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UFSJ – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI
REITOR
Valéria Heloísa Kemp
VICE-REITORA
Sérgio Augusto Araújo da Gama Cerqueira
PRÓ-REITOR DE EXTENSÃO E ASSUNTOS COMUNITÁRIOS
Prof. Paulo Henrique Caetano
CHEFE DE DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA
E MÉTODOS
Prof. Dr. Antônio Rogério Picoli
COORDENADOR DO CURSO DE
FILOSOFIA
Prof. Dr. Fábio Barros Silva
COORDENAÇÃO GERAL DO PROJETO
Prof. Drª. Glória Maria Ferreira Ribeiro (DFIME)
EQUIPE DE EXECUÇÃO
Daniela da Conceição Diniz
Débora Cristina Resende
Etienny Natya Fonseca F Trindade
Isabela Alline Oliveira
Lucas Bertolino dos Santos
Nilson Anderson Lemos
EQUIPE DE APOIO
Fernanda Senna
Monique Kelly da Cunha
AGRADECIMENTOS
Balbino de Souza Rezende
José Omar Junqueira
Juvenal José de Sousa
Lazarino Francisco de Sousa
Luiz de Ávila e Silva
Maria Aparecida Sales Ribeiro
Maria José Ribeiro
Nagibe Francisco Murad
Raul Nogueira do Nascimento
Sebastião Vicente da Silva
A oralidade é a ferramenta,
que, culturas no mundo inteiro e
em todas as épocas, utilizam para
exprimir eventos reais ou fictícios em
palavras e sons. A denominação de
Literatura oral é de 1881, tendo sido
criada por Paul Sébillot com a sua Littérature Oral de Ia Haute-Bretagne
embora a definição concreta tenha
ocorrido muito depois. “La littérature
orale comprend ce qui, pour Le peuple qui net lit pás, remplace les productions litéraires”.*
	
Essa literatura são as estórias
contadas nas fazendas e cidades por
peões e por gente comum, são as cantigas de roda ou de acalanto, músicas
de domínio popular, poemas, lendas,
jogos de adivinhações, entre outros
generos. Contadas e recontadas de
geração em geração, essas narrativas
preservam a história de um povo, seus
costumes, suas crenças, seus conhecimentos. Segundo o professor Luís da
Câmara Cascudo, as narrativas tradicionais não têm somente a finalidade
de distrair ou fazer dormir as crianças, seu principal objetivo é passar os
ensinamentos morais e religiosos do
grupo. Mas também são resguardados
outros aspectos da cultura popular
como cura a partir de plantas medicinais, hábitos alimentares, técnicas de
plantio entre outros saberes e fazeres.
	
O importante é que esse tipo
de literatura ensina de forma diferente, pois quem aprende não aprende

de forma passiva, as expressões da literatura oral são estimulam o raciocínio
e a curiosidade, ela recebe o ensinamento e reage a ele, dialoga com ele
modificando-o. O conhecimento passado pela literatura oral é do tipo mais
imediato; absorvido rapidamente são
os primeiros ensinamentos recebidos
(através de pessoas mais próximas),
que se usa para dar sentido ao mundo.
	
Suas características são a impessoalidade e a atemporalidade isso,
quer dizer que, nas obras orais não conseguimos saber definidamente quem
as criou e em que época. Dessa forma,
elas se perpetuam no tempo, mas nunca da mesma forma. Muito mais que
só lembrar-se do passado, a literatura
oral quando contada é comemorada,
revivida sempre de forma diferente, de
modo que, quem as ouve pode reviver
o passado no presente e refletir sobre
sua ação futura.
	
Cascudo indica que existe em
toda e qualquer sociedade duas formas
de cultura paralelas: a oficial e a nãooficial. A oficial é regular que acontece sempre em um lugar próprio (em
nosso tempo são mais comuns nas
escolas) ou ensinadas pelos sacerdotes
e conta sempre com certo tipo de autoridade em relação a quem aprende, a
não-oficial seria justamente a literatura
oral.
	
Com isso faz-se extremamente
necessário inserirmos a literatura oral
no ambiente escolar, não no intuito de

* Linguagem e cultura: múltiplos olhares - Biblioteca Digital.

transformá-la em oficial ou instituir a escola como o local de morada desse tipo
de literatura, mas despertar no educando
um sentimento de reconhecimento de
sua própria cultura, fazer se afirmarem
através dos costumes de seu povo e se
enxergarem como agentes construtores e
constituidores da realidade. Além disso,
os contos e estórias populares, cantigas,
charadas, entre outros são ótimas ferramentas para a transmissão do conteúdo,
por seu caráter lúdico e interdisciplinar.

Nilson Anderson Lemos
SUMÁRIO
6

EDITORIAL

8

APRESENTAÇÃO

14

BIOGRAFIA

19

NARRATIVAS

32

INTERDISCIPLINARIDADE

37

JOGOS E BRINCADEIRAS

41

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
EDITORIAL
Existência, Memória e Patrimônio
	
A memória deve ser antes a dimensão
de celebração de comemoração da própria existência. Isto porque para podermos preservar
o patrimônio cultural de um povo é preciso, antes de mais nada preservar a própria existência
humana, a própria dinâmica de manifestação da
vida.
	
“O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do
mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre
mudando. Afinam ou desafinam” ( Rosa, Guimarães.
Grande Sertão: Veredas”).

	
Existência que está sempre se fazendo,
se retomando desde o jogo do tempo que a
constitui. Tempo que escreve a história na qual
os destinos se cruzam, se entrecruzam e se realizam. A cada época dessa história a existência
se retoma, se reapropria de si mesma, de seu
ser, de um modo novo e sempre velho. Velho
porque são sempre as mesmas possibilidades de
ser e novo porque a existência sempre descobre
um outro modo de se apropriar de si mesma,
de interpretar-se. Deste modo, cada uma época
da história se mostra como um modo possível

de elaborar a questão sobre a existência do homem.
Existência compreendida desde a relação íntima e indissociável do homem com o seu mundo – mundo
que se revela no comércio cotidiano com as coisas e
com os outros. 		
A cidade se mostra como a
trama concreta na qual esse comércio com o mundo
se deixa ver, tornando-o tangível. Trama que sempre
de novo se renova, se utilizando sempre dos mesmos
fios.
	
Sendo assim,todo trabalho que vise a
preservação do patrimonio cultural de um povo
deve, antes de mais nada, viabilizar condições para
que essa existência se mantenha. Por isso, em nossas reflexões sobre a Educação Patrimonial, estamos
tendo sempre como elemento norteador o próprio
cultivo da existência humana, ao propormos ações
que celebrem (lembrem em conjunto, que co-memorem) a nossa condição que é a de estarmos sempre
“afinando e desafinando”. As nossas cartilhas são
uma tentativa de celebração desse nosso modo de
ser cotidiano – do qual faz parte o ato de comer, de
celebrar o divino, de contar estórias. É celebrar isso
é deixar que as pessoas brilhem porque “gente é feita
para brilhar” – seja o mediante o suor no corpo do
trabalhador, seja no brilho nos olhos da criança ao
perceber o caráter extraordinário do mundo, que
faz com que ele possa sempre ser reinventado (reinventado pelas brincadeiras de fundo de quintal, pelo
trabalho dos homens, pelo esforço e empenho dos
meus iestimáveis bolsistas de extensão. Gente é para
brilhar!

Glória Ribeiro

“O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do mundo, é isto: que
as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas – mas
que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam”
(Rosa,Guimarães. Grande Sertão: Veredas”)

6
“Quando eu estiver velho, gostaria de ter no corredor da minha casa
Um mapa de Berlim com legenda
Pontos azuis designariam as ruas onde morei
Pontos amarelos, os lugares onde moravam minhas Namoradas
Triângulos marrons, os túmulos
nos cemitérios de Berlim onde jazem os que foram
próximos a mim
E linhas pretas redesenhariam os caminhos
no Zoológico ou no Tiergarten
que percorri conversando com as
garotas
E flechas de todas as cores apontariam os
lugares nos arredores
onde repensava as semanas berlinenses
E muitos quadrados vermelhos marcariam
os aposentos
Do amor da mais baixa espécie ou do
amor mais abrigado do vento”.
				Walter Benjamin, “Fragmento”, 1932

“Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paiçandu deixem meu sexo
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a Liberdade.
Saudade...
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus
Adeus”.
(Mario de Andrade, ao escrever sua Lira Paulistana (1944)

7
APRESENTAÇÃO
	 Em
diferentes contextos sociais e em distintas
épocas históricas o
termo cultura foi, e
vem sendo utilizado
de diferentes formas, para falar dos
hábitos de vida do
homem, entretanto
seu uso indistintamente carrega uma
concepção ideológica de seu significado.
	 Dentre
essas concepções de
cultura
podemos
perceber que muitas
pessoas associam a
cultura a algo que
se adquire ou que se
pode obter. O perigo
desse tipo de compreensão e de que
a cultura acabe assumindo um caráter
de mercadoria na
sociedade. Quando
se pensa a cultura
desde essa concepção, ela deixa de
ser associada aos
hábitos de vida do
homem que lhe são
naturais, e passa a
ser associada à algo
que o homem pode
adquirir como um
simples conjunto de
bens.
	
Adquirir cultura significa o mesmo
que poder possuir
um carro, uma casa,
ou ter uma rica biblioteca. Logo aque-

8

les que não podem
ter capital financeiro
o suficiente para enriquecer seu legado
cultural são tidos
como
ignorantes,
pessoas sem cultura,
que estão separadas
das outras na sociedade por essa condição. Daí surge os
desníveis de cultura,
que são fruto da divisão cultural entre
as pessoas. Sobre
isso Alfredo Bosi
em seu livro Cultura
Brasileira: tradição/
contradição nos diz:
“Quer dizer que as pessoas
que tem cultura devem exibir
certos tipos de comportamento, e devem ser poupadas de certas ações. Logo
aprece a divisão, os que tem
cultura de um lado, e os que
não tem cultura de outro. A
cultura dá a aureola da diferença’’. (BOSI, Alfredo,
1987, pg. 35).

	Considerar
a cultura como um
conjunto de coisas
que se pode possuir
é a principal característica da chamada cultura reificada,
pois a cultura deixa
de ser entendida
como um processo
que segue a linha
sutil da existência
humana, para ter
seu significado concebido fora dessas
vivências humanas.
Logo o que antes se

remetia as relações
sociais entre os homens passa a ser
associado a uma
relação entre homens e coisas. Assim sendo, o que
era uma ideia fruto
da relação entre
homem e a sociedade, passa a ser
apenas uma relação
entre homens e objetos. E a cultura que
era a pura e simples
expressão da minha
condição
humana,
passa a ser vista
como um objeto fora
de mim.
“Na sociedade de massa
as pessoas sempre estão
diante de objetos da tecnologia mesmo que não sejam
a obras de arte. O fato delas
não participarem da construção do objeto, porque
são obra de uma indústria
especializada, apesar delas comprarem vender e,
estabelecer relação de uso,
elas não compreendem seu
mecanismo interno, alienação. Eu possuo um objeto
mais não compreendo como
ele funciona”. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 37).

	
Podemos ver
expressa em várias
esferas da sociedade
essa concepção, pois
a cultura está sempre ligada ao que
tem que ser visto,
apreciado,
preservado e mantido tal
como é sem que se
leve em consider-

ação a relação direta com o cotidiano,
porque nesse tipo de
compreensão do que
seja a cultura, as
coisas e ações do cotidiano não são consideradas bens culturais.Cultura como
ação e trabalho.
	 Repensar
o
ideário de cultura difundido em nossa sociedade é essencial
para que possamos
falar de uma sociedade democrática,
e
assumir
dessa
forma uma prática
coerente. Para isso
nossos esforços devem
direcionar-se
em desconstruir, em
nosso espírito e na
sociedade, a ideia de
cultura como objeto.
	
É necessário
repensarmos
essa
terminação de cultura como mercadoria, pois ela é segregadora, e faz com
que existam níveis
de cultura e distinção entre aqueles
que possuem cultura e os outros que
dela são destituídos. Por isso, ao repensarmos a noção
de cultura desde a
própria condição da
existência humana,
estaremos indiretamente contribuindo
para repensar a distinção de classes.
Isto porque desde
essa
concepção
de cultura como
mercadoria, teríamos que somente
aqueles que possuem bens culturais,
seriam
cultos;enquanto
que aqueles que
não possuem condições financeiras
para
possuí-los,
não têm cultura.
	 Para
que
torne
possível
redimensionar a
noção de cultura
é necessário considerar todos os
momentos do processo produtivo e
não somente ao
produto (o bem)
cultural que é seu
resultado. A concepção que nos
guia em nossas
atividades extensionistas, é aquela que desloca a
ideia de cultura
como mercadoria,
para uma concepção de cultura que
diga respeito diretamente à relação
que o homem estabelece com o
meio onde vive
– meio no qual
ele estabelece as
relações
sociais
que propriamente
o constitui.
	
Portanto a
obra (enquanto o
produto cultural elaborado nas relações
sociais entre homens) é aquela
que exprime exatamente o próprio trabalho enquanto processo e
resultado.
	
Um projeto

de cultura explicito
através das dimensões da memória e
identidade
	
O termo cultura diz respeito de
ao conjunto de saberes, crenças, leis,
costumes e todos os
outros hábitos e modos de vida de um
povo. De origem latina, a palavra cultura
deriva do verbo colo,
significando, “eu cultivo”, referenciando
particularmente, o
cultivo do solo e da
terra, sendo, portanto, o cuidado que se
mantinha com aquilo que se pretendia cultivar. Quando
se pensa em cultura, pensa-se em um
processo que vem
sendo
trabalhado
há muitos anos, há
séculos, que se recebe e se transmite
de geração a geração.
	 Do
mesmo
modo a palavra cultus, diz respeito ao
verbo colo, que traz
em si a determinação
de cultura que nos
interessa, pois nos
remete a importância da memória no
processo de constituição da identidade do individuo. A
cultura é compreendida como o conjunto de técnicas, práticas e valores que se
devem transmitir às
novas gerações. No
uso cotidiano, falamos em memória
nos referindo ao arquivamento de fatos
passados, a “faculdade de reter as
ideias,
impressões

e
conhecimentos
adquiridos anteriormente”. Dessa forma, lembrar é um
fenômeno individual. Porém, podemos compreender a
memória fora de
seu conceito usual,
como um fenômeno
coletivo; a memória
como o fruto da construção coletiva e
submetida a transformações e mudanças constantes.
	
Se a cultura é algo que se
busca transmitir às
novas gerações, e
necessário que tenhamos um projeto,
um caminho a oferecer as “novas gerações”, e isso acontece, na junção do
que foi com o que
é, e o que se pretende ser, da mesma
forma, o ponto de
encontro entre passado, presente e futuro. Por isso, Bosi
nos fala sobre o verbo cultus, não sendo
somente a lembrança do labor presente, mais do conjunto de coisas que
possibilitaram
que
esse labor, se tornasse presente, e de
um projeto implícito
na sua realização. A
respeito disso o historiador Alfredo Bosi
em seu livro Dialética da Colonização
nos diz:
	
Quando os camponeses do Lácio chamavam culta às suas plantações, queriam dizer algo
de cumulativo: o ato em si de
cultivar e o efeito de incontáveis tarefas, o que torna o
particípio cultus, esse nome
que é verbo, uma forma sig-

nificante mais densa e vivida
que a simples nomeação do
labor presente. O ager cultus, a
lavra, o nosso roçado (também
um deverbal), junta a denotação
de trabalho sistemático a, qualidade obtida, e funde-se com
esta no sentimento de quem
fala. Cultus é sinal de que a sociedade que produziu o seu alimento já tem memória. (BOSI,
1992, p.13).

	
Nesse processo
a identidade ganha seu
lugar; pois, da mesma
forma que nos identificamos com um lugar marcado por uma
experiência individual, também acontece
com as experiências
coletivas que ganham
um aspecto marcante
para um determinado
grupo, fazendo com
que indivíduos se identifiquem
e
tenham
coesão a partir de experiências e vivências
comuns.
	 No
dicionário
Aurélio, identidade é
definida como:
	
1. Qualidade de idêntico; 2.
Conjunto de caracteres próprios
e exclusivos de uma pessoa:
nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais, etc.; 3. O aspecto coletivo de um conjunto
de característicos pelas quais
algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido. (FERREIRA, 2004, p.1066).

	
Identidade é aquilo que faz com que
uma coisa seja exatamente aquilo que ela é,
e não seja outra coisa.
Desta forma, a identidade só pode ser concebida em comparação
com o diferente: “eu
sei o que sou à medida
que percebo que sou
diferente, desse ou
daquele outro.

9
Assim também
é possível a construção da identidade de grupo. Isto
acontece
quando
percebo que divido com outras
pessoas a mesma
origem ou os mesmos costumes. É
esse sentimento de
compartilhamento
que faz com que eu
me sinta integrante
daquele grupo.
	
Essa noção
de
identificação
nos remete novamente para a ideia
de cultura como
“cultivo de”, pois eu
cuido e busco manter e preservar aquilo do qual eu faço
parte, onde consigo
me perceber numa
relação de semelhança, no qual eu
me reconheço.
Desenvolvimento
	
A Educação
Patrimonial
Com o processo de
modernização das
cidades, percebese
a
constante
desvalorização
e
desconhecimento em relação ao
patrimônio cultural.
Portanto, desde
que em 1930 foi
criado o Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico
Nacional (IPHAN),
uma nova percepção em relação a
patrimônio,
ampliou
os
instrumentos e meios de
atuação, e estão
diretamente aliados
á criação das instancias estaduais

10

e municipais de
preservação.
	 O
campo
de educação patrimonial no Brasil
tem uma produção
acadêmica
ainda
incipiente, são muitas as publicações
utilizadas em ações
de educação patrimonial - e, em sua
maioria, essas publicações, não levam
em consideração o
aspecto central da
existência humana
– que é o fato de
ela estar num processo contínuo de
realização que só
acaba com a morte.
Dentre os trabalhos
acadêmicos
que
discutem o tema,
a maioria trata de
atividades pontuais
e estão ligadas a
uma análise circunscrita de casos. 	
	
Embora a educação patrimonial
seja
consensualmente considerada
como peça chave
para uma política
pública efetiva de
preservação
do
patrimônio cultural,
ainda é um tema
pouco
estudado,
principalmente se
tratando de práticas institucionais.
	 Dentro
da
temática, a educação patrimonial
pode ser basicamente
entendida
como um processo
durável que busca
levar os indivíduos
a um processo acionado de conhecimento, apropriação
e valorização do
patrimônio cultural,

com o intuito de que
sejam agentes da
preservação. Neste
aspecto, devemos
pensar o patrimônio
de forma ampliada. 	
	
As escolas ao
longo dos tempos
estão tendo sua estrutura depredada,
e
desvalorizada
dia após dia, pelos
seus próprios beneficiários, com isso
acreditamos
que
para a efetivação
da Educação Patrimonial no contexto
escolar
devemos
partir da realidade
dos alunos, possibilitando sua participação nas soluções
dos problemas.
“Chamamos de Educação
Patrimonial o processo
permanente e sistemático
de trabalho educativo, que
tem como ponto de partida
e centro o Patrimônio Cultural com todas as suas
manifestações.”
(GRUNBERG, 2007, p. 02).

	Consideramos a partir do
conceito de educação
patrimonial, que esse tipo
de ação utiliza os
bens culturais como
fonte primária do
conhecimento. Gerando um diálogo
permanente entre
os indivíduos e os
bens culturais. Portanto, o maior desafio é fazer com
que o individuo crie
o hábito de valorizar e preservar o
patrimônio cultural,
pondo em prática
a própria noção de
cidadania. Fazendo
com que as pessoas
possam desenvolv-

er um conhecimento
crítico e uma apropriação consciente de seu
patrimônio. 			
Um
fator
indispensável no processo de
preservação sustentável desses bens culturais
é o fortalecimento do
sentimento de identidade e lugar no espaço
estudado.
	
Uma das maiores
dificuldades encontradas em se estabelecer
um ensino eficiente em
relação a patrimônio é
o complexo relacionamento entre a comunidade e os órgãos de
preservação. O IPHAN
na maioria dos casos é
tachado como um inimigo da sociedade,
um dos principais motivos deste impasse é
o desconhecimento das
pessoas sobre suas metodologias e ações utilizadas por esse órgão do
governo federal. Acredita-se que com a realização de boas práticas
educativas
voltadas
para a comunidade,
esse quadro pode ser
revertido.
	
Apesar da importância do tema retratado,
na
história
nunca houve uma visão
e atuação por parte do
IPHAN e outros órgãos
de preservação patrimonial que colocasse
como política publica
exclusiva visando a educação patrimonial, ou
mesmo como um processo de importância
equivalente ás demais
atividades
essenciais
por eles desempenhadas (tombamento, fiscalização, identificação,
etc.).
Assim,
a
educação
patrimonial vem sendo
tratada
apenas
como
atividade
complementar no
currículo escolar,
que se reflete diretamente no Iphan, e isso ocorre
devido a sua pouca estruturação e
institucionalização
no setor responsável pela educação patrimonial.	
	
Além disso,
a
comunidade
dá ao patrimônio
cultural
pouca
importância
por
não possuir um
entendimento
aprofundado em
relação aos bens
culturais.
	
Segundo o
IPHAN:
“O Patrimônio material
(...) é composto por um
conjunto de bens culturais
classificados
segundo
sua natureza nos quatro Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico
e etnográfico; histórico;
belas artes; e das artes
aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis
como os núcleos urbanos, sítios arqueológicos
e paisagísticos e bens individuais; e móveis como
coleções arqueológicas,
acervos museológicos,
documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e
cinematográficos’’. 	

(Disponível em: http://
www3.iphan.gov.br/ bibliotecavirtual/
?page_
id=283)

	Enquanto
que o Patrimônio
Imaterial:
	
“O Patrimônio
Imaterial é transmitido
de geração em geração

e constantemente recriado pelas
comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua
história, gerando um sentimento
de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o
respeito à diversidade cultural e à
criatividade humana’’. (Disponível

em:
http://www3.iphan.gov.br/
bibliotecavirtual/?page_id=283,
acesso em 11 de abril de 2011) .

	
Por sua vez, a
UNESCO define como
Patrimônio Cultural Imaterial:
“(...) as práticas, representações,
expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares
culturais que lhes são associados
- que as comunidades, os grupos
e, em alguns casos, os indivíduos
reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”.
(Disponível em http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/
world-heritage/cultural-heritage/,
acesso em 13 de abril de 2011).

	
A proposta metodológica de educação
patrimonial foi introduzida no Brasil em 1983,
balizada por um trabalho
educacional já desenvolvido na Inglaterra,
ao ser desenvolvido foi
adaptada aos contextos
patrimoniais locais. Em
alguns estados este trabalho está bem embasado e se solidifica, no
Rio Grande do Sul, por
exemplo, o tema esta
sendo trabalho por Maria
Beatriz Machado (2004),
José Itaqui entre outros.
Em suas pesquisas, eles
enfatizam a importância
de orientar os professores do ensino fundamental e médio de como
trabalhar e aplicar esta
metodologia no ambiente escolar.
	
Apesar de estar
sendo muito bem sucedida a atividade reali-

zada no Rio Grande
do Sul, esse é um
processo que está
ocorrendo de forma
isolada repercutindo
apenas nas regiões
onde
se
desenvolvem. A proposta
consiste na formação
de grupos de pesquisas para desenvolver
uma forma contínua
de projetos e ações,
que possam ser aplicadas
igualmente
em todo o território
brasileiro.
	 Existem
diversas formas de
se trabalhar com o
patrimônio cultural
dentro de sala de
aula,
articulando
todas as disciplinas do currículo escolar, matemática,
história,
geografia
e ciências podendo
ser elaborados exercícios e textos relacionados à educação
patrimonial. O importante neste caso
é estabelecer a interdisciplinaridade,
com isso os alunos
podem
desenvolver por si só ou juntamente com seus
professores, ações
dentro da escola
que incentivam a
multiplicação deste
conhecimento. Um
ótimo exemplo do
que pode ser gerado
é a construção de
um memorial, um
pequeno
museu,
ou ainda uma roda
de “contação” de
histórias, fazer oficinas e várias outras
atividades, a partir
destes métodos os
alunos desenvolvem

uma visão critica.
	
Ações realizadas
conjuntamente por todos os professores dentro das escolas podem
gerar atividades muito
interessantes - como
investigar em forma de
pesquisa monumentos
da cidade em que mora
isso ajuda a enfatizar
o patrimônio coletivo
e a memória coletiva,
além disso, investigar
a própria casa como
patrimônio
cultural
através de desenhos.
Essa
programação
diferenciada promove
uma identidade em
relação ao patrimônio
coletivo e gera um respeito em relação ao
patrimônio cultural.
	

