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Sexualidade Juvenil
O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar




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O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar




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    EXPEDIENTE

    Diretor Presidente                                              Instituto de Protagonismo Juvenil – IPJ
    José Aniervson Souza dos Santos                                   Rua Cônego Benigno Lira, s/n – Centro
                                                                                   55750-000 Surubim – PE
    Diretora de Projetos                                                           CNPJ: 12.350.352/0001-56
    Cinthia Maria Queiroz da Silva                                    Site: www.juventudeprotagonista.org.br
                                                                    E-mail: ipj@juventudeprotagonista.org.br
    Diretor Financeiro
    Taciano Neidson Arruda da Silva

    Secretária                                                     Diagramação: José Aniervson Souza dos
    Anaihara Assunção de Arruda                                    Santos
                                                                   Capa: José Aniervson Souza dos Santos
    Setor de Pesquisa e Publicação                                 Correção: Ir. Francisca Simony Silva de
    Leandro Correia do Nascimento                                  Lima, Lindiana Regina da Silva, José
                                                                   Aniervson S. dos Santos.
    Área de Gênero e Etnia                                         Revisão: Lindiana Regina da Silva.
    Kássia Maria Queiroz da Silva                                  Imagens: Web

    Área de Sociopolítica
    Robson Santana da Silva

    Setor de Comunicação e Publicidade
    José Nivaldo da Silva Júnior




        ©Todos os direitos reservados / IPJ - 2011

  Santos, José Aniervson Souza dos
           Sexualidade Juvenil: o discurso sobre a sexualidade no espaço escolar / José
  Aniervson Souza dos Santos. – Surubim: IPJ, 2011.


Para garantir a igualdade de gênero este material está escrito numa linguagem inclusiva.
Leia-se no masculino e/ou feminino.

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                                                        SUMÁRIO

Apresentação Institucional.......................................................................... 6


INTRODUÇÃO
Escola e Educação Sexual............................................................................ 8
Iniciando a conversa

CAPÍTULO 1
Corpo e sexualidade, o jovem em questão............................................... 14
Um pouco de teoria

Modificações corporais na cultura contemporânea.................................................................                      19
Os jovens e a moda.................................................................................................................   20
Gravidez na adolescência........................................................................................................      22
Os jovens e suas formas de relacionamentos..........................................................................                  24
Jovens homossexuais dentro da escola...................................................................................               26

CAPÍTULO 2
O espaço escolar e a juventude................................................................. 30
Análise da pesquisa

Contexto Social do Município................................................................................................ 33
Educação sexual promovida pela escola, segundo os alunos.................................................. 36
Preconceito na escola.............................................................................................................. 38
Espaço de encontros e relacionamentos.................................................................................. 42
O uso da camisinha................................................................................................................. 44
A Virgindade em questão........................................................................................................ 46
Sexualidade e Religião............................................................................................................ 51
Educando Corpos, produzindo a Sexualidade.......................................................................... 56
Conclusão..................................................................................................... 62

ANEXOS
Lista de perguntas feitas pelos jovens na última Roda de Conversa da
Pesquisa......................................................................................................... 72

Relação dos/as pseudo-s dos/as jovens participantes da pesquisa.............. 74

Sobre o autor................................................................................................ 76
José Aniervson Souza dos Santos

Bibliografia................................................................................................... 80



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Apresentação Institucional




O
             Instituto de Protagonismo Juvenil é uma Organização Não Governamental, sem
             fins lucrativos, criada por jovens provenientes da Pastoral da Juventude, que
             idealizam uma nova organização a qual desenvolve um trabalho com toda
juventude, sempre acreditado no potencial criativo e inovador do jovem. A entidade foi
fundada no dia 17 de maio de 2010.
       Acreditamos que podemos “Contribuir para o desenvolvimento integral dos jovens
afirmando seu papel social como promotor de cidadania através da intervenção concreta
na proposição e consecução de políticas internas e públicas fortalecendo seu
protagonismo na sociedade”.
       Nossa área de atuação abrange todo o território brasileiro na qual trabalhamos alguns
eixos temáticos: Políticas Públicas, Relações de Gênero, Capacitação Profissional e
Participação Juvenil nos seguintes programas: Formação Integral para Jovens, Formação
Continuada para Educadores de Jovens, Articulação em Redes e Gestão & Desenvolvimento
Institucional. Identificamos dois segmentos como público: adolescentes/jovens e educadores
de jovens.
       Temos certeza que Educação é um processo que envolve reflexão, ação e a escuta
pedagógica centralizada na vida. Desta forma, esperamos fortalecer e criar vínculos de
identidade pessoal, com o outro e com a totalidade.
       Dentro dessa perspectiva é que a partir dos programas “Formação Integral para
Jovens; Formação Continuada para Educadores de Jovens e Articulação em Redes” é
que desenvolvemos a pesquisa sobre a vivência da Sexualidade dos/as Jovens dentro do
espaço escolar, assim apresentando:
       Programa de Formação Integral para Jovens – este programa tem como foco direto
o nosso público – a juventude. Através desse trabalho e do contato com os jovens
aprimoramos o estudo a cerca do fenômeno juvenil. Conhecemos e entendemos de perto o
perfil da juventude surubinense e região. O jovem sendo entendido em seus anseios, suas
angústias, suas dúvidas, sua rebeldia e apaixonados por seus ideais, convicto que pode fazer
parte da construção de um novo tipo de sociedade.
       Programa de Formação Continuada para Educadores de Jovens – acreditamos
que os educadores são estrategicamente essenciais no processo formativo da juventude. Com

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eles buscamos descobrir e construir metodologias mais participativas que respeitem os jovens
como indivíduos de direitos que são e ajudem a vencer as barreiras nas relações que existem
na família, na escola e na comunidade.
       Programa de Articulação em Redes – os outros programas têm uma ação mais
voltada para formação. Entretanto, sabemos que o intercâmbio e a articulação entre as
organizações diversas são um importante instrumento para construção de uma nova nação.
Acreditamos que o protagonismo juvenil é uma alternativa saudável onde o jovem e o
educador, cada um no seu espaço, podem mostrar sua ação, propor, fiscalizar políticas para a
juventude e a sociedade, através do estabelecimento de relações em redes e parcerias com
outras organizações ampliando assim, sua atuação.
       Neste sentido, o fazer pedagógico pode ser traduzido através de práticas educativas
que valorizem a autonomia dos sujeitos, que tenham a reflexão teórica como elemento
estruturante da nossa ação, que aportem a criticidade, a alegria, a ousadia, a esperança e o
questionamento cotidianamente, dessa forma tenham o diálogo como instrumento de
comunicação.




                                                             Conselho Diretor
                                                      Instituto de Protagonismo Juvenil
                                                                     IPJ




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                           A escola precisa ser o espaço em que a criança e o/a jovem
                           compreendam a sua sexualidade como um todo e não como uma
                           atividade a parte de seu cotidiano. É necessário educar e não
                           apenas informar, o primeiro é mais complexo, é um processo.
                                  A sexualidade de um indivíduo define-se como sendo suas
                           preferências,   predisposições   ou      experiências    sexuais,   na
                           experimentação e descoberta da sua identidade e atividade sexual,
                           construídos socialmente. Ao tratar do tema Sexualidade Juvenil,
                           procura-se considerar a sexualidade não como algo inerente a
                           vida, a saúde, e a educação, que se expressa de forma homogênea
                           no ser humano, mas como diz Guacira Lopes Louro (2001) que a
                           “sexualidade     envolve      rituais,     linguagens,      fantasias,
A sexualidade de um
indivíduo define-se como   representações, símbolos, convenções... Processos profundamente
sendo suas preferências,   culturais e plurais” (p.11). É importante ressaltar o valor de uma
predisposições ou
experiências sexuais, na   prática educacional que esteja inserida no contexto sociocultural,
experimentação e           psicológico, afetivo e religioso, visando compreender as
descoberta da sua
identidade e atividade     diferenças de cada indivíduo em seus valores familiares.
sexual, construídos               Ao se tratar da Educação Sexual, o/a educador/a deve
socialmente.
                           buscar o maior número de informações e experiências que possam
                           ser passadas para o/a aluno/a de forma que venha enriquecer as
                           informações dele/a a respeito do assunto, propiciando a ele/a uma
                           vida sexual prazerosa e, acima de tudo, com responsabilidade.
                           Os/as educadores/as em parceria com a família são fundamentais
                           na formação sexual do/a adolescente e do/a jovem. A família deve
                           ser orientada, visto que ela é a fonte principal da formação, para
                           que proporcione uma vida moralmente sadia, inclusive sendo
                           responsável em transmitir um conhecimento sadio da sexualidade
                           humana.

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         Os/as jovens, apesar de muitas vezes não demonstrarem, são extremamente
necessitados/as de conceitos morais e do amparo familiar que, quando realizados de forma
coerente, proporcionam a formação de homens e mulheres de valores, exemplos para a
sociedade. A escola é vista como um importante complemento, isso quando bem orientada.
“É   preciso que a escola compreenda que também é seu papel, dar ao aluno condições para se
inserir no meio social” (ARTIGONAL).
         A esse respeito, Libâneo (1998), afirma que a escola com a qual sonhamos deve
assegurar a todos a formação que ajude o/a aluno/a a transformar-se em um sujeito pensante,
capaz de utilizar seu potencial de pensamento na construção e reconstrução de conceitos,
habilidades e valores.

                         Para tanto, torna-se necessário ao professor, o conhecimento de estratégias de ensino e
                         o desenvolvimento de suas próprias competências de pensar, além da abertura, em
                         suas aulas, para a reflexão dos problemas sociais, possibilitando aulas mais
                         democráticas, através de um saber emancipador. Pois, apropriar-se criticamente da
                         realidade significa contextualizar um determinado tema de estudo, compreendendo
                         suas ligações com a prática vivenciada pela humanidade (LIBÂNEO, 1998, p. 42).


         A escola enquanto instituição “detentora do saber” precisa compreender sua
importância na formação do sujeito que atua em uma sociedade e deve contribuir
positivamente para que esse saber seja trabalhado de forma democrática independentemente
de qual grupo social ele/a pertença.
         Quando falamos em "educação sexual", esbarramos com
preconceitos terríveis por parte de muitas pessoas. Por desconhecimento
do assunto, pensam que, se ela for implantada na escola, seus/suas
filhos/a e alunos/a iniciarão sua vida sexual precocemente. “Pesquisas
revelam que mais de 50% das mulheres têm problemas sexuais, que
começaram,      no     caso     da    maioria        delas,     na       adolescência”
(EDUCACIONAL). Esses problemas, muitas vezes bastante graves, são
geralmente decorrentes da falta de apoio no período das descobertas
sexuais.
         Fica indispensável à compreensão de como a Educação Sexual
promovida pela escola tem interferido na vivência da sexualidade
dos/as     jovens    educandos/as,      motivados        numa        prática   sexual
responsável,    tendo     conhecimento         dos     riscos        e    perigos   da
irresponsabilidade e orientando sua prática com respeito, consciência e

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responsabilidade.
       A discussão entre a escola inserir ou não em seu contexto disciplinar a orientação para
uma sexualidade com responsabilidade, tem causado muita polêmica na sociedade.
Alguns/mas educadores/as acreditam que é papel dos pais essa preocupação. Enquanto os pais
em grande maioria omitem essa responsabilidade, por acharem que é obrigação da escola essa
formação, ou por não terem abertura suficiente com os/as filhos/as sobre o tema.


                     O fato de a família ter valores conservadores, liberais ou progressistas, professar
                     alguma crença religiosa ou não e a forma como o faz determina em grande parte a
                     educação das crianças. Pode-se afirmar que é no espaço privado, portanto, que a
                     criança recebe com maior intensidade as noções a partir das quais construirá sua
                     sexualidade na infância (PCN, 1997, p.112).


       “Quanto mais informação os adolescentes tiverem, quanto melhor a qualidade da
mesma, mais condições eles terão de fazer as escolhas corretas, para não prejudicar a sua
vida” (GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA). Dessa forma, é essencial que se afirme a
importância da educação para a sociedade, visto que é a partir não apenas das informações,
mas principalmente da qualidade da mesma que o indivíduo, em especial, os/as adolescentes e
jovens poderão fazer escolhas acertadas. Assim, poderemos dizer que é necessário educar e
não apenas informar, o primeiro é mais complexo, é um processo.
       É citando Fiori (1981-1982, p.11) “só após a adolescência e o conhecimento real das
conquistas e perigos, a sexualidade externa poderá ser buscada” que reforçamos a importância
da condução do processo educacional de orientação e conhecimento da sexualidade juvenil
para uma busca e/ou uma prática sadia da sexualidade do/a jovem.




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A
            atividade sexual na adolescência vem se
            iniciando precocemente, cada vez mais com
            conseqüências indesejáveis imediatas como,
por exemplo, o aumento da freqüência de doenças
sexualmente transmissíveis (DST) nessa faixa etária;
gravidez, muitas vezes indesejável; união estável;
abortos, etc.
       A mídia nos bombardeia com uma série de
informações que se não transformadas em educação não
nos serve de nada. “Os novos produtos audiovisuais e
informatizados    entraram   em   nossas     vidas    tão
sorrateiramente que, quando percebemos, já estávamos
cercados por eles” (BALAN). “Só podemos concluir uma
coisa: não são jovens que andam desorientados. São os
adultos que não sabem que orientação lhes dar”
(EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS).
       Nesse contexto, é importante fazer um passeio
pelo universo juvenil, por suas cores, seus gostos,
crenças, escolhas, formatos, (re)significações, buscas           É importante fazer
pela afirmação de sua identidade. Falar de temas como            um passeio pelo
                                                                 universo juvenil, por
namoro, sexo, “zoar”, “ficar”, universo gay, camisinha,
                                                                 suas cores, seus
masturbação e tantos outros. Por isso se faz necessário          gostos, crenças,
antes ouvir o/a jovem e saber como o/a mesmo/a tem               escolhas, formatos,
encarado as informações que estão à disposição da mídia          (re)significações,
                                                                 buscas pela
e a favor dela.
                                                                 afirmação de sua
       Não esquecendo que começa a ser alterado o                identidade.
discurso quando se parte para questões essenciais, como
o caso de gênero. Perceber como homem e mulher têm

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encarado tais práticas, como os/as mesmos/as têm encarado o preconceito e as privações.
Como por exemplo: encontrar uma camisinha na bolsa feminina é o mesmo que dizer que a
jovem seja “galinha”, “atirada”, que “transa com todo mundo” e portanto não é uma menina
confiável. Segundo Goldenberg “o preservativo permanece, dessa forma, associado à idéia de
promiscuidade, sujeira, e não à idéia de cuidado e prevenção” (2006, p.102).
       A juventude é espaço propício para o empoderamento da identidade do individuo, é
nessa fase onde o mesmo necessita se afirmar enquanto pessoa, sujeito e parte viva da
sociedade de consumo. As práticas homossexuais estão no universo juvenil, entre tantas
outras definições, como a forma e o meio pelo qual o/a jovem assume que é um corpo,
diferente do discurso do passado que dizia que o/a mesmo/a o possuía. É a idéia do ser e não
do possuir. O/A jovem é caracterizado/a por seus relacionamentos semelhantes aos
movimentos de ioiô, num vai-e-vem inconstante, caracterizando suas paixões como “vôos de
borboleta”, sem pouso certo (PAIS, 2006).
       O corpo é o primeiro plano da visibilidade humana e um lugar privilegiado das marcas
da cultura. Citando Ortega (2006, p.43) “o tabu que se colocava sobre a sexualidade desloca-
se agora para o açúcar, as gorduras e taxas de colesterol”. A preocupação do/a jovem com sua
aparência, estética, porte físico, corte do cabelo, maquiagem, e outras coisas tem se tornado
práticas essenciais no cotidiano de milhares de jovens do nosso século. O jovem do sexo
masculino, diferente do que muitos pensam se preocupam tanto quanto as jovens do sexo
feminino com seu corpo e sua aparência como mostram um estudo feito com pessoas de sexo
masculino:


                     Em estudo recente, mostrei que a extrema preocupação masculina, em particular dos
                     jovens, com altura, força física, virilidade e tamanho do pênis provoca um enorme
                     sofrimento físico e psicológico, causando, inclusive, mortes, como bem mostram os
                     casos de adolescentes que tomaram anabolizantes bovinos para que o corpo crescesse
                     (GOLDENBERG, 2006, p. 27).


