Entrevista:


   Alex Atala


                    O
                           criativo e irrequieto Alex Atala é conheci-
                           do, no Brasil e no exterior, por explorar, a
                           partir de bases clássicas e técnicas atuais,
                    as possibilidades gastronômicas dos ingredientes
                    nacionais. Atala iniciou sua carreira aos 19 anos
                    na Bélgica, depois partiu para novas empreitadas
                    em cozinhas da França e da Itália. Em 1994 retor-
                    nou a São Paulo e, no final de 1999, inaugurou
                    o restaurante D.O.M., que, entre outros prêmios,
                    valeu-lhe, por duas vezes (2006 e 2007), a indica-
                    ção entre os 50 melhores restaurantes do mundo
                    pela publicação Restaurant Magazine. Além de
                    cozinhar, Atala também é estudioso da gastrono-
                    mia brasileira, tendo publicado diversos textos
                    em que defende a valorização de ingredientes
                    nacionais para a culinária de alto padrão. Em
                    entrevista a Textos do Brasil, o chef comenta sua
                    percepção a respeito da formação e das tendên-
                    cias atuais da culinária brasileira.




Sabores do Brasil                                                     129
TB: O Brasil é um país imenso que                          o Brasil é essa colcha de
      apresenta grande diversidade
      cultural; ainda assim, é possível                           retalhos de culturas,
      afirmar que existe uma culinária                              que, no final, são
      particular que o identifique?
            Alex: Eu acho que é preciso diferenciar o           respeitadas e unificadas
      que é regional do que é típico e do que é folcló-          de uma forma singular
      rico. A maior representação do Brasil, em âmbito
      mais abrangente, talvez seja a feijoada, que pos-                e positiva.
      sui tanto uma raiz negra quanto uma indígena; é
      um elemento presente na mesa do brasileiro, um       essas são apenas as bases. O arroz com feijão não
      traço efetivamente nacional. Creio que se pode       encerra toda a culinária brasileira.
      dizer que esse prato e a caipirinha são represen-
      tações folclóricas da cultura brasileira.            TB: O fato de ir a um restaurante à
             Há, por outro lado, os pratos típicos, as     quilo, algo muito comum no dia-a-
      cozinhas típicas. A influência da culinária portu-   dia das pessoas que trabalham nas
      guesa, por exemplo, pode ser sentida tanto em        grandes cidades, e lá encontrar arroz
      Minas quanto em Florianópolis, que possui uma        com feijão, sushi, churrasco, massa,
      cozinha mais açoriana, com pratos muitos belos.      etc. indica o que sobre a culinária
      A influência da culinária africana pode ser sen-     brasileira?
      tida, de modo geral, no Nordeste. A Amazônia,               Alex: Eu acho que isso reflete o que é, real-
      por sua vez, possui uma cozinha autóctone. Re-       mente, o Brasil: essa colcha de retalhos de cultu-
      firo-me não apenas ao estado da Amazônia, mas        ras, que, no final, são respeitadas e unificadas de
      a toda a região, com a diversidade e os microcli-    uma forma singular e positiva.
      mas que vamos encontrar.
             Então, acho que é importante fazer a seção    TB: Se, conforme expresso em
      do que é folclórico, do que é típico e do que é      Fisiologia do Gosto, “somos o que
      regional. Isso dá idéia da riqueza da nossa cul-     comemos” pode-se dizer que a
      tura: não só de sua dimensão continental, mas        existência de uma culinária brasileira
      também de sua diversidade.                           é corolário da própria existência de
                                                           um povo brasileiro, apesar de toda a
      TB: A unidade de nossa culinária,                    diversidade interior?
      portanto, vai além do feijão com                           Alex: Vamos pensar no seguinte: a alimen-
      arroz?                                               tação é trilha de estudo de todas a ciências huma-
            Alex: Uma vez que é grande a nossa rique-      nas. Então, dá para dizer, sem dúvida alguma,
      za, acho que o arroz e o feijão formam a receita     que somos sim o que comemos. Não discuto isso.
      mais consumida. Acredito, também, que a man-         Estou completamente de acordo com essa afir-
      dioca seja o eixo central da culinária brasileira,   mação e acho que reforça tudo o que venho fa-
      presente da mesa cabocla à grande mesa. Mas          lando: essa força que o Brasil tem; essa abertura



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D.O.M. Restaurante


   para outras culturas, sem perder a originalidade.    Brasil pela qual demonstra potencial para a culi-
   Isso reforça, mais uma vez, esse prisma da cultu-    nária empregada internacionalmente.
   ra que temos.
                                                        TB: Se o senhor acredita na existência
   TB: Apesar da diversidade das                        de uma culinária legitimamente
   culturas que formam o Brasil, a                      brasileira, aberta a outras culturas,
   culinária, sobretudo a comida do                     mas sem descaracterizar-se, por
   dia-a-dia, apresenta considerável                    que está publicando um livro com o
   homogeneidade. Assim, parece                         objetivo de dar maior publicidade aos
   acertado dizer que o que define a                    ingredientes, processos e receitas da
   culinária brasileira é a assimilação,                cozinha da Amazônia?
   não sua origem?                                             Alex: No primeiro momento, quando os
         Alex: De certa forma, sim, é possível con-     europeus chegaram, tiveram de tropicalizar suas
   cordar com a idéia de que o Brasil suplanta as       receitas. O Brasil era outra realidade, muito po-
   culturas estrangeiras que para cá vieram. Existe     tente. Assim, nossa cultura suplantou, muitas ve-
   uma customização da cultura estrangeira à loca-      zes, a cultura estrangeira de modo geral. No caso
   lidade. Então, essa é uma das primeiras forças do    do meu trabalho, escrevi o livro para valorizar a
                                                        culinária brasileira.


