Lula, o homem e a imagem - critica do filme Lula, o filho do Brasil, de Fábio Barreto

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Lula, o homem e a imagem - critica do filme Lula, o filho do Brasil, de Fábio Barreto

  1. 1. Lula, o homem CINEMA e a imagem [Crítica do filme Lula, o filho do Brasil, de Fábio Barreto]Michel Goulart da Silva* Getúlio supostamente esteve sempre próximo do povo para ouvir seus anseios e levar a cabo medidas que Estreou nas salas de cinema de todo o país, no favoreciam os trabalhadores. Com isso, seus principaisinício deste ano, um dos filmes que mais vinha causando herdeiros políticos, em especial João Goulart e Leonelpolêmicas, antes mesmo de chegar ao público: Lula, Brizola, também políticos do PTB gaúcho, pareciamo filho do Brasil, de Fábio Barreto. Se o filme vinha carregar certa aura emanada de Getúlio Vargas. Elescausando tantas polêmicas antes mesmo de sua estreia, também construíram a imagem de políticos que,certamente não se deve a suas qualidades ou debilidades apesar de sua origem em elites rurais, representavamestéticas, mas a seu significado político. Tanto foram os interesses do povo. Por outro lado, se levarmos emexpressas posições de idolatria ao filme por parte de conta a ideia de “populismo”, seria possível incluir nessesetores da esquerda como de repulsa por parte da direita espectro getulista os mais diferentes políticos, inclusiveque nutre um intenso ódio pela figura política de Lula. políticos não trabalhistas, como Adhemar de Barros eEmbora seja um fenômeno político importante para a Jânio Quadros, mas que também construíram a imagemesquerda, na medida em que se trata de filme acerca da de políticos que ouvem os anseios populares, ou seja,principal liderança construída pelos trabalhadores nas mesmo sem ter afinidades políticas com Getúlio, teriamúltimas décadas, parte da esquerda optou pelo “não vi e supostamente a mesma forma de fazer política.não gostei”, fazendo comentários ocos a respeito do filme Pensando nessa comparação entre Getúlio e Lula,e, em grande medida, reproduzindo em seus comentários talvez a máquina de propaganda seja a principal diferençaas críticas oriundas da direita. entre os dois. Getúlio fez do Estado sua principal forma Essas formas de olhar a obra cinematográfica, de promoção, gravando sua imagem em livros didáticosque partem de ideias prévias a respeito de Lula e não e infantis, jornais, rádios. Entre 930 e 954, comda análise do próprio filme, não levam em conta o filme um breve intervalo entre 945 e 950, houve intensoem todas as suas contradições. Não se pode deixar de investimento do Estado brasileiro para forjar um Getúliopensar o filme como parte de um projeto de construção Vargas que, embora ampliando direitos e a democracia,de um ídolo, forjando um novo herói do povo brasileiro, garantia a ordem econômica e social. Mas em todos essesalgo como um novo Getúlio Vargas. Diferente do que momentos sua figura esteve próxima ao Estado, comopensam as análises mais superficiais, o filme não é um messias que, por meio do governo, tinha vindo àuma ação do governo visando a eleição da candidata terra para salvar o povo. Nesse Estado, que muitas vezesde Lula nem uma política de Estado com a finalidade ganhou o adjetivo de “getulista”, estava a salvação dosde fazer propaganda ideológica. Trata-se de um projeto trabalhadores e dos pobres.político de longo prazo, que aposta no fortalecimento do Lula também procura construir essa imagem daimaginário que apresenta Lula como grande líder popular estabilidade e para isso também se utiliza do Estado.e na consagração de sua administração como modelo Mas há duas importantes diferenças em relação a Getúlioeconômico, social e político. Vargas. Deve-se levar em conta, em primeiro lugar, que Fazendo uma analogia entre Lula e Getúlio Vargas, há uma indústria cultural muito mais desenvolvida quepode-se também pensar a figura do líder trabalhista para ajuda a construir a figura de Lula e com a qual Getúlioalém de sua vida física. No cenário político brasileiro, Vargas contava de forma bastante limitada. Hoje, emboradurante pelo menos duas décadas, esteve presente a receba abundantes recursos públicos, essas mídias queimagem de Getúlio Vargas. Na imagem construída, colaboram na construção da imagem de Lula são grandes corporações privadas, em alguns casos inclusive com Mestrando em História na Universidade de Santa Catarina capital externo. Por outro lado, Lula em sua política não(UDESC). Bolsista da Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e aposta no Estado como salvador, mas na manutenção daTecnológica do Estado de Santa Catarina (FAPESC).