       Existem entre os jovens as práticas de uso de medicamentos para aumento de
desempenho sexual, mesmo, dizendo eles, não precisarem, usando-os como forma de
garantia. O medo de falhar e a ansiedade com o desempenho sexual principalmente com
novas parceiras contribui para o uso desses medicamentos. Os mesmos dão segurança em
relação ao desempenho sexual (ibid).


                     Como algo visível e obviamente comparável, ele [o pênis] era o foco implícito
                     do corpo nos vestiários e um ator importante em anedotas e histórias que
                                                                                                    17
Sexualidade Juvenil
                                                   O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


                         constituíam os recursos básicos de nossa pedagogia sexual. Não era estranho
                         ouvir relatos de concursos nos quais a rapaziada media seu pênis,
                         estabelecendo uma hierarquia entre seus donos, ... O pênis era um ator social a
                         ser permanentemente testado, experimentado e consumido. Como órgão
                         central e explícito da masculinidade, como traço distintivo da condição de
                         “homem”, o fato era um elemento permanente de consciência. De tal modo
                         que não seria exagero afirmar que, naquela cultura, a masculinidade era
                         representada e igualmente englobada pelo pênis, ... Ou seja: quem havia
                         nascido homem, tinha de comportar-se como tal – com hombridade, com
                         consistência, firmeza e certa dureza.
                                                                                      Roberto DaMatta


        Vale ressaltar que a “indústria do aumento do pênis” tem crescido bastante, além das
práticas de exercícios nas academias, injeção de anabolizantes e complementos alimentares,
tudo pela obsessão de corresponder ao ideal de “ser homem”. Um fator paralelo é o
sofrimento silencioso desses meninos adolescentes, pois em nossa sociedade, “homens de
verdade” não podem demonstrar preocupação com a aparência, senão podem ser considerados
“afeminados” ou “gays” (GOLDENBERG, 2006).
        Com relação a iniciação sexual, por assim dizer e citando a faixa etária de pessoas
entre idade de 31 a 50 anos, apresentam grande proximidade entre homens e mulheres em
idade que perderam sua virgindade. Atualmente, entre meninos e meninas a diferença de
idade da primeira relação sexual está cada vez mais próxima. Em linhas gerais, os
adolescentes de ambos os sexos iniciaram sua experiência sexual em torno dos 16 anos de
idade, levando em conta que ainda existe uma pressão social para que os meninos se iniciem
sexualmente mais cedo. (ibid).
        Fatores sociais contribuem para as práticas sexuais e os chamados cuidados excessivo
com o corpo. “Ao mesmo tempo, todas as atividades sociais, lúdicas, religiosas, esportivas,
sexuais são ressignificadas como práticas de saúde” (ORTEGA, 2006, p.44). O corpo e o self1
são modelados pelo olhar censurador do outro que leva à introjeção da retórica do risco. A
ideologia do corpo perfeito nos leva a contemplar as doenças que retorcem a figura humana
como sinônimo de fracasso pessoal.

                         A obsessão pelo corpo bronzeado, malhado, sarado e siliconado faz aumentar o
                         preconceito e dificulta o confronto com o fracasso de não atingir esse ideal, como
                         testemunham anorexias, bulimias, distimias e depressões cada vez mais comuns entre
                         jovens e adultos na nossa sociedade. (ibid)


1
 Entendemos self neste trabalho de modo consoante com a compreensão de Safra (2005, p. 39), ou seja, como
uma “organização dinâmica que possibilita a um indivíduo ser uma pessoa e ser ele mesmo”. O autor ressalta
que o self depende da presença de um ambiente facilitador e que “a cada etapa desse processo há uma integração
cada vez mais ampla decorrente das novas experiências de vida” (Idem, Ibidem).
                                                                                                           18
Sexualidade Juvenil
subcutâneos, atividades de fitness e de wellness, anorexia e jejum e todos os tipos de próteses internas e externas colocadas para substituir ou                                              O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar
As “modificações corporais” referem-se a uma imensa prática que inclui, entre outros, tatuagem, piercing, cutting, branding, implantes




                                                                                                                                                          Ainda citando Ortega (id) hoje somos o que aparentamos e estamos, portanto,
                                                                                                                                                   exposto ao olhar do outro, sem lugar para se esconder, como se estivéssemos totalmente a
                                                                                                                                                   mercê do outro. “Já que o que existe está à mostra, sou vulnerável ao olhar do outro, mas,
                                                                                                                                                   ao mesmo tempo, preciso de seu olhar, de ser percebido, senão não existo” (ibid).
                                                                                                                                                          Nesse contexto, o corpo e as tentativas de personalizá-lo aparecem como conquistas
                                                                                                                                                   do século. Ele (o corpo) tornou-se objeto de desconfiança e desconforto. “Não podendo
                                                                                                                                                   mudar o mundo, tentamos mudar o corpo, o único espaço que restou à utopia, à criação. As
                                                                                                                                                   utopias corporais substituem as utopias sociais” (ibid).




                                                                                                                                                                 Modificações corporais na cultura contemporânea


                                                                                                                                                   Para Boaventura Santos, à modernidade é um projeto muito rico, capaz de infinitas
                                                                                                                                                   possibilidades e, como tal, se torna muito complexo e sujeito a desenvolvimentos
                                                                                                                                                   contraditórios. É um projeto ambicioso, revolucionário, com possibilidades muito amplas e,
                                                                                                                                                   por serem amplas, são excessivas e difíceis de serem cumpridas. O autor aponta como
                                                                                                                                                   conseqüência da não realização desse paradigma o surgimento de sinais evidentes de crise,
                                                                                                                                                   pois não se confirmava o brilho prometido da ciência, com soluções privilegiadas para a
                                                                                                                                                   vida social e individual (SANTOS, apud SILVA, 2006).
                                                                                                                                                          Na cultura moderna, as modificações corporais “constituem um esforço no sentido
                                                                                                                                                   de fugir da cultura da aparência e de recuperar uma dimensão do vivido corporal”
                                                                                                                                                   (ORTEGA, 2006, p. 49).
potencializar o funcionamento dos órgãos.




                                                                                                                                                          As “modificações corporais” referem-se a uma imensa prática que inclui, entre
                                                                                                                                                   outros, tatuagem, piercing, cutting, branding, implantes subcutâneos, atividades de fitness e
                                                                                                                                                   de wellness, anorexia e jejum e todos os tipos de próteses internas e externas colocadas para
                                                                                                                                                   substituir ou potencializar o funcionamento dos órgãos (ibid).
                                                                                                                                                          A investidura no corpo é uma resposta dada pelo indivíduo à desestruturação dos
                                                                                                                                                   laços sociais, ao distanciamento do outro e também a perda de valores significativos para o
                                                                                                                                                   indivíduo. Essa perda dá uma impressão de insegurança levando à procura da realidade nas
                                                                                                                                                   marcas corporais. “A marca corporal representa a procura de autenticidade, de uma
                                                                                                                                                   localização real de nossa essência na sociedade da aparência” (ibid).


                                                                                                                                                                                                                                                 19
Sexualidade Juvenil
                                              O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


                     Tatuagem, branding, scarification fornecem a ilusão de uma estabilidade cultural e
                     social, e são tipicamente usados „em situações em que as pessoas sentem ... a
                     necessidade de preservar suas identidades individuais e sociais e de anunciar ... a
                     permanência de suas lealdade, valores e crenças‟ (id).


                                                 O discurso de gênero também está incluso nas
  A passagem do simbólico               práticas    de    modificações      corporais,     citando    a
  ao real acontece pelo                 tatuagem. Numa pesquisa, os/as entrevistados/as
  corpo e no corpo. A dor é
  um elemento                           abordaram assuntos como, local do corpo e imagens
  fundamental nas                       para fazer uma tatuagem. De acordo com os/as
  modificações corporais,
                                        pesquisados/as, existem regiões do corpo “mais
  uma via de acesso ao
  corpo vivido numa                     femininas” ou “mais masculinas”, que norteiam a
  cultura como a nossa, na              escolha do local a ser tatuado: toda a parte superior do
  qual a dor é um
  anacronismo que deve                  tórax (ombros, bíceps, escápulas, região interna dos
  ser suprimido.                        braços e antebraços), para os homens; nuca (com raras
                                        exceções), cóccix, região lombar, virilha, seios e
tornozelos para as mulheres. A divisão “de homem” e “de mulher” estende-se, também, como
citado, aos motivos tatuados: para os homens, são proibidas as imagens de fadas, borboletas,
florzinhas, estrelinhas etc. (PORTINARI; COUTINHO, 2006).
       A passagem do simbólico ao real acontece pelo corpo e no
corpo(ORTEGA, 2003). A dor é um elemento fundamental nas
modificações corporais, uma via de acesso ao corpo vivido numa
cultura como a nossa, na qual a dor é um anacronismo que deve
ser suprimido. As modificações corporais representam uma recusa
do império da visão, uma reivindicação de não ser tratado como
imagem, recuperando para isso experiências táteis e sensoriais,
formas de tocar a carne, vias de acesso ao corpo vivido
(ORTEGA, 2008).


                                   Os jovens e a moda


                     ... a função principal da descrição da moda não é apenas propor um modelo
                     que é uma cópia da realidade, mas também e especialmente colocar a moda
                     em circulação amplamente como um significado.
                                              (Roland Barthes apud Portinari; Coutinho, 2006, p. 65)

                                                                                                     20
Sexualidade Juvenil
                                                O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar




A moda, em si, é uma linguagem cuidadosamente construída. Ela não se limita apenas a
vestuário e acessórios, ela abrange todo o corpo, incluindo a forma corporal, os gestos, a voz,
a entonação, o olhar, a postura, o andar, o tom, a textura e a tonicidade da pele, os pêlos, os
cabelos, enfim tudo que compõe a imagem pessoal. A moda também não se resume aquilo
que é veiculado na mídia (PORTINARI; COUTINHO, 2006).
       A relação dos/as jovens com a moda oscila, entre o mais arraigado conformismo e
uma experimentação que, se não chega a romper inteiramente com os códigos, beneficia-se da
permissividade com o que o próprio sistema da moda contempla essa faixa em nossa
sociedade.
                      Jovens que freqüentam um mesmo ambiente nunca deixam de impressionar o
                      observador pela uniformidade de roupas, acessórios, penteados, gestual, vocabulário e
                      entonação – chegando até, muitas vezes, a apresentar os mesmos tiques verbais e
                      corporais. Ao mesmo tempo, não parece propriamente um exército de clones,
                      conseguindo apresentar-se como indivíduos claramente diferenciados entre si, graças a
                      variações, às vezes mínimas, introduzidas por cada um em seus “uniformes”
                      (PORTINARI; COUTINHO, 2006, p. 67-68)


                              De acordo com Brandes apud Portinari (2006, p. 68-69) “os
                      corpos andróginos, em toda a sua ambigüidade, são ordenados a
                      promover roupas e produtos de beleza unissex, como, por exemplo, CK
                      ONE, a eau de toilette de Calvin Klein para homens e mulheres”.
                              As lacunas resultantes dos questionamentos e reformulações no
                      que diz respeito à sexualidade e aos papéis sexuais pretende produzir e
                      colocar em circulação “uma nova roupa para um novo homem” dentro,
                      é claro, dos novos padrões da moda masculina, chamados “novos
                      modelos de masculinidade”. Os corpos masculinos “começam a
                      adquirir atributos até então vistos sob a ótica burguesa como exclusivos
                      do sexo feminino: cabelos longos, soltos ou em rabos-de-cavalo, lábios
                      grossos e sensuais” (BRANDES, apud PORTINARI; COUTINHO,
                      2006, p.71). Dessa forma, nessa grande fase de originalidade permite ao
                      homem explorar a roupa, usando-a de todas as formas, estilos e
                      materiais.

                      O descuidado, o tosco, o rasgado, o puído, o descosturado, o gasto, o desfiado, o sujo,
                      o esgarçado, o apertado, o desbotado, o colorido, o psicodélico, o brilhoso, o
                      estampado, o extravagante e, inclusive, a própria saia – até então rigorosamente
                      excluída – foram incorporados ao mundo da moda masculina (PORTINARI;
                      COUTINHO, 2006, p.71)
                                                                                                          21
Sexualidade Juvenil
                                              O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar



       Começa o “ritual do culto ao corpo”. Dessa forma adotando rituais de atividades
físicas em academias, cooper na praia, onde passaram a exibir seus corpos vaidosamente
modelados e definidos. Também passaram a adotar variados estilos, incluindo o uso de
brincos, bandanas, gel, maquiagens e esmaltes, cangas amarradas na cintura, cabelos longos,
calças com a cueca à mostra etc. Existe também uma segregação pela cor, homens admitem
usar todas as variações da escala cromática em seu vestuário, mas nunca usariam uma peça
toda cor-de-rosa, explica uma pesquisa feita com homens (ibid). Também a depilação entra no
contexto masculino sendo permissível em casos extremos, de homens muito peludos, por
motivos higiênicos, e, ainda assim, com algumas restrições em determinadas regiões do
corpo, a virilha, por exemplo (ibid).
       É correto, por assim dizer, que já não se invoca mais uma “essência” masculina ou
feminina como ancoragem da diferença entre os sexos, torna-se mais acentuadamente um
campo privilegiado para as negociações do indivíduo no que concerne à sua adesão aos papéis
sexuais. “„Ser homem‟ ou „ser mulher‟ aparece, mas do que nunca, como... uma questão de
gosto”? (ibid).