Sabores do Brasil                                                                                           131
O arroz com feijão, por exemplo, é um pra-             Alex: Eu acho que a nova sociedade pro-
      to típico de um país colonizado jovem. Ainda            põe a experimentação. Os hábitos são influencia-
      que o homem coma desde antes de aprender a              dos por isso. Há, também, o traço do Brasil, um
      comunicar-se e que a alimentação seja uma ativi-        país tão multicultural, o que ajuda muito nesse
      dade vital, a gastronomia tem apenas 200 anos.          sentido. É divertido imaginar que, há 20 ou 30
      Por ser um país jovem e receber influência de           anos, a comida japonesa gerava ojeriza e, hoje,
      várias culturas, o Brasil acaba desprestigiando a       muitas crianças de 8 a 10 anos preferem um sushi
      cozinha mais caipira, mais cabocla, quando o ato        bar ao McDonald’s.
      de se alimentar adquire certo status.                         Isso mostra que o paladar pode ser desen-
             Eu, pessoalmente, não consigo achar que          volvido. Se exposto à variedade desde a primeira
      um ovo é menos importante do que uma trufa.             infância, o horizonte de paladar tende a alcançar
      Então, sou um militante de uma cozinha de ter-          um amplitude muito grande. Nós somos, assim,
      roir, de uma cozinha caipira, de uma cozinha pa-        muito privilegiados por sermos um país tão rico
      trimonial brasileira, porque o que levou a França,      em ingredientes e em cultura.
      Itália, Espanha e o Japão aos altos patamares da              Essa abertura à cozinha internacional, por
      cozinha foi o orgulho da cultura regional, o orgu-      outro lado, é conseqüência de sermos uma cultu-
      lho do caipira, por assim dizer.                        ra jovem, aberta a múltiplas influências.
              Na França, um chef é tão respeitado porque
      ele faz comida francesa, para pessoas francesas,        TB: Você não acha que esse tendência,
      que comeram comida francesa a vida inteira. É           em contrapartida, não poderia ser um
      a qualidade do trabalho que confere a ele esse          sintoma de que a nossa cozinha deixou
      status. No Japão, um sushiman é honorado pelo           de ter raiz, de que perdeu um pouco de
      mesmo motivo. Acredito, portanto, que um bom            contato com a própria terra?
      cozinheiro brasileiro tem de demostrar essa mes-               Alex: Embora a culinária regional tenha
      ma habilidade com a nossa cultura.                      perdido algo de seu brilho, acho que esse pro-
              A diferença entre o bom, o muito bom e o        cesso faz parte de um ciclo. Existe, hoje, um mo-
      excepcional vem com repertório. Para nós brasi-         vimento que não é meu, mas de pessoas como
      leiros, é difícil julgar trufas, caviares e até mesmo   Paulo Martins, em Belém, ou César Santos, em
      cogumelos e molhos complicados; mas, com cer-           Olinda. São profissionais do País inteiro, de norte
      teza, todo brasileiro é expert em arroz com feijão.     a sul, militando por cozinhas regionais com mui-
                                                              ta propriedade. Creio que esse retorno a nossa
      TB: Por que, ao irmos a um                              origem faz parte do processo de amadurecimen-
      restaurante, estamos mais perto do                      to de nossa cultura.
      outro lado do Atlântico – ou mesmo                             Essas pessoas, diferentemente de mim, que
      do Pacífico – do que de nosso interior?                 estou fazendo alta gastronomia, defendem suas
      Por que é mais fácil comer comida                       cozinhas regionais, suas origens, o que eu acho
      mexicana, japonesa, chinesa, egípcia                    muito bonito. O mais importante, sem dúvida, é
      e até javanesa do que manauara em                       a valorização da alimentação do Brasil.
      muitas capitais do País?


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Sorbet de jabuticaba. D.O.M. Restaurante


   TB: Nesse contexto, é ainda possível                           Pensando em Amazônia, há discussões so-
   identificar, claramente, as cozinhas                    bre a qualidade do tucupi de Manaus e do de Be-
   regionais típicas?                                      lém; do açaí de Manaus e do de Belém. Procura-
          Alex: Eu acho que há grandes interseções.        se saber se a castanha é do Pará ou do Acre. São
   Em Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, existe uma        discussões que, acredito, perdem a legitimidade,
   vertente portuguesa comum a todos. Então, às            uma vez que começam a buscar uma melhor re-
   vezes, você vai ver discussões que acho ilógicas,       gião e se esquecem do sentido de cidadania, que
   como a diferença entre um tutu paulista e um mi-        parte do indivíduo para o coletivo.
   neiro. Discute-se algo que talvez não tenha tan-
   ta importância, se imaginamos que o bioma é o           TB: A cozinha regional engloba
   mesmo.                                                  não apenas pratos, mas também
          A cultura humana não respeita muito di-          ingredientes típicos. Não está cada
   visões geográficas, na medida em que está muito         vez mais difícil ter acesso a esses, à
   adaptada ao bioma. Importa saber se se trata de         medida que a produção e o consumo se
   uma mata atlântica, de um cerrado, ou de uma            massificam?
   floresta equatorial.



