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  1. 1. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 OS GÊNEROS DA SUBALTERNIZAÇÃO: A MIMETIZAÇÃO DA SUBJETIVIDADE SUBALTERNIZADA NA POESIA E NO CONTO BRASILEIRO NO SÉCULO XX Edson Soares Martins – Professor de Literatura Brasileira da Universidade Regional do Cariri 1. ALGUMAS PALAVRAS INICIAIS Tratar do sujeito é algo cada vez mais trágico: algum tipo de fatalidade incontornável colocou-nos em desacordo sobre aquilo que somos e sobre o estilo de ser um tipo de “nós mesmos” que não foi problemático até algumas décadas passadas. Assim sendo, cumpre iniciar por dizer de que sujeito se fala. O sujeito a que nos referimos é aquele cuja posição, no jogo de poder que descreve o processo social brasileiro, é necessariamente a posição dos dominados, sendo igualmente indissociável de sua mimetização literária a condição da emergência de um discurso artístico capaz de refletir criticamente sobre a dominação a que tal sujeito está submetido. Não constitui, para nós, um imperativo que essa reflexão ocorra como processo verbal ou mental consciente da personagem ou do narrador, sendo plenamente aceitável que ela possa ser construída por estratégias de leitura capazes de desvendar a paradoxificação da condição de subalternizado após a ascensão da burguesia ao poder. Voltaremos mais adiante a este tópico. Também o conceito de subalterno está a merecer uma apresentação inicial. Comecemos pelas negativas. Tal conceito, do modo como o Ocidente dele se tem apropriado, estabelece um viés ideológico que se traduz assim: de um lado estão os subalternos, na posição de subalternos, acomodados ou em desconforto com tal papel; de outro, os intelectuais, responsáveis por sistematizar, nos diversos campos do saber acadêmico, a recepção qualificada das estratégias de que os subalternos lançam mão para poderem falar _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  2. 2. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 de si. Um aspecto sempre subjacente ao tratamento teórico- metodológico mobilizado pelos estudiosos do subalterno é o pressuposto de que a perspectiva solidária do intelectual já implica em seu estatuto ontológico diferenciado daquele do subalterno. Este escreve o romance ou organiza a ação restrita de que aquele se apropria como objeto de estudo. Propondo-se a construção de estudos que instrumentalizem uma denúncia da condição subalterna – da qual o indivíduo deve ser emancipado, ou, de modo distinto, a respeito da qual pouco se entende e, portanto, à qual pouco valor se atribui –, os estudos subalternos, em alguma medida significativa, reduplicam, na própria constituição de seu objeto de estudo, a estratificação contra a qual se (re)voltam. Não são pouco freqüentes, no âmbito dos Estudos Subalternos, para oferecermos um exemplo sutil, as assertivas ou raciocínios que, se não funcionam como vitimizadores, são involuntária mas decididamente preconceituosos. Também não se despreza a importância da linguagem na ciência, sobretudo quando os rumos da validação interna do método de qualquer campo teórico depende muito da sua consistência terminológica. Chamamos a atenção para o uso marcadamente adjetivo que “subalterno” tem nos Estudos Subalternos. O subalternizado de que nos ocupamos é material, histórica e socialmente determinado. É substantivo e pode ser isolado como indivíduo sem que nele se elidam os processos que o atravessam como parte da totalidade, ou, preferimos dizer (e isto para que fique bem claro o campo a partir do qual pensamos), trata-se do sujeito individual percebido como sujeito histórico. Buscaremos na reflexão marxista autógrafa um primeiro vislumbre do que temos buscado definir. Quando Marx e Engels, no Manifesto do Partido Comunista, afirmam que a burguesia entronizada no poder transforma em simples valor de troca a dignidade pessoal e eleva acima de todas as outras liberdades (duramente conquistadas) a liberdade de comércio, podemos dizer, com certeza, que acabara de nascer o sujeito subalternizado em sua substantividade. É bastante oportuno ter em mente, na leitura do trecho do Manifesto referido acima, que, como bem sustenta _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  3. 3. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 Merleau-Ponty, as relações sociais não se dão diretamente entre consciências, mas mediatizadas por instituições e por coisas. Se o sistema literário (investido daquilo que lhe dá a condição de instituição) e obra literária (nas cintilações que passa a ter como coisa) habilitam-se a veicular a opressão em termos de valor de troca, os mecanismos da ideologia acorrem em seu auxílio e desfiguram a imagem e a idéia, independentemente daquilo que pretendam seus autores ou do que possa recomendar a crítica mais progressista e libertária. É na tentativa de fixar como esse processo se dá no ponto mais alto de nosso sistema literário, em íntima relação como as formas de evolução de nosso processo social, que partiremos do século XX em busca da construção algo espectral do sujeito subalternizado em nossa Literatura Brasileira. 2. OS MOMENTOS DA MÍMESIS Na peculiar reflexão que constrói sobre a mímesis na literatura, Luiz Costa Lima adverte-nos que a questão da mímesis seria mais urgente para os artistas e pensadores do Terceiro Mundo, posto que “o julgamento da mímesis colonial remete não mais a uma matéria de que se alimenta – chamemo-la provisoriamente ‘vida’ ou ‘realidade’ – mas ao padrão metropolitano que dita como a ‘realidade’ deva ser ‘imitada’ e interpretada” (LIMA, 2003, p. 26). Este primeiro momento de focalização da mímesis é decisivo para as linhas de exercício analítico que proporemos na leitura dos objetos miméticos que empreenderemos na próxima seção do texto. A existência de um padrão – ou modo de ser socialmente recomendável – associado à existência de mecanismos de diretividade – isto é, apropriados para homogeneizar comportamentos e impressões – se esclarece em nossa perspectiva de leitura como uma forma concreta da luta de classes, sendo evidente que os “padrões metropolitanos” nada mais são que as normas sociais, morais, culturais e políticas que descrevem como as elites dos países imperialistas exercem seu império sobre as nações dependentes, mas, principalmente e, sobretudo, sobre os _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  4. 4. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 enormes contingentes de trabalhadores proletarizados e sobre segmentos médios cada vez mais pauperizados. Outro ponto teórico importante diz respeito ao fato de que a mímesis não é pura imitação. É antes um ato de insubmissão contra a destruição do ser; é criação. Como afirma Costa Lima (2003, p. 27), há uma essencialidade dialética indissociável do ato mimético: “... permanência que não se nega ao transformado, transformado que não lança um abismo ante o que se passou”. Essa essencialidade dialética impele-nos ao reconhecimento de uma homologia entre o ato mimético em si e a configuração sistêmica que as artes assumem com a complexificação da vida social e com o desenvolvimento das técnicas. Mesmo que não se possa falar de uma homologia perfeita entre os planos (pois a obra, em dada dimensão do pensamento crítico abstratizante, pode mimetizar tanto a sociedade, quanto a crítica, quanto a continuidade dos temas e a renovação incessante da linguagem), na objetivação da obra de arte, já se demonstrou a importância do sistema como constitutivo das literaturas nacionais, assim como se tem demonstrado a centralidade irrefutável da mímesis em qualquer debate sobre a relação entre linguagem e realidade. E seria reducionismo primário postular a independência de um desses aspectos em relação ao outro. A mímesis representa a superação da univocidade original entre palavra e verdade, tornada possível pelo surgimento de condições sociais em que, diferentemente do período micênico, em que o poeta exerce funções de interesse crucial da cidade-fortaleza. No posterior surgimento das poleis, havia já não somente a substância intelectual, mas também a indispensável condição política para que “se instalasse o debate da palavra contraposta” (LIMA, 2003, p. 39-40). Naturalmente, a questão tal como está exposta nessas breves linhas, sequer esboça um caráter que seja minimamente embrionário quanto à magnitude do problema. Soma-se a este aspecto embrionário de nosso problema o fato de que perseguimos uma compreensão da mímesis cuja interpretação mantenha unidade e organicidade com o horizonte teórico dos estudos de literatura e sociedade. Lembramos a essa altura, a afirmação de Candido _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  5. 5. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 (2006, p. 28), em seu Formação da Literatura Brasileira: “... não há literatura sem fuga ao real, e tentativas de transcendê-lo pela imaginação...”. 