Vivendo na pele: a observação  como tática de investigação Agência Noticiosa 1   Professor mestre Artur Araujo (araujofamilia@gmail.com)
Antes, alguns lembretes Na primeira aula discutimos como será o curso e os critérios da avaliação. 8 de abril de 2008 – último dia para entrega da  primeira  reportagem. Faltam 7 dias. 15 de abril de 2008 - último dia para entrega da  segunda  reportagem. Faltam 14 dias. 22 de abril de 2008 - último dia para entrega da  terceira  reportagem. Faltam 21 dias. 29 de abril de 2008 - último dia para entrega da  quarta  reportagem. Faltam 28 dias. Prova teórica – 29 de abril . Faltam 28 dias. Trabalho escrito (seminário) – 13 de maio . Faltam 42 dias. Os alunos precisam se inscrever na lista de discussão do curso.
Recapitulando... Na aula anterior, discutimos a questão da redação jornalística. Vimos a questão da estrutura do texto e os riscos que falhas no processo podem causar ao trabalho jornalístico.
A observação como tática investigativa A observação, do mesmo modo que a entrevista e a pesquisa documental, é um importante recurso para a investigação jornalística. Ver e relatar são, das táticas de trabalho jornalístico, as mais difíceis, mas são também as ideais para uma investigação apropriada.
O que dizia  Tobias Peucer (1690) “ Cabe ao intelecto o conhecimento das coisas que serão registradas nos relatos públicos. Estas são obtidas por inspeção própria ( autopsia ) quando o sujeito é espectador ( autóptes ) dos acontecimentos, ou por transmissão, quando uns explicam aos outros os fatos que presenciaram. E nisso qualquer pessoa concordará sem nenhum problema que é merecedor de mais credibilidade o testemunho ‘presencial’ ( autóptes ) que o receptor de uma transmissão de outro.”
Definindo conceitos A observação, certamente, se constitui em um desafio para o profissional de imprensa. Não basta, contudo, “ver”: é preciso captar, naquilo que se manifesta exteriormente, indícios de sentido, de transcendência da simples aparência. Não basta também “ver” e empreender um esforço de interpretação: é preciso definir os recursos apropriados para a investigação.
O que diz o Manual da Folha Antes de tudo, o repórter deve procurar se informar sobre o assunto que vai cobrir.  No local, deve observar e registrar detalhes do ambiente e dos personagens e ter especial atenção ao anotar números e nomes . A qualidade do texto final depende em larga medida do rigor na apuração dos fatos e da elaboração de um roteiro que divida os temas e os encadeie ao longo do texto.  Fonte: Manual da Folha de S. Paulo
O que diz o Manual  do Estadão - 1 Preocupe-se em incluir no texto  detalhes  adicionais  que ajudem o leitor a compreender melhor o fato e a situá-lo : local, ambiente, antecedentes, situações semelhantes, previsões que se confirmem, advertências anteriores, etc.
O que diz o Manual  do Estadão - 2 Informações paralelas a um fato contribuem para enriquecer a sua descrição. Se o presidente dorme durante uma conferência, isso é notícia; idem se ele tira o sapato, se fica conversando enquanto alguém discursa, se faz trejeitos, etc. Trata-se de detalhes que quebram a monotonia de coberturas muito áridas, como as oficiais, especialmente.  Registre no texto as atitudes ou reações das pessoas, desde que significativas: mostre se elas estão nervosas, agitadas, fumando um cigarro atrás do outro ou calmas em excesso, não se deixando abalar por nada . Em matéria de ambiente, essas indicações permitem que o leitor saiba como os personagens se comportavam no momento da entrevista ou do acontecimento.
Para além da própria visualidade Para compreender além da pura exterioridade, é preciso ao repórter: Formação (treinamento) Contexto Estranhamento
Formação (treinamento) A observação implica uma certa capacitação do repórter, que pode ser sintetizada nos seguintes itens: Problematização da pauta Sistematização do apurado Checagens extras
Problematização – 1 A problematização é, como o próprio nome sinaliza, a questão da pauta. Nesse caso, a pauta deve conter algo que tenha uma manifestação externa evidente, uma manifestação externa que, por si só, explique ou ajude a explicar o que será contado.