Sabores do Brasil                                                                                         133
A minha relação                          remos a força do elo com o ambiente. Pensemos
                                                         no caviar, na trufa. O homem ainda tem de ir à
                 com a natureza                          caça de trufas, bem como à pesca do esturjão sel-
                                                         vagem para conseguir o melhor caviar. É incrível
               manifesta-se como
                                                         como um dos mais altos patamares da cultura
               uma característica                        humana está intrinsecamente ligado à natureza.
                                                               Acredito, também, que a alimentação pode
             muito forte de minha
                                                         ser não apenas uma forma de conservação do
                 personalidade; é                        meio ambiente, como também uma ótima alter-
                                                         nativa para se gerarem recursos para as popula-
                 uma herança de
                                                         ções das regiões ribeirinhas. É importante agre-
             família. Mas isso não                       gar valor para a floresta. Ela tem de valer mais
                                                         em pé do que deitada.
              é uma exclusividade
              minha. Se pegarmos                         TB: Em relação à cozinha tradicional,
                                                         dados estatísticos apontam uma
             os ícones mais altos da                     redução no consumo de feijão com
             gastronomia, veremos                        arroz. O que isso significa para nossa
                                                         culinária?
               a força do elo com o                             Alex: A maior concentração populacional
                    ambiente.                            do Brasil ainda está nas metrópoles. Essa ali-
                                                         mentação em larga escala, a produção de comida
                                                         industrializada, é um grande facilitador do dia-
             Alex: Acredito que, de alguma forma, sim.   a-dia, mas bastante nociva às culturas regionais,
      Não poderia dizer que não. Por outro lado, nós,    principalmente quando se pensa em pratos típi-
      brasileiros, principalmente os produtores e os     cos do sertão ou de culturas menores limitadas
      extrativistas, precisamos melhorar nossa relação   a microrregiões. Nesse sentido, penso que as in-
      com os ingredientes de base. Aqui, os peixes são   dústrias de alimentação são mais perigosas que
      maltratados, bem como as hortaliças colhidas no    as redes de fast-food, que são um fênomeno urba-
      cinturão urbano. Então, acho que pecamos, mui-     no. A salsicha, os enlatados, por outro lado, são o
      tas vezes, no momento de respeitar a natureza,     que chega, realmente, às regiões carentes.
      que é tão generosa conosco e é agredida pelos             Eu tenho um sonho. Não vou dizer que é
      próprios agricultores e pescadores que tiram o     um projeto, mas sim um sonho de melhorar a ces-
      sustento dela.                                     ta básica, não apenas como produto de base, mas
             A minha relação com a natureza mani-        também como embalagem. É importante lembrar
      festa-se como uma característica muito forte de    que, para o índio, o ribeirinho, o caboclo, embala-
      minha personalidade; é uma herança de família.     gem de fruta é casca, de peixe é escama, de bicho
      Mas isso não é uma exclusividade minha. Se pe-     é pele. Eles jogam os resíduos no meio ambiente.
      garmos os ícones mais altos da gastronomia, ve-    É algo intrínseco à cultura dessas populações.



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Salada de abobrinha. D.O.M. Restaurante


         Porém, como são mandadas cestas básicas          direção oposta, como é a presença de
   cheias de plástico e alumínio, quando se anda          nossa culinária em mesas no exterior?
   pela Amazônia, por lugares extremamente remo-                 Alex: A nossa maior força no exterior é ser
   tos, depara-se com sacos plásticos e latinhas. Eu      brasileiro. Acho que há grande diferença entre
   acho que essa é uma agressão que nós, urbanos,         ser um chef do Brasil e ser um chef do Equador ou
   fazemos ao meio ambiente, sem consciência da           da Venezuela, do Gabão ou do Timor Leste. Nós
   extensão do problema. Então, creio que a cesta         carregamos um carisma que o País já tem, o que
   básica deveria ser revista não só por ingredien-       é algo muito positivo.
   tes, mas também por embalagens, levando-se em                 Outra força é a diversidade das frutas, que
   consideração as regiões.                               são grandes vedetes. Quando estamos no exte-
                                                          rior e já utilizamos essas duas forças maiores
   TB: O senhor já comentou a                             para mostrar que somos um país tropical rico
   influência estrangeira na cozinha                      em sabores, abrimos espaço para demonstrar o
   brasileira. Pensando nesse fluxo em                    potencial da tapioca, das farinhas, das ervas, dos
                                                          tubérculos, dos palmitos, de toda a extensão dos



