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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA
DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO
CAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO COITÉ
HÉLIO PEREIRA BARRETO
A CRÍTICA ORWELLIANA AOS REGIMES
TOTALITARISTAS
CONCEIÇÃO DO COITÉ
2012
HÉLIO PEREIRA BARRETO
A CRÍTICA ORWELLIANA AOS REGIMES
TOTALITARISTAS
Monografia apresentada à Universidade do Estado da
Bahia, Departamento de Educação, Campus XIV, como
requisito final à conclusão do Curso de Letras com
Habilitação em Língua Inglesa e Literaturas –
Licenciatura.
Prof. Dr. Luiz Antônio de Carvalho Valverde
CONCEIÇÃO DO COITÉ
2012
HÉLIO PEREIRA BARRETO
A CRÍTICA ORWELLIANA AOS REGIMES
TOTALITARISTAS
Monografia apresentada à Universidade do Estado da
Bahia, Departamento de Educação, Campus XIV, como
requisito final à conclusão do Curso de Letras com
Habilitação em Língua Inglesa e Literaturas –
Licenciatura.
Aprovada em: ___/___/___
Banca examinadora
_______________________________
Luiz Antonio de Carvalho Valverde – Orientadora
Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV
_________________________________________
Neila Maria Oliveira Santana
Universidade do Estado da Bahia – Campus VII
_________________________________________
Rita de Cássia Sacramento
Universidade do Estado da Bahia – Campus XIII
CONCEIÇÃO DO COITÉ
2012
Dedicamos este trabalho aos nossos familiares,
pela contribuição ao longo de todo o sempre,
aos amigos, pelas horas de conversa,
aos colegas, pela jornada,
e aos mestres inesquecíveis,
por toda a ajuda dada.
AGRADECIMENTOS
A Deus, em primeiro, lugar, por ter feito o homem um ser político e de pensamento livre,
capaz de refletir e criticar construtivamente desde suas criaturas até seu criador.
Aos meus familiares que com amor me trouxeram até aqui, apoiando sempre a jornada em
busca do conhecimento como forma de dignificação do homem.
Ao Profº Luiz Antonio De Carvalho Valverde, por ter acolhido o projeto e incentivado o
trabalho e pelas suas brilhantes contribuições ao longo dos anos nesse curso.
Aos meus professores, desde o primário até os dias de hoje, colaboradores essenciais na busca
do conhecimento, em especial à professora Flávia Aninger de Barros Rocha, por despertar em
mim o gosto profundo e intenso pela literatura, fosse por uma prazerosa leitura, ou uma por
uma didática de entendimento da vida.
Aos amigos, pela amizade, por estender a mão, apoiar e me confortar nos momentos de
angústias e dificuldades, em especial a Airan Monalize Reis Mendes, por puxar minha orelha
nos momentos de distração e pelos sucessivos avisos acerca das minhas obrigações.
Aos funcionários do Campus XIV pela disposição em me ajudar em todos os momentos.
Aos colegas, pelos momentos de alegria, convívio e apoio.
Welcome to your life
There's no turning back
Even while we sleep
We will find you
Acting on your best behavior
Turn your back on Mother Nature
Everybody wants to rule the world
It's my own design
It's my own remorse
Help me to decide
Help me make the most of
Freedom and of pleasure
Nothing ever lasts forever
Everybody wants to rule the world
There's a room where the light won't find you
Holding hands while the walls come tumbling down
When they do I'll be right behind you
So glad we've almost made it
So sad they had to fade it
Everybody wants to rule the world
I can't stand this indecision
Married with a lack of vision
Everybody wants to rule the world
Say that you'll never, never, never, never need it
One headline, why believe it?
Everybody wants to rule the world
Tears for Fears
RESUMO
Este trabalho teve como objetivo, desde o início, propor um retrato da crítica orwelliana aos
regimes totalitaristas da segunda metade do século XX através de uma análise sociológica e
política do romance 1984. Tendo como ponto inspirador do projeto a leitura dessa obra de
George Orwell, e o entendimento da sociedade “democrática” atual como um regime
totalitário maquiado, esse trabalho se valeu da pesquisa bibliográfica na busca por subsídios
teóricos acerca da literatura e sua relação com a realidade; do totalitarismo em seus aspectos
de discurso e prática, principalmente; do Neoliberalismo, entendido nesse trabalho como um
regime totalitarista, por promover uma dinâmica de alienação de massas. A essas três frentes
de pesquisa os principais teóricos consultados foram: Arendt (2006); Candido (2006); Betto
(2012); Goldmann (1990); Llosa (2007); Lukács (2000); Orwell (1946); Trotsky (2008). A
partir das leituras feitas pudemos traças um paralelo entre as relações de influência existentes
entre a Literatura, mais especificamente o romance, e a realidade. Essa linha de raciocínio
servindo, desse modo, para justificar o entendimento de um romance enquanto crítica a fatos
da vida real. A respeito do totalitarismo, os teóricos estudados, e os fatos históricos apontados
nos permitiram assinalar com clareza como se configuravam os regimes totalitários da
primeira metade do século XX. Por fim a análise acerca do Neoliberalismo serviu como ponto
chave no entendimento da atualidade do romance e a importância da leitura do mesmo para os
dias de hoje. O estudo detalhado do romance, a partir das elucidações teóricas, apontou, como
esperado, a narrativa como, também, uma crítica aos regimes totalitários.
Palavras-chave: Literatura. Realidade. Totalitarismo. Neoliberalismo.
ABSTRACT
This work had as main objective, since from the beginning, proposing a portrait of the
orwellian criticism towards the first Twentieth Century half through a sociological and
political analysis of the novel 1984. The inspiring point of the project was the reading of this
George’s Orwell book, and the understanding about the “democratic” contemporary society as
a fake democratic like totalitarian regime, this work made use of the bibliographic research in
seeking for theoretical subsidies about literature and its relation to reality; totalitarianism in its
practice and discourse aspects, mainly; Neoliberalism, understood in this paper as a
totalitarian regime, for this promotes a dynamic of alienation of the masses. Concerning these
three areas of research, the main consulted theorists were: Arendt (2006); Candido (2006);
Betto (2012); Goldmann (1990); Llosa (2007); Lukács (2000); Orwell (1946); Trotsky (2008).
Starting from the done readings we could draw a panorama of the relations of influences
existing between the Literature and, more specifically the novel, and reality. This line of
thought then, serves to justify the understanding of a novel as a critic to real life facts. About
the totalitarianism, the theorists studied, and the historical facts appointed allow us to assign
with clarity how do configure the totalitarian regimes of the first Twentieth Century half. By
the end the analysis about the Neoliberalism served as a key point to the understanding of the
novel’s timeliness and the importance of its reading to the to-day’s days. The detailed study of
the novel, starting from the theoretical elucidations, pointed out, as waited, the narrative, also
so, a critic towards the totalitarian regimes.
Keywords: Literature; reality; totalitarianism; Neoliberalism.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO: GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, IGNORÂNCIA É
FORÇA......................................................................................................................................9
1 A LITERATURA COMO DENÚNCIA, O TOTALITARISMO COMO
ACUSADO...............................................................................................................................11
1.1 Literatura x Realidade.........................................................................................................12
1.2 O romance como arma de denúncia....................................................................................15
1.3 O Totalitarismo Utópico.....................................................................................................19
1.3.1 Do Discurso......................................................................................................................19
1.3.2 Da prática.........................................................................................................................22
2 A FALÁCIA DO INGSOC – CARICATURA DOS REGIMES
TOTALITARISTAS...............................................................................................................25
2.1 Os quatro ministérios e a deturpação da realidade..............................................................26
2.2 O Grande Irmão – O amado opressor.................................................................................35
3 1984 E O NOSSO TEMPO .................................................................................................38
3.1 A atualidade de 1984...........................................................................................................39
3.2 O Neoliberalismo frente a crítica orwelliana......................................................................42
3.3 A Polícia do Pensamento x A criação de uma cultura global – Um novo modelo de
controle......................................................................................................................................44
CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................................46
REFERÊNCIAS......................................................................................................................49
9
INTRODUÇÃO:
GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, IGNORÂNCIA É FORÇA
Eric Arthur Blair, ou George Orwell, nasceu na Birmânia em 1903, filho de uma
família com tradição de trabalhar no setor administrativo do Império Britânico. Foi membro
da Polícia Imperial na Índia, por vontade própria viveu a pobreza extrema junto com os
miseráveis de Londres e Paris, e lutou na Guerra Civil Espanhola, onde viu pessoalmente o
que mais lhe atormentou na vida, um fato ser contado não da maneira como aconteceu, mas
como “queriam” que tivesse acontecido. Produziu uma grande e qualificada quantidade de
ensaios políticos e crítica literária, além de romances considerados clássicos da Literatura,
como Animal Farm e Nineteen Eighty-four. Morreu em 1949, após publicar sua maior obra e
se casar pela segunda vez, vítima da tuberculose. A biografia reduzida do autor nos conta em
linhas gerais como foi a vida dele, no entanto a sua obra prima, 1984, nos proporciona uma
visão do gênio político e literário.
Os três slogans do Partido são tão macabros quanto sua prática despótica e hipócrita.
Os sentidos diametralmente opostos entre as ideias por trás dessas seis palavras nos indicam
certeiramente a natureza do romance de George Orwell. Winston escreve em seu diário:
Para o futuro ou para o passado, para um tempo em que o pensamento é livre, em
que os homens são diferentes uns dos outros e não vivem sozinhos – para um tempo
no qual a verdade existe e o que é feito não pode ser desfeito: Do tempo da
uniformidade, do tempo da solidão, do tempo do Grande Irmão, do tempo do
Duplipensar – saudações! (ORWELL, 1984, p.27) [tradução nossa]1
Em um mundo onde todos são vigiados, onde duas ideias contraditórias podem ser
defendidas pela mesma pessoa simultaneamente, em um mundo no qual PENSAR é crime,
vive Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade (Mentira), único no romance a
mostrar de fato ter consciência da sua condição de dominado. Os três slogans do Partido
representam, senão, um discurso falacioso completamente contraditório da prática, enquanto
que o Duplipensar dá sustentação a essa prática, pois impede o questionamento de qualquer
arbitrariedade, desde que ela seja imposta pelo Grande Irmão.
A narrativa de 1984 é muito rica e profícua, não por acaso o romance é clássico, e nela
podemos depreender uma série de aspectos importantes de serem estudados. Apesar disso não
1
To the future or to the past, to a time when the thought is free, when men are different from one another and do
not live alone – to a time when truth exists and what is done cannot be undone: From the age of uniformity, from
the age of solitude, from the age of Big Brother, from the age of doublethink – greetings!
10
há espaço para tanto nessa pesquisa, e nosso foco será nas características totalitárias do
IngSoc, percebidas nitidamente apenas por Winston. Desiludido com sua vida solitária e
vazia, Winston então reflete sobre o Partido a partir de suas memórias e das evidências
encontradas por ele. No seu caminho, ele se depara com intrigantes pessoas, como o
misterioso O’Brien, a revoltosa e amante Júlia e um membro da Polícia do Pensamento,
Senhor Charrington.
Quando planejado, 1984 seria chamado de O último homem da Europa, no entanto,
por encorajamento dos editores, Orwell mudou o título do romance fazendo uma inversão
entre os dois números finais que compunham o ano de lançamento da obra, 1948. O solitário
Winston é, de fato, o último homem na Oceania, e trava uma luta ferrenha entre sua própria
fraqueza intelectual e a incontrolável sensação, quase certeza de que algo muito errado
acontecia no seu mundo, de que a vida deveria ser diferente, de que a liberdade deveria ser de
fato a liberdade, de que a verdade deveria existir em oposição à mentira e serem inalteráveis
as suas posições.
Essas características que somente Winston consegue perceber de maneira crítica
marcam na voz do narrador, todo o conteúdo político de 1984, objeto desse estudo. O absurdo
conceito do Duplipensar implica na total ineficácia de qualquer outro aspecto da vida humana,
uma vez que nada é errado nem certo, conquanto assim deseje Grande Irmão. Desse modo o
mundo cinzento no qual vive o nosso herói não é tão somente aterrorizador, mas eficiente ao
extremo em sua dinâmica.
Em seus atos de rebeldia, Winston acredita agir sem o conhecimento da Polícia do
Pensamento, e ao passo que se envolve com Júlia vai percebendo aos poucos o perigo que
corre, deliberadamente tomando para si esse perigo, como se esse fosse o feito principal a ser
realizado em sua vida. O personagem, no entanto, se engana, e desde o primeiro momento em
que sua cabeça pensou fora dos limites do Grande Irmão, suas heresias foram vigiadas,
manipuladas e gravadas, configurando um jogo de gato e rato, o qual só o Partido poderia
sairia vencedor. Winston certamente acerta ao dizer: “crime de pensamento não implica em
morte: crime de pensamento é a morte”.
A distopia, em sua essência, desenha um futuro inimaginavelmente sombrio e
desumano. A esse contexto vemos o quanto a obra de Orwell escava o medo pelo arbítrio
incontrolado. A morte a qual Winston se refere não é o cessar da vida, mas o cessar do ser
humano. Esse problema, profundamente abordado em 1984, não se trata de pura invenção, e,
portanto, é objeto de análise dessa pesquisa. Ler as desventuras do famigerado Winston é,
senão, olhar para uma pintura que mostra o lado obscuro do totalitarismo. E qual é sua pior
11
faceta que não a supressão do indivíduo? A negação do ser individual em detrimento do
construto coletivo guiado por uma só cabeça? Winston e Júlia estavam sim mortos ao serem
presos, nada mais poderiam ser ou estar. A batalha era em vão, o jogo perdido, eles eram os
mortos.
Talvez nada desenhe melhor e mais tristemente o medo de Orwell que o parágrafo
final do romance, que a cena de Winston deixando para trás todas as dúvidas, logo elas, início
de qualquer conhecimento novo e mais aprimorado, e aceitando em seu lugar uma certeza
profunda e forte como as raízes da castanheira: o amor pelo Grande Irmão.
Nesse perturbador cenário encontra-se um terreno muito fértil a uma análise crítica e
sociológica da política totalitária da primeira metade do século XX. O não-lugar de Orwell se
veste de aviso, se cobre de alertas para dizer ao homem: “existem verdades e não-verdades, e
não se é louco por acreditar na verdade sozinho”. De modo que a modernidade tem conferido
ao homem uma atualização do seu papel social, no qual esse deixa de ser agente questionador
e passa a ser apenas reprodutor das “tendências” dominantes. A obra do autor inglês é de
muito valor e merece ainda toda leitura crítica que puder ter. Talvez possamos traduzir esse
romance em uma frase: não vença a vitória sobre você mesmo.
12
1 A LITERATURA COMO DENÚNCIA, O TOTALITARISMO COMO ACUSADO
Nesse capítulo abordamos três questões teóricas fundamentais para o norteamento
dessa análise – A Literatura e sua relação de influências com a realidade; as bases do
totalitarismo evocando aspectos como discurso, prática e políticas de repressão e por fim,
avaliações teóricas acerca do Neoliberalismo. Enquanto análise de uma ficção, as duas
primeiras são essenciais, em virtude de tratar especificamente do gênero textual, enquanto
forma, em voga. Em ponto inicial de pauta nos debruçamos sobre uma elucidação teórica
acerca da relação estreita que as manifestações artísticas possuem com a realidade.
O ponto 1.2 desse capítulo trata do romance como arma de denúncia, apresentando os
postulados teóricos que abrangem essa força do romance. Contribuições imensas têm sido
dadas ao longo da história da literatura a esse respeito, e, portanto é de inteiro interesse dessa
análise apresentar o romance sob essa perspectiva. Uma vez que a leitura/análise da obra em
questão busca delinear a crítica feita a regimes despóticos como o Nazismo e o Stalinismo,
assim, inevitavelmente, o romance se transforma em uma arma de denúncia, justificando
assim essa elucidação.
Por fim trataremos teórica e empiricamente do totalitarismo, de modo a mostrar suas
características tanto no âmbito do discurso como no âmbito da prática. Como objeto da crítica
orwelliana, a apresentação e o entendimento acerca do totalitarismo são de vital importância
para o andamento dessa análise. Os subsídios serão necessários para que uma relação coerente
e coesa seja feita com os aspectos na obra estudados.
1.1 Literatura x Realidade
Ler 1984 é, sobretudo, mergulhar num mundo de extremos. Winston, nosso anti-herói
pode ver quase todos, embora sem a perspectiva do leitor. Até aí tudo bem, mas será que na
vida os extremos são mostrados assim, deliberadamente como é na ficção? Podemos dizer que
não, que a vida real é dissimulada, no sentido de que nem sempre podemos depreender dela
tudo que está nas linhas e entrelinhas. Para Vargas Llosa, a literatura é, também, um modo de
submetermos a realidade a uma lupa, trazendo seus aspectos latentes ao alcance da reflexão e
da análise.
O mundo de suaves e/ou chocantes extremos que a literatura nos apresenta, a exemplo
do romance de Orwell, percebido por uma leitura desavisada, ou seja, que desconsidere o
13
contexto no qual a obra está inserida assemelha-se a uma espécie sonho ou de fantasia febril,
às vezes até mesmo a um pesadelo. As invenções que no romance do escritor inglês, a
exemplo da Novilíngua, que no romance é uma reforma do Inglês que busca a diminuição do
número de palavras, de modo a eliminar as possiblidades de pensamentos hereges; das Tele-
Telas, aparelhos capazes de transmitir e exibir imagens, principal meio usado pelos líderes do
Partido para vigiar os cidadãos da Oceania; Polícia do Pensamento, uma organização secreta
capaz e investigar os pensamentos das pessoas, e que pela especialidade nessa detecção acaba
por coagi-los a sequer pensar qualquer coisa contrária ao Partido, nos levam a pensar, por
vezes, se tratar de ou uma obra fantástica, o que não é o caso, ou de alguma loucura que
acometeu o autor. Seria dessa maneira, então, que devemos encarar a obra de George Orwell?
Muitos entendidos do assunto certamente dirão que não.
Vargas Llosa em A Verdade das Mentiras afirma que os romances mentem, ou em
nossa hipotética leitura desavisada, devaneiam, mas, segundo ele, essa é apenas uma parte da
história, a outra, certamente pode ser ilustrada nas palavras do peruano:
A outra é que, mentindo, expressam uma curiosa verdade, que somente pode se
expressar escondida, disfarçada do que não é. [...] Os homens não estão contentes
com seu destino, e quase todos – ricos ou pobres, geniais ou medíocres, célebres ou
obscuros – gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Para aplacar –
trapaceiramente – esse apetite surgiu a ficção. Ela é escrita e lida para que os seres
humanos tenham as vidas que não se resignam a não ter. No embrião de todo
romance ferve um inconformismo, pulsa um desejo insatisfeito. (LLOSA, 2007,
p.12).
Encarando a tese de Llosa, passamos então para um novo espectro a partir do qual
podemos ler a ficção. Como uma subversora da realidade, com alento para as mazelas, a
sublimação de um medo, ou até mesmo o ensaio de um alerta, como poderíamos afirmar
acerca de 1984.
O que Vargas Llosa nos traz é muito importante, no sentido de entender o porquê de
escrever e ler uma obra de ficção. Nessa perspectiva, as insatisfações e medos, os desejos e
sonhos de uma época, de um grupo social, são percebidos pelo artista que, segundo Goldmann
(1990), alcança a “consciência possível”, que em contraste com a consciência real, é capaz de
perceber as informações do mundo de um modo transcendental. Analisando por esse viés, o
artista, e em consequência disso a sua obra, é capaz de traduzir esse conteúdo latente da
consciência coletiva de um determinado grupo social em algo concreto e palpável, disfarçado
sob as camadas de tinta de um romance.
14
Antonio Candido, em Literatura e Sociedade, traz argumentos que em mão dupla
corroboram e rebatem essa maneira de se analisar uma obra literária. Citando Sainte-Beauve,
Candido (2006) aponta que o “poeta”, ou por assim dizer, o artista literário, não é um mero
espelho da realidade, mas tem todo um aparato próprio que, o artista tem o “seu núcleo e o
seu órgão, através do qual tudo o que passa se transforma, porque ele combina e cria ao
devolver à realidade.” (SAINTE-BEAUVE apud CANDIDO, 2006, p. 28).
Para o autor, “é necessário delimitar os campos e fazer sentir que a sociologia não
passa, neste caso, de disciplina auxiliar; não pretende explicar o fenômeno literário ou
artístico, mas apenas esclarecer alguns dos seus aspectos.” (CANDIDO, 2006, p. 28). Nesse
sentido, fica esclarecido que esse trabalho não vai à busca de uma tese que imponha uma
explicação ao fenômeno de criação do romance de Orwell, mas antes, busca entender alguns
aspectos dessa obra, claramente manifesto na sociedade na qual viveu o autor. Candido
também afirma que se faz necessário avaliar de que maneira a obra influencia na sociedade,
de que modo ela é capaz de modificar as estruturas que a levaram a ser sublimada.
Cabe agora saber quais são os fatores sociais, pelo menos os mais decisivos, que
influem na obra, e de que maneira essa influência se realiza. Candido aponta que esses são, a
saber: a estrutura social; os valores e ideologias e as técnicas de comunicação. O autor explica
que esses fatores podem influir em graus e maneiras diferentes sobre a obra:
O grau e a maneira por que influem estes três grupos de fatores variam conforme o
aspecto considerado no processo artístico. Assim, os primeiros se manifestam mais
visivelmente na definição da posição social do artista, ou na configuração de grupos
receptores; os segundos, na forma e conteúdo da obra; os terceiros, na sua fatura e
transmissão. (CANDIDO, 2006, p. 30).
Como tratamos aqui das ideologias e dos valores da sociedade da qual Orwell fez
parte, está implícito que, de acordo com essa esquematização apresentada por Candido, nos
concentraremos em estudar a forma e o conteúdo de 1984. E para além desse reconhecimento,
tentaremos entender, mais adiante, qual o impacto dessa obra sobre a sociedade.
Nesse ponto, cabe esclarecer, teoricamente, de que maneira se desenrola a forma e o
conteúdo de determinada obra literária, e mais profundamente, de que maneira essa forma e
esse conteúdo abarcam as ideologias e valores de uma época. Lukács faz algumas
contribuições nesse sentido:
[...] Em vez de querer compreender o Helenismo desse modo, ou seja, perguntar
inconscientemente como poderíamos em última instância produzir essas formas ou
como nos portaríamos se possuíssemos tais formas, mais frutífero seria indagar pela
15
topografia transcendental do espírito grego, essencialmente diversa da nossa, que
tornou possíveis e também necessárias tais formas. (LUKÁCS, 2000, p. 28).
Ao falar das formas helênicas de “perfeição impensável”, Lukács inverte o sentido da
busca, que tenta, primordialmente, imaginar essas formas em nossos dias, em nossa
sociedade, e imaginar qual comportamento seria o nosso se dessas formas fossemos
detentores. O teórico indica, então, que a ação correta seria descobrir qual a topografia
transcendental do espírito que tornou possíveis e também necessárias tais formas.