  2. 2. Contra a Corente ordem do mercado, acompanhada de perto pelo Estado, Uma nação que, apesar dos sofrimentos e das privações,e numa indefinível “força popular”, que se manifesta ao dar o melhor de si, constrói trabalhadores honestos,nas eleições e num certo “caráter brasileiro”. Não há homens e mulheres, que não desistem de lutar. São todosespaço para um governo dos trabalhadores, mas para “teimosos”, como Lula, e têm a mãe como guia.um “governo de todos”, que mantenha intocado o status Essa imagem de perseverança, resumida na singelaquo. palavra teimosia, não apenas perpassa o filme inteiro O filme Lula, o filho do Brasil não é, portanto, apenas como se mistura com outra palavra forte, coragem.propaganda eleitoral para o pleito presidencial, a ocorrer Há, de um lado, a teimosia de Lula e seus irmãos que,neste ano, mas projeto de consolidação de um imaginário apesar da postura contrária do pai, continuam a estudar,político entre os trabalhadores. O trabalhismo existiu com apoio da mãe. Teimosia de Lula que, apesar daspara além de seus principais líderes e até hoje Brizola dificuldades, realiza o curso técnico de torneiro mecânicoe Vargas são lembrados e reverenciados (derrotado pelo e, apesar da falta de emprego, persiste até ter novamentegolpe civil-militar de 964, João Goulart tornou-se figura a oportunidade de ser operário.marginal na memória histórica). Nesse sentido, pode-se Mas, se Lula e seu povo são teimosos, tambémpensar que mesmo se Dilma for derrotada no pleito de carregam como marca a cautela, fazendo, como sugereoutubro, há uma forma de fazer política, de relação com a mãe, as coisas de forma pensada. Dessa forma, há ema população, de atendimento aos interesses dos eleitores, Lula tanto um ímpeto quase irracional de quem luta paraenfim, um conjunto de marcas deixadas por Lula das sobreviver e alcançar seus sonhos, ao lado de um homemquais o novo presidente não poderá escapar. meticuloso e que, para chegar ao desejo, mede cautelosa José Serra, se eleito, mesmo carregando os “pecados” e cuidadosamente seus passos.neoliberais do governo FHC e assumindo o papel de Essa cautela, quando chega na esfera da política,candidato de direita, dificilmente poderá escapar de materializa-se numa política pragmática. Esta é afazer um governo com traços “populistas” (que, em seu manifestação mais clara dos limites políticos do filme,linguajar, é um termo pejorativo). Inclusive, na campanha em que o mito mostra os motivos de ter chegado ondedo candidato tucano, apesar de alguns rompantes isolados chegou. Em um filme pago por multinacionais brasileirasde extrema direita, o governo Lula não é apresentado de e estrangeiras, seu protagonista insiste muitas vezes queforma negativa, mas como um governo que, em função não é inimigo dos patrões e que está apenas lutando pelosde alguns limites, não conseguiu avançar tanto quanto interesses dos trabalhadores, como salário e melhorespoderia. O governo anterior, do próprio PSDB, teria dado condições de vida e trabalho.as bases para um maior desenvolvimento do país. Lula Lula parece carregar uma espécie de trauma, deconseguiu avançar apenas parcialmente, sendo necessário, quando, acompanhando seu irmão, viu cenas e grandeportanto, trazer de volta um governo “tucano” para que o violência promovida por um grupo de operários. EssesBrasil dê os saltas que Lula não teria conseguido dar. são mostrados como baderneiros e sectários, uma massa irracional cuja ação é movida pelo ódio e não pela O “lulismo” como herança busca de melhores condições para os trabalhadores. Seria possível, portanto, afirmar que Lula, ao deixar Um contraste é feito, nesse ponto. Enquanto esse grupoo governo, deixa uma cultura política bastante particular, apresentado como baderneiro veste camisas brancas ealgo que vem sendo chamado por alguns de “lulismo”. limpas, de colarinho branco, os operários nas fábricas,O filme acerca da vida de Lula, de certa forma, procura aqueles que seriam sérios e trabalhadores, e que não seressaltar os traços dessa cultura política, criando uma metem em confusão nem são violentos, vestem azul emistura entre o homem, o político, o filho e o marido. estão manchados pelo trabalho.Esse filho carrega os traços de sua mãe, não apenas da Lula é diferente, optando por negociar sempre semãe biológica mostrada no filme, mas uma nação inteira sem se guiar por “ideologias” que pregam a guerra entreque também é sua mãe. Nessa metáfora, da nação como as classes. Lula constrói sua imagem como conciliador.mãe, mostra-se uma mãe protetora, apoiando os filhos Os burgueses não são inimigos, afinal, nas palavras denos momentos de grande dificuldade e sempre dando Lula, “pagam