Artigo           Crise financeira ou crise histórica do                       capitalismo?Gilson Dantas                   ...
Contra a Corrente                                                                                                         ...
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Contra a Corrente                                                 louisgill.pdf Acessado em: /08/009.         GRAZEBROOK, ...
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Crise financeira ou crise histórica do capitalismo?

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Crise financeira ou crise histórica do capitalismo?

  1. 1. Artigo Crise financeira ou crise histórica do capitalismo?Gilson Dantas financeira traria o sistema à ordem. Enxugar o excesso ou a irracionalidade “exuberante” dos mercados seria Introdução o grande remédio, passando pelo resgate, é claro, A massa desproporcional de capital financeiro daquelas corporações ou bancos “grandes demais paraespeculativo das últimas décadas e todo o foco centrado quebrarem”.– na mídia e na academia – em torno da economia- A questão, no entanto, examinando-se o sistemacassino, da agiotagem desenfreada ou da geração maciça de conjunto e historicamente, é mais complicada. Emde capital fictício e até mesmo a idéia de grande parte da primeiro lugar é essencial entender de onde veio esseesquerda de “dominância dos mercados financeiros” ou exuberante crescimento da finança e o que ele significa.mesmo de “novo regime de acumulação financeirizada” A análise que vá além das aparências vai revelar, emalimentou um tipo de diagnóstico bem particular sobre vez de força do sistema – ou até desvio “irracional”-a crise atual. fraqueza na capacidade de acumular capital além da sua Segundo esta ótica, a crise seria fundamentalmente tendência de fundo à estagnação.financeira ou teria que ser entendida a partir de sua Vejamos alguns pontos.lógica financeira. Nesta mesma linha de raciocínio, adesproporcionalidade da esfera especulativo-financeira A crise financeiraé tomada recorrentemente como causa ou, em outro Uma aplicação financeira, como se sabe, sósentido, como um problema (excesso, desvio) a ser cresce porque promete ganhos. Só que, ao mesmocorrigido. tempo, e embora os ideólogos da econometria burguesa Constatou-se: a massa de capital no mercado procurem ignorar este fato, a esfera financeira – seja afinanceiro é astronômica e extrapolou em muitas vezes de pura especulação, portanto fictícia, seja a do capitala economia real, revelando uma espécie de bolha ou um do banqueiro que empresta ao empresário fabril – nãotumor que para vários comentaristas ou políticos – de gera qualquer ativo que não seja de natureza financeira;Martin Wolf a Sarkozy - teria crescido sobre um corpo em outras palavras: a esfera financeira não produz livros,sadio. Esse artigo pretende problematizar essa questão. sapatos, alimentos e, de fato, sobrevive da riqueza – Ou seja, parte dos que diagnosticam que “o mais-valia – que punciona da esfera chamada produtiva.problema” da economia mundial é a hipertrofia da Vive da fração de riqueza, de mais-valia, que conseguirfinança (ou o excesso de “capital zumbi” ou fictício), deslocar da esfera produtiva. Ou então da expectativa deenxergam a economia capitalista com um organismo que riqueza a ser gerada na produção (esta é uma razão pelaia bem (na era “keynesiano-fordista” de prosperidade do qual as ações que crescem de cotação na Bolsa, dentropós-Guerra) até ir sendo parasitado pelo rentista, pelo da expectativa de ganhos futuros).capital fictício. Nessa perspectiva se alinham autores Não há manobra especulativa que gere riqueza,cujo pensamento é, de uma forma ou de outra, vinculado valor. Ou, em outras palavras, tomando o argumento deao keynesianismo e/ou à escola regulacionista (ou aos Astarita:chamados desenvolvimentistas tipo M. Conceição Segundo a teoria do valor, este só é gerado através doTavares, Beluzzo e outros). A fraqueza desse diagnóstico trabalho humano e a um valor gerado na produção deve corresponder, na média, um valor equivalente pelo ladoserá examinada mais adiante, no entanto um problema da demanda. O valor não pode ser incrementado atravésdigamos assim, prático, desse diagnóstico é que supõe de manobras especulativas nem pela compra e venda deque um expurgo e/ou forte disciplinamento da esfera papéis. Naturalmente a teoria burguesa pretende que o valor se cria graças às extremas habilidades dos executivos e financistas; mas o que esta gente faz é apropriar-se de Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília, escreveu trabalho alheio não pago e passar de mão em mão, mais-EUA: militarismo e economia da destruição, Achiamé, Rio de valias (008).Janeiro, 007 e organizou O capital de Karl Marx: resumo (Engels,Lenine, Trotski), Ícone, Brasília, 008. Produtiva nos temos de Marx, aplicados ao capitalismo, tem o Ver, por exemplo, CHESNAIS (997). sentido de esfera geradora de mais-valia.