Nesse sentido, a forma e o conteúdo de uma obra, bem como todos os “fantasmas” e
“heróis” nela presentes serão resultantes, primeiro, do transcendentalismo de um povo, e
segundo, do transcendentalismo do artista que, grosso modo, poderá causar estranheza ou ser
reconhecido de imediato de acordo com a consciência possível, no sentido goldmanniano,
alcançada por esse povo. Essas considerações impõem ver a literatura como resultante de um
processo de estímulos, como sugere Antonio Candido, a partir do qual o artista cria e
combina, fechando o ciclo com o impacto que determinada obra provoca na sociedade.
Seguindo os argumentos até aqui, podemos afirmar que a literatura se liga
intimamente com a realidade, aninhando-se em um ato sexual que leva o artista a um orgasmo
transcendental, visto que esse é um ser dotado de uma profunda cadeia nevrálgica, a qual lhe
concede notável sensibilidade, capaz de transformar os estímulos que sua parceira lhe
proporciona inconscientemente. Entenda-se por parceiras as estruturas sociais que cercam o
artista de estímulos e formas, levando a movimentos sensuais de criação de figuras, ícones e
imagens; no ápice dessa relação, como alvo do gozo, encontra-se o público, que, sendo parte
constituinte dos estímulos sentidos pelo artista, é levado, de maneira extasiante, a uma
mudança interna, que acaba por fim a refletir nas estruturas sociais. Assim o ciclo se
completa, e a cada obra o gozo dessa relação amorosa entre literatura e realidade se
diferencia, sem jamais deixar de existir.
Essa relação íntima das estruturas sociais com a obra pode ser entendida em Lukács,
quando este aponta o caráter de o homem não se achar solitário, de não ser único portador da
substancialidade. Certamente suas palavras valem aqui de grande significado para o
entendimento dessa relação.
[...] o homem não se acha solitário, como único portador da substancialidade, em
meio a figurações reflexivas: suas relações com as demais figurações e as estruturas2
que daí resultam são, por assim dizer, substanciais como ele próprio ou mais
verdadeiramente plenas de substância, porque mais universais, mais “filosóficas”,
mais próximas e aparentadas à pátria original: amor, família, Estado. (LUKÁCS,
2000, p. 29).
16
Assim sendo, dentro da concepção de Lukács, torna-se pertinente a análise que nos
leva ao apontamento dessa relação de amor entre a literatura e a realidade. O homem, ou o
artista, não pode sozinho ser criador daquilo que o transcende. A dialética é intensa e coesa, e
não pode o artista fugir disso sem se distanciar da “pátria original”, sem perder
substancialidade, sem diminuir seu campo de atuação. Portanto, dizer que literatura e
realidade são membros de uma íntima relação não foge ao alcance da razão, e não fere de
modo nenhum o que se pode conferir como concreto e verdadeiro.
1.2 O romance como arma de denúncia
Em 1984 o Partido censura e reescreve toda a produção literária do passado, além de
produzir, em escala “industrial” e de maneira artificial e sintética, ficção para os proles –
classe trabalhadora da Oceania considerada à margem do mundo civilizado, o Partido
considera-os tão inofensivos e alienados que sequer se dá ao trabalho de vigiá-los ou puni-los;
são a classe mais baixa na sociedade estruturada pelo IngSoc. Essa prática do Partido revela
algo muito peculiar e importante sobre as obras de ficção. Se a censura e a própria confecção
ideológica desse gênero literário é feita pela casta dominante, em sentindo inverso podemos
perceber o papel da ficção, do romance, como uma arma antagônica ao o opressor. Vargas
Llosa em a verdade das mentiras faz um relato sobre essa percepção do romance como arma
de denúncia contra os “arbitrários”:
Os inquisidores espanhóis, por exemplo, proibiram a publicação ou importação de
romances nas colônias hispano-americanas, argumentando que esses livros
disparatados e absurdos – quer dizer, mentiroso – poderiam ser prejudiciais para a
saúde espiritual dos índios. [...] Ao proibir não obras determinadas, mas um gênero
literário em abstrato, o Santo Ofício estabeleceu algo que, a seus olhos, era uma lei
sem exceções: que os romances sempre mentem, que todos oferecem uma visão
falaciosa da vida. Há anos escrevi um trabalho ridicularizando esses arbitrários,
capazes de uma generalização semelhante. Agora acho que os inquisidores
espanhóis foram, talvez, os primeiro a entender – antes dos críticos e dos próprios
autores – a natureza da ficção e de suas propensões sediciosas. (LLOSA, 2007, p.
11-12).
Esse relato de Llosa é bastante pontual e põe em voga o que tratamos aqui, as
“propensões sediciosas” dos romances. De acordo com a citação acima e o que segue em A
verdade das mentiras, podemos contemplar o romance como um instrumento de revolta, que
se opõe à ordem instalada, incita o questionamento, denuncia as mazelas, os desmandos. Não
17
fosse assim, não teria sentido uma casta dominante em um dado estrato social empreender a
uma ação contra a publicação ou importação de obras de ficção.
É interessante e até fascinante pensar que Orwell soubesse de alguma maneira sobre
esse aspecto da ficção, e em uma “metalinguagem literária” traduziu essa característica no seu
próprio romance ao trabalhar a criação de ficção artificial ou mecânica. Os inquisidores
espanhóis, tal qual o Partido, tinham consciência do poder de transgressão e transcendência
do romance, isso os aviltou a ponto de proibirem a importação ou publicação desses livros. O
Partido, não satisfeito com a censura, se dedica também a criação de romances que não são
“romances”, uma vez que é sabido em 1984 que, ao contrário do que propõe Vargas Llosa,
“no coração desses livros” produzidos pelo Partido não “chameja um protesto”.
Goldmann (1990) aborda em Sociologia do Romance o problema do desaparecimento
do personagem, e a representação das estruturas econômicas da sociedade ocidental através
do fetichismo da mercadoria, proposto por Marx, e mais tarde da coisificação, com Lukács. A
partir desse processo de coisificação das estruturas no percurso da história, o sociólogo busca
achar relação desse fenômeno com a história das estruturas romanescas. A respeito disso ele
aponta, em contraposição a distinção entre romance clássico e as estruturas que deram origem
ao romance moderno:
Robbe-Grillet acaba de o dizer: o romance clássico é um romance em que os objetos
têm uma importância primordial, em que só existem por suas relações com os
indivíduos. Os dois períodos ulteriores da sociedade capitalista ocidental, o período
imperialista – que se situa, aproximadamente, entre 1912 e 1945 – e o período do
capitalismo de organização contemporâneo, definem-se no plano estrutural, o
primeiro, pelo desaparecimento progressivo do indivíduo como realidade essencial
e, correlativamente, pela independência crescente dos objetos; o segundo, pela
constituição desse mundo de objetos – em que o humano perdeu toada a realidade
essencial, quer como indivíduo, quer como comunidade – em universo autônomo,
com sua estrutura própria, que só permite ao humano exprimir-se ainda algumas
vezes e dificilmente. (GOLDMANN, 1990, p. 180).
Perceber na sociedade moderna a exasperada valorização dos objetos, e o
“desaparecimento do indivíduo como realidade essencial” nos leva a uma concepção dos
valores e ideologias do mundo moderno que desagregam o indivíduo do “transindivíduo” –
indivíduo capaz de aglutinar e condensar o espírito de uma sociedade em determinado
momento histórico – ou consciente coletivo. Se trouxermos isso para as sociedades de
controle, nos deparamos com um estado de inconsciência no que concerne ao entendimento,
que em virtude disso pode levar a uma impossibilidade de mudança consciente por parte dos
seus integrantes no campo da luta de classes, da sociedade em questão.
18
Nesse sentido, o artista, que para Goldmann, tem a capacidade de alcançar um grau
máximo de consciência possível, uma vez membro de um estrato social, é responsável por
puxar, em um pulo imaginativo e criativo, a essência dessas estruturas que obliteram o
indivíduo da consciência coletiva. Em outras palavras podemos, de maneira palpável, a partir
das pesquisas goldmannianas, ilustrar também o papel de conscientização – leia-se denúncia –
das formas romanescas, mais estritamente, as modernas.
Para Goldmann, contrariamente, a criação cultural é movida pela aspiração a um
máximo de coerência, a um máximo de consciência possível. Essa intencionalidade
não é a vingança do recalcado contra as censuras impostas pela consciência, mas o
trabalho da própria consciência em busca do esclarecimento. (FREDERICO, 2004,
p.12).
A visão acima apresentada empenha um pensamento analítico que nos move contra as
análises freudianas da criação cultural. Não seria sensato, todavia, desacreditar inteiramente a
análise psicanalítica das obras de ficção, no entanto, o olhar sociológico nos interessa em um
nível muito mais elevado ao passo que buscamos entender em 1984 não um indivíduo, seja
ele Winston Smith ou George Orwell, mas a sociedade europeia, e por que não dizer mundial,
assombrada pelo medo de um domínio dos modelos políticos totalitários da primeira metade
do século XX.
Na tentativa de delinear as formas romanescas enquanto arma de denúncia, cabe
trazer a visão de alguém que entende, talvez nem sempre conscientemente, as intrincadas
estruturas internas do romance, que sabe o seu motivo de ser, o objetivo que com sua estética,
quer alcançar a forma romanesca. Vamos então à fonte de saberes que nos vai ajudar a
entender o que aqui se pretende:
O que eu mais tenho tido vontade de fazer durante os últimos dez anos é
transformar a escrita política em uma arte. Meu ponto de partida é sempre
um sentimento de partidarismo, uma sensação de injustiça. Quando eu sento
para escrever um livro, eu não digo a mim mesmo, ‘eu vou produzir uma
obra de arte’. Eu o escrevo porque há alguma mentira que quero expor,
algum fato para o qual quero chamar atenção, e minha preocupação inicial é
conseguir audiência. Mas eu não poderia fazer o trabalho de escrever um
livro, ou mesmo um longo artigo de revista, caso não houvesse também uma
experiência estética. (ORWELL, 1946, p.5) [Tradução nossa]2
2
What I have most wanted to do throughout the past ten years is to make political writing into an art. My starting
point is always a feeling of partisanship, a sense of injustice. When I sit down to write a book, I do not say to
myself, ‘I am going to produce a work of art’. I write it because there is some lie that I want to expose, some fact
to which I want to draw attention, and my initial concern is to get a hearing. But I could not do the work of
writing a book, or even a long magazine article, if it were not also an aesthetic experience.
19
O autor de 1984 e Animal Farm, em um ensaio no qual descreve os porquês de ele
escrever, mostra-nos uma visão na qual, para ele, toda obra literária é política, e
primariamente, todo autor tem um impulso histórico, “o desejo de ver as coisas como elas são,
descobrir fatos verídicos, e guardá-los para a posteridade” (ORWELL, 1946). Essas
considerações escritas por Orwell nos dão um subsídio muito valoroso, nos mostram que os
autores “escrevem porque há alguma mentira que eles querem expor, algum fato para o qual
querem chamar a atenção”, e isso é, de maneira viva e colorida frente a nossos olhos,
denúncia. E o que Orwell tanto denunciava, como ele comenta recorrentemente no ensaio
citado, “nessa época que vivemos”?
A resposta para a pergunta acima pode estar em 1984. Se lermos essa obra como uma
crítica ao totalitarismo, como uma denúncia às suas complexas teias de poder e manipulação
das massas, a experiência nos parece natural. Nesse sentido, evidencia-se a forte tendência
sediciosa dessa obra do autor inglês. Como ele mesmo aponta em “Porque escrevo”, “Cada
linha de trabalho sério que” tem “escrito desde 1936 tem sido escrita, direta ou indiretamente,
contra o totalitarismo e em prol do socialismo democrático como o” entende. Parece-lhe “sem
sentido, [...], pensar que alguém pode evitar escrever sobre tal.” (ORWELL, 1946).
Com as palavras do autor a pularem frente aos nossos olhos, nenhuma orientação
contrária parece refutar a proposta de um romance como denúncia. Muito pelo contrário,
George Orwell corrobora essa visão, dando-nos a valiosa credibilidade de quem escreveu
romances que desempenham tão bem esse poder de denúncia. Considerações mais
prolongadas mostram-se, por ora, desnecessárias, uma vez que nos parece bem colocada a
linha de pensamento que ilustra a proposta dessa discussão.
1.3 O Totalitarismo Utópico
A História nos mostra que na luta de classes, a classe operária, que nem sempre foi a
classe operária como conhecemos hoje, foi sempre a que levantou as revoluções sem, no
entanto, ter conseguido mudanças verdadeiras em benefício próprio. Isso deu margem, em
determinados momentos, para que homens e “partidos” se arrogassem do poder, usando para
tal, um discurso pautado na utopia.
A Utopia, de Thomas Moore, descreve um lugar ideal, onde todos trabalham para
satisfazer às necessidades básicas de cada um, e o desenvolvimento da sociedade se dá pelo
prazer da contemplação e do estudo, feito através da avaliação crítica contínua da realidade.
20
Na pretensão, falaciosa, diga-se de passagem, de montar uma sociedade como a descrita em A
Utopia, tendo a igualdade como o eixo central, “líderes revolucionários” levaram, através do
discurso, a classe operária a amotinar-se, a exemplo do que aconteceu na Rússia – mais tarde
União Soviética e depois Rússia de novo – derrubando a casta dominante, levando então à
classe intelectual ao poder e mantendo a classe operária onde essa sempre esteve.
Essa análise busca, de modo primordial, tratar da crítica que se desenha em 1984
contra o totalitarismo utópico – no sentido do discurso pautado na pretensão inverídica de
formar uma sociedade igualitária e livre – assim, faz-se importante definir, de modo histórico,
através de provas documentais, como era o discurso dos regimes totalitários, e através dos
escritos de críticos consagrados, que viveram, ou sentiram na pele as imposições desses
regimes, a exemplo de Hannah Arendt e Leon Trotsky, mostrar como foram, na prática, esses
regimes. Posto isso, passemos então ao discurso.
1.3.1 Do Discurso
Falar do discurso utópico dos regimes totalitários é passear por uma retórica muito
bem desenvolvida. Caminhar sobre um terreno no qual as palavras ganham sentidos diversos,
as construções intrincadas, cheias de cantos pintados em cores sortidas, penetram de maneira
sorrateira a cabeça e o coração dos ouvintes, não obstante, Orwell, em 1984, descreve com
detalhes extremamente claros o estado de êxtase quase libidinoso no qual entram as pessoas
diante dos discursos inflamados do Grande Irmão.
Não podemos falar de discursos dentro do totalitarismo sem falar de uma icônica
figura desse contexto: o ditador russo Joseph Stálin, um perito da oratória, capaz de formular
discursos muito firmes e ao mesmo tempo amigáveis, exercendo sobre os ouvintes uma
espécie de histeria, de transe.
É uma característica marcante no discurso de Stálin, por exemplo, a conclamação ao
povo, no sentido de que esse se entregue de corpo e espírito pelos propósitos da nação. Essa
característica pode ser observada em entrevista datada de 1946, divulgada pela revista Veja
em especial online simulando uma possível cobertura da II Guerra Mundial:
Acima de tudo, é essencial que nosso povo perceba o imenso perigo que ameaça
nosso país, e, assim, elimine a complacência, o relaxamento e a mentalidade de
trabalho pacífico e construtivo que vinha sendo tão natural antes da guerra, mas que
hoje, diante de uma situação radicalizada pelas batalhas, pode ser fatal. (STÁLIN,
1941).
21
A entrevista trata basicamente do rompimento do tratado de paz firmado entre a
Alemanha Fascista e a União Soviética, e nesse trecho, Stálin referia-se às estratégias para
vencer a batalha contra os alemães. Independente do clima de guerra fica claro a maneira
como o discurso de Stálin leva a um sentimento de unidade, de igualdade entre os homens e
mulheres russos. Ele trata a nação e o povo como uma só unidade. “Os habitantes da União
Soviética, então, precisam se mobilizar e reorganizar seu trabalho em um novo equilíbrio, um
equilíbrio de guerra, no qual não pode haver piedade para o inimigo.” Stálin vai além, e lança
para o povo, através do seu discurso o sentimento de ódio, capaz de incitar de maneira imoral
as pessoas, tirando proveito de suas fraquezas e medos.
Observando por esse viés do discurso, independentemente da prática, o comandante
supremo da União Soviética mostra-se um líder virtuoso, cheio de compromissos para com
seu povo. Trotsky, em a Revolução Traída, utiliza-se de documentos diversos, como
publicações de matérias e entrevistas concedidas por Stálin para delinear o seu discurso, na
visão de desse autor, falacioso.
No capítulo A URSS no espelho da Nova Constituição, Trotsky inicia falando sobre a
Constituição que segundo Stalin seria a mais democrática do mundo, palavras essas repetidas
diariamente pela imprensa. Diferente do que é dito por Stalin, o que ocorre na verdade, como
explica Trotsky, é que, já no nascimento, essa constituição, de democrático nada tem.
Podemos ver aqui, claramente, o que se vem discutindo:
– “a mais democrática do mundo”. Muito pelo contrário, a maneira como esta
Constituição foi elaborada poderia fazer nascer bastante dúvidas: nem na imprensa,
nem em quaisquer reuniões, nada se disse. Ora, no dia 1º de março de 1936, Stalin
declarou a um jornalista americano, Roy Howard: “Adotaremos sem dúvida a nossa
Constituição no fim deste ano”. Stalin sabia pois muito precisamente quando seria
adotada uma constituição da qual o povo ainda nada sabia. Por que razão havemos
de deixar de concluir que a Constituição “mais democrática do mundo” se elabora e
se impõe de maneira muito pouco democrática? (TROTSTKY, 2008, p. 249).
Trotsky nos faz pensar, como algo pode ser democrático dessa maneira? O que se
pode supor com maior embasamento em vista dessas apreciações é que o processo de criação
e imposição da constituição soviética não foi nada democrático. Adiante o autor aponta que o
projeto foi sim, submetido à apreciação, mas mostra contundentemente que isso não garante
democracia alguma no processo:
É verdade que o projeto foi, em junho, submetido a “apreciação” dos povos da
URSS. Mas pode-se procurar em vão em toda a superfície da sexta parte do globo o
22
comunista que se permitisse criticar a obra do Comitê Central ou o sem partido que
ousasse discutir a proposição do partido dirigente. A “discussão” reduziu-se pois ao
envio de mensagens de gratidão a Stalin pela “vida feliz” que iria oferecer as
populações. O conteúdo e o estilo dessas mensagens tinham sido fixadas pela
constituição precedente. (TROTSKY, 2008, p. 249).
Ao passo que vamos analisando os postulados de Trotsky, cabe entender que, não são
apenas as palavras de Stalin, ou de qualquer outro déspota que subjugam as pessoas através de
uma inflamação espiritual coletiva: todo um aparelho ideológico é montado, de modo que as
ideias são espalhadas com vigor, adentrando cada pessoa de maneira assombrosamente sutil.
Isso pode ser verificado em diversos episódios, tanto da União Soviética “stalinista” como da
Alemanha nazista.
Talvez, por uma questão diferenciada do ponto de vista do discurso, não seja
interessante aqui se aprofundar em outros líderes, como seria o caso de Hitler, de Mussolini e
de Franco. Ao tratarmos de 1984 estamos lidando, em via oposta ao que aponta o título do
trabalho, com uma crítica ao socialismo totalitário e déspota da URSS, sem, no entanto,
negarmos que essa crítica se aplique a qualquer outro regime totalitário com teor semelhante.
Sendo, enganosamente baseada nos ideais socialistas de Marx, Engels e Lênin, a Revolução
de Outubro aplica-se com maior sensatez a essa descrição, de modo que atemo-nos aqui aos
discursos de Stálin, enquanto líder do Partido Comunista e do regime montado após a
Revolução de Outubro.
1.3.2 Da Prática
Comentar sobre o discurso, sobre a ideologia do totalitarismo, é, essencialmente, falar
de algo diametralmente oposto à prática. O nome consagrado, totalitarismo, nos dá, bem
entendido, a ideia de qualquer coisa que fuja a galopadas longas do que seria uma sociedade
socialista ou comunista, que tenha como base para a sua construção a igualdade. Pois se a
história consagrou o termo e o conceito, achamos por direito discutir a prática desses regimes
de governo a partir de análises teóricas historicistas, que elucidam essa questão, fugindo da
enfadonha tarefa de enumerar fatos históricos que delongariam por demasiado essa
“conversa”.
Por um trato mais estético, comecemos falando de algo que se distancia um pouco do
assunto, mas que se aproxima do motivo dele ter sido abordado pelo autor do romance aqui
23
analisado. Em um ensaio intitulado “Shooting an elephant”, George Orwell narra um
acontecimento que se poderia chamar de inusitado e de certa forma até corriqueiro, mas que é,
para o autor, essencialmente inglório e revelador. O fato narrado ocorreu durante os anos que
ele trabalhou como oficial da Polícia Imperial Britânica em Burma. Um elefante adestrado
saiu do controle, e estava provocando o maior frisson na comunidade, de modo que, Orwell,
enquanto autoridade ali presente, devia fazer algo. O ato do autor de pedir que lhe trouxessem
um rifle, vendo-se ele na necessidade de talvez matar o elefante, o leva a uma posição de
poder e de subjugação. No seu relato, uma multidão de mais de duas mil pessoas o
acompanhava, olhando-o, pressionando-o com uma vontade que parecia, segundo Orwell,
empurrar-lhe irresistivelmente. A partir desse exemplo ele aponta um caminho inverso das
consequências do totalitarismo:
Eu percebi nesse momento que quando o homem branco se torna tirano é a sua
própria liberdade que ele destrói. Ele se torna uma espécie de manequim, posando
oco, a figura convencionada de um sahib. Por que é condição de seu “mandato” que
ele passe a vida tentando impressionar os nativos, e então, em cada crise ele tem que
fazer o que os nativos esperam dele. Ele usa uma máscara, e sua face se acostuma a
ela. Eu tive que matar o elefante. Eu me cometi a fazer isso no momento que mandei
que trouxessem o rifle. (ORWELL, 1936) [Tradução nossa]3
Observamos sempre o totalitarismo do ponto de vista do oprimido, de modo
que se torna pouco frutífera a questão: por que o totalitarismo? Mas se o fizermos do ponto de
vista do opressor, qual seria a resposta para essa pergunta? O próprio George Orwell nos dá
uma pontinha de resposta em 1984: O’Brien, ao declarar que o Partido não se interessa por
riquezas nem luxo, mas sim pelo poder, puro e simples, nos faz pensar na razão pela qual um
governo se torna totalitário. O déspota, ao se arrogar do poder, busca, de modo constante,
manter-se no posto, e para tanto precisa manter a postura que lhe cabe, de modo que se torna
ele também um escravo, escravo do próprio desejo, da própria loucura, da própria opressão.
Essa busca pelo poder parece ser, como nos mostra a história, inerente do ser humano, mesmo
que latente em alguns e mais bem definida em outros.
Ao tratarmos da prática dos regimes totalitários, leia-se principalmente, Stalinismo e
Nazismo, estamos falando de duas vertentes de ação, uma que perpassa o discurso, sendo
veículo e objeto ao mesmo tempo: a propaganda; e outra que é a violência do estado, a
3
I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He
becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his
rule that he shall spend his life in trying to impress the "natives," and so in every crisis he has got to do what the
"natives" expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it. I had got to shoot the elephant. I had
committed myself to doing it when I sent for the rifle.