A
transversalidade
mantém uma relação com a
interdisciplinaridade, bastante
difundida pela Pedagogia. São
maneiras de se trabalhar o
conhecimento buscando uma
reintegração de aspectos que
ficaram isolados uns dos outros
pelo tratamento das disciplinas
(MORAES, s. d., p. 7-8).

	
A Educação patrimonial no ensino de
história é outra forma
que viabiliza formação
de pessoas capazes de
conhecer a sua própria
historia cultural. Levando a educação para
este contexto nos faz
perceber que os indivíduos podem se diferenciar um dos outros,
e com isso podem visualizar a própria vida,
a própria cultura, a
própria história e, construir a sua memória
afetiva, além disso,
sua identidade cultural.

11
O patrimônio
cultural vem sofrendo grandes prejuízos
com a modernização
- um exemplo disso
ocorre aqui em São
João del Rei, onde
durante os anos de
1999 e 2001,muitos casarões históricos foram derrubados para dar lugar
a supermercados, a
casas de venda de
materiais de construção. Outro exemplo
aconteceu
em Araxá-MG, onde
uma praça com mais
de cinqüenta anos
totalmente arborizada, foi substituída por um calçadão
sem nenhuma arborização e sequer
bancos para as pessoas sentarem.
	
Outra questão
muito importante a
ser trabalhada é a
questão da identidade local nas escolas de ensino fundamental. Os alunos
aprendem
muitas
coisas relacionadas
ao mundo, e ao Brasil; mas, na maioria
das vezes, o ensino
é muito generalizado, fazendo com a
história do município
ao qual esses alunos
pertencem,
fique
esquecida o que
causa no individuo
um afastamento em
relação as suas origens perdendo de
vista o processo formador de sua identidade social.
	
Muitos estudiosos acham que é
mais fácil trabalhar
o patrimônio cul-

12

tural no âmbito disciplinar das ciências
humanas, por ela
estar muito próxima
do tema. Em outras
áreas do currículo, o
professor tem certa
dificuldade, porque
o tema não está
presente em suas
analises e reflexões
cotidianas. Contudo,
isso é uma limitação
e não pode ser levada ao pé da letra,
com a criatividade
dos pesquisadores e
professores podem
ser
desenvolvidas
atividades
dentro
da área de exatas,
ciências biológicas,
das ciências da terra, etc..
Metodologia

	
	
Através
das
atividades
extensionistas
desenvolvidas em nosso
projeto (nas Oficinas
de Educação Patrimonial realizadas na Escola Municipal Maria
Tereza bem como nas
oficinas realizadas no
espaço do Fortim dos
Emboabas localizado
no Alto das Mercês)
foi possível perceber
que as pessoas que
participaram dessas
atividades não se
reconhecem como
agentes
culturais
dentro da sociedade
da qual fazem parte.
Isto porque elas
reconhecem como
patrimônio cultural,
apenas aquilo que é
registrado e reconhecido pela chamada cultura erudita.
	 A
distinção

entre cultura popular e cultura erudita
recorrente em nossa
sociedade,
produz
efeitos
catastróficos na construção
da identidade dessas
pessoas. Mesmo expressões fortes como
o congado ou os ofícios e saberes passados de geração
em geração, se tornam eixos de resistência
de
suas
raízes na sociedade,
não são reconhecidos
como tal.
	
Por isso se justifica nosso trabalho
de responder a demanda da lei municipal n° 3.826/2004 que
torna obrigatório o ensino de educação patrimonial nas escolas da rede
municipal. Nosso trabalho é um tanto desafiador
quando aos métodos,
pois eles não podem ser
os métodos tradicionais
que são utilizados para
o ensino da chamada
cultura erudita.
	
Pela
característica mutável do
patrimônio imaterial
não é de nosso interesse
resguardálo tal como é (como
um objeto pronto e
acabado), mas sim
preservá-lo
através
de métodos que se
sintetizam exclusivamente nas vivencias
que A C ultura popular nos oferece. Dar
luzes para que ela por
si mesma se mostre e
se mantenha. Somos
receptáculos dessas
vivências.
	
	
“Se o sistema social é democrático se o povo

vive em condições digamos
razoáveis de sobrevivência ela próprio saberá gerir
as condições para que a
cultura seja conservada,
não pela cultura em si, mais
enquanto expressão da comunidade de grupo e de indivíduos em grupo’’. (BOSI,
Alfredo, 1987, pg. 44).

	
	
Atuando principalmente em São
João del Rei e região
o programa de extensão
“Embornal
de Causos - segundo
ano” é o desdobramento do projeto de
extensão “Embornal
de Causos a imagem
e o som, a escrita,
e o universo virtual
como veículo de registros e preservação
do patrimônio imaterial” sob a orientação da Dra. Glória
Ribeiro, junto com
os bolsistas de extensão Isabela Alline
Oliveira e Etienny
Trindade, e a bolsista atividade Daniela
da Conceição Diniz.
Como já foi mencionado, o trabalho
consiste
atender
á lei municipal n°
3.826/2004 que dispõe sobre a criação do
Programa
Municipal
de Educação Patrimonial em suas escolas
municipais - buscando
através do referencial
teórico
pesquisado,
capacitar os professores para o ensino da
educação patrimonial
dentro das escolas,
voltado para a cultura
regional e local.
Neste sentido, o programa busca utilizar as novas
mídias e redes sociais como ferramentas trazendo para
os professores do
ensino fundamental
a narrativa oral, saberes e fazeres embutidos na cultura
local.
	 Nosso
trabalho também teve
como
produto
a
produção
cartilhas para as escolas
públicas de ensino
fundamental,
os
bolsistas desenvolveram três cartilhas,
uma de culinária,
outra de causos e a
outra de festas religiosas; as quais
ainda
estão
em
processo de avaliação – recebemos a
avaliação apenas de
uma das escolas da
região, como poderá
ser observado nos
anexos do nosso
relatório final.
	 O
material
possui jogos, exercícios para serem
aplicados dentro de
sala de aula, textos e imagens. Cada
cartilha possui uma
peculiaridade diferente: a cartilha de
culinária contém receitas de São João
del Rei e região,
relatos de como o
queijo é fabricado
artesanalmente,
como são fabricados os fornos a partir da utilização do
barro e das fezes de
gado; a cartilha de
causos tem alguns
causos
transcritos

das entrevistas realizadas com moradores
de diferentes regiões,
além da bibliografia de
cada um dos contadores; e por fim a de festas religiosas descreve
manifestações religiosas presentes em São
João Del Rei.
	
Foram realizadas durante o ano de
2013 em parceria com
o programa de Implantação do Centro de
Referência de Cultura
Popular de São João
del Rei, promovemos
atividade
conjuntas
como foram as oficinas
do Inverno cultural,
contando com cerca
de 6 oficinas realizadas
no Fortim dos Emboabas entendendo que
por ser tratar de uma
população de risco ,
que entretanto mantêm uma tradição de
cultura popular muita
arraigada, nossos esforços em atuar principalmente com as crianças se justifica pelo
fato de as oficinas serem para as crianças do
Alto das Mercês uma
possibilidade de acesso, diversão e espaço
de lazer que a comunidade por si só não tem
condições de oferecer.
	
Também foram
oferecidas Oficinas de
Educação
Patrimonial desenvolvidas dos
dias 4 a 8 de Março de
2013 na Escola Municipal Maria Tereza, tendo
como público atingido
cerca de 150 alunos do
ensino fundamental.

to importante para
a
preservação
do
patrimônio
cultural,
as nossas ações ainda se mostram como
uma forma pontual
de se aplicar a educação patrimonial. 	
	
Para que um
trabalho como este
possa se desenvolver
de forma continua no
ensino fundamental
precisaríamos de uma
parceria entre o IPHAN, o governo federal e os órgãos locais
de cada município. O
que observamos na
analise deste conteúdo é que as ações são
desmembradas umas
das outras, não tendo
assim um elo entre as
iniciativas que já estão sendo produzidas
e os órgãos públicos. 	
	
No entanto, o
IPHAN ainda é desorganizado em relação
à educação patrimonial e não existe um
interesse por parte
dos professores em
aplicar o assunto dentro de sala de aula,
criando uma barreira
a este processo.
	
O
patrimônio
cultural ainda se encontra vulnerável. A
ideia que se passa
entre a juventude é
que não existe o novo
sem destruir o velho,
e isso faz com que a
memória caia no esquecimento.
Como
podemos
lembrarnos do passado, das
histórias contadas por
nossos avôs sem passar de geração a gerConclusão
ação? Na atual pós	 Embora
seja modernidade o ser
um
trabalho
mui- humano está sendo

tratado como objeto, uma boa parte
de idosos que fizeram parte da história
são abandonados e
isolados em locais
fora da área de convívio social intenso
(como é o caso dos
abrigos e albergues),
e não paramos para
pensar que através
deles as manifestações
culturais
vem sendo passadas de geração para
geração.
	
Portanto, necessitamos de uma
mudança radical em
relação ao patrimônio,
e por isso justificamos
neste estudo a importância da educação
patrimonial. Esta ação
pode ser comparada
como a “luz no fim
do túnel” porque a
partir dela os indivíduos podem repensar a relação entre a
memória e sua própria
identidade social.

13
UM CASO DE FOLIA DE REIS
	
Eu gostaria de contá uma
estória pra vocês que... é estória aconticida mêmo, que a gente já viu
comentário, que conteceu na nossa
região. Uma estória até engraçada,
uma estória que... Contando assunto
de folia de reis, né? Na nossa região
aqui, é um lugar que tem muito esse
negócio de folia de reis. Então me
contaro essa estória pra mim que aconteceu, mas que foi estória contada
que aconteceu mêmo!
	
E diz que tinha uma folia de
reis, saiu numa zona rural, na região
da cidade, por perto aqui. E chegô
nessa região tinha muita casa pá... po
povo cantá e ês já chegaro de tarde,
nessa região.
Chegô lá, cantô um pouco nas casa
que tinha. Chegô numa fazenda dum
fazendêro muito bão, e o fazendêro,
a atividade dele era duas coisa: era
tirá leite, tinha um gado de corte e
tamém tinha um negóço de fazeção
de pinga, né? Que sempre isso é uma
das coisa que sempre tem mêmo. E o
fazendêro fazia muitas qualidade de
pinga e todas que fazia diz que era
boa. Aí, a folia de reis chegô na fazenda desse fazendêro de tarde, fazendêro tamém muito bão, mandou
o povo entrar pra dentro.
	
E o currar da fazenda, o
gado chegava até na porta da sala da
fazenda. E aí o povo chegô, dexô a
bandêra da folia de reis dês lá em riba
da escada, dexô os instrumento e entrô pra dentro da fazenda do home.
	
Chegô lá, o fazendêro muito
bão, dava um golinho da pinga pá
pessoa porvá. A pessoa porvava,
achava a pinga muito gostosa. Por
causa que achô gostosa, bebia mais
um golo daquela.
	
Aí o fazendêro:
	
- Tem mais uma, vem cá, o
senhor exprementa essa.
	
Aí dava um golim pá pessoa
porvá.
	
A pessoa:
	
- Ah não! Mais um golo!
	
Tomava mais um golim. Aí
todo mundo ficô tonto e durmiu.
Esqueceu os instrumento em cima
da escada lá do currar, em riba da es-

SEBASTIÃO VICENTE DA SILVA

cada que entrava na porta da fazenda,
mas era dentro do currar. Esqueceu os
instrumentos, ficou, esqueceu tamém a
bandeira da folia de reis. E aí, bão. E
durmiro e nem lembrô que tinha dexado os instrumento do lado de fora, nem
bandêra e nem nada e durmiro.
	
E quando ês cordaro no ôtro
dia cedo, aí que ês foi recordá que tinha dexado os instrumento, a bandeira
e tudo em cima daquela escada. E aí
veio pá mó pegá os instrumento, pegá a
bandêra pa cantá. Porque logo naquele
lugar que tinha muita casa pr’ês cantá.
Pegá os instrumento e a bandeira pá
mode ês saí, pá mode cantá novamente
naquela região. Aí chego lá, achô os
instrumento tudo, mas num achô a
bandêra
	
- Mas cumé que faiz ué? Folia
de reis, o primeiro da folia de reis que
anda na frente é a bandêra.
Cês tudo sabe disso, né? A bandêra que
anda na frente. Marungo pega a bandeira e vai na frente.
	
Aí não achô a bandêra,
	
- Cumé que faiz, cumé que
num faiz pá cantá, seno que num tinha
bandêra?
	
E ali no meio tinha um rapaiz
novo, ansim, muito inteligente. Olhou
pr’um lado, pr’outro e viu aquele pauzinho que carrega a bandeira. Aí falou
pro outro:
	
- Ô fulano! Pega aquele pauzim
lá e leva aquele pauzim mêmo. Nóivaivê
o que dá pra fazê memo.
	
Aí a pessoa pegô aquele pauzinho e saiu na frente. Chegô na primeira

casa, aquela pessoa que tinha mandado ele
levá aquele pauzinho, chegô na primeira
casa e cantô pá dona de casa assim, ó.
(Cantado)
“Ai da licença dona de casa,
não pergunte o que aconteceu,
dá esmola pr’esse pau,
que a bandêra o boi cumeu.”
	
É... aí é a estória: o gado cumeu
a bandêra e não tinha bandêra mais. O
rapaz falou:
	
- Não, leva esse pauzinho mêmo!
	
Levou o pauzinho, chegou lá
imprevisô desse jeitinho, cantando bem.
Cantô direitinho que era pá móde dá
esmola pr’aquele pau por que não tinha
bandêra. Porque sempre pede esmola
é pra bandeira, né? Agora, não tinha
bandêra, ia dá esmola pá quem? Aí pidiu
pá dá esmola pr’aquele pau, que a bandeira o boi tinha cumido.
	
Essa ai é a estória de folia de reis,
o povo fala que é estória de mentiroso,
né? Mas, diz que isso aí foi aconticido
mêmo!
BIOGRAFIA
	
Sebastião Vicente da Silva, mais conhecido comoTiãozinho da Lavrinha, nasceu em
1957 em Luminárias – MG e é lavrador. No
vídeo a seguir ele narra um divertido conto.

17
Transcrição
	
Eu gostaria de contar uma
estória pra vocês:
	
- É estória acontecida
mesmo, que a gente já viu comentário, que aconteceu na nossa
região. Uma estória até engraçada,
uma estória que...
...Contando assunto de folia de
reis, não é?
	
Na nossa região aqui, é
um lugar que tem muito esse negócio de folia de reis. Então me contaram essa estória, que aconteceu,
mas foi estória contada que aconteceu mesmo!
	
E diz que existia uma folia
de reis que saiu numa zona rural,
na região da cidade, por perto aqui.
E chegou nessa região existiam
muitas casas pro povo cantar e eles
já chegaram de tarde.
	
Chegaram lá, cantaram
um pouco nas casas que existiam. Chegaram na fazenda de
um fazendeiro muito bom, e o fazendeiro, as atividades dele eram
duas coisas: era tirar leite, tinha um
gado de corte e também tinha um
negócio de fabricação de pinga,
não é? Que sempre isso é uma das
coisas que sempre tem mesmo. E
o fazendeiro fazia muitas qualidades de pinga e todas que ele fazia dizem que eram boas. Aí, a folia
de reis chegou na fazenda desse fazendeiro de tarde, fazendeiro muito bom, mandou o povo entrar.
	
E o curral da fazenda, o
gado chegava até na porta da sala
da fazenda.
na porta da sala da fazenda.
	
E aí o povo chegou, deixou a bandeira da folia de reis deles
lá em cima da escada, deixou os
instrumentos e entrou para dentro
da fazenda do homem.
	
Chegou lá, o fazendeiro
muito bom, dava um golinho da
pinga para a pessoa provar. A pessoa provava, achava a pinga muito
gostosa. Porque achou gostosa,
bebia mais um gole daquela.

18

	
Aí o fazendeiro:
	
- Tem mais uma, vem cá, o
senhor experimenta essa.
Aí dava um golinho para a pessoa
provar.
	
A pessoa:
	
- Ah não! Mais um gole!
	
Tomava mais um golinho.
Aí todos ficaram tontos e dormiram.
Esqueceram os instrumentos em
cima da escada lá do curral, em cima
da escada que entrava na portada fazenda, mas era dentro do curral. Esqueceram os instrumentos, esqueceram também a bandeira da folia de
reis. E aí, bom.
Dormiram e nem lembraram que
tinham deixado os instrumentos do
lado de fora, nem bandeira e nem
nada.
E quando eles acordaram no outro
dia cedo, aí que eles foram recordar
que tinham deixado os instrumentos,
a bandeira e tudo em cima daquela
escada. E aí vieram para pegar os
instrumentos, pegar a bandeira pra
cantar. Porque logo naquele lugar
que tinha muita casa para eles cantarem.
	
Pegar os instrumentos e a
bandeira para eles poder sair para
cantar novamente naquela região. Aí
chegaram lá, acharam os instrumentos todos, mas não acharam a bandeira.
	
- Mas como é que faz ué? Na
folia de reis, o primeiro da folia de
reis, que anda na frente é a bandeira.
	
Vocês todos sabem disso,
não é? A bandeira é que anda na
frente. O Marungo pega a bandeira e
vai na frente.
	
Aí não acharam a bandeira.
	
- Como é que faz, como é
que não faz pra cantar, sendo que
não tinha bandeira?
	
E ali no meio tinha um rapaz
novo, muito inteligente. Olhou para
um lado, para o outro e viu aquele
pauzinho que carrega a bandeira, aí
falou para o outro:
	
- Ô fulano! Pega aquele
pauzinho lá e leva aquele pauzinho

mesmo. Nós vamos ver o que dá para nós
fazermos.
	
Aí a pessoa pegou aquele pauzinho e saiu na frente. Chegou na primeira
casa, aquela pessoa que tinha mandado ele
levar aquele pauzinho, chegou na primeira
casa e cantou para a dona- de- casa assim:
(Cantado)
	
- “Ai, da licença dona- de- casa,
não pergunte o que aconteceu,
dê esmola para esse pau
porque a bandeira o boi comeu.”
	
É... aí é a estória, o gado comeu
a bandeira e não tinha bandeira mais. O
rapaz falou:
	
- Não, leva esse pauzinho mesmo!
	
Levou o pauzinho, chegou lá improvisou desse jeitinho, cantando bem.
Cantou direitinho que era para dar esmola para aquele pau por que ele não tinha
bandeira. Porque sempre se pede esmola
é para a bandeira, não é? Agora, não tinha bandeira, ia dar esmola pra quem? Ai
pediu para dar esmola para aquele pau,
porque a bandeira o boi tinha comido.
	
Essa ai é a estória de folia de reis,
o povo fala que é estória de mentiroso,
não é? Mas, dizem que isso aí foi acontecido mesmo!

Sebastião Vicente da Silva
Fotos: Débora Resende
O TIRA-COURO OU O SETE ORELHAS
	
Um fato que foi acontecido
no município de São Bento Abade,
num lugar chamado de... Sítio do Tira
Côro. E... sete irmão Silva, daí brigô,
tava brigano com os irmão Januário
Garcia e João Garcia por causa de...
duma divisa de terra, de gado, entrava
no terreno do outro.
	
E nas discussões dês lá, entre
os... os irmãos Silva e o João Garcia,
aí, ês pegô o João Garcia e... os sete
irmão marrô ele numa árvre, numa
figuêra e tirou o côro dele vivo.
	
Aí o Januário Garcia fêis um
juramento, um juramento de... de matar os sete irmão Silva e cortá a orêia
e fazê um colar de orêia do... dos sete
irmão Silva.
	
Aí o quê que ele fez: na
época não tinha, num existia delegacia no município aqui de São Bento
e Luminária. Aí é só em São João dé
Reis que... que tinha delegacia e delegado. Aí foi em São João dé Reis e
contô o caso pro delegado que tinha
acontecido. Aí o delegado deu uma...
uma escrita pr’ele e falô ó, uma órde
pr’ele e falô:
	
– Ó: cê pode matá, matá os
sete, sete irmão Silva.
	
Aí veio com a órde, com a
escrita lá do delegado. E chegô e... e
ficô sabeno que ês ía fazê um baile de
despedida, que ês ficô sabeno que o
Januário ia matá ês, falô em matá ês,
ês fez um baile de despedida. E no
dia do baile ele... ele foi e ficô escondido, ele conseguiu matá dois, matô
dois. Aí sumiu os ôtro cinco.
	
Aí... foi, passô muito tempo,
ele foi, entregô a família dele pr’ôtra
pessoa cuidá lá e falô que enquanto
ele num cumprisse o juramento, ele
num vortava em casa.
E saiu andano, percurando. E... diz
que chegô numa cidade e ficô sabeno
que tinha dois que ia... tava casano,
tava no artar pá casá. Aí chegô e...
num sei expricá direito como que
foi, se ele matô no artar, na hora do
casamento e... sei que ele matô mais
dois, e cortô a orêia daquês dois, aí
interô quatro, né?
	
Aí passô... passou... andô

mais um pôco. E... aí achô mais um,
achô mais um e, matô. Dipois ficô
um.
	
Aí passô muito, muito tempo, ele tava bem velho já, mas procurano... procurano... e num achava.
	
Aí muito, muitos ano depois
ele viu uma fumacinha de dentro
dum mato, no fundo dum mato, entrô um pouco pro mato pra vê quem
era naquele mato abaixo. E... chegô
num ranchinho. Aí chegô lá era um
velhinho que tava morando lá. E,
pediu pouso. Aí ele deu pouso, deu
janta pro Januário e ele não conheceu o Januário. Aí de noite o Januário
perguntava ele, perguntano por que
que ele tava morano naquele lugar,
quê que tinha acontecido, sozinho
naquele mato. Aí ele disse:
	
– Óia, nóis fez isso, fez aquilo ôtro, tirô o côro do... do João
Garcia.
	
Aí posô. O Januário posô lá
no ranchinho dele, ele deu janta, deu
pôso. Quando foi no ôtro dia cedo,
ele perguntô o veizinho, perguntô:
	
- Cê sabe quem que eu sô?
	
Aí ele falô assim :
	-Não.
	
- Eu sou Januário Garcia.
	
Aí ele pediu perdão, ajueiô e
pediu perdão. Aí Januário falou:
	
- Ó: o perdão que eu posso
te dá, é cê contá cem passo, você
com... se antes você contá cem passo
se ocê... se eu errá cê tá perdoado.
Agora, se eu acertá cê é... é a úrtima
orêia que me farta pra... pra inte... pra
interar o juramento.
	
Aí ele contô cem passo, ele
atirô e matô.
	
Aí ele dispois ele vortano, ele
muito cansado chegô numa casa tinha
um... pediu pouso, aí tinha um... uma
turma de jogador de baraio, jogando
baraio, e convidô ele pra jogá baraio e
ele não quis.
	
- Sabe? Não, eu tô cansado,
vô deitá pá durmí porque eu num...
num gosto de baraio.
	
Aí os jogadô de baraio fazeno baruio, não deixava ele durmí. Aí
ele, quê que ele fez? Ele levantô lá e

JUVENAL JOSÉ DE SOUSA

veio, falô assim:
	
- Ah! Resorvi, vô jogá um pouco.
Aí quando ele sentô na mesa lá, que deu
uma trucada ele jogô... falô seis e jogô
o colar de orêia em cima da mesa. Aí
aquêis... aquêis turma de jogadô de baraio
saiu tudo correno que num ficô um na
casa. Aí ele deitô na cama e dormiu o resto
da noite.
	
E dipois veio vortando, vortô.
Chegô na casa dele a mulher dele tinha
arrumado ôtro homi e tava cuidano dela,
cuidando da família dele lá. Que ele chegô
e falô assim:
	
- Não, agora nóis vai ficar morano junto. Cê... cê cuidou da minha mulher,
cuidô da minha família.
	
E ficou morando. Assim o povo
antigo conta: que ficô morano o homi que
já morava com a mulher dele , que fazia
muitos ano, num sabia se ele ia vortá, se
tinha morrido.
	
Aí terminô o trecho da estória do
Januário Garcia.
BIOGRAFIA
	
O senhor Juvenal José de Souza é natural de Luminárias - MG onde vive com sua família e trabalha como extrator de pedra. No vídeo a
seguir ele narra dois acontecimentos: um ocorrido
com ele e outro com sua mãe. São aparições de
misteriosos “clarões”. Narrativas deste tipo são
muito comuns na cidade de Luminárias, que recebeu este nome justamente em função da aparição
de luzes até hoje inexplicadas.