  2. 2. Contra a Corrente Partindo deste princípio e agora argumentando do populistas (bonapartistas) e aproveitando-se da posturaponto de vista histórico, vários estudiosos já se ocuparam defensiva, sem independência de classe e/ou frente-da história do último meio século do capitalismo e, populista das burocracias sindicais e do stalinismoexplicaram a prosperidade e crise do sistema. Explicaram (Partidos Comunistas do mundo inteiro, como no Chileque, passadas as condições excepcionais de crescimento de 97, Argentina em 97/6, Brasil de 964, Françaeconômico capitalista do pós-Guerra e como parte da de 968 e assim por diante) no sentido de desviar/conterdinâmica de movimento do próprio capital, por exemplo, o movimento revolucionário da classe trabalhadora,com o crescente investimento em capital fixo (progressivo as forças do capital obtiveram sucesso na sua ofensivaaumento da composição orgânica do capital), o sistema contra o trabalho e afirmaram-se naquelas décadasfinalmente esbarrou em suas contradições agudamente conhecidas como neoliberais. O sistema estabeleceu ummanifestas na eclosão da crise da virada dos 960 para equilíbrio (instável) que, com vais-e-vens, durou até umos 970. ano atrás. Seus principais indicadores mostravam um Tomou forma um período que ficou marcadosistema que tendia à estagnação, em queda brutal das pela franca expansão do capital financeiro e que algunstaxas de crescimento. O gráfico a seguir, abarcando estudiosos explicam como essencialmente decorrentetodas décadas desde 96 revela essa desaceleração da ação do Estado – sobretudo o Estado rentista norte-econômica. Veja-se, no mesmo gráfico, a outra curva, americano – no sentido de desmontar as barreiras àmeteoricamente ascendente, desde pouco antes dos circulação do capital, em especial das frações maisanos 990, do capital especulativo, dos “derivados” financeirizadas do capital.financeiros: Foi a era dos “mercados financeiros” dos ativos e produtos financeiros. Portanto, vale reiterar, da expansão Desaceleração econômica e expansão financeira do capital que nada cria no mundo da riqueza: O capital que permanece como capital financeiro não extrai mais-valia. A mais-valia só surge do trabalho voltado à produção de bens ou prestação de serviços socialmente necessários. O capital financeiro, que procura obter lucro sem envolver-se na produção de nada, não aporta coisa alguma à mais-valia gerada pelo conjunto dos capitais produtivos, este fundo comum do qual surgem os lucros de todos os capitalistas. (...) Por outro lado (...) é ‘cada vez mais difícil converter em capital ampliado novas massas de trabalho não pago’. A massa de mais-valia extraída dos operários é cada vez mais irrelevante em relação às outras forças que entram em ação na produção capitalista (MERCATANTE, 007). Aquilo que deve ser bem destacado nesse processo é que não se tratou de um desenvolvimento autônomo do capital financeiro e deslocado da realidade, da produção. Os enormes ganhos financeiros – e a pirâmide que tais ganhos alimentavam – eram impulsionados por um determinado aspecto da economia “não-financeira” que vem a ser justamente a ampla e crescente exploração do trabalho que o capital foi impondo mundo afora eFonte (BEINSTEIN, 009) especialmente na Ásia (e também em áreas antes vedadas ao capital e agora sob devastadora restauração capitalista Do ponto de vista teórico, o que se observa nesse pela ação das burocracias “comunistas”).processo é que volta a se impor a tendência secular, Aquilo que chamam de neoliberalismo nãoimanente ao capitalismo, da queda da taxa média deixou de ser uma tentativa – diante da profunda crisede lucro. Diante desse problema grave para a classe deflagrada na virada