracteres,      todas as teorias científicas, continua a se de-
vários genes podem afetar um caráter, a sele-      senvolver, à medida que novas informações
ção natural pode mudar de taxa ou mesmo            e idéias aprofundam a nossa compreensão.
de direção de um ano para outro, ou pressões       Os biólogos que estudam a Evolução acredi-
de seleção conflitantes podem afetar um ca-        tam firmemente que as suas principais cau-
ráter. Levando-se em conta tais complexida-        sas já foram identificadas. Entretanto, as opi-
des, pode ficar bastante difícil prever quando     niões sobre a importância relativa dos diver-
e como um determinado caráter irá evoluir. A       sos processos continuam a mudar, à medida
teoria matemática e os modelos de computa-         que novas informações acrescentam detalhes
dor são ferramentas inestimáveis para a com-       e modificam a nossa compreensão. Ainda as-
preensão da maneira mais provável pela qual        sim, citar a Evolução como um fato pode ge-
um caráter irá evoluir. Grande parte da pes-       rar controvérsia, pois provavelmente nenhu-
quisa em Evolução consiste em formular mo-         ma afirmação em toda a ciência desperta tanta
delos precisos, muitas vezes quantitativos, e      oposição emocional. Por isso, incluímos o
depois testá-los por experimentação ou por         Apêndice I, intitulado “Evolução: Fato, Teo-
observação.                                        ria, Controvérsia.”




                                                                                              11
QUAIS        OBJETIVOS DA          EVOLUTIV
                                          OLUTIVA?
III. QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DA BIOLOGIA EVOLUTIVA?

     A Biologia Evolutiva é a disciplina que        mecanismos neurais, hormonais e do de-
descreve a História da vida e investiga os pro-     senvolvimento subjacentes ao comporta-
cessos responsáveis por essa História.              mento também são objetos de estudo
     A Biologia Evolutiva tem dois objetivos        evolutivo, da mesma forma como as dife-
amplos:                                             renças adaptativas entre espécies, quanto
                                                    à memória, aos padrões de aprendizado e
• Descobrir a História da vida na Terra: isto       a outros processos cognitivos, alguns dos
  é, (1) determinar as relações ancestral-des-      quais se refletem em diferenças de estru-
  cendente entre todas as espécies que já           tura cerebral. Os padrões de comportamen-
  viveram — sua filogenia; (2) determinar as        to, fisiologia, estrutura e ciclo de vida
  épocas em que elas surgiram e se extin-           freqüentemente evoluem em conjunto.
  guiram; e (3) determinar a origem de suas
  características, bem como o ritmo e o cur-      • Biologia Evolutiva do Desenvolvimento
                                                                            Desenvolvimento
                                                                                   volvimento.
  so de suas mudanças.                              Esta área procura compreender as mudan-
                                                    ças evolutivas ocorridas nos processos de
• Compreender os processos causais da Evo-          tradução da informação genética contida
  lução: isto é, compreender (1) as origens         no DNA de um organismo (o seu genótipo)
  das variações hereditárias; (2) de que modo       em suas características anatômicas e ou-
  processos diversos atuam no sentido de in-        tras (o seu fenótipo). Objetiva, em parte,
  fluenciar o destino dessas variações; (3) a       descrever de que modo a variação ao ní-
  importância relativa dos numerosos pro-           vel genético resulta em uma variação nas
  cessos coadjuvantes das mudanças; (4)             características, que afeta a sobrevivência
  com que velocidade ocorrem as mudan-              e a reprodução. Talvez o seu maior signifi-
  ças; (5) como processos tais como a muta-         cado resida no seu potencial de revelar até
  ção, a seleção natural e a deriva genética        que ponto os processos do desenvolvimen-
  deram origem às diversas características          to distorcem, restringem ou facilitam a evo-
  moleculares, anatômicas, comportamen-             lução do fenótipo.
  tais e outras dos diferentes organismos; e
  (6) como populações se tornam espécies          • Ecologia Evolutiva Esta área dedica-se a
                                                               Evolutiva.
  diferentes. Este vasto projeto de compre-         observar como evoluem as histórias da
  ender as causas da Evolução baseia-se pra-        vida, os tipos de alimentação e outras ca-
  ticamente na Biologia inteira e, reciproca-       racterísticas ecológicas das espécies, como
  mente, a compreensão dos processos de             esses processos afetam a composição e as
  Evolução fornece informações a todas as           propriedades das comunidades e dos
  áreas da Biologia.                                ecossistemas e como as espécies evoluem
                                                    em resposta umas às outras. Suas ques-
A. Subdisciplinas da Biologia Evolutiva             tões mais destacadas incluem: Como po-
                                                    demos explicar a evolução de tempos de
      A Biologia Evolutiva inclui numerosas         vida curtos ou longos? Por que algumas
subdisciplinas, que diferem quanto aos seus         espécies têm distribuição ampla e outras,
assuntos e aos seus métodos. Algumas das            restrita? Com o passar do tempo, os para-
principais subdisciplinas são:                      sitas (incluindo os patógenos microbianos)
                                                    evoluem no sentido de se tornarem mais
• A Evolução Comportamental (também                 benignos ou mais virulentos? De que modo
  chamada Ecologia Comportamental). Os              as mudanças evolutivas e a história
  pesquisadores da Evolução Comportamen-            evolutiva interferem no número de espé-
  tal estudam a evolução de adaptações tais         cies de uma comunidade tal como uma flo-
  como os sistemas de acasalamento, o com-          resta tropical ou uma floresta da zona tem-
  portamento do “cortejo”, o comportamen-           perada?
  to de procura de alimentos, os mecanis-
  mos de fuga de predadores e a coopera-          • Genética Evolutiva A Genética Evolutiva
                                                              Evolutiva.
  ção. As características comportamentais           (que inclui a Genética de Populações) é
  evoluem de maneira muito semelhante às            uma disciplina central no estudo dos pro-
  características estruturais. Mudanças nos         cessos evolutivos. Ela utiliza tanto os mé-

                                                                                             12
todos da Genética Molecular, como os da                    mudam uma em relação à outra durante a
   Genética clássica, para compreender a ori-                 Evolução? Como e por que algumas espé-
   gem da variação por mutação e recombi-                     cies toleram uma ampla gama de fatores
   nação. Descreve os padrões de variação                     ambientais, como a temperatura, e outras
   genética dentro e entre populações e es-                   somente uma gama mais reduzida? Existe
   pécies, e usa tanto estudos empíricos como                 diversidade de mecanismos pelos quais as
   teoria matemática para descobrir como                      populações possam se adaptar a um novo
   essa variação é influenciada por proces-                   ambiente?
   sos tais como deriva genética, fluxo gênico
   e seleção natural. A teoria matemática da               • Evolução humana Muitos biólogos que
                                                                        humana.
   Genética Evolutiva é essencial para a in-                 estudam a Evolução recorrem às subdis-
   terpretação da variação genética e para a                 ciplinas conceituais da Biologia Evolutiva
   previsão de mudanças evolutivas, quando                   para estudar grupos particulares de orga-
   há interação entre muitos fatores. Ela tam-               nismos. Dentre esses grupos, um é especi-
   bém fornece uma base sólida para a com-                   almente notável: o gênero Homo. Os nu-
   preensão da evolução de classes especiais                 merosos antropólogos e biólogos que es-
   de características, tais como a estrutura do              colhem a Evolução Humana como seu
   genoma e as histórias da vida.                            tema de estudo usam princípios, concei-
                                                             tos, métodos e informações oriundos da
• P a l e o n t o l o g i a E v o l u t i v a Esta área,
                                            a.               Sistemática, Paleontologia, Genética e Eco-
  freqüentemente chamada Paleobiologia,                      logia Evolutivas e dos estudos da evolu-
  trata dos padrões evolutivos de grande es-                 ção do comportamento animal — o leque
  cala do registro fóssil. Examina as origens                completo de disciplinas evolutivas. Outros
  e os destinos de linhagens e principais gru-               pesquisadores estudam a variação genéti-
  pos, tendências evolutivas e outras mudan-                 ca e os processos que a influenciam nas
  ças anatômicas ao longo do tempo, além                     populações humanas contemporâneas (as-
  de variações geográficas e temporais da                    sunto intimamente relacionado com outras
  diversidade em todo o passado geológico.                   áreas da Genética Humana, como a Gené-
  Ela também procura compreender os pro-                     tica Médica). Outros ainda trabalham na
  cessos físicos e biológicos e os singulares                controvertida área do comportamento e da
  acontecimentos históricos que moldaram                     psicologia humanos.
  a Evolução. Os dados paleontológicos
  abrem uma janela para tempos remotos,                    • Evolução Molecular Desenvolvendo-se
                                                                         Molecular.
  permitindo desta forma o estudo direto de                  em estreita ligação com o espetacular
  problemas que vão desde a mudança na                       avanço da Biologia Molecular, esta área
  forma e na distribuição de espécies ao lon-                investiga a história e as causas das mudan-
  go de milhões de anos até as respostas                     ças evolutivas ocorridas nas seqüências de
  evolutivas dos principais grupos a mudan-                  nucleotídeos dos genes (DNA), na estrutu-
  ças ambientais, tanto catastróficas como                   ra e no número de genes, sua organização
  gradativas. Esses dados também permitem                    física nos cromossomos e muitos outros
  a calibragem da taxa de fenômenos como                     fenômenos moleculares. Esta área também
  as mutações nas seqüências de                              fornece instrumentos para a investigação
  nucleotídeos.                                              de numerosas questões referentes à evo-
                                                             lução dos organismos, que vão desde as
• Fisiologia e Morfologia Evolutivas Esta
                            Evolutivas.                      relações filogenéticas entre espécies até os
  ampla área dedica-se a observar a manei-                   padrões de cruzamento dentro de popula-
  ra pela qual os traços bioquímicos, fisioló-               ções.
  gicos e anatômicos dos organismos os tor-
  nam adaptados ao seu ambiente e modo                     • Sistemática Os sistematas fazem a distin-
                                                             Sistemática.
  de vida, bem como a história dessas adap-                  ção entre espécies e as nomeiam, inferem
  tações. Também está começando a definir                    relações filogenéticas entre espécies e clas-
  os limites da adaptação — pois esses limi-                 sificam espécies com base em suas rela-
  tes podem restringir a distribuição de uma                 ções evolutivas. Os sistematas contribuí-
  espécie ou levar à sua extinção. Entre as                  ram muito para a nossa compreensão da
  questões estudadas por esta área estão: De                 variação e da natureza das espécies. O seu
  que modo a forma e a função de um traço                    conhecimento especial a respeito de gru-

                                                                                                      13
pos particulares de organismos é indispen-     • O acaso e a necessidade Um dos princí-
                                                                  necessidade.
  sável, tanto para se inferir a história da       pios fundamentais da Ciência da Evolução
  Evolução, como para se compreender os            é o de que os sistemas vivos devem as suas
  mecanismos detalhados dos processos              propriedades a uma interação entre acon-
  evolutivos, já que cada grupo de organis-        tecimentos estocásticos (aleatórios) e
  mos apresenta questões especiais, fasci-         determinísticos (consistentes, previsíveis).
  nantes e freqüentemente importantes.             Mutações casuais, impactos de asteróides
  Além disso, muitas vezes os conhecimen-          e outros acontecimentos dessa natureza ti-
  tos dos sistematas têm uma utilidade ines-       veram grande influência no curso da evo-
  perada. O conhecimento da sistemática e          lução das espécies. Por isso, os biólogos
  das características biológicas do roedor         que se dedicam ao estudo da Evolução de-
  Peromyscus maniculatus (deer mouse) tor-         senvolveram teorias probabilísticas que
  nou-se de valor inestimável quando o novo        descrevem a probabilidade de várias traje-
  hantavirus, do qual esses animais são hos-       tórias evolutivas. Um importante corolário
  pedeiros, fez vítimas fatais nos Estados         dos eventos aleatórios é a contingência
  Unidos. Da mesma forma, plantas aparen-          histórica. Embora algumas adaptações a fa-
  tadas com espécies nas quais foi encon-          tores ambientais sejam razoavelmente pre-
  trado algum composto de utilidade                visíveis, outras características dos organis-
  farmacológica podem conter compostos             mos são conseqüências de “acidentes his-
  semelhantes.                                     tóricos” que lançaram a Evolução para uma
                                                   via e não para outras. As modificações dos
B. Perspectivas a partir da                        membros anteriores para o vôo, por exem-
   Biologia Evolutiva                              plo, são muito diferentes em aves, morce-
                                                   gos e pterodáctilos, presumivelmente por-
      Disciplinas biológicas como a Biologia       que mutações diferentes apresentaram à
Molecular e a Fisiologia fazem perguntas so-       seleção natural opções diferentes nessas
bre o “como”: Como é que funcionam os or-          linhagens.
ganismos e suas partes? A Biologia Evolutiva
acrescenta perguntas sobre o “porquê”: Por       • Variação Embora os fisiologistas possam
                                                     ariação.
que determinados organismos têm certos tra-        encarar a variação como um “ruído” inde-
ços e outros não? Assim, enquanto grande           sejável ou um erro de experimentação que
parte da Biologia trata das causas imediatas       obscurece um valor “verdadeiro”, a varia-
dos fenômenos observados, a Biologia               ção é o mais importante objeto de estudo
Evolutiva trata das causas remotas. Possíveis      para a maioria dos biólogos que se dedi-
respostas a perguntas sobre as causas remo-        cam ao estudo da Evolução. Provavelmente
tas poderiam incluir “porque esta espécie her-     nenhuma das lições da Biologia Evolutiva
dou tal traço de seus ancestrais longínquos”       é mais importante do que a conscientiza-
ou “porque a sua história de seleção natural       ção de que não existem “essências” platô-
favoreceu este traço em detrimento de outros”.     nicas ou propriedades fixas, “verdadeiras”,
O fato de o embrião humano ainda ter fendas        “normais”. Quase todo caráter apresenta
branquiais somente pode ser compreendido           alguma diferença entre os indivíduos de
à luz de sua herança de ancestrais vertebra-       uma população. A ênfase colocada na va-
dos inferiores; o fato de andarmos eretos pode     riação pelos biólogos que se dedicam ao
ser compreendido como uma adaptação, um            estudo da Evolução deu frutos metodo-
traço favorecido pela seleção natural nos nos-     lógicos — a saber, métodos estatísticos,
sos ancestrais mais recentes. Ao mesmo tem-        como a análise de variância e do coefici-
po em que enfatizamos a História, devemos          ente de pista ou passagem, amplamente
reconhecer que a Evolução é um processo ati-       usados em outras áreas. A perspectiva
vo, contínuo, que atinge os seres humanos e        evolutiva da variação também traz impli-
todos os demais organismos vivos.                  cações para a maneira pela qual pensamos
      O estudo da Evolução impõe várias            a respeito de “normalidade” e “anormali-
perspectivas que deram importantes contri-         dade” e a respeito das diferenças nas ca-
buições conceituais à Biologia.                    racterísticas humanas. A consciência da




                                                                                            14
variação dentro das populações é um po-                                        velados por esses sistemas modelo — e,
   deroso antídoto contra o racismo e a cria-                                     efetivamente, sabemos que muitos desses
   ção de estereótipos para grupos étnicos e                                      princípios são aplicáveis somente com
   outros.                                                                        modificações, ou absolutamente não se
                                                                                  aplicam, a um grande número de outras
• Diversidade biológica Os biólogos que se
                biológica.                                                        espécies. A regulação gênica, por exem-
  dedicam ao estudo da Evolução não estão                                         plo, foi esclarecida primeiro em bactérias,
  apenas intrigados pela diversidade da vida,                                     mas é muito diferente nos eucariontes. Pre-
  mas têm também clara consciência das                                            cisamos estudar organismos diversos, a fim
  contribuições que o estudo de organismos                                        de aprender sobre adaptações fisiológicas
  diversos traz à Biologia. Prova disso são                                       à escassez de água nas plantas do deserto
  os imensos avanços da Biologia que se ori-                                      (incluindo potenciais plantas de safra), os
  ginaram dos estudos aprofundados de “mo-                                        mecanismos pelos quais os parasitas com-
  delos” de organismos tais como leveduras,                                       batem os sistemas imunológicos de seus
  milho, ratos, a bactéria Escherichia coli e a                                   hospedeiros, ou a evolução do comporta-
  mosca da fruta Drosophila melanogaster; de                                      mento social, da comunicação ou do
  fato, muitos biólogos que se dedicam ao                                         aprendizado nos animais como os prima-
  estudo da Evolução estudam esses orga-                                          tas. Organismos diferentes apresentam
  nismos modelo. Entretanto, sem examinar                                         questões biológicas diferentes e, para cada
  outras espécies, não podemos saber o al-                                        questão, há espécies que se prestam mais
  cance da aplicabilidade dos princípios re-                                      à investigação do que outras.



                                                                      Um Exemplo de Uso dos Conhecimentos sobre
                                                                      Biodiversidade
                                                                      Charles W. Myers 1 e John W. Daly2
                                                                              W.                W.
                                                                      1
                                                                          American Museum of Natural History
                                                                      2
                                                                          National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases

                                                              O conhecimento das relações evolutivas (filogenéticas)
                                                           têm ajudado os pesquisadores científicos a descobrirem
                                                           compostos naturais úteis na pesquisa biomédica. Os sa-
                                                           pinhos-ponta-de-flecha constituem um grupo de espéci-
                                                           es relacionadas de anfíbios tropicais do Novo Mundo, en-
                                                           contrados na América Central e do Sul. Seus venenos têm
                                                           como base uma classe de compostos químicos chama-
                                                           dos alcalóides, que os sapinhos conseguem obter de pe-
                                                           quenos insetos e outros invertebrados dos quais se ali-
                                                           mentam e que, mais tarde, liberam em secreções cutâneas
                                                           defensivas. Alcalóides de três espécies desses sapos são
                                                           usados para envenenar as flechas das zarabatanas dos
                                                           caçadores nativos das selvas da Colômbia Ocidental. A
   batracotoxina, um alcalóide isolado de um desses sapinhos-ponta-de-flecha, o Phyllobates terribilis,1 mostrou-se
   útil ao se estudarem os efeitos de anestésicos locais, anticonvulsivos e outras drogas. Alcalóides da classe das
   pumiliotoxinas de um sapinho-ponta-de-flecha da América Central, o Dendrobates pumilio, revelaram ter ativida-
   de cardiotônica (estimulante do coração). A epibatidina, alcalóide isolado da pele de um sapinho-ponta-de-flecha
   sul-americano, o Epipedobates tricolor, é 200 vezes mais poderoso como analgésico (remédio contra dor) do que
   a morfina e estão em andamento vastas pesquisas de um análogo sintético comercial, por causa de sua poderosa
   atividade semelhante à nicotina. Estes são apenas alguns dos compostos de utilidade médica inicialmente des-
   cobertos nos sapinhos-ponta-de-flecha tropicais. Trabalhando em contato estreito com biólogos que estudam a
   Evolução e sistematas que localizam, identificam e descrevem novas espécies de sapinhos-ponta-de-flecha, os
   pesquisadores científicos continuam a identificar novos compostos úteis na pesquisa biomédica.

   Badio, B., H. M. Garraffo, T. F. Spande, and J. W. Daly. 1994. Epibatidine: discovery and definition as a potent analgesic and nicotinic
   agonist. Med. Chem. Res. 4: 440–448.




                                                                                                                                              15
IV. COMO SE ESTUDA A EVOLUÇÃO?
IV.         ESTUDA EVOLUÇÃO?

      Uma vez que a Biologia Evolutiva abran-                                mum mais recente do que espécies com
ge tudo, dos estudos moleculares até os                                      um número menor de características em
paleontológicos, um catálogo dos seus méto-                                  comum. É óbvio, assim, que ratos, baleias,
dos preencheria vários volumes. Nós pode-                                    macacos e outros mamíferos têm entre si
mos citar apenas alguns dos métodos mais                                     um ancestral comum mais recente do que
gerais e comumente usados.                                                   com aves ou lagartos, uma vez que os ma-
                                                                             míferos possuem muitas características
• Métodos de inferência filogenética são                                     singulares derivadas (p. ex., leite, pêlos,
  usados para estimar relações entre espé-                                   mandíbula única). É menos óbvio, mas as-
  cies (vivas e extintas). Progressos recentes                               sim mesmo cada vez mais provável, à me-
  dos métodos lógicos e de computação au-                                    dida que se acumulam novos dados, que
  mentaram consideravelmente a confiança                                     os chimpanzés sejam parentes mais pró-
  nessas estimativas. Usando uma excessi-                                    ximos dos humanos do que dos gorilas.
  va simplificação, o princípio no qual se                                   Tais conclusões baseiam-se não somente
  baseiam esses métodos é o de que espéci-                                   em métodos melhorados de análise dos
  es com um número maior de característi-                                    dados, mas também em um acervo prati-
  cas derivadas (“avançadas”) em comum                                       camente inexaurível de novos dados: lon-
  tenham se originado de um ancestral co-                                    gas seqüências de DNA, revelando muito



                                                                 As Origens do Homem Moderno
                                                                 Douglas J. Futuyma
                                                                 State University of New York at Stony Brook

                                                           A maioria dos hominídeos fósseis de cerca de 1 milhão
                                                       a 300.000 anos atrás é classificada como Homo erectus, que
                                                       esteve amplamente distribuído desde a África até a Ásia
                                                       Oriental. As características esqueléticas do Homo erectus
                                                       evoluíram gradualmente para as do Homo sapiens. A tran-
                                                       sição anatômica entre o Homo sapiens “arcaico” — como
                                                       os neandertalenses — e o Homo sapiens “anatomicamente
                                                       moderno” ocorreu na África cerca de 170.000 anos atrás e,
                                                       algum tempo depois, em outro lugar. Até recentemente, a
                                                       suposição geral era de que os genes para as características
                                                       modernas tivessem se espalhado por diferentes populações
                                                       humanas “arcaicas”, de modo tal que todas as diferentes
                                                       populações arcaicas tivessem evoluído para o homem
                                                       moderno, mantendo porém algumas diferenças genéticas
                                                       que persistem até hoje entre diferentes populações huma-
  nas. Esta idéia é conhecida como a “hipótese multi-regional”.
      A hipótese multi-regional foi contestada por alguns geneticistas que propuseram, em vez disso, que o ho-
  mem anatomicamente moderno tenha evoluído inicialmente na África e se difundido depois pela Europa e Ásia,
  substituindo os humanos arcaicos sem que houvesse reprodução cruzada entre eles.1 Segundo esta hipótese da
  “origem africana”, as populações humanas arcaicas da Europa e da Ásia teriam legado poucos genes, se é que
  deixaram algum, às populações de hoje. Esta hipótese baseia-se em estudos sobre a variação na seqüência de
  certos genes, como os genes mitocondriais, de populações humanas de todo o mundo. Esses genes mostram que
  as seqüências de DNA de populações diferentes são mais semelhantes do que seria de se esperar, caso elas
  tivessem acumulado mutações diferentes durante 300.000 anos ou mais. Além disso, as seqüências das popula-
  ções africanas diferem mais entre si do que as seqüências dos europeus, asiáticos e índios americanos – o que
  pode indicar que as populações africanas são mais antigas e tiveram mais tempo para acumular diferenças
  mutacionais entre seus genes.
      As análises destes genes sugerem que o homem moderno se difundiu a partir da África há cerca de 150.000 a
  160.000 anos. Se isso for verdade, todos os seres humanos têm um parentesco mais próximo entre si, sendo
  descendentes de ancestrais comuns mais recentes do que se pensava anteriormente. Assim mesmo, alguns
  genes apresentam um quadro diferente. Nesses casos, a quantidade de variação de seqüências de DNA entre
  cópias de genes é maior nas populações asiáticas do que nas africanas e as diferenças entre as populações são
  suficientemente grandes para sugerir que elas tenham divergido há mais de 200.000 anos – antes do aparecimen-
  to de seres humanos anatomicamente modernos no registro fóssil. Embora muitos dos pesquisadores neste
  campo estejam se inclinando para a hipótese da “origem africana”, a questão ainda não está resolvida e haverá
  necessidade de maior número de dados, antes que se possa chegar a uma conclusão segura sobre a origem do
  homem moderno.

  1
   R.L. Cann et al., Nature 325:31-36 (1987); D.B. Goldstein et al., Proc. Natl. Acad. Sci. USA 92:6723-6727 (1995); N. Takahata, Annu.
  Rev. Ecol. Syst. 26:343-372 (1995); R.M. Harding et al., Am. J. Hum. Genet. 60:772-789 (1997).



                                                                                                                                      16
mais semelhanças e diferenças entre as es-        mais domésticos, é uma ferramenta impor-
   pécies do que as facilmente encontradas           tante para medir e distinguir variações ge-
   em sua anatomia. Os mesmos métodos                néticas e não-genéticas das características
   usados para inferir a genealogia das espé-        fenotípicas. Um dos métodos para fazer
   cies podem ser usados para inferir a              esta distinção envolve a medida das seme-
   genealogia dos próprios genes. Assim, por         lhanças entre parentes, o que exige o co-
   exemplo, estudos moleculares da Evolução          nhecimento das relações entre os indiví-
   podem usar seqüências de DNA para esti-           duos pertencentes a populações naturais.
   mar há quanto tempo variantes de um               Muitas vezes, tais informações podem ser
   gene, presentes em pessoas diferentes,            obtidas por meio de marcadores genéticos
   surgiram a partir de um único gene ances-         moleculares. Avanços recentes das
   tral.                                             tecnologias moleculares baseadas no DNA
                                                     viabilizaram a construção de mapas gené-
• Bancos de dados paleontológicos A
                          paleontológicos.           ticos detalhados para uma ampla gama de
  Paleontologia Evolutiva fundamenta-se na           espécies, bem como a identificação de re-
  Sistemática, incluindo a inferência                giões específicas do DNA que controlam
  filogenética, pois é necessário classificar os     ou regulam caracteres quantitativos.
  organismos fossilizados e determinar as re-
  lações entre eles, antes que eles possam         • Inferência a partir de padrões genéticos
                                                                                     genéticos.
  ser utilizados para qualquer outra coisa.          Muitas mudanças evolutivas (embora não
  Feito isto, os fósseis podem ser usados para       todas) levam períodos imensos de tempo,
  dois tipos principais de estudos evolutivos.       de modo que freqüentemente os proces-
  Um é o rastreamento das mudanças                   sos envolvidos são inferidos com base em
  evolutivas das características das linhagens       padrões de variação existentes, e não em
  ao longo do tempo geológico, como as               observação direta. Muitas hipóteses sobre
  ocorridas durante a descendência dos ma-           processos evolutivos podem ser testadas
  míferos a partir de seus ancestrais répteis.       comparando-se os padrões de variação
  O outro é a determinação dos tempos e              genética e fenotípica com aqueles previs-
  velocidades de surgimento e extinção das           tos por modelos evolutivos. Por exemplo,
  linhagens e o estabelecimento da correla-          a “teoria neutra” da evolução molecular por
  ção de tais mudanças com outros eventos            deriva genética sustenta que a variação
  da História da Terra. Por exemplo, cada            molecular intraespecífica deveria ser mai-
  uma de cinco grandes extinções em massa            or e a divergência entre espécies mais rá-
  — uma delas claramente devida ao impac-            pida, para genes cujas mutações, em sua
  to de um asteróide — foi seguida de um             maioria, não têm efeito sobre o valor
  grande aumento na velocidade de                    adaptativo do organismo, do que para
  surgimento de espécies e de taxons supe-           genes cujas mutações, em sua maioria, têm
  riores, fornecendo provas de que a diver-          grande efeito sobre o valor adaptativo. Se-
  sificação das espécies é estimulada pela           gundo este modelo, genes que codificam
  disponibilidade de recursos ociosos. Os            proteínas de pouca importância, ou que
  estudos da biodiversidade fóssil baseiam-          não codificam nenhuma proteína funcio-
  se em bancos de dados computadorizados             nal, deveriam apresentar variação de
  referentes à ocorrência geológica e geo-           nucleotídeos maior do que genes que co-
  gráfica de milhares de taxons fósseis, da-         dificam proteínas funcionalmente impor-
  dos acumulados por milhares de paleon-             tantes. Estudos de variação do DNA con-
  tólogos de todo o mundo ao longo de dois           firmaram amplamente este modelo. Este
  séculos.                                           modelo é tão poderoso que atualmente os
                                                     biólogos moleculares usam rotineiramen-
• Caracterização da variação genética e              te o nível de variação das seqüências en-
  fenotípica Caracterizar a variação é uma
  fenotípica.                                        tre espécies como indício de uma maior ou
  das tarefas mais importantes da Biologia           menor importância da função de uma se-
  Evolutiva. Os métodos estatísticos usados          qüência de DNA recém-descrita.
  para isso podem ser aplicados a muitos ti-
  pos diferentes de dados. A análise genéti-       • Observação das mudanças evolutivas
                                                                                 evolutivas.
  ca quantitativa, também usada amplamen-            Algumas mudanças evolutivas importan-
  te no cultivo de plantas de safra e de ani-        tes ocorrem com rapidez suficiente para

                                                                                             17
que possam ser documentadas no decor-           essas adaptações (16). Um grupo de pes-
  rer de uma ou de algumas vidas científi-        quisadores previu as mudanças evolutivas
  cas. Isto é particularmente provável quan-      que ocorreriam nas características da his-
  do, devido a atividades humanas ou ou-          tória de vida (p. ex., velocidade de amadu-
  tras causas, o ambiente de uma população        recimento) dos lebistes (peixes), se eles
  muda ou quando uma espécie é                    fossem expostos a determinada espécie de
  introduzida em um novo ambiente. Por            peixes predadores. Eles introduziram
  exemplo, as mudanças no suprimento ali-         lebistes em um rio de Trinidad onde vivia
  mentar devido à seca nas Ilhas Galápagos        esse predador e constataram que, depois
  causaram, no período de poucos anos, uma        de aproximadamente seis anos, os lebistes
  mudança evolutiva substancial, embora           introduzidos diferiam da população ances-
  temporária, no tamanho do bico de um            tral exatamente do modo previsto por eles
  tentilhão; um vírus introduzido na Austrá-      (50).
  lia para controlar os coelhos evoluiu para
  uma menor virulência em menos de uma          • O método comparativo Evolução conver-
                                                              comparativo.
  década (e a população de coelhos tornou-        gente é a evolução independente, em linha-
  se mais resistente a ele); os ratos evoluí-     gens diferentes, de características seme-
  ram para a resistência ao veneno warfarin;      lhantes que servem para a mesma função
  desde a II Guerra Mundial, centenas de es-      ou para funções semelhantes. Por exem-
  pécies de insetos que infestam safras e         plo, vários grupos não-aparentados de pei-
  transmitem doenças desenvolveram resis-         xes que habitam águas turvas desenvolve-
  tência ao DDT e a outros inseticidas; e a       ram independentemente a capacidade de
  rápida evolução da resistência a antibióti-     gerar um campo elétrico fraco, que lhes
  cos nos microorganismos patogênicos gera        permite perceber objetos próximos. A evo-
  um dos mais sérios problemas de saúde pú-       lução convergente é tão comum que mui-
  blica (4, 42).                                  tas vezes pode ser usada para testar hipó-
                                                  teses. Se levantarmos a hipótese de certa
• Experimentação Estudos evolutivos mui-
  Experimentação.                                 função para uma característica, a sua ocor-
  tas vezes envolvem experimentos tais            rência ou condição deveria estar correla-
  como a colocação de populações em no-           cionada com ambientes ou tipos de vida
  vos ambientes e a monitorização das mu-         específicos. Por exemplo, os ecólogos que
  danças, ou a seleção direta de um caráter       se dedicam ao estudo da Evolução previ-
  particular pelo qual se tenha interesse.        ram que, independentemente de suas re-
  Entre os experimentos mais comuns estão         lações filogenéticas, espécies de plantas
  aqueles que analisam as mudanças                que habitam ambientes com pouca luz,
  evolutivas em populações manipuladas,           água ou nutrientes e que, por isso, não
  seja em condições naturais, seja no labo-       conseguem repor rapidamente os tecidos
  ratório, usando organismos com tempos de        perdidos para herbívoros deveriam conter
  geração curtos, capazes de evoluir rapida-      quantidades maiores de substâncias quí-
  mente. Os pesquisadores vêm usando, por         micas defensivas do que espécies que cres-
  exemplo, populações de bactérias de labo-       cem em ambientes de maior abundância.
  ratório para monitorar o curso da adapta-       Comparando grande número de espécies
  ção a temperaturas elevadas, novas dietas       de plantas que crescem em ambientes di-
  químicas, antibióticos e bacteriófagos (ví-     ferentes, os ecólogos que se dedicam ao
  rus que atacam bactérias), tendo caracte-       estudo da Evolução encontraram provas de
  rizado as novas mutações subjacentes a          peso a favor desta previsão (11).




                                                                                          18
Aumentos dos números de espécies de pragas resistentes às principais classes de inseticidas. (De R.L. Metcalf em: R.L. Metcalf e
W.H. Luckman (eds.), Introduction to Insect Pest Management, 3ª edição, p. 251, Copyright 1994 de John Wiley and Sons, N.Y.)



Pragas de Insetos: Resistência e Controle
Douglas J. Futuyma
State University of New York at Stony Brook

     A Evolução é um processo dinâmico, contínuo, que pode ter um impacto direto e importante sobre o bem-
estar humano. A evolução da resistência a inseticidas em espécies de insetos que constituem pragas e em outros
artrópodes oferece um exemplo espetacular deste fato.1
     Desde a II Guerra Mundial, vêm sendo usados inseticidas sintéticos para o controle de insetos e ácaros que
causam perdas imensas de safras e, por serem vetores de malária e outras doenças, representam grandes ame-
aças à saúde pública. Entretanto, muitos programas de controle químico estão fracassando ou já fracassaram,
porque as espécies que constituem pragas desenvolveram resistência.
     Mais de 500 espécies desenvolveram resistência a pelo menos um inseticida. Atualmente, muitas espécies
que constituem pragas são resistentes a todos, ou quase todos, os inseticidas disponíveis. Além disso, algumas
espécies que eram incomuns tornaram-se pragas sérias porque o uso de inseticidas extinguiu os seus inimigos
naturais. À medida que os insetos foram se tornando mais resistentes, os agricultores foram aplicando níveis
cada vez mais altos de inseticidas às suas plantações, a tal ponto que, atualmente, são aplicadas, nos Estados
Unidos, mais de 500.000 toneladas por ano. A resistência tornou necessário o desenvolvimento de novos inseti-
cidas, cada um deles a um custo médio de 8 a 10 anos e 20 a 40 milhões de dólares norte-americanos em
pesquisa e desenvolvimento. Portanto, a evolução dos insetos impôs um enorme ônus econômico (cerca de 118
milhões de dólares US, somente nos Estados Unidos) e um ônus ambiental crescente, pelas substâncias químicas
que podem colocar em perigo a saúde humana e os ecossistemas naturais.
     A resistência dos insetos evolui rapidamente, porque a seleção natural aumenta as mutações raras que não
são vantajosas em condições normais, mas casualmente conferem proteção contra substâncias químicas dano-
sas. Entomólogos com formação em Genética Evolutiva desenvolveram estratégias para retardar a evolução da
resistência. A estratégia mais eficaz, baseada tanto em modelos evolutivos como em provas, é de fornecer à
espécie que constitui praga “refúgios” livres de pesticidas, nos quais os genótipos suscetíveis possam se reprodu-
zir, impedindo desta forma que os genótipos resistentes dominem o ambiente. A estratégia oposta, que intuitiva-
mente parece atraente – de tentar arrasar a população de insetos com “bombardeio de saturação” – simplesmen-
te acelera a evolução da resistência porque aumenta a força da seleção natural.
     Embora a evolução da resistência possa ser retardada, na maioria dos casos ela provavelmente é inevitável.
Por isso, as estratégias modernas de controle de pragas combinam pesticidas com outras táticas. Por exemplo,
ácaros em pomares de amendoeiras têm sido controlados pela aplicação tanto de um pesticida como de ácaros
predadores, selecionados em laboratório pela resistência a pesticidas. Foram desenvolvidas variedades de plan-
tações geneticamente resistentes a certos insetos, usando-se tanto métodos tradicionais de seleção, como enge-
nharia genética. Por exemplo, foram produzidas por engenharia genética linhagens de várias plantações que
possuem um gene bacteriano para uma proteína (toxina Bt) que é tóxica para certos insetos. Muitas vezes, as
variedades de plantas resistentes a pragas foram economicamente muito lucrativas, mas a história mostrou que,
quando seu plantio se generaliza, a praga de insetos acaba desenvolvendo a capacidade de atacá-las, fazendo
com que tenham de ser desenvolvidas novas linhagens genéticas, às quais a praga ainda não esteja adaptada.
Pelo menos uma espécie que constitui praga, a traça-das-crucíferas, já se adaptou à toxina Bt. Assim, a “corrida
armamentista” entre a evolução dos insetos e a engenhosidade humana representa um desafio permanente.

1
  National Academy of Sciences (ed.), Pesticide resistance: Strategies and tactics for management (National Academy Press, Wa-
shington, D.C., 1986); R.L. Metcalf and W. H. Luckmann (eds.), Introduction to insect pest management, 3d edition (Wiley, New York,
1994); R.T. Roush and B.E. Tabashnik (eds.), Pesticide resistance in arthropods (Chapman and Hall, New York, 1990); B.E. Tabashnik,
Annu. Rev. Entomol. 39:47-79 (1994); A.L. Knight and G.W. Norton, Annu. Rev. Entomol. 34:293-313 (1989).




                                                                                                                                      19
IV. DE QUE MODO A BIOLOGIA EVOLUTIVA CONTRIBUI
IV.                        EVOLUTIV
                             OLUTIVA
           SOCIEDADE?
    PARA A SOCIEDADE?

      As numerosas subdisciplinas da Biolo-      prevalentes porque os portadores hetero-
gia Evolutiva deram incontáveis contribuições    zigotos têm maior resistência à malária.
no sentido de atender necessidades da socie-     Esta é uma clara ilustração da teoria, de-
dade. Mencionaremos aqui apenas alguns           senvolvida por biólogos dedicados ao es-
exemplos. Iremos nos concentrar especial-        tudo da Evolução décadas antes da descri-
mente nas contribuições à saúde humana, à        ção do padrão siclêmico, de que uma van-
agricultura e recursos renováveis, produtos      tagem adaptativa do heterozigoto pode
naturais, gerenciamento e conservação ambi-      manter alelos deletérios nas populações.
ental e análise da diversidade humana. Tam-
bém mencionaremos algumas extensões da           Pode ser importante para os casais conhe-
Biologia Evolutiva para além do campo das        cer a probabilidade de que seus filhos her-
ciências biológicas.                             dem doenças genéticas, especialmente se
                                                 elas já ocorreram em sua história familiar.
A. Saúde Humana e Medicina                       O Aconselhamento Genético vem forne-
                                                 cendo esse tipo de orientação há muitas
• Doenças genéticas Doenças genéticas
             genéticas.                          décadas. O Aconselhamento Genético é
  são causadas por variantes de genes ou de      Genética de Populações aplicada, pois, para
  cromossomos, embora a expressão de tais        calcular a probabilidade de se herdar um
  condições muitas vezes seja influenciada       defeito genético, baseia-se tanto na análi-
  por fatores ambientais (inclusive sociais e    se genealógica (Genética padrão) como no
  culturais) e pela constituição genética de     conhecimento da freqüência de um deter-
  outros locos do indivíduo. Às muitas do-       minado alelo na população geral. Da mes-
  enças clínicas causadas por variantes ge-      ma forma, a avaliação das conseqüências
  néticas podemos acrescentar muitas con-        para a saúde de um casamento entre pes-
  dições comuns associadas à idade, com-         soas aparentadas ou da maior exposição a
  ponentes importantes das dificuldades de       radiações ionizantes e outros mutágenos
  aprendizado e distúrbios do comportamen-       ambientais depende criticamente de teori-
  to, todas contribuindo para o sofrimento       as e métodos desenvolvidos por geneti-
  humano e exigindo recursos médicos, edu-       cistas de populações (65).
  cacionais e de assistência social. Cada um
  desses distúrbios genéticos é causado por      A Biologia Molecular está revolucionando
  alelos em um ou mais locos gênicos, cuja       a Genética Médica. Agora existe a tecno-
  freqüência varia de muito rara até mode-       logia para localizar genes e determinar sua
  radamente comum (como os alelos para           seqüência, na esperança de determinar as
  siclemia e fibrose cística, que são bastante   diferenças funcionais entre alelos deleté-
  freqüentes em algumas populações). As          rios e alelos normais. Os portadores de
  freqüências alélicas são o tema da Genéti-     alelos deletérios podem ser identificados a
  ca de Populações, que pode ser aplicada        partir de pequenas amostras de DNA (in-
  de imediato a duas tarefas: determinar as      cluindo as obtidas por amniocentese) e a
  razões da freqüência de um alelo deletério     terapia genética, pela qual alelos defeituo-
  e estimar a probabilidade de que uma pes-      sos podem ser substituídos por alelos nor-
  soa herde o alelo ou desenvolva o traço.       mais, é uma possibilidade real. Métodos e
  Assim, por exemplo, a alta freqüência de       princípios desenvolvidos por biólogos que
  alelos para siclemia e várias outras hemo-     se dedicam ao estudo da Evolução contri-
  globinas defeituosas em alguns locais ge-      buíram para esses avanços e é provável
  ográficos sinalizou aos geneticistas de po-    que dêem outras contribuições no futuro.
  pulações a probabilidade de que algum          A localização do gene para determinado
  agente da seleção natural estivesse man-       traço, por exemplo, não é tarefa fácil. O
  tendo esses alelos nas populações. Sua dis-    processo baseia-se em associações entre
  tribuição geográfica sugeria uma associa-      o gene procurado e marcadores genéticos
  ção com a malária, tendo pesquisas ulteri-     ligados (p. ex., genes adjacentes no mes-
  ores confirmado que esses alelos são           mo cromossomo). A solidez da associação


                                                                                         20
A Natureza e Distribuição
                                                                    das Doenças Genéticas Humanas
                                                                    Aravinda Chakravarti
                                                                    Case Western Reserve University

                                                                               Cada população humana traz consigo sua
                                                                      carga singular de doenças genéticas. Assim, pes-
                                                                      soas de ascendência européia têm maior freqüên-
                                                                      cia de fibrose cística, africanos e seus descenden-
                                                                      tes têm freqüência aumentada de siclemia e mui-
                                                                      tas populações asiáticas têm incidência mais alta
                                                                      de uma anemia chamada talassemia. Esses dis-
                                                                      túrbios raros resultam de mutações em genes in-
                                                                      dividuais e exibem padrões de herança simples.
                                                                      As técnicas moleculares modernas permitiram a
                                                                      identificação de muitos genes para doenças, bem
                                                                      como das mudanças específicas na seqüência do
                                                                      DNA que levam à doença. Um achado surpreen-
                                                                      dente foi que a alta freqüência de muitos desses
Gradiente de distribuição na Europa da principal mutação causadora da distúrbios não se deve ao fato de os genes
fibrose cística, em relação ao total dos genes
                                                                      subjacentes serem altamente mutáveis, e sim a
                                                                      um aumento na freqüência de uma ou mais mu-
tações específicas. Em muitos casos, o aumento da freqüência pode ter ocorrido por acaso (um efeito loteria). Por
exemplo, muitas doenças genéticas são particularmente pronunciadas em isolados sociais, religiosos e geográ-
ficos, como os Amish, os Menonitas e os Huteritas nos EUA, cujos ancestrais foram pequenos grupos de fundado-
res aparentados. Em outros casos, como o da fibrose cística, da siclemia e das talassemias, há evidências consi-
deráveis de que as mutações tenham aumentado por causa de uma vantagem na sobrevivência dos indivíduos
portadores de uma cópia da mutação, que, porém, não são afetados clinicamente, podendo portanto transmitir a
mutação às futuras gerações.
         O conhecimento da nossa ascendência, isto é, dos genes e mutações que recebemos dos nossos antepas-
sados e dos processos evolutivos que moldaram suas distribuições, é crucial para podermos compreender as
doenças genéticas humanas. Um importante princípio revelado por estudos genéticos recentes sobre fibrose
cística, siclemia, talassemias e outras doenças é o de que os numerosos pacientes portadores da mutação mais
comum de cada uma dessas doenças são portadores porque têm um ancestral comum; isto é, são parentes
distantes. Conseqüentemente, esses indivíduos também têm em comum segmentos de DNA relativamente gran-
des, contíguos, que circundam a mutação. Os geneticistas começaram a utilizar este princípio do possível paren-
tesco evolutivo dos pacientes como método de mapeamento e identificação de genes para doenças. Se a muta-
ção gênica responsável estiver localizada em um segmento de DNA presente na maioria ou em todos os pacien-
tes, o mapeamento do gene para a doença equivale a procurar, nos pacientes, segmentos de DNA comuns.
         Existe atualmente um grande interesse pelas análises genéticas de distúrbios poligênicos, como câncer,
hipertensão e similares, em vista do grande ônus que representam para todas as sociedades. Em cada um dos
genes responsáveis por estas doenças humanas comuns, também é esperada a presença, de origem evolutiva, de
mutações comuns nos pacientes. Diferentemente dos distúrbios raros, é esperado que essas mutações sejam
mais comuns e tenham um segmento menor de DNA em comum nos pacientes, já que elas são muito mais
antigas na população humana. Além disso, a incidência dessas doenças comuns também varia entre populações
humanas diferentes, devido tanto à variação da constituição genética, como do meio ambiente. Por essas razões,
é difícil identificar os genes subjacentes a essas doenças. A fim de realizar esta tarefa, os cientistas estão criando
um mapa de altíssima resolução dos genes e seqüências humanos. Este mapa consiste de “marcadores”, seg-
mentos conhecidos e ordenados de DNA humano, que variam entre os indivíduos quanto à composição das
seqüências. Espera-se que o princípio do mapeamento para encontrar genes de suscetibilidade e resistência a
doenças pela comparação dos DNAs dos pacientes quanto a padrões de seqüências comuns tenha um papel
decisivo nessas descobertas. No futuro, este e outros princípios evolutivos novos contribuirão para a identifica-
ção de novos genes para doenças e para a compreensão da atual distribuição das doenças genéticas humanas no
mundo.




de um alelo com tais marcadores — a pro-                            lização e subseqüente seqüenciamento de
babilidade de que um marcador no                                    um alelo deletério comum — aquele que
cromossomo de qualquer pessoa assinale                              causa a fibrose cística. À medida que avan-
a presença de um alelo deletério vizinho a                          ça o trabalho de realização das recompen-
ele — é o grau de “desequilíbrio de ligação.”                       sas prometidas pelo Projeto Genoma Hu-
A teoria da Genética de Populações foi de-                          mano, vai crescendo o papel desempenha-
senvolvida para prever o grau de                                    do pelas teorias provenientes da Genética
desequilíbrio de ligação como função de                             de Populações (29).
fatores tais como as freqüências alélicas,
as taxas de recombinação e o tamanho da                             Determinar qual das muitas diferenças de
população. Esta teoria foi de crucial impor-                        nucleotídeos entre um alelo deletério e um
tância em um dos primeiros casos de loca-                           alelo normal causa uma doença é impor-


                                                                                                                        21
tante para a compreensão de como seus           ocorrido qualquer mutação que altere o ris-
  efeitos podem ser remediados. Estudos           co para alguma doença sistêmica, todo o
  evolutivos moleculares deram origem a           ramo da árvore gênica portador daquela
  vários métodos capazes de ajudar a dis-         mutação deve apresentar a mesma asso-
  tinguir uma variação na seqüência de um         ciação com a doença.
  gene que afeta fortemente o valor
  adaptativo (afetando a função) de uma va-       Análises de árvores gênicas já foram usa-
  riação relativamente neutra. Esses méto-        das com sucesso na descoberta de
  dos empregam análises de variação de se-        marcadores genéticos indicativos de risco
  qüências de DNA, tanto intraespecíficas,        para arteriopatia coronária (23), risco para
  como entre espécies com parentesco pró-         mal de Alzheimer (58) e a resposta dos ní-
  ximo. Estamos prevendo que esses méto-          veis de colesterol à dieta alimentar (18).
  dos, incluindo as comparações entre genes       Além disso, análises evolutivas de árvores
  humanos e seus homólogos em outros              gênicas podem ajudar na identificação da
  primatas, ajudarão a identificar as varia-      mutação que realmente causa o efeito sig-
  ções causadoras de doenças genéticas.           nificativo sobre a saúde (23,56) — um pri-
  Neste contexto, os crescimento dos ban-         meiro passo crítico para a compreensão da
  cos de dados de seqüências gênicas de           etiologia da doença e o planejamento de
  grande número de espécies, bem como o           possíveis tratamentos. À medida que fo-
  Projeto Genoma Humano, oferecerão               rem identificados mais genes candidatos
  abundância de oportunidades para com-           para doenças sistêmicas comuns, haverá
  parações.                                       maior necessidade de análises evolutivas
                                                  no futuro.
• Doenças sistêmicas Todas as doenças
            sistêmicas.
  genéticas em conjunto afetam somente          • Doenças infecciosas Doenças infecciosas
                                                            infecciosas.
  cerca de 1% da população humana. Por            são causadas por organismos parasitas tais
  outro lado, cada vez mais doenças e mor-        como vírus, bactérias, protistas, fungos e
  tes humanas estão associadas com doen-          helmintos (vermes). O controle e tratamen-
  ças sistêmicas crônicas, como a arterio-        to das doenças infecciosas requer não ape-
  patia coronária, o derrame, a hipertensão       nas pesquisa médica, mas também pesqui-
  e o mal de Alzheimer.                           sa e ações ecológicas. As perguntas críti-
                                                  cas incluem: Qual é o organismo causador
  Essas doenças originam-se de um comple-         da doença? De onde ele veio? Há outras
  xo conjunto de interações entre genes e         espécies hospedeiras que funcionem como
  ambiente. Esta complexidade dificulta o es-     reservatórios para o organismo? Como ele
  tudo da ligação entre genes e doença            se propaga? Se for propagado por um vetor
  sistêmica. Os princípios e as abordagens        como algum inseto, qual é a dispersão tí-
  evolutivas já tiveram um importante im-         pica do vetor e que outras propriedades
  pacto no estudo desta ligação (65). Assim,      ecológicas do vetor poderiam ser explora-
  por exemplo, sendo conhecidas suas fun-         das para controlar a propagação? Como é
  ções bioquímicas ou fisiológicas, alguns        que o organismo causa a doença e como
  genes podem ser identificados como              ela pode ser tratada com drogas ou outras
  “genes candidatos” de contribuírem para         terapias? Como ele se reproduz — de ma-
  o aparecimento de alguma doença                 neira sexuada ou assexuada ou ambas? É
  sistêmica. Existe, porém, tanta variação        provável que ele desenvolva resistência a
  genética molecular nesses locos candida-        drogas ou às defesas naturais do corpo e,
  tos na população humana geral que encon-        em caso afirmativo, com que rapidez? É
  trar as variantes específicas associadas        provável que ele desenvolva virulência
  com o risco de doença assemelha-se à pro-       maior ou menor no futuro e em que condi-
  verbial procura da agulha no palheiro. Para     ções ele o fará? A cada uma dessas per-
  estimar uma árvore gênica a partir dessa        guntas, a Biologia Evolutiva pode e vai dar
  variação genética, podem-se usar técnicas       respostas.
  filogenéticas evolutivas. Uma árvore gênica
  deste tipo representa a história evolutiva      Identificar um organismo causador de do-
  das variantes genéticas do gene candida-        ença e o seu vetor, se houver, é assunto da
  to. Se, durante a história evolutiva, tiver     Sistemática. Se for, como no caso do HIV,

                                                                                          22
um organismo previamente desconhecido,                                      Os métodos da Genética de Populações são
a Sistemática filogenética poderá nos di-                                   indispensáveis para a descoberta do modo
zer quais são os seus parentes mais próxi-                                  de reprodução dos patógenos e de seus
mos, o que imediatamente nos fornece in-                                    vetores, bem como de sua estrutura popu-
dícios de sua área de origem, outras possí-                                 lacional — isto é, os tamanhos e as pro-
veis espécies hospedeiras e muitas de suas                                  porções de trocas entre populações locais.
prováveis características biológicas, como                                  Por exemplo, usando marcadores genéti-
o seu modo de transmissão. Se fosse en-                                     cos múltiplos para estudar a Salmonella e
contrada, por exemplo, uma nova espécie                                     a Neisseria meningitidis (a causa da doença
de protozoário causador da malária                                          meningocócica), geneticistas de popula-
(Plasmodium), poderíamos prever com se-                                     ções descobriram que ambas essas bacté-
gurança que ele é transportado por mos-                                     rias patogênicas se reproduzem principal-
quitos Anopheles, assim como outras es-                                     mente de modo assexuado, mas ocasional-
pécies de Plasmodium. Da mesma forma, é                                     mente transferem genes por recombina-
essencial identificar os vetores de doenças                                 ção, mesmo entre linhagens com paren-
usando os métodos da Sistemática. Os pro-                                   tesco distante. As variações imunológicas
gressos no controle da malária na região                                    que os bacteriologistas têm usado tradici-
do Mediterrâneo foram lentos, até se des-                                   onalmente para classificar linhagens des-
cobrir que havia seis espécies quase idên-                                  sas bactérias não apresentam boa correla-
ticas de mosquitos Anopheles, diferentes                                    ção com as linhagens genéticas reveladas
em seu habitat e história de vida, dos quais                                por marcadores genéticos múltiplos, nem
apenas duas costumam transmitir o orga-                                     com variações na patogenicidade ou na
nismo causador da malária.                                                  especificidade do hospedeiro. Por isso, a




Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV)
E. C. Holmes
Oxford University

    Muitos vírus, mais destacadamente o vírus da imunodeficiência humana (HIV), exibem uma enorme diversi-
dade genética — diversidade que muitas vezes aparece dentro do período de observação humana e que
freqüentemente cria obstáculos às tentativas de controle e erradicação. A Biologia Evolutiva teve um papel
importante na descrição da amplitude desta variação, na determinação dos fatores que foram responsáveis pela
sua origem e manutenção e na avaliação de como ela pode influir no desfecho clínico de uma infecção. É possível
ilustrar a importância da análise evolutiva neste contexto — particularmente em relação ao HIV, para o qual há
mais dados disponíveis — em três níveis diferentes: numa escala global, no âmbito de populações infectadas e
em pacientes individuais.1
    Na escala global, árvores filogenéticas mostraram que os dois vírus da imunodeficiência, HIV-1 e HIV-2,
surgiram separadamente de ancestrais símios e que, dentro de cada vírus, existe uma variação genética conside-
rável, que pode ser organizada em “subtipos” distintos. Esses subtipos diferem em sua distribuição geográfica
(embora a maioria seja encontrada na África) e, possivelmente, quanto a propriedades biológicas importantes.
Por exemplo, o subtipo E, do sudeste da Ásia, parece ser mais facilmente transmitido pela via sexual do que
outros subtipos e é associado com a dramática propagação recente do vírus naquela parte do mundo. A identifi-
cação correta dos subtipos pela análise filogenética será um elemento vital na elaboração de futuras vacinas.
    Em populações infectadas, as análises evolutivas levaram ao levantamento de hipóteses epidemiológicas
importantes sobre o local de origem das diferentes linhagens de HIV, particularmente daquelas associadas com
grupos de comportamento de “baixo risco”, e sobre a possibilidade de grupos de risco diferentes possuírem
linhagens características. Estas informações constituirão uma parte importante de programas de intervenção
comportamental, já que será possível identificar com precisão os grupos mais envolvidos na propagação do HIV.
A abordagem evolutiva também foi essencial para que fossem respondidas perguntas sobre se o HIV pode ser
transmitido a pacientes por pessoas que prestam assistência médica, como, por exemplo, durante cirurgias.
    As análises evolutivas da variação genética no HIV também produziram informações valiosas sobre mudan-
ças na população de vírus em um único paciente. Embora cada paciente seja infectado por muitos genótipos
virais, a diversidade genética do vírus logo cai drasticamente, sugerindo que somente certos genótipos conse-
guem invadir com sucesso as células do hospedeiro durante os primeiros estágios da incubação. Posteriormente,
a população de vírus no interior do paciente se diversifica, produzindo certos genótipos capazes de invadir
órgãos específicos, como o cérebro. Também parece haver uma interação evolutiva entre o vírus e o sistema
imunológico, que pode determinar quando e como o HIV acaba causando a AIDS. Portanto, a perspectiva evolutiva
é essencial para a compreensão da biologia básica do HIV e talvez possa nos ajudar a compreender as suas
respostas à terapia medicamentosa.

1
    A. J. Leigh Brown and E.C. Holmes, Annu. Rev. Ecol. Syst. 25: 127-165 (1994).




                                                                                                                    23
previsão desses traços em estudos de saú-       do as oportunidades de transmissão entre
de pública exigirá o uso de marcadores          hospedeiros aumentam, pode se desenvol-
genéticos múltiplos (3, 7). Da mesma for-       ver uma maior virulência. Alguns pesqui-
ma, os métodos da Genética de Populações        sadores postularam que importantes epi-
podem estimar taxas e distâncias de movi-       demias de gripe e outras pandemias foram
mento dos organismos vetores de doen-           causadas por mudanças evolutivas desse
ças, que afetam tanto a transmissão de do-      tipo, ocorridas em cidades populosas e
enças como o potencial de controle. A aná-      entre movimentos de massas de refugia-
lise molecular de um gene em uma espé-          dos. Analogamente, há evidências suges-
cie de mosquito mostrou que o gene tinha        tivas de que o HIV tenha desenvolvido vi-
se propagado recentemente por três con-         rulência maior devido às altas taxas de
tinentes, prova da enorme capacidade de         transmissão por contato sexual e por utili-
dispersão desse inseto (49).                    zação coletiva de agulhas por parte de usu-
                                                ários de drogas intravenosas (17, 64). Está
A potencial rapidez de evolução em po-          comprovado que a população de vírus HIV
pulações naturais de microorganismos,           de uma pessoa infectada evolui durante o
muitos dos quais têm tempos de geração          curso da infeccão, sendo que alguns auto-
curtos e populações imensas, tem impli-         res atribuem o início da AIDS - a doença
cações de grande importância. Uma de-           em si - a esta mudança genética (45).
las, uma lição de Evolução que deveria ter
sido aprendida muito tempo antes do que       • Funções fisiológicas normais Compreen-
                                                                      normais.
o foi, é a de que se pode esperar que os        der as defesas naturais do corpo humano
patógenos se adaptem a uma seleção con-         contra doenças infecciosas é tão importan-
sistente e forte, como aquela gerada pelo       te quanto compreender as próprias doen-
uso amplo e intensivo de drogas terapêu-        ças e, também neste caso, a Biologia
ticas. A resistência a drogas antimi-           Evolutiva pode trabalhar junto com a ciên-
crobianas evoluiu no HIV, na bactéria da        cia médica. Por exemplo, genes do princi-
tuberculose, no protozoário da malária e        pal complexo de histocompatibilidade
em muitos outros organismos vetores de          (MHC) desempenham um papel crítico nas
doenças, tornando ineficazes os contro-         respostas imunes das células: Seus produ-
les terapêuticos anteriormente eficazes.        tos apresentam proteínas estranhas ao sis-
De fato, muitos desses organismos são re-       tema imunológico. O MHC também con-
sistentes a drogas, em parte porque             tribui para a rejeição dos transplantes de
freqüentemente genes de resistência a an-       tecidos. Alguns alelos do MHC estão asso-
tibióticos são transferidos entre espécies      ciados com doenças autoimunes, como o
de bactérias (42). A evolução da resistên-      diabetes juvenil e uma forma de artrite
cia a drogas aumentou muito o custo do          deformante. A variação genética do MHC
tratamento, aumentou a morbidade e a            é extremamente grande, o que levou os
mortalidade e despertou o receio de que         geneticistas de populações a procurar ra-
muitas doenças infecciosas serão absolu-        zões para esta variação. Análises molecu-
tamente intratáveis num futuro próximo          lares revelaram que os genes do MHC de-
(10). A Teoria da Evolução sugere que um        vem estar sujeitos a algum tipo de seleção
futuro tão terrível pode ser prevenido pela     equilibradora que mantém esta variação.
redução da seleção para resistência a an-       De fato, alguns alelos humanos do MHC
tibióticos e, de fato, a Organização Mun-       estão genealogicamente mais próximos de
dial da Saúde recomendou o uso mais             certos alelos do chimpanzé do que de ou-
criterioso e reduzido de antibióticos (67).     tros alelos humanos, o que fornece provas
Novos estudos sobre a genética das po-          claras de que a seleção natural manteve a
pulações de patógenos serão importantes         variação durante pelo menos 5 milhões de
para futuros trabalhos de contenção.            anos. A variação quase certamente é
                                                mantida pelos papéis que os diferentes
A virulência dos patógenos também pode          alelos desempenham no combate a dife-
evoluir rapidamente. A teoria da coevolu-       rentes patógenos, mas seu papel exato re-
ção parasita/hospedeiro prevê que, quan-        quer mais estudo (39).




                                                                                        24
B. Agricultura e Recursos Naturais                te qualquer organismo, quer seja de uma
                                                  espécie domesticada ou de uma espécie
• Criação de plantas e animais As relações
                          animais.                selvagem usada para estudos evolutivos.
  entre melhoristas de plantas e animais,
  geneticistas e biólogos que se dedicam ao       A variação genética, matéria prima dos bi-
  estudo da evolução vêm de tão longa data        ólogos que se dedicam ao estudo da Evo-
  e são tão próximas que às vezes seus cam-       lução, é condição sine qua non para o su-
  pos são difíceis de distinguir, especialmente   cesso na agricultura. Como qualquer bió-
  na criação de variedades melhoradas de sa-      logo que se dedica ao estudo da evolução
  fras e de animais domésticos. Darwin abriu      sabe, uma plantação extensa e genetica-
  sua obra A Origem das Espécies com um           mente uniforme é um alvo fácil para
  capítulo sobre organismos domesticados e        patógenos de plantas ou outras pragas, que
  escreveu um livro em dois volumes sobre         se adaptarão a ela e se propagarão rapida-
  a Variação em Plantas e Animais Domesti-        mente. A ferrugem da batata, que causou
  cados. Um dos fundadores da Genética de         fome em grande parte da Irlanda na déca-
  Populações, Sewall Wright, trabalhou du-        da de 1840, é um dos numerosos exem-
  rante anos com criação animal e um ou-          plos deste fenômeno (1). Outro exemplo es-
  tro, R. A. Fisher, deu importante contribui-    petacular é a epidemia de ferrugem da fo-
  ção ao planejamento e à análise de testes       lha de milho no sul nos Estados Unidos em
  de cultivares. Desde então, muitos gene-        1970, que causou uma perda econômica
  ticistas deram contribuições iguais, tanto      estimada em US$ 1 bilhão (dólares de
  à Genética Evolutiva como à Genética Bá-        1970). Em mais de 85% da área plantada
  sica e à teoria na qual se baseia a criação     com milho, tinham sido utilizadas cepas
  seletiva eficaz. Quando, ao contrário, o        portadoras de um fator genético (Tcms) que
  chefe do ministério soviético da agricultu-     impede o desenvolvimento de flores mas-
  ra, T. D. Lysenko, rejeitou a Teoria da Evo-    culinas, o que era útil para produzir varie-
  lução, na década de 1930, ele acabou im-        dades híbridas uniformes. Porém, o fator
  pondo ao cultivo de plantas daquele país        Tcms tornou o milho suscetível a uma raça
  um atraso de várias décadas.                    mutante do fungo Phytopthora infestans,
                                                  que se alastrou rapidamente por todo o
   Conceitos como herdabilidade, componen-        Cinturão do Milho (Corn Belt) e para além
   tes de variância genética e correlação ge-     dele. Somente a combinação de condições
   nética, bem como a elucidação experimen-       climáticas favoráveis com a ampla planta-
   tal de fenômenos como o vigor híbrido, a       ção de milho de constituição genética nor-
   depressão por endogamia e as bases da          mal impediu a ocorrência de uma ferrugem
   variação poligênica (quantitativa), desem-     ainda mais devastadora em 1971 (62).
   penham papéis igualmente centrais, tanto
   na genética agrícola como na Teoria da         Apesar dessas lições, por razões de efici-
   Evolução. O exemplo mais recente desta         ência econômica, ainda são amplamente
   interação mútua entre áreas é o desenvol-      usadas plantações geneticamente unifor-
   vimento e a aplicação de técnicas que usam     mes, mas há um reconhecimento genera-
   marcadores moleculares para a localiza-        lizado de que é essencial manter a diver-
   ção dos múltiplos genes responsáveis por       sidade genética (36). Assim, é essencial
   traços de variação contínua, como o tama-      constituir bancos de “germoplasma” de di-
   nho e o conteúdo de açúcar das frutas, e       ferentes cepas de plantações, especial-
   para a identificação da função metabólica      mente cepas que diferem entre si quanto
   desses genes (chamados locos de caracte-       a características como a tolerância à seca
   rísticas quantitativas ou LCQ). Antigamen-     e a resistência a pragas. Uma fonte im-
   te, somente alguns organismos modelos,         portante de genes potencialmente úteis
   como a Drosophila, eram suficientemente        são espécies selvagens aparentadas com
   bem conhecidos do ponto de vista genéti-       a plantação — que, obviamente, só podem
   co para fornecer essas informações. Ago-       ser reconhecidas com o auxílio de uma
   ra, graças às pesquisas dos melhoristas de     boa Sistemática. Por exemplo, o tomate
   plantas, dos geneticistas de populações e      cultivado, como a maioria das espécies de
   do Projeto Genoma de Plantas, é possível       plantação, é uma espécie autofertilizante
   mapear genes de interesse em praticamen-       (e, por isso, geneticamente homozigota)

                                                                                          25
que possui pouca variação genética, mes-                                   cia às principais doenças foram encontra-
mo entre todas as variedades disponíveis.                                  dos nessas espécies nativas e 20 deles fo-
Ele é originário da região andina da Amé-                                  ram transferidos por hibridação para o
rica do Sul e chegou à América do Norte                                    estoque matriz comercial de tomates. Ca-
via processo de domesticação na Europa.                                    racterísticas de qualidade de frutas tam-
Estudos da genética e da evolução do to-                                   bém foram melhoradas desta maneira e
mate levaram à constatação de que exis-                                    espera-se que, nos próximos anos, seja
tem muitas espécies aparentadas nativas                                    introduzida a resistência à seca, à
do Chile e do Peru e de que essas espéci-                                  salinidade e às pragas de insetos, propor-
es apresentam uma abundante variação                                       cionando um aumento de quatro a cinco
genética. Mais de 40 genes para resistên-                                  vezes do rendimento agrícola (51).