19
Transcrição
	
Um fato que foi acontecido
no município de São Bento Abade,
num lugar chamado Sítio do Tira
Couro. E os sete irmãos Silva, daí
brigaram, estavam brigando com os
irmãos Januário Garcia e João Garcia por causa de uma divisa de terra,
de gado que entrava no terreno do
outro.
	
E nas discussões deles lá,
entre os irmãos Silva e o João Garcia, eles pegaram o João Garcia. E
os sete irmãos, amarraram ele numa
árvore, numa figueira e tiraram o
couro dele vivo Aí o Januário Garcia
fez um juramento, um juramento de
matar os sete irmãos Silva e cortar as
orelhas, e fazer um colar de orelhas
dos sete irmãos Silva.
	
Aí o quê ele fez?
	
Na época não existia delegacia nos municípios de São Bento e
Luminárias. Aí era só em São João
del -Rei que existia delegacia e delegado. Aí ele foi em São João del- Rei
e contou o caso para o delegado, o
que tinha acontecido. Aí o delegado
deu uma escrita para ele, e uma ordem para ele e falou:
	
– Ó, você pode matar, matar
os sete, os sete irmãos Silva.
Aí ele veio com a ordem, com a
escrita do delegado. E chegou e ficou sabendo que eles iam fazer um
baile de despedida, que eles ficaram
sabendo que o Januário ia matá-los,
falou em matá-los, eles fizeram um
baile de despedida. E no dia do baile
ele foi e ficou escondido e conseguiu
matar dois, matou dois. Aí, sumiram
os outros cinco.
	
Aí... foi, passou muito tempo, ele foi e entregou sua família
para outra pessoa cuidar e falou que
enquanto ele não cumprisse o juramento, ele não voltava.
	
E saiu andando, procurando. E... dizem que ele chegou numa
cidade e ficou sabendo que tinha
dois que estavam se casando, estavam no altar para casar.
	
Aí chegou e, não sei explicar
direito como foi, se ele os matou no

20

altar na hora do casamento em casa.
	
. Sei que ele matou mais dois,
e cortou a orelha daqueles dois, aí inteirou quatro, não é?
	
Aí passou... passou... andou
mais um pouco. Aí achou mais um,
achou mais um e matou. Depois ficou
um.
	
Passou muito, muito tempo,
ele estava bem velho já, mas procurando... procurando... e não achava.
	
Aí muitos anos depois ele
viu uma fumacinha saindo de dentro
de um mato, entrou no mato, entrou
um pouco no mato para ver quem era
naquele mato abaixo. E chegou a um
ranchinho. Chegou lá, era um velhinho
que estava morando lá. E ele (Januário)
pediu pouso. Aí ele deu pouso, deu janta para o Januário e ele não reconheceu
o Januário. A noite o Januário perguntou a ele, ficou perguntando por que
ele estava morando naquele lugar, o
que tinha acontecido, sozinho naquele
mato. Aí ele disse:
	
- Olha, nós fizemos isso, fizemos aquilo, tiramos o couro do João
Garcia.
	
Aí pousou, o Januário pousou
no ranchinho dele, aí ele (o velhinho)
deu janta, deu pouso.
	
No outro dia cedo, ele perguntou para o velhinho:
	
- Você sabe quem eu sou?
	
Ele respondeu:
	
- Não.
	
- Eu sou o Januário Garcia
	
Aí o velhinho pediu perdão,
ajoelhou e pediu perdão. Aí Januário
falou:
	
- Ó, o perdão que eu posso te
dar, é você contar cem passos, se eu errar, você está perdoado. Agora, se eu
acertar, sua orelha é a última que me
falta para inteirar meu juramento.
	
O velhinho contou os cem
passos, então, ele atirou e matou.
	
Na volta, o Januário, muito
cansado, chegou numa casa e pediu
pouso. Ali havia uma turma de jogadores de baralho que o convidaram
para jogar e ele não quis.
	
- Sabe? Não, eu estou cansado,

eu vou me deitar para dormir porque
eu não gosto de baralho.
	
Aí os jogadores de baralho
faziam muito barulho e não deixavam
ele dormir. Então o que ele fez? Ele
levantou, foi e falou assim:
	
- Ah! Resolvi jogar um pouco.
	
Aí, quando ele sentou na
mesa, assim que deram uma trucada,
ele falou:
	
- Seis! - e jogou o colar de
orelhas em cima da mesa.
	
Aí aquela turma de jogadores
de baralho saiu toda correndo, e não
ficou um na casa. Aí ele deitou na
cama e dormiu o resto da noite.
	
E depois ele veio voltando.
Voltou. Chegou a sua casa, sua mulher
havia arrumado um outro homem,
que estava cuidando dela e de sua
família. Ele chegou e falou assim:
	
- Não, agora nós vamos ficar
morando juntos. Você cuidou da minha mulher, cuidou da minha família.
	
E ficaram morando juntos.
Assim o povo antigo conta: que ficou
morando ele, sua mulher e o homem
que já morava com ela há muitos anos,
porque eles não sabiam se ele ia voltar,
ou se ele havia morrido.
	
Aí terminou o trecho da estória do Januário Garcia.

Fotos: Débora Resende
CAUSO DE SEXTA FEIRA SANTA
NAGIBE FRANCISCO MURAD
	
Fatos verídicos: Na década de
trinta, o nosso comércio era feito por
carros de bois, cargueiros e tudo atrasado como era em todo o Brasil. O comércio era de pequenos comerciantes,
o povo não tinha condições financeira e
poder, de poder de compra. A crise era
geral.
	
Era e é tradição fechar o comércio na sexta-feira santa, desde essa
época, em nosso distrito. Aconteceu o
seguinte: havia um comerciante, Evaristo de Sousa, que resolveu fechar a sua
venda na quinta-feira santa ao meio-dia.
Rua do Cruzeiro, esquina com a Praça
Nossa Senhora do Carmo. E abriu na
sexta-feira ao meio-dia.

	
Ele tinha filhos pequenos, a
gaveta onde colocava o dinheiro era
na parte arta da prateleira, para as crianças não tirarem dinheiro.
	
Então ele começou a vender
ao meio-dia de sexta-feira santa. O
comércio dele era de gênero alimentício, quitanda, doce, etecetera. Depois
de argum tempo, ali pelas três hora
da tarde, em determinado momento
ele foi atender um freguês, e aí, ao ir
à gaveta onde colocava o dinheiro,
para dar o troco, ele achou uma cobra
coral dentro da gaveta. Assustado, ele
tirou-a e matou-a, em seguida, fechou
a venda.
	
O povo recebeu esse con-

tecimento como castigo pela farta
de respeito no dia de sexta-feira santa.
BIOGRAFIA
	
O senhor Nagibe Francisco Murad, mais conhecido como seu Bíbi, é natural de Lavras mas foi para a cidade de
Luminárias muito criança e lá mora desde
então. Sempre trabalhou e continua trabalhando como comerciante.No vídeo a seguir,
seu Bíbi conta um fato que ocorreu na cidade
de Luminárias e que é relembrado como um
sinal da importância de se respeitar o dia de
sexta-feira santa.
	

21
Transcr ção
22

NAGIBE FRANCISCO MURAD
	
Fatos verídicos: Na década de
trinta, o nosso comércio era feito por
carros de bois, cargueiros e tudo atrasado como era em todo o Brasil. O comércio era de pequenos comerciantes, o
povo não tinha condições financeiras e
poder de compra. A crise era geral.
	
Era, e é tradição fechar o comércio na sexta-feira santa, desde essa
época em nosso distrito. Aconteceu o
seguinte:
	
-Havia um comerciante, Evar-

isto de Sousa, que resolveu fechar a
sua venda na quinta-feira santa ao
meio-dia. Rua do Cruzeiro, esquina
com a Praça Nossa Senhora do Carmo. E abriu na sexta-feira ao meiodia.
	
Ele tinha filhos pequenos, a
gaveta onde colocava o dinheiro era
na parte alta da prateleira, para as
crianças não tirarem dinheiro. Então
ele começou a vender ao meio-dia de
sexta-feira santa. O comércio dele era

de gêneros alimentícios, quitandas,
doces e etecetera. Depois de algum
tempo, por volta das três horas da tarde, em determinado momento ele foi
atender a um freguês, e ao ir à gaveta
onde colocava o dinheiro para dar o
troco, ele achou uma cobra coral dentro da gaveta. Assustado, ele tirou-a e
matou-a, em seguida, fechou a venda.
	
O povo recebeu esse acontecimento como castigo pela falta de
respeito no dia de sexta-feira santa.

Fotos: Débora Resende
ESTÓRIA DE ASSOMBRAÇÃO

Transcr ção

RAUL NOGUEIRA DO NASCIMENTO
	
Ês tava viajano. Deu uma chuva muito forte, e por conta da chuva ês
chegô numa fazenda antiga pá abrigá,
né? E nessa fazenda tinha quatro pedreiro trabaiando, né? Aí ês, tudo amigo, ficô por ali bateno papo. Um, compradô de galinha, pá revendê, o ôtro,
negociante de gado, né? É... viajando.
Aí num pudero í pra casa, com a chuva
muito forte, o corgo encheu, aí ficô lá e
jantaro com, com os pedreiro, contaro
caso até uma certa hora.
	
Na hora dês... í deitá, cuô um
café. Aí, na hora que cuô o café, um
desses visitante num cumbinava com o
moradô que morreu na fazenda. Aí ele
foi tomá o café, chamô o que morreu,
que chamava Tonho dos Reis:
	
- Vamo chamá o Tonho Reis

pá tomá café.
	
Então falô assim. Entrô, fez
tudo quanto é baruio que pôde existir na fazenda. E pagava a luz, jogano
pedra, balaio de galinha jogava pra
cima, caía no chão, mas não acertava
ninguém. No muvimento da fazenda roncava pombim, latia cachorro,
miava gato, brigava com a esposa
dele, chegava carro cantando, cavalo
rinchando, vaca berrando, munho rodando, na distância de longe.
	
Aí ele mandô pro mei do
inferno, quando ele viu que o trem
tava... mandô pro mei do inferno,
e ficou muito... E dipois já tava os
cumpanheiro desmaiado, o medo foi
apertano, ele mandô pro mei do inferno, quando aquele trem sumiu um

instante. Quando vortô, vortô muito
pior, mais nervoso. Aí ele se viu apertado mêmo, o medo foi aumentando
tamém, suzinho, aí apelou pras... gritou
pras trêis missa de Natal. E foi a salvação dele!

	
Eles estavam viajando. Deu
uma chuva muito forte, e por conta da
chuva eles chegaram numa fazenda antiga para se abrigarem. E nessa fazenda
tinha quatro pedreiros trabalhando. Aí
eles, todos amigos, ficaram por ali batendo papo. Um, comprador de galinha, para revender, o outro, negociante
de gado, viajando. Aí não puderam ir
para casa, por causa da chuva muito
forte, o córrego encheu, aí ficaram lá
e jantaram com os pedreiros, contaram
causo até uma certa hora.
	
Na hora deles irem deitar,
coaram um café. Na hora que coaram
o café, um desses visitantes não combinava com o morador que morreu na fazenda. Aí ele foi tomar o café, chamou
o que morreu, que se chamava Tonho
dos Reis.
	
- Vamos chamar o Tonho Reis
para tomar café. Então falou assim.
	
Então, fez tudo o quanto é
barulho que pôde existir na fazenda. E
apagava a luz, jogando pedra, balaio de
galinha jogava pra cima, caía no chão,
mas não acertava ninguém. No movi-

mento da fazenda roncava pombinho,
latia cachorro, miava gato, brigava
com a esposa dele, chegava carro (de
boi) cantando, cavalo rinchando, vaca
berrando, moinho rodando, na distância de longe.
	
Aí ele mandou para o meio
do inferno, quando ele viu que o trem
estava... mandou pro meio do inferno,
e ficou muito... E depois que já estavam os companheiros desmaiados, o

medo foi apertando, ele mandou pro
meio do inferno, quando aquele trem
sumiu um instante. Quando voltou,
voltou muito pior, mais nervoso. Aí
ele se viu apertado mesmo, o medo foi
aumentando também, sozinho, aí apelou para as... gritou para as três missa
de Natal. E foi a salvação dele!

BIOGRAFIA
	
O senhor Raul Nogueira do Nascimento, conhecido serralheiro da cidade de Itumirim, nasceu no ano de 1932 em Andrelândia - MG, mas foi para a cidade de Itumirim
- MG ainda jovem. No vídeo a seguir ele nos
conta algumas passagens misteriosas que ocorreram na vida de seu irmão, um homem que,
segundo o senhor Raul, não tinha medo de
nada.

23
MULHER QUE VIRA MULA SEM CABEÇA
LUIZ DE ÁVILA E SILVA

24

	
Eram casados há pouco tempo e
a moça que casou virava a tal mula-semcabeça. E então o marido dela, brigando,
brigando com ela por causa dessa história
dela virar a tal mula-sem-cabeça. Aí ela
saiu de tarde, quando o marido estava
quietinho. Ela saiu, foi numa moita de
bananeira e “plantou uma bananeira”, lá
largou a cabeça, lá na moita de bananeira
e saiu sozinha sem cabeça.
	
O marido dela foi lá, pegou a cabeça da mulher dele e trouxe para dentro.
Quando a mula-sem-cabeça chegou lá
para procurar, nada... não achou! Chegou
lá pelo cheiro, batia com as mãos nas portas e nas janelas. Caçando dentro de casa,
pelo cheiro ela percebeu que (a cabeça)
estava dentro de casa.
	
Aí o marido dela levantou, abriu
a porta, ela entrou e pegou a cabeça que
o marido tinha guardado. Mas ela foi...
levou... É, ela levou a cabeça lá na moita
de bananeira e voltou a “vestir” a cabeça.
Veio o pai dela e o marido dela, falou assim:
	
- De agora em diante você pode
marcar o rumo, que eu não quero te ver
mais nunca!
	
Porque a mulher virou o bicho
de verdade, né?

Transcrição

	
Casado de pouco. E a moça que casô,
era, virava a tar de mula-sem-cabeça. E então,
o marido dela, brigano, brigano com ela com
essa história dela virá a tale de mula-sem-cabeça.
	
Aí ela saiu de tarde, quando o marido
tava quetinho. Ela saiu, foi lá numa moita de
bananeira, é, plantou uma bananeira lá, largou
a cabeça lá na moita de bananeira e saiu sozinha sem cabeça.
	
O marido dela foi lá, pegô essa cabeça
da mulher dele e trouxe prá dentro. Quando a
mula-sem-cabeça chegô lá prá procurar, nada...
num acho! Chegô lá pelo cheiro, batia com as
mão nas porta, nas janela,
	
A seguir temos duas variações de um
mesmo conto. Ele foi narrado pelo senhor
Luíz de Ávila e Silva e por sua filha, Maria José
Ribeiro, ambos naturais de São João del Rei,
ele nascido em 1912 e ela em 1940.
	
É interessante notar as diferenças entre as duas narrações, o que comprova que os
contos populares, por serem transmitidos oralmente e guardados apenas na memória, sofrem
inúmeras variações a cada vez que são recontados.
	
Este é um conto que pertence ao
grupo que Luís da Câmara Cascudo classifica
como contos catequísticos, pois tem a finalidade de transmitir um valor religioso, no caso,
o hábito de pedir a bênção aos pais.
né? Caçando dentro de casa, pelo cheiro ela
percebeu que tava dentro de casa.
	
Aí o marido dela levantô, abriu a porta, ela entrô, pegô a cabeça que o marido tinha
guardado. Mais ela... ela foi... levô... É, ela levô
a cabeça lá na moita de bananeira e torno vestí
a cabeça.
	
Veio o pai dela, o marido dela falô assim:
	
- De agora em diente cê pode marcá o
rumo, que eu num quero te vê mais nunca!
	
Porque a mulher virou o bicho de verdade, né?
AS PASTORINHAS
MARIA APARECIDA SALES RIBEIRO
	
Bom, esse... é uma
estória, né? Uma estória
não, um caso verídico de
todas as cidades, né? Que...
Vem de muitos anos atrás,
a estória das pastorinhas,
como existe, é... Embaixada de Reis e outras coisa
que se faz pra angariá dinheiro,
donativos pra reforma de
igreja, construção de igreja,
católica, né?
	
Então, aqui em
Itumirim, eu consegui
montá um grupo de pastorinha, na época eu tinha
a minha filha que era adolescente e meus filho eram
pequenos. Então eu não
trabalhava fora porque eu
tinha que cuidá dos meus
filho e da minha casa.
	
Aí nós montamos
as pastorinha. Que era muito divertido e muito bom,
era feito com muita alegria,
com muita... sabe? Só que
era bem ensaiadinho, coisa
bem feitinha, com muita
fé. Tinha as menininha que
tocava violão...
Então aí eu resolvi montá e
montei: são oito pastorinha, uma Nossa Senhora,
um violeiro e uma senhora
mais, assim, de mais responsabilidade pra cuidá
das meninas. Onde a gente
ia de casa em casa, cada
uma com um bastão. Era
lindo, lindo...
	
Eu tenho vontade
de fazê isso de novo, um
dia eu vô fazê, eu vô montá
de novo.
Onde a gente ia de porta
em porta. Cantava pedindo
a esmola, expricando que
era pra barraquinha ou pra
igreja. E a gente pedia es-

mola, esperava recebê, né? O
donativo, que era falado esmola mesmo, que era esmola
pra igreja. Depois disso a gente
cantava agradecendo.
	
Era muito divertido. A
gente chegava em muitas casa,
aquelas pessoa assim de bem
idade, recebia a gente com o
maior carinho. A gente carregava um Menino Jesus, a Nossa... a menina vestida de Nossa
Senhora carregava a imagem
do Menino Jesus.
	
E nós íamos pra zona
rural, pras fazenda. Divertia
muito porque vaca corria atrás
da gente... cachorro... a gente
se perdia nas trilha... Era muito
divertido.
	
Só que era feito com
muita fé, as vêis a gente rezava terço no caminho, chegava
em algumas casa da zona rural, eles davam um lanche pras
menina. E com isso era muito
lindo, muito lindo...
	
É uma coisa que não
pode deixá acaba. É... eu acho
que inda existe em algum lugar
em Minas que eles ainda sai
com as pastorinha. Eu saí deve
tê mais ou menos uns quatorze
anos que eu sai com um grupo
de pastorinha. Fomos ao Macuco, Rosário, percorremo Itumirim inteirinha, a zona rural.
Onde angariamo bastante, mas
muito mesmo! Depois, no final do dia era contado aquele,
aqueles donativos, anotado
numa caderneta.
	
Na zona rural a gente
ganhava porco, galinha... Só
que a gente, não tinha condição de carregá, ia carro, né?
Da prefeitura, da igreja ou algum amigo ia buscar pra gente
pra conseguí dinheiro pra construção das igreja, ou reforma.

	
Aí nós montamos
as pastorinhas. Que era
muito divertido e muito
bom, era feito com muita
alegria, sabe? Só que era
bem ensaiadinho, coisa
bem feitinha, com muita
fé. Havia as menininhas
que tocavam violão...
	
Então eu resolvi
montar e montei: são oito
pastorinhas, uma Nossa
Senhora, um violeiro e
uma senhora de mais responsabilidade para cuidar
das meninas. Onde a gente
ia de casa em casa, cada
uma com um bastão. Era
lindo, lindo...
	
Eu tenho vontade
de fazer isso de novo, um
dia eu vou fazer, eu vou
montar de novo.
	
Onde a gente ia de
porta em porta. Cantava
pedindo a esmola, explicando que era para a barraquinha ou para a igreja.
E a gente pedia esmola, esperava receber o donativo,
que era falado esmola mesmo, que era esmola para a
igreja. Depois disso a gente
cantava agradecendo.
	
Era muito divertido. A gente chegava em
muitas casas, aquelas pessoas assim de bem idade,
recebiam a gente com o
maior carinho. A gente carregava um Menino Jesus, a
menina vestida de Nossa
Senhora carregava a imagem do Menino Jesus.
	
E nós íamos para
a zona rural, para as fazendas. Nos divertíamos muito porque as vacas corriam
atrás da gente... cachorros... a gente se perdia nas

Transcr ção

trilhas... Era muito divertido.
	
Só que era feito
com muita fé, às vezes a
gente rezava o terço no
caminho. Chegávamos em
algumas casa da zona rural,
eles davam um lanche para
as meninas. E com isso era
muito lindo, muito lindo...
	
É uma coisa que
não se pode deixar que
acabe. Eu acho que ainda
existe algum lugar de Minas em que eles ainda saem
com as pastorinhas. Deve
haver mais ou menos quatorze anos que eu saí com
um grupo de pastorinhas. Fomos ao Macuco,
Rosário, percorremos (a
cidade de) Itumirim inteirinha e a zona rural. Onde
angariamos bastante, mas
muito mesmo! Depois, no
final do dia eram contados
aqueles donativos e anotados em uma caderneta.
	
Na zona rural a
gente ganhava porco, galinha... Só que a gente não
tinha condição de carregar. Ia carro da prefeitura,
da igreja ou algum amigo
ia buscar pra gente, pra
conseguir dinheiro para a
construção das igrejas ou
reforma.

25
SOBRE A IMPORTÂNCIA DE NAO XINGAR PALAVRÃO

Transcr ção

LAZARINO FRANCISCO DE SOUSA

26

	
Então, é o seguinte: o gado...
Meu pai era sitiante, nós possuía muitos rebanho, tinha muita vaca, porco,
carneiro. Mas meu pai era muito nervoso e xingava muito nome feio. Levantava cedo, xingano nome feio. Lá em
casa num tinha, num tinha luz elétrica,
naquele tempo num tinha luz, era lamparina de querosene. Ele levantava, se a
lamparina apagava, ele jogava a lamparina no chão e metia o purrete nela até
amassá tudo. Aí, pegava ôtra.
	
Se uma vaca... ele ia tirar leite,
a vaca andava, ele pegava o purrete
e metia o purrete na vaca! E xingava
aquês nome feio, aquelas coisa.
	
Aí entrô uma coisa triste no
curral: as vaca, daqués vaca nova, bonita, comia uma fruta-de-loba lá, mor-

ria. Eu tinha uma vaca que dava trinta
litro de leite, chamava Criôla. Tinha
um bezerro que era uma maravilha! E
ela tava lá no curral, e ele acabou de
tirar o leite, tinha uma égua mansinha
que chamava Mulata. A égua deu um
coice no bezerro. O bezerro morreu
em cima ali... perdeu.
	
Ele foi veno aquilo, os pórco,
porco. Chegava lá o porco tremia, assim, começava a tremer, morria sem
sentir doença, sem sentir nada... Ele
chamô lá um home, um velho que
chamava sô Antônio, pra ir lá benzê. Que ele achô que... criditava em
macumba, achava que podia sê uma
coisa. O home tirô o chapéu, andô lá,
berando a casa, lá no curral. Falou:
	
- Óia, seu Hipólito, aqui

	
Então, é o seguinte:
	
- O gado... meu pai era sitiante, nós
possuíamos muitos rebanhos, tínhamos muitas vacas, porcos, carneiros. Mas meu pai era
muito nervoso e xingava muitos nomes feios.
Levantava cedo, xingando nome feio. Lá em
casa não havia luz elétrica, naquele tempo não
havia luz, era lamparina de querosene. Ele levantava, se a lamparina apagasse, ele jogava a
lamparina no chão e metia o porrete nela até
amassar toda. Aí, pegava outra.
	
Se uma vaca... ele ia tirar leite, se a
vaca andasse, ele pegava o porrete e metia o
porrete na vaca! E xingava aqueles nomes feios, aquelas coisas.
	
Aí entrou uma coisa triste no curral:
as vacas, daquelas vacas novas, bonitas, comia
uma fruta-de-loba e morria. Eu tinha uma vaca
que dava trinta litros de leite, chamava Crioula.
Tinha um bezerro que era uma maravilha! E
ela estava lá no curral. E ele acabou de tirar o
leite, tinha uma égua mansinha que chamava
Mulata, a égua deu um coice no bezerro. O
bezerro morreu em cima ali... perdeu.
	
Ele foi vendo aquilo, os porcos, porco.
Chegava lá o porco tremia, assim, começava a
tremer, morria sem sentir doença, sem sentir
nada... Ele chamou lá um homem, um velho
que chamava senhor Antônio, para ir lá benzer. Que ele achou porque... (ele) acreditava
em macumba, achava que podia ser uma coisa.
O homem tirou o chapéu, andou lá, beirando

não tem nada aqui. Aqui não tem
macumba, não tem male oiado, não
tem nada. A única coisa que tem aqui
é os nome feio que o senhor xinga
aqui. E judia muito com as criação.
Então, em tempo de o senhor xingá,
o senhor pede a Deus, o senhor reza.
	