dos anos 970 – de, através dacapitalista, várias contra-tendências foram postas em intervenção estatal, evitar a marcha para uma “saída”ação, o Estado interveio pesadamente - em meio a um do tipo Grande Depressão ou até refletiu a falta deprocesso de tensões inter-estatais e de revoluções sociais condições para o sistema evoluir rumo à “solução”que se estendeu pelo período de décadas - e agiu com de uma catastrófica III Guerra. A classe dominanteespecial força através do recurso do crédito, da demanda desenvolveu uma lenta e terrível ofensiva contra a classeestatal bélica, dos gastos dissipatórios de todo tipo. trabalhadora, tratando de arrancar o máximo possível - naquelas condições políticas, de derrotas do proletariado As décadas neoliberais - de mais-valia. Ao mesmo tempo em que, como será Atropelando a impotência das direções mais adiante argumentado, a acumulação do capital
  3. 3. Crise financeira ou crise histórica do capitalismo? não se expandiu como poderia: boa parte da mais- do trabalho. A proletarização do camponês asiáticovalia rumou – de forma surpreendente para os padrões foi uma contra-tendência de peso neste sentido; o queorgânicos do capitalismo - para a esfera do crédito, do inclui abertura de áreas ao Leste, de força de trabalhofinanciamento de dívidas. barata e educada. A parte mais visível ou exuberante O crédito tem esse papel elástico de ampliar desse processo que ocorreu em vários países na Ásialimites, no funcionamento do sistema, que a produção, deu-se na China: milhões de camponeses tornaram-sepor sua rigidez não possui. Na definição de Marx o assalariados, em sua grande maioria com salários abaixosistema de crédito é “elástico por sua própria natureza”, e da média internacional. Também fez parte dessa extraçãose destaca como a “principal alavanca” de superprodução de riqueza a privatização neoliberal de ativos públicose super-especulação no comércio”. nos vários quadrantes do mundo. De toda forma, o A esse respeito vale lembrar o argumento de elemento central ou “o qualitativo foi o aumento da taxaRosa: de exploração dos trabalhadores, expressão da situação O crédito preenche, na economia capitalista, diversas de retrocesso da classe operária mundial nas ultimas funções, mas o seu papel mais importante, como se sabe, é décadas” (CHINGO, 009). aumentar a capacidade de extensão da produção e facilitar A ofensiva contra os salários leva ao a troca. Onde quer que a tendência interna da produção capitalista à expansão ilimitada privada, esbarre nas achatamento da demanda de bens; também decaiu o dimensões restritas do capital privado, o crédito aparece consumo produtivo dos capitalistas (taxa menor de como meio de ultrapassar esses limites de maneira reinversões). No entanto, aquela ofensiva anti-salários capitalista, de fundir num só capital muitos capitais foi parcialmente compensada, no mesmo processo, pelo privados – sociedades por ações – e de permitir que um crédito e consumo de luxo. Duas tentativas de superar os capitalista disponha de capitais alheios – crédito industrial. limites da crise dos anos 970 sem passar pela maciça Por outro lado, na qualidade de crédito comercial, acelera a troca de mercadorias e, por conseguinte, o refluxo do queima de capitais (ambas geradoras de instabilidade). capital para a produção ou, em outras palavras, todo o ciclo O ataque contra a massa salarial já foi destacado do processo de produção. É fácil compreender a influência em vários estudos e o economista Michel Husson chama que essas duas funções principais do crédito exercem na a atenção para esse elemento nos dois gráficos a seguir, formação das crises (LUXEMBURGO, 975, 4). sendo que no primeiro observa-se que a parte do