                         Trágico                                        Soviética
Uma Lição da História: O Trágico Destino da Genética Evolutiva na União Soviética
Vassiliki Betty Smocovitis
University of Florida

    Até a década de 1920, os cientistas soviéticos tinham adquirido reconhecimento internacional pelo seu traba-
lho pioneiro em muitos campos da Biologia. A mais notável entre essas realizações era uma singular escola de
Genética de Populações que sintetizava descobertas da Genética e da Teoria Darwiniana da seleção natural com
conhecimentos sobre a estrutura de populações selvagens de animais e plantas, a fim de compreender os meca-
nismos de adaptação e Evolução. Na década de 1920, Sergei Chetverikov e outros geneticistas de populações
russos previram a síntese evolutiva que ocorreu no Ocidente nos anos ‘30 e ‘40. Entre as contribuições da escola
russa de Teoria Evolutiva estavam o conceito de conjunto gênico, a derivação independente do conceito de
deriva genética e os primeiros estudos genéticos de populações selvagens da mosca de frutas Drosophila
melanogaster. Esta escola formou jovens evolucionistas como N. V. Timofeeff-Ressovsky e Theodosius Dobzhansky,
que, mais tarde, desempenhariam papéis essenciais no estabelecimento da moderna Teoria da Evolução na
Alemanha e nos Estados Unidos. A escola russa afirmava que uma mudança evolutiva consiste de mudanças nas
freqüências de genes mendelianos, particulados, dentro de uma população.
    Este pujante centro de pesquisa evolutiva, e a maioria de seus cientistas, tiveram um fim trágico. A partir do
fim da década de 1920, a Biologia em geral e a Genética em particular foram vistas cada vez mais como perigosas
para o espírito político da Rússia estalinista, empenhada, naquela época, em se transformar de um estado agrário
em uma nação moderna. No início dos anos ’30, começou a perseguição à Genética e aos geneticistas. Ela era
alimentada pela retórica de Trofim Lysenko (1898-1976), um agrônomo com pouca instrução e nenhuma forma-
ção científica, mas com grandiosas ambições para a agricultura soviética, baseadas em sua crença errônea no
mecanismo lamarckiano de herança e mudança orgânica. Segundo a teoria de Lamarck e Lysenko, a exposição
de organismos parentais a um fator ambiental, como baixa temperatura, induz diretamente o desenvolvimento
de mudanças adaptativas que são herdadas pelos seus descendentes – uma teoria da Evolução pela herança de
características adquiridas, e não pela seleção natural dos genes.
    Os geneticistas e biólogos estudiosos da Evolução ocidentais já tinham mostrado que não ocorre herança
lamarckiana. Declarando a Genética uma ameaça ao Estado, capitalista, burguesa, idealista e até mesmo apoia-
da pelos fascistas, Lysenko conduziu uma odiosa campanha de propaganda, que culminou em 1948 com a con-
denação oficial da Genética por Stalin e pelo Comitê Central do Partido Comunista. Entre as vítimas do Lysenkoísmo
estiveram Nikolai Vavilov, um dos pioneiros da reprodução de plantas, que morreu de fome num campo de
prisioneiros, e toda a escola de geneticistas de populações, que se dispersaram ou foram destruídos. O Lysenkoísmo
rapidamente levou à destruição total justamente daquelas áreas da Biologia soviética que tinham alcançado
notoriedade mundial na década de 1920.
    A política soviética contra a Genética e a Evolução teve conseqüências desastrosas para o povo soviético.
Além de uma devastadora destruição rural, só comparável àquela causada pela coletivização soviética, o
Lysenkoísmo impediu o desenvolvimento da ciência agrícola. A União Soviética foi excluída da revolução agríco-
la global que ocorreu nas décadas da metade do século passado, alimentada em parte por inovações genéticas,
como o milho híbrido. A despeito da oposição nascente, Lysenko permaneceu no poder até 1965, depois da
deposição de Khrushchev. A Biologia soviética nunca conseguiu se recuperar de fato deste período. Suas pro-
messas iniciais sobreviveram somente através de indivíduos como Dobzhansky, uma figura que se sobressai na
Biologia Evolutiva, que levou para o Ocidente descobertas da Genética de Populações russa, ao imigrar para os
Estados Unidos, em 1927.
    As conseqüências completas do Lysenkoísmo e da Biologia estalinista ainda não foram determinadas, mas já
estão sendo estudadas por estudiosos que ganharam acesso a fontes governamentais anteriormente restritas.1
Embora discutam a respeito de detalhes, todos os estudiosos concordam que o reinado do Lysenkoísmo foi um
período particularmente negro na história da ciência. É o exemplo clássico das conseqüências negativas de
políticas anticientíficas mal orientadas e do controle ideológico da Ciência. A lição aprendida é que a investiga-
ção livre, o apoio governamental informado às ciências básica e aplicada e o debate aberto de assuntos científi-
cos – especialmente aqueles declarados como ameaçadores ou perigosos por determinados grupos de interesses
– são essenciais para a saúde e prosperidade das nações.

1
 M. Adams, em: E. Mayr and W. Provine (eds.), The Evolutionary Synthesis (Harvard University Press, Cambridge, MA., 1980), pp.
242-278; D. Joravsky, The Lysenko Affair (Harvard University Press, Cambridge, MA, 1979); N. Krementsov, Stalinist Science (Princeton
University Press, Princeton, NJ, 1997); V. Soyfer, Lysenko and the Tragedy of Soviet Science (Rutgers University Press, New Brunswick,
NJ, 1994).




                                                                                                                                     26
• Uso da biodiversidade O conhecimento
            biodiversidade.                      ção da resistência, como o uso rotativo de
  da sistemática dos tomates, junto com a        diferentes medidas de controle e a combi-
  genética ecológica e a compreensão do sis-     nação criteriosa de controles químicos e
  tema de cultivo desta planta, formou a base    não-químicos. Dois métodos não-químicos
  de uma aplicação bem sucedida, que está        foram muito beneficiados pelo conheci-
  sendo repetida em muitas outras planta-        mento e pela Teoria da Evolução: o uso de
  ções. A engenharia genética, que possibi-      inimigos naturais e o cultivo de resistên-
  lita a transferência de genes de praticamen-   cia.
  te qualquer espécie para qualquer outra,
  torna disponíveis, para fins agrícolas e ou-   Inimigos naturais, como os insetos que são
  tros, a vasta “biblioteca genética” dos or-    predadores especializados ou parasitas de
  ganismos da Terra, portadores de uma tre-      espécies que são pragas, freqüentemente
  menda variedade de genes para traços           são procurados na região de origem da pra-
  como a tolerância ao calor, a resistência a    ga. Portanto, a primeira pergunta é: de onde
  doenças e a insetos, substâncias químicas      vem a praga? Achar a resposta exige
  que conferem sabores e odores e muitas         entomólogos com formação em Sistemá-
  outras características potencialmente úteis.   tica Evolutiva, capazes de identificar a pra-
  Se quisermos utilizar esta biblioteca no       ga usando uma taxonomia baseada em
  futuro, é necessário tanto que a biblioteca    princípios evolutivos. Se a praga for uma
  seja preservada — isto é, que a biodiver-      espécie desconhecida, a melhor pista para
  sidade não seja perdida — e que haja bibli-    a sua região de origem é a distribuição de
  otecários — cientistas capazes de darem        espécies aparentadas — que pode ser de-
  alguma orientação para que se encontrem        terminada usando-se a taxonomia
  “volumes” úteis. Esses bibliotecários serão    evolutiva. A procura de inimigos naturais
  biólogos que se dedicam ao estudo da evo-      utiliza os mesmos princípios. Uma vez en-
  lução: aqueles que estudam Sistemática e       contrados inimigos potenciais, tais como
  Filogenia e, por isso, conhecem as espéci-     parasitas, é crucial fazer a distinção entre
  es existentes e sabem quais delas têm pro-     espécies com parentesco próximo, muito
  babilidade de terem genes e característi-      semelhantes, pois pode ser que algumas
  cas semelhantes, e aqueles que estudam         ataquem a praga e outras ataquem somen-
  Genética Evolutiva e adaptação e são ca-       te seus parentes. Se um inimigo é aprova-
  pazes de indicar o caminho que leva a or-      do para introdução, ele deve ser criado em
  ganismos com características desejáveis.       grande número para soltura. Neste está-
                                                 gio, a aplicação da Genética Evolutiva é
• Manejo de pragas Pragas de plantas, prin-
              pragas.                            crucial, a fim de impedir que a linhagem
  cipalmente insetos e fungos, representam       do parasita se torne endocruzada ou
  anualmente um enorme ônus econômico            involuntariamente selecionada para carac-
  em perda de safras e medidas de controle.      terísticas que possam prejudicar sua eficá-
  A Biologia Evolutiva relaciona-se com este     cia.
  problema de várias maneiras. Sem contar
  os perigos para a saúde pública e o meio       Outra importante estratégia no controle de
  ambiente resultantes do uso excessivo de       pragas é promover a seleção da resistên-
  pesticidas químicos, nos últimos 40 anos,      cia em plantas de safra, por meio da tria-
  mais de 500 espécies de insetos (incluindo     gem para genes que conferem resistência
  pragas de plantações, pragas de grãos ar-      no laboratório ou em canteiros, introdu-
  mazenados e vetores de doenças) desen-         zindo a seguir esses genes, por meio de
  volveram resistência a um ou mais inseti-      cruzamentos, em cepas cultivadas com
  cidas, algumas delas sendo resistentes a       outras características desejáveis. É impor-
  todos os inseticidas conhecidos. Nos Esta-     tante conhecer a base genética da resis-
  dos Unidos, a evolução da resistência a        tência, pois alguns tipos de resistência são
  pesticidas aumentou em US$1,4 bilhão o         de curta duração. Uma praga pode se adap-
  custo anual de proteção dos produtos agrí-     tar a uma linhagem cultivada tão pronta-
  colas e florestais (47). Entomólogos agrí-     mente quanto se adapta a inseticidas quí-
  colas com formação em Genética Evolutiva       micos. Por exemplo, pelo menos seis im-
  (31,53) estão dando a sua contribuição aos     portantes genes para resistência à mosca
  esforços para retardar ou impedir a evolu-     do trigo ou mosca de Hesse foram sucessi-

                                                                                          27
vamente introduzidos no trigo, por culti-        Este método têm muitas aplicações. Ele
  vo. Em todos os casos, depois de alguns          permite aos pesquisadores, por exemplo,
  anos de extensa plantação da nova cepa,          distinguir entre cardumes de espécies de
  a mosca superou a resistência: a cada mu-        peixes que migram de locais de desova di-
  tação para resistência na planta, uma mu-        ferentes. Tal distinção tem importantes
  tação correspondente na mosca anulava o          implicações administrativas e políticas em
  seu efeito. Entomólogos e cultivadores de        casos como o da indústria do salmão, uma
  plantas com formação em Biologia Evolu-          vez que tanto as unidades políticas que
  tiva estão trabalhando na elaboração de          abrigam os locais de desova, como aque-
  métodos de engenharia para resistência           las onde os peixes são recolhidos têm in-
  múltipla que prolonguem a vida eficaz de         teresse econômico nos cardumes. Na sil-
  novos cultivares resistentes.                    vicultura, os viveiros nos quais são desen-
                                                   volvidas e criadas as reservas matrizes co-
• Engenharia Genética São muitas as pro-
                Genética.                          merciais de coníferas estão sujeitos à “con-
  postas para se introduzirem diversas ca-         taminação” genética pelo pólen de árvo-
  racterísticas em plantas de safra e para se      res selvagens, transportado pelo ar. Os
  difundirem bactérias modificadas por en-         métodos desenvolvidos pelos geneticistas
  genharia genética, capazes de melhorar a         de populações são úteis para se determi-
  fertilidade do solo ou de conferir resistên-     nar a distância percorrida pelo pólen e para
  cia a geadas a certas plantações. Sempre         se medir os níveis de contaminação, o que
  que tais introduções deliberadas são pro-        afeta o valor de mercado das sementes. Os
  postas, surgem perguntas referentes aos          geneticistas que se dedicam ao estudo da
  seus potenciais riscos. Biólogos que se de-      Evolução também têm se dedicado a ana-
  dicam ao estudo da Evolução e que estu-          lisar a base genética de traços desejáveis,
  dam interações gênicas perceberam a ne-          como a taxa de crescimento e a resistên-
  cessidade de realização de testes para se        cia a insetos de coníferas. Este tipo de co-
  assegurar que um gene estranho não vá            nhecimento contribui para programas de
  interagir de maneira imprevisível com os         produção de híbridos e de engenharia ge-
  genes próprios de uma planta de safra,           nética.
  gerando efeitos prejudiciais. O risco mais
  provável talvez seja o de que tais genes       C. Descoberta de Produtos Naturais Úteis
  possam se propagar por polinização cru-
  zada de plantas selvagens aparentadas                Organismos do passado e do presente
  com as plantas de cultivo (p. ex., mostar-     são fontes de incontáveis recursos naturais.
  das selvagens aparentadas com o repolho)       Quase todos os produtos farmacêuticos, mui-
  e fazer com que elas se tornem ervas da-       tos produtos para o lar e muitos processos in-
  ninhas mais vigorosas. Do mesmo modo,          dustriais (começando, por ordem histórica,
  sendo que freqüentemente há transferên-        com a fabricação do pão e do vinho) ou utili-
  cia de genes entre espécies de bactérias,      zam organismos vivos, ou provêm de proces-
  surgiram preocupações de que populações        sos biológicos ocorridos dentro de organis-
  naturais de bactérias poderiam adquirir        mos. Além disso, organismos que morreram
  características de bactérias produzidas por    há muito tempo também fornecem recursos:
  engenharia genética que as tornem mais         combustíveis fósseis. A prospecção de com-
  vigorosas e potencialmente prejudiciais.       bustíveis fósseis baseia-se em grande parte
  Por isso, os métodos desenvolvidos por         nas correlações de idade entre depósitos sedi-
  biólogos estudiosos da Evolução para de-       mentares – que, por sua vez, se baseiam em
  terminar os efeitos adaptativos dos genes      fósseis de protozoários, moluscos e de outros
  e medir as taxas de troca de genes entre       organismos estudados pelos paleontólogos.
  populações e espécies terão aplicações               Muitas espécies vivas podem mostrar-
  valiosas.                                      se úteis como futuras plantas de cultivo ou,
                                                 especialmente, revelar possibilidades de apli-
• Silvicultura e indústria da pesca Os bió-
                              pesca.             cação médica, energética, industrial ou de
  logos que se dedicam ao estudo da Evolu-       pesquisa. De fato, os organismos podem ser
  ção podem esclarecer a estrutura genética      considerados um “capital vivo”, segundo as
  de populações e espécies por meio da aná-      palavras da Comissão Presidencial de Asses-
  lise estatística de marcadores genéticos.      sores para assuntos de Ciência e Tecnologia

                                                                                            28
dos EUA (48). Mais de 20.000 plantas diferen-      parte, para a previsão das características dos
tes foram listadas pela Organização Mundial        organismos. A Ecologia Evolutiva no sentido
da Saúde como tendo sido usadas com fins           amplo — a análise das adaptações — aponta
medicinais por populações humanas e uma            para organismos cujas necessidades
fração substancial delas é realmente eficaz.       adaptativas podem produzir características
Por exemplo, até muito recentemente, a ma-         que talvez possamos utilizar. Por exemplo,
lária era tratada com quinina, extraída da ár-     neurobiólogos que estavam à procura de
vore de cinchona. Muitos outros compostos          inibidores de neurotransmissores para fins de
derivados de plantas e com utilidade médica        pesquisa foram levados com sucesso para os
foram descobertos recentemente. O taxol, um        venenos de certas cobras e aranhas, organis-
composto encontrado no teixo do Pacífico,          mos que desenvolveram justamente inibido-
mostrou-se promissor no tratamento do cân-         res desse tipo para dominar suas presas. Há
cer de mama; a pervinca rosa do Madagascar         fungos que liberam antibióticos para contro-
contém duas substâncias químicas que se re-        lar competidores bacterianos, bem como plan-
velaram úteis no combate à leucemia (e vári-       tas que armazenam muitos milhares de com-
os outros tipos de câncer), tendo aumentado        postos para repelir seus inimigos naturais. O
de 10% a 95% as taxas de sobrevivência da          estudo evolutivo-ecológico dessas adaptações
leucemia infantil. Diversos produtos naturais      está apenas começando a revelar compostos
provenientes de plantas também têm aplica-         que merecem maior atenção.
ção industrial, sendo usados como aromati-
zantes, emulsificantes e aditivos em alimen-       D. Meio Ambiente e Conservação
tos. Um extrato do crustáceo Limulus é a base
do “teste de lise”, muito usado na indústria              Os estudos evolutivos abriram caminho
farmacêutica para detectar a presença de bac-      para novos métodos de correção e recupera-
térias.                                            ção do meio ambiente em áreas degradadas.
       Os microrganismos fornecem não so-          Por exemplo, alguns tipos de grama e outras
mente produtos, mas também processos               plantas adaptaram-se a solos altamente po-
bioquímicos úteis nas biossínteses (p. ex., de     luídos por níquel e outros metais pesados tó-
antibióticos, solventes, vitaminas e biopo-        xicos. Amplos estudos da sistemática, da ge-
límeros), biodegradações (p. ex., na decompo-      nética e da fisiologia dessas plantas forma-
sição de resíduos tóxicos) e biotransformações     ram a base de técnicas para o replantio e a
(em esteróides, compostos quirais e outros         estabilização de solos tornados estéreis por
compostos desejados). A Biologia e Biotecno-       atividades de mineração e até mesmo para a
logia Moleculares modernas, por exemplo, ba-       desintoxicação do solo e da água contamina-
seiam-se na reação em cadeia de polimerases,       dos por metais. Descobriu-se que algumas
método baseado em uma enzima estável em            bactérias têm a capacidade de metabolizar o
temperaturas elevadas, que foi descoberta em       mercúrio, transformando-o em uma forma
bactérias que habitam fontes termais. A in-        menos tóxica, e, em experimentos de labora-
dústria farmacêutica e outras iniciaram pro-       tório, seus genes para esta capacidade foram
gramas de triagem de produtos naturais, na         transferidos para plantas. Em outros casos,
esperança de fazerem outras descobertas des-       plantas que desenvolveram a capacidade de
se tipo (ver Box 1).                               “hiperacumular” metais pesados e, desta for-
       A exploração da biodiversidade para a       ma, resistir a solos tóxicos agora estão sendo
obtenção de novos produtos naturais consti-        usadas comercialmente como tecnologia de
tui ponto de grande ênfase no relatório do         despoluição. De modo similar, estudos sobre
Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA, “Le-        a ecologia evolutiva da dispersão e germina-
vantamento Biológico para a Nação” (“A             ção de sementes têm o seu papel no reflores-
Biological Survey for the Nation”) (38) e da       tamento de áreas de pastagem esgotadas na
Agenda de Sistemática 2000 (57), relatório         América tropical e no replantio de locais de
sobre a importância vital da pesquisa e do trei-   aterro.
namento em Sistemática. Duas áreas da Bio-                As preocupações referentes ao impacto
logia Evolutiva estão ligadas — na verdade,        ambiental das atividades humanas incluem as
indispensáveis — a essa exploração direcio-        conseqüências da superpopulação, da altera-
nada. A Sistemática fornece o inventário dos       ção do habitat, a perspectiva de aquecimento
organismos e de suas relações filogenéticas,       global e a extinção documentada e prevista
o que é essencial para a organização e, em         de grande número de espécies. Estudos

                                                                                              29
Determinação de Riscos e Organismos Geneticamente Modificados
  Thomas R. Meagher
  Rutgers University

      A preocupação com a programada liberação no meio ambiente de organismos geneticamente modificados
  provocou uma ampla gama de recomendações para a determinação dos riscos associados com essas liberações.
  À medida que os cultivares transgênicos foram se aproximando da realidade comercial, a questão da determina-
  ção dos riscos deslocou-se da preocupação com os próprios organismos transgênicos para a preocupação com
  os efeitos de longo prazo de sua possível hibridização com seus parentes selvagens. Uma hibridização introgressiva
  de genes modificados, como aqueles que conferem resistência a herbicidas, com parentes selvagens de cultiva-
  res poderia, por exemplo, gerar ervas daninhas problemáticas.1
      Em relação a qualquer cultivar transgênico, a informação básica necessária para tratar desta preocupação é
  a probabilidade da produção híbrida com espécies aparentadas. Cultivares de colza com sementes oleosas e de
  outras espécies cultivadas de Brassica foram causas de particular preocupação, devido à pressão econômica pela
  introdução da colza transgênica (Brassica napus) em estreita proximidade com seus parentes selvagens, alguns
  dos quais já constituem ervas daninhas em terras de cultivo.2 Dados empíricos que poderiam formar uma base
  científica para a determinação dos riscos desta introdução foram recentemente fornecidos por estudos com
  Brassica napus e uma espécie selvagem com parentesco próximo, B. campestris.3 Estes estudos sobre Brassica
  servirão de modelo, no qual poderão basear-se estudos de determinação dos riscos de cultivares polinizados por
  insetos.

  1
    J. M. Tiedje et al., Ecology 70:298-315 (1989); N. C. Ellstrand and C. A. Hoffman, BioScience 40:438-442 (1990); L.
  R. Meagher, Capítulo 8 de: A New Technological Era for American Agriculture, U.S. Congress Office of Technology
  Assessment, OTA-F-474 (U.S. Government Printing Office, Washington, D.C., 1992)

  2
      M. J. Crawford et al., Nature 363:620-623 (1993); C. R. Linder and J. Schmitt, Molecular Ecology 3:23-30 (1994).

  3
      T. R. Mikkelson et al., Nature 380:31 (1996).




paleobiológicos sobre as mudanças climáti-                        espécies, comunidades ecológicas ou regiões
cas, o nível do mar e a distribuição das espé-                    geográficas merecem os esforços de conser-
cies no passado permitem discernir o tipo de                      vação mais urgentes, já que existem limites
organismos com maior probabilidade de so-                         econômicos, políticos e de informação para o
frerem os efeitos adversos do aquecimento                         número de espécies que podemos salvar.
global — a saber, aqueles com baixo poder de                           Entre os papéis da Biologia Evolutiva na
dispersão, reduzido alcance geográfico e bai-                     conservação estão:
xa tolerância ecológica. Evidências proveni-
entes de populações que evoluíram em tem-                         • O uso das informações filogenéticas para
peraturas diferentes também podem nos aju-                          determinar quais regiões contêm a maior
dar a prever a diversidade de respostas a uma                       variedade de espécies biologicamente di-
mudança climática e a velocidade com a qual                         ferentes únicas;
diferentes populações conseguem se adaptar
a ela (61).                                                       • O uso dos dados e métodos da Biogeografia
       Como conseqüência das atividades hu-                         Evolutiva (o estudo da distribuição dos or-
manas, espécies e populações geneticamen-                           ganismos) para identificar locais preferen-
te singulares estão entrando em extinção num                        ciais — regiões com grande número de es-
ritmo alarmante. As nossas atividades amea-                         pécies geograficamente localizadas (por
çam não somente espécies conspícuas, como                           exemplo, Madagascar, Nova Guiné e a re-
os grandes mamíferos e as tartarugas mari-                          gião de Apalachicola da Flórida e do
nhas, mas também um sem-número de plan-                             Alabama);
tas, artrópodes e outros organismos menos
conhecidos, que são, em conjunto, uma fonte                       • O uso de métodos genéticos e outros para
potencial de produtos naturais, agentes de                          distinguir espécies e populações genetica-
controle de pragas e outras aplicações úteis                        mente singulares;
(incluindo a reciclagem de elementos quími-
cos que permite o funcionamento de todo o                         • O uso da teoria da Genética de Populações
ecossistema). A Biologia Evolutiva tem um                           para determinar o tamanho mínimo de
papel da maior relevância na maneira de li-                         uma população, necessário para prevenir
dar com esta “crise da biodiversidade”. Uma                         a depressão por endogamia e para proje-
das considerações importantes é a de quais                          tar corredores entre áreas de conservação

                                                                                                                         30
Novidade
  Metais Pesados e Plantas: Uma Novidade Evolutiva
  Torna-se uma Oportunidade Despoluição Ambiental
  Thomas R. Meagher
  Rutgers University

      O fenômeno da tolerância das plantas a metais pesados tem atraído uma atenção considerável por parte dos
  biólogos que se dedicam ao estudo da Evolução. A tolerância a metais foi relatada pela primeira vez pelo cientis-
  ta checo S. Prat em 1934 e, desde então, vem sendo muito estudada por vários cientistas, na Europa e nos
  Estados Unidos. Particularmente A. D. Bradshaw e seus estudantes vêm realizando amplos experimentos sobre
  as propriedades evolutivas de plantas que crescem em locais contaminados, como os dejetos de minas. Os
  achados deles incluem os seguintes:1 plantas que crescem em locais contaminados são geneticamente adapta-
  das a tolerarem metais pesados; plantas com tolerância a metais não competem bem em locais não contamina-
  dos; a seleção é tão forte que a adaptação genética a locais contaminados ocorre, mesmo que haja potencial para
  fluxo gênico proveniente de populações próximas não-tolerantes; mesmo níveis relativamente baixos de conta-
  minação, como a poluição por chumbo de exaustão veicular à beira das ruas em áreas urbanas, impõem uma
  seleção para tolerância a metais. Esta adaptação das plantas à contaminação por metais pesados tem desperta-
  do particular interesse por ser um caráter que parece ter evoluído, em parte, como resposta a uma perturbação
  humana.
      Estudos evolutivos da tolerância a metais pesados contribuíram para a elaboração de estratégias para o
  tratamento de solos contaminados em vários níveis. Primeiro, esses estudos forneceram provas dos efeitos tóxi-
  cos da contaminação por metais pesados sobre genótipos não-adaptados. Antes desses estudos evolutivos, a
  presença de plantas em alguns locais contaminados levou a alguns perigosos erros de percepção; em época tão
  recente quanto 1972, a Academia Nacional de Ciências dos EUA concluiu que o chumbo não tinha efeito tóxico
  em plantas, uma vez que havia plantas que conseguiam crescer sobre solos contaminados! Em segundo lugar, os
  estudos evolutivos contribuíram para a recuperação e replantação de locais contaminados.2 A variedade comer-
  cial tolerante a metais da grama Agrostis tenuis, conhecida como “Merlin”, foi produzida diretamente a partir de
  populações naturais com tolerância a metais. Finalmente, estudos evolutivos mostraram que o mecanismo para
  a tolerância a metais é a absorção, não a exclusão, de modo que esses genótipos tolerantes a metais também são
  acumuladores de metais. Esta última descoberta levou, junto com pesquisas fisiológicas sobre plantas com tole-
  rância a metais, ao uso crescente de plantas como parte de uma tecnologia de despoluição para o tratamento de
  locais contaminados. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (U.S. Environmental Protection Agency),
  somente nos Estados Unidos, os custos projetados para a despoluição de locais contaminados por metais serão
  de 35 bilhões de dólares norte-americanos nos próximos 5 anos. Plantas acumuladoras de metais, que desempe-
  nharão um papel importante neste processo de despoluição, estão sendo desenvolvidas por companhias do setor
  privado, como a Exxon, a DuPont e a Phytotech, em cooperação com o Departamento de Energia dos EUA e
  outros órgãos do governo.
  1
    J. Antonovics et al., Adv. Ecol. Res. 7:1-85 (1971); J. Antonovics, em: International Conference on Heavy Metals in the Environment,
  pp.169-186 (Toronto, Ontario, 1975); A. D. Bradshaw, Phil Trans. Roy. Soc. Lond. B. 333:289-305 (1991).

  2
    A.D. Bradshaw and T. McNeilly, Evolution and Pollution (Edward Arnold, London, 1981); D.E. Salt et al., Bio/Technology 13:468-474
  (1995); T. Adler, Science News 150:42-43 (1996).




  que permitam o fluxo gênico, dois proces-                              E. Aplicações fora da Biologia
  sos responsáveis pela manutenção da ca-
  pacidade das populações de se adaptarem                                      Existem benefícios recíprocos entre a Bi-
  a doenças e a outras ameaças;                                          ologia Evolutiva e a ciência e tecnologia não-
                                                                         biológicas. A relação mais antiga desse tipo
• O uso da teoria das histórias de vida e de                             talvez seja com a Teoria Econômica. A idéia
  outras características para prever quais são                           de Darwin da seleção natural foi inspirada
  as espécies mais vulneráveis à extinção;                               pelas obras do economista Thomas Malthus,
                                                                         que salientou os efeitos da competição por re-
• O uso de marcadores genéticos para con-                                cursos escassos. No século vinte, a elabora-
  trolar o tráfico de espécies ameaçadas. (Es-                           ção de vários tópicos evolutivos, como a evo-
  ses métodos têm sido usados para detec-                                lução das histórias de vida e o comportamen-
  tar a pesca ilegal de baleias e são utiliza-                           to devastador, serviu-se da Teoria Econômi-
  dos rotineiramente para distinguir entre pa-                           ca. Entretanto, houve também um fluxo de
  pagaios contrabandeados ilegalmente e os                               idéias em sentido oposto. A influência da Ge-
  legalmente criados em cativeiro. De fato,                              nética de Populações na Economia começou
  esses pássaros têm um valor de mercado                                 com a obra de Sewall Wright sobre análise de
  tão alto que as companhias de seguros es-                              coeficiente de pista ou passagem, uma técni-
  tão exigindo caracterização por meio de                                ca estatística desenvolvida para analisar sis-
  DNA (“fingerprints”) dos papagaios manti-                              temas causais complexos, como os efeitos da
  dos como animais de estimação).                                        hereditariedade e do ambiente sobre os

                                                                                                                                           31
fenótipos. Atualmente, este método é muito       F. Compreensão da Humanidade
utilizado para análise causal na Economia e
na Sociologia. Mais recentemente, alguns eco-           Dados e métodos evolutivos vêm sen-
nomistas adotaram um dos princípios centrais     do usados para tratar de muitas questões re-
da Teoria da Evolução, à qual também foi         ferentes à espécie humana — a nossa histó-
Wright quem deu forma matemática — a sa-         ria, a nossa variabilidade, o nosso comporta-
ber, os efeitos da contingência histórica na     mento e cultura e, na realidade, o que signifi-
mudança subseqüente. Economistas como            ca ser humano. Alguns estudos sobre a varia-
Douglass North aplicaram este princípio, in-     ção e evolução humanas são inambíguos e
dicando um afastamento da teoria econômi-        incontroversos. Outros escritos sobre a Evo-
ca baseada na clássica noção de que os indi-     lução humana e suas implicações sociais têm
víduos sabem o que é necessário para             sido extremamente controvertidos — e cau-
maximizar os benefícios e minimizar os cus-      saram a mesma discordância entre biólogos
tos (44).                                        dedicados ao estudo da evolução e em outras
       A necessidade de se ter instrumentos      esferas. Esses tópicos controversos geralmen-
para resolver problemas teóricos e práticos      te contêm dados insuficientes para apoiar as
da Evolução incentivou progressos, tanto na      alegações feitas, ou são ocasiões em que fo-
Estatística, como na Matemática. R.A. Fisher,    ram usados, injustificadamente, dados cien-
que elaborou a análise de variância, era gene-   tíficos, para dar sustentação a discussões so-
ticista de populações e estatístico. Ao anali-   ciais ou éticas. Além disso, alguns escritores
sar efeitos aleatórios na Evolução, Wright       e jornalistas populares interpretam erronea-
usou equações de difusão que inspiraram ou-      mente os achados da evolução e da genética
tros trabalhos sobre processos aleatórios, re-   humanas — o que evidencia a necessidade
alizados por matemáticos como William            de uma educação mais ampla a respeito des-
Feller, que foi levado a desenvolver uma am-     tas matérias.
pla área da Teoria da Probabilidade. Mais re-
centemente, a análise de árvores                 • História humana Entre os principais tópi-
                                                             humana.
filogenéticas inspirou pesquisas matemáti-         cos de estudo da história humana, já men-
cas. Esses métodos, adequadamente modifi-          cionados antes neste documento, estão as
cados, terão ampla aplicação fora da Biolo-        nossas indiscutíveis relações com os ma-
gia Evolutiva.                                     cacos africanos, a história da evolução dos
       A computação evolutiva e a inteligên-       hominídeos, como revelada pelo registro
cia artificial estão entre os temas mais ati-      fóssil, e a história das populações huma-
vos e potencialmente úteis da informática          nas modernas, na qual a Genética Evolutiva
atual e estão baseadas diretamente na Teo-         desempenhou o papel principal (Ver Box
ria da Evolução. O cientista da computação         2). Extensos estudos de genética de popu-
John Holland (25) foi profundamente influ-         lações, em conjunto com métodos
enciado por seus colegas da Biologia               filogenéticos, também determinaram as
Evolutiva e, junto com seus estudantes, foi o      relações genealógicas entre populações
pioneiro da computação evolutiva e dos             humanas. Estas relações genéticas têm
algoritmos genéticos para a solução de pro-        uma boa correspondência com as relações
blemas numéricos. Esses algoritmos, que            entre os grupos lingüísticos, esclarecidas
empregam critérios de maximização conce-           pelos lingüistas usando métodos modifica-
bidos para mimetizar a seleção natural em          dos da Biologia Evolutiva (9). A combina-
sistemas biológicos, atualmente estão mos-         ção destas disciplinas forneceu uma base
trando um grande potencial de aplicação em         mais sólida às inferências sobre as princi-
computadores e sistemas. A computação              pais migrações populacionais e a difusão
evolutiva é um campo tão ativo que duas re-        de sistemas culturais importantes, como a
vistas novas — Evolutionary Computation            agricultura e a domesticação de animais.
(Computação Evolutiva) e Adaptive Behavior
(Comportamento Adaptativo) —incluem um           • Variação dentro e entre populações As
                                                                             populações.
grande número de artigos sobre como os             diferenças genéticas entre as populações
conceitos biológicos podem ser aplicados à         humanas são pequenas, quando compa-
ciência da computação e à engenharia.              radas com a grande variação dentro delas.




                                                                                            32
Além disso, os padrões geográficos                que a complexidade necessariamente au-
  freqüentemente diferem entre um gene e            menta, tanto na evolução biológica como
  outro, de onde se deduz que a diferença           na cultural. Mesmo as melhores entre es-
  entre populações quanto a uma caracte-            sas analogias apresentam sérias limita-
  rística não parece ser útil para se preve-        ções, pois alguns mecanismos de “evolu-
  rem diferenças quanto a outras caracterís-        ção” cultural diferem muito daqueles da
  ticas. Estes dados e princípios deram res-        evolução biológica. Contudo, a forma e o
  paldo aos veementes argumentos levan-             conteúdo dos modelos evolutivos foram
  tados por muitos biólogos estudiosos da           usados, com as devidas modificações, para
  Evolução contra o racismo e outros tipos          desenvolver modelos de mudança cultural
  de conceitos estereotipados (13, 35).             (8). Alguns desses modelos levam em conta
                                                    a interação entre as mudanças culturais e
• A natureza humana Um dos assuntos
                humana.                             genéticas, já que há provas de que uma
  mais controversos de todos é o que seria          pode influenciar a outra. Os modelos mais
  “natural” para a espécie humana. Este tó-         promissores são bastante recentes e ainda
  pico desperta um enorme interesse em              não foram adequadamente testados com
  pessoas de todas as categorias sociais,           dados.
  quaisquer que sejam suas crenças a res-
  peito da Evolução. Em contraste com ou-        • Evolução na cultura popular e na inte-
  tras espécies, para nós evidentemente é          lectual Ninguém, do mais dedicado biólo-
                                                   lectual.
  “natural”, por exemplo, aprender a falar e       go ao mais apaixonado criacionista, nega-
  usar isto. A questão resume-se em saber          ria que a idéia da Evolução teve uma enor-
  quais padrões de comportamento huma-             me influência no pensamento moderno.
  no são produtos da história evolutiva, quais     Incontáveis livros foram escritos sobre o
  são produtos do ambiente cultural e quais        impacto do Darwinismo na filosofia, na an-
  são o resultado de uma interação entre os        tropologia, na psicologia, na literatura e na
  dois. Behavioristas evolutivos documenta-        história política. A Evolução foi usada (abu-
  ram, em outras espécies animais, diferen-        sada, diríamos) para justificar tanto o co-
  ças resultantes de evolução em muitos tra-       munismo como o capitalismo, tanto o ra-
  ços comportamentais, tendo utilizado com         cismo como o igualitarismo. Tal é o poder
  sucesso princípios como o da seleção             do conceito de evolução sobre a imagina-
  parental para explicar a natureza adapta-        ção.
  tiva desses comportamentos. Muitos bió-
  logos estudiosos da Evolução, antropólo-          O fascínio exercido pela Evolução, entre-
  gos e psicólogos mostram-se otimistas com         tanto, não se limita às etéreas esferas do
  relação à possibilidade de aplicação de tais      discurso intelectual. Um benefício econô-
  princípios ao comportamento humano e              mico que não foi medido, mas que prova-
  têm apresentado explicações evolutivas            velmente é grande, decorre indiretamente
  para alguns comportamentos intrigantes            do papel da Biologia Evolutiva na educa-
  que têm ampla distribuição entre as popu-         ção de crianças e adultos num contexto de
  lações humanas, como os tabus do inces-           conceitos científicos e também no forne-
  to e os papéis dos sexos. Outros biólogos         cimento de entretenimento popular. Livros
  que se dedicam ao estudo da Evolução, an-         e programas de televisão sobre biodiver-
  tropólogos e psicólogos mostram-se céti-          sidade, história natural, as origens do ser
  cos em relação a essas interpretações e sa-       humano e a vida pré-histórica (incluindo
  lientam os efeitos do aprendizado e da cul-       os dinossauros) são extremamente popu-
  tura. O desafio será elaborar testes defini-      lares e oferecem uma entrada de fácil aces-
  tivos para essas hipóteses.                       so para o pensamento científico abstrato.
                                                    Muitas crianças começam a se interessar
• Modelos de mudança cultural São fre-
                           cultural.                por assuntos de ciência, engenharia e meio
  qüentes as analogias entre mudanças cul-          ambiente através da exposição à história
  turais e evolução biológica e, em certas          natural e, mais adiante, pela introdução aos
  ocasiões, elas influenciaram a construção         princípios evolutivos que explicam a uni-
  de modelos de antropologia cultural. Al-          dade, a diversidade e as adaptações da
  gumas das analogias do passado foram              vida. Mesmo em pessoas que não seguem
  ingênuas e erradas, como a suposição de           carreiras em ciência e engenharia, o inte-

                                                                                            33
resse pela história natural e pela Evolução     exposições de dinossauros em museus, a
  acentua o pensamento crítico (a base do         popularidade da ficção científica que utili-
  ideal de Jefferson de cidadãos educados).       za temas evolutivos, a cobertura dada pe-
  Este interesse também constitui uma con-        los meios de comunicação a todas as im-
  siderável força econômica, por meio da          portantes descobertas de fósseis de homi-
  compra de livros e revistas, brinquedos         nídeos e a cada nova idéia importante so-
  para crianças e visitas a museus e até mes-     bre a evolução humana, a ampla preocu-
  mo do cinema. (O popular filme Parque dos       pação do público com as teorias genéticas
  Dinossauros não poderia ter sido feito sem      do comportamento humano e com a pos-
  os novos conhecimentos sobre os dinos-          sibilidade da clonagem — tudo isso com-
  sauros desenvolvidos por biólogos dedica-       prova o fascínio, o receio e a esperança das
  dos ao estudo da Evolução nos 20 anos           pessoas em relação à história evolutiva e
  precedentes). As multidões de visitantes de     ao futuro da humanidade e do mundo.




                            EVOLUTIV
                               OLUTIVA
VI. DE QUE MODO A BIOLOGIA EVOLUTIVA
              PARA
    CONTRIBUI PARA A CIÊNCIA BÁSICA?

A. Realizações no Estudo da Evolução              ram a sua função, mas são compartilha-
                                                  dos por um grande número de espécies.
      Uma lista completa das realizações da       Características morfológicas, como as asas
Biologia Evolutiva — algumas espetaculares        rudimentares de muitos insetos não voa-
e outras modestas — seria muito longa. Aqui       dores descendentes de ancestrais voado-
estão as descrições condensadas de alguns         res, também comprovam a Evolução.
dos avanços mais importantes.                     Inferências de um ancestral comum base-
                                                  adas em comparações entre espécies vi-
• Muitas séries de evidências demonstram          vas encontraram amplo respaldo em evi-
  de modo inequívoco que a Evolução ocor-         dências fósseis diretas de transições
  reu. Acredita-se atualmente que todos os        evolutivas. Toda a evolução dos anfíbios
  organismos conhecidos sejam descenden-          terrestres a partir dos peixes, dos répteis a
  tes de um ancestral comum que existiu           partir dos anfíbios, das aves a partir dos
  mais de 3,5 bilhões de anos atrás. As pro-      dinossauros, dos mamíferos a partir dos
  vas do parentesco entre todas as formas         répteis e das baleias a partir de mamíferos
  de vida incluem aspectos comuns tais            terrestres pode ser seguida pelo registro
  como a estrutura celular, a composição de       fóssil.
  aminoácidos das proteínas, o código ge-
  nético quase universal e a quase-identida-    • Foram desenvolvidos com sucesso méto-
  de das seqüências de nucleotídeos de mui-       dos de inferência filogenética ou genea-
  tos genes que têm funções similares em          lógica, tendo sido estabelecidas muitas re-
  organismos muito diferentes. Por exemplo,       lações entre organismos (embora ainda
  os genes que comandam os primeiros pas-         reste muito por fazer). Os métodos de
  sos no desenvolvimento embrionário, es-         inferência filogenética fornecem evidênci-
  pecificando os eixos e as principais regi-      as sobre as relações entre organismos, o
  ões do corpo do futuro embrião, têm se-         que, por sua vez, fornece os fundamentos
  qüência, organização e funções básicas si-      para incontáveis outros estudos. A histó-
  milares nos insetos e nos vertebrados; efe-     ria das mudanças evolutivas de caracterís-
  tivamente, alguns genes de rato, se implan-     ticas específicas, por exemplo, pode ser
  tados no genoma de uma mosca, podem             inferida a partir de sua distribuição na ár-
  “instruir” os genes da mosca a desempe-         vore filogenética. Podemos afirmar com
  nharem suas funções normais no desen-           segurança que, nos insetos, o comporta-
  volvimento. Provas de um ancestral co-          mento social evoluiu de forma independen-
  mum também são fornecidas por seqüên-           te pelo menos 15 vezes, uma vez que o
  cias não-funcionais de DNA chamadas             parentesco mais próximo de cada um dos
  pseudogenes: genes “inativos” que perde-        15 grupos de espécies sociais é com um

                                                                                           34
grupo não-social diferente. Além disso,        adaptação que dá acesso a novos recursos
  comparações entre espécies de insetos so-      ou a um novo modo de vida (p. ex., o vôo)
  ciais com parentesco próximo mostraram         ou com a extinção de taxons que anterior-
  que a evolução de uma sociabilidade cada       mente dominavam o ecossistema.
  vez mais intrincada ocorreu por etapas.

  Estudos filogenéticos revelaram ou confir-
  maram alguns acontecimentos notáveis da
  história da vida. Talvez a mais espantosa
  dessas descobertas seja a de que partes
  importantes das células dos eucariontes,
  como as mitocôndrias e os cloroplastos,
  descendem de bactérias que viviam em li-
  berdade e tornaram-se simbiontes intrace-
  lulares. Os métodos de inferência filogené-
  tica também produzem “árvores gênicas”,
  diagramas das relações entre variantes
  gênicas dentro de uma espécie e entre es-
  pécies diferentes. Quando analisadas à luz
  dos modelos da Genética de Populações,
  as árvores gênicas podem revelar muito
  sobre a história das populações, como a
  sua idade, seu tamanho anterior e a histó-
  ria de sua subdivisão (ver Box 2 sobre Evo-
  lução humana).                                 Organização e expressão dos genes Hox. No alto: os do-
                                                 mínios A-P da expressão dos genes Hox de Drosophila
                                                 correspondem à ordem dos genes dentro do complexo
• O ritmo e o modo da Evolução estão docu-       Hox. No meio: a relação evolutiva entre os aglomerados
  mentados. Dados filogenéticos e paleon-        de Hox de Drosophila, anfíbios e ratos e o complemento
                                                 deduzido de genes Hox do ancestral comum presumido
  tológicos mostram que características di-      de artrópodes e cordados. Embaixo: no rato em desen-
  ferentes evoluem a taxas diferentes den-       volvimento, os domínios A-P dos genes Hox de rato tam-
                                                 bém correspondem à ordem dos genes nos complexos
  tro de uma linhagem (um padrão chaman-         Hox. Adaptado das refs. 50, 52 e 75.
  do evolução em mosaico), de modo que cada
  organismo é uma colcha de retalhos de ca-      Genes com Homeobox
                                                 Sean B. Carroll
  racterísticas que se modificaram substan-      University of Wisconsin
  cialmente no passado recente e de outras
                                                     Durante muito tempo, a evolução dos animais
  que sofreram poucas mudanças ao longo
                                                 foi abordada através da Sistemática e da
  de muitos milhões de anos. Isto é verdade      Paleontologia. Entretanto, até recentemente, a
  tanto para as seqüências de DNA como           base genética da diversidade morfológica de qual-
                                                 quer grupo animal estava fora do alcance da Bio-
  para as características fenotípicas. Em ge-    logia. Como evoluem os planos do corpo e as
  ral, características anatômicas individuais    partes do corpo? Uma das descobertas mais im-
  e conjuntos de características parecem         portantes da década passada foi a de que a maio-
                                                 ria dos animais, ou todos eles, têm uma família
  evoluir bastante rapidamente em certas         especial de genes em comum, os genes Hox, que
  épocas da história de uma linhagem e, em       são importantes para a determinação do padrão
  outras épocas, parecem não ter evolução        corporal. A diversidade das características rela-
                                                 cionadas com os Hox nos artrópodes (morfologia
  nenhuma. No registro fóssil, este padrão é     dos segmentos, número e padrão dos apêndices)
  registrado como “estase” interrompida oca-     e nos vertebrados (morfologia vertebral, padrão
  sionalmente por breves períodos de mu-         dos membros e do sistema nervoso central) su-
                                                 gere que os genes Hox tenham tido um papel im-
  danças rápidas — padrão que foi denomi-        portante na evolução morfológica. Estudos recen-
  nado “equilíbrio pontuado”. Há várias ex-      tes de vários tipos diferentes de animais sugerem
                                                 que grande parte da diversidade animal tenha
  plicações recentes e concorrentes para este
                                                 evoluído em torno de um conjunto comum de
  padrão. Outro padrão comum é a irradia-        genes Hox que se desdobram de maneiras dife-
  ção evolutiva, na qual muitas linhagens dis-   rentes e regulam genes diferentes em grupos es-
                                                 pecíficos.1
  tintas divergem de um ancestral comum
  num período curto de tempo. Essas explo-       1
                                                  S.B.Carroll, Nature, 376: 479-485 (1995); R.A. Raff, The
                                                 Shape of Life: Genes, Development, and the Evolution of
  sões de diversificação muitas vezes estão      Animal Form (University of Chicago Press, Chicago, 1996).
  associadas com a evolução de uma nova

                                                                                                             35
• Os padrões de diversificação e de extinção                     foram propensos à extinção no passado
  foram descritos com base no registro fós-                      pode nos ajudar a prever a vulnerabilidade
  sil. Organismos marinhos primitivos, por                       à extinção em espécies atuais. O padrão
  exemplo, aumentaram rapidamente em di-                         de extinções entre os invertebrados mari-
  versidade, depois permaneceram num ní-                         nhos costeiros ao longo do tempo geoló-
  vel relativamente estável durante grande                       gico, por exemplo, sugere que os habitan-
  parte da era Paleozóica (545–248 milhões                       tes de recifes tropicais são os mais vulne-
  de anos atrás). Em seguida, a sua diversi-                     ráveis.
  dade diminuiu abruptamente para talvez
  4% de sua diversidade anterior, durante a                   • Foi elaborada e validada uma teoria quan-
  maior extinção em massa jamais sofrida                        titativa dos processos evolutivos funda-
  por seres vivos. A seguir, a diversidade re-                  mentais. A teoria matemática da Genética
  tomou rapidamente o rumo oposto, tendo                        de Populações — referente às mudanças
  aumentado em grau maior ou menor des-                         genéticas dentro e entre populações — des-
  de então (FIGURA 2). A separação dos con-                     creve a interação e a importância relativa,
  tinentes, que criou plataformas separadas                     em condições diversas, da taxa de muta-
  para a diversificação, contribuiu para o                      ção, da recombinação, da deriva genética,
  aumento global da diversidade, da mesma                       do fluxo gênico versus isolamento e de vá-
  forma como a ascensão de grupos “moder-                       rias formas de seleção natural. Esses pro-
  nos”, capazes de utilizar uma gama mais                       cessos foram bem documentados e quanti-
  ampla de recursos ou de habitats (p. ex.,                     ficados, tanto em populações experimen-
  plantas florescentes). Ao longo de todo o                     tais como naturais de numerosas espéci-
  registro fóssil, houve alternância — extin-                   es. Assim, por exemplo, pode-se afirmar
  ção e surgimento de novas espécies. As                        com segurança que a seleção natural exer-
  causas da extinção não são muito bem                          ce uma força tão maior do que a mutação
  compreendidas, mas o conhecimento das                         sobre muitos caracteres fenotípicos que a
  características biológicas dos grupos que                     direção e a taxa da evolução geralmente




  Transições no Registro Fóssil: Baleias a partir de Ungulados
  J. John Sepkoski , Jr.
  University of Chicago

      Baleias e golfinhos (cetáceos) são decididamente mamíferos: eles têm sangue quente, amamentam seus
  filhotes, têm três ossos no ouvido médio. Eles até têm vestígios parciais internos de membros posteriores. O
  modo exato de parentesco dos cetáceos com os outros mamíferos, entretanto, somente foi esclarecido por com-
  pleto a partir dos anos ‘60, pela combinação de uma boa análise filogenética com descobertas paleontológicas
  espetaculares.
      Sabe-se agora, por meio de uma série contínua de transições encontrada no registro fóssil, que os cetáceos
  evoluíram durante o início do Eoceno a partir de um grupo primitivo de ungulados carnívoros (mamíferos com
  cascos) chamados mesoniquídeos. Esse grupo tinha uma cabeça incomumente grande para o tamanho do seu
  corpo e dentes adaptados para esmagar tartarugas. Portanto, alguns mesoniquídeos deviam viver perto de águas
  habitadas por tartarugas.
  O fóssil mais antigo incluído no gênero Cetacea é o Pakicetus, um crânio da camada ribeirinha do Baixo Eoceno
  do Paquistão. A estrutura do crânio é de cetáceo, mas os dentes são mais parecidos com os dos mesoniquídeos
  do que com os das baleias modernas com dentes. Um fóssil mais completo, igualmente do Paquistão, mas de
  depósitos marítimos rasos, é o Ambulocetus do início do Eoceno Médio. Os membros anteriores frontais e os
  fortes membros traseiros deste animal tinham patas grandes (e ainda com cascos) que podiam servir como
  nadadeiras e podiam ser viradas para trás como as dos leões marinhos. O Ambulocetus teria sido capaz de se
  locomover entre o mar e a terra. O mais importante, porém, é que as vértebras da parte baixa do dorso do
  Ambulocetus tinham uma articulação altamente flexível, que tornava o dorso capaz de executar um forte movi-
  mento para cima e para baixo, método usado pelos cetáceos modernos para nadar e mergulhar.
      Em depósitos marítimos do Paquistão um pouco mais recentes, foram encontrados mais dois cetáceos fós-
  seis, Indocetus e Rodhocetus. Esses animais tinham membros posteriores que provavelmente eram funcionais,
  mas o Rodhocetus tinha perdido a fusão das vértebras no local onde, nos mamíferos terrestres, a pelve se articula
  com a coluna vertebral. A perda desta fusão permitia uma flexibilidade ainda maior no movimento dorso-ventral
  da natação e sugere que este animal não se aventurava muito freqüentemente a ir para a terra, se é que o fazia.
      O Basilosaurus, de rochas do Eoceno Superior do Egito e dos Estados Unidos, é uma baleia mais moderna,
  com nadadeiras anteriores para pilotar e uma espinha dorsal completamente flexível. Assim mesmo, ao longo
  desta espinha dorsal, há vestígios da origem terrestre do Basilosaurus: membros posteriores completos, embora
  já pequenos, sem articulação com a espinha dorsal e provavelmente não-funcionais. Na evolução posterior dos
  cetáceos, esses membros posteriores ficaram ainda mais reduzidos, perdendo os artelhos e a rótula, necessários
  para a locomoção em terra.



                                                                                                                  36
são impostas pela seleção, embora a mu-          ponsável por outros exemplos de evolução
  tação afinal seja necessária para que pos-       rápida, como o desenvolvimento de resis-
  sa haver evolução. Os modelos da Genéti-         tência a inseticidas em muitas espécies de
  ca de Populações também mostram a ma-            insetos.
  neira pela qual vários fatores, como certas
  formas de seleção natural e de estrutura       • O processo da Evolução pode ser observa-
  populacional, mantêm a variação genéti-          do e estudado diretamente. A existência da
  ca em vez de erodi-la.                           variação genética e o contínuo apareci-
                                                   mento de novas variações genéticas por
• A teoria dos processos evolutivos foi es-        mutação e recombinação permitem-nos
  tendida com sucesso aos dados molecu-            estudar grande número de processos
  lares. Por exemplo, a teoria neutra da evo-      evolutivos — à medida que ocorrem. Estu-
  lução molecular, uma extensão da teoria          dos de bactérias, por exemplo, mostraram
  da deriva genética desenvolvida na déca-         que a evolução adaptativa pode basear-se
  da de 1930, prevê que a maior variação           em novas mutações e não somente na va-
  deve ocorrer nas partes funcionalmente           riação pré-existente (22). Muitas vezes,
  menos críticas de um gene. Em uma das            mudanças adaptativas observadas têm
  muitas confirmações desta teoria, foram          efeitos colaterais deletérios que, se forem
  experimentalmente induzidas mutações             suficientemente grandes, podem limitar
  em várias partes de um gene da bactéria          uma adaptação ulterior. Porém, às vezes,
  Escherichia coli. Como previsto, provou-se       ocorrem mudanças genéticas subseqüen-
  que mutações naquelas regiões que dife-          tes que corrigem esses efeitos colaterais.
  rem pouco entre diferentes espécies de           Por exemplo, populações de uma mosca
  bactérias prejudicavam a função enzimá-          varejeira que ataca ovelhas desenvolveram
  tica, enquanto mutações em regiões que           resistência ao inseticida diazinon. Inicial-
  variam muito entre as espécies tinham            mente, as populações resistentes apresen-
  pouco efeito (15).                               taram atraso de desenvolvimento e anor-
                                                   malidades físicas, mas, mais adiante, es-
• Descobriu-se que as populações são alta-         ses traços diminuíram, devido à seleção de
  mente variáveis geneticamente. Tanto as          outros genes que melhoraram os efeitos
  técnicas clássicas como as moleculares re-       deletérios (32).
  velaram uma ampla variação genética den-
  tro e entre populações. Certamente, à ex-      • Os mecanismos pelos quais surgem novas
  ceção de gêmeos idênticos, nunca houve           espécies foram esclarecidos. Embora ain-
  dois seres humanos que fossem genetica-          da haja muitas coisas a serem aprendidas
  mente idênticos. As tarefas que restam são       a respeito da especiação, muito já se apren-
  as de explicar de forma mais completa por        deu sobre as mudanças genéticas subja-
  que esta variação existe, de determinar por      centes a esse processo. Nos animais, pa-
  que algumas características são genetica-        rece que a especiação tipicamente envol-
  mente mais variáveis do que outras e de          ve a divergência entre populações geogra-
  descobrir quão prontamente a seleção na-         ficamente separadas, uma vez que os
  tural consegue transformar esta variação         genes que se tornam predominantes em
  em novas adaptações a diversos desafios          uma população são incompatíveis com os
  ambientais.                                      da outra. Estudos genéticos mostraram
                                                   que, em certos casos, esta incompatibili-
• Esses altos níveis de variação genética têm      dade é causada por um pequeno número
  várias implicações. Acima de tudo, eles          de genes, sugerindo que a especiação ocor-
  podem permitir que as populações evolu-          reu rapidamente, enquanto, em outros ca-
  am rapidamente quando há mudanças                sos, a responsabilidade é de interações en-
  ambientais, em vez de terem de esperar           tre um grande número de genes, implican-
  que ocorram justamente as mutações cer-          do um processo de especiação lento e
  tas. O reservatório da variação genética         gradativo. Certos modos de especiação têm
  contribuiu para o sucesso da seleção artifi-     maior prevalência em plantas do que em
  cial (seleção deliberada feita por humanos)      animais, como a especiação por poliploidia
  de características desejáveis em plantas de      (multiplicação de conjuntos inteiros de
  cultivo e em animais domésticos e é res-         cromossomos). Algumas espécies selva-

                                                                                            37
gens de plantas que evoluíram por poli-              produção ou sobrevivência. Como po-
  ploidia foram “recriadas” diretamente em             demos então explicar o comportamen-
  experiências de laboratório.                         to cooperativo de muitos animais? Uma
                                                       das principais respostas a esta pergun-
• Foram documentadas muitas formas de                  ta é a seleção parental. Um indivíduo
  seleção natural. Por exemplo, a seleção não          que ajuda outros pode legar às gerações
  age somente por meio de diferenças na so-            subseqüentes um número menor de
  brevivência e na reprodução das fêmeas,              seus próprios genes, mas pode super-
  mas também por meio de diferenças no                 compensar isso aumentando a sobrevi-
  sucesso de acasalamento dos machos, de-              vência e a reprodução de seus paren-
  nominado seleção sexual. Este processo im-           tes, que são portadores de muitos genes
  plica competição entre os machos ou pre-             iguais aos seus. Estudos mais aprofun-
  ferência das fêmeas por machos com cer-              dados revelam que, de fato, a maioria
  tas características. Experiências mostraram          dos comportamentos cooperativos é
  que a seleção sexual é responsável por               dirigida a parentes e não à espécie em
  muitos comportamentos e traços anatômi-              geral.
  cos elaborados, até bizarros, dos machos,
  como os enormes chifres dos veados e as           • Senescência. Se a seleção natural con-
  fulgurantes penas e elaboradas exibições            siste, em parte, de diferenças na sobre-
  dos machos de muitas aves.                          vivência, por que os organismos sofrem
                                                      senescência e têm uma duração limita-
  Tradicionalmente, a seleção natural era             da de vida, mais curta ou mais longa,
  definida como diferenças de sobrevivên-             dependendo da espécie? A teoria mate-
  cia ou de reprodução entre indivíduos               mática dos ciclos de vida mostra que fi-
  fenotipicamente diferentes dentro de popu-          lhos nascidos em uma fase tardia da
  lações de uma espécie. Agora sabemos que            vida de um dos pais contribuem menos
  a seleção também pode estar em diferen-             para os números futuros da população
  ças na sobrevivência ou reprodução entre            do que filhos nascidos mais cedo. Con-
  os próprios genes (seleção gênica), entre           seqüentemente, a reprodução em fases
  grupos inteiros de indivíduos (seleção de           tardias da vida contribui com menor
  grupo) e entre espécies ou taxa mais altos. A       número de genes para a população do
  seleção gênica pode ser especialmente               que a reprodução precoce. Portanto, a
  potente. “Genes egoístas” são genes que,            vantagem genética de sobreviver para
  por meio de diversos mecanismos, propa-             reproduzir diminui com a idade. Por
  gam um número maior de cópias em uma                isso, se genes que aumentam a sobre-
  população do que outros genes. Por exem-            vivência ou a reprodução no início da
  plo, elementos transponíveis são seqüênci-          vida tiverem efeitos colaterais deletéri-
  as de DNA que se replicam e se propagam             os em fases mais tardias, eles podem
  por todo o genoma. Tais genes podem não             ser selecionados por causa de seu efei-
  beneficiar, ou até prejudicar, o organismo          to sobre a reprodução precoce, causan-
  ou a espécie como um todo.                          do porém a senescência como efeito
                                                      colateral. Esta é mais uma hipótese res-
• Teorias baseadas na seleção natural expli-          paldada por estudos de populações ex-
  caram a evolução de muitas característi-            perimentais de Drosophila (53).
  cas intrigantes. Citamos dois exemplos de
  uma longa lista: o comportamento coope-         • Os processos de co-evolução foram
  rativo e a senescência.                           elucidados. Os ecólogos que se dedicam
                                                    ao estudo da Evolução estão elaborando e
  • Comportamento cooperativo. O compor-            testando hipóteses sobre o modo pelo qual
    tamento altruísta, como o de animais            espécies que interagem afetam reciproca-
    adultos que não conseguem dar cria e,           mente a sua evolução. Por exemplo, o an-
    em vez disso, ajudam outros indivíduos          tagonismo entre presa e predadores e en-
    a criar os filhotes, parece difícil de ex-      tre hospedeiros e parasitas ou patógenos
    plicar, porque tais genótipos “altruístas”      pode levar a “corridas armamentistas”
    desviam uma energia que, de outra for-          evolutivas, nas quais cada um muda, em
    ma, poderiam usar para sua própria re-          resposta a mudanças do outro. As adapta-

                                                                                            38
ções resultantes podem ser intrincadas: as        flores em todas as plantas florescentes. É
  plantas, por exemplo, desenvolveram di-           notável que esses genes seletores que re-
  versas defesas químicas contra herbívoros         gulam o desenvolvimento de flores tenham
  e patógenos, incluindo compostos como a           algumas semelhanças na seqüência do
  nicotina, a cafeína e o ácido salicílico (as-     DNA com genes seletores de animais. A
  pirina ou AAS), que os humanos usam para          maioria dos avanços da biologia evolutiva
  diversos fins. Entretanto, cada uma dessas        do desenvolvimento é muito recente; este
  defesas foi vencida por algumas espécies          campo está crescendo rapidamente.
  de insetos, que desenvolveram mecanis-
  mos fisiológicos para neutralizá-las.           • Muitos aspectos da Evolução humana fo-
                                                    ram elucidados por pesquisas recentes em
• Chegou-se a uma melhor compreensão do             paleoantropologia, sistemática filogenética
  desenvolvimento que constitui a base da           e genética molecular de populações. As se-
  evolução de características complexas.            qüências de DNA mostram que os huma-
  Uma pergunta que vem de longa data re-            nos têm parentesco próximo com os ma-
  fere-se ao modo pelo qual evoluem as ca-          cacos africanos, especialmente os chim-
  racterísticas anatômicas complexas, espe-         panzés. A semelhança superior a 98% das
  cialmente as novas, como as penas das             seqüências de DNA entre humanos e chim-
  primeiras aves. Para responder esta per-          panzés implica a sua divergência de um
  gunta, teremos de entender como podem             ancestral comum há cerca de 6 a 8 milhões
  mudar as vias normais de desenvolvimen-           de anos. Quase todos os anos, são desco-
  to das características morfológicas. Os re-       bertos na África Oriental hominídeos pri-
  centes avanços espetaculares da Biologia          mitivos com muitos traços parecidos com
  do Desenvolvimento são igualados pelos            os dos macacos (como cérebro pequeno,
  estudos das mudanças evolutivas dos me-           ossos dos dedos e dos dedos dos pés cur-
  canismos de desenvolvimento. Nas                  vos e características dentárias). Os fósseis
  salamandras, por exemplo, mudanças                de hominídeos mais antigos já descober-
  evolutivas dos genes que afetam a produ-          tos têm cerca de 4,4 milhões de anos, apro-
  ção de hormônios, ou as respostas de vá-          ximando-se da época do ancestral comum
  rios tecidos a esses hormônios, influenci-        sugerida pelos dados de DNA. Algumas
  aram a taxa e os tempos do desenvolvi-            populações fósseis de hominídeos apresen-
  mento, dando origem a espécies que con-           tam uma transição gradativa de uma para
  servam muitas características juvenis ao          a outra.
  longo de toda a sua vida adulta. Tais mu-
  danças podem ter efeitos importantes e de         Há uma considerável controvérsia em tor-
  grande alcance; por exemplo, algumas              no da hipótese, baseada em estudos de
  salamandras que atingem apenas um ta-             variação do DNA, de que todas as popula-
  manho minúsculo deixam de desenvolver             ções humanas da atualidade seriam des-
  determinados ossos e têm crâneos extre-           cendentes de uma única população africa-
  mamente alterados. Estudos moleculares            na que se espalhou por todo o continente
  do desenvolvimento das moscas de frutas           eurasiano cerca de 100.000 a 200.000 anos
  do gênero Drosophila descobriram genes            atrás, substituindo as populações de Homo
  seletores (reguladores principais), que re-       sapiens que tinham ocupado essa região
  gulam a ação de outros genes de posição           anteriormente. Segundo esta hipótese, as
  inferior na hierarquia de comando, que de-        diferenças genéticas entre as populações
  terminam a identidade e as características        humanas modernas das diferentes partes
  dos segmentos do corpo do inseto. Estu-           do globo terrestre tiveram pouco tempo (na
  dos evolutivos comparativos mostram a             escala evolutiva) para se desenvolver. Na
  existência de homólogos desses genes nos          realidade, embora existam algumas dife-
  mamíferos e também em outros animais.             renças genéticas regionais de característi-
  Todos esses genes seletores regulam genes         cas como os traços faciais e as freqüênci-
  de nível inferior que diferem entre um gru-       as dos grupos sangüíneos, de um modo
  po de organismos e outro, dando origem,           geral, todas as populações humanas são
  desta forma, a características diferentes.        geneticamente muito semelhantes. A mai-
  Analogamente, foram encontrados genes             oria das variações genéticas humanas é
  que podem regular o desenvolvimento das           encontrada dentro das populações e não

                                                                                             39
entre elas. Portanto, se todos os seres hu-        estrutura de RNAs de tamanho reduzido,
   manos fossem extintos, à exceção de uma            mas foram ineficazes na resolução da es-
   única tribo em algum lugar da Terra, pelo          trutura de RNAs maiores, como o RNA
   menos 85% da variação genética que exis-           ribossômico. Entretanto, análises filogené-
   te hoje continuaria presente na futura po-         ticas de seqüências de RNA ribossômico de
   pulação originária daquela tribo sobrevi-          diversas espécies identificaram as regiões
   vente (40).                                        evolutivamente conservadas da molécula,
                                                      fornecendo as bases para a especificação
B. Contribuições para Outras                          daqueles segmentos que mantêm sua es-
   Disciplinas Biológicas                             trutura secundária por pareamento
                                                      Watson-Crick. Desta forma, uma inferência
       No início do século vinte, a maioria dos       feita a partir da análise evolutiva trouxe da-
biólogos recebia uma formação ampla, de               dos fundamentais a respeito da estrutura
modo que muitos deles traziam para a sua              desses componentes onipresentes e vitais
pesquisa um enfoque tanto mecanicista, como           do maquinário da síntese de proteínas (43).
evolutivo. Muitos geneticistas, por exemplo,          Em outra aplicação da análise filogenética,
motivados por questões evolutivas, contribu-          biólogos moleculares deduziram a seqüên-
íram tanto para a Teoria da Evolução como             cia de proteínas ancestrais, sintetizaram-
para o nosso entendimento dos mecanismos              nas e examinaram suas propriedades (2,
genéticos. Hermann Muller, por exemplo, deu           26).
muitas contribuições importantes para a Ge-
nética Evolutiva e também ganhou um Prê-              Os genomas dos organismos eucariontes,
mio Nobel pela descoberta de que a radiação           incluindo os mamíferos, variam muito de
causa mutações.                                       tamanho, devido à variação do muitas ve-
       Entretanto, com o crescimento da ciên-         zes enorme número de seqüências repeti-
cia e o crescimento explosivo da informação,          das de DNA. Além disso, essas seqüências
a Biologia passou a se fragmentar cada vez            repetidas variam muito quanto à sua se-
mais em subdisciplinas especializadas e os            qüência e organização. Durante muitos
biólogos passaram a receber uma formação              anos, elas foram atribuídas à “hipótese do
cada vez mais limitada. Conseqüentemente,             DNA egoísta” (12, 14, 46), que afirma que
muitos biólogos que trabalham em áreas                o DNA repetitivo não tem função nenhu-
como a Biologia Molecular e a Neurobiologia           ma no organismo, mas é propagado por-
têm pouca base de Biologia Evolutiva e des-           que qualquer seqüência de DNA capaz de
conhecem as contribuições potenciais dela             se replicar com sucesso e de ser transmiti-
para as suas disciplinas. Apesar disso, a in-         da às gerações subseqüentes tem uma van-
fluência mútua entre a Biologia Evolutiva e           tagem seletiva em relação a seqüências
as outras disciplinas continuou e, em algumas         com capacidade menor de fazê-lo. Esta
áreas, aumentou. Poderemos esboçar apenas             teoria deu origem a novos estudos sobre o
alguns exemplos das contribuições dos dados           DNA repetitivo e há cada vez mais evidên-
e abordagens evolutivos às outras ciências            cias de que este DNA às vezes pode ter um
biológicas.                                           papel mais funcional do que se pensava
                                                      antes.
• B i o l o g i a M o l e c u l a r . As abordagens
                                  r.
  evolutivas contribuíram para elucidar a es-         O código genético é redundante. Muitos
  trutura do RNA ribossômico, o meio quí-             dos aminoácidos que compõem as proteí-
  mico responsável pela tradução da infor-            nas são codificados no DNA por várias
  mação contida no DNA em estrutura de                tríades de nucleotídeos (codons) que dife-
  proteína. O RNA ribossômico tem uma es-             rem na posição três do nucleotídeo. Pode-
  trutura secundária composta de alças de             ria-se esperar que os vários codons sinô-
  seqüências não-pareadas de nucleotídeos             nimos para um aminoácido particular ti-
  e caudas de pares de bases, combinadas              vessem a mesma freqüência no DNA, mas
  de maneira semelhante à estrutura de du-            é muito comum que um deles seja muito
  pla hélice do DNA (pareamento de bases              mais freqüente do que os outros, padrão
  de Watson-Crick). Métodos químicos e                chamado “viés do codon” (“codon bias”).
  biofísicos, como a cristalografia de raios X,       Os biólogos moleculares que se dedicam
  forneceram algumas informações sobre a              ao estudo da Evolução alegaram que a se-

                                                                                                40
leção natural poderia ser responsável por       ma nervoso; porém, a sua mera existência
  esses padrões. Esta seleção teria de ser fra-   somente pode ser explicada pelo fato de
  ca, uma vez que codons sinônimos não            ser uma característica estrutural funcional-
  diferem em seus efeitos sobre os produtos       mente importante durante toda a vida dos
  protéicos que realizam as funções bioquí-       vertebrados primitivos. O papel da noto-
  micas das quais depende a sobrevivência         corda no desenvolvimento evoluiu nos
  do organismo. A teoria da Genética de Po-       primórdios da história dos vertebrados e
  pulações prevê que uma seleção fraca deve       foi por causa deste papel que ela foi
  ser mais eficaz em populações grandes do        mantida nos embriões dos mamíferos,
  que nas pequenas. Conforme previsto por         muito depois de sua função estrutural em
  esta teoria, o viés do codon é mais pro-        seus ancestrais ter sido substituída pela
  nunciado em organismos como as bacté-           evolução da coluna vertebral óssea.
  rias e as leveduras, cujas populações são
  enormes, do que nos mamíferos, nos quais        Está ocorrendo atualmente uma retomada
  elas são muito menores. Portanto, é de fato     da interação entre a Biologia do Desenvol-
  provável que a seleção natural faça uma         vimento e a Biologia Evolutiva, em parte
  escolha entre codons sinônimos, o que           por causa de uma renovada atenção para
  deixa a pergunta de quais seriam as dife-       o desenvolvimento por parte dos biólogos
  renças de mecanismo entre codons sinô-          que se dedicam ao estudo da Evolução e,
  nimos que poderiam afetar a sobrevivên-         em parte, por causa de comparações entre
  cia ou a reprodução. Uma das principais         espécies de genes que têm papel crítico no
  hipóteses é a de que a tradução do RNA          desenvolvimento. A abordagem compara-
  mensageiro para proteína poderia ser mais       tiva forneceu, por exemplo, descobertas
  eficiente, se a interação com os RNAs de        vitais sobre a função de genes envolvidos
  transferência envolvidos na síntese de pro-     no desenvolvimento ocular e sobre os me-
  teínas for realizada por um codon comum         canismos de morfogênese do olho. Na Su-
  e não por vários codons diferentes (5). É       íça, Walter Gehring e seu grupo de pesqui-
  desta forma que a pesquisa evolutiva indi-      sa descobriram recentemente que um sis-
  ca o caminho para a pesquisa de mecanis-        tema semelhante de controle genético do
  mos moleculares fundamentais.                   desenvolvimento ocular prevalece nos in-
                                                  setos e nos mamíferos e talvez se aplique
• Biologia do Desenvolvimento. As seme-
                Desenvolvimento.                  a todos os animais. De fato, eles descobri-
  lhanças entre embriões de espécies cujas        ram que um gene que controla o desen-
  formas adultas são radicalmente diferen-        volvimento ocular em mamíferos, quando
  tes estiveram entre as principais fontes de     transplantado em moscas de frutas
  Darwin como provas da Evolução. Grande          Drosophila, pode induzir o desenvolvimen-
  parte da Embriologia das décadas depois         to dos olhos de insetos, que são tão dife-
  de Darwin preocupou-se com as diferen-          rentes. A característica chave deste siste-
  ças entre organismos em desenvolvimen-          ma genético é um único gene seletor, que
  to e com o desenvolvimento como fonte           inicia a formação ocular e parece regular a
  de provas para as relações filogenéticas.       atividade dos numerosos outros genes que
  No início do século vinte, porém, as aten-      contribuem para o desenvolvimento ocu-
  ções voltaram-se para os mecanismos do          lar (21). Esta característica comum traz
  desenvolvimento e a Embriologia tornou-         uma vantagem prática: insetos e outras
  se uma ciência experimental, muito distan-      espécies animais, que são mais fáceis e
  te dos estudos evolutivos. Assim mesmo,         menos dispendiosos de estudar do que se-
  alguns biólogos que estudam o desenvol-         res humanos, podem ser utilizados como
  vimento reconheceram que alguns fenô-           modelos para aperfeiçoar a nossa compre-
  menos embriológicos somente podiam ser          ensão das bases genéticas e do desenvol-
  compreendidos à luz da história evolutiva.      vimento das malformações oculares con-
  A notocorda, por exemplo, somente apa-          gênitas e hereditárias, bem como o seu di-
  rece durante um curto período do desen-         agnóstico e possível tratamento, com a
  volvimento dos mamíferos, desaparecen-          certeza de que o conhecimento derivado
  do em seguida. Ela tem um papel essenci-        dessas espécies pode ser aplicado de for-
  al, pois induz o desenvolvimento do siste-      ma significativa à espécie humana.