E assim ele fez. Ele levantava carmo, parô com aquela xingação,
de judiá com as criação e foi progredino as coisa, nunca mais morreu
uma criação ali, não teve mais nada
ali.

a casa, lá no curral. Falou:
	
- Olha, seu Hipólito, aqui não tem
nada aqui! Aqui não tem macumba, não tem
mal olhado, não tem nada. A única coisa que
tem aqui é os nomes feios que o senhor xinga.
E judia muito com as criações. Então, em tempo de o senhor xingar, o senhor pede a Deus,
o senhor reza.

Fotos: Débora Resende
Transcr ção

A ESTÓRIA DA ALMA PENADA
	
Era uma moça muito bonita. Então um rapaz conheceu ela e
ficou doido por ela. Aí namorava e
tudo. Mas sempre, quando ele ia levar ela na casa dela, ela não deixava
ele chegá perto da casa dela. Chegava
numa altura do caminho, ela falava:
- Não, daqui cê volta porque meu pai
é muito bravo e ele não pode vê ninguém conversando comigo.
	
E também não beijava ele
tamém não. Nunca deixava ele dá um
beijo nela. Aí ele foi ficano intrigado
com aquilo. Quando chegô numa semana santa, era sexta-feira santa, aí
ele falô com ela - e não podia, é... na
sexta-feira santa, esses coisa que ês
fala: alma penada, lobisome, essas
coisa assim não podia saí - mas ele
	
-Era uma moça muito bonita. Então um rapaz a conheceu e
ficou doido por ela. Aí namorava
e tudo. Mas sempre, quando ele ia
levá-la em casa, ela não deixava ele
chegar perto de sua casa. Quando
chegavam numa altura do caminho,
ela falava:
	
- Não, daqui você volta
porque meu pai é muito bravo e ele
não pode ver ninguém conversando
comigo.
	
E também não beijava ele.
Nunca deixava ele dar um beijo
nela. Aí ele foi ficando intrigado
com aquilo. Quando chegou numa
semana santa, era sexta-feira santa,
aí ele falou com ela - e não podia,
na sexta-feira santa, essas coisas que
eles falam: alma penada, lobisomem,
essas coisas não podiam sair - mas
ele insistiu tanto com ela que ela
deixou... que ela saiu para encontrar
com ele. E também ele insistiu muito
quando foi levá-la para casa, para
ela deixá-lo ir com ela até na casa
e ela deixou. Então saíram de uma
rua próxima à rua do cemitério, entraram na rua do cemitério. E lá bem

insistiu tanto com ela que ela deixô...
que ela saiu pra encontrá com ele. E
também ele insistiu muito quando ele
foi levá ela pra casa, pra... pra ela, é...
deixá ele í com ela, até na casa e ela
deixô. Então saíro de uma rua próxima à rua do cemitério, entraro na rua
do cemitério. E lá bem no final da rua
era o cemitério.
	
Aí ela entrou no portão, e lá
dentro do cemitério tinha umas pessoas que morava lá, tinha casa. Aí
chegô perto de uma casa ele falou assim:
	
- É nessa casa que cê mora?
	
Ela falou assim:
	
- Não, é ali na frente.
	
E tinha um túmulo muito
bonito, muito enfeitado, aí nesse mo-

MARIA JOSÉ RIBEIRO

mento a tampa do túmulo abriu. E ela
abraçô nele e foi ficano, foi virano uma
múmia, só os ossos. Aí ele, muito assustado. E então é... ele sempre falava com
ela que, que ele queria ficar junto. E ela
respondia que eles iam ficar junto sim
pra eternidade, eternamente. E nessa
hora que ela abraçô ele, ela falou com ele
que:
	
- Uai! Ocê não qué ficá comigo
eternamente? Aí ele pegô e ficô com
muito medo e lembrô de uma oração
que afastava os mórto, que a vó dele
havia ensinado.
	
E ele pensô na oração e ela
soltô ele e ai ele saiu correndo. Só que
ele enlouqueceu de medo.
	
Quem contô a estória foi o coveiro do cemitério.

no final da rua era o cemitério.
	
Aí, ela entrou no portão, e lá
dentro do cemitério havia umas pessoas que moravam lá, havia casas. Aí
chegou perto de uma casa, ele falou
assim:
	
- É nessa casa que você
mora?
	
Ela falou assim:
	
- Não, é ali na frente.
	
E havia um túmulo muito
bonito, muito enfeitado, aí nesse momento a tampa do túmulo abriu. E ela
abraçou ele e foi virando uma múmia,
só os ossos. Aí ele, ficou muito assustado. E ele sempre falava com ela

que..., que ele queria ficar junto. E ela
respondia que eles iam ficar juntos
sim, eternamente. E nessa hora que
ela abraçou ele, ela falou com ele:
	
- Uai! Você não quer ficar
comigo eternamente? Aí ele pegou e
ficou com muito medo e lembrou de
uma oração que afastava os mortos,
que a avó dele havia ensinado.
	
E ele pensou na oração e ela
o soltou, ai ele saiu correndo. Só que
ele enlouqueceu de medo.
Quem contou a estória foi o coveiro
do cemitério.

27
O MARIDO QUE VENDEU A MULHER PRO DIABO
	
Havia um lugar que fabricava
um vinho muito bom. E tinha um lenhador - desses que corta lenha lá pro
mato. E... ele gostava muito de vinho,
e lá fabricava esse vinho muito bom. E
aí um dia ele tava lá cortando lenha e
pensando:
	
- Ô gente, eu gosto tanto desse
vinho que ês fabrica aí! E eu num ganho nada. O que eu ganho não dá nem
pá minha despesa e pá minha esposa.
Se o Diabo quisesse fazê um negócio
comigo eu fazia, pra mim tê dinheiro
pra comprá esse vinho.
	
Ah! Foi ele falá isso, o bichão
apareceu:
	
- Eu tô às suas ordem! Tem
aqui um saco de dinheiro, um saco de
ouro pr’ocê bebê o seu vinho à vontade. Ele ficou mei espantado com
aquilo, porque num fazia... pensá no
diabo pra arrumá o dinheiro e o diabo
aparecê. Ele ficô mei sem jeito e tudo.
E o diabo:
	
- Não! Não precisa ter medo
não! Só tem uma coisa, o que eu vou
exigir é só isso: a hora que ocê fô embora, que ocê apontá no morro lá, que
vê a sua casa, o que tivé na... a primeira
coisa que cê enxergá na porta da sua
casa, cê traz pra mim, é só! Não precisa
mais nada. E pode bebê seu vinho aí,
tem dinheiro que dá pr’ocê bebê vinho
até... a vida inteira.
	
Ele pensô assim:

28

	
- Ah, lá na porta da minha casa
o que eu vou enxergá lá é uma cachorrinha magra que eu tenho... ou uma gatinha... umas galinhinha... não tem problema não!
	
E foi. Quando ele apontô, que
viu a casa, a esposa dele na porta! Ele
perdeu o jeito, mas perdeu o jeito de
uma vez.
	
- E agora? Mas o jeito que tem
é levá a esposa. Porque se eu não levá
a esposa, eu é que vou morrê. O trato
dele lá é esse.
	
E chegô em casa sem jeito, falô
pra esposa:
	
- Amanhã cê vai comigo lá,
pr’ocê ajudá a empilhá a lenha. Ela
achou mei esquisito aquilo porque ela
tinha ido lá há pouco tempo, né? Pilhado... Agora tornô chamá... Ela ficou
mei sem jeito com aquilo, mas aceitô e
foi. Ele falô pra ela:
	
- Cê vai lá na mula, que ela tá
meiguinha e eu vou a pé.
	
E pegou a mula e tudo no outro dia, e foi, a esposa muntou e ele foi.
	
E a esposa dele costumava rezá
numa igrejinha que tinha perto da casa
onde ês morava, no caminho tinha uma
igrejinha, de vez em quando ela costumava rezá lá. Quando chegô perto dessa igrejinha ela falô pra ele:
	
- Espera um pouquinho aqui,
que eu vô ali rezá uma Ave Maria e vorto, num demoro não.

JOSÉ OMAR JUNQUEIRA
	
Foi e vortô logo. Muntô na
mula e foi embora. Quando foi chegando lá ele já viu o bichão lá. Lá,
com o esporão! Raspava aquela espora no chão:
	
- Opa! Hoje eu tô feito!
	
Quando chegô perto, o
bichão olhô na cavaleira assim:
	
- Num é essa não! Num é
essa não e coisa! Num é essa não!
	
- É essa mêmo uai, minha
esposa é essa aí.
	
E deu aquele estouro, deixô
um cheiro de enxofre lá e sumiu! Ele
vortô do susto... - É... Eu trouxe a
esposa, ele num quis! Agora eu fico
com o dinheiro. E a esposa. Fico
com o dinheiro e a esposa.
	
Já, ela num chegô nem descê
do cavalo, ele pegô na rédea e puxô e
foi embora. Quando chegô na igreja,
ela disse pra ele:
	
- Cê espera um pouquinho
aqui, vô rezá uma Ave Maria e vorto.
E foi... Mas chegô lá e não vortava
nunca! Uma hora, duas... e ele incomodado:
	
- Gente! E nem... e nem o
meu fumo eu trouxe... e palha pá fazê
um cigarro... e essa mulher não vem
nunca. O jeito é ir lá, ir lá ver o quê
que ela tá fazeno.
	
Quando chegou lá ela tava
deitada, ele foi e chamô:
	
- Ô, mas eu tô pensano que
cê ta rezano, cê ta deitada dormino
aí?
	
Ela acordô e falô pra ele:
	
- Ô, mas ocê me acordô
numa hora ruim! Eu tava sonhano
que ocê me vendeu pro diabo! E eu
cheguei aqui, Nossa Senhora falô pra
mim: “Fica aqui fia, que o seu marido
vendeu ocê pro Diabo, e eu vou no
seu lugar!”
	
Muntou na... Aí ela levantô,
muntô na mula e foi. E aí ele pegô
o saco de dinheiro e jogô lá... fora
e converteu. Não quis sabê mais de
ouro pra bebê cachaça não. Nossa
Senhora sarvô a esposa dele, sarvô
por causa da reza dela de todo dia.

Fotos: Débora Resende
Transcrição
	
Havia um lugar em que fabricavam um vinho muito bom. E havia um
lenhador desses que cortam lenha lá no
mato. E ele gostava muito de vinho, e lá
fabricavam esse vinho muito bom. E aí um
dia ele estava lá cortando lenha e pensando:
	
- Ô gente, eu gosto tanto desse
vinho que eles fabricam aí! E eu não ganho
nada. O que eu ganho não dá nem para
minha despesa e para minha esposa.
	
Se o Diabo quisesse fazer um
negócio comigo eu faria, para eu ter dinheiro para comprar esse vinho.
Ah! Foi ele falar isso, o bichão apareceu:
	
- Eu estou às suas ordens! Tem
aqui um saco de dinheiro, um saco de ouro
para você beber o seu vinho à vontade. Ele
ficou meio espantado com aquilo, porque
não imaginava que pudesse pensar no
Diabo para arrumar o dinheiro e o Diabo
aparecer. Ele ficou meio sem jeito e tudo.
E o diabo:
	
- Não! Não precisa ter medo não!
Só tem uma coisa, o que eu vou exigir é só
isso: a hora que você for embora, que você
apontar no morro lá, que ver a sua casa, a
primeira coisa que você enxergar na porta
da sua casa, você traz pra mim, é só! Não
precisa mais nada. E pode beber seu vinho
aí, tem dinheiro que dá para você beber
vinho a vida inteira.
	
Ele pensou assim:
	
- Ah, lá na porta da minha casa
o que eu vou enxergar é uma cachorrinha
magra que eu tenho, ou uma gatinha, umas
galinhinhas, não tem problema não!
	
E foi. Quando ele apontou, que
viu a casa, a esposa dele na porta! Ele perdeu o jeito, mas perdeu o jeito de uma vez.
	
- E agora? Mas o jeito que tem é
levar a esposa. Porque se eu não levar a esposa, eu é que vou morrer. O trato dele lá
é esse.
	
E chegou em casa sem jeito, falou
para esposa:
	
- Amanhã você vai comigo lá, para
você ajudar a empilhar a lenha. la achou
meio esquisito aquilo porque ela tinha ido
lá há pouco tempo, não é? Empilhado...

Agora voltou a chamar... Ela ficou meio
sem jeito com aquilo, mas aceitou e foi. Ele
falou pra ela:
	
- Você vai lá montada na mula,
porque ela está mansinha, e eu vou a pé.
	
E pegou a mula e tudo no outro
dia, a esposa montou e ele foi.
E a esposa dele costumava rezar em uma
igrejinha que havia perto da casa onde eles
moravam, no caminho havia uma igrejinha, de vez em quando ela costumava rezar
lá. Quando chegaram perto dessa igrejinha
ela falou pra ele:
	
- Espera um pouquinho aqui, que
eu vou ali rezar uma Ave Maria e volto, não
demoro.
	
Foi e voltou logo. Montou na mula
e foi embora. Quando foram chegando lá,
ele já viu o bichão lá. Lá, com o esporão!
Raspava aquela espora no chão:
	
- Opa! Hoje eu estou “feito”!
	
Quando chegou perto, o bichão
olhou na cavaleira assim:
	
- Não é essa, não! Não é essa, não,
e coisa! Não é essa não!
	
- É essa mesmo uai, minha esposa
é essa aí.
	
E deu aquele estouro, deixou um
cheiro de enxofre lá e sumiu!
	
Ele voltou do susto... - É... Eu
trouxe a esposa, ele não quis! Agora eu fico
com o dinheiro. E a esposa. Fico com o
dinheiro e a esposa.
	
Já, ela não chegou nem a descer

JOSÉ OMAR JUNQUEIRA
do cavalo, ele pegou a rédea e puxou e
foi embora. Quando chegou na igreja,
ela disse para ele:
	
- Você espera um pouquinho
aqui, vou rezar uma Ave Maria e volto.
E foi. Mas chegou lá e não voltava nunca! Uma hora, duas... e ele incomodado:
	
- Gente! E nem o meu fumo eu
trouxe, e palha para fazer um cigarro. E
essa mulher não vem nunca. O jeito é ir
lá ver o que ela está fazendo.
	
Quando ele chegou lá, ela estava deitada, e ele a chamou:
	
- Ô, mas eu estou pensando que
você está rezando, você está deitada dormindo aí?
	
Ela acordou e falou para ele:
	
- Ô, mas você me acordou em
uma hora ruim! Eu estava sonhando
que você me vendeu para o Diabo! E eu
cheguei aqui, Nossa Senhora falou para
mim: “Fica aqui filha, que o seu marido
vendeu você para o Diabo, e eu vou em
seu lugar!”.
	
Aí ela levantou, montou na
mula e foram. E aí ele pegou o saco de
dinheiro e jogou fora e se converteu.
Não quis saber mais de ouro para beber
cachaça não. Nossa Senhora salvou a esposa dele, salvou por causa da reza dela
de todo dia.

29
O CASO DO PEAO PAULINO
Balbino de Souza Rezende
	
Antigamente, aqui em
Carrancas, pareceu um peão
argentino aí. Chamava Paulino
Franco, aí veio mansar tropa,
mansá tropa nas fazenda aí.
Ficô aí, ficô mais de um ano aí
mansando tropa. E muito esperto, muito ativo, louco, era
forçoso...
	
Aí ficô gostano de uma
moça na fazenda aí, né? Ela
chamava Jorgina. Aí começô um
namorico lá e ele pediu ela em
casamento. Naquele tempo o
namoro era bem... os pai parpitava muito, a famía, né? Dava
muito parpite e tudo, né? Mas
ele ficô gostano dela, ela era
uma costureira, aí pediu ela em
casamento, mas não sabe por
que... a famía não aceitô. Não
quis o casamento dela com o
peão Paulino não.
	
Aí quando foi na festa
aqui de dezembro, todo ano faz
a festa em dezembro aqui. Em
mil oitocentos e noventa e dois,
dezembro de mil oitocentos e
noventa e dois! Aí muita barraca
na rua, aquele movimento de
gente, era muito animada a festa,
né?
	
De repente, pusero lá,
não sabe quem que pusero, uma
tabuinha envernizadinha, arrumadinha com o nome né? Com
o nome do peão.
	
Quando o leiloeiro
gritô lá, botô no leilão, e veio,
ninguém pôs lance não né? Mas
o leiloeiro já veio com a tábua
e entregô pro peão, né? Uma
tabuinha bonitinha assim com o
nome dele, né?
	
Aí ele não sabia do costume não, ele era argentino. Aí:
	
- Pra quê? O quê que
representa essa tábua aí?
	
Ês riro muito dele, que
a turma do lugá já sabia, né? Da
história... Aí um virô pra ele e
falô:
	
- Não, isso aí é as-

30

sim: quando um rapaz pede
em casamento pra uma moça
que não aceita, ês fala: “Leva a
tábua! Toma a tábua!”
	
Levou a tábua.
	
Ê... mas o rapaz ficou
envenenado! Nossa! O peão foi
na lua e vortô. Num aceitô a
história nem vê.
	
E quando foi de noite,
no outro dia ia ter um leilão,
teve leilão e depois teve uma
festa, um baile, no casarão, ainda
existe até hoje lá na praça, lá embaixo, né? O casarão da família
do Coronel Rozendo.
	
Aí ele arrumô direitim
tudo, aprontô, pra vingá da
moça. Aí quando foi certa hora
ele – dizem que tava dançano
com a moça, outros fala que
não tava – quando a moça foi
passano perto, ele punhalô ela.
Ele era muito treinado, esperto,
ativo, né? E foi uma facada só,
a moça logo, logo caiu e morreu mêmo. Quando ês cataro no
chão já tava morta.
Aí foi aquele arvoroço e tudo
lá, no salão. E ele encostô na
parede com a faca, com o punhal na mão, e ninguém chegava
perto dele. Í... mas ficô valentão
mêmo!
	
Aí quando foi certa
hora, um home, um fazendêro
que tava dormino, viu o arvoroço, acordô, né? Veio por trás
escondido, pegô a tranca da
porta, deu uma trancada na cabeça dele! Aí ele bambeô e jogô
no chão, né?
	
Aí ês pegaro, chegaro,
marraro, marrô ele tudo, né? E
começô a judiação, até no ôtro
dia! Mas o home num morria
nem vê, sô! Ele era muito forte,
né? E até falaro que ele tinha
pacto com o Coisa-ruim, antigamente usava essas coisa, né?
E quando ele, pôs ele lá no
terreiro lá, marrô depois levô,
marrô deitado, depois levô pra

praça. Tinha um cruzêro na praça
ali em baixo, né? Marrô ele no pé
do cruzeiro, um cruzêro muito
forte tamém, uma maderona
grossa, né? Aí... mas... judiava!
Dava tiro no home, mas o home
não morria nem vê.
	
Aí foi priciso, uma dona
muito religiosa é que trouxe uma
vela benta, uma bala benta, né?
Passô na vela da igreja, aí conseguiu terminá com ele, né?
	
Mas ó: mesmo assim
ainda correu com ele pra cidade
inteira. Falava que ia até quemá
o corpo! Depois um fazendêro
da época num aceitô não, quemá
não.
	
Fizero um túmulo, uma
sepultura pra ele de fora da igreja
- aí depois dismanchô - de fora
do cemitério, né? E enterrô ele lá.
Fez lá um túmulo, pôs um monte
de pedra assim, né?
	
Aí ês fala que até quem
pegava caso difícil pá resorvê,
pegava com a “arma” dele e era
atendido, diz que recebeu até
graça com a “arma” do peão
Paulino.
	
Agora, isso foi em mil
oitocentos e noventa e dois, já
tem muitos anos, né? Cento e
tantos anos, né? Mas até hoje o
povo lembra dessa história, num
esquece. Conteceu aqui em Carrancas e esparramô aí por roda,
por Minas Gerais inteira aí né?
Na época foi uma novidade muito grande, uma brutalidade dessa,
umas coisa esquisita, né?
Transcrição
	
Antigamente, aqui
em Carrancas, apareceu um
peão argentino. Chamava-se
Paulino Franco, aí ele veio
amansar tropas, amansar
tropas nas fazendas. Ficou
aí, ficou mais de um ano aí
amansando tropas. E muito
esperto, muito ativo, louco,
era forçoso...
	
Aí ficou gostando de
uma moça na fazenda. Ela se
chamava Jorgina. Começaram um namorico e ele pediu
ela em casamento. Naquele

tempo o namoro era bem...
os pais palpitavam muito, a
família. Davam muito palpite
e tudo, não é? Mas ele ficou
gostando dela, ela era uma
costureira. Aí ele pediu ela
em casamento, mas não se
sabe por que, a família não
aceitou. Não quis o casamento dela com o peão Paulino
não.
	
Quando chegou a
festa de dezembro, todo ano
se faz a festa em dezembro
aqui. Em mil oitocentos e
noventa e dois, dezembro
de mil oitocentos e noventa
e dois! Aí, muita barraca na
rua, aquele movimento de
gente, era muito animada a
festa.
	
De repente, puseram lá, não se sabe quem
pôs, uma tabuinha envernizadinha, arrumadinha com
o nome né? Com o nome do
peão.
	
Quando o leiloeiro
gritou lá, botou no leilão, e
veio, ninguém pôs lance não
né? Mas o leiloeiro já veio
com a tábua e entregou para
o peão, né? Uma tabuinha
bonitinha assim com o nome
dele. Aí ele não sabia do costume não, ele era argentino.
	
- Pra quê? O quê
representa essa tábua aí?
	
Eles riram muito
dele, porque a turma do lugar
já sabia, né? Da história... Aí
um virou para ele e falou:
	
- Não, isso aí é assim: quando um rapaz pede
em casamento pra uma
moça que não aceita, eles
falam: “Leva a tábua! Toma a
tábua!”
	
Levou a tábua.
	
Ê... mas o rapaz ficou envenenado! Nossa! O
peão foi na lua e voltou. Não
aceitou a história de jeito

nenhum.
	
E quando foi a
noite, no outro dia teria um
leilão. Teve leilão e depois
teve uma festa, um baile, no
casarão, ainda existe até hoje,
lá na praça, lá embaixo. O
casarão da família do Coronel Rozendo.
	
Aí ele arrumou tudo
direitinho, aprontou, para se
vingar da moça. Quando foi
certa hora ele – uns dizem
que estava dançando com a
moça, outros falam que não
estava – quando a moça foi
passando perto, ele a apunhalou. Ele era muito treinado,
esperto, ativo, né? E foi uma
facada só, a moça logo, logo
caiu e morreu mesmo. Quando eles pegaram ela no chão,
já estava morta.
	
Aí foi aquele alvoroço e tudo lá, no salão. E ele
encostou-se à parede com a
faca, com o punhal na mão, e
ninguém chegava perto dele.
Í... mas ficou valentão mesmo!
	
Quando foi certa
hora, um homem, um fazendeiro que estava dormindo, viu o alvoroço e acordou. Veio por trás escondido,
pegou a tranca da porta, deu
uma trancada na cabeça dele!
Aí ele bambeou e caiu no
chão.
	
Aí eles pegaram,
chegaram, amarraram, amarrou ele todo, né? E começou
a judiação, até no outro dia!
Mas o homem não morria de
jeito nenhum! Ele era muito
forte. E até falaram que ele
tinha pacto com o Coisaruim, antigamente era normal essas coisas.
	
E quando puseram
ele lá no terreiro, amarraram
ele deitado e depois levaram para a praça. Havia um

cruzeiro na praça ali em
baixo. Amarraram ele no
pé do cruzeiro, um cruzeiro muito forte também,
uma madeirona grossa. E
judiavam! Davam tiros no
homem, mas o homem
não morria de jeito nenhum.
	
Então foi preciso,
uma dona muito religiosa
é que trouxe uma vela
benta, uma bala benta, né?
Passaram na vela da igreja,
aí conseguiram terminar
com ele, né?
Mas mesmo assim ainda
correram com ele pela cidade inteira. Falavam que
iriam até queimar o corpo!
Depois um fazendeiro da
época não aceitou queimar não.
	 Fizeram
um
túmulo, uma sepultura
para ele de fora da igreja
- aí depois se desmanchou
- de fora do cemitério, né?
E enterraram ele lá. Fizeram lá um túmulo, colocaram um monte de pedras.
	
Eles falam que até
quem pegava caso difícil
para resolver, pegava com
a alma dele e era atendido,
dizem que recebiam até
graça com a alma do peão
Paulino.
	