salário O crédito teve e tem esse papel no capitalismo. em relação ao PIB, nos Estados Unidos (no longoNessas décadas recentes, o peso do crédito na economia período desde 960) apresentou tendência ao declínio,capitalista assumiu, no entanto, proporção desigual, visivelmente acentuado desde a grande crise da viradadesproporcional, nos marcos da crise global do para os 970:capitalismo. Um dólar de investimento na produçãocomeçou a estabelecer correspondência com 0, 0, 40 na Gráficoespeculação, por exemplo. Uma verdadeira pirâmide. Parte do salário em relação ao PIB – Estados A maior parte do capital se encontra investida em operações Unidos (960-005) que têm pouco a ver com a economia real, operações cujo valor flutua segundo as vontades de movimentos especulativos e cujo montante é jogado aos cimos mais altos através dos efeitos de alavancagem dando lugar a um endividamento da ordem de 40 dólares por dólar investido. A importância principal do desenvolvimento do mercado de crédito fora do sistema bancário regulamentado, como conseqüência do lugar ocupado crescentemente pelos fundos especulativos (hedge funds) e pelos fundos de capitais privados não cotados na bolsa (private equity funds), contribui amplamente para seu desajuste e para alimentar as dúvidas mais sérias em relação de sua nova configuração (GILL, 008). O trabalho Décadas dessa pirâmide fictícia tiveram vários Fonte: (HUSSON, 008)efeitos, sendo um deles o de ir postergando a crisedeflacionária tipo Grande Depressão ou mesmo um No gráfico superior constam os salários noscrack sistêmico. Estados Unidos como parte do PIB. No gráfico logo Ao mesmo tempo, na base, em setores abaixo, os salários nos Estados Unidos como parte dodeterminados da produção se desenvolviam surtos de PIB, mas agora sem se levar em conta os % de altoscrescimento. A recuperação da taxa de lucro deu-se salários; no terceiro gráfico de cima para baixo, osem todas as esferas e áreas da produção mundial onde salários na União Européia em relação ao PIB; o últimoo capital conseguiu impor altas taxas de exploração gráfico, inferior, toma os salários nos Estados Unidos
  4. 4. Contra a Corrente 4como parte do PIB, mas excluindo o grupo dos 5% de de empresas (a destruição massiva de forças produtivas)altos salários. que permitisse recuperar a rentabilidade para o capital Observe-se que a queda salarial neste último – em alta composição orgânica – na produção.caso, quando se abstrai os altíssimos salários, é O caminho de fuga para adiante se deu pelaimpressionante. ofensiva sobre o capital variável (salário) e com o O mesmo processo se desenvolveu nas metrópoles sistema agravando contradições, dentre elas o crescenteimperialistas como se vê a seguir, pela seqüência de endividamento para gerar demanda pública (setordados comparativos entre economias como a França, bélico) e privada (crédito ao consumo) em plena era doo G7 (grupo dos sete países mais ricos) e a Europa; achatamento salarial. Isso não pode ser qualificado comono gráfico superior, aparece a evolução do salário em crescimento orgânico. Que organicidade pode haverrelação ao PIB no G7; no gráfico de triângulos pretos, quando o país imperialista efetivamente hegemônico (ea mesma coisa agora referente à União Européia e, por militarmente incontrastável) mergulha em um processofim, o gráfico de maior queda salarial recente, tomando de desindustrialização?a França como exemplo. Em todos os casos, a queda da Observe-se no gráfico a seguir, os claros sintomasmassa salarial nas décadas recentes é flagrante. de declínio: as taxas de investimento (de formação de capital fixo) dos Estados Unidos que já vinham sendo Gráfico mais baixas que as da China, já estão entre as mais