                                                                                          41
• Fisiologia e Morfologia. A Biologia             exemplo, para descrever até que ponto as
  Evolutiva influenciou por muito tempo o         diferenças fisiológicas entre um organis-
  estudo da fisiologia de animais e plantas e     mo e outro se devem a diferenças genéti-
  pode trazer muitas outras contribuições         cas (“natureza”) versus ajustes individuais
  que somente agora estão sendo desenvol-         a variáveis ambientais (“criação”). Um des-
  vidas. Algumas dessas contribuições terão       ses métodos é a seleção artificial de carac-
  influência sobre o campo da fisiologia hu-      terísticas fisiológicas. Mudanças evolutivas
  mana, incluindo áreas correlatas como a         induzidas pelo homem em populações ex-
  medicina esportiva e a psicologia clínica;      perimentais mostraram que características
  outras trarão avanços na nossa compre-          como a tolerância ao álcool e à tempera-
  ensão dos mecanismos fisiológicos bási-         tura e a capacidade de aprender são influ-
  cos e de suas aplicações a áreas como a         enciadas por genes. Em populações que
  medicina, a agricultura e a ciência veteri-     foram alteradas por seleção artificial, a pro-
  nária (20).                                     cura por características que sofreram mu-
                                                  danças correlatas pode revelar candidatos
  A Fisiologia Evolutiva inclui o estudo de       a mecanismos fisiológicos subjacentes à
  funções fisiológicas em espécies que ocu-       variação. Características que possam afe-
  pam ambientes diferentes. Foram desco-          tar a senescência estão sendo procuradas
  bertos muitos mecanismos interessantes          em populações experimentais de Droso-
  de lidar com ambientes extremos, aprofun-       phila e do nematódeo Caenorhabditis
  dando a nossa compreensão da fisiologia         elegans, nos quais se conseguiu atrasar a
  e da bioquímica. Foram descobertas pro-         maturidade por meio da seleção artificial
  teínas que impedem a formação de cris-          (27, 53). Em outros estudos, estão sendo
  tais de gelo nas células de peixes antárti-     selecionadas populações de ratos com di-
  cos que vivem em águas próximas do ponto        ferentes níveis de atividade, a fim de de-
  de congelamento. Estudos de mamíferos           terminar se essas diferenças interferem ou
  mergulhadores, como as focas, forneceram        não na saúde, no tempo de vida ou na re-
  conhecimentos sobre como esses animais          produção das fêmeas (como pode ocorrer
  conseguem manter suas funções sem res-          nos humanos). Uma vez que os dados hu-
  pirar por longos períodos de tempo em           manos desse tipo são não-experimentais
  pressões elevadas — dados que repercu-          e de difícil interpretação, esses estudos de
  tem na fisiologia dos mergulhadores hu-         modelos animais podem dar muitas con-
  manos. Outro exemplo traz conseqüênci-          tribuições.
  as para o controle do pH sangüíneo duran-
  te cirurgias a coração aberto (66). Em ge-    • Neurobiologia e Comportamento. Os tra-
  ral, essas cirurgias são facilitadas pelo       ços comportamentais evoluem exatamente
  resfriamento do corpo, diminuindo-se com        como as características morfológicas e,
  isso a freqüência cardíaca. O resfriamento      como elas, muitas vezes são extremamente
  do corpo eleva o pH sangüíneo e os clíni-       semelhantes em espécies com parentesco
  cos têm considerado isso como um “pro-          próximo. Estudos filogenéticos do compor-
  blema” a ser resolvido ajustando-se o pH        tamento forneceram exemplos de como
  ao nível encontrado na temperatura nor-         certos comportamentos complexos, como
  mal do corpo (37°C). Entretanto, especia-       as exibições de cortejo de certas aves, evo-
  listas em fisiologia comparada salientaram      luíram a partir de comportamentos ances-
  que, em animais ectotérmicos, como os           trais mais simples.
  répteis, normalmente o pH sangüíneo se
  eleva à medida que a temperatura corpo-         Os biólogos que se dedicam ao estudo da
  ral cai, sem causar efeitos adversos. Este      Evolução vêm trabalhando muito com as
  reconhecimento levou a mudanças na con-         contribuições relativas dos genes e da ex-
  duta referente à hipotermia cirúrgica.          periência (aprendizado, no sentido amplo)
                                                  para a variação do comportamento, tendo
  A teoria e os métodos da Genética Evolu-        mostrado que elas diferem, dependendo da
  tiva podem contribuir para a nossa com-         característica e da espécie. No âmbito do
  preensão da base da variação intraespe-         esforço para compreender como a seleção
  cífica das funções fisiológicas. Esses mé-      natural atuou sobre o componente genéti-
  todos têm sido amplamente usados, por           co da variação, a fim de moldar comporta-

                                                                                            42
mentos adaptativamente importantes, os          Embora os neurobiólogos reconheçam que
  biólogos que se dedicam ao estudo da Evo-       os mecanismos que estudam são adapta-
  lução desenvolveram uma ampla gama de           ções, eles geralmente não estudam os me-
  modelos matemáticos que prevêem os              canismos comportamentais em termos ex-
  comportamentos passíveis de serem desen-        pressamente evolutivos. Até agora, a Bio-
  volvidos, dependendo do ambiente ecoló-         logia Evolutiva contribuiu muito pouco
  gico e social de cada espécie. Alguns deles     para o entendimento dos processos mole-
  relacionam-se com modelos econômicos.           culares na neurobiologia e os pontos de
  Por exemplo, modelos de comportamento           contato entre a Neurobiologia e a Biologia
  predador previram com sucesso as “deci-         Evolutiva têm sido muito poucos. Existem,
  sões” de rapina tomadas por aves e outros       entretanto, algumas exceções notáveis,
  animais, diante da variação da qualidade e      especialmente nos estudos comparativos
  da distribuição espacial do alimento.           e evolutivos dos mecanismos sensoriais e
                                                  da neuroanatomia. Por exemplo, o tama-
  O estudo evolutivo do comportamento ani-        nho da região que controla o canto no cé-
  mal uniu-se à psicologia comparativa em         rebro de aves canoras difere entre popula-
  várias áreas de pesquisa, como o estudo         ções e espécies que variam quanto ao nú-
  do aprendizado. Está claro atualmente que       mero de cantos diferentes que emitem. Em
  a seleção natural fomentou a capacidade         algumas espécies de corujas capazes de lo-
  de aprender a desempenhar tarefas dife-         calizar a presa na total escuridão, aglome-
  rentes em espécies diferentes e que essas       rados de células cerebrais que processam
  adaptações podem ser estudadas de uma           as informações referentes ao som têm uma
  maneira muito semelhante à das adapta-          organização espacial tal que formam lite-
  ções morfológicas. Certas espécies de aves,     ralmente um mapa do ambiente tridimen-
  por exemplo, diferem sensivelmente quan-        sional do qual são recebidos os sons. Es-
  to à capacidade de lembrar os locais em         tudos comparativos deste tipo, baseados
  que foi guardado o alimento; esta capaci-       na compreensão das exigências adap-
  dade é extremamente alta naquelas espé-         tativas das diferentes espécies, podem por-
  cies que tipicamente escondem sementes          tanto levar a uma nova compreensão dos
  ou outros alimentos.                            mecanismos comportamentais.




                    RESERV PARA             EVOLUTIV
                                              OLUTIVA?
VII. O QUE O FUTURO RESERVA PARA A BIOLOGIA EVOLUTIVA?

A. Ciência Aplicada                             microrganismos, realizados em parte por
                                                causa de suas aplicações industriais, lança-
      Como já discutido acima, a Biologia       ram luz sobre a evolução de vias bioquími-
Evolutiva deu diversas contribuições às ne-     cas. Estudos genéticos e filogenéticos de mi-
cessidades da sociedade. Suas contribuições     lho e de outras plantas de safra trouxeram
potenciais, entretanto, ultrapassam de longe    conhecimentos sobre as taxas de evolução e
as que já foram dadas até agora. Em contras-    as mudanças de vias de desenvolvimento. O
te com algumas outras disciplinas biológicas,   estudo da hemoglobina siclêmica e de ou-
como a Bioquímica e a Ecologia, nas quais       tros polimorfismos humanos forneceu algu-
são enfatizadas, tanto na formação como na      mas das melhores análises dos modos de
pesquisa, as aplicações à saúde ou às ciênci-   seleção natural. A evolução da resistência a
as ambientais, o desenvolvimento de um cam-     pesticidas e a drogas em insetos que consti-
po explícito de “Biologia Evolutiva Aplicada”   tuem pragas, em ervas daninhas, ratos e bac-
está apenas começando (19, 33, 41).             térias patogênicas, a evolução de caracterís-
      A história da Biologia Evolutiva mos-     ticas de ciclo de vida em populações de pei-
tra que as interações benéficas entre ciência   xes superexploradas e em pragas de insetos
básica e aplicada podem fluir nos dois senti-   introduzidas, a evolução da virulência em ví-
dos. A Genética Evolutiva aproveitou a pes-     rus e bactérias e a co-evolução entre insetos
quisa genética destinada a melhorar safras e    e plantas foram os temas de alguns dos me-
animais domésticos. Estudos de mudanças         lhores estudos de casos de dinâmica
por mutação das capacidades metabólicas de      evolutiva.

                                                                                          43
Este retrospecto mostra que, muitas        dentro e entre as populações humanas. As
vezes, os biólogos que se dedicam ao estudo       técnicas da Genética de Populações e a
da Evolução podem tratar questões básicas         análise filogenética serão aplicadas às in-
trabalhando com sistemas de relevância di-        formações que surgem explosivamente
reta para as necessidades da sociedade. Cer-      sobre a variação humana, para determinar
tamente, os sistemas para tratar determina-       a história das populações (p. ex., seus ta-
dos problemas intelectuais básicos muitas         manhos, movimentos e intercâmbios no
vezes não terão uma utilidade social imedia-      passado) e continuarão a fornecer ferra-
ta, embora freqüentemente seja difícil prever     mentas para a identificação das lesões ge-
de antemão quais as questões da ciência bá-       néticas associadas com doenças e defei-
sica que levarão a avanços úteis. Além disso,     tos hereditários (como no caso da fibrose
diante de alguns dos resultados discutidos        cística, do câncer de mama e outros). Com-
acima, reiteramos a importância de se explo-      parações evolutivas de seqüências de DNA
rar e compreender a diversidade dos organis-      humano com as de outras espécies trarão
mos como um objetivo intelectual. Em mui-         conhecimentos sobre as funções dos
tos casos, porém, a pesquisa sobre um orga-       genes. Os geneticistas de populações ana-
nismo ou sistema de relevância social pode        lisarão as bases genéticas de traços variá-
trazer um avanço para a ciência básica e tam-     veis interessantes, como as reações a agen-
bém contribuir para as necessidades da soci-      tes alergênicos. Genes que conferem adap-
edade. Prevemos que os biólogos dedicados         tações a fatores ambientais como pató-
ao estudo da Evolução desempenharão esse          genos e alimentação serão identificados
papel duplo cada vez mais.                        pelo estudo das diferenças genéticas entre
       É importante enfatizar que grande par-     e dentro das populações. Os métodos uti-
te do progresso esperado na Biologia              lizados pelos geneticistas que se dedcam
Evolutiva Aplicada exigirá e será inseparável     ao estudo da Evolução serão aplicados à
do progresso da pesquisa básica. Como em          diversidade humana, a fim de elucidar ca-
outras disciplinas biológicas, estudos de or-     sos de herança complexa de doenças (p.
ganismos e de sistemas modelo (incluindo não      ex., aquelas devidas a interações entre
somente espécies padrão de laboratório,           genes múltiplos) e de estudar interações
como as leveduras, a Drosophila e a               genótipo/ambiente — as diferentes expres-
Arabidopsis, mas também uma variedade de          sões de características como a resistência
espécies selvagens) trarão conhecimentos          a doenças em diferentes condições
aplicáveis às necessidades da sociedade. Da       ambientais.
mesma forma, os avanços conceituais e teó-
ricos da Biologia Evolutiva Básica contribui-   • Identificação genética A Genética de Po-
                                                                 genética.
rão para o progresso da Biologia Evolutiva        pulações desenvolveu e continua aperfei-
Aplicada. Importantes progressos serão fei-       çoando métodos analíticos de identifica-
tos nas áreas das ciências da saúde, da agri-     ção de indivíduos e de relações entre indi-
cultura, dos produtos naturais, do meio am-       víduos a partir de um perfil de marcadores
biente e conservação, do desenvolvimento de       geneticamente variáveis. Esta metodologia
tecnologias e do intercâmbio educacional e        também utiliza marcadores genéticos liga-
intelectual com outras disciplinas acadêmicas     dos, para determinar a probabilidade de
e com o público em geral.                         que um indivíduo seja portador de genes
                                                  de interesse particular (p. ex., aqueles que
Ciências da Saúde                                 causam uma doença genética). À medida
      Os avanços na aplicação das disciplinas     que os geneticistas que estudam a Evolu-
evolutivas à saúde humana pertencem a vá-         ção aperfeiçoarem esses métodos e os apli-
rias categorias.                                  carem aos dados referentes à diversidade
                                                  genética humana, será possível utilizar os
• Diversidade genética humana As pesqui-
                        humana.                   marcadores moleculares com maior segu-
  sas sobre a diversidade genética humana         rança e precisão para fins como o
  complementarão o Projeto Genoma Huma-           aconselhamento de indivíduos quanto à
  no, que acabará seqüenciando todo o             probabilidade de que eles ou seus filhos
  genoma humano. Essas pesquisas forne-           venham a ser portadores de uma doença
  cerão dados, em nível molecular, sobre a        genética, a determinação de paternidade e
  imensa diversidade genética que existe          análises médico-legais.

                                                                                           44
• Genética evolutiva do desenvolvimento
                         desenvolvimento
                                volvimento.         organismos relacionados com patógenos
  Dados comparativos referentes às bases            conhecidos (p. ex., vírus de outros primatas
  genéticas e mecânicas do desenvolvimen-           e vertebrados) podem permitir que os pes-
  to de diversos vertebrados e outros orga-         quisadores identifiquem patógenos com
  nismos lançarão muita luz sobre os meca-          potencial para entrarem na população hu-
  nismos do desenvolvimento humano. Tais            mana. Estudos genéticos, ecológicos e
  estudos contribuirão para a nossa compre-         filogenéticos de patógenos novos e emer-
  ensão das bases dos defeitos hereditários         gentes (p. ex., o hantavírus e o espiroqueta
  e de outros defeitos congênitos humanos,          da doença de Lyme) podem elucidar suas
  podendo acabar sendo úteis no desenvol-           origens, suas taxas e modos de transmis-
  vimento de terapias gênicas.                      são, bem como as circunstâncias ecológi-
                                                    cas que levam a surtos ou à evolução de
• Mecanismos e evolução da resistência a            uma maior virulência. Estudos experimen-
  antibióticos Estudos genéticos, filogené-
  antibióticos.                                     tais de sistemas modelo, incluindo orga-
  ticos e bioquímicos comparativos de bac-          nismos relacionados com patógenos co-
  térias, protistas, fungos, helmintos e outros     nhecidos, podem identificar os mecanis-
  parasitas ajudarão a identificar os alvos dos     mos de virulência e os fatores genéticos e
  antibióticos. A rápida evolução da resistên-      ambientais que influem na resistência a
  cia a antibióticos em patógenos previamen-        drogas. (Naturalmente, estudos desse tipo
  te suscetíveis coloca-nos diante da neces-        também serão relevantes para plantas de
  sidade vital de um estudo evolutivo, com o        safra e animais domésticos, bem como
  objetivo de se compreenderem os meca-             para populações selvagens de importância
  nismos de resistência, sua taxa de evolu-         econômica, como os peixes).
  ção, fatores que podem limitar esta evolu-
  ção e maneiras de preveni-la ou combatê-        Agricultura e recursos biológicos
  la.                                                   Assinalamos acima as numerosas ma-
                                                  neiras pelas quais a Biologia Evolutiva têm
• Virulência do parasita e resistência do         estado intimamente ligada à agricultura e ao
  hospedeiro Os estudos evolutivos das
  hospedeiro.                                     gerenciamento de recursos biológicos, como
  interações parasita/hospedeiro, usando          as florestas e a pesca. O espectro de contri-
  tanto sistemas de modelos como parasitas        buições futuras nestas áreas é imenso. Sali-
  e patógenos humanos, estão apenas co-           entamos apenas alguns dentre os tópicos mais
  meçando a determinar as condições que           importantes a serem seguidos.
  levam os parasitas a se tornarem mais vi-
  rulentos ou mais benignos. Os geneticistas      • Resistência a pesticidas A despeito dos
                                                                   pesticidas.
  e ecólogos que se dedicam ao estudo da            novos métodos alternativos de controle de
  Evolução precisam elaborar uma teoria             pragas, o uso criterioso de pesticidas
  geral, preditiva da evolução e da dinâmica        indubitavelmente continuará sendo indis-
  populacional dos patógenos e de seus hos-         pensável. A evolução da resistência a
  pedeiros, especialmente para organismos           pesticidas em insetos, nematódeos, fungos
  de evolução rápida, como o HIV, e para            e ervas daninhas é um problema econô-
  espécies de hospedeiros de migração rápi-         mico sério, que requer muita atenção. Isto
  da, como o ser humano moderno. Também             exigirá estudos sobre a genética e os me-
  são necessárias análises da variação ge-          canismos fisiológicos da resistência, estu-
  nética da resistência a patógenos, tanto no       dos de dinâmica das populações e a ela-
  homem como em outros hospedeiros.                 boração de métodos para limitar ou retar-
                                                    dar a evolução da resistência.
• Epidemiologia e ecologia evolutiva de
  patógenos e parasitas Doenças novas e
                parasitas.                        • Alternativas no controle de pragas Será
                                                                                    pragas.
  outras que ressurgiram têm aparecido              importante incluir considerações evoluti-
  como importantes ameaças à saúde públi-           vas na avaliação de muitos métodos alter-
  ca e outras provavelmente o farão no futu-        nativos de controle de pragas, como a mis-
  ro. Os biólogos estudiosos da Evolução            tura intra e inter-cultivares ou o desenvol-
  podem ajudar de várias maneiras os esfor-         vimento de plantas transgênicas portado-
  ços de combate a essas ameaças. O                 ras de fatores de resistência que as prote-
  rastreamento e o estudo da filogenia de           gem contra insetos ou outras pragas. Ex-

                                                                                             45
perimentos mostraram, por exemplo, que            nética das plantas de safra e seus parentes
  as pragas do tabaco são capazes de se             para necessidades futuras) continuará a
  adaptar ao tabaco transgênico portador de         depender de estudos da variação entre e
  uma toxina bacteriana, evidenciando a             dentro das populações.
  necessidade de estudos sobre a variação
  genética das respostas dos insetos às sa-      • Pesca Vários tipos de estudos evolutivos
                                                   Pesca.
  fras transgênicas. Existe um potencial           foram e continuarão sendo importantes no
  enorme para o uso transgênico dos incon-         gerenciamento da pesca comercial e espor-
  táveis compostos secundários e de outras         tiva. Marcadores genéticos moleculares
  propriedades das plantas selvagens, que as       ajudarão os pesquisadores a distinguir as
  protegem contra insetos e patógenos. O           populações reprodutoras e as rotas de mi-
  rastreamento experimental e filogenético         gração de espécies como o bacalhau e o
  desses fatores naturais de resistência deve      salmão. O estudo da evolução de caracte-
  mostrar-se compensador. O vasto campo            rísticas de ciclo de vida, como a taxa de
  da Ecologia Evolutiva que lida com com-          crescimento e a idade de maturação, per-
  postos secundários de plantas e com as           mitirão aos gestores avaliar os efeitos ge-
  interações entre plantas e os insetos e fun-     néticos e demográficos do período de pes-
  gos que são seus inimigos é relevante para       ca sobre as populações de peixes. Em re-
  este esforço. Será importante analisar os        lação a certas espécies de peixes mantidas
  efeitos fisiológicos dos fatores naturais de     em grandes criadouros, será útil a realiza-
  resistência sobre os organismos que cons-        ção de estudos genéticos e fisiológicos da
  tituem pragas, os mecanismos pelos quais         adaptação a diferentes ambientes e do va-
  alguns insetos e fungos superam seus efei-       lor adaptativo apresentado neles. Os pro-
  tos e a variação genética das respostas das      jetos de grandes criadouros também inclui-
  espécies-alvo aos fatores naturais de re-        rão o uso de peixes transgênicos, que ain-
  sistência.                                       da se encontram nos estágios iniciais de
                                                   desenvolvimento.
• Diversidade genética em organismos de
  importância econômica A produção de
                 econômica.                      Produtos e processos naturais
  alimentos, fibras e produtos florestais têm           A indústria farmacêutica e outras indús-
  sido expressivamente melhorada, ao lon-        trias estão procurando ativamente novos pro-
  go da história, pela exploração da varia-      dutos e processos, rastreando plantas, animais
  ção genética e os métodos para isso bene-      e microrganismos (33). Em função de suas im-
  ficiaram-se de informações de grande pro-      plicações comerciais, a busca e o desenvolvi-
  fundidade da Biologia Evolutiva. Juntos, os    mento de novos produtos e processos levan-
  cientistas estudiosos da Evolução e da agri-   ta questões sérias na legislação sobre paten-
  cultura utilizarão o mapeamento de LCQ         tes e no direito internacional, além da publi-
  (locos de características quantitativas) e     cação de dados científicos que ultrapassam a
  outros métodos, a fim de localizar os genes    finalidade deste relatório, mas que afetarão
  para traços importantes das plantas, como      os compromissos e as atividades dos pesqui-
  a resistência a patógenos e a pressões         sadores científicos. Os estudos evolutivos da-
  ambientais, e de elucidar as bases de seus     rão grande contribuição à pesquisa e ao de-
  mecanismos. Tais estudos também aten-          senvolvimento, resultando na descoberta de
  derão os interesses da ciência básica e de     muitos produtos e processos novos.
  seus pesquisadores interessados nas adap-
  tações das plantas aos fatores ambientais.     • Sistemática e filogenia A documentação
                                                                   filogenia.
  Estudos semelhantes sobre plantas selva-         da diversidade dos organismos potencial-
  gens localizarão genes para traços úteis,        mente úteis é o fundamento de todo o tra-
  que podem ser transferidos para plantas de       balho subseqüente. Isto foi reconhecido,
  safra por meio da engenharia genética. Pro-      por exemplo, pela Comissão Presidencial
  gramas de pesquisa desse tipo utilizarão         de Assessores para Ciência e Tecnologia
  princípios e informações provenientes de         dos EUA (48) e pelas companhias farma-
  estudos sobre filogenia e adaptação das          cêuticas que financiaram inventários de
  plantas. A tarefa de importância vital de        biodiversidade na Costa Rica e em outros
  desenvolver e manter bancos de germo-            lugares. O aspecto filogenético da Sistemá-
  plasma (i. é, armazenar a diversidade ge-        tica é crucial no direcionamento dos pes-

                                                                                            46
quisadores para espécies aparentadas com       nos. Destacamos aqui apenas algumas das
  aquelas nas quais já foram encontrados         necessidades de estudos evolutivos nos cam-
  compostos ou vias metabólicas potencial-       pos do gerenciamento e da conservação
  mente úteis, uma vez que espécies aparen-      ambientais.
  tadas podem ter propriedades semelhan-
  tes, talvez até mais eficazes. A sistemática   • Biorremediação O termo biorremediação
                                                   Biorremediação.
  de bactérias, protistas, fungos e outros or-     refere-se basicamente à utilização de or-
  ganismos inconspícuos é muito pouco co-          ganismos (especialmente bactérias e plan-
  nhecida e exige ampla investigação.              tas) para a despoluição de derramamen-
                                                   tos e toxinas, o tratamento de esgotos e a
• Estudos de adaptação Antibióticos, fato-
               adaptação.                          recuperação de solos degradados. A Bio-
  res de resistência para uso em plantas de        logia Evolutiva pode contribuir com o uso
  safra transgênicas e outros produtos natu-       da biorremediação identificando espécies
  rais úteis poderão ser descobertos estudan-      ou linhagens genéticas com propriedades
  do-se os mecanismos químicos de compe-           desejáveis, sabendo quais são os agentes
  tição entre fungos e microrganismos, as          da seleção natural que dão origem a essas
  defesas das plantas contra seus inimigos         propriedades e identificando as condições
  naturais, bem como as ceras, esteróides,         que favorecem a persistência dos organis-
  terpenos, hormônios e incontáveis outros         mos úteis. Conhecem-se bactérias capazes
  compostos utilizados pelos organismos            de degradar bifenilas policloradas (BPCs)
  com fins adaptativos diversos.                   e outros contaminantes persistentes, mas
                                                   não se sabe se esta capacidade é caracte-
• Estudos genéticos e fisiológicos Bacté-
                         fisiológicos.             rística de certas espécies ou se ela se de-
  rias, leveduras e outros microrganismos          senvolve in situ, pela seleção de mutações
  têm capacidades metabólicas extrema-             novas. A comunidade de bactérias envol-
  mente diversificadas. Deles originaram-se        vida no tratamento de esgotos passa por
  a penicilina, a enzima polimerase usada no       uma mudança de composição durante o
  seqüenciamento do DNA e importantes              processo, mas os papéis da alternância de
  processos industriais de fermentação,            espécies versus mudança genética no me-
  biossíntese e biodegradação. A indústria         tabolismo das espécies persistentes são
  prevê que “podem-se esperar grandes              desconhecidos. A Genética Evolutiva e a
  avanços no bioprocessamento a partir da          Sistemática, junto com a ecologia e fisio-
  futura exploração da biodiversidade ainda        logia microbianas, devem continuar a dar
  não explorada da terra e do mar” (30). No        importantes contribuições a esta e outras
  entanto, a maioria dos microrganismos            questões referentes à biorremediação.
  ainda não foi descrita e caracterizada, as
  capacidades fisiológicas da maioria deles      • Introduções não planejadas Muitas das
                                                                     planejadas.
  são desconhecidas e há poucas informa-           nossas pragas mais sérias, incluindo ervas
  ções disponíveis a respeito de sua diversi-      daninhas, insetos, os dinoflagelados das
  dade genética ou de que tipos de novas ca-       marés vermelhas e o molusco Dreissena
  pacidades metabólicas possam surgir por          polymorpha (zebra mussel), causam os da-
  mutação. Pesquisadores com formação em           nos de maior monta em regiões nas quais
  Genética Evolutiva, Fisiologia e Sistemáti-      não são nativos. O Departamento de Agri-
  ca darão importantes contribuições a esta        cultura dos EUA instituiu procedimentos de
  área.                                            quarentena, com o intuito de prevenir tais
                                                   introduções. O advento da engenharia ge-
Meio ambiente e conservação                        nética despertou preocupações quanto à
      Os princípios evolutivos são de aplica-      evasão de microorganismos, plantas, pei-
ção imediata na conservação de espécies e          xes ou outros organismos vigorosos e ge-
ecossistemas raros e ameaçados; de fato,           neticamente novos e quanto à possibilida-
muitos dos principais biólogos conservacio-        de de genes para novas capacidades se
nistas vêm desenvolvendo pesquisas em Bio-         propagarem por hibridização entre orga-
logia Evolutiva Básica. A Biologia Evolutiva       nismos transgênicos e selvagens, transfor-
também pode esclarecer questões de                 mando espécies benignas em novas pra-
gerenciamento ambiental com conseqüênci-           gas. Os biólogos que se dedicam ao estu-
as diretas sobre a saúde e o bem-estar huma-       do da Evolução vêm determinando ativa-

                                                                                           47
mente esses riscos (60). Estudos sobre o       • Preservação da biodiversidade A altera-
                                                                     biodiversidade.
  fluxo gênico inter e intra-específico, bem       ção de habitats, a coleta intencional e não-
  como avaliações dos efeitos dos genes so-        intencional de populações naturais e ou-
  bre o valor adaptativo devem complemen-          tras atividades humanas constituem uma
  tar os estudos ecológicos dos organismos         grave ameaça à permanência de muitas es-
  relevantes, se quisermos prever os possí-        pécies. Inevitavelmente, terão de ser feitas
  veis efeitos não propositais da liberação de     escolhas difíceis na alocação de recursos
  transgênicos. A Sistemática continuará           e nem todas as espécies e ecossistemas
  sendo importante em seu tradicional pa-          ameaçados serão salvaguardados.
  pel de identificar os organismos introduzi-
  dos.                                             A Biologia Evolutiva e a Ecologia trabalham
                                                   de mãos dadas na abordagem dessas ques-
• Previsão dos efeitos das mudanças                tões (34). São necessários esforços inten-
  ambientais Dentre os numerosos efeitos
  ambientais.                                      sos para se descrever a diversidade, a dis-
  das atividades humanas sobre o meio am-          tribuição e as exigências ecológicas dos or-
  biente, o possível efeito mais universal é o     ganismos, especialmente daqueles de re-
  aquecimento global. Muitas outras altera-        giões em que os habitats naturais estão
  ções ambientais, como a desertificação, a        sendo perdidos mais rapidamente. A Sis-
  salinização da água doce e a chuva ácida,        temática Evolutiva, a Biogeografia e a Ge-
  têm efeitos mais localizados, embora pro-        nética Ecológica fornecem as informações
  fundos, tanto sobre as espécies selvagens,       necessárias para a elaboração de diretri-
  como sobre os recursos biológicos. Prever        zes para a preservação de uma maior di-
  e, se possível, prevenir os efeitos de tais      versidade genética.
  mudanças é uma meta importante para os
  estudos ecológicos, mas a Biologia               Crises anteriores da biodiversidade podem
  Evolutiva também está diante de grandes          ser observadas no registro fóssil e os
  desafios. Precisamos, particularmente, al-       paleontólogos estudiosos da Evolução po-
  cançar um entendimento muito maior das           dem usar esses registros como experiên-
  condições nas quais as populações se             cias naturais sobre as conseqüências da
  adaptam a mudanças ambientais versus             perda de biodiversidade, as características
  migração ou entrada em extinção e que ti-        das espécies de maior risco e a natureza e
  pos de espécies seguirão esses rumos.            escala de tempo da recuperação biótica.
  Também precisamos compreender as con-            Por exemplo, muitos eventos de extinção
  dições que favorecem “irrupções”, nas            no passado geológico foram seguidos ime-
  quais espécies novas se adaptam a novos          diatamente por irrupções de espécies de
  ambientes e neles se dispersam rapida-           ervas daninhas com grande capacidade
  mente. A agricultura e a urbanização pro-        competitiva. Precisamos aprender muito
  duziram muitos ambientes novos e tais            mais a respeito desse processo, já que não
  espécies irrompidas podem não ser benig-         há nenhuma garantia de que as espécies
  nas. Os biólogos que se dedicam ao estu-         “pós-desastre” que possam surgir em regi-
  do da Evolução documentaram muitos               ões atuais que sofreram extensas perdas
  exemplos de espécies que se adaptaram ra-        de biodiversidade serão benignas (55).
  pidamente e muitas que não o fizeram, ha-        Analogamente, as crises de biodiversidade
  vendo, porém, necessidade de uma teoria          do passado estão associadas a marcados
  mais completa sobre vulnerabilidade versus       declínios da produtividade primária. Este
  potencial para adaptação rápida (28). Es-        fato é relevante para o bem-estar futuro
  tudos paleobiológicos podem complemen-           da humanidade, considerando que o seu
  tar os estudos genéticos e ecológicos, for-      consumo atual é estimado em 25% da pro-
  necendo as histórias detalhadas das mu-          dutividade primária global.
  danças na composição de comunidades e
  na distribuição de espécies por ocasião das      Os biólogos que se dedicam ao estudo da
  mudanças ambientais do passado. A                Evolução também estão estudando proble-
  Paleobiologia também pode ajudar-nos a           mas tão relevantes quanto o tamanho
  elaborar generalizações a respeito dos ti-       populacional mínimo necessário para que
  pos de espécies e comunidades mais vul-          uma espécie conserve uma variação gené-
  neráveis.                                        tica suficiente para evitar a depressão de

                                                                                            48
endogamia e para se adaptar a doenças,         pesquisa, como para a consciência e a com-
   mudanças climáticas e outras perturba-         preensão exigidas de uma cidadania educada,
   ções; os fatores que causam a extinção; o      numa era cada vez mais científica e tecno-
   papel das populações múltiplas na dinâmi-      lógica. Muitas pesquisas feitas com estudan-
   ca genética e ecológica de longo prazo das     tes e com o público em geral mostraram que
   espécies; o papel das interações entre es-     os Estados Unidos ocupam uma posição rela-
   pécies na manutenção de populações viá-        tivamente baixa entre as nações industriali-
   veis; e os efeitos da co-evolução entre es-    zadas quanto ao seu domínio de Ciência e
   pécies que interagem sobre os processos        Matemática. Este é um motivo de séria preo-
   dinâmicos nos ecossistemas. A biologia da      cupação para todas as disciplinas científicas
   preservação será reforçada por novas pes-      e, na realidade, para todos os órgãos e orga-
   quisas referentes a esses problemas tão        nizações responsáveis pelo futuro dos recur-
   mal compreendidos.                             sos humanos do país, com referência ao de-
                                                  senvolvimento técnico e econômico.   .
   Alguns dos esforços de preservação basei-             Os biólogos que se dedicam ao estudo
   am-se nos bancos de germoplasma (para          da Evolução têm aguda consciência da neces-
   plantas) e na reprodução em cativeiro (para    sidade de uma ampliação do ensino e da com-
   animais). A teoria da Genética de Popula-      preensão da Ciência. O assunto da Biologia
   ções tem um papel crucial nesses esforços.     Evolutiva inclui tópicos que influem direta-
   Por exemplo, em populações pequenas em         mente na saúde e no bem-estar das pessoas,
   cativeiro, pode-se evitar a depressão de       como as doenças hereditárias, a terapia gênica
   endogamia aplicando-se os princípios da        , as doenças infecciosas e a evolução da re-
   Genética de Populações (59).                   sistência a antibióticos nos patógenos, a pro-
                                                  dução de alimentos, o gerenciamento de pra-
Desenvolvimento tecnológico.
Desenvolvimento                                   gas agrícolas, a engenharia genética, a bior-
      Em todas as ciências, a necessidade de      remediação, a preservação e os efeitos do
resolver problemas estimula o desenvolvi-         aquecimento global. Questões relativas à Evo-
mento de novas técnicas e tecnologias. Como       lução, como as diferenças genéticas entre
já assinalado anteriormente, a maioria das        populações humanas, a história fóssil da vida
tecnologias de aplicação ampla desenvolvi-        e, no fundo, a realidade da própria Evolução,
das, pelo menos em parte, em função da ne-        são temas freqüentes de discursos públicos.
cessidade de resolver problemas evolutivos        Entretanto, grande parte do público não com-
foi nas áreas da estatística, da computação e     preende a Genética Básica e a Biologia
do gerenciamento de dados. Estamos preven-        Evolutiva. Por incrível que possa parecer na
do que, à medida que a Biologia Evolutiva for     era das naves espaciais e dos supercompu-
lidando com problemas ainda mais comple-          tadores, as pesquisas revelam que mais da
xos e conjuntos de dados mais ricos, as cola-     metade do público dos EUA nem mesmo acre-
borações entre os biólogos estudiosos da Evo-     dita na veracidade científica da Evolução, o
lução levarão a outras inovações técnicas nes-    princípio unificador de toda a Biologia.
sas áreas. Algumas áreas com probabilidades              Embora alguns biólogos profissionais
de progresso serão a análise da dinâmica de       tenham dedicado grandes esforços à educa-
sistemas complexos, não lineares; rotinas de      ção do público, os maiores esforços para atin-
busca otimizadas — p. ex., para a estrutura       gir o público dos Estados Unidos têm sido fei-
de árvores filogenéticas; computação              tos por organizações como o Centro Nacio-
evolutiva — i.é, o desenvolvimento de             nal para Educação Científica (National Center
algoritmos “que evoluem”, para a solução efi-     for Science Education) e o principal papel
ciente de problemas; e aplicações na inteli-      educativo tem sido desempenhado pelos pro-
gência artificial e na vida artificial baseadas   fessores das escolas secundárias. Os biólogos
em computadores.                                  profissionais devem dedicar esforços maio-
                                                  res à educação do público, fazendo uso de
A compreensão da Ciência pelo público.            oportunidades como comunicados à impren-
       Importantes desafios para a Biologia       sa, compromissos com a mídia e exposições
Evolutiva residem não somente no domínio          em museus. Eles devem aproveitar todas as
da pesquisa, mas também no domínio da com-        oportunidades para destacar as dimensões
preensão e da apreciação da ciência pelo pú-      evolutivas de fenômenos biológicos que cha-
blico, o que é necessário tanto para o apoio à    mam a atenção do público; por exemplo, pra-

                                                                                             49
gas e organismos causadores de doenças não       cados ao estudo da Evolução de diversas es-
“sofrem mutação” ou “desenvolvem” resistên-      pecialidades e abordagens. Agrupamos estas
cia a drogas meramente — eles evoluem para       questões de pesquisa em várias categorias,
a resistência. Maiores esforços no ensino da     que são de igual importância e prioridade.
Evolução e de assuntos correlatos também
são necessários, tanto no nível universitário,   Teoria e técnica.
como no secundário.                                    Grande parte da pesquisa em Evolução
                                                 foi conduzida pela teoria (freqüentemente ma-
B. Ciência Básica                                temática), que levanta hipóteses, fornece pre-
                                                 visões ou expectativas exatas, restringe a in-
       A pesquisa sobre Evolução está progre-    terpretação dos dados e muitas vezes especi-
dindo em muitas frentes, mas o que ainda não     fica o tipo de dados necessários para testar
se conhece ultrapassa de muito aquilo que se     uma hipótese. A formação de teóricos da Evo-
conhece. Em algumas áreas, temos simples-        lução continua sendo de grande importância.
mente menos informações do que deveríamos        Entre as numerosas áreas que requerem mais
ter (por exemplo, os conhecimentos sobre a       trabalho teórico estão:
história da diversidade no registro fóssil são
muito incompletos). Em outros casos, fizeram-    • o desenvolvimento continuado da teoria
se tentativas de responder perguntas usando-       coalescente, usada para inferir processos
se apenas um ou alguns sistemas de estudo e        evolutivos a partir de “árvores gênicas”;
não sabemos até que ponto essas respostas
podem ser generalizadas. (Por exemplo, os        • o desenvolvimento da teoria da relação
números de genes que contribuem para o iso-        entre as filogenias dos genes e as filogenias
lamento reprodutivo entre espécies foram           das espécies e populações;
descritos para algumas espécies de Droso-
phila, mas apenas para poucos outros tipos       • trabalhos teóricos adicionais sobre árvo-
de organismos). Em muitos casos, obtiveram-        res filogenéticas, por exemplo, métodos
se provas a favor ou contra uma ou várias das      para comparar e avaliar as árvores, para
hipóteses concorrentes, mas a gama comple-         inferir a história da evolução dos caracteres
ta de hipóteses ainda não foi testada adequa-      a partir da sua distribuição filogenética e
damente. (Das várias hipóteses que poderi-         para inferir processos evolutivos a partir
am explicar as vantagens da reprodução             da estrutura das árvores;
sexuada, somente algumas foram testadas).
Algumas questões que vêm de longa data re-       • o desenvolvimento da teoria da Genética
sistiram à análise até pouco tempo atrás, mas      de Populações para sua aplicação a tópi-
novas técnicas parecem muito promissoras.          cos insuficientemente explorados, como a
(A questão de como evoluem as vias do de-          natureza e as conseqüências evolutivas das
senvolvimento é um exemplo bem evidente).          interações gênicas, das interações genes-
Especialmente na Biologia Molecular, foram         ambiente e a evolução de traços poligê-
descobertos fenômenos inteiramente novos           nicos com arquiteturas genéticas diferen-
que demandam explicações e entendimento            tes;
evolutivo.
       Estamos prevendo para os próximos dez     • desenvolvimento de modelos de otimiza-
ou vinte anos um progresso virtualmente sem        ção para a análise da evolução do com-
precedentes da Biologia Evolutiva Básica, des-     portamento, dos ciclos de vida e de outros
de que haja apoio adequado para a pesquisa         traços fenotípicos;
e a formação de jovens pesquisadores. Nesta
seção, relacionamos algumas das áreas nas        • modelos de mudanças evolutivas das vias
quais o progresso é particularmente desejá-        de desenvolvimento; e
vel e factível, dadas as técnicas atuais e os
avanços técnicos que podem ser previstos         • modelos preditivos da co-evolução de es-
para o futuro próximo. Embora, sem dúvida,         pécies que interagem.
muitos biólogos estudiosos da Evolução fari-
am acréscimos a esta lista, as questões e de-          Toda pesquisa depende de avanços nas
safios de alta prioridade que se seguem re-      técnicas. Os métodos moleculares e outros
presentam um consenso entre biólogos dedi-       métodos experimentais tiveram grande influ-

                                                                                            50
ência sobre a pesquisa da Evolução, mas a           colonização da terra por plantas e
Biologia Evolutiva depende também, e talvez         artrópodes;
de forma singular, de métodos analíticos, es-
tatísticos e numéricos (computacionais). No      • uma explicação para as diferenças entre
futuro, a pesquisa em Evolução exigirá pro-        taxa quanto à sua suscetibilidade a
gressos particularmente de:                        extinções em massa e sua posterior recu-
                                                   peração;
• métodos de busca e manipulação de gran-
  des quantidades de dados, como seqüên-         • uma melhor compreensão das seqüências
  cias de DNA;                                     comuns de eventos evolutivos que suce-
                                                   deram extinções em massa, incluindo ex-
• aperfeiçoamento dos métodos de proba-            pansões maciças de espécies de ervas da-
  bilidade máxima e outros procedimentos           ninhas e as escalas de tempo característi-
  estatísticos para a análise de dados de ge-      cas da recuperação dos ecossistemas —
  nética de populações (p. ex., marcadores         dois fatos relacionados com a atual crise
  moleculares de sistemas de acasalamento);        de biodiversidade; e

• métodos de alinhamento de diferentes se-       • uma descrição mais completa da história
  qüências de DNA;                                 e da taxa de evolução de caracteres e das
                                                   correlações entre caracteres, em linhagens
• aperfeiçoamento dos métodos de análise           em evolução (esses dados são necessários
  filogenética (como assinalado acima); e          para se testar grande número de hipóte-
                                                   ses, como a do “equilíbrio pontuado”.
• aperfeiçoamento dos métodos de
  mapeamento fino de locos para traços           Sistemática.
  quantitativos.                                 Os estudos sistemáticos contribuem para o
                                                 nosso conhecimento sobre a história da Evo-
História Evolutiva.                              lução. Também podem ser usados para testar
      Descrever e explicar a história da Evo-    hipóteses referentes a processos evolutivos,
lução é um dos principais objetivos da Biolo-    pela inferência da seqüência e do tempo de
gia Evolutiva. Este objetivo é alcançado prin-   ramificação de linhagens e da seqüência e
cipalmente usando-se métodos filogenéticos,      taxa de mudança de suas características. Re-
discutidos abaixo, e estudos paleobiológicos.    centemente, o aperfeiçoamento dos métodos
As metas prioritárias da Paleobiologia inclu-    analíticos e dos dados fez com que a Siste-
em:                                              mática se tornasse um campo muito mais vi-
                                                 brante e rigoroso do que já foi, mas ainda resta
• uma história mais completa da diversida-       muito por fazer. Entre os desafios mais im-
  de da vida ao longo do tempo, especial-        portantes estão:
  mente das bactérias e de outras formas de
  vida durante os primeiros cinco sextos da      • Documentar a diversidade dos organismos
  história da vida (a era Pré-cambriana);          vivos. As estimativas do número de espé-
                                                   cies vivas variam muito. No que diz res-
• melhores dados e métodos para testar hi-         peito a bactérias, protistas, fungos, nema-
  póteses referentes às causas da variação         tódeos, ácaros e muitos grupos de insetos,
  (entre períodos de tempo e entre taxa) das       a maioria das espécies provavelmente ain-
  taxas de especiação, extinção e diversifi-       da não foi descrita, embora esses grupos
  cação (incluindo a responsabilidade tanto        exerçam papéis extremamente importan-
  pela extinção em massa, como de fundo,           tes nos ecossistemas e incluam muitas for-
  sendo esta última particularmente mal en-        mas que têm conseqüências diretas sobre
  tendida);                                        o bem-estar humano. Um inventário com-
                                                   pleto dos organismos vivos e de suas ca-
• uma melhor compreensão dos mecanis-              racterísticas biológicas fornecerá para a
  mos de adaptação e das limitações a ela          Ecologia, a Biologia Evolutiva e outras ci-
  impostas durante acontecimentos históri-         ências biológicas o mesmo tipo de funda-
  cos singulares, como a aparentemente ex-         mento que os levantamentos geológicos
  plosiva origem da diversidade animal e a         fornecem às ciências da terra e às indús-

                                                                                             51
trias extrativistas. Reconhecendo a biodi-        uma teoria da Biologia Evolutiva plena-
  versidade como “capital vivo”, um grupo           mente integrada.
  de especialistas da Comissão Presidencial
  de Assessores para Ciência e Tecnologia        Especiação.
  dos EUA (President’s Committee of                    Talvez nenhum dos principais tópicos
  Advisors on Science and Technology) re-        da Biologia Evolutiva seja tão difícil e contro-
  comendou um aumento substancial dos            verso quanto a especiação, em parte porque,
  investimentos na descoberta de espécies,       em geral, o seu progresso é rápido demais
  na análise filogenética e genética da diver-   para estar completamente documentado no
  sidade e em coleções de museus, herbários      registro fóssil, mas lento demais para ser ob-
  e o restante da infraestrutura da Sistemá-     servado dentro do prazo de vida de um pes-
  tica (48).                                     quisador. Necessitamos de abordagens novas,
                                                 que já estão despontando no horizonte, para
• “Aumentar a árvore da vida”. Foram desen-      que sejam respondidas algumas das mais im-
  volvidas estimativas de filogenia para uma     portantes perguntas referentes a esse proces-
  pequena minoria de taxa e mesmo essas          so, que é a origem da diversidade biológica.
  poucas estimativas já foram amplamente
  usadas para testar hipóteses em muitas         • Diferenças de caracteres entre espécies
  áreas da Biologia e da Ecologia Evolutivas.      recém-formadas, especialmente aquelas
  Uma das altas prioridades da Sistemática         capazes de impedir a troca de genes entre
  Evolutiva deve ser a elaboração de um            elas, devem ser caracterizadas genetica-
  número maior (e mais sólido) de árvores          mente e quanto aos seus mecanismos. Isto
  filogenéticas, abrangendo toda a gama de         quer dizer que precisamos conhecer não
  organismos vivos e extintos. Tais árvores        somente o número e a localização dos
  podem ser unidas sucessivamente para a           genes envolvidos (estimados apenas em
  construção de uma filogenia de toda a vida.      poucos casos), mas também os efeitos li-
  Quanto mais completa essa árvore da vida,        gados ao desenvolvimento ou bioquímicos
  melhor ela servirá como estrutura organi-        pelos quais as diferenças gênicas causam
  zadora para dados biológicos de todos os         isolamento reprodutivo e outras diferenças
  tipos e como base para que incontáveis           de caracteres.
  hipóteses sejam testadas. Para a realiza-
  ção de tudo isso, serão indispensáveis ban-    • Os processos causadores da especiação
  cos de dados de amplo acesso, para o             precisam ser determinados. Se a respon-
  armazenamento de estimativas filogené-           sável pela especiação é, em geral, a sele-
  ticas.                                           ção, a deriva genética ou uma combina-
                                                   ção das duas, é uma questão importante e
• Aperfeiçoar os métodos de inferência, ava-       ainda não resolvida. Se a causa, em geral,
  liação e uso das filogenias para testar hi-      for a seleção, os agentes da seleção terão
  póteses. Por exemplo, os métodos estatís-        de ser identificados.
  ticos existentes para a determinação da
  confiança a ser depositada numa árvore         • A rapidez e a previsibilidade da especiação
  filogenética provavelmente serão substitu-       precisam ser determinadas. Não sabemos
  ídos. Métodos para se usar a estrutura das       se inevitavelmente populações isoladas se
  árvores para a determinação de diferenças        tornam espécies diferentes, com que velo-
  nas taxas de diversificação entre grupos         cidade ocorre a especiação ou se as taxas
  ainda estão sendo desenvolvidos.                 dependem dos taxa ou de condições
                                                   ambientais. Também precisamos conhecer
• Desenvolver bases teóricas e empíricas           o grau de isolamento geográfico necessá-
  para a integração da história filogenética       rio para a especiação.
  com os processos evolutivos. Os pesqui-
  sadores precisam achar maneiras de reu-        Genética Evolutiva.
  nir a teoria com os dados sobre os proces-           A Genética Evolutiva, incluindo a Gené-
  sos evolutivos e os procedimentos de           tica de Populações, tem um papel importante
  inferência filogenética, a fim de criarem      na teoria e na análise da evolução dos carac-




                                                                                             52
teres e da especiação. Entre os principais de-        modificados. Isso exigirá a compreensão
safios da Genética Evolutiva incluímos os se-         do que é que rege as taxas de evolução.
guintes:
                                                    • Compreender a genética de populações da
• Uma nova teoria sobre tópicos explorados            extinção. Comparativamente, sabe-se pou-
  inadequadamente. Tais tópicos incluem a             co a respeito dos papéis de fatores como a
  natureza das interações gênicas (epistasia)         cessação do fluxo gênico e a depressão de
  e suas conseqüências evolutivas; proces-            endogamia em populações em processo de
  sos genéticos em metapopulações, aglo-              encolhimento e, no entanto, este conheci-
  merados de populações locais sujeitas à             mento será essencial na preservação da
  extinção e à recolonização; e os processos          biodiversidade e no planejamento de refú-
  genéticos que levam à especiação.                   gios para espécies ameaçadas.

• Explicar os níveis de variação genética em        A evolução de genes e genomas.
  populações naturais. Novos métodos, es-                 A interface intensamente ativa entre a
  pecialmente a análise da variação das se-         Biologia Evolutiva e a Genética Molecular con-
  qüências de DNA, estão nos dando infor-           tinuará a fornecer informações sobre a evo-
  mações muito mais exatas e maiores co-            lução da estrutura dos genes e dos genomas.
  nhecimentos sobre este problema antigo.           É bem possível que sejam revelados novos fe-
  Além disso, surgirá uma maior compreen-           nômenos moleculares que provoquem inter-
  são dos processos evolutivos, à medida que        pretações evolutivas. Do ponto de vista dos
  forem integrados, nos estudos em nível            nossos conhecimentos atuais, entre os assun-
  populacional, estudos de variação das se-         tos que exigem estudos adicionais estão os
  qüências de DNA.                                  seguintes:

• Descrever “paisagens mutacionais” — isto          • Uma análise adicional da evolução das ta-
  é, caracterizar a variação que aparece por          xas de mutação e recombinação. As ques-
  meio da mutação. Se existem ou não esta-            tões importantes incluem saber se taxas
  dos de caracteres “proibidos” que nunca             “ótimas” evoluem ou não, quais os proces-
  podem aparecer, se as mutações agem                 sos evolutivos que levam à variação das
  sinergicamente e quais poderiam ser seus            taxas de recombinação entre e dentro dos
  efeitos pleiotrópicos – eis algumas dentre          genomas e quais poderiam ser os meca-
  as muitas perguntas com implicações im-             nismos dessa variação.
  portantes.
                                                    • A documentação e determinação das con-
• Caracterizar a base genética da variação            seqüências evolutivas de novas fontes de
  intra e interespecífica de caracteres. Iden-        variação genética, como a transferência la-
  tificar os locos responsáveis pela variação         teral de genes entre espécies, elementos
  dos caracteres e os efeitos de seus meca-           transponíveis e trocas recombinantes de-
  nismos sobre o desenvolvimento, a morfo-            siguais.
  logia e a fisiologia serão tarefas factíveis, à
  medida que forem aperfeiçoados os méto-           • Uma compreensão mais profunda da evo-
  dos de mapeamento (locos para traços                lução das relações de ligação entre genes
  quantitativos). Uma vez identificados es-           e das mudanças no número e na estrutura
  ses genes candidatos, será possível inte-           dos cromossomos.
  grar os estudos sobre sua função no de-
  senvolvimento com estudos sobre sua va-           • A análise dos papéis da seleção e de ou-
  riação e evolução.                                  tros fatores na evolução do DNA codifi-
                                                      cante e do DNA não codificante.
• Desenvolver uma teoria preditiva sobre a
  adaptabilidade e a resposta a mudanças            • A análise da evolução do conteúdo de in-
  ambientais. O aquecimento global e outras           formações dos genomas, tanto de uma
  mudanças ambientais tornam imperativo               perspectiva filogenética, como dos meca-
  que saibamos quando populações têm pro-             nismos, bem como uma análise evolutiva
  babilidade de terem sucesso ou de fracas-           do acondicionamento de informações em
  sarem na adaptação a ambientes novos ou             genomas, padrões de grande escala no

                                                                                               53
DNA e os processos pelos quais evoluem            filogeneticamente homólogos (i.é, carac-
  novas funções gênicas.                            teres possuídos por vários taxa diferentes
                                                    e pelo seu ancestral comum) às vezes apre-
• A análise da seleção gênica e do conflito         sentam vias de desenvolvimento notavel-
  dentro dos genomas (p. ex., distorção de          mente diferentes. Um dos principais desa-
  segregação, evolução da expressão gênica,         fios para os biólogos que estudam o de-
  etc.).                                            senvolvimento evolutivo é compreender
                                                    como o fundamento genético de um cará-
             desenvolvimento.
Evolução e desenvolvimento.                         ter pode mudar, mesmo que sua forma ma-
      Os processos pelos quais evoluem as           dura permaneça relativamente constante.
vias do desenvolvimento e, inversamente, os         Inversamente, é importante compreender
efeitos dos processos de desenvolvimento            como os papéis exercidos no desenvolvi-
sobre os rumos que a Evolução pode seguir           mento por genes conservados passam a di-
são de profundo interesse, não somente para         ferir entre um taxon e outro (6, 63).
os biólogos que se dedicam ao estudo do de-
senvolvimento, mas também para os paleo-         • A análise dos mecanismos de desenvolvi-
biólogos, sistematas e todos os biólogos que       mento de organismos modulares, como
tratam da evolução de caracteres fenotípicos.      plantas e corais, comparados com formas
Graças aos avanços moleculares e a outros          não-modulares, como artrópodes e verte-
avanços técnicos na Biologia do Desenvolvi-        brados.
mento, pode-se prever um progresso sem pre-
cedentes nesta área que, na realidade, já está   • A compreensão da evolução dos sistemas
em curso. O estudo de quase todos os aspec-        de auto-reconhecimento e de não-auto-
tos do desenvolvimento será compensador,           reconhecimento. A compatibilidade ou in-
mas várias abordagens e tópicos serão parti-       compatibilidade entre células, mediada em
cularmente importantes:                            grande parte por fatores de superfície ce-
                                                   lular, rege fenômenos tais como a união
• A análise teórica de como os fenótipos           de óvulos e espermatozóides, as interações
  podem ser alterados ou restringidos pelas        pólen/estigma (p. ex., auto-incompatibili-
  vias do desenvolvimento.                         dade), os processos do sistema imunoló-
                                                   gico e a migração e adesão de células no
• A análise da relação entre desenvolvimento       desenvolvimento animal. Uma melhor
  e a base genética da variação dos carac-         compreensão desses fenômenos terá am-
  teres, tanto dentro e entre espécies. Isto       plas implicações para temas como a
  exigirá estudos comparativos e experimen-        especiação, os sistemas de procriação das
  tais sobre as diferenças de desenvolvimen-       plantas, a evolução dos caracteres e a re-
  to entre genótipos e entre taxa próximos,        sistência a doenças.
  complementando as amplas comparações
  taxonômicas, tradicionais na Biologia do       Evolução de caracteres fenotípicos.
  Desenvolvimento.                                      As diversas subdisciplinas da Biologia
                                                 Evolutiva que tomam como tema classes es-
• A compreensão das bases genéticas das          pecíficas de características fenotípicas conti-
  diferenças fenotípicas e de como os genes      nuarão a tratar de problemas importantes,
  adquirem novos papéis no desenvolvimen-        alguns dos quais se encontram nos estágios
  to.                                            iniciais de análise. A amostra de desafios que
                                                 segue não é de modo algum exaustiva.
• A análise da base do desenvolvimento de
  caracteres complexos e novos do ponto de       • Elaborar critérios para a avaliação das di-
  vista evolutivo.                                 ferenças entre valores teóricos ótimos e va-
                                                   lores observados para caracteres fenotí-
• A identificação das restrições impostas à        picos.
  Evolução pelo desenvolvimento e seus me-
  canismos subjacentes.                          • Justificar a variação na taxa de evolução
                                                   entre caracteres e entre taxa. A necessida-
• A compreensão das relações entre homo-           de mais premente é de desenvolver méto-
  logia filogenética e biológica. Caracteres       dos para distinguir os papéis relativos de-

                                                                                            54
sempenhados por fatores “externos” (p. ex.,      uma teoria de interações entre espécies, ba-
  fontes de seleção ecológicas) e “internos”       seada tanto na Evolução como na demografia.
  (p. ex., correlações genéticas, restrições im-   Os progressos em direção a esse objetivo fo-
  postas pelo desenvolvimento) na determi-         ram modestos por várias razões, incluindo a
  nação das taxas evolutivas.                      complexidade das comunidades e o fato de,
                                                   no passado, não terem sido levados suficien-
• Desenvolver e testar teorias sobre a evo-        temente em consideração os efeitos da histó-
  lução de séries de caracteres correlacio-        ria evolutiva e geológica. Parece estar surgin-
  nados, quer pela função, quer pelos seus         do uma ecologia mais pluralista das comuni-
  fundamentos genéticos e de desenvolvi-           dades (52), na qual a história e os processos
  mento. Como determinamos quais os                evolutivos terão papéis essenciais. As áreas
  caracteres que evoluirão em conjunto, ou         prioritárias de pesquisa incluem:
  como muda o grau de correlação ao longo
  do tempo de evolução?                            • desenvolvimento de métodos para a iden-
                                                     tificação e quantificação dos efeitos da his-
• Desenvolver e testar empiricamente teori-          tória evolutiva e ambiental sobre a com-
  as sobre a evolução de uma grande classe           posição das comunidades e sobre as mu-
  de caracteres interessantes, como:                 danças dinâmicas nas comunidades;

  • reprodução sexuada versus assexuada,           • elaboração e teste de teorias sobre os efei-
    variações nos mecanismos de determi-             tos da variação genética e das mudanças
    nação sexual, endogamia versus exo-              evolutivas sobre a estabilidade das intera-
    gamia e outros aspectos dos sistemas             ções entre espécies e sobre a extinção vs.
    de procriação;                                   persistência, diante de mudanças biológi-
                                                     cas e ambientais;
  • caracteres sexualmente selecionados;
                                                   • elaboração e teste de hipóteses para justi-
  • os mecanismos do comportamento, in-              ficar os limites da distribuição ecológica e
    cluindo substratos neurais e controles           geográfica das espécies;
    hormonais;
                                                   • desenvolvimento de métodos para distin-
  • os mecanismos pelos quais os organis-            guir os efeitos da co-evolução e reunião
    mos respondem a ambientes que vari-              de espécies sobre a composição e estrutu-
    am, como plasticidade fenotípica,                ra das comunidades;
    aprendizado, dispersão e aclimatação
    fisiológica;                                   • elaboração e teste de teorias preditivas
                                                     sobre a co-evolução de espécies que
  • tolerância fisiológica de variáveis am-          interagem, incluindo:
    bientais, como temperatura, disponibi-
    lidade de água, toxinas ambientais e ali-         • interações hospedeiro/parasita e a evo-
    mentares;                                           lução de virulência e resistência em
                                                        patógenos e seus hospedeiros;
  • estruturas morfológicas e vias bioquí-
    micas complexas; e                                • interações mútuas, especialmente aque-
                                                        las envolvendo simbiontes microbianos,
  • a amplitude das dietas, do uso do habitat           incluindo a estabilidade dos mutua-
    e da distribuição geográfica das espéci-            lismos e seu papel na estrutura da co-
    es.                                                 munidade;

Evolução de interações                                • competição entre espécies, incluindo
e comunidades ecológicas.                               sua importância e conseqüências
      Cerca de 30 anos atrás, os ecólogos es-           evolutivas; e
tudiosos da Evolução esperavam explicar ca-
racterísticas importantes de comunidades              • co-evolução difusa — i.é, a dinâmica
ecológicas, como a diversidade de espécies e            evolutiva de interações complexas en-
a estrutura da rede alimentar, desenvolvendo            tre espécies múltiplas.