24
imposição de ideias à força, sendo que esta segunda depende, operacionalmente, da primeira.
Essa relação de dependência da segunda vertente para com a primeira se dá por conta de que,
o totalitarismo, tal qual descrito por Hannah Arendt, não estaria satisfeito apenas com a posse
do poder de opressão, mas, de modo a se perpetuar, necessitaria também da aprovação do
povo, e a esse propósito a propaganda se presta com total destreza. Esse caráter é muito bem
descrito em 1984, a partir de O Livro de Emmanuel Goldstein, no qual George Orwell aponta
que o objetivo do poder é o poder.
De modo que a história prova-nos que toda a máquina opressora um dia sucumbe às
massas oprimidas, diferente não seria, no entanto com o modelo pensado pelos líderes dos
regimes totalitaristas. A solução, então, foi encontrar uma maneira através da qual a opressão
ao povo fosse vista como salvação, de modo que os assassinatos, os despóticos julgamentos, e
às forçadas confissões fossem vistas apenas como prova da importância do regime totalitário.
Uma distorção tal capaz de converter o mal no bem, o déspota em democrata, a opressão em
libertação e igualdade.
Arendt (2006, p.340) aponta, ao tratar sobre a publicação de documentos oficiais do
período de vigência do Reich, que entre os anos de 1949 e 1958 nada “aconteceu, nem”
parecia “provável que” acontecesse “no futuro, que nos” apresentasse “o mesmo inequívoco
fim da história ou as mesmas provas horríveis, claras e irrefutáveis desse fim, como foi o caso
da Alemanha nazista.” A autora assinala que apesar da abundância de material, cerca de
duzentas mil páginas, dos dados estatísticos vitais, acerca do número de vítimas, por exemplo,
não tinham uma indicação sequer.
Revela-se aqui mais uma prática totalitarista, que é abordada de modo ininterrupto em
1984, a falsificação de documentos oficiais. Mais à frente, a cientista política discorre sobre
os documentos do governo comunista soviético, de modo que o que ela apresenta corrobora
veementemente esse caráter escuso da documentação das atividades dos regimes totalitaristas.
Os algarismos, quando surgem, são irremediavelmente contraditórios; cada uma das
organizações fornece dados diferentes, e tudo o que ficamos sabendo com certeza é
que muitos deles foram retidos "na fonte" por ordem do governo. 3
Além disso, os
arquivos não informam das relações entre os vários setores de autoridade, "entre o
Partido, os militares e a NKVD", ou entre o partido e o governo, e silenciam quanto
aos canais de comunicação e comando. Enfim, nada nos ensinam quanto à estrutura
organizacional do regime, da qual tanto sabemos no que tange à Alemanha nazista. 4
Em outras palavras, embora sempre se tenha sabido que as publicações oficiais
soviéticas serviam a fins de propaganda e eram completamente indignas de
confiança, agora parece claro que nunca existiram, em parte alguma, fontes dignas
de fé e material estatístico em que se pudesse confiar. (ARENDT, 2006, p.341).
25
Percebamos que uma análise documental, à medida do que é possível em vista da
escassez de documentos, revela: primeiro no conteúdo desses documentos, as práticas
nefastas dos regimes totalitaristas em termos de ações tais como expurgos, julgamentos,
acusações, assassinatos entre outras práticas; segundo, na própria essência dos documentos,
uma vez que esses são incoerentes no que diz respeito ao todo, deixam de revelar ligações
internas do regime que são de fundamental importância para o esclarecimento de seus
desmandos.
Entrando no âmbito da União Soviética, apesar de tratar exatamente do problema da
escassez de documentos, Arendt golpeia categoricamente a política soviética de
documentação dos fatos. Ela vai além, e comenta sobre o apoio das massas a esses regimes
totalitários, imortalizados nas figuras “patriarcais” de Hitler e Stálin:
É muito perturbador o fato de o regime totalitário, malgrado o seu caráter
evidentemente criminoso, contar com o apoio das massas. Embora muitos
especialistas neguem-se a aceitar essa situação, preferindo ver nela o resultado da
força da máquina de propaganda e de lavagem cerebral, a publicação, em 1965, dos
relatórios, originalmente sigilosos, das pesquisas de opinião pública alemã dos anos
1939-44, realizadas então pelos serviços secretos da SS ([...] [Relatórios do Reich.
Seleção dos relatórios sigilosos colhidos pelo Serviço de Segurança da SS], Neu-
wied & Berlin, 1965), demonstra que a população alemã estava notavelmente bem
informada sobre o que acontecia com os judeus ou sobre a preparação do ataque
contra a Rússia, sem que com isso se reduzisse o apoio dado ao regime. (ARENDT,
2006, p.339).
Se a teórica alemã evoca essa questão do apoio das massas aos regimes totalitaristas,
não se desvirtua observar o que diz Trotsky a respeito da relação discurso–prática–povo.
Vejamos que essa relação de harmonia, forçada ou não, é complicada de ser analisada,
embora possamos delimitar alguns contextos que nos guiem a um entendimento. Hannah
Arendt refere-se a uma pesquisa de opinião feita na Alemanha. Isso nos traz, em primeira
instância, a questão da paixão racial e do antissemitismo, e apesar do terror imposto às
“raças” perseguidas, um sentimento de complacência e apoio às ideias da facção nazista fluía
no coração de uma grande parcela do povo alemão. Essa característica, sabemos, não é
inerente ao povo soviético, ou pelo menos não a tal ponto.
Bem entendida essa questão, o fato é que, tanto o discurso na União Soviética quanto
na Alemanha Nazista, se davam a favor do povo, contrário à prática, ao passo que a prática, se
dava, de modo disfarçado, em concordância com o discurso e contra o povo. Essa relação, não
se desenha tão intricada como parece, e pode ser elucidada em A Revolução traída, em que
Trotsky aponta as inconsistências e falácias da Nova Constituição. De modo que essa análise
da prática totalitarista já vem dançando melindrosamente por um longo espaço, fica essa
26
consideração de Trotsky como o retrato documental do que “é” e do que foram as práticas dos
totalitaristas do século XX:
A promessa de oferecer aos cidadãos soviéticos a liberdade de votar “nos que eles
quiserem votar” é mais uma metáfora estética que uma fórmula política. Os cidadãos
soviéticos não terão o direito de escolher os seus “representantes” senão entre os
candidatos que lhes serão designados, sob a égide do Partido, os chefes centrais e
locais. [...] As Juventudes Comunistas perdem o direito de se ocupar de política no
preciso momento em que o texto da nova Constituição é publicado. Ora, os jovens
dos dois sexos possuem direito de voto a partir dos dezoito anos e o limite de idade
das Juventudes Comunistas (vinte e três anos) não foi baixado. A política foi de uma
vez por todas declarada como monopólio de uma burocracia que escapa a qualquer
controle. (TROTSKY, 2008, p.255-256).
Diante das demonstrações de Trotsky nada mais nos é dignado de ser dito que possa
acrescentar algo novo. Fica assim então, estabelecida uma fotografia, diminuta é claro, da
prática e do discurso dos regimes totalitaristas.
27
2 A FALÁCIA DO INGSOC – CARICATURA DOS REGIMES TOTALITARISTAS
Na mira da presente pesquisa encontra-se uma busca por uma delineação que nos
mostre claramente o porquê de considerar 1984 uma caricatura dos regimes totalitaristas
regidos por personas famosas como Hitler, Mussolini e Stálin. A narrativa de George Orwell
conta a história de um herói moderno, perdido no meio da esmagadora força do estado, capaz
de sentir-se indignado com toda a injustiça, no entanto, incapaz de fazer a diferença ou de
organizar um movimento revolucionário.
A breve descrição da obra acima apresentada não contempla, contudo, o que, pelo
menos do ponto de vista sociológico e político, há de mais importante na narrativa do Inglês
Orwell. Winston, nosso “herói”, é o quartzo através do qual podemos enxergar todas as
nuances do IngSoc; as duas faces do Big Brother; os deturpados ministérios da Paz; do Amor,
da Fartura e da Verdade; o suposto dissidente Emanuel Goldstein; o medo provocado pela
Polícia do Pensamento; o Duplipensar e a Novilíngua. Todas essas características juntas
levam na busca empreitada nessa pesquisa, a uma caracterização do que podem e puderam
fazer os regimes totalitaristas com os aspectos da vida humana, na direção da obliteração do
indivíduo e a criação de uma massa não pensante controlada pelo sistema.
Abordaremos nesse capítulo, de maneira primária, o que concerne aos quatro
Ministérios da Oceania e sua deturpação da realidade, discurso e prática do Partido, o Grande
Irmão como personificação do amor e da justiça e como agente da opressão, nessa ordem.
2.1 Os quatro ministérios e a deturpação da realidade
Não se poderia afirmar com certeza, mas se Orwell avaliasse quais dos Ministérios na
Oceania ele temeria mais, certamente diria ser o Ministério da Verdade, Minitrue em
Novilíngua. Como quase tudo que fosse dominado pelo Partido, os Ministérios também
tinham funções que se opunham totalmente às qualidades que os davam nomes. O Ministério
da Verdade tinha como principal função a alteração do passado e a falsificação de notícias, de
modo que qualquer previsão, determinação ou prática do Partido nunca estivesse errada,
injusta ou incoerente com o discurso atual. Em alguns de seus ensaios, George Orwell
descreve com extremo pavor a possibilidade de a realidade ser contada não como se deu, mas
como interessa a alguns.
É justamente no Ministério da Verdade que trabalha Winston Smith, nosso “herói”.
Sua função é reescrever notícias antigas, colocando-as em acordo com as novas necessidades
28
do Partido, que se desenham com apenas um objetivo, manter o poder nas mãos de quem o
tem.
Antes de continuarmos falando dos quatro Ministérios, é preciso que se faça uma
apresentação do Duplipensar, único mecanismo capaz de proporcionar o funcionamento da
distorção da realidade promovida pelo Partido. De acordo com o descrito na narrativa, o
Duplipensar é a capacidade de acreditar em duas ideias diametralmente opostas e aceitar as
duas como válidas. Para efeitos práticos de descrição pensemos na soma de 2 + 2, que todos
sabemos resultar em 4, mas que, se conveniente para o Partido for, pode ser 3, pode ser 5, ou
todos de uma só vez, como explica O’Brien em conversa com Winston. Assim, o Duplipensar
é a capacidade de transformar uma verdade em mentira, uma mentira em verdade, esquecer
que tal transformação aconteceu, e se necessário, fazer o processo inverso esquecendo-se
desse, em seguida.
Talvez isso nos pareça absurdo, mas a vida real possui um sentimento, ou talvez
atitude, que se parece muito com o Duplipensar, a hipocrisia. Orwell, em um de seus ensaios,
trata do modo como os Ingleses são hipócritas quanto ao Império Britânico, apenas para citar
um exemplo.
Bem, conhecido o Duplipensar, passemos à analise dos Ministérios, que aqui importa
na delineação do funcionamento do IngSoc. Antes de nosso pequeno passeio falávamos do
Ministério da verdade e da alteração do passado, tanto na literatura quanto nos periódicos, de
modo que as palavras atuais do Partido estivessem sempre certas, tanto agora quanto no
passado, sem que nenhuma prova escrita pudesse dizer o contrário.
Assim como a terceira mensagem, esta referia-se a um erro muito simples que
poderia ser corrigido em alguns minutos. Como a pouco tempo atrás, em Fevereiro,
o Ministério da Fartura fez uma promessa [..] de que não haveria redução da ração
de chocolate durante 1984. Na verdade, como sabia bem Winston, a ração de
chocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas no final da presente semana.
Tudo que era necessário era substituir a promessa original por um aviso de que
provavelmente seria necessário reduzir a ração de chocolate em algum ponto em
Abril. (ORWELL, 1984, p. 38-39) [Tradução nossa]4
O que é promovido no Ministério da Verdade vai além da simples alteração das
“notícias” do Times, este também altera a literatura, os periódicos, os panfletos, e toda essa
alteração passa, no fim das contas, por verdade, sem que haja nenhuma prova de que tal
4
As for the third message, it referred to a very simple error which could be set right in a couple of minutes. As
short a time ago as February, the Ministry of Plenty had issued promise […] that there would be no of the
chocolate ration during 1984. Actually, as Winston was aware, the chocolate ration was to be reduced from thirty
grammes to twenty at the end of the present week. All that was needed was to substitute for the original promise
a warning that it would probably be necessary to reduce the ration at some point in April.
29
façanha tenha acontecido. É de interesse, como aponta Vargas Llosa, de todo governo que
visa à manutenção do poder, alterar o passado, de modo que estes estejam sempre com a
razão. Isso o escritor peruano aponta ter sido feito pelos Incas, assim Orwell descreveu em
1984, e assim ele viu acontecer, pessoalmente, durante a guerra civil espanhola.
Em um estado totalitário, não somente e a opressão são capazes de manter o povo
subjugado. É preciso que o Partido se afirme, que ele não se contradiga jamais, e mais que
isso, é preciso que esse possa, por meio de toda sua carga ideológica, entrar no coração dos
oprimidos, de modo que esses não possam, mesmo que conscientes da necessidade, se rebelar
contra o opressor.
Em linhas gerais, o verdadeiro trabalho do Ministério da verdade é a propaganda,
usada como força coercitiva, no sentido empregado por Arendt (1951). Quando a autora
aponta que o intuito da propaganda não é, senão, provocar um comportamento, utilizando-se
dos argumentos religiosos, científicos, os preconceitos sociais e, muito frequentemente, a
mentira. A teórica alemã descreve e elucida a questão da propaganda nos regimes totalitários,
e nossos olhares, voltados para 1984 não se enganam e veem, perfeitamente, como o
Ministério da Verdade desenha-se uma caricatura muito fiel do que é o discurso ideológico
propagandista dos regimes totalitários.
Tratamos inicialmente do Ministério responsável pela propaganda, e antes de
prosseguirmos para os próximos, cabe mais uma pincelada no que Arendt (1951) propõe ao
escrever sobre a propaganda e seu sucesso nos regimes totalitaristas. Arendt (1951, p.395)
aponta que “O “coletivismo” das massas foi acolhido de bom grado por aqueles que viam no
surgimento de “leis naturais do desenvolvimento histórico” a eliminação da incômoda
imprevisibilidade das ações e da conduta do indivíduo.” Nesse viés, o estado totalitário se
coloca como detentor da dinâmica que move a vida, como a consciência maior, coletiva,
eliminando do caráter político a individualidade e suas divergências. Na narrativa do romance
o Partido se declara de tal modo, como consciência imortal e infalível, justamente por ser
coletiva:
Mas eu te digo Winston, que a realidade não é externa. A realidade existe na mente
humana, e em nenhum outro lugar. Não na mente individual, que pode cometer
erros, e de todo modo logo se perde: apenas na mente do Partido, que é coletiva e
imortal. O que quer que seja que o Partido acredite ser a verdade é a verdade. É
impossível ver a realidade senão olhando pelos olhos do Partido. (ORWELL, 1984,
p. 251) [Tradução nossa]5
5
But I tell you, Winston, that reality is not external. Reality exists in the human mind, and nowhere else. Not in
the individual mind, which can make mistakes, and in any case soon perishes: only in the mind of the Party,
30
Evidente que toda pretensão de uma análise direta e com nuances de prescrição
incorrigível é perigosa e passível de erros, no entanto, não é necessária nem mesmo uma boa
vontade muito grande para perceber quanto dessa carga de ficção, no sentido dado por Arendt,
imposta pela propaganda dos regimes totalitários, está presente em 1984. Se a mente coletiva,
pretendida pelos regimes totalitários agem assim, de maneira onipresente e infalível, isso se
dá apenas pelo discurso falacioso, umas vez que a abolição do indivíduo aprisiona a sociedade
e poda, com o passar do tempo, qualquer possibilidade de rebelião.
Sem dúvidas, um aparelho ideológico contundente é base central para qualquer
governo totalitarista, no entanto, outras maneiras de opressão e controle são necessárias, pois
são também, capazes de manter as pessoas focadas em sua devoção pelo opressor.
O Ministério da Fartura e o Ministério da Paz podem ser colocados no mesmo
patamar, pois tratam de coisas semelhantes, de acordo com o que o próprio Orwell constrói no
romance. O primeiro, como já ficou claro, ocupa-se com a fome e a miséria. É o Ministério
responsável pela produção e distribuição de todos os bens produzidos na Oceania. O que a
princípio não tem nada de incomum. No entanto, se observarmos o que já foi descrito sobre o
Ministério da Verdade, perceberemos que, intimamente, a principal função do Ministério da
verdade não é, por uma maneira ou por outra, promover o bem estar social. No mesmo
sentido, o Ministério da Fartura tem como finalidade promover fome e miséria na Oceania.
Essa constatação tem sua importância explicada por O’Brien:
“O poder verdadeiro, o poder pelo qual temos que lutar dia e noite, não é o poder
sobre as coisas, mas sobre o homem.” Ele pausou, e por um momento assumiu
novamente seu ar de professor questionando um aluno promissor: “Como um
homem afirma o seu poder sobre outro?” [...] “Exatamente, fazendo-o sofrer.
Obediência não é suficiente. A menos que ele esteja sofrendo, como você pode ter
certeza que ele está obedecendo a sua vontade e não a dele? Poder está em infligir
dor e humilhação. Poder está em quebrar uma mente em pedaços e depois coloca-los
juntos em novas formas da sua escolha.” [...] Se você quer uma imagem do futuro,
imagine uma bota pisando em uma face humana – para sempre.” (ORWELL, 1984,
p. 268-270) [Tradução nossa]6
which is collective and immortal. Whatever the Party holds to be truth, is truth. It is impossible to see reality
except by looking through the eyes of the Party.
6
“The real power, the power we have to fight for night and day, is not power over things, but over men.” He
paused, and for a moment assumed again his air of schoolmaster questioning a promising pupil: “How does one
man assert his power over another, Winston?” […] “Exactly. By making him suffer. Obedience is not enough.
Unless he is suffering, how can you be sure that he is obeying you will and not his own? Power is in inflicting
pain and humiliation. Power is in tearing human minds to pieces and putting them together again in new shapes
of your own choosing.” […] “If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face –
forever.”
31
O que O’Brien fala para Winston parece devaneio e alucinação, no entanto tem um
fundo muito coerente. Seguindo os princípios do Duplipensar, o nome do Ministério da
Fartura é um antagonismo direto à sua função. Essencialmente, a função desse ministério é
promover o sofrimento, a fome, a miséria na sociedade da Oceania. Não é de interesse do
estado que as pessoas tenha um bom padrão de qualidade de vida. Não é de interesse do
estado que as pessoas tenham suas necessidades básicas satisfeitas inteiramente, de modo a
dar-lhes qualquer que seja a possibilidade de prazer, satisfação ou conforto.
No funcionamento do Partido, os membros têm diversas funções nas fábricas, nos
campos, na burocrática administração, entre outras tarefas. O que chama a atenção é que a
produção declarada de bens de consumo é enorme, porém, a maior parte da população vive
precariamente, com porções “muito bem racionadas” de comida, roupa, produtos de higiene
pessoal e alguns prazeres. Isso faz parte das ações de opressão e controle. Fica, então, a
pergunta, aonde vão parar todas as riquezas produzidas que não servem, por deliberado intuito
do Partido, para aumentar o padrão geral de qualidade de vida das pessoas?
É nesse ponto que cabe mostrar como os Ministérios da Fartura e da Paz podem ser
colocados no mesmo patamar, e ainda mais, como a atuação do último influencia no sucesso
do primeiro. Sendo função de o primeiro promover a precariedade da vida ao privar as
pessoas de terem acesso aos bens produzidos, é necessário para que esse trabalho seja
realizado de maneira satisfatória, que os bens de consumo, ou que a força de trabalho dos
membros do Partido e dos proles seja gasta, “desperdiçada” por algum evento justificável e
necessário, de modo que, mesmo que sofrendo, as pessoas acreditem sofrer para o bem da
nação.
Quando Arendt (2006) toca no assunto ficção, em Origens do Totalitarismo, referindo-
se à propaganda, ela nos traz também um fecundo material para decifrar o que se esconde por
trás do Ministério da Paz. Também, pelos princípios do Duplipensar, a função do Ministério
da Paz é promover a guerra. O fato é, como explica Orwell no livro de Goldstein, não há mais
nada pelo que lutar, pois a produção de bens de consumo passou a ser suficiente nos três
superestados, Oceania, Eurásia e Lestásia. Nesse sentido fica a pergunta: qual o motivo da
guerra então? A resposta, de acordo com o pretendido por Orwell encontra-se em um trecho
do livro de Goldstein:
O objetivo primário da guerra moderna (de acordo com os princípios do
Duplipensar, esse objetivo é simultaneamente reconhecido e não reconhecido pelos
cérebros dirigentes do Partido Interno) é gastar os produtos da máquina sem
aumentar o padrão geral de vida. Desde o fim do século XIX, o problema sobre o
que fazer com o superávit dos bens de consumo tem sido latente na sociedade
32
industrial. [...] O mundo de hoje é um lugar nu, faminto e dilapidado, se comparado
com o mundo que existiu antes de 1914, e ainda mais se comparado com o futuro
imaginário que as pessoas daquele período esperavam. (ORWELL, 1984, p. 189-
190) (Tradução nossa)7
Causa choque ver uma descrição como essa dos objetivos de uma guerra, no entanto, a
distopia orwelliana se dispõe justamente a esse papel. O caminhar junto do Ministério da
Fartura e da Paz, portanto, segue, tal como os outros dois Ministérios, o dever de manter uma
sociedade hierárquica. Não obstante, toda a conjuntura planejada e executada pelo Partido é
voltada a uma manutenção ininterrupta do poder.
A combinação das ações desses dois Ministérios implica em uma sociedade vivendo
em condições que não lhes permite a faculdade plena de pensar. Seja pela ficção e
propaganda, seja pela carga horária de trabalho e condições de vida precárias, a capacidade
das massas menos abastadas de se rebelar e tomar o poder da improdutiva casta dominante é
relegada silenciosamente.
Mais adiante o livro de Goldstein aponta, também, qual o problema em uma sociedade
com um padrão geral de vida elevado, e qual o perigo disso para o Partido, o que deixa claro
então, todo o enfoque dado na guerra pelo Partido, e mais que isso, o fato de que ela, seja
contra Eurásia ou Lestásia, seja ininterrupta e permanente.