baixas Parte do salário em relação ao PIB – França, dos Estados Unidos desde a II Guerra e ainda acontecemEuropa, G7 em meio à ruptura de um equilíbrio no qual se apoiava a hegemonia norte-americana: Taxa de formação de capital fixo desde o pós- Guerra nos Estados UnidosFonte: (HUSSON, 008) O que se pode observar, portanto, é que a Fonte (ROSS, 009)hipertrofia da finança também contou com a rentabilidadeque o capital foi encontrando em nichos produtivos – a Aqui se apresenta mais um sinal de que não seChina é o exemplo mais forte – a partir do processo trata de corpo jovem ou sadio: o capital extrai mais-valiade achatamento salarial e precarização/terceirização – investe com rentabilidade – no entanto não reinvestedo trabalho, o que incluiu os países imperialistas. A na mesma proporção; Husson chama a atenção parajá mencionada privatização de patrimônio público esse dado de que os lucros astronômicos em nichostambém foi parte desse processo que conduziu, no final, produtivos4, não se traduziram em investimentos à alturaa mais exploração do trabalho, demissões em massa, ou em taxas igualmente crescentes em capital fixo.desconstrução do chamado Estado de bem-estar. Aqui reside um problema do ponto de vista global: Este processo – que aqui sempre está sendo a acumulação do capital (na produção, portanto) nãotomado globalmente, na perspectiva do conjunto acompanhou aquela ofensiva “bem sucedida” do capital.dos capitais, no entanto está longe de ter assumido as Ou seja, não apenas deu-se um processo de economiacaracterísticas de um corpo sadio sobre o qual incidia uma francamente movida a endividamento em proporções“excessiva” (ou parasitária) punção financeira. Tudo ao que não possuem qualquer precedente histórico emcontrário. Não há saúde no sistema quando o capital tem tempos de “paz”, como a taxa de acumulação do capitaloportunidade de investir e não investe. Quando reina a foi se lentificando, as oportunidades de investimentosmais ampla sobreacumulação de capitais. E quando o produtivos não apareciam no mesmo ritmo.sistema não conta com expansão da massa salarial para Qual o destino daquela massa crescente de mais-poder realizar as mercadorias que são fabricadas. 4 Como parte de novo equilíbrio global instável onde a China Sabe-se que aquela grave crise econômica dos produz e os Estados Unidos compram e que há um ano vem se70 foi empurrada para adiante sem a quebra significativa decompondo.
  5. 5. Crise financeira ou crise histórica do capitalismo? valia não acumulada? (ponto.com, imóveis), mesmo quando força e consegue Foi principalmente distribuída sob a forma de uma maior rentabilidade na produção por conta da mais rendas financeiras, tornando-se fonte do processo de profunda exploração do trabalho, de todas as formas, financeirização. Daí que a diferença entre a taxa de lucro aquela dificuldade histórica termina aflorando. e a taxa de investimento seja, por si mesma, um bom indicador do grau de financeirização. Pode-se também Uma vez que o capital, em última instância, verificar que a subida do desemprego e de precariedade acumula-se somando as horas de trabalho não-pago que trabalhista cresce junto com a hipertrofia da esfera arranca da classe trabalhadora, o que aqui parece ficar financira. Inclusive, neste caso, a razão é simples: o sistema evidente é aquilo que Marx argumenta nos Grundisse financeiro conseguiu captar a maior parte dos aumentos (Elementos fundamentais para a crítica da economia da produtividade à custa dos assalariados, reduzindo os política): as bases estreitas – cada vez mais estreitas ou salários, mas sem reduzir de forma suficiente, inclusive aumentando, a duração da jornada de trabalho (HUSSON, miseráveis – para