                                                                                              55
• elaboração e teste de teorias sobre os                      alternância de nutrientes) e os efeitos
  efeitos da Evolução sobre propriedades                      dessas propriedades sobre o ambiente fí-
  de ecossistemas (p. ex., produtividade,                     sico.




                 PARA ENFRENTAR
VIII. MECANISMOS PARA ENFRENTAR OS DESAFIOS DO FUTURO

      Se quisermos tornar realidade a grande                  interdisciplinares, talvez por meio de pa-
promessa que a Biologia Evolutiva encerra,                    trocínios para a realização de workshops
tanto para a Ciência Básica como para a Apli-                 anuais sobre temas interdisciplinares, co-
cada e também para a Educação, precisare-                     ordenados pelos órgãos nacionais ou so-
mos de mais verbas para pesquisa, mecanis-                    ciedades científicas apropriados. Tais
mos estruturais e fundações educativas. As                    workshops seriam estruturados de modo
sugestões e recomendações que vêm a seguir,                   a promover a troca de idéias e a demons-
para cada uma dessas áreas, devem acelerar                    tração de técnicas, e seu propósito seria o
o progresso em direção aos objetivos descri-                  de incentivar colaborações em pesquisa
tos na seção anterior.                                        que, de outra maneira, poderiam não ocor-
                                                              rer. Consideraríamos a possibilidade de
A. Progredir na Compreensão                                   reunir biólogos estudiosos da Evolução
   pela Pesquisa                                              com pesquisadores de campos como a Bi-
                                                              ologia do Desenvolvimento, a Neurobio-
      A velocidade do progresso e as realiza-                 logia, a Endocrinologia, a Microbiologia, as
ções de uma ciência dependem fundamental-                     Ciências da Computação e muitas outras.
mente do nível de financiamento para uma
pesquisa acurada e das políticas e mecanis-                 • Workshops de treinamento intensivo Em
                                                                                           intensivo.
mos que regem sua distribuição. Aí estão in-                  vista do rápido progresso que está ocor-
cluídas iniciativas de pesquisa, alocações para               rendo na tecnologia molecular, na compu-
grandes projetos colaborativos versus progra-                 tação, na análise de dados e em outras áre-
mas baseados em pesquisadores individuais,                    as das Ciências da Evolução e de outras
além de cargos permanentes em universida-                     ciências biológicas, os pesquisadores so-
des e outros estabelecimentos de ensino su-                   mente podem esperar ter uma carreira lon-
perior, institutos, órgãos e corporações. O de-               ga e produtiva, se se mantiverem
senvolvimento de novos rumos na pesquisa                      atualizados em relação aos novos desen-
precisa ser deliberadamente incentivado, a fim                volvimentos. Recomendamos a implanta-
de superar as limitações das fontes tradicio-                 ção de workshops anuais dedicados ao trei-
nais de financiamento da pesquisa e poder                     namento intensivo em novas técnicas. Es-
manter o potencial de progresso, tanto na                     ses workshops também seriam coordena-
frente básica, como na aplicada. Estas consi-                 dos pelos devidos órgãos de financiamen-
derações levam às seguintes recomendações                     to ou sociedades científicas. O propósito
para promover a pesquisa no campo da Evo-                     de tais workshops difere do desenvolvi-
lução:                                                        mento explícito de pesquisas interdiscipli-
                                                              nares descrito no item anterior.
• P e s q u i s a i n t e r d i s c i p l i n a r Sendo a
                                                r.
  interdisciplinariedade uma característica                 • Manutenção do financiamento de pro-
  inerente à Biologia Evolutiva, a troca de                   gramas de pesquisa individuais Uma
                                                                                     individuais.
  idéias, informações e técnicas é importan-                  quantidade considerável de discussões
  te, tanto entre as subdisciplinas da Biolo-                 tem-se concentrado no valor de diversos
  gia Evolutiva, como entre os biólogos que                   programas desenvolvidos em laboratórios
  se dedicam ao estudo da Evolução e pes-                     individuais, com verbas de escala relativa-
  quisadores de outras disciplinas, biológi-                  mente modesta, em comparação com pro-
  cas e não-biológicas. Insistimos energica-                  jetos grandes que requerem a colaboração
  mente em que sejam estabelecidos meca-                      entre numerosos laboratórios. Em alguns
  nismos que incentivem a colocação da                        campos da ciência, projetos de grande es-
  Evolução como tema central de pesquisas                     cala são os mais eficazes, até mesmo es-

                                                                                                      56
senciais. Na Biologia Evolutiva, certos pro-     moleculares, mas também por biólogos es-
  jetos grandes e coordenados podem, de            tudiosos da Evolução, e os dados sobre
  fato, exercer um papel importante. Exem-         ocorrências fósseis não são usados ape-
  plos de projetos desse tipo incluem o de-        nas por paleobiólogos, mas também por
  senvolvimento de bancos de dados para            outros biólogos e mesmo por físicos inte-
  dados paleontológicos, filogenéticos e ou-       ressados em dinâmica não-linear. Para as
  tros dados sobre biodiversidade, dados so-       dimensões evolutivas do gerenciamento e
  bre diversidade humana e similares.              da conservação ambientais e da procura
                                                   por espécies de utilidade econômica, se-
  Entretanto, a Biologia Evolutiva, refletin-      rão de grande ajuda bancos de dados aces-
  do a diversidade do seu assunto, progre-         síveis e amplamente compartilhados sobre
  diu graças ao intercâmbio de idéias, prin-       biodiversidade, que incluam informações
  cípios e dados, provenientes de pesquisa-        sobre distribuições geográficas e ecológi-
  dores individuais de cada uma de suas            cas, filogenias, ocorrências fósseis e os
  subdisciplinas. Por isso, asseveramos o          acervos de museus e herbários. Apoiamos
  destacado valor dos programas de pesqui-         o desenvolvimento de tais bancos de da-
  sa individuais.                                  dos.

• Reconhecimento, tanto das contribui-           • Sites PELP (LTER) Os ecólogos têm obti-
                                                               (LTER)
                                                                 TER).
  ções de sistemas modelo bem estudados,           do dados importantes nos sites sobre Pes-
  como de sistemas diversos Alguns cam-
                      diversos.                    quisas Ecológicas de Longo Prazo (PELP),
  pos da Biologia progridem, em grande par-        localizados em vários biomas dos Estados
  te, graças à concentração primária em al-        Unidos, por meio de apoio da NSF para
  guns sistemas modelo, como a bactéria E.         infra-estrutura e pesquisa. Além de forne-
  coli, o nematódeo Caenorhabditis e a plan-       cerem dados sobre mudanças ecológicas
  ta Arabidopsis. Analogamente, certas áre-        e ambientais de longo prazo, esses sites são
  as da Biologia Evolutiva, como a Genética        recursos potenciais para pesquisadores que
  de Populações, fizeram grandes progres-          estudam mudanças genéticas de longo pra-
  sos utilizando as volumosas informações          zo em populações, incluindo mudanças de
  e técnicas disponíveis para sistemas mo-         características mediadoras das respostas
  delo como a Drosophila. Muitas outras            dos organismos a mudanças climáticas. Os
  subdisciplinas da Biologia Evolutiva podem       biólogos que se dedicam ao estudo da Evo-
  aproveitar de modo semelhante as pesqui-         lução devem ser incentivados a aproveita-
  sas sobre sistemas modelo; por exemplo,          rem as oportunidades especiais de finan-
  a Biologia Evolutiva do Desenvolvimento          ciamento associadas com esses sites, para
  será favorecida pelos estudos comparati-         a realização de estudos evolutivos cuida-
  vos de grupos de organismos que incluem          dosamente estruturados.
  organismos modelo tais como Drosophila,
  Caenorhabditis e Arabidopsis. É, contudo,      • Centros de pesquisa sobre Biologia
  inerente à Biologia Evolutiva, cujo objeti-      Evolutiva Sugerimos que a comunidade
                                                   Evolutiva.
  vo é descrever e compreender a história          de biólogos que se dedicam ao estudo da
  completa e a diversidade dos organismos,         Evolução discuta até que ponto seria acon-
  não poder ficar restrita a algumas espéci-       selhável e factível a implantação de um ou
  es modelo. A fim de compreender a diver-         mais centros de pesquisa sobre Biologia
  sidade da vida e suas implicações para a         Evolutiva. As principais funções de tais
  empreitada humana, precisa ser mantida           centros seriam: (1) organizar workshops
  uma tensão criativa entre os estudos de          dos tipos descritos acima; (2) providenciar
  modelos bem conhecidos e a exploração            locais de trabalho para cientistas visitan-
  da diversidade mais ampla dos organismos.        tes, a fim de apoiar a análise de dados,
                                                   publicação e interação entre subdisciplinas;
• Bancos de dados Grande parte do pro-
              dados.                               (3) gerenciar bancos de dados e redes de
  gresso da Biologia Evolutiva depende da          comunicação eletrônica para os cientistas
  análise de dados obtidos por numerosos           que estudam a Evolução; e (4) promover a
  pesquisadores. Por exemplo, os bancos de         comunicação interdisciplinar entre as nu-
  dados de seqüências de DNA são ampla-            merosas subdisciplinas da Biologia
  mente usados, não somente por biólogos           Evolutiva.

                                                                                            57
• Identificação de um papel mais explícito       pel central na Ciência Biológica moderna e em
  para a Biologia Evolutiva nas missões de       suas aplicações às necessidades da socieda-
  diversos órgãos federais (EUA). Nos Es-
                              (EUA).             de, apresentamos as seguintes recomenda-
  tados Unidos, grande proporção da pesqui-      ções para a Educação, incluindo tanto o ensi-
  sa básica em Biologia Evolutiva é mantida      no formal como a divulgação de informações
  pela National Science Foundation (Funda-       para o público:
  ção Nacional para a Ciência). Sem negar
  as necessidades legítimas de outras disci-     • Formação de professores para o ensino
  plinas quanto a verbas maiores, proporci-        elementar (K–12) Uma educação excelen-
                                                               (K–12).
  onais aos custos crescentes e às acentua-        te nos níveis elementar, médio e colegial é
  das perspectivas de progresso naqueles           vital para todos os estudantes. Nos EUA, a
  campos, apoiamos enfaticamente os esfor-         preparação inadequada em Ciências dos
  ços despendidos pela NSF para obter mai-         estudantes do ensino elementar, médio e
  ores fundos orçamentários para a pesqui-         colegial é uma causa amplamente reconhe-
  sa básica naquelas ciências biológicas, in-      cida de preocupação nacional. O nível de
  clusive a Biologia Evolutiva, que estão pro-     compreensão da Evolução e de assuntos
  gredindo em direção a níveis de conheci-         correlatos, como a Genética, é particular-
  mentos sem precedentes. A pesquisa               mente precário. Os currículos do curso co-
  evolutiva básica e aplicada estão intima-        legial freqüentemente dão pouca ou ne-
  mente relacionadas com as missões de             nhuma cobertura à Evolução. Além disso,
  muitos órgãos financiadores, por causa de        muitos professores bem-intencionados,
  suas aplicações na saúde, agricultura, re-       porém sobrecarregados de trabalho, não
  cursos naturais e outras necessidades so-        conseguem se manter atualizados com
  ciais. Conclamamos esses órgãos a reve-          uma parte dos mais importantes progres-
  rem as maneiras pelas quais vários assun-        sos na área e, conseqüentemente, cobrem
  tos estudados pelos biólogos estudiosos da       o tema de maneira inadequada. Por isso,
  Evolução podem contribuir para as suas           recomendamos que os órgãos responsá-
  missões. O Apêndice IV sugere áreas de           veis pela educação aumentem seus esfor-
  pesquisa que são diretamente relevantes          ços pela educação continuada dos profes-
  para as metas de alguns órgãos federais          sores em Biologia Evolutiva e assuntos
  dos Estados Unidos, bem como indústrias,         correlatos, mantendo cursos de verão e
  fundações particulares e alguns órgãos in-       workshops, que serão recompensados com
  ternacionais.                                    promoção profissional. Conclamamos os
                                                   biólogos profissionais a contribuírem para
B. Progredir na Compreensão                        esses esforços. Cursos desse tipo devem
   pela Educação                                   enfatizar o processo de investigação cien-
                                                   tífica e o pensamento crítico, o progresso
      A educação formal não somente forma          feito neste campo em relação a conceitos
a mão-de-obra da nação em cada uma das             e informações e a relevância da Evolução
áreas de conhecimento e metodologia                para a vida humana e as necessidades da
especializados dos quais a sociedade depen-        sociedade. Materiais de ensino variados es-
de, mas forma também uma cidadania infor-          tão disponíveis para tais programas.
mada, capaz de tomar decisões pensadas e
de se adaptar a mudanças. À medida que a         • Currículos para os níveis superior e uni-
ciência e a tecnologia modificam o nosso           versitário Os nossos comentários dizem
                                                   versitário.
mundo num ritmo cada vez mais acelerado,           respeito a cursos oferecidos tanto para
aumenta constantemente a importância de as         quem pretende como para quem não pre-
pessoas compreenderem e usarem as infor-           tende obter um diploma de Biologia. Em
mações produzidas pelas ciências, incluindo        muitos ou na maioria dos estabelecimen-
a Biologia. Entretanto, um relatório da Aca-       tos de ensino superior, o curso de Evolu-
demia de Ciências dos Estados Unidos (37)          ção é optativo, feito por uma minoria de
assinalou com preocupação que “o ensino de         estudantes de Biologia que, em sua maio-
Ciências nas escolas públicas da nação é           ria, não o consideram relevante para suas
freqüentemente desfigurado pela grave omis-        carreiras médicas ou outras. Para a maio-
são” da Evolução. Uma vez que, conforme as-        ria dos formados em Biologia, o contato
sinalado pelo relatório, a Evolução exerce pa-     com a Evolução pode ter-se limitado a pou-

                                                                                           58
co mais do que algumas semanas (ou me-           de profunda relevância para campos como
  nos) de curso de introdução à Biologia. Isso     a medicina, a saúde pública, o direito, a
  não os prepara para reconhecerem ou              agronomia, a silvicultura, a química de pro-
  compreenderem a relevância dos concei-           dutos naturais e a ciência do meio ambi-
  tos e das informações da Evolução para a         ente. Entretanto, a formação pós-gradua-
  saúde humana, a agricultura, a ciência do        da na maioria desses campos muitas ve-
  meio ambiente ou mesmo para a pesquisa           zes deixa de cobrir até mesmo os concei-
  em Biologia Molecular ou outras discipli-        tos evolutivos mais simples e mais relevan-
  nas biológicas. Os departamentos de Bio-         tes, como a natureza e a importância da
  logia de algumas das principais universi-        variação genética. Além disso, já notamos
  dades dos EUA (p. ex., a Universidade            que a maioria dos estudantes não recebe
  Cornell, a Universidade do Colorado e a          quase nenhum ensino de Evolução no cur-
  Universidade da Califórnia) reconheceram         so de graduação. Insistimos para que as
  que os conceitos evolutivos são tão funda-       escolas de formação profissional e os pro-
  mentais e integrantes das Ciências Bioló-        gramas de pós-graduação nessas áreas in-
  gicas quanto a Genética e a Biologia             corporem material evolutivo relevante em
  Molecular e estabeleceram que o curso de         seus currículos.
  Evolução seria requisito para todos os for-
  mados em Biologia. Em virtude do papel         • A umento da formação pós-graduada em
  unificador que a Evolução desempenha na                                        aplicações.
                                                   Biologia Evolutiva e suas aplicações
  Biologia, de sua relevância para a interpre-     Assinalamos acima que verbas de treina-
  tação dos dados em todas as disciplinas bi-      mento podem contribuir imensamente na
  ológicas, suas numerosas aplicações – já         preparação de estudantes de pós-gradua-
  demonstradas e potenciais – às necessida-        ção para carreiras excelentes e inovado-
  des da sociedade e sua posição como um           ras em pesquisa. Verbas para pesquisa em
  dos mais importantes desenvolvimentos            nível de doutorado são igualmente impor-
  intelectuais na história das idéias ociden-      tantes. Na Biologia Evolutiva, é habitual
  tais, conclamamos insistentemente outros         que estudantes de doutorado realizem pes-
  estabelecimentos de ensino superior a in-        quisas de tese sobre temas relacionados
  cluírem um curso de Evolução nos requi-          com a pesquisa de seu orientador, mas que
  sitos para os formandos em Biologia.             não fazem parte integrante dos projetos de
                                                   pesquisa do orientador, não podendo ser
  Muitos departamentos de Biologia ofere-          mantidas pelas verbas do orientador. Este
  cem aos estudantes que não pretendem se          costume promove o raciocínio indepen-
  formar em Biologia cursos sobre temas de         dente, a inovação, a autoconfiança e o
  importância vital, como Genética e Ecolo-        aprendizado para além da esfera de conhe-
  gia. Pelas razões descritas acima, a Evolu-      cimentos do orientador, o que o torna apro-
  ção é um elemento igualmente importan-           priado para um campo cujo assunto é a di-
  te para a compreensão da Biologia por par-       versidade biológica. Existem programas de
  te de uma pessoa instruída. Se bem dado,         financiamento de pesquisa de doutorado
  um curso desse tipo irá intrigar e empol-        na NSF e em alguns outros órgãos, mas em
  gar os estudantes e lhes dará não somente        quantidade desproporcional às necessida-
  uma compreensão técnica de questões que          des e aos retornos esperados. Recomen-
  afetam sua vida, mas também uma pers-            damos com insistência a implantação de
  pectiva esclarecida sobre questões sociais       verbas para apoio de teses por parte de
  e filosóficas e uma maior compreensão da         órgãos que ainda não as oferecem.
  história viva das idéias. Insistimos energi-
  camente em que seja oferecido um curso         • Cargos nos corpos docentes de nível su-
  de Evolução para estudantes que não pre-         perior Tanto por razões educativas como
                                                   perior.
  tendem se formar em Biologia em todos            para promover o desenvolvimento da ex-
  os estabelecimentos de ensino superior.          celência em pesquisa na Biologia moder-
                                                   na, é essencial que os departamentos de
• Inclusão da Ciência da Evolução na for-          Biologia dos estabelecimentos de ensino
  mação especializada avançada Confor-
                         avançada.                 superior incluam docentes em várias das
  me já foi esclarecido pelo presente docu-        subdisciplinas da Evolução. Os docentes de
  mento, elementos de Biologia Evolutiva são       Biologia Evolutiva têm, tipicamente, uma

                                                                                           59
visão ampla, interdisciplinar, que favorece      Molecular Biology and Evolution), bem
  a comunicação com os colegas de outras           como simpósios organizados pela Socie-
  disciplinas, sendo que, muito freqüente-         dade de Paleontologia (Paleontological
  mente, eles atraem alguns dos mais desta-        Society), foram recebidos entusiasticamen-
  cados estudantes de pós-graduação dos            te, indicando um amplo interesse por me-
  programas de doutorado em Biologia. O            canismos que possam unir a área. Além
  mais importante é que a Biologia Evolutiva       disso, os biólogos estudiosos da Evolução
  é uma disciplina intelectualmente dinâmi-        reconhecem a importância de serem visí-
  ca, que unifica a Biologia vai além dos seus     veis em suas interações com o público, com
  limites. Sendo que ela abrange uma varie-        os educadores e com órgãos governamen-
  dade de subdisciplinas, da Evolução              tais e privados de fomento à pesquisa. Por
  Molecular à Sistemática e à Paleobiologia,       isso, sugerimos que as sociedades profis-
  nenhum membro do corpo docente con-              sionais reflitam se seria desejável e factível
  segue ser versado o suficiente para repre-       a constituição de uma comissão orientado-
  sentar a disciplina inteira. De fato, muitas     ra ou consultiva de Biologia Evolutiva,
  universidades abrigam departamentos ou           mantida em conjunto. O grupo de mem-
  programas com nomes tais como “Ecolo-            bros para esta comissão poderia ser indi-
  gia e Biologia Evolutiva”, que incluem es-       cado e estruturado de maneira muito se-
  pecialistas em várias ou muitas subdis-          melhante à dos conselhos editoriais de re-
  ciplinas da Evolução. Disciplinas emergen-       vistas já existentes. Seus potenciais papéis
  tes, como a Biologia Evolutiva do Desen-         poderiam incluir: (1) estabelecer e manter
  volvimento e a Neurobiologia Evolutiva,          um site na Internet, com links para os sites
  precisam ser complementadas por discipli-        de sociedades científicas relevantes, para
  nas mais tradicionais, como a Sistemática        a divulgação de informações de amplo in-
  e a Genética de Populações que, embora           teresse; (2) responder a indagações de ór-
  sendo antigas, estão abordando perguntas         gãos financiadores sobre tendências e ne-
  novas com novos métodos e técnicas.              cessidades da pesquisa e comunicar as
                                                   opiniões de consenso geral a esses órgãos;
C. Progredir na Compreensão                        (3) ajudar a coordenar workshops e outros
   pela Comunicação                                mecanismos para o avanço da formação e
                                                   da pesquisa; (4) conscientizar os adminis-
• Comunicação entre a comunidade cien-             tradores de universidades e outros educa-
  tífica e os órgãos federais. Os biólogos         dores das necessidades educativas e de
  que se dedicam ao estudo da Evolução pre-        treinamento; (5) comunicar avanços impor-
  cisam comunicar aos órgãos federais e a          tantes à mídia; (6) coordenar os esforços
  outras instituições de apoio à pesquisa bá-      para a educação do público quanto a as-
  sica ou aplicada a relevância da Biologia        pectos evolutivos de temas como o racis-
  Evolutiva para as missões desses órgãos.         mo, a engenharia genética e o conflito en-
                                                   tre Criacionismo e Ciência da Evolução; e
• Uma Comissão Nacional de Biologia                (7) manter os cientistas a par da legislação
  Evolutiva O crescimento exponencial da
  Evolutiva.                                       relevante para a Biologia Evolutiva e edu-
  pesquisa em muitas frentes foi acompanha-        car os legisladores e suas equipes quanto
  do pelo aumento do número de socieda-            às questões evolutivas relevantes para a
  des, revistas e reuniões anuais especiali-       legislação pendente. Uma Comissão desse
  zadas e por uma tendência para uma mai-          tipo poderia ser constituída por meio de um
  or especialização das pesquisas e perspec-       consórcio de sociedades científicas, lide-
  tivas dos estudantes. Esforços para com-         radas por uma sociedade específica, como
  bater essas tendências, como reuniões            a Sociedade Americana de Naturalistas
  conjuntas da Sociedade para o Estudo da          (American Society of Naturalists) ou a So-
  Evolução (Society for the Study of               ciedade para o Estudo da Evolução (Society
  Evolution), da Sociedade de Biólogos             for the Study of Evolution).
  Sistematas (Society of Systematic
  Biologists), da Sociedade Americana de         • Reorganização do apoio financeiro para
  Naturalistas (American Society of                a pesquisa em Evolução A maior parte
                                                                   Evolução.
  Naturalists) e da Sociedade de Biologia          da pesquisa básica em Biologia Evolutiva
  Molecular e Evolução (Society for                nos Estados Unidos é mantida pela Funda-

                                                                                             60
ção Nacional para a Ciência (National            pesquisadores aprendam ou desenvolvam
  Science Foundation). As verbas de pesqui-        novas técnicas ou iniciem novos progra-
  sa para as várias subdisciplinas da Biolo-       mas de pesquisa, especialmente aqueles
  gia Evolutiva são concedidas por numero-         com uma dimensão interdisciplinar ou apli-
  sas divisões e assessorias dentro da NSF.        cada. Atualmente, o apoio para vagas de
  Esta estrutura serve para financiar pesqui-      pós-doutorado e pesquisa de meio-de-car-
  sas que se situam nitidamente dentro de          reira está aquém das necessidades. Au-
  muitas das subdisciplinas, porém propos-         mentar as fontes para esse apoio será im-
  tas interdisciplinares freqüentemente en-        portante para o progresso, tanto da Biolo-
  frentam dificuldades porque alguns asses-        gia Evolutiva básica, como da aplicada.
  sores das áreas relevantes não estão fami-
  liarizados com o contexto nos quais tais       • Treinamento em áreas subdesenvolvidas
                                                                            subdesenvolvidas
                                                                                     volvidas.
  propostas se inserem. Por exemplo, pes-          Em várias áreas importantes da Biologia
  quisas que estão no limite entre a Paleo-        Evolutiva, o número de jovens cientistas
  biologia e a Biologia Evolutiva do Desen-        que formarão o futuro corpo de pesquisa-
  volvimento, entre a Genética Molecular e         dores é altamente inadequado. Talvez as
  a Ecologia Evolutiva ou entre a Genética         mais notáveis dessas áreas sejam (1) a Bi-
  de Populações e a Sistemática podem cor-         ologia Evolutiva Matemática e Estatística,
  rer “risco duplo” na obtenção de financia-       incluindo a construção de modelos e a aná-
  mento. Sugerimos que a NSF considere a           lise de dados; (2) a Sistemática e Biologia
  possibilidade de constituir uma unidade          de grupos de organismos inadequadamen-
  única, possivelmente sobre “Biodiversidade       te estudados e/ou que incluem espécies
  e Mudanças Bióticas”, que possa tratar de        importantes para a sociedade humana (p.
  maneira abrangente o espectro da pesqui-         ex., microrganismos, protistas, algas, fun-
  sa em Evolução, incluindo a pesquisa             gos, plantas, insetos, nematódeos); e (3) a
  interdisciplinar, que traz contribuições tão     Paleobiologia Evolutiva, concentrada na
  notáveis para o progresso científico.            especiação e na biodiversidade. Para tra-
                                                   tar dessa necessidade vital, os estudantes
• Verbas de treinamento para pós-gradu-            de doutorado precisam ser treinados nes-
  ação e pesquisa A saúde e o progresso
           pesquisa.                               sas áreas e é necessário que se abram para
  de qualquer disciplina depende do treina-        eles oportunidades de emprego, como car-
  mento dos estudantes de pós-graduação,           gos nos departamentos de Biologia de uni-
  que serão a próxima geração de pesquisa-         versidades e de outros estabelecimentos de
  dores. Para tanto, é necessário um aumen-        ensino superior.
  to das oportunidades de obtenção de ver-
  bas para o treinamento de estudantes de        • Alcance e educação do público O maior
                                                                              público.
  pós-graduação e para a pesquisa, a fim de        desafio para os biólogos que se dedicam
  fomentar as amplas perspectivas básicas          ao estudo da Evolução, e para todos os ci-
  e aplicadas discutidas aqui. O que mais irá      entistas, é transmitir informações novas e
  beneficiar a pesquisa básica e aplicada se-      interessantes ao público em geral. A Bio-
  rão verbas de treinamento para áreas             logia Evolutiva enfrenta o desafio adicio-
  interdisciplinares, Biologia Evolutiva Apli-     nal de atingir e convencer uma parcela do
  cada e Biologia Evolutiva Teórica. Treinar       público que é cética ou mesmo hostil em
  uma geração de pesquisadores na interface        relação ao próprio conceito de Evolução.
  entre a Biologia Evolutiva básica e aplica-      Embora a Evolução quase não gere con-
  da trará ainda o benefício adicional de ex-      trovérsias em muitos outros países, nos
  portar o pensamento evolutivo para algu-         Estados Unidos ela é uma questão politica
  mas disciplinas aplicadas, cuja compreen-        e educativamente volátil (ver Apêndice I,
  são pode aumentar graças à perspectiva           “Evolução: Fato, Teoria, Controvérsia”).
  evolutiva.                                       Porém, sem o seu fundamento evolutivo,
                                                   a Biologia não pode ser uma ciência mo-
• Oportunidades de pós-doutorado e meio-           derna, pois, por mais completas que sejam
  de-carreira Vagas de pós-doutorado e li-
  de-carreira.                                     as nossas descrições dos fenômenos bio-
  cenças para pesquisa com a carreira já em        lógicos, não conseguimos entender suas
  andamento são vitais para permitir que os        causas inteiramente, a não ser fazendo re-



                                                                                           61
ferência aos processos evolutivos e à his-     • Exposições em museus sobre a moderna
  tória evolutiva. Sem a Evolução, muitas das      Biologia Evolutiva e as provas da Evolu-
  aplicações potenciais da Biologia às neces-      ção;
  sidades da sociedade não serão desenvol-
  vidas e nem mesmo exploradas. Nenhuma          • Comunicados à imprensa sobre avanços
  questão da educação do público quanto a          empolgantes na pesquisa evolutiva;
  temas biológicos é mais urgente ou impor-
  tante do que a comunicação da natureza,        • Cartas para jornais e revistas e cobertura
  das implicações e aplicações da Evolução.        imperiosa da Evolução nas colunas cientí-
                                                   ficas;
   Nos termos mais contundentes possíveis,
instamos os cientistas que estudam a Evolu-      • Monitorização dos livros-texto e comuni-
ção a se empenharem na educação do públi-          cação sobre as reações aos editores e con-
co e instamos as instituições de ensino a co-      selhos escolares;
municarem ao público a realidade, vitalidade
e importância da Evolução para a sociedade.      • Mensagens dirigidas aos telespectadores e
Os possíveis veículos para fazê-lo incluem:        ouvintes de rádio; e

• Palestras públicas para grupos de escolas      • Apoio às organizações que contribuem
  e cidadãos locais;                               para a educação do público sobre Biologia.




IX. CONCLUSÃO

       Pesquisadores em Biologia Molecular e     neiras pelas quais a sua disciplina pode aju-
do Desenvolvimento, Fisiologia, Ecologia,        dar a humanidade:
Comportamento Animal, Psicologia e Antro-
pologia e outras disciplinas continuam a ado-    • pela compreensão e combate das doenças
tar como estrutura os métodos, princípios e        genéticas, sistêmicas e infecciosas;
conceitos da Biologia Evolutiva. Analoga-
mente, a pesquisa aplicada em Silvicultura,      • pela compreensão das adaptações fisioló-
Agricultura, Pesca, Genética Humana, Medi-         gicas humanas a estresses, patógenos e
cina e outras áreas vem atraindo cada vez          outras causas de problemas de saúde;
mais cientistas com formação em Biologia
Evolutiva. Os biólogos que se dedicam ao es-     • pelo melhoramento de safras e mitigação
tudo da Evolução expandiram sua visão, tra-        dos prejuízos causados por patógenos, in-
tando tanto de questões básicas que                setos e ervas daninhas;
permeiam todas as disciplinas biológicas,
como de problemas colocados pelas necessi-       • pelo desenvolvimento de ferramentas para
dades da sociedade. Como resultado, tanto do       analisar a diversidade genética humana em
rápido crescimento desta “força de trabalho        suas aplicações à saúde, ao direito e à com-
evolutiva “, como dos avanços tecnológicos         preensão do comportamento humano;
em áreas como a metodologia molecular, a
computação e o processamento de informa-         • pelo uso e desenvolvimento responsável
ções, o progresso da Biologia Evolutiva e áre-     de recursos biológicos;
as correlatas é mais veloz hoje do que jamais
foi. Com o apoio apropriado e necessário para    • pela remediação dos danos ao meio am-
a educação e a pesquisa, as disciplinas            biente;
evolutivas darão contribuições ainda maiores
para o conhecimento aplicado e básico.           • pela previsão das conseqüências das mu-
                                                   danças ambientais globais e regionais; e
     No domínio aplicado, os biólogos estu-
diosos da Evolução estão assumindo suas res-     • pela conservação da biodiversidade e des-
ponsabilidades sociais. Existem muitas ma-         coberta de seus usos.

                                                                                            62
Na ciência básica, estamos no limiar      patógenos e parasitas com seus hospedei-
do(a):                                             ros, e dos efeitos da co-evolução sobre po-
                                                   pulações e comunidades ecológicas.
• completa documentação da biodiversidade
  e da descrição das relações filogenéticas            A Biologia Evolutiva desempenha um
  entre todos os organismos;                    papel central na complexidade dos sistemas
                                                biológicos. A Evolução é a fonte da biocom-
• compreensão mais completa das causas          plexidade. O apoio contínuo e acentuado a este
  das principais mudanças na história da        campo é vital para a maximização do progres-
  vida;                                         so da pesquisa nacional, tanto no âmbito bá-
                                                sico, como no aplicado. Em termos de neces-
• descoberta e da explicação dos processos      sidades da sociedade para o século vinte e um,
  evolutivos ao nível molecular;                a hora investir na Biologia Evolutiva é agora,
                                                enquanto ainda está em tempo de mudar ten-
• compreensão de como evoluem os meca-          dências atuais ou de nos prepararmos melhor
  nismos do desenvolvimento e como dão          para lidar com suas conseqüências. Os níveis
  origem a novas estruturas anatômicas;         populacionais atuais e projetados resultarão
                                                em impactos ambientais crescentes, numa
• elucidação dos processos que tanto cau-       crescente pressão sobre a produção de alimen-
  sam como restringem as adaptações fisio-      tos, em desafios ainda maiores à diversidade
  lógicas, endocrinólogicas e anatômicas;       biológica e em maiores oportunidades para o
                                                aparecimento de novas doenças. Uma base
• desenvolvimento de uma compreensão            cientifica sadia em Biologia Evolutiva é um ele-
  mais profunda do significado adaptativo e     mento essencial para nos prepararmos a en-
  dos mecanismos do comportamento; e            frentar essas questões. A Biologia Evolutiva
                                                tem de estar no centro da agenda nacional de
• elaboração de uma teoria preditiva da co-     pesquisa em Biologia, do mesmo modo como
  evolução entre espécies, como a dos           está no centro do campo da Biologia.




                                                                                            63
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                                                                                                                           65
APÊNDICE I

EVOLUÇÃO: FATO,
EVOLUÇÃO: FATO, TEORIA,                           respeito do que deveríamos ver, se ela for ver-
CONTROVÉRSIAS
CONTROVÉRSIAS                                     dadeira ou se ela for falsa. Não observamos a
                                                  Terra dando a volta em torno do sol; aceita-
       Quando os biólogos se referem à Teoria     mos esta hipótese por causa das numerosas
da Evolução, eles usam a palavra “teoria” da      observações astronômicas verificadas — e,
forma como ela é usada em toda a Ciência.         mais recentemente, observações feitas por
Ela não significa uma mera especulação ou         naves espaciais — que estão em conformida-
uma hipótese sem fundamento. Aliás, segun-        de com as previsões da hipótese. Assim, a hi-
do o The Oxford English Dictionary, é “uma hi-    pótese de Copérnico agora é um fato — uma
pótese que foi confirmada ou estabelecida por     afirmação sustentada por tantas provas que
observação ou por experimentação e é pro-         a utilizamos como se fosse verdadeira.
posta ou aceita como justificativa dos fatos             Os biólogos aceitam como um fato que
conhecidos; uma afirmação das leis, princípi-     todos os organismos, vivos e extintos, são
os ou causas gerais de alguma coisa conheci-      descendentes, com incontáveis mudanças, de
da ou observada” (palavras em itálico dos         uma ou, no máximo, algumas poucas formas
autores). O complexo conjunto de princípios       de vida originais. Para Darwin, em 1859, isto
que explicam as mudanças evolutivas consti-       era uma hipótese, para a qual ele apresentou
tui uma teoria no mesmo sentido da “Teoria        provas abundantes provenientes da anatomia
dos Quanta” na Física ou da “Teoria Atômica”      comparativa, da embriologia, do comporta-
na Química: foi elaborada a partir de provas,     mento, da agricultura, da paleontologia e da
testada e refinada e esclarece literalmente       distribuição geográfica dos organismos. Des-
milhares de observações feitas ao longo da        de aquela época, todos os muitos milhares de
totalidade da Ciência Biológica e da Paleon-      observações feitas em cada uma dessas áre-
tologia.                                          as reforçaram a essência da hipótese de
       Como todas as teorias científicas, a Te-   Darwin. A essas observações foram acrescen-
oria da Evolução é atualmente a melhor expli-     tadas abundantes provas com que Darwin
cação. Resistiu a incontáveis testes e tentati-   nem poderia ter sonhado, oriundas especial-
vas de provar o contrário, mas ainda está sen-    mente da Paleontologia e da Biologia
do refinada, modificada à luz de novos co-        Molecular. O acúmulo de um século de tais
nhecimentos e expandida para esclarecer fe-       provas estabelece a descendência, com modi-
nômenos de descoberta recente. A Teoria Ge-       ficações, de ancestrais comuns como um fato
nética teve uma história igual, tendo progre-     científico. Como explicamos este fato — quais
dido dos primeiros princípios simples de          poderiam ser seus princípios e suas causas —
Mendel até o complexo conjunto de princípi-       é a teoria do processo evolutivo, partes da qual
os moleculares que constituem a Teoria da He-     são sujeitas a quantidades variadas de deba-
reditariedade de hoje, sendo constantemente       tes científicos, modificações e ampliação.
refinada e modificada, embora seus princípi-             Afirmar que a Evolução é um fato é con-
os essenciais tenham permanecido válidos          frontar-se com controvérsias, pois provavel-
durante um século. O mesmo acontece com           mente nenhuma afirmação em toda a Ciên-
a Teoria da Evolução.                             cia desperta tanta oposição emocional quan-
       A Evolução é também um fato? Todos         to a evolução biológica. Apesar disso, nenhu-
os fatos, menos os mais triviais, começam         ma hipótese científica diferente da descendên-
como hipóteses não testadas — como a hipó-        cia comum com modificações consegue
tese de que a Terra gira em torno do sol. Eles    elucidar e fazer previsões a respeito da uni-
adquirem “fatualidade” à medida que mais e        dade, diversidade e propriedades dos organis-
mais provas se acumulam a seu favor e que         mos vivos. Nenhuma outra hipótese sobre a
resistem às tentativas de refutá-las. As pro-     origem da diversidade biológica é respaldada
vas e as tentativas de refutação podem assu-      por provas tão esmagadoras e nenhuma hi-
mir várias formas além das simples observa-       pótese concorrente gera tamanha riqueza de
ções; na realidade, as provas mais poderosas      estudos científicos e tem tantas implicações
não são meras observações e sim a confor-         para as Ciências Biológicas e suas aplicações
midade com previsões feitas pela hipótese a       para as necessidades da sociedade.



                                                                                              66
EVOLUÇÃO E CRENÇA ESPIRITUAL:
EVOLUÇÃO          ESPIRITUAL:                     referentes à crença espiritual não podem ser
UM CONFLITO NECESSÁRIO?                           decididas pela Ciência, que, pela sua nature-
                                                  za, é limitada a determinar causas naturais
       A Teoria da Evolução é controversa por-    observáveis, não pode pronunciar-se a res-
que é percebida por algumas pessoas como          peito de assuntos sobrenaturais e não pode
sendo incompatível com crenças religiosas,        dar respostas a perguntas filosóficas ou éti-
especialmente no que diz respeito à natureza      cas fundamentais.
e às origens humanas. Nos Estados Unidos, a              Este último ponto precisa ser enfa-
assim chamada oposição criacionista à Evo-        tizado. Os antievolucionistas acusaram a
lução fala tão alto que chegou a ameaçar o        Evolução de despojar a sociedade de todo
financiamento de órgãos federais para a pes-      fundamento da moralidade e da ética e de
quisa evolutiva, a despeito de seu valor cien-    ensinar uma visão materialista do mundo, o
tífico básico e de suas numerosas aplicações.     que justificaria a lei do mais forte. Mas a Ci-
De igual importância é o fato de ela ter leva-    ência da Evolução nunca ensinou nada dis-
do os sistemas de ensino público a mini-          so e, praticada corretamente, não pode ensi-
mizarem a educação em Ciência Evolutiva,          nar qualquer coisa desse tipo, pois a ciência
contribuindo para um amplo analfabetismo          em si não tem conteúdo moral ou ético, para
científico. (Um estudo de 1988 sobre o domí-      o bem ou para o mal. Quer a ciência seja a
nio da Ciência por jovens de todo o mundo         Física, quer a Biologia Evolutiva, ela somen-
classificou os norte-americanos entre os 25       te nos ensina como é e como funciona o
porcento mais baixos, atrás de estudantes de      mundo observável. Ciências como a Física,
países como o Japão, a Inglaterra e a Hungria).   a Química, a Geologia, a Fisiologia e a Neuro-
Mais da metade dos norte-americanos acre-         biologia, exatamente como a Biologia Evo-
ditam que o ser humano foi criado em sua          lutiva, não admitem causas sobrenaturais
forma atual cerca de 10.000 anos atrás, em-       para as ações dos átomos, a energia do sol,
bora já faça quase um século que a realidade      a saúde ou as doenças do corpo humano ou
da Evolução — incluindo a Evolução humana         os poderes do cérebro humano. Estas ciên-
— não gera controvérsias sérias entre os ci-      cias reconhecem somente causas naturais,
entistas (37).                                    materiais, e nós nos baseamos em suas teo-
       Padres, pastores, rabinos e o Papa João    rias naturalistas quando construímos aviões,
Paulo II ratificaram a validade da Ciência        sintetizamos novos plásticos, ouvimos a pre-
Evolutiva, ratificando ao mesmo tempo a va-       visão do tempo ou consultamos os nossos
lidade espiritual dos ensinamentos da Bíblia.     médicos. Não aplicaríamos princípios religi-
Existem, na realidade, alguns clérigos que        osos a essas atividades, da mesma forma que
ensinam sobre a Evolução e até fazem pes-         não procuraríamos médicos, engenheiros ou
quisas evolutivas. Entre os próprios biólogos     químicos para nos darem orientação moral.
que se dedicam ao estudo da Evolução, há          O mesmo ocorre com a Ciência da Evolução:
ateus, agnósticos e devotos praticantes de        nem mais nem menos materialista do que
várias religiões. A maioria dos teólogos pare-    qualquer outra ciência, ela não oferece ori-
ce concordar com a idéia de que considerar        entação moral, somente uma análise desa-
que a fé em Deus é ou não compatível com a        paixonada sobre como funcionam e como se
aceitação da Evolução é questão de decisão        formaram os sistemas biológicos. Qual o uso
individual. A maioria dos biólogos que estu-      que faremos dessas informações, cabe aos
dam a Evolução concorda que as questões           indivíduos e à sociedade decidir.




                                                                                             67
APÊNDICE II

COMO ESTE DOCUMENTO                                    obtenção de financiamento para o apoio a
FOI PRODUZIDO                                          workshops destinados a elaborar o relatório
                                                       e a coordenar e supervisionar sua redação e
      Atendendo a convite dos presidentes de           publicação. Este projeto recebeu o apoio da
suas respectivas sociedades, representantes*           A. P. Sloan Foundation e da National Science
da American Society of Naturalists (ASN), da           Foundation. Foram publicados comunicados
Society for the Study of Evolution (SSE), da           sobre a existência do grupo de trabalho e
Society for Molecular Biology and Evolution            suas incumbências nas revistas The American
(SMBE), da Ecological Society of America               Naturalist, Ecology, Evolution, Genetics,
(ESA), da Society of Systematic Biologists             Molecular Biology and Evolution e Science.
(SSB), da Genetics Society of America (GSA),                  O grupo de trabalho reuniu-se em ou-
da Animal Behavior Society (ABS) e da                  tubro de 1995 (em Lawrenceville, NJ) e em
Paleontological Society (PS) reuniram-se em            março de 1996 (em Chicago, IL) para discutir
Indianapolis, Indiana, de 22 a 23 de abril de          o conteúdo do relatório e distribuir as tare-
1995, para discutir a necessidade de se pre-           fas de redação e pesquisa. Entre as reuniões,
parar um relatório que definisse os desafios           os membros do grupo de trabalho mantive-
e as oportunidades com que a Ciência da Evo-           ram contatos regulares via e-mail. O relató-
lução estava se deparando. O propósito des-            rio foi distribuído para os conselhos executi-
se documento seria o de servir como decla-             vos das sociedades científicas relevantes em
ração sobre a natureza e a importância des-            1996-1997, a fim de receber críticas e comen-
te campo, para ser utilizada, de modo igual,           tários, e uma cópia do documento foi colo-
pelos responsáveis pelas políticas, por edu-           cada na Internet em 1997, para ser analisa-
cadores e cientistas.                                  da e comentada pela comunidade científica
      Foi reunido um grupo de trabalho re-             em geral, com anúncios e informações de
presentando as principais disciplinas da Bio-          acesso colocados em várias das revistas
logia Evolutiva, para fazer uma minuta do do-          mencionadas acima. A reunião final do gru-
cumento de trabalho a ser apresentada aos              po de trabalho realizou-se em abril de 1997
membros das nossas respectivas sociedades.             (em Palo Alto, CA), para tratar de questões
Por ocasião do workshop de abril de 1995,              de balanço geral do documento final e no-
foram eleitos os co-presidentes D. Futuyma             mear um grupo de trabalho menor para su-
(editorial) e T. Meagher (organizacional), para        pervisionar a publicação definitiva do rela-
redigirem um rascunho de propostas para a              tório.




   *Douglas Futuyma (ASN), Leslie Real (ASN, ESA),
   Thomas Meagher (SSE), Walter Fitch (SMBE), Carol
   Lynch (SSE), Linda Maxson (SMBE), Charles Langley
   (GSA), J. John Sepkoski, Jr. (PS), Zuleyma Tang-
   Martinez (ABS) e Michael Donoghue (SSB), Mark
   Courtney como observador para a NSF.




                                                                                                  68
APÊNDICE III

GLOSSÁRIO DE TERMOS
FREQÜENTEMENTE USADOS                              por diferenças biológicas que reduzem ou
                                                   impedem a troca de genes. Especiação é a
Alelo Uma de várias formas alternativas de
Alelo:                                             origem de duas ou mais espécies pela di-
   um gene, que difere das outras formas na        visão de uma espécie ancestral em popu-
   seqüência de nucleotídeos e, geralmente,        lações reprodutivamente isoladas.
   em seu efeito sobre determinado caráter.      Extinção A morte de todos os indivíduos de
                                                 Extinção:
Alelos neutros Dois ou mais alelos que não
        neutros:                                   uma população, uma espécie ou uma clas-
   diferem quanto ao seu efeito sobre o valor      se taxonômica superior, em determinado
   adaptativo. Alelos deste tipo são chama-        local.
   dos “seletivamente neutros”.                  Extinção em massa Grande aumento do nú-
                                                              massa:
Biodiversidade O número de alelos ou cate-
Biodiversidade:                                    mero de extinções (com uma concomitante
   gorias taxonômicas de uma área geográfi-        diminuição da diversidade) ao longo de um
   ca específica (abrangendo desde uma re-         intervalo de tempo geologicamente curto
   gião localizada até a Terra inteira). O nú-     (anos até muitos milhares de anos).
   mero de categorias taxonômicas é freqüen-     Fenótipo Característica(s) observável(is) de
                                                 Fenótipo:
   temente descrito como “diversidade taxo-        um organismo, p.ex., cor dos olhos, fre-
   nômica” ou, simplesmente, “diversidade.”        qüência respiratória, número de descen-
Caráter Um traço específico, p. ex., “dentes
Caráter:                                           dentes produzidos. O fenótipo é
  molares”. Um estado de caráter é uma de          freqüentemente determinado tanto por fa-
  várias formas alternativas de um traço,          tores genéticos como ambientais.
  p.ex., o número específico de molares. Um      Filogenia O padrão histórico de ramificação,
                                                 Filogenia:
  caráter quantitativo varia de maneira con-        produzido pela especiação ou pelo isola-
  tínua (p. ex., peso) e não descontínua, ge-       mento de populações, que resultou em uma
  ralmente devido aos efeitos tanto do am-          diversidade de categorias taxonômicas ou
  biente como da ação de vários ou muitos           de populações diferenciadas.
  genes, daí o termo caráter “poligênico”.
                                                 Fixação A condição de um alelo que substi-
                                                 Fixação:
Categoria taxonômica (ou taxon, pl. taxa) :
                            taxon,     taxa)        tui todos os outros alelos em uma popula-
  Entidade denominada na classificação bi-          ção, de modo que sua freqüência é igual a
  ológica, como uma espécie (p.ex., Homo            1 (i.é., 100%).
  sapiens) ou uma ordem (p.ex., Primatas).
                                                 Fluxo gênico Movimento de genes de uma
                                                        gênico:
  Categoria taxonômica superior é uma cate-
                                                    população para outra (geralmente da mes-
  goria acima do nível de espécie (p.ex., um
                                                    ma espécie), resultante do deslocamento
  gênero ou uma família) e idealmente re-
                                                    de indivíduos ou de seus gametas.
  presenta um grupo de espécies descenden-
  tes de seu ancestral comum mais recente.       Fóssil Qualquer vestígio reconhecível de um
                                                 Fóssil:
                                                   organismo antigo, preservado em um sítio
Deriva genética Mudanças aleatórias nas fre-
       genética:
                                                   geológico.
  qüências dos alelos dentro de uma popu-
  lação, devidas a uma distribuição aleató-      Freqüência alélica Proporção de cópias de
                                                              alélica:
  ria de genes.                                     um gene em uma população representan-
                                                    do um alelo específico. Se a população tem
Desenvolvimento As mudanças que um or-
Desenvolvimento
     volvimento:
                                                    N indivíduos, cada um com 2 cópias do
  ganismo individual sofre durante sua vida,
                                                    gene, o número total de genes na popula-
  desde o ovo, a semente, etc., passando pela
                                                    ção é 2N.
  maturidade, até a morte.
                                                 Gameta Uma célula, como um óvulo ou um
                                                 Gameta:
Espécie No conceito da maioria dos biólo-
Espécie:
                                                   espermatozóide, que se une a outra célula
  gos estudiosos da Evolução, uma espécie
                                                   para formar um novo organismo.
  é uma população de organismos que – real
  ou potencialmente - trocam genes por meio      Gene Unidade da hereditariedade, geralmen-
                                                 Gene:
  de cruzamentos e são reprodutivamente            te uma seqüência de DNA que codifica uma
  isolados de outras populações desse tipo         proteína ou outro produto que influi no de-


                                                                                           69
senvolvimento de um ou mais caracteres.        Polimorfismo A presença, em uma popula-
                                                  olimorfismo:
  Cada aminoácido de uma cadeia de prote-          ção, de dois ou mais alelos num determi-
  ína é codificado por um ou mais conjuntos        nado loco genético.
  de três bases (tríades) específicos, consti-
                                                 População Grupo local de indivíduos de uma
                                                 População:
  tuídos de quatro tipos de bases nucleo-
                                                   espécie; em organismos de reprodução
  tídicas.
                                                   sexuada, os membros de uma população
Genótipo Uma combinação específica de
Genótipo:                                          cruzam entre si mais freqüentemente do
  alelos em um ou mais locos. Organismos           que com membros de outras populações.
  como os humanos têm duas cópias de cada
                                                 Seleção Abreviação de “seleção natural,” i.é,
                                                 Seleção:
  gene em cada um da maioria dos locos (um
                                                    diferenças consistentes na taxa de sobre-
  proveniente da mãe e um proveniente do
                                                    vivência ou de reprodução entre genótipos
  pai); o genótipo em determinado loco é
                                                    ou alelos diferentes, devido a diferenças
  homozigoto se as duas cópias forem do
                                                    nos fenótipos por eles produzidos.
  mesmo alelo, e heterozigoto se forem alelos
  diferentes.                                    Teoria coalescente Um segmento da teoria
                                                         coalescente:
                                                   da Genética de Populações, que utiliza as
Loco (pl., locos): O local de um cromossomo
                                                   relações entre seqüências de DNA para in-
  que é ocupado por um gene; este termo é
                                                   ferir os processos evolutivos que afetaram
  freqüentemente usado para se referir ao
                                                   genes e populações.
  próprio gene.
                                                 Valor adaptativo A contribuição para a ge-
                                                       adaptativo:
Mutação Alteração da seqüência do DNA de
Mutação:
                                                   ração seguinte de um genótipo, em rela-
  um gene, originando-se daí um novo alelo.
                                                   ção à de outros genótipos, refletindo a sua
Pleiotropismo Os efeitos de um único gene
Pleiotropismo:                                     probabilidade de sobrevivência e sua ca-
   sobre mais de um caráter.                       pacidade reprodutiva.




                                                                                           70
APÊNDICE IV

ASSOCIAÇÃO ENTRE A PESQUISA                     • U .S. Department of Agriculture (USDA)
                                                                                      (USDA)
EVOLUTIV
  OLUTIVA
EVOLUTIVA E AS MISSÕES DE ÓRGÃOS                  (Departamento de Agricultura dos EUA) EUA)
                                                                                           A):
OFICIAIS                                          Variação genética e mapeamento de LCQ
                                                  de plantas; evolução molecular e evolução
      Descrevemos aqui um campo emer-             do desenvolvimento das plantas; sistemas
gente, o da Biologia Evolutiva Aplicada, que      de cultivo de plantas; fisiologia evolutiva
inclui pesquisas orientadas diretamente para      de plantas, animais domésticos e insetos;
necessidades da sociedade, bem como uma           resistência natural a pragas em plantas sel-
pesquisa básica que claramente constitui pré-     vagens; genética, ecologia, comportamen-
requisito para o desenvolvimento de aplica-       to e sistemática de plantas, insetos, nema-
ções. O progresso nessas áreas tem uma re-        tódeos, fungos e outros patógenos de plan-
lação direta com as missões de diversos ór-       tas; co-evolução parasita/hospedeiro; ge-
gãos e irá claramente contribuir para suas        nética e ecologia evolutiva dos organismos
necessidades e objetivos. De fato, certos ór-     de solo; evolução da resistência a toxinas
gãos apoiam a pesquisa em algumas das             naturais e a pesticidas e herbicidas sintéti-
subdisciplinas da Biologia Evolutiva. Entre-      cos; análise estatística e numérica de da-
tanto, muitos dos órgãos relacionados abai-       dos.
xo têm financiado muito pouco da pesquisa
evolutiva que poderia impulsionar seus ob-      • Environmental Protection Agency (EPA)
                                                  Environmental                        (EPA)
jetivos. Exemplos de possíveis associações        (Agência de Proteção Ambiental) Gené-
                                                                          Ambiental):
entre órgãos oficiais e áreas da pesquisa         tica, Ecologia e Evolução aplicadas à
evolutiva relevantes para suas missões in-        biorremediação; evolução microbiana;
cluem:                                            adaptação a mudanças ambientais globais
                                                  e locais; genética e adaptabilidade de po-
• National Institutes of Health (NIH) (Ins-       pulações pequenas e/ou ameaçadas;
  titutos Nacionais de Saúde) Evolução e
                        Saúde):                   biodiversidade (incluindo sistemática,
  diversidade da organização do genoma;           biogeografia, evolução das interações en-
  Evolução Molecular; teoria da Genética de       tre espécies e paleobiologia das mudanças
  Populações; mapeamento de LCQ (locos            das comunidades).
  de características quantitativas); evolução
  dos mecanismos de desenvolvimento;            • U .S. Department of the Interior (Depar-
  Morfologia e Fisiologia Evolutivas; meca-       tamento do Interior dos EUA): Biorre-
                                                                                 EUA):
  nismos de adaptação a estresses                 mediação de ambientes danificados; gené-
  ambientais; co-evolução (de patógenos ou        tica e fisiologia evolutivas dos recursos flo-
  parasitas e hospedeiros); técnicas numé-        restais e de pesca; adaptação a mudanças
  ricas e analíticas para o uso de dados          ambientais globais e locais; genética e
  moleculares; epidemiologia genética; di-        adaptabilidade de populações pequenas e/
  agnóstico genético; evolução da resistên-       ou ameaçadas; evolução dos ciclos de vida
  cia a drogas em microorganismos; varia-         e dos sistemas de cultivo/criação de po-
  ção humana; abordagens evolutivas da            pulações de safra; análise de biodiversi-
  base biológica do comportamento huma-           dade (p. ex., inventário, sistemática, bio-
  no; mecanismos de comportamento rela-           geografia, percepção remota do habitat,
  cionados com funções cognitivas; funções        interações entre espécies); métodos teóri-
  hormonais e seus efeitos sobre o compor-        cos, estatísticos e numéricos.
  tamento.
                                                • Department of Defense (DOD) (Departa-
• U.S. Department of Justice (Departamen-         mento de Defesa dos EUA) Sistemática,
                                                                         EUA)
                                                                            A):
  to de Justiça dos EUA) Identificação ge-
                    EUA)
                      A):                         genética e ecologia evolutiva de parasitas,
  nética; genética de populações de poli-         patógenos e vetores de doenças; sistemá-
  morfismos moleculares; métodos analíti-         tica e ecologia evolutiva de organismos
  cos.                                            marinhos; adaptação a mudanças globais




                                                                                            71
passadas e presentes; caracterização ge-      • Indústria As descrições acima das apli-
                                                  Indústria:
  nética de indivíduos pelo DNA (“finger-         cações passadas e potenciais da Ciência
  printing”).                                     da Evolução a objetivos tais como a bior-
                                                  remediação, o desenvolvimento de produ-
• National Air and Space Administration           tos naturais e a biotecnologia deixam cla-
  (NASA) (Administração Nacional Aero-            ro que diversas indústrias considerarão
  Espacial); National Oceanographic and           útil apoiar as pesquisas em áreas como a
  Atmospheric Administration (NO AA) (NOAA)       análise comparativa de genes e genomas;
  (Administração Nacional Oceanográfica           mapeamento de LCQ de microrganismos;
  e Atmosférica) Análise da biodiversidade
    Atmosférica):                                 a genética evolutiva de organismos trans-
  da vegetação e dos sistemas marinhos (in-       gênicos e suas interações com espécies
  cluindo sistemática, biogeografia, ecologia     selvagens; co-evolução em sistemas
  evolutiva); efeitos da composição das es-       microbianos; adaptabilidade e ecologia
  pécies, das interações entre espécies e da      evolutiva dos organismos de solo, ervas
  variação genética sobre os processos dos        daninhas e espécies que constituem pra-
  ecossistemas; adaptação a mudanças              gas; evolução da resistência a antibióti-
  ambientais globais e locais; estudos paleo-     cos, pesticidas e herbicidas; análises
  biológicos de comunidades e ambientes;          adaptativas das propriedades químicas de
  métodos estatísticos e analíticos; origens      plantas e outras espécies; sistemática e
  da vida e exobiologia; adaptação a ambi-        biodiversidade de microrganismos, plan-
  entes extremos.                                 tas e outras espécies.

• World Health Organization (Organização        • Fundações particulares Fundações par-
                                                               particulares:
  Mundial da Saúde) Epidemiologia e
                Saúde):                           ticulares podem exercer um papel essen-
  biogeografia de doenças; evolução da re-        cial no lançamento de pesquisas em dire-
  sistência a doenças; aparecimento de do-        ções que não podem ser financiadas de
  enças novas; relações ecológicas e              imediato por órgãos federais. Nesta cate-
  evolutivas entre doenças e seus vetores.        goria, projetos de pesquisas verdadeira-
                                                  mente inovadoras e, por isso, de natureza
• UNESCO (UNEP—United Nations Environ-
                                   Environ-       “de alto risco/altos ganhos”; projetos
  mental Programme) (Programa Ambiental           interdisciplinares e com probabilidades de
  das Nações Unidas) O apoio dado A Esti-
                Unidas):                          se situarem entre as áreas tradicionalmente
  mativa da Biodiversidade Global (Global         financiadas pelos órgãos públicos; ou que
  Biodiversity Assessment) do UNEP cita a im-     estão fora de moda (talvez por exigirem
  portância dos estudos paleobiológicos so-       coleta de mais dados sobre temas tradici-
  bre respostas biológicas às mudanças glo-       onais) têm maiores probabilidades de se
  bais e descreve a importância da Biologia       beneficiarem da flexibilidade que funda-
  Evolutiva para a nossa compreensão da           ções particulares muitas vezes podem
  biodiversidade e seu manejo (24).               exercer.



                                                1




                                                                                          72
Árvore filogenética universal, mostrando as relações entre Bacteria (p.ex., a maioria das bactérias e algas verdes-azuis), Archaea
(p. ex., metanógenos e halófilos) e Eucarya (p. ex., protistas, plantas, animais e fungos).