                                      Gravidez na adolescência


A   gravidez      na   adolescência   tem   sérias   implicações
biológicas, familiares, emocionais e econômicas, além das
jurídico-sociais, que atingem o indivíduo isoladamente e a
sociedade como um todo, limitando ou mesmo adiando as
possibilidades de desenvolvimento e engajamento dessas
jovens na sociedade. Devido às repercussões sobre a mãe e
sobre o concepto é considerada gestação de alto risco pela
Organização Mundial da Saúde (OMS 1977, 1978), porém,
atualmente postula-se que o risco seja mais social do que
biológico.
       Quando a atividade sexual tem como resultante a gravidez, gera conseqüências tardias
e a longo prazo, tanto para a adolescente quanto para o recém-nascido. A adolescente poderá
apresentar problemas de crescimento e desenvolvimento, emocionais e comportamentais,



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                                                  O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar
                                                Segundo os números das pesquisas do
                                                quantitativo de adolescentes grávidas o
                                                aumento das taxas de gravidez na
                                                adolescência se deve, principalmente, à
                                                custa das faixas etárias mais jovens,
                                                em todo mundo.



educacionais e de aprendizado, além de complicações da gravidez e problemas de parto. Há
inclusive quem considere a gravidez na adolescência como complicação da atividade sexual.
        Segundo Mônica Medeiros de Farias2, existem muitos casos de adolescentes grávidas.
“O motivo desse fato é muitas vezes a falta de informação que essas jovens têm a respeito da
sexualidade. O contexto familiar tem relação direta com a época em que se inicia a atividade
sexual. Assim sendo, adolescentes que iniciam sua vida sexual precocemente ou engravidam
nesse período, geralmente vêm de famílias cujas mães também iniciaram vida sexual
precocemente ou engravidaram durante a adolescência. De qualquer modo, quanto mais
jovens e imaturos os pais, maiores as possibilidades de desajustes e desagregação familiar. O
relacionamento entre irmãos também está associado com a atividade sexual: experiências
sexuais mais cedo são observadas naqueles adolescentes em cuja família os irmãos mais
velhos têm vida sexual ativa” comenta.
        No tocante à educação, a interrupção, temporária ou definitiva, no processo de
educação formal, acarretará prejuízo na qualidade de vida e nas oportunidades futuras. E não
raro com a conivência do grupamento familiar e social a adolescente se afasta da escola,
frente a gravidez indesejada, quer por vergonha, quer por medo da reação de seus pais.
        Segundo os números das pesquisas do quantitativo de adolescentes grávidas o
aumento das taxas de gravidez na adolescência se deve, principalmente, à custa das faixas
etárias mais jovens, em todo mundo.
        Em 1980 o Brasil possuía 27.8 milhões de adolescentes entre 10 e 19 anos de idade, o
que representava 23% da população geral. A taxa de fecundidade entre os 15 e 19 anos era de
11%. Nessa época, dos partos realizados pela rede do INAMPS, 13% eram de menores de 19
anos (IBGE, 1980).
        Rocha (1991), no Recife, encontrou 24,5% de partos na adolescência, em amostra de
5.940 recém-nascidos vivos de BNSE, sendo que as menores de 15 anos representavam 0,5%


2
 Monica Medeiros de Farias é Assistente Social que atua no CRAS (Centro de Referência da Assistência Social)
nas cidades de Surubim e Casinhas no estado de Pernambuco (CRESS – 3436). Relato em entrevista oral para
pesquisa sobre gravidez na adolescência realizada no Bairro São José, Surubim/PE.
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Sexualidade Juvenil
                                               O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


do total e as de 15 a 19 anos 23,9% do total, dados muito semelhantes aos do Amparo
Maternal (VITALLE, 1993), exceto pelas mães menores de 15 anos onde se observam
percentuais maiores na população estudada em São Paulo, confirmando assim que a gravidez
na adolescência está aumentando às custas, inclusive, das gestantes mais jovens.
       Por fim,
                      por mais difícil que possa representar uma gravidez na adolescência, presume-
                      se que as decisões de aborto ou reprodução podem ser incorporadas ao
                      processo de construção da identidade juvenil se são vividas como alternativas
                      escolhidas e assumidas por eles e não impostas por terceiros (BRANDÃO;
                      HEILBORN, 2006, p. 1428).




                  Os jovens e suas formas de relacionamentos


                      [...] suas paixões são como “vôos de borboleta”, sem pouso certo; casam-se, não é
                      certo que seja para toda a vida [...] quando se prendem (ao “nó” do casamento),
                      alimentam sempre uma “presunção de divórcio”, isto é, uma crença de que, “se um
                      casamento não funciona... há sempre possibilidades de divórcio” (PAIS, 2006, p. 8-9).


              Muitos autores comentam que nas últimas décadas alguns termos ganharam
              mais conotação no universo juvenil. Diferentemente dos termos usados por
              gerações passadas. A nossa atual geração juvenil detém um novo estilo
              gramatical em suas sociabilidades. Tais termos são usados muitas vezes como
              determinante em alguns agrupamentos juvenis, como sendo uma de suas
              milhares características. Novos termos são cunhados à medida que os
              pertencentes àquelas culturas desempenham papel muitas vezes dominante no
              grupo juvenil.
       Para cada agrupamento existem suas formas de diálogo próprio, tais como gírias,
“dialetos” e expressões, cada um, significando um fenômeno ou uma busca específica. É
como se fosse um pouco da identidade do grupo. Essas novas gramáticas são utilizadas para
identificar também suas novas formas de relacionamento. Expressões como “ficar”, “dar um
rolé”, “azará”, “girar” etc. são consumidas diariamente como expressões identificatórias das
formas de relacionamentos desses/as jovens.




                                                                                                        24
Sexualidade Juvenil
                                             O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


       Para os jovens, do sexo masculino, por exemplo, é sempre
motivo de se vangloriarem por sua capacidade de darem “voltas e
mais voltas” nos fins de semana, na night, nos bailes funks, com
motos e namoradas. PAIS (2006) chama esses relacionamentos de
“vôos de borboletas”. Abraçam estilos de vida que possibilitem
mobilidade e elasticidade.
       Segundo Almeida (2006, p.149) “‟ficar‟ é essencialmente
beijar. Beijar em série, beijar muito, reconfigurando temporalidades
antes submetidas ao crivo da cadência amorosa e sentimental”. A
essa   afirmação   podemos     dizer   que   nas      configurações   de
relacionamento juvenil a dimensão seja a da instantaneidade numa
intensidade volátil. “Nos regimes que compõem as novas semióticas
afetivas em torno do „ficar‟, o beijo assume a condição de
performance, de intransitividade, fisicalidade, arma corporal,
descarga rápida da emoção. Princípio e fim”(id, 2006, p.150).
       A diferenciação entre os gêneros também se faz presente no
modo pelo qual meninos e meninas encaram as distinções e as
preferências entre o namorar e o “ficar”. É comum ouvir nos
discursos femininos a procura pelo namoro, embora sejam elas
grandes autoras da procura do “ficar” na night. Elas são um pouco
mais contidas, menos “atiradas”, como diriam os garotos. Mas, em
contraste, são as que conseguem provocar o sexo oposto para “ir à
caça”. Com suas performances corporais, seus gestos, cores e tons
vibrantes, jeito de mulher, maquiagem chamativa, decotes...
conseguem atrair os olhares daqueles que saíram com a única                      É comum
                                                                                 ouvir nos
intenção de “ficar”, “pegar todas”, “beijar muito”.                              discursos
       Nos garotos, a busca pelo “ficar” é percebida nitidamente. Na             femininos a
                                                                                 procura pelo
“night” sua busca agora é pegar quantas puder. O namoro e a “nigth”
                                                                                 namoro,
são pólos opostos. O que importa para esses jovens é a quantidade                embora sejam
de “minas” que conseguir ficar, não têm intenção de “ficar” com                  elas grandes
                                                                                 autoras da
uma só.                                                                          procura do
       Enfim, em seus relacionamentos, os/as jovens tendem a                     “ficar” na
                                                                                 night.
seguir primeiramente o desejo do gozo a vida. Experimentar de tudo

                                                                                                25
Sexualidade Juvenil
                                           O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


antes do compromisso e responsabilidades de um namoro, pois eles/as sabem o que isso
significa. Para os/as jovens, o namoro é um compromisso, uma responsabilidade e precisa
saber dar conta e antes que cheguem a esse estado desejam “experimentar a vida”. “Os
projetos de vida que os jovens idealizam abrem portas a um vazio temporal de enchimento
adiado. Projetos de vida cujos trajetos nem sempre os alcançam” (PAIS, 2006, p. 10).




                         Jovens homossexuais dentro da escola


Diante do pressuposto que é papel da escola formar o cidadão para uma consciência crítica e
capaz de promover igualdade entre os sexos, respeitando as diferenças e valorizando-as é que
tomamos o direito de falar da homossexualidade dentro do espaço escolar.
       Não é preciso realizar uma pesquisa que foque primeiramente a situação do
preconceito contra homossexuais para percebemos que ela exista dentro do espaço escolar.
Assim como o preconceito contra os negros e pobres é visivelmente assistida em nossas
repartições públicas e instituições responsáveis pela igualdade entre os povos, assim também
assistimos o preconceito contra os homossexuais e muitas vezes até as práticas de extermínios
por essas causas.
       A educação é, e precisa ganhar ainda mais força, enquanto instituição capaz de
promover a emancipação social do indivíduo, contribuindo para a transformação da realidade
e a reafirmação da ética democrática. “Nesse sentido, a escola é um espaço de socialização
para a diversidade” (LIONÇO; DIDIZ, 2009, p. 9).
                           É importante nesse início de debate compreender o que vem a ser a
                    homossexualidade partindo do conceito da heteronormatividade. Termo
                    que se refere aos ditados sociais que limitam os desejos sexuais, as
                    condutas e as identificações de gênero que são admitidos como “normais”
                    ou aceitáveis àqueles ajustados ao par binário masculino/feminino. Desse
                    modo, toda variação ao modelo heterossexual complementar macho/fêmea
                    – ora através de manifestações atribuídas à homossexualidade, ora à
                    transgeneridade – é marginalizada e perseguida como perigosa para a
       “ordem” social.




                                                                                              26
Sexualidade Juvenil
    o sufixo "ismo" é utilizado para identificar sobre a sexualidade no espaço escolar
                                       O discurso doença, enquanto o sufixo "dade",
    quer dizer "um modo de ser“, vinculado a idéia de cidadania.



       Segundo Guacira Lopes Louro, em nossa sociedade, a norma que se estabelece
historicamente remete ao homem branco, heterossexual, de classe média urbana, cristão, não-
deficiente; e esta passa a ser a referência que não precisa mais ser nomeada. Serão os “outros”
sujeitos sociais que se tornarão “marcados”, que se definirão e serão denominados a partir
desta referência. Desta forma, a mulher é representada como “segundo sexo” e gays e lésbicas
são descritos como desviantes da norma heterossexual (LOURO, 2001).
       Querendo explicar a diferença entre os sufixos “ismo” e “dade”, teremos: o sufixo
"ismo" que é utilizado para identificar doença, enquanto o sufixo "dade", quer dizer "um
modo de ser“, vinculado a idéia de cidadania. Dessa forma, pretendemos chamar de
homossexualidade ao invés de homossexualismo, colocando na pauta as suas experiências
como orientação e não opção sexual.
       Ainda conceituando, a Orientação Sexual refere-se à capacidade de cada pessoa de
ter uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do
mesmo gênero ou de mais de um gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas
pessoas. Enquanto a Identidade de Gênero é uma experiência interna e individual, em
termos de gênero, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o
senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou
função corporal por meios médicos, cirúrgico e outros) e outras expressões de gênero,
inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos. Ou seja, mudar fenotipicamente.
       Então,
                      o ideal de homogeneização levava a crer que os/as estudantes negros/as, indígenas,
                      transexuais, lésbicas, meninos e meninas deveriam se adaptar às normas e à
                      normalidade. Com a repetição de imagens, linguagens, contos e repressão aos
                      comportamentos anormais (ser canhoto, por exemplo) se levariam os “desviantes” à
                      integração ao grupo, passando da minimização à eliminação das diferenças (defeitos).
                      E o que seria normal? Ser homem-macho? Ser mulher feminina? Ser negro quase
                      branco? Ser gay sem gestos “afetados”? Espera-se que o discriminado se esforce e
                      adapte-se às regras para que ele, o diferente, seja tratado como “igual”. Nessa visão,
                      “se o aluno for eliminando suas singularidades indesejáveis, será aceito em sua
                      plenitude” (Castro, 2006, p 217).

       É no ambiente escolar que crianças e jovens podem se dar conta de que somos todos
diferentes e que é a diferença, e não o temor ou a indiferença, que deve aguçar a nossa
curiosidade. E mais: é na escola que crianças e jovens podem ser, juntamente com os
professores e as professoras, promotores e promotoras da transformação do Brasil em um país
respeitoso, orgulhoso e disseminador da sua diversidade.

                                                                                                         27
Sexualidade Juvenil
                                    O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


Enfim,
         “Temos o direito de ser iguais quando as diferenças nos inferiorizam. Temos
                   o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”.
                                                          Boaventura de Souza Santos




                                                                                       28
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O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar




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O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar




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D
             urante um longo período, cada uma dessas concepções acima citadas foram
             pessoalmente testadas e comparadas para que se pudesse, nesse período, chegar a
             redigir esse material, onde pudesse contribuir para a escola e os/as educadores/as
na formação e educação do seu público alvo, aqui identificados como sendo os/as
adolescentes e os/as jovens, numa perspectiva de adequação da realidade juvenil e o seu
universo dentro da cultura contemporânea.
        Para esse resultado, utilizo como campo para essa detalhada pesquisa, alunos do
Ensino Médio das turmas de 2º e 3º ano da Escola Estadual Maria Cecília Barbosa Leal
localizada na Cidade de Surubim/PE, por um longo período de intenso estudo e contato direto
com os/as jovens.
        O objetivo dessa pesquisa foi entender como os/as alunos/as encaravam a Educação
Sexual promovida pela escola e como se relacionavam com ela. Ao mesmo tempo foi
identificar quais espaços os/as jovens dispunham para discutir sobre tais assuntos que dizem
respeito ao seu universo particular de dúvidas e tabus. Nessa proposta, contribuir diretamente
com os/as profissionais que atuam com esse público juvenil numa forma dinâmica e “certeira”
quando o assunto é sexualidade para o/a jovem, não apenas àqueles que atuam diretamente
nessa unidade de ensino, mas a todos/as que acessarem esse material.
        Por ser uma escola de ensino médio, situada próxima ao
centro urbano da cidade e conter como alunado, de um lado, jovens
urbanos,    freqüentadores      de    “baladas”,     “raves”,     “night”    e
“reboques3”, e de outro, jovens oriundos de comunidades rurais
afastadas do centro da cidade tendo em suas práticas de lazer as
grandes comemorações religiosas da cidade, como a festa do
padroeiro, réveillon, ou raras participações em festas públicas no


3
  Reboque – Típico som urbano caracterizado por músicas com batida comumente eletrônica de volume alto,
emitido por caixas de som de alta potência, sendo puxado por um carro ou parado em vias públicas. Reúne uma
imensa quantidade de jovens oriundos de várias classes sociais e localidades, marcada por notório consumo de
bebidas e cigarro. Espaço privilegiado pelos jovens pela facilidade da diversão, consumo e “ficadas”.
                                                                                                         32
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centro da cidade, ou as atividades locais da comunidade como bingos, é que esse trabalho
ganha peso e força, visto a diversidade juvenil e concepções morais, religiosas, familiares e
pessoais do público alvo da pesquisa (SANTOS, 2010).
        Nesse material, elencaremos os resultados obtidos com essa pesquisa e quais
influências passam a ter na condução do processo de ensino-aprendizagem do corpo discente
dessa comunidade escolar.
        O que os/as jovens pensam a respeito desses assuntos? Quais influências na vida
dos/as mesmos/as esses fatores contribuem? O que levam adolescentes e jovens a decidirem
por iniciar sua vida sexual com 14 anos de idade, por exemplo? O que se passa na cabeça
desses/as jovens ao se depararem em situações diversas, por exemplo, terem amigos/as
homossexuais? Vale ressaltar que traremos para a discussão dessas temáticas principalmente
as falas dos/as jovens, suas opiniões acerca de cada assunto abordado.
        Utilizaremos para identificar as falas dos/as jovens e preservar suas identidades, visto
que em sua maioria são adolescentes/jovens menores de 18 anos, pseudo-s com suas idades
verdadeiras, com isso garantimos a compreensão do fenômeno que acontece nas faixas
etárias. Esses nomes foram escolhidos pelos/as mesmos/as no momento da pesquisa, como
forma de identificação com um/a “personagem” que escolheram a partir de seus gostos e
identificação com o/a mesmo/a. Essas falas encontram-se registradas no Diário de Campo do
pesquisador.




