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Opinião
A
Administração da Reputação
Corporativa é um conceito
zainda novo, mas em expan-
são entre as grandes corporações
globais e algumas assessorias de
comunicação e agências de relações
públicas mundo afora. Poucos, no
entanto, compreendem que a repu-
tação não é apenas uma função de
comunicação, mas sim uma função
da administração.
Nenhum plano de marketing,
de relacionamento com investido-
res (RI), de relacionamento com a
mídia ou sofisticadas estratégias de
branding, por mais audacioso que
seja, sustentará os negócios de uma
empresa e a maneira como ela é per-
cebidaporseuspúblicosestratégicos,
stakeholders, audiências prioritárias,
partes interessadas ou outro nome
que se queira dar às pessoas ou gru-
pos que realmente são importantes e
vitais para a rentabilidade e pereni-
dade da organização.
Ao contrário, a reputação de uma
empresa é reflexo de um inspirado
modelo de negócios, implementado
por meio da habilidade e capacidade
de execução de seus administrado-
res, do talento de suas lideranças
e da capacidade de resposta em
momentos de adversidade. Outros
aspectos críticos e determinantes
da reputação corporativa são ges-
tão financeira, competitividade dos
produtos, marketing, tecnologia,
O valor da reputação
corporativa
Há uma lacuna nas empresas: um profissional que tenha se qualificado para
alinhar a administração de fatores intangíveis e garantir que iniciativas e
mensagens produzidas pelos diversos departamentos sejam harmônicas
entre si e atendam aos objetivos do planejamento estratégico
expertise da força de trabalho, ati-
tudes de responsabilidade social,
cultura, práticas (e não apenas dis-
curso) de governança corporativa e
conduta ética de seus administrado-
res e acionistas.
Ainda que uma empresa se comu-
nique com freqüência e de forma
pró-ativa, destinando significativos
orçamentos para esta ação, a falta
de credibilidade de suas mensagens
é um forte sinal de que os problemas
vão além da ineficiência da comu-
nicação ou de um programa de RI.
Portanto, a credibilidade da empresa
estádiretamenterelacionadacomsua
reputação. Um entendimento correto
dos elementos que compõem essa
reputação deveria ser obtido a partir
de informações vitais para alimentar
o plano estratégico das organiza-
ções, assim como seus processos de
decisão,paraodia-a-dia (curtoprazo)
e ano após ano (longo prazo).
A reputação de uma empresa é,
portanto, um ativo intangível que
se reflete diretamente em todos os
demais esforços e iniciativas - desde
seu custo de capital até seu sucesso
no recrutamento de talentos. A
reputação e o nível de confiança
são os primeiros pontos de refe-
Importância crescente dos ativos intangíveis
(Valor de Mercado S&P 500)
Fonte: Jürger H. Daum, Intangible Assets and Value Creation, John Wiley & Sons, 2002
1982 1992 2002
62%
38%
62%
82%
38%
18%
Ativos
Tangíveis
Ativos
Intangíveis
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Opinião
rência quando investidores estão
avaliando o preço de suas ações ou
estudando potencias fusões.
Pode representar, ainda, um
importante valor a ser descontado
quando o inesperado acontece, não
importando se é uma repercussão
negativa na mídia, uma reclassifica-
ção no balanço –é bom lembrar da
implementação do IFRS (veja quadro
aolado)queseavizinhaeaestimada
redução que provocará na lucrativi-
dade das empresas brasileiras– ou
umatransaçãodefusãoouaquisição
com resultados indesejados.
Também faz a diferença em
uma iniciativa hostil de acionistas
minoritários ou, ainda, em desa-
fios públicos envolvendo questões
ambientais, sociais ou assuntos rela-
cionados a movimentos sindicais.
Por outro lado, a reputação pode
ser um grande catalisador na cria-
ção de valor em momentos de
resultados favoráveis e iniciativas
positivas, acelerando os negócios e
potencializando resultados.
Função estratégica
do administrador
No Brasil, os aspectos tangíveis,
em especial o financeiro, ainda são
muito valorizados. Preocupações
com a gestão de reputação, rela-
ções públicas com métricas de
resultado ou branding ainda não
são o foco da maior parte das
organizações. Mas serão. Sai na
frente quem estiver capacitado
para alinhar planos estratégicos
com as atitudes e a comunicação,
tanto nas relações institucionais,
nas manifestações públicas, nas
relações interpessoais e, especial-
mente, na linguagem utilizada nos
websites, relatórios anuais, catálo-
gos de produtos/serviços, revistas
internas ou imprensa, entre outros
meios.