                                                                                                                                 73

Futuyma evolução ciência e sociedade

  • 1.
  • 2.
    Nota da EdiçãoBrasileira Na presente edição, traduzimos os termos científicos para o Português. Nosso objetivo é contribuir para a consolidação de uma terminologia científica em língua portuguesa e, ao mesmo tempo, possibilitar a compreensão do texto também pelo leitor não especialista. Solicitamos aos leitores que contribuam para o aprimoramento dessa terminolo- gia e nos enviem sugestões. Ao manter, nesta edição brasileira, as considerações sobre os sistemas de ensi- no e de financiamento à pesquisa americanos, tivemos o objetivo de fornecer subsídios que possam resultar na redação de um documento voltado para o sistema de fomento à pesquisa e de políticas educacionais nacionais. São Paulo, setembro de 2002 João Stenghel Morgante Editor de Livros SBG Editoria_livros@sbg.org.br
  • 3.
    Documento anexo servecomo resumo executivo. Para obter cópias em inglês deste documento, consulte o portal http://www.amnat.org; cópias em português podem ser obtidas no portal da Sociedade Brasileira de Genética http://www.sbg.org.br. Preparado por representantes das sociedades científicas abaixo. Todas essas sociedades endossaram o documento final. American Society of Naturalists Animal Behavior Society Ecological Society of America Genetics Society of America Paleontological Society Society for Molecular Biology and Evolution Society of Systematic Biologists Society for the Study of Evolution Endosso adicional do: American Institute of Biological Sciences Com patrocínio financeiro de: A. P. Sloan Foundation National Science Foundation Editor Chefe: Douglas J. Futuyma. State University of New York-Stony Brook Organização: Thomas R. Meagher, Rutgers, The State University of New Jersey Comissão Orientadora: Michael J. Donoghue, Harvard University James Hanken, University of Colorado Charles H. Langley, University of California-Davis Linda Maxson, University of Iowa Grupo de Trabalho: Albert F. Bennett, University of California-Irvine H. Jane Brockmann, University of Florida Marcus W. Feldman, Stanford University Walter M. Fitch, University of California-Irvine Laurie R. Godfrey, University of Massachusetts David Jablonski, University of Chicago Carol B. Lynch, University of Colorado Leslie Real, Indiana University Margaret A. Riley, Yale University J. John Sepkoski, Jr., University of Chicago Vassiliki Betty Smocovitis, University of Florida Edição em inglês projetada e produzida pelo Office of University Publications. Rutgers. The State University of New Jersey Edição em português: Tradução: Nicole S. Loghin-Grosso Responsável pela edição brasileira: João Stenghel Morgante Produção: Sociedade Brasileira de Genética Editoração: Virtuale Comunicação 3
  • 4.
    ÍNDICE RESUMO EXECUTIVO XECUTIVO 5 P REÂMBULO 6 I. INTRODUÇÃO 7 II. O QUE É E VOLUÇÃO? 9 III. QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DA BIOLOGIA E VOLUTIVA? BJETIVOS OLUTIVA 12 A. Subdisciplinas da Biologia Evolutiva 12 B. Perspectivas a partir da Biologia Evolutiva 14 IV. COMO IV. SE ESTUDA STUDA A E VOLUÇÃO? 16 V. D E QUE M ODO A BIOLOGIA E VOLUTIVA C ONTRIBUI PARA A S OCIEDADE? OLUTIVA OCIEDADE 20 A. Saúde Humana e Medicina 20 B. Agricultura e Recursos Naturais 25 C. Descoberta de Produtos Naturais Úteis 128 D. Meio Ambiente e Conservação 29 E. Aplicações Fora da Biologia 31 F. Compreensão da Humanidade 32 VI. D E QUE M ODO A BIOLOGIA E VOLUTIVA C ONTRIBUI PARA A CIÊNCIA B ÁSICA? OLUTIVA 34 A. Realizações no Estudo da Evolução 34 B. Contribuições para Outras Disciplinas Biológicas 40 VII. O QUE O F UTURO R ESERVA ESERV PARA A BIOLOGIA E VOLUTIVA? OLUTIVA 43 A. Ciência Aplicada 43 B. Ciência Básica 50 VIII. M ECANISMOS PARA ENFRENTAR OS D ESAFIOS DO F UTURO NFRENTAR 56 A. Progredir na Compreensão pela Pesquisa 56 B. Progredir na Compreensão pela Educação 58 C. Progredir na Compreensão pela Comunicação 60 IX. CONCLUSÃO 62 BIBLIOGRAFIA 64 A PÊNDICES 66 I. Evolução: Fato, Teoria, Controvérsias 66 II. Como Este Documento Foi Produzido 68 III. Glossário de Termos Freqüentemente Usados 69 IV. Associação entre a Pesquisa Evolutiva e as Missões de Órgãos Públicos 71 4
  • 5.
    A Biologia Evolutiva é o estudo da história da vida e dos processos que levam à sua diversidade. Baseada nos princípios da adaptação, no acaso e na história, a Biologia Evolutiva procura explicar todas as características dos organismos, ocupando por isso uma posição central dentro das ciências biológicas. DA EVOLUTIV OLUTIVA RELEVÂNCIA DA BIOLOGIA EVOLUTIVA NACIONAL PARA O PROGRAMA NACIONAL DE PESQUISA O século vinte e um será o “Século da mos de aplicar as pesquisas em Evolução aos Biologia”. Impulsionadas por uma convergên- problemas da sociedade e devemos incluir as cia de preocupações públicas em aceleração, implicações de tais pesquisas na educação de as ciências biológicas serão convocadas cada uma cidadania cientificamente informada. vez mais para tratar de questões vitais para o A fim de promover essas metas, repre- nosso bem-estar futuro: ameaças à qualida- sentantes de oito destacadas sociedades ci- de ambiental, necessidades de produção de entíficas profissionais dos Estados Unidos, alimentos devido a pressões populacionais, cuja temática principal inclui a Evolução, pre- novos perigos para a saúde humana gerados pararam este documento. Ele inclui contribui- pelo aparecimento de resistência a antibióti- ções de especialistas de várias outras áreas. cos e de novas doenças, e a explosão de no- Conseguiu-se obter da comunidade de biólo- vas tecnologias na biotecnologia e na com- gos norte-americanos que estudam a Evolu- putação. A Biologia Evolutiva em particular ção respostas referentes a esboços anterio- está destinada a prestar contribuições muito res e a minuta foi tornada pública pela Inter- significativas. Ela contribuirá diretamente para net. Os representantes chegaram a uma série desafios prementes da sociedade, bem como de recomendações que tratam das áreas abai- para informar e acelerar outras disciplinas bi- xo. ológicas. A Biologia Evolutiva estabeleceu de for- PROGRESSO NA COMPREENSÃO ma inequívoca que todos os organismos evo- POR MEIO DA PESQUISA luíram a partir de um ancestral comum, no decorrer dos últimos 3,5 bilhões de anos; do- A fim de maximizar o potencial da Bio- cumentou muitos acontecimentos específicos logia Evolutiva como princípio organizador e da história da evolução; e desenvolveu uma integrador, insistimos em que: teoria muito bem validada sobre os mecanis- mos genéticos, ecológicos e de desenvolvi- • sejam incorporadas perspectivas evoluti- mento das mudanças evolutivas. Os métodos, vas como fundamento para pesquisas conceitos e perspectivas da Biologia Evolutiva interdisciplinares que tratam de problemas deram e continuarão dando importantes con- científicos complexos; tribuições a outras disciplinas biológicas, tais como a Biologia Molecular e do Desenvolvi- • os biólogos estudiosos da Evolução traba- mento, a Fisiologia e a Ecologia, bem como a lhem no sentido de construir vínculos sig- outras ciências básicas como Psicologia, An- nificativos entre a pesquisa básica e a apli- tropologia e Informática. cação prática; A fim de que a Biologia Evolutiva reali- ze todo o seu potencial, os biólogos devem • a Biologia Evolutiva desempenhe um pa- integrar os métodos e resultados da pesquisa pel mais explícito na missão mais ampla em Evolução com aqueles de outras discipli- dos órgãos federais que possam se benefi- nas, tanto dentro como fora da Biologia. Te- ciar de contribuições feitas por esta área. 5
  • 6.
    PROGRESSO NA COMPREENSÃO PROGRESSO NA COMPREENSÃO POR MEIO DA EDUCAÇÃO POR MEIO D A COMUNICAÇÃO Incentivamos esforços de vulto para re- Recomendamos enfaticamente aos bi- forçar os currículos das escolas primárias e ólogos dedicados ao estudo da Evolução que secundárias, bem como os das faculdades e desempenhem seus papéis: universidades, incluindo: • na comunicação, aos órgãos de fomento à • apoio a treinamento suplementar para pro- pesquisa federais e estaduais e a outras fessores primários e/ou treinamento de instituições que apoiam a pesquisa básica reciclagem em Biologia Evolutiva para pro- ou aplicada, da relevância da Biologia fessores de Ciências do curso secundário; Evolutiva na realização das missões des- sas organizações; • maior ênfase na Evolução nos currículos das faculdades de Biologia e Medicina, com • na formação da próxima geração de biólo- cursos alternativos acessíveis a estudan- gos dedicados ao estudo da Evolução, para tes de outras áreas; que tenham consciência da relevância do seu campo para as necessidades da socie- • integração de conceitos relevantes da Evo- dade; lução no treinamento de todos os biólogos formados e de profissionais de áreas tais • na informação ao público sobre a nature- como Medicina, Direito, Agricultura e Ci- za, os progressos e as implicações da Bio- ências Ambientais. logia Evolutiva. PREÂMBULO Três grandes temas permeiam as ciên- tudos dessas disciplinas, referentes a meca- cias biológicas: função, unidade e diversida- nismos biológicos, com explanações basea- de. Grande parte da Biologia, desde a Biolo- das na História e na adaptação. Em todo o gia Molecular até a Biologia do Comportamen- campo das ciências biológicas, a perspectiva to, da Bacteriologia à Medicina, preocupa-se evolutiva fornece uma estrutura útil, muitas com os mecanismos que fazem os organis- vezes indispensável, para organizar e inter- mos funcionar. Muitos desses mecanismos pretar observações e fazer previsões. Como são adaptações: características que favorecem foi enfatizado em recente relatório da Acade- a sobrevivência e a reprodução. Algumas des- mia Nacional de Ciências dos Estados Unidos sas características são encontradas apenas em (37), a evolução biológica é “o mais impor- certos grupos de organismos, enquanto ou- tante conceito da Biologia Moderna – um con- tras são compartilhadas por quase todos os ceito essencial para a compreensão de aspec- seres vivos, refletindo a unidade da vida. Ao tos chave dos seres vivos”. mesmo tempo, a diversidade de característi- Apesar de sua posição central entre as cas entre as milhões de espécies da Terra é ciências da vida, a Biologia Evolutiva ainda espantosa. não representa, nos currículos educacionais A unidade, a diversidade e as caracte- e na concessão de verbas para pesquisa, uma rísticas adaptativas dos organismos são con- prioridade à altura de suas contribuições in- seqüências da história evolutiva e só podem telectuais e de seu potencial para contribuir ser plenamente compreendidas nesta pers- com as necessidades da sociedade. As razões pectiva. A ciência da Biologia Evolutiva é o disso talvez incluam a percepção errônea de estudo da história da vida e dos processos que que todas as questões científicas importantes levaram à sua unidade e diversidade. A Bio- referentes à Evolução já foram respondidas e logia Evolutiva esclarece fenômenos estuda- a controvérsia entre alguns maus cientistas a dos nos campos da Biologia Molecular, da Bi- respeito da realidade da Evolução e da per- ologia do Desenvolvimento, da Fisiologia, do cepção dela como ameaça a certos valores Comportamento, da Paleontologia, da Ecolo- tradicionais da sociedade. Entretanto, a Bio- gia e da Biogeografia, complementando os es- logia Evolutiva é uma disciplina intelectual e 6
  • 7.
    tecnologicamente dinâmica, queinclui algu- der necessidades da sociedade e na edu- mas das mais empolgantes descobertas atu- cação para a ciência. ais das ciências biológicas. Os principais objetivos deste documen- Este documento foi preparado para pes- to são: soas cujas decisões são responsáveis pela ori- entação da pesquisa científica básica e apli- • descrever a nossa compreensão atual da cada e pela elaboração de currículos educa- Evolução e das principais conquistas inte- cionais para todos os níveis. Ele foi elabora- lectuais da Biologia Evolutiva; do por representantes de oito das mais im- portantes sociedades científicas profissionais • identificar as principais questões e desafi- dos Estados Unidos cuja temática inclui a Evo- os da ciência da Evolução passíveis de pro- lução. Também contribuíram outros especia- gresso no futuro próximo; listas em vários assuntos. A minuta deste do- cumento foi revisada com base nos comentá- • descrever contribuições da Biologia Evolu- rios recebidos da comunidade de biólogos de- tiva, passadas e esperadas no futuro, tan- dicados ao estudo da Evolução norte-ameri- to para outras ciências como para neces- canos e do público, que teve acesso à minuta sidades sociais em áreas tais como as ci- em reuniões científicas e pela Internet. Em- ências da saúde, a agricultura e as ciênci- bora não se possa esperar concordância ple- as ambientais; e na em todos os detalhes e pontos em desta- que, os principais assuntos e conclusões con- • sugerir maneiras pelas quais se possa fa- tidos nas páginas a seguir representam a opi- cilitar o progresso na pesquisa básica, nas nião da grande maioria dos profissionais da aplicações da Biologia Evolutiva para aten- Biologia da Evolução dos Estados Unidos. I. INTRODUÇÃO “Que obra de arte é um homem! A be- tivo e respiratório, que têm o inconveniente leza do mundo, a flor dos animais!”. Assim de se cruzarem, colocando-nos em risco de como o Hamlet de Shakespeare, nós também sufocar com comida? nos maravilhamos diante das admiráveis ca- Considerando a nossa espécie de for- racterísticas da nossa espécie, mas, decorri- ma ampla, vemos uma variação quase infini- dos quatro séculos, fazemo-lo com muito mais ta. Diferenças de tamanho, conformação e conhecimento. Pensem, por exemplo, no cor- pigmentação entre as pessoas não são mais po humano: um manual de Biologia, uma li- do que a ponta do iceberg. Quase todo mun- ção de Evolução. do tem traços faciais e características de iden- Impressionam-nos, em primeiro lugar, tificação pelo DNA (“fingerprints”) singulares, as incontáveis características que nos permi- existe uma variação hereditária na susce- tem funcionar. Quer consideremos os nossos tibilidade a doenças infecciosas e um certo olhos, o nosso cérebro ou o nosso sistema número de pessoas desafortunadas herda al- imunológico, encontramos características gum dos muitos, porém raros, defeitos gené- complexas, admiravelmente adequadas às ticos. Qual é o responsável por toda essa va- funções que desempenham. Tais característi- riação? cas que servem para a nossa sobrevivência e Ampliando o nosso campo visual e reprodução são chamadas adaptações. Como comparando-nos com outros organismos, foi que elas surgiram? encontramos uma série de características Se olharmos mais de perto, também que compartilhamos com muitas outras es- encontramos anomalias que não têm nenhum pécies. Estamos ligados aos macacos pelas sentido adaptativo. Como podemos explicar unhas dos dedos; a todos os mamíferos pe- o nosso apêndice sem função, mamilos nos los cabelos, pelo leite e pela estrutura dos homens, dentes do siso que nascem de forma dentes e das mandíbulas; aos répteis, aves e dolorosa ou nem chegam a nascer, ou a pe- anfíbios pela estrutura básica de nossos bra- culiar disposição dos nossos aparelhos diges- ços e pernas; e a todos os vertebrados, in- 7
  • 8.
    cluindo os peixes,pelas vértebras e muitas outras, tais como o vírus que causa a AIDS e outras características do nosso esqueleto. o protozoário que causa a malária, que são Investigando mais a fundo, vemos que a es- nossos temíveis inimigos. trutura das nossas células nos une a todos Essas reflexões despertam algumas das os animais e que as funções bioquímicas das questões mais abrangentes e profundas da nossas células são virtualmente idênticas em Biologia. Como podemos explicar a unidade todo um grupo ainda maior de organismos, da vida? E a sua espantosa diversidade? Qual os eucariontes: não apenas animais, mas é a explicação para a extraordinária adapta- também plantas, fungos e protozoários tais ção de todas as espécies, inclusive a nossa, como as amebas. Os elementos mais funda- bem como para suas características não- mentais de tudo são o DNA, veículo da here- adaptativas? Qual a explicação para as varia- ditariedade, uma variedade de aminoácidos ções, tanto dentro das espécies como entre que constituem os “tijolos” das proteínas e o elas? código específico contido no DNA para cada Essas são as questões fundamentais da um desses aminoácidos. Todas essas carac- ciência da Biologia Evolutiva. O empenho em terísticas são as mesmas em todos os seres respondê-las, bem como as milhares de ou- vivos, desde as bactérias até os mamíferos. tras delas decorrentes, gerou teorias e méto- Tantas coisas comuns entre espécies exigem dos que vêm aprofundando continuamente a uma explicação. nossa compreensão do mundo dos seres vi- Este mundo de espécies com as quais vos — no qual estamos incluídos. Cada tema temos tanto em comum — quão extraordina- das ciências biológicas foi enriquecido pela riamente diverso ele é, apesar de sua unida- perspectiva evolutiva. A Evolução, que forne- de! Olhe para um quintal, para uma valeta à ce uma estrutura explicativa para fenômenos beira de uma estrada ou até mesmo para um biológicos que vão de genes a ecossistemas, terreno abandonado na cidade e encontrará é a única teoria unificadora da Biologia. uma variedade espantosa de plantas, insetos A ciência da Evolução explica a unida- e fungos e talvez algumas aves e mamíferos. de da vida por meio de sua história, segundo Com uma lupa ou um microscópio, descobri- a qual todas as espécies se originaram de an- ria diversos ácaros, vermes nematódeos e cestrais comuns, ao longo dos últimos 4 bi- bactérias. Até você mesmo tem uma vicejante lhões de anos. Explica a diversidade e as ca- comunidade de muitos tipos de bactérias na racterísticas, tanto adaptativas como não- pele, na boca e no intestino. E este é apenas o adaptativas, dos organismos por meio de pro- começo. Do mais árido deserto até as escal- cessos de alteração genética, influenciada por dantes fendas no fundo dos oceanos, o mun- circunstâncias ambientais. Elabora, a partir de do fervilha de organismos — pelo menos 2 princípios gerais, explicações para as diver- milhões e talvez mais de 10 milhões de espé- sas características dos organismos, desde seus cies — que diferem entre si das maneiras mais traços moleculares e bioquímicos até o seu impressionantes. Seu tamanho vai das gigan- comportamento e atributos ecológicos. Ao tescas sequóias e baleias até os vírus que não elaborar tais explicações, os biólogos dedica- passam muito de uma grande molécula. Ali- dos ao estudo da Evolução aperfeiçoaram mé- mentam-se por fotossíntese, por síntese quí- todos e conceitos que estão sendo aplicados mica e pela ingestão de plantas, de madeira em outros campos, como a Lingüística, a Me- seca, pêlos ou animais vivos ou mortos. Al- dicina e até mesmo a Economia. Assim, a guns deles conseguem viver quase em qual- perspectiva elaborada pela Biologia Evolutiva quer lugar; outros são tão especializados que pode trazer informações para o estudo de uma só conseguem comer uma espécie de planta ampla gama de fenômenos, mas o alcance do ou viver dentro das células de uma única es- pensamento evolutivo não pára aí. Embora pécie de inseto. Podem reproduzir-se de for- tendo sido alvo de controvérsias, a perspecti- ma sexuada ou por clones, têm sexos separa- va evolutiva criada por Darwin abalou os fun- dos ou não, cruzam com outros indivíduos ou damentos da Filosofia, deixou a sua marca na se autofertilizam. O comportamento deles Literatura e nas Artes, afetou profundamente pode ser tão simples quanto a orientação em a Psicologia e a Antropologia e trouxe pers- direção à luz ou tão complexo a ponto de pectivas inéditas ao significado de ser huma- envolvê-los em redes de cooperação. Entre no. Poucas descobertas científicas tiveram um esses milhões de espécies, há algumas sem impacto tão abrangente — e desafiador — no as quais não conseguiríamos sobreviver e pensamento humano. 8
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    Este documento tratado papel funda- Evolutiva deve assumir na pesquisa biológica mental da Ciência da Evolução na Biologia e na educação. Para tratar dessas questões, é Moderna, suas aplicações às preocupações e preciso descrever primeiro a natureza da pes- necessidades da sociedade, das principais li- quisa em Evolução e destacar suas realiza- nhas futuras da pesquisa em Evolução e suas ções, tanto como ciência básica como aplica- aplicações e a posição crítica que a Biologia da. EVOLUÇÃO? II. O QUE É EVOLUÇÃO? A evolução biológica consiste na mu- nos e macacos tiveram um ancestral comum dança das características hereditárias de gru- relativamente recente; que um ancestral co- pos de organismos ao longo das gerações. mum mais remoto deu origem a todos os Grupos de organismos, denominados popu- primatas; e que ancestrais sucessivamente lações e espécies, são formados pela divisão mais remotos deram origem a todos os ma- de populações ou espécies ancestrais; poste- míferos, a todos os vertebrados quadrúpedes riormente, os grupos descendentes passam a e a todos os vertebrados, incluindo os peixes. modificar-se de forma independente. Portan- A Teoria da Evolução é um conjunto de to, numa perspectiva de longo prazo, a Evo- afirmações a respeito dos processos da Evo- lução é a descendência, com modificações, de lução tidos como causadores da história dos diferentes linhagens a partir de ancestrais co- eventos evolutivos. A evolução biológica (ou muns. Desta forma, a História da Evolução tem orgânica) ocorre como conseqüência de vári- dois componentes principais: a ramificação os processos fundamentais. Esses processos das linhagens e as mudanças dentro das li- são tanto aleatórios como não-aleatórios. nhagens (incluindo a extinção). Espécies ini- A variação nas características dos orga- cialmente similares tornam-se cada vez mais nismos de uma população surge por meio de diferentes, de modo que, decorrido o tempo mutação aleatória de seqüências de DNA suficiente, elas podem chegar a apresentar di- (genes) que afetam aquelas características. ferenças profundas. Aqui, “aleatório” significa que as mutações Todas as formas de vida, dos vírus ao ocorrem sem levar em conta suas possíveis pau-brasil e aos humanos, são ligadas por conseqüências na sobrevivência ou na repro- cadeias contínuas de descendência. Os pa- dução. Formas variantes de um gene surgidas drões hierarquicamente organizados de as- por mutação são freqüentemente chamadas pectos comuns entre as espécies — tais como alelos. A variação genética é aumentada pela as características comuns de todos os prima- recombinação durante a reprodução sexuada, tas, de todos os mamíferos, todos os verte- que resulta em novas combinações de genes. brados, todos os eucariontes e todos os seres A variação também é aumentada pelo fluxo vivos — refletem uma história na qual todas gênico, o aporte de novos genes de outras po- as espécies vivas podem ser seguidas retros- pulações. pectivamente ao longo do tempo, até se che- Uma mudança evolutiva dentro de uma gar a um número cada vez menor de ances- população consiste na mudança das propor- trais comuns. Esta história pode ser descrita ções (freqüências) dos alelos nesta população. pela metáfora da árvore filogenética (ver box Assim, por exemplo, a proporção de um alelo 1). Uma parte desta história está gravada no raro pode aumentar a tal ponto que acabe registro fóssil, que documenta a vida simples, substituindo completamente o alelo que, an- do tipo das bactérias, nos tempos remotos de tes, era comum. As mudanças nas proporções 3,5 bilhões de anos atrás, seguida de uma lon- dos alelos podem ser devidas a qualquer um ga história de diversificação, modificação e dos dois processos pelos quais certos indiví- extinção. As provas da descendência de an- duos deixam mais descendentes do que ou- cestrais comuns também residem nas carac- tros, desta forma legando mais genes às ge- terísticas comuns dos organismos vivos, in- rações subseqüentes. Um desses processos, cluindo sua anatomia, seu desenvolvimen- a deriva genética, é resultado da variação ale- to embrionário e seu DNA. Baseados nisso, atória da sobrevivência e da reprodução de podemos concluir, por exemplo, que huma- genótipos diferentes. Na deriva genética, as 9
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    freqüências dos alelososcilam por puro aca- te. (A palavra “adaptação” também é usada so. No final, um dos alelos acaba substituin- para designar características que evoluíram do os outros (i.é, será fixado na população). A em conseqüência da seleção natural). A sele- deriva genética é da maior importância quan- ção natural tende a eliminar alelos e caracte- do os alelos de um gene são neutros — ou seja, rísticas que reduzem o valor adaptativo (tais quando eles não diferem substancialmente como mutações que causam defeitos congê- quanto a seus efeitos na sobrevivência ou na nitos graves nos humanos e em outras espé- reprodução — e seu progresso é tão mais rá- cies) e atua também como uma “peneira” que pido quanto menor for a população. A deriva preserva e aumenta a abundância de combi- genética resulta em mudança evolutiva, po- nações de genes e características que aumen- rém não em adaptação. tam o valor adaptativo, mas cuja ocorrência A outra causa principal de mudança nas por mero acaso seria rara. Desta forma, a se- freqüências alélicas é a seleção natural, nome leção tem um papel “criativo” ao tornar o im- dado a qualquer diferença consistente (não- provável muito mais provável. O efeito da se- aleatória) entre organismos portadores de leção freqüentemente será a substituição alelos ou genótipos diferentes quanto à sua completa de genes e características previa- taxa de sobrevivência ou de reprodução (i.é, mente comuns por outras novas (processo seu valor adaptativo), devido a diferenças chamado seleção direcionada), mas, em algu- quanto a uma ou mais características. Na mai- mas circunstâncias, a “seleção equilibrada” oria dos casos, há circunstâncias ambientais pode manter indefinidamente diversas vari- que influem na determinação de qual varian- antes genéticas em uma população (situação te terá maior valor adaptativo. A relevância chamada polimorfismo genético, como no caso das circunstâncias ambientais depende das hemoglobinas siclêmica e “normal” en- grandemente do tipo de vida de cada orga- contradas em algumas populações humanas nismo, sendo que elas não incluem apenas da África). fatores físicos tais como a temperatura, mas A seleção natural é a causa derradeira também outras espécies, bem como outros de adaptações tais como os olhos, os contro- membros da mesma espécie, com os quais o les hormonais do desenvolvimento e os com- organismo compete, cruza ou mantém outras portamentos de “cortejo” para atrair parcei- interações sociais. ros, mas não pode produzir tais adaptações, sem que a mutação e a recombinação gerem uma variação genética sobre a qual possa agir. No decorrer de um período suficientemente longo, novas mutações e recombinações, selecionadas por deriva genética ou por sele- ção natural, podem alterar muitas caracterís- ticas, podendo alterar cada uma delas tanto quantitativa como qualitativamente. O resul- tado pode ser uma mudança indefinidamente grande, a ponto de uma espécie descendente diferir flagrantemente de seu ancestral remo- to. A movimentação de indivíduos entre populações, seguida de cruzamentos (i.é, flu- xo gênico), permite que novos genes e carac- terísticas se espalhem a partir de sua popula- ção de origem para toda a espécie. Se o fluxo Evolução gênico entre populações diferentes, separa- por Seleção Natural das geograficamente, for pequeno, as mudan- Os biólogos do século dezenove Charles Darwin e ças genéticas que aparecerão nessas popula- Alfred Russel Wallace estabeleceram as bases para a Teoria da Evolução. ções podem ser diferentes. Uma vez que as populações passam por histórias diferentes de Uma conseqüência comum da seleção mutação, deriva genética e seleção natural natural é a adaptação, uma melhora da capa- (esta última sendo especialmente provável, se cidade média dos membros da população de os seus meios ambientes forem diferentes), sobreviver e reproduzir no seu meio ambien- elas seguem caminhos diferentes de mudan- 10
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    ça, divergindo emsua constituição genética e É importante fazer a distinção entre a nas características individuais dos organismos História da Evolução e os processos conside- (variação geográfica). As diferenças acumula- rados como explicativos desta história. A mai- das acabam fazendo com que as diferentes oria dos biólogos considera a História da Evo- populações se tornem reprodutivamente iso- lução — a proposta de que todas as espécies ladas: isto é, se seus membros se encontra- sejam descendentes, com modificações, de rem, não trocarão genes, porque não cruza- ancestrais comuns — como um fato — isto é, rão entre si ou, se o fizerem, a prole “híbrida” uma afirmação sustentada por provas tão con- será inviável ou infértil. As populações dife- tundentes que é aceita como verdadeira. O con- rentes agora são espécies diferentes. O signi- junto de princípios que descreve os proces- ficado deste processo de especiação é que, a sos causais da Evolução, tais como mutação, partir daí, as novas espécies poderão evoluir deriva genética e seleção natural, constitui a de forma independente. Algumas podem ori- Teoria da Evolução. O termo “teoria” é usado ginar ainda outras espécies, que poderão aca- aqui da mesma forma como em toda a ciên- bar se tornando extremamente diferentes en- cia, como em “Teoria Quântica” ou “Teoria tre si. Eventos sucessivos de especiação, as- Atômica,” significando não mera especulação sociados à divergência, dão origem a aglome- e sim um bem estabelecido sistema ou conjun- rados de ramos na árvore filogenética dos to de afirmações que explicam um grupo de fe- seres vivos. nômenos. Embora a maioria dos detalhes da Embora, separadamente, cada um dos História da Evolução ainda tenha de ser des- processos envolvidos na Evolução pareça re- crita (o que também é verdade em relação à lativamente simples, a Evolução não é tão di- História humana), a afirmação de que houve reta quanto possa parecer por este resumo. uma história de ancestrais comuns e de mo- Os vários processos da Evolução interagem dificação é fato tão plenamente confirmado de maneiras complexas e cada um deles, por quanto qualquer outro na Biologia. Contras- sua vez, tem numerosos matizes e complexi- tando com isso, a Teoria da Evolução, como dades. Um gene pode afetar vários caracteres, todas as teorias científicas, continua a se de- vários genes podem afetar um caráter, a sele- senvolver, à medida que novas informações ção natural pode mudar de taxa ou mesmo e idéias aprofundam a nossa compreensão. de direção de um ano para outro, ou pressões Os biólogos que estudam a Evolução acredi- de seleção conflitantes podem afetar um ca- tam firmemente que as suas principais cau- ráter. Levando-se em conta tais complexida- sas já foram identificadas. Entretanto, as opi- des, pode ficar bastante difícil prever quando niões sobre a importância relativa dos diver- e como um determinado caráter irá evoluir. A sos processos continuam a mudar, à medida teoria matemática e os modelos de computa- que novas informações acrescentam detalhes dor são ferramentas inestimáveis para a com- e modificam a nossa compreensão. Ainda as- preensão da maneira mais provável pela qual sim, citar a Evolução como um fato pode ge- um caráter irá evoluir. Grande parte da pes- rar controvérsia, pois provavelmente nenhu- quisa em Evolução consiste em formular mo- ma afirmação em toda a ciência desperta tanta delos precisos, muitas vezes quantitativos, e oposição emocional. Por isso, incluímos o depois testá-los por experimentação ou por Apêndice I, intitulado “Evolução: Fato, Teo- observação. ria, Controvérsia.” 11
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    QUAIS OBJETIVOS DA EVOLUTIV OLUTIVA? III. QUAIS SÃO OS OBJETIVOS DA BIOLOGIA EVOLUTIVA? A Biologia Evolutiva é a disciplina que mecanismos neurais, hormonais e do de- descreve a História da vida e investiga os pro- senvolvimento subjacentes ao comporta- cessos responsáveis por essa História. mento também são objetos de estudo A Biologia Evolutiva tem dois objetivos evolutivo, da mesma forma como as dife- amplos: renças adaptativas entre espécies, quanto à memória, aos padrões de aprendizado e • Descobrir a História da vida na Terra: isto a outros processos cognitivos, alguns dos é, (1) determinar as relações ancestral-des- quais se refletem em diferenças de estru- cendente entre todas as espécies que já tura cerebral. Os padrões de comportamen- viveram — sua filogenia; (2) determinar as to, fisiologia, estrutura e ciclo de vida épocas em que elas surgiram e se extin- freqüentemente evoluem em conjunto. guiram; e (3) determinar a origem de suas características, bem como o ritmo e o cur- • Biologia Evolutiva do Desenvolvimento Desenvolvimento volvimento. so de suas mudanças. Esta área procura compreender as mudan- ças evolutivas ocorridas nos processos de • Compreender os processos causais da Evo- tradução da informação genética contida lução: isto é, compreender (1) as origens no DNA de um organismo (o seu genótipo) das variações hereditárias; (2) de que modo em suas características anatômicas e ou- processos diversos atuam no sentido de in- tras (o seu fenótipo). Objetiva, em parte, fluenciar o destino dessas variações; (3) a descrever de que modo a variação ao ní- importância relativa dos numerosos pro- vel genético resulta em uma variação nas cessos coadjuvantes das mudanças; (4) características, que afeta a sobrevivência com que velocidade ocorrem as mudan- e a reprodução. Talvez o seu maior signifi- ças; (5) como processos tais como a muta- cado resida no seu potencial de revelar até ção, a seleção natural e a deriva genética que ponto os processos do desenvolvimen- deram origem às diversas características to distorcem, restringem ou facilitam a evo- moleculares, anatômicas, comportamen- lução do fenótipo. tais e outras dos diferentes organismos; e (6) como populações se tornam espécies • Ecologia Evolutiva Esta área dedica-se a Evolutiva. diferentes. Este vasto projeto de compre- observar como evoluem as histórias da ender as causas da Evolução baseia-se pra- vida, os tipos de alimentação e outras ca- ticamente na Biologia inteira e, reciproca- racterísticas ecológicas das espécies, como mente, a compreensão dos processos de esses processos afetam a composição e as Evolução fornece informações a todas as propriedades das comunidades e dos áreas da Biologia. ecossistemas e como as espécies evoluem em resposta umas às outras. Suas ques- A. Subdisciplinas da Biologia Evolutiva tões mais destacadas incluem: Como po- demos explicar a evolução de tempos de A Biologia Evolutiva inclui numerosas vida curtos ou longos? Por que algumas subdisciplinas, que diferem quanto aos seus espécies têm distribuição ampla e outras, assuntos e aos seus métodos. Algumas das restrita? Com o passar do tempo, os para- principais subdisciplinas são: sitas (incluindo os patógenos microbianos) evoluem no sentido de se tornarem mais • A Evolução Comportamental (também benignos ou mais virulentos? De que modo chamada Ecologia Comportamental). Os as mudanças evolutivas e a história pesquisadores da Evolução Comportamen- evolutiva interferem no número de espé- tal estudam a evolução de adaptações tais cies de uma comunidade tal como uma flo- como os sistemas de acasalamento, o com- resta tropical ou uma floresta da zona tem- portamento do “cortejo”, o comportamen- perada? to de procura de alimentos, os mecanis- mos de fuga de predadores e a coopera- • Genética Evolutiva A Genética Evolutiva Evolutiva. ção. As características comportamentais (que inclui a Genética de Populações) é evoluem de maneira muito semelhante às uma disciplina central no estudo dos pro- características estruturais. Mudanças nos cessos evolutivos. Ela utiliza tanto os mé- 12
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    todos da GenéticaMolecular, como os da mudam uma em relação à outra durante a Genética clássica, para compreender a ori- Evolução? Como e por que algumas espé- gem da variação por mutação e recombi- cies toleram uma ampla gama de fatores nação. Descreve os padrões de variação ambientais, como a temperatura, e outras genética dentro e entre populações e es- somente uma gama mais reduzida? Existe pécies, e usa tanto estudos empíricos como diversidade de mecanismos pelos quais as teoria matemática para descobrir como populações possam se adaptar a um novo essa variação é influenciada por proces- ambiente? sos tais como deriva genética, fluxo gênico e seleção natural. A teoria matemática da • Evolução humana Muitos biólogos que humana. Genética Evolutiva é essencial para a in- estudam a Evolução recorrem às subdis- terpretação da variação genética e para a ciplinas conceituais da Biologia Evolutiva previsão de mudanças evolutivas, quando para estudar grupos particulares de orga- há interação entre muitos fatores. Ela tam- nismos. Dentre esses grupos, um é especi- bém fornece uma base sólida para a com- almente notável: o gênero Homo. Os nu- preensão da evolução de classes especiais merosos antropólogos e biólogos que es- de características, tais como a estrutura do colhem a Evolução Humana como seu genoma e as histórias da vida. tema de estudo usam princípios, concei- tos, métodos e informações oriundos da • P a l e o n t o l o g i a E v o l u t i v a Esta área, a. Sistemática, Paleontologia, Genética e Eco- freqüentemente chamada Paleobiologia, logia Evolutivas e dos estudos da evolu- trata dos padrões evolutivos de grande es- ção do comportamento animal — o leque cala do registro fóssil. Examina as origens completo de disciplinas evolutivas. Outros e os destinos de linhagens e principais gru- pesquisadores estudam a variação genéti- pos, tendências evolutivas e outras mudan- ca e os processos que a influenciam nas ças anatômicas ao longo do tempo, além populações humanas contemporâneas (as- de variações geográficas e temporais da sunto intimamente relacionado com outras diversidade em todo o passado geológico. áreas da Genética Humana, como a Gené- Ela também procura compreender os pro- tica Médica). Outros ainda trabalham na cessos físicos e biológicos e os singulares controvertida área do comportamento e da acontecimentos históricos que moldaram psicologia humanos. a Evolução. Os dados paleontológicos abrem uma janela para tempos remotos, • Evolução Molecular Desenvolvendo-se Molecular. permitindo desta forma o estudo direto de em estreita ligação com o espetacular problemas que vão desde a mudança na avanço da Biologia Molecular, esta área forma e na distribuição de espécies ao lon- investiga a história e as causas das mudan- go de milhões de anos até as respostas ças evolutivas ocorridas nas seqüências de evolutivas dos principais grupos a mudan- nucleotídeos dos genes (DNA), na estrutu- ças ambientais, tanto catastróficas como ra e no número de genes, sua organização gradativas. Esses dados também permitem física nos cromossomos e muitos outros a calibragem da taxa de fenômenos como fenômenos moleculares. Esta área também as mutações nas seqüências de fornece instrumentos para a investigação nucleotídeos. de numerosas questões referentes à evo- lução dos organismos, que vão desde as • Fisiologia e Morfologia Evolutivas Esta Evolutivas. relações filogenéticas entre espécies até os ampla área dedica-se a observar a manei- padrões de cruzamento dentro de popula- ra pela qual os traços bioquímicos, fisioló- ções. gicos e anatômicos dos organismos os tor- nam adaptados ao seu ambiente e modo • Sistemática Os sistematas fazem a distin- Sistemática. de vida, bem como a história dessas adap- ção entre espécies e as nomeiam, inferem tações. Também está começando a definir relações filogenéticas entre espécies e clas- os limites da adaptação — pois esses limi- sificam espécies com base em suas rela- tes podem restringir a distribuição de uma ções evolutivas. Os sistematas contribuí- espécie ou levar à sua extinção. Entre as ram muito para a nossa compreensão da questões estudadas por esta área estão: De variação e da natureza das espécies. O seu que modo a forma e a função de um traço conhecimento especial a respeito de gru- 13
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    pos particulares deorganismos é indispen- • O acaso e a necessidade Um dos princí- necessidade. sável, tanto para se inferir a história da pios fundamentais da Ciência da Evolução Evolução, como para se compreender os é o de que os sistemas vivos devem as suas mecanismos detalhados dos processos propriedades a uma interação entre acon- evolutivos, já que cada grupo de organis- tecimentos estocásticos (aleatórios) e mos apresenta questões especiais, fasci- determinísticos (consistentes, previsíveis). nantes e freqüentemente importantes. Mutações casuais, impactos de asteróides Além disso, muitas vezes os conhecimen- e outros acontecimentos dessa natureza ti- tos dos sistematas têm uma utilidade ines- veram grande influência no curso da evo- perada. O conhecimento da sistemática e lução das espécies. Por isso, os biólogos das características biológicas do roedor que se dedicam ao estudo da Evolução de- Peromyscus maniculatus (deer mouse) tor- senvolveram teorias probabilísticas que nou-se de valor inestimável quando o novo descrevem a probabilidade de várias traje- hantavirus, do qual esses animais são hos- tórias evolutivas. Um importante corolário pedeiros, fez vítimas fatais nos Estados dos eventos aleatórios é a contingência Unidos. Da mesma forma, plantas aparen- histórica. Embora algumas adaptações a fa- tadas com espécies nas quais foi encon- tores ambientais sejam razoavelmente pre- trado algum composto de utilidade visíveis, outras características dos organis- farmacológica podem conter compostos mos são conseqüências de “acidentes his- semelhantes. tóricos” que lançaram a Evolução para uma via e não para outras. As modificações dos B. Perspectivas a partir da membros anteriores para o vôo, por exem- Biologia Evolutiva plo, são muito diferentes em aves, morce- gos e pterodáctilos, presumivelmente por- Disciplinas biológicas como a Biologia que mutações diferentes apresentaram à Molecular e a Fisiologia fazem perguntas so- seleção natural opções diferentes nessas bre o “como”: Como é que funcionam os or- linhagens. ganismos e suas partes? A Biologia Evolutiva acrescenta perguntas sobre o “porquê”: Por • Variação Embora os fisiologistas possam ariação. que determinados organismos têm certos tra- encarar a variação como um “ruído” inde- ços e outros não? Assim, enquanto grande sejável ou um erro de experimentação que parte da Biologia trata das causas imediatas obscurece um valor “verdadeiro”, a varia- dos fenômenos observados, a Biologia ção é o mais importante objeto de estudo Evolutiva trata das causas remotas. Possíveis para a maioria dos biólogos que se dedi- respostas a perguntas sobre as causas remo- cam ao estudo da Evolução. Provavelmente tas poderiam incluir “porque esta espécie her- nenhuma das lições da Biologia Evolutiva dou tal traço de seus ancestrais longínquos” é mais importante do que a conscientiza- ou “porque a sua história de seleção natural ção de que não existem “essências” platô- favoreceu este traço em detrimento de outros”. nicas ou propriedades fixas, “verdadeiras”, O fato de o embrião humano ainda ter fendas “normais”. Quase todo caráter apresenta branquiais somente pode ser compreendido alguma diferença entre os indivíduos de à luz de sua herança de ancestrais vertebra- uma população. A ênfase colocada na va- dos inferiores; o fato de andarmos eretos pode riação pelos biólogos que se dedicam ao ser compreendido como uma adaptação, um estudo da Evolução deu frutos metodo- traço favorecido pela seleção natural nos nos- lógicos — a saber, métodos estatísticos, sos ancestrais mais recentes. Ao mesmo tem- como a análise de variância e do coefici- po em que enfatizamos a História, devemos ente de pista ou passagem, amplamente reconhecer que a Evolução é um processo ati- usados em outras áreas. A perspectiva vo, contínuo, que atinge os seres humanos e evolutiva da variação também traz impli- todos os demais organismos vivos. cações para a maneira pela qual pensamos O estudo da Evolução impõe várias a respeito de “normalidade” e “anormali- perspectivas que deram importantes contri- dade” e a respeito das diferenças nas ca- buições conceituais à Biologia. racterísticas humanas. A consciência da 14
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    variação dentro daspopulações é um po- velados por esses sistemas modelo — e, deroso antídoto contra o racismo e a cria- efetivamente, sabemos que muitos desses ção de estereótipos para grupos étnicos e princípios são aplicáveis somente com outros. modificações, ou absolutamente não se aplicam, a um grande número de outras • Diversidade biológica Os biólogos que se biológica. espécies. A regulação gênica, por exem- dedicam ao estudo da Evolução não estão plo, foi esclarecida primeiro em bactérias, apenas intrigados pela diversidade da vida, mas é muito diferente nos eucariontes. Pre- mas têm também clara consciência das cisamos estudar organismos diversos, a fim contribuições que o estudo de organismos de aprender sobre adaptações fisiológicas diversos traz à Biologia. Prova disso são à escassez de água nas plantas do deserto os imensos avanços da Biologia que se ori- (incluindo potenciais plantas de safra), os ginaram dos estudos aprofundados de “mo- mecanismos pelos quais os parasitas com- delos” de organismos tais como leveduras, batem os sistemas imunológicos de seus milho, ratos, a bactéria Escherichia coli e a hospedeiros, ou a evolução do comporta- mosca da fruta Drosophila melanogaster; de mento social, da comunicação ou do fato, muitos biólogos que se dedicam ao aprendizado nos animais como os prima- estudo da Evolução estudam esses orga- tas. Organismos diferentes apresentam nismos modelo. Entretanto, sem examinar questões biológicas diferentes e, para cada outras espécies, não podemos saber o al- questão, há espécies que se prestam mais cance da aplicabilidade dos princípios re- à investigação do que outras. Um Exemplo de Uso dos Conhecimentos sobre Biodiversidade Charles W. Myers 1 e John W. Daly2 W. W. 1 American Museum of Natural History 2 National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases O conhecimento das relações evolutivas (filogenéticas) têm ajudado os pesquisadores científicos a descobrirem compostos naturais úteis na pesquisa biomédica. Os sa- pinhos-ponta-de-flecha constituem um grupo de espéci- es relacionadas de anfíbios tropicais do Novo Mundo, en- contrados na América Central e do Sul. Seus venenos têm como base uma classe de compostos químicos chama- dos alcalóides, que os sapinhos conseguem obter de pe- quenos insetos e outros invertebrados dos quais se ali- mentam e que, mais tarde, liberam em secreções cutâneas defensivas. Alcalóides de três espécies desses sapos são usados para envenenar as flechas das zarabatanas dos caçadores nativos das selvas da Colômbia Ocidental. A batracotoxina, um alcalóide isolado de um desses sapinhos-ponta-de-flecha, o Phyllobates terribilis,1 mostrou-se útil ao se estudarem os efeitos de anestésicos locais, anticonvulsivos e outras drogas. Alcalóides da classe das pumiliotoxinas de um sapinho-ponta-de-flecha da América Central, o Dendrobates pumilio, revelaram ter ativida- de cardiotônica (estimulante do coração). A epibatidina, alcalóide isolado da pele de um sapinho-ponta-de-flecha sul-americano, o Epipedobates tricolor, é 200 vezes mais poderoso como analgésico (remédio contra dor) do que a morfina e estão em andamento vastas pesquisas de um análogo sintético comercial, por causa de sua poderosa atividade semelhante à nicotina. Estes são apenas alguns dos compostos de utilidade médica inicialmente des- cobertos nos sapinhos-ponta-de-flecha tropicais. Trabalhando em contato estreito com biólogos que estudam a Evolução e sistematas que localizam, identificam e descrevem novas espécies de sapinhos-ponta-de-flecha, os pesquisadores científicos continuam a identificar novos compostos úteis na pesquisa biomédica. Badio, B., H. M. Garraffo, T. F. Spande, and J. W. Daly. 1994. Epibatidine: discovery and definition as a potent analgesic and nicotinic agonist. Med. Chem. Res. 4: 440–448. 15
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    IV. COMO SEESTUDA A EVOLUÇÃO? IV. ESTUDA EVOLUÇÃO? Uma vez que a Biologia Evolutiva abran- mum mais recente do que espécies com ge tudo, dos estudos moleculares até os um número menor de características em paleontológicos, um catálogo dos seus méto- comum. É óbvio, assim, que ratos, baleias, dos preencheria vários volumes. Nós pode- macacos e outros mamíferos têm entre si mos citar apenas alguns dos métodos mais um ancestral comum mais recente do que gerais e comumente usados. com aves ou lagartos, uma vez que os ma- míferos possuem muitas características • Métodos de inferência filogenética são singulares derivadas (p. ex., leite, pêlos, usados para estimar relações entre espé- mandíbula única). É menos óbvio, mas as- cies (vivas e extintas). Progressos recentes sim mesmo cada vez mais provável, à me- dos métodos lógicos e de computação au- dida que se acumulam novos dados, que mentaram consideravelmente a confiança os chimpanzés sejam parentes mais pró- nessas estimativas. Usando uma excessi- ximos dos humanos do que dos gorilas. va simplificação, o princípio no qual se Tais conclusões baseiam-se não somente baseiam esses métodos é o de que espéci- em métodos melhorados de análise dos es com um número maior de característi- dados, mas também em um acervo prati- cas derivadas (“avançadas”) em comum camente inexaurível de novos dados: lon- tenham se originado de um ancestral co- gas seqüências de DNA, revelando muito As Origens do Homem Moderno Douglas J. Futuyma State University of New York at Stony Brook A maioria dos hominídeos fósseis de cerca de 1 milhão a 300.000 anos atrás é classificada como Homo erectus, que esteve amplamente distribuído desde a África até a Ásia Oriental. As características esqueléticas do Homo erectus evoluíram gradualmente para as do Homo sapiens. A tran- sição anatômica entre o Homo sapiens “arcaico” — como os neandertalenses — e o Homo sapiens “anatomicamente moderno” ocorreu na África cerca de 170.000 anos atrás e, algum tempo depois, em outro lugar. Até recentemente, a suposição geral era de que os genes para as características modernas tivessem se espalhado por diferentes populações humanas “arcaicas”, de modo tal que todas as diferentes populações arcaicas tivessem evoluído para o homem moderno, mantendo porém algumas diferenças genéticas que persistem até hoje entre diferentes populações huma- nas. Esta idéia é conhecida como a “hipótese multi-regional”. A hipótese multi-regional foi contestada por alguns geneticistas que propuseram, em vez disso, que o ho- mem anatomicamente moderno tenha evoluído inicialmente na África e se difundido depois pela Europa e Ásia, substituindo os humanos arcaicos sem que houvesse reprodução cruzada entre eles.1 Segundo esta hipótese da “origem africana”, as populações humanas arcaicas da Europa e da Ásia teriam legado poucos genes, se é que deixaram algum, às populações de hoje. Esta hipótese baseia-se em estudos sobre a variação na seqüência de certos genes, como os genes mitocondriais, de populações humanas de todo o mundo. Esses genes mostram que as seqüências de DNA de populações diferentes são mais semelhantes do que seria de se esperar, caso elas tivessem acumulado mutações diferentes durante 300.000 anos ou mais. Além disso, as seqüências das popula- ções africanas diferem mais entre si do que as seqüências dos europeus, asiáticos e índios americanos – o que pode indicar que as populações africanas são mais antigas e tiveram mais tempo para acumular diferenças mutacionais entre seus genes. As análises destes genes sugerem que o homem moderno se difundiu a partir da África há cerca de 150.000 a 160.000 anos. Se isso for verdade, todos os seres humanos têm um parentesco mais próximo entre si, sendo descendentes de ancestrais comuns mais recentes do que se pensava anteriormente. Assim mesmo, alguns genes apresentam um quadro diferente. Nesses casos, a quantidade de variação de seqüências de DNA entre cópias de genes é maior nas populações asiáticas do que nas africanas e as diferenças entre as populações são suficientemente grandes para sugerir que elas tenham divergido há mais de 200.000 anos – antes do aparecimen- to de seres humanos anatomicamente modernos no registro fóssil. Embora muitos dos pesquisadores neste campo estejam se inclinando para a hipótese da “origem africana”, a questão ainda não está resolvida e haverá necessidade de maior número de dados, antes que se possa chegar a uma conclusão segura sobre a origem do homem moderno. 1 R.L. Cann et al., Nature 325:31-36 (1987); D.B. Goldstein et al., Proc. Natl. Acad. Sci. USA 92:6723-6727 (1995); N. Takahata, Annu. Rev. Ecol. Syst. 26:343-372 (1995); R.M. Harding et al., Am. J. Hum. Genet. 60:772-789 (1997). 16
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    mais semelhanças ediferenças entre as es- mais domésticos, é uma ferramenta impor- pécies do que as facilmente encontradas tante para medir e distinguir variações ge- em sua anatomia. Os mesmos métodos néticas e não-genéticas das características usados para inferir a genealogia das espé- fenotípicas. Um dos métodos para fazer cies podem ser usados para inferir a esta distinção envolve a medida das seme- genealogia dos próprios genes. Assim, por lhanças entre parentes, o que exige o co- exemplo, estudos moleculares da Evolução nhecimento das relações entre os indiví- podem usar seqüências de DNA para esti- duos pertencentes a populações naturais. mar há quanto tempo variantes de um Muitas vezes, tais informações podem ser gene, presentes em pessoas diferentes, obtidas por meio de marcadores genéticos surgiram a partir de um único gene ances- moleculares. Avanços recentes das tral. tecnologias moleculares baseadas no DNA viabilizaram a construção de mapas gené- • Bancos de dados paleontológicos A paleontológicos. ticos detalhados para uma ampla gama de Paleontologia Evolutiva fundamenta-se na espécies, bem como a identificação de re- Sistemática, incluindo a inferência giões específicas do DNA que controlam filogenética, pois é necessário classificar os ou regulam caracteres quantitativos. organismos fossilizados e determinar as re- lações entre eles, antes que eles possam • Inferência a partir de padrões genéticos genéticos. ser utilizados para qualquer outra coisa. Muitas mudanças evolutivas (embora não Feito isto, os fósseis podem ser usados para todas) levam períodos imensos de tempo, dois tipos principais de estudos evolutivos. de modo que freqüentemente os proces- Um é o rastreamento das mudanças sos envolvidos são inferidos com base em evolutivas das características das linhagens padrões de variação existentes, e não em ao longo do tempo geológico, como as observação direta. Muitas hipóteses sobre ocorridas durante a descendência dos ma- processos evolutivos podem ser testadas míferos a partir de seus ancestrais répteis. comparando-se os padrões de variação O outro é a determinação dos tempos e genética e fenotípica com aqueles previs- velocidades de surgimento e extinção das tos por modelos evolutivos. Por exemplo, linhagens e o estabelecimento da correla- a “teoria neutra” da evolução molecular por ção de tais mudanças com outros eventos deriva genética sustenta que a variação da História da Terra. Por exemplo, cada molecular intraespecífica deveria ser mai- uma de cinco grandes extinções em massa or e a divergência entre espécies mais rá- — uma delas claramente devida ao impac- pida, para genes cujas mutações, em sua to de um asteróide — foi seguida de um maioria, não têm efeito sobre o valor grande aumento na velocidade de adaptativo do organismo, do que para surgimento de espécies e de taxons supe- genes cujas mutações, em sua maioria, têm riores, fornecendo provas de que a diver- grande efeito sobre o valor adaptativo. Se- sificação das espécies é estimulada pela gundo este modelo, genes que codificam disponibilidade de recursos ociosos. Os proteínas de pouca importância, ou que estudos da biodiversidade fóssil baseiam- não codificam nenhuma proteína funcio- se em bancos de dados computadorizados nal, deveriam apresentar variação de referentes à ocorrência geológica e geo- nucleotídeos maior do que genes que co- gráfica de milhares de taxons fósseis, da- dificam proteínas funcionalmente impor- dos acumulados por milhares de paleon- tantes. Estudos de variação do DNA con- tólogos de todo o mundo ao longo de dois firmaram amplamente este modelo. Este séculos. modelo é tão poderoso que atualmente os biólogos moleculares usam rotineiramen- • Caracterização da variação genética e te o nível de variação das seqüências en- fenotípica Caracterizar a variação é uma fenotípica. tre espécies como indício de uma maior ou das tarefas mais importantes da Biologia menor importância da função de uma se- Evolutiva. Os métodos estatísticos usados qüência de DNA recém-descrita. para isso podem ser aplicados a muitos ti- pos diferentes de dados. A análise genéti- • Observação das mudanças evolutivas evolutivas. ca quantitativa, também usada amplamen- Algumas mudanças evolutivas importan- te no cultivo de plantas de safra e de ani- tes ocorrem com rapidez suficiente para 17
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    que possam serdocumentadas no decor- essas adaptações (16). Um grupo de pes- rer de uma ou de algumas vidas científi- quisadores previu as mudanças evolutivas cas. Isto é particularmente provável quan- que ocorreriam nas características da his- do, devido a atividades humanas ou ou- tória de vida (p. ex., velocidade de amadu- tras causas, o ambiente de uma população recimento) dos lebistes (peixes), se eles muda ou quando uma espécie é fossem expostos a determinada espécie de introduzida em um novo ambiente. Por peixes predadores. Eles introduziram exemplo, as mudanças no suprimento ali- lebistes em um rio de Trinidad onde vivia mentar devido à seca nas Ilhas Galápagos esse predador e constataram que, depois causaram, no período de poucos anos, uma de aproximadamente seis anos, os lebistes mudança evolutiva substancial, embora introduzidos diferiam da população ances- temporária, no tamanho do bico de um tral exatamente do modo previsto por eles tentilhão; um vírus introduzido na Austrá- (50). lia para controlar os coelhos evoluiu para uma menor virulência em menos de uma • O método comparativo Evolução conver- comparativo. década (e a população de coelhos tornou- gente é a evolução independente, em linha- se mais resistente a ele); os ratos evoluí- gens diferentes, de características seme- ram para a resistência ao veneno warfarin; lhantes que servem para a mesma função desde a II Guerra Mundial, centenas de es- ou para funções semelhantes. Por exem- pécies de insetos que infestam safras e plo, vários grupos não-aparentados de pei- transmitem doenças desenvolveram resis- xes que habitam águas turvas desenvolve- tência ao DDT e a outros inseticidas; e a ram independentemente a capacidade de rápida evolução da resistência a antibióti- gerar um campo elétrico fraco, que lhes cos nos microorganismos patogênicos gera permite perceber objetos próximos. A evo- um dos mais sérios problemas de saúde pú- lução convergente é tão comum que mui- blica (4, 42). tas vezes pode ser usada para testar hipó- teses. Se levantarmos a hipótese de certa • Experimentação Estudos evolutivos mui- Experimentação. função para uma característica, a sua ocor- tas vezes envolvem experimentos tais rência ou condição deveria estar correla- como a colocação de populações em no- cionada com ambientes ou tipos de vida vos ambientes e a monitorização das mu- específicos. Por exemplo, os ecólogos que danças, ou a seleção direta de um caráter se dedicam ao estudo da Evolução previ- particular pelo qual se tenha interesse. ram que, independentemente de suas re- Entre os experimentos mais comuns estão lações filogenéticas, espécies de plantas aqueles que analisam as mudanças que habitam ambientes com pouca luz, evolutivas em populações manipuladas, água ou nutrientes e que, por isso, não seja em condições naturais, seja no labo- conseguem repor rapidamente os tecidos ratório, usando organismos com tempos de perdidos para herbívoros deveriam conter geração curtos, capazes de evoluir rapida- quantidades maiores de substâncias quí- mente. Os pesquisadores vêm usando, por micas defensivas do que espécies que cres- exemplo, populações de bactérias de labo- cem em ambientes de maior abundância. ratório para monitorar o curso da adapta- Comparando grande número de espécies ção a temperaturas elevadas, novas dietas de plantas que crescem em ambientes di- químicas, antibióticos e bacteriófagos (ví- ferentes, os ecólogos que se dedicam ao rus que atacam bactérias), tendo caracte- estudo da Evolução encontraram provas de rizado as novas mutações subjacentes a peso a favor desta previsão (11). 18
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    Aumentos dos númerosde espécies de pragas resistentes às principais classes de inseticidas. (De R.L. Metcalf em: R.L. Metcalf e W.H. Luckman (eds.), Introduction to Insect Pest Management, 3ª edição, p. 251, Copyright 1994 de John Wiley and Sons, N.Y.) Pragas de Insetos: Resistência e Controle Douglas J. Futuyma State University of New York at Stony Brook A Evolução é um processo dinâmico, contínuo, que pode ter um impacto direto e importante sobre o bem- estar humano. A evolução da resistência a inseticidas em espécies de insetos que constituem pragas e em outros artrópodes oferece um exemplo espetacular deste fato.1 Desde a II Guerra Mundial, vêm sendo usados inseticidas sintéticos para o controle de insetos e ácaros que causam perdas imensas de safras e, por serem vetores de malária e outras doenças, representam grandes ame- aças à saúde pública. Entretanto, muitos programas de controle químico estão fracassando ou já fracassaram, porque as espécies que constituem pragas desenvolveram resistência. Mais de 500 espécies desenvolveram resistência a pelo menos um inseticida. Atualmente, muitas espécies que constituem pragas são resistentes a todos, ou quase todos, os inseticidas disponíveis. Além disso, algumas espécies que eram incomuns tornaram-se pragas sérias porque o uso de inseticidas extinguiu os seus inimigos naturais. À medida que os insetos foram se tornando mais resistentes, os agricultores foram aplicando níveis cada vez mais altos de inseticidas às suas plantações, a tal ponto que, atualmente, são aplicadas, nos Estados Unidos, mais de 500.000 toneladas por ano. A resistência tornou necessário o desenvolvimento de novos inseti- cidas, cada um deles a um custo médio de 8 a 10 anos e 20 a 40 milhões de dólares norte-americanos em pesquisa e desenvolvimento. Portanto, a evolução dos insetos impôs um enorme ônus econômico (cerca de 118 milhões de dólares US, somente nos Estados Unidos) e um ônus ambiental crescente, pelas substâncias químicas que podem colocar em perigo a saúde humana e os ecossistemas naturais. A resistência dos insetos evolui rapidamente, porque a seleção natural aumenta as mutações raras que não são vantajosas em condições normais, mas casualmente conferem proteção contra substâncias químicas dano- sas. Entomólogos com formação em Genética Evolutiva desenvolveram estratégias para retardar a evolução da resistência. A estratégia mais eficaz, baseada tanto em modelos evolutivos como em provas, é de fornecer à espécie que constitui praga “refúgios” livres de pesticidas, nos quais os genótipos suscetíveis possam se reprodu- zir, impedindo desta forma que os genótipos resistentes dominem o ambiente. A estratégia oposta, que intuitiva- mente parece atraente – de tentar arrasar a população de insetos com “bombardeio de saturação” – simplesmen- te acelera a evolução da resistência porque aumenta a força da seleção natural. Embora a evolução da resistência possa ser retardada, na maioria dos casos ela provavelmente é inevitável. Por isso, as estratégias modernas de controle de pragas combinam pesticidas com outras táticas. Por exemplo, ácaros em pomares de amendoeiras têm sido controlados pela aplicação tanto de um pesticida como de ácaros predadores, selecionados em laboratório pela resistência a pesticidas. Foram desenvolvidas variedades de plan- tações geneticamente resistentes a certos insetos, usando-se tanto métodos tradicionais de seleção, como enge- nharia genética. Por exemplo, foram produzidas por engenharia genética linhagens de várias plantações que possuem um gene bacteriano para uma proteína (toxina Bt) que é tóxica para certos insetos. Muitas vezes, as variedades de plantas resistentes a pragas foram economicamente muito lucrativas, mas a história mostrou que, quando seu plantio se generaliza, a praga de insetos acaba desenvolvendo a capacidade de atacá-las, fazendo com que tenham de ser desenvolvidas novas linhagens genéticas, às quais a praga ainda não esteja adaptada. Pelo menos uma espécie que constitui praga, a traça-das-crucíferas, já se adaptou à toxina Bt. Assim, a “corrida armamentista” entre a evolução dos insetos e a engenhosidade humana representa um desafio permanente. 1 National Academy of Sciences (ed.), Pesticide resistance: Strategies and tactics for management (National Academy Press, Wa- shington, D.C., 1986); R.L. Metcalf and W. H. Luckmann (eds.), Introduction to insect pest management, 3d edition (Wiley, New York, 1994); R.T. Roush and B.E. Tabashnik (eds.), Pesticide resistance in arthropods (Chapman and Hall, New York, 1990); B.E. Tabashnik, Annu. Rev. Entomol. 39:47-79 (1994); A.L. Knight and G.W. Norton, Annu. Rev. Entomol. 34:293-313 (1989). 19
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    IV. DE QUEMODO A BIOLOGIA EVOLUTIVA CONTRIBUI IV. EVOLUTIV OLUTIVA SOCIEDADE? PARA A SOCIEDADE? As numerosas subdisciplinas da Biolo- prevalentes porque os portadores hetero- gia Evolutiva deram incontáveis contribuições zigotos têm maior resistência à malária. no sentido de atender necessidades da socie- Esta é uma clara ilustração da teoria, de- dade. Mencionaremos aqui apenas alguns senvolvida por biólogos dedicados ao es- exemplos. Iremos nos concentrar especial- tudo da Evolução décadas antes da descri- mente nas contribuições à saúde humana, à ção do padrão siclêmico, de que uma van- agricultura e recursos renováveis, produtos tagem adaptativa do heterozigoto pode naturais, gerenciamento e conservação ambi- manter alelos deletérios nas populações. ental e análise da diversidade humana. Tam- bém mencionaremos algumas extensões da Pode ser importante para os casais conhe- Biologia Evolutiva para além do campo das cer a probabilidade de que seus filhos her- ciências biológicas. dem doenças genéticas, especialmente se elas já ocorreram em sua história familiar. A. Saúde Humana e Medicina O Aconselhamento Genético vem forne- cendo esse tipo de orientação há muitas • Doenças genéticas Doenças genéticas genéticas. décadas. O Aconselhamento Genético é são causadas por variantes de genes ou de Genética de Populações aplicada, pois, para cromossomos, embora a expressão de tais calcular a probabilidade de se herdar um condições muitas vezes seja influenciada defeito genético, baseia-se tanto na análi- por fatores ambientais (inclusive sociais e se genealógica (Genética padrão) como no culturais) e pela constituição genética de conhecimento da freqüência de um deter- outros locos do indivíduo. Às muitas do- minado alelo na população geral. Da mes- enças clínicas causadas por variantes ge- ma forma, a avaliação das conseqüências néticas podemos acrescentar muitas con- para a saúde de um casamento entre pes- dições comuns associadas à idade, com- soas aparentadas ou da maior exposição a ponentes importantes das dificuldades de radiações ionizantes e outros mutágenos aprendizado e distúrbios do comportamen- ambientais depende criticamente de teori- to, todas contribuindo para o sofrimento as e métodos desenvolvidos por geneti- humano e exigindo recursos médicos, edu- cistas de populações (65). cacionais e de assistência social. Cada um desses distúrbios genéticos é causado por A Biologia Molecular está revolucionando alelos em um ou mais locos gênicos, cuja a Genética Médica. Agora existe a tecno- freqüência varia de muito rara até mode- logia para localizar genes e determinar sua radamente comum (como os alelos para seqüência, na esperança de determinar as siclemia e fibrose cística, que são bastante diferenças funcionais entre alelos deleté- freqüentes em algumas populações). As rios e alelos normais. Os portadores de freqüências alélicas são o tema da Genéti- alelos deletérios podem ser identificados a ca de Populações, que pode ser aplicada partir de pequenas amostras de DNA (in- de imediato a duas tarefas: determinar as cluindo as obtidas por amniocentese) e a razões da freqüência de um alelo deletério terapia genética, pela qual alelos defeituo- e estimar a probabilidade de que uma pes- sos podem ser substituídos por alelos nor- soa herde o alelo ou desenvolva o traço. mais, é uma possibilidade real. Métodos e Assim, por exemplo, a alta freqüência de princípios desenvolvidos por biólogos que alelos para siclemia e várias outras hemo- se dedicam ao estudo da Evolução contri- globinas defeituosas em alguns locais ge- buíram para esses avanços e é provável ográficos sinalizou aos geneticistas de po- que dêem outras contribuições no futuro. pulações a probabilidade de que algum A localização do gene para determinado agente da seleção natural estivesse man- traço, por exemplo, não é tarefa fácil. O tendo esses alelos nas populações. Sua dis- processo baseia-se em associações entre tribuição geográfica sugeria uma associa- o gene procurado e marcadores genéticos ção com a malária, tendo pesquisas ulteri- ligados (p. ex., genes adjacentes no mes- ores confirmado que esses alelos são mo cromossomo). A solidez da associação 20