                         Contexto Social do Município4


                     Surubim é uma cidade do interior de Pernambuco com população estimada
                     em 58.444 habitantes, segundo o IBGE em 2010. Desse montante 47,79%
                     representam a população masculina e 52,21% feminina. Ainda em se
                     falando de estatística, é importante também trazer os dados sobre a
                     população urbana e a rural, estando 75,29% e 24,71%, respectivamente.
                     Temos uma população jovem estimada em 14.384 jovens de 15 a 29 anos
                     residentes no município no ano de 2001, o que representa pelo menos


4
  Texto obtido do material publicado e impresso pela Pastoral da Juventude de Surubim por ocasião da Semana
da Cidadania 2010 tendo desenvolvido uma pesquisa sobre o desemprego e as condições de emprego da
juventude de Surubim.
                                                                                                        33
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                                            O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


24,61% de toda a população surubinense (IBGE, População e Domicílios - Censo 2000 com
Divisão Territorial 2001). Se comparássemos esses números ao Censo 2010, certamente
teríamos um número mais elevado, porém vislumbraremos essas informações, para, com elas
obter as análises. Isso significa dizer que temos uma cidade extremamente jovem. São esses
mesmos 24,61% da população surubinense que alimenta a produção, o consumo, as
indústrias, as escolas e são os/as mesmos/as que são vítimas do desemprego ou das péssimas
condições de emprego na cidade.
       E citando as estatísticas do IBGE (2009) a
incidência da pobreza em Surubim é de 46,91%,
representando um alto índice preocupante para a         A baixa taxa de
população. Apenas 11.892 habitantes possuem             oportunidades de emprego na
renda de até um salário mínimo e esses números          cidade promove um grande
caem quando o valor do salário aumenta, chegando        êxodo, principalmente de
                                                        jovens deslocando-se para
a 19.529 pessoas sem rendimento mensal algum.
                                                        cidades vizinhas a procura de
       O    desemprego      entre   os/as    jovens
                                                        trabalho.
brasileiros/as é significativamente superior ao do
restante da população - apesar do aumento da
escolarização dos/as jovens (IPEA). Segundo a pesquisa realizada pelo Instituto Cidadania no
ano de 2004, 84% dos/as jovens afirmam que o trabalho possui um sentido de “auto-
realização” e “independência”. Desta forma, é importante reconhecer que a falta do trabalho
ou o trabalho em condições precárias ou degradantes, é uma das formas pelas quais o/a jovem
entra no universo onde a exclusão no mundo do trabalho pode ser um dos muitos fatores que
desencadeiam a violência juvenil.
       “Isso é sinal de que o trabalho não deixa de ter sentidos diferenciados, e para além do
acesso à renda, o trabalho é significado pela juventude como independência, emancipação, de
desenvolver a criatividade, de vivência da coletividade, de dignidade” (SANTOS, 2010, p. 6).
A exploração do trabalho chega, em alguns casos, a gerar condições de verdadeira escravidão
(SANTOS, 2010).
       Surubim também é cenário artístico na história nacional. Capiba e Chacrinha traduzem
essa afirmação. Terra da vaquejada, tão citada na região e no país. Capital da vaquejada, como
é conhecida. Festeira e palco das maiores competições de vaqueiros do Brasil, com os seus
mais de 80 anos de emancipação adquiriu respeito e tradição por essa grandiosa festa da


                                                                                               34
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                                             O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


cultura do povo nordestino. Também terra de grandes festivais de dança e teatro. Ótimos
atores e atrizes compõem o palco das apresentações culturais de Surubim.
       População acolhedora e em constantes movimentos de migração. A baixa taxa de
oportunidades de emprego na cidade promove um grande êxodo, principalmente de jovens
deslocando-se para cidades vizinhas a procura de trabalho. Muitos conseguem, outros se
frustram na realidade assombrosa do desemprego ou do subemprego, que em algumas
situações, se torna ainda pior. E estes, quase que em sua maioria, não mais conseguem
conciliar seus estudos com a vida profissional. A distância da cidade de trabalho com as suas
moradias e em alguns casos as baixas condições do mesmo impossibilita em alguns casos a
escolarização do indivíduo. Toritama e Santa Cruz do Capibaribe são pólos comerciais e de
grande concentração de jovens surubinenses. A indústria da moda e a confecção,
principalmente, têm crescido e atraído a juventude para seu meio, embora na cidade de
Surubim o que tem crescido nessa área são as facções particulares, dentro das próprias casas.
Essas, grosso modo, não empregam pessoas, apenas reúnem alguns membros da família para
essa produção.
       A prostituição, o uso de drogas lícitas e ilícitas, violência, abandono escolar e outros
fatores estão fortemente presentes no cenário social do município. Tantas causas poderiam ser
citadas para explicar tais fatos, porém, nesse texto, volto àquilo que foi apresentado no início,
relacionando o emprego a auto-realização e independência para os jovens. Muitos fatores
sociais como a violência, por exemplo, estão intimamente ligadas a questões de
oportunidades, como o emprego ou seria o desemprego?
                              Surgem também no município grandes lideranças no que diz
                      respeito ao trabalho com as juventudes. Movimentos religiosos, partidos
                      políticos, atividades sociais, projetos filantrópicos, ONG‟s e tantos
                      outros mecanismos têm tomado força na cidade de Surubim devido às
                      urgências sociais da atualidade. Grandes lideranças em atividades com
                      jovens têm referenciado a cidade como potência e fonte na produção e
                      atenção à juventude nordestina. Seu nome tem sido referenciado em
                      articulações estaduais e nacionais quando a assunto é atendimento
                      juvenil a partir de mecanismos não-governamentais, desenvolvidos
                      pelas lideranças juvenis do município. A Pastoral da Juventude em
                      grande escala é uma das principais responsáveis por esse sucesso. Seus


                                                                                                35
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                                                  O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar
Muitos índices de gravidez
indesejada na
                             líderes tem se tornado referências locais, estaduais e nacionais,
adolescência e doenças
sexualmente                  ocupando lugar de destaque no cenário social contemporâneo.
transmissíveis, por
exemplo, poderiam ser
diminuídos com a
                             Educação sexual promovida pela escola, segundo os
educação promovida pela
escola.                      alunos


                                          A função da educação não se reduz à transmissão formal de
                                          conhecimentos, sendo a escola um espaço público para a promoção
                                          da cidadania. O Estado democrático de direito assegura o
                                          reconhecimento da diversidade de valores morais e culturais em uma
                                          mesma sociedade, compreendida como heterogênea e comprometida
                                          com a justiça e a garantia universal dos direitos humanos e sociais.
                                          A vivência escolar permite a apresentação da realidade social em sua
                                          diversidade (LIONÇO; DINIZ, 2009, p.9).

                             Podemos dizer que a diversidade social ocupa as escolas em dois
                             sentidos: primeiro pela presença concreta de mulheres, negros,
                             estrangeiros, deficientes, idosos, homossexuais, os quais freqüentam
                             as instituições de ensino; e depois, pelo compromisso político que
                             fundamenta a educação como um bem público, o que significa que a
                             igualdade deve ser um valor fundamental ao ensino.
                                    De acordo com 63% dos/as alunos/as entrevistados/as, a escola
                             fala “as vezes” sobre Orientação ou Educação Sexual. Esquecer que a
                             sexualidade faz parte das preocupações dos/as jovens, assim como o
                             emprego, é colocar esse discurso numa posição contrária aos quais
                             os/as mesmos/as almejam (SANTOS, 2010).
                                    Que sentindo então fará a escola para o indivíduo se ele/a não
                             conseguir associá-la ao “mundo lá fora”? Como vimos, os/as jovens
                             buscam relacionamentos instantâneos, voláteis, passageiros, antes que
                             firmem compromissos e relacionamento sério e assim “percam a
                             juventude”. A escola nesse momento tem papel fundamental na
                             condução desse processo, já que os/as mesmos/as estão construindo
                             sua identidade a partir de suas experiências cotidianas.
                                    Muitos índices de gravidez indesejada na adolescência e
                             doenças sexualmente transmissíveis, por exemplo, poderiam ser


                                                                                                           36
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                                           O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


diminuídos com a educação promovida pela escola, não retirando a função dos pais nesse
processo, mas acentuando a importância e o papel da escola permitindo ao/a aluno/a fazer
escolhas e escolhas acertadas e conscientes. Na escola o debate sobre alguns temas, como o
uso da camisinha proporciona uma sensação de que a mesma se preocupa com essas questões
que fazem parte diretamente da vida dos/as jovens nos dias atuais. Muitos/as alunos/as se
reclamam que o conteúdo o qual aprendem na escola nunca servirá na verdade para alguma
coisa. Está na hora da escola começar a mudar essa idéia. Quem sabe começando a partir da
educação para a sexualidade?
       Quando os/as jovens reclamam da falta de oportunidades de conversarem na escola
sobre assuntos dessa natureza é porque sentem a necessidade “desse papo”, já que 57% dos/as
entrevistados/as não costumam conversar com seus pais em casa, por motivos diversos e o
mais citado é pelos pais serem “caretas”, “do tempo antigo”, ou até mesmo terem vergonha de
falar “dessas coisas”. Poucos/as jovens disseram conversar com seus pais sobre temas
relacionados a sexualidade. Algumas meninas disseram conversar apenas com a mãe, pois se
sentiam mais a vontade para falar sobre esses “assuntos de mulheres”, comenta Kelly (17
anos), Clara (18 anos), Didinha (19 anos) e Duda (19 anos). Enquanto alguns meninos
mostraram serem mais distantes com seus pais em relação à conversa, embora a figura do pai
apareça como exemplo citado para os meninos.
       Se a escola pouco promove o debate sobre
sexualidade aos/as jovens e os/as mesmos/as não dispõem
dessas orientações no núcleo familiar, onde então
encontram orientação sobre sua vida sexual? As respostas a
essa pergunta surgem como um preenchimento a uma
lacuna enorme: “conversamos com nossos amigos/as”. A
essa afirmativa trago as palavras de Louro (2001, p. 9)
quando diz que “a sexualidade era um assunto privado,
alguma coisa da qual deveria falar apenas com alguém
muito íntimo e, preferencialmente, de forma reservada”.
       Em parte, alguns/mas jovens mais arguciosos/as
chegam até o/a professor/a, em grande regra, o/a de
Biologia,   e   fazem   algumas    perguntas   relacionadas
normalmente ao funcionamento de alguns órgãos ou sua
relação ao ato sexual, dificilmente resolvem “aconselhar-se”

                                                                                              37
Sexualidade Juvenil
                                            O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


com esses/as. O/A professor/a aparece aqui como uma pessoa que servirá para retirar minhas
dúvidas, responder as minhas perguntas sobre sexo ou então a orientar quanto às doenças
sexualmente transmissíveis.
       Mas se um costuma orientar o outro, mesmo tendo os/as dois/duas necessidade de
orientação, como essa conversa funciona? Não é apenas informação que basta para o/a jovem,
mas a qualidade dessas. Portanto, quando um adolescente ou jovem resolve conversar com
os/as amigos/as em relação as suas dúvidas sobre sexo e/ou sexualidade, vale a pena levar em
consideração em quais grupos essas conversas acontecem.
       Quando se observa os jovens fica claro a identificação do grupo de amigos/as que
os/as mesmos/as têm como forma de discutir tudo a respeito da vida, inclusive sobre sua
sexualidade. Nesses grupos, os/as jovens se sentem livres para discutirem sobre qualquer
assunto; uma vez que esses grupos são formados por outros/as jovens com a mesma faixa
etária e têm preferencialmente os mesmos gostos e estilo; e assim, provavelmente têm as
mesmas dúvidas.
       Dessa forma, torna-se urgente a escola dispor de mecanismos de Educação Sexual –
de/com/para – os/as jovens alunos/as.




Preconceito na escola


De modo geral, o preconceito está ligado àquilo que Donald Winnicott chamou de
mecanismo primitivo, onde se projeta no/a outro/a aquilo que não se quer aceitar em si
próprio. Dessa forma, o preconceito contra o/a homossexual, por exemplo, seria uma forma de
repudiar o que de certa forma, pode está sendo encontrado interiormente no indivíduo, como
sentimentos, pensamentos, possibilidades de relacionamentos, medos, vergonha etc. só que na
pessoa do outro. Pode ser interpretado também com aquilo que Judith Butler (1999) chamou
de “abjetos” que seriam aqueles que não se constituem como sujeitos, mas que se formam o
exterior constitutivo relativamente ao domínio dos sujeitos.
       Como parece que não escolheríamos nascer de pele na cor negra, por exemplo,
repudiamos quem a tem. Parece uma questão social bem definida e organizada para que todas
as gerações sigam rigorosamente tais conceitos e atitudes. Parece-nos uma bobagem, mas
prestemos atenção. Quais atores e/ou atrizes são convidados/as para fazerem comerciais de
televisão, de propagandas de marcas famosas senão pessoas de pele branca, jovem, não-

                                                                                               38
Sexualidade Juvenil
                                              O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


deficiente e que se diz heterossexual? Será que isso é uma coincidência ou uma forma de
organização social? Em raras exceções em que negros/as aparecem como os/as protagonistas
de comerciais e propagandas famosas, e, em grande maioria sendo usados/as como produto do
sexo, do corpo cobiçado, da “mulata gostosa” e do “negão viril”.
                            Na escola não é diferente quando o assunto é preconceito, tanto
                     daqueles/as que praticam quanto dos/as que sofrem preconceito. E como
                     não fosse nenhuma surpresa, os maiores índices de preconceito estão entre
                     o/a homossexual e o/a negro/a. Jovens que se dizem vítimas de
                     preconceito e jovens que se definem preconceituosos/as caminham
                     juntos/as pelos corredores da escola, sentam lado a lado na sala de aula,
                     lancham juntos/as no pátio e sentem as mesmas dúvidas em relação à
                     sexualidade. Essa bivalência é comum em espaços que aglomeram grande
                     quantidade de pessoas.
         Alguns/mas jovens entrevistados/as demonstraram terem sido vítimas por serem
homossexuais ou ao menos apresentarem alguma característica dita de homossexual. Do
grande montante, apenas 9% se disse homossexual, sendo 7% homens e 2% mulheres. O
incrível é que esses mesmos 9% do total falaram sofrer preconceito por colegas de turma e de
outras turmas da escola. O que parece redundante é que em muitas falas apareceram ditos
como “é muito baixo ter preconceito, eu não tenho preconceito” ou então, “tenho preconceito
com quem tem preconceito”, mas será que essa verdade passa pela cabeça dos/as jovens como
sendo o respeito total e livre ao espaço do outro? Sem cobranças, ou (re)formulações de
valores pessoais, morais e religiosos particulares de uma pequena parcela da população e
querendo assim impor ao grupo como um todo? O Jovem Hebert, 16 anos comenta sua
opinião sobre a homossexualidade: “eu acho um negócio nojento, sem pé nem cabeça”.
         Quando a pergunta parte para como eles/as reagiriam se na sala de aula tivesse alguém
que se assumisse como gay as manifestações foram diversas. “Eu acho que não existe
ninguém assim nessa sala” (Nayde, 19 anos). Embora alguns demonstrassem em suas
colocações parecer não terem preconceitos enquanto a orientação sexual do/a outro/a, o jovem
Kleber, logo se manifesta para não deixar dúvidas a respeito de sua masculinidade e exclama:
“eu sou macho, sou homem”. Aqui o discurso é sobre respeitar ou não a orientação sexual do
outro.




