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11       No primeiro capítulo fazemos uma abordagem sobre o que é cultura, seusdiversos conceitos amplamente discutidos no...
12                                       CAPÍTULO I                                    PROBLEMÁTICA1.1 A Cultura no Brasil...
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343.2 Sujeitos da Pesquisa         Os participantes da pesquisa foram 16 pessoas, sendo 02 do sexo masculino,e 14 do sexo ...
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363.4.2 O questionário         Outro instrumento utilizado foi o questionário fechado, contando com 07questões com pergunt...
37                                    CAPÍTULO IV                    ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS       Esta pesquisa...
38                                  13%                                                   Mas c ulino                     ...
394.1.2 Estado civil e filhos      No aspecto estado civil, 12,5% são solteiros, 50% casados, e 37,5% viúvos.Como podemos ...
404.1.3 Com relação ao nível de escolaridade                                    25%                                       ...
41      A religião dos entrevistados é caracterizada a partir dos seguintes dados:6,25% são evangélicos, 6,25% consideram-...
424.2 Síntese dos Dados do Questionário Fechado         A análise do questionário nos possibilitou conhecer os sujeitos da...
434.3.1 O terno da cigana sai à rua, pra visitar a lapinha de Belém       Em relação à definição do Reisado percebemos que...
44Terno de Reis acontece “geralmente entre 20 de dezembro e 6 de janeiro,comemorando o nascimento de Cristo e cantando em ...
45vemos em Cascudo (2002) “O Dia de Reis marca, especialmente no norte, o final dociclo do Natal, terminando as Lapinhas e...
46                     viemos de tão longe somente para saldar... Depois é que o dono abre as                     portas e...
47       Notamos também a utilização de algumas músicas diferentes entre os gruposde Ternos, mas para o momento de saída, ...
48                      “A gente não sabe quem inventou as músicas, porque quando a gente se                      entendeu...
49                     “Foi o terno que foi para Bonfim e eu participei, foi em 1966 foi o primeiro, o                    ...
50do candomblé. Visto que o grupo um considera essa manifestação como sua, e osdemais grupos onde a presença do sincretism...
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  1. 1. 10 INTRODUÇÃO O homem ao viver produz história, constrói seu mundo e o reproduz atravésda cultura, sendo este o elemento que distingue os seres humanos dos animais.Cada música, dança, objeto, exterioriza a sua memória e identidade, mantendo vivaa raiz de seu possuidor, bem como seus costumes e valores. Desse modo, a culturasignifica o modo de vida de um povo e manifesta-se nos seus atos e nos seusartefatos. Ela varia no tempo e no espaço, no sentido em que quando as gerações eos grupos sociais se relacionam, amplia o acervo cultural ou os aspectos culturais.Em virtude dessas constantes modificações, atribuímos um caráter dinâmico econtínuo à cultura, já que não é dada de modo uniforme; tendo épocas de grandesdesenvolvimentos, paradas e até retrocessos. Mas a cultura não é somente dinâmica, ela também é plural, não havendouma uniformidade cultural; e o nosso país é grande exemplo disso, pois, cada regiãotem uma “cara” diferente, traços culturais únicos, e em uma mesma comunidade nosencantamos com a diversidade cultural ali existente. E este fato nos fez notar quecom o distrito de Igara não é diferente, sua cultura é assistida a cada comemoraçãodo Carnaval de Rua, do típico Forró Grito, dos festejos de São João, daapresentação da Banda de Pífanos, do Cortejo do Reisado, do tradicional Beiju,entre outras. Assim, desejamos neste estudo entender: Como os idosos do Reisado seidentificam como integrantes de uma manifestação da cultura popular? E como amemória cultural faz parte desse importante processo? Esse trabalho de pesquisa traz como maior objetivo: Analisar como os idososdo Reisado se identificam como integrantes de uma manifestação da culturapopular. E como a memória cultural faz parte desse importante processo. Organizamos nosso trabalho em quatro capítulos que tratam de assuntosnecessários à exploração do tema e ao desenvolvimento e conclusão da pesquisa.
  2. 2. 11 No primeiro capítulo fazemos uma abordagem sobre o que é cultura, seusdiversos conceitos amplamente discutidos no campo antropológico, e a descriçãodas manifestações culturais, dando destaque à origem destas, mostrando como sãoconhecidas e apreciadas nacionalmente e no distrito de Igara. No segundo capítulo são abordados os pressupostos teóricos do tema aquiapontado, bem como também um histórico do Reisado. No terceiro capítulo abordamos a metodologia e os instrumentos escolhidospara a realização da pesquisa, sendo escolhida a pesquisa qualitativa. E comoinstrumentos a entrevista semi-estruturada e o questionário fechado para traçar operfil dos sujeitos. No quarto capítulo, apresentamos o resultado da pesquisa feita com os idososdo Reisado, fazendo uma análise e interpretação sobre os dados coletados. Por fim, a presente pesquisa traz as últimas reflexões sobre as categorias,encontradas nos dados que foram analisados e interpretados.
  3. 3. 12 CAPÍTULO I PROBLEMÁTICA1.1 A Cultura no Brasil A cultura é tão antiga quanto a raça humana, estando presente em cadagrupo social e definindo a identidade de cada ser. Sendo um tema amplamentediscutido nos tempos atuais, a cultura engloba os modos comuns e aprendidos davida transmitidos pelos indivíduos e grupos, em sociedade. Podemos afirmar quecada grupo tem a sua própria cultura, descartando a possibilidade de unidadecultural ou o uso da expressão identidade nacional. Ocorre, porém, que não existe uma cultura brasileira homogênea, matriz dos nossos comportamentos e dos nossos discursos. Ao contrário: a admissão do seu caráter plural é um passo decisivo para compreendê-la como um “efeito de sentido”, resultado de um processo de múltiplas interações e oposições no tempo e no espaço (BOSI, 2002, p.7). O Brasil com a sua diversidade lingüística, raças, ritmos, cores, etc., é umpaís rico, e totalmente heterogêneo culturalmente. Com manifestações particularescomo, por exemplo: No estado do Maranhão, as principais manifestações culturaissão o Bumba-meu-boi e o Tambor de Crioula. Em Pernambuco dentre as váriasmanifestações destaca-se o carnaval movido a frevo. Já a Bahia é vista como ocartão postal do país pelo carnaval de Salvador, os festejos juninos, a festa daIndependência da Bahia, lavagem do Bonfim, e muitas outras manifestações. Epodemos ainda citar inúmeras manifestações que são próprias de nossos estadosbrasileiros e distrito federal. Vemos então, que não existe uma cultural universal, pois um país estádividido em vários estados e estes em cidades e povoados que também tem a suacultura local. Eliminando assim, a idéia de “cultura de verdade” ou a “alta cultura”que seria organizada por uma elite, sendo superior a cultura popular que por sua vezseria das classes subalternas.
  4. 4. 13 Enfim, é preciso recusar a hierarquização das expressões culturais e sua articulação em culturas subalternas e culturas dominantes. É necessária uma ou outra visão do processo cultural como um todo, (...). Recusar a subalternidade da cultura popular, recuperar sua importância fundamental é concebê-la a ocupar um lugar privilegiado de onde se pode pensar e ver criticamente, perspectiva analítica capaz de pensar em profundidade os principais nós e estrangulamentos da história do e da cultura brasileira em geral. A partir da cultura popular, é possível pensar um outro país, uma ou várias alternativas de Brasil. Isto porque a cultura popular brasileira é um estoque inesgotável de conhecimentos, sabedorias, tecnologias, maneiras de fazer, pensar e ver nossas relações sociais e , nessa exata medida, um lugar em que mais do que simplesmente criticar o modelo genocida e autodestrutivo de desenvolvimento, é possível resistir a ele com outras propostas de sentido do viver e de humanidade (SILVA, 2008, p.09). Conhecendo assim, a cultura do povo será valorizada a história que construiua identidade de cada um e se mantém viva na memória sendo reforçada a cadamanifestação cultural, seja através das festas religiosas, contos populares ouartefatos. Em vista disso, a grande diversidade de culturas, nos mostra que o aceitocomo uma boa conduta em um grupo não é aceito em outro grupo social. Sendocada realidade cultural o resultado de uma história particular, as características decada cultura serão distintas. Porém não deve haver entre termos valorativos comosuperior e inferior. Sabemos que a cultura está sujeita a variações, desde a observação que estase organiza, comporta e realiza dentro do ambiente físico, sofrendo influênciasatravés de diferentes formas, como: crescimento, transmissão, difusão, fusão ouestagnação. A mudança cultural ocorre por meio de qualquer um desses processos,podendo ser de forma simples ou com mais resistência, dependendo da aceitaçãodo grupo. Assim, tem-se mudança quando: Novos elementos são agregados ou os velhos aperfeiçoados por meio de invenções; novos elementos são tomados de empréstimo de outras sociedades; elementos culturais, inadequados ao meio ambiente, são abandonados ou substituídos; alguns elementos, por falta de transmissão de geração em geração se perdem (MARCONI; PRESOTTO, 1986, p.61). Com base na observação histórica, percebemos que os povos estão fazendoempréstimos culturais uns dos outros. Constituindo-se a difusão “um processo, na
  5. 5. 14dinâmica cultural em que os elementos complexos culturais se difundem de umasociedade a outra” (MARCONI; PRESOTTO, 1986, p.63). A mesma ocorre de formarecíproca com relações pacíficas entre os povos gerando a troca de pensamentos,invenções, aceitação e integração dos novos elementos ao padrão existente dogrupo. Vale salientar que a assimilação de novos elementos pode vir a sofrerreformulações, quanto ao seu significado e função. Ainda, sobre a temática, discute-se o conceito de aculturação que “é a fusãode duas culturas diferentes que entrando em contato contínuo originam mudançasnos padrões da cultura de ambos os grupos” (MARCONI; PRESOTTO, 1986, p.64).Com o passar do tempo esta fusão proporcionará a constituição de uma novasociedade e uma nova cultura. Acrescenta-se ainda a esta discussão a endoculturação, “processo deaprendizagem e educação em uma cultura desde a infância (...), processo queestrutura o condicionamento da conduta, dando estabilidade à cultura” (MARCONI;PRESOTTO, 1986, p.65). As crenças, o comportamento, os modos de vida sãoadquiridos pelo indivíduo que a esta sociedade pertence, sendo que o indivíduo nãoaprende toda a cultura, mas está condicionado a certos aspectos particulares datransmissão de seu grupo. Como vemos, a cultura se modifica, sofrendo influência interna e externa,constituindo-se num processo dinâmico e contínuo. Porém, há grupos que têmresistido a essas modificações buscando manter suas origens culturais através devários mecanismos, entre eles a realização de suas festas populares. Sobre isso,Murray (2008), exemplifica: Nas Américas, os maias, os astecas e os incas se manifestaram pela arte pré-colombiana. Os aborígenes americanos, assim como os nativos da Oceania e Ilhas do Pacífico, com seu estilo próprio de celebração, tinham em suas festas a legitimação da sua afirmação cultural. Na África produziam-se máscaras, esculturas, escarificações e pinturas para as festas rituais (p.97).