Dentro do contexto corporativo,
o administrador tem uma função
estratégica, pois deverá cuidar da
sustentabilidade da organização a
partir de uma gestão que combina
uma multiplicidade de conhe-
cimentos, tais como estratégia,
finanças, operações, marketing,
regulamentação, comunicação,
governança etc. A habilidade para
gerenciar de maneira harmônica
áreas aparentemente antagônicas
é fundamental, mas ainda não o
credencia para dominar a gestão da
reputação corporativa. Estou certo
que muitos profissionais possam
atingir essa meta, mas faltam for-
mação, técnicas e estratégias.
Em um mercado cada vez mais
complexo e acirrado, no qual se
lida com um grande volume de
informações –oque prejudica a
compreensão e assimilação das
principais mensagens–, é indis-
pensável dominar técnica da
visão sistêmica, sustentabilidade
e comunicação integrada para
atender a uma multiplicidade de
públicos estratégicos, cada vez
mais bem informados, conscien-
tes e exigentes. Mais que isso: tudo
em tempo real. Não é à toa que o
intangível passou a valer mais que
o tangível. Então, estamos prepa-
rando administradores para vencer
esse novo desafio?
Conjunto de normas e pro-
nunciamentos de contabilidade
internacionais publicados e revi-
sados pelo IASB (International
Accounting Standards Board).
As normas IFRS foram ado-
tadas pelos países da União
Européiaapartirde31dedezem-
bro de 2005 com o objetivo de
harmonizar as demonstrações
financeiras consolidadas, publi-
cadas pelas empresas abertas
européias.
A iniciativa foi internacional-
menteacolhidapelacomunidade
financeira. Atualmente, nume-
rosospaísestêmprojetosoficiais
de convergência das normas
contábeis locais para as normas
IFRS, inclusive o Brasil.
Estudo da Ernst Young, com
base em pronunciamentos da
CVM, demonstra que regras
já implementadas provocaram
queda de 20% nos resultados.
IFRS
(Internacional Financial
Reporting Standards)
Adm. Valter Faria
CRA-SP - 25210-7
administrador de empresas,
consultor e especialista em
governança corporativa,
estratégia de comunicação
financeira e relações com
investidores
O administrador
tem uma função
estratégica, pois
deverá cuidar da
sustentabilidade
da organização,
a partir de uma
gestão que
combina uma
multiplicidade de
conhecimentos

O valor da reputação corporativa

  • 1.
    33 Opinião A Administração da Reputação Corporativaé um conceito zainda novo, mas em expan- são entre as grandes corporações globais e algumas assessorias de comunicação e agências de relações públicas mundo afora. Poucos, no entanto, compreendem que a repu- tação não é apenas uma função de comunicação, mas sim uma função da administração. Nenhum plano de marketing, de relacionamento com investido- res (RI), de relacionamento com a mídia ou sofisticadas estratégias de branding, por mais audacioso que seja, sustentará os negócios de uma empresa e a maneira como ela é per- cebidaporseuspúblicosestratégicos, stakeholders, audiências prioritárias, partes interessadas ou outro nome que se queira dar às pessoas ou gru- pos que realmente são importantes e vitais para a rentabilidade e pereni- dade da organização. Ao contrário, a reputação de uma empresa é reflexo de um inspirado modelo de negócios, implementado por meio da habilidade e capacidade de execução de seus administrado- res, do talento de suas lideranças e da capacidade de resposta em momentos de adversidade. Outros aspectos críticos e determinantes da reputação corporativa são ges- tão financeira, competitividade dos produtos, marketing, tecnologia, O valor da reputação corporativa Há uma lacuna nas empresas: um profissional que tenha se qualificado para alinhar a administração de fatores intangíveis e garantir que iniciativas e mensagens produzidas pelos diversos departamentos sejam harmônicas entre si e atendam aos objetivos do planejamento estratégico expertise da força de trabalho, ati- tudes de responsabilidade social, cultura, práticas (e não apenas dis- curso) de governança corporativa e conduta ética de seus administrado- res e acionistas. Ainda que uma empresa se comu- nique com freqüência e de forma pró-ativa, destinando significativos orçamentos para esta ação, a falta de credibilidade de suas mensagens é um forte sinal de que os problemas vão além da ineficiência da comu- nicação ou de um programa de RI. Portanto, a credibilidade da empresa estádiretamenterelacionadacomsua reputação. Um entendimento correto dos elementos que compõem essa reputação deveria ser obtido a partir de informações vitais para alimentar o plano estratégico das organiza- ções, assim como seus processos de decisão,paraodia-a-dia (curtoprazo) e ano após ano (longo prazo). A reputação de uma empresa é, portanto, um ativo intangível que se reflete diretamente em todos os demais esforços e iniciativas - desde seu custo de capital até seu sucesso no recrutamento de talentos. A reputação e o nível de confiança são os primeiros pontos de refe- Importância crescente dos ativos intangíveis (Valor de Mercado S&P 500) Fonte: Jürger H. Daum, Intangible Assets and Value Creation, John Wiley & Sons, 2002 1982 1992 2002 62% 38% 62% 82% 38% 18% Ativos Tangíveis Ativos Intangíveis
  • 2.