Sabores do Brasil                                                                                              135
peixes, das carnes. Essa exuberância contagia as    franceses uma liderança na cozinha. Então, nos-
      pessoas.                                            sa mão-de-obra, sobretudo a mais jovem, ainda
            Pensando na alta gastronomia, segundo         presta mais atenção em outras cozinhas do que
      minha experiência, algo que inebria todo chef no    na nossa. Mas acredito que isso é um processo.
      exterior, é o tucupi, tão complexo quanto o curry   Estamos em uma fase de transição. Nos próxi-
      indiano. O produto é uma grande apresentação        mos anos, podem ocorrer grandes mudanças no
      de nossa cozinha, pois é tanto um tempero quan-     cenário.
      to um conservante, multifacetado não apenas no
      sabor, mas também na aplicação.                     TB: Apesar do prestígio da
                                                          alta cozinha estrangeira, o seu
      TB: Quanto a suas raízes, nossa                     restaurante, o D.O.M., especializado
      cozinha se parece com outras ou                     em cozinha brasileira, foi o único
      temos uma culinária muito peculiar?                 do Brasil a ser incluído na lista da
            Alex: Muito peculiar. Há cozinhas na faixa    revista inglesa Restaurant dos 50
      tropical que possuem ingredientes comuns: no        melhores do mundo. Qual é o caminho
      Caribe, encontramos algum tipo de mandioqui-        para a consolidação da gastronomia
      nha ou de feijão; na Ásia, na Tailândia, leite de   brasileira?
      coco, coentro, pimenta. Embora existam muitos              Alex: A gastronomia é a arte de colocar um
      ingredientes comuns nas cozinhas tropicais, acho    ingrediente ou uma receita no seu melhor momen-
      que a nossa maneira de fazer é diferente.           to. Nós temos, no Brasil, produtos e receitas para
                                                          executar a gastronomia no sentido mais amplo da
      TB: E por que ainda não somos uma                   palavra. Algo também importante a ser ressalta-
      potência culinária internacional?                   do sobre a gastronomia é que ela não está restrita
            Alex: Acho que esse é um impasse próprio      a ingredientes caros ou a processos difíceis.
      de países jovens. Para o Brasil, não basta haver           Vou dar um exemplo do que entendo por
      um bom trabalho sobre cozinha. Isso é muito         gastronomia. Se vamos à Bahia, encontramos dez
      pouco. Na França, na Itália, nos países de refe-    barraquinhas em uma praia. Uma delas faz peixe
      rência, não apenas um bom chef ou uma boa pes-      frito melhor do que as outras. Isso acontece devi-
      quisa, mas vários foram necessários para reafir-    do à execução adequada de uma série de etapas.
      mar a qualidade. Trata-se de um processo que já     Provavelmente, o dono dessa barraca levantou
      está em andamento no Brasil.                        cedo, limpou o peixe corretamente e acondicio-
                                                          nou-o em uma geladeira. Depois, aqueceu o óleo
      TB: Por que a alta gastronomia                      na temperatura certa, temperou bem o peixe,
      estrangeira, sobretudo a francesa, é                fritou durante o tempo correto, colocou em um
      tão prestigiada no Brasil?                          bom prato, acompanhou de bons ingredientes
             Alex: Acho que, por um lado, isso é ain-     e outra pessoa tirou aquele prato da cozinha e
      da um traço do Brasil colônia, algo natural. Por    serviu na mesa do cliente. Então, um prato não
      outro lado, o fato de a gastronomia na França       começa nem termina na cozinha. Na verdade,
      ter saído na frente de todo mundo confere aos



136                                                                                     Textos do Brasil . Nº 13
começa na escolha do ingrediente e termina no                     Um prato não começa
   prato vazio na frente do cliente satisfeito.
          Para mim, isso é gastronomia. Ela engloba                 nem termina cozinha.
   um processo com uma série de etapas que preci-
                                                                    Na verdade, começa na
   sa, no Brasil, ser melhorado de modo geral.
                                                                    escolha do ingrediente e
   TB: É preciso ser um bom cozinheiro
                                                                    termina no prato vazio
   antes de ser um chef?
          Alex: Com absoluta certeza! Vou dar um                      na frente do cliente
   exemplo. Um professor doutor em medicina
                                                                           satisfeito.
   estudou na faculdade, fez  anos de residência
   para, então, tornar-se médico. Posteriormente, o
   sucessivo estudo e, mais importante, o exercício           tornei o que sou de um dia para outro. Por neces-
   da profissão foi dando a ele o doutorado e pro-            sidade, sujeitei-me a fazer trabalhos menores e
   fessorado. Eu acho que, na cozinha, não é dife-            fui-me apaixonando pela culinária.
   rente: por mais informação teórica que se possua,                 Então, quando voltei ao nosso país, não
   é a prática que vai lapidar a técnica.                     quis ser um brasileiro metido a francês, italiano,
          Nesse sentido, acredito que a cozinha italia-       belga ou qualquer outra nacionalidade. Quis ser
   na pode ser uma grande lição para a brasileira. A          brasileiro, pois acreditei no meu país e na minha
   mamma cozinha muito bem, mas, quando a nona                cultura, nos sabores que conheci desde a minha
   cozinha, a família toda se ajoelha para comer. A           infância e que julgava tão bons quanto os que eu
   culinária italiana é uma culinária caseira. A mam-         conheci no exterior. Esse passado, com absoluta
   ma cozinha bem, porque faz isso todo dia, e a nona         certeza, me ajuda no trabalho que desenvolvo
   cozinha melhor do que todo mundo, porque fez               atualmente.
   isso a vida inteira. Por isso, a culinária italiana dei-
   xou um grande legado para nós: as nossas receitas          TB: Todo mundo pode ter acesso à
   patrimoniais são muito boas, mas falta essa devo-          gastronomia?
   ção à cozinha, à seleção de produtos, ao serviço, ao             Alex: O exemplo que dei do peixe frito na
   cozimento, à tudo que envolve uma boa refeição.            Bahia se aplica a todas as circunstâncias: no Mer-
                                                              cado Ver-o-Peso, com açaí; em São Paulo, com
   TB: Como sua experiência pessoal                           pastéis de feira; no Rio de Janeiro, com comida
   influenciou essa devoção que o                             de boteco; no Ceará, com carne-de-sol ou caran-
   senhor manifesta pela cozinha e seu                        guejada; na Bahia, com moqueca.
   interesse pela alta gastronomia?                                 Enfim, as nossas cozinhas de base são fa-
          Alex: Por ter sido um punk, me sujeitei a la-       mosas não porque são simpáticas, mas porque
   var louça, para, depois, aprender a picar. Apren-          são boas. É possível transformá-las em alta gas-
   di a lavar a panela, para, depois, cozinhar nela e         tronomia. Vamos lembrar que um croque-mon-
   assim por diante. Foi um processo de aprendi-              sieur, um crêpe suzette ou um penne arrabiata são,
   zagem. Eu não nasci o chef Alex Atala, nem me              na verdade, primos de receitas cotidianas.