  6. 6. 15 Portanto, vemos que as festas têm um papel importante na vida do serhumano, e independente de período histórico, ou de raça a sua função é a mesma,representar a ação dos mitos na vida do homem, possibilitando uma vida maisapropriada por meio do equilíbrio das forças antagônicas do caos e da ordem. Aesse respeito Silva (2008) salienta: (...) em todas as épocas e em todas as regiões do planeta, as festas populares foram instrumentos fundamentais através dos quais os homens difundiram suas diversas expressões de cultura, isto é, seus conhecimentos, artefatos, técnicas, padrões de comportamento e atitudes (p.87-88). E no Brasil não é diferente, a cada festa popular realizada nossa identidade éreafirmada, seja através das festas, dos autos, dos folguedos ou dos bailadospopulares. Cada uma com seus instrumentos, ritmos, cânticos, danças, figurinos eadereços característicos reforçam a identidade cultural de seus participantes. Poiscomo nos afirma Murray (2008): No país da ginga, do drible de corpo, do molejo do samba, dos passos codificados do terreiro e da malícia do golpe de capoeira, podemos afirmar que as nossas festas populares são o símbolo máximo da nossa identidade nacional e espelho coreográfico da alma do povo. Peça-destaque do nosso patrimônio, onde sagrado e profano se unem e se completam, elas permitem uma leitura das características étnico-culturais de cada região do país, ao mesmo tempo em que sintetizam a natureza mestiça do brasileiro. (...) celebrados em forma de procissão, de romaria, de roda, de bloco ou de desfile, nossas festas traduzem nossa diversidade multicultural e multirracial, fazendo do Brasil o grande laboratório cultural da Idade Moderna (p.97-98). Podemos afirmar que o nosso país se constitui num truísmo, onde o mesmo éresultado da mestiçagem de três raças: a índia, a branca e a negra. Onde cada umacom seus traços culturais próprios, misturam-se e nos dão como produto a culturabrasileira rica em sua diversidade cultural. Complementando, Murray (2008) aindaacrescenta: O encontro das culturas indígena, européia e africana promoveu no Brasil um diversificado repertório de festas, (...). São os Autos de Natal, Auto dos Quilombos, Bom Jesus dos Navegantes, Círio de Nazaré, Corpus Christi, Divino Espírito Santo, Drama da Paixão, Festa do Bonfim, Folia de Reis, Festas Juninas, (...). Temos também os folguedos de espírito lúdico-onde se destacam Afoxés, Congadas, Maracatus, Caboclinhos, Tambor de Crioula, Marujadas, Vaquejadas, Bumba-meu-Boi, (...), e os bailados
  7. 7. 16 populares, como Marabaixo, Maculelê, Cateretê, Coco de Zambê, entre muitos outros. E, finalmente, o Carnaval, (...) (p.98). Essas manifestações culturais são a afirmação do que é o povo, seuscostumes, suas crenças. Tornando cada grupo único, com características próprias. Situamos aqui, este estudo que toma como “lócus” de pesquisa o distrito deIgara, pertencente ao município de Senhor do Bonfim. Comunidade rica por suadiversidade cultural, onde podemos encontrar fortemente enraizados os costumesde um povo que vem lutando para não ter sua história apagada. E através da Bandade Pífano, Reisado, Carnaval de Rua, Queima do Judas, Forró Grito, Festejo deSanto Antônio, Festejo de São João, Festejo de São Pedro, Guerra de Espada,Desfile Cívico do Dia 07 de Setembro, Contos Populares, Rezadeiras, Candomblé, eArtefatos (vassoura, beiju), estão sendo preservadas suas tradições. No entanto, iremos nos deter especialmente ao estudo do Reisado,manifestação cultural popular de Igara de grande relevância religiosa e de influênciaportuguesa. Diante dessa abordagem nossa questão de pesquisa é: Como os idososdo Reisado se identificam como integrantes de uma manifestação da culturapopular? E como a memória cultural faz parte desse importante processo? Objetivos da pesquisa: • Analisar como os idosos do Reisado se identificam como integrantes de uma manifestação da cultura popular. E como a memória cultural faz parte desse importante processo.
  8. 8. 17 CAPÍTULO II REISADO DE IGARA: IDENTIDADE E MEMÓRIA No nosso quadro teórico, utilizamos como base quatro conceitos – chave:cultura popular, memória cultural, identidade cultural, reisado.2.1 Cultura Popular O termo cultura é conceituado por alguns autores como sendo as crenças, aarte, moral, lei, costumes, conhecimentos, as habilidades e hábitos adquiridos pelohomem no ambiente em que vive. São os padrões de comportamento do homem, etudo aquilo que uma sociedade permite que seus indivíduos conheçam ou acreditempara agir conforme as suas leis. Segundo Laraia (2003) no campo da Antropologia: O termo cultura vem do verbo latino colere (cultivar, criar, cuidar) que originalmente era utilizado para o cultivo ou cuidado com a planta. No final do século XVIII, o termo germânico kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, já na França, civilization refere-se principalmente às realizações materiais de um povo (p.25). Os antropólogos de maneira geral definem cultura como conceito básicocentral de sua ciência, atribuindo a essa palavra o desenvolvimento de cada serhumano por meio da educação, da instrução, sem, no entanto, atribuir juízo de valorentre as culturas, pois, não consideram uma superior à outra, mas apenasdiferentes; dando à cultura um significado amplo que engloba os modos comuns eaprendidos na vida, transmitidos, através das gerações. Assim, Burke (1989)escreve que até o século XVIII: O termo cultura tendia a referir-se à arte, literatura e música (...) hoje contudo seguindo o exemplo dos antropólogos, os historiadores e outros usam o termo “cultura” muito mais amplamente, para referir-se a quase
  9. 9. 18 tudo que pode ser aprendido em uma dada sociedade, como comer, beber, andar, falar, silenciar e assim por diante (p.25). Assim, podemos abranger o termo cultura a todo o conjunto de obrashumanas, tendo sua origem na capacidade mental do homem e existia para ohomem, ela é uma tarefa social e não individual; não é adquirida apenas, ela étambém transmitida, mudada e acrescentada pela inovação ou descobertas dasexperiências vividas pelo homem ao longo dos tempos. Entende-se aqui por cultura os sistemas de significados, os valores, crenças, práticas e costumes; ética, estética, conhecimentos e técnicas, modos de viver e visões de mundo que orientam e dão sentido às existências individuais em coletividades humanas (VIANNA, 2008, p.119). É a cultura também, que distingui o homem dos outros animais, pois, “(...) sóo animal humano é capaz de ação transformadora consciente, ou seja, é capaz deagir intencionalmente (e não apenas instintivamente ou por reflexo condicionado) embusca de uma mudança no ambiente que o favoreça” (CORTELLA, 2003, p.41).Como nos faz ver Rios (2008): “Cria-se cultura porque as maneiras de atender àsnecessidades não estão inscritas na natureza do homem, como acontece com osanimais” (p.32). Cultura diz respeito à humanidade como um todo, e ao mesmo tempo a cadaum dos povos, nações, sociedades e grupos sociais. Sendo definida como ”mundotransformado pelos homens” (RIOS, 2008, p.30). Ou ainda como afirma Cortella(2003): “Esse meio ambiente humano, por nós produzido e no qual somosproduzidos, é a cultura” (p.39). Não existe notícia de nenhum povo que não conheça cultura, pois a mesma éresultado de uma capacidade inerente a qualquer humano e por todos nós realizada.Antes de tudo, a cultura é ainda o espaço no qual o homem desenvolve-se na vidasocial e histórica. Cortella (2003) ainda nos esclarece: (...) é absurdo supor que alguém não tenha cultura; tal concepção, uma discriminação ideológica interpreta a noção de cultura apenas no seu aspecto intelectual mais refinado e não leva em conta a multiplicidade da produção humana coletivamente elaborada. Nós humanos somos, igualmente, um produto cultural; não há humano fora da Cultura, pois ela é o nosso ambiente e nela somos socialmente formados (com valores,
  10. 10. 19 crenças, regras, objetos, conhecimentos etc.) e historicamente determinados (com as condições e concepções da época na qual vivemos) (p.42). Sendo a cultura elemento de produção humana, temos culturas de diversasordens, construídas através dos tempos por várias gerações e diferentes classessociais. No entanto, todas elas são autênticas e o que as diferenciam é o momentohistórico no qual foram produzidas. Não havendo espaço para um discurso decultura superior ou inferior, mas culturas diferentes. Como Rios (2008), enfatiza: (...) cultura é, na verdade, tudo o que resulta da interferência dos homens no mundo que os cerca e do qual fazem parte. Ela é a resposta humana à provocação da natureza e é ditada não por esta, mas pelo próprio homem (...). Assim, não se pode falar em sujeitos cultos e não – cultos. Todos os homens são cultos, na medida em que participam de algum modo da criação cultural, estabelecem certas normas para sua ação, partilham valores e crenças (p.32-33). Entendemos então, que todas as pessoas possuem cultura e que a mesmaapresenta-se de forma diferente em cada grupo, pois a mesma carregacaracterísticas próprias de seu povo. Dessa forma, apresentamos um estudo sobre as principais acepções dotermo cultura e suas implicações. Bem como as diversas maneiras que a culturapode se classificar, são elas: material ou imaterial, real ou ideal. Para melhorcompreensão desses termos trazemos Marconi e Presotto (1986) que os definecomo: Cultura material consiste em coisas materiais, bens tangíveis, incluindo instrumentos, artefatos e outros objetos materiais, fruto da criação humana e resultante de determinada tecnologia. (...) Cultura imaterial refere-se a elementos intangíveis da cultura, que não tem substância material. Entre eles encontram-se as crenças, conhecimentos, aptidões, hábitos, significados, normas, valores. (...) Cultura real é aquela em que, concretamente, todos os membros de uma sociedade praticam ou pensam em suas atividades cotidianas. (...) Cultura ideal consiste em um conjunto de comportamentos que, embora expressos verbalmente como bons, perfeitos para o grupo, nem sempre são frequentemente praticados (p.46- 47). Dentro dessas classificações temos: conhecimentos, crenças, valores,normas e símbolos, que são os elementos constituintes da cultura e que fazem partede nosso dia a dia. Portanto, a sociedade brasileira não tem uma “cultura” já