o roubo de tempo de trabalho alheio. O crescimento acelerado do capital financeiro em busca 009). de valorização, mesmo que exista a ilusão de que possa Nas palavras de Husson, deu-se um processo funcionar como fonte de enriquecimento autônomo, nãoonde faz mais do que gerar lucro através de punção operada a participação dos salários diminuiu e a dos lucros sobre a mais-valia. Ou seja, o montante acrescentado aumentou. Mas as empresas, nem por isso, passaram de capital financeiro não consegue desembaraçar-se dos a investir. Comparando o período 000-006 às duas estreitos limites da exploração do trabalho. O crescimento décadas precedentes, um relatório da ONU mostra que das cotizações, o investimento através da alavancagem num grande número de países, incluída a França, a taxa (tomando empréstimos), o endividamento das empresas, de investimento caiu, a despeito do aumento dos lucros no deve encontrar uma correlação na possibilidade de gerar valor acrescentado (008b). mais-valia. A massa crescente de ativos financeiros O gráfico abaixo é esclarecedor a esse respeito. incrementa a pressão sobre o capital produtivo, para arrancar fatias crescentes da mais-valia gerada. Inclusive Gráfico através do crédito ao consumo (intimamente ligado à Crescimento, acumulação e lucro na Tríade5 queda nos níveis salariais): o capital financeiro punciona cada vez mais sobre as remunerações dos trabalhadores(96-006) (MERCATANTE, 008). Por isso em toda essa era da financeirização (ou da chamada “acumulação financeirizada”) o que se constatou foram bases débeis da acumulação do capital na produção. E sua contrapartida: sobreacumulação de capitais de capacidades produtivas cada vez mais redundantes em relação ao crescimento avassalador da finança, do direito de propriedade sobre a riqueza (“efeito riqueza”). O fluxo de endividamento sem precedentes funcionou como contra-tendência, como vazão para contradições não-resolvidas do sistema. O enfoque do parasitismo entre capitais não dá conta de explicar o processo. A influência das finanças não deve ser entendida como uma forma de parasitismo que impediria o capitalismo de funcionar corretamente. Trata-se, ao contrário, de um dispositivo que permite o estabelecimento tendencialFonte: (HUSSON, 008) de um mercado mundial, no qual os salários são postos em competição direta e submetidos às exigências de Observe-se o gráfico superior, de crescimento da rentabilidade que se opõem à satisfação das necessidadestaxa de lucro que se “descola” das curvas declinantes de sociais não-rentáveis. Graças às finanças, o capitalismocrescimento e de acumulação do capital, especialmente contemporâneo aproxima-se de um funcionamento “puro”desde os anos 980. no sentido de que se desembaraça progressivamente de tudo o que poderia enquadrá-lo ou regulá-lo. Este Esta lentificação na acumulação do capital em movimento não tem como auto-reformar-se e implicarelação à rentabilidade alcançada é um dado histórico em distribuição regressiva da riqueza. É por isso que asque deve ser enfatizado, dentre outras razões porque se construções que propõem separar o joio do trigo – portrata de um aparente paradoxo refletindo um processo exemplo, o “bom” capitalismo produtivo do “mau”que exterioriza limites profundos, históricos, para a capitalismo financeiro – ou imaginar um capitalismovalorização do capital. Mesmo quando o sistema se vale ao mesmo tempo hiper-competitivo e mais igualitário, relevam um utopia reformista que não corresponde ao seudos ganhos financeiros, das bolhas baseadas no crédito curso atual (HUSSON, 005). É o que alguns chamam de “economia do5 A Tríade inclui Europa, Japão e Estados Unidos. endividamento” ou “economia do cartão de crédito”.