o nosso salário”. Lula não quer tomar oconselhos que os ajudem na caminhada da vida. Uma poder nem quer ser um político, mas apenas representar osmãe que está sempre presente e que luta com todas as interesses dos trabalhadores e lutar por eles. Mais do quesuas forças para dar aos seus filhos um futuro melhor. isso, quer uma paz social, em que patrões e empregados O Brasil, essa mãe metafórica de Lula, que dá o possam se entender evitando atritos.melhor de si por seus filhos, pode então ser interpretado Mas, se está aí o ponto fraco político do filme,como uma nação que, apesar do sofrimento e das situações curiosamente também está o seu ponto forte, que é alimite em que as desventuras acabam lhe colocando – que denúncia das ações criminosas da repressão ditatorial.não dependem dela, mas de fatores externos – arranca Quando os operários vão à greve, é porque os espaços dede si própria todas as forças para proteger seus filhos. negociação terminaram e se veem obrigados a forçar algum
  3. 3. Lula, o homem e a imagem tipo de acordo que lhes deem garantia. É a repressão quepolitiza os operários e as greves e que reprime e prende Realismo socialistaesse sindicalismo “conciliador” de Lula. Ou seja, nesseregime repressivo não há espaço nem mesmo para lutas O estilo atual da pintura oficial soviética leva osindicais que se pretendem pacíficas. Para os ditadores, o nome de “realismo socialista”. Certamente, esseideal seria um sindicalismo ligado diretamente ao Estado, nome foi dado por algum chefe de escritórioe não um sindicalismo autônomo e combativo, ainda que dos negócios artísticos. O realismo consiste empragmático, visando os resultados imediatos. imitar os daguerreótipos feitos nas províncias durante o último quartel do século XIX; o caráter Um novo mito? “socialista”, com certeza, na maneira de mostrar No filme constrói-se a imagem de Lula como um os acontecimentos, com os efeitos das fotografias afetadas - isto é, nunca se sabe onde acontecem.homem em quem todos deveriam se espelhar e seguir o Não se pode deixar de sentir uma repugnânciaexemplo. Seu sofrimento é o mesmo de todo o povo, o física - é ao mesmo tempo cômico e terrível - àque faz dele uma espécie de síntese de um povo sofrido leitura dos poemas e novelas, à vista das fotos deque, apesar das dificuldades, luta e vence na vida. Essa quadros ou de esculturas nos quais funcionáriosé a figura que se quer fortalecer no imaginário popular, armados com penas, pincéis ou burris sob aprocurando fundir e reforçar a imagem do grande líder vigilância de outros funcionários armados compopular, do homem trabalhador e também de família. máusers, louvam chefes “de prestígio” e “geniais” O filme ressalta, portanto, um conjunto de imagens que na realidade não têm a menor centelha deconservadoras, trabalhando com o imaginário popular do gênio ou grandeza. A arte da época stalinistalíder, numa tentativa de eternizar um novo político que, permanecerá como a expressão mais crua da profunda decadência da revolução proletária.como Getúlio Vargas, possa estar presente em todas as Mas isso não se limita às fronteiras da U.R.S.S. Afuturas eleições mesmo sem concorrer. Há, portanto, um pretexto de reconhecimento tardio da Revoluçãoprojeto político, que não é apenas de um grupo particular, de Outubro, a ala esquerda dos intelectuaismas que pode ser utilizado pelo conjunto das forças ocidentais ajoelhou-se diante da burocraciapolíticas, se aproximando do imaginário construído soviética. Os artistas dotados de caráter e talentoem torno de Lula. Lula estará futuramente presente, na são, em geral, marginalizados. E foi assimimagem que os trabalhadores procuram ou sonham para que, com o maior descaramento, fracassados,si, uma imagem sem projeto de emancipação, mas que carreiristas e desprovidos de dons guindaram-sedefende a conservação e consegue sintetizar desejo de à primeira fila. Inaugurou-se a era dos centrosmudança com elementos simbólicos conservadores da e escritórios de toda espécie, dos secretários de ambos os sexos, das inevitáveis cartas desociedade. Romain Rolland, das edições subvencionadas, dos banquetes e dos congressos, em que é difícil descobrir a linha divisória entre a arte e a G.P.U. Apesar de sua vasta extensão, esse movimento militarizante não deu origem a nenhuma obra que possa imortalizar o seu autor ou aqueles que, do Kremlin, a inspiraram. (Arte e revolução, Leon Trotski, 7/6/938) A classe operária na luta contra a ditadura (1964-1980) Edições Iskra, 2008. Uma crítica à história oficial e petista sobre o ascenso operário no Brasil dos naos 70 e 80 buscando esclarecer o presente.

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