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    A Natureza eDistribuição das Doenças Genéticas Humanas Aravinda Chakravarti Case Western Reserve University Cada população humana traz consigo sua carga singular de doenças genéticas. Assim, pes- soas de ascendência européia têm maior freqüên- cia de fibrose cística, africanos e seus descenden- tes têm freqüência aumentada de siclemia e mui- tas populações asiáticas têm incidência mais alta de uma anemia chamada talassemia. Esses dis- túrbios raros resultam de mutações em genes in- dividuais e exibem padrões de herança simples. As técnicas moleculares modernas permitiram a identificação de muitos genes para doenças, bem como das mudanças específicas na seqüência do DNA que levam à doença. Um achado surpreen- dente foi que a alta freqüência de muitos desses Gradiente de distribuição na Europa da principal mutação causadora da distúrbios não se deve ao fato de os genes fibrose cística, em relação ao total dos genes subjacentes serem altamente mutáveis, e sim a um aumento na freqüência de uma ou mais mu- tações específicas. Em muitos casos, o aumento da freqüência pode ter ocorrido por acaso (um efeito loteria). Por exemplo, muitas doenças genéticas são particularmente pronunciadas em isolados sociais, religiosos e geográ- ficos, como os Amish, os Menonitas e os Huteritas nos EUA, cujos ancestrais foram pequenos grupos de fundado- res aparentados. Em outros casos, como o da fibrose cística, da siclemia e das talassemias, há evidências consi- deráveis de que as mutações tenham aumentado por causa de uma vantagem na sobrevivência dos indivíduos portadores de uma cópia da mutação, que, porém, não são afetados clinicamente, podendo portanto transmitir a mutação às futuras gerações. O conhecimento da nossa ascendência, isto é, dos genes e mutações que recebemos dos nossos antepas- sados e dos processos evolutivos que moldaram suas distribuições, é crucial para podermos compreender as doenças genéticas humanas. Um importante princípio revelado por estudos genéticos recentes sobre fibrose cística, siclemia, talassemias e outras doenças é o de que os numerosos pacientes portadores da mutação mais comum de cada uma dessas doenças são portadores porque têm um ancestral comum; isto é, são parentes distantes. Conseqüentemente, esses indivíduos também têm em comum segmentos de DNA relativamente gran- des, contíguos, que circundam a mutação. Os geneticistas começaram a utilizar este princípio do possível paren- tesco evolutivo dos pacientes como método de mapeamento e identificação de genes para doenças. Se a muta- ção gênica responsável estiver localizada em um segmento de DNA presente na maioria ou em todos os pacien- tes, o mapeamento do gene para a doença equivale a procurar, nos pacientes, segmentos de DNA comuns. Existe atualmente um grande interesse pelas análises genéticas de distúrbios poligênicos, como câncer, hipertensão e similares, em vista do grande ônus que representam para todas as sociedades. Em cada um dos genes responsáveis por estas doenças humanas comuns, também é esperada a presença, de origem evolutiva, de mutações comuns nos pacientes. Diferentemente dos distúrbios raros, é esperado que essas mutações sejam mais comuns e tenham um segmento menor de DNA em comum nos pacientes, já que elas são muito mais antigas na população humana. Além disso, a incidência dessas doenças comuns também varia entre populações humanas diferentes, devido tanto à variação da constituição genética, como do meio ambiente. Por essas razões, é difícil identificar os genes subjacentes a essas doenças. A fim de realizar esta tarefa, os cientistas estão criando um mapa de altíssima resolução dos genes e seqüências humanos. Este mapa consiste de “marcadores”, seg- mentos conhecidos e ordenados de DNA humano, que variam entre os indivíduos quanto à composição das seqüências. Espera-se que o princípio do mapeamento para encontrar genes de suscetibilidade e resistência a doenças pela comparação dos DNAs dos pacientes quanto a padrões de seqüências comuns tenha um papel decisivo nessas descobertas. No futuro, este e outros princípios evolutivos novos contribuirão para a identifica- ção de novos genes para doenças e para a compreensão da atual distribuição das doenças genéticas humanas no mundo. de um alelo com tais marcadores — a pro- lização e subseqüente seqüenciamento de babilidade de que um marcador no um alelo deletério comum — aquele que cromossomo de qualquer pessoa assinale causa a fibrose cística. À medida que avan- a presença de um alelo deletério vizinho a ça o trabalho de realização das recompen- ele — é o grau de “desequilíbrio de ligação.” sas prometidas pelo Projeto Genoma Hu- A teoria da Genética de Populações foi de- mano, vai crescendo o papel desempenha- senvolvida para prever o grau de do pelas teorias provenientes da Genética desequilíbrio de ligação como função de de Populações (29). fatores tais como as freqüências alélicas, as taxas de recombinação e o tamanho da Determinar qual das muitas diferenças de população. Esta teoria foi de crucial impor- nucleotídeos entre um alelo deletério e um tância em um dos primeiros casos de loca- alelo normal causa uma doença é impor- 21
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    tante para acompreensão de como seus ocorrido qualquer mutação que altere o ris- efeitos podem ser remediados. Estudos co para alguma doença sistêmica, todo o evolutivos moleculares deram origem a ramo da árvore gênica portador daquela vários métodos capazes de ajudar a dis- mutação deve apresentar a mesma asso- tinguir uma variação na seqüência de um ciação com a doença. gene que afeta fortemente o valor adaptativo (afetando a função) de uma va- Análises de árvores gênicas já foram usa- riação relativamente neutra. Esses méto- das com sucesso na descoberta de dos empregam análises de variação de se- marcadores genéticos indicativos de risco qüências de DNA, tanto intraespecíficas, para arteriopatia coronária (23), risco para como entre espécies com parentesco pró- mal de Alzheimer (58) e a resposta dos ní- ximo. Estamos prevendo que esses méto- veis de colesterol à dieta alimentar (18). dos, incluindo as comparações entre genes Além disso, análises evolutivas de árvores humanos e seus homólogos em outros gênicas podem ajudar na identificação da primatas, ajudarão a identificar as varia- mutação que realmente causa o efeito sig- ções causadoras de doenças genéticas. nificativo sobre a saúde (23,56) — um pri- Neste contexto, os crescimento dos ban- meiro passo crítico para a compreensão da cos de dados de seqüências gênicas de etiologia da doença e o planejamento de grande número de espécies, bem como o possíveis tratamentos. À medida que fo- Projeto Genoma Humano, oferecerão rem identificados mais genes candidatos abundância de oportunidades para com- para doenças sistêmicas comuns, haverá parações. maior necessidade de análises evolutivas no futuro. • Doenças sistêmicas Todas as doenças sistêmicas. genéticas em conjunto afetam somente • Doenças infecciosas Doenças infecciosas infecciosas. cerca de 1% da população humana. Por são causadas por organismos parasitas tais outro lado, cada vez mais doenças e mor- como vírus, bactérias, protistas, fungos e tes humanas estão associadas com doen- helmintos (vermes). O controle e tratamen- ças sistêmicas crônicas, como a arterio- to das doenças infecciosas requer não ape- patia coronária, o derrame, a hipertensão nas pesquisa médica, mas também pesqui- e o mal de Alzheimer. sa e ações ecológicas. As perguntas críti- cas incluem: Qual é o organismo causador Essas doenças originam-se de um comple- da doença? De onde ele veio? Há outras xo conjunto de interações entre genes e espécies hospedeiras que funcionem como ambiente. Esta complexidade dificulta o es- reservatórios para o organismo? Como ele tudo da ligação entre genes e doença se propaga? Se for propagado por um vetor sistêmica. Os princípios e as abordagens como algum inseto, qual é a dispersão tí- evolutivas já tiveram um importante im- pica do vetor e que outras propriedades pacto no estudo desta ligação (65). Assim, ecológicas do vetor poderiam ser explora- por exemplo, sendo conhecidas suas fun- das para controlar a propagação? Como é ções bioquímicas ou fisiológicas, alguns que o organismo causa a doença e como genes podem ser identificados como ela pode ser tratada com drogas ou outras “genes candidatos” de contribuírem para terapias? Como ele se reproduz — de ma- o aparecimento de alguma doença neira sexuada ou assexuada ou ambas? É sistêmica. Existe, porém, tanta variação provável que ele desenvolva resistência a genética molecular nesses locos candida- drogas ou às defesas naturais do corpo e, tos na população humana geral que encon- em caso afirmativo, com que rapidez? É trar as variantes específicas associadas provável que ele desenvolva virulência com o risco de doença assemelha-se à pro- maior ou menor no futuro e em que condi- verbial procura da agulha no palheiro. Para ções ele o fará? A cada uma dessas per- estimar uma árvore gênica a partir dessa guntas, a Biologia Evolutiva pode e vai dar variação genética, podem-se usar técnicas respostas. filogenéticas evolutivas. Uma árvore gênica deste tipo representa a história evolutiva Identificar um organismo causador de do- das variantes genéticas do gene candida- ença e o seu vetor, se houver, é assunto da to. Se, durante a história evolutiva, tiver Sistemática. Se for, como no caso do HIV, 22
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    um organismo previamentedesconhecido, Os métodos da Genética de Populações são a Sistemática filogenética poderá nos di- indispensáveis para a descoberta do modo zer quais são os seus parentes mais próxi- de reprodução dos patógenos e de seus mos, o que imediatamente nos fornece in- vetores, bem como de sua estrutura popu- dícios de sua área de origem, outras possí- lacional — isto é, os tamanhos e as pro- veis espécies hospedeiras e muitas de suas porções de trocas entre populações locais. prováveis características biológicas, como Por exemplo, usando marcadores genéti- o seu modo de transmissão. Se fosse en- cos múltiplos para estudar a Salmonella e contrada, por exemplo, uma nova espécie a Neisseria meningitidis (a causa da doença de protozoário causador da malária meningocócica), geneticistas de popula- (Plasmodium), poderíamos prever com se- ções descobriram que ambas essas bacté- gurança que ele é transportado por mos- rias patogênicas se reproduzem principal- quitos Anopheles, assim como outras es- mente de modo assexuado, mas ocasional- pécies de Plasmodium. Da mesma forma, é mente transferem genes por recombina- essencial identificar os vetores de doenças ção, mesmo entre linhagens com paren- usando os métodos da Sistemática. Os pro- tesco distante. As variações imunológicas gressos no controle da malária na região que os bacteriologistas têm usado tradici- do Mediterrâneo foram lentos, até se des- onalmente para classificar linhagens des- cobrir que havia seis espécies quase idên- sas bactérias não apresentam boa correla- ticas de mosquitos Anopheles, diferentes ção com as linhagens genéticas reveladas em seu habitat e história de vida, dos quais por marcadores genéticos múltiplos, nem apenas duas costumam transmitir o orga- com variações na patogenicidade ou na nismo causador da malária. especificidade do hospedeiro. Por isso, a Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) E. C. Holmes Oxford University Muitos vírus, mais destacadamente o vírus da imunodeficiência humana (HIV), exibem uma enorme diversi- dade genética — diversidade que muitas vezes aparece dentro do período de observação humana e que freqüentemente cria obstáculos às tentativas de controle e erradicação. A Biologia Evolutiva teve um papel importante na descrição da amplitude desta variação, na determinação dos fatores que foram responsáveis pela sua origem e manutenção e na avaliação de como ela pode influir no desfecho clínico de uma infecção. É possível ilustrar a importância da análise evolutiva neste contexto — particularmente em relação ao HIV, para o qual há mais dados disponíveis — em três níveis diferentes: numa escala global, no âmbito de populações infectadas e em pacientes individuais.1 Na escala global, árvores filogenéticas mostraram que os dois vírus da imunodeficiência, HIV-1 e HIV-2, surgiram separadamente de ancestrais símios e que, dentro de cada vírus, existe uma variação genética conside- rável, que pode ser organizada em “subtipos” distintos. Esses subtipos diferem em sua distribuição geográfica (embora a maioria seja encontrada na África) e, possivelmente, quanto a propriedades biológicas importantes. Por exemplo, o subtipo E, do sudeste da Ásia, parece ser mais facilmente transmitido pela via sexual do que outros subtipos e é associado com a dramática propagação recente do vírus naquela parte do mundo. A identifi- cação correta dos subtipos pela análise filogenética será um elemento vital na elaboração de futuras vacinas. Em populações infectadas, as análises evolutivas levaram ao levantamento de hipóteses epidemiológicas importantes sobre o local de origem das diferentes linhagens de HIV, particularmente daquelas associadas com grupos de comportamento de “baixo risco”, e sobre a possibilidade de grupos de risco diferentes possuírem linhagens características. Estas informações constituirão uma parte importante de programas de intervenção comportamental, já que será possível identificar com precisão os grupos mais envolvidos na propagação do HIV. A abordagem evolutiva também foi essencial para que fossem respondidas perguntas sobre se o HIV pode ser transmitido a pacientes por pessoas que prestam assistência médica, como, por exemplo, durante cirurgias. As análises evolutivas da variação genética no HIV também produziram informações valiosas sobre mudan- ças na população de vírus em um único paciente. Embora cada paciente seja infectado por muitos genótipos virais, a diversidade genética do vírus logo cai drasticamente, sugerindo que somente certos genótipos conse- guem invadir com sucesso as células do hospedeiro durante os primeiros estágios da incubação. Posteriormente, a população de vírus no interior do paciente se diversifica, produzindo certos genótipos capazes de invadir órgãos específicos, como o cérebro. Também parece haver uma interação evolutiva entre o vírus e o sistema imunológico, que pode determinar quando e como o HIV acaba causando a AIDS. Portanto, a perspectiva evolutiva é essencial para a compreensão da biologia básica do HIV e talvez possa nos ajudar a compreender as suas respostas à terapia medicamentosa. 1 A. J. Leigh Brown and E.C. Holmes, Annu. Rev. Ecol. Syst. 25: 127-165 (1994). 23
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    previsão desses traçosem estudos de saú- do as oportunidades de transmissão entre de pública exigirá o uso de marcadores hospedeiros aumentam, pode se desenvol- genéticos múltiplos (3, 7). Da mesma for- ver uma maior virulência. Alguns pesqui- ma, os métodos da Genética de Populações sadores postularam que importantes epi- podem estimar taxas e distâncias de movi- demias de gripe e outras pandemias foram mento dos organismos vetores de doen- causadas por mudanças evolutivas desse ças, que afetam tanto a transmissão de do- tipo, ocorridas em cidades populosas e enças como o potencial de controle. A aná- entre movimentos de massas de refugia- lise molecular de um gene em uma espé- dos. Analogamente, há evidências suges- cie de mosquito mostrou que o gene tinha tivas de que o HIV tenha desenvolvido vi- se propagado recentemente por três con- rulência maior devido às altas taxas de tinentes, prova da enorme capacidade de transmissão por contato sexual e por utili- dispersão desse inseto (49). zação coletiva de agulhas por parte de usu- ários de drogas intravenosas (17, 64). Está A potencial rapidez de evolução em po- comprovado que a população de vírus HIV pulações naturais de microorganismos, de uma pessoa infectada evolui durante o muitos dos quais têm tempos de geração curso da infeccão, sendo que alguns auto- curtos e populações imensas, tem impli- res atribuem o início da AIDS - a doença cações de grande importância. Uma de- em si - a esta mudança genética (45). las, uma lição de Evolução que deveria ter sido aprendida muito tempo antes do que • Funções fisiológicas normais Compreen- normais. o foi, é a de que se pode esperar que os der as defesas naturais do corpo humano patógenos se adaptem a uma seleção con- contra doenças infecciosas é tão importan- sistente e forte, como aquela gerada pelo te quanto compreender as próprias doen- uso amplo e intensivo de drogas terapêu- ças e, também neste caso, a Biologia ticas. A resistência a drogas antimi- Evolutiva pode trabalhar junto com a ciên- crobianas evoluiu no HIV, na bactéria da cia médica. Por exemplo, genes do princi- tuberculose, no protozoário da malária e pal complexo de histocompatibilidade em muitos outros organismos vetores de (MHC) desempenham um papel crítico nas doenças, tornando ineficazes os contro- respostas imunes das células: Seus produ- les terapêuticos anteriormente eficazes. tos apresentam proteínas estranhas ao sis- De fato, muitos desses organismos são re- tema imunológico. O MHC também con- sistentes a drogas, em parte porque tribui para a rejeição dos transplantes de freqüentemente genes de resistência a an- tecidos. Alguns alelos do MHC estão asso- tibióticos são transferidos entre espécies ciados com doenças autoimunes, como o de bactérias (42). A evolução da resistên- diabetes juvenil e uma forma de artrite cia a drogas aumentou muito o custo do deformante. A variação genética do MHC tratamento, aumentou a morbidade e a é extremamente grande, o que levou os mortalidade e despertou o receio de que geneticistas de populações a procurar ra- muitas doenças infecciosas serão absolu- zões para esta variação. Análises molecu- tamente intratáveis num futuro próximo lares revelaram que os genes do MHC de- (10). A Teoria da Evolução sugere que um vem estar sujeitos a algum tipo de seleção futuro tão terrível pode ser prevenido pela equilibradora que mantém esta variação. redução da seleção para resistência a an- De fato, alguns alelos humanos do MHC tibióticos e, de fato, a Organização Mun- estão genealogicamente mais próximos de dial da Saúde recomendou o uso mais certos alelos do chimpanzé do que de ou- criterioso e reduzido de antibióticos (67). tros alelos humanos, o que fornece provas Novos estudos sobre a genética das po- claras de que a seleção natural manteve a pulações de patógenos serão importantes variação durante pelo menos 5 milhões de para futuros trabalhos de contenção. anos. A variação quase certamente é mantida pelos papéis que os diferentes A virulência dos patógenos também pode alelos desempenham no combate a dife- evoluir rapidamente. A teoria da coevolu- rentes patógenos, mas seu papel exato re- ção parasita/hospedeiro prevê que, quan- quer mais estudo (39). 24
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    B. Agricultura eRecursos Naturais te qualquer organismo, quer seja de uma espécie domesticada ou de uma espécie • Criação de plantas e animais As relações animais. selvagem usada para estudos evolutivos. entre melhoristas de plantas e animais, geneticistas e biólogos que se dedicam ao A variação genética, matéria prima dos bi- estudo da evolução vêm de tão longa data ólogos que se dedicam ao estudo da Evo- e são tão próximas que às vezes seus cam- lução, é condição sine qua non para o su- pos são difíceis de distinguir, especialmente cesso na agricultura. Como qualquer bió- na criação de variedades melhoradas de sa- logo que se dedica ao estudo da evolução fras e de animais domésticos. Darwin abriu sabe, uma plantação extensa e genetica- sua obra A Origem das Espécies com um mente uniforme é um alvo fácil para capítulo sobre organismos domesticados e patógenos de plantas ou outras pragas, que escreveu um livro em dois volumes sobre se adaptarão a ela e se propagarão rapida- a Variação em Plantas e Animais Domesti- mente. A ferrugem da batata, que causou cados. Um dos fundadores da Genética de fome em grande parte da Irlanda na déca- Populações, Sewall Wright, trabalhou du- da de 1840, é um dos numerosos exem- rante anos com criação animal e um ou- plos deste fenômeno (1). Outro exemplo es- tro, R. A. Fisher, deu importante contribui- petacular é a epidemia de ferrugem da fo- ção ao planejamento e à análise de testes lha de milho no sul nos Estados Unidos em de cultivares. Desde então, muitos gene- 1970, que causou uma perda econômica ticistas deram contribuições iguais, tanto estimada em US$ 1 bilhão (dólares de à Genética Evolutiva como à Genética Bá- 1970). Em mais de 85% da área plantada sica e à teoria na qual se baseia a criação com milho, tinham sido utilizadas cepas seletiva eficaz. Quando, ao contrário, o portadoras de um fator genético (Tcms) que chefe do ministério soviético da agricultu- impede o desenvolvimento de flores mas- ra, T. D. Lysenko, rejeitou a Teoria da Evo- culinas, o que era útil para produzir varie- lução, na década de 1930, ele acabou im- dades híbridas uniformes. Porém, o fator pondo ao cultivo de plantas daquele país Tcms tornou o milho suscetível a uma raça um atraso de várias décadas. mutante do fungo Phytopthora infestans, que se alastrou rapidamente por todo o Conceitos como herdabilidade, componen- Cinturão do Milho (Corn Belt) e para além tes de variância genética e correlação ge- dele. Somente a combinação de condições nética, bem como a elucidação experimen- climáticas favoráveis com a ampla planta- tal de fenômenos como o vigor híbrido, a ção de milho de constituição genética nor- depressão por endogamia e as bases da mal impediu a ocorrência de uma ferrugem variação poligênica (quantitativa), desem- ainda mais devastadora em 1971 (62). penham papéis igualmente centrais, tanto na genética agrícola como na Teoria da Apesar dessas lições, por razões de efici- Evolução. O exemplo mais recente desta ência econômica, ainda são amplamente interação mútua entre áreas é o desenvol- usadas plantações geneticamente unifor- vimento e a aplicação de técnicas que usam mes, mas há um reconhecimento genera- marcadores moleculares para a localiza- lizado de que é essencial manter a diver- ção dos múltiplos genes responsáveis por sidade genética (36). Assim, é essencial traços de variação contínua, como o tama- constituir bancos de “germoplasma” de di- nho e o conteúdo de açúcar das frutas, e ferentes cepas de plantações, especial- para a identificação da função metabólica mente cepas que diferem entre si quanto desses genes (chamados locos de caracte- a características como a tolerância à seca rísticas quantitativas ou LCQ). Antigamen- e a resistência a pragas. Uma fonte im- te, somente alguns organismos modelos, portante de genes potencialmente úteis como a Drosophila, eram suficientemente são espécies selvagens aparentadas com bem conhecidos do ponto de vista genéti- a plantação — que, obviamente, só podem co para fornecer essas informações. Ago- ser reconhecidas com o auxílio de uma ra, graças às pesquisas dos melhoristas de boa Sistemática. Por exemplo, o tomate plantas, dos geneticistas de populações e cultivado, como a maioria das espécies de do Projeto Genoma de Plantas, é possível plantação, é uma espécie autofertilizante mapear genes de interesse em praticamen- (e, por isso, geneticamente homozigota) 25
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    que possui poucavariação genética, mes- cia às principais doenças foram encontra- mo entre todas as variedades disponíveis. dos nessas espécies nativas e 20 deles fo- Ele é originário da região andina da Amé- ram transferidos por hibridação para o rica do Sul e chegou à América do Norte estoque matriz comercial de tomates. Ca- via processo de domesticação na Europa. racterísticas de qualidade de frutas tam- Estudos da genética e da evolução do to- bém foram melhoradas desta maneira e mate levaram à constatação de que exis- espera-se que, nos próximos anos, seja tem muitas espécies aparentadas nativas introduzida a resistência à seca, à do Chile e do Peru e de que essas espéci- salinidade e às pragas de insetos, propor- es apresentam uma abundante variação cionando um aumento de quatro a cinco genética. Mais de 40 genes para resistên- vezes do rendimento agrícola (51). Trágico Soviética Uma Lição da História: O Trágico Destino da Genética Evolutiva na União Soviética Vassiliki Betty Smocovitis University of Florida Até a década de 1920, os cientistas soviéticos tinham adquirido reconhecimento internacional pelo seu traba- lho pioneiro em muitos campos da Biologia. A mais notável entre essas realizações era uma singular escola de Genética de Populações que sintetizava descobertas da Genética e da Teoria Darwiniana da seleção natural com conhecimentos sobre a estrutura de populações selvagens de animais e plantas, a fim de compreender os meca- nismos de adaptação e Evolução. Na década de 1920, Sergei Chetverikov e outros geneticistas de populações russos previram a síntese evolutiva que ocorreu no Ocidente nos anos ‘30 e ‘40. Entre as contribuições da escola russa de Teoria Evolutiva estavam o conceito de conjunto gênico, a derivação independente do conceito de deriva genética e os primeiros estudos genéticos de populações selvagens da mosca de frutas Drosophila melanogaster. Esta escola formou jovens evolucionistas como N. V. Timofeeff-Ressovsky e Theodosius Dobzhansky, que, mais tarde, desempenhariam papéis essenciais no estabelecimento da moderna Teoria da Evolução na Alemanha e nos Estados Unidos. A escola russa afirmava que uma mudança evolutiva consiste de mudanças nas freqüências de genes mendelianos, particulados, dentro de uma população. Este pujante centro de pesquisa evolutiva, e a maioria de seus cientistas, tiveram um fim trágico. A partir do fim da década de 1920, a Biologia em geral e a Genética em particular foram vistas cada vez mais como perigosas para o espírito político da Rússia estalinista, empenhada, naquela época, em se transformar de um estado agrário em uma nação moderna. No início dos anos ’30, começou a perseguição à Genética e aos geneticistas. Ela era alimentada pela retórica de Trofim Lysenko (1898-1976), um agrônomo com pouca instrução e nenhuma forma- ção científica, mas com grandiosas ambições para a agricultura soviética, baseadas em sua crença errônea no mecanismo lamarckiano de herança e mudança orgânica. Segundo a teoria de Lamarck e Lysenko, a exposição de organismos parentais a um fator ambiental, como baixa temperatura, induz diretamente o desenvolvimento de mudanças adaptativas que são herdadas pelos seus descendentes – uma teoria da Evolução pela herança de características adquiridas, e não pela seleção natural dos genes. Os geneticistas e biólogos estudiosos da Evolução ocidentais já tinham mostrado que não ocorre herança lamarckiana. Declarando a Genética uma ameaça ao Estado, capitalista, burguesa, idealista e até mesmo apoia- da pelos fascistas, Lysenko conduziu uma odiosa campanha de propaganda, que culminou em 1948 com a con- denação oficial da Genética por Stalin e pelo Comitê Central do Partido Comunista. Entre as vítimas do Lysenkoísmo estiveram Nikolai Vavilov, um dos pioneiros da reprodução de plantas, que morreu de fome num campo de prisioneiros, e toda a escola de geneticistas de populações, que se dispersaram ou foram destruídos. O Lysenkoísmo rapidamente levou à destruição total justamente daquelas áreas da Biologia soviética que tinham alcançado notoriedade mundial na década de 1920. A política soviética contra a Genética e a Evolução teve conseqüências desastrosas para o povo soviético. Além de uma devastadora destruição rural, só comparável àquela causada pela coletivização soviética, o Lysenkoísmo impediu o desenvolvimento da ciência agrícola. A União Soviética foi excluída da revolução agríco- la global que ocorreu nas décadas da metade do século passado, alimentada em parte por inovações genéticas, como o milho híbrido. A despeito da oposição nascente, Lysenko permaneceu no poder até 1965, depois da deposição de Khrushchev. A Biologia soviética nunca conseguiu se recuperar de fato deste período. Suas pro- messas iniciais sobreviveram somente através de indivíduos como Dobzhansky, uma figura que se sobressai na Biologia Evolutiva, que levou para o Ocidente descobertas da Genética de Populações russa, ao imigrar para os Estados Unidos, em 1927. As conseqüências completas do Lysenkoísmo e da Biologia estalinista ainda não foram determinadas, mas já estão sendo estudadas por estudiosos que ganharam acesso a fontes governamentais anteriormente restritas.1 Embora discutam a respeito de detalhes, todos os estudiosos concordam que o reinado do Lysenkoísmo foi um período particularmente negro na história da ciência. É o exemplo clássico das conseqüências negativas de políticas anticientíficas mal orientadas e do controle ideológico da Ciência. A lição aprendida é que a investiga- ção livre, o apoio governamental informado às ciências básica e aplicada e o debate aberto de assuntos científi- cos – especialmente aqueles declarados como ameaçadores ou perigosos por determinados grupos de interesses – são essenciais para a saúde e prosperidade das nações. 1 M. Adams, em: E. Mayr and W. Provine (eds.), The Evolutionary Synthesis (Harvard University Press, Cambridge, MA., 1980), pp. 242-278; D. Joravsky, The Lysenko Affair (Harvard University Press, Cambridge, MA, 1979); N. Krementsov, Stalinist Science (Princeton University Press, Princeton, NJ, 1997); V. Soyfer, Lysenko and the Tragedy of Soviet Science (Rutgers University Press, New Brunswick, NJ, 1994). 26
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    • Uso dabiodiversidade O conhecimento biodiversidade. ção da resistência, como o uso rotativo de da sistemática dos tomates, junto com a diferentes medidas de controle e a combi- genética ecológica e a compreensão do sis- nação criteriosa de controles químicos e tema de cultivo desta planta, formou a base não-químicos. Dois métodos não-químicos de uma aplicação bem sucedida, que está foram muito beneficiados pelo conheci- sendo repetida em muitas outras planta- mento e pela Teoria da Evolução: o uso de ções. A engenharia genética, que possibi- inimigos naturais e o cultivo de resistên- lita a transferência de genes de praticamen- cia. te qualquer espécie para qualquer outra, torna disponíveis, para fins agrícolas e ou- Inimigos naturais, como os insetos que são tros, a vasta “biblioteca genética” dos or- predadores especializados ou parasitas de ganismos da Terra, portadores de uma tre- espécies que são pragas, freqüentemente menda variedade de genes para traços são procurados na região de origem da pra- como a tolerância ao calor, a resistência a ga. Portanto, a primeira pergunta é: de onde doenças e a insetos, substâncias químicas vem a praga? Achar a resposta exige que conferem sabores e odores e muitas entomólogos com formação em Sistemá- outras características potencialmente úteis. tica Evolutiva, capazes de identificar a pra- Se quisermos utilizar esta biblioteca no ga usando uma taxonomia baseada em futuro, é necessário tanto que a biblioteca princípios evolutivos. Se a praga for uma seja preservada — isto é, que a biodiver- espécie desconhecida, a melhor pista para sidade não seja perdida — e que haja bibli- a sua região de origem é a distribuição de otecários — cientistas capazes de darem espécies aparentadas — que pode ser de- alguma orientação para que se encontrem terminada usando-se a taxonomia “volumes” úteis. Esses bibliotecários serão evolutiva. A procura de inimigos naturais biólogos que se dedicam ao estudo da evo- utiliza os mesmos princípios. Uma vez en- lução: aqueles que estudam Sistemática e contrados inimigos potenciais, tais como Filogenia e, por isso, conhecem as espéci- parasitas, é crucial fazer a distinção entre es existentes e sabem quais delas têm pro- espécies com parentesco próximo, muito babilidade de terem genes e característi- semelhantes, pois pode ser que algumas cas semelhantes, e aqueles que estudam ataquem a praga e outras ataquem somen- Genética Evolutiva e adaptação e são ca- te seus parentes. Se um inimigo é aprova- pazes de indicar o caminho que leva a or- do para introdução, ele deve ser criado em ganismos com características desejáveis. grande número para soltura. Neste está- gio, a aplicação da Genética Evolutiva é • Manejo de pragas Pragas de plantas, prin- pragas. crucial, a fim de impedir que a linhagem cipalmente insetos e fungos, representam do parasita se torne endocruzada ou anualmente um enorme ônus econômico involuntariamente selecionada para carac- em perda de safras e medidas de controle. terísticas que possam prejudicar sua eficá- A Biologia Evolutiva relaciona-se com este cia. problema de várias maneiras. Sem contar os perigos para a saúde pública e o meio Outra importante estratégia no controle de ambiente resultantes do uso excessivo de pragas é promover a seleção da resistên- pesticidas químicos, nos últimos 40 anos, cia em plantas de safra, por meio da tria- mais de 500 espécies de insetos (incluindo gem para genes que conferem resistência pragas de plantações, pragas de grãos ar- no laboratório ou em canteiros, introdu- mazenados e vetores de doenças) desen- zindo a seguir esses genes, por meio de volveram resistência a um ou mais inseti- cruzamentos, em cepas cultivadas com cidas, algumas delas sendo resistentes a outras características desejáveis. É impor- todos os inseticidas conhecidos. Nos Esta- tante conhecer a base genética da resis- dos Unidos, a evolução da resistência a tência, pois alguns tipos de resistência são pesticidas aumentou em US$1,4 bilhão o de curta duração. Uma praga pode se adap- custo anual de proteção dos produtos agrí- tar a uma linhagem cultivada tão pronta- colas e florestais (47). Entomólogos agrí- mente quanto se adapta a inseticidas quí- colas com formação em Genética Evolutiva micos. Por exemplo, pelo menos seis im- (31,53) estão dando a sua contribuição aos portantes genes para resistência à mosca esforços para retardar ou impedir a evolu- do trigo ou mosca de Hesse foram sucessi- 27
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    vamente introduzidos notrigo, por culti- Este método têm muitas aplicações. Ele vo. Em todos os casos, depois de alguns permite aos pesquisadores, por exemplo, anos de extensa plantação da nova cepa, distinguir entre cardumes de espécies de a mosca superou a resistência: a cada mu- peixes que migram de locais de desova di- tação para resistência na planta, uma mu- ferentes. Tal distinção tem importantes tação correspondente na mosca anulava o implicações administrativas e políticas em seu efeito. Entomólogos e cultivadores de casos como o da indústria do salmão, uma plantas com formação em Biologia Evolu- vez que tanto as unidades políticas que tiva estão trabalhando na elaboração de abrigam os locais de desova, como aque- métodos de engenharia para resistência las onde os peixes são recolhidos têm in- múltipla que prolonguem a vida eficaz de teresse econômico nos cardumes. Na sil- novos cultivares resistentes. vicultura, os viveiros nos quais são desen- volvidas e criadas as reservas matrizes co- • Engenharia Genética São muitas as pro- Genética. merciais de coníferas estão sujeitos à “con- postas para se introduzirem diversas ca- taminação” genética pelo pólen de árvo- racterísticas em plantas de safra e para se res selvagens, transportado pelo ar. Os difundirem bactérias modificadas por en- métodos desenvolvidos pelos geneticistas genharia genética, capazes de melhorar a de populações são úteis para se determi- fertilidade do solo ou de conferir resistên- nar a distância percorrida pelo pólen e para cia a geadas a certas plantações. Sempre se medir os níveis de contaminação, o que que tais introduções deliberadas são pro- afeta o valor de mercado das sementes. Os postas, surgem perguntas referentes aos geneticistas que se dedicam ao estudo da seus potenciais riscos. Biólogos que se de- Evolução também têm se dedicado a ana- dicam ao estudo da Evolução e que estu- lisar a base genética de traços desejáveis, dam interações gênicas perceberam a ne- como a taxa de crescimento e a resistên- cessidade de realização de testes para se cia a insetos de coníferas. Este tipo de co- assegurar que um gene estranho não vá nhecimento contribui para programas de interagir de maneira imprevisível com os produção de híbridos e de engenharia ge- genes próprios de uma planta de safra, nética. gerando efeitos prejudiciais. O risco mais provável talvez seja o de que tais genes C. Descoberta de Produtos Naturais Úteis possam se propagar por polinização cru- zada de plantas selvagens aparentadas Organismos do passado e do presente com as plantas de cultivo (p. ex., mostar- são fontes de incontáveis recursos naturais. das selvagens aparentadas com o repolho) Quase todos os produtos farmacêuticos, mui- e fazer com que elas se tornem ervas da- tos produtos para o lar e muitos processos in- ninhas mais vigorosas. Do mesmo modo, dustriais (começando, por ordem histórica, sendo que freqüentemente há transferên- com a fabricação do pão e do vinho) ou utili- cia de genes entre espécies de bactérias, zam organismos vivos, ou provêm de proces- surgiram preocupações de que populações sos biológicos ocorridos dentro de organis- naturais de bactérias poderiam adquirir mos. Além disso, organismos que morreram características de bactérias produzidas por há muito tempo também fornecem recursos: engenharia genética que as tornem mais combustíveis fósseis. A prospecção de com- vigorosas e potencialmente prejudiciais. bustíveis fósseis baseia-se em grande parte Por isso, os métodos desenvolvidos por nas correlações de idade entre depósitos sedi- biólogos estudiosos da Evolução para de- mentares – que, por sua vez, se baseiam em terminar os efeitos adaptativos dos genes fósseis de protozoários, moluscos e de outros e medir as taxas de troca de genes entre organismos estudados pelos paleontólogos. populações e espécies terão aplicações Muitas espécies vivas podem mostrar- valiosas. se úteis como futuras plantas de cultivo ou, especialmente, revelar possibilidades de apli- • Silvicultura e indústria da pesca Os bió- pesca. cação médica, energética, industrial ou de logos que se dedicam ao estudo da Evolu- pesquisa. De fato, os organismos podem ser ção podem esclarecer a estrutura genética considerados um “capital vivo”, segundo as de populações e espécies por meio da aná- palavras da Comissão Presidencial de Asses- lise estatística de marcadores genéticos. sores para assuntos de Ciência e Tecnologia 28
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    dos EUA (48).Mais de 20.000 plantas diferen- parte, para a previsão das características dos tes foram listadas pela Organização Mundial organismos. A Ecologia Evolutiva no sentido da Saúde como tendo sido usadas com fins amplo — a análise das adaptações — aponta medicinais por populações humanas e uma para organismos cujas necessidades fração substancial delas é realmente eficaz. adaptativas podem produzir características Por exemplo, até muito recentemente, a ma- que talvez possamos utilizar. Por exemplo, lária era tratada com quinina, extraída da ár- neurobiólogos que estavam à procura de vore de cinchona. Muitos outros compostos inibidores de neurotransmissores para fins de derivados de plantas e com utilidade médica pesquisa foram levados com sucesso para os foram descobertos recentemente. O taxol, um venenos de certas cobras e aranhas, organis- composto encontrado no teixo do Pacífico, mos que desenvolveram justamente inibido- mostrou-se promissor no tratamento do cân- res desse tipo para dominar suas presas. Há cer de mama; a pervinca rosa do Madagascar fungos que liberam antibióticos para contro- contém duas substâncias químicas que se re- lar competidores bacterianos, bem como plan- velaram úteis no combate à leucemia (e vári- tas que armazenam muitos milhares de com- os outros tipos de câncer), tendo aumentado postos para repelir seus inimigos naturais. O de 10% a 95% as taxas de sobrevivência da estudo evolutivo-ecológico dessas adaptações leucemia infantil. Diversos produtos naturais está apenas começando a revelar compostos provenientes de plantas também têm aplica- que merecem maior atenção. ção industrial, sendo usados como aromati- zantes, emulsificantes e aditivos em alimen- D. Meio Ambiente e Conservação tos. Um extrato do crustáceo Limulus é a base do “teste de lise”, muito usado na indústria Os estudos evolutivos abriram caminho farmacêutica para detectar a presença de bac- para novos métodos de correção e recupera- térias. ção do meio ambiente em áreas degradadas. Os microrganismos fornecem não so- Por exemplo, alguns tipos de grama e outras mente produtos, mas também processos plantas adaptaram-se a solos altamente po- bioquímicos úteis nas biossínteses (p. ex., de luídos por níquel e outros metais pesados tó- antibióticos, solventes, vitaminas e biopo- xicos. Amplos estudos da sistemática, da ge- límeros), biodegradações (p. ex., na decompo- nética e da fisiologia dessas plantas forma- sição de resíduos tóxicos) e biotransformações ram a base de técnicas para o replantio e a (em esteróides, compostos quirais e outros estabilização de solos tornados estéreis por compostos desejados). A Biologia e Biotecno- atividades de mineração e até mesmo para a logia Moleculares modernas, por exemplo, ba- desintoxicação do solo e da água contamina- seiam-se na reação em cadeia de polimerases, dos por metais. Descobriu-se que algumas método baseado em uma enzima estável em bactérias têm a capacidade de metabolizar o temperaturas elevadas, que foi descoberta em mercúrio, transformando-o em uma forma bactérias que habitam fontes termais. A in- menos tóxica, e, em experimentos de labora- dústria farmacêutica e outras iniciaram pro- tório, seus genes para esta capacidade foram gramas de triagem de produtos naturais, na transferidos para plantas. Em outros casos, esperança de fazerem outras descobertas des- plantas que desenvolveram a capacidade de se tipo (ver Box 1). “hiperacumular” metais pesados e, desta for- A exploração da biodiversidade para a ma, resistir a solos tóxicos agora estão sendo obtenção de novos produtos naturais consti- usadas comercialmente como tecnologia de tui ponto de grande ênfase no relatório do despoluição. De modo similar, estudos sobre Conselho Nacional de Pesquisa dos EUA, “Le- a ecologia evolutiva da dispersão e germina- vantamento Biológico para a Nação” (“A ção de sementes têm o seu papel no reflores- Biological Survey for the Nation”) (38) e da tamento de áreas de pastagem esgotadas na Agenda de Sistemática 2000 (57), relatório América tropical e no replantio de locais de sobre a importância vital da pesquisa e do trei- aterro. namento em Sistemática. Duas áreas da Bio- As preocupações referentes ao impacto logia Evolutiva estão ligadas — na verdade, ambiental das atividades humanas incluem as indispensáveis — a essa exploração direcio- conseqüências da superpopulação, da altera- nada. A Sistemática fornece o inventário dos ção do habitat, a perspectiva de aquecimento organismos e de suas relações filogenéticas, global e a extinção documentada e prevista o que é essencial para a organização e, em de grande número de espécies. Estudos 29
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    Determinação de Riscose Organismos Geneticamente Modificados Thomas R. Meagher Rutgers University A preocupação com a programada liberação no meio ambiente de organismos geneticamente modificados provocou uma ampla gama de recomendações para a determinação dos riscos associados com essas liberações. À medida que os cultivares transgênicos foram se aproximando da realidade comercial, a questão da determina- ção dos riscos deslocou-se da preocupação com os próprios organismos transgênicos para a preocupação com os efeitos de longo prazo de sua possível hibridização com seus parentes selvagens. Uma hibridização introgressiva de genes modificados, como aqueles que conferem resistência a herbicidas, com parentes selvagens de cultiva- res poderia, por exemplo, gerar ervas daninhas problemáticas.1 Em relação a qualquer cultivar transgênico, a informação básica necessária para tratar desta preocupação é a probabilidade da produção híbrida com espécies aparentadas. Cultivares de colza com sementes oleosas e de outras espécies cultivadas de Brassica foram causas de particular preocupação, devido à pressão econômica pela introdução da colza transgênica (Brassica napus) em estreita proximidade com seus parentes selvagens, alguns dos quais já constituem ervas daninhas em terras de cultivo.2 Dados empíricos que poderiam formar uma base científica para a determinação dos riscos desta introdução foram recentemente fornecidos por estudos com Brassica napus e uma espécie selvagem com parentesco próximo, B. campestris.3 Estes estudos sobre Brassica servirão de modelo, no qual poderão basear-se estudos de determinação dos riscos de cultivares polinizados por insetos. 1 J. M. Tiedje et al., Ecology 70:298-315 (1989); N. C. Ellstrand and C. A. Hoffman, BioScience 40:438-442 (1990); L. R. Meagher, Capítulo 8 de: A New Technological Era for American Agriculture, U.S. Congress Office of Technology Assessment, OTA-F-474 (U.S. Government Printing Office, Washington, D.C., 1992) 2 M. J. Crawford et al., Nature 363:620-623 (1993); C. R. Linder and J. Schmitt, Molecular Ecology 3:23-30 (1994). 3 T. R. Mikkelson et al., Nature 380:31 (1996). paleobiológicos sobre as mudanças climáti- espécies, comunidades ecológicas ou regiões cas, o nível do mar e a distribuição das espé- geográficas merecem os esforços de conser- cies no passado permitem discernir o tipo de vação mais urgentes, já que existem limites organismos com maior probabilidade de so- econômicos, políticos e de informação para o frerem os efeitos adversos do aquecimento número de espécies que podemos salvar. global — a saber, aqueles com baixo poder de Entre os papéis da Biologia Evolutiva na dispersão, reduzido alcance geográfico e bai- conservação estão: xa tolerância ecológica. Evidências proveni- entes de populações que evoluíram em tem- • O uso das informações filogenéticas para peraturas diferentes também podem nos aju- determinar quais regiões contêm a maior dar a prever a diversidade de respostas a uma variedade de espécies biologicamente di- mudança climática e a velocidade com a qual ferentes únicas; diferentes populações conseguem se adaptar a ela (61). • O uso dos dados e métodos da Biogeografia Como conseqüência das atividades hu- Evolutiva (o estudo da distribuição dos or- manas, espécies e populações geneticamen- ganismos) para identificar locais preferen- te singulares estão entrando em extinção num ciais — regiões com grande número de es- ritmo alarmante. As nossas atividades amea- pécies geograficamente localizadas (por çam não somente espécies conspícuas, como exemplo, Madagascar, Nova Guiné e a re- os grandes mamíferos e as tartarugas mari- gião de Apalachicola da Flórida e do nhas, mas também um sem-número de plan- Alabama); tas, artrópodes e outros organismos menos conhecidos, que são, em conjunto, uma fonte • O uso de métodos genéticos e outros para potencial de produtos naturais, agentes de distinguir espécies e populações genetica- controle de pragas e outras aplicações úteis mente singulares; (incluindo a reciclagem de elementos quími- cos que permite o funcionamento de todo o • O uso da teoria da Genética de Populações ecossistema). A Biologia Evolutiva tem um para determinar o tamanho mínimo de papel da maior relevância na maneira de li- uma população, necessário para prevenir dar com esta “crise da biodiversidade”. Uma a depressão por endogamia e para proje- das considerações importantes é a de quais tar corredores entre áreas de conservação 30
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    Novidade MetaisPesados e Plantas: Uma Novidade Evolutiva Torna-se uma Oportunidade Despoluição Ambiental Thomas R. Meagher Rutgers University O fenômeno da tolerância das plantas a metais pesados tem atraído uma atenção considerável por parte dos biólogos que se dedicam ao estudo da Evolução. A tolerância a metais foi relatada pela primeira vez pelo cientis- ta checo S. Prat em 1934 e, desde então, vem sendo muito estudada por vários cientistas, na Europa e nos Estados Unidos. Particularmente A. D. Bradshaw e seus estudantes vêm realizando amplos experimentos sobre as propriedades evolutivas de plantas que crescem em locais contaminados, como os dejetos de minas. Os achados deles incluem os seguintes:1 plantas que crescem em locais contaminados são geneticamente adapta- das a tolerarem metais pesados; plantas com tolerância a metais não competem bem em locais não contamina- dos; a seleção é tão forte que a adaptação genética a locais contaminados ocorre, mesmo que haja potencial para fluxo gênico proveniente de populações próximas não-tolerantes; mesmo níveis relativamente baixos de conta- minação, como a poluição por chumbo de exaustão veicular à beira das ruas em áreas urbanas, impõem uma seleção para tolerância a metais. Esta adaptação das plantas à contaminação por metais pesados tem desperta- do particular interesse por ser um caráter que parece ter evoluído, em parte, como resposta a uma perturbação humana. Estudos evolutivos da tolerância a metais pesados contribuíram para a elaboração de estratégias para o tratamento de solos contaminados em vários níveis. Primeiro, esses estudos forneceram provas dos efeitos tóxi- cos da contaminação por metais pesados sobre genótipos não-adaptados. Antes desses estudos evolutivos, a presença de plantas em alguns locais contaminados levou a alguns perigosos erros de percepção; em época tão recente quanto 1972, a Academia Nacional de Ciências dos EUA concluiu que o chumbo não tinha efeito tóxico em plantas, uma vez que havia plantas que conseguiam crescer sobre solos contaminados! Em segundo lugar, os estudos evolutivos contribuíram para a recuperação e replantação de locais contaminados.2 A variedade comer- cial tolerante a metais da grama Agrostis tenuis, conhecida como “Merlin”, foi produzida diretamente a partir de populações naturais com tolerância a metais. Finalmente, estudos evolutivos mostraram que o mecanismo para a tolerância a metais é a absorção, não a exclusão, de modo que esses genótipos tolerantes a metais também são acumuladores de metais. Esta última descoberta levou, junto com pesquisas fisiológicas sobre plantas com tole- rância a metais, ao uso crescente de plantas como parte de uma tecnologia de despoluição para o tratamento de locais contaminados. Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (U.S. Environmental Protection Agency), somente nos Estados Unidos, os custos projetados para a despoluição de locais contaminados por metais serão de 35 bilhões de dólares norte-americanos nos próximos 5 anos. Plantas acumuladoras de metais, que desempe- nharão um papel importante neste processo de despoluição, estão sendo desenvolvidas por companhias do setor privado, como a Exxon, a DuPont e a Phytotech, em cooperação com o Departamento de Energia dos EUA e outros órgãos do governo. 1 J. Antonovics et al., Adv. Ecol. Res. 7:1-85 (1971); J. Antonovics, em: International Conference on Heavy Metals in the Environment, pp.169-186 (Toronto, Ontario, 1975); A. D. Bradshaw, Phil Trans. Roy. Soc. Lond. B. 333:289-305 (1991). 2 A.D. Bradshaw and T. McNeilly, Evolution and Pollution (Edward Arnold, London, 1981); D.E. Salt et al., Bio/Technology 13:468-474 (1995); T. Adler, Science News 150:42-43 (1996). que permitam o fluxo gênico, dois proces- E. Aplicações fora da Biologia sos responsáveis pela manutenção da ca- pacidade das populações de se adaptarem Existem benefícios recíprocos entre a Bi- a doenças e a outras ameaças; ologia Evolutiva e a ciência e tecnologia não- biológicas. A relação mais antiga desse tipo • O uso da teoria das histórias de vida e de talvez seja com a Teoria Econômica. A idéia outras características para prever quais são de Darwin da seleção natural foi inspirada as espécies mais vulneráveis à extinção; pelas obras do economista Thomas Malthus, que salientou os efeitos da competição por re- • O uso de marcadores genéticos para con- cursos escassos. No século vinte, a elabora- trolar o tráfico de espécies ameaçadas. (Es- ção de vários tópicos evolutivos, como a evo- ses métodos têm sido usados para detec- lução das histórias de vida e o comportamen- tar a pesca ilegal de baleias e são utiliza- to devastador, serviu-se da Teoria Econômi- dos rotineiramente para distinguir entre pa- ca. Entretanto, houve também um fluxo de pagaios contrabandeados ilegalmente e os idéias em sentido oposto. A influência da Ge- legalmente criados em cativeiro. De fato, nética de Populações na Economia começou esses pássaros têm um valor de mercado com a obra de Sewall Wright sobre análise de tão alto que as companhias de seguros es- coeficiente de pista ou passagem, uma técni- tão exigindo caracterização por meio de ca estatística desenvolvida para analisar sis- DNA (“fingerprints”) dos papagaios manti- temas causais complexos, como os efeitos da dos como animais de estimação). hereditariedade e do ambiente sobre os 31
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    fenótipos. Atualmente, estemétodo é muito F. Compreensão da Humanidade utilizado para análise causal na Economia e na Sociologia. Mais recentemente, alguns eco- Dados e métodos evolutivos vêm sen- nomistas adotaram um dos princípios centrais do usados para tratar de muitas questões re- da Teoria da Evolução, à qual também foi ferentes à espécie humana — a nossa histó- Wright quem deu forma matemática — a sa- ria, a nossa variabilidade, o nosso comporta- ber, os efeitos da contingência histórica na mento e cultura e, na realidade, o que signifi- mudança subseqüente. Economistas como ca ser humano. Alguns estudos sobre a varia- Douglass North aplicaram este princípio, in- ção e evolução humanas são inambíguos e dicando um afastamento da teoria econômi- incontroversos. Outros escritos sobre a Evo- ca baseada na clássica noção de que os indi- lução humana e suas implicações sociais têm víduos sabem o que é necessário para sido extremamente controvertidos — e cau- maximizar os benefícios e minimizar os cus- saram a mesma discordância entre biólogos tos (44). dedicados ao estudo da evolução e em outras A necessidade de se ter instrumentos esferas. Esses tópicos controversos geralmen- para resolver problemas teóricos e práticos te contêm dados insuficientes para apoiar as da Evolução incentivou progressos, tanto na alegações feitas, ou são ocasiões em que fo- Estatística, como na Matemática. R.A. Fisher, ram usados, injustificadamente, dados cien- que elaborou a análise de variância, era gene- tíficos, para dar sustentação a discussões so- ticista de populações e estatístico. Ao anali- ciais ou éticas. Além disso, alguns escritores sar efeitos aleatórios na Evolução, Wright e jornalistas populares interpretam erronea- usou equações de difusão que inspiraram ou- mente os achados da evolução e da genética tros trabalhos sobre processos aleatórios, re- humanas — o que evidencia a necessidade alizados por matemáticos como William de uma educação mais ampla a respeito des- Feller, que foi levado a desenvolver uma am- tas matérias. pla área da Teoria da Probabilidade. Mais re- centemente, a análise de árvores • História humana Entre os principais tópi- humana. filogenéticas inspirou pesquisas matemáti- cos de estudo da história humana, já men- cas. Esses métodos, adequadamente modifi- cionados antes neste documento, estão as cados, terão ampla aplicação fora da Biolo- nossas indiscutíveis relações com os ma- gia Evolutiva. cacos africanos, a história da evolução dos A computação evolutiva e a inteligên- hominídeos, como revelada pelo registro cia artificial estão entre os temas mais ati- fóssil, e a história das populações huma- vos e potencialmente úteis da informática nas modernas, na qual a Genética Evolutiva atual e estão baseadas diretamente na Teo- desempenhou o papel principal (Ver Box ria da Evolução. O cientista da computação 2). Extensos estudos de genética de popu- John Holland (25) foi profundamente influ- lações, em conjunto com métodos enciado por seus colegas da Biologia filogenéticos, também determinaram as Evolutiva e, junto com seus estudantes, foi o relações genealógicas entre populações pioneiro da computação evolutiva e dos humanas. Estas relações genéticas têm algoritmos genéticos para a solução de pro- uma boa correspondência com as relações blemas numéricos. Esses algoritmos, que entre os grupos lingüísticos, esclarecidas empregam critérios de maximização conce- pelos lingüistas usando métodos modifica- bidos para mimetizar a seleção natural em dos da Biologia Evolutiva (9). A combina- sistemas biológicos, atualmente estão mos- ção destas disciplinas forneceu uma base trando um grande potencial de aplicação em mais sólida às inferências sobre as princi- computadores e sistemas. A computação pais migrações populacionais e a difusão evolutiva é um campo tão ativo que duas re- de sistemas culturais importantes, como a vistas novas — Evolutionary Computation agricultura e a domesticação de animais. (Computação Evolutiva) e Adaptive Behavior (Comportamento Adaptativo) —incluem um • Variação dentro e entre populações As populações. grande número de artigos sobre como os diferenças genéticas entre as populações conceitos biológicos podem ser aplicados à humanas são pequenas, quando compa- ciência da computação e à engenharia. radas com a grande variação dentro delas. 32
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    Além disso, ospadrões geográficos que a complexidade necessariamente au- freqüentemente diferem entre um gene e menta, tanto na evolução biológica como outro, de onde se deduz que a diferença na cultural. Mesmo as melhores entre es- entre populações quanto a uma caracte- sas analogias apresentam sérias limita- rística não parece ser útil para se preve- ções, pois alguns mecanismos de “evolu- rem diferenças quanto a outras caracterís- ção” cultural diferem muito daqueles da ticas. Estes dados e princípios deram res- evolução biológica. Contudo, a forma e o paldo aos veementes argumentos levan- conteúdo dos modelos evolutivos foram tados por muitos biólogos estudiosos da usados, com as devidas modificações, para Evolução contra o racismo e outros tipos desenvolver modelos de mudança cultural de conceitos estereotipados (13, 35). (8). Alguns desses modelos levam em conta a interação entre as mudanças culturais e • A natureza humana Um dos assuntos humana. genéticas, já que há provas de que uma mais controversos de todos é o que seria pode influenciar a outra. Os modelos mais “natural” para a espécie humana. Este tó- promissores são bastante recentes e ainda pico desperta um enorme interesse em não foram adequadamente testados com pessoas de todas as categorias sociais, dados. quaisquer que sejam suas crenças a res- peito da Evolução. Em contraste com ou- • Evolução na cultura popular e na inte- tras espécies, para nós evidentemente é lectual Ninguém, do mais dedicado biólo- lectual. “natural”, por exemplo, aprender a falar e go ao mais apaixonado criacionista, nega- usar isto. A questão resume-se em saber ria que a idéia da Evolução teve uma enor- quais padrões de comportamento huma- me influência no pensamento moderno. no são produtos da história evolutiva, quais Incontáveis livros foram escritos sobre o são produtos do ambiente cultural e quais impacto do Darwinismo na filosofia, na an- são o resultado de uma interação entre os tropologia, na psicologia, na literatura e na dois. Behavioristas evolutivos documenta- história política. A Evolução foi usada (abu- ram, em outras espécies animais, diferen- sada, diríamos) para justificar tanto o co- ças resultantes de evolução em muitos tra- munismo como o capitalismo, tanto o ra- ços comportamentais, tendo utilizado com cismo como o igualitarismo. Tal é o poder sucesso princípios como o da seleção do conceito de evolução sobre a imagina- parental para explicar a natureza adapta- ção. tiva desses comportamentos. Muitos bió- logos estudiosos da Evolução, antropólo- O fascínio exercido pela Evolução, entre- gos e psicólogos mostram-se otimistas com tanto, não se limita às etéreas esferas do relação à possibilidade de aplicação de tais discurso intelectual. Um benefício econô- princípios ao comportamento humano e mico que não foi medido, mas que prova- têm apresentado explicações evolutivas velmente é grande, decorre indiretamente para alguns comportamentos intrigantes do papel da Biologia Evolutiva na educa- que têm ampla distribuição entre as popu- ção de crianças e adultos num contexto de lações humanas, como os tabus do inces- conceitos científicos e também no forne- to e os papéis dos sexos. Outros biólogos cimento de entretenimento popular. Livros que se dedicam ao estudo da Evolução, an- e programas de televisão sobre biodiver- tropólogos e psicólogos mostram-se céti- sidade, história natural, as origens do ser cos em relação a essas interpretações e sa- humano e a vida pré-histórica (incluindo lientam os efeitos do aprendizado e da cul- os dinossauros) são extremamente popu- tura. O desafio será elaborar testes defini- lares e oferecem uma entrada de fácil aces- tivos para essas hipóteses. so para o pensamento científico abstrato. Muitas crianças começam a se interessar • Modelos de mudança cultural São fre- cultural. por assuntos de ciência, engenharia e meio qüentes as analogias entre mudanças cul- ambiente através da exposição à história turais e evolução biológica e, em certas natural e, mais adiante, pela introdução aos ocasiões, elas influenciaram a construção princípios evolutivos que explicam a uni- de modelos de antropologia cultural. Al- dade, a diversidade e as adaptações da gumas das analogias do passado foram vida. Mesmo em pessoas que não seguem ingênuas e erradas, como a suposição de carreiras em ciência e engenharia, o inte- 33
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    resse pela histórianatural e pela Evolução exposições de dinossauros em museus, a acentua o pensamento crítico (a base do popularidade da ficção científica que utili- ideal de Jefferson de cidadãos educados). za temas evolutivos, a cobertura dada pe- Este interesse também constitui uma con- los meios de comunicação a todas as im- siderável força econômica, por meio da portantes descobertas de fósseis de homi- compra de livros e revistas, brinquedos nídeos e a cada nova idéia importante so- para crianças e visitas a museus e até mes- bre a evolução humana, a ampla preocu- mo do cinema. (O popular filme Parque dos pação do público com as teorias genéticas Dinossauros não poderia ter sido feito sem do comportamento humano e com a pos- os novos conhecimentos sobre os dinos- sibilidade da clonagem — tudo isso com- sauros desenvolvidos por biólogos dedica- prova o fascínio, o receio e a esperança das dos ao estudo da Evolução nos 20 anos pessoas em relação à história evolutiva e precedentes). As multidões de visitantes de ao futuro da humanidade e do mundo. EVOLUTIV OLUTIVA VI. DE QUE MODO A BIOLOGIA EVOLUTIVA PARA CONTRIBUI PARA A CIÊNCIA BÁSICA? A. Realizações no Estudo da Evolução ram a sua função, mas são compartilha- dos por um grande número de espécies. Uma lista completa das realizações da Características morfológicas, como as asas Biologia Evolutiva — algumas espetaculares rudimentares de muitos insetos não voa- e outras modestas — seria muito longa. Aqui dores descendentes de ancestrais voado- estão as descrições condensadas de alguns res, também comprovam a Evolução. dos avanços mais importantes. Inferências de um ancestral comum base- adas em comparações entre espécies vi- • Muitas séries de evidências demonstram vas encontraram amplo respaldo em evi- de modo inequívoco que a Evolução ocor- dências fósseis diretas de transições reu. Acredita-se atualmente que todos os evolutivas. Toda a evolução dos anfíbios organismos conhecidos sejam descenden- terrestres a partir dos peixes, dos répteis a tes de um ancestral comum que existiu partir dos anfíbios, das aves a partir dos mais de 3,5 bilhões de anos atrás. As pro- dinossauros, dos mamíferos a partir dos vas do parentesco entre todas as formas répteis e das baleias a partir de mamíferos de vida incluem aspectos comuns tais terrestres pode ser seguida pelo registro como a estrutura celular, a composição de fóssil. aminoácidos das proteínas, o código ge- nético quase universal e a quase-identida- • Foram desenvolvidos com sucesso méto- de das seqüências de nucleotídeos de mui- dos de inferência filogenética ou genea- tos genes que têm funções similares em lógica, tendo sido estabelecidas muitas re- organismos muito diferentes. Por exemplo, lações entre organismos (embora ainda os genes que comandam os primeiros pas- reste muito por fazer). Os métodos de sos no desenvolvimento embrionário, es- inferência filogenética fornecem evidênci- pecificando os eixos e as principais regi- as sobre as relações entre organismos, o ões do corpo do futuro embrião, têm se- que, por sua vez, fornece os fundamentos qüência, organização e funções básicas si- para incontáveis outros estudos. A histó- milares nos insetos e nos vertebrados; efe- ria das mudanças evolutivas de caracterís- tivamente, alguns genes de rato, se implan- ticas específicas, por exemplo, pode ser tados no genoma de uma mosca, podem inferida a partir de sua distribuição na ár- “instruir” os genes da mosca a desempe- vore filogenética. Podemos afirmar com nharem suas funções normais no desen- segurança que, nos insetos, o comporta- volvimento. Provas de um ancestral co- mento social evoluiu de forma independen- mum também são fornecidas por seqüên- te pelo menos 15 vezes, uma vez que o cias não-funcionais de DNA chamadas parentesco mais próximo de cada um dos pseudogenes: genes “inativos” que perde- 15 grupos de espécies sociais é com um 34
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    grupo não-social diferente.Além disso, adaptação que dá acesso a novos recursos comparações entre espécies de insetos so- ou a um novo modo de vida (p. ex., o vôo) ciais com parentesco próximo mostraram ou com a extinção de taxons que anterior- que a evolução de uma sociabilidade cada mente dominavam o ecossistema. vez mais intrincada ocorreu por etapas. Estudos filogenéticos revelaram ou confir- maram alguns acontecimentos notáveis da história da vida. Talvez a mais espantosa dessas descobertas seja a de que partes importantes das células dos eucariontes, como as mitocôndrias e os cloroplastos, descendem de bactérias que viviam em li- berdade e tornaram-se simbiontes intrace- lulares. Os métodos de inferência filogené- tica também produzem “árvores gênicas”, diagramas das relações entre variantes gênicas dentro de uma espécie e entre es- pécies diferentes. Quando analisadas à luz dos modelos da Genética de Populações, as árvores gênicas podem revelar muito sobre a história das populações, como a sua idade, seu tamanho anterior e a histó- ria de sua subdivisão (ver Box 2 sobre Evo- lução humana). Organização e expressão dos genes Hox. No alto: os do- mínios A-P da expressão dos genes Hox de Drosophila correspondem à ordem dos genes dentro do complexo • O ritmo e o modo da Evolução estão docu- Hox. No meio: a relação evolutiva entre os aglomerados mentados. Dados filogenéticos e paleon- de Hox de Drosophila, anfíbios e ratos e o complemento deduzido de genes Hox do ancestral comum presumido tológicos mostram que características di- de artrópodes e cordados. Embaixo: no rato em desen- ferentes evoluem a taxas diferentes den- volvimento, os domínios A-P dos genes Hox de rato tam- bém correspondem à ordem dos genes nos complexos tro de uma linhagem (um padrão chaman- Hox. Adaptado das refs. 50, 52 e 75. do evolução em mosaico), de modo que cada organismo é uma colcha de retalhos de ca- Genes com Homeobox Sean B. Carroll racterísticas que se modificaram substan- University of Wisconsin cialmente no passado recente e de outras Durante muito tempo, a evolução dos animais que sofreram poucas mudanças ao longo foi abordada através da Sistemática e da de muitos milhões de anos. Isto é verdade Paleontologia. Entretanto, até recentemente, a tanto para as seqüências de DNA como base genética da diversidade morfológica de qual- quer grupo animal estava fora do alcance da Bio- para as características fenotípicas. Em ge- logia. Como evoluem os planos do corpo e as ral, características anatômicas individuais partes do corpo? Uma das descobertas mais im- e conjuntos de características parecem portantes da década passada foi a de que a maio- ria dos animais, ou todos eles, têm uma família evoluir bastante rapidamente em certas especial de genes em comum, os genes Hox, que épocas da história de uma linhagem e, em são importantes para a determinação do padrão outras épocas, parecem não ter evolução corporal. A diversidade das características rela- cionadas com os Hox nos artrópodes (morfologia nenhuma. No registro fóssil, este padrão é dos segmentos, número e padrão dos apêndices) registrado como “estase” interrompida oca- e nos vertebrados (morfologia vertebral, padrão sionalmente por breves períodos de mu- dos membros e do sistema nervoso central) su- gere que os genes Hox tenham tido um papel im- danças rápidas — padrão que foi denomi- portante na evolução morfológica. Estudos recen- nado “equilíbrio pontuado”. Há várias ex- tes de vários tipos diferentes de animais sugerem que grande parte da diversidade animal tenha plicações recentes e concorrentes para este evoluído em torno de um conjunto comum de padrão. Outro padrão comum é a irradia- genes Hox que se desdobram de maneiras dife- ção evolutiva, na qual muitas linhagens dis- rentes e regulam genes diferentes em grupos es- pecíficos.1 tintas divergem de um ancestral comum num período curto de tempo. Essas explo- 1 S.B.Carroll, Nature, 376: 479-485 (1995); R.A. Raff, The Shape of Life: Genes, Development, and the Evolution of sões de diversificação muitas vezes estão Animal Form (University of Chicago Press, Chicago, 1996). associadas com a evolução de uma nova 35