  11. 11. 20determinada, pois, nada tem de homogêneo e uniforme. E sua forma complexa emutante resulta de interpretações da cultura erudita, da cultura popular e da culturade massas. Bosi (1986), assim conceitua esses termos: Cultura de massa, indústria cultural, (...), uma realidade cultural imposta “de cima para baixo” (dos produtores para os consumidores). (...) Cultura popular, uma realidade cultural estruturada a partir de relações internas no coração da sociedade (...) sistema de idéias, imagens, atitudes, valores. (...) Cultura erudita, transmitida na escola e sancionada pelas instituições, (...), esquemas oficiais (p.63-64). Em face dessa variedade de cultura, nos deteremos somente à “cultura”popular que está intimamente ligada ao nosso objeto de estudo. A cultura popularconhecida como a cultura criada pelo povo, que articula uma concepção do mundo eda vida, sempre esteve presente em cada época da história mundial. Porém, noBrasil os estudos sobre folclore e cultura popular iniciaram somente, na segundametade do século XIX, na busca da construção de uma identidade nacional. Para contextualizar cultura popular que é um termo amplo, dado a muitasdefinições e repleto de ambigüidades. Trazemos Gabriel (2008) que entende acultura popular, como: Cultura dinâmica, presente no meio rural e urbano, que junta tradição e atualidade sempre em transformação, um encontro entre tempos e espaços, com essência de brasilidade, juntando o local com o global, o velho e novo, completando um com o poder do outro (p.77). A cultura popular, quando entendida e resumida por alguns como folcloreperde muito em sua essência, pois ela vai além desse termo, sendo impossível dizeronde começa e termina a mesma. A cultura popular abrange as festas populares, osconhecimentos, técnicas, artefatos, enfim, tudo que o povo produz. E como afirmaFreire (2003): Quando falamos de cultura popular estamos nos referindo não apenas às manifestações festivas e às tradições orais e religiosas do povo brasileiro, mas ao conjunto de suas criações, às maneiras como se organiza e se expressa, aos significados e valores que atribui ao que faz (...) (p.31). Este movimento retrata a força de resistência e persistência da cultura brasileirade nosso povo na busca de preservar sua riqueza cultural.
  12. 12. 212.2 Memória Cultural O conjunto de conhecimentos da cultura é como se fosse uma memóriacoletiva que reconstrói toda a experiência dos grupos ou sociedades e é essacaracterística da cultura que permite que ela seja transmitida de geração a geraçãoatravés da transmissão de seus símbolos para seus descendentes. E como nosmostra Meneses (2002): (...) é a memória, mecanismo de retenção de informação, conhecimento, experiência, quer em nível individual, quer social e, por isso mesmo, é eixo de atribuições, que articula, categoriza os aspectos multiformes de realidade, dando-lhes lógica e inteligibilidade (p.183). Ao lembrarmos de nossa infância, ou do dia em que passamos no vestibular,da dor da despedida de um ente querido, do dia de nosso casamento, e/ou talvezalgo que nos esteja acontecendo, estamos na verdade fazendo uso da memória,pois a mesma retém os fatos e idéias que adquirimos anteriormente. Para conceituarmemória, também trazemos Silva (2008) que diz: A memória é um processo complexo e não se reduz a um simples ato mental. Ela passa pela percepção dos nossos sentidos, como também pelos nossos sonhos e ilusões e pode incluir tudo, desde uma sensação mental privada e espontânea, possivelmente muda, até uma cerimônia pública solenizada. Todavia, tanto num caso como noutro, os dados da nossa experiência cotidiana são as reservas, os estoques, a massa de elementos sobre os quais ela trabalha (p.85). Diante de tais definições, entendemos que a memória é a capacidadehumana de guardar informações de sua vivência tanto individual como coletiva, ouaté mesmo de pensamentos que nem chegam a se concretizarem. Assim, amemória está em constante trabalho, pois a mesma não se restringe somente aacontecimentos do passado. Sobre isso, Meneses (2002) acrescenta: Exilar a memória no passado é deixar de entendê-la como força viva do presente. Sem memória, não há presente humano, nem tampouco futuro. Em outras palavras: a memória gira em torno de um dado básico do fenômeno humano, a mudança. Se não houver memória, a mudança será
  13. 13. 22 sempre fator de alienação e desagregação, pois inexistiria uma plataforma de referência, e cada ato seria uma reação mecânica, uma resposta nova e solitária a cada momento, um mergulho do passado esvaziado para o vazio do futuro (p.185). Não cabe, pois falar em história sem considerar o fundamental papel que amemória ocupa em seu processo histórico. “É a memória que funciona comoinstrumento biológico-cultural de identidade, conservação, desenvolvimento, quetorna legível o fluxo dos acontecimentos” (MENESES, 2002, p.185). Como seres humanos, somos privilegiados, pois além de produzirmos culturao que nos distingue dos animais, também possuímos memória que é própria denossa raça, o que consiste na conservação da lembrança do passado ou da coisaausente. E como enfatiza Silva (2008): Falar da memória é, antes de tudo, falar de uma faculdade humana. A faculdade de conservar estados de consciência pretéritos e tudo o que está relacionado a eles. Bem, a faculdade da memória é responsável por nossas lembranças. Certo, mas falar de lembranças é falar necessariamente de quem lembra. Ora, quem efetivamente recorda são os indivíduos. Portanto, toda memória humana é memória de alguém, de um indivíduo. Ela se refere, antes de tudo ao Eu, ao olhar que essa pessoa constrói a respeito de si mesma, da identidade, portanto, de quem efetivamente recorda (p.85). Afirmamos assim, que a memória é do interesse de todos nós, pois estamosvivos, aqui e agora, somos construtores de nossa história. E sem a memória nossopassado é esquecido enfraquecendo a percepção de que é a atividade humana esocial que faz e pode refazer a sociedade. Observa-se, que “a memória, assim, maisprecisamente, diz respeito à história concebida não como o conhecimento dohomem no passado, mas como o conhecimento da dimensão temporal do homem”(MENESES, 2002, p.185). Ou ainda como resume Rodrigues (1981): “Sem história,não há memória” (p.47). Nesse contexto, podemos afirmar que a memória dividi-se como: memóriacoletiva e memória nacional. E para conceituar esses termos, trazemos Ortiz (2006)que diz: A memória coletiva é da ordem da vivência, a memória nacional se refere a uma história que transcende os sujeitos e não se concretiza imediatamente
  14. 14. 23 no seu cotidiano. O exemplo do candomblé e do folclore mostrou a necessidade de a tradição se manifestar enquanto vivência de um grupo social restrito; a memória nacional se situa em outro nível, ela se vincula à história e pertence ao domínio da ideologia (p.135). Ortiz (2006) ainda nos propõe a distinção para os diferentes universossimbólicos nos auxiliando a compreender as duas ordens de fenômenos queestamos considerando. A memória coletiva se aproxima do mito, e se manifesta portanto ritualmente. A memória nacional é da ordem da ideologia, ela é o produto de uma história social, não da ritualização da tradição. Enquanto história ela se projeta para o futuro e não se limita a uma reprodução do passado considerado como sagrado (p.135). Vemos então, que a história dos seres humanos é ordenada pelos universossimbólicos. Onde o passado dos homens estabelece a “memória” sendocompartilhada pelos indivíduos que compõem a coletividade; já em relação ao futuroos símbolos definem uma rede de referências para a projeção das ações individuais.Vale salientar que “a memória coletiva dos grupos populares é particularizada, aopasso que a memória nacional é universal. Por isso o nacional não pode seconstituir como o prolongamento dos valores populares, mas sim como um discursode segunda ordem” (ORTIZ, 2006, p.137). Diante disso, percebemos que a memória nacional não é propriedadeparticularizada de nenhum grupo social. No entanto, sobre a memória coletiva Silva(2008) afirma que: (...) toda memória se estrutura em identidades de grupo: recordamos a nossa infância como membros a partir de experiências numa vida em família, o nosso bairro como vizinhos em uma dada comunidade, a nossa vida profissional em torno de relações estabelecidas no escritório, na fábrica ou no sindicato (p.86). Portanto, a memória coletiva possui uma existência concreta, manifestando-se imediatamente enquanto vivência. O que nos permite focar de agora em diantesomente a memória coletiva por ser portadora da memória popular ondeencontramos as manifestações culturais do povo.