O que diz o Manual do Estado Os sentimentos e emoções das pessoas devem ser registrados com a devida cautela para que o texto não se torne piegas. À exceção dos estados mais aparentes (choro acesso de loucura e outros), procure traduzir agitação, calma ou nervosismo da pessoa descrevendo só atitudes.  Agitando sem cessar as mãos Fumando um cigarro atrás do outro Piscando ininterruptamente Fazendo gestos de impaciência Mexendo-se incessantemente na cadeira Falando de forma pausada Cruzando e descruzando as pernas Olhando a todo momento no relógio
A descrição nos poupa de interpretações forçadas Enfim, mostre como a pessoa se comportava em vez de procurar definir suas atitudes com palavras. Nada, por exemplo, autoriza a frase  o jogador, nervoso, errou o chute . Pode ter errado simplesmente porque tocou mal na bola. Ou  encerrando a entrevista mais cedo porque aparentemente não gostou das perguntas . Quem garante que foi por isso? Fonte: Manual do Estadão
Problematização – 2 Uma problematização bem construída, por exemplo, pode, de acordo com o contexto, eliminar o emprego da observação. Uma pauta sobre maus-tratos à população tem grande chance de lançar mão dos recursos da observação para a apuração.  Uma pauta sobre o aumento da inflação, porém, tem menos chance de permitir observação (a não ser que o repórter apure, por dias ou semanas, a evolução dos preços, o que seria pouco viável nos dias de hoje).
Obra-prima de problematização bem-feita
 
 
Sistematização do apurado Definida a pauta, o problema a ser investigado, cabe ao profissional reunir o maior número possível de indícios observáveis. Cabe a ele também o esforço de fazer com que esses indícios tenham um contexto que permitam uma interpretação, senão conclusiva, que pelo menos ajudem a apontar informações que estejam além do óbvio daquilo que é “visto”.
O que diz o Manual da Folha Um entrevistado pode fazer declaração a jornalista por brincadeira, que se for reveladora da personalidade do entrevistado deve ser relatada ao leitor. Nesse caso, o texto deve explicar o contexto da declaração, deixando claro que se trata de afirmação jocosa. O procedimento também se aplica a lapsos do entrevistado e a declarações irônicas.
Uma “brincadeira” famosa
Outra recomendação da Folha Se o entrevistado comete um lapso significativo, o jornalista pode registrá-lo no texto. Isso pode ajudar o leitor a entender melhor a notícia ou a personalidade do entrevistado. Um ato falho pode ser mais revelador que uma declaração pensada. Se o entrevistado pedir retificação de um lapso revelador, esse pedido pode ser registrado. Lapsos inexpressivos não merecem divulgação.
Checagens extras Nem tudo parece o que é. O profissional de imprensa deve sempre verificar, por mais de um canal, por mais de um método de investigação, os dados que apurou. São necessárias também entrevistas – inclusive se for o caso com os observados – e uma pesquisa documental para se certificar da validade do material apurado, principalmente se os indícios apontarem algo grave.
Nem tudo que parece, é
Técnicas possíveis Observação simples Observação sistemática Observação participativa (infiltração)
Técnicas para investigar Há mais de uma maneira de registrar o objeto de suas investigações. Vamos ver cada uma e discutir brevemente suas características e problemas. Gravação, filmagem e foto Anotação Memória - Vivência
Como reduzir margem de erro? Checagem extra. Contextualização – aquilo que você viu tem o mesmo significado para os outros? Ouvindo os protagonistas após a apuração.
Ressalva Às vezes, a observação antecede, pelas circunstâncias e a própria dinâmica dos acontecimentos, método e problematização. Cabe ao profissional, identificando o valor-notícia do que presencia, registrar, com os meios que tiver (gravador, câmera, bloco de notas ou, ao menos, a memória) a cena para contribuir no posterior trabalho de investigação jornalística. A mesma recomendação vale para materiais disponibilizados na internet ou enviados para a redação.
Lembram-se?
O tema da próxima aula expositiva: a pesquisa documental como tática de investigação
Citação do dia  “ Não vamos esmorecer na nossa crença de que jornalismo é algo que se faz com espírito crítico, fiscalizando o poder.” Mino Carta  (* 1933), jornalista italiano naturalizado brasileiro

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    Vivendo na pele:a observação como tática de investigação Agência Noticiosa 1 Professor mestre Artur Araujo (araujofamilia@gmail.com)
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    Antes, alguns lembretesNa primeira aula discutimos como será o curso e os critérios da avaliação. 8 de abril de 2008 – último dia para entrega da primeira reportagem. Faltam 7 dias. 15 de abril de 2008 - último dia para entrega da segunda reportagem. Faltam 14 dias. 22 de abril de 2008 - último dia para entrega da terceira reportagem. Faltam 21 dias. 29 de abril de 2008 - último dia para entrega da quarta reportagem. Faltam 28 dias. Prova teórica – 29 de abril . Faltam 28 dias. Trabalho escrito (seminário) – 13 de maio . Faltam 42 dias. Os alunos precisam se inscrever na lista de discussão do curso.
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    Recapitulando... Na aulaanterior, discutimos a questão da redação jornalística. Vimos a questão da estrutura do texto e os riscos que falhas no processo podem causar ao trabalho jornalístico.
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    A observação comotática investigativa A observação, do mesmo modo que a entrevista e a pesquisa documental, é um importante recurso para a investigação jornalística. Ver e relatar são, das táticas de trabalho jornalístico, as mais difíceis, mas são também as ideais para uma investigação apropriada.
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    O que dizia Tobias Peucer (1690) “ Cabe ao intelecto o conhecimento das coisas que serão registradas nos relatos públicos. Estas são obtidas por inspeção própria ( autopsia ) quando o sujeito é espectador ( autóptes ) dos acontecimentos, ou por transmissão, quando uns explicam aos outros os fatos que presenciaram. E nisso qualquer pessoa concordará sem nenhum problema que é merecedor de mais credibilidade o testemunho ‘presencial’ ( autóptes ) que o receptor de uma transmissão de outro.”
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    Definindo conceitos Aobservação, certamente, se constitui em um desafio para o profissional de imprensa. Não basta, contudo, “ver”: é preciso captar, naquilo que se manifesta exteriormente, indícios de sentido, de transcendência da simples aparência. Não basta também “ver” e empreender um esforço de interpretação: é preciso definir os recursos apropriados para a investigação.
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    O que dizo Manual da Folha Antes de tudo, o repórter deve procurar se informar sobre o assunto que vai cobrir. No local, deve observar e registrar detalhes do ambiente e dos personagens e ter especial atenção ao anotar números e nomes . A qualidade do texto final depende em larga medida do rigor na apuração dos fatos e da elaboração de um roteiro que divida os temas e os encadeie ao longo do texto. Fonte: Manual da Folha de S. Paulo
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    O que dizo Manual do Estadão - 1 Preocupe-se em incluir no texto detalhes adicionais que ajudem o leitor a compreender melhor o fato e a situá-lo : local, ambiente, antecedentes, situações semelhantes, previsões que se confirmem, advertências anteriores, etc.
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    O que dizo Manual do Estadão - 2 Informações paralelas a um fato contribuem para enriquecer a sua descrição. Se o presidente dorme durante uma conferência, isso é notícia; idem se ele tira o sapato, se fica conversando enquanto alguém discursa, se faz trejeitos, etc. Trata-se de detalhes que quebram a monotonia de coberturas muito áridas, como as oficiais, especialmente. Registre no texto as atitudes ou reações das pessoas, desde que significativas: mostre se elas estão nervosas, agitadas, fumando um cigarro atrás do outro ou calmas em excesso, não se deixando abalar por nada . Em matéria de ambiente, essas indicações permitem que o leitor saiba como os personagens se comportavam no momento da entrevista ou do acontecimento.
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    Para além daprópria visualidade Para compreender além da pura exterioridade, é preciso ao repórter: Formação (treinamento) Contexto Estranhamento
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    Formação (treinamento) Aobservação implica uma certa capacitação do repórter, que pode ser sintetizada nos seguintes itens: Problematização da pauta Sistematização do apurado Checagens extras
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    Problematização – 1A problematização é, como o próprio nome sinaliza, a questão da pauta. Nesse caso, a pauta deve conter algo que tenha uma manifestação externa evidente, uma manifestação externa que, por si só, explique ou ajude a explicar o que será contado.