                                                                                                 39
Sexualidade Juvenil
                                                      O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


                Estamos numa sociedade em que o discurso heteronormativo é a supremacia do
         convívio humano. Quem estiver fora
         desse padrão, deverá estar fora do
                                                          Estamos numa sociedade em que o
         convívio social. Isso é aplicável não            discurso heteronormativo é a
         apenas aos/as homossexuais, mas também           supremacia do convívio humano.
         aos/as negros/as, mulheres, deficientes,         Quem estiver fora desse padrão,
                                                          deverá estar fora do convívio social.
         não-cristãos, etc. (LOURO, 2001).
                                                          Isso é aplicável não apenas aos/as
                Quando a pergunta foi “qual seu           homossexuais, mas também aos/as
         preconceito”?    17%       dos    meninos        negros/as, mulheres, deficientes,
         responderam     ter    preconceito    com        não-cristãos, etc.

         homossexuais, 3% com negros/as e mais
         3% com pobres. Nas meninas esses números se assemelham embora apresentassem ter
         preconceito apenas com homossexuais e gordos/as, sendo ambos 3%.
                A presença do preconceito com gordos/as nas mulheres aparece como forma de padrão
         da beleza imposta pela sociedade de consumo e o chamado universo da moda. As formas
         corporais ganham destaque no universo feminino como a silhueta, os quadris, o busto que
         precisam estar dentro dos padrões exigidos para se sentirem belas e atraentes. A pessoa “fora
         de forma”, muitas vezes é vista como irresponsável, descuidada, que não se ama e não ama o
         próprio corpo e por isso é excluída em algumas rodas de amigas. O padrão conta quando o
         assunto é se mostrar para o universo masculino. Segundo o jovem Kleber, “todas as mulheres
         são sensíveis”. Essa opinião conta muito no universo feminino, afinal são os olhares dos
         meninos que elas atraem.
                Nos meninos, mesmo não tendo sido levantada essa forma de preconceito com os/as
         gordos/as, também há uma preocupação com o corpo, a qual é determinante nos grupos.
         Exemplo disso são os rapazes que procuram anabolizantes para se tornarem mais musculosos
         e atraentes, e assim poder “pegar mais minas”. As práticas de musculação e a procura pelas
                                          academias    estão   também       associadas     às   formas    de
                                          agrupamentos juvenis. Um jovem não se sentirá bem num
         As práticas de
                                          grupo de amigos onde todos são musculosos e apenas ele tem
 musculação e a procura
                                          um corpo magrinho, franzino. Logo procurará freqüentar as
  pelas academias estão
  também associadas às                    mesmas academias e fazer os mesmos exercícios físicos para
formas de agrupamentos                    ganhar   músculos     e   ainda     tomar      anabolizantes.   Se
                juvenis.                  acreditarmos que as drogas ilícitas, como a maconha, a

                                                                                                          40
Sexualidade Juvenil
                                            O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


cocaína, podem ser usadas por influência dos amigos, essas práticas corpóreas também podem
ser uma forma de sentir de igual pra igual dentro do grupo de iguais.
       Entre tantas coisas, as práticas de preconceito aparecem até na forma de se comunicar
com o outro. Há jovens que têm medo de fazer algum comentário, pois podem ser
interpretados mal e serem motivos de piadas para toda a sala. Foi o que aconteceu com o
Kleber quando em sua dúvida a respeito do significado das palavras heterossexual e
homossexual, a turma resolveu dizer que ele é homossexual. Por essas e tantas outras atitudes
não só dentro do espaço escolar, mas no dia-a-dia dos/as jovens são assistidas práticas de
preconceito e desrespeito às preferências ou experiências do/a outro/a.
       Na nossa sociedade a homossexualidade assume também, em alguns contextos, sinal
de fraqueza humana e para algumas tradições, desvio da conduta e da moral. Na fala de um
jovem percebemos como se confunde hoje em dia, tendências, desejos, identidade e práticas
homossexuais: “o homem tá casado, tem suas relações com sua mulher, e por fraqueza
acontece ato sexual com outro homem, isso quer dizer que ele não gosta mais de mulher?”
(anônimo). Até que ponto nesse contexto, vemos o homem como “fraco” ou com atitudes
impensadas? Em que momento o ato sexual diz respeito à conduta e moral aceitas na
sociedade? O que influencia nessas questões?
       A curiosidade do/a jovem por entender esse “universo gay” mais uma vez reforça a
                    teoria do mecanismo primitivo postulada por Winnicott, já citada
                    anteriormente. O “pré-conceito” com o “diferente” é causado, em grande
                    escala, pela falta de conhecimento do universo do/a outro/a. Jovens não
                    compreendem a sexualidade como algo que é construído historicamente
                    no ser humano e que para isso existem influências do meio que ele/a está
                    inserido/a. Muitos/as de nós costumamos tratar da sexualidade como
                    apenas o ato do sexo ou o prazer na penetração. Porém, o sexo está ligado
                    à atividade sexual, enquanto sexualidade está relacionada ao dia-a-dia do
                    ser humano, que sofre influência também do meio social. “As muitas
                    formas de fazer-se mulher ou homem, as várias possibilidades de viver
                    prazeres e desejos corporais são sempre sugeridas, anunciadas,
                    promovidas socialmente” (LOURO, 2001.p. 9).




                                                                                               41
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                                           O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


Espaço de encontros e relacionamentos


Em minha pesquisa, consegui identificar que dentro da escola costumam acontecer os jogos
sexuais juvenis. O jogo da sedução. Meninos e meninas que se encontram todos os dias, de
caderno na mão, fardamento escolar, tênis e mochila nas costas não se esquecem de usar
adereços que os identifiquem no “mercado de estilo”. Brincos que se penduram na orelha,
batons em tons fazendo menção aos tons de sombra, pulseiras, anéis, cintos e bolsas fazem
parte   do   universo   feminino   de   fazer   sua
“apresentação” na escola. Lá é o espaço propício
para conhecer novas pessoas.                           Embora o discurso de ter feito
        Nos “marmanjos”, bonés da Nike, calças              sexo ou não na escola
                                                            pareça um pouco
que mostram a cueca, tênis da “onda”, no pescoço            preocupante, os jovens
um cordão de prata, sempre andando com                      costumam se relacionar
                                                            freqüentemente por
movimentos de vai-e-vem nos braços com pernas               “ficadas” no ambiente
entreabertas, dando impressão de carregarem um              escolar.
enorme peso nos ombros. “Posição de macho”.
Nesse mercado de estilo sobrevive quem estiver
com a melhor performance. Quem “pegar” mais garota tem mais respeito dos outros.
        Os jovens, do sexo masculino, assumiram até já terem feito sexo dentro do espaço
escolar. Em grande escala, 41% utilizam a própria sala de aula para encontros e “ficadas” na
escola. Apenas 7% utilizam os corredores para os momentos de virilidade masculina. As
mulheres, por sua vez, parecem serem mais acanhadas quanto a essas questões, nenhuma
respondeu que já havia feito sexo dentro da escola, mas assumiram que usam a sala de aula,
pátio e corredores para seus encontros imediatos, sendo 12%, 3% e 6% respectivamente.
        Embora o discurso de ter feito sexo ou não na escola pareça um pouco preocupante, os
jovens costumam se relacionar freqüentemente por “ficadas” no ambiente escolar. Dos
meninos entrevistados 34% afirmaram “ficar” sempre que possível com alguma menina na
escola. Enquanto as meninas alegaram 18% usar a escola como local de encontro para o
“relacionamento relâmpago”.




                                                                                              42
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                                             O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


       Por em muitas culturas, a mulher ser mais
reprimida, não poder sair de casa sozinha, ser mais
controlada pelos pais é que a escola torna-se alvo
certeiro das “ficadas” das meninas que em casa são
“presas” por seus pais. Enquanto os jovens meninos
podem usar a “night” para “caçar suas presas”. “Acho
que quase todo mundo aqui já ficou na escola”,
afirma Rayssa de 18 anos. Nessa hora toda a turma se
manifesta. A professora parte para defender algumas
alunas que ela julga não terem coragem de “fazer uma
coisa dessas”. “Até você Josy?” pergunta a professora,
logo alguém imediatamente dá uma resposta: “aqui na
sala só a Josy mesmo, mas o resto todo mundo já
ficou na escola” (Sandra, 18 anos). Senti curiosidade
em saber por que toda a turma defendia a Josy como         Por em muitas culturas, a
                                                                 mulher ser mais
ser a única de não ter ficado com ninguém na escola.             reprimida, não poder
Logo me respondem: “Ela é muito na dela, quietinha,              sair de casa sozinha,
                                                                 ser mais controlada
é mais inteligente, não bagunça, só faz estudar...”              pelos pais é que a
(Rayssa). Nesse discurso aparece claramente a idéia              escola torna-se alvo
                                                                 certeiro das “ficadas”
de que associar estudos com sentimentos não “rola”.
                                                                 das meninas que em
Há quem diga que o relacionamento atrapalha os                   casa são “presas” por
estudos   ou      que   os   estudos     atrapalham   o          seus pais.

relacionamento.     Nessa    fala   da   jovem   vimos
claramente essa idéia ser defendida quando a mesma
cita que a Josy “não bagunça, só faz estudar”. Ela
(Josy, 18 anos) não teria tempo para “perder” com
“ficadas” ou namoro, pelo menos não na escola, que
seria lugar apenas de estudar, prestar atenção no/a
professor/a e responder as atividades. Se quiser
aprender alguma coisa para “ser alguém na vida”,
deve mesmo é estudar e esquecer os “namoros”: “eu acho muito errado ficar escondido na
escola. Na escola é lugar de aprender” (Valdete, 19 anos).


                                                                                                43
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                                           O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


       O que chama atenção é que os/as jovens não demonstram indiferenças por esses/as que
já “ficaram” na escola, pelo contrário, os que não “ficam” na escola é que estão fora desse
padrão, mas nem por isso deixam de participar das rodas de conversa entre os/as amigos/as.
Há aqueles/as que estão sempre disponíveis quando aparece alguma oportunidade de
encontros na escola: “quando aparece oportunidade eu fico...” (Hebert) ou então aqueles/as
que começaram a “ficar” na escola: “eu já fiquei na escola. Aliás, comecei a ficar na escola”
(Klarinha, 16 anos).
                                             O uso da sexualidade no espaço escolar no
                                      período da juventude pode ter uma explicação. Se for
  Na escola existe uma
  diversidade de pessoas,             nessa fase que os hormônios começam a se
  o contato com o outro é             desenvolver com mais potência seria também nessa
  constante, há uma
  tendência a sedução                 fase que os mesmos desejam ser expelidos. Afinal, na
  sexual tanto para as                escola existe uma diversidade de pessoas, o contato
  meninas quanto para os
  meninos.                            com o outro é constante, há uma tendência a sedução
                                      sexual tanto para as meninas quanto para os meninos.
                                      É na escola que o/a jovem começa a fazer sua
apresentação desde quando criança. Mostrar o corpo na aula de Educação Física é se
preocupar em atrair os olhares das “presas”, que nesse caso serão os/as amigos/as que
assistem encantadamente os jogos sensuais dos corpos jovens.




O uso da camisinha


Não quero aqui condenar ou defender o uso do preservativo, minha intenção é fazer uma
colocação da realidade observada no cotidiano dos/as jovens que estão ainda inseridos/as no
processo de educação formal. Certamente se tivesse entrevistado outro público jovem obteria
respostas semelhantes em alguns contextos e excludentes noutros.
       Em minha pesquisa, detectei que a conversa sobre o uso de preservativo ainda
perpassa questões de gênero, com preconceito em relação à mulher e de virilidade nos
meninos. Mesmo os/as entrevistados/as conhecendo a importância do uso do preservativo, o
número dos/as que portam e/ou usam camisinha ainda foi baixa naqueles/as que já iniciaram
sua vida sexual. Cerca de 41% dos meninos entrevistados usam sempre camisinha em seus
relacionamentos, 10% desses dizem usar, as vezes, e 3% disseram usar a camisinha apenas
                                                                                              44
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                                                  O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


quando a parceira pede. Ainda citando os rapazes 10% deles disseram levar camisinha
também para escola.
        Se fizermos uma comparação dos números em relação ao uso e porte de camisinha
pelos meninos e meninas iremos perceber a diferença. Das meninas entrevistadas apenas 21%
disseram usar sempre a camisinha e apenas 6% usam sem tanta freqüência. Quanto a carregar
a camisinha na bolsa, ou levá-la para escola 100% delas respondeu não carregarem para o
espaço escolar, sendo apenas 3% delas que carregam a camisinha para outros lugares e/ou
quando marcam encontros.
                         É assim que, apesar de a camisinha ser vista como símbolo de virilidade para os
                         jovens do sexo masculino, quando encontrada nas bolsas femininas é percebida como
                         símbolo da não-confiabilidade da menina, ou, em outras palavras, como atestado de
                         que a menina é “atirada”, “galinha”, “transa com todo mundo” e, portanto, não é uma
                         menina confiável, “de família” (KNAUTH; GONÇALVES, 2006, p. 102).

        Para os/as jovens é necessário e importante o uso da camisinha quando vai ter relações
com seu parceiro/a. “O certo é usar a camisinha, evita doenças, gravidez indesejada...”
(Klarinha). Os/As jovens demonstraram preocupação quanto a saúde, o bem estar, e a vida
futura quando falam que a camisinha evita algumas situações indesejadas pela pessoa. O
discurso com a preocupação com o corpo é sinônimo daquilo que chamei
antes de “ritual de culto ao corpo5”. Mas não é só com o corpo que os/as
jovens se preocupam, é também com aquilo que as outras pessoas dirão de
suas atitudes. “O certo é o homem carregar a camisinha e não a mulher”
(Valdete); “mulher com camisinha é mulher safada” (Kati, 17 anos). O
discurso parte mais uma vez para dizer que portar camisinha não é coisa de
mulher. “O homem que se preocupe. É dever dele”. Esses comentários
transitam facilmente pelas falas femininas. Esse preconceito com elas
próprias é causa de uma “conquista” geracional onde posiciona a mulher
em lugar de sexo inferior e o homem na posição de Ser dominante e
superior. Ainda, em contraponto a essa idéia existe quem acredite na
desconstrução dessa filosofia e prática social. Algumas garotas e até
garotos aceitam e concordam que mulheres também devem levar camisinha em sua bolsa,
embora os sentimentos divergissem quando o assunto foi “o que os meninos achariam se
encontrasse na bolsa de alguma mulher uma camisinha?”. São perguntas e questionamentos


5
 Termo encontrado no capítulo sobre Corpo e sexualidade, o jovem em questão, no sub-tema: os jovens e a
moda.

                                                                                                          45
Sexualidade Juvenil
                                            O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


que necessitariam de um tempo pra pensar e refletir e para alguns como foi citado “só sei
responder se já tivesse passado por isso” (Joaci, 16 anos), pois se torna algo delicado e
depende muito da “mulher” em questão. Alguns meninos demonstraram que se encontrassem
na bolsa de suas namoradas pensariam que ela está com desejo de fazer sexo, outros, poucos,
disseram que ela se cuida e quando o assunto é a própria irmã, ninguém responde.
       Afinal, até que ponto a camisinha no universo jovem vem a
ser uma questão de cuidado, de preservação, de respeito ao/a outro/a?
Até que ponto vem a ser questão de promiscuidade e “safadeza”?
Qual discurso costuma ser proferido pelos/as alunos/as? O que se
percebe claramente é que os/as jovens estão preocupados mesmo é
com viver sua vida de forma intensa. Experimentar o novo, descobrir
hipóteses, quebrar tabus e desbravar caminhos. A preocupação com o
que dizem ou pensam sobre eles/as é apenas mais uma etapa que
conseguem superar aos poucos acertando e errando no longo percurso
de suas vidas. Afinal, o que de verdade é correto ou errado?
       Dessa forma, para as meninas o uso do preservativo é quase
que uma imposição do parceiro. Se o jovem não portar a camisinha
em sua carteira, a menina está à mercê de seus desejos. Se ela, porém,
carregar em sua bolsa pode ser interpretada de forma errada. Está de qualquer forma, a
mulher, sob a decisão masculina, em linhas gerais, quanto ao uso da camisinha?




A Virgindade em questão


              “Acho que nessa sala foram os meninos que iniciaram mais cedo sua vida
              sexual. As meninas têm mais receio por causa da sociedade. As mulheres têm
              que ter um voto de castidade” (Kelly, 17 anos); “eu discordo da Kelly, agora
              está mais aberto para as mulheres terem relações” (Kíria, 17 anos); “o homem
              começa sua vida sexual primeiro, começa a se masturbar primeiro. Os pais
              incentivam o menino a iniciar sua vida sexual e as meninas não” (Hebert).