No romance esses aspectos dos Ministérios da Fartura e da Paz não são tão
profundamente discutidos, mesmo assim, a delineação aqui feita aponta para quais aspectos
da vida na Oceania são realmente controlados por esses dois órgãos. Poderia dizer-se que o
trabalho mais eficiente de controle fica por conta desses dois Ministérios, uma vez que eles,
juntos, promovem o que se tem de mais geral na opressão e no controle exercido pelo Partido
sobre os membros do Partido Externo e sobre os proles. Para explicar melhor a qual tipo de
sociedade o Partido rejeita, cabe olhar mais um trecho do que diz o livro de Goldstein:
Seria possível, sem dúvida, imaginar uma sociedade na qual a riqueza, no sentido de
posses pessoais e luxos, fosse dividida igualmente, enquanto o poder permaneceria
nas mãos de uma pequena e privilegiada casta. Mas na prática essa sociedade não
poderia se manter estável por muito tempo. Por conta que lazer e tranquilidade
seriam provados por todos, a grande massa de gente que normalmente está
estupefata pela pobreza se tornariam letradas e aprenderiam a pensar por eles
mesmos; e uma vez que eles tivessem feito isso, cedo ou tarde perceberiam que a
minoria privilegiada não tem nenhuma função e eles os varreriam da sociedade. Em
7
The primary aim of modern warfare (in accordance with the principles of doublethink, this aim is
simultaneously recognized and not recognized by the directing brains of the Inner Party) is to use up the products
of the machine without raising the general standard of living. Ever since the end of the nineteenth century, the
problem of what to do with the surplus of consumption goods has been latent in industrial society. […] The
world of to-day is a bare, hungry, dilapidated place compared with the world that existed before 1914, and still
more so if compared with the imaginary future to which the people of that period looked forward.
33
longo prazo, uma sociedade hierárquica somente seria possível na base da pobreza e
da ignorância. (ORWELL, 1984, p.191) (Tradução nossa)8
Até agora foi traçado um panorama que mostra com a sociedade da Oceania é
controlada e de que maneira os Ministérios deturpam a realidade de modo a promover a
conjuntura necessária para controlar o povo. Faltando ainda falar do Ministério do Amor,
descrito no romance como o mais assustador, tanto pelo nome quanto pela sua construção,
sem janela, e completamente cercado nas proximidades. Esse último Ministério, para fins
práticos de trabalho, pode ser chamado de sanatório.
Em uma sociedade onde todo pensamento contrário ao do partido dominante é, quase
que totalmente, impossível de ser formulado em virtude de todo o trabalho de lavagem
cerebral e medo, ódio aos inimigos e devoção ao Grande Irmão, auto humilhação e aceitação
do Partido como a única verdade e a única razão, é necessário que se tenha também um
mecanismo de punição, de rendição, de “cura”, para aqueles que mesmo no meio de toda a
conjuntura não são capazes de aceitar e enxergar a “verdade”.
Com Winston, nem mesmo toda a trapaça, ficção, propaganda e opressão fizeram o
efeito desejado pelo Partido. O solitário herói de 1984 é o único que se mostra capaz, na
narrativa, de perceber o absurdo que é o Duplipensar, a deslavada alteração do passado, e
talvez o pior de tudo, a vida dura, precária e ignóbil que os membros do Partido Externo
engoliam alegremente e com extrema gratidão. O tema central da história, no fim das contas,
se passa pela rebelião de Winston, o sucesso momentâneo e por fim a queda. Tudo isso
vigiado, durante sete anos, por O’Brien, pela Polícia do Pensamento, pelo Ministério do
Amor.
Quando toda a conjuntura falha, quando toda a propaganda e ficção são ineficientes,
quando a miséria e o sofrimento são incapazes de criar em qualquer que seja o membro do
Partido, o Ministério do Amor então intervém, fazendo com que o herege, o rebelde converta-
se e saia do seu estado latente de “loucura”. Essa intervenção, que à primeira vista pode
parecer uma simples tortura, para conseguir a confissão, e então o enforcamento ou
fuzilamento como castigo vai, no entanto, muito além e tem como princípio ideológico algo
muito simbólico e importante para o IngSoc e seus princípios.
8
It was possible, no doubt, to imagine a society in which wealth, in the sense of personal possessions and
luxuries, should be evenly distributed, while power remained in the hands of a small privileged caste. But in
practice such a society could not long remain stable. For if leisure and security were enjoyed by all alike, the
great mass of human beings who are normally stupefied by poverty would sooner or later realize that the
privileged minority had no function, and they would sweep it away. In the run, a hierarchical society was only
possible on a basis of poverty and ignorance.
34
Nas palavras de O’Brien para Winston, nenhum dos crimes que este cometeu foram de
alguma importância, apenas o pensamento herege importava. Isso talvez não conte muito bem
qual o trabalho maior do Ministério do Amor, porém nos aponta para o caminho certo, a partir
do qual podemos trilhar, respondendo à seguinte questão: se uma sociedade dominada e
vigiada, subjugada pela fome, miséria e o terror da guerra é a base para a manutenção do
poder nas mãos de alguns, qual o perigo de alguém pensar diferente, de ser um lunático ou
insano, como define O’Brien acerca de Winston?
A resposta para essa pergunta é bastante interessante, embora não seja difícil de
compreender. Quando o Partido diz que Ignorância é Força, Liberdade é Escravidão E Guerra
é Paz ele impõe a todos um lema antagônico, absurdo e nada natural.No entanto, toda a
conjuntura montada pelo Partido, auxiliado pelos princípios do Duplipensar, leva a uma
aceitação livre de coração e alma desses slogans arbitrários e contraditórios. Isso nos mostra
quão simples é a ideia por trás da opressão produzida pelo Partido, esse conceito delibera que
todos devem ter como verdade, como razão, o que diz o Partido, o que diz o Grande Irmão;
que todos devem ter como amor o amor pelo Partido, o amor pelo Grande irmão, e como ódio
apenas o ódio pelos inimigos do Partido, que é apenas por esse definido.
Não se encaixar nessa ortodoxia é o mais grave dos crimes, como constata Winston,
ao escrever: “Crime de Pensamento não condena à morte: crime de pensamento É a morte”.
(ORWELL, 1984).9
Isso porque, como já foi mencionado anteriormente, o poder desejado
pelos “manipuladores sem face” personificados no Grande Irmão é o poder sobre as mentes
humanas, o poder de destruí-las e refazê-las em diferentes formas a seu bel prazer.
“Onde não há luz” encontra-se o herege e seu inquisidor, no enorme prédio sem
janelas, no Ministério do Amor. A função do desse Ministério tem tudo a ver com o amor,
com a devoção e o sentimento paternal pelo salvador de alguém. No entanto o único amor, a
única devoção e sentimento paternal é todo do Grande Irmão, não há amor que não pelo
Grande Irmão, nem devoção. É o Ministério do Amor o responsável pela Polícia do
Pensamento, o responsável pelas prisões, pelos interrogatórios e pelas execuções. Mas acima
de tudo, acima de todas as coisas, é o responsável pela cura, pela transformação do herege em
um exemplar membro do Partido, em um amante do Grande Irmão.
“Você está progredindo. Intelectualmente há pouca coisa de errado com você. É
apenas emocionalmente que você tem falhado em progredir. Diga-me, Winston – e
lembre-se, sem mentiras: você sabe que eu sempre sou capaz de detectar uma
mentira – diga-me, qual seu verdadeiro sentimento pelo Grande Irmão?” “Eu o
9
Thoughtcrime does not entail death: thoughtcrime IS death
35
odeio.” “Você o odeia. Certo. Então chegou o tempo de você dar o próximo passo.
Você deve amar o Grande Irmão. Não é suficiente obedecê-lo: você deve amá-lo.”
(ORWELL, 1984, p. 284) (Tradução nossa)10
Claro está que o Partido aprisiona não o corpo da pessoa, não as ações no sentido
físico, mas suas emoções e seus pensamentos, convergindo todos eles para o Grande Irmão.
Enforcar ou fuzilar o herege não é suficiente, é preciso primeiro que ele seja aprisionado,
transformado e convertido. Finalizando bem essa questão, Orwell apresenta na narrativa quão
importante é a liberdade individual de amar ou odiar a quem você bem entender, de pensar o
que lhe convir, de conhecer a verdade pelos seus olhos e julgá-la pelos seus princípios, não
pelo Partido, pelo Grande Irmão.
Um dia eles decidiriam executá-lo. Não seria possível dizer quando aconteceria, mas
deveria ser possível adivinhar alguns segundos antes. Era sempre pelas costas,
andando em um corredor. Dez segundos seriam suficientes. Naquele momento o
mundo dentro dele poderia se entregar. E então, de repente, sem nenhuma palavra
dita, sem verificar o seu passo, sem mudar uma linha na sua face – de repente a
camuflagem viria abaixo e bang! Iria as baterias do seu ódio. O ódio o invadiria
como uma enorme chama crepitante. E quase no mesmo instante bang! iria a bala,
muito tarde, ou muito cedo. Eles poderiam ter estourado o seu cérebro antes de
recuperá-lo. A heresia seria impune, sem arrependimento, fora do alcance deles para
sempre. Eles teriam feito um buraco em sua própria perfeição. Morrer odiando-os,
isso seria liberdade. (ORWELL, 1984, p.283) (Tradução nossa)11
Estender ainda mais a discussão sobre os Ministérios do IngSoc e suas funções não se
mostra mais uma tarefa fecunda. Pôde ser visto na análise até aqui feita como os quatro
órgãos desempenham papéis importantes, individuais, mas que fazem efeito apenas em
conjunto, para o controle e a manutenção do poder na Oceania. O Partido é imortal, é perfeito
pois nega-se, inimaginável possibilidade essa, a aceitar que mesmo um pensamento contrário
as suas doutrinas possa existir sem que eles tenham a oportunidade de muda-lo. O papel da
propaganda e da ficção gera o pensamento geral desejado para cada uma das classes. O
sofrimento com a fome, a miséria e a guerra gera a obediência mais sincera. Por fim, o que
escapar a esses métodos ficará a cargo do Ministério do Amor. O Grande Irmão será amado,
10
“You are improving. Intellectually there is very little wrong with you. It is only emotionally that you have
failed to make progress. Tell me, Winston – and remember, no lies: you know I am always able to detect a lie –
tell me, what are you true feelings for the Big Brother?” “I hate him.” “You hate him. Good. Then the time has
come for you to take the last step. You must love Big Brother. It is not enough to obey him: you must love him.”
11
One day they would decide to shoot him. You could not tell when it would happen, but a few seconds
beforehand it should be possible to guess. It was always from behind, walking down a corridor. Ten seconds
would be enough. In that time the world inside him could turn over. And then suddenly, without a word uttered,
without a check on his step, without the changing of a line in his face – suddenly the camouflage would be down
and bang! would go the batteries of his hatred. Hatred would fill him like an enormous roaring flame. And
almost in the same instant bang! would go the bullet, too late, or too early. They would have blown his brain to
pieces before they could reclaim it. The heretical thought would be unpunished, unrepented, out of their reach
for ever. They would have blown a hole in their own perfection. To die hating them, that was freedom.
36
o Partido dirá sempre a verdade e ninguém mais, essa é a lei na Oceania, esse é o trabalho do
Ministério do Amor.
2.2 O Grande Irmão – O amado opressor
Nesse capítulo faremos uma análise acerca dos aparelhos de controle usados pelo
Partido, os quais seguem os princípios do IngSoc, e de que maneira esses instrumentos são
capazes de modificar/deturpar a realidade de modo a promover uma massa mesmificada,
incapaz de rebelar-se organizadamente. Esses organismos buscam, também, varrer para o
infinito do esquecimento qualquer tentativa individual de rebelião através de uma conversão
genuína e verdadeira à “causa” do Partido. Deve ser esclarecido, mais adiante, que o Partido é
uma organização, em certa proporção, sem faces e sem nomes por trás. A personificação dos
governantes, manipuladores sem face, como aponta Orwell através do narrador do romance, é
o Grande Irmão, ícone máximo da opressão em nome do amor, do autoritarismo em nome do
socialismo, da mentira em nome da verdade. É do Grande Irmão que a análise agora se ocupa.
A importância do Grande Irmão é inegável, afinal “ele é imortal”. O Grande Irmão é o
salvador de toda a Oceania e sua benevolência para com os camaradas infinita. O Grande
Irmão é severo e tem mãos de ferro para lidar com os inimigos do povo da Oceania. O Grande
Irmão é amado, pois é o líder supremo e de suas ordens apenas justiça pode ser retirada,
apenas a verdade vem acompanhada.
A configuração política do Partido é bastante interessante no que concerne a alguns
conceitos alheios ao romance. Enquanto que o status de líder nas sociedades que conhecemos
realça em cores bem pomposas o fascínio exercido pelo poder, com o IngSoc o anonimato dos
líderes é a garantia maior de seu sucesso. A divisão entre Partido Interno e Partido Externo
esclarece bem quem controla, quem é controlado e quem não é controlado porque não faz
diferença se é ou não. Contudo, o que importa mais primariamente nesse momento são os
mandatários anônimos, mais precisamente a sua personificação, o Big Brother.
Usar uma única figura, a qual ninguém jamais viu nem jamais verá pessoalmente
como líder máximo da Oceania é um modo de convergir, como é convergido, todo amor e
admiração, alienada, diga-se de passagem, das pessoas para um único ponto, de modo que a
concentração aumenta, exponencialmente, a genuinidade desses sentimentos. Já foi
mencionado nesse trabalho que todo o discurso do Grande Irmão, do líder totalitário, é
37
astutamente elaborado e apoiado pelo Duplipensar de modo que qualquer atrocidade contra o
povo pareça ser por seu próprio benefício.
Winston sabe, como mais ninguém no romance parece realmente saber12
, que o que o
Grande Irmão diz e faz não tem nenhuma relação com a realidade. Ele sabe que o amor
declarado pelo líder da Oceania por seu povo não existe, embora não tenha, em toda a
narrativa, a certeza de se o Grande Irmão é real ou não. Esse fato nos impõe em uma
encruzilhada que divide o caminho para o mesmo destino em duas distintas estradas. Na
primeira, temos um Grande Irmão protetor, o salvador da revolução, aquele que trouxe para
todos uma vida melhor; na segunda estrada temos um discurso falacioso, engolido graças a
lavagem cerebral coletiva promovida pelo Duplipensar, discernido por Winston.
Nessa dualidade pode-se estabelecer o termo amado opressor para designar o Grande
Irmão, e apontando como principal função o desvio da atenção do povo sobre os
“manipuladores sem face” do Partido Interno para um líder infalível, inatingível e invencível,
capaz de confortar com amor incondicional, mas com a mão pesada para castigar os inimigos
da revolução.
Definir o Grande Irmão com esse termo importa no entendimento da obra, pois retrata
quanto de Grande Irmão alguns déspotas tiveram em suas atuações políticas em países onde
se instalou alguma forma de poder totalitário. O entendimento mais claro dessa proposta de
análise pode ser esclarecido facilmente ao se observar os Dois Minutos de Ódio, onde
Emmanuel Goldstein é mostrado como o maior inimigo do povo, um dissidente que tomou
parte na revolução quase que no nível do Grande Irmão. A narrativa segue descrevendo como
Goldstein era visto pelo povo da Oceania:
Como de costume, a face de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, apareceu na
tela. Houveram assobios aqui e ali em meio a audiência. [...] Goldstein era o
renegado e desertor que havia sido, muito tempo atrás (quanto tempo, ninguém
lembrava claramente), tinha sido um dos líderes do Partido, quase no nível do
Grande Irmão, e então se envolveu em atividades antirrevolucionárias, foi
condenado à morte e misteriosamente escapou e desapareceu. [...] Ele era o principal
traidor, o primeiro profanador da pureza do Partido. Todos os crimes subsequentes
contra o Partido, todas as traições, atos de sabotagem, heresias, desvios, brotavam
diretamente de seus ensinamentos. (ORWELL, 1984, p.11) (Tradução nossa)13
12
Por conta do Duplipensar, nem mesmo O’Brien, conversando abertamente com Winston sobre as
discrepâncias entre discurso e prática do Partido é capaz de enxergar verdadeiramente que a vida na Oceania não
é como deveria ser, que as coisas deveriam ser melhores, a comida mais farta, a água mais quente, os corpos
mais opulentos...
13
As usual, the face of Emmanuel Goldstein, the Enemy of the People, had flashed onto the screen. There were
hisses here and there among the audience. […] Goldstein was the renegade and backslider who once, long ago
(how long ago, nobody quite remembered), had been one of the leading figures of the Party, almost on the level
with the Big Brother himself, and then had engaged in counter-revolutionary activities, had been condemned to
death and had mysteriously escaped and disappeared. […] He was the primal traitor, the earliest defiler of the
38
Durante os dois Minutos de Ódio o que se sucede é Goldstein falando toda sorte de
“leviandades” à respeito do Partido, acusando o Grande Irmão, dizendo que a revolução fora
traída, que o Partido é ditador, etc. O leitor sabe que o que Goldstein fala é a verdade,
Winston, em determinado momento vai descobrir que Goldstein fala a verdade, no entanto, a
histeria coletiva provocada pelo momento leva até mesmo a Winston, um dissidente, a odiar o
velho com “voz de ovelha” na tela.
Criar um inimigo central interessa totalmente ao Partido pois todo o ódio pode ser
facilmente direcionado àquele que todos os crimes comete. O Inimigo do Povo, o Inimigo do
Grande Irmão. Da mesma maneira como Goldstein é alvo de todas as acusações, de toda fúria
e ódio, seu opositor, àquele que defende o povo dessa figura malévola é o merecedor maior de
todas as honras, de toda devoção e de todo o amor. Na prática o Partido fala a verdade,
falando mal de si mesmo, mente ao mostrar-se, personificado no Grande Irmão, como o
salvador de tudo e de todos. Com os princípios do Duplipensar todo esse processo ocorre de
maneira intrínseca dentro da cabeça de cada um dos membros do Partido, cuja sanidade está
salvaguardada e cujo amor pelo Grande Irmão seja de coração e alma.
A centralização de todas as ações e discursos do Partido para o nome do Grande Irmão
cria então dois fatores muito interessantes para a casta dominante do Partido Interno: primeiro
estes se mantêm no anonimato, podendo então desfrutar do prazer sem jamais levantarem
suspeitas sobre si; segundo, facilita o trânsito dos sentimentos de amor e devoção a uma única
figura imortal, acolhedora e firme. Os Dois Minutos de Ódio, nesse sentido, servem para
reafirmar, a cada vez que Goldstein acusa de crimes o Grande Irmão, a inocência e
benevolência do último, e a seguridade que somente o Partido pode promover, por ser imortal
e infalível. A esse aspecto pode se consultar no romance:
O ódio tinha atingido o seu clímax. A voz de Goldstein tinha se tornado um
verdadeiro berro de ovelha, e por um instante a face se tornou a de uma ovelha.
Então a face de ovelha transformou-se na figura de um soldado Eurasiano que
parecia avançar, enorme e terrível, com sua metralhadora rugindo, e aparentando
sair da superfície da tela, [...] a figura hostil se transformou na face do Grande
Irmão, cabelos pretos, bigode preto, cheio de poder e misteriosamente calmo, e tão
vasto que quase tomou toda a tela. [...] Então a face do Grande Irmão foi sumindo da
tela, e no lugar os três slogans do Partido apareceram em caixa alta: GUERRA É
PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, INGNORÂNCIA É FORÇA. [...] Mas a
face do Grande Irmão pareceu persistir por vários segundo na tela [...] Nesse
momento todo o grupo de pessoas começaram a entoar um canto profundo lento e
ritmado de “B-B!....B-B! [...] Por cerca de trinta segundos mantiveram o canto. [...]
Party’s purity. All subsequent crimes against the Party, all treacheries, acts of sabotage, heresies, deviations,
sprang directly out of his teaching.
39
Parcialmente isso era uma espécie de hino à sabedoria e majestade do Grande Irmão,
mas ainda mais, era um ato de auto hipnose, um afogamento deliberado da
consciência por meio de um barulho rítmico. As entranhas de Winston pareceram
gelar. Nos Dois Minutos de Ódio ele não podia evitar compartilhar o delírio geral,
mas esse canto sub-humano de “B-B!...B-B!” sempre o enchia de horror.
(ORWELL, 1984, p.15-16) (Tradução nossa)14
Esse trecho da narrativa afirma como o Partido pode controlar os sentimentos das
pessoas. Toda a traição de Goldstein contra a prosperidade e paz da Oceania é convertida em
objeto de ódio e medo para os cidadãos, que se entregam então a uma histeria completa, onde
nada mais importa a não ser a ação de detestar e profanar profundamente o “inimigo” na tela.
Quando o terror e o ódio chegam ao clímax, então aparece o “salvador”, O Grande Irmão, o
Partido em Pessoa, e então tudo fica bem novamente, pois o peito protetor e amável do
homem atrás do bigode é o refúgio para todos os problemas, e o único objeto de adoração,
confiança amor e respeito. Tudo está bem com o Grande Irmão.
Nessa análise se vê uma personificação de uma força totalitária, o Grande Irmão, a
força totalitária que essa figura representa oprime, impõe sofrimento e medo àqueles sob sua
guarda, e tudo isso o faz em nome do bem estar dos oprimidos. O amado opressor não é um
devaneio da literatura, nem de Orwell, é uma realidade retratada de maneira vívida e
contundente em 1984.
14
The Hate rose to its clímax. The voice of Goldstein had become an actual sheep’s bleat, and for an instant the
face changed into that of a sheep. Then the sheep-face melted into the figure of an Eurasian soldier who seemed
to be advancing, huge and terrible, his submachine gun roaring, and seeming to spring out of the surface of the
screen, […] the hostile figure melted into the face of Big Brother, black haired, black-moustachio’d, full of
power and mysterious calm, and so vast that it almost filled up the screen. […] Then the face of Big Brother
faded away again, and instead the three slogans of the Party stood out in bold capitals: WAR IS PEACE,
FREEDOM IS SLAVERY, IGNORANCE IS STRENGTH. But the face of Big Brother seemed to persist for
several seconds on the screen, […] At this moment the entire group of people broke into a deep, slow,
rhythmical chant of “B-B!....B-B!” […] For perhaps as much as thirty seconds they kept it up. […] Partly it was
a sort of hymn to the wisdom and majesty of Big Brother, but still more it was an act of self-hypnosis, a
deliberate drowning of consciousness by means of rhythmic noise. Winston’s entrails seemed to grow cold. In
the Two Minutes Hate he could not help sharing the general delirium, but the sub-human chanting of “B-B….B-
B” always filled him with horror.
40
3 1984 E O NOSSO TEMPO
À luz da análise feita nesse trabalho, um aspecto deve ser considerado, buscando, não
só o entendimento da obra, mas também o entendimento do nosso tempo, como justificativa
para o dispêndio da pesquisa. Nessa perspectiva, a pergunta que emerge é: qual a relação
entre o “anuncioso” ou “denuncioso” mundo de 1984 e o nosso tempo? Como já discutido no
primeiro capítulo, a literatura liga-se à realidade, modificando-a e por ela sendo modificada.
De modo que a leitura desse romance, bem como a pesquisa acerca do seu conteúdo político e
sedicioso, está intrinsecamente ligada a uma alteração no nosso modo de ver as coisas, de ver
o mundo e as relações de poder. Ao fim desse capítulo pretende-se estabelecer uma relação
muito clara e genuína entre a denúncia de Orwell acerca dos regimes totalitaristas do passado
e um novo modelo de controle – o Neoliberalismo.