  • 13.
    O que dizo Manual do Estado Os sentimentos e emoções das pessoas devem ser registrados com a devida cautela para que o texto não se torne piegas. À exceção dos estados mais aparentes (choro acesso de loucura e outros), procure traduzir agitação, calma ou nervosismo da pessoa descrevendo só atitudes. Agitando sem cessar as mãos Fumando um cigarro atrás do outro Piscando ininterruptamente Fazendo gestos de impaciência Mexendo-se incessantemente na cadeira Falando de forma pausada Cruzando e descruzando as pernas Olhando a todo momento no relógio
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    A descrição nospoupa de interpretações forçadas Enfim, mostre como a pessoa se comportava em vez de procurar definir suas atitudes com palavras. Nada, por exemplo, autoriza a frase o jogador, nervoso, errou o chute . Pode ter errado simplesmente porque tocou mal na bola. Ou encerrando a entrevista mais cedo porque aparentemente não gostou das perguntas . Quem garante que foi por isso? Fonte: Manual do Estadão
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    Problematização – 2Uma problematização bem construída, por exemplo, pode, de acordo com o contexto, eliminar o emprego da observação. Uma pauta sobre maus-tratos à população tem grande chance de lançar mão dos recursos da observação para a apuração. Uma pauta sobre o aumento da inflação, porém, tem menos chance de permitir observação (a não ser que o repórter apure, por dias ou semanas, a evolução dos preços, o que seria pouco viável nos dias de hoje).
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    Sistematização do apuradoDefinida a pauta, o problema a ser investigado, cabe ao profissional reunir o maior número possível de indícios observáveis. Cabe a ele também o esforço de fazer com que esses indícios tenham um contexto que permitam uma interpretação, senão conclusiva, que pelo menos ajudem a apontar informações que estejam além do óbvio daquilo que é “visto”.
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    O que dizo Manual da Folha Um entrevistado pode fazer declaração a jornalista por brincadeira, que se for reveladora da personalidade do entrevistado deve ser relatada ao leitor. Nesse caso, o texto deve explicar o contexto da declaração, deixando claro que se trata de afirmação jocosa. O procedimento também se aplica a lapsos do entrevistado e a declarações irônicas.
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    Outra recomendação daFolha Se o entrevistado comete um lapso significativo, o jornalista pode registrá-lo no texto. Isso pode ajudar o leitor a entender melhor a notícia ou a personalidade do entrevistado. Um ato falho pode ser mais revelador que uma declaração pensada. Se o entrevistado pedir retificação de um lapso revelador, esse pedido pode ser registrado. Lapsos inexpressivos não merecem divulgação.
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    Checagens extras Nemtudo parece o que é. O profissional de imprensa deve sempre verificar, por mais de um canal, por mais de um método de investigação, os dados que apurou. São necessárias também entrevistas – inclusive se for o caso com os observados – e uma pesquisa documental para se certificar da validade do material apurado, principalmente se os indícios apontarem algo grave.
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    Nem tudo queparece, é
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    Técnicas possíveis Observaçãosimples Observação sistemática Observação participativa (infiltração)
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    Técnicas para investigarHá mais de uma maneira de registrar o objeto de suas investigações. Vamos ver cada uma e discutir brevemente suas características e problemas. Gravação, filmagem e foto Anotação Memória - Vivência
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    Como reduzir margemde erro? Checagem extra. Contextualização – aquilo que você viu tem o mesmo significado para os outros? Ouvindo os protagonistas após a apuração.
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    Ressalva Às vezes,a observação antecede, pelas circunstâncias e a própria dinâmica dos acontecimentos, método e problematização. Cabe ao profissional, identificando o valor-notícia do que presencia, registrar, com os meios que tiver (gravador, câmera, bloco de notas ou, ao menos, a memória) a cena para contribuir no posterior trabalho de investigação jornalística. A mesma recomendação vale para materiais disponibilizados na internet ou enviados para a redação.
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    O tema dapróxima aula expositiva: a pesquisa documental como tática de investigação
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    Citação do dia “ Não vamos esmorecer na nossa crença de que jornalismo é algo que se faz com espírito crítico, fiscalizando o poder.” Mino Carta (* 1933), jornalista italiano naturalizado brasileiro