  6. 6. Contra a Corrente Uma colossal massa de empréstimos tornou-se “a nas mercadorias de informática; ou em outro momento,força condutora subjacente ao aumento do consumo na casas, mas é importante sempre levar em conta queeconomia dos Estados Unidos, uma vez que os salários isso se deu em um mesmo processo onde, por exemplo,reais estiveram em declínio durante mais de três décadas. aparecia como mais lucrativo financiar a compra doO crédito tornou-se o novo conserto para o problema computador pessoal ou de hipotecas de casas. Sem esseclássico – se as pessoas não podem permitir-se comprar financiamento os norte-americanos não consumiriam otoda a tralha que produzem, então se pode emprestar o que consomem. Mas como se vê não se trata de consumodinheiro para que o façam” (GLAZEBROOK, 009). por aumento da massa salarial. O outro aspecto dessa forma de crescimento O gráfico a seguir, quase que resume esse baseado no achatamento salarial numa ponta, mas noargumento através daquela linha ascendente. crédito e no crescimento do consumo pelos altos salários Endividamento dos Estados Unidos (em bilhões e ganhos da esfera financeira na outra, é a concentraçãode U$) de renda. A “era da financeirização” mostrou-se como a “era da crescente desigualdade social”, dos super-ricos. Veja-se a tabela a seguir: Tabela Rendimento médio dos 0,0 % do topo da pirâmide de renda (como múltiplo do rendimento médio dos 90% da base)(Fonte: GEAB, 009c) Por tudo isso, não se trata de uma crise financeiraque tenha impactado sobre a produção ou sobre o mercado.Há crise de insolvência, de capitais sobreacumulados, defracas taxas de acumulação em relação à taxa de lucro.Não é, portanto, falta de liquidez (que se “resolveria”com a massa de liquidez injetada na economia atravésdos bilhões do Estado ou de novos bilhões) mas umacrise de conjunto do capital. Cuja base veio sendo o adiamento da destruiçãoprofunda de capitais, de forças produtivas. E, nessesentido, não há recurso público por maciço que seja– que por outro lado agrava o endividamento do Estadoe as contradições do sistema, inclusive na pressão sobreo dólar – que possa funcionar como contra-tendênciade efeito duradouro. Existe, como se pôde constatarnesses meses recentes da crise, o efeito imediato e, emdeterminado sentido, a contenção da quebra de grandes Fonte: (WHITNEY, 009)companhias, sobretudo financeiras. E, em algumamedida, as “atuais políticas de estabilização estão A disparidade entre o americano médio e opermitindo ao sistema evitar uma crise como aquela dos super-rico atingiu o maior recorde de todos os tempos.anos 90, mas não envolvem medidas capazes de evitar O seleto clube dos 0,0%, no topo dos mais ricos, detémuma depressão semelhante àquela que o Japão atravessou rendimentos de pelo menos ,5 milhões por ano, emnos anos 990” (HUSSON, 009c). 007. Não há precedentes em termos de concentração de O problema continua de pé: grande parte da renda. Pura expressão de que maior punção salarial – oumais-valia não é reinvestida na produção. Mesmo que maior extração de mais-valia – não se traduziu em maisse tenha em conta que em certo momento deu-se o boom investimentos e sim em rendas financeiras em economia
  7. 7. Crise financeira ou crise histórica do capitalismo? financeira alavancada. tentando descarregar o custo da sua sobrevivência mais uma vez sobre a classe que vive do trabalho; são dois Considerações finais momentos: primeiro a hipetrofiada esfera dos ganhos Tem importância, portanto, como parte de uma financeiros irreais desfechou – como se procurou mostraranálise estratégica, que se leve em conta os seguintes neste texto – brutal ataque a todas as conquistas daaspectos na crise financeira atual. classe trabalhadora e desenvolveu achatamento salarial Primeiro, que não se trata de crise financeira de longo prazo. Contou com essa vantagem econômicastrictu sensu. O processo de crise nasceu de dificuldades a seu favor nos chamados anos neoliberais centralmentehistóricas de valorização do capital na produção. apoiado nas derrotas das lutas dos trabalhadores.Dificuldades que foram empurradas para adiante – com E segundo, quando eclode a atual crise históricao recurso do crédito maciço, por exemplo e contando a partir das bolhas financeiras, o governo socorre aoscom