A Crise Académica de 1969 O espoletar da Crise
Na década de 60,   Portugal vivia submetido ao governo de Salazar, marcado por um clima de tensão permanente, provocado pela Guerra Colonial, pela censura à impressa e aos meios culturais, bem como pela perseguição a todos os que se opunham ao regime. Foi então que o Governo nomeou uma Comissão Administrativa que ia liderar a Associação Académica de Coimbra, o que demonstrava bem a repressão salazarista: entre 1965 e 1968 não foi permitido aos estudantes a escolha dos seus corpos gerentes.
Os estudantes de Coimbra, insatisfeitos pela não representação no Senado, fizeram um abaixo assinado, pedindo a realização de eleições livres em Fevereiro de 1969. Deste acto eleitoral saiu vencedora a lista do Conselho das Repúblicas (com 75% dos votos).
Em Março, a Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra é convidada para a inauguração da Faculdade de Matemática.  Não só os estudantes aceitaram o convite, como também informaram que pretendiam intervir na cerimónia.  Esta pretensão foi recusada pela Reitoria, pois o Reitor já “representava a Universidade” e a intenção dos estudantes discursarem, prejudicaria as “prescrições protocolares”.
No dia 17 de Abril de 1969, frente à Faculdade de Matemática, milhares de estudantes exigiam o diálogo, o ensino para todos e os estudantes no Governo da Universidade.
No interior da Faculdade, Alberto Martins, Presidente da DG/AAC, pede a palavra ao Presidente da República, Américo Tomás. O Presidente nega-lhe a palavra e a cerimónia termina de forma repentina.
Na noite desse mesmo dia, Alberto Martins é preso à porta da AAC. Centenas de estudantes encaminharam-se, em solidariedade, para a sede da PIDE, onde acabaram por sofrer uma carga policial.
O dia 17 de Abril ficou assim marcado como o início da Crise Académica de Coimbra.
No ginásio da AAC, milhares de estudantes e dois professores (Orlando de Carvalho e Paulo Quintela) decretam o  luto  académico, sob a forma de  greve  às aulas.
José Hermano Saraiva (Ministro da Educação Nacional), numa comunicação transmitida a toda a nação pela televisão no dia 30 de Abril de 1969, acusava os estudantes de desrespeito, crime de sediação e insultos ao Chefe de Estado.
Como resposta, cerca de 4000 estudantes participaram na Assembleia Magna que se realizou no Pátio dos Gerais, no dia 1 de Maio. Em conjunto com o corpo docente, repudiaram as afirmações do Ministro da Educação Nacional.
Por despacho do Ministro, a Universidade foi encerrada  até ao início dos exames. A Assembleia de Estudantes Grelados, em solidariedade para com a Academia, cancelou o festejo da Queima das Fitas: “Jamais aceitaremos que a alegria se confunda com a irresponsabilidade...”, dizia o comunicado.
No dia 28 de Maio, 6 mil estudantes reuniram-se na maior Assembleia Magna da história, onde foi decretado a abstenção aos exames e deliberada a “Operação Balão” e a “Operação Flor”. Estas consistiam na distribuição de flores e balões como forma de protesto, com o objectivo de alertar a população para a situação e assim levantar as suspensões, os processos de inquérito e a não marcação de faltas durante o luto.
Greve aos exames
No dia 2 de Junho, início da época de exames, Coimbra acorda sitiada. Destacamentos da GNR, PSP e da Polícia de choque ocupam a Universidade.
Só são autorizados a entrar na Universidade os professores e alunos que desejem prestar exames.  Intensificam-se as prisões aos grevistas.
 
 
No mês de Julho, o Governo alterava a lei de adiamento da incorporação militar de modo a a fazer depender da prorrogativa “do bom comportamento escolar” do estudante. Ao abrigo desta nova legislação, meia centena de estudantes eram chamados ao serviço militar. Cerca de 49 estudantes são compulsivamente integrados no serviço militar.
No final da Taça de Portugal entre a Académica e o Benfica, no dia 22 de Junho, o jogo transformou-se em manifestação contra o regime e cerca de 35 mil comunicados foram distribuídos à sociedade civil, nos quais estavam expostas as razões da luta estudantil. Excepcionalmente, o jogo não foi transmitido pela RTP e pautou-se pela ausência do Presidente da República.
A Associação Académica de Coimbra, enquanto clube de futebol, surgiu em 1876, resultando da fusão entre o  Clube Atlético de Coimbra , fundado em 1861, e a  Academia Dramática , fundada em 1837.   Vencedora da primeira Taça de Portugal (1939), esteve desde sempre ligada à academia. O equipamento (negro e branco) faz uma alusão clara à Universidade. Nos seus inícios, os jogadores da Académica eram também estudantes universitários.
Revoltados com a opressão e a censura praticada pelo governo, os jogadores / estudantes universitários aproveitaram a participação na Taça de Portugal para, publicamente, manifestarem a sua posição.  Ao intervalo, todos se manifestaram ruidosamente contra o regime. No final do jogo, a solidariedade presente no estádio demonstrou o poder da luta estudantil.