  15. 15. 24 Quanto à memória popular, Ortiz (2006) afirma: “A memória popular (seriamais correto colocar no plural) deve, portanto se transformar em vivência, poissomente desta forma fica assegurada a sua permanência através dasrepresentações teatrais” (p. 135). Representações essas da cultura popular que éheterogênea, onde as diferentes manifestações folclóricas como Reisados, SãoJoão, Carnaval; não partilham um mesmo traço em comum, tampouco se inseremno interior de um sistema único. Como afirma Ortiz (2006): A cultura popular é plural, e seria talvez mais adequado falarmos em culturas populares. No entanto, se tomarmos como ponto de partida cada evento folclórico em particular (um reisado, uma congada), a comparação com os cultos afro-brasileiros é legítima. A memória de um fato folclórico existe enquanto tradição, e se encarna no grupo social que a suporta. É através das sucessivas apresentações teatrais que ela é realimentada. Isto significa que os grupos folclóricos encenam uma peça de enredo único que constitui sua memória coletiva; a tradição é mantida pelo esforço de celebrações sucessivas, como no caso dos ritos afro-brasileiros (p.135). E como bem salienta Brandão (1981) ao estudar os congados do ciclo de SãoBenedito, “este saber popular não existe fora das pessoas, mas entre elas” (p.54).Nos grupos folclóricos é possível percebermos os diferentes papéis que os atoressociais desempenham nas manifestações culturais. Assim, quando o problema doesquecimento surge, geralmente está vinculado às dificuldades de se manter acoesão do grupo. Pois quando um mestre morre pode ocorrer à desestruturação detoda uma rede de trabalho ritual, visto que desaparecera um ator de destaque noteatro popular. É nesse momento que a memória popular mostra a sua essência,mantém viva a história, os ritos no meio que os possui através da vivência de seusrepresentantes.2.3 Identidade Cultural Em diferentes épocas, e sob diferentes aspectos, a problemática daidentidade cultural vem se perpetuando; sendo imprescindível compreendermos aidentidade, seu processo de afirmação e construção. Segundo Ortiz (2006): “(...) aidentidade é uma entidade abstrata sem existência real, muito embora fosseindispensável como ponto de referência” (p.137). Ou ainda, como afirma Meneses(2002):
  16. 16. 25 O conceito de identidade implica semelhança a si próprio, formulada como condição de vida psíquica e social. Nessa linha, está muito mais próximo dos processos de re-conhecimento do que de conhecimento. A busca de uma identidade se alia mal a conteúdos novos, pois o novo constitui uma ameaça, sempre. Ao contrário, ela se alimenta do ritmo, que é repetição; portanto, segurança. Trata-se, em suma, de atitude conservadora, que privilegia o reforço em detrimento da mudança (p.182). Todos nós como seres humanos e consequentemente agentes de cultura,trazemos histórias e saberes que não foi a escola, nem a mídia, que nos ensinaram.Mas, cada um que convive conosco contribui para a formação desse conhecimentoque cria e alimenta a nossa identidade. Como exemplifica Marconi e Presotto (1986): Os adultos, em uma sociedade, com sua conduta já definida, representam o modelo com o qual as crianças vão identificar-se e cujo comportamento vão imitar. Conformam-se ao que a sociedade define como melhor para o preenchimento das necessidades pessoais e culturais e para sua melhor adaptação (p.196). Então, a identidade é construída através da observação e vivência com outraspessoas, pois dessa forma, ocorre também a identificação com o comportamento dooutro e assimilação. Nesse sentido Gabriel (2008) afirma que: “As pessoas sentem-se identificadas umas com as outras e, ao mesmo tempo, distintas das demais.Assim a identidade e a alteridade (referente ao que é do outro), a similaridade e adiversidade marcam o sentimento de pertencer ao todo” (p.76). Para Woodword (2007): “As identidades são fabricadas por meio da marcaçãoda diferença. Essa marcação da diferença ocorre tanto por meio de sistemassimbólicos de representação quanto por meio de formas de exclusão social” (p.39).Ou seja, a construção da identidade do sujeito também está marcada por diferentesformas de determinação, onde são opostos, ou se pertence ou não pertence, ou éou não é parte daquele “grupo” étnico, cultural ou social. Sobre a identidade cultural,Gabriel (2008) enfatiza: A identidade cultural se relaciona a aspectos de nossas identidades que surgem do “pertencimento” a culturas étnicas, raciais, lingüísticas, religiosas e, sobretudo, nacionais. Alguns estudiosos afirmam que, de alguma maneira, pensamos nesta identidade como parte de nossa natureza essencial, que nos faz sentir indivíduos de uma sociedade, grupo, estado ou nação (p.76).
  17. 17. 26 A identidade assim como a cultura é produzida pelo homem através de suavivência. Desde o nascimento fazemos parte de um determinado grupo social comsua religião, costumes e valores, e à medida que crescemos neste meio osassimilamos. Essas e outras características que adquirimos irão contribuirfortemente para construção de nossa identidade. Da mesma forma, acontece com aidentidade cultural, pois a mesma se forma espelhando-se na cultura predominantedo grupo a que pertencemos. Assim afirmamos que tão diversa quanto à cultura é aidentidade cultural, eliminando suposições de uma identidade padrão e/ou superior.Nesse sentido Ortiz (2006) salienta: (...) creio que é o momento de reconhecermos que toda identidade é uma construção simbólica (a meu ver necessária), o que elimina portanto as dúvidas sobre a veracidade ou a falsidade do que é produzido. Dito de outra forma, não existe uma identidade autêntica, mas uma pluralidade de identidades, construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos (p.8). Vemos então, que não há uma identidade verdadeira ou falsa, superior ouinferior; mas sim, identidades diferentes, próprias a cada indivíduo, grupo ounacionalidade. Pois cada indivíduo possui uma identidade cultural que foi construídaao longo de sua vida tornando-o integrante de um determinado grupo. E à medidaque este sujeito assume plenamente, com orgulho, o seu papel neste grupo, ele estáafirmando sua identidade. Segundo Woodword (2007): Ao afirmar uma determinada identidade, podemos buscar legitimá-la por referência a um suposto e autêntico passado-possivelmente um passado glorioso, mas, de qualquer forma, um passado que parece “real” - que poderia validar a identidade que reivindicamos (p.27). Woodword (2007) ainda acrescenta: “Isso não significa negar que aidentidade tenha um passado, mas reconhecer que, ao reivindicá-la, nós areconstruirmos e que, além disso, o passado sofre uma constante transformação”(p.28). Está aí a importância de conhecermos nossa identidade e nosreconhecermos como agentes culturais buscando manter nossa história, apesar dastransformações que ocorrem com o tempo. Vivemos na globalização que busca homogeneizar as imagens, estilos elugares, a fim de valorizar o que é do outro na desvalorização do que nos pertence.
  18. 18. 27Tal postura global tem alienado as identidades de suas origens, histórias, etc.;dificultando saber quem somos se não formos ensinados em casa e em nosso gruposocial os nossos próprios valores culturais. Meneses (2002) afirma que a identidadetambém é um processo de construção social: A antropologia e a sociologia, por sua vez, informam-nos de que a identidade quer pessoal, quer social, é sempre socialmente atribuída, socialmente mantida e também só se transforma socialmente (...). Isto é, não se pode ser humano por si só, por representação própria: os valores, significações, papéis que me atribuo necessitam de legitimidade social, de confirmação por parte de meus semelhantes (...). Dentro dessa ótica, é fácil entender que o processo de identificação e um processo de construção de imagem; por isso terreno propício a manipulações (p.183). Dessa forma, o suporte fundamental da identidade é a memória, pois juntasbuscam registrar o que se constitui como verdadeiro para o homem e/ou sociedade.Sejam através de ritos culturais, artefatos, contos populares, etc.2.4 Reisado O Reisado também conhecido como Terno de Reis, Festas de Santos Reis,Folia de Reis, entre outros, comemora o nascimento de Jesus Cristo, que encena avisita de Reis Magos à Belém para adorar o menino-Deus. Como se encontraregistrado no Evangelho de Mateus 2:1-2, 11 (1993): Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. E perguntaram: Onde está o recém-nascido Rei dos Judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo. Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram- lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra (O Novo Testamento p.3). Com relação à quantidade de reis, seus nomes e outras informaçõesparticulares, o texto bíblico não nos dá, a saber. No entanto, ao longo dos séculossurgem inúmeras reinterpretações sobre os reis magos. Conhecida, em sua forma mais popular, como a “Adoração dos Reis Magos”, essa passagem da Escritura Sagrada é fonte de inspiração para as mais variadas manifestações nas letras e nas artes, contribuindo para o
  19. 19. 28 desenvolvimento de tradições populares as mais diversas (SILVA, 2006, p.11). E através do inscrito bíblico a cristandade encontra inspiração para suaadoração ao menino Jesus, personagem central da fé cristã. Fato que motivou aIgreja Católica a se interessar mais por este relato bíblico de poucas informações erealizar especulações sobre os magos, como quantidade e seus nomes. Como nosfaz ver Torres, Cavalcante (2008): A propósito, o título de Reis, atribuído aos Magos do Oriente, foi devido a Cesário [São Cesário], Bispo de Arles, França, no século VI. No século seguinte, o Papa Leão I assegurou, em seus “Sermões” sobre a celebração da Epifania, que os Reis Magos eram em número de três. Todavia, seus nomes somente mais tarde foram estabelecidos (p.200). A Folia de Reis é uma festa de origem portuguesa, de características não sóreligiosa, mas também festiva, onde a “Igreja” e seus fiéis buscam reviver omomento de visitação e entrega de donativos ao recém nascido. A esse respeitoSilva (2006) ainda nos esclarece que: As origens das Folias de Reis são portuguesas e datam de 1323. A jornada dos reis Magos do Oriente Baltazar, Melchior e Gaspar – está presente no evangelho de Mateus e relata que os magos “partiram de suas terras guiados pela luz de uma estrela resplandecente, chegaram à gruta, em Belém, na Judéia, para adorar o filho de Deus que havia nascido, ofertando-lhe régios presentes: Ouro, Incenso e Mirra” (p.13). A adoração dos Magos se incorporou em manifestações da cultura popular,saindo das fronteiras de Portugal e perpetuando-se por vários lugares. Nessemomento a “Igreja” incorporou o roteiro dos Reis Magos, fazendo deste um dosprincipais temas para dramatização e instrumento de ensino e propagação da fécristã. Como nos mostra Torres, Cavalcante (2008): As tradições populares do ciclo natalino eram comuns em toda a Europa Cristã, em países como França, Itália, Alemanha, Portugal e Espanha. (...) Representações de rituais litúrgicos relativos aos Magos, que, a princípio, eram realizados no interior das igrejas, foram, pouco a pouco, popularizando-se, transportados para espaços abertos - praças e ruas. Assim surgiram os cortejos, vinculados aos templos religiosos das cidades, que encenavam a temática dos Magos, bem como grupos peditórios, no âmbito dos povoados rurais que, de casa em casa, levavam a mensagem do nascimento de Jesus Cristo. Atualmente, alguns países europeus ainda mantêm essas tradições milenares (p.200).