3. POESIA E SUBALTERNIZAÇÃO Comecemos a consideração de nosso problema, por uma coleção de opiniões sobre o poema Polina, de Manoel de Barros (1996, p. 48): — Como é seu nome? — Polina Não sabia dizer Paulina Teria 8 anos Rolava na terra com os bichos tempo todo o nariz escorrendo — Você tem saudade do sítio, Polina? Que tinha. — O que você fazia lá? Que rastejava tatu. Voltava correndo avisar o padrasto: lá no brenha tem uma! Tornasse pra casa sem rasto apanhava no sesso. Era sesso mesmo que empregava. Usava uma algaravia Herdada de seus avós africanos e diversos assobios para chamar nambu O pirizeiro estava sempre carregado de passarinhos... Polina há dois meses foi se embora de nossa casa Um bicho muito pretinho com pouca experiência de _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  6. 6. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 sofrimento Mas pra sua idade o suficiente. Aqui se nota a simpatia por um modelo real, colhido da (ou pela) memória. Paradoxalmente, a despeito da simpatia, na mimetização poética, a violência sexual a que Paulina é submetida parece não chamar a atenção do eu-poético nem querer provocar indignação em um eventual leitor. É, entre outras falsas pistas, o pitoresco da pronúncia da palavra sexo/sesso que, por exemplo, impressiona a atenção do eu- lírico. Observa-se mesmo o cuidado de reiterar a pronúncia corrupta, magnificando um detalhe insignificante, para tornar patente a prematuração do encontro de Paulina com o sofrimento. Pela ironia farpante, o eu-lírico simula considerar com indiferença a experiência de Paulina, assumindo o ponto de vista de sua classe social, reduzindo a personagem que deve ser alvo de simpatia à condição de animalidade pura e simples, explicitamente marcada no verso “Um bicho muito pretinho com pouca experiência de sofrimento”. Não há vitupérios de ovelha desgarrada nem dedos em riste a apontar os culpados pela tragédia social. Não há uma neutra sensibilidade que nos proponha a exprobação dos seviciadores ou uma moralizante censura ao tecido social. Faz lembrar o trecho de A menor mulher do mundo, de Clarice Lispector (1998, p. 71), em que se registra o seguinte diálogo sobre a pigméia Pequena Flor: — Mamãe, olhe o retratinho dela, coitadinha! Olhe só como ela é tristinha! — Mas — disse a mãe, dura e derrotada e orgulhosa — mas é tristeza de bicho, não é tristeza humana. — Oh! mamãe — disse a moça desanimada. É de fato o sentimento de desânimo, de indiferença, que funciona como um mecanismo provocador, atraindo a emoção do _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  7. 7. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 leitor contra a individualidade burguesa e seu humanismo hipócrita e hierarquizante. Mas Lispector não apaga nada. Insiste, através de uma repetição acumulativa, ao longo do conto, no elemento causador do desconforto. O eu-lírico barrosiano vela o primeiro plano, frustrando o leitor, açulando-o com a incompletude, com a ausência de uma indignação enfurecida. Nos rumos de uma perspectivação histórica, podemos chamar em nosso auxílio um paralelo a partir das conclusões de Roberto Schwarz (2000ª; 2000b) sobre a evolução do narrador machadiano. O eu-poético de Barros, tal como o narrador solidário aos oprimidos, da primeira fase do romance machadiano, silencia, a requerer do leitor o desvendamento dos laços históricos da subalternização. Um narrador como este, do texto clariceano, assume o ponto de vista da classe contra a qual invoca nosso repúdio. Mais vigoroso e contundente, representa um segundo ponto de vista de denúncia da subalternização, em tantos traços tão semelhante ao eu-poético de alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade. Um dos exemplos mais evidentes deste nosso raciocínio é o poema Morte do leiteiro, mas, ecoando a Polina barrosiana, leremos Negra, poema colhido em Boitempo (ANDRADE, 1992, p. 448) : A negra para tudo a negra para todos a negra para capinar plantar regar colher carregar empilhar no paiol ensacar lavar passar remendar costurar cozinhar rachar lenha limpar a bunda dos nhozinhos trepar. A negra para tudo nada que não seja tudo tudo tudo até o minuto de (único trabalho para seu proveito exclusivo) morrer. _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  8. 8. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 Alguns mecanismos sintáticos são peculiarmente interessantes: a repetição, configuradora da anáfora inicial, e a enumeração, responsável pelo efeito de acúmulo. Se encararmos tais mecanismos como esquemas de comportamento ou hábitos mentais, a exploração da negra pelos seus opressores não aparece, na linha argumentativa do eu-poético, como opressão. Naturalizada ao ponto de coincidir com scripts lingüísticos, a opressão é invisível aos olhos do opressor. E é tão invisível que ele mesmo a veicula sem “percebê-lo”. Evidentemente, não ocorre que seja pertinente estabelecer qualquer aspecto valorativo entre um ou outro modo de mimetizar os processos de subalternização do sujeito, o que, de certo modo, faz nosso raciocínio diferir sensivelmente daquele de Schwarz, que conclui pela superioridade do narrador de Memórias póstumas de Brás Cubas e dos demais romances da segunda fase. 4. NARRATIVA E SUBALTERNIZAÇÃO Começaremos a discutir o recorte que elegemos por referências esparsas à obra de Dalton Trevisan. Em um conto como “Maria pintada de prata”, a perspectiva da ação discursiva subalternizante, levada a cabo pelo narrador, é dupla: se João, descrito no relativamente longo processo de tornar-se alcoólatra, é descrito sempre a partir de um foco simpático, próprio daqueles a quem Joel Rufino do Santos chama de intelectuais compassivos, Maria, sua esposa, é descrita com a voz social do marido e dos vizinhos, o que redunda em oposições formalmente opostas: Grandalhão, voz Maria se emboneca, retumbante, é muito pintada e gasta adorado pelos filhos. pelos trabalhos João não vive bem grosseiros. como Maria – Desespero de João e ambiciosa, quer escândalo das enfeitar a casa de famílias, a pobre brincos e tetéias. [p. senhora, feia e _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  9. 9. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 22] nariguda, canta no … tanque e diante do Os meninos desviam espelho as mil os olhos: sapato marchinhas de furado, calça carnaval. Os filhos rasgada, paletó sem largados na rua e ela botão. [...] [p. 24] ocupada em depilar sobrancelha e encurtar a saia – no braço o riso de pulseiras baratas [p. 22] Publicado em 1968, o conto não resolve em sua estrutura interna o problema da focalização dos subalternizados, formalizando tanto a compassividade, cujo extremo seria uma postura populista, como a de Rachel de Queiroz ou a de Jorge Amado, quanto a criticidade, capaz de servir-se dos vincos ideológicos que distinguem o projeto político global de subalternizadores e, eventualmente, de subalternizados1. Trevisan repete o modelo em “O pai, o chefe, o rei”, conto de 1969. Nele, o pai, João, é captado através de uma perspectiva crítica, percebida no discurso pontilhado de preconceitos do autoritarismo patriarcalista arcaico e brasileiro (“Tenho outra mais moça” [p.34], “Epa, vaca velha!”, “Filho meu não pode comigo”, “Atire, que mata um homem.”, “Não é macho, seu moço.” [p. 35]). A mãe e o filho não são predicados pelas próprias falas nem pelo narrador, mas por aquilo que Julia Kristeva chama de adjuntor qualificativo (seus atos, que não são propriamente ações, servem mais para desenhar o caráter da personagem do que para fazer progredir a narrativa). Os adjuntores qualificativos envolvidos 1 Parece-nos que a configuração irônica (cf. LUKÁCS, A teoria do romance), cujo modelo tomamos na segunda fase do romance machadiano, tal como elucidado por Schwarz, tem gozado de prevalência sobre a configuração compassiva, que associamos àquela que configura o narrador machadiano da primeira fase. Esta é, ainda, uma hipótese de trabalho. _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  10. 10. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 remetem mãe e filho a uma condição de produtos passivos da miserabilidade em que vivem, o que implica uma perspectiva compassiva. Em Clarice Lispector, o problema da configuração de um foco crítico, não-compassivo, é dominante de tal forma que, no volume que estudamos, Laços de família, a assunção de um foco compassivo é dificilmente localizável. Em “Devaneio e embriaguez de uma rapariga”, o foco está sempre a serviço da demonstração de um esvaziamento da autenticidade da condição de esposa no modelo burguês do casamento. “Feliz aniversário” é modelar na apropriação de um modo de pensar formatado pela mercantilização das relações sociais: Alguns não lhe haviam trazido presente nenhum. Ouros trouxeram saboneteira, uma combinação de jérsei, um broche de fantasia, um vasinho de cactos – nada, nada que a dona da casa pudesse aproveitar para si mesma ou para seus filhos, nada que a própria aniversariante pudesse realmente aproveitar constituindo assim uma economia: a dona da casa guardava os presentes, amarga, irônica. [p. 56-57] A coisa não muda de figura quando o narrador, onisciente, envereda pela ruminação interior de D. Anita: [...] Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco era bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  11. 11. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeitada cuspiu no chão. [p. 61] “A menor mulher do mundo”, “Amor” e “A imitação da rosa” são também contos excepcionalmente felizes na resolução da opção entre foco crítico e compassivo. Neste último, por exemplo, um precioso equilíbrio se estabelece entre o foco compassivo exercido pelo narrador e o foco crítico acionado pelos diversos momentos de autodepreciação de Laura, a infeliz protagonista que é esposa de um casamento morno, mulher estéril e, como se não bastasse, ex-paciente manicomial, às vésperas da crise que vai reconduzi-la ao hospício. Quando o autor é Guimarães Rosa, a análise do problema não é menos difícil que em Lispector. Em Primeiras estórias, contos como “A menina de lá” e “Substância”, ou “Meu tio o Iauaretê”, de Estas estórias, ou “Sarapalha”, “Conversa de bois”, “A hora e vez de Augusto Matraga”, de Sagarana, dificilmente poderíamos dizer que uma leitura a partir da consideração da focalização crítica ou compassiva não empobrece a significação estética integral do conto. Há – e não somente nos contos a que nos referimos acima – uma infinidade de aspectos em que os contos são igualmente colecionáveis. É, portanto, somente no cenário de uma abordagem de conjunto que tecemos a seguinte observação, que vai além de uma peculiaridade: os contos reunidos em Sagarana focalizam de forma tão fechada a condição subalternizada de seus protagonistas que as eventuais personagens secundárias – mesmo que perpassadas pela subalternização – não são essencialmente captáveis pela condição subalternizada. A cidade abandonada em “Sarapalha” torna impossível a presença de outras personagens, salvo através da rememoração. Logo, torna-se improdutivo querer analisar como se focalizam mutuamente Argemiro e Ribeiro, igualmente detentores da simpatia compassiva do narrador. O que é situação bem diferente, por exemplo, do protagonista de “Meu tio o Iauaretê”, conto em que a narrativa de primeira pessoa, configurada nos moldes do _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  12. 12. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 Grande sertão: veredas, sendo diálogo, mas se oferecendo como monólogo, faz com que irrompam do discurso do sobrinho da onça as vozes subalternizantes com que diminuir e inferiorizar as personagens secundárias. Punidos, os semelhantes vistos como diferentes, não recebem o castigo senão pela transgressão de preceitos de caráter mítico-religioso, o que também não é novo como justificativa para as estratégias do discurso subalternizante. Para finalizar, é oportuno dizer que as considerações sinteticamente coligidas nessa breve comunicação não são sintéticas apenas pelos limites impostos a este gênero de trabalho, mas pelo esforço que seu desenvolvimento tem demandado de toda a nossa equipe de pesquisadores, a quem devo expressar meus sinceros agradecimentos. 5. REFERÊNCIAS ANDRADE, Carlos Drummond de. (1992). Carlos Drummond de Andrade: poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. BARROS, Manoel de. (1996). Poemas concebidos sem pecado. In: _____. Gramática Expositiva do Chão: (poesia quase toda). 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. CANDIDO, Antonio. (2006). Formação da literatura brasileira: momentos decisivos 1750-1880. 10. ed. revista pelo autor. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul. KRISTEVA, Julia. (1984). O texto do romance: estudo semiológico de uma estrutura discursiva transformacional. Lisboa: Livros Horizonte. LISPECTOR, Clarice. (1998). A menor mulher do mundo. In: _____. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco. LUKÁCS, Georg. (2000). A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34. MARTINS, Edson Soares. (2001). Desamparo e infantilização na obra de Manoel de Barros: os deslimites da poesia. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba. (Dissertação, Mestrado em Literatura Brasileira) _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0
  13. 13. Anais do I Simpósio Nacional Linguagens e Gêneros Textuais – de 28 a 30 de março de 2007 ROSA, João Guimarães. (1994). Ficção completa em dois volumes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. (Biblioteca luso-brasileira. Série Brasileira) SANTOS, Joel Rufino dos. (2004). Épuras do social: como podem os intelectuais trabalhar para os pobres? São Paulo: Global. SCHWARZ, Roberto. (2000ª). Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34. SCHWARZ, Roberto. (2000b). Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34. TREVISAN, Dalton. (1994). Vozes do retrato: quinze histórias de mentiras e verdades. 4. ed. São Paulo: Ática. _______________________________________________________________________________ João Pessoa, Editora Universitária/EDUFPB, 2007 – ISBN 978-85-7745-074-0

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