O que leva esse trabalho a esse ponto são as características do mundo atual, desde
aspectos políticos a aspectos culturais, e muito da influência das novas tecnologias da
informação e comunicação como instrumentos da globalização, e, até mesmo, em
determinadas esferas, de controle. As teletelas do nosso mundo estão interligadas no mundo
todo, e em certa proporção, acessíveis à qualquer governo ou instituição pública. Os
computadores tomaram nossas vidas, e sem eles não podemos mais nada fazer. A Polícia do
Pensamento, talvez uma das invenções mais absurdas do romance, assume hoje uma nova
face, não a de vigilante, mas a de educador. A formação de um massificada “cultura mundial”
tem, a longo prazo, o poder de impor todos os desejos do capitalismo sem que nenhum
questionamento seja levantado.
3.1 A atualidade de 1984
Não é raro ler ou ouvir: “Orwell foi profético”, “está mais atual do que nunca”. Esse
tipo de afirmação faz sentido? A essa resposta cabe uma reflexão acerca dos aspectos
abordados nesse trabalho e de aspectos da nossa vida cotidiana. Uma busca de certa forma
dirigida, o que, no entanto não invalida os resultados encontrados, em vista de que as
“coincidências” não são meros acasos, mas têm inclusive, fundo teórico que aponta de modo
bastante consistente relações de causa e efeito nos aspectos da sociedade atual abordados
nesse trabalho.
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A crítica orwelliana aos regimes totalitaristas hélio pereira barreto

  • 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO CAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO COITÉ HÉLIO PEREIRA BARRETO A CRÍTICA ORWELLIANA AOS REGIMES TOTALITARISTAS CONCEIÇÃO DO COITÉ 2012
  • 2. HÉLIO PEREIRA BARRETO A CRÍTICA ORWELLIANA AOS REGIMES TOTALITARISTAS Monografia apresentada à Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação, Campus XIV, como requisito final à conclusão do Curso de Letras com Habilitação em Língua Inglesa e Literaturas – Licenciatura. Prof. Dr. Luiz Antônio de Carvalho Valverde CONCEIÇÃO DO COITÉ 2012
  • 3. HÉLIO PEREIRA BARRETO A CRÍTICA ORWELLIANA AOS REGIMES TOTALITARISTAS Monografia apresentada à Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação, Campus XIV, como requisito final à conclusão do Curso de Letras com Habilitação em Língua Inglesa e Literaturas – Licenciatura. Aprovada em: ___/___/___ Banca examinadora _______________________________ Luiz Antonio de Carvalho Valverde – Orientadora Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV _________________________________________ Neila Maria Oliveira Santana Universidade do Estado da Bahia – Campus VII _________________________________________ Rita de Cássia Sacramento Universidade do Estado da Bahia – Campus XIII CONCEIÇÃO DO COITÉ 2012
  • 4. Dedicamos este trabalho aos nossos familiares, pela contribuição ao longo de todo o sempre, aos amigos, pelas horas de conversa, aos colegas, pela jornada, e aos mestres inesquecíveis, por toda a ajuda dada.
  • 5. AGRADECIMENTOS A Deus, em primeiro, lugar, por ter feito o homem um ser político e de pensamento livre, capaz de refletir e criticar construtivamente desde suas criaturas até seu criador. Aos meus familiares que com amor me trouxeram até aqui, apoiando sempre a jornada em busca do conhecimento como forma de dignificação do homem. Ao Profº Luiz Antonio De Carvalho Valverde, por ter acolhido o projeto e incentivado o trabalho e pelas suas brilhantes contribuições ao longo dos anos nesse curso. Aos meus professores, desde o primário até os dias de hoje, colaboradores essenciais na busca do conhecimento, em especial à professora Flávia Aninger de Barros Rocha, por despertar em mim o gosto profundo e intenso pela literatura, fosse por uma prazerosa leitura, ou uma por uma didática de entendimento da vida. Aos amigos, pela amizade, por estender a mão, apoiar e me confortar nos momentos de angústias e dificuldades, em especial a Airan Monalize Reis Mendes, por puxar minha orelha nos momentos de distração e pelos sucessivos avisos acerca das minhas obrigações. Aos funcionários do Campus XIV pela disposição em me ajudar em todos os momentos. Aos colegas, pelos momentos de alegria, convívio e apoio.
  • 6. Welcome to your life There's no turning back Even while we sleep We will find you Acting on your best behavior Turn your back on Mother Nature Everybody wants to rule the world It's my own design It's my own remorse Help me to decide Help me make the most of Freedom and of pleasure Nothing ever lasts forever Everybody wants to rule the world There's a room where the light won't find you Holding hands while the walls come tumbling down When they do I'll be right behind you So glad we've almost made it So sad they had to fade it Everybody wants to rule the world I can't stand this indecision Married with a lack of vision Everybody wants to rule the world Say that you'll never, never, never, never need it One headline, why believe it? Everybody wants to rule the world Tears for Fears
  • 7. RESUMO Este trabalho teve como objetivo, desde o início, propor um retrato da crítica orwelliana aos regimes totalitaristas da segunda metade do século XX através de uma análise sociológica e política do romance 1984. Tendo como ponto inspirador do projeto a leitura dessa obra de George Orwell, e o entendimento da sociedade “democrática” atual como um regime totalitário maquiado, esse trabalho se valeu da pesquisa bibliográfica na busca por subsídios teóricos acerca da literatura e sua relação com a realidade; do totalitarismo em seus aspectos de discurso e prática, principalmente; do Neoliberalismo, entendido nesse trabalho como um regime totalitarista, por promover uma dinâmica de alienação de massas. A essas três frentes de pesquisa os principais teóricos consultados foram: Arendt (2006); Candido (2006); Betto (2012); Goldmann (1990); Llosa (2007); Lukács (2000); Orwell (1946); Trotsky (2008). A partir das leituras feitas pudemos traças um paralelo entre as relações de influência existentes entre a Literatura, mais especificamente o romance, e a realidade. Essa linha de raciocínio servindo, desse modo, para justificar o entendimento de um romance enquanto crítica a fatos da vida real. A respeito do totalitarismo, os teóricos estudados, e os fatos históricos apontados nos permitiram assinalar com clareza como se configuravam os regimes totalitários da primeira metade do século XX. Por fim a análise acerca do Neoliberalismo serviu como ponto chave no entendimento da atualidade do romance e a importância da leitura do mesmo para os dias de hoje. O estudo detalhado do romance, a partir das elucidações teóricas, apontou, como esperado, a narrativa como, também, uma crítica aos regimes totalitários. Palavras-chave: Literatura. Realidade. Totalitarismo. Neoliberalismo.
  • 8. ABSTRACT This work had as main objective, since from the beginning, proposing a portrait of the orwellian criticism towards the first Twentieth Century half through a sociological and political analysis of the novel 1984. The inspiring point of the project was the reading of this George’s Orwell book, and the understanding about the “democratic” contemporary society as a fake democratic like totalitarian regime, this work made use of the bibliographic research in seeking for theoretical subsidies about literature and its relation to reality; totalitarianism in its practice and discourse aspects, mainly; Neoliberalism, understood in this paper as a totalitarian regime, for this promotes a dynamic of alienation of the masses. Concerning these three areas of research, the main consulted theorists were: Arendt (2006); Candido (2006); Betto (2012); Goldmann (1990); Llosa (2007); Lukács (2000); Orwell (1946); Trotsky (2008). Starting from the done readings we could draw a panorama of the relations of influences existing between the Literature and, more specifically the novel, and reality. This line of thought then, serves to justify the understanding of a novel as a critic to real life facts. About the totalitarianism, the theorists studied, and the historical facts appointed allow us to assign with clarity how do configure the totalitarian regimes of the first Twentieth Century half. By the end the analysis about the Neoliberalism served as a key point to the understanding of the novel’s timeliness and the importance of its reading to the to-day’s days. The detailed study of the novel, starting from the theoretical elucidations, pointed out, as waited, the narrative, also so, a critic towards the totalitarian regimes. Keywords: Literature; reality; totalitarianism; Neoliberalism.
  • 9. SUMÁRIO INTRODUÇÃO: GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, IGNORÂNCIA É FORÇA......................................................................................................................................9 1 A LITERATURA COMO DENÚNCIA, O TOTALITARISMO COMO ACUSADO...............................................................................................................................11 1.1 Literatura x Realidade.........................................................................................................12 1.2 O romance como arma de denúncia....................................................................................15 1.3 O Totalitarismo Utópico.....................................................................................................19 1.3.1 Do Discurso......................................................................................................................19 1.3.2 Da prática.........................................................................................................................22 2 A FALÁCIA DO INGSOC – CARICATURA DOS REGIMES TOTALITARISTAS...............................................................................................................25 2.1 Os quatro ministérios e a deturpação da realidade..............................................................26 2.2 O Grande Irmão – O amado opressor.................................................................................35 3 1984 E O NOSSO TEMPO .................................................................................................38 3.1 A atualidade de 1984...........................................................................................................39 3.2 O Neoliberalismo frente a crítica orwelliana......................................................................42 3.3 A Polícia do Pensamento x A criação de uma cultura global – Um novo modelo de controle......................................................................................................................................44 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................................46 REFERÊNCIAS......................................................................................................................49
  • 10. 9 INTRODUÇÃO: GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, IGNORÂNCIA É FORÇA Eric Arthur Blair, ou George Orwell, nasceu na Birmânia em 1903, filho de uma família com tradição de trabalhar no setor administrativo do Império Britânico. Foi membro da Polícia Imperial na Índia, por vontade própria viveu a pobreza extrema junto com os miseráveis de Londres e Paris, e lutou na Guerra Civil Espanhola, onde viu pessoalmente o que mais lhe atormentou na vida, um fato ser contado não da maneira como aconteceu, mas como “queriam” que tivesse acontecido. Produziu uma grande e qualificada quantidade de ensaios políticos e crítica literária, além de romances considerados clássicos da Literatura, como Animal Farm e Nineteen Eighty-four. Morreu em 1949, após publicar sua maior obra e se casar pela segunda vez, vítima da tuberculose. A biografia reduzida do autor nos conta em linhas gerais como foi a vida dele, no entanto a sua obra prima, 1984, nos proporciona uma visão do gênio político e literário. Os três slogans do Partido são tão macabros quanto sua prática despótica e hipócrita. Os sentidos diametralmente opostos entre as ideias por trás dessas seis palavras nos indicam certeiramente a natureza do romance de George Orwell. Winston escreve em seu diário: Para o futuro ou para o passado, para um tempo em que o pensamento é livre, em que os homens são diferentes uns dos outros e não vivem sozinhos – para um tempo no qual a verdade existe e o que é feito não pode ser desfeito: Do tempo da uniformidade, do tempo da solidão, do tempo do Grande Irmão, do tempo do Duplipensar – saudações! (ORWELL, 1984, p.27) [tradução nossa]1 Em um mundo onde todos são vigiados, onde duas ideias contraditórias podem ser defendidas pela mesma pessoa simultaneamente, em um mundo no qual PENSAR é crime, vive Winston Smith, funcionário do Ministério da Verdade (Mentira), único no romance a mostrar de fato ter consciência da sua condição de dominado. Os três slogans do Partido representam, senão, um discurso falacioso completamente contraditório da prática, enquanto que o Duplipensar dá sustentação a essa prática, pois impede o questionamento de qualquer arbitrariedade, desde que ela seja imposta pelo Grande Irmão. A narrativa de 1984 é muito rica e profícua, não por acaso o romance é clássico, e nela podemos depreender uma série de aspectos importantes de serem estudados. Apesar disso não 1 To the future or to the past, to a time when the thought is free, when men are different from one another and do not live alone – to a time when truth exists and what is done cannot be undone: From the age of uniformity, from the age of solitude, from the age of Big Brother, from the age of doublethink – greetings!
  • 11. 10 há espaço para tanto nessa pesquisa, e nosso foco será nas características totalitárias do IngSoc, percebidas nitidamente apenas por Winston. Desiludido com sua vida solitária e vazia, Winston então reflete sobre o Partido a partir de suas memórias e das evidências encontradas por ele. No seu caminho, ele se depara com intrigantes pessoas, como o misterioso O’Brien, a revoltosa e amante Júlia e um membro da Polícia do Pensamento, Senhor Charrington. Quando planejado, 1984 seria chamado de O último homem da Europa, no entanto, por encorajamento dos editores, Orwell mudou o título do romance fazendo uma inversão entre os dois números finais que compunham o ano de lançamento da obra, 1948. O solitário Winston é, de fato, o último homem na Oceania, e trava uma luta ferrenha entre sua própria fraqueza intelectual e a incontrolável sensação, quase certeza de que algo muito errado acontecia no seu mundo, de que a vida deveria ser diferente, de que a liberdade deveria ser de fato a liberdade, de que a verdade deveria existir em oposição à mentira e serem inalteráveis as suas posições. Essas características que somente Winston consegue perceber de maneira crítica marcam na voz do narrador, todo o conteúdo político de 1984, objeto desse estudo. O absurdo conceito do Duplipensar implica na total ineficácia de qualquer outro aspecto da vida humana, uma vez que nada é errado nem certo, conquanto assim deseje Grande Irmão. Desse modo o mundo cinzento no qual vive o nosso herói não é tão somente aterrorizador, mas eficiente ao extremo em sua dinâmica. Em seus atos de rebeldia, Winston acredita agir sem o conhecimento da Polícia do Pensamento, e ao passo que se envolve com Júlia vai percebendo aos poucos o perigo que corre, deliberadamente tomando para si esse perigo, como se esse fosse o feito principal a ser realizado em sua vida. O personagem, no entanto, se engana, e desde o primeiro momento em que sua cabeça pensou fora dos limites do Grande Irmão, suas heresias foram vigiadas, manipuladas e gravadas, configurando um jogo de gato e rato, o qual só o Partido poderia sairia vencedor. Winston certamente acerta ao dizer: “crime de pensamento não implica em morte: crime de pensamento é a morte”. A distopia, em sua essência, desenha um futuro inimaginavelmente sombrio e desumano. A esse contexto vemos o quanto a obra de Orwell escava o medo pelo arbítrio incontrolado. A morte a qual Winston se refere não é o cessar da vida, mas o cessar do ser humano. Esse problema, profundamente abordado em 1984, não se trata de pura invenção, e, portanto, é objeto de análise dessa pesquisa. Ler as desventuras do famigerado Winston é, senão, olhar para uma pintura que mostra o lado obscuro do totalitarismo. E qual é sua pior
  • 12. 11 faceta que não a supressão do indivíduo? A negação do ser individual em detrimento do construto coletivo guiado por uma só cabeça? Winston e Júlia estavam sim mortos ao serem presos, nada mais poderiam ser ou estar. A batalha era em vão, o jogo perdido, eles eram os mortos. Talvez nada desenhe melhor e mais tristemente o medo de Orwell que o parágrafo final do romance, que a cena de Winston deixando para trás todas as dúvidas, logo elas, início de qualquer conhecimento novo e mais aprimorado, e aceitando em seu lugar uma certeza profunda e forte como as raízes da castanheira: o amor pelo Grande Irmão. Nesse perturbador cenário encontra-se um terreno muito fértil a uma análise crítica e sociológica da política totalitária da primeira metade do século XX. O não-lugar de Orwell se veste de aviso, se cobre de alertas para dizer ao homem: “existem verdades e não-verdades, e não se é louco por acreditar na verdade sozinho”. De modo que a modernidade tem conferido ao homem uma atualização do seu papel social, no qual esse deixa de ser agente questionador e passa a ser apenas reprodutor das “tendências” dominantes. A obra do autor inglês é de muito valor e merece ainda toda leitura crítica que puder ter. Talvez possamos traduzir esse romance em uma frase: não vença a vitória sobre você mesmo.
  • 13. 12 1 A LITERATURA COMO DENÚNCIA, O TOTALITARISMO COMO ACUSADO Nesse capítulo abordamos três questões teóricas fundamentais para o norteamento dessa análise – A Literatura e sua relação de influências com a realidade; as bases do totalitarismo evocando aspectos como discurso, prática e políticas de repressão e por fim, avaliações teóricas acerca do Neoliberalismo. Enquanto análise de uma ficção, as duas primeiras são essenciais, em virtude de tratar especificamente do gênero textual, enquanto forma, em voga. Em ponto inicial de pauta nos debruçamos sobre uma elucidação teórica acerca da relação estreita que as manifestações artísticas possuem com a realidade. O ponto 1.2 desse capítulo trata do romance como arma de denúncia, apresentando os postulados teóricos que abrangem essa força do romance. Contribuições imensas têm sido dadas ao longo da história da literatura a esse respeito, e, portanto é de inteiro interesse dessa análise apresentar o romance sob essa perspectiva. Uma vez que a leitura/análise da obra em questão busca delinear a crítica feita a regimes despóticos como o Nazismo e o Stalinismo, assim, inevitavelmente, o romance se transforma em uma arma de denúncia, justificando assim essa elucidação. Por fim trataremos teórica e empiricamente do totalitarismo, de modo a mostrar suas características tanto no âmbito do discurso como no âmbito da prática. Como objeto da crítica orwelliana, a apresentação e o entendimento acerca do totalitarismo são de vital importância para o andamento dessa análise. Os subsídios serão necessários para que uma relação coerente e coesa seja feita com os aspectos na obra estudados. 1.1 Literatura x Realidade Ler 1984 é, sobretudo, mergulhar num mundo de extremos. Winston, nosso anti-herói pode ver quase todos, embora sem a perspectiva do leitor. Até aí tudo bem, mas será que na vida os extremos são mostrados assim, deliberadamente como é na ficção? Podemos dizer que não, que a vida real é dissimulada, no sentido de que nem sempre podemos depreender dela tudo que está nas linhas e entrelinhas. Para Vargas Llosa, a literatura é, também, um modo de submetermos a realidade a uma lupa, trazendo seus aspectos latentes ao alcance da reflexão e da análise. O mundo de suaves e/ou chocantes extremos que a literatura nos apresenta, a exemplo do romance de Orwell, percebido por uma leitura desavisada, ou seja, que desconsidere o
  • 14. 13 contexto no qual a obra está inserida assemelha-se a uma espécie sonho ou de fantasia febril, às vezes até mesmo a um pesadelo. As invenções que no romance do escritor inglês, a exemplo da Novilíngua, que no romance é uma reforma do Inglês que busca a diminuição do número de palavras, de modo a eliminar as possiblidades de pensamentos hereges; das Tele- Telas, aparelhos capazes de transmitir e exibir imagens, principal meio usado pelos líderes do Partido para vigiar os cidadãos da Oceania; Polícia do Pensamento, uma organização secreta capaz e investigar os pensamentos das pessoas, e que pela especialidade nessa detecção acaba por coagi-los a sequer pensar qualquer coisa contrária ao Partido, nos levam a pensar, por vezes, se tratar de ou uma obra fantástica, o que não é o caso, ou de alguma loucura que acometeu o autor. Seria dessa maneira, então, que devemos encarar a obra de George Orwell? Muitos entendidos do assunto certamente dirão que não. Vargas Llosa em A Verdade das Mentiras afirma que os romances mentem, ou em nossa hipotética leitura desavisada, devaneiam, mas, segundo ele, essa é apenas uma parte da história, a outra, certamente pode ser ilustrada nas palavras do peruano: A outra é que, mentindo, expressam uma curiosa verdade, que somente pode se expressar escondida, disfarçada do que não é. [...] Os homens não estão contentes com seu destino, e quase todos – ricos ou pobres, geniais ou medíocres, célebres ou obscuros – gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Para aplacar – trapaceiramente – esse apetite surgiu a ficção. Ela é escrita e lida para que os seres humanos tenham as vidas que não se resignam a não ter. No embrião de todo romance ferve um inconformismo, pulsa um desejo insatisfeito. (LLOSA, 2007, p.12). Encarando a tese de Llosa, passamos então para um novo espectro a partir do qual podemos ler a ficção. Como uma subversora da realidade, com alento para as mazelas, a sublimação de um medo, ou até mesmo o ensaio de um alerta, como poderíamos afirmar acerca de 1984. O que Vargas Llosa nos traz é muito importante, no sentido de entender o porquê de escrever e ler uma obra de ficção. Nessa perspectiva, as insatisfações e medos, os desejos e sonhos de uma época, de um grupo social, são percebidos pelo artista que, segundo Goldmann (1990), alcança a “consciência possível”, que em contraste com a consciência real, é capaz de perceber as informações do mundo de um modo transcendental. Analisando por esse viés, o artista, e em consequência disso a sua obra, é capaz de traduzir esse conteúdo latente da consciência coletiva de um determinado grupo social em algo concreto e palpável, disfarçado sob as camadas de tinta de um romance.
  • 15. 14 Antonio Candido, em Literatura e Sociedade, traz argumentos que em mão dupla corroboram e rebatem essa maneira de se analisar uma obra literária. Citando Sainte-Beauve, Candido (2006) aponta que o “poeta”, ou por assim dizer, o artista literário, não é um mero espelho da realidade, mas tem todo um aparato próprio que, o artista tem o “seu núcleo e o seu órgão, através do qual tudo o que passa se transforma, porque ele combina e cria ao devolver à realidade.” (SAINTE-BEAUVE apud CANDIDO, 2006, p. 28). Para o autor, “é necessário delimitar os campos e fazer sentir que a sociologia não passa, neste caso, de disciplina auxiliar; não pretende explicar o fenômeno literário ou artístico, mas apenas esclarecer alguns dos seus aspectos.” (CANDIDO, 2006, p. 28). Nesse sentido, fica esclarecido que esse trabalho não vai à busca de uma tese que imponha uma explicação ao fenômeno de criação do romance de Orwell, mas antes, busca entender alguns aspectos dessa obra, claramente manifesto na sociedade na qual viveu o autor. Candido também afirma que se faz necessário avaliar de que maneira a obra influencia na sociedade, de que modo ela é capaz de modificar as estruturas que a levaram a ser sublimada. Cabe agora saber quais são os fatores sociais, pelo menos os mais decisivos, que influem na obra, e de que maneira essa influência se realiza. Candido aponta que esses são, a saber: a estrutura social; os valores e ideologias e as técnicas de comunicação. O autor explica que esses fatores podem influir em graus e maneiras diferentes sobre a obra: O grau e a maneira por que influem estes três grupos de fatores variam conforme o aspecto considerado no processo artístico. Assim, os primeiros se manifestam mais visivelmente na definição da posição social do artista, ou na configuração de grupos receptores; os segundos, na forma e conteúdo da obra; os terceiros, na sua fatura e transmissão. (CANDIDO, 2006, p. 30). Como tratamos aqui das ideologias e dos valores da sociedade da qual Orwell fez parte, está implícito que, de acordo com essa esquematização apresentada por Candido, nos concentraremos em estudar a forma e o conteúdo de 1984. E para além desse reconhecimento, tentaremos entender, mais adiante, qual o impacto dessa obra sobre a sociedade. Nesse ponto, cabe esclarecer, teoricamente, de que maneira se desenrola a forma e o conteúdo de determinada obra literária, e mais profundamente, de que maneira essa forma e esse conteúdo abarcam as ideologias e valores de uma época. Lukács faz algumas contribuições nesse sentido: [...] Em vez de querer compreender o Helenismo desse modo, ou seja, perguntar inconscientemente como poderíamos em última instância produzir essas formas ou como nos portaríamos se possuíssemos tais formas, mais frutífero seria indagar pela
  • 16. 15 topografia transcendental do espírito grego, essencialmente diversa da nossa, que tornou possíveis e também necessárias tais formas. (LUKÁCS, 2000, p. 28). Ao falar das formas helênicas de “perfeição impensável”, Lukács inverte o sentido da busca, que tenta, primordialmente, imaginar essas formas em nossos dias, em nossa sociedade, e imaginar qual comportamento seria o nosso se dessas formas fossemos detentores. O teórico indica, então, que a ação correta seria descobrir qual a topografia transcendental do espírito que tornou possíveis e também necessárias tais formas. Nesse sentido, a forma e o conteúdo de uma obra, bem como todos os “fantasmas” e “heróis” nela presentes serão resultantes, primeiro, do transcendentalismo de um povo, e segundo, do transcendentalismo do artista que, grosso modo, poderá causar estranheza ou ser reconhecido de imediato de acordo com a consciência possível, no sentido goldmanniano, alcançada por esse povo. Essas considerações impõem ver a literatura como resultante de um processo de estímulos, como sugere Antonio Candido, a partir do qual o artista cria e combina, fechando o ciclo com o impacto que determinada obra provoca na sociedade. Seguindo os argumentos até aqui, podemos afirmar que a literatura se liga intimamente com a realidade, aninhando-se em um ato sexual que leva o artista a um orgasmo transcendental, visto que esse é um ser dotado de uma profunda cadeia nevrálgica, a qual lhe concede notável sensibilidade, capaz de transformar os estímulos que sua parceira lhe proporciona inconscientemente. Entenda-se por parceiras as estruturas sociais que cercam o artista de estímulos e formas, levando a movimentos sensuais de criação de figuras, ícones e imagens; no ápice dessa relação, como alvo do gozo, encontra-se o público, que, sendo parte constituinte dos estímulos sentidos pelo artista, é levado, de maneira extasiante, a uma mudança interna, que acaba por fim a refletir nas estruturas sociais. Assim o ciclo se completa, e a cada obra o gozo dessa relação amorosa entre literatura e realidade se diferencia, sem jamais deixar de existir. Essa relação íntima das estruturas sociais com a obra pode ser entendida em Lukács, quando este aponta o caráter de o homem não se achar solitário, de não ser único portador da substancialidade. Certamente suas palavras valem aqui de grande significado para o entendimento dessa relação. [...] o homem não se acha solitário, como único portador da substancialidade, em meio a figurações reflexivas: suas relações com as demais figurações e as estruturas2 que daí resultam são, por assim dizer, substanciais como ele próprio ou mais verdadeiramente plenas de substância, porque mais universais, mais “filosóficas”, mais próximas e aparentadas à pátria original: amor, família, Estado. (LUKÁCS, 2000, p. 29).