  20. 20. 29 O Reisado e conhecido como um espetáculo popular com danças, músicas epersonagens diversos em que se comemora o natal e os reis magos, cuja ribalta é apraça pública, a rua. Onde toda a população tem a oportunidade de olhar eacompanhar o cortejo. E sobre esta manifestação popular, Passarelli (2003) vemdefinir o Reisado como: (...) são as manifestações folclóricas natalinas, coreográfico-musicais, baseadas direta ou indiretamente nos costumes ibéricos do Ciclo do Natal, tendo ou não preservado o fundo religioso e independente da existência de um entrecho dramático, de peças teatralizadas, figuras de entremeio ou simulacros guerreiros (p.1). No Brasil, essa manifestação popular chega somente anos depois, comcaráter mais religioso do que festivo, sendo introduzida no Brasil colônia pelosportugueses com intuito de educar e catequizar a população que aqui vivia. Comopodemos acompanhar sua trajetória: No período colonial, os colonizadores, em conjunto com os missionários jesuítas que aportaram ao Brasil, vindos com o primeiro Governador Geral Tomé de Souza, em 1559 e em anos seguintes, trouxeram essas tradições da Península Ibérica. Estes utilizavam autos litúrgicos com a temática dos Reis Magos, sob a forma de canto, dança e encenação, no processo de catequese e ensino, tanto dos nativos indígenas como dos próprios colonos portugueses (reinóis) e, posteriormente, dos escravos negros (SILVA, 2006, p.67). Como sabemos, os colonizadores eram católicos e trouxeram suas crençasenraizadas em suas identidades e nas pessoas dos catequistas e jesuítas. Já comrelação a maioria dos colonizados eles não somente tomaram para si essa religiãocomo também a incorporaram em suas manifestações culturais populares, comovemos até hoje através do Reisado e outras tradições. Complementando, Silva(2006) ainda esclarece: O catequista José de Anchieta, considerado por muitos precursor das letras brasileiras, formado na escola de Gil Vicente, compôs, ensaiou e representou sua peça teatral inicial, “Pregação Universal”, reintitulada “Na Festa de Natal”, na Igreja dos Jesuítas, em São Paulo de Piratininga (atual cidade de São Paulo), no Natal de 1561, no Ano Novo e no dia de Reis de 1562. Este é o primeiro registro de um Auto encenado no Brasil que, com adaptações diversas, foi repetido por toda a costa brasileira, em aldeamentos jesuíticos como São Lourenço [Niterói] e São Vicente [São Paulo], Reis Magos [Espírito Santo], entre outros (p.67).
  21. 21. 30 O Reisado logo ganhou espaço em todo o Brasil, sendo visto em váriosestados. “Na segunda década do século XVIII, Nuno Marques Pereira em seucompêndio Narrativo do Peregrino da América, registra a presença de Grupos deReis peditórios na Bahia” (TORRES, CAVALCANTE, 2008, p.201). E ainda sobre aexpansão e variação dessa manifestação Torres e Cavalcante (2008) acrescentam: Tudo indica que, no início da colonização, juntos aos núcleos de povoamentos mais consolidados (Salvador/vilas próximas do Recôncavo, Olinda e, pouco depois Recife, já sob o domínio holandês, Rio de Janeiro/Niterói e São Vicente/São Paulo de Piratininga) moldaram-se as formas iniciais das tradições de Reis no Brasil. Presépios, Lapinhas e Pastoris, seguindo-se de outras representações folclóricas derivadas, Reisados, Rancho de Reis, Terno de Reis (versão baiana), Guerreiros, etc. (p.201). Mudanças ocorreram nessa tradição popular, pois, inicialmente resumia-se aotermo de ciclo natalino e a adoração dos Reis Magos no interior das igrejas. Mas aospoucos devido o fluxo imigratório de colonos vindos do norte de Portugal, essacultura portuguesa misturando-se com os elementos da cultura negra e indígena deuorigem a novos termos e manifestações culturais com traços brasileiros. No entanto,com o surgimento de grupos particulares em alguns países surgiu também “excessode profanização”, o que levou a Igreja reprovar tais posturas e impedir a entradadestes no interior das Igrejas. Na década de 1980, com a vinda do Papa João Paulo II a Santo Domingo (América Central), houve, contudo, uma mudança dessa postura eclesial. A partir daí, a Igreja Católica, através do processo de inculturação, abriu novamente suas portas a essas manifestações populares, reaproximando- se, assim, de seus seguidores, dando novo impulso às Festas dessas tradições de Reis (TORRES, CAVALCANTE, 2008, p.202). A partir de então, essa manifestação voltou ao interior das igrejas ganhandotambém as ruas através dos cortejos. No entanto, ainda hoje ela é realizada nãosomente por cristãos com espírito de adoração, mas também pelo povo em geralcom espírito de diversão, misturando-se assim, sagrado e profano. Sendo conhecidaatualmente como: (...) as Folias/Companhias/Embaixadas de Reis, o Terno de Reis (baiano e sulino), Pastor, Tiração de Reis, o Presépio, as Pastorinhas, os Pastoris, o Bumba-meu-boi do Nordeste brasileiro oriental, o Boi-de-Mamão, o Boi de Reis, o Reis de Bois, o Cavalo-Marinho, a Companhia de Pastores, as Reiadas, Reis de Careta e tantas outras manifestações, cobrindo
  22. 22. 31 praticamente todo o território brasileiro (TORRES, CAVALCANTE, 2008, p.203). As Folias de Reis são conhecidas e realizadas em muitos países, englobandoo Brasil que com sua grandeza territorial comporta não só essa manifestação emseu sentido original como também suas variações, com músicas, personagens etermos diversos. E diante de tantas definições conceituais e da falta de unanimidadeda mesma, Passarelli (2003) afirma: A verdadeira riqueza do folclore brasileiro está na variedade inclassificável, no sincretismo, nos fenômenos de transposição, interpretação e influências folclóricas, nas múltiplas variantes, em toda a criatividade, plasticidade, presença de espírito e dinâmica com que o povo os cria, recria, adapta, extingue, ressuscita (p.1). As festas de comemoração de Reis geralmente acontecem no período de 24de dezembro a 06 de janeiro, sendo mais marcante no dia 06 de janeiro em que secomemora tradicionalmente o Dia de Reis. Quando os participantes dos Reisadosacreditam ser continuadores dos reis magos que vieram do Oriente para visitar omenino Jesus, em Belém, e saem de casa em casa para saudar os seus moradores. (...) o ritual é sempre muito bonito e composto de “etapas” ou “fases”, que podem variar de acordo coma região, mas com poucas alterações: chegada/abrição de portas; saudação aos donos da casa, louvação ao presépio, despedida e, dependendo da manifestação, apresentação cantada/recitada e/ou dançada dos palhaços (e seus congêneres regionais). Podem ainda apresentar “cantos circunstanciais”, com temas diversos. O teor dos versos cantados é normalmente de natureza bíblica (TORRES, CAVALCANTE, 2008, p.206). Como vemos algumas características podem variar de cidade para cidade,mas a essência é a mesma, rememorar a viagem dos Reis Magos, adorar aoMenino Jesus e fazer louvações aos donos das casas onde dançam, Os músicostocam foles, pandeiro, tambor e zabumba, enquanto os dançarinos usam em suacoreografia de corrupios, gingados, galopes e pisa-mansinho. Os personagens sãodiversos, porém os mais comuns são: rei, rainha, três reis magos, secretário, guias econtra guias, mestra, mestre e contramestre, Mateus, palhaço, embaixadores,embaixatrizes, governador, estrela, sol, lua, anjo, índio Peri e sereia.
  23. 23. 32 O Reisado se constitui como uma forma de seus participantes buscarem suaidentidade cultural e ao mesmo tempo preservarem a mesma, transmitindo degeração para geração.
  24. 24. 33 CAPÍTULO III METODOLOGIA Esta pesquisa que tem como tema: “Manifestação cultural popular igarenseentre a tradição e a tradução: Um olhar sobre o reisado” foi efetivada palaabordagem qualitativa de pesquisa, por envolver o contato, a troca de informações ea integração entre pesquisador e pesquisado na busca do conhecimento e dareflexão, sendo capaz de superar os limites das análises meramente quantitativas.3.1 Pesquisa Qualitativa Ao construir a trilha metodológica deste trabalho, optou-se pela pesquisaqualitativa, uma vez que a mesma oferece ao pesquisador, possibilidades decompreensão, interação, aprendizagem ou conhecimento do espaço pesquisado,além de possibilitar uma aproximidade do outro e também do social, trabalhando-seassim as dimensões humanísticas e democráticas, pois segundo Bogdan e Biklen(1982), “a pesquisa qualitativa supõe o contato direto e prolongado do pesquisadorcom o ambiente e a situação que está sendo investigada, via de regra através dotrabalho intensivo de campo” (apud LUDKE e ANDRÉ, 1986, p.11). A este respeito Bogdan e Biklen (1982) ainda nos esclarecem que: A pesquisa qualitativa envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes (apud LUDKE e ANDRÉ, 1986, p.13). Dessa forma, uma das características da pesquisa qualitativa é investigar ossignificados que os envolvidos dão ao assunto pesquisado, levando em conta seucotidiano para melhor compreensão do fato na sociedade.