       O discurso de o homem ou a mulher iniciarem sua vida sexual primeiro nas falas
dos/as jovens nos dá uma idéia de questões socialmente construídas. Como já foi mencionado
anteriormente, a mulher é vista como um ser inferior ao homem. Ela não pode gozar das
mesmas coisas que um homem, do contrário ela será chamada de “galinha” e “atirada”. Tratar

                                                                                               46
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                                              O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


do assunto sobre virgindade é deslocar o chavão de que o homem quanto mais “pegar mulher”
é que se torna homem, para uma discussão acerca dessas idéias no cotidiano dos/as milhares
de jovens do nosso país.
                                  O preconceito na sociedade é uma questão muito discutida
                           pelas jovens meninas ao falarem do inicio de sua vida sexual: “o
                           homem é mais liberal, tem mais liberdade. A sociedade não tem
                           preconceito com eles, para as mulheres o povo diz logo, olha ela... já
                           deu...” (Rayssa, 18 anos); “quando o homem tem duas namoradas o
                           povo fala que ele é garanhão e se for à mulher, dizem que ela é
                           rapariga” (Glau, 19 anos). A pauta nessa conversa é como são
analisadas as atitudes femininas em relação a sua sexualidade. Para a mulher fica proibido
terem mais de um parceiro sexual, ou “ficar” com diversos garotos numa mesma festa.
Segundo Louro (2001) nossos sentidos são treinados para identificar e decodificar essas
marcas, para que possamos “classificar os sujeitos pelas formas como eles se apresentam
corporalmente, pelos comportamentos e gestos que empregam e pelas várias formas com que
se expressam” (p. 15).
       Mesmo diante de todas as acusações de má conduta da mulher, as jovens se mostraram
objetivas quanto ao seu desejo de perderem a virgindade. “Eu queria. Perdi a virgindade com
meu namorado, ele disse que também era virgem. Foi uma decisão dos dois...” (Didinha, 19
anos); “eu conheci uma menina que queria perder a virgindade, mas com alguém que fosse
virgem também” (Herbert). As meninas aparecem aqui assumindo sua condição. Não têm
medo de assumir que não são mais virgens e nem por qual motivo decidiram perder a
virgindade. Os garotos demonstraram aceitar que as meninas também tivessem já iniciado sua
vida sexual. A Didinha fazia questão de repetir várias vezes: “foi uma escolha minha”. As
meninas também optam por terem uma vida sexual ativa, não em comparação com os
meninos, ou em contraposição, mas por fazerem parte de um todo na sociedade. Elas também
sentem desejos, têm necessidades. Elas também amam, sentem prazer, se masturbam e
esperam por uma relação duradoura e verdadeira.
       Existem também os tabus em relação à prática da sexualidade feminina. Mulheres se
masturbam? Sentem orgasmo? Podem transar antes do casamento?... Essas e outras
indagações fazem parte do estereótipo social em que para a mulher ficam proibidas algumas
práticas sexuais e para o homem é “natural” que as experimente e de forma “desenfreada”.
Quando um/a jovem pergunta “porque a mulher demora chegar ao orgasmo e o homem

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não?” mostra a imagem que se faz da mulher, não biologicamente, mas socialmente, que ela é
um sexo frágil, desprotegido, talvez incomum, quando o assunto é sexualidade. O motivo de a
mulher demorar ou não sentir orgasmo, está na visão da sociedade, e aqui na dos/as jovens,
dela ser mais sentimental, sensível, apaixonada, dar mais valor ao romantismo, do que os
homens. A imagem que se criou da mulher é que a mesma é mais reservada que o homem,
não apenas no tocante a sexualidade, mas a tantos outros.
        Espera-se que a mulher seja mais compreensiva que o homem, mais romântica,
verdadeira e se comprometa mais com o/a seu/sua parceiro/a sexual. A utilização de revistas,
vídeos, imagens e sites pornôs, estão associados ao homem/macho, como sexo rude, sem
vergonha. Essa prática na mulher é percebida, muitas vezes, como promiscuidade. “Porque o
homem tem meios como revistas de mulher pelada, vídeos de sexo e etc. e tem e sente prazer
vendo eles e as mulheres não sentem tanto prazer os vendo?” (O Connel, 17 anos).
        A afirmação desse jovem nos mostra muito bem essa análise em que para homens
essas práticas são comuns enquanto na mulher é algo socialmente não tão aceito.
        Mesmo assim, as mulheres nesse trabalho aparecem muito autênticas, autônomas e
independentes. Não se recusam a responder a nenhum tipo de pergunta. Então, resolvi
direcionar o debate para um assunto mais íntimo e pessoal, para ver se realmente o discurso
feminino continuaria sobressaindo o masculino. Perguntei com quantos anos haviam iniciado
sua vida sexual, imediatamente algumas meninas logo me responderam: “com 17 anos”
(Rosy, 19 anos); “com 16 anos” (Didinha, 19 anos); “com 14 anos” (Rayssa, 18 anos) e “com
15 anos” (Duda, 17 anos). Nesse discurso não significa dizer que os meninos não aparecem e
omitem suas respostas. Eles também resolvem responder e respondem com a mesma precisão
das meninas: “com 15 anos” (Kleber); “com 14 anos” (Hebert e Roberto) e “com 13 anos”
(Eduardo e Paulo).
                     Reparemos que meninos e meninas iniciam sua vida sexual numa mesma
                     faixa etária. A diferença que em décadas atrás era possível classificar entre
                     atividade sexual masculina e feminina, hoje aparecem tão próximas que sua
                     classificação depende da identificação de sexo. Homens e mulheres
                     costumam iniciar sua vida sexual na faixa de 14 anos de idade. Nesse
                     período de vida chamado pela teoria dos estágios psicossociais de Erikson6


6
  Erik Erikson – psicanalista (1902 – 1994). Artista plástico. Foi paciente de Anna Freud. Postulou oito
estágios (dilema) psicossociais do desenvolvimento humano: Confiança x Desconfiança (0-1); Autonomia x
Vergonha, dúvida (2-3); Iniciativa x culpa (4-5); Produtividade x Inferioridade (6-12); Identidade x Confusão de
                                                                                                             48
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       de identidade versus confusão de papéis onde o indivíduo busca adaptar o senso de self 7 a
       mudanças físicas da puberdade, fazer a escolha profissional, adquirir uma identidade sexual
       adulta e buscar novos valores. Podemos conceituar a identidade sexual como aquilo que
       permite as filiações; o campo profissional como sendo o sujeito ativo, produtivo dentro de seu
       grupo social; o de independente como a marca que deixo no mundo e de ideológica como a
       atitude de saber posicionar-se. Identidade: define aqui o EU SOU. Sentimento de quem se é
       verdadeiramente. Segurança. Buscamos uma identidade para termos o sentimento de
       estabilidade, de não vulnerabilidade. Queremos contar histórias a respeito de nós mesmos.
               Esses dados parecem indicar que, embora haja uma tendência de homens e mulheres
       terem sua primeira relação sexual em idades próximas, ainda existe certa pressão social para
       que os garotos se iniciem sexualmente mais cedo.
       Quando o assunto parte para a virilidade feminina e/ou masculina as precisões nos números e
       nas respostas começam a mudar. Pois meninos, na sociedade machista devem mesmo é
       “pegar” todas que poder. Quanto mais meninas eles ficarem, mais respeito no grupo de
                                                                                    amigos terá. O contrário
Podemos conceituar a identidade sexual como aquilo que permite                      para as meninas. Elas não
as filiações; o campo profissional como sendo o sujeito ativo,
                                                                                    devem assumir que já
produtivo dentro de seu grupo social; o de independente como a
marca que deixo no mundo e de ideológica como a atitude de                          ficaram     com       vários
saber posicionar-se.                                                                meninos ou então que já
       fizeram sexo com um número alto de garotos, isso seria motivo para serem chamadas de
       “galinha”, “trepa com todo mundo”, “infiéis”, etc. essas certamente na visão dos garotos não
       servem para casar, apenas para “usar” e depois “jogar fora”. “Porque quando a mulher tem
       um namoro sério e transa com ele e depois de um tempo acaba e quando começa o namoro
       com outro e chega a hora da relação e ele descobre que ela não é mais virgem ele chama ela
       de safada?” (anônimo)


                       “Eu só fiz sexo com um menino, meu namorado” (Didinha); “eu casei virgem,
                       tinha 17 anos” (Rosy); “perdi a conta de quantas garotas eu já fiz sexo”
                       (Roberto); “eu só fiz sexo com um menino também” (Rayssa); “não quero
                       dizer com quantas eu fiz sexo” (Kleber).




       papéis (13-18); Intimidade x Isolamento (19-25); Generatividade x Estagnação (26-40); Integridade do ego x
       Desespero (41+).
       7
         Termo que pode ser encontrado no capítulo Corpo e sexualidade, o jovem em questão.
                                                                                                              49
Sexualidade Juvenil
                                           O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


       Segundo Goldenberg (2006) existem duas teorias que podem explicar a imprecisão das
 respostas masculinas em relação à quantidade de parceiras sexuais que já tiveram. Uma das
 hipóteses é que eles acreditam que seu número de parceiras é tão reduzido que preferem
               declarar algo impressivo. Uma segunda hipótese seria a de que realmente eles
               não se lembrem de todas as parceiras, confirmando a idéia de que homens
               mais que mulheres tendem a dissociar sexo de afeto. Existe aqui uma forte
               oposição de papéis entre meninos e meninas. Enquanto os jovens do sexo
               masculino são “forçados” a serem “homens de verdade” e viverem sua
               virilidade com inúmeras parceiras às jovens é reservado à condição de se
               darem ao respeito do contrário serão acusadas de “putas” ou “vagabundas” por
               terem tido mais parceiros que a “média”.
       Existem aqueles/as é claro que se sentem bem em serem virgens. Existem aqueles/as
que desejam casar virgens. Discurso contrário ao imposto pela sociedade do corpo que prega a
valorização do sexo como forma de se auto-conhecer e como a satisfação do outro. Vemos
esse desejo de uma vida “pura” bem clara nas falas desses/as jovens:


              “Eu me sinto privilegiada por ser pura. Meus amigos não acreditam que eu sou
              virgem porque tenho 19 anos, eles dizem que não sou mais virgem” (Duda², 19
              anos); “quero encontrar uma mulher e casar com ela ainda virgem. Antes eu
              tinha vergonha de dizer que era virgem ainda e mentia pra me sentir grande,
              mas hoje não tenho mais vergonha” (Berg).

       É claro que nesses discursos o que está por trás são muitas vezes concepções religiosas
e morais. Como a família encara tais assuntos influencia diretamente nas concepções dos/as
jovens. A igreja, nesse discurso tem papel fundamental em sua elaboração. Duda² é
evangélica de uma congregação conservadora, rígida, que tem seus valores morais repassados
como dogma que deve ser respeitado. A religião do Jovem Berg não foi colocada em pauta,
mas o que se percebe são concepções familiares que resultam nesse seu desejo. A conservação
da “pureza” de seus desejos, ainda de acordo com os conceitos familiares construídos, se dá
certamente pela vivência da religião de seus antepassados. Na escola ele se relaciona muito
mais com as amigas que com os amigos. Seria então esse motivo pelo qual seu objetivo é
casar virgem, por entender e estar mais próximo do universo feminino?




                                                                                              50
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                                                 O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


          Tudo indica que para os/as jovens é melhor ser homem do que ser mulher. Isso
confirma outra pesquisa realizada pela pesquisadora Mirian Goldenberg8. Quando pergunto “o
que mais invejam em                                                        um       homem?”,        grande
parte      das       meninas                                               respondeu         “liberdade”.
                                   “Invejo a liberdade, meu
“Invejo       a    liberdade,                                              meu irmão mais novo que
                                  irmão mais novo que eu
eu      pode       sair   pra                                              qualquer festa sozinho e
                                   pode sair pra qualquer
eu      não       posso   sair                                             sozinha” (Kíria, 17 anos);
                                   festa sozinho e eu não
“acho que todas as                                                         meninas invejam a mesma
                                 posso sair sozinha” (Kíria,
coisa      que       Valkíria                                              disse” (Kelly, 17 anos);
                                             17 anos)
“eles podem se divertir                                                    mais, tem os melhores
empregos...” (Nilda, 17                                                    anos);     “...     eu     não
concordo com isso, acho que direitos são iguais independente do sexo” (Klarinha, 16 anos).
Já em grande maioria dos homens pesquisados disseram não invejar nada nas mulheres. O
único que respondeu sentir inveja está relacionado às questões sexuais: “invejo a demora que
elas têm para gozar. Porque elas demoram mais do que o homem” e acrescenta “o homem é
tão superior a mulher que não precisa nada dela” (Hebert). As meninas afirmam que “todo
homem é”, mentiroso, safado, machista, sem vergonha, sem sentimento, infiel e sem medo.
Os meninos dizem que “toda mulher é”, sensível, ciumenta, companheira, forte, amiga e mãe.




                  Sexualidade e Religião


                  Muitas são as orientações que as diversas religiões dão a respeito da vivência da
                  sexualidade de seus adeptos. Cada religião, cristã ou não, detém uma catequese a
                  respeito das práticas sexuais e de questões polêmicas como a camisinha, sexo fora
                  do casamento, aborto, homossexualidade, fertilização in vitro e outras questões. O
                  que abordarei nesse item é como os/as jovens encaram essas temáticas mesmo
                  estando inseridos numa religião; como os/as mesmos/as produzem o seu discurso,
                  influenciados ou não, pelo discurso religioso e se a religião influencia em suas
decisões a respeito da sexualidade.


8
 Mirian Goldenberg pesquisou o discurso sobre o sexo e as diferenças de gênero na juventude carioca. Essa
pesquisa encontra-se disponível em: ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de & EUGENIO, Fernanda(org).
Culturas jovens: novos mapas do afeto. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2006.
                                                                                                       51
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        Farei um passeio por algumas religiões citadas no trabalho da Carina Rabelo: A
Juventude e as Religiões Minoritárias9 (2006), focando o que as doutrinas dizem a respeito
do tema e o que os/as jovens dizem a esse respeito. Citarei também uma pesquisa feita na web
sobre a Igreja Cristã Contemporânea que fala em relação à presença dos homossexuais dentro
do espaço religioso.
        Segundo a autora, no Islamismo os adeptos não namoram. Quando começa o
relacionamento parte-se logo para o casamento. Cita também que a fé islâmica exige
disciplina, moderação na conduta, respeito às instituições e as pessoas, retidão ética e rigor
moral, mas isso não quer dizer que exista distanciamento dos jovens na religião, pelo
contrário, “a forma rigorosa que com que o islamismo se apresenta acaba sendo um forte
atrativo aos jovens” (Edebrande Cavalieri)10.
        No Candomblé, a autora comenta que apesar das obrigações os adeptos têm muita
liberdade e acolhem as pessoas de outras religiões que tenham curiosidade em freqüentar os
terreiros. A mesma comenta que não existe “pré-conceito” quanto à orientação sexual e o que
atrai a juventude é a idéia do respeito e a liberdade encontrando no Candomblé orientação
espiritual e festividades.
        Tratando do Espiritismo “a juventude tem sido atraída pelo caráter científico da
explicação dos fenômenos da vida e pela prática de trabalhos sociais promovidos nos centros”
(Emerson Giumbelli)11. Segundo a autora o espiritismo não apresenta sacerdócio ou
hierarquia e não há ritos e sacramentos, em si não possui dogmas, e deixa o processo de
crescimento interior, moral e intelectual, na dependência e no ritmo de cada um/a.
        Essas três visões religiosas, tidas no Brasil e nessa pesquisa, como religiões
minoritárias nos remete a um pensamento de qual discurso é produzido nas doutrinas das
diferentes religiões existentes no território brasileiro. Percebe-se que o que atrai os/as jovens
em cada uma dessas religiões citadas em essência não difere muito uma da outra. Mesmo o
islã sendo tão rígida em sua disciplina o que se observa é que os/as jovens buscam um
equilíbrio em suas práticas, tanto sexuais quanto sociais. O que se observa no candomblé e no
espiritismo é que a busca pela liberdade não significa dizer fazer tudo a qualquer tempo, sem
regras ou preocupações. É poder ter espaço de escolhas e saber que essas mesmas têm
conseqüências, mas elas devem ser responsabilidades de quem as decide.