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    • Os padrõesde diversificação e de extinção foram propensos à extinção no passado foram descritos com base no registro fós- pode nos ajudar a prever a vulnerabilidade sil. Organismos marinhos primitivos, por à extinção em espécies atuais. O padrão exemplo, aumentaram rapidamente em di- de extinções entre os invertebrados mari- versidade, depois permaneceram num ní- nhos costeiros ao longo do tempo geoló- vel relativamente estável durante grande gico, por exemplo, sugere que os habitan- parte da era Paleozóica (545–248 milhões tes de recifes tropicais são os mais vulne- de anos atrás). Em seguida, a sua diversi- ráveis. dade diminuiu abruptamente para talvez 4% de sua diversidade anterior, durante a • Foi elaborada e validada uma teoria quan- maior extinção em massa jamais sofrida titativa dos processos evolutivos funda- por seres vivos. A seguir, a diversidade re- mentais. A teoria matemática da Genética tomou rapidamente o rumo oposto, tendo de Populações — referente às mudanças aumentado em grau maior ou menor des- genéticas dentro e entre populações — des- de então (FIGURA 2). A separação dos con- creve a interação e a importância relativa, tinentes, que criou plataformas separadas em condições diversas, da taxa de muta- para a diversificação, contribuiu para o ção, da recombinação, da deriva genética, aumento global da diversidade, da mesma do fluxo gênico versus isolamento e de vá- forma como a ascensão de grupos “moder- rias formas de seleção natural. Esses pro- nos”, capazes de utilizar uma gama mais cessos foram bem documentados e quanti- ampla de recursos ou de habitats (p. ex., ficados, tanto em populações experimen- plantas florescentes). Ao longo de todo o tais como naturais de numerosas espéci- registro fóssil, houve alternância — extin- es. Assim, por exemplo, pode-se afirmar ção e surgimento de novas espécies. As com segurança que a seleção natural exer- causas da extinção não são muito bem ce uma força tão maior do que a mutação compreendidas, mas o conhecimento das sobre muitos caracteres fenotípicos que a características biológicas dos grupos que direção e a taxa da evolução geralmente Transições no Registro Fóssil: Baleias a partir de Ungulados J. John Sepkoski , Jr. University of Chicago Baleias e golfinhos (cetáceos) são decididamente mamíferos: eles têm sangue quente, amamentam seus filhotes, têm três ossos no ouvido médio. Eles até têm vestígios parciais internos de membros posteriores. O modo exato de parentesco dos cetáceos com os outros mamíferos, entretanto, somente foi esclarecido por com- pleto a partir dos anos ‘60, pela combinação de uma boa análise filogenética com descobertas paleontológicas espetaculares. Sabe-se agora, por meio de uma série contínua de transições encontrada no registro fóssil, que os cetáceos evoluíram durante o início do Eoceno a partir de um grupo primitivo de ungulados carnívoros (mamíferos com cascos) chamados mesoniquídeos. Esse grupo tinha uma cabeça incomumente grande para o tamanho do seu corpo e dentes adaptados para esmagar tartarugas. Portanto, alguns mesoniquídeos deviam viver perto de águas habitadas por tartarugas. O fóssil mais antigo incluído no gênero Cetacea é o Pakicetus, um crânio da camada ribeirinha do Baixo Eoceno do Paquistão. A estrutura do crânio é de cetáceo, mas os dentes são mais parecidos com os dos mesoniquídeos do que com os das baleias modernas com dentes. Um fóssil mais completo, igualmente do Paquistão, mas de depósitos marítimos rasos, é o Ambulocetus do início do Eoceno Médio. Os membros anteriores frontais e os fortes membros traseiros deste animal tinham patas grandes (e ainda com cascos) que podiam servir como nadadeiras e podiam ser viradas para trás como as dos leões marinhos. O Ambulocetus teria sido capaz de se locomover entre o mar e a terra. O mais importante, porém, é que as vértebras da parte baixa do dorso do Ambulocetus tinham uma articulação altamente flexível, que tornava o dorso capaz de executar um forte movi- mento para cima e para baixo, método usado pelos cetáceos modernos para nadar e mergulhar. Em depósitos marítimos do Paquistão um pouco mais recentes, foram encontrados mais dois cetáceos fós- seis, Indocetus e Rodhocetus. Esses animais tinham membros posteriores que provavelmente eram funcionais, mas o Rodhocetus tinha perdido a fusão das vértebras no local onde, nos mamíferos terrestres, a pelve se articula com a coluna vertebral. A perda desta fusão permitia uma flexibilidade ainda maior no movimento dorso-ventral da natação e sugere que este animal não se aventurava muito freqüentemente a ir para a terra, se é que o fazia. O Basilosaurus, de rochas do Eoceno Superior do Egito e dos Estados Unidos, é uma baleia mais moderna, com nadadeiras anteriores para pilotar e uma espinha dorsal completamente flexível. Assim mesmo, ao longo desta espinha dorsal, há vestígios da origem terrestre do Basilosaurus: membros posteriores completos, embora já pequenos, sem articulação com a espinha dorsal e provavelmente não-funcionais. Na evolução posterior dos cetáceos, esses membros posteriores ficaram ainda mais reduzidos, perdendo os artelhos e a rótula, necessários para a locomoção em terra. 36
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    são impostas pelaseleção, embora a mu- ponsável por outros exemplos de evolução tação afinal seja necessária para que pos- rápida, como o desenvolvimento de resis- sa haver evolução. Os modelos da Genéti- tência a inseticidas em muitas espécies de ca de Populações também mostram a ma- insetos. neira pela qual vários fatores, como certas formas de seleção natural e de estrutura • O processo da Evolução pode ser observa- populacional, mantêm a variação genéti- do e estudado diretamente. A existência da ca em vez de erodi-la. variação genética e o contínuo apareci- mento de novas variações genéticas por • A teoria dos processos evolutivos foi es- mutação e recombinação permitem-nos tendida com sucesso aos dados molecu- estudar grande número de processos lares. Por exemplo, a teoria neutra da evo- evolutivos — à medida que ocorrem. Estu- lução molecular, uma extensão da teoria dos de bactérias, por exemplo, mostraram da deriva genética desenvolvida na déca- que a evolução adaptativa pode basear-se da de 1930, prevê que a maior variação em novas mutações e não somente na va- deve ocorrer nas partes funcionalmente riação pré-existente (22). Muitas vezes, menos críticas de um gene. Em uma das mudanças adaptativas observadas têm muitas confirmações desta teoria, foram efeitos colaterais deletérios que, se forem experimentalmente induzidas mutações suficientemente grandes, podem limitar em várias partes de um gene da bactéria uma adaptação ulterior. Porém, às vezes, Escherichia coli. Como previsto, provou-se ocorrem mudanças genéticas subseqüen- que mutações naquelas regiões que dife- tes que corrigem esses efeitos colaterais. rem pouco entre diferentes espécies de Por exemplo, populações de uma mosca bactérias prejudicavam a função enzimá- varejeira que ataca ovelhas desenvolveram tica, enquanto mutações em regiões que resistência ao inseticida diazinon. Inicial- variam muito entre as espécies tinham mente, as populações resistentes apresen- pouco efeito (15). taram atraso de desenvolvimento e anor- malidades físicas, mas, mais adiante, es- • Descobriu-se que as populações são alta- ses traços diminuíram, devido à seleção de mente variáveis geneticamente. Tanto as outros genes que melhoraram os efeitos técnicas clássicas como as moleculares re- deletérios (32). velaram uma ampla variação genética den- tro e entre populações. Certamente, à ex- • Os mecanismos pelos quais surgem novas ceção de gêmeos idênticos, nunca houve espécies foram esclarecidos. Embora ain- dois seres humanos que fossem genetica- da haja muitas coisas a serem aprendidas mente idênticos. As tarefas que restam são a respeito da especiação, muito já se apren- as de explicar de forma mais completa por deu sobre as mudanças genéticas subja- que esta variação existe, de determinar por centes a esse processo. Nos animais, pa- que algumas características são genetica- rece que a especiação tipicamente envol- mente mais variáveis do que outras e de ve a divergência entre populações geogra- descobrir quão prontamente a seleção na- ficamente separadas, uma vez que os tural consegue transformar esta variação genes que se tornam predominantes em em novas adaptações a diversos desafios uma população são incompatíveis com os ambientais. da outra. Estudos genéticos mostraram que, em certos casos, esta incompatibili- • Esses altos níveis de variação genética têm dade é causada por um pequeno número várias implicações. Acima de tudo, eles de genes, sugerindo que a especiação ocor- podem permitir que as populações evolu- reu rapidamente, enquanto, em outros ca- am rapidamente quando há mudanças sos, a responsabilidade é de interações en- ambientais, em vez de terem de esperar tre um grande número de genes, implican- que ocorram justamente as mutações cer- do um processo de especiação lento e tas. O reservatório da variação genética gradativo. Certos modos de especiação têm contribuiu para o sucesso da seleção artifi- maior prevalência em plantas do que em cial (seleção deliberada feita por humanos) animais, como a especiação por poliploidia de características desejáveis em plantas de (multiplicação de conjuntos inteiros de cultivo e em animais domésticos e é res- cromossomos). Algumas espécies selva- 37
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    gens de plantasque evoluíram por poli- produção ou sobrevivência. Como po- ploidia foram “recriadas” diretamente em demos então explicar o comportamen- experiências de laboratório. to cooperativo de muitos animais? Uma das principais respostas a esta pergun- • Foram documentadas muitas formas de ta é a seleção parental. Um indivíduo seleção natural. Por exemplo, a seleção não que ajuda outros pode legar às gerações age somente por meio de diferenças na so- subseqüentes um número menor de brevivência e na reprodução das fêmeas, seus próprios genes, mas pode super- mas também por meio de diferenças no compensar isso aumentando a sobrevi- sucesso de acasalamento dos machos, de- vência e a reprodução de seus paren- nominado seleção sexual. Este processo im- tes, que são portadores de muitos genes plica competição entre os machos ou pre- iguais aos seus. Estudos mais aprofun- ferência das fêmeas por machos com cer- dados revelam que, de fato, a maioria tas características. Experiências mostraram dos comportamentos cooperativos é que a seleção sexual é responsável por dirigida a parentes e não à espécie em muitos comportamentos e traços anatômi- geral. cos elaborados, até bizarros, dos machos, como os enormes chifres dos veados e as • Senescência. Se a seleção natural con- fulgurantes penas e elaboradas exibições siste, em parte, de diferenças na sobre- dos machos de muitas aves. vivência, por que os organismos sofrem senescência e têm uma duração limita- Tradicionalmente, a seleção natural era da de vida, mais curta ou mais longa, definida como diferenças de sobrevivên- dependendo da espécie? A teoria mate- cia ou de reprodução entre indivíduos mática dos ciclos de vida mostra que fi- fenotipicamente diferentes dentro de popu- lhos nascidos em uma fase tardia da lações de uma espécie. Agora sabemos que vida de um dos pais contribuem menos a seleção também pode estar em diferen- para os números futuros da população ças na sobrevivência ou reprodução entre do que filhos nascidos mais cedo. Con- os próprios genes (seleção gênica), entre seqüentemente, a reprodução em fases grupos inteiros de indivíduos (seleção de tardias da vida contribui com menor grupo) e entre espécies ou taxa mais altos. A número de genes para a população do seleção gênica pode ser especialmente que a reprodução precoce. Portanto, a potente. “Genes egoístas” são genes que, vantagem genética de sobreviver para por meio de diversos mecanismos, propa- reproduzir diminui com a idade. Por gam um número maior de cópias em uma isso, se genes que aumentam a sobre- população do que outros genes. Por exem- vivência ou a reprodução no início da plo, elementos transponíveis são seqüênci- vida tiverem efeitos colaterais deletéri- as de DNA que se replicam e se propagam os em fases mais tardias, eles podem por todo o genoma. Tais genes podem não ser selecionados por causa de seu efei- beneficiar, ou até prejudicar, o organismo to sobre a reprodução precoce, causan- ou a espécie como um todo. do porém a senescência como efeito colateral. Esta é mais uma hipótese res- • Teorias baseadas na seleção natural expli- paldada por estudos de populações ex- caram a evolução de muitas característi- perimentais de Drosophila (53). cas intrigantes. Citamos dois exemplos de uma longa lista: o comportamento coope- • Os processos de co-evolução foram rativo e a senescência. elucidados. Os ecólogos que se dedicam ao estudo da Evolução estão elaborando e • Comportamento cooperativo. O compor- testando hipóteses sobre o modo pelo qual tamento altruísta, como o de animais espécies que interagem afetam reciproca- adultos que não conseguem dar cria e, mente a sua evolução. Por exemplo, o an- em vez disso, ajudam outros indivíduos tagonismo entre presa e predadores e en- a criar os filhotes, parece difícil de ex- tre hospedeiros e parasitas ou patógenos plicar, porque tais genótipos “altruístas” pode levar a “corridas armamentistas” desviam uma energia que, de outra for- evolutivas, nas quais cada um muda, em ma, poderiam usar para sua própria re- resposta a mudanças do outro. As adapta- 38
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    ções resultantes podemser intrincadas: as flores em todas as plantas florescentes. É plantas, por exemplo, desenvolveram di- notável que esses genes seletores que re- versas defesas químicas contra herbívoros gulam o desenvolvimento de flores tenham e patógenos, incluindo compostos como a algumas semelhanças na seqüência do nicotina, a cafeína e o ácido salicílico (as- DNA com genes seletores de animais. A pirina ou AAS), que os humanos usam para maioria dos avanços da biologia evolutiva diversos fins. Entretanto, cada uma dessas do desenvolvimento é muito recente; este defesas foi vencida por algumas espécies campo está crescendo rapidamente. de insetos, que desenvolveram mecanis- mos fisiológicos para neutralizá-las. • Muitos aspectos da Evolução humana fo- ram elucidados por pesquisas recentes em • Chegou-se a uma melhor compreensão do paleoantropologia, sistemática filogenética desenvolvimento que constitui a base da e genética molecular de populações. As se- evolução de características complexas. qüências de DNA mostram que os huma- Uma pergunta que vem de longa data re- nos têm parentesco próximo com os ma- fere-se ao modo pelo qual evoluem as ca- cacos africanos, especialmente os chim- racterísticas anatômicas complexas, espe- panzés. A semelhança superior a 98% das cialmente as novas, como as penas das seqüências de DNA entre humanos e chim- primeiras aves. Para responder esta per- panzés implica a sua divergência de um gunta, teremos de entender como podem ancestral comum há cerca de 6 a 8 milhões mudar as vias normais de desenvolvimen- de anos. Quase todos os anos, são desco- to das características morfológicas. Os re- bertos na África Oriental hominídeos pri- centes avanços espetaculares da Biologia mitivos com muitos traços parecidos com do Desenvolvimento são igualados pelos os dos macacos (como cérebro pequeno, estudos das mudanças evolutivas dos me- ossos dos dedos e dos dedos dos pés cur- canismos de desenvolvimento. Nas vos e características dentárias). Os fósseis salamandras, por exemplo, mudanças de hominídeos mais antigos já descober- evolutivas dos genes que afetam a produ- tos têm cerca de 4,4 milhões de anos, apro- ção de hormônios, ou as respostas de vá- ximando-se da época do ancestral comum rios tecidos a esses hormônios, influenci- sugerida pelos dados de DNA. Algumas aram a taxa e os tempos do desenvolvi- populações fósseis de hominídeos apresen- mento, dando origem a espécies que con- tam uma transição gradativa de uma para servam muitas características juvenis ao a outra. longo de toda a sua vida adulta. Tais mu- danças podem ter efeitos importantes e de Há uma considerável controvérsia em tor- grande alcance; por exemplo, algumas no da hipótese, baseada em estudos de salamandras que atingem apenas um ta- variação do DNA, de que todas as popula- manho minúsculo deixam de desenvolver ções humanas da atualidade seriam des- determinados ossos e têm crâneos extre- cendentes de uma única população africa- mamente alterados. Estudos moleculares na que se espalhou por todo o continente do desenvolvimento das moscas de frutas eurasiano cerca de 100.000 a 200.000 anos do gênero Drosophila descobriram genes atrás, substituindo as populações de Homo seletores (reguladores principais), que re- sapiens que tinham ocupado essa região gulam a ação de outros genes de posição anteriormente. Segundo esta hipótese, as inferior na hierarquia de comando, que de- diferenças genéticas entre as populações terminam a identidade e as características humanas modernas das diferentes partes dos segmentos do corpo do inseto. Estu- do globo terrestre tiveram pouco tempo (na dos evolutivos comparativos mostram a escala evolutiva) para se desenvolver. Na existência de homólogos desses genes nos realidade, embora existam algumas dife- mamíferos e também em outros animais. renças genéticas regionais de característi- Todos esses genes seletores regulam genes cas como os traços faciais e as freqüênci- de nível inferior que diferem entre um gru- as dos grupos sangüíneos, de um modo po de organismos e outro, dando origem, geral, todas as populações humanas são desta forma, a características diferentes. geneticamente muito semelhantes. A mai- Analogamente, foram encontrados genes oria das variações genéticas humanas é que podem regular o desenvolvimento das encontrada dentro das populações e não 39
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    entre elas. Portanto,se todos os seres hu- estrutura de RNAs de tamanho reduzido, manos fossem extintos, à exceção de uma mas foram ineficazes na resolução da es- única tribo em algum lugar da Terra, pelo trutura de RNAs maiores, como o RNA menos 85% da variação genética que exis- ribossômico. Entretanto, análises filogené- te hoje continuaria presente na futura po- ticas de seqüências de RNA ribossômico de pulação originária daquela tribo sobrevi- diversas espécies identificaram as regiões vente (40). evolutivamente conservadas da molécula, fornecendo as bases para a especificação B. Contribuições para Outras daqueles segmentos que mantêm sua es- Disciplinas Biológicas trutura secundária por pareamento Watson-Crick. Desta forma, uma inferência No início do século vinte, a maioria dos feita a partir da análise evolutiva trouxe da- biólogos recebia uma formação ampla, de dos fundamentais a respeito da estrutura modo que muitos deles traziam para a sua desses componentes onipresentes e vitais pesquisa um enfoque tanto mecanicista, como do maquinário da síntese de proteínas (43). evolutivo. Muitos geneticistas, por exemplo, Em outra aplicação da análise filogenética, motivados por questões evolutivas, contribu- biólogos moleculares deduziram a seqüên- íram tanto para a Teoria da Evolução como cia de proteínas ancestrais, sintetizaram- para o nosso entendimento dos mecanismos nas e examinaram suas propriedades (2, genéticos. Hermann Muller, por exemplo, deu 26). muitas contribuições importantes para a Ge- nética Evolutiva e também ganhou um Prê- Os genomas dos organismos eucariontes, mio Nobel pela descoberta de que a radiação incluindo os mamíferos, variam muito de causa mutações. tamanho, devido à variação do muitas ve- Entretanto, com o crescimento da ciên- zes enorme número de seqüências repeti- cia e o crescimento explosivo da informação, das de DNA. Além disso, essas seqüências a Biologia passou a se fragmentar cada vez repetidas variam muito quanto à sua se- mais em subdisciplinas especializadas e os qüência e organização. Durante muitos biólogos passaram a receber uma formação anos, elas foram atribuídas à “hipótese do cada vez mais limitada. Conseqüentemente, DNA egoísta” (12, 14, 46), que afirma que muitos biólogos que trabalham em áreas o DNA repetitivo não tem função nenhu- como a Biologia Molecular e a Neurobiologia ma no organismo, mas é propagado por- têm pouca base de Biologia Evolutiva e des- que qualquer seqüência de DNA capaz de conhecem as contribuições potenciais dela se replicar com sucesso e de ser transmiti- para as suas disciplinas. Apesar disso, a in- da às gerações subseqüentes tem uma van- fluência mútua entre a Biologia Evolutiva e tagem seletiva em relação a seqüências as outras disciplinas continuou e, em algumas com capacidade menor de fazê-lo. Esta áreas, aumentou. Poderemos esboçar apenas teoria deu origem a novos estudos sobre o alguns exemplos das contribuições dos dados DNA repetitivo e há cada vez mais evidên- e abordagens evolutivos às outras ciências cias de que este DNA às vezes pode ter um biológicas. papel mais funcional do que se pensava antes. • B i o l o g i a M o l e c u l a r . As abordagens r. evolutivas contribuíram para elucidar a es- O código genético é redundante. Muitos trutura do RNA ribossômico, o meio quí- dos aminoácidos que compõem as proteí- mico responsável pela tradução da infor- nas são codificados no DNA por várias mação contida no DNA em estrutura de tríades de nucleotídeos (codons) que dife- proteína. O RNA ribossômico tem uma es- rem na posição três do nucleotídeo. Pode- trutura secundária composta de alças de ria-se esperar que os vários codons sinô- seqüências não-pareadas de nucleotídeos nimos para um aminoácido particular ti- e caudas de pares de bases, combinadas vessem a mesma freqüência no DNA, mas de maneira semelhante à estrutura de du- é muito comum que um deles seja muito pla hélice do DNA (pareamento de bases mais freqüente do que os outros, padrão de Watson-Crick). Métodos químicos e chamado “viés do codon” (“codon bias”). biofísicos, como a cristalografia de raios X, Os biólogos moleculares que se dedicam forneceram algumas informações sobre a ao estudo da Evolução alegaram que a se- 40
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    leção natural poderiaser responsável por ma nervoso; porém, a sua mera existência esses padrões. Esta seleção teria de ser fra- somente pode ser explicada pelo fato de ca, uma vez que codons sinônimos não ser uma característica estrutural funcional- diferem em seus efeitos sobre os produtos mente importante durante toda a vida dos protéicos que realizam as funções bioquí- vertebrados primitivos. O papel da noto- micas das quais depende a sobrevivência corda no desenvolvimento evoluiu nos do organismo. A teoria da Genética de Po- primórdios da história dos vertebrados e pulações prevê que uma seleção fraca deve foi por causa deste papel que ela foi ser mais eficaz em populações grandes do mantida nos embriões dos mamíferos, que nas pequenas. Conforme previsto por muito depois de sua função estrutural em esta teoria, o viés do codon é mais pro- seus ancestrais ter sido substituída pela nunciado em organismos como as bacté- evolução da coluna vertebral óssea. rias e as leveduras, cujas populações são enormes, do que nos mamíferos, nos quais Está ocorrendo atualmente uma retomada elas são muito menores. Portanto, é de fato da interação entre a Biologia do Desenvol- provável que a seleção natural faça uma vimento e a Biologia Evolutiva, em parte escolha entre codons sinônimos, o que por causa de uma renovada atenção para deixa a pergunta de quais seriam as dife- o desenvolvimento por parte dos biólogos renças de mecanismo entre codons sinô- que se dedicam ao estudo da Evolução e, nimos que poderiam afetar a sobrevivên- em parte, por causa de comparações entre cia ou a reprodução. Uma das principais espécies de genes que têm papel crítico no hipóteses é a de que a tradução do RNA desenvolvimento. A abordagem compara- mensageiro para proteína poderia ser mais tiva forneceu, por exemplo, descobertas eficiente, se a interação com os RNAs de vitais sobre a função de genes envolvidos transferência envolvidos na síntese de pro- no desenvolvimento ocular e sobre os me- teínas for realizada por um codon comum canismos de morfogênese do olho. Na Su- e não por vários codons diferentes (5). É íça, Walter Gehring e seu grupo de pesqui- desta forma que a pesquisa evolutiva indi- sa descobriram recentemente que um sis- ca o caminho para a pesquisa de mecanis- tema semelhante de controle genético do mos moleculares fundamentais. desenvolvimento ocular prevalece nos in- setos e nos mamíferos e talvez se aplique • Biologia do Desenvolvimento. As seme- Desenvolvimento. a todos os animais. De fato, eles descobri- lhanças entre embriões de espécies cujas ram que um gene que controla o desen- formas adultas são radicalmente diferen- volvimento ocular em mamíferos, quando tes estiveram entre as principais fontes de transplantado em moscas de frutas Darwin como provas da Evolução. Grande Drosophila, pode induzir o desenvolvimen- parte da Embriologia das décadas depois to dos olhos de insetos, que são tão dife- de Darwin preocupou-se com as diferen- rentes. A característica chave deste siste- ças entre organismos em desenvolvimen- ma genético é um único gene seletor, que to e com o desenvolvimento como fonte inicia a formação ocular e parece regular a de provas para as relações filogenéticas. atividade dos numerosos outros genes que No início do século vinte, porém, as aten- contribuem para o desenvolvimento ocu- ções voltaram-se para os mecanismos do lar (21). Esta característica comum traz desenvolvimento e a Embriologia tornou- uma vantagem prática: insetos e outras se uma ciência experimental, muito distan- espécies animais, que são mais fáceis e te dos estudos evolutivos. Assim mesmo, menos dispendiosos de estudar do que se- alguns biólogos que estudam o desenvol- res humanos, podem ser utilizados como vimento reconheceram que alguns fenô- modelos para aperfeiçoar a nossa compre- menos embriológicos somente podiam ser ensão das bases genéticas e do desenvol- compreendidos à luz da história evolutiva. vimento das malformações oculares con- A notocorda, por exemplo, somente apa- gênitas e hereditárias, bem como o seu di- rece durante um curto período do desen- agnóstico e possível tratamento, com a volvimento dos mamíferos, desaparecen- certeza de que o conhecimento derivado do em seguida. Ela tem um papel essenci- dessas espécies pode ser aplicado de for- al, pois induz o desenvolvimento do siste- ma significativa à espécie humana. 41
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    • Fisiologia eMorfologia. A Biologia exemplo, para descrever até que ponto as Evolutiva influenciou por muito tempo o diferenças fisiológicas entre um organis- estudo da fisiologia de animais e plantas e mo e outro se devem a diferenças genéti- pode trazer muitas outras contribuições cas (“natureza”) versus ajustes individuais que somente agora estão sendo desenvol- a variáveis ambientais (“criação”). Um des- vidas. Algumas dessas contribuições terão ses métodos é a seleção artificial de carac- influência sobre o campo da fisiologia hu- terísticas fisiológicas. Mudanças evolutivas mana, incluindo áreas correlatas como a induzidas pelo homem em populações ex- medicina esportiva e a psicologia clínica; perimentais mostraram que características outras trarão avanços na nossa compre- como a tolerância ao álcool e à tempera- ensão dos mecanismos fisiológicos bási- tura e a capacidade de aprender são influ- cos e de suas aplicações a áreas como a enciadas por genes. Em populações que medicina, a agricultura e a ciência veteri- foram alteradas por seleção artificial, a pro- nária (20). cura por características que sofreram mu- danças correlatas pode revelar candidatos A Fisiologia Evolutiva inclui o estudo de a mecanismos fisiológicos subjacentes à funções fisiológicas em espécies que ocu- variação. Características que possam afe- pam ambientes diferentes. Foram desco- tar a senescência estão sendo procuradas bertos muitos mecanismos interessantes em populações experimentais de Droso- de lidar com ambientes extremos, aprofun- phila e do nematódeo Caenorhabditis dando a nossa compreensão da fisiologia elegans, nos quais se conseguiu atrasar a e da bioquímica. Foram descobertas pro- maturidade por meio da seleção artificial teínas que impedem a formação de cris- (27, 53). Em outros estudos, estão sendo tais de gelo nas células de peixes antárti- selecionadas populações de ratos com di- cos que vivem em águas próximas do ponto ferentes níveis de atividade, a fim de de- de congelamento. Estudos de mamíferos terminar se essas diferenças interferem ou mergulhadores, como as focas, forneceram não na saúde, no tempo de vida ou na re- conhecimentos sobre como esses animais produção das fêmeas (como pode ocorrer conseguem manter suas funções sem res- nos humanos). Uma vez que os dados hu- pirar por longos períodos de tempo em manos desse tipo são não-experimentais pressões elevadas — dados que repercu- e de difícil interpretação, esses estudos de tem na fisiologia dos mergulhadores hu- modelos animais podem dar muitas con- manos. Outro exemplo traz conseqüênci- tribuições. as para o controle do pH sangüíneo duran- te cirurgias a coração aberto (66). Em ge- • Neurobiologia e Comportamento. Os tra- ral, essas cirurgias são facilitadas pelo ços comportamentais evoluem exatamente resfriamento do corpo, diminuindo-se com como as características morfológicas e, isso a freqüência cardíaca. O resfriamento como elas, muitas vezes são extremamente do corpo eleva o pH sangüíneo e os clíni- semelhantes em espécies com parentesco cos têm considerado isso como um “pro- próximo. Estudos filogenéticos do compor- blema” a ser resolvido ajustando-se o pH tamento forneceram exemplos de como ao nível encontrado na temperatura nor- certos comportamentos complexos, como mal do corpo (37°C). Entretanto, especia- as exibições de cortejo de certas aves, evo- listas em fisiologia comparada salientaram luíram a partir de comportamentos ances- que, em animais ectotérmicos, como os trais mais simples. répteis, normalmente o pH sangüíneo se eleva à medida que a temperatura corpo- Os biólogos que se dedicam ao estudo da ral cai, sem causar efeitos adversos. Este Evolução vêm trabalhando muito com as reconhecimento levou a mudanças na con- contribuições relativas dos genes e da ex- duta referente à hipotermia cirúrgica. periência (aprendizado, no sentido amplo) para a variação do comportamento, tendo A teoria e os métodos da Genética Evolu- mostrado que elas diferem, dependendo da tiva podem contribuir para a nossa com- característica e da espécie. No âmbito do preensão da base da variação intraespe- esforço para compreender como a seleção cífica das funções fisiológicas. Esses mé- natural atuou sobre o componente genéti- todos têm sido amplamente usados, por co da variação, a fim de moldar comporta- 42
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    mentos adaptativamente importantes,os Embora os neurobiólogos reconheçam que biólogos que se dedicam ao estudo da Evo- os mecanismos que estudam são adapta- lução desenvolveram uma ampla gama de ções, eles geralmente não estudam os me- modelos matemáticos que prevêem os canismos comportamentais em termos ex- comportamentos passíveis de serem desen- pressamente evolutivos. Até agora, a Bio- volvidos, dependendo do ambiente ecoló- logia Evolutiva contribuiu muito pouco gico e social de cada espécie. Alguns deles para o entendimento dos processos mole- relacionam-se com modelos econômicos. culares na neurobiologia e os pontos de Por exemplo, modelos de comportamento contato entre a Neurobiologia e a Biologia predador previram com sucesso as “deci- Evolutiva têm sido muito poucos. Existem, sões” de rapina tomadas por aves e outros entretanto, algumas exceções notáveis, animais, diante da variação da qualidade e especialmente nos estudos comparativos da distribuição espacial do alimento. e evolutivos dos mecanismos sensoriais e da neuroanatomia. Por exemplo, o tama- O estudo evolutivo do comportamento ani- nho da região que controla o canto no cé- mal uniu-se à psicologia comparativa em rebro de aves canoras difere entre popula- várias áreas de pesquisa, como o estudo ções e espécies que variam quanto ao nú- do aprendizado. Está claro atualmente que mero de cantos diferentes que emitem. Em a seleção natural fomentou a capacidade algumas espécies de corujas capazes de lo- de aprender a desempenhar tarefas dife- calizar a presa na total escuridão, aglome- rentes em espécies diferentes e que essas rados de células cerebrais que processam adaptações podem ser estudadas de uma as informações referentes ao som têm uma maneira muito semelhante à das adapta- organização espacial tal que formam lite- ções morfológicas. Certas espécies de aves, ralmente um mapa do ambiente tridimen- por exemplo, diferem sensivelmente quan- sional do qual são recebidos os sons. Es- to à capacidade de lembrar os locais em tudos comparativos deste tipo, baseados que foi guardado o alimento; esta capaci- na compreensão das exigências adap- dade é extremamente alta naquelas espé- tativas das diferentes espécies, podem por- cies que tipicamente escondem sementes tanto levar a uma nova compreensão dos ou outros alimentos. mecanismos comportamentais. RESERV PARA EVOLUTIV OLUTIVA? VII. O QUE O FUTURO RESERVA PARA A BIOLOGIA EVOLUTIVA? A. Ciência Aplicada microrganismos, realizados em parte por causa de suas aplicações industriais, lança- Como já discutido acima, a Biologia ram luz sobre a evolução de vias bioquími- Evolutiva deu diversas contribuições às ne- cas. Estudos genéticos e filogenéticos de mi- cessidades da sociedade. Suas contribuições lho e de outras plantas de safra trouxeram potenciais, entretanto, ultrapassam de longe conhecimentos sobre as taxas de evolução e as que já foram dadas até agora. Em contras- as mudanças de vias de desenvolvimento. O te com algumas outras disciplinas biológicas, estudo da hemoglobina siclêmica e de ou- como a Bioquímica e a Ecologia, nas quais tros polimorfismos humanos forneceu algu- são enfatizadas, tanto na formação como na mas das melhores análises dos modos de pesquisa, as aplicações à saúde ou às ciênci- seleção natural. A evolução da resistência a as ambientais, o desenvolvimento de um cam- pesticidas e a drogas em insetos que consti- po explícito de “Biologia Evolutiva Aplicada” tuem pragas, em ervas daninhas, ratos e bac- está apenas começando (19, 33, 41). térias patogênicas, a evolução de caracterís- A história da Biologia Evolutiva mos- ticas de ciclo de vida em populações de pei- tra que as interações benéficas entre ciência xes superexploradas e em pragas de insetos básica e aplicada podem fluir nos dois senti- introduzidas, a evolução da virulência em ví- dos. A Genética Evolutiva aproveitou a pes- rus e bactérias e a co-evolução entre insetos quisa genética destinada a melhorar safras e e plantas foram os temas de alguns dos me- animais domésticos. Estudos de mudanças lhores estudos de casos de dinâmica por mutação das capacidades metabólicas de evolutiva. 43
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    Este retrospecto mostraque, muitas dentro e entre as populações humanas. As vezes, os biólogos que se dedicam ao estudo técnicas da Genética de Populações e a da Evolução podem tratar questões básicas análise filogenética serão aplicadas às in- trabalhando com sistemas de relevância di- formações que surgem explosivamente reta para as necessidades da sociedade. Cer- sobre a variação humana, para determinar tamente, os sistemas para tratar determina- a história das populações (p. ex., seus ta- dos problemas intelectuais básicos muitas manhos, movimentos e intercâmbios no vezes não terão uma utilidade social imedia- passado) e continuarão a fornecer ferra- ta, embora freqüentemente seja difícil prever mentas para a identificação das lesões ge- de antemão quais as questões da ciência bá- néticas associadas com doenças e defei- sica que levarão a avanços úteis. Além disso, tos hereditários (como no caso da fibrose diante de alguns dos resultados discutidos cística, do câncer de mama e outros). Com- acima, reiteramos a importância de se explo- parações evolutivas de seqüências de DNA rar e compreender a diversidade dos organis- humano com as de outras espécies trarão mos como um objetivo intelectual. Em mui- conhecimentos sobre as funções dos tos casos, porém, a pesquisa sobre um orga- genes. Os geneticistas de populações ana- nismo ou sistema de relevância social pode lisarão as bases genéticas de traços variá- trazer um avanço para a ciência básica e tam- veis interessantes, como as reações a agen- bém contribuir para as necessidades da soci- tes alergênicos. Genes que conferem adap- edade. Prevemos que os biólogos dedicados tações a fatores ambientais como pató- ao estudo da Evolução desempenharão esse genos e alimentação serão identificados papel duplo cada vez mais. pelo estudo das diferenças genéticas entre É importante enfatizar que grande par- e dentro das populações. Os métodos uti- te do progresso esperado na Biologia lizados pelos geneticistas que se dedcam Evolutiva Aplicada exigirá e será inseparável ao estudo da Evolução serão aplicados à do progresso da pesquisa básica. Como em diversidade humana, a fim de elucidar ca- outras disciplinas biológicas, estudos de or- sos de herança complexa de doenças (p. ganismos e de sistemas modelo (incluindo não ex., aquelas devidas a interações entre somente espécies padrão de laboratório, genes múltiplos) e de estudar interações como as leveduras, a Drosophila e a genótipo/ambiente — as diferentes expres- Arabidopsis, mas também uma variedade de sões de características como a resistência espécies selvagens) trarão conhecimentos a doenças em diferentes condições aplicáveis às necessidades da sociedade. Da ambientais. mesma forma, os avanços conceituais e teó- ricos da Biologia Evolutiva Básica contribui- • Identificação genética A Genética de Po- genética. rão para o progresso da Biologia Evolutiva pulações desenvolveu e continua aperfei- Aplicada. Importantes progressos serão fei- çoando métodos analíticos de identifica- tos nas áreas das ciências da saúde, da agri- ção de indivíduos e de relações entre indi- cultura, dos produtos naturais, do meio am- víduos a partir de um perfil de marcadores biente e conservação, do desenvolvimento de geneticamente variáveis. Esta metodologia tecnologias e do intercâmbio educacional e também utiliza marcadores genéticos liga- intelectual com outras disciplinas acadêmicas dos, para determinar a probabilidade de e com o público em geral. que um indivíduo seja portador de genes de interesse particular (p. ex., aqueles que Ciências da Saúde causam uma doença genética). À medida Os avanços na aplicação das disciplinas que os geneticistas que estudam a Evolu- evolutivas à saúde humana pertencem a vá- ção aperfeiçoarem esses métodos e os apli- rias categorias. carem aos dados referentes à diversidade genética humana, será possível utilizar os • Diversidade genética humana As pesqui- humana. marcadores moleculares com maior segu- sas sobre a diversidade genética humana rança e precisão para fins como o complementarão o Projeto Genoma Huma- aconselhamento de indivíduos quanto à no, que acabará seqüenciando todo o probabilidade de que eles ou seus filhos genoma humano. Essas pesquisas forne- venham a ser portadores de uma doença cerão dados, em nível molecular, sobre a genética, a determinação de paternidade e imensa diversidade genética que existe análises médico-legais. 44
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    • Genética evolutivado desenvolvimento desenvolvimento volvimento. organismos relacionados com patógenos Dados comparativos referentes às bases conhecidos (p. ex., vírus de outros primatas genéticas e mecânicas do desenvolvimen- e vertebrados) podem permitir que os pes- to de diversos vertebrados e outros orga- quisadores identifiquem patógenos com nismos lançarão muita luz sobre os meca- potencial para entrarem na população hu- nismos do desenvolvimento humano. Tais mana. Estudos genéticos, ecológicos e estudos contribuirão para a nossa compre- filogenéticos de patógenos novos e emer- ensão das bases dos defeitos hereditários gentes (p. ex., o hantavírus e o espiroqueta e de outros defeitos congênitos humanos, da doença de Lyme) podem elucidar suas podendo acabar sendo úteis no desenvol- origens, suas taxas e modos de transmis- vimento de terapias gênicas. são, bem como as circunstâncias ecológi- cas que levam a surtos ou à evolução de • Mecanismos e evolução da resistência a uma maior virulência. Estudos experimen- antibióticos Estudos genéticos, filogené- antibióticos. tais de sistemas modelo, incluindo orga- ticos e bioquímicos comparativos de bac- nismos relacionados com patógenos co- térias, protistas, fungos, helmintos e outros nhecidos, podem identificar os mecanis- parasitas ajudarão a identificar os alvos dos mos de virulência e os fatores genéticos e antibióticos. A rápida evolução da resistên- ambientais que influem na resistência a cia a antibióticos em patógenos previamen- drogas. (Naturalmente, estudos desse tipo te suscetíveis coloca-nos diante da neces- também serão relevantes para plantas de sidade vital de um estudo evolutivo, com o safra e animais domésticos, bem como objetivo de se compreenderem os meca- para populações selvagens de importância nismos de resistência, sua taxa de evolu- econômica, como os peixes). ção, fatores que podem limitar esta evolu- ção e maneiras de preveni-la ou combatê- Agricultura e recursos biológicos la. Assinalamos acima as numerosas ma- neiras pelas quais a Biologia Evolutiva têm • Virulência do parasita e resistência do estado intimamente ligada à agricultura e ao hospedeiro Os estudos evolutivos das hospedeiro. gerenciamento de recursos biológicos, como interações parasita/hospedeiro, usando as florestas e a pesca. O espectro de contri- tanto sistemas de modelos como parasitas buições futuras nestas áreas é imenso. Sali- e patógenos humanos, estão apenas co- entamos apenas alguns dentre os tópicos mais meçando a determinar as condições que importantes a serem seguidos. levam os parasitas a se tornarem mais vi- rulentos ou mais benignos. Os geneticistas • Resistência a pesticidas A despeito dos pesticidas. e ecólogos que se dedicam ao estudo da novos métodos alternativos de controle de Evolução precisam elaborar uma teoria pragas, o uso criterioso de pesticidas geral, preditiva da evolução e da dinâmica indubitavelmente continuará sendo indis- populacional dos patógenos e de seus hos- pensável. A evolução da resistência a pedeiros, especialmente para organismos pesticidas em insetos, nematódeos, fungos de evolução rápida, como o HIV, e para e ervas daninhas é um problema econô- espécies de hospedeiros de migração rápi- mico sério, que requer muita atenção. Isto da, como o ser humano moderno. Também exigirá estudos sobre a genética e os me- são necessárias análises da variação ge- canismos fisiológicos da resistência, estu- nética da resistência a patógenos, tanto no dos de dinâmica das populações e a ela- homem como em outros hospedeiros. boração de métodos para limitar ou retar- dar a evolução da resistência. • Epidemiologia e ecologia evolutiva de patógenos e parasitas Doenças novas e parasitas. • Alternativas no controle de pragas Será pragas. outras que ressurgiram têm aparecido importante incluir considerações evoluti- como importantes ameaças à saúde públi- vas na avaliação de muitos métodos alter- ca e outras provavelmente o farão no futu- nativos de controle de pragas, como a mis- ro. Os biólogos estudiosos da Evolução tura intra e inter-cultivares ou o desenvol- podem ajudar de várias maneiras os esfor- vimento de plantas transgênicas portado- ços de combate a essas ameaças. O ras de fatores de resistência que as prote- rastreamento e o estudo da filogenia de gem contra insetos ou outras pragas. Ex- 45
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    perimentos mostraram, porexemplo, que nética das plantas de safra e seus parentes as pragas do tabaco são capazes de se para necessidades futuras) continuará a adaptar ao tabaco transgênico portador de depender de estudos da variação entre e uma toxina bacteriana, evidenciando a dentro das populações. necessidade de estudos sobre a variação genética das respostas dos insetos às sa- • Pesca Vários tipos de estudos evolutivos Pesca. fras transgênicas. Existe um potencial foram e continuarão sendo importantes no enorme para o uso transgênico dos incon- gerenciamento da pesca comercial e espor- táveis compostos secundários e de outras tiva. Marcadores genéticos moleculares propriedades das plantas selvagens, que as ajudarão os pesquisadores a distinguir as protegem contra insetos e patógenos. O populações reprodutoras e as rotas de mi- rastreamento experimental e filogenético gração de espécies como o bacalhau e o desses fatores naturais de resistência deve salmão. O estudo da evolução de caracte- mostrar-se compensador. O vasto campo rísticas de ciclo de vida, como a taxa de da Ecologia Evolutiva que lida com com- crescimento e a idade de maturação, per- postos secundários de plantas e com as mitirão aos gestores avaliar os efeitos ge- interações entre plantas e os insetos e fun- néticos e demográficos do período de pes- gos que são seus inimigos é relevante para ca sobre as populações de peixes. Em re- este esforço. Será importante analisar os lação a certas espécies de peixes mantidas efeitos fisiológicos dos fatores naturais de em grandes criadouros, será útil a realiza- resistência sobre os organismos que cons- ção de estudos genéticos e fisiológicos da tituem pragas, os mecanismos pelos quais adaptação a diferentes ambientes e do va- alguns insetos e fungos superam seus efei- lor adaptativo apresentado neles. Os pro- tos e a variação genética das respostas das jetos de grandes criadouros também inclui- espécies-alvo aos fatores naturais de re- rão o uso de peixes transgênicos, que ain- sistência. da se encontram nos estágios iniciais de desenvolvimento. • Diversidade genética em organismos de importância econômica A produção de econômica. Produtos e processos naturais alimentos, fibras e produtos florestais têm A indústria farmacêutica e outras indús- sido expressivamente melhorada, ao lon- trias estão procurando ativamente novos pro- go da história, pela exploração da varia- dutos e processos, rastreando plantas, animais ção genética e os métodos para isso bene- e microrganismos (33). Em função de suas im- ficiaram-se de informações de grande pro- plicações comerciais, a busca e o desenvolvi- fundidade da Biologia Evolutiva. Juntos, os mento de novos produtos e processos levan- cientistas estudiosos da Evolução e da agri- ta questões sérias na legislação sobre paten- cultura utilizarão o mapeamento de LCQ tes e no direito internacional, além da publi- (locos de características quantitativas) e cação de dados científicos que ultrapassam a outros métodos, a fim de localizar os genes finalidade deste relatório, mas que afetarão para traços importantes das plantas, como os compromissos e as atividades dos pesqui- a resistência a patógenos e a pressões sadores científicos. Os estudos evolutivos da- ambientais, e de elucidar as bases de seus rão grande contribuição à pesquisa e ao de- mecanismos. Tais estudos também aten- senvolvimento, resultando na descoberta de derão os interesses da ciência básica e de muitos produtos e processos novos. seus pesquisadores interessados nas adap- tações das plantas aos fatores ambientais. • Sistemática e filogenia A documentação filogenia. Estudos semelhantes sobre plantas selva- da diversidade dos organismos potencial- gens localizarão genes para traços úteis, mente úteis é o fundamento de todo o tra- que podem ser transferidos para plantas de balho subseqüente. Isto foi reconhecido, safra por meio da engenharia genética. Pro- por exemplo, pela Comissão Presidencial gramas de pesquisa desse tipo utilizarão de Assessores para Ciência e Tecnologia princípios e informações provenientes de dos EUA (48) e pelas companhias farma- estudos sobre filogenia e adaptação das cêuticas que financiaram inventários de plantas. A tarefa de importância vital de biodiversidade na Costa Rica e em outros desenvolver e manter bancos de germo- lugares. O aspecto filogenético da Sistemá- plasma (i. é, armazenar a diversidade ge- tica é crucial no direcionamento dos pes- 46
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    quisadores para espéciesaparentadas com nos. Destacamos aqui apenas algumas das aquelas nas quais já foram encontrados necessidades de estudos evolutivos nos cam- compostos ou vias metabólicas potencial- pos do gerenciamento e da conservação mente úteis, uma vez que espécies aparen- ambientais. tadas podem ter propriedades semelhan- tes, talvez até mais eficazes. A sistemática • Biorremediação O termo biorremediação Biorremediação. de bactérias, protistas, fungos e outros or- refere-se basicamente à utilização de or- ganismos inconspícuos é muito pouco co- ganismos (especialmente bactérias e plan- nhecida e exige ampla investigação. tas) para a despoluição de derramamen- tos e toxinas, o tratamento de esgotos e a • Estudos de adaptação Antibióticos, fato- adaptação. recuperação de solos degradados. A Bio- res de resistência para uso em plantas de logia Evolutiva pode contribuir com o uso safra transgênicas e outros produtos natu- da biorremediação identificando espécies rais úteis poderão ser descobertos estudan- ou linhagens genéticas com propriedades do-se os mecanismos químicos de compe- desejáveis, sabendo quais são os agentes tição entre fungos e microrganismos, as da seleção natural que dão origem a essas defesas das plantas contra seus inimigos propriedades e identificando as condições naturais, bem como as ceras, esteróides, que favorecem a persistência dos organis- terpenos, hormônios e incontáveis outros mos úteis. Conhecem-se bactérias capazes compostos utilizados pelos organismos de degradar bifenilas policloradas (BPCs) com fins adaptativos diversos. e outros contaminantes persistentes, mas não se sabe se esta capacidade é caracte- • Estudos genéticos e fisiológicos Bacté- fisiológicos. rística de certas espécies ou se ela se de- rias, leveduras e outros microrganismos senvolve in situ, pela seleção de mutações têm capacidades metabólicas extrema- novas. A comunidade de bactérias envol- mente diversificadas. Deles originaram-se vida no tratamento de esgotos passa por a penicilina, a enzima polimerase usada no uma mudança de composição durante o seqüenciamento do DNA e importantes processo, mas os papéis da alternância de processos industriais de fermentação, espécies versus mudança genética no me- biossíntese e biodegradação. A indústria tabolismo das espécies persistentes são prevê que “podem-se esperar grandes desconhecidos. A Genética Evolutiva e a avanços no bioprocessamento a partir da Sistemática, junto com a ecologia e fisio- futura exploração da biodiversidade ainda logia microbianas, devem continuar a dar não explorada da terra e do mar” (30). No importantes contribuições a esta e outras entanto, a maioria dos microrganismos questões referentes à biorremediação. ainda não foi descrita e caracterizada, as capacidades fisiológicas da maioria deles • Introduções não planejadas Muitas das planejadas. são desconhecidas e há poucas informa- nossas pragas mais sérias, incluindo ervas ções disponíveis a respeito de sua diversi- daninhas, insetos, os dinoflagelados das dade genética ou de que tipos de novas ca- marés vermelhas e o molusco Dreissena pacidades metabólicas possam surgir por polymorpha (zebra mussel), causam os da- mutação. Pesquisadores com formação em nos de maior monta em regiões nas quais Genética Evolutiva, Fisiologia e Sistemáti- não são nativos. O Departamento de Agri- ca darão importantes contribuições a esta cultura dos EUA instituiu procedimentos de área. quarentena, com o intuito de prevenir tais introduções. O advento da engenharia ge- Meio ambiente e conservação nética despertou preocupações quanto à Os princípios evolutivos são de aplica- evasão de microorganismos, plantas, pei- ção imediata na conservação de espécies e xes ou outros organismos vigorosos e ge- ecossistemas raros e ameaçados; de fato, neticamente novos e quanto à possibilida- muitos dos principais biólogos conservacio- de de genes para novas capacidades se nistas vêm desenvolvendo pesquisas em Bio- propagarem por hibridização entre orga- logia Evolutiva Básica. A Biologia Evolutiva nismos transgênicos e selvagens, transfor- também pode esclarecer questões de mando espécies benignas em novas pra- gerenciamento ambiental com conseqüênci- gas. Os biólogos que se dedicam ao estu- as diretas sobre a saúde e o bem-estar huma- do da Evolução vêm determinando ativa- 47
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    mente esses riscos(60). Estudos sobre o • Preservação da biodiversidade A altera- biodiversidade. fluxo gênico inter e intra-específico, bem ção de habitats, a coleta intencional e não- como avaliações dos efeitos dos genes so- intencional de populações naturais e ou- bre o valor adaptativo devem complemen- tras atividades humanas constituem uma tar os estudos ecológicos dos organismos grave ameaça à permanência de muitas es- relevantes, se quisermos prever os possí- pécies. Inevitavelmente, terão de ser feitas veis efeitos não propositais da liberação de escolhas difíceis na alocação de recursos transgênicos. A Sistemática continuará e nem todas as espécies e ecossistemas sendo importante em seu tradicional pa- ameaçados serão salvaguardados. pel de identificar os organismos introduzi- dos. A Biologia Evolutiva e a Ecologia trabalham de mãos dadas na abordagem dessas ques- • Previsão dos efeitos das mudanças tões (34). São necessários esforços inten- ambientais Dentre os numerosos efeitos ambientais. sos para se descrever a diversidade, a dis- das atividades humanas sobre o meio am- tribuição e as exigências ecológicas dos or- biente, o possível efeito mais universal é o ganismos, especialmente daqueles de re- aquecimento global. Muitas outras altera- giões em que os habitats naturais estão ções ambientais, como a desertificação, a sendo perdidos mais rapidamente. A Sis- salinização da água doce e a chuva ácida, temática Evolutiva, a Biogeografia e a Ge- têm efeitos mais localizados, embora pro- nética Ecológica fornecem as informações fundos, tanto sobre as espécies selvagens, necessárias para a elaboração de diretri- como sobre os recursos biológicos. Prever zes para a preservação de uma maior di- e, se possível, prevenir os efeitos de tais versidade genética. mudanças é uma meta importante para os estudos ecológicos, mas a Biologia Crises anteriores da biodiversidade podem Evolutiva também está diante de grandes ser observadas no registro fóssil e os desafios. Precisamos, particularmente, al- paleontólogos estudiosos da Evolução po- cançar um entendimento muito maior das dem usar esses registros como experiên- condições nas quais as populações se cias naturais sobre as conseqüências da adaptam a mudanças ambientais versus perda de biodiversidade, as características migração ou entrada em extinção e que ti- das espécies de maior risco e a natureza e pos de espécies seguirão esses rumos. escala de tempo da recuperação biótica. Também precisamos compreender as con- Por exemplo, muitos eventos de extinção dições que favorecem “irrupções”, nas no passado geológico foram seguidos ime- quais espécies novas se adaptam a novos diatamente por irrupções de espécies de ambientes e neles se dispersam rapida- ervas daninhas com grande capacidade mente. A agricultura e a urbanização pro- competitiva. Precisamos aprender muito duziram muitos ambientes novos e tais mais a respeito desse processo, já que não espécies irrompidas podem não ser benig- há nenhuma garantia de que as espécies nas. Os biólogos que se dedicam ao estu- “pós-desastre” que possam surgir em regi- do da Evolução documentaram muitos ões atuais que sofreram extensas perdas exemplos de espécies que se adaptaram ra- de biodiversidade serão benignas (55). pidamente e muitas que não o fizeram, ha- Analogamente, as crises de biodiversidade vendo, porém, necessidade de uma teoria do passado estão associadas a marcados mais completa sobre vulnerabilidade versus declínios da produtividade primária. Este potencial para adaptação rápida (28). Es- fato é relevante para o bem-estar futuro tudos paleobiológicos podem complemen- da humanidade, considerando que o seu tar os estudos genéticos e ecológicos, for- consumo atual é estimado em 25% da pro- necendo as histórias detalhadas das mu- dutividade primária global. danças na composição de comunidades e na distribuição de espécies por ocasião das Os biólogos que se dedicam ao estudo da mudanças ambientais do passado. A Evolução também estão estudando proble- Paleobiologia também pode ajudar-nos a mas tão relevantes quanto o tamanho elaborar generalizações a respeito dos ti- populacional mínimo necessário para que pos de espécies e comunidades mais vul- uma espécie conserve uma variação gené- neráveis. tica suficiente para evitar a depressão de 48
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    endogamia e parase adaptar a doenças, pesquisa, como para a consciência e a com- mudanças climáticas e outras perturba- preensão exigidas de uma cidadania educada, ções; os fatores que causam a extinção; o numa era cada vez mais científica e tecno- papel das populações múltiplas na dinâmi- lógica. Muitas pesquisas feitas com estudan- ca genética e ecológica de longo prazo das tes e com o público em geral mostraram que espécies; o papel das interações entre es- os Estados Unidos ocupam uma posição rela- pécies na manutenção de populações viá- tivamente baixa entre as nações industriali- veis; e os efeitos da co-evolução entre es- zadas quanto ao seu domínio de Ciência e pécies que interagem sobre os processos Matemática. Este é um motivo de séria preo- dinâmicos nos ecossistemas. A biologia da cupação para todas as disciplinas científicas preservação será reforçada por novas pes- e, na realidade, para todos os órgãos e orga- quisas referentes a esses problemas tão nizações responsáveis pelo futuro dos recur- mal compreendidos. sos humanos do país, com referência ao de- senvolvimento técnico e econômico. . Alguns dos esforços de preservação basei- Os biólogos que se dedicam ao estudo am-se nos bancos de germoplasma (para da Evolução têm aguda consciência da neces- plantas) e na reprodução em cativeiro (para sidade de uma ampliação do ensino e da com- animais). A teoria da Genética de Popula- preensão da Ciência. O assunto da Biologia ções tem um papel crucial nesses esforços. Evolutiva inclui tópicos que influem direta- Por exemplo, em populações pequenas em mente na saúde e no bem-estar das pessoas, cativeiro, pode-se evitar a depressão de como as doenças hereditárias, a terapia gênica endogamia aplicando-se os princípios da , as doenças infecciosas e a evolução da re- Genética de Populações (59). sistência a antibióticos nos patógenos, a pro- dução de alimentos, o gerenciamento de pra- Desenvolvimento tecnológico. Desenvolvimento gas agrícolas, a engenharia genética, a bior- Em todas as ciências, a necessidade de remediação, a preservação e os efeitos do resolver problemas estimula o desenvolvi- aquecimento global. Questões relativas à Evo- mento de novas técnicas e tecnologias. Como lução, como as diferenças genéticas entre já assinalado anteriormente, a maioria das populações humanas, a história fóssil da vida tecnologias de aplicação ampla desenvolvi- e, no fundo, a realidade da própria Evolução, das, pelo menos em parte, em função da ne- são temas freqüentes de discursos públicos. cessidade de resolver problemas evolutivos Entretanto, grande parte do público não com- foi nas áreas da estatística, da computação e preende a Genética Básica e a Biologia do gerenciamento de dados. Estamos preven- Evolutiva. Por incrível que possa parecer na do que, à medida que a Biologia Evolutiva for era das naves espaciais e dos supercompu- lidando com problemas ainda mais comple- tadores, as pesquisas revelam que mais da xos e conjuntos de dados mais ricos, as cola- metade do público dos EUA nem mesmo acre- borações entre os biólogos estudiosos da Evo- dita na veracidade científica da Evolução, o lução levarão a outras inovações técnicas nes- princípio unificador de toda a Biologia. sas áreas. Algumas áreas com probabilidades Embora alguns biólogos profissionais de progresso serão a análise da dinâmica de tenham dedicado grandes esforços à educa- sistemas complexos, não lineares; rotinas de ção do público, os maiores esforços para atin- busca otimizadas — p. ex., para a estrutura gir o público dos Estados Unidos têm sido fei- de árvores filogenéticas; computação tos por organizações como o Centro Nacio- evolutiva — i.é, o desenvolvimento de nal para Educação Científica (National Center algoritmos “que evoluem”, para a solução efi- for Science Education) e o principal papel ciente de problemas; e aplicações na inteli- educativo tem sido desempenhado pelos pro- gência artificial e na vida artificial baseadas fessores das escolas secundárias. Os biólogos em computadores. profissionais devem dedicar esforços maio- res à educação do público, fazendo uso de A compreensão da Ciência pelo público. oportunidades como comunicados à impren- Importantes desafios para a Biologia sa, compromissos com a mídia e exposições Evolutiva residem não somente no domínio em museus. Eles devem aproveitar todas as da pesquisa, mas também no domínio da com- oportunidades para destacar as dimensões preensão e da apreciação da ciência pelo pú- evolutivas de fenômenos biológicos que cha- blico, o que é necessário tanto para o apoio à mam a atenção do público; por exemplo, pra- 49
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    gas e organismoscausadores de doenças não cados ao estudo da Evolução de diversas es- “sofrem mutação” ou “desenvolvem” resistên- pecialidades e abordagens. Agrupamos estas cia a drogas meramente — eles evoluem para questões de pesquisa em várias categorias, a resistência. Maiores esforços no ensino da que são de igual importância e prioridade. Evolução e de assuntos correlatos também são necessários, tanto no nível universitário, Teoria e técnica. como no secundário. Grande parte da pesquisa em Evolução foi conduzida pela teoria (freqüentemente ma- B. Ciência Básica temática), que levanta hipóteses, fornece pre- visões ou expectativas exatas, restringe a in- A pesquisa sobre Evolução está progre- terpretação dos dados e muitas vezes especi- dindo em muitas frentes, mas o que ainda não fica o tipo de dados necessários para testar se conhece ultrapassa de muito aquilo que se uma hipótese. A formação de teóricos da Evo- conhece. Em algumas áreas, temos simples- lução continua sendo de grande importância. mente menos informações do que deveríamos Entre as numerosas áreas que requerem mais ter (por exemplo, os conhecimentos sobre a trabalho teórico estão: história da diversidade no registro fóssil são muito incompletos). Em outros casos, fizeram- • o desenvolvimento continuado da teoria se tentativas de responder perguntas usando- coalescente, usada para inferir processos se apenas um ou alguns sistemas de estudo e evolutivos a partir de “árvores gênicas”; não sabemos até que ponto essas respostas podem ser generalizadas. (Por exemplo, os • o desenvolvimento da teoria da relação números de genes que contribuem para o iso- entre as filogenias dos genes e as filogenias lamento reprodutivo entre espécies foram das espécies e populações; descritos para algumas espécies de Droso- phila, mas apenas para poucos outros tipos • trabalhos teóricos adicionais sobre árvo- de organismos). Em muitos casos, obtiveram- res filogenéticas, por exemplo, métodos se provas a favor ou contra uma ou várias das para comparar e avaliar as árvores, para hipóteses concorrentes, mas a gama comple- inferir a história da evolução dos caracteres ta de hipóteses ainda não foi testada adequa- a partir da sua distribuição filogenética e damente. (Das várias hipóteses que poderi- para inferir processos evolutivos a partir am explicar as vantagens da reprodução da estrutura das árvores; sexuada, somente algumas foram testadas). Algumas questões que vêm de longa data re- • o desenvolvimento da teoria da Genética sistiram à análise até pouco tempo atrás, mas de Populações para sua aplicação a tópi- novas técnicas parecem muito promissoras. cos insuficientemente explorados, como a (A questão de como evoluem as vias do de- natureza e as conseqüências evolutivas das senvolvimento é um exemplo bem evidente). interações gênicas, das interações genes- Especialmente na Biologia Molecular, foram ambiente e a evolução de traços poligê- descobertos fenômenos inteiramente novos nicos com arquiteturas genéticas diferen- que demandam explicações e entendimento tes; evolutivo. Estamos prevendo para os próximos dez • desenvolvimento de modelos de otimiza- ou vinte anos um progresso virtualmente sem ção para a análise da evolução do com- precedentes da Biologia Evolutiva Básica, des- portamento, dos ciclos de vida e de outros de que haja apoio adequado para a pesquisa traços fenotípicos; e a formação de jovens pesquisadores. Nesta seção, relacionamos algumas das áreas nas • modelos de mudanças evolutivas das vias quais o progresso é particularmente desejá- de desenvolvimento; e vel e factível, dadas as técnicas atuais e os avanços técnicos que podem ser previstos • modelos preditivos da co-evolução de es- para o futuro próximo. Embora, sem dúvida, pécies que interagem. muitos biólogos estudiosos da Evolução fari- am acréscimos a esta lista, as questões e de- Toda pesquisa depende de avanços nas safios de alta prioridade que se seguem re- técnicas. Os métodos moleculares e outros presentam um consenso entre biólogos dedi- métodos experimentais tiveram grande influ- 50
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    ência sobre apesquisa da Evolução, mas a colonização da terra por plantas e Biologia Evolutiva depende também, e talvez artrópodes; de forma singular, de métodos analíticos, es- tatísticos e numéricos (computacionais). No • uma explicação para as diferenças entre futuro, a pesquisa em Evolução exigirá pro- taxa quanto à sua suscetibilidade a gressos particularmente de: extinções em massa e sua posterior recu- peração; • métodos de busca e manipulação de gran- des quantidades de dados, como seqüên- • uma melhor compreensão das seqüências cias de DNA; comuns de eventos evolutivos que suce- deram extinções em massa, incluindo ex- • aperfeiçoamento dos métodos de proba- pansões maciças de espécies de ervas da- bilidade máxima e outros procedimentos ninhas e as escalas de tempo característi- estatísticos para a análise de dados de ge- cas da recuperação dos ecossistemas — nética de populações (p. ex., marcadores dois fatos relacionados com a atual crise moleculares de sistemas de acasalamento); de biodiversidade; e • métodos de alinhamento de diferentes se- • uma descrição mais completa da história qüências de DNA; e da taxa de evolução de caracteres e das correlações entre caracteres, em linhagens • aperfeiçoamento dos métodos de análise em evolução (esses dados são necessários filogenética (como assinalado acima); e para se testar grande número de hipóte- ses, como a do “equilíbrio pontuado”. • aperfeiçoamento dos métodos de mapeamento fino de locos para traços Sistemática. quantitativos. Os estudos sistemáticos contribuem para o nosso conhecimento sobre a história da Evo- História Evolutiva. lução. Também podem ser usados para testar Descrever e explicar a história da Evo- hipóteses referentes a processos evolutivos, lução é um dos principais objetivos da Biolo- pela inferência da seqüência e do tempo de gia Evolutiva. Este objetivo é alcançado prin- ramificação de linhagens e da seqüência e cipalmente usando-se métodos filogenéticos, taxa de mudança de suas características. Re- discutidos abaixo, e estudos paleobiológicos. centemente, o aperfeiçoamento dos métodos As metas prioritárias da Paleobiologia inclu- analíticos e dos dados fez com que a Siste- em: mática se tornasse um campo muito mais vi- brante e rigoroso do que já foi, mas ainda resta • uma história mais completa da diversida- muito por fazer. Entre os desafios mais im- de da vida ao longo do tempo, especial- portantes estão: mente das bactérias e de outras formas de vida durante os primeiros cinco sextos da • Documentar a diversidade dos organismos história da vida (a era Pré-cambriana); vivos. As estimativas do número de espé- cies vivas variam muito. No que diz res- • melhores dados e métodos para testar hi- peito a bactérias, protistas, fungos, nema- póteses referentes às causas da variação tódeos, ácaros e muitos grupos de insetos, (entre períodos de tempo e entre taxa) das a maioria das espécies provavelmente ain- taxas de especiação, extinção e diversifi- da não foi descrita, embora esses grupos cação (incluindo a responsabilidade tanto exerçam papéis extremamente importan- pela extinção em massa, como de fundo, tes nos ecossistemas e incluam muitas for- sendo esta última particularmente mal en- mas que têm conseqüências diretas sobre tendida); o bem-estar humano. Um inventário com- pleto dos organismos vivos e de suas ca- • uma melhor compreensão dos mecanis- racterísticas biológicas fornecerá para a mos de adaptação e das limitações a ela Ecologia, a Biologia Evolutiva e outras ci- impostas durante acontecimentos históri- ências biológicas o mesmo tipo de funda- cos singulares, como a aparentemente ex- mento que os levantamentos geológicos plosiva origem da diversidade animal e a fornecem às ciências da terra e às indús- 51