Manifestações Estudantis
Em 1969, durante a greve estudantil, Zeca Afonso actuou em Coimbra para os estudantes, durante um comício / reunião geral. Durante esta fase de luta, foram várias as reuniões, assembleias gerais, comícios e desfiles organizados pelos estudantes.
O PAPEL DAS ESTUDANTES FEMININAS
As mulheres foram determinantes em todo o movimento de resistência.  Serviam de informantes à rede de greve aos exames, assegurando os piquetes. Eram os “fiscais de bairro”, dos lares e das ruas. Descobriam quem queria fazer exames e tentavam dissuadir esses estudantes.  A década de 60 é a época em que a mulher se emancipa verdadeiramente. Ganha um estatuto igual ao dos homens, trabalhando lado a lado, com eles, para concretizar o ideal de liberdade.  As mulheres foram também decisivas na assistência aos estudantes presos, a quem entregavam o saco de comida.
 
Enquanto durava esta situação de revolta estudantil, a censura trabalhava arduamente para não deixar a imprensa portuguesa noticiar os acontecimentos. Contudo, o movimento estudantil começou a ter repercussões a nível internacional e repórteres de jornais tão importantes como o New York Times (EUA), o Globo (Brasil), Le Monde (França) ou La Stampa (Itália) chegavam à cidade para cobrir os acontecimentos e relatarem os actos corajosos de estudantes que desafiavam um regime de ideais totalitários.
Paralelamente, surgiam cartoons e ilustrações variadas que demonstravam bem a situação que se vivia, não só na cidade e não só pelos estudantes:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em 11 de Abril de 1970, tudo parece terminar quando uma comissão de estudantes, com Alberto Martins à frente, vem a Lisboa pedir benevolência a Américo Tomás, na presença do ministro da justiça, Mário Júlio de Almeida Costa, com discursos do reitor, Gouveia Monteiro, e de Teixeira Ribeiro, numa manobra que contou com a ajuda de Sebastião Cruz e Mota Pinto.
“ A dimensão dos acontecimentos e a evolução das lutas estudantis, conseguiu bloquear a acção do Governo. Foi uma luta que exprimiu não só a crise universitária, mas a crise do Regime em que o país vivia, formando uma nova consciência socio-política, que significou um alto momento da história de Portugal no que diz respeito às lutas de resistência contra o fascismo, que viria a terminar escassos anos depois, a 25 de Abril de 1974.” Ana Rita Bagagem, in  Revista da AAC

A crise de 1969

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    A Crise Académicade 1969 O espoletar da Crise
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    Na década de60, Portugal vivia submetido ao governo de Salazar, marcado por um clima de tensão permanente, provocado pela Guerra Colonial, pela censura à impressa e aos meios culturais, bem como pela perseguição a todos os que se opunham ao regime. Foi então que o Governo nomeou uma Comissão Administrativa que ia liderar a Associação Académica de Coimbra, o que demonstrava bem a repressão salazarista: entre 1965 e 1968 não foi permitido aos estudantes a escolha dos seus corpos gerentes.
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    Os estudantes deCoimbra, insatisfeitos pela não representação no Senado, fizeram um abaixo assinado, pedindo a realização de eleições livres em Fevereiro de 1969. Deste acto eleitoral saiu vencedora a lista do Conselho das Repúblicas (com 75% dos votos).
  • 4.
    Em Março, aDirecção-Geral da Associação Académica de Coimbra é convidada para a inauguração da Faculdade de Matemática. Não só os estudantes aceitaram o convite, como também informaram que pretendiam intervir na cerimónia. Esta pretensão foi recusada pela Reitoria, pois o Reitor já “representava a Universidade” e a intenção dos estudantes discursarem, prejudicaria as “prescrições protocolares”.
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    No dia 17de Abril de 1969, frente à Faculdade de Matemática, milhares de estudantes exigiam o diálogo, o ensino para todos e os estudantes no Governo da Universidade.
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    No interior daFaculdade, Alberto Martins, Presidente da DG/AAC, pede a palavra ao Presidente da República, Américo Tomás. O Presidente nega-lhe a palavra e a cerimónia termina de forma repentina.
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    Na noite dessemesmo dia, Alberto Martins é preso à porta da AAC. Centenas de estudantes encaminharam-se, em solidariedade, para a sede da PIDE, onde acabaram por sofrer uma carga policial.
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    O dia 17de Abril ficou assim marcado como o início da Crise Académica de Coimbra.
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    No ginásio daAAC, milhares de estudantes e dois professores (Orlando de Carvalho e Paulo Quintela) decretam o luto académico, sob a forma de greve às aulas.
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    José Hermano Saraiva(Ministro da Educação Nacional), numa comunicação transmitida a toda a nação pela televisão no dia 30 de Abril de 1969, acusava os estudantes de desrespeito, crime de sediação e insultos ao Chefe de Estado.
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    Como resposta, cercade 4000 estudantes participaram na Assembleia Magna que se realizou no Pátio dos Gerais, no dia 1 de Maio. Em conjunto com o corpo docente, repudiaram as afirmações do Ministro da Educação Nacional.