  25. 25. 343.2 Sujeitos da Pesquisa Os participantes da pesquisa foram 16 pessoas, sendo 02 do sexo masculino,e 14 do sexo feminino, idosas, idôneas, envolvidas no Reisado do distrito em estudo,conhecedoras da origem e do processo de transformação pelo qual este passou eatualmente passa, devido a influências contemporâneas e como a partir daí seorganiza e expressa. É importante colocar que todos moram na zona urbana deIgara.3.3 Lócus da Pesquisa Esta pesquisa foi desenvolvida em Igara, distrito que fica situado a 9 km domunicípio de Senhor do Bonfim. O que justificou essa escolha foi a diversidade demanifestações culturais populares presente no distrito, especificamente o Reisadoque ainda hoje tem mobilizado a população à sua realização.3.4 Instrumentos de Coleta de Dados Para atingir o objetivo proposto: Analisar como os idosos do Reisado seidentificam como integrantes de uma manifestação da cultura popular. E como amemória cultural faz parte desse importante processo. Foram utilizados os seguintesinstrumentos de coleta de dados: a entrevista semi-estruturada e o questionáriofechado.
  26. 26. 353.4.1 A entrevista A entrevista é uma das principais técnicas de trabalho em quase todos ostipos de pesquisa utilizados nas ciências sociais. A qual desempenha importantepapel não apenas nas atividades científicas como em muitas outras atividadeshumanas. A grande vantagem da entrevista sobre outras técnicas é que elapossibilita saber o que as pessoas pensam, suas idéias, crenças, sentimentos,opiniões, maneiras de atuar, conduta ou comportamento do passado, presente efuturo. Como bem salientam Ludke e André (1986): (...) ela permite a captação imediata e corrente da informação desejada, praticamente com qualquer tipo de informante e sobre os variados tópicos. Uma entrevista bem – feita pode permitir o tratamento de assuntos de natureza estritamente pessoal e íntima, assim como temas de natureza complexa e de escolhas nitidamente individuais (p.34). Segundo Barbosa (2000), existem três tipos de entrevista: a estruturada queobedece uma ordem rígida de questões das quais não se pode desviar; a aberta emque há liberdade de percurso, e é constituída apenas por uma questão onde oentrevistado fala livremente; e a semi-estruturada que é mais flexível, pois fica entreesses dois extremos, pois mesmo possuindo questões norteadoras, podem surgiroutras questões durante a entrevista. Por sua vez, a entrevista escolhida para a pesquisa desta temática, é a semi-estruturada, a qual pode ser feita por meio de gravação direta ou anotação, amesma “se desenrola a partir de um esquema básico, porém não aplicadorigidamente, permitindo que o entrevistador faça as necessárias adaptações”(LUDKE E ANDRÉ, 1986, p.34). A partir dessa análise acreditamos que esteinstrumento permitirá maior acesso as informações de relevância à pesquisa. Para a veracidade desse estudo, foi realizada a gravação dos depoimentosdos sujeitos envolvidos diretamente na manifestação cultural do Reisado, com ointuito de registrar integralmente suas falas, assegurando material rico e fidedignopara análise.
  27. 27. 363.4.2 O questionário Outro instrumento utilizado foi o questionário fechado, contando com 07questões com perguntas fechadas. Este instrumento foi aplicado por facilitar traçar operfil dos sujeitos pesquisados e nos possibilitar compreender a realidade dosmesmos dentro do contexto cultural. O questionário é “(....) uma técnica útil paraobtenção de informação acerca do que a pessoa sabe, crê ou espera, sente oudeseja, pretende fazer, faz ou fez, bem como a respeito de suas explicações ourazões para quaisquer das coisas precedentes” (SELLTIZ, 1987 apud GIL, 1991,p.90). Marconi e Lakatos (1996) definem o questionário como “(...) um instrumentode coleta de dados, constituído por uma série ordenada de perguntas, que devemser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador” (p.88). Assim, aopção pelo questionário foi feita por ser uma forma de alcançar respostas com maiorobjetividade e rapidez além de proporcionar uma uniformidade na avaliação dasinformações obtidas, o que, acreditasse ser uma de suas principais qualidades. Diante dos dados oriundos das entrevistas e questionários, utilizamos atécnica de análise de dados e interpretação dos resultados, focalizando asinformações e confrontando-as com o material teórico utilizado neste estudo.
  28. 28. 37 CAPÍTULO IV ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS Esta pesquisa foi realizada com participantes idosos do Reisado, sendoutilizado como instrumento de coleta de dados o questionário fechado e a entrevistasemi-estruturada. A partir desses instrumentos tivemos conhecimento de comoesses idosos se sentem em ser integrantes do Reisado, e a importância da memóriapara a manifestação cultural popular, o que converge para a questão da pesquisa. Para organização deste capítulo, apresentamos os seguintes momentos: operfil dos sujeitos pesquisados do Reisado – formado através da análise dosquestionários; as categorias – os idosos do Reisado, suas identidades e memóriasna manifestação cultural popular, contêm a análise e interpretação geral daentrevista.4.1 O Perfil dos Sujeitos As informações abaixo são resultado da análise dos questionários com oobjetivo de traçar o perfil dos 16 idosos entrevistados.4.1.1 Gênero e faixa etária Com relação ao gênero, 12,5% do total são do sexo masculino e 87,5%feminino. Desta forma, vemos que os participantes da pesquisa, em sua maioria, sãodo sexo feminino. Reforçando concepções e idéias do passado e atualidade, queafirmam ser de responsabilidade da mulher a educação e religião da família/filhos.Como mostra o gráfico.
  29. 29. 38 13% Mas c ulino 87% F eminino Figura 1 Percentual referente ao gênero. A cerca da faixa etária 6,25% têm entre 40 e 50 anos, 18,75% entre 50 e 60anos, e 75% acima de 60 anos. Assim os dados obtidos conforme o gráfico abaixoconfirma que os participantes do Reisado consistem em sua maioria dos sujeitosque estão na faixa etária acima de 60 anos o que nos levou a perceber que porpossuírem mais experiência de vida presenciaram mais Ternos e puderam contribuirmelhor para este trabalho através de sua memória. Veja o gráfico a seguir. 6% 19% 40- 50 anos 50- 60 anos 75% A c ima de 60 anosFigura 2 Percentual referente à faixa etária.
  30. 30. 394.1.2 Estado civil e filhos No aspecto estado civil, 12,5% são solteiros, 50% casados, e 37,5% viúvos.Como podemos observar, 50% dos entrevistados são casados, enquanto o númerode viúvos também é grande e nos leva a entender que estes se constituem nos maisidosos. Como nos mostra o gráfico. 12% 38% S olteiro C as ado V iúvo 50%Figura 3 Percentual referente ao estado civil. Em relação a filhos foi coletado o seguinte: 6,25% não têm filhos, 18,75%possui entre 01 ou 03 filhos, 31,25% entre 03 ou 05 filhos, e 43,75% acima de 05filhos. Observa-se através das respostas do questionário que quase todos os idosospossuem filhos, o que nos mostra que esses idosos têm contribuído parapreservação e transmissão dos Ternos, seja através de seu exemplo e/ou ensino.Veja o gráfico. 6% 19% Não têm filhos 44% 01- 03 filhos 03- 05 filhos A c ima de 05 filhos 31%Figura 4 Percentual referente a filhos.
  31. 31. 404.1.3 Com relação ao nível de escolaridade 25% A nalfabeto A lfabetiz ado 62% 13% E ns ino fundamentalFigura 5 Percentual referente ao nível de escolaridade. Do total de entrevistados 25% são analfabetos, enquanto 12,5% sãoalfabetizados, e 62,5% possuem o ensino fundamental. Podemos então considerar,que os resultados obtidos, com relação ao nível de escolaridade, demonstram umbom resultado, visto que estamos nos referindo a idosos e no passado o ensinopúblico e/ou privado não eram tão abrangentes tanto em nível territorial, financeiro,etc. como possuímos hoje. Como nos mostra o gráfico.4.1.4 Com relação à religião 6% 6% E vangélic o C atólic o, es pírita e pratic ante do c andomblé 50% C atólic o e pratic ante do c andomblé 38% C atólic oFigura 6 Percentual referente à religião.
  32. 32. 41 A religião dos entrevistados é caracterizada a partir dos seguintes dados:6,25% são evangélicos, 6,25% consideram-se católicos, espíritas e praticantes docandomblé, 37,5% se consideram católicos e praticantes do candomblé, e 50% sãocatólicos. Este resultado foi de grande relevância, pois nos possibilitou conhecer osdiferentes grupos de Ternos realizados por essas religiões, como também vermos amaneira que o sincretismo atua no Reisado. Veja o gráfico.4.1.5 Quanto à naturalidade 100% IgaraFigura 7 Percentual referente à naturalidade. Tratando-se de naturalidade 100% dos idosos da pesquisa são naturais deIgara. Ao serem indagados sobre sua naturalidade as respostas foram em suatotalidade, afirmando que são naturais do distrito de Igara e demonstrando orgulhopor serem igarenses. Assim, a naturalidade também foi um fator de granderelevância para nos ajudar a conhecer a história dos Reis nesse distrito, pois osidosos cresceram em um ambiente em que viam e ouviam sobre o Terno. Como nosmostra o gráfico.
  33. 33. 424.2 Síntese dos Dados do Questionário Fechado A análise do questionário nos possibilitou conhecer os sujeitos da pesquisaem seus aspectos sociais, facilitando assim traçarmos o perfil dos idosos doReisado. Os dados obtidos nos revelaram também as condições em que estesidosos vivem. Dentre as muitas informações coletadas, destacamos as seguintes: A maior parte (87,5%) é do sexo feminino e que, também a maioria (75%) temacima de 60 anos. A metade dos entrevistados (50%) é composta de casados, enquanto 43,75%possuem acima de 05 filhos. Tratando-se de nível de escolaridade, é bom, pois 62,5% dos idosos possuemensino fundamental, com relação a religião é de predominância católica, onde 50%são católicos e 43,75% além de terem outra religião também se consideramcatólicos nos permitindo ver a presença do sincretismo. A cerca de naturalidade, 100% das pessoas entrevistadas são do distrito deIgara. Baseando-se nos dados acima, podemos afirmar que os sujeitos envolvidoscom o Reisado, são em sua maioria os católicos mais idosos e do sexo feminino.4.3 As Categorias Apresentamos a seguir os resultados das entrevistas que nos mostram comoos idosos do Reisado se identificam como integrantes de uma manifestação dacultura popular. E como a memória cultural faz parte desse importante processo.
  34. 34. 434.3.1 O terno da cigana sai à rua, pra visitar a lapinha de Belém Em relação à definição do Reisado percebemos que 100% dos entrevistadospossuem conceitos pessoais que demonstram sua identificação e carinho com essamanifestação. Eis a fala de alguns idosos: “O Reisado é uma festa que eu gosto muito, que festeja os santos Reis, que faz em 06 de janeiro com as roupas caracterizadas e saem nas ruas com os cânticos” (I4) 1. “É um folclore, uma festa religiosa muito bonita, que fala muito sobre o nascimento de Jesus, o tempo de Jesus” (I1). “O Reisado é coisa boa, vem do nascimento de Cristo, Ele nasceu na manjedoura e os reis foram pra visitá-lo e por isso o Reisado” (I2). “É uma animação dos reis antigos. Uma tradição que já veio dos antepassados” (I6). “Pra mim o Reis é uma coisa muito boa, porque a gente tem aquele divertimento, uma coisa que serve pra gente, pra se divertir, e uma coisa também que já ficou feita pra gente já ter aquilo pra participar, é uma coisa que é já do começo do mundo já veio isso pra gente ter um divertimento” (I11). As respostas apresentadas nos mostram o sentimento de pertencimento dosparticipantes do Reisado, bem como o conhecimento dos mesmos em relação àorigem dessa manifestação. Como nos faz ver Cascudo (2002): Reisado. É denominação erudita para os grupos que cantam e dançam na véspera e dia de Reis (6 de janeiro). (...) O auto popular profano-religioso, pertencente ao ciclo natalino, é formado por grupos de músicos, cantadores e dançadores que vão de porta em porta anunciar a chegada do Messias e homenagear os três Reis Magos. O Reisado é conhecido também com os nomes de Reis, Folia de Reis, Boi de Reis, e o enredoé sempre a Natividade, os Reis Magos e os pastores a caminho de Belém (p.581). O Reisado é comemorado no dia 06 de janeiro, quando a população em suamaioria religiosa une-se para festejar os Reis. Como nos mostra Cascudo (2002) o1 Utilizaremos a letra I seguido de número atribuído ao idoso entrevistado, seguido do algarismoarábico (1, 2, 3...).
  35. 35. 44Terno de Reis acontece “geralmente entre 20 de dezembro e 6 de janeiro,comemorando o nascimento de Cristo e cantando em louvor do Deus Menino”(p.675). Em Igara as comemorações iniciavam-se no dia 06 de dezembro e iam até06 de janeiro, quando o cortejo maior acontecia. Porém, hoje a festa de Reis nãoacontece mais em todo esse período, com o tempo ele se perdeu um pouco sendocelebrado somente uma vez que geralmente acontece no dia 06 de janeiro (Dia deReis), ou então em qualquer outro dia deste mês, mas sempre após o dia 06. Em Igara, apesar de o Reisado ser praticado por muitos, o ano em que foirealizado pela primeira vez neste distrito ainda é desconhecido, onde nenhum dosidosos soube nos falar a data de seu surgimento. Sobre sua origem no distrito deIgara, somente alguns entrevistados (os mais idosos), tem conhecimento e puderamnos dar essa informação. Como mostram essas falas: “O povo antigo armaram as lapinhas nas casas e começaram a cantar nas casas. Cantavam nas lapinhas durante 30 dias e depois faziam o Reis no dia 06 de janeiro, cantando, aplaudindo o nascimento de Cristo. Não sei lhe dizer quando começou, porque quando eu me entendi já cresci cantando os Reis por que eu já tenho 76 anos então tem uns 100 anos, porque o povo foi descobrindo e cantando” (I2). “A gente começou assim, a gente fazia as lapinhas nas casas, se combinava quem fazia as lapinhas as moças e rapazes, e no dia 06 de janeiro fazia o terno. Arrumava as lapinhas dia 06 de dezembro e ia até 06 de janeiro, cantava o mês todinho, no natal, e no dia 07 de janeiro desarmava as lapinhas” (I4). “Começou com as mulheres mais antigas a Zulmira, Ambrosina, Alvina, Ana Ricardina minha bisavó, faziam uma lapinha em dezembro comemorando o nascimento do Deus Menino, aí elas terminavam em janeiro e formavam o Reis em 06 de janeiro para comemorar, começar o ano com a festa dos Reis, chamava-se terno. Elas procuravam as pessoas e faziam a festa, e saiam na rua e iam comemorar na porta da igreja louvando as doutrinas delas. Depois da igreja voltavam cantando na rua, muita gente acompanhava com as velas e lanternas acesas” (I6). “A primeira que botou o Reisado eu não cheguei a conhecer mais ouvi falar que foi uma Ambrosina, depois da Ambrosina conheci a minha avó Dona Neném, minha avó botava Reis aí eu ajudava ela. Começou assim, armavam as lapinhas no final de novembro e a gente passava o mês de dezembro todinho cantando, toda a noite a gente reunia as amigas e ia cantar as lapinhas, em toda a casa que tinha lapinha. Em janeiro no dia 06 tinha o Reis e da casa de cada organizador saía um, no dia 07 de janeiro elas desarmavam as lapinhas” (I7). Percebemos em todos os depoimentos que as lapinhas foram citadasconstituindo-se como elemento histórico e fundamental para o Reisado. Como
  36. 36. 45vemos em Cascudo (2002) “O Dia de Reis marca, especialmente no norte, o final dociclo do Natal, terminando as Lapinhas e os Pastoris com a “queima”, e os autostradicionais, a Folia de Reis, (...), exibem-se pela última vez” (p.580). Tal relato nosmostra a semelhança desta com a que era realizada em Igara, visto que ambasmarcam o início do ciclo natalino com adoração ao Deus Menino e aos Reis Magos,encerrando esse período com o Reisado no dia de Reis (06 de janeiro). Notamos que há unanimidade nas falas dos idosos no que se refere à origemdos Ternos através das lapinhas, bem como revelando a Zulmira, Ambrosina, Alvina,Ana Ricardina, como pioneiras dessa manifestação no distrito. O Reisado de Igara émuito antigo, onde a maioria de seus componentes já faleceu e os demais nãosabem exatamente o ano em que tudo começou, mas mesmo assim, essamanifestação tem resistido e continua a ser realizada baseando-se na memória dosmais velhos que contém os registros da festa de Reis como sua origem,personagens, músicas, etc.4.3.2 Deus vos salve casa santa, onde Deus fez a morada Tradicionalmente, essa manifestação acontece nas ruas de Igara, ondeenvolve toda a comunidade, que em sua maioria é de católicos e praticantes docandomblé nessa comemoração religiosa de origem cristã. O percurso realizadopelo cortejo do Reisado difere entre religiões, mas tem um ponto em comum, asaudação na porta da igreja católica, fator que mostra claramente o sincretismo. “Osrituais religiosos partem da porta das igrejas e locais sagrados, pretendem ordenar omundo de acordo com os valores que são ali representados com os mais básicos”(RIBEIRO, 1994, p.136). Vejamos na fala do idoso 5-católico e na fala do idoso 9-católico e praticante do candomblé como acontece o cortejo desses grupos. “O cortejo acontece nas ruas do distrito principalmente as mais iluminadas, sai da casa da pessoa que organiza, ou de um salão onde ensaia, passa na igreja e salda na porta com o canto: Deus vos salve casa santa, onde Deus fez a morada... E da igreja a gente saí pelas ruas cantando, aí a gente arruma uma casa para cantar no final, e lá com as portas fechadas a gente canta: Ô senhor dono da casa, abre a porta queremos entrar, nós
  37. 37. 46 viemos de tão longe somente para saldar... Depois é que o dono abre as portas e a gente canta: O dono da casa ele é bom ele dá, garrafa de vinho doce de araçá... Todos entram na casa e o dono dá um lanche, refrigerante, suco. A gente é que escolhe a casa e lá termina” (I5). “Nós, nós somos assim, porque todo o ano a gente vai para um lugar diferente, então nós saímos de lá da casa dela da organizadora, vamos para a porta da igreja lá a gente canta, aí da igreja a gente pega o ônibus e vai para o lugar que a gente marcou o Reis. Nós já fomos para a Tapuia, para a Barriga Mole, para a Andorinha, para o Sítio, para o Valente, para o Clube do Gildo aqui na Igara, e outros lugares. E a gente já vai direto para uma casa, não vai de casa em casa não. A gente sai da casa aqui, e se for perto a gente vai a pé, se não a gente marca com todos, pega um ônibus e todo mundo trajado, vestido aí vai. Chega lá canta o Reis na porta e a casa já está preparada para a gente quando chegar, aí a gente entra, canta, dança a noite toda” (I9). Cascudo (2002) aponta em seus estudos, sobre o Terno de Reis, o roteiroque este realiza: (...) percorrem as ruas das cidades, os sítios e fazendas (...). Faz parte desse roteiro a visita às casas, de acordo com um andamento previamente determinado, que consta de chegada, pedido de licença (para entrar), agradecimento (pela esmola ou comida recebida) e despedida (p.675). Desta forma, notamos que o Terno citado por Cascudo (2002) também diferedos citados pelos idosos 5 e 9 pois enquanto estes dois seguem o percurso somenteem parte, o que Cascudo (2002) nos traz abrange o roteiro de ambos. Embora ospercursos desses grupos sejam diferentes, eles acontecem anualmente com amesma finalidade, festejar os Santos Reis. Sobre os instrumentos musicaisutilizados nessa manifestação Cascudo (2002) nos diz: O terno de Reis, também chamado Folia de Reis, Santos Reis, é acompanhado por sanfona, rabeca, caixa. No Nordeste incluem-se os pífaros e o triângulo. No Rio Grande do Sul, ao som da viola de dez ou doze cordas, da rabeca, da gaita (acordeão) e do tambor, (...) (p. 675). Assim, notamos que os instrumentos usados variam de região para região. Eem Igara não é diferente os músicos tocam os instrumentos que são típicos denossa terra como: timbau, caixa, tambor, pandeiro, violão, sanfona, triângulo,zabumba, reque-reque, entre outros. As músicas cantadas são diversas falam daciganinha, da estrela, de Jesus, dos reis magos, da casa de Deus, do sertanejo, etc.Através das entrevistas com os idosos, notamos que dos 16 entrevistados apenasum ainda guarda algumas músicas escritas, sendo que os demais têm as músicassomente em sua memória.