Sabores do Brasil                                                                                              137

Brasilidades sabores

  • 1.
    Entrevista: Alex Atala O criativo e irrequieto Alex Atala é conheci- do, no Brasil e no exterior, por explorar, a partir de bases clássicas e técnicas atuais, as possibilidades gastronômicas dos ingredientes nacionais. Atala iniciou sua carreira aos 19 anos na Bélgica, depois partiu para novas empreitadas em cozinhas da França e da Itália. Em 1994 retor- nou a São Paulo e, no final de 1999, inaugurou o restaurante D.O.M., que, entre outros prêmios, valeu-lhe, por duas vezes (2006 e 2007), a indica- ção entre os 50 melhores restaurantes do mundo pela publicação Restaurant Magazine. Além de cozinhar, Atala também é estudioso da gastrono- mia brasileira, tendo publicado diversos textos em que defende a valorização de ingredientes nacionais para a culinária de alto padrão. Em entrevista a Textos do Brasil, o chef comenta sua percepção a respeito da formação e das tendên- cias atuais da culinária brasileira. Sabores do Brasil 129
  • 2.
    TB: O Brasilé um país imenso que o Brasil é essa colcha de apresenta grande diversidade cultural; ainda assim, é possível retalhos de culturas, afirmar que existe uma culinária que, no final, são particular que o identifique? Alex: Eu acho que é preciso diferenciar o respeitadas e unificadas que é regional do que é típico e do que é folcló- de uma forma singular rico. A maior representação do Brasil, em âmbito mais abrangente, talvez seja a feijoada, que pos- e positiva. sui tanto uma raiz negra quanto uma indígena; é um elemento presente na mesa do brasileiro, um essas são apenas as bases. O arroz com feijão não traço efetivamente nacional. Creio que se pode encerra toda a culinária brasileira. dizer que esse prato e a caipirinha são represen- tações folclóricas da cultura brasileira. TB: O fato de ir a um restaurante à Há, por outro lado, os pratos típicos, as quilo, algo muito comum no dia-a- cozinhas típicas. A influência da culinária portu- dia das pessoas que trabalham nas guesa, por exemplo, pode ser sentida tanto em grandes cidades, e lá encontrar arroz Minas quanto em Florianópolis, que possui uma com feijão, sushi, churrasco, massa, cozinha mais açoriana, com pratos muitos belos. etc. indica o que sobre a culinária A influência da culinária africana pode ser sen- brasileira? tida, de modo geral, no Nordeste. A Amazônia, Alex: Eu acho que isso reflete o que é, real- por sua vez, possui uma cozinha autóctone. Re- mente, o Brasil: essa colcha de retalhos de cultu- firo-me não apenas ao estado da Amazônia, mas ras, que, no final, são respeitadas e unificadas de a toda a região, com a diversidade e os microcli- uma forma singular e positiva. mas que vamos encontrar. Então, acho que é importante fazer a seção TB: Se, conforme expresso em do que é folclórico, do que é típico e do que é Fisiologia do Gosto, “somos o que regional. Isso dá idéia da riqueza da nossa cul- comemos” pode-se dizer que a tura: não só de sua dimensão continental, mas existência de uma culinária brasileira também de sua diversidade. é corolário da própria existência de um povo brasileiro, apesar de toda a TB: A unidade de nossa culinária, diversidade interior? portanto, vai além do feijão com Alex: Vamos pensar no seguinte: a alimen- arroz? tação é trilha de estudo de todas a ciências huma- Alex: Uma vez que é grande a nossa rique- nas. Então, dá para dizer, sem dúvida alguma, za, acho que o arroz e o feijão formam a receita que somos sim o que comemos. Não discuto isso. mais consumida. Acredito, também, que a man- Estou completamente de acordo com essa afir- dioca seja o eixo central da culinária brasileira, mação e acho que reforça tudo o que venho fa- presente da mesa cabocla à grande mesa. Mas lando: essa força que o Brasil tem; essa abertura 130 Textos do Brasil . Nº 13
  • 3.
    D.O.M. Restaurante para outras culturas, sem perder a originalidade. Brasil pela qual demonstra potencial para a culi- Isso reforça, mais uma vez, esse prisma da cultu- nária empregada internacionalmente. ra que temos. TB: Se o senhor acredita na existência TB: Apesar da diversidade das de uma culinária legitimamente culturas que formam o Brasil, a brasileira, aberta a outras culturas, culinária, sobretudo a comida do mas sem descaracterizar-se, por dia-a-dia, apresenta considerável que está publicando um livro com o homogeneidade. Assim, parece objetivo de dar maior publicidade aos acertado dizer que o que define a ingredientes, processos e receitas da culinária brasileira é a assimilação, cozinha da Amazônia? não sua origem? Alex: No primeiro momento, quando os Alex: De certa forma, sim, é possível con- europeus chegaram, tiveram de tropicalizar suas cordar com a idéia de que o Brasil suplanta as receitas. O Brasil era outra realidade, muito po- culturas estrangeiras que para cá vieram. Existe tente. Assim, nossa cultura suplantou, muitas ve- uma customização da cultura estrangeira à loca- zes, a cultura estrangeira de modo geral. No caso lidade. Então, essa é uma das primeiras forças do do meu trabalho, escrevi o livro para valorizar a culinária brasileira. Sabores do Brasil 131