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    Por despacho doMinistro, a Universidade foi encerrada até ao início dos exames. A Assembleia de Estudantes Grelados, em solidariedade para com a Academia, cancelou o festejo da Queima das Fitas: “Jamais aceitaremos que a alegria se confunda com a irresponsabilidade...”, dizia o comunicado.
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    No dia 28de Maio, 6 mil estudantes reuniram-se na maior Assembleia Magna da história, onde foi decretado a abstenção aos exames e deliberada a “Operação Balão” e a “Operação Flor”. Estas consistiam na distribuição de flores e balões como forma de protesto, com o objectivo de alertar a população para a situação e assim levantar as suspensões, os processos de inquérito e a não marcação de faltas durante o luto.
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    No dia 2de Junho, início da época de exames, Coimbra acorda sitiada. Destacamentos da GNR, PSP e da Polícia de choque ocupam a Universidade.
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    Só são autorizadosa entrar na Universidade os professores e alunos que desejem prestar exames. Intensificam-se as prisões aos grevistas.
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    No mês deJulho, o Governo alterava a lei de adiamento da incorporação militar de modo a a fazer depender da prorrogativa “do bom comportamento escolar” do estudante. Ao abrigo desta nova legislação, meia centena de estudantes eram chamados ao serviço militar. Cerca de 49 estudantes são compulsivamente integrados no serviço militar.
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    No final daTaça de Portugal entre a Académica e o Benfica, no dia 22 de Junho, o jogo transformou-se em manifestação contra o regime e cerca de 35 mil comunicados foram distribuídos à sociedade civil, nos quais estavam expostas as razões da luta estudantil. Excepcionalmente, o jogo não foi transmitido pela RTP e pautou-se pela ausência do Presidente da República.
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    A Associação Académicade Coimbra, enquanto clube de futebol, surgiu em 1876, resultando da fusão entre o Clube Atlético de Coimbra , fundado em 1861, e a Academia Dramática , fundada em 1837. Vencedora da primeira Taça de Portugal (1939), esteve desde sempre ligada à academia. O equipamento (negro e branco) faz uma alusão clara à Universidade. Nos seus inícios, os jogadores da Académica eram também estudantes universitários.
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    Revoltados com aopressão e a censura praticada pelo governo, os jogadores / estudantes universitários aproveitaram a participação na Taça de Portugal para, publicamente, manifestarem a sua posição. Ao intervalo, todos se manifestaram ruidosamente contra o regime. No final do jogo, a solidariedade presente no estádio demonstrou o poder da luta estudantil.
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    Em 1969, durantea greve estudantil, Zeca Afonso actuou em Coimbra para os estudantes, durante um comício / reunião geral. Durante esta fase de luta, foram várias as reuniões, assembleias gerais, comícios e desfiles organizados pelos estudantes.
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    O PAPEL DASESTUDANTES FEMININAS
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    As mulheres foramdeterminantes em todo o movimento de resistência. Serviam de informantes à rede de greve aos exames, assegurando os piquetes. Eram os “fiscais de bairro”, dos lares e das ruas. Descobriam quem queria fazer exames e tentavam dissuadir esses estudantes. A década de 60 é a época em que a mulher se emancipa verdadeiramente. Ganha um estatuto igual ao dos homens, trabalhando lado a lado, com eles, para concretizar o ideal de liberdade. As mulheres foram também decisivas na assistência aos estudantes presos, a quem entregavam o saco de comida.
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    Enquanto durava estasituação de revolta estudantil, a censura trabalhava arduamente para não deixar a imprensa portuguesa noticiar os acontecimentos. Contudo, o movimento estudantil começou a ter repercussões a nível internacional e repórteres de jornais tão importantes como o New York Times (EUA), o Globo (Brasil), Le Monde (França) ou La Stampa (Itália) chegavam à cidade para cobrir os acontecimentos e relatarem os actos corajosos de estudantes que desafiavam um regime de ideais totalitários.
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    Paralelamente, surgiam cartoonse ilustrações variadas que demonstravam bem a situação que se vivia, não só na cidade e não só pelos estudantes:
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    Em 11 deAbril de 1970, tudo parece terminar quando uma comissão de estudantes, com Alberto Martins à frente, vem a Lisboa pedir benevolência a Américo Tomás, na presença do ministro da justiça, Mário Júlio de Almeida Costa, com discursos do reitor, Gouveia Monteiro, e de Teixeira Ribeiro, numa manobra que contou com a ajuda de Sebastião Cruz e Mota Pinto.
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    “ A dimensãodos acontecimentos e a evolução das lutas estudantis, conseguiu bloquear a acção do Governo. Foi uma luta que exprimiu não só a crise universitária, mas a crise do Regime em que o país vivia, formando uma nova consciência socio-política, que significou um alto momento da história de Portugal no que diz respeito às lutas de resistência contra o fascismo, que viria a terminar escassos anos depois, a 25 de Abril de 1974.” Ana Rita Bagagem, in Revista da AAC