condições políticas favoráveis – mas que, longe oligopólios e grandes grupos financeiros com os trilhõesde se atenuarem, só se ampliaram, com todas suas de dólares que “não existiam” para saúde e educaçãocontradições, sendo uma delas um crescimento sem públicas e muito menos salários e se atira sobre osbases reais e que agora ameaça ruir. trabalhadores exigindo que apertem os cintos. Neste A hipertrofia financeira gerada durante estas décadas está segundo movimento, vem exigir que aceitem o conto se decompondo a ritmos cada dia mais acelerados. Por de que o problema era um bando de maus capitalistas, isso, o problema não é de fácil solução. Acontece que o agiotas e “aventureiros de mercado”, e que é preciso estoque acumulado da dívida norte-americana cresceu de 6 % do PNB em 980 a 46 % em 007. Dois confiar – pasmem todos! - que a cúpula que ganhou setores da economia foram os principais responsáveis rios de dinheiro por décadas com a finança (aliás, aqui por esta escalada: os lares, cuja dívida saltou de 50 % em tanto faz ser são financeiras ou montadoras) e agora vem 980 a 7 % no anos de 000, pulando para 00 % em exigir “austeridade” dos trabalhadores possa dar alguma 007 e o setor financeiro, cujo endividamento colossal saída, ou conduzir as massas em outra direção que não a foi se convertendo mais e mais no combustível ou na devastação social e ambiental. força motriz do crescimento. Isto não significa que a financeirização tenha sido um fator autônomo e sim que Os super-ricos, o grande capital pode dar alguma foi a contra-partida do aumento da taxa de exploração e da resposta que não seja a de procurar salvar a própria falta de oportunidades de investimentos suficientemente pele e o sistema? Na verdade, a única resposta virá se e rentáveis. Neste contexto, de carência de oportunidades de quando a classe que cria a riqueza passar, ela mesma, a investimentos rentáveis para o capitalismo, a pressão das ser, coletivamente, gestora e planificadora dos meios de finanças se exerceu brutalmente levando o crescimento produção tornados, finalmente, propriedade pública. a níveis para além do que seria sustentável. Por isso o choque com a realidade é tão duro e ameaça ruir o hipertrofiado sistema financeiro gerado em todos esses anos (CHINGO, 008). Bibliografia Portanto, detrás das bolhas financeiras, aparece a ASTARITA, Rolando, 008. Crítica de la tesis de la financiarización. Disponível em: www.rolandoastarita.com/nu a face estagnacionista e destrutiva do capitalismo. dt-crítica. Acessado em: 0/09/009. Um sistema que, mesmo quando reencontra a BEINSTEIN, Jorge, 009. A crise na era senil dorentabilidade – nos nichos asiáticos, por exemplo, mas capitalismo, fevereiro 009. Disponível em: http://resistir.infoesbarra nos limites da elevação da composição orgânica Acessado: 8/04/009. Original se encontra-se em: El viejodo capital, da sobreacumulação de capitais que acorrem topo, Barcelona, n. 5, fevereiro 009.à esfera do financiamento ao comércio, ao “sistema de CHESNAIS, François, 997. Mundialização docrédito” que tem a elasticidade para forçar os limites que capital, regime de acumulação predominantemente financeirao sistema encontrou na produção. Mas não para superá- e programa de ruptura com o neoliberalismo. In Revistalos. da Sociedade Brasileira de Economia Política, n., Rio de Ampla deflação (ou seu contrário, intensa Janeiro. CHINGO, Juan, 009. El capitalismo mundial eninflação), profunda depressão ou, mais diretamente, una crisis histórica. In Revista Estratégia Internacional n.5,intensa destruição de forças produtivas, através de deciembre 008/ enero 009, Buenos Aires.guerras, quebras de grandes corporações e mais violentos CHINGO, Juan, 008. Escandaloso rescate del sistemaataques à classe trabalhadora: eis alguns mecanismos que financeiro norte-americano. Suplementos EconoCrítica n. 6,o sistema, em sua senilidade, necessita para se contrapor à 8/09/008, Buenos Aires.queda tendencial da taxa de lucro, à falta de oportunidades GEAB (Global Europe Anticipation Bulletin), 009c.para investimentos – na era da hiper-competição entre Fase V da crise sistêmica: começa a seqüência da insolvênciaos oligopólios cada vez mais concentrados – mesmo global, 5/0/009. 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