Agora, isso foi
em mil oitocentos e noventa e dois, já tem muitos
anos. Cento e tantos anos,
né? Mas até hoje o povo se
lembra dessa história, não
se esquece. Aconteceu
aqui em Carrancas e esparramou-se pelas redondezas, por Minas Gerais
inteira. Na época foi uma
novidade muito grande,
uma brutalidade dessas,
umas coisas esquisitas.

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GLOSSÁRIO
ABUSÕES: superstições.
ADRO: pátio.
ALAZÃO: diz-se do cavalo que tem
cor de canela.

ALFAIA: Utensílio de uso ou adorno
doméstico.

BAIÚCA:
bodega.

pequena taberna ou casa;

BARBICACHO: cordel que prende

LOGRADO: enganado, iludido.
LUSTRO: o espaço de cinco anos.
MAROTO: malicioso; brejeiro; lascivo.
MARRECO: astuto; sagaz.
MATULA: corja.
MODORRENTO: estúpido.
MOTE: conceito de ordinário expresso

o chapéu ao queixo.

num dístico ou numa quadra; para ser glosado; tema; epígrafe.

CACATEADO: importunado.

a pele do carneiro com a lã
que serve de forro ao assento do lombilho
ou no

BURLÃO: enganador; trapaceiro.

PELEGO:

CACHAÇÃO: pescoção, pancada na

EMBORNAL DE CAUSOS a me-

parte posterior do pescoço;

CACHACEIRO:

aquele que se embriaga com cachaça; arrogante, soberbo;

CATITA: enfeitado; elegante; bonito.
CHALEIRAR: bajular; adular.
CHILREIO: ato de chilrear; sons

moria do cotidiano
serigote.

PERQUIRIR: pesquisar, inquirir minuciosamente.

PIASSAVA:

agudos e estridentes dos pássaros.

(piaçava) nome de duas
palmeiras que produzem fibras empregadas
no fabrico de vassouras.

sem grão; seco.

RELHO:

Circunstante: pessoa que está presente.

ROSETA: roda dentada da espora.
SÓTA: dama, nas cartas de jogar.
SUÇUARANA: animal carniceiro

CHOÇA: choupana; cabana; rancho.
CHOCHO: sem suco; sem miolo;
CHUMBADO: embriagado.
CHUPADO: embriagado.

DESDITA: desventura.
DESVELO: cuidado.
ESPAVENTO: espanto; susto.
ESPORA: instrumento de metal

extravagância.

FACETO:
faceto.

estroinice; travessura;

chistoso; alegre; gracioso;

FAMULAGEM: criadagem.
GINETE: cavalo de montar.
HILARIDADE: alegria; riso;
tade de rir.

azorrague feito de couro torcido; cinturão; fivelão; cinto.

da
família dos felídeos; puma; onça vermelha.
tábuas.

von-

assoalho;

tapume

de

TIRADOR: tira de couro que os laçadores põem ao redor da cintura quando
laçam a pé.

TOLDA: turva.
TREMENTE: que treme; trêmulo.
TROPELIAS: desordem; confusão; tumulto.

LODAÇA: lábias; astúcias; gabolices.
40

designativo do cavalo escuro
com testa ou pés brancos.

TABUADO:

que
se põe no tacão do calçado para incitar o
animal que se monta.

ESTÚRDIA:

PICAÇO:

VANTE: proa
VOLUTUOSO: sensual
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASCUDO, Luís da Câmara; ANDRADE, Mario de, Cartas, 1924 – 1944. Organizador:
Marcos Antonio de Moraes. São Paulo: Global, 2010.
______, Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: MEC, 1954.
______, Literatura Oral no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora/ MEC,
1978a.
______, Seleta. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
DETIENNE, Marcel, Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor.
ELIADE, Mircea, O sagrado e o Profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa.
Curitiba: Positivo, 2004.
LE GOFF, Jacques, História e Memória. Tradução Bernardo Leitão... [et al.]. Campinas:
Editora da Unicamp, 2003.
ORIÁ, Ricardo. Memória e ensino de História. BITTENCOURT, Circe (Org.). O saber
histórico na sala-de-aula. São Paulo: Contexto, 1997.
TEIXEIRA, Simonne; VIEIRA, Silviane de Souza... [et al.], Educação patrimonial: novos
caminhos na ação pedagógica. Campos dos Goytacazes: EDUENF. 2006
Informações do IPHAN disponíveis em: http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do;jsessionid=092730D01A132E79E32EBCBE412DF280?id=10852&retorno=paginaIp
han

41
Número de ISBN
978-85-8141-046-3

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A oralidade na preservação da cultura

  • 1.
  • 2.
  • 3. UFSJ – UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL REI REITOR Valéria Heloísa Kemp VICE-REITORA Sérgio Augusto Araújo da Gama Cerqueira PRÓ-REITOR DE EXTENSÃO E ASSUNTOS COMUNITÁRIOS Prof. Paulo Henrique Caetano CHEFE DE DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E MÉTODOS Prof. Dr. Antônio Rogério Picoli COORDENADOR DO CURSO DE FILOSOFIA Prof. Dr. Fábio Barros Silva COORDENAÇÃO GERAL DO PROJETO Prof. Drª. Glória Maria Ferreira Ribeiro (DFIME) EQUIPE DE EXECUÇÃO Daniela da Conceição Diniz Débora Cristina Resende Etienny Natya Fonseca F Trindade Isabela Alline Oliveira Lucas Bertolino dos Santos Nilson Anderson Lemos EQUIPE DE APOIO Fernanda Senna Monique Kelly da Cunha AGRADECIMENTOS Balbino de Souza Rezende José Omar Junqueira Juvenal José de Sousa Lazarino Francisco de Sousa Luiz de Ávila e Silva Maria Aparecida Sales Ribeiro Maria José Ribeiro Nagibe Francisco Murad Raul Nogueira do Nascimento Sebastião Vicente da Silva
  • 4. A oralidade é a ferramenta, que, culturas no mundo inteiro e em todas as épocas, utilizam para exprimir eventos reais ou fictícios em palavras e sons. A denominação de Literatura oral é de 1881, tendo sido criada por Paul Sébillot com a sua Littérature Oral de Ia Haute-Bretagne embora a definição concreta tenha ocorrido muito depois. “La littérature orale comprend ce qui, pour Le peuple qui net lit pás, remplace les productions litéraires”.* Essa literatura são as estórias contadas nas fazendas e cidades por peões e por gente comum, são as cantigas de roda ou de acalanto, músicas de domínio popular, poemas, lendas, jogos de adivinhações, entre outros generos. Contadas e recontadas de geração em geração, essas narrativas preservam a história de um povo, seus costumes, suas crenças, seus conhecimentos. Segundo o professor Luís da Câmara Cascudo, as narrativas tradicionais não têm somente a finalidade de distrair ou fazer dormir as crianças, seu principal objetivo é passar os ensinamentos morais e religiosos do grupo. Mas também são resguardados outros aspectos da cultura popular como cura a partir de plantas medicinais, hábitos alimentares, técnicas de plantio entre outros saberes e fazeres. O importante é que esse tipo de literatura ensina de forma diferente, pois quem aprende não aprende de forma passiva, as expressões da literatura oral são estimulam o raciocínio e a curiosidade, ela recebe o ensinamento e reage a ele, dialoga com ele modificando-o. O conhecimento passado pela literatura oral é do tipo mais imediato; absorvido rapidamente são os primeiros ensinamentos recebidos (através de pessoas mais próximas), que se usa para dar sentido ao mundo. Suas características são a impessoalidade e a atemporalidade isso, quer dizer que, nas obras orais não conseguimos saber definidamente quem as criou e em que época. Dessa forma, elas se perpetuam no tempo, mas nunca da mesma forma. Muito mais que só lembrar-se do passado, a literatura oral quando contada é comemorada, revivida sempre de forma diferente, de modo que, quem as ouve pode reviver o passado no presente e refletir sobre sua ação futura. Cascudo indica que existe em toda e qualquer sociedade duas formas de cultura paralelas: a oficial e a nãooficial. A oficial é regular que acontece sempre em um lugar próprio (em nosso tempo são mais comuns nas escolas) ou ensinadas pelos sacerdotes e conta sempre com certo tipo de autoridade em relação a quem aprende, a não-oficial seria justamente a literatura oral. Com isso faz-se extremamente necessário inserirmos a literatura oral no ambiente escolar, não no intuito de * Linguagem e cultura: múltiplos olhares - Biblioteca Digital. transformá-la em oficial ou instituir a escola como o local de morada desse tipo de literatura, mas despertar no educando um sentimento de reconhecimento de sua própria cultura, fazer se afirmarem através dos costumes de seu povo e se enxergarem como agentes construtores e constituidores da realidade. Além disso, os contos e estórias populares, cantigas, charadas, entre outros são ótimas ferramentas para a transmissão do conteúdo, por seu caráter lúdico e interdisciplinar. Nilson Anderson Lemos
  • 6. EDITORIAL Existência, Memória e Patrimônio A memória deve ser antes a dimensão de celebração de comemoração da própria existência. Isto porque para podermos preservar o patrimônio cultural de um povo é preciso, antes de mais nada preservar a própria existência humana, a própria dinâmica de manifestação da vida. “O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” ( Rosa, Guimarães. Grande Sertão: Veredas”). Existência que está sempre se fazendo, se retomando desde o jogo do tempo que a constitui. Tempo que escreve a história na qual os destinos se cruzam, se entrecruzam e se realizam. A cada época dessa história a existência se retoma, se reapropria de si mesma, de seu ser, de um modo novo e sempre velho. Velho porque são sempre as mesmas possibilidades de ser e novo porque a existência sempre descobre um outro modo de se apropriar de si mesma, de interpretar-se. Deste modo, cada uma época da história se mostra como um modo possível de elaborar a questão sobre a existência do homem. Existência compreendida desde a relação íntima e indissociável do homem com o seu mundo – mundo que se revela no comércio cotidiano com as coisas e com os outros. A cidade se mostra como a trama concreta na qual esse comércio com o mundo se deixa ver, tornando-o tangível. Trama que sempre de novo se renova, se utilizando sempre dos mesmos fios. Sendo assim,todo trabalho que vise a preservação do patrimonio cultural de um povo deve, antes de mais nada, viabilizar condições para que essa existência se mantenha. Por isso, em nossas reflexões sobre a Educação Patrimonial, estamos tendo sempre como elemento norteador o próprio cultivo da existência humana, ao propormos ações que celebrem (lembrem em conjunto, que co-memorem) a nossa condição que é a de estarmos sempre “afinando e desafinando”. As nossas cartilhas são uma tentativa de celebração desse nosso modo de ser cotidiano – do qual faz parte o ato de comer, de celebrar o divino, de contar estórias. É celebrar isso é deixar que as pessoas brilhem porque “gente é feita para brilhar” – seja o mediante o suor no corpo do trabalhador, seja no brilho nos olhos da criança ao perceber o caráter extraordinário do mundo, que faz com que ele possa sempre ser reinventado (reinventado pelas brincadeiras de fundo de quintal, pelo trabalho dos homens, pelo esforço e empenho dos meus iestimáveis bolsistas de extensão. Gente é para brilhar! Glória Ribeiro “O Senhor ... mire veja: o mais importante e bonito , do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam” (Rosa,Guimarães. Grande Sertão: Veredas”) 6
  • 7. “Quando eu estiver velho, gostaria de ter no corredor da minha casa Um mapa de Berlim com legenda Pontos azuis designariam as ruas onde morei Pontos amarelos, os lugares onde moravam minhas Namoradas Triângulos marrons, os túmulos nos cemitérios de Berlim onde jazem os que foram próximos a mim E linhas pretas redesenhariam os caminhos no Zoológico ou no Tiergarten que percorri conversando com as garotas E flechas de todas as cores apontariam os lugares nos arredores onde repensava as semanas berlinenses E muitos quadrados vermelhos marcariam os aposentos Do amor da mais baixa espécie ou do amor mais abrigado do vento”. Walter Benjamin, “Fragmento”, 1932 “Quando eu morrer quero ficar, Não contem aos meus inimigos, Sepultado em minha cidade, Saudade. Meus pés enterrem na rua Aurora, No Paiçandu deixem meu sexo Na Lopes Chaves a cabeça Esqueçam O nariz guardem nos rosais, A língua no alto do Ipiranga Para cantar a Liberdade. Saudade... Os olhos lá no Jaraguá Assistirão ao que há de vir, O joelho na Universidade, Saudade As mãos atirem por aí, Que desvivam como viveram, As tripas atirem pro Diabo, Que o espírito será de Deus Adeus”. (Mario de Andrade, ao escrever sua Lira Paulistana (1944) 7
  • 8. APRESENTAÇÃO Em diferentes contextos sociais e em distintas épocas históricas o termo cultura foi, e vem sendo utilizado de diferentes formas, para falar dos hábitos de vida do homem, entretanto seu uso indistintamente carrega uma concepção ideológica de seu significado. Dentre essas concepções de cultura podemos perceber que muitas pessoas associam a cultura a algo que se adquire ou que se pode obter. O perigo desse tipo de compreensão e de que a cultura acabe assumindo um caráter de mercadoria na sociedade. Quando se pensa a cultura desde essa concepção, ela deixa de ser associada aos hábitos de vida do homem que lhe são naturais, e passa a ser associada à algo que o homem pode adquirir como um simples conjunto de bens. Adquirir cultura significa o mesmo que poder possuir um carro, uma casa, ou ter uma rica biblioteca. Logo aque- 8 les que não podem ter capital financeiro o suficiente para enriquecer seu legado cultural são tidos como ignorantes, pessoas sem cultura, que estão separadas das outras na sociedade por essa condição. Daí surge os desníveis de cultura, que são fruto da divisão cultural entre as pessoas. Sobre isso Alfredo Bosi em seu livro Cultura Brasileira: tradição/ contradição nos diz: “Quer dizer que as pessoas que tem cultura devem exibir certos tipos de comportamento, e devem ser poupadas de certas ações. Logo aprece a divisão, os que tem cultura de um lado, e os que não tem cultura de outro. A cultura dá a aureola da diferença’’. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 35). Considerar a cultura como um conjunto de coisas que se pode possuir é a principal característica da chamada cultura reificada, pois a cultura deixa de ser entendida como um processo que segue a linha sutil da existência humana, para ter seu significado concebido fora dessas vivências humanas. Logo o que antes se remetia as relações sociais entre os homens passa a ser associado a uma relação entre homens e coisas. Assim sendo, o que era uma ideia fruto da relação entre homem e a sociedade, passa a ser apenas uma relação entre homens e objetos. E a cultura que era a pura e simples expressão da minha condição humana, passa a ser vista como um objeto fora de mim. “Na sociedade de massa as pessoas sempre estão diante de objetos da tecnologia mesmo que não sejam a obras de arte. O fato delas não participarem da construção do objeto, porque são obra de uma indústria especializada, apesar delas comprarem vender e, estabelecer relação de uso, elas não compreendem seu mecanismo interno, alienação. Eu possuo um objeto mais não compreendo como ele funciona”. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 37). Podemos ver expressa em várias esferas da sociedade essa concepção, pois a cultura está sempre ligada ao que tem que ser visto, apreciado, preservado e mantido tal como é sem que se leve em consider- ação a relação direta com o cotidiano, porque nesse tipo de compreensão do que seja a cultura, as coisas e ações do cotidiano não são consideradas bens culturais.Cultura como ação e trabalho. Repensar o ideário de cultura difundido em nossa sociedade é essencial para que possamos falar de uma sociedade democrática, e assumir dessa forma uma prática coerente. Para isso nossos esforços devem direcionar-se em desconstruir, em nosso espírito e na sociedade, a ideia de cultura como objeto. É necessário repensarmos essa terminação de cultura como mercadoria, pois ela é segregadora, e faz com que existam níveis de cultura e distinção entre aqueles que possuem cultura e os outros que dela são destituídos. Por isso, ao repensarmos a noção de cultura desde a própria condição da existência humana, estaremos indiretamente contribuindo para repensar a distinção de classes.
  • 9. Isto porque desde essa concepção de cultura como mercadoria, teríamos que somente aqueles que possuem bens culturais, seriam cultos;enquanto que aqueles que não possuem condições financeiras para possuí-los, não têm cultura. Para que torne possível redimensionar a noção de cultura é necessário considerar todos os momentos do processo produtivo e não somente ao produto (o bem) cultural que é seu resultado. A concepção que nos guia em nossas atividades extensionistas, é aquela que desloca a ideia de cultura como mercadoria, para uma concepção de cultura que diga respeito diretamente à relação que o homem estabelece com o meio onde vive – meio no qual ele estabelece as relações sociais que propriamente o constitui. Portanto a obra (enquanto o produto cultural elaborado nas relações sociais entre homens) é aquela que exprime exatamente o próprio trabalho enquanto processo e resultado. Um projeto de cultura explicito através das dimensões da memória e identidade O termo cultura diz respeito de ao conjunto de saberes, crenças, leis, costumes e todos os outros hábitos e modos de vida de um povo. De origem latina, a palavra cultura deriva do verbo colo, significando, “eu cultivo”, referenciando particularmente, o cultivo do solo e da terra, sendo, portanto, o cuidado que se mantinha com aquilo que se pretendia cultivar. Quando se pensa em cultura, pensa-se em um processo que vem sendo trabalhado há muitos anos, há séculos, que se recebe e se transmite de geração a geração. Do mesmo modo a palavra cultus, diz respeito ao verbo colo, que traz em si a determinação de cultura que nos interessa, pois nos remete a importância da memória no processo de constituição da identidade do individuo. A cultura é compreendida como o conjunto de técnicas, práticas e valores que se devem transmitir às novas gerações. No uso cotidiano, falamos em memória nos referindo ao arquivamento de fatos passados, a “faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente”. Dessa forma, lembrar é um fenômeno individual. Porém, podemos compreender a memória fora de seu conceito usual, como um fenômeno coletivo; a memória como o fruto da construção coletiva e submetida a transformações e mudanças constantes. Se a cultura é algo que se busca transmitir às novas gerações, e necessário que tenhamos um projeto, um caminho a oferecer as “novas gerações”, e isso acontece, na junção do que foi com o que é, e o que se pretende ser, da mesma forma, o ponto de encontro entre passado, presente e futuro. Por isso, Bosi nos fala sobre o verbo cultus, não sendo somente a lembrança do labor presente, mais do conjunto de coisas que possibilitaram que esse labor, se tornasse presente, e de um projeto implícito na sua realização. A respeito disso o historiador Alfredo Bosi em seu livro Dialética da Colonização nos diz: Quando os camponeses do Lácio chamavam culta às suas plantações, queriam dizer algo de cumulativo: o ato em si de cultivar e o efeito de incontáveis tarefas, o que torna o particípio cultus, esse nome que é verbo, uma forma sig- nificante mais densa e vivida que a simples nomeação do labor presente. O ager cultus, a lavra, o nosso roçado (também um deverbal), junta a denotação de trabalho sistemático a, qualidade obtida, e funde-se com esta no sentimento de quem fala. Cultus é sinal de que a sociedade que produziu o seu alimento já tem memória. (BOSI, 1992, p.13). Nesse processo a identidade ganha seu lugar; pois, da mesma forma que nos identificamos com um lugar marcado por uma experiência individual, também acontece com as experiências coletivas que ganham um aspecto marcante para um determinado grupo, fazendo com que indivíduos se identifiquem e tenham coesão a partir de experiências e vivências comuns. No dicionário Aurélio, identidade é definida como: 1. Qualidade de idêntico; 2. Conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais, etc.; 3. O aspecto coletivo de um conjunto de característicos pelas quais algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido. (FERREIRA, 2004, p.1066). Identidade é aquilo que faz com que uma coisa seja exatamente aquilo que ela é, e não seja outra coisa. Desta forma, a identidade só pode ser concebida em comparação com o diferente: “eu sei o que sou à medida que percebo que sou diferente, desse ou daquele outro. 9
  • 10. Assim também é possível a construção da identidade de grupo. Isto acontece quando percebo que divido com outras pessoas a mesma origem ou os mesmos costumes. É esse sentimento de compartilhamento que faz com que eu me sinta integrante daquele grupo. Essa noção de identificação nos remete novamente para a ideia de cultura como “cultivo de”, pois eu cuido e busco manter e preservar aquilo do qual eu faço parte, onde consigo me perceber numa relação de semelhança, no qual eu me reconheço. Desenvolvimento A Educação Patrimonial Com o processo de modernização das cidades, percebese a constante desvalorização e desconhecimento em relação ao patrimônio cultural. Portanto, desde que em 1930 foi criado o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), uma nova percepção em relação a patrimônio, ampliou os instrumentos e meios de atuação, e estão diretamente aliados á criação das instancias estaduais 10 e municipais de preservação. O campo de educação patrimonial no Brasil tem uma produção acadêmica ainda incipiente, são muitas as publicações utilizadas em ações de educação patrimonial - e, em sua maioria, essas publicações, não levam em consideração o aspecto central da existência humana – que é o fato de ela estar num processo contínuo de realização que só acaba com a morte. Dentre os trabalhos acadêmicos que discutem o tema, a maioria trata de atividades pontuais e estão ligadas a uma análise circunscrita de casos. Embora a educação patrimonial seja consensualmente considerada como peça chave para uma política pública efetiva de preservação do patrimônio cultural, ainda é um tema pouco estudado, principalmente se tratando de práticas institucionais. Dentro da temática, a educação patrimonial pode ser basicamente entendida como um processo durável que busca levar os indivíduos a um processo acionado de conhecimento, apropriação e valorização do patrimônio cultural, com o intuito de que sejam agentes da preservação. Neste aspecto, devemos pensar o patrimônio de forma ampliada. As escolas ao longo dos tempos estão tendo sua estrutura depredada, e desvalorizada dia após dia, pelos seus próprios beneficiários, com isso acreditamos que para a efetivação da Educação Patrimonial no contexto escolar devemos partir da realidade dos alunos, possibilitando sua participação nas soluções dos problemas. “Chamamos de Educação Patrimonial o processo permanente e sistemático de trabalho educativo, que tem como ponto de partida e centro o Patrimônio Cultural com todas as suas manifestações.” (GRUNBERG, 2007, p. 02). Consideramos a partir do conceito de educação patrimonial, que esse tipo de ação utiliza os bens culturais como fonte primária do conhecimento. Gerando um diálogo permanente entre os indivíduos e os bens culturais. Portanto, o maior desafio é fazer com que o individuo crie o hábito de valorizar e preservar o patrimônio cultural, pondo em prática a própria noção de cidadania. Fazendo com que as pessoas possam desenvolv- er um conhecimento crítico e uma apropriação consciente de seu patrimônio. Um fator indispensável no processo de preservação sustentável desses bens culturais é o fortalecimento do sentimento de identidade e lugar no espaço estudado. Uma das maiores dificuldades encontradas em se estabelecer um ensino eficiente em relação a patrimônio é o complexo relacionamento entre a comunidade e os órgãos de preservação. O IPHAN na maioria dos casos é tachado como um inimigo da sociedade, um dos principais motivos deste impasse é o desconhecimento das pessoas sobre suas metodologias e ações utilizadas por esse órgão do governo federal. Acredita-se que com a realização de boas práticas educativas voltadas para a comunidade, esse quadro pode ser revertido. Apesar da importância do tema retratado, na história nunca houve uma visão e atuação por parte do IPHAN e outros órgãos de preservação patrimonial que colocasse como política publica exclusiva visando a educação patrimonial, ou mesmo como um processo de importância equivalente ás demais atividades essenciais por eles desempenhadas (tombamento, fiscalização, identificação, etc.).
  • 11. Assim, a educação patrimonial vem sendo tratada apenas como atividade complementar no currículo escolar, que se reflete diretamente no Iphan, e isso ocorre devido a sua pouca estruturação e institucionalização no setor responsável pela educação patrimonial. Além disso, a comunidade dá ao patrimônio cultural pouca importância por não possuir um entendimento aprofundado em relação aos bens culturais. Segundo o IPHAN: “O Patrimônio material (...) é composto por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza nos quatro Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e das artes aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis como os núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; e móveis como coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos’’. (Disponível em: http:// www3.iphan.gov.br/ bibliotecavirtual/ ?page_ id=283) Enquanto que o Patrimônio Imaterial: “O Patrimônio Imaterial é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana’’. (Disponível em: http://www3.iphan.gov.br/ bibliotecavirtual/?page_id=283, acesso em 11 de abril de 2011) . Por sua vez, a UNESCO define como Patrimônio Cultural Imaterial: “(...) as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural”. (Disponível em http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/culture/ world-heritage/cultural-heritage/, acesso em 13 de abril de 2011). A proposta metodológica de educação patrimonial foi introduzida no Brasil em 1983, balizada por um trabalho educacional já desenvolvido na Inglaterra, ao ser desenvolvido foi adaptada aos contextos patrimoniais locais. Em alguns estados este trabalho está bem embasado e se solidifica, no Rio Grande do Sul, por exemplo, o tema esta sendo trabalho por Maria Beatriz Machado (2004), José Itaqui entre outros. Em suas pesquisas, eles enfatizam a importância de orientar os professores do ensino fundamental e médio de como trabalhar e aplicar esta metodologia no ambiente escolar. Apesar de estar sendo muito bem sucedida a atividade reali- zada no Rio Grande do Sul, esse é um processo que está ocorrendo de forma isolada repercutindo apenas nas regiões onde se desenvolvem. A proposta consiste na formação de grupos de pesquisas para desenvolver uma forma contínua de projetos e ações, que possam ser aplicadas igualmente em todo o território brasileiro. Existem diversas formas de se trabalhar com o patrimônio cultural dentro de sala de aula, articulando todas as disciplinas do currículo escolar, matemática, história, geografia e ciências podendo ser elaborados exercícios e textos relacionados à educação patrimonial. O importante neste caso é estabelecer a interdisciplinaridade, com isso os alunos podem desenvolver por si só ou juntamente com seus professores, ações dentro da escola que incentivam a multiplicação deste conhecimento. Um ótimo exemplo do que pode ser gerado é a construção de um memorial, um pequeno museu, ou ainda uma roda de “contação” de histórias, fazer oficinas e várias outras atividades, a partir destes métodos os alunos desenvolvem uma visão critica. Ações realizadas conjuntamente por todos os professores dentro das escolas podem gerar atividades muito interessantes - como investigar em forma de pesquisa monumentos da cidade em que mora isso ajuda a enfatizar o patrimônio coletivo e a memória coletiva, além disso, investigar a própria casa como patrimônio cultural através de desenhos. Essa programação diferenciada promove uma identidade em relação ao patrimônio coletivo e gera um respeito em relação ao patrimônio cultural. A transversalidade mantém uma relação com a interdisciplinaridade, bastante difundida pela Pedagogia. São maneiras de se trabalhar o conhecimento buscando uma reintegração de aspectos que ficaram isolados uns dos outros pelo tratamento das disciplinas (MORAES, s. d., p. 7-8). A Educação patrimonial no ensino de história é outra forma que viabiliza formação de pessoas capazes de conhecer a sua própria historia cultural. Levando a educação para este contexto nos faz perceber que os indivíduos podem se diferenciar um dos outros, e com isso podem visualizar a própria vida, a própria cultura, a própria história e, construir a sua memória afetiva, além disso, sua identidade cultural. 11
  • 12. O patrimônio cultural vem sofrendo grandes prejuízos com a modernização - um exemplo disso ocorre aqui em São João del Rei, onde durante os anos de 1999 e 2001,muitos casarões históricos foram derrubados para dar lugar a supermercados, a casas de venda de materiais de construção. Outro exemplo aconteceu em Araxá-MG, onde uma praça com mais de cinqüenta anos totalmente arborizada, foi substituída por um calçadão sem nenhuma arborização e sequer bancos para as pessoas sentarem. Outra questão muito importante a ser trabalhada é a questão da identidade local nas escolas de ensino fundamental. Os alunos aprendem muitas coisas relacionadas ao mundo, e ao Brasil; mas, na maioria das vezes, o ensino é muito generalizado, fazendo com a história do município ao qual esses alunos pertencem, fique esquecida o que causa no individuo um afastamento em relação as suas origens perdendo de vista o processo formador de sua identidade social. Muitos estudiosos acham que é mais fácil trabalhar o patrimônio cul- 12 tural no âmbito disciplinar das ciências humanas, por ela estar muito próxima do tema. Em outras áreas do currículo, o professor tem certa dificuldade, porque o tema não está presente em suas analises e reflexões cotidianas. Contudo, isso é uma limitação e não pode ser levada ao pé da letra, com a criatividade dos pesquisadores e professores podem ser desenvolvidas atividades dentro da área de exatas, ciências biológicas, das ciências da terra, etc.. Metodologia Através das atividades extensionistas desenvolvidas em nosso projeto (nas Oficinas de Educação Patrimonial realizadas na Escola Municipal Maria Tereza bem como nas oficinas realizadas no espaço do Fortim dos Emboabas localizado no Alto das Mercês) foi possível perceber que as pessoas que participaram dessas atividades não se reconhecem como agentes culturais dentro da sociedade da qual fazem parte. Isto porque elas reconhecem como patrimônio cultural, apenas aquilo que é registrado e reconhecido pela chamada cultura erudita. A distinção entre cultura popular e cultura erudita recorrente em nossa sociedade, produz efeitos catastróficos na construção da identidade dessas pessoas. Mesmo expressões fortes como o congado ou os ofícios e saberes passados de geração em geração, se tornam eixos de resistência de suas raízes na sociedade, não são reconhecidos como tal. Por isso se justifica nosso trabalho de responder a demanda da lei municipal n° 3.826/2004 que torna obrigatório o ensino de educação patrimonial nas escolas da rede municipal. Nosso trabalho é um tanto desafiador quando aos métodos, pois eles não podem ser os métodos tradicionais que são utilizados para o ensino da chamada cultura erudita. Pela característica mutável do patrimônio imaterial não é de nosso interesse resguardálo tal como é (como um objeto pronto e acabado), mas sim preservá-lo através de métodos que se sintetizam exclusivamente nas vivencias que A C ultura popular nos oferece. Dar luzes para que ela por si mesma se mostre e se mantenha. Somos receptáculos dessas vivências. “Se o sistema social é democrático se o povo vive em condições digamos razoáveis de sobrevivência ela próprio saberá gerir as condições para que a cultura seja conservada, não pela cultura em si, mais enquanto expressão da comunidade de grupo e de indivíduos em grupo’’. (BOSI, Alfredo, 1987, pg. 44). Atuando principalmente em São João del Rei e região o programa de extensão “Embornal de Causos - segundo ano” é o desdobramento do projeto de extensão “Embornal de Causos a imagem e o som, a escrita, e o universo virtual como veículo de registros e preservação do patrimônio imaterial” sob a orientação da Dra. Glória Ribeiro, junto com os bolsistas de extensão Isabela Alline Oliveira e Etienny Trindade, e a bolsista atividade Daniela da Conceição Diniz. Como já foi mencionado, o trabalho consiste atender á lei municipal n° 3.826/2004 que dispõe sobre a criação do Programa Municipal de Educação Patrimonial em suas escolas municipais - buscando através do referencial teórico pesquisado, capacitar os professores para o ensino da educação patrimonial dentro das escolas, voltado para a cultura regional e local.
  • 13. Neste sentido, o programa busca utilizar as novas mídias e redes sociais como ferramentas trazendo para os professores do ensino fundamental a narrativa oral, saberes e fazeres embutidos na cultura local. Nosso trabalho também teve como produto a produção cartilhas para as escolas públicas de ensino fundamental, os bolsistas desenvolveram três cartilhas, uma de culinária, outra de causos e a outra de festas religiosas; as quais ainda estão em processo de avaliação – recebemos a avaliação apenas de uma das escolas da região, como poderá ser observado nos anexos do nosso relatório final. O material possui jogos, exercícios para serem aplicados dentro de sala de aula, textos e imagens. Cada cartilha possui uma peculiaridade diferente: a cartilha de culinária contém receitas de São João del Rei e região, relatos de como o queijo é fabricado artesanalmente, como são fabricados os fornos a partir da utilização do barro e das fezes de gado; a cartilha de causos tem alguns causos transcritos das entrevistas realizadas com moradores de diferentes regiões, além da bibliografia de cada um dos contadores; e por fim a de festas religiosas descreve manifestações religiosas presentes em São João Del Rei. Foram realizadas durante o ano de 2013 em parceria com o programa de Implantação do Centro de Referência de Cultura Popular de São João del Rei, promovemos atividade conjuntas como foram as oficinas do Inverno cultural, contando com cerca de 6 oficinas realizadas no Fortim dos Emboabas entendendo que por ser tratar de uma população de risco , que entretanto mantêm uma tradição de cultura popular muita arraigada, nossos esforços em atuar principalmente com as crianças se justifica pelo fato de as oficinas serem para as crianças do Alto das Mercês uma possibilidade de acesso, diversão e espaço de lazer que a comunidade por si só não tem condições de oferecer. Também foram oferecidas Oficinas de Educação Patrimonial desenvolvidas dos dias 4 a 8 de Março de 2013 na Escola Municipal Maria Tereza, tendo como público atingido cerca de 150 alunos do ensino fundamental. to importante para a preservação do patrimônio cultural, as nossas ações ainda se mostram como uma forma pontual de se aplicar a educação patrimonial. Para que um trabalho como este possa se desenvolver de forma continua no ensino fundamental precisaríamos de uma parceria entre o IPHAN, o governo federal e os órgãos locais de cada município. O que observamos na analise deste conteúdo é que as ações são desmembradas umas das outras, não tendo assim um elo entre as iniciativas que já estão sendo produzidas e os órgãos públicos. No entanto, o IPHAN ainda é desorganizado em relação à educação patrimonial e não existe um interesse por parte dos professores em aplicar o assunto dentro de sala de aula, criando uma barreira a este processo. O patrimônio cultural ainda se encontra vulnerável. A ideia que se passa entre a juventude é que não existe o novo sem destruir o velho, e isso faz com que a memória caia no esquecimento. Como podemos lembrarnos do passado, das histórias contadas por nossos avôs sem passar de geração a gerConclusão ação? Na atual pós Embora seja modernidade o ser um trabalho mui- humano está sendo tratado como objeto, uma boa parte de idosos que fizeram parte da história são abandonados e isolados em locais fora da área de convívio social intenso (como é o caso dos abrigos e albergues), e não paramos para pensar que através deles as manifestações culturais vem sendo passadas de geração para geração. Portanto, necessitamos de uma mudança radical em relação ao patrimônio, e por isso justificamos neste estudo a importância da educação patrimonial. Esta ação pode ser comparada como a “luz no fim do túnel” porque a partir dela os indivíduos podem repensar a relação entre a memória e sua própria identidade social. 13
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  • 17. UM CASO DE FOLIA DE REIS Eu gostaria de contá uma estória pra vocês que... é estória aconticida mêmo, que a gente já viu comentário, que conteceu na nossa região. Uma estória até engraçada, uma estória que... Contando assunto de folia de reis, né? Na nossa região aqui, é um lugar que tem muito esse negócio de folia de reis. Então me contaro essa estória pra mim que aconteceu, mas que foi estória contada que aconteceu mêmo! E diz que tinha uma folia de reis, saiu numa zona rural, na região da cidade, por perto aqui. E chegô nessa região tinha muita casa pá... po povo cantá e ês já chegaro de tarde, nessa região. Chegô lá, cantô um pouco nas casa que tinha. Chegô numa fazenda dum fazendêro muito bão, e o fazendêro, a atividade dele era duas coisa: era tirá leite, tinha um gado de corte e tamém tinha um negóço de fazeção de pinga, né? Que sempre isso é uma das coisa que sempre tem mêmo. E o fazendêro fazia muitas qualidade de pinga e todas que fazia diz que era boa. Aí, a folia de reis chegô na fazenda desse fazendêro de tarde, fazendêro tamém muito bão, mandou o povo entrar pra dentro. E o currar da fazenda, o gado chegava até na porta da sala da fazenda. E aí o povo chegô, dexô a bandêra da folia de reis dês lá em riba da escada, dexô os instrumento e entrô pra dentro da fazenda do home. Chegô lá, o fazendêro muito bão, dava um golinho da pinga pá pessoa porvá. A pessoa porvava, achava a pinga muito gostosa. Por causa que achô gostosa, bebia mais um golo daquela. Aí o fazendêro: - Tem mais uma, vem cá, o senhor exprementa essa. Aí dava um golim pá pessoa porvá. A pessoa: - Ah não! Mais um golo! Tomava mais um golim. Aí todo mundo ficô tonto e durmiu. Esqueceu os instrumento em cima da escada lá do currar, em riba da es- SEBASTIÃO VICENTE DA SILVA cada que entrava na porta da fazenda, mas era dentro do currar. Esqueceu os instrumentos, ficou, esqueceu tamém a bandeira da folia de reis. E aí, bão. E durmiro e nem lembrô que tinha dexado os instrumento do lado de fora, nem bandêra e nem nada e durmiro. E quando ês cordaro no ôtro dia cedo, aí que ês foi recordá que tinha dexado os instrumento, a bandeira e tudo em cima daquela escada. E aí veio pá mó pegá os instrumento, pegá a bandêra pa cantá. Porque logo naquele lugar que tinha muita casa pr’ês cantá. Pegá os instrumento e a bandeira pá mode ês saí, pá mode cantá novamente naquela região. Aí chego lá, achô os instrumento tudo, mas num achô a bandêra - Mas cumé que faiz ué? Folia de reis, o primeiro da folia de reis que anda na frente é a bandêra. Cês tudo sabe disso, né? A bandêra que anda na frente. Marungo pega a bandeira e vai na frente. Aí não achô a bandêra, - Cumé que faiz, cumé que num faiz pá cantá, seno que num tinha bandêra? E ali no meio tinha um rapaiz novo, ansim, muito inteligente. Olhou pr’um lado, pr’outro e viu aquele pauzinho que carrega a bandeira. Aí falou pro outro: - Ô fulano! Pega aquele pauzim lá e leva aquele pauzim mêmo. Nóivaivê o que dá pra fazê memo. Aí a pessoa pegô aquele pauzinho e saiu na frente. Chegô na primeira casa, aquela pessoa que tinha mandado ele levá aquele pauzinho, chegô na primeira casa e cantô pá dona de casa assim, ó. (Cantado) “Ai da licença dona de casa, não pergunte o que aconteceu, dá esmola pr’esse pau, que a bandêra o boi cumeu.” É... aí é a estória: o gado cumeu a bandêra e não tinha bandêra mais. O rapaz falou: - Não, leva esse pauzinho mêmo! Levou o pauzinho, chegou lá imprevisô desse jeitinho, cantando bem. Cantô direitinho que era pá móde dá esmola pr’aquele pau por que não tinha bandêra. Porque sempre pede esmola é pra bandeira, né? Agora, não tinha bandêra, ia dá esmola pá quem? Aí pidiu pá dá esmola pr’aquele pau, que a bandeira o boi tinha cumido. Essa ai é a estória de folia de reis, o povo fala que é estória de mentiroso, né? Mas, diz que isso aí foi aconticido mêmo! BIOGRAFIA Sebastião Vicente da Silva, mais conhecido comoTiãozinho da Lavrinha, nasceu em 1957 em Luminárias – MG e é lavrador. No vídeo a seguir ele narra um divertido conto. 17
  • 18. Transcrição Eu gostaria de contar uma estória pra vocês: - É estória acontecida mesmo, que a gente já viu comentário, que aconteceu na nossa região. Uma estória até engraçada, uma estória que... ...Contando assunto de folia de reis, não é? Na nossa região aqui, é um lugar que tem muito esse negócio de folia de reis. Então me contaram essa estória, que aconteceu, mas foi estória contada que aconteceu mesmo! E diz que existia uma folia de reis que saiu numa zona rural, na região da cidade, por perto aqui. E chegou nessa região existiam muitas casas pro povo cantar e eles já chegaram de tarde. Chegaram lá, cantaram um pouco nas casas que existiam. Chegaram na fazenda de um fazendeiro muito bom, e o fazendeiro, as atividades dele eram duas coisas: era tirar leite, tinha um gado de corte e também tinha um negócio de fabricação de pinga, não é? Que sempre isso é uma das coisas que sempre tem mesmo. E o fazendeiro fazia muitas qualidades de pinga e todas que ele fazia dizem que eram boas. Aí, a folia de reis chegou na fazenda desse fazendeiro de tarde, fazendeiro muito bom, mandou o povo entrar. E o curral da fazenda, o gado chegava até na porta da sala da fazenda. na porta da sala da fazenda. E aí o povo chegou, deixou a bandeira da folia de reis deles lá em cima da escada, deixou os instrumentos e entrou para dentro da fazenda do homem. Chegou lá, o fazendeiro muito bom, dava um golinho da pinga para a pessoa provar. A pessoa provava, achava a pinga muito gostosa. Porque achou gostosa, bebia mais um gole daquela. 18 Aí o fazendeiro: - Tem mais uma, vem cá, o senhor experimenta essa. Aí dava um golinho para a pessoa provar. A pessoa: - Ah não! Mais um gole! Tomava mais um golinho. Aí todos ficaram tontos e dormiram. Esqueceram os instrumentos em cima da escada lá do curral, em cima da escada que entrava na portada fazenda, mas era dentro do curral. Esqueceram os instrumentos, esqueceram também a bandeira da folia de reis. E aí, bom. Dormiram e nem lembraram que tinham deixado os instrumentos do lado de fora, nem bandeira e nem nada. E quando eles acordaram no outro dia cedo, aí que eles foram recordar que tinham deixado os instrumentos, a bandeira e tudo em cima daquela escada. E aí vieram para pegar os instrumentos, pegar a bandeira pra cantar. Porque logo naquele lugar que tinha muita casa para eles cantarem. Pegar os instrumentos e a bandeira para eles poder sair para cantar novamente naquela região. Aí chegaram lá, acharam os instrumentos todos, mas não acharam a bandeira. - Mas como é que faz ué? Na folia de reis, o primeiro da folia de reis, que anda na frente é a bandeira. Vocês todos sabem disso, não é? A bandeira é que anda na frente. O Marungo pega a bandeira e vai na frente. Aí não acharam a bandeira. - Como é que faz, como é que não faz pra cantar, sendo que não tinha bandeira? E ali no meio tinha um rapaz novo, muito inteligente. Olhou para um lado, para o outro e viu aquele pauzinho que carrega a bandeira, aí falou para o outro: - Ô fulano! Pega aquele pauzinho lá e leva aquele pauzinho mesmo. Nós vamos ver o que dá para nós fazermos. Aí a pessoa pegou aquele pauzinho e saiu na frente. Chegou na primeira casa, aquela pessoa que tinha mandado ele levar aquele pauzinho, chegou na primeira casa e cantou para a dona- de- casa assim: (Cantado) - “Ai, da licença dona- de- casa, não pergunte o que aconteceu, dê esmola para esse pau porque a bandeira o boi comeu.” É... aí é a estória, o gado comeu a bandeira e não tinha bandeira mais. O rapaz falou: - Não, leva esse pauzinho mesmo! Levou o pauzinho, chegou lá improvisou desse jeitinho, cantando bem. Cantou direitinho que era para dar esmola para aquele pau por que ele não tinha bandeira. Porque sempre se pede esmola é para a bandeira, não é? Agora, não tinha bandeira, ia dar esmola pra quem? Ai pediu para dar esmola para aquele pau, porque a bandeira o boi tinha comido. Essa ai é a estória de folia de reis, o povo fala que é estória de mentiroso, não é? Mas, dizem que isso aí foi acontecido mesmo! Sebastião Vicente da Silva Fotos: Débora Resende
  • 19. O TIRA-COURO OU O SETE ORELHAS Um fato que foi acontecido no município de São Bento Abade, num lugar chamado de... Sítio do Tira Côro. E... sete irmão Silva, daí brigô, tava brigano com os irmão Januário Garcia e João Garcia por causa de... duma divisa de terra, de gado, entrava no terreno do outro. E nas discussões dês lá, entre os... os irmãos Silva e o João Garcia, aí, ês pegô o João Garcia e... os sete irmão marrô ele numa árvre, numa figuêra e tirou o côro dele vivo. Aí o Januário Garcia fêis um juramento, um juramento de... de matar os sete irmão Silva e cortá a orêia e fazê um colar de orêia do... dos sete irmão Silva. Aí o quê que ele fez: na época não tinha, num existia delegacia no município aqui de São Bento e Luminária. Aí é só em São João dé Reis que... que tinha delegacia e delegado. Aí foi em São João dé Reis e contô o caso pro delegado que tinha acontecido. Aí o delegado deu uma... uma escrita pr’ele e falô ó, uma órde pr’ele e falô: – Ó: cê pode matá, matá os sete, sete irmão Silva. Aí veio com a órde, com a escrita lá do delegado. E chegô e... e ficô sabeno que ês ía fazê um baile de despedida, que ês ficô sabeno que o Januário ia matá ês, falô em matá ês, ês fez um baile de despedida. E no dia do baile ele... ele foi e ficô escondido, ele conseguiu matá dois, matô dois. Aí sumiu os ôtro cinco. Aí... foi, passô muito tempo, ele foi, entregô a família dele pr’ôtra pessoa cuidá lá e falô que enquanto ele num cumprisse o juramento, ele num vortava em casa. E saiu andano, percurando. E... diz que chegô numa cidade e ficô sabeno que tinha dois que ia... tava casano, tava no artar pá casá. Aí chegô e... num sei expricá direito como que foi, se ele matô no artar, na hora do casamento e... sei que ele matô mais dois, e cortô a orêia daquês dois, aí interô quatro, né? Aí passô... passou... andô mais um pôco. E... aí achô mais um, achô mais um e, matô. Dipois ficô um. Aí passô muito, muito tempo, ele tava bem velho já, mas procurano... procurano... e num achava. Aí muito, muitos ano depois ele viu uma fumacinha de dentro dum mato, no fundo dum mato, entrô um pouco pro mato pra vê quem era naquele mato abaixo. E... chegô num ranchinho. Aí chegô lá era um velhinho que tava morando lá. E, pediu pouso. Aí ele deu pouso, deu janta pro Januário e ele não conheceu o Januário. Aí de noite o Januário perguntava ele, perguntano por que que ele tava morano naquele lugar, quê que tinha acontecido, sozinho naquele mato. Aí ele disse: – Óia, nóis fez isso, fez aquilo ôtro, tirô o côro do... do João Garcia. Aí posô. O Januário posô lá no ranchinho dele, ele deu janta, deu pôso. Quando foi no ôtro dia cedo, ele perguntô o veizinho, perguntô: - Cê sabe quem que eu sô? Aí ele falô assim : -Não. - Eu sou Januário Garcia. Aí ele pediu perdão, ajueiô e pediu perdão. Aí Januário falou: - Ó: o perdão que eu posso te dá, é cê contá cem passo, você com... se antes você contá cem passo se ocê... se eu errá cê tá perdoado. Agora, se eu acertá cê é... é a úrtima orêia que me farta pra... pra inte... pra interar o juramento. Aí ele contô cem passo, ele atirô e matô. Aí ele dispois ele vortano, ele muito cansado chegô numa casa tinha um... pediu pouso, aí tinha um... uma turma de jogador de baraio, jogando baraio, e convidô ele pra jogá baraio e ele não quis. - Sabe? Não, eu tô cansado, vô deitá pá durmí porque eu num... num gosto de baraio. Aí os jogadô de baraio fazeno baruio, não deixava ele durmí. Aí ele, quê que ele fez? Ele levantô lá e JUVENAL JOSÉ DE SOUSA veio, falô assim: - Ah! Resorvi, vô jogá um pouco. Aí quando ele sentô na mesa lá, que deu uma trucada ele jogô... falô seis e jogô o colar de orêia em cima da mesa. Aí aquêis... aquêis turma de jogadô de baraio saiu tudo correno que num ficô um na casa. Aí ele deitô na cama e dormiu o resto da noite. E dipois veio vortando, vortô. Chegô na casa dele a mulher dele tinha arrumado ôtro homi e tava cuidano dela, cuidando da família dele lá. Que ele chegô e falô assim: - Não, agora nóis vai ficar morano junto. Cê... cê cuidou da minha mulher, cuidô da minha família. E ficou morando. Assim o povo antigo conta: que ficô morano o homi que já morava com a mulher dele , que fazia muitos ano, num sabia se ele ia vortá, se tinha morrido. Aí terminô o trecho da estória do Januário Garcia. BIOGRAFIA O senhor Juvenal José de Souza é natural de Luminárias - MG onde vive com sua família e trabalha como extrator de pedra. No vídeo a seguir ele narra dois acontecimentos: um ocorrido com ele e outro com sua mãe. São aparições de misteriosos “clarões”. Narrativas deste tipo são muito comuns na cidade de Luminárias, que recebeu este nome justamente em função da aparição de luzes até hoje inexplicadas. 19
  • 20. Transcrição Um fato que foi acontecido no município de São Bento Abade, num lugar chamado Sítio do Tira Couro. E os sete irmãos Silva, daí brigaram, estavam brigando com os irmãos Januário Garcia e João Garcia por causa de uma divisa de terra, de gado que entrava no terreno do outro. E nas discussões deles lá, entre os irmãos Silva e o João Garcia, eles pegaram o João Garcia. E os sete irmãos, amarraram ele numa árvore, numa figueira e tiraram o couro dele vivo Aí o Januário Garcia fez um juramento, um juramento de matar os sete irmãos Silva e cortar as orelhas, e fazer um colar de orelhas dos sete irmãos Silva. Aí o quê ele fez? Na época não existia delegacia nos municípios de São Bento e Luminárias. Aí era só em São João del -Rei que existia delegacia e delegado. Aí ele foi em São João del- Rei e contou o caso para o delegado, o que tinha acontecido. Aí o delegado deu uma escrita para ele, e uma ordem para ele e falou: – Ó, você pode matar, matar os sete, os sete irmãos Silva. Aí ele veio com a ordem, com a escrita do delegado. E chegou e ficou sabendo que eles iam fazer um baile de despedida, que eles ficaram sabendo que o Januário ia matá-los, falou em matá-los, eles fizeram um baile de despedida. E no dia do baile ele foi e ficou escondido e conseguiu matar dois, matou dois. Aí, sumiram os outros cinco. Aí... foi, passou muito tempo, ele foi e entregou sua família para outra pessoa cuidar e falou que enquanto ele não cumprisse o juramento, ele não voltava. E saiu andando, procurando. E... dizem que ele chegou numa cidade e ficou sabendo que tinha dois que estavam se casando, estavam no altar para casar. Aí chegou e, não sei explicar direito como foi, se ele os matou no 20 altar na hora do casamento em casa. . Sei que ele matou mais dois, e cortou a orelha daqueles dois, aí inteirou quatro, não é? Aí passou... passou... andou mais um pouco. Aí achou mais um, achou mais um e matou. Depois ficou um. Passou muito, muito tempo, ele estava bem velho já, mas procurando... procurando... e não achava. Aí muitos anos depois ele viu uma fumacinha saindo de dentro de um mato, entrou no mato, entrou um pouco no mato para ver quem era naquele mato abaixo. E chegou a um ranchinho. Chegou lá, era um velhinho que estava morando lá. E ele (Januário) pediu pouso. Aí ele deu pouso, deu janta para o Januário e ele não reconheceu o Januário. A noite o Januário perguntou a ele, ficou perguntando por que ele estava morando naquele lugar, o que tinha acontecido, sozinho naquele mato. Aí ele disse: - Olha, nós fizemos isso, fizemos aquilo, tiramos o couro do João Garcia. Aí pousou, o Januário pousou no ranchinho dele, aí ele (o velhinho) deu janta, deu pouso. No outro dia cedo, ele perguntou para o velhinho: - Você sabe quem eu sou? Ele respondeu: - Não. - Eu sou o Januário Garcia Aí o velhinho pediu perdão, ajoelhou e pediu perdão. Aí Januário falou: - Ó, o perdão que eu posso te dar, é você contar cem passos, se eu errar, você está perdoado. Agora, se eu acertar, sua orelha é a última que me falta para inteirar meu juramento. O velhinho contou os cem passos, então, ele atirou e matou. Na volta, o Januário, muito cansado, chegou numa casa e pediu pouso. Ali havia uma turma de jogadores de baralho que o convidaram para jogar e ele não quis. - Sabe? Não, eu estou cansado, eu vou me deitar para dormir porque eu não gosto de baralho. Aí os jogadores de baralho faziam muito barulho e não deixavam ele dormir. Então o que ele fez? Ele levantou, foi e falou assim: - Ah! Resolvi jogar um pouco. Aí, quando ele sentou na mesa, assim que deram uma trucada, ele falou: - Seis! - e jogou o colar de orelhas em cima da mesa. Aí aquela turma de jogadores de baralho saiu toda correndo, e não ficou um na casa. Aí ele deitou na cama e dormiu o resto da noite. E depois ele veio voltando. Voltou. Chegou a sua casa, sua mulher havia arrumado um outro homem, que estava cuidando dela e de sua família. Ele chegou e falou assim: - Não, agora nós vamos ficar morando juntos. Você cuidou da minha mulher, cuidou da minha família. E ficaram morando juntos. Assim o povo antigo conta: que ficou morando ele, sua mulher e o homem que já morava com ela há muitos anos, porque eles não sabiam se ele ia voltar, ou se ele havia morrido. Aí terminou o trecho da estória do Januário Garcia. Fotos: Débora Resende
  • 21. CAUSO DE SEXTA FEIRA SANTA NAGIBE FRANCISCO MURAD Fatos verídicos: Na década de trinta, o nosso comércio era feito por carros de bois, cargueiros e tudo atrasado como era em todo o Brasil. O comércio era de pequenos comerciantes, o povo não tinha condições financeira e poder, de poder de compra. A crise era geral. Era e é tradição fechar o comércio na sexta-feira santa, desde essa época, em nosso distrito. Aconteceu o seguinte: havia um comerciante, Evaristo de Sousa, que resolveu fechar a sua venda na quinta-feira santa ao meio-dia. Rua do Cruzeiro, esquina com a Praça Nossa Senhora do Carmo. E abriu na sexta-feira ao meio-dia. Ele tinha filhos pequenos, a gaveta onde colocava o dinheiro era na parte arta da prateleira, para as crianças não tirarem dinheiro. Então ele começou a vender ao meio-dia de sexta-feira santa. O comércio dele era de gênero alimentício, quitanda, doce, etecetera. Depois de argum tempo, ali pelas três hora da tarde, em determinado momento ele foi atender um freguês, e aí, ao ir à gaveta onde colocava o dinheiro, para dar o troco, ele achou uma cobra coral dentro da gaveta. Assustado, ele tirou-a e matou-a, em seguida, fechou a venda. O povo recebeu esse con- tecimento como castigo pela farta de respeito no dia de sexta-feira santa. BIOGRAFIA O senhor Nagibe Francisco Murad, mais conhecido como seu Bíbi, é natural de Lavras mas foi para a cidade de Luminárias muito criança e lá mora desde então. Sempre trabalhou e continua trabalhando como comerciante.No vídeo a seguir, seu Bíbi conta um fato que ocorreu na cidade de Luminárias e que é relembrado como um sinal da importância de se respeitar o dia de sexta-feira santa. 21
  • 22. Transcr ção 22 NAGIBE FRANCISCO MURAD Fatos verídicos: Na década de trinta, o nosso comércio era feito por carros de bois, cargueiros e tudo atrasado como era em todo o Brasil. O comércio era de pequenos comerciantes, o povo não tinha condições financeiras e poder de compra. A crise era geral. Era, e é tradição fechar o comércio na sexta-feira santa, desde essa época em nosso distrito. Aconteceu o seguinte: -Havia um comerciante, Evar- isto de Sousa, que resolveu fechar a sua venda na quinta-feira santa ao meio-dia. Rua do Cruzeiro, esquina com a Praça Nossa Senhora do Carmo. E abriu na sexta-feira ao meiodia. Ele tinha filhos pequenos, a gaveta onde colocava o dinheiro era na parte alta da prateleira, para as crianças não tirarem dinheiro. Então ele começou a vender ao meio-dia de sexta-feira santa. O comércio dele era de gêneros alimentícios, quitandas, doces e etecetera. Depois de algum tempo, por volta das três horas da tarde, em determinado momento ele foi atender a um freguês, e ao ir à gaveta onde colocava o dinheiro para dar o troco, ele achou uma cobra coral dentro da gaveta. Assustado, ele tirou-a e matou-a, em seguida, fechou a venda. O povo recebeu esse acontecimento como castigo pela falta de respeito no dia de sexta-feira santa. Fotos: Débora Resende
  • 23. ESTÓRIA DE ASSOMBRAÇÃO Transcr ção RAUL NOGUEIRA DO NASCIMENTO Ês tava viajano. Deu uma chuva muito forte, e por conta da chuva ês chegô numa fazenda antiga pá abrigá, né? E nessa fazenda tinha quatro pedreiro trabaiando, né? Aí ês, tudo amigo, ficô por ali bateno papo. Um, compradô de galinha, pá revendê, o ôtro, negociante de gado, né? É... viajando. Aí num pudero í pra casa, com a chuva muito forte, o corgo encheu, aí ficô lá e jantaro com, com os pedreiro, contaro caso até uma certa hora. Na hora dês... í deitá, cuô um café. Aí, na hora que cuô o café, um desses visitante num cumbinava com o moradô que morreu na fazenda. Aí ele foi tomá o café, chamô o que morreu, que chamava Tonho dos Reis: - Vamo chamá o Tonho Reis pá tomá café. Então falô assim. Entrô, fez tudo quanto é baruio que pôde existir na fazenda. E pagava a luz, jogano pedra, balaio de galinha jogava pra cima, caía no chão, mas não acertava ninguém. No muvimento da fazenda roncava pombim, latia cachorro, miava gato, brigava com a esposa dele, chegava carro cantando, cavalo rinchando, vaca berrando, munho rodando, na distância de longe. Aí ele mandô pro mei do inferno, quando ele viu que o trem tava... mandô pro mei do inferno, e ficou muito... E dipois já tava os cumpanheiro desmaiado, o medo foi apertano, ele mandô pro mei do inferno, quando aquele trem sumiu um instante. Quando vortô, vortô muito pior, mais nervoso. Aí ele se viu apertado mêmo, o medo foi aumentando tamém, suzinho, aí apelou pras... gritou pras trêis missa de Natal. E foi a salvação dele! Eles estavam viajando. Deu uma chuva muito forte, e por conta da chuva eles chegaram numa fazenda antiga para se abrigarem. E nessa fazenda tinha quatro pedreiros trabalhando. Aí eles, todos amigos, ficaram por ali batendo papo. Um, comprador de galinha, para revender, o outro, negociante de gado, viajando. Aí não puderam ir para casa, por causa da chuva muito forte, o córrego encheu, aí ficaram lá e jantaram com os pedreiros, contaram causo até uma certa hora. Na hora deles irem deitar, coaram um café. Na hora que coaram o café, um desses visitantes não combinava com o morador que morreu na fazenda. Aí ele foi tomar o café, chamou o que morreu, que se chamava Tonho dos Reis. - Vamos chamar o Tonho Reis para tomar café. Então falou assim. Então, fez tudo o quanto é barulho que pôde existir na fazenda. E apagava a luz, jogando pedra, balaio de galinha jogava pra cima, caía no chão, mas não acertava ninguém. No movi- mento da fazenda roncava pombinho, latia cachorro, miava gato, brigava com a esposa dele, chegava carro (de boi) cantando, cavalo rinchando, vaca berrando, moinho rodando, na distância de longe. Aí ele mandou para o meio do inferno, quando ele viu que o trem estava... mandou pro meio do inferno, e ficou muito... E depois que já estavam os companheiros desmaiados, o medo foi apertando, ele mandou pro meio do inferno, quando aquele trem sumiu um instante. Quando voltou, voltou muito pior, mais nervoso. Aí ele se viu apertado mesmo, o medo foi aumentando também, sozinho, aí apelou para as... gritou para as três missa de Natal. E foi a salvação dele! BIOGRAFIA O senhor Raul Nogueira do Nascimento, conhecido serralheiro da cidade de Itumirim, nasceu no ano de 1932 em Andrelândia - MG, mas foi para a cidade de Itumirim - MG ainda jovem. No vídeo a seguir ele nos conta algumas passagens misteriosas que ocorreram na vida de seu irmão, um homem que, segundo o senhor Raul, não tinha medo de nada. 23
  • 24. MULHER QUE VIRA MULA SEM CABEÇA LUIZ DE ÁVILA E SILVA 24 Eram casados há pouco tempo e a moça que casou virava a tal mula-semcabeça. E então o marido dela, brigando, brigando com ela por causa dessa história dela virar a tal mula-sem-cabeça. Aí ela saiu de tarde, quando o marido estava quietinho. Ela saiu, foi numa moita de bananeira e “plantou uma bananeira”, lá largou a cabeça, lá na moita de bananeira e saiu sozinha sem cabeça. O marido dela foi lá, pegou a cabeça da mulher dele e trouxe para dentro. Quando a mula-sem-cabeça chegou lá para procurar, nada... não achou! Chegou lá pelo cheiro, batia com as mãos nas portas e nas janelas. Caçando dentro de casa, pelo cheiro ela percebeu que (a cabeça) estava dentro de casa. Aí o marido dela levantou, abriu a porta, ela entrou e pegou a cabeça que o marido tinha guardado. Mas ela foi... levou... É, ela levou a cabeça lá na moita de bananeira e voltou a “vestir” a cabeça. Veio o pai dela e o marido dela, falou assim: - De agora em diante você pode marcar o rumo, que eu não quero te ver mais nunca! Porque a mulher virou o bicho de verdade, né? Transcrição Casado de pouco. E a moça que casô, era, virava a tar de mula-sem-cabeça. E então, o marido dela, brigano, brigano com ela com essa história dela virá a tale de mula-sem-cabeça. Aí ela saiu de tarde, quando o marido tava quetinho. Ela saiu, foi lá numa moita de bananeira, é, plantou uma bananeira lá, largou a cabeça lá na moita de bananeira e saiu sozinha sem cabeça. O marido dela foi lá, pegô essa cabeça da mulher dele e trouxe prá dentro. Quando a mula-sem-cabeça chegô lá prá procurar, nada... num acho! Chegô lá pelo cheiro, batia com as mão nas porta, nas janela, A seguir temos duas variações de um mesmo conto. Ele foi narrado pelo senhor Luíz de Ávila e Silva e por sua filha, Maria José Ribeiro, ambos naturais de São João del Rei, ele nascido em 1912 e ela em 1940. É interessante notar as diferenças entre as duas narrações, o que comprova que os contos populares, por serem transmitidos oralmente e guardados apenas na memória, sofrem inúmeras variações a cada vez que são recontados. Este é um conto que pertence ao grupo que Luís da Câmara Cascudo classifica como contos catequísticos, pois tem a finalidade de transmitir um valor religioso, no caso, o hábito de pedir a bênção aos pais. né? Caçando dentro de casa, pelo cheiro ela percebeu que tava dentro de casa. Aí o marido dela levantô, abriu a porta, ela entrô, pegô a cabeça que o marido tinha guardado. Mais ela... ela foi... levô... É, ela levô a cabeça lá na moita de bananeira e torno vestí a cabeça. Veio o pai dela, o marido dela falô assim: - De agora em diente cê pode marcá o rumo, que eu num quero te vê mais nunca! Porque a mulher virou o bicho de verdade, né?
  • 25. AS PASTORINHAS MARIA APARECIDA SALES RIBEIRO Bom, esse... é uma estória, né? Uma estória não, um caso verídico de todas as cidades, né? Que... Vem de muitos anos atrás, a estória das pastorinhas, como existe, é... Embaixada de Reis e outras coisa que se faz pra angariá dinheiro, donativos pra reforma de igreja, construção de igreja, católica, né? Então, aqui em Itumirim, eu consegui montá um grupo de pastorinha, na época eu tinha a minha filha que era adolescente e meus filho eram pequenos. Então eu não trabalhava fora porque eu tinha que cuidá dos meus filho e da minha casa. Aí nós montamos as pastorinha. Que era muito divertido e muito bom, era feito com muita alegria, com muita... sabe? Só que era bem ensaiadinho, coisa bem feitinha, com muita fé. Tinha as menininha que tocava violão... Então aí eu resolvi montá e montei: são oito pastorinha, uma Nossa Senhora, um violeiro e uma senhora mais, assim, de mais responsabilidade pra cuidá das meninas. Onde a gente ia de casa em casa, cada uma com um bastão. Era lindo, lindo... Eu tenho vontade de fazê isso de novo, um dia eu vô fazê, eu vô montá de novo. Onde a gente ia de porta em porta. Cantava pedindo a esmola, expricando que era pra barraquinha ou pra igreja. E a gente pedia es- mola, esperava recebê, né? O donativo, que era falado esmola mesmo, que era esmola pra igreja. Depois disso a gente cantava agradecendo. Era muito divertido. A gente chegava em muitas casa, aquelas pessoa assim de bem idade, recebia a gente com o maior carinho. A gente carregava um Menino Jesus, a Nossa... a menina vestida de Nossa Senhora carregava a imagem do Menino Jesus. E nós íamos pra zona rural, pras fazenda. Divertia muito porque vaca corria atrás da gente... cachorro... a gente se perdia nas trilha... Era muito divertido. Só que era feito com muita fé, as vêis a gente rezava terço no caminho, chegava em algumas casa da zona rural, eles davam um lanche pras menina. E com isso era muito lindo, muito lindo... É uma coisa que não pode deixá acaba. É... eu acho que inda existe em algum lugar em Minas que eles ainda sai com as pastorinha. Eu saí deve tê mais ou menos uns quatorze anos que eu sai com um grupo de pastorinha. Fomos ao Macuco, Rosário, percorremo Itumirim inteirinha, a zona rural. Onde angariamo bastante, mas muito mesmo! Depois, no final do dia era contado aquele, aqueles donativos, anotado numa caderneta. Na zona rural a gente ganhava porco, galinha... Só que a gente, não tinha condição de carregá, ia carro, né? Da prefeitura, da igreja ou algum amigo ia buscar pra gente pra conseguí dinheiro pra construção das igreja, ou reforma. Aí nós montamos as pastorinhas. Que era muito divertido e muito bom, era feito com muita alegria, sabe? Só que era bem ensaiadinho, coisa bem feitinha, com muita fé. Havia as menininhas que tocavam violão... Então eu resolvi montar e montei: são oito pastorinhas, uma Nossa Senhora, um violeiro e uma senhora de mais responsabilidade para cuidar das meninas. Onde a gente ia de casa em casa, cada uma com um bastão. Era lindo, lindo... Eu tenho vontade de fazer isso de novo, um dia eu vou fazer, eu vou montar de novo. Onde a gente ia de porta em porta. Cantava pedindo a esmola, explicando que era para a barraquinha ou para a igreja. E a gente pedia esmola, esperava receber o donativo, que era falado esmola mesmo, que era esmola para a igreja. Depois disso a gente cantava agradecendo. Era muito divertido. A gente chegava em muitas casas, aquelas pessoas assim de bem idade, recebiam a gente com o maior carinho. A gente carregava um Menino Jesus, a menina vestida de Nossa Senhora carregava a imagem do Menino Jesus. E nós íamos para a zona rural, para as fazendas. Nos divertíamos muito porque as vacas corriam atrás da gente... cachorros... a gente se perdia nas Transcr ção trilhas... Era muito divertido. Só que era feito com muita fé, às vezes a gente rezava o terço no caminho. Chegávamos em algumas casa da zona rural, eles davam um lanche para as meninas. E com isso era muito lindo, muito lindo... É uma coisa que não se pode deixar que acabe. Eu acho que ainda existe algum lugar de Minas em que eles ainda saem com as pastorinhas. Deve haver mais ou menos quatorze anos que eu saí com um grupo de pastorinhas. Fomos ao Macuco, Rosário, percorremos (a cidade de) Itumirim inteirinha e a zona rural. Onde angariamos bastante, mas muito mesmo! Depois, no final do dia eram contados aqueles donativos e anotados em uma caderneta. Na zona rural a gente ganhava porco, galinha... Só que a gente não tinha condição de carregar. Ia carro da prefeitura, da igreja ou algum amigo ia buscar pra gente, pra conseguir dinheiro para a construção das igrejas ou reforma. 25
  • 26. SOBRE A IMPORTÂNCIA DE NAO XINGAR PALAVRÃO Transcr ção LAZARINO FRANCISCO DE SOUSA 26 Então, é o seguinte: o gado... Meu pai era sitiante, nós possuía muitos rebanho, tinha muita vaca, porco, carneiro. Mas meu pai era muito nervoso e xingava muito nome feio. Levantava cedo, xingano nome feio. Lá em casa num tinha, num tinha luz elétrica, naquele tempo num tinha luz, era lamparina de querosene. Ele levantava, se a lamparina apagava, ele jogava a lamparina no chão e metia o purrete nela até amassá tudo. Aí, pegava ôtra. Se uma vaca... ele ia tirar leite, a vaca andava, ele pegava o purrete e metia o purrete na vaca! E xingava aquês nome feio, aquelas coisa. Aí entrô uma coisa triste no curral: as vaca, daqués vaca nova, bonita, comia uma fruta-de-loba lá, mor- ria. Eu tinha uma vaca que dava trinta litro de leite, chamava Criôla. Tinha um bezerro que era uma maravilha! E ela tava lá no curral, e ele acabou de tirar o leite, tinha uma égua mansinha que chamava Mulata. A égua deu um coice no bezerro. O bezerro morreu em cima ali... perdeu. Ele foi veno aquilo, os pórco, porco. Chegava lá o porco tremia, assim, começava a tremer, morria sem sentir doença, sem sentir nada... Ele chamô lá um home, um velho que chamava sô Antônio, pra ir lá benzê. Que ele achô que... criditava em macumba, achava que podia sê uma coisa. O home tirô o chapéu, andô lá, berando a casa, lá no curral. Falou: - Óia, seu Hipólito, aqui Então, é o seguinte: - O gado... meu pai era sitiante, nós possuíamos muitos rebanhos, tínhamos muitas vacas, porcos, carneiros. Mas meu pai era muito nervoso e xingava muitos nomes feios. Levantava cedo, xingando nome feio. Lá em casa não havia luz elétrica, naquele tempo não havia luz, era lamparina de querosene. Ele levantava, se a lamparina apagasse, ele jogava a lamparina no chão e metia o porrete nela até amassar toda. Aí, pegava outra. Se uma vaca... ele ia tirar leite, se a vaca andasse, ele pegava o porrete e metia o porrete na vaca! E xingava aqueles nomes feios, aquelas coisas. Aí entrou uma coisa triste no curral: as vacas, daquelas vacas novas, bonitas, comia uma fruta-de-loba e morria. Eu tinha uma vaca que dava trinta litros de leite, chamava Crioula. Tinha um bezerro que era uma maravilha! E ela estava lá no curral. E ele acabou de tirar o leite, tinha uma égua mansinha que chamava Mulata, a égua deu um coice no bezerro. O bezerro morreu em cima ali... perdeu. Ele foi vendo aquilo, os porcos, porco. Chegava lá o porco tremia, assim, começava a tremer, morria sem sentir doença, sem sentir nada... Ele chamou lá um homem, um velho que chamava senhor Antônio, para ir lá benzer. Que ele achou porque... (ele) acreditava em macumba, achava que podia ser uma coisa. O homem tirou o chapéu, andou lá, beirando não tem nada aqui. Aqui não tem macumba, não tem male oiado, não tem nada. A única coisa que tem aqui é os nome feio que o senhor xinga aqui. E judia muito com as criação. Então, em tempo de o senhor xingá, o senhor pede a Deus, o senhor reza. E assim ele fez. Ele levantava carmo, parô com aquela xingação, de judiá com as criação e foi progredino as coisa, nunca mais morreu uma criação ali, não teve mais nada ali. a casa, lá no curral. Falou: - Olha, seu Hipólito, aqui não tem nada aqui! Aqui não tem macumba, não tem mal olhado, não tem nada. A única coisa que tem aqui é os nomes feios que o senhor xinga. E judia muito com as criações. Então, em tempo de o senhor xingar, o senhor pede a Deus, o senhor reza. Fotos: Débora Resende
  • 27. Transcr ção A ESTÓRIA DA ALMA PENADA Era uma moça muito bonita. Então um rapaz conheceu ela e ficou doido por ela. Aí namorava e tudo. Mas sempre, quando ele ia levar ela na casa dela, ela não deixava ele chegá perto da casa dela. Chegava numa altura do caminho, ela falava: - Não, daqui cê volta porque meu pai é muito bravo e ele não pode vê ninguém conversando comigo. E também não beijava ele tamém não. Nunca deixava ele dá um beijo nela. Aí ele foi ficano intrigado com aquilo. Quando chegô numa semana santa, era sexta-feira santa, aí ele falô com ela - e não podia, é... na sexta-feira santa, esses coisa que ês fala: alma penada, lobisome, essas coisa assim não podia saí - mas ele -Era uma moça muito bonita. Então um rapaz a conheceu e ficou doido por ela. Aí namorava e tudo. Mas sempre, quando ele ia levá-la em casa, ela não deixava ele chegar perto de sua casa. Quando chegavam numa altura do caminho, ela falava: - Não, daqui você volta porque meu pai é muito bravo e ele não pode ver ninguém conversando comigo. E também não beijava ele. Nunca deixava ele dar um beijo nela. Aí ele foi ficando intrigado com aquilo. Quando chegou numa semana santa, era sexta-feira santa, aí ele falou com ela - e não podia, na sexta-feira santa, essas coisas que eles falam: alma penada, lobisomem, essas coisas não podiam sair - mas ele insistiu tanto com ela que ela deixou... que ela saiu para encontrar com ele. E também ele insistiu muito quando foi levá-la para casa, para ela deixá-lo ir com ela até na casa e ela deixou. Então saíram de uma rua próxima à rua do cemitério, entraram na rua do cemitério. E lá bem insistiu tanto com ela que ela deixô... que ela saiu pra encontrá com ele. E também ele insistiu muito quando ele foi levá ela pra casa, pra... pra ela, é... deixá ele í com ela, até na casa e ela deixô. Então saíro de uma rua próxima à rua do cemitério, entraro na rua do cemitério. E lá bem no final da rua era o cemitério. Aí ela entrou no portão, e lá dentro do cemitério tinha umas pessoas que morava lá, tinha casa. Aí chegô perto de uma casa ele falou assim: - É nessa casa que cê mora? Ela falou assim: - Não, é ali na frente. E tinha um túmulo muito bonito, muito enfeitado, aí nesse mo- MARIA JOSÉ RIBEIRO mento a tampa do túmulo abriu. E ela abraçô nele e foi ficano, foi virano uma múmia, só os ossos. Aí ele, muito assustado. E então é... ele sempre falava com ela que, que ele queria ficar junto. E ela respondia que eles iam ficar junto sim pra eternidade, eternamente. E nessa hora que ela abraçô ele, ela falou com ele que: - Uai! Ocê não qué ficá comigo eternamente? Aí ele pegô e ficô com muito medo e lembrô de uma oração que afastava os mórto, que a vó dele havia ensinado. E ele pensô na oração e ela soltô ele e ai ele saiu correndo. Só que ele enlouqueceu de medo. Quem contô a estória foi o coveiro do cemitério. no final da rua era o cemitério. Aí, ela entrou no portão, e lá dentro do cemitério havia umas pessoas que moravam lá, havia casas. Aí chegou perto de uma casa, ele falou assim: - É nessa casa que você mora? Ela falou assim: - Não, é ali na frente. E havia um túmulo muito bonito, muito enfeitado, aí nesse momento a tampa do túmulo abriu. E ela abraçou ele e foi virando uma múmia, só os ossos. Aí ele, ficou muito assustado. E ele sempre falava com ela que..., que ele queria ficar junto. E ela respondia que eles iam ficar juntos sim, eternamente. E nessa hora que ela abraçou ele, ela falou com ele: - Uai! Você não quer ficar comigo eternamente? Aí ele pegou e ficou com muito medo e lembrou de uma oração que afastava os mortos, que a avó dele havia ensinado. E ele pensou na oração e ela o soltou, ai ele saiu correndo. Só que ele enlouqueceu de medo. Quem contou a estória foi o coveiro do cemitério. 27
  • 28. O MARIDO QUE VENDEU A MULHER PRO DIABO Havia um lugar que fabricava um vinho muito bom. E tinha um lenhador - desses que corta lenha lá pro mato. E... ele gostava muito de vinho, e lá fabricava esse vinho muito bom. E aí um dia ele tava lá cortando lenha e pensando: - Ô gente, eu gosto tanto desse vinho que ês fabrica aí! E eu num ganho nada. O que eu ganho não dá nem pá minha despesa e pá minha esposa. Se o Diabo quisesse fazê um negócio comigo eu fazia, pra mim tê dinheiro pra comprá esse vinho. Ah! Foi ele falá isso, o bichão apareceu: - Eu tô às suas ordem! Tem aqui um saco de dinheiro, um saco de ouro pr’ocê bebê o seu vinho à vontade. Ele ficou mei espantado com aquilo, porque num fazia... pensá no diabo pra arrumá o dinheiro e o diabo aparecê. Ele ficô mei sem jeito e tudo. E o diabo: - Não! Não precisa ter medo não! Só tem uma coisa, o que eu vou exigir é só isso: a hora que ocê fô embora, que ocê apontá no morro lá, que vê a sua casa, o que tivé na... a primeira coisa que cê enxergá na porta da sua casa, cê traz pra mim, é só! Não precisa mais nada. E pode bebê seu vinho aí, tem dinheiro que dá pr’ocê bebê vinho até... a vida inteira. Ele pensô assim: 28 - Ah, lá na porta da minha casa o que eu vou enxergá lá é uma cachorrinha magra que eu tenho... ou uma gatinha... umas galinhinha... não tem problema não! E foi. Quando ele apontô, que viu a casa, a esposa dele na porta! Ele perdeu o jeito, mas perdeu o jeito de uma vez. - E agora? Mas o jeito que tem é levá a esposa. Porque se eu não levá a esposa, eu é que vou morrê. O trato dele lá é esse. E chegô em casa sem jeito, falô pra esposa: - Amanhã cê vai comigo lá, pr’ocê ajudá a empilhá a lenha. Ela achou mei esquisito aquilo porque ela tinha ido lá há pouco tempo, né? Pilhado... Agora tornô chamá... Ela ficou mei sem jeito com aquilo, mas aceitô e foi. Ele falô pra ela: - Cê vai lá na mula, que ela tá meiguinha e eu vou a pé. E pegou a mula e tudo no outro dia, e foi, a esposa muntou e ele foi. E a esposa dele costumava rezá numa igrejinha que tinha perto da casa onde ês morava, no caminho tinha uma igrejinha, de vez em quando ela costumava rezá lá. Quando chegô perto dessa igrejinha ela falô pra ele: - Espera um pouquinho aqui, que eu vô ali rezá uma Ave Maria e vorto, num demoro não. JOSÉ OMAR JUNQUEIRA Foi e vortô logo. Muntô na mula e foi embora. Quando foi chegando lá ele já viu o bichão lá. Lá, com o esporão! Raspava aquela espora no chão: - Opa! Hoje eu tô feito! Quando chegô perto, o bichão olhô na cavaleira assim: - Num é essa não! Num é essa não e coisa! Num é essa não! - É essa mêmo uai, minha esposa é essa aí. E deu aquele estouro, deixô um cheiro de enxofre lá e sumiu! Ele vortô do susto... - É... Eu trouxe a esposa, ele num quis! Agora eu fico com o dinheiro. E a esposa. Fico com o dinheiro e a esposa. Já, ela num chegô nem descê do cavalo, ele pegô na rédea e puxô e foi embora. Quando chegô na igreja, ela disse pra ele: - Cê espera um pouquinho aqui, vô rezá uma Ave Maria e vorto. E foi... Mas chegô lá e não vortava nunca! Uma hora, duas... e ele incomodado: - Gente! E nem... e nem o meu fumo eu trouxe... e palha pá fazê um cigarro... e essa mulher não vem nunca. O jeito é ir lá, ir lá ver o quê que ela tá fazeno. Quando chegou lá ela tava deitada, ele foi e chamô: - Ô, mas eu tô pensano que cê ta rezano, cê ta deitada dormino aí? Ela acordô e falô pra ele: - Ô, mas ocê me acordô numa hora ruim! Eu tava sonhano que ocê me vendeu pro diabo! E eu cheguei aqui, Nossa Senhora falô pra mim: “Fica aqui fia, que o seu marido vendeu ocê pro Diabo, e eu vou no seu lugar!” Muntou na... Aí ela levantô, muntô na mula e foi. E aí ele pegô o saco de dinheiro e jogô lá... fora e converteu. Não quis sabê mais de ouro pra bebê cachaça não. Nossa Senhora sarvô a esposa dele, sarvô por causa da reza dela de todo dia. Fotos: Débora Resende
  • 29. Transcrição Havia um lugar em que fabricavam um vinho muito bom. E havia um lenhador desses que cortam lenha lá no mato. E ele gostava muito de vinho, e lá fabricavam esse vinho muito bom. E aí um dia ele estava lá cortando lenha e pensando: - Ô gente, eu gosto tanto desse vinho que eles fabricam aí! E eu não ganho nada. O que eu ganho não dá nem para minha despesa e para minha esposa. Se o Diabo quisesse fazer um negócio comigo eu faria, para eu ter dinheiro para comprar esse vinho. Ah! Foi ele falar isso, o bichão apareceu: - Eu estou às suas ordens! Tem aqui um saco de dinheiro, um saco de ouro para você beber o seu vinho à vontade. Ele ficou meio espantado com aquilo, porque não imaginava que pudesse pensar no Diabo para arrumar o dinheiro e o Diabo aparecer. Ele ficou meio sem jeito e tudo. E o diabo: - Não! Não precisa ter medo não! Só tem uma coisa, o que eu vou exigir é só isso: a hora que você for embora, que você apontar no morro lá, que ver a sua casa, a primeira coisa que você enxergar na porta da sua casa, você traz pra mim, é só! Não precisa mais nada. E pode beber seu vinho aí, tem dinheiro que dá para você beber vinho a vida inteira. Ele pensou assim: - Ah, lá na porta da minha casa o que eu vou enxergar é uma cachorrinha magra que eu tenho, ou uma gatinha, umas galinhinhas, não tem problema não! E foi. Quando ele apontou, que viu a casa, a esposa dele na porta! Ele perdeu o jeito, mas perdeu o jeito de uma vez. - E agora? Mas o jeito que tem é levar a esposa. Porque se eu não levar a esposa, eu é que vou morrer. O trato dele lá é esse. E chegou em casa sem jeito, falou para esposa: - Amanhã você vai comigo lá, para você ajudar a empilhar a lenha. la achou meio esquisito aquilo porque ela tinha ido lá há pouco tempo, não é? Empilhado... Agora voltou a chamar... Ela ficou meio sem jeito com aquilo, mas aceitou e foi. Ele falou pra ela: - Você vai lá montada na mula, porque ela está mansinha, e eu vou a pé. E pegou a mula e tudo no outro dia, a esposa montou e ele foi. E a esposa dele costumava rezar em uma igrejinha que havia perto da casa onde eles moravam, no caminho havia uma igrejinha, de vez em quando ela costumava rezar lá. Quando chegaram perto dessa igrejinha ela falou pra ele: - Espera um pouquinho aqui, que eu vou ali rezar uma Ave Maria e volto, não demoro. Foi e voltou logo. Montou na mula e foi embora. Quando foram chegando lá, ele já viu o bichão lá. Lá, com o esporão! Raspava aquela espora no chão: - Opa! Hoje eu estou “feito”! Quando chegou perto, o bichão olhou na cavaleira assim: - Não é essa, não! Não é essa, não, e coisa! Não é essa não! - É essa mesmo uai, minha esposa é essa aí. E deu aquele estouro, deixou um cheiro de enxofre lá e sumiu! Ele voltou do susto... - É... Eu trouxe a esposa, ele não quis! Agora eu fico com o dinheiro. E a esposa. Fico com o dinheiro e a esposa. Já, ela não chegou nem a descer JOSÉ OMAR JUNQUEIRA do cavalo, ele pegou a rédea e puxou e foi embora. Quando chegou na igreja, ela disse para ele: - Você espera um pouquinho aqui, vou rezar uma Ave Maria e volto. E foi. Mas chegou lá e não voltava nunca! Uma hora, duas... e ele incomodado: - Gente! E nem o meu fumo eu trouxe, e palha para fazer um cigarro. E essa mulher não vem nunca. O jeito é ir lá ver o que ela está fazendo. Quando ele chegou lá, ela estava deitada, e ele a chamou: - Ô, mas eu estou pensando que você está rezando, você está deitada dormindo aí? Ela acordou e falou para ele: - Ô, mas você me acordou em uma hora ruim! Eu estava sonhando que você me vendeu para o Diabo! E eu cheguei aqui, Nossa Senhora falou para mim: “Fica aqui filha, que o seu marido vendeu você para o Diabo, e eu vou em seu lugar!”. Aí ela levantou, montou na mula e foram. E aí ele pegou o saco de dinheiro e jogou fora e se converteu. Não quis saber mais de ouro para beber cachaça não. Nossa Senhora salvou a esposa dele, salvou por causa da reza dela de todo dia. 29
  • 30. O CASO DO PEAO PAULINO Balbino de Souza Rezende Antigamente, aqui em Carrancas, pareceu um peão argentino aí. Chamava Paulino Franco, aí veio mansar tropa, mansá tropa nas fazenda aí. Ficô aí, ficô mais de um ano aí mansando tropa. E muito esperto, muito ativo, louco, era forçoso... Aí ficô gostano de uma moça na fazenda aí, né? Ela chamava Jorgina. Aí começô um namorico lá e ele pediu ela em casamento. Naquele tempo o namoro era bem... os pai parpitava muito, a famía, né? Dava muito parpite e tudo, né? Mas ele ficô gostano dela, ela era uma costureira, aí pediu ela em casamento, mas não sabe por que... a famía não aceitô. Não quis o casamento dela com o peão Paulino não. Aí quando foi na festa aqui de dezembro, todo ano faz a festa em dezembro aqui. Em mil oitocentos e noventa e dois, dezembro de mil oitocentos e noventa e dois! Aí muita barraca na rua, aquele movimento de gente, era muito animada a festa, né? De repente, pusero lá, não sabe quem que pusero, uma tabuinha envernizadinha, arrumadinha com o nome né? Com o nome do peão. Quando o leiloeiro gritô lá, botô no leilão, e veio, ninguém pôs lance não né? Mas o leiloeiro já veio com a tábua e entregô pro peão, né? Uma tabuinha bonitinha assim com o nome dele, né? Aí ele não sabia do costume não, ele era argentino. Aí: - Pra quê? O quê que representa essa tábua aí? Ês riro muito dele, que a turma do lugá já sabia, né? Da história... Aí um virô pra ele e falô: - Não, isso aí é as- 30 sim: quando um rapaz pede em casamento pra uma moça que não aceita, ês fala: “Leva a tábua! Toma a tábua!” Levou a tábua. Ê... mas o rapaz ficou envenenado! Nossa! O peão foi na lua e vortô. Num aceitô a história nem vê. E quando foi de noite, no outro dia ia ter um leilão, teve leilão e depois teve uma festa, um baile, no casarão, ainda existe até hoje lá na praça, lá embaixo, né? O casarão da família do Coronel Rozendo. Aí ele arrumô direitim tudo, aprontô, pra vingá da moça. Aí quando foi certa hora ele – dizem que tava dançano com a moça, outros fala que não tava – quando a moça foi passano perto, ele punhalô ela. Ele era muito treinado, esperto, ativo, né? E foi uma facada só, a moça logo, logo caiu e morreu mêmo. Quando ês cataro no chão já tava morta. Aí foi aquele arvoroço e tudo lá, no salão. E ele encostô na parede com a faca, com o punhal na mão, e ninguém chegava perto dele. Í... mas ficô valentão mêmo! Aí quando foi certa hora, um home, um fazendêro que tava dormino, viu o arvoroço, acordô, né? Veio por trás escondido, pegô a tranca da porta, deu uma trancada na cabeça dele! Aí ele bambeô e jogô no chão, né? Aí ês pegaro, chegaro, marraro, marrô ele tudo, né? E começô a judiação, até no ôtro dia! Mas o home num morria nem vê, sô! Ele era muito forte, né? E até falaro que ele tinha pacto com o Coisa-ruim, antigamente usava essas coisa, né? E quando ele, pôs ele lá no terreiro lá, marrô depois levô, marrô deitado, depois levô pra praça. Tinha um cruzêro na praça ali em baixo, né? Marrô ele no pé do cruzeiro, um cruzêro muito forte tamém, uma maderona grossa, né? Aí... mas... judiava! Dava tiro no home, mas o home não morria nem vê. Aí foi priciso, uma dona muito religiosa é que trouxe uma vela benta, uma bala benta, né? Passô na vela da igreja, aí conseguiu terminá com ele, né? Mas ó: mesmo assim ainda correu com ele pra cidade inteira. Falava que ia até quemá o corpo! Depois um fazendêro da época num aceitô não, quemá não. Fizero um túmulo, uma sepultura pra ele de fora da igreja - aí depois dismanchô - de fora do cemitério, né? E enterrô ele lá. Fez lá um túmulo, pôs um monte de pedra assim, né? Aí ês fala que até quem pegava caso difícil pá resorvê, pegava com a “arma” dele e era atendido, diz que recebeu até graça com a “arma” do peão Paulino. Agora, isso foi em mil oitocentos e noventa e dois, já tem muitos anos, né? Cento e tantos anos, né? Mas até hoje o povo lembra dessa história, num esquece. Conteceu aqui em Carrancas e esparramô aí por roda, por Minas Gerais inteira aí né? Na época foi uma novidade muito grande, uma brutalidade dessa, umas coisa esquisita, né?
  • 31. Transcrição Antigamente, aqui em Carrancas, apareceu um peão argentino. Chamava-se Paulino Franco, aí ele veio amansar tropas, amansar tropas nas fazendas. Ficou aí, ficou mais de um ano aí amansando tropas. E muito esperto, muito ativo, louco, era forçoso... Aí ficou gostando de uma moça na fazenda. Ela se chamava Jorgina. Começaram um namorico e ele pediu ela em casamento. Naquele tempo o namoro era bem... os pais palpitavam muito, a família. Davam muito palpite e tudo, não é? Mas ele ficou gostando dela, ela era uma costureira. Aí ele pediu ela em casamento, mas não se sabe por que, a família não aceitou. Não quis o casamento dela com o peão Paulino não. Quando chegou a festa de dezembro, todo ano se faz a festa em dezembro aqui. Em mil oitocentos e noventa e dois, dezembro de mil oitocentos e noventa e dois! Aí, muita barraca na rua, aquele movimento de gente, era muito animada a festa. De repente, puseram lá, não se sabe quem pôs, uma tabuinha envernizadinha, arrumadinha com o nome né? Com o nome do peão. Quando o leiloeiro gritou lá, botou no leilão, e veio, ninguém pôs lance não né? Mas o leiloeiro já veio com a tábua e entregou para o peão, né? Uma tabuinha bonitinha assim com o nome dele. Aí ele não sabia do costume não, ele era argentino. - Pra quê? O quê representa essa tábua aí? Eles riram muito dele, porque a turma do lugar já sabia, né? Da história... Aí um virou para ele e falou: - Não, isso aí é assim: quando um rapaz pede em casamento pra uma moça que não aceita, eles falam: “Leva a tábua! Toma a tábua!” Levou a tábua. Ê... mas o rapaz ficou envenenado! Nossa! O peão foi na lua e voltou. Não aceitou a história de jeito nenhum. E quando foi a noite, no outro dia teria um leilão. Teve leilão e depois teve uma festa, um baile, no casarão, ainda existe até hoje, lá na praça, lá embaixo. O casarão da família do Coronel Rozendo. Aí ele arrumou tudo direitinho, aprontou, para se vingar da moça. Quando foi certa hora ele – uns dizem que estava dançando com a moça, outros falam que não estava – quando a moça foi passando perto, ele a apunhalou. Ele era muito treinado, esperto, ativo, né? E foi uma facada só, a moça logo, logo caiu e morreu mesmo. Quando eles pegaram ela no chão, já estava morta. Aí foi aquele alvoroço e tudo lá, no salão. E ele encostou-se à parede com a faca, com o punhal na mão, e ninguém chegava perto dele. Í... mas ficou valentão mesmo! Quando foi certa hora, um homem, um fazendeiro que estava dormindo, viu o alvoroço e acordou. Veio por trás escondido, pegou a tranca da porta, deu uma trancada na cabeça dele! Aí ele bambeou e caiu no chão. Aí eles pegaram, chegaram, amarraram, amarrou ele todo, né? E começou a judiação, até no outro dia! Mas o homem não morria de jeito nenhum! Ele era muito forte. E até falaram que ele tinha pacto com o Coisaruim, antigamente era normal essas coisas. E quando puseram ele lá no terreiro, amarraram ele deitado e depois levaram para a praça. Havia um cruzeiro na praça ali em baixo. Amarraram ele no pé do cruzeiro, um cruzeiro muito forte também, uma madeirona grossa. E judiavam! Davam tiros no homem, mas o homem não morria de jeito nenhum. Então foi preciso, uma dona muito religiosa é que trouxe uma vela benta, uma bala benta, né? Passaram na vela da igreja, aí conseguiram terminar com ele, né? Mas mesmo assim ainda correram com ele pela cidade inteira. Falavam que iriam até queimar o corpo! Depois um fazendeiro da época não aceitou queimar não. Fizeram um túmulo, uma sepultura para ele de fora da igreja - aí depois se desmanchou - de fora do cemitério, né? E enterraram ele lá. Fizeram lá um túmulo, colocaram um monte de pedras. Eles falam que até quem pegava caso difícil para resolver, pegava com a alma dele e era atendido, dizem que recebiam até graça com a alma do peão Paulino. Agora, isso foi em mil oitocentos e noventa e dois, já tem muitos anos. Cento e tantos anos, né? Mas até hoje o povo se lembra dessa história, não se esquece. Aconteceu aqui em Carrancas e esparramou-se pelas redondezas, por Minas Gerais inteira. Na época foi uma novidade muito grande, uma brutalidade dessas, umas coisas esquisitas. 31
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  • 40. GLOSSÁRIO ABUSÕES: superstições. ADRO: pátio. ALAZÃO: diz-se do cavalo que tem cor de canela. ALFAIA: Utensílio de uso ou adorno doméstico. BAIÚCA: bodega. pequena taberna ou casa; BARBICACHO: cordel que prende LOGRADO: enganado, iludido. LUSTRO: o espaço de cinco anos. MAROTO: malicioso; brejeiro; lascivo. MARRECO: astuto; sagaz. MATULA: corja. MODORRENTO: estúpido. MOTE: conceito de ordinário expresso o chapéu ao queixo. num dístico ou numa quadra; para ser glosado; tema; epígrafe. CACATEADO: importunado. a pele do carneiro com a lã que serve de forro ao assento do lombilho ou no BURLÃO: enganador; trapaceiro. PELEGO: CACHAÇÃO: pescoção, pancada na EMBORNAL DE CAUSOS a me- parte posterior do pescoço; CACHACEIRO: aquele que se embriaga com cachaça; arrogante, soberbo; CATITA: enfeitado; elegante; bonito. CHALEIRAR: bajular; adular. CHILREIO: ato de chilrear; sons moria do cotidiano serigote. PERQUIRIR: pesquisar, inquirir minuciosamente. PIASSAVA: agudos e estridentes dos pássaros. (piaçava) nome de duas palmeiras que produzem fibras empregadas no fabrico de vassouras. sem grão; seco. RELHO: Circunstante: pessoa que está presente. ROSETA: roda dentada da espora. SÓTA: dama, nas cartas de jogar. SUÇUARANA: animal carniceiro CHOÇA: choupana; cabana; rancho. CHOCHO: sem suco; sem miolo; CHUMBADO: embriagado. CHUPADO: embriagado. DESDITA: desventura. DESVELO: cuidado. ESPAVENTO: espanto; susto. ESPORA: instrumento de metal extravagância. FACETO: faceto. estroinice; travessura; chistoso; alegre; gracioso; FAMULAGEM: criadagem. GINETE: cavalo de montar. HILARIDADE: alegria; riso; tade de rir. azorrague feito de couro torcido; cinturão; fivelão; cinto. da família dos felídeos; puma; onça vermelha. tábuas. von- assoalho; tapume de TIRADOR: tira de couro que os laçadores põem ao redor da cintura quando laçam a pé. TOLDA: turva. TREMENTE: que treme; trêmulo. TROPELIAS: desordem; confusão; tumulto. LODAÇA: lábias; astúcias; gabolices. 40 designativo do cavalo escuro com testa ou pés brancos. TABUADO: que se põe no tacão do calçado para incitar o animal que se monta. ESTÚRDIA: PICAÇO: VANTE: proa VOLUTUOSO: sensual
  • 41. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS CASCUDO, Luís da Câmara; ANDRADE, Mario de, Cartas, 1924 – 1944. Organizador: Marcos Antonio de Moraes. São Paulo: Global, 2010. ______, Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: MEC, 1954. ______, Literatura Oral no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora/ MEC, 1978a. ______, Seleta. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976. DETIENNE, Marcel, Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. ELIADE, Mircea, O sagrado e o Profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004. LE GOFF, Jacques, História e Memória. Tradução Bernardo Leitão... [et al.]. Campinas: Editora da Unicamp, 2003. ORIÁ, Ricardo. Memória e ensino de História. BITTENCOURT, Circe (Org.). O saber histórico na sala-de-aula. São Paulo: Contexto, 1997. TEIXEIRA, Simonne; VIEIRA, Silviane de Souza... [et al.], Educação patrimonial: novos caminhos na ação pedagógica. Campos dos Goytacazes: EDUENF. 2006 Informações do IPHAN disponíveis em: http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do;jsessionid=092730D01A132E79E32EBCBE412DF280?id=10852&retorno=paginaIp han 41