  • 4.
    O arroz comfeijão, por exemplo, é um pra- Alex: Eu acho que a nova sociedade pro- to típico de um país colonizado jovem. Ainda põe a experimentação. Os hábitos são influencia- que o homem coma desde antes de aprender a dos por isso. Há, também, o traço do Brasil, um comunicar-se e que a alimentação seja uma ativi- país tão multicultural, o que ajuda muito nesse dade vital, a gastronomia tem apenas 200 anos. sentido. É divertido imaginar que, há 20 ou 30 Por ser um país jovem e receber influência de anos, a comida japonesa gerava ojeriza e, hoje, várias culturas, o Brasil acaba desprestigiando a muitas crianças de 8 a 10 anos preferem um sushi cozinha mais caipira, mais cabocla, quando o ato bar ao McDonald’s. de se alimentar adquire certo status. Isso mostra que o paladar pode ser desen- Eu, pessoalmente, não consigo achar que volvido. Se exposto à variedade desde a primeira um ovo é menos importante do que uma trufa. infância, o horizonte de paladar tende a alcançar Então, sou um militante de uma cozinha de ter- um amplitude muito grande. Nós somos, assim, roir, de uma cozinha caipira, de uma cozinha pa- muito privilegiados por sermos um país tão rico trimonial brasileira, porque o que levou a França, em ingredientes e em cultura. Itália, Espanha e o Japão aos altos patamares da Essa abertura à cozinha internacional, por cozinha foi o orgulho da cultura regional, o orgu- outro lado, é conseqüência de sermos uma cultu- lho do caipira, por assim dizer. ra jovem, aberta a múltiplas influências. Na França, um chef é tão respeitado porque ele faz comida francesa, para pessoas francesas, TB: Você não acha que esse tendência, que comeram comida francesa a vida inteira. É em contrapartida, não poderia ser um a qualidade do trabalho que confere a ele esse sintoma de que a nossa cozinha deixou status. No Japão, um sushiman é honorado pelo de ter raiz, de que perdeu um pouco de mesmo motivo. Acredito, portanto, que um bom contato com a própria terra? cozinheiro brasileiro tem de demostrar essa mes- Alex: Embora a culinária regional tenha ma habilidade com a nossa cultura. perdido algo de seu brilho, acho que esse pro- A diferença entre o bom, o muito bom e o cesso faz parte de um ciclo. Existe, hoje, um mo- excepcional vem com repertório. Para nós brasi- vimento que não é meu, mas de pessoas como leiros, é difícil julgar trufas, caviares e até mesmo Paulo Martins, em Belém, ou César Santos, em cogumelos e molhos complicados; mas, com cer- Olinda. São profissionais do País inteiro, de norte teza, todo brasileiro é expert em arroz com feijão. a sul, militando por cozinhas regionais com mui- ta propriedade. Creio que esse retorno a nossa TB: Por que, ao irmos a um origem faz parte do processo de amadurecimen- restaurante, estamos mais perto do to de nossa cultura. outro lado do Atlântico – ou mesmo Essas pessoas, diferentemente de mim, que do Pacífico – do que de nosso interior? estou fazendo alta gastronomia, defendem suas Por que é mais fácil comer comida cozinhas regionais, suas origens, o que eu acho mexicana, japonesa, chinesa, egípcia muito bonito. O mais importante, sem dúvida, é e até javanesa do que manauara em a valorização da alimentação do Brasil. muitas capitais do País? 132 Textos do Brasil . Nº 13
  • 5.
    Sorbet de jabuticaba.D.O.M. Restaurante TB: Nesse contexto, é ainda possível Pensando em Amazônia, há discussões so- identificar, claramente, as cozinhas bre a qualidade do tucupi de Manaus e do de Be- regionais típicas? lém; do açaí de Manaus e do de Belém. Procura- Alex: Eu acho que há grandes interseções. se saber se a castanha é do Pará ou do Acre. São Em Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, existe uma discussões que, acredito, perdem a legitimidade, vertente portuguesa comum a todos. Então, às uma vez que começam a buscar uma melhor re- vezes, você vai ver discussões que acho ilógicas, gião e se esquecem do sentido de cidadania, que como a diferença entre um tutu paulista e um mi- parte do indivíduo para o coletivo. neiro. Discute-se algo que talvez não tenha tan- ta importância, se imaginamos que o bioma é o TB: A cozinha regional engloba mesmo. não apenas pratos, mas também A cultura humana não respeita muito di- ingredientes típicos. Não está cada visões geográficas, na medida em que está muito vez mais difícil ter acesso a esses, à adaptada ao bioma. Importa saber se se trata de medida que a produção e o consumo se uma mata atlântica, de um cerrado, ou de uma massificam? floresta equatorial. Sabores do Brasil 133
  • 6.