  38. 38. 47 Notamos também a utilização de algumas músicas diferentes entre os gruposde Ternos, mas para o momento de saída, saudação na igreja, abrição de porta sãoas mesmas. Para cada momento no Reisado há uma música específica, para sair dacasa da pessoa que organiza canta: O terno da cigana sai à rua, pra visitar a lapinhade Belém, o pessoal na janela está dizendo, olha o terno da cigana como vem... Aochegar à porta da igreja canta: Deus vos salve casa santa, onde Deus fez a morada,entre o cálice e a água benta e a hóstia consagrada... Ao sair da porta da igreja: Éuma hora vamo-nos embora, é o terno da cigana que já vai ganhar vitória... Na rua cantam-se várias músicas como: Acorda, acorda sertanejo vem ver oclarão da lua é o terno da cigana que saiu hoje na rua... Olha o clarão da novaestrela na estrada de Belém, vamos adorar o Deus Menino que nasceu para o nossobem... Desperta povo que habita desperta povo que está agora aurora desperta porum nobre brilhar... Estou cansada de andar na areia, estou cansada de na areiaandar a procura de uma cigana que saiu a passear... Ao chegar a casa onde éfinalizado o terno com as portas fechadas canta-se: Meu senhor dono da casa abrea porta queremos entrar, nós viemos de tão longe somente para saldar... Depois dea porta estar aberta segue a música: Me abre essa porta ascende o candeeiro, odono da casa tem muito dinheiro, o dono da casa ele é bom ele dá garrafa de vinhoe doce de araçá... No interior da casa cantam-se outras músicas, e na saída parafinalizar tem a música: No dia seis de janeiro que as ciganas vão cantar, bate palmae pede bis, já foi noite de natal... Como vemos a música é um elemento sempre presente nos Reis, e defundamental importância nas quais cada personagem encontra sua homenagem ecada participante sua história. Como salienta Ribeiro (1994) “A expressividadepopular é sobretudo social e criadora de igualdade: o canto manifesta a fala grupal,cheia de poesia e alegria, em contraste com a comunicação cotidiana, em que se éobrigado a ouvir calado e obedientemente” (p.135). Sobre a composição das músicas, trazemos o idoso 4 que representa 15 dosentrevistados, e o idoso 6 que foi o único que soube falar sobre quem as compôs.
  39. 39. 48 “A gente não sabe quem inventou as músicas, porque quando a gente se entendeu já existiam e cantavam aqueles versos” (I4). “Quem inventava as músicas, era a Anália que hoje vive em São Paulo irmã da Paulina, a Paulina que já faleceu, e a Definha que também já faleceu” (I6). O Reisado que é uma manifestação com muitas músicas é formado porpessoas de toda a faixa etária enquadrando nesta os seus personagens. Assim, ascrianças saem de três Marias e de anjos; as moças de lua, estrela, bailarinas ecamponesas; os rapazes de sol, três reis magos, pastores e ciganos; e os adultosem geral saem de ciganas, cigana do Egito, cigana mineira, cigana natural, rainha,rei e dançarinas. Esses são os personagens mais comuns e em sua maioria citadospor católicos que demonstraram serem mais conservadores, porém na fala do idoso9 que não somente é católico como também é praticante do candomblé notamos apresença de figuras diferentes e a abertura para inovações, visando o crescimentoda manifestação. Eis a fala do idoso: “Tem as dançarinas, tem a Maria Bonita, o Lampião, as ciganas, os cangaceiros, a lua, a estrela, o sol, os anjos, o rei, a rainha. A gente quanto mais figuras quer colocar para crescer mais a gente coloca e o Reis cresce mais ainda, aí também vai do gosto da gente, né? Se às vezes a gente quer que cresça mais o Reis, a gente vai modificando mais coisa multiplicando os personagens” (I9). As figuras são variadas, e a disposição dos participantes também varia deReisado para Reisado. Em todas as representações os lugares de destaque sãodestinados ao rei, a rainha, ao sol, a lua e a estrela. As roupas dos participantes sãoricamente enfeitadas com babados de papel crepom, flores, espelhos e muita areiaprateada.4.3.3 Meu senhor dono da casa abre a porta queremos entrar No que se refere à sexta pergunta, “Desde quando você participa doReisado? De quando você começou a participar do reisado até hoje, houve algumamudança no mesmo? E o que contribuiu para essa mudança?” Destacamos doisgrupos que são representados com as falas a seguir:
  40. 40. 49 “Foi o terno que foi para Bonfim e eu participei, foi em 1966 foi o primeiro, o ano em que eu me casei. Houve mudança sim, nos personagens que eram moças e rapazes e hoje são mais crianças e adolescentes porque os outros não querem mais. Acho que é o tempo hoje, pois eles pensam de outro jeito e a televisão contribui para isso, o povo era mais são, santo. Hoje o povo não quer mais, misturam o santo com profano, muitos vão para mangar” (I1). E em outro momento, como forma de desabafo o idoso 1 torna a dizer: “É hoje está tudo diferente, antes era só cristã, muito bonito, sagrado. Mas agora também estão fazendo outros, o do (...) e o da (...) e saem aí, mas é diferente não é como eles fazem, eles colocam soldados e os personagens que não tem, e misturam as coisas o candomblé no meio, mas não pode não é assim” (I1). “Desde criança. Agora a gente já não faz como era antes, precisa de material o povo não quer mexer no bolso, quer ir atrás do prefeito, antes a gente colocava a mão no bolso só precisava dizer como era a roupa. A falta de participação. Agora a gente só chama as pessoas quando sai da igreja e na rua improvisado sem as roupas de terno, forma um grupo e vai a casa onde tem um presépio e canta. Não sei por que não vão, a gente chama e colocam dificuldades são adultos, crianças. E também precisamos de pessoas de responsabilidade para fazer, só vão quando é assim com roupa comum. E os jovens não valorizam os conhecimentos do passado, e agora com tanto conhecimento é internet, televisão aí eles acham que são os donos da verdade” (I5). “Eu era nova, eu estou com 79 anos e já vou fazer 80 anos agora em outubro e desde quando eu era moça já participava. Era de 12 anos acima que a gente participava, era uma velha que colocava as lapinhas e chamava a gente e a gente participava. Não tem mudança, a mesma coisa. Vamos para as caatingas, entra nas casas” (I3). “Eu comecei a participar com uns 40 anos e quando eu era mais nova eu não ligava muito não, mas depois que eu fiquei assim mais velha foi que eu me influí, mas quando eu era mais nova eu não me influí muito não. Eu acho a mesma coisa, mesmo jeito, para mim né, o mesmo jeitinho não tem diferença nenhuma” (I9). Os idosos 1 e 5 representam o primeiro grupo que mostra tristeza eindignação ao afirmar que o Reisado sofreu mudanças ao longo dos anos.Apontando também os fatores que influenciaram tais mudanças percebemos que aparticipação das pessoas nessa manifestação popular vem diminuindo a cada ano,mas um grupo pequeno de participantes insiste em continuar essa tradição que paraeles é muito forte e esforçam-se para fazer sua continuidade. Percebemos também,que esse grupo composto de católicos e evangélicos sabendo que o reisado foiintroduzido no Brasil através do catolicismo e que por este sempre foi realizado, nãoconsidera como legítimo o Reisado que é feito por católicos, espíritas e praticantes
  41. 41. 50do candomblé. Visto que o grupo um considera essa manifestação como sua, e osdemais grupos onde a presença do sincretismo é mais forte como sendo invasores. O segundo grupo representado pelos idosos 3 e 9 é formado por católicos,espíritas e praticantes do candomblé que novamente nos mostra a presença dosincretismo, pois sendo o Reisado uma manifestação católica já é realizada poroutras religiões. Diferente do grupo anterior, este não atribui nenhuma mudança aoReisado, e não age com indiferença com o Reisado realizado por outro gruporeligioso, mostrando-se mais forte, conquistando a cada ano um maior número departicipantes, pois hoje já são dois grupos de Reisados diferentes que saem as ruasde Igara dirigidos apenas por pessoas deste segundo grupo. Vale salientar que os componentes do segundo grupo não atribuem mudançaao Reisado, no entanto, sua própria religião mudou, pois sendo estes praticantes docandomblé, não realizavam a festa de Reis, mas nos últimos anos eles incorporaramessa manifestação do catolicismo de forma que já sentem a mesma como parte desua identidade. Sobre esse processo de sincretismo do candomblé Ortiz (2006) vemnos esclarecer: O candomblé tende a manter uma tradição fixada nos tempos passados. Esta dimensão de preservação da tradição se manifesta na sua estrutura de culto assim como na ênfase que se dá à transmissão oral do conhecimento. (...) Não se pode, porém, pensar o processo de rememorização como sendo estático, a tradição nunca é mantida integralmente. O estudo dos cultos afro-brasileiros mostra a existência dos fenômenos de aculturação e sincretismo que indicam precisamente o aspecto das mutações culturais. (...) A memória coletiva africana retém da hagiografia católica aqueles elementos que têm alguma analogia com os orixás sincretizados. (...) Tem-se assim que a memória coletiva se preserva inclusive no momento em que dinamicamente o sincretismo se estabelece (p.132-133). Pode-se dizer que o sincretismo acontece não somente no candomblé comotambém nas demais religiões, quando percebemos a presença da festa, da reza, ofestivo e o religioso manifestando-se na alma humana. Podemos dizer também queo catolicismo é predominante no reisado, pois mesmo com aparenteenfraquecimento dos Reis dirigidos por o primeiro grupo formado por católicos, oscomponentes do segundo grupo além de se declararem como tendo outra religiãotambém se declaram católicos, constituindo assim a maioria.

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