9
  Trabalho de pesquisa feito na cidade de Salvador/BA publicado na revista Religare em 06 de dezembro de
2006.
10
   Edebrande Cavalieri – filósofo e especialista em femenologia da religião.
11
   Emerson Giumbelli – antropólogo e especialista em espiritismo.
                                                                                                           52
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        E se falando de religiões tradicionais como o                             Existe mesmo
Cristianismo, a Igreja Católica orienta seus fiéis numa prática                   uma prática
                                                                                  efetiva daquilo
sexual com algumas restrições e privações. “Um caso exemplar
                                                                                  que se prega nas
encontra-se nos discursos sobre moral e práticas reprodutivas                     doutrinas e do
proferidos pelo líder mundial do catolicismo durante sua recente                  dia-a-dia dos
                                                                                  milhares de
visita ao Brasil” (RODRIGUES, 2007, p. 73). “[...] o Papa                         jovens
Bento XVI, em visita ao Brasil em 2007, reafirmou sua posição                     espalhados pelo
                                                                                  Brasil?
contra o uso de contraceptivos e cobrou dos governos que este
tema não fosse tratado nas salas de aula” 12.
                                                                                  “há aqueles que
        Citando a Igreja Cristã Contemporânea, sua doutrina
                                                                                  mesmo optando
fala a respeito da sexualidade de seus convertidos como                           por uma
orientação livre e abençoada por Deus. Muitos/as jovens nessa                     determinada
                                                                                  religião não
igreja falam de seu (re)encontro com Deus independente de sua                     adotam o
orientação sexual. Dizem que foram aceitos/as mesmo sendo                         sistema
                                                                                  completo”
homossexuais e outros/as encontraram seus parceiros/as dentro
da igreja. Os líderes religiosos dessa instituição são um casal de
pastores homossexuais que em sua doutrina falam que a Bíblia
não condena a homossexualidade. Mesmo com esta afirmação,
dizem não pretender receber o rótulo de “igreja gay” ou de um
ministério direcionado apenas à comunidade LGBT13, muito
embora não neguem um real compromisso em “levar o amor de
Deus” a estes, já que são tão rejeitados pelas outras igrejas14.
        O passeio por essas visões religiosas é para, antes de
tudo, compreender como se dá a acolhida das questões
referentes à sexualidade no campo religioso brasileiro. O que
vale ressaltar é se existe mesmo uma prática efetiva daquilo que
se prega nas doutrinas e do dia-a-dia dos/as milhares de jovens
espalhados pelo Brasil. O que vemos claramente em pesquisas
realizadas no Brasil é que as práticas dos adeptos não estão
totalmente dentro daquilo que é esperado pelas doutrinas.


12
   Caderno sobre Sexualidade. 1ª Conferência Nacional de Juventude. CONJUVE.
13
   LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais.
14
   Esse texto foi pesquisado no site da Igreja Cristã Contemporânea, disponível
em: www.igrejacontemporanea.com.br , acesso em 18 de Set. de 2010.
                                                                                                     53
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                                               O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


Segundo Solange Rodrigues (2007, p 69) “há aqueles que mesmo optando por uma
determinada religião não adotam o sistema completo”, isso quer dizer que cada vez mais as
pessoas aderem àquilo que naquela determinada religião ela “necessite”. O que se pode
observar é que a pessoa começa a estabelecer uma “negociação” com o corpus doutrinário da
religião que escolheu. Um verdadeiro “Shopping Center da fé”. Entre os/as entrevistados/as
na pesquisa Religião e Crenças15 os/as católicos/as e evangélicos/as disseram acreditar em
Deus, Jesus Cristo, Espírito Santo, anjos, Virgem Maria, espíritos, demônios, reencarnação e
Orixás.        Ainda,      10%                                          dos/as        católicos/as
praticantes disseram não                                                acreditarem na Virgem
Maria              (NOVAES;                                             MELLO,      2002).    “[...]
mesmo optando por uma                                                   determinada       religião,
estabelecem negociações                                                 próprias com o conjunto
de concepções e práticas                                                requeridas dos adeptos,
ou seja, não adotam o                                                   sistema    completo       de
olhos                fechados”                                          (RODRIGUES, 2007, p.
69).
             O que podemos analisar é como os jovens de minha pesquisa convivem com a teoria
     versus prática entre o discurso das privações da sexualidade dentro do campo religioso e seu
     cotidiano. Vale trazer de volta o discurso da jovem Duda², 19 anos, evangélica sobre o que
     pensa em relação à virgindade: “eu me sinto privilegiada por ser pura. Meus amigos não
     acreditam que eu sou virgem porque tenho 19 anos, eles dizem que não sou mais virgem”.
     Na mesma conversa que tive com a jovem ela fala em sua relação com os pais: “eu posso
     levar dez, onze homens para dentro de casa e meus pais não ligam. Para minha mãe o que
     importa é não deixar filho para ela criar, mas o resto posso fazer o que quiser”, comenta.
           Essa jovem mesmo imersa e regida por um campo moral de uma religião tradicional e
conservadora tem sua vida sexual “liberada” pelos pais que “não ligam” com o que a jovem
venha a fazer. Não é estranho, se comparado aos dados da pesquisa que revela mesmo os
evangélicos pentecostais em um percentual de 24,8% acreditarem na Virgem Maria e 15%
acreditarem em Orixás (NOVAES; MELLO, 2002). Cada vez mais, doutrina e prática se
(re)configuram na vida dos adeptos das religiões.
           Se citarmos mais uma vez, como exemplo, a opinião da Igreja Católica em relação ao
uso da camisinha também vamos perceber a “negociação” entre a obrigação doutrinária e a

15
     Pesquisa realizada pelo ISER.
                                                                                                  54
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prática social. Na pesquisa tanto meninos quanto meninas, em alto grau de adesão, disseram
usar ou aceitar o uso da camisinha. Esses/as mesmos/as se disseram, em grande maioria, que
eram católicos, isso significa que esses/as jovens não vivem na íntegra a sua religião professa.
Em que momento a religião influencia, contribui ou dificulta as práticas da sexualidade dos/as
jovens na sociedade e até que ponto esses/as jovens leva em consideração as orientações de
suas igrejas? O que se percebe mesmo é que eles/as não estão tão preocupados com algumas
questões ou orientações dos líderes religiosos, estão querendo mesmo é experimentar e viver
suas vidas, da forma como acharem correto. A religião aqui é colocada como buscas de si
através do sagrado, confirmando ainda o que foi citado acima, quando os adeptos a sistemas
religiosos não aderem a toda a estrutura, se mantendo fixo àquilo que lhe convém, mesclando
muitas vezes a sistemas religiosos diferentes. Vivendo o que os autores chamam de
sincretismo religioso.
       Se trouxer a fala da jovem Didinha (19 anos) mais uma vez, iremos perceber uma
prática contrária daquilo que se prega em diversos sistemas religiosos, o sexo apenas depois
do casamento. “Eu queria, perdi a virgindade com meu namorado, ele disse que também era
virgem. Foi uma decisão dos dois...”. O que já vimos até aqui em diversos contextos dessa
pesquisa já era suficiente para explicar essa fala, porém irei pedir licença para fazer mais um
comentário a esse respeito. Para quem as religiões estão pregando? Qual público está sendo
alvo das doutrinas? O que os adeptos têm acolhido dessas religiões tradicionais e/ou neo-
pentecostais? Onde estão as práticas de acordo com as orientações religiosas? Será que as
religiões estão ficando cada dia mais em declínio de influência com seus adeptos ou será que
elas estão distantes socialmente das “novas” necessidades dos indivíduos na atualidade? Em
que momento existe a vivência integral das doutrinas no nosso cenário religioso brasileiro?
Percebemos aqui que estão distantes as doutrinas das “realidades” juvenis na
contemporaneidade. A sexualidade como tabu nas igrejas tradicionais tem feito milhares de
jovens recusarem essas doutrinas ou pelo menos algumas orientações. Como já existe pouca
adesão a um único sistema religioso, os/as jovens buscam nas religiões algo que possam
preencher vazios. Para isso, muitas vezes, existe uma prática mista de religiosidades. Há quem
no sábado a noite vá a missa, no domingo procure uma mãe ou pai de santo para consultar os
Orixás, na quinta-feira a tarde vai ao culto de adoração, na sexta-feira ao Centro Espírita para
tomar um passe. Significa dizer que uma só religião não tem suprido todas as necessidades
integrais dos indivíduos. Aquilo que não se encontra numa, certamente estará em outra.
Talvez não apenas porque elas sejam incompletas, mas, certamente, porque o ser humano, e

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                                              O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


especialmente os/as jovens, são complexos, diferentes uns/umas dos/as outros/as, cheios/as de
desejos diferentes, geneticamente únicos/as, socialmente diferentes, etc.
       Dizer então, que a religião está presente na vida dos/as milhares de jovens do nosso
Brasil, é dizer também, que em certo momento de suas vidas, elas representam a busca apenas
pelo sagrado e sua chegada nele mesmo existindo uma presença muito forte no Brasil das
religiões tradicionais as mesmas pouco influenciam na sua experimentação da sexualidade.
       Olhar para essa experimentação dentro do espaço escolar a partir da religiosidade
dos/as jovens é também estar atento/a para suas expressões culturais e políticas, visto que
como citado anteriormente, nossa identidade sexual é sugerida/promovida socialmente
sofrendo influências além dos estratos etários, econômicos, geográficos, históricos, familiares
e também religiosos. Dessa forma, olhar para a religiosidade do sujeito jovem é perceber que
nela também se influencia suas formas de experimentação da sexualidade, embora não seja
ela [a religião] que, isolada, a determine.




Educando corpos, produzindo a sexualidade


                         Esse artigo visa analisar, de forma geral, como a escola determina a
                         sexualidade dos/as seus alunos/as como forma de produzir a
                         sexualidade “normal” e o discurso e prática heteronormativa, já citada
                         anteriormente neste trabalho. Minha intenção não será a de colocar a
                         escola como a única a produzir uma determinação da utilização da
                         sexualidade do sujeito, mas verificar como a mesma contribui para
                         esse fenômeno.
                                 Para esse diálogo trarei dois exemplos de como a escola
                         consegue influenciar nas práticas sexuais e vivência da sexualidade de
crianças, jovens e adultos que nela estão inseridos/as. Os exemplos citados são de Phillip R.
D. Corrigan e de Guacira Lopes que estão no livro O Corpo Educado: pedagogias da
sexualidade de Guacira Lopes Louro, já utilizado em outros contextos desse trabalho. As
histórias se assemelham no tocante em como a escola contribuiu para o quesito – sexualidade
– na vida dos/as citados/as.
       “O primeiro dia ficou impresso com horror para o resto da minha vida” diz Corrigan.
A “produção do menino” era um projeto amplo, audacioso, integral, que se desdobrava em

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situações diversas que objetivavam uma determinada forma de masculinidade. Masculinidade
essa dura, forte, alimentada no esporte, competição e, parecendo mentira, numa violência
consentida. Segundo Corrigan apud Louro (2001, p. 18-19) “os corpos „são ensinados,
disciplinados, medidos, avaliados, examinados, aprovados (ou não), categorizados, magoados,
coagidos, consentidos...‟”
       Enquanto que na experiência de Guacira os métodos usados eram para produzir uma
personalidade dócil, frágil, discreta, capaz de pedir licença e ser gentil, na experiência do
Corrigan a produção de sua sexualidade era algo duro, másculo, competitivo. Tanto Guacira
como Corrigan receberam ensinamentos sobre as ciências, as letras, as artes, etc. que
deveriam dominar para poderem sobreviver na sociedade. O que marca esses ensinamentos
são as sutis e profundas imposições físicas na transmissão dessas
habilidades.
       Jovens escolarizados aprendem a suportar o cansaço e a prestar
atenção ao que professores e professoras dizem; a utilizar códigos para
debater, persuadir, vencer; a empregar os gestos e os comportamentos
adequados e distintivos dessas instituições. “Os propósitos desses
investimentos escolares eram a produção de um homem e de uma mulher
„civilizados‟, capazes de viver em coerência e adequação nas sociedades
(...)” (LOURO, 2001, p. 18).
       Existem alguns critérios e referências para discernir e caracterizar
o quanto cada menino e menina, cada adolescente e jovem estão se
aproximando ou se afastando da “norma” desejada pela sociedade.
Como diz Louro (idem) possivelmente deve ser por isso que as marcas
que guardamos da escola não se referem aos conteúdos didáticos que
elas podem nos ter apresentado, mas as situações do dia-a-dia, às
relações comuns e/ou extraordinárias que vivemos ao longo da jornada
escolar com os/as colegas, professores e professoras. A escola,
constantemente insere uma prática com a intenção de distanciar ou adiar,
a todo preço, a atenção dos/as alunos a sexualidade. O que a autora
chama de “dessexualização”.
       Existe, é claro, uma intenção das escolas privarem por sua “imagem” e “tradição” e
dessa forma intensificam em seus/suas alunos/as essa obrigação. O uniforme aparece em
muitas épocas (e ainda hoje) como a própria imagem da escola e cabe ao/a aluno/a preservar

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                                                          As expressões físicas de
essa imagem enquanto estiver trajando esse uniforme.      amizade e de afeto
                                                          entre homens são
Recai sobre ele/a a obrigação de “cuidar” da imagem
                                                          controladas, quase
da escola e não tão raro, repressões por parte dos/as     impedidas, em muitas
                                                          situações sociais, e as
professores/as aos alunos e alunas quando fora do
                                                          manifestações de afeto e
espaço     escolar,   de   porte   do   uniforme,   são   carinho entre eles são
                                                          quase “proibidas”
repreendidos quanto aos seus comportamentos e
intenções afetivas.
         Noutro contexto, enquanto para os meninos existe a cobrança de que ele precisa ser
macho, forte, viril, participar dos times da escola, representar a instituição nos campeonatos,
para as meninas fica a obrigação de representar a ética, a responsabilidade, a competência e a
disciplina da instituição. Nesse contexto é claro, existem as “frustrações” do sujeito. Alguns
meninos como meninas não conseguem atender a essas exigências das escolas. Em
depoimento a uma entrevista um homem respondeu que investiu no intelectual, pois como sua
escola investia muito no esporte, e ele se caracterizava como “miúdo”, “frágil” e inadequado
para o esporte resolveu investir no campo “intelectual”, pois ali estava sua oportunidade de
vencer e ser o melhor.
         Ainda citando as diferenças de gênero nos espaços escolares trazendo como outro
exemplo a utilização dos banheiros entre os meninos e meninas na escola, mostraremos como
existem diferenciações entre o que é “coisa de homem” e o que é “coisa de mulher”. Não
precisa ir muito longe para perceber que “as expressões físicas de amizade e de afeto entre
homens são controladas, quase impedidas, em muitas situações sociais” e as manifestações de
afeto e carinho entre eles são quase “proibidas” (LOURO, 2001, p. 27). Nesse momento entra
em discussão a homofobia como forma de “obstáculo à expressão de intimidade entre
homens” (idem). O que não se pode é exceder nos gestos e comportamentos autorizados aos
machos.
         Como diz Louro (ibidem) que mesmo a homofobia seja clara e notória em nossas
sociedades, ainda não impede que meninos constituam agregação em grupos extremamente
fechados e os vivam de forma intensa. Times de futebol, pescarias, rodas de chope ou jogos
de cartas e bilhar, etc. constituem em grupos estritamente masculinos nos quais a presença de
mulheres é terminantemente proibida. Nesses agrupamentos, muitas vezes, existem situações
que permitem que os corpos possam ser comparados, tocados, admirados, de formas
“justificadas”. Nos banheiros das escolas, desde cedo, os garotos aprendem a conviver com a
nudez coletiva. Certamente neste momento há também a intensificação da disputa pela