    34 Opinião rência quando investidoresestão avaliando o preço de suas ações ou estudando potencias fusões. Pode representar, ainda, um importante valor a ser descontado quando o inesperado acontece, não importando se é uma repercussão negativa na mídia, uma reclassifica- ção no balanço –é bom lembrar da implementação do IFRS (veja quadro aolado)queseavizinhaeaestimada redução que provocará na lucrativi- dade das empresas brasileiras– ou umatransaçãodefusãoouaquisição com resultados indesejados. Também faz a diferença em uma iniciativa hostil de acionistas minoritários ou, ainda, em desa- fios públicos envolvendo questões ambientais, sociais ou assuntos rela- cionados a movimentos sindicais. Por outro lado, a reputação pode ser um grande catalisador na cria- ção de valor em momentos de resultados favoráveis e iniciativas positivas, acelerando os negócios e potencializando resultados. Função estratégica do administrador No Brasil, os aspectos tangíveis, em especial o financeiro, ainda são muito valorizados. Preocupações com a gestão de reputação, rela- ções públicas com métricas de resultado ou branding ainda não são o foco da maior parte das organizações. Mas serão. Sai na frente quem estiver capacitado para alinhar planos estratégicos com as atitudes e a comunicação, tanto nas relações institucionais, nas manifestações públicas, nas relações interpessoais e, especial- mente, na linguagem utilizada nos websites, relatórios anuais, catálo- gos de produtos/serviços, revistas internas ou imprensa, entre outros meios. Dentro do contexto corporativo, o administrador tem uma função estratégica, pois deverá cuidar da sustentabilidade da organização a partir de uma gestão que combina uma multiplicidade de conhe- cimentos, tais como estratégia, finanças, operações, marketing, regulamentação, comunicação, governança etc. A habilidade para gerenciar de maneira harmônica áreas aparentemente antagônicas é fundamental, mas ainda não o credencia para dominar a gestão da reputação corporativa. Estou certo que muitos profissionais possam atingir essa meta, mas faltam for- mação, técnicas e estratégias. Em um mercado cada vez mais complexo e acirrado, no qual se lida com um grande volume de informações –oque prejudica a compreensão e assimilação das principais mensagens–, é indis- pensável dominar técnica da visão sistêmica, sustentabilidade e comunicação integrada para atender a uma multiplicidade de públicos estratégicos, cada vez mais bem informados, conscien- tes e exigentes. Mais que isso: tudo em tempo real. Não é à toa que o intangível passou a valer mais que o tangível. Então, estamos prepa- rando administradores para vencer esse novo desafio? Conjunto de normas e pro- nunciamentos de contabilidade internacionais publicados e revi- sados pelo IASB (International Accounting Standards Board). As normas IFRS foram ado- tadas pelos países da União Européiaapartirde31dedezem- bro de 2005 com o objetivo de harmonizar as demonstrações financeiras consolidadas, publi- cadas pelas empresas abertas européias. A iniciativa foi internacional- menteacolhidapelacomunidade financeira. Atualmente, nume- rosospaísestêmprojetosoficiais de convergência das normas contábeis locais para as normas IFRS, inclusive o Brasil. Estudo da Ernst Young, com base em pronunciamentos da CVM, demonstra que regras já implementadas provocaram queda de 20% nos resultados. IFRS (Internacional Financial Reporting Standards) Adm. Valter Faria CRA-SP - 25210-7 administrador de empresas, consultor e especialista em governança corporativa, estratégia de comunicação financeira e relações com investidores O administrador tem uma função estratégica, pois deverá cuidar da sustentabilidade da organização, a partir de uma gestão que combina uma multiplicidade de conhecimentos