    A minha relação remos a força do elo com o ambiente. Pensemos no caviar, na trufa. O homem ainda tem de ir à com a natureza caça de trufas, bem como à pesca do esturjão sel- vagem para conseguir o melhor caviar. É incrível manifesta-se como como um dos mais altos patamares da cultura uma característica humana está intrinsecamente ligado à natureza. Acredito, também, que a alimentação pode muito forte de minha ser não apenas uma forma de conservação do personalidade; é meio ambiente, como também uma ótima alter- nativa para se gerarem recursos para as popula- uma herança de ções das regiões ribeirinhas. É importante agre- família. Mas isso não gar valor para a floresta. Ela tem de valer mais em pé do que deitada. é uma exclusividade minha. Se pegarmos TB: Em relação à cozinha tradicional, dados estatísticos apontam uma os ícones mais altos da redução no consumo de feijão com gastronomia, veremos arroz. O que isso significa para nossa culinária? a força do elo com o Alex: A maior concentração populacional ambiente. do Brasil ainda está nas metrópoles. Essa ali- mentação em larga escala, a produção de comida industrializada, é um grande facilitador do dia- Alex: Acredito que, de alguma forma, sim. a-dia, mas bastante nociva às culturas regionais, Não poderia dizer que não. Por outro lado, nós, principalmente quando se pensa em pratos típi- brasileiros, principalmente os produtores e os cos do sertão ou de culturas menores limitadas extrativistas, precisamos melhorar nossa relação a microrregiões. Nesse sentido, penso que as in- com os ingredientes de base. Aqui, os peixes são dústrias de alimentação são mais perigosas que maltratados, bem como as hortaliças colhidas no as redes de fast-food, que são um fênomeno urba- cinturão urbano. Então, acho que pecamos, mui- no. A salsicha, os enlatados, por outro lado, são o tas vezes, no momento de respeitar a natureza, que chega, realmente, às regiões carentes. que é tão generosa conosco e é agredida pelos Eu tenho um sonho. Não vou dizer que é próprios agricultores e pescadores que tiram o um projeto, mas sim um sonho de melhorar a ces- sustento dela. ta básica, não apenas como produto de base, mas A minha relação com a natureza mani- também como embalagem. É importante lembrar festa-se como uma característica muito forte de que, para o índio, o ribeirinho, o caboclo, embala- minha personalidade; é uma herança de família. gem de fruta é casca, de peixe é escama, de bicho Mas isso não é uma exclusividade minha. Se pe- é pele. Eles jogam os resíduos no meio ambiente. garmos os ícones mais altos da gastronomia, ve- É algo intrínseco à cultura dessas populações. 134 Textos do Brasil . Nº 13
  • 7.
    Salada de abobrinha.D.O.M. Restaurante Porém, como são mandadas cestas básicas direção oposta, como é a presença de cheias de plástico e alumínio, quando se anda nossa culinária em mesas no exterior? pela Amazônia, por lugares extremamente remo- Alex: A nossa maior força no exterior é ser tos, depara-se com sacos plásticos e latinhas. Eu brasileiro. Acho que há grande diferença entre acho que essa é uma agressão que nós, urbanos, ser um chef do Brasil e ser um chef do Equador ou fazemos ao meio ambiente, sem consciência da da Venezuela, do Gabão ou do Timor Leste. Nós extensão do problema. Então, creio que a cesta carregamos um carisma que o País já tem, o que básica deveria ser revista não só por ingredien- é algo muito positivo. tes, mas também por embalagens, levando-se em Outra força é a diversidade das frutas, que consideração as regiões. são grandes vedetes. Quando estamos no exte- rior e já utilizamos essas duas forças maiores TB: O senhor já comentou a para mostrar que somos um país tropical rico influência estrangeira na cozinha em sabores, abrimos espaço para demonstrar o brasileira. Pensando nesse fluxo em potencial da tapioca, das farinhas, das ervas, dos tubérculos, dos palmitos, de toda a extensão dos Sabores do Brasil 135
  • 8.
    peixes, das carnes.Essa exuberância contagia as franceses uma liderança na cozinha. Então, nos- pessoas. sa mão-de-obra, sobretudo a mais jovem, ainda Pensando na alta gastronomia, segundo presta mais atenção em outras cozinhas do que minha experiência, algo que inebria todo chef no na nossa. Mas acredito que isso é um processo. exterior, é o tucupi, tão complexo quanto o curry Estamos em uma fase de transição. Nos próxi- indiano. O produto é uma grande apresentação mos anos, podem ocorrer grandes mudanças no de nossa cozinha, pois é tanto um tempero quan- cenário. to um conservante, multifacetado não apenas no sabor, mas também na aplicação. TB: Apesar do prestígio da alta cozinha estrangeira, o seu TB: Quanto a suas raízes, nossa restaurante, o D.O.M., especializado cozinha se parece com outras ou em cozinha brasileira, foi o único temos uma culinária muito peculiar? do Brasil a ser incluído na lista da Alex: Muito peculiar. Há cozinhas na faixa revista inglesa Restaurant dos 50 tropical que possuem ingredientes comuns: no melhores do mundo. Qual é o caminho Caribe, encontramos algum tipo de mandioqui- para a consolidação da gastronomia nha ou de feijão; na Ásia, na Tailândia, leite de brasileira? coco, coentro, pimenta. Embora existam muitos Alex: A gastronomia é a arte de colocar um ingredientes comuns nas cozinhas tropicais, acho ingrediente ou uma receita no seu melhor momen- que a nossa maneira de fazer é diferente. to. Nós temos, no Brasil, produtos e receitas para executar a gastronomia no sentido mais amplo da TB: E por que ainda não somos uma palavra. Algo também importante a ser ressalta- potência culinária internacional? do sobre a gastronomia é que ela não está restrita Alex: Acho que esse é um impasse próprio a ingredientes caros ou a processos difíceis. de países jovens. Para o Brasil, não basta haver Vou dar um exemplo do que entendo por um bom trabalho sobre cozinha. Isso é muito gastronomia. Se vamos à Bahia, encontramos dez pouco. Na França, na Itália, nos países de refe- barraquinhas em uma praia. Uma delas faz peixe rência, não apenas um bom chef ou uma boa pes- frito melhor do que as outras. Isso acontece devi- quisa, mas vários foram necessários para reafir- do à execução adequada de uma série de etapas. mar a qualidade. Trata-se de um processo que já Provavelmente, o dono dessa barraca levantou está em andamento no Brasil. cedo, limpou o peixe corretamente e acondicio- nou-o em uma geladeira. Depois, aqueceu o óleo TB: Por que a alta gastronomia na temperatura certa, temperou bem o peixe, estrangeira, sobretudo a francesa, é fritou durante o tempo correto, colocou em um tão prestigiada no Brasil? bom prato, acompanhou de bons ingredientes Alex: Acho que, por um lado, isso é ain- e outra pessoa tirou aquele prato da cozinha e da um traço do Brasil colônia, algo natural. Por serviu na mesa do cliente. Então, um prato não outro lado, o fato de a gastronomia na França começa nem termina na cozinha. Na verdade, ter saído na frente de todo mundo confere aos 136 Textos do Brasil . Nº 13
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    começa na escolhado ingrediente e termina no Um prato não começa prato vazio na frente do cliente satisfeito. Para mim, isso é gastronomia. Ela engloba nem termina cozinha. um processo com uma série de etapas que preci- Na verdade, começa na sa, no Brasil, ser melhorado de modo geral. escolha do ingrediente e TB: É preciso ser um bom cozinheiro termina no prato vazio antes de ser um chef? Alex: Com absoluta certeza! Vou dar um na frente do cliente exemplo. Um professor doutor em medicina satisfeito. estudou na faculdade, fez anos de residência para, então, tornar-se médico. Posteriormente, o sucessivo estudo e, mais importante, o exercício tornei o que sou de um dia para outro. Por neces- da profissão foi dando a ele o doutorado e pro- sidade, sujeitei-me a fazer trabalhos menores e fessorado. Eu acho que, na cozinha, não é dife- fui-me apaixonando pela culinária. rente: por mais informação teórica que se possua, Então, quando voltei ao nosso país, não é a prática que vai lapidar a técnica. quis ser um brasileiro metido a francês, italiano, Nesse sentido, acredito que a cozinha italia- belga ou qualquer outra nacionalidade. Quis ser na pode ser uma grande lição para a brasileira. A brasileiro, pois acreditei no meu país e na minha mamma cozinha muito bem, mas, quando a nona cultura, nos sabores que conheci desde a minha cozinha, a família toda se ajoelha para comer. A infância e que julgava tão bons quanto os que eu culinária italiana é uma culinária caseira. A mam- conheci no exterior. Esse passado, com absoluta ma cozinha bem, porque faz isso todo dia, e a nona certeza, me ajuda no trabalho que desenvolvo cozinha melhor do que todo mundo, porque fez atualmente. isso a vida inteira. Por isso, a culinária italiana dei- xou um grande legado para nós: as nossas receitas TB: Todo mundo pode ter acesso à patrimoniais são muito boas, mas falta essa devo- gastronomia? ção à cozinha, à seleção de produtos, ao serviço, ao Alex: O exemplo que dei do peixe frito na cozimento, à tudo que envolve uma boa refeição. Bahia se aplica a todas as circunstâncias: no Mer- cado Ver-o-Peso, com açaí; em São Paulo, com TB: Como sua experiência pessoal pastéis de feira; no Rio de Janeiro, com comida influenciou essa devoção que o de boteco; no Ceará, com carne-de-sol ou caran- senhor manifesta pela cozinha e seu guejada; na Bahia, com moqueca. interesse pela alta gastronomia? Enfim, as nossas cozinhas de base são fa- Alex: Por ter sido um punk, me sujeitei a la- mosas não porque são simpáticas, mas porque var louça, para, depois, aprender a picar. Apren- são boas. É possível transformá-las em alta gas- di a lavar a panela, para, depois, cozinhar nela e tronomia. Vamos lembrar que um croque-mon- assim por diante. Foi um processo de aprendi- sieur, um crêpe suzette ou um penne arrabiata são, zagem. Eu não nasci o chef Alex Atala, nem me na verdade, primos de receitas cotidianas. Sabores do Brasil 137