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    trias extrativistas. Reconhecendoa biodi- uma teoria da Biologia Evolutiva plena- versidade como “capital vivo”, um grupo mente integrada. de especialistas da Comissão Presidencial de Assessores para Ciência e Tecnologia Especiação. dos EUA (President’s Committee of Talvez nenhum dos principais tópicos Advisors on Science and Technology) re- da Biologia Evolutiva seja tão difícil e contro- comendou um aumento substancial dos verso quanto a especiação, em parte porque, investimentos na descoberta de espécies, em geral, o seu progresso é rápido demais na análise filogenética e genética da diver- para estar completamente documentado no sidade e em coleções de museus, herbários registro fóssil, mas lento demais para ser ob- e o restante da infraestrutura da Sistemá- servado dentro do prazo de vida de um pes- tica (48). quisador. Necessitamos de abordagens novas, que já estão despontando no horizonte, para • “Aumentar a árvore da vida”. Foram desen- que sejam respondidas algumas das mais im- volvidas estimativas de filogenia para uma portantes perguntas referentes a esse proces- pequena minoria de taxa e mesmo essas so, que é a origem da diversidade biológica. poucas estimativas já foram amplamente usadas para testar hipóteses em muitas • Diferenças de caracteres entre espécies áreas da Biologia e da Ecologia Evolutivas. recém-formadas, especialmente aquelas Uma das altas prioridades da Sistemática capazes de impedir a troca de genes entre Evolutiva deve ser a elaboração de um elas, devem ser caracterizadas genetica- número maior (e mais sólido) de árvores mente e quanto aos seus mecanismos. Isto filogenéticas, abrangendo toda a gama de quer dizer que precisamos conhecer não organismos vivos e extintos. Tais árvores somente o número e a localização dos podem ser unidas sucessivamente para a genes envolvidos (estimados apenas em construção de uma filogenia de toda a vida. poucos casos), mas também os efeitos li- Quanto mais completa essa árvore da vida, gados ao desenvolvimento ou bioquímicos melhor ela servirá como estrutura organi- pelos quais as diferenças gênicas causam zadora para dados biológicos de todos os isolamento reprodutivo e outras diferenças tipos e como base para que incontáveis de caracteres. hipóteses sejam testadas. Para a realiza- ção de tudo isso, serão indispensáveis ban- • Os processos causadores da especiação cos de dados de amplo acesso, para o precisam ser determinados. Se a respon- armazenamento de estimativas filogené- sável pela especiação é, em geral, a sele- ticas. ção, a deriva genética ou uma combina- ção das duas, é uma questão importante e • Aperfeiçoar os métodos de inferência, ava- ainda não resolvida. Se a causa, em geral, liação e uso das filogenias para testar hi- for a seleção, os agentes da seleção terão póteses. Por exemplo, os métodos estatís- de ser identificados. ticos existentes para a determinação da confiança a ser depositada numa árvore • A rapidez e a previsibilidade da especiação filogenética provavelmente serão substitu- precisam ser determinadas. Não sabemos ídos. Métodos para se usar a estrutura das se inevitavelmente populações isoladas se árvores para a determinação de diferenças tornam espécies diferentes, com que velo- nas taxas de diversificação entre grupos cidade ocorre a especiação ou se as taxas ainda estão sendo desenvolvidos. dependem dos taxa ou de condições ambientais. Também precisamos conhecer • Desenvolver bases teóricas e empíricas o grau de isolamento geográfico necessá- para a integração da história filogenética rio para a especiação. com os processos evolutivos. Os pesqui- sadores precisam achar maneiras de reu- Genética Evolutiva. nir a teoria com os dados sobre os proces- A Genética Evolutiva, incluindo a Gené- sos evolutivos e os procedimentos de tica de Populações, tem um papel importante inferência filogenética, a fim de criarem na teoria e na análise da evolução dos carac- 52
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    teres e daespeciação. Entre os principais de- modificados. Isso exigirá a compreensão safios da Genética Evolutiva incluímos os se- do que é que rege as taxas de evolução. guintes: • Compreender a genética de populações da • Uma nova teoria sobre tópicos explorados extinção. Comparativamente, sabe-se pou- inadequadamente. Tais tópicos incluem a co a respeito dos papéis de fatores como a natureza das interações gênicas (epistasia) cessação do fluxo gênico e a depressão de e suas conseqüências evolutivas; proces- endogamia em populações em processo de sos genéticos em metapopulações, aglo- encolhimento e, no entanto, este conheci- merados de populações locais sujeitas à mento será essencial na preservação da extinção e à recolonização; e os processos biodiversidade e no planejamento de refú- genéticos que levam à especiação. gios para espécies ameaçadas. • Explicar os níveis de variação genética em A evolução de genes e genomas. populações naturais. Novos métodos, es- A interface intensamente ativa entre a pecialmente a análise da variação das se- Biologia Evolutiva e a Genética Molecular con- qüências de DNA, estão nos dando infor- tinuará a fornecer informações sobre a evo- mações muito mais exatas e maiores co- lução da estrutura dos genes e dos genomas. nhecimentos sobre este problema antigo. É bem possível que sejam revelados novos fe- Além disso, surgirá uma maior compreen- nômenos moleculares que provoquem inter- são dos processos evolutivos, à medida que pretações evolutivas. Do ponto de vista dos forem integrados, nos estudos em nível nossos conhecimentos atuais, entre os assun- populacional, estudos de variação das se- tos que exigem estudos adicionais estão os qüências de DNA. seguintes: • Descrever “paisagens mutacionais” — isto • Uma análise adicional da evolução das ta- é, caracterizar a variação que aparece por xas de mutação e recombinação. As ques- meio da mutação. Se existem ou não esta- tões importantes incluem saber se taxas dos de caracteres “proibidos” que nunca “ótimas” evoluem ou não, quais os proces- podem aparecer, se as mutações agem sos evolutivos que levam à variação das sinergicamente e quais poderiam ser seus taxas de recombinação entre e dentro dos efeitos pleiotrópicos – eis algumas dentre genomas e quais poderiam ser os meca- as muitas perguntas com implicações im- nismos dessa variação. portantes. • A documentação e determinação das con- • Caracterizar a base genética da variação seqüências evolutivas de novas fontes de intra e interespecífica de caracteres. Iden- variação genética, como a transferência la- tificar os locos responsáveis pela variação teral de genes entre espécies, elementos dos caracteres e os efeitos de seus meca- transponíveis e trocas recombinantes de- nismos sobre o desenvolvimento, a morfo- siguais. logia e a fisiologia serão tarefas factíveis, à medida que forem aperfeiçoados os méto- • Uma compreensão mais profunda da evo- dos de mapeamento (locos para traços lução das relações de ligação entre genes quantitativos). Uma vez identificados es- e das mudanças no número e na estrutura ses genes candidatos, será possível inte- dos cromossomos. grar os estudos sobre sua função no de- senvolvimento com estudos sobre sua va- • A análise dos papéis da seleção e de ou- riação e evolução. tros fatores na evolução do DNA codifi- cante e do DNA não codificante. • Desenvolver uma teoria preditiva sobre a adaptabilidade e a resposta a mudanças • A análise da evolução do conteúdo de in- ambientais. O aquecimento global e outras formações dos genomas, tanto de uma mudanças ambientais tornam imperativo perspectiva filogenética, como dos meca- que saibamos quando populações têm pro- nismos, bem como uma análise evolutiva babilidade de terem sucesso ou de fracas- do acondicionamento de informações em sarem na adaptação a ambientes novos ou genomas, padrões de grande escala no 53
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    DNA e osprocessos pelos quais evoluem filogeneticamente homólogos (i.é, carac- novas funções gênicas. teres possuídos por vários taxa diferentes e pelo seu ancestral comum) às vezes apre- • A análise da seleção gênica e do conflito sentam vias de desenvolvimento notavel- dentro dos genomas (p. ex., distorção de mente diferentes. Um dos principais desa- segregação, evolução da expressão gênica, fios para os biólogos que estudam o de- etc.). senvolvimento evolutivo é compreender como o fundamento genético de um cará- desenvolvimento. Evolução e desenvolvimento. ter pode mudar, mesmo que sua forma ma- Os processos pelos quais evoluem as dura permaneça relativamente constante. vias do desenvolvimento e, inversamente, os Inversamente, é importante compreender efeitos dos processos de desenvolvimento como os papéis exercidos no desenvolvi- sobre os rumos que a Evolução pode seguir mento por genes conservados passam a di- são de profundo interesse, não somente para ferir entre um taxon e outro (6, 63). os biólogos que se dedicam ao estudo do de- senvolvimento, mas também para os paleo- • A análise dos mecanismos de desenvolvi- biólogos, sistematas e todos os biólogos que mento de organismos modulares, como tratam da evolução de caracteres fenotípicos. plantas e corais, comparados com formas Graças aos avanços moleculares e a outros não-modulares, como artrópodes e verte- avanços técnicos na Biologia do Desenvolvi- brados. mento, pode-se prever um progresso sem pre- cedentes nesta área que, na realidade, já está • A compreensão da evolução dos sistemas em curso. O estudo de quase todos os aspec- de auto-reconhecimento e de não-auto- tos do desenvolvimento será compensador, reconhecimento. A compatibilidade ou in- mas várias abordagens e tópicos serão parti- compatibilidade entre células, mediada em cularmente importantes: grande parte por fatores de superfície ce- lular, rege fenômenos tais como a união • A análise teórica de como os fenótipos de óvulos e espermatozóides, as interações podem ser alterados ou restringidos pelas pólen/estigma (p. ex., auto-incompatibili- vias do desenvolvimento. dade), os processos do sistema imunoló- gico e a migração e adesão de células no • A análise da relação entre desenvolvimento desenvolvimento animal. Uma melhor e a base genética da variação dos carac- compreensão desses fenômenos terá am- teres, tanto dentro e entre espécies. Isto plas implicações para temas como a exigirá estudos comparativos e experimen- especiação, os sistemas de procriação das tais sobre as diferenças de desenvolvimen- plantas, a evolução dos caracteres e a re- to entre genótipos e entre taxa próximos, sistência a doenças. complementando as amplas comparações taxonômicas, tradicionais na Biologia do Evolução de caracteres fenotípicos. Desenvolvimento. As diversas subdisciplinas da Biologia Evolutiva que tomam como tema classes es- • A compreensão das bases genéticas das pecíficas de características fenotípicas conti- diferenças fenotípicas e de como os genes nuarão a tratar de problemas importantes, adquirem novos papéis no desenvolvimen- alguns dos quais se encontram nos estágios to. iniciais de análise. A amostra de desafios que segue não é de modo algum exaustiva. • A análise da base do desenvolvimento de caracteres complexos e novos do ponto de • Elaborar critérios para a avaliação das di- vista evolutivo. ferenças entre valores teóricos ótimos e va- lores observados para caracteres fenotí- • A identificação das restrições impostas à picos. Evolução pelo desenvolvimento e seus me- canismos subjacentes. • Justificar a variação na taxa de evolução entre caracteres e entre taxa. A necessida- • A compreensão das relações entre homo- de mais premente é de desenvolver méto- logia filogenética e biológica. Caracteres dos para distinguir os papéis relativos de- 54
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    sempenhados por fatores“externos” (p. ex., uma teoria de interações entre espécies, ba- fontes de seleção ecológicas) e “internos” seada tanto na Evolução como na demografia. (p. ex., correlações genéticas, restrições im- Os progressos em direção a esse objetivo fo- postas pelo desenvolvimento) na determi- ram modestos por várias razões, incluindo a nação das taxas evolutivas. complexidade das comunidades e o fato de, no passado, não terem sido levados suficien- • Desenvolver e testar teorias sobre a evo- temente em consideração os efeitos da histó- lução de séries de caracteres correlacio- ria evolutiva e geológica. Parece estar surgin- nados, quer pela função, quer pelos seus do uma ecologia mais pluralista das comuni- fundamentos genéticos e de desenvolvi- dades (52), na qual a história e os processos mento. Como determinamos quais os evolutivos terão papéis essenciais. As áreas caracteres que evoluirão em conjunto, ou prioritárias de pesquisa incluem: como muda o grau de correlação ao longo do tempo de evolução? • desenvolvimento de métodos para a iden- tificação e quantificação dos efeitos da his- • Desenvolver e testar empiricamente teori- tória evolutiva e ambiental sobre a com- as sobre a evolução de uma grande classe posição das comunidades e sobre as mu- de caracteres interessantes, como: danças dinâmicas nas comunidades; • reprodução sexuada versus assexuada, • elaboração e teste de teorias sobre os efei- variações nos mecanismos de determi- tos da variação genética e das mudanças nação sexual, endogamia versus exo- evolutivas sobre a estabilidade das intera- gamia e outros aspectos dos sistemas ções entre espécies e sobre a extinção vs. de procriação; persistência, diante de mudanças biológi- cas e ambientais; • caracteres sexualmente selecionados; • elaboração e teste de hipóteses para justi- • os mecanismos do comportamento, in- ficar os limites da distribuição ecológica e cluindo substratos neurais e controles geográfica das espécies; hormonais; • desenvolvimento de métodos para distin- • os mecanismos pelos quais os organis- guir os efeitos da co-evolução e reunião mos respondem a ambientes que vari- de espécies sobre a composição e estrutu- am, como plasticidade fenotípica, ra das comunidades; aprendizado, dispersão e aclimatação fisiológica; • elaboração e teste de teorias preditivas sobre a co-evolução de espécies que • tolerância fisiológica de variáveis am- interagem, incluindo: bientais, como temperatura, disponibi- lidade de água, toxinas ambientais e ali- • interações hospedeiro/parasita e a evo- mentares; lução de virulência e resistência em patógenos e seus hospedeiros; • estruturas morfológicas e vias bioquí- micas complexas; e • interações mútuas, especialmente aque- las envolvendo simbiontes microbianos, • a amplitude das dietas, do uso do habitat incluindo a estabilidade dos mutua- e da distribuição geográfica das espéci- lismos e seu papel na estrutura da co- es. munidade; Evolução de interações • competição entre espécies, incluindo e comunidades ecológicas. sua importância e conseqüências Cerca de 30 anos atrás, os ecólogos es- evolutivas; e tudiosos da Evolução esperavam explicar ca- racterísticas importantes de comunidades • co-evolução difusa — i.é, a dinâmica ecológicas, como a diversidade de espécies e evolutiva de interações complexas en- a estrutura da rede alimentar, desenvolvendo tre espécies múltiplas. 55
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    • elaboração eteste de teorias sobre os alternância de nutrientes) e os efeitos efeitos da Evolução sobre propriedades dessas propriedades sobre o ambiente fí- de ecossistemas (p. ex., produtividade, sico. PARA ENFRENTAR VIII. MECANISMOS PARA ENFRENTAR OS DESAFIOS DO FUTURO Se quisermos tornar realidade a grande interdisciplinares, talvez por meio de pa- promessa que a Biologia Evolutiva encerra, trocínios para a realização de workshops tanto para a Ciência Básica como para a Apli- anuais sobre temas interdisciplinares, co- cada e também para a Educação, precisare- ordenados pelos órgãos nacionais ou so- mos de mais verbas para pesquisa, mecanis- ciedades científicas apropriados. Tais mos estruturais e fundações educativas. As workshops seriam estruturados de modo sugestões e recomendações que vêm a seguir, a promover a troca de idéias e a demons- para cada uma dessas áreas, devem acelerar tração de técnicas, e seu propósito seria o o progresso em direção aos objetivos descri- de incentivar colaborações em pesquisa tos na seção anterior. que, de outra maneira, poderiam não ocor- rer. Consideraríamos a possibilidade de A. Progredir na Compreensão reunir biólogos estudiosos da Evolução pela Pesquisa com pesquisadores de campos como a Bi- ologia do Desenvolvimento, a Neurobio- A velocidade do progresso e as realiza- logia, a Endocrinologia, a Microbiologia, as ções de uma ciência dependem fundamental- Ciências da Computação e muitas outras. mente do nível de financiamento para uma pesquisa acurada e das políticas e mecanis- • Workshops de treinamento intensivo Em intensivo. mos que regem sua distribuição. Aí estão in- vista do rápido progresso que está ocor- cluídas iniciativas de pesquisa, alocações para rendo na tecnologia molecular, na compu- grandes projetos colaborativos versus progra- tação, na análise de dados e em outras áre- mas baseados em pesquisadores individuais, as das Ciências da Evolução e de outras além de cargos permanentes em universida- ciências biológicas, os pesquisadores so- des e outros estabelecimentos de ensino su- mente podem esperar ter uma carreira lon- perior, institutos, órgãos e corporações. O de- ga e produtiva, se se mantiverem senvolvimento de novos rumos na pesquisa atualizados em relação aos novos desen- precisa ser deliberadamente incentivado, a fim volvimentos. Recomendamos a implanta- de superar as limitações das fontes tradicio- ção de workshops anuais dedicados ao trei- nais de financiamento da pesquisa e poder namento intensivo em novas técnicas. Es- manter o potencial de progresso, tanto na ses workshops também seriam coordena- frente básica, como na aplicada. Estas consi- dos pelos devidos órgãos de financiamen- derações levam às seguintes recomendações to ou sociedades científicas. O propósito para promover a pesquisa no campo da Evo- de tais workshops difere do desenvolvi- lução: mento explícito de pesquisas interdiscipli- nares descrito no item anterior. • P e s q u i s a i n t e r d i s c i p l i n a r Sendo a r. interdisciplinariedade uma característica • Manutenção do financiamento de pro- inerente à Biologia Evolutiva, a troca de gramas de pesquisa individuais Uma individuais. idéias, informações e técnicas é importan- quantidade considerável de discussões te, tanto entre as subdisciplinas da Biolo- tem-se concentrado no valor de diversos gia Evolutiva, como entre os biólogos que programas desenvolvidos em laboratórios se dedicam ao estudo da Evolução e pes- individuais, com verbas de escala relativa- quisadores de outras disciplinas, biológi- mente modesta, em comparação com pro- cas e não-biológicas. Insistimos energica- jetos grandes que requerem a colaboração mente em que sejam estabelecidos meca- entre numerosos laboratórios. Em alguns nismos que incentivem a colocação da campos da ciência, projetos de grande es- Evolução como tema central de pesquisas cala são os mais eficazes, até mesmo es- 56
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    senciais. Na BiologiaEvolutiva, certos pro- moleculares, mas também por biólogos es- jetos grandes e coordenados podem, de tudiosos da Evolução, e os dados sobre fato, exercer um papel importante. Exem- ocorrências fósseis não são usados ape- plos de projetos desse tipo incluem o de- nas por paleobiólogos, mas também por senvolvimento de bancos de dados para outros biólogos e mesmo por físicos inte- dados paleontológicos, filogenéticos e ou- ressados em dinâmica não-linear. Para as tros dados sobre biodiversidade, dados so- dimensões evolutivas do gerenciamento e bre diversidade humana e similares. da conservação ambientais e da procura por espécies de utilidade econômica, se- Entretanto, a Biologia Evolutiva, refletin- rão de grande ajuda bancos de dados aces- do a diversidade do seu assunto, progre- síveis e amplamente compartilhados sobre diu graças ao intercâmbio de idéias, prin- biodiversidade, que incluam informações cípios e dados, provenientes de pesquisa- sobre distribuições geográficas e ecológi- dores individuais de cada uma de suas cas, filogenias, ocorrências fósseis e os subdisciplinas. Por isso, asseveramos o acervos de museus e herbários. Apoiamos destacado valor dos programas de pesqui- o desenvolvimento de tais bancos de da- sa individuais. dos. • Reconhecimento, tanto das contribui- • Sites PELP (LTER) Os ecólogos têm obti- (LTER) TER). ções de sistemas modelo bem estudados, do dados importantes nos sites sobre Pes- como de sistemas diversos Alguns cam- diversos. quisas Ecológicas de Longo Prazo (PELP), pos da Biologia progridem, em grande par- localizados em vários biomas dos Estados te, graças à concentração primária em al- Unidos, por meio de apoio da NSF para guns sistemas modelo, como a bactéria E. infra-estrutura e pesquisa. Além de forne- coli, o nematódeo Caenorhabditis e a plan- cerem dados sobre mudanças ecológicas ta Arabidopsis. Analogamente, certas áre- e ambientais de longo prazo, esses sites são as da Biologia Evolutiva, como a Genética recursos potenciais para pesquisadores que de Populações, fizeram grandes progres- estudam mudanças genéticas de longo pra- sos utilizando as volumosas informações zo em populações, incluindo mudanças de e técnicas disponíveis para sistemas mo- características mediadoras das respostas delo como a Drosophila. Muitas outras dos organismos a mudanças climáticas. Os subdisciplinas da Biologia Evolutiva podem biólogos que se dedicam ao estudo da Evo- aproveitar de modo semelhante as pesqui- lução devem ser incentivados a aproveita- sas sobre sistemas modelo; por exemplo, rem as oportunidades especiais de finan- a Biologia Evolutiva do Desenvolvimento ciamento associadas com esses sites, para será favorecida pelos estudos comparati- a realização de estudos evolutivos cuida- vos de grupos de organismos que incluem dosamente estruturados. organismos modelo tais como Drosophila, Caenorhabditis e Arabidopsis. É, contudo, • Centros de pesquisa sobre Biologia inerente à Biologia Evolutiva, cujo objeti- Evolutiva Sugerimos que a comunidade Evolutiva. vo é descrever e compreender a história de biólogos que se dedicam ao estudo da completa e a diversidade dos organismos, Evolução discuta até que ponto seria acon- não poder ficar restrita a algumas espéci- selhável e factível a implantação de um ou es modelo. A fim de compreender a diver- mais centros de pesquisa sobre Biologia sidade da vida e suas implicações para a Evolutiva. As principais funções de tais empreitada humana, precisa ser mantida centros seriam: (1) organizar workshops uma tensão criativa entre os estudos de dos tipos descritos acima; (2) providenciar modelos bem conhecidos e a exploração locais de trabalho para cientistas visitan- da diversidade mais ampla dos organismos. tes, a fim de apoiar a análise de dados, publicação e interação entre subdisciplinas; • Bancos de dados Grande parte do pro- dados. (3) gerenciar bancos de dados e redes de gresso da Biologia Evolutiva depende da comunicação eletrônica para os cientistas análise de dados obtidos por numerosos que estudam a Evolução; e (4) promover a pesquisadores. Por exemplo, os bancos de comunicação interdisciplinar entre as nu- dados de seqüências de DNA são ampla- merosas subdisciplinas da Biologia mente usados, não somente por biólogos Evolutiva. 57
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    • Identificação deum papel mais explícito pel central na Ciência Biológica moderna e em para a Biologia Evolutiva nas missões de suas aplicações às necessidades da socieda- diversos órgãos federais (EUA). Nos Es- (EUA). de, apresentamos as seguintes recomenda- tados Unidos, grande proporção da pesqui- ções para a Educação, incluindo tanto o ensi- sa básica em Biologia Evolutiva é mantida no formal como a divulgação de informações pela National Science Foundation (Funda- para o público: ção Nacional para a Ciência). Sem negar as necessidades legítimas de outras disci- • Formação de professores para o ensino plinas quanto a verbas maiores, proporci- elementar (K–12) Uma educação excelen- (K–12). onais aos custos crescentes e às acentua- te nos níveis elementar, médio e colegial é das perspectivas de progresso naqueles vital para todos os estudantes. Nos EUA, a campos, apoiamos enfaticamente os esfor- preparação inadequada em Ciências dos ços despendidos pela NSF para obter mai- estudantes do ensino elementar, médio e ores fundos orçamentários para a pesqui- colegial é uma causa amplamente reconhe- sa básica naquelas ciências biológicas, in- cida de preocupação nacional. O nível de clusive a Biologia Evolutiva, que estão pro- compreensão da Evolução e de assuntos gredindo em direção a níveis de conheci- correlatos, como a Genética, é particular- mentos sem precedentes. A pesquisa mente precário. Os currículos do curso co- evolutiva básica e aplicada estão intima- legial freqüentemente dão pouca ou ne- mente relacionadas com as missões de nhuma cobertura à Evolução. Além disso, muitos órgãos financiadores, por causa de muitos professores bem-intencionados, suas aplicações na saúde, agricultura, re- porém sobrecarregados de trabalho, não cursos naturais e outras necessidades so- conseguem se manter atualizados com ciais. Conclamamos esses órgãos a reve- uma parte dos mais importantes progres- rem as maneiras pelas quais vários assun- sos na área e, conseqüentemente, cobrem tos estudados pelos biólogos estudiosos da o tema de maneira inadequada. Por isso, Evolução podem contribuir para as suas recomendamos que os órgãos responsá- missões. O Apêndice IV sugere áreas de veis pela educação aumentem seus esfor- pesquisa que são diretamente relevantes ços pela educação continuada dos profes- para as metas de alguns órgãos federais sores em Biologia Evolutiva e assuntos dos Estados Unidos, bem como indústrias, correlatos, mantendo cursos de verão e fundações particulares e alguns órgãos in- workshops, que serão recompensados com ternacionais. promoção profissional. Conclamamos os biólogos profissionais a contribuírem para B. Progredir na Compreensão esses esforços. Cursos desse tipo devem pela Educação enfatizar o processo de investigação cien- tífica e o pensamento crítico, o progresso A educação formal não somente forma feito neste campo em relação a conceitos a mão-de-obra da nação em cada uma das e informações e a relevância da Evolução áreas de conhecimento e metodologia para a vida humana e as necessidades da especializados dos quais a sociedade depen- sociedade. Materiais de ensino variados es- de, mas forma também uma cidadania infor- tão disponíveis para tais programas. mada, capaz de tomar decisões pensadas e de se adaptar a mudanças. À medida que a • Currículos para os níveis superior e uni- ciência e a tecnologia modificam o nosso versitário Os nossos comentários dizem versitário. mundo num ritmo cada vez mais acelerado, respeito a cursos oferecidos tanto para aumenta constantemente a importância de as quem pretende como para quem não pre- pessoas compreenderem e usarem as infor- tende obter um diploma de Biologia. Em mações produzidas pelas ciências, incluindo muitos ou na maioria dos estabelecimen- a Biologia. Entretanto, um relatório da Aca- tos de ensino superior, o curso de Evolu- demia de Ciências dos Estados Unidos (37) ção é optativo, feito por uma minoria de assinalou com preocupação que “o ensino de estudantes de Biologia que, em sua maio- Ciências nas escolas públicas da nação é ria, não o consideram relevante para suas freqüentemente desfigurado pela grave omis- carreiras médicas ou outras. Para a maio- são” da Evolução. Uma vez que, conforme as- ria dos formados em Biologia, o contato sinalado pelo relatório, a Evolução exerce pa- com a Evolução pode ter-se limitado a pou- 58
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    co mais doque algumas semanas (ou me- de profunda relevância para campos como nos) de curso de introdução à Biologia. Isso a medicina, a saúde pública, o direito, a não os prepara para reconhecerem ou agronomia, a silvicultura, a química de pro- compreenderem a relevância dos concei- dutos naturais e a ciência do meio ambi- tos e das informações da Evolução para a ente. Entretanto, a formação pós-gradua- saúde humana, a agricultura, a ciência do da na maioria desses campos muitas ve- meio ambiente ou mesmo para a pesquisa zes deixa de cobrir até mesmo os concei- em Biologia Molecular ou outras discipli- tos evolutivos mais simples e mais relevan- nas biológicas. Os departamentos de Bio- tes, como a natureza e a importância da logia de algumas das principais universi- variação genética. Além disso, já notamos dades dos EUA (p. ex., a Universidade que a maioria dos estudantes não recebe Cornell, a Universidade do Colorado e a quase nenhum ensino de Evolução no cur- Universidade da Califórnia) reconheceram so de graduação. Insistimos para que as que os conceitos evolutivos são tão funda- escolas de formação profissional e os pro- mentais e integrantes das Ciências Bioló- gramas de pós-graduação nessas áreas in- gicas quanto a Genética e a Biologia corporem material evolutivo relevante em Molecular e estabeleceram que o curso de seus currículos. Evolução seria requisito para todos os for- mados em Biologia. Em virtude do papel • A umento da formação pós-graduada em unificador que a Evolução desempenha na aplicações. Biologia Evolutiva e suas aplicações Biologia, de sua relevância para a interpre- Assinalamos acima que verbas de treina- tação dos dados em todas as disciplinas bi- mento podem contribuir imensamente na ológicas, suas numerosas aplicações – já preparação de estudantes de pós-gradua- demonstradas e potenciais – às necessida- ção para carreiras excelentes e inovado- des da sociedade e sua posição como um ras em pesquisa. Verbas para pesquisa em dos mais importantes desenvolvimentos nível de doutorado são igualmente impor- intelectuais na história das idéias ociden- tantes. Na Biologia Evolutiva, é habitual tais, conclamamos insistentemente outros que estudantes de doutorado realizem pes- estabelecimentos de ensino superior a in- quisas de tese sobre temas relacionados cluírem um curso de Evolução nos requi- com a pesquisa de seu orientador, mas que sitos para os formandos em Biologia. não fazem parte integrante dos projetos de pesquisa do orientador, não podendo ser Muitos departamentos de Biologia ofere- mantidas pelas verbas do orientador. Este cem aos estudantes que não pretendem se costume promove o raciocínio indepen- formar em Biologia cursos sobre temas de dente, a inovação, a autoconfiança e o importância vital, como Genética e Ecolo- aprendizado para além da esfera de conhe- gia. Pelas razões descritas acima, a Evolu- cimentos do orientador, o que o torna apro- ção é um elemento igualmente importan- priado para um campo cujo assunto é a di- te para a compreensão da Biologia por par- versidade biológica. Existem programas de te de uma pessoa instruída. Se bem dado, financiamento de pesquisa de doutorado um curso desse tipo irá intrigar e empol- na NSF e em alguns outros órgãos, mas em gar os estudantes e lhes dará não somente quantidade desproporcional às necessida- uma compreensão técnica de questões que des e aos retornos esperados. Recomen- afetam sua vida, mas também uma pers- damos com insistência a implantação de pectiva esclarecida sobre questões sociais verbas para apoio de teses por parte de e filosóficas e uma maior compreensão da órgãos que ainda não as oferecem. história viva das idéias. Insistimos energi- camente em que seja oferecido um curso • Cargos nos corpos docentes de nível su- de Evolução para estudantes que não pre- perior Tanto por razões educativas como perior. tendem se formar em Biologia em todos para promover o desenvolvimento da ex- os estabelecimentos de ensino superior. celência em pesquisa na Biologia moder- na, é essencial que os departamentos de • Inclusão da Ciência da Evolução na for- Biologia dos estabelecimentos de ensino mação especializada avançada Confor- avançada. superior incluam docentes em várias das me já foi esclarecido pelo presente docu- subdisciplinas da Evolução. Os docentes de mento, elementos de Biologia Evolutiva são Biologia Evolutiva têm, tipicamente, uma 59
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    visão ampla, interdisciplinar,que favorece Molecular Biology and Evolution), bem a comunicação com os colegas de outras como simpósios organizados pela Socie- disciplinas, sendo que, muito freqüente- dade de Paleontologia (Paleontological mente, eles atraem alguns dos mais desta- Society), foram recebidos entusiasticamen- cados estudantes de pós-graduação dos te, indicando um amplo interesse por me- programas de doutorado em Biologia. O canismos que possam unir a área. Além mais importante é que a Biologia Evolutiva disso, os biólogos estudiosos da Evolução é uma disciplina intelectualmente dinâmi- reconhecem a importância de serem visí- ca, que unifica a Biologia vai além dos seus veis em suas interações com o público, com limites. Sendo que ela abrange uma varie- os educadores e com órgãos governamen- dade de subdisciplinas, da Evolução tais e privados de fomento à pesquisa. Por Molecular à Sistemática e à Paleobiologia, isso, sugerimos que as sociedades profis- nenhum membro do corpo docente con- sionais reflitam se seria desejável e factível segue ser versado o suficiente para repre- a constituição de uma comissão orientado- sentar a disciplina inteira. De fato, muitas ra ou consultiva de Biologia Evolutiva, universidades abrigam departamentos ou mantida em conjunto. O grupo de mem- programas com nomes tais como “Ecolo- bros para esta comissão poderia ser indi- gia e Biologia Evolutiva”, que incluem es- cado e estruturado de maneira muito se- pecialistas em várias ou muitas subdis- melhante à dos conselhos editoriais de re- ciplinas da Evolução. Disciplinas emergen- vistas já existentes. Seus potenciais papéis tes, como a Biologia Evolutiva do Desen- poderiam incluir: (1) estabelecer e manter volvimento e a Neurobiologia Evolutiva, um site na Internet, com links para os sites precisam ser complementadas por discipli- de sociedades científicas relevantes, para nas mais tradicionais, como a Sistemática a divulgação de informações de amplo in- e a Genética de Populações que, embora teresse; (2) responder a indagações de ór- sendo antigas, estão abordando perguntas gãos financiadores sobre tendências e ne- novas com novos métodos e técnicas. cessidades da pesquisa e comunicar as opiniões de consenso geral a esses órgãos; C. Progredir na Compreensão (3) ajudar a coordenar workshops e outros pela Comunicação mecanismos para o avanço da formação e da pesquisa; (4) conscientizar os adminis- • Comunicação entre a comunidade cien- tradores de universidades e outros educa- tífica e os órgãos federais. Os biólogos dores das necessidades educativas e de que se dedicam ao estudo da Evolução pre- treinamento; (5) comunicar avanços impor- cisam comunicar aos órgãos federais e a tantes à mídia; (6) coordenar os esforços outras instituições de apoio à pesquisa bá- para a educação do público quanto a as- sica ou aplicada a relevância da Biologia pectos evolutivos de temas como o racis- Evolutiva para as missões desses órgãos. mo, a engenharia genética e o conflito en- tre Criacionismo e Ciência da Evolução; e • Uma Comissão Nacional de Biologia (7) manter os cientistas a par da legislação Evolutiva O crescimento exponencial da Evolutiva. relevante para a Biologia Evolutiva e edu- pesquisa em muitas frentes foi acompanha- car os legisladores e suas equipes quanto do pelo aumento do número de socieda- às questões evolutivas relevantes para a des, revistas e reuniões anuais especiali- legislação pendente. Uma Comissão desse zadas e por uma tendência para uma mai- tipo poderia ser constituída por meio de um or especialização das pesquisas e perspec- consórcio de sociedades científicas, lide- tivas dos estudantes. Esforços para com- radas por uma sociedade específica, como bater essas tendências, como reuniões a Sociedade Americana de Naturalistas conjuntas da Sociedade para o Estudo da (American Society of Naturalists) ou a So- Evolução (Society for the Study of ciedade para o Estudo da Evolução (Society Evolution), da Sociedade de Biólogos for the Study of Evolution). Sistematas (Society of Systematic Biologists), da Sociedade Americana de • Reorganização do apoio financeiro para Naturalistas (American Society of a pesquisa em Evolução A maior parte Evolução. Naturalists) e da Sociedade de Biologia da pesquisa básica em Biologia Evolutiva Molecular e Evolução (Society for nos Estados Unidos é mantida pela Funda- 60
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    ção Nacional paraa Ciência (National pesquisadores aprendam ou desenvolvam Science Foundation). As verbas de pesqui- novas técnicas ou iniciem novos progra- sa para as várias subdisciplinas da Biolo- mas de pesquisa, especialmente aqueles gia Evolutiva são concedidas por numero- com uma dimensão interdisciplinar ou apli- sas divisões e assessorias dentro da NSF. cada. Atualmente, o apoio para vagas de Esta estrutura serve para financiar pesqui- pós-doutorado e pesquisa de meio-de-car- sas que se situam nitidamente dentro de reira está aquém das necessidades. Au- muitas das subdisciplinas, porém propos- mentar as fontes para esse apoio será im- tas interdisciplinares freqüentemente en- portante para o progresso, tanto da Biolo- frentam dificuldades porque alguns asses- gia Evolutiva básica, como da aplicada. sores das áreas relevantes não estão fami- liarizados com o contexto nos quais tais • Treinamento em áreas subdesenvolvidas subdesenvolvidas volvidas. propostas se inserem. Por exemplo, pes- Em várias áreas importantes da Biologia quisas que estão no limite entre a Paleo- Evolutiva, o número de jovens cientistas biologia e a Biologia Evolutiva do Desen- que formarão o futuro corpo de pesquisa- volvimento, entre a Genética Molecular e dores é altamente inadequado. Talvez as a Ecologia Evolutiva ou entre a Genética mais notáveis dessas áreas sejam (1) a Bi- de Populações e a Sistemática podem cor- ologia Evolutiva Matemática e Estatística, rer “risco duplo” na obtenção de financia- incluindo a construção de modelos e a aná- mento. Sugerimos que a NSF considere a lise de dados; (2) a Sistemática e Biologia possibilidade de constituir uma unidade de grupos de organismos inadequadamen- única, possivelmente sobre “Biodiversidade te estudados e/ou que incluem espécies e Mudanças Bióticas”, que possa tratar de importantes para a sociedade humana (p. maneira abrangente o espectro da pesqui- ex., microrganismos, protistas, algas, fun- sa em Evolução, incluindo a pesquisa gos, plantas, insetos, nematódeos); e (3) a interdisciplinar, que traz contribuições tão Paleobiologia Evolutiva, concentrada na notáveis para o progresso científico. especiação e na biodiversidade. Para tra- tar dessa necessidade vital, os estudantes • Verbas de treinamento para pós-gradu- de doutorado precisam ser treinados nes- ação e pesquisa A saúde e o progresso pesquisa. sas áreas e é necessário que se abram para de qualquer disciplina depende do treina- eles oportunidades de emprego, como car- mento dos estudantes de pós-graduação, gos nos departamentos de Biologia de uni- que serão a próxima geração de pesquisa- versidades e de outros estabelecimentos de dores. Para tanto, é necessário um aumen- ensino superior. to das oportunidades de obtenção de ver- bas para o treinamento de estudantes de • Alcance e educação do público O maior público. pós-graduação e para a pesquisa, a fim de desafio para os biólogos que se dedicam fomentar as amplas perspectivas básicas ao estudo da Evolução, e para todos os ci- e aplicadas discutidas aqui. O que mais irá entistas, é transmitir informações novas e beneficiar a pesquisa básica e aplicada se- interessantes ao público em geral. A Bio- rão verbas de treinamento para áreas logia Evolutiva enfrenta o desafio adicio- interdisciplinares, Biologia Evolutiva Apli- nal de atingir e convencer uma parcela do cada e Biologia Evolutiva Teórica. Treinar público que é cética ou mesmo hostil em uma geração de pesquisadores na interface relação ao próprio conceito de Evolução. entre a Biologia Evolutiva básica e aplica- Embora a Evolução quase não gere con- da trará ainda o benefício adicional de ex- trovérsias em muitos outros países, nos portar o pensamento evolutivo para algu- Estados Unidos ela é uma questão politica mas disciplinas aplicadas, cuja compreen- e educativamente volátil (ver Apêndice I, são pode aumentar graças à perspectiva “Evolução: Fato, Teoria, Controvérsia”). evolutiva. Porém, sem o seu fundamento evolutivo, a Biologia não pode ser uma ciência mo- • Oportunidades de pós-doutorado e meio- derna, pois, por mais completas que sejam de-carreira Vagas de pós-doutorado e li- de-carreira. as nossas descrições dos fenômenos bio- cenças para pesquisa com a carreira já em lógicos, não conseguimos entender suas andamento são vitais para permitir que os causas inteiramente, a não ser fazendo re- 61
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    ferência aos processosevolutivos e à his- • Exposições em museus sobre a moderna tória evolutiva. Sem a Evolução, muitas das Biologia Evolutiva e as provas da Evolu- aplicações potenciais da Biologia às neces- ção; sidades da sociedade não serão desenvol- vidas e nem mesmo exploradas. Nenhuma • Comunicados à imprensa sobre avanços questão da educação do público quanto a empolgantes na pesquisa evolutiva; temas biológicos é mais urgente ou impor- tante do que a comunicação da natureza, • Cartas para jornais e revistas e cobertura das implicações e aplicações da Evolução. imperiosa da Evolução nas colunas cientí- ficas; Nos termos mais contundentes possíveis, instamos os cientistas que estudam a Evolu- • Monitorização dos livros-texto e comuni- ção a se empenharem na educação do públi- cação sobre as reações aos editores e con- co e instamos as instituições de ensino a co- selhos escolares; municarem ao público a realidade, vitalidade e importância da Evolução para a sociedade. • Mensagens dirigidas aos telespectadores e Os possíveis veículos para fazê-lo incluem: ouvintes de rádio; e • Palestras públicas para grupos de escolas • Apoio às organizações que contribuem e cidadãos locais; para a educação do público sobre Biologia. IX. CONCLUSÃO Pesquisadores em Biologia Molecular e neiras pelas quais a sua disciplina pode aju- do Desenvolvimento, Fisiologia, Ecologia, dar a humanidade: Comportamento Animal, Psicologia e Antro- pologia e outras disciplinas continuam a ado- • pela compreensão e combate das doenças tar como estrutura os métodos, princípios e genéticas, sistêmicas e infecciosas; conceitos da Biologia Evolutiva. Analoga- mente, a pesquisa aplicada em Silvicultura, • pela compreensão das adaptações fisioló- Agricultura, Pesca, Genética Humana, Medi- gicas humanas a estresses, patógenos e cina e outras áreas vem atraindo cada vez outras causas de problemas de saúde; mais cientistas com formação em Biologia Evolutiva. Os biólogos que se dedicam ao es- • pelo melhoramento de safras e mitigação tudo da Evolução expandiram sua visão, tra- dos prejuízos causados por patógenos, in- tando tanto de questões básicas que setos e ervas daninhas; permeiam todas as disciplinas biológicas, como de problemas colocados pelas necessi- • pelo desenvolvimento de ferramentas para dades da sociedade. Como resultado, tanto do analisar a diversidade genética humana em rápido crescimento desta “força de trabalho suas aplicações à saúde, ao direito e à com- evolutiva “, como dos avanços tecnológicos preensão do comportamento humano; em áreas como a metodologia molecular, a computação e o processamento de informa- • pelo uso e desenvolvimento responsável ções, o progresso da Biologia Evolutiva e áre- de recursos biológicos; as correlatas é mais veloz hoje do que jamais foi. Com o apoio apropriado e necessário para • pela remediação dos danos ao meio am- a educação e a pesquisa, as disciplinas biente; evolutivas darão contribuições ainda maiores para o conhecimento aplicado e básico. • pela previsão das conseqüências das mu- danças ambientais globais e regionais; e No domínio aplicado, os biólogos estu- diosos da Evolução estão assumindo suas res- • pela conservação da biodiversidade e des- ponsabilidades sociais. Existem muitas ma- coberta de seus usos. 62
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    Na ciência básica,estamos no limiar patógenos e parasitas com seus hospedei- do(a): ros, e dos efeitos da co-evolução sobre po- pulações e comunidades ecológicas. • completa documentação da biodiversidade e da descrição das relações filogenéticas A Biologia Evolutiva desempenha um entre todos os organismos; papel central na complexidade dos sistemas biológicos. A Evolução é a fonte da biocom- • compreensão mais completa das causas plexidade. O apoio contínuo e acentuado a este das principais mudanças na história da campo é vital para a maximização do progres- vida; so da pesquisa nacional, tanto no âmbito bá- sico, como no aplicado. Em termos de neces- • descoberta e da explicação dos processos sidades da sociedade para o século vinte e um, evolutivos ao nível molecular; a hora investir na Biologia Evolutiva é agora, enquanto ainda está em tempo de mudar ten- • compreensão de como evoluem os meca- dências atuais ou de nos prepararmos melhor nismos do desenvolvimento e como dão para lidar com suas conseqüências. Os níveis origem a novas estruturas anatômicas; populacionais atuais e projetados resultarão em impactos ambientais crescentes, numa • elucidação dos processos que tanto cau- crescente pressão sobre a produção de alimen- sam como restringem as adaptações fisio- tos, em desafios ainda maiores à diversidade lógicas, endocrinólogicas e anatômicas; biológica e em maiores oportunidades para o aparecimento de novas doenças. Uma base • desenvolvimento de uma compreensão cientifica sadia em Biologia Evolutiva é um ele- mais profunda do significado adaptativo e mento essencial para nos prepararmos a en- dos mecanismos do comportamento; e frentar essas questões. A Biologia Evolutiva tem de estar no centro da agenda nacional de • elaboração de uma teoria preditiva da co- pesquisa em Biologia, do mesmo modo como evolução entre espécies, como a dos está no centro do campo da Biologia. 63
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    BIBLIOGRAFIA 1. Adams, M.W., A. H. Ellingboe e E. C. Rossman. 1971. 20. Garland, T., Jr. e P. A. Carter. 1994. Evolutionary physi- Biological uniformity and disease epidemics. ology. Annu. Rev. Physiol. 56:579-621. BioScience 21:1067-1070. 21. Halder, G., P. Callaerts e W. J. Gehring. 1995. Induc- 2. Adey, N. B., T. O. Tollefsbol, A. B. Sparks, M. H. Edgell, tion of ectopic eyes by targeted expression of the eye- e C. A. Hutchison, III. 1994. Molecular resurrection of less gene in Drosophila. Science 267:1788-1792. an extinct ancestral promoter for mouse L1. Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 91:1569-1573. 22. Hall, B. G. 1983. Evolution of new metabolic func- tions in laboratory organisms. In M. Nei and R. K. 3. Beltran, P., e 10 outros autores. 1988. Toward a Koehn (eds.), Evolution of Genes and Proteins, pp. 234- population genetic analysis of Salmonella: genetic 257. 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    APÊNDICE I EVOLUÇÃO: FATO, EVOLUÇÃO:FATO, TEORIA, respeito do que deveríamos ver, se ela for ver- CONTROVÉRSIAS CONTROVÉRSIAS dadeira ou se ela for falsa. Não observamos a Terra dando a volta em torno do sol; aceita- Quando os biólogos se referem à Teoria mos esta hipótese por causa das numerosas da Evolução, eles usam a palavra “teoria” da observações astronômicas verificadas — e, forma como ela é usada em toda a Ciência. mais recentemente, observações feitas por Ela não significa uma mera especulação ou naves espaciais — que estão em conformida- uma hipótese sem fundamento. Aliás, segun- de com as previsões da hipótese. Assim, a hi- do o The Oxford English Dictionary, é “uma hi- pótese de Copérnico agora é um fato — uma pótese que foi confirmada ou estabelecida por afirmação sustentada por tantas provas que observação ou por experimentação e é pro- a utilizamos como se fosse verdadeira. posta ou aceita como justificativa dos fatos Os biólogos aceitam como um fato que conhecidos; uma afirmação das leis, princípi- todos os organismos, vivos e extintos, são os ou causas gerais de alguma coisa conheci- descendentes, com incontáveis mudanças, de da ou observada” (palavras em itálico dos uma ou, no máximo, algumas poucas formas autores). O complexo conjunto de princípios de vida originais. Para Darwin, em 1859, isto que explicam as mudanças evolutivas consti- era uma hipótese, para a qual ele apresentou tui uma teoria no mesmo sentido da “Teoria provas abundantes provenientes da anatomia dos Quanta” na Física ou da “Teoria Atômica” comparativa, da embriologia, do comporta- na Química: foi elaborada a partir de provas, mento, da agricultura, da paleontologia e da testada e refinada e esclarece literalmente distribuição geográfica dos organismos. Des- milhares de observações feitas ao longo da de aquela época, todos os muitos milhares de totalidade da Ciência Biológica e da Paleon- observações feitas em cada uma dessas áre- tologia. as reforçaram a essência da hipótese de Como todas as teorias científicas, a Te- Darwin. A essas observações foram acrescen- oria da Evolução é atualmente a melhor expli- tadas abundantes provas com que Darwin cação. Resistiu a incontáveis testes e tentati- nem poderia ter sonhado, oriundas especial- vas de provar o contrário, mas ainda está sen- mente da Paleontologia e da Biologia do refinada, modificada à luz de novos co- Molecular. O acúmulo de um século de tais nhecimentos e expandida para esclarecer fe- provas estabelece a descendência, com modi- nômenos de descoberta recente. A Teoria Ge- ficações, de ancestrais comuns como um fato nética teve uma história igual, tendo progre- científico. Como explicamos este fato — quais dido dos primeiros princípios simples de poderiam ser seus princípios e suas causas — Mendel até o complexo conjunto de princípi- é a teoria do processo evolutivo, partes da qual os moleculares que constituem a Teoria da He- são sujeitas a quantidades variadas de deba- reditariedade de hoje, sendo constantemente tes científicos, modificações e ampliação. refinada e modificada, embora seus princípi- Afirmar que a Evolução é um fato é con- os essenciais tenham permanecido válidos frontar-se com controvérsias, pois provavel- durante um século. O mesmo acontece com mente nenhuma afirmação em toda a Ciên- a Teoria da Evolução. cia desperta tanta oposição emocional quan- A Evolução é também um fato? Todos to a evolução biológica. Apesar disso, nenhu- os fatos, menos os mais triviais, começam ma hipótese científica diferente da descendên- como hipóteses não testadas — como a hipó- cia comum com modificações consegue tese de que a Terra gira em torno do sol. Eles elucidar e fazer previsões a respeito da uni- adquirem “fatualidade” à medida que mais e dade, diversidade e propriedades dos organis- mais provas se acumulam a seu favor e que mos vivos. Nenhuma outra hipótese sobre a resistem às tentativas de refutá-las. As pro- origem da diversidade biológica é respaldada vas e as tentativas de refutação podem assu- por provas tão esmagadoras e nenhuma hi- mir várias formas além das simples observa- pótese concorrente gera tamanha riqueza de ções; na realidade, as provas mais poderosas estudos científicos e tem tantas implicações não são meras observações e sim a confor- para as Ciências Biológicas e suas aplicações midade com previsões feitas pela hipótese a para as necessidades da sociedade. 66
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    EVOLUÇÃO E CRENÇAESPIRITUAL: EVOLUÇÃO ESPIRITUAL: referentes à crença espiritual não podem ser UM CONFLITO NECESSÁRIO? decididas pela Ciência, que, pela sua nature- za, é limitada a determinar causas naturais A Teoria da Evolução é controversa por- observáveis, não pode pronunciar-se a res- que é percebida por algumas pessoas como peito de assuntos sobrenaturais e não pode sendo incompatível com crenças religiosas, dar respostas a perguntas filosóficas ou éti- especialmente no que diz respeito à natureza cas fundamentais. e às origens humanas. Nos Estados Unidos, a Este último ponto precisa ser enfa- assim chamada oposição criacionista à Evo- tizado. Os antievolucionistas acusaram a lução fala tão alto que chegou a ameaçar o Evolução de despojar a sociedade de todo financiamento de órgãos federais para a pes- fundamento da moralidade e da ética e de quisa evolutiva, a despeito de seu valor cien- ensinar uma visão materialista do mundo, o tífico básico e de suas numerosas aplicações. que justificaria a lei do mais forte. Mas a Ci- De igual importância é o fato de ela ter leva- ência da Evolução nunca ensinou nada dis- do os sistemas de ensino público a mini- so e, praticada corretamente, não pode ensi- mizarem a educação em Ciência Evolutiva, nar qualquer coisa desse tipo, pois a ciência contribuindo para um amplo analfabetismo em si não tem conteúdo moral ou ético, para científico. (Um estudo de 1988 sobre o domí- o bem ou para o mal. Quer a ciência seja a nio da Ciência por jovens de todo o mundo Física, quer a Biologia Evolutiva, ela somen- classificou os norte-americanos entre os 25 te nos ensina como é e como funciona o porcento mais baixos, atrás de estudantes de mundo observável. Ciências como a Física, países como o Japão, a Inglaterra e a Hungria). a Química, a Geologia, a Fisiologia e a Neuro- Mais da metade dos norte-americanos acre- biologia, exatamente como a Biologia Evo- ditam que o ser humano foi criado em sua lutiva, não admitem causas sobrenaturais forma atual cerca de 10.000 anos atrás, em- para as ações dos átomos, a energia do sol, bora já faça quase um século que a realidade a saúde ou as doenças do corpo humano ou da Evolução — incluindo a Evolução humana os poderes do cérebro humano. Estas ciên- — não gera controvérsias sérias entre os ci- cias reconhecem somente causas naturais, entistas (37). materiais, e nós nos baseamos em suas teo- Padres, pastores, rabinos e o Papa João rias naturalistas quando construímos aviões, Paulo II ratificaram a validade da Ciência sintetizamos novos plásticos, ouvimos a pre- Evolutiva, ratificando ao mesmo tempo a va- visão do tempo ou consultamos os nossos lidade espiritual dos ensinamentos da Bíblia. médicos. Não aplicaríamos princípios religi- Existem, na realidade, alguns clérigos que osos a essas atividades, da mesma forma que ensinam sobre a Evolução e até fazem pes- não procuraríamos médicos, engenheiros ou quisas evolutivas. Entre os próprios biólogos químicos para nos darem orientação moral. que se dedicam ao estudo da Evolução, há O mesmo ocorre com a Ciência da Evolução: ateus, agnósticos e devotos praticantes de nem mais nem menos materialista do que várias religiões. A maioria dos teólogos pare- qualquer outra ciência, ela não oferece ori- ce concordar com a idéia de que considerar entação moral, somente uma análise desa- que a fé em Deus é ou não compatível com a paixonada sobre como funcionam e como se aceitação da Evolução é questão de decisão formaram os sistemas biológicos. Qual o uso individual. A maioria dos biólogos que estu- que faremos dessas informações, cabe aos dam a Evolução concorda que as questões indivíduos e à sociedade decidir. 67
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    APÊNDICE II COMO ESTEDOCUMENTO obtenção de financiamento para o apoio a FOI PRODUZIDO workshops destinados a elaborar o relatório e a coordenar e supervisionar sua redação e Atendendo a convite dos presidentes de publicação. Este projeto recebeu o apoio da suas respectivas sociedades, representantes* A. P. Sloan Foundation e da National Science da American Society of Naturalists (ASN), da Foundation. Foram publicados comunicados Society for the Study of Evolution (SSE), da sobre a existência do grupo de trabalho e Society for Molecular Biology and Evolution suas incumbências nas revistas The American (SMBE), da Ecological Society of America Naturalist, Ecology, Evolution, Genetics, (ESA), da Society of Systematic Biologists Molecular Biology and Evolution e Science. (SSB), da Genetics Society of America (GSA), O grupo de trabalho reuniu-se em ou- da Animal Behavior Society (ABS) e da tubro de 1995 (em Lawrenceville, NJ) e em Paleontological Society (PS) reuniram-se em março de 1996 (em Chicago, IL) para discutir Indianapolis, Indiana, de 22 a 23 de abril de o conteúdo do relatório e distribuir as tare- 1995, para discutir a necessidade de se pre- fas de redação e pesquisa. Entre as reuniões, parar um relatório que definisse os desafios os membros do grupo de trabalho mantive- e as oportunidades com que a Ciência da Evo- ram contatos regulares via e-mail. O relató- lução estava se deparando. O propósito des- rio foi distribuído para os conselhos executi- se documento seria o de servir como decla- vos das sociedades científicas relevantes em ração sobre a natureza e a importância des- 1996-1997, a fim de receber críticas e comen- te campo, para ser utilizada, de modo igual, tários, e uma cópia do documento foi colo- pelos responsáveis pelas políticas, por edu- cada na Internet em 1997, para ser analisa- cadores e cientistas. da e comentada pela comunidade científica Foi reunido um grupo de trabalho re- em geral, com anúncios e informações de presentando as principais disciplinas da Bio- acesso colocados em várias das revistas logia Evolutiva, para fazer uma minuta do do- mencionadas acima. A reunião final do gru- cumento de trabalho a ser apresentada aos po de trabalho realizou-se em abril de 1997 membros das nossas respectivas sociedades. (em Palo Alto, CA), para tratar de questões Por ocasião do workshop de abril de 1995, de balanço geral do documento final e no- foram eleitos os co-presidentes D. Futuyma mear um grupo de trabalho menor para su- (editorial) e T. Meagher (organizacional), para pervisionar a publicação definitiva do rela- redigirem um rascunho de propostas para a tório. *Douglas Futuyma (ASN), Leslie Real (ASN, ESA), Thomas Meagher (SSE), Walter Fitch (SMBE), Carol Lynch (SSE), Linda Maxson (SMBE), Charles Langley (GSA), J. John Sepkoski, Jr. (PS), Zuleyma Tang- Martinez (ABS) e Michael Donoghue (SSB), Mark Courtney como observador para a NSF. 68
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    APÊNDICE III GLOSSÁRIO DETERMOS FREQÜENTEMENTE USADOS por diferenças biológicas que reduzem ou impedem a troca de genes. Especiação é a Alelo Uma de várias formas alternativas de Alelo: origem de duas ou mais espécies pela di- um gene, que difere das outras formas na visão de uma espécie ancestral em popu- seqüência de nucleotídeos e, geralmente, lações reprodutivamente isoladas. em seu efeito sobre determinado caráter. Extinção A morte de todos os indivíduos de Extinção: Alelos neutros Dois ou mais alelos que não neutros: uma população, uma espécie ou uma clas- diferem quanto ao seu efeito sobre o valor se taxonômica superior, em determinado adaptativo. Alelos deste tipo são chama- local. dos “seletivamente neutros”. Extinção em massa Grande aumento do nú- massa: Biodiversidade O número de alelos ou cate- Biodiversidade: mero de extinções (com uma concomitante gorias taxonômicas de uma área geográfi- diminuição da diversidade) ao longo de um ca específica (abrangendo desde uma re- intervalo de tempo geologicamente curto gião localizada até a Terra inteira). O nú- (anos até muitos milhares de anos). mero de categorias taxonômicas é freqüen- Fenótipo Característica(s) observável(is) de Fenótipo: temente descrito como “diversidade taxo- um organismo, p.ex., cor dos olhos, fre- nômica” ou, simplesmente, “diversidade.” qüência respiratória, número de descen- Caráter Um traço específico, p. ex., “dentes Caráter: dentes produzidos. O fenótipo é molares”. Um estado de caráter é uma de freqüentemente determinado tanto por fa- várias formas alternativas de um traço, tores genéticos como ambientais. p.ex., o número específico de molares. Um Filogenia O padrão histórico de ramificação, Filogenia: caráter quantitativo varia de maneira con- produzido pela especiação ou pelo isola- tínua (p. ex., peso) e não descontínua, ge- mento de populações, que resultou em uma ralmente devido aos efeitos tanto do am- diversidade de categorias taxonômicas ou biente como da ação de vários ou muitos de populações diferenciadas. genes, daí o termo caráter “poligênico”. Fixação A condição de um alelo que substi- Fixação: Categoria taxonômica (ou taxon, pl. taxa) : taxon, taxa) tui todos os outros alelos em uma popula- Entidade denominada na classificação bi- ção, de modo que sua freqüência é igual a ológica, como uma espécie (p.ex., Homo 1 (i.é., 100%). sapiens) ou uma ordem (p.ex., Primatas). Fluxo gênico Movimento de genes de uma gênico: Categoria taxonômica superior é uma cate- população para outra (geralmente da mes- goria acima do nível de espécie (p.ex., um ma espécie), resultante do deslocamento gênero ou uma família) e idealmente re- de indivíduos ou de seus gametas. presenta um grupo de espécies descenden- tes de seu ancestral comum mais recente. Fóssil Qualquer vestígio reconhecível de um Fóssil: organismo antigo, preservado em um sítio Deriva genética Mudanças aleatórias nas fre- genética: geológico. qüências dos alelos dentro de uma popu- lação, devidas a uma distribuição aleató- Freqüência alélica Proporção de cópias de alélica: ria de genes. um gene em uma população representan- do um alelo específico. Se a população tem Desenvolvimento As mudanças que um or- Desenvolvimento volvimento: N indivíduos, cada um com 2 cópias do ganismo individual sofre durante sua vida, gene, o número total de genes na popula- desde o ovo, a semente, etc., passando pela ção é 2N. maturidade, até a morte. Gameta Uma célula, como um óvulo ou um Gameta: Espécie No conceito da maioria dos biólo- Espécie: espermatozóide, que se une a outra célula gos estudiosos da Evolução, uma espécie para formar um novo organismo. é uma população de organismos que – real ou potencialmente - trocam genes por meio Gene Unidade da hereditariedade, geralmen- Gene: de cruzamentos e são reprodutivamente te uma seqüência de DNA que codifica uma isolados de outras populações desse tipo proteína ou outro produto que influi no de- 69
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    senvolvimento de umou mais caracteres. Polimorfismo A presença, em uma popula- olimorfismo: Cada aminoácido de uma cadeia de prote- ção, de dois ou mais alelos num determi- ína é codificado por um ou mais conjuntos nado loco genético. de três bases (tríades) específicos, consti- População Grupo local de indivíduos de uma População: tuídos de quatro tipos de bases nucleo- espécie; em organismos de reprodução tídicas. sexuada, os membros de uma população Genótipo Uma combinação específica de Genótipo: cruzam entre si mais freqüentemente do alelos em um ou mais locos. Organismos que com membros de outras populações. como os humanos têm duas cópias de cada Seleção Abreviação de “seleção natural,” i.é, Seleção: gene em cada um da maioria dos locos (um diferenças consistentes na taxa de sobre- proveniente da mãe e um proveniente do vivência ou de reprodução entre genótipos pai); o genótipo em determinado loco é ou alelos diferentes, devido a diferenças homozigoto se as duas cópias forem do nos fenótipos por eles produzidos. mesmo alelo, e heterozigoto se forem alelos diferentes. Teoria coalescente Um segmento da teoria coalescente: da Genética de Populações, que utiliza as Loco (pl., locos): O local de um cromossomo relações entre seqüências de DNA para in- que é ocupado por um gene; este termo é ferir os processos evolutivos que afetaram freqüentemente usado para se referir ao genes e populações. próprio gene. Valor adaptativo A contribuição para a ge- adaptativo: Mutação Alteração da seqüência do DNA de Mutação: ração seguinte de um genótipo, em rela- um gene, originando-se daí um novo alelo. ção à de outros genótipos, refletindo a sua Pleiotropismo Os efeitos de um único gene Pleiotropismo: probabilidade de sobrevivência e sua ca- sobre mais de um caráter. pacidade reprodutiva. 70
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    APÊNDICE IV ASSOCIAÇÃO ENTREA PESQUISA • U .S. Department of Agriculture (USDA) (USDA) EVOLUTIV OLUTIVA EVOLUTIVA E AS MISSÕES DE ÓRGÃOS (Departamento de Agricultura dos EUA) EUA) A): OFICIAIS Variação genética e mapeamento de LCQ de plantas; evolução molecular e evolução Descrevemos aqui um campo emer- do desenvolvimento das plantas; sistemas gente, o da Biologia Evolutiva Aplicada, que de cultivo de plantas; fisiologia evolutiva inclui pesquisas orientadas diretamente para de plantas, animais domésticos e insetos; necessidades da sociedade, bem como uma resistência natural a pragas em plantas sel- pesquisa básica que claramente constitui pré- vagens; genética, ecologia, comportamen- requisito para o desenvolvimento de aplica- to e sistemática de plantas, insetos, nema- ções. O progresso nessas áreas tem uma re- tódeos, fungos e outros patógenos de plan- lação direta com as missões de diversos ór- tas; co-evolução parasita/hospedeiro; ge- gãos e irá claramente contribuir para suas nética e ecologia evolutiva dos organismos necessidades e objetivos. De fato, certos ór- de solo; evolução da resistência a toxinas gãos apoiam a pesquisa em algumas das naturais e a pesticidas e herbicidas sintéti- subdisciplinas da Biologia Evolutiva. Entre- cos; análise estatística e numérica de da- tanto, muitos dos órgãos relacionados abai- dos. xo têm financiado muito pouco da pesquisa evolutiva que poderia impulsionar seus ob- • Environmental Protection Agency (EPA) Environmental (EPA) jetivos. Exemplos de possíveis associações (Agência de Proteção Ambiental) Gené- Ambiental): entre órgãos oficiais e áreas da pesquisa tica, Ecologia e Evolução aplicadas à evolutiva relevantes para suas missões in- biorremediação; evolução microbiana; cluem: adaptação a mudanças ambientais globais e locais; genética e adaptabilidade de po- • National Institutes of Health (NIH) (Ins- pulações pequenas e/ou ameaçadas; titutos Nacionais de Saúde) Evolução e Saúde): biodiversidade (incluindo sistemática, diversidade da organização do genoma; biogeografia, evolução das interações en- Evolução Molecular; teoria da Genética de tre espécies e paleobiologia das mudanças Populações; mapeamento de LCQ (locos das comunidades). de características quantitativas); evolução dos mecanismos de desenvolvimento; • U .S. Department of the Interior (Depar- Morfologia e Fisiologia Evolutivas; meca- tamento do Interior dos EUA): Biorre- EUA): nismos de adaptação a estresses mediação de ambientes danificados; gené- ambientais; co-evolução (de patógenos ou tica e fisiologia evolutivas dos recursos flo- parasitas e hospedeiros); técnicas numé- restais e de pesca; adaptação a mudanças ricas e analíticas para o uso de dados ambientais globais e locais; genética e moleculares; epidemiologia genética; di- adaptabilidade de populações pequenas e/ agnóstico genético; evolução da resistên- ou ameaçadas; evolução dos ciclos de vida cia a drogas em microorganismos; varia- e dos sistemas de cultivo/criação de po- ção humana; abordagens evolutivas da pulações de safra; análise de biodiversi- base biológica do comportamento huma- dade (p. ex., inventário, sistemática, bio- no; mecanismos de comportamento rela- geografia, percepção remota do habitat, cionados com funções cognitivas; funções interações entre espécies); métodos teóri- hormonais e seus efeitos sobre o compor- cos, estatísticos e numéricos. tamento. • Department of Defense (DOD) (Departa- • U.S. Department of Justice (Departamen- mento de Defesa dos EUA) Sistemática, EUA) A): to de Justiça dos EUA) Identificação ge- EUA) A): genética e ecologia evolutiva de parasitas, nética; genética de populações de poli- patógenos e vetores de doenças; sistemá- morfismos moleculares; métodos analíti- tica e ecologia evolutiva de organismos cos. marinhos; adaptação a mudanças globais 71
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    passadas e presentes;caracterização ge- • Indústria As descrições acima das apli- Indústria: nética de indivíduos pelo DNA (“finger- cações passadas e potenciais da Ciência printing”). da Evolução a objetivos tais como a bior- remediação, o desenvolvimento de produ- • National Air and Space Administration tos naturais e a biotecnologia deixam cla- (NASA) (Administração Nacional Aero- ro que diversas indústrias considerarão Espacial); National Oceanographic and útil apoiar as pesquisas em áreas como a Atmospheric Administration (NO AA) (NOAA) análise comparativa de genes e genomas; (Administração Nacional Oceanográfica mapeamento de LCQ de microrganismos; e Atmosférica) Análise da biodiversidade Atmosférica): a genética evolutiva de organismos trans- da vegetação e dos sistemas marinhos (in- gênicos e suas interações com espécies cluindo sistemática, biogeografia, ecologia selvagens; co-evolução em sistemas evolutiva); efeitos da composição das es- microbianos; adaptabilidade e ecologia pécies, das interações entre espécies e da evolutiva dos organismos de solo, ervas variação genética sobre os processos dos daninhas e espécies que constituem pra- ecossistemas; adaptação a mudanças gas; evolução da resistência a antibióti- ambientais globais e locais; estudos paleo- cos, pesticidas e herbicidas; análises biológicos de comunidades e ambientes; adaptativas das propriedades químicas de métodos estatísticos e analíticos; origens plantas e outras espécies; sistemática e da vida e exobiologia; adaptação a ambi- biodiversidade de microrganismos, plan- entes extremos. tas e outras espécies. • World Health Organization (Organização • Fundações particulares Fundações par- particulares: Mundial da Saúde) Epidemiologia e Saúde): ticulares podem exercer um papel essen- biogeografia de doenças; evolução da re- cial no lançamento de pesquisas em dire- sistência a doenças; aparecimento de do- ções que não podem ser financiadas de enças novas; relações ecológicas e imediato por órgãos federais. Nesta cate- evolutivas entre doenças e seus vetores. goria, projetos de pesquisas verdadeira- mente inovadoras e, por isso, de natureza • UNESCO (UNEP—United Nations Environ- Environ- “de alto risco/altos ganhos”; projetos mental Programme) (Programa Ambiental interdisciplinares e com probabilidades de das Nações Unidas) O apoio dado A Esti- Unidas): se situarem entre as áreas tradicionalmente mativa da Biodiversidade Global (Global financiadas pelos órgãos públicos; ou que Biodiversity Assessment) do UNEP cita a im- estão fora de moda (talvez por exigirem portância dos estudos paleobiológicos so- coleta de mais dados sobre temas tradici- bre respostas biológicas às mudanças glo- onais) têm maiores probabilidades de se bais e descreve a importância da Biologia beneficiarem da flexibilidade que funda- Evolutiva para a nossa compreensão da ções particulares muitas vezes podem biodiversidade e seu manejo (24). exercer. 1 72
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    Árvore filogenética universal,mostrando as relações entre Bacteria (p.ex., a maioria das bactérias e algas verdes-azuis), Archaea (p. ex., metanógenos e halófilos) e Eucarya (p. ex., protistas, plantas, animais e fungos). 73