  • 17. 16 Assim sendo, dentro da concepção de Lukács, torna-se pertinente a análise que nos leva ao apontamento dessa relação de amor entre a literatura e a realidade. O homem, ou o artista, não pode sozinho ser criador daquilo que o transcende. A dialética é intensa e coesa, e não pode o artista fugir disso sem se distanciar da “pátria original”, sem perder substancialidade, sem diminuir seu campo de atuação. Portanto, dizer que literatura e realidade são membros de uma íntima relação não foge ao alcance da razão, e não fere de modo nenhum o que se pode conferir como concreto e verdadeiro. 1.2 O romance como arma de denúncia Em 1984 o Partido censura e reescreve toda a produção literária do passado, além de produzir, em escala “industrial” e de maneira artificial e sintética, ficção para os proles – classe trabalhadora da Oceania considerada à margem do mundo civilizado, o Partido considera-os tão inofensivos e alienados que sequer se dá ao trabalho de vigiá-los ou puni-los; são a classe mais baixa na sociedade estruturada pelo IngSoc. Essa prática do Partido revela algo muito peculiar e importante sobre as obras de ficção. Se a censura e a própria confecção ideológica desse gênero literário é feita pela casta dominante, em sentindo inverso podemos perceber o papel da ficção, do romance, como uma arma antagônica ao o opressor. Vargas Llosa em a verdade das mentiras faz um relato sobre essa percepção do romance como arma de denúncia contra os “arbitrários”: Os inquisidores espanhóis, por exemplo, proibiram a publicação ou importação de romances nas colônias hispano-americanas, argumentando que esses livros disparatados e absurdos – quer dizer, mentiroso – poderiam ser prejudiciais para a saúde espiritual dos índios. [...] Ao proibir não obras determinadas, mas um gênero literário em abstrato, o Santo Ofício estabeleceu algo que, a seus olhos, era uma lei sem exceções: que os romances sempre mentem, que todos oferecem uma visão falaciosa da vida. Há anos escrevi um trabalho ridicularizando esses arbitrários, capazes de uma generalização semelhante. Agora acho que os inquisidores espanhóis foram, talvez, os primeiro a entender – antes dos críticos e dos próprios autores – a natureza da ficção e de suas propensões sediciosas. (LLOSA, 2007, p. 11-12). Esse relato de Llosa é bastante pontual e põe em voga o que tratamos aqui, as “propensões sediciosas” dos romances. De acordo com a citação acima e o que segue em A verdade das mentiras, podemos contemplar o romance como um instrumento de revolta, que se opõe à ordem instalada, incita o questionamento, denuncia as mazelas, os desmandos. Não
  • 18. 17 fosse assim, não teria sentido uma casta dominante em um dado estrato social empreender a uma ação contra a publicação ou importação de obras de ficção. É interessante e até fascinante pensar que Orwell soubesse de alguma maneira sobre esse aspecto da ficção, e em uma “metalinguagem literária” traduziu essa característica no seu próprio romance ao trabalhar a criação de ficção artificial ou mecânica. Os inquisidores espanhóis, tal qual o Partido, tinham consciência do poder de transgressão e transcendência do romance, isso os aviltou a ponto de proibirem a importação ou publicação desses livros. O Partido, não satisfeito com a censura, se dedica também a criação de romances que não são “romances”, uma vez que é sabido em 1984 que, ao contrário do que propõe Vargas Llosa, “no coração desses livros” produzidos pelo Partido não “chameja um protesto”. Goldmann (1990) aborda em Sociologia do Romance o problema do desaparecimento do personagem, e a representação das estruturas econômicas da sociedade ocidental através do fetichismo da mercadoria, proposto por Marx, e mais tarde da coisificação, com Lukács. A partir desse processo de coisificação das estruturas no percurso da história, o sociólogo busca achar relação desse fenômeno com a história das estruturas romanescas. A respeito disso ele aponta, em contraposição a distinção entre romance clássico e as estruturas que deram origem ao romance moderno: Robbe-Grillet acaba de o dizer: o romance clássico é um romance em que os objetos têm uma importância primordial, em que só existem por suas relações com os indivíduos. Os dois períodos ulteriores da sociedade capitalista ocidental, o período imperialista – que se situa, aproximadamente, entre 1912 e 1945 – e o período do capitalismo de organização contemporâneo, definem-se no plano estrutural, o primeiro, pelo desaparecimento progressivo do indivíduo como realidade essencial e, correlativamente, pela independência crescente dos objetos; o segundo, pela constituição desse mundo de objetos – em que o humano perdeu toada a realidade essencial, quer como indivíduo, quer como comunidade – em universo autônomo, com sua estrutura própria, que só permite ao humano exprimir-se ainda algumas vezes e dificilmente. (GOLDMANN, 1990, p. 180). Perceber na sociedade moderna a exasperada valorização dos objetos, e o “desaparecimento do indivíduo como realidade essencial” nos leva a uma concepção dos valores e ideologias do mundo moderno que desagregam o indivíduo do “transindivíduo” – indivíduo capaz de aglutinar e condensar o espírito de uma sociedade em determinado momento histórico – ou consciente coletivo. Se trouxermos isso para as sociedades de controle, nos deparamos com um estado de inconsciência no que concerne ao entendimento, que em virtude disso pode levar a uma impossibilidade de mudança consciente por parte dos seus integrantes no campo da luta de classes, da sociedade em questão.
  • 19. 18 Nesse sentido, o artista, que para Goldmann, tem a capacidade de alcançar um grau máximo de consciência possível, uma vez membro de um estrato social, é responsável por puxar, em um pulo imaginativo e criativo, a essência dessas estruturas que obliteram o indivíduo da consciência coletiva. Em outras palavras podemos, de maneira palpável, a partir das pesquisas goldmannianas, ilustrar também o papel de conscientização – leia-se denúncia – das formas romanescas, mais estritamente, as modernas. Para Goldmann, contrariamente, a criação cultural é movida pela aspiração a um máximo de coerência, a um máximo de consciência possível. Essa intencionalidade não é a vingança do recalcado contra as censuras impostas pela consciência, mas o trabalho da própria consciência em busca do esclarecimento. (FREDERICO, 2004, p.12). A visão acima apresentada empenha um pensamento analítico que nos move contra as análises freudianas da criação cultural. Não seria sensato, todavia, desacreditar inteiramente a análise psicanalítica das obras de ficção, no entanto, o olhar sociológico nos interessa em um nível muito mais elevado ao passo que buscamos entender em 1984 não um indivíduo, seja ele Winston Smith ou George Orwell, mas a sociedade europeia, e por que não dizer mundial, assombrada pelo medo de um domínio dos modelos políticos totalitários da primeira metade do século XX. Na tentativa de delinear as formas romanescas enquanto arma de denúncia, cabe trazer a visão de alguém que entende, talvez nem sempre conscientemente, as intrincadas estruturas internas do romance, que sabe o seu motivo de ser, o objetivo que com sua estética, quer alcançar a forma romanesca. Vamos então à fonte de saberes que nos vai ajudar a entender o que aqui se pretende: O que eu mais tenho tido vontade de fazer durante os últimos dez anos é transformar a escrita política em uma arte. Meu ponto de partida é sempre um sentimento de partidarismo, uma sensação de injustiça. Quando eu sento para escrever um livro, eu não digo a mim mesmo, ‘eu vou produzir uma obra de arte’. Eu o escrevo porque há alguma mentira que quero expor, algum fato para o qual quero chamar atenção, e minha preocupação inicial é conseguir audiência. Mas eu não poderia fazer o trabalho de escrever um livro, ou mesmo um longo artigo de revista, caso não houvesse também uma experiência estética. (ORWELL, 1946, p.5) [Tradução nossa]2 2 What I have most wanted to do throughout the past ten years is to make political writing into an art. My starting point is always a feeling of partisanship, a sense of injustice. When I sit down to write a book, I do not say to myself, ‘I am going to produce a work of art’. I write it because there is some lie that I want to expose, some fact to which I want to draw attention, and my initial concern is to get a hearing. But I could not do the work of writing a book, or even a long magazine article, if it were not also an aesthetic experience.
  • 20. 19 O autor de 1984 e Animal Farm, em um ensaio no qual descreve os porquês de ele escrever, mostra-nos uma visão na qual, para ele, toda obra literária é política, e primariamente, todo autor tem um impulso histórico, “o desejo de ver as coisas como elas são, descobrir fatos verídicos, e guardá-los para a posteridade” (ORWELL, 1946). Essas considerações escritas por Orwell nos dão um subsídio muito valoroso, nos mostram que os autores “escrevem porque há alguma mentira que eles querem expor, algum fato para o qual querem chamar a atenção”, e isso é, de maneira viva e colorida frente a nossos olhos, denúncia. E o que Orwell tanto denunciava, como ele comenta recorrentemente no ensaio citado, “nessa época que vivemos”? A resposta para a pergunta acima pode estar em 1984. Se lermos essa obra como uma crítica ao totalitarismo, como uma denúncia às suas complexas teias de poder e manipulação das massas, a experiência nos parece natural. Nesse sentido, evidencia-se a forte tendência sediciosa dessa obra do autor inglês. Como ele mesmo aponta em “Porque escrevo”, “Cada linha de trabalho sério que” tem “escrito desde 1936 tem sido escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e em prol do socialismo democrático como o” entende. Parece-lhe “sem sentido, [...], pensar que alguém pode evitar escrever sobre tal.” (ORWELL, 1946). Com as palavras do autor a pularem frente aos nossos olhos, nenhuma orientação contrária parece refutar a proposta de um romance como denúncia. Muito pelo contrário, George Orwell corrobora essa visão, dando-nos a valiosa credibilidade de quem escreveu romances que desempenham tão bem esse poder de denúncia. Considerações mais prolongadas mostram-se, por ora, desnecessárias, uma vez que nos parece bem colocada a linha de pensamento que ilustra a proposta dessa discussão. 1.3 O Totalitarismo Utópico A História nos mostra que na luta de classes, a classe operária, que nem sempre foi a classe operária como conhecemos hoje, foi sempre a que levantou as revoluções sem, no entanto, ter conseguido mudanças verdadeiras em benefício próprio. Isso deu margem, em determinados momentos, para que homens e “partidos” se arrogassem do poder, usando para tal, um discurso pautado na utopia. A Utopia, de Thomas Moore, descreve um lugar ideal, onde todos trabalham para satisfazer às necessidades básicas de cada um, e o desenvolvimento da sociedade se dá pelo prazer da contemplação e do estudo, feito através da avaliação crítica contínua da realidade.
  • 21. 20 Na pretensão, falaciosa, diga-se de passagem, de montar uma sociedade como a descrita em A Utopia, tendo a igualdade como o eixo central, “líderes revolucionários” levaram, através do discurso, a classe operária a amotinar-se, a exemplo do que aconteceu na Rússia – mais tarde União Soviética e depois Rússia de novo – derrubando a casta dominante, levando então à classe intelectual ao poder e mantendo a classe operária onde essa sempre esteve. Essa análise busca, de modo primordial, tratar da crítica que se desenha em 1984 contra o totalitarismo utópico – no sentido do discurso pautado na pretensão inverídica de formar uma sociedade igualitária e livre – assim, faz-se importante definir, de modo histórico, através de provas documentais, como era o discurso dos regimes totalitários, e através dos escritos de críticos consagrados, que viveram, ou sentiram na pele as imposições desses regimes, a exemplo de Hannah Arendt e Leon Trotsky, mostrar como foram, na prática, esses regimes. Posto isso, passemos então ao discurso. 1.3.1 Do Discurso Falar do discurso utópico dos regimes totalitários é passear por uma retórica muito bem desenvolvida. Caminhar sobre um terreno no qual as palavras ganham sentidos diversos, as construções intrincadas, cheias de cantos pintados em cores sortidas, penetram de maneira sorrateira a cabeça e o coração dos ouvintes, não obstante, Orwell, em 1984, descreve com detalhes extremamente claros o estado de êxtase quase libidinoso no qual entram as pessoas diante dos discursos inflamados do Grande Irmão. Não podemos falar de discursos dentro do totalitarismo sem falar de uma icônica figura desse contexto: o ditador russo Joseph Stálin, um perito da oratória, capaz de formular discursos muito firmes e ao mesmo tempo amigáveis, exercendo sobre os ouvintes uma espécie de histeria, de transe. É uma característica marcante no discurso de Stálin, por exemplo, a conclamação ao povo, no sentido de que esse se entregue de corpo e espírito pelos propósitos da nação. Essa característica pode ser observada em entrevista datada de 1946, divulgada pela revista Veja em especial online simulando uma possível cobertura da II Guerra Mundial: Acima de tudo, é essencial que nosso povo perceba o imenso perigo que ameaça nosso país, e, assim, elimine a complacência, o relaxamento e a mentalidade de trabalho pacífico e construtivo que vinha sendo tão natural antes da guerra, mas que hoje, diante de uma situação radicalizada pelas batalhas, pode ser fatal. (STÁLIN, 1941).
  • 22. 21 A entrevista trata basicamente do rompimento do tratado de paz firmado entre a Alemanha Fascista e a União Soviética, e nesse trecho, Stálin referia-se às estratégias para vencer a batalha contra os alemães. Independente do clima de guerra fica claro a maneira como o discurso de Stálin leva a um sentimento de unidade, de igualdade entre os homens e mulheres russos. Ele trata a nação e o povo como uma só unidade. “Os habitantes da União Soviética, então, precisam se mobilizar e reorganizar seu trabalho em um novo equilíbrio, um equilíbrio de guerra, no qual não pode haver piedade para o inimigo.” Stálin vai além, e lança para o povo, através do seu discurso o sentimento de ódio, capaz de incitar de maneira imoral as pessoas, tirando proveito de suas fraquezas e medos. Observando por esse viés do discurso, independentemente da prática, o comandante supremo da União Soviética mostra-se um líder virtuoso, cheio de compromissos para com seu povo. Trotsky, em a Revolução Traída, utiliza-se de documentos diversos, como publicações de matérias e entrevistas concedidas por Stálin para delinear o seu discurso, na visão de desse autor, falacioso. No capítulo A URSS no espelho da Nova Constituição, Trotsky inicia falando sobre a Constituição que segundo Stalin seria a mais democrática do mundo, palavras essas repetidas diariamente pela imprensa. Diferente do que é dito por Stalin, o que ocorre na verdade, como explica Trotsky, é que, já no nascimento, essa constituição, de democrático nada tem. Podemos ver aqui, claramente, o que se vem discutindo: – “a mais democrática do mundo”. Muito pelo contrário, a maneira como esta Constituição foi elaborada poderia fazer nascer bastante dúvidas: nem na imprensa, nem em quaisquer reuniões, nada se disse. Ora, no dia 1º de março de 1936, Stalin declarou a um jornalista americano, Roy Howard: “Adotaremos sem dúvida a nossa Constituição no fim deste ano”. Stalin sabia pois muito precisamente quando seria adotada uma constituição da qual o povo ainda nada sabia. Por que razão havemos de deixar de concluir que a Constituição “mais democrática do mundo” se elabora e se impõe de maneira muito pouco democrática? (TROTSTKY, 2008, p. 249). Trotsky nos faz pensar, como algo pode ser democrático dessa maneira? O que se pode supor com maior embasamento em vista dessas apreciações é que o processo de criação e imposição da constituição soviética não foi nada democrático. Adiante o autor aponta que o projeto foi sim, submetido à apreciação, mas mostra contundentemente que isso não garante democracia alguma no processo: É verdade que o projeto foi, em junho, submetido a “apreciação” dos povos da URSS. Mas pode-se procurar em vão em toda a superfície da sexta parte do globo o
  • 23. 22 comunista que se permitisse criticar a obra do Comitê Central ou o sem partido que ousasse discutir a proposição do partido dirigente. A “discussão” reduziu-se pois ao envio de mensagens de gratidão a Stalin pela “vida feliz” que iria oferecer as populações. O conteúdo e o estilo dessas mensagens tinham sido fixadas pela constituição precedente. (TROTSKY, 2008, p. 249). Ao passo que vamos analisando os postulados de Trotsky, cabe entender que, não são apenas as palavras de Stalin, ou de qualquer outro déspota que subjugam as pessoas através de uma inflamação espiritual coletiva: todo um aparelho ideológico é montado, de modo que as ideias são espalhadas com vigor, adentrando cada pessoa de maneira assombrosamente sutil. Isso pode ser verificado em diversos episódios, tanto da União Soviética “stalinista” como da Alemanha nazista. Talvez, por uma questão diferenciada do ponto de vista do discurso, não seja interessante aqui se aprofundar em outros líderes, como seria o caso de Hitler, de Mussolini e de Franco. Ao tratarmos de 1984 estamos lidando, em via oposta ao que aponta o título do trabalho, com uma crítica ao socialismo totalitário e déspota da URSS, sem, no entanto, negarmos que essa crítica se aplique a qualquer outro regime totalitário com teor semelhante. Sendo, enganosamente baseada nos ideais socialistas de Marx, Engels e Lênin, a Revolução de Outubro aplica-se com maior sensatez a essa descrição, de modo que atemo-nos aqui aos discursos de Stálin, enquanto líder do Partido Comunista e do regime montado após a Revolução de Outubro. 1.3.2 Da Prática Comentar sobre o discurso, sobre a ideologia do totalitarismo, é, essencialmente, falar de algo diametralmente oposto à prática. O nome consagrado, totalitarismo, nos dá, bem entendido, a ideia de qualquer coisa que fuja a galopadas longas do que seria uma sociedade socialista ou comunista, que tenha como base para a sua construção a igualdade. Pois se a história consagrou o termo e o conceito, achamos por direito discutir a prática desses regimes de governo a partir de análises teóricas historicistas, que elucidam essa questão, fugindo da enfadonha tarefa de enumerar fatos históricos que delongariam por demasiado essa “conversa”. Por um trato mais estético, comecemos falando de algo que se distancia um pouco do assunto, mas que se aproxima do motivo dele ter sido abordado pelo autor do romance aqui
  • 24. 23 analisado. Em um ensaio intitulado “Shooting an elephant”, George Orwell narra um acontecimento que se poderia chamar de inusitado e de certa forma até corriqueiro, mas que é, para o autor, essencialmente inglório e revelador. O fato narrado ocorreu durante os anos que ele trabalhou como oficial da Polícia Imperial Britânica em Burma. Um elefante adestrado saiu do controle, e estava provocando o maior frisson na comunidade, de modo que, Orwell, enquanto autoridade ali presente, devia fazer algo. O ato do autor de pedir que lhe trouxessem um rifle, vendo-se ele na necessidade de talvez matar o elefante, o leva a uma posição de poder e de subjugação. No seu relato, uma multidão de mais de duas mil pessoas o acompanhava, olhando-o, pressionando-o com uma vontade que parecia, segundo Orwell, empurrar-lhe irresistivelmente. A partir desse exemplo ele aponta um caminho inverso das consequências do totalitarismo: Eu percebi nesse momento que quando o homem branco se torna tirano é a sua própria liberdade que ele destrói. Ele se torna uma espécie de manequim, posando oco, a figura convencionada de um sahib. Por que é condição de seu “mandato” que ele passe a vida tentando impressionar os nativos, e então, em cada crise ele tem que fazer o que os nativos esperam dele. Ele usa uma máscara, e sua face se acostuma a ela. Eu tive que matar o elefante. Eu me cometi a fazer isso no momento que mandei que trouxessem o rifle. (ORWELL, 1936) [Tradução nossa]3 Observamos sempre o totalitarismo do ponto de vista do oprimido, de modo que se torna pouco frutífera a questão: por que o totalitarismo? Mas se o fizermos do ponto de vista do opressor, qual seria a resposta para essa pergunta? O próprio George Orwell nos dá uma pontinha de resposta em 1984: O’Brien, ao declarar que o Partido não se interessa por riquezas nem luxo, mas sim pelo poder, puro e simples, nos faz pensar na razão pela qual um governo se torna totalitário. O déspota, ao se arrogar do poder, busca, de modo constante, manter-se no posto, e para tanto precisa manter a postura que lhe cabe, de modo que se torna ele também um escravo, escravo do próprio desejo, da própria loucura, da própria opressão. Essa busca pelo poder parece ser, como nos mostra a história, inerente do ser humano, mesmo que latente em alguns e mais bem definida em outros. Ao tratarmos da prática dos regimes totalitários, leia-se principalmente, Stalinismo e Nazismo, estamos falando de duas vertentes de ação, uma que perpassa o discurso, sendo veículo e objeto ao mesmo tempo: a propaganda; e outra que é a violência do estado, a 3 I perceived in this moment that when the white man turns tyrant it is his own freedom that he destroys. He becomes a sort of hollow, posing dummy, the conventionalized figure of a sahib. For it is the condition of his rule that he shall spend his life in trying to impress the "natives," and so in every crisis he has got to do what the "natives" expect of him. He wears a mask, and his face grows to fit it. I had got to shoot the elephant. I had committed myself to doing it when I sent for the rifle.
  • 25. 24 imposição de ideias à força, sendo que esta segunda depende, operacionalmente, da primeira. Essa relação de dependência da segunda vertente para com a primeira se dá por conta de que, o totalitarismo, tal qual descrito por Hannah Arendt, não estaria satisfeito apenas com a posse do poder de opressão, mas, de modo a se perpetuar, necessitaria também da aprovação do povo, e a esse propósito a propaganda se presta com total destreza. Esse caráter é muito bem descrito em 1984, a partir de O Livro de Emmanuel Goldstein, no qual George Orwell aponta que o objetivo do poder é o poder. De modo que a história prova-nos que toda a máquina opressora um dia sucumbe às massas oprimidas, diferente não seria, no entanto com o modelo pensado pelos líderes dos regimes totalitaristas. A solução, então, foi encontrar uma maneira através da qual a opressão ao povo fosse vista como salvação, de modo que os assassinatos, os despóticos julgamentos, e às forçadas confissões fossem vistas apenas como prova da importância do regime totalitário. Uma distorção tal capaz de converter o mal no bem, o déspota em democrata, a opressão em libertação e igualdade. Arendt (2006, p.340) aponta, ao tratar sobre a publicação de documentos oficiais do período de vigência do Reich, que entre os anos de 1949 e 1958 nada “aconteceu, nem” parecia “provável que” acontecesse “no futuro, que nos” apresentasse “o mesmo inequívoco fim da história ou as mesmas provas horríveis, claras e irrefutáveis desse fim, como foi o caso da Alemanha nazista.” A autora assinala que apesar da abundância de material, cerca de duzentas mil páginas, dos dados estatísticos vitais, acerca do número de vítimas, por exemplo, não tinham uma indicação sequer. Revela-se aqui mais uma prática totalitarista, que é abordada de modo ininterrupto em 1984, a falsificação de documentos oficiais. Mais à frente, a cientista política discorre sobre os documentos do governo comunista soviético, de modo que o que ela apresenta corrobora veementemente esse caráter escuso da documentação das atividades dos regimes totalitaristas. Os algarismos, quando surgem, são irremediavelmente contraditórios; cada uma das organizações fornece dados diferentes, e tudo o que ficamos sabendo com certeza é que muitos deles foram retidos "na fonte" por ordem do governo. 3 Além disso, os arquivos não informam das relações entre os vários setores de autoridade, "entre o Partido, os militares e a NKVD", ou entre o partido e o governo, e silenciam quanto aos canais de comunicação e comando. Enfim, nada nos ensinam quanto à estrutura organizacional do regime, da qual tanto sabemos no que tange à Alemanha nazista. 4 Em outras palavras, embora sempre se tenha sabido que as publicações oficiais soviéticas serviam a fins de propaganda e eram completamente indignas de confiança, agora parece claro que nunca existiram, em parte alguma, fontes dignas de fé e material estatístico em que se pudesse confiar. (ARENDT, 2006, p.341).
  • 26. 25 Percebamos que uma análise documental, à medida do que é possível em vista da escassez de documentos, revela: primeiro no conteúdo desses documentos, as práticas nefastas dos regimes totalitaristas em termos de ações tais como expurgos, julgamentos, acusações, assassinatos entre outras práticas; segundo, na própria essência dos documentos, uma vez que esses são incoerentes no que diz respeito ao todo, deixam de revelar ligações internas do regime que são de fundamental importância para o esclarecimento de seus desmandos. Entrando no âmbito da União Soviética, apesar de tratar exatamente do problema da escassez de documentos, Arendt golpeia categoricamente a política soviética de documentação dos fatos. Ela vai além, e comenta sobre o apoio das massas a esses regimes totalitários, imortalizados nas figuras “patriarcais” de Hitler e Stálin: É muito perturbador o fato de o regime totalitário, malgrado o seu caráter evidentemente criminoso, contar com o apoio das massas. Embora muitos especialistas neguem-se a aceitar essa situação, preferindo ver nela o resultado da força da máquina de propaganda e de lavagem cerebral, a publicação, em 1965, dos relatórios, originalmente sigilosos, das pesquisas de opinião pública alemã dos anos 1939-44, realizadas então pelos serviços secretos da SS ([...] [Relatórios do Reich. Seleção dos relatórios sigilosos colhidos pelo Serviço de Segurança da SS], Neu- wied & Berlin, 1965), demonstra que a população alemã estava notavelmente bem informada sobre o que acontecia com os judeus ou sobre a preparação do ataque contra a Rússia, sem que com isso se reduzisse o apoio dado ao regime. (ARENDT, 2006, p.339). Se a teórica alemã evoca essa questão do apoio das massas aos regimes totalitaristas, não se desvirtua observar o que diz Trotsky a respeito da relação discurso–prática–povo. Vejamos que essa relação de harmonia, forçada ou não, é complicada de ser analisada, embora possamos delimitar alguns contextos que nos guiem a um entendimento. Hannah Arendt refere-se a uma pesquisa de opinião feita na Alemanha. Isso nos traz, em primeira instância, a questão da paixão racial e do antissemitismo, e apesar do terror imposto às “raças” perseguidas, um sentimento de complacência e apoio às ideias da facção nazista fluía no coração de uma grande parcela do povo alemão. Essa característica, sabemos, não é inerente ao povo soviético, ou pelo menos não a tal ponto. Bem entendida essa questão, o fato é que, tanto o discurso na União Soviética quanto na Alemanha Nazista, se davam a favor do povo, contrário à prática, ao passo que a prática, se dava, de modo disfarçado, em concordância com o discurso e contra o povo. Essa relação, não se desenha tão intricada como parece, e pode ser elucidada em A Revolução traída, em que Trotsky aponta as inconsistências e falácias da Nova Constituição. De modo que essa análise da prática totalitarista já vem dançando melindrosamente por um longo espaço, fica essa
  • 27. 26 consideração de Trotsky como o retrato documental do que “é” e do que foram as práticas dos totalitaristas do século XX: A promessa de oferecer aos cidadãos soviéticos a liberdade de votar “nos que eles quiserem votar” é mais uma metáfora estética que uma fórmula política. Os cidadãos soviéticos não terão o direito de escolher os seus “representantes” senão entre os candidatos que lhes serão designados, sob a égide do Partido, os chefes centrais e locais. [...] As Juventudes Comunistas perdem o direito de se ocupar de política no preciso momento em que o texto da nova Constituição é publicado. Ora, os jovens dos dois sexos possuem direito de voto a partir dos dezoito anos e o limite de idade das Juventudes Comunistas (vinte e três anos) não foi baixado. A política foi de uma vez por todas declarada como monopólio de uma burocracia que escapa a qualquer controle. (TROTSKY, 2008, p.255-256). Diante das demonstrações de Trotsky nada mais nos é dignado de ser dito que possa acrescentar algo novo. Fica assim então, estabelecida uma fotografia, diminuta é claro, da prática e do discurso dos regimes totalitaristas.
  • 28. 27 2 A FALÁCIA DO INGSOC – CARICATURA DOS REGIMES TOTALITARISTAS Na mira da presente pesquisa encontra-se uma busca por uma delineação que nos mostre claramente o porquê de considerar 1984 uma caricatura dos regimes totalitaristas regidos por personas famosas como Hitler, Mussolini e Stálin. A narrativa de George Orwell conta a história de um herói moderno, perdido no meio da esmagadora força do estado, capaz de sentir-se indignado com toda a injustiça, no entanto, incapaz de fazer a diferença ou de organizar um movimento revolucionário. A breve descrição da obra acima apresentada não contempla, contudo, o que, pelo menos do ponto de vista sociológico e político, há de mais importante na narrativa do Inglês Orwell. Winston, nosso “herói”, é o quartzo através do qual podemos enxergar todas as nuances do IngSoc; as duas faces do Big Brother; os deturpados ministérios da Paz; do Amor, da Fartura e da Verdade; o suposto dissidente Emanuel Goldstein; o medo provocado pela Polícia do Pensamento; o Duplipensar e a Novilíngua. Todas essas características juntas levam na busca empreitada nessa pesquisa, a uma caracterização do que podem e puderam fazer os regimes totalitaristas com os aspectos da vida humana, na direção da obliteração do indivíduo e a criação de uma massa não pensante controlada pelo sistema. Abordaremos nesse capítulo, de maneira primária, o que concerne aos quatro Ministérios da Oceania e sua deturpação da realidade, discurso e prática do Partido, o Grande Irmão como personificação do amor e da justiça e como agente da opressão, nessa ordem. 2.1 Os quatro ministérios e a deturpação da realidade Não se poderia afirmar com certeza, mas se Orwell avaliasse quais dos Ministérios na Oceania ele temeria mais, certamente diria ser o Ministério da Verdade, Minitrue em Novilíngua. Como quase tudo que fosse dominado pelo Partido, os Ministérios também tinham funções que se opunham totalmente às qualidades que os davam nomes. O Ministério da Verdade tinha como principal função a alteração do passado e a falsificação de notícias, de modo que qualquer previsão, determinação ou prática do Partido nunca estivesse errada, injusta ou incoerente com o discurso atual. Em alguns de seus ensaios, George Orwell descreve com extremo pavor a possibilidade de a realidade ser contada não como se deu, mas como interessa a alguns. É justamente no Ministério da Verdade que trabalha Winston Smith, nosso “herói”. Sua função é reescrever notícias antigas, colocando-as em acordo com as novas necessidades
  • 29. 28 do Partido, que se desenham com apenas um objetivo, manter o poder nas mãos de quem o tem. Antes de continuarmos falando dos quatro Ministérios, é preciso que se faça uma apresentação do Duplipensar, único mecanismo capaz de proporcionar o funcionamento da distorção da realidade promovida pelo Partido. De acordo com o descrito na narrativa, o Duplipensar é a capacidade de acreditar em duas ideias diametralmente opostas e aceitar as duas como válidas. Para efeitos práticos de descrição pensemos na soma de 2 + 2, que todos sabemos resultar em 4, mas que, se conveniente para o Partido for, pode ser 3, pode ser 5, ou todos de uma só vez, como explica O’Brien em conversa com Winston. Assim, o Duplipensar é a capacidade de transformar uma verdade em mentira, uma mentira em verdade, esquecer que tal transformação aconteceu, e se necessário, fazer o processo inverso esquecendo-se desse, em seguida. Talvez isso nos pareça absurdo, mas a vida real possui um sentimento, ou talvez atitude, que se parece muito com o Duplipensar, a hipocrisia. Orwell, em um de seus ensaios, trata do modo como os Ingleses são hipócritas quanto ao Império Britânico, apenas para citar um exemplo. Bem, conhecido o Duplipensar, passemos à analise dos Ministérios, que aqui importa na delineação do funcionamento do IngSoc. Antes de nosso pequeno passeio falávamos do Ministério da verdade e da alteração do passado, tanto na literatura quanto nos periódicos, de modo que as palavras atuais do Partido estivessem sempre certas, tanto agora quanto no passado, sem que nenhuma prova escrita pudesse dizer o contrário. Assim como a terceira mensagem, esta referia-se a um erro muito simples que poderia ser corrigido em alguns minutos. Como a pouco tempo atrás, em Fevereiro, o Ministério da Fartura fez uma promessa [..] de que não haveria redução da ração de chocolate durante 1984. Na verdade, como sabia bem Winston, a ração de chocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas no final da presente semana. Tudo que era necessário era substituir a promessa original por um aviso de que provavelmente seria necessário reduzir a ração de chocolate em algum ponto em Abril. (ORWELL, 1984, p. 38-39) [Tradução nossa]4 O que é promovido no Ministério da Verdade vai além da simples alteração das “notícias” do Times, este também altera a literatura, os periódicos, os panfletos, e toda essa alteração passa, no fim das contas, por verdade, sem que haja nenhuma prova de que tal 4 As for the third message, it referred to a very simple error which could be set right in a couple of minutes. As short a time ago as February, the Ministry of Plenty had issued promise […] that there would be no of the chocolate ration during 1984. Actually, as Winston was aware, the chocolate ration was to be reduced from thirty grammes to twenty at the end of the present week. All that was needed was to substitute for the original promise a warning that it would probably be necessary to reduce the ration at some point in April.
  • 30. 29 façanha tenha acontecido. É de interesse, como aponta Vargas Llosa, de todo governo que visa à manutenção do poder, alterar o passado, de modo que estes estejam sempre com a razão. Isso o escritor peruano aponta ter sido feito pelos Incas, assim Orwell descreveu em 1984, e assim ele viu acontecer, pessoalmente, durante a guerra civil espanhola. Em um estado totalitário, não somente e a opressão são capazes de manter o povo subjugado. É preciso que o Partido se afirme, que ele não se contradiga jamais, e mais que isso, é preciso que esse possa, por meio de toda sua carga ideológica, entrar no coração dos oprimidos, de modo que esses não possam, mesmo que conscientes da necessidade, se rebelar contra o opressor. Em linhas gerais, o verdadeiro trabalho do Ministério da verdade é a propaganda, usada como força coercitiva, no sentido empregado por Arendt (1951). Quando a autora aponta que o intuito da propaganda não é, senão, provocar um comportamento, utilizando-se dos argumentos religiosos, científicos, os preconceitos sociais e, muito frequentemente, a mentira. A teórica alemã descreve e elucida a questão da propaganda nos regimes totalitários, e nossos olhares, voltados para 1984 não se enganam e veem, perfeitamente, como o Ministério da Verdade desenha-se uma caricatura muito fiel do que é o discurso ideológico propagandista dos regimes totalitários. Tratamos inicialmente do Ministério responsável pela propaganda, e antes de prosseguirmos para os próximos, cabe mais uma pincelada no que Arendt (1951) propõe ao escrever sobre a propaganda e seu sucesso nos regimes totalitaristas. Arendt (1951, p.395) aponta que “O “coletivismo” das massas foi acolhido de bom grado por aqueles que viam no surgimento de “leis naturais do desenvolvimento histórico” a eliminação da incômoda imprevisibilidade das ações e da conduta do indivíduo.” Nesse viés, o estado totalitário se coloca como detentor da dinâmica que move a vida, como a consciência maior, coletiva, eliminando do caráter político a individualidade e suas divergências. Na narrativa do romance o Partido se declara de tal modo, como consciência imortal e infalível, justamente por ser coletiva: Mas eu te digo Winston, que a realidade não é externa. A realidade existe na mente humana, e em nenhum outro lugar. Não na mente individual, que pode cometer erros, e de todo modo logo se perde: apenas na mente do Partido, que é coletiva e imortal. O que quer que seja que o Partido acredite ser a verdade é a verdade. É impossível ver a realidade senão olhando pelos olhos do Partido. (ORWELL, 1984, p. 251) [Tradução nossa]5 5 But I tell you, Winston, that reality is not external. Reality exists in the human mind, and nowhere else. Not in the individual mind, which can make mistakes, and in any case soon perishes: only in the mind of the Party,
  • 31. 30 Evidente que toda pretensão de uma análise direta e com nuances de prescrição incorrigível é perigosa e passível de erros, no entanto, não é necessária nem mesmo uma boa vontade muito grande para perceber quanto dessa carga de ficção, no sentido dado por Arendt, imposta pela propaganda dos regimes totalitários, está presente em 1984. Se a mente coletiva, pretendida pelos regimes totalitários agem assim, de maneira onipresente e infalível, isso se dá apenas pelo discurso falacioso, umas vez que a abolição do indivíduo aprisiona a sociedade e poda, com o passar do tempo, qualquer possibilidade de rebelião. Sem dúvidas, um aparelho ideológico contundente é base central para qualquer governo totalitarista, no entanto, outras maneiras de opressão e controle são necessárias, pois são também, capazes de manter as pessoas focadas em sua devoção pelo opressor. O Ministério da Fartura e o Ministério da Paz podem ser colocados no mesmo patamar, pois tratam de coisas semelhantes, de acordo com o que o próprio Orwell constrói no romance. O primeiro, como já ficou claro, ocupa-se com a fome e a miséria. É o Ministério responsável pela produção e distribuição de todos os bens produzidos na Oceania. O que a princípio não tem nada de incomum. No entanto, se observarmos o que já foi descrito sobre o Ministério da Verdade, perceberemos que, intimamente, a principal função do Ministério da verdade não é, por uma maneira ou por outra, promover o bem estar social. No mesmo sentido, o Ministério da Fartura tem como finalidade promover fome e miséria na Oceania. Essa constatação tem sua importância explicada por O’Brien: “O poder verdadeiro, o poder pelo qual temos que lutar dia e noite, não é o poder sobre as coisas, mas sobre o homem.” Ele pausou, e por um momento assumiu novamente seu ar de professor questionando um aluno promissor: “Como um homem afirma o seu poder sobre outro?” [...] “Exatamente, fazendo-o sofrer. Obediência não é suficiente. A menos que ele esteja sofrendo, como você pode ter certeza que ele está obedecendo a sua vontade e não a dele? Poder está em infligir dor e humilhação. Poder está em quebrar uma mente em pedaços e depois coloca-los juntos em novas formas da sua escolha.” [...] Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando em uma face humana – para sempre.” (ORWELL, 1984, p. 268-270) [Tradução nossa]6 which is collective and immortal. Whatever the Party holds to be truth, is truth. It is impossible to see reality except by looking through the eyes of the Party. 6 “The real power, the power we have to fight for night and day, is not power over things, but over men.” He paused, and for a moment assumed again his air of schoolmaster questioning a promising pupil: “How does one man assert his power over another, Winston?” […] “Exactly. By making him suffer. Obedience is not enough. Unless he is suffering, how can you be sure that he is obeying you will and not his own? Power is in inflicting pain and humiliation. Power is in tearing human minds to pieces and putting them together again in new shapes of your own choosing.” […] “If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face – forever.”
  • 32. 31 O que O’Brien fala para Winston parece devaneio e alucinação, no entanto tem um fundo muito coerente. Seguindo os princípios do Duplipensar, o nome do Ministério da Fartura é um antagonismo direto à sua função. Essencialmente, a função desse ministério é promover o sofrimento, a fome, a miséria na sociedade da Oceania. Não é de interesse do estado que as pessoas tenha um bom padrão de qualidade de vida. Não é de interesse do estado que as pessoas tenham suas necessidades básicas satisfeitas inteiramente, de modo a dar-lhes qualquer que seja a possibilidade de prazer, satisfação ou conforto. No funcionamento do Partido, os membros têm diversas funções nas fábricas, nos campos, na burocrática administração, entre outras tarefas. O que chama a atenção é que a produção declarada de bens de consumo é enorme, porém, a maior parte da população vive precariamente, com porções “muito bem racionadas” de comida, roupa, produtos de higiene pessoal e alguns prazeres. Isso faz parte das ações de opressão e controle. Fica, então, a pergunta, aonde vão parar todas as riquezas produzidas que não servem, por deliberado intuito do Partido, para aumentar o padrão geral de qualidade de vida das pessoas? É nesse ponto que cabe mostrar como os Ministérios da Fartura e da Paz podem ser colocados no mesmo patamar, e ainda mais, como a atuação do último influencia no sucesso do primeiro. Sendo função de o primeiro promover a precariedade da vida ao privar as pessoas de terem acesso aos bens produzidos, é necessário para que esse trabalho seja realizado de maneira satisfatória, que os bens de consumo, ou que a força de trabalho dos membros do Partido e dos proles seja gasta, “desperdiçada” por algum evento justificável e necessário, de modo que, mesmo que sofrendo, as pessoas acreditem sofrer para o bem da nação. Quando Arendt (2006) toca no assunto ficção, em Origens do Totalitarismo, referindo- se à propaganda, ela nos traz também um fecundo material para decifrar o que se esconde por trás do Ministério da Paz. Também, pelos princípios do Duplipensar, a função do Ministério da Paz é promover a guerra. O fato é, como explica Orwell no livro de Goldstein, não há mais nada pelo que lutar, pois a produção de bens de consumo passou a ser suficiente nos três superestados, Oceania, Eurásia e Lestásia. Nesse sentido fica a pergunta: qual o motivo da guerra então? A resposta, de acordo com o pretendido por Orwell encontra-se em um trecho do livro de Goldstein: O objetivo primário da guerra moderna (de acordo com os princípios do Duplipensar, esse objetivo é simultaneamente reconhecido e não reconhecido pelos cérebros dirigentes do Partido Interno) é gastar os produtos da máquina sem aumentar o padrão geral de vida. Desde o fim do século XIX, o problema sobre o que fazer com o superávit dos bens de consumo tem sido latente na sociedade
  • 33. 32 industrial. [...] O mundo de hoje é um lugar nu, faminto e dilapidado, se comparado com o mundo que existiu antes de 1914, e ainda mais se comparado com o futuro imaginário que as pessoas daquele período esperavam. (ORWELL, 1984, p. 189- 190) (Tradução nossa)7 Causa choque ver uma descrição como essa dos objetivos de uma guerra, no entanto, a distopia orwelliana se dispõe justamente a esse papel. O caminhar junto do Ministério da Fartura e da Paz, portanto, segue, tal como os outros dois Ministérios, o dever de manter uma sociedade hierárquica. Não obstante, toda a conjuntura planejada e executada pelo Partido é voltada a uma manutenção ininterrupta do poder. A combinação das ações desses dois Ministérios implica em uma sociedade vivendo em condições que não lhes permite a faculdade plena de pensar. Seja pela ficção e propaganda, seja pela carga horária de trabalho e condições de vida precárias, a capacidade das massas menos abastadas de se rebelar e tomar o poder da improdutiva casta dominante é relegada silenciosamente. Mais adiante o livro de Goldstein aponta, também, qual o problema em uma sociedade com um padrão geral de vida elevado, e qual o perigo disso para o Partido, o que deixa claro então, todo o enfoque dado na guerra pelo Partido, e mais que isso, o fato de que ela, seja contra Eurásia ou Lestásia, seja ininterrupta e permanente. No romance esses aspectos dos Ministérios da Fartura e da Paz não são tão profundamente discutidos, mesmo assim, a delineação aqui feita aponta para quais aspectos da vida na Oceania são realmente controlados por esses dois órgãos. Poderia dizer-se que o trabalho mais eficiente de controle fica por conta desses dois Ministérios, uma vez que eles, juntos, promovem o que se tem de mais geral na opressão e no controle exercido pelo Partido sobre os membros do Partido Externo e sobre os proles. Para explicar melhor a qual tipo de sociedade o Partido rejeita, cabe olhar mais um trecho do que diz o livro de Goldstein: Seria possível, sem dúvida, imaginar uma sociedade na qual a riqueza, no sentido de posses pessoais e luxos, fosse dividida igualmente, enquanto o poder permaneceria nas mãos de uma pequena e privilegiada casta. Mas na prática essa sociedade não poderia se manter estável por muito tempo. Por conta que lazer e tranquilidade seriam provados por todos, a grande massa de gente que normalmente está estupefata pela pobreza se tornariam letradas e aprenderiam a pensar por eles mesmos; e uma vez que eles tivessem feito isso, cedo ou tarde perceberiam que a minoria privilegiada não tem nenhuma função e eles os varreriam da sociedade. Em 7 The primary aim of modern warfare (in accordance with the principles of doublethink, this aim is simultaneously recognized and not recognized by the directing brains of the Inner Party) is to use up the products of the machine without raising the general standard of living. Ever since the end of the nineteenth century, the problem of what to do with the surplus of consumption goods has been latent in industrial society. […] The world of to-day is a bare, hungry, dilapidated place compared with the world that existed before 1914, and still more so if compared with the imaginary future to which the people of that period looked forward.
  • 34. 33 longo prazo, uma sociedade hierárquica somente seria possível na base da pobreza e da ignorância. (ORWELL, 1984, p.191) (Tradução nossa)8 Até agora foi traçado um panorama que mostra com a sociedade da Oceania é controlada e de que maneira os Ministérios deturpam a realidade de modo a promover a conjuntura necessária para controlar o povo. Faltando ainda falar do Ministério do Amor, descrito no romance como o mais assustador, tanto pelo nome quanto pela sua construção, sem janela, e completamente cercado nas proximidades. Esse último Ministério, para fins práticos de trabalho, pode ser chamado de sanatório. Em uma sociedade onde todo pensamento contrário ao do partido dominante é, quase que totalmente, impossível de ser formulado em virtude de todo o trabalho de lavagem cerebral e medo, ódio aos inimigos e devoção ao Grande Irmão, auto humilhação e aceitação do Partido como a única verdade e a única razão, é necessário que se tenha também um mecanismo de punição, de rendição, de “cura”, para aqueles que mesmo no meio de toda a conjuntura não são capazes de aceitar e enxergar a “verdade”. Com Winston, nem mesmo toda a trapaça, ficção, propaganda e opressão fizeram o efeito desejado pelo Partido. O solitário herói de 1984 é o único que se mostra capaz, na narrativa, de perceber o absurdo que é o Duplipensar, a deslavada alteração do passado, e talvez o pior de tudo, a vida dura, precária e ignóbil que os membros do Partido Externo engoliam alegremente e com extrema gratidão. O tema central da história, no fim das contas, se passa pela rebelião de Winston, o sucesso momentâneo e por fim a queda. Tudo isso vigiado, durante sete anos, por O’Brien, pela Polícia do Pensamento, pelo Ministério do Amor. Quando toda a conjuntura falha, quando toda a propaganda e ficção são ineficientes, quando a miséria e o sofrimento são incapazes de criar em qualquer que seja o membro do Partido, o Ministério do Amor então intervém, fazendo com que o herege, o rebelde converta- se e saia do seu estado latente de “loucura”. Essa intervenção, que à primeira vista pode parecer uma simples tortura, para conseguir a confissão, e então o enforcamento ou fuzilamento como castigo vai, no entanto, muito além e tem como princípio ideológico algo muito simbólico e importante para o IngSoc e seus princípios. 8 It was possible, no doubt, to imagine a society in which wealth, in the sense of personal possessions and luxuries, should be evenly distributed, while power remained in the hands of a small privileged caste. But in practice such a society could not long remain stable. For if leisure and security were enjoyed by all alike, the great mass of human beings who are normally stupefied by poverty would sooner or later realize that the privileged minority had no function, and they would sweep it away. In the run, a hierarchical society was only possible on a basis of poverty and ignorance.
  • 35. 34 Nas palavras de O’Brien para Winston, nenhum dos crimes que este cometeu foram de alguma importância, apenas o pensamento herege importava. Isso talvez não conte muito bem qual o trabalho maior do Ministério do Amor, porém nos aponta para o caminho certo, a partir do qual podemos trilhar, respondendo à seguinte questão: se uma sociedade dominada e vigiada, subjugada pela fome, miséria e o terror da guerra é a base para a manutenção do poder nas mãos de alguns, qual o perigo de alguém pensar diferente, de ser um lunático ou insano, como define O’Brien acerca de Winston? A resposta para essa pergunta é bastante interessante, embora não seja difícil de compreender. Quando o Partido diz que Ignorância é Força, Liberdade é Escravidão E Guerra é Paz ele impõe a todos um lema antagônico, absurdo e nada natural.No entanto, toda a conjuntura montada pelo Partido, auxiliado pelos princípios do Duplipensar, leva a uma aceitação livre de coração e alma desses slogans arbitrários e contraditórios. Isso nos mostra quão simples é a ideia por trás da opressão produzida pelo Partido, esse conceito delibera que todos devem ter como verdade, como razão, o que diz o Partido, o que diz o Grande Irmão; que todos devem ter como amor o amor pelo Partido, o amor pelo Grande irmão, e como ódio apenas o ódio pelos inimigos do Partido, que é apenas por esse definido. Não se encaixar nessa ortodoxia é o mais grave dos crimes, como constata Winston, ao escrever: “Crime de Pensamento não condena à morte: crime de pensamento É a morte”. (ORWELL, 1984).9 Isso porque, como já foi mencionado anteriormente, o poder desejado pelos “manipuladores sem face” personificados no Grande Irmão é o poder sobre as mentes humanas, o poder de destruí-las e refazê-las em diferentes formas a seu bel prazer. “Onde não há luz” encontra-se o herege e seu inquisidor, no enorme prédio sem janelas, no Ministério do Amor. A função do desse Ministério tem tudo a ver com o amor, com a devoção e o sentimento paternal pelo salvador de alguém. No entanto o único amor, a única devoção e sentimento paternal é todo do Grande Irmão, não há amor que não pelo Grande Irmão, nem devoção. É o Ministério do Amor o responsável pela Polícia do Pensamento, o responsável pelas prisões, pelos interrogatórios e pelas execuções. Mas acima de tudo, acima de todas as coisas, é o responsável pela cura, pela transformação do herege em um exemplar membro do Partido, em um amante do Grande Irmão. “Você está progredindo. Intelectualmente há pouca coisa de errado com você. É apenas emocionalmente que você tem falhado em progredir. Diga-me, Winston – e lembre-se, sem mentiras: você sabe que eu sempre sou capaz de detectar uma mentira – diga-me, qual seu verdadeiro sentimento pelo Grande Irmão?” “Eu o 9 Thoughtcrime does not entail death: thoughtcrime IS death
  • 36. 35 odeio.” “Você o odeia. Certo. Então chegou o tempo de você dar o próximo passo. Você deve amar o Grande Irmão. Não é suficiente obedecê-lo: você deve amá-lo.” (ORWELL, 1984, p. 284) (Tradução nossa)10 Claro está que o Partido aprisiona não o corpo da pessoa, não as ações no sentido físico, mas suas emoções e seus pensamentos, convergindo todos eles para o Grande Irmão. Enforcar ou fuzilar o herege não é suficiente, é preciso primeiro que ele seja aprisionado, transformado e convertido. Finalizando bem essa questão, Orwell apresenta na narrativa quão importante é a liberdade individual de amar ou odiar a quem você bem entender, de pensar o que lhe convir, de conhecer a verdade pelos seus olhos e julgá-la pelos seus princípios, não pelo Partido, pelo Grande Irmão. Um dia eles decidiriam executá-lo. Não seria possível dizer quando aconteceria, mas deveria ser possível adivinhar alguns segundos antes. Era sempre pelas costas, andando em um corredor. Dez segundos seriam suficientes. Naquele momento o mundo dentro dele poderia se entregar. E então, de repente, sem nenhuma palavra dita, sem verificar o seu passo, sem mudar uma linha na sua face – de repente a camuflagem viria abaixo e bang! Iria as baterias do seu ódio. O ódio o invadiria como uma enorme chama crepitante. E quase no mesmo instante bang! iria a bala, muito tarde, ou muito cedo. Eles poderiam ter estourado o seu cérebro antes de recuperá-lo. A heresia seria impune, sem arrependimento, fora do alcance deles para sempre. Eles teriam feito um buraco em sua própria perfeição. Morrer odiando-os, isso seria liberdade. (ORWELL, 1984, p.283) (Tradução nossa)11 Estender ainda mais a discussão sobre os Ministérios do IngSoc e suas funções não se mostra mais uma tarefa fecunda. Pôde ser visto na análise até aqui feita como os quatro órgãos desempenham papéis importantes, individuais, mas que fazem efeito apenas em conjunto, para o controle e a manutenção do poder na Oceania. O Partido é imortal, é perfeito pois nega-se, inimaginável possibilidade essa, a aceitar que mesmo um pensamento contrário as suas doutrinas possa existir sem que eles tenham a oportunidade de muda-lo. O papel da propaganda e da ficção gera o pensamento geral desejado para cada uma das classes. O sofrimento com a fome, a miséria e a guerra gera a obediência mais sincera. Por fim, o que escapar a esses métodos ficará a cargo do Ministério do Amor. O Grande Irmão será amado, 10 “You are improving. Intellectually there is very little wrong with you. It is only emotionally that you have failed to make progress. Tell me, Winston – and remember, no lies: you know I am always able to detect a lie – tell me, what are you true feelings for the Big Brother?” “I hate him.” “You hate him. Good. Then the time has come for you to take the last step. You must love Big Brother. It is not enough to obey him: you must love him.” 11 One day they would decide to shoot him. You could not tell when it would happen, but a few seconds beforehand it should be possible to guess. It was always from behind, walking down a corridor. Ten seconds would be enough. In that time the world inside him could turn over. And then suddenly, without a word uttered, without a check on his step, without the changing of a line in his face – suddenly the camouflage would be down and bang! would go the batteries of his hatred. Hatred would fill him like an enormous roaring flame. And almost in the same instant bang! would go the bullet, too late, or too early. They would have blown his brain to pieces before they could reclaim it. The heretical thought would be unpunished, unrepented, out of their reach for ever. They would have blown a hole in their own perfection. To die hating them, that was freedom.
  • 37. 36 o Partido dirá sempre a verdade e ninguém mais, essa é a lei na Oceania, esse é o trabalho do Ministério do Amor. 2.2 O Grande Irmão – O amado opressor Nesse capítulo faremos uma análise acerca dos aparelhos de controle usados pelo Partido, os quais seguem os princípios do IngSoc, e de que maneira esses instrumentos são capazes de modificar/deturpar a realidade de modo a promover uma massa mesmificada, incapaz de rebelar-se organizadamente. Esses organismos buscam, também, varrer para o infinito do esquecimento qualquer tentativa individual de rebelião através de uma conversão genuína e verdadeira à “causa” do Partido. Deve ser esclarecido, mais adiante, que o Partido é uma organização, em certa proporção, sem faces e sem nomes por trás. A personificação dos governantes, manipuladores sem face, como aponta Orwell através do narrador do romance, é o Grande Irmão, ícone máximo da opressão em nome do amor, do autoritarismo em nome do socialismo, da mentira em nome da verdade. É do Grande Irmão que a análise agora se ocupa. A importância do Grande Irmão é inegável, afinal “ele é imortal”. O Grande Irmão é o salvador de toda a Oceania e sua benevolência para com os camaradas infinita. O Grande Irmão é severo e tem mãos de ferro para lidar com os inimigos do povo da Oceania. O Grande Irmão é amado, pois é o líder supremo e de suas ordens apenas justiça pode ser retirada, apenas a verdade vem acompanhada. A configuração política do Partido é bastante interessante no que concerne a alguns conceitos alheios ao romance. Enquanto que o status de líder nas sociedades que conhecemos realça em cores bem pomposas o fascínio exercido pelo poder, com o IngSoc o anonimato dos líderes é a garantia maior de seu sucesso. A divisão entre Partido Interno e Partido Externo esclarece bem quem controla, quem é controlado e quem não é controlado porque não faz diferença se é ou não. Contudo, o que importa mais primariamente nesse momento são os mandatários anônimos, mais precisamente a sua personificação, o Big Brother. Usar uma única figura, a qual ninguém jamais viu nem jamais verá pessoalmente como líder máximo da Oceania é um modo de convergir, como é convergido, todo amor e admiração, alienada, diga-se de passagem, das pessoas para um único ponto, de modo que a concentração aumenta, exponencialmente, a genuinidade desses sentimentos. Já foi mencionado nesse trabalho que todo o discurso do Grande Irmão, do líder totalitário, é
  • 38. 37 astutamente elaborado e apoiado pelo Duplipensar de modo que qualquer atrocidade contra o povo pareça ser por seu próprio benefício. Winston sabe, como mais ninguém no romance parece realmente saber12 , que o que o Grande Irmão diz e faz não tem nenhuma relação com a realidade. Ele sabe que o amor declarado pelo líder da Oceania por seu povo não existe, embora não tenha, em toda a narrativa, a certeza de se o Grande Irmão é real ou não. Esse fato nos impõe em uma encruzilhada que divide o caminho para o mesmo destino em duas distintas estradas. Na primeira, temos um Grande Irmão protetor, o salvador da revolução, aquele que trouxe para todos uma vida melhor; na segunda estrada temos um discurso falacioso, engolido graças a lavagem cerebral coletiva promovida pelo Duplipensar, discernido por Winston. Nessa dualidade pode-se estabelecer o termo amado opressor para designar o Grande Irmão, e apontando como principal função o desvio da atenção do povo sobre os “manipuladores sem face” do Partido Interno para um líder infalível, inatingível e invencível, capaz de confortar com amor incondicional, mas com a mão pesada para castigar os inimigos da revolução. Definir o Grande Irmão com esse termo importa no entendimento da obra, pois retrata quanto de Grande Irmão alguns déspotas tiveram em suas atuações políticas em países onde se instalou alguma forma de poder totalitário. O entendimento mais claro dessa proposta de análise pode ser esclarecido facilmente ao se observar os Dois Minutos de Ódio, onde Emmanuel Goldstein é mostrado como o maior inimigo do povo, um dissidente que tomou parte na revolução quase que no nível do Grande Irmão. A narrativa segue descrevendo como Goldstein era visto pelo povo da Oceania: Como de costume, a face de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, apareceu na tela. Houveram assobios aqui e ali em meio a audiência. [...] Goldstein era o renegado e desertor que havia sido, muito tempo atrás (quanto tempo, ninguém lembrava claramente), tinha sido um dos líderes do Partido, quase no nível do Grande Irmão, e então se envolveu em atividades antirrevolucionárias, foi condenado à morte e misteriosamente escapou e desapareceu. [...] Ele era o principal traidor, o primeiro profanador da pureza do Partido. Todos os crimes subsequentes contra o Partido, todas as traições, atos de sabotagem, heresias, desvios, brotavam diretamente de seus ensinamentos. (ORWELL, 1984, p.11) (Tradução nossa)13 12 Por conta do Duplipensar, nem mesmo O’Brien, conversando abertamente com Winston sobre as discrepâncias entre discurso e prática do Partido é capaz de enxergar verdadeiramente que a vida na Oceania não é como deveria ser, que as coisas deveriam ser melhores, a comida mais farta, a água mais quente, os corpos mais opulentos... 13 As usual, the face of Emmanuel Goldstein, the Enemy of the People, had flashed onto the screen. There were hisses here and there among the audience. […] Goldstein was the renegade and backslider who once, long ago (how long ago, nobody quite remembered), had been one of the leading figures of the Party, almost on the level with the Big Brother himself, and then had engaged in counter-revolutionary activities, had been condemned to death and had mysteriously escaped and disappeared. […] He was the primal traitor, the earliest defiler of the
  • 39. 38 Durante os dois Minutos de Ódio o que se sucede é Goldstein falando toda sorte de “leviandades” à respeito do Partido, acusando o Grande Irmão, dizendo que a revolução fora traída, que o Partido é ditador, etc. O leitor sabe que o que Goldstein fala é a verdade, Winston, em determinado momento vai descobrir que Goldstein fala a verdade, no entanto, a histeria coletiva provocada pelo momento leva até mesmo a Winston, um dissidente, a odiar o velho com “voz de ovelha” na tela. Criar um inimigo central interessa totalmente ao Partido pois todo o ódio pode ser facilmente direcionado àquele que todos os crimes comete. O Inimigo do Povo, o Inimigo do Grande Irmão. Da mesma maneira como Goldstein é alvo de todas as acusações, de toda fúria e ódio, seu opositor, àquele que defende o povo dessa figura malévola é o merecedor maior de todas as honras, de toda devoção e de todo o amor. Na prática o Partido fala a verdade, falando mal de si mesmo, mente ao mostrar-se, personificado no Grande Irmão, como o salvador de tudo e de todos. Com os princípios do Duplipensar todo esse processo ocorre de maneira intrínseca dentro da cabeça de cada um dos membros do Partido, cuja sanidade está salvaguardada e cujo amor pelo Grande Irmão seja de coração e alma. A centralização de todas as ações e discursos do Partido para o nome do Grande Irmão cria então dois fatores muito interessantes para a casta dominante do Partido Interno: primeiro estes se mantêm no anonimato, podendo então desfrutar do prazer sem jamais levantarem suspeitas sobre si; segundo, facilita o trânsito dos sentimentos de amor e devoção a uma única figura imortal, acolhedora e firme. Os Dois Minutos de Ódio, nesse sentido, servem para reafirmar, a cada vez que Goldstein acusa de crimes o Grande Irmão, a inocência e benevolência do último, e a seguridade que somente o Partido pode promover, por ser imortal e infalível. A esse aspecto pode se consultar no romance: O ódio tinha atingido o seu clímax. A voz de Goldstein tinha se tornado um verdadeiro berro de ovelha, e por um instante a face se tornou a de uma ovelha. Então a face de ovelha transformou-se na figura de um soldado Eurasiano que parecia avançar, enorme e terrível, com sua metralhadora rugindo, e aparentando sair da superfície da tela, [...] a figura hostil se transformou na face do Grande Irmão, cabelos pretos, bigode preto, cheio de poder e misteriosamente calmo, e tão vasto que quase tomou toda a tela. [...] Então a face do Grande Irmão foi sumindo da tela, e no lugar os três slogans do Partido apareceram em caixa alta: GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, INGNORÂNCIA É FORÇA. [...] Mas a face do Grande Irmão pareceu persistir por vários segundo na tela [...] Nesse momento todo o grupo de pessoas começaram a entoar um canto profundo lento e ritmado de “B-B!....B-B! [...] Por cerca de trinta segundos mantiveram o canto. [...] Party’s purity. All subsequent crimes against the Party, all treacheries, acts of sabotage, heresies, deviations, sprang directly out of his teaching.
  • 40. 39 Parcialmente isso era uma espécie de hino à sabedoria e majestade do Grande Irmão, mas ainda mais, era um ato de auto hipnose, um afogamento deliberado da consciência por meio de um barulho rítmico. As entranhas de Winston pareceram gelar. Nos Dois Minutos de Ódio ele não podia evitar compartilhar o delírio geral, mas esse canto sub-humano de “B-B!...B-B!” sempre o enchia de horror. (ORWELL, 1984, p.15-16) (Tradução nossa)14 Esse trecho da narrativa afirma como o Partido pode controlar os sentimentos das pessoas. Toda a traição de Goldstein contra a prosperidade e paz da Oceania é convertida em objeto de ódio e medo para os cidadãos, que se entregam então a uma histeria completa, onde nada mais importa a não ser a ação de detestar e profanar profundamente o “inimigo” na tela. Quando o terror e o ódio chegam ao clímax, então aparece o “salvador”, O Grande Irmão, o Partido em Pessoa, e então tudo fica bem novamente, pois o peito protetor e amável do homem atrás do bigode é o refúgio para todos os problemas, e o único objeto de adoração, confiança amor e respeito. Tudo está bem com o Grande Irmão. Nessa análise se vê uma personificação de uma força totalitária, o Grande Irmão, a força totalitária que essa figura representa oprime, impõe sofrimento e medo àqueles sob sua guarda, e tudo isso o faz em nome do bem estar dos oprimidos. O amado opressor não é um devaneio da literatura, nem de Orwell, é uma realidade retratada de maneira vívida e contundente em 1984. 14 The Hate rose to its clímax. The voice of Goldstein had become an actual sheep’s bleat, and for an instant the face changed into that of a sheep. Then the sheep-face melted into the figure of an Eurasian soldier who seemed to be advancing, huge and terrible, his submachine gun roaring, and seeming to spring out of the surface of the screen, […] the hostile figure melted into the face of Big Brother, black haired, black-moustachio’d, full of power and mysterious calm, and so vast that it almost filled up the screen. […] Then the face of Big Brother faded away again, and instead the three slogans of the Party stood out in bold capitals: WAR IS PEACE, FREEDOM IS SLAVERY, IGNORANCE IS STRENGTH. But the face of Big Brother seemed to persist for several seconds on the screen, […] At this moment the entire group of people broke into a deep, slow, rhythmical chant of “B-B!....B-B!” […] For perhaps as much as thirty seconds they kept it up. […] Partly it was a sort of hymn to the wisdom and majesty of Big Brother, but still more it was an act of self-hypnosis, a deliberate drowning of consciousness by means of rhythmic noise. Winston’s entrails seemed to grow cold. In the Two Minutes Hate he could not help sharing the general delirium, but the sub-human chanting of “B-B….B- B” always filled him with horror.
  • 41. 40 3 1984 E O NOSSO TEMPO À luz da análise feita nesse trabalho, um aspecto deve ser considerado, buscando, não só o entendimento da obra, mas também o entendimento do nosso tempo, como justificativa para o dispêndio da pesquisa. Nessa perspectiva, a pergunta que emerge é: qual a relação entre o “anuncioso” ou “denuncioso” mundo de 1984 e o nosso tempo? Como já discutido no primeiro capítulo, a literatura liga-se à realidade, modificando-a e por ela sendo modificada. De modo que a leitura desse romance, bem como a pesquisa acerca do seu conteúdo político e sedicioso, está intrinsecamente ligada a uma alteração no nosso modo de ver as coisas, de ver o mundo e as relações de poder. Ao fim desse capítulo pretende-se estabelecer uma relação muito clara e genuína entre a denúncia de Orwell acerca dos regimes totalitaristas do passado e um novo modelo de controle – o Neoliberalismo. O que leva esse trabalho a esse ponto são as características do mundo atual, desde aspectos políticos a aspectos culturais, e muito da influência das novas tecnologias da informação e comunicação como instrumentos da globalização, e, até mesmo, em determinadas esferas, de controle. As teletelas do nosso mundo estão interligadas no mundo todo, e em certa proporção, acessíveis à qualquer governo ou instituição pública. Os computadores tomaram nossas vidas, e sem eles não podemos mais nada fazer. A Polícia do Pensamento, talvez uma das invenções mais absurdas do romance, assume hoje uma nova face, não a de vigilante, mas a de educador. A formação de um massificada “cultura mundial” tem, a longo prazo, o poder de impor todos os desejos do capitalismo sem que nenhum questionamento seja levantado. 3.1 A atualidade de 1984 Não é raro ler ou ouvir: “Orwell foi profético”, “está mais atual do que nunca”. Esse tipo de afirmação faz sentido? A essa resposta cabe uma reflexão acerca dos aspectos abordados nesse trabalho e de aspectos da nossa vida cotidiana. Uma busca de certa forma dirigida, o que, no entanto não invalida os resultados encontrados, em vista de que as “coincidências” não são meros acasos, mas têm inclusive, fundo teórico que aponta de modo bastante consistente relações de causa e efeito nos aspectos da sociedade atual abordados nesse trabalho.