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virilidade masculina, com as práticas da comparação do tamanho do pênis, como citado
anteriormente nesse trabalho, por exemplo.
       O mesmo não acontece com as garotas, mesmo sendo perceptível que a nudez entre
elas seja mais comum, porém nos banheiros escolares e clubes, ainda prevê, nos setores de
uso feminino, cabines ou biombos para garantir a sua privacidade. Se citarmos a utilização
dos espelhos nesses espaços, teremos visivelmente, embora essa situação já tenha mudado um
pouco, que nos banheiros de uso masculino não existe, ou pouco existe, espelhos enquanto
que nos banheiros femininos o espelho é um objeto obrigatório, como se fosse proibido para
os rapazes a preocupação e o cuidado com a aparência, como que isso fosse coisa de
“mulherzinha” e para as garotas o cuidado com sua aparência fosse obrigatória, pois do
contrário seriam vistas como “duronas”, descuidadas.
       “Consentida e ensinada na escola, a homofobia
expressa-se pelo desprezo, pelo afastamento, pela imposição
do ridículo. Como se a homossexualidade fosse „contagiosa‟”,
dessa forma se cria um distanciamento desses sujeitos, pois sua
aproximação poderá ser interpretada como uma adesão a tal
prática ou identidade (LOURO, 2001, p. 29). O que pode
acontecer é aquilo que Peter McLaren apud Louro (2001)
chamou de um “apartheid sexual”, ou seja, uma segregação
que é promovida tanto pelos que querem se afastar dos/as
homossexuais como pelos/as próprios/as. “O que efetivamente incomoda é a manifestação
aberta e pública de sujeitos e práticas não-heterossexuais” (idem). O que poderia ser aceitável,
desde que permanecem em segredo e fossem vividas apenas na intimidade.
       A escola, segundo Louro (2001) é, “um dos espaços mais difíceis para que alguém
„assuma‟ sua condição de homossexual ou bissexual”, tendo em vista que a idéia social que se
têm é que existe apenas um tipo de desejo sexual, que vem a ser inato a todos/as, tendo como
alvo um indivíduo do sexo oposto e dessa forma passa a ignorar e negar o/a homossexual
dando pouquíssimas – para não dizer nenhuma – oportunidade do sujeito assumir sem culpa
ou vergonha, seus desejos. “O lugar do conhecimento mantém-se, com relação a sexualidade,
como o lugar do desconhecimento e da ignorância” (idem).
       Essas práticas (não-heterossexuais) são tidas nesse trabalho da Guacira Louro como
sujeitos “deslizantes”, que escapam da moral e conduta que ansiamos localizá-los/as. Não
obstante, a sociedade busca, através de múltiplas estratégias e táticas, “fixar” uma identidade

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feminina e masculina “normal” e duradoura e nesse processo a escola tem uma tarefa bastante
importante e difícil que é conseguir se equilibrar em meio as situações, pois de um lado ela
precisa incentivar a sexualidade “normal” e, de outro, simultaneamente, contê-la, pois como
dito anteriormente, a sexualidade terá que ser adiada para mais tarde, para depois da escola,
para a vida adulta (LOURO, 2011).
       A escola, não diferente das outras instituições, não está privada de intermediações da
mídia, músicas, programas de TV e rádios e outras múltiplas intermediações experimentadas
pelas crianças, adolescentes e jovens que a freqüentam e assim essas experimentações vem
alimentando o que alguns chamam de “pânico moral”. “A produção da heterossexualidade é
acompanhada pela rejeição da homossexualidade” (idem, p. 27).
       Não foi minha intenção nesse artigo atribuir a escola a responsabilidade e nem o poder
de explicar as identidades sociais e nem ao menos de determiná-las de forma definitiva,
buscou-se aqui reconhecer que, suas proposições, imposições e proibições fazem sentido e
têm, para os sujeitos, “efeitos de verdade” e constituem parte integrantes de suas histórias
pessoais de vida. Embora seja verdade que muitos/as indivíduos não passem pela instituição
escolar em sua trajetória de vida, mas elas (as escolas) ainda são as “apostas” das sociedades
urbanas para que a expressão da verdade, da conduta e da moral seja disseminada pelos
indivíduos, sabendo que passar pela escola, ou não, é uma das formas de distinções sociais.
“Os corpos dos indivíduos devem, pois, apresentar marcas visíveis desse processo; marcas
que, ao serem valorizadas por essas sociedades, tornam-se referência para todos (LOURO,
2001, p. 21).
       Um corpo escolarizado é capaz de manter comportamentos cheios de expressões
carregadas de adjetivos do tipo habilidoso/a, educado/a, gentil, etc.; também deve ser capaz de
passar muitas horas sentado e dispor habilidades para expressar gestos e/ou comportamentos
que indiquem atenção e interesse, mesmo que falsos. “Um corpo disciplinado pela escola é
treinado no silêncio e num determinado modelo de fala; concebe e usa o tempo e o espaço de
uma forma particular” certamente os olhos, ouvidos, as mãos estão “adestradas” para alguns
tipos de tarefas intelectuais, porém estão desatentos para tantas outras (ibidem).




                                                                                                60
Sexualidade Juvenil
 A produção do sujeito é um processo plural eatambém permanente (...)
                                    O discurso sobre sexualidade no espaço escolar
 Os sujeitos estão envolvidos e são construtores ativos de suas identidades
 (...) Os discursos dos/as jovens sobre sua sexualidade continuam se
 modificando e se multiplicando.

       O que quis levantar nesse artigo é que todas essas práticas, linguagens e símbolos
constituem sujeitos masculinos e femininos e também são produtoras de “marcas”. Pessoas de
todas as idades, contam como essas experiências marcaram suas histórias de vida, enquanto
inseridos/as no espaço escolar. Outros grupos também contribuem, é claro, para essas
“marcas”: família, igreja, mídia, escola, lei participam dessa produção. Todas essas – e ainda
outras – contribuem diretamente para a “educação” da sexualidade e fazem investimento em
um discurso hegemônico de identidades e práticas, e dessa forma nega ou recusa outras
identidades e práticas, assim produzem, constantemente, representações divergentes e
alternativas contraditórias. “A produção do sujeito é um processo plural e também
permanente” (LOURO, 2001, p .25). Portanto, esse processo não é um mecanismo pelos quais
os sujeitos participem como meros receptores, alvos de instâncias externas e manipulados, ao
contrário, os sujeitos estão envolvidos e são construtores ativos de suas identidades (idem).
       É preciso ter em evidência que muitas respostas e perguntas têm surgido a respeito da
sexualidade; muitas intervenções sociais e estudos têm elencado um leque enorme de
suposições a respeito das práticas sexuais dos sujeitos, evidentemente, porque os discursos
dos/as jovens sobre sua sexualidade continuam se modificando e se multiplicando (ibidem).
Como já se procurou mostrar antes, existe uma diferença entre a teoria e a prática na vida
dos/as jovens, não apenas em relação a sexualidade, mas, nesse trabalho, principalmente. O
que nos aponta para um olhar mais direcionado da intencionalidade deste material é aquilo
que Foucault disse a respeito sobre sua intenção em fazer uma linha histórica da sexualidade
do sujeito, dizendo que sua intenção era “uma relação ente o que fazemos, o que estamos
obrigados a fazer, o que nos está permitido fazer, o que nos está proibido fazer no campo da
sexualidade; e o que está proibido, permitido, ou é obrigatório dizer sobre nosso
comportamento sexual” (FOUCALT Apud LOURO, 2001, p. 32-33).




                                                                                                61
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                                                                       As meninas cada dia mais se



O
             discurso sobre sexo e sexualidade nesse                   interessam por “caras sarados”,
            trabalho foi contemplado a partir das falas
                                                                       chamados hoje de metrossexuais.
            e das indagações dos/as jovens. Perguntas
                                                                       Que cuidam do corpo, dos cabelos,
como: “as mulheres também se masturbam e
                                                                       das unhas, da pele, que se
conseguem        chegar      ao     orgasmo?”;       “existe
                                                                       depilem e se vestem bem.
contaminação quando se faz sexo vaginal e depois
anal com a mesma camisinha?”; “os produtos
vendidos no sex shop trazem algum problema a saúde?”; “como é sentir orgasmos?”... Foram
discutidas e muitas vezes pelos/as próprios/as jovens respondidas. Meninos e meninas
discutiam essas questões abertamente. Sem preconceito um com o outro. Uma explicação para
isso talvez seja a amizade que ambos têm devido ao convívio escolar. A grande maioria já
conversa sobre esses assuntos diariamente nos intervalos das aulas e nos corredores. Alguns
“ficam” entre si. A sedução e os jogos sexuais acontecem também dentro das aulas. Garotos e
garotas comentam sobre alguns assuntos ou fazem perguntas à professora de biologia, a
resposta eles mesmo dão algumas vezes. Afinal, conhecer do assunto também é coisa de
“macho”. O homem precisa saber até que ponto pode falar com uma mulher? O que elas
gostam? Quais seus pontos fracos? Qual parte do corpo lhe dá mais prazer? Eles também
precisam se preocupar com a aparência. Corpos volumosos, musculosos, “barriguinha
tanquinho”. A performance corporal chama atenção da fêmea. As meninas cada dia mais se
interessam por “caras sarados”, chamados hoje de metrossexuais16. Que cuidam do corpo, dos
cabelos, das unhas, da pele, que se depilem17 e se vestem bem.
        As meninas se preocupam excessivamente ou seria influenciadamente pela medida da
silhueta. Vestir um número muito grande e calçar um sapato 40 não é coisa de mulher. As
unhas devem estar sempre feitas, bem pintadas, cabelos escovados, lábios com batom, brincos

16
   Metrossexual é um termo originado nos finais dos anos 90, pela junção das palavras metropolitano e
heterossexual, sendo uma gíria para um homem heterossexual urbano excessivamente preocupado com a
aparência, gastando grande parte do seu tempo e dinheiro em cosméticos, acessórios e roupas de marca.
Diponível em (http://pt.wikipedia.org/wiki/Metrossexual) , acesso em 07.08.2010.
17
   Em muitas culturas a depilação masculina só é permitida em casos extremos, como homens peludos demais e
por motivos higiênicos, porém permitido em algumas regiões do corpo, virilha jamais.
                                                                                                       64
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e colares. Não devem ser muito “atiradas”, pois assim não conseguem um bom namorado,
mas também não podem sair do jogo totalmente, pois os meninos hoje em dia também
esperam pelas meninas. “fui eu que perguntei se ele queria namorar comigo” (Klarinha, 16
anos). O que não pode é perder o controle e se tornar uma “galinha”. A jovem tem que ser
difícil, não pode ficar com qualquer um, assim fica falada. Ela tem que ser dura, mas não pode
ser demais, senão também fica encalhada, pois os meninos estão procurando por sexo e não
apenas por beijo na boca: “não só beijar, só vou mesmo na intenção do sexo” (Herbert, 16
anos).
                           Nem tudo se resume às práticas sexuais quando se fala no jogo da
                   sedução. Existem aqueles/as que desejam um relacionamento sério, com
                   compromisso: “só ficar você não está respeitando a pessoa e o seu corpo.
                   Relacionamento pra mim, só por namoro” (O‟ Connel, 17 anos). Esse
                   discurso nos remete a imaginar que embora a pressão social seja
                   fortemente marcada em produzir um discurso machista de que ser homem
                   é fazer sexo com quantas mulheres puder. Existem ainda preservados
                   valores morais e familiares que determinam a forma que o indivíduo se
                   apresenta na sociedade. As mudanças ocorridas nas idéias e projetos de
                   vida dos/as jovens são ocasionadas por fatores sócio-políticos construídos
                   historicamente. O que o/a jovem da idade média ansiava a milhões de anos
                   atrás, hoje a procura é totalmente outra. Isso não quer dizer que exista mais
                   ou menos felicidade em estar imerso nesse ou naquele contexto social, é
                   preciso dessa forma entender como cada fator presente na sociedade
                   contribui e permite que o outro seja construtor de seus objetivos, projetos e
                   sonhos.
                           Não se pode esquecer que homens e mulheres foram construídos
historicamente com produtos sociais diferentes e com papéis diferentes. Existe uma distância,
ainda, naquilo que se preconiza para o homem àquilo que se preconiza para a mulher. Cada
um é cobrado socialmente de maneira diferente. Para a mulher é reservado o direito a
maternidade, amamentação, cuidar do lar, dos filhos, garantirem a perpetuação da espécie, ser
fiel e saber cozinhar. Para o homem é determinado o papel de ser macho, procriador,
trabalhador, sustentar a família, alimentar os filhos e ser o sexo superior.
         Diante do conceito da heteronormatividade é que citamos os preconceitos. Quem
estiver fora dos padrões “normais” é tido como “desviante” da norma e da conduta, ou será o

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“sexo inferior”. Mulheres, negros, não-cristãos, homossexuais, deficientes, pobres, esses são
os alvos da praga moderna em querer normatizar os povos, como se estivéssemos no nazismo
e devêssemos prezar por uma raça “pura” que não fujam dos padrões estéticos, sociais,
políticos, econômicos, religiosos e morais construídos. Querer que um todo, seja, determinado
em detrimento a minoria é vendar os olhos para enxergar que existe uma diversidade cultural,
de pessoas, de credos, raças, crenças e que essa diversidade é o que torna nossa existência no
mundo ter algum sentido.
       Pensar no universo juvenil, mesmo inserido no espaço escolar, é saber que esses
jovens vão à escola, mas não deixam em suas casas, guardados na gaveta ou no guarda roupas
sua sexualidade. Ela é inerente ao ser humano. Dessa forma não se pode pensar no jovem sem
pensar nele como ser sexuado dotado de desejos,
curiosidades, anseios e medos. Assim como a família, o                    
lazer, a religiosidade, os amigos, a escola, o trabalho também   a família, o lazer, a
fazem parte do universo e do contexto juvenil. É impossível        religiosidade, os
separar o jovem de sua sexualidade e dizer aos/as mesmos/as
                                                                 amigos, a escola, o
                                                                   trabalho também
que é proibido “ficar”, seja na escola ou em qualquer lugar, é
                                                                    fazem parte do
preciso dar oportunidade aos mesmos para discutirem esses
                                                                     universo e do
assuntos de forma aberta, sem “pré-conceitos”, cobranças, ou
                                                                  contexto juvenil. É
taxações. Ele/a deve se sentir a vontade na escola para          impossível separar
conversar sobre esses assuntos. A escola, as igrejas, as            o jovem de sua
famílias, as instituições em geral devem perceber que falar           sexualidade
de sexo ou sexualidade não estão ensinando os/as jovens a                 
serem “promíscuos”, pelo contrário, quando existe um
interesse dos responsáveis em chamar os/as jovens para o diálogo e construir juntos/as com
eles/as um conceito isso facilita a confiança dos/as mesmos/as a essas pessoas, bem como sua
permanência nesses espaços. O que se deve ter cuidado é não tratar o/a jovem apenas como
“errantes”, inexperientes, descompromissados, volúveis e irascíveis. Permitam que eles/as
sintam confiança na pessoa que se aproxima. Que esses/as jovens sejam protagonistas e não
voluntários. Eles/as precisam construir juntos/as, devem se sentir parte integrante do processo
de construção das políticas públicas, do regimento interno, dos projetos, das eleições, enfim,
das tomadas de decisões que dizem respeito diretamente a eles/as. O que mais pode deixar
os/as jovens “fora de si” é a idéia de que eles/as não têm capacidade para isto ao aquilo ou
ainda decidirem por eles/as. Os/As jovens não suportam executar decisões dos adultos,

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embora saibam que a presença desses é fundamental, porém o que eles/as prezam é que
possam participar das tomadas de decisões, assim se sentem pertencentes e donos daquela
decisão.
                                      O/A jovem não vive pensando apenas em sexo, porém, a
                              sexualidade na idade juvenil está de certa forma em evidência, visto
                              que é nesse período da vida que começam a despertar mais
                              claramente os desejos pelo corpo do outro, a preocupação com o seu
                              corpo, a curiosidade pelo prazer no orgasmo, e principalmente em se
                              identificar enquanto “macho” ou “fêmea” dentro do espaço social.
                              Aquilo que na infância e/ou adolescência era apenas uma
                              curiosidade      quase     que     impossível      de    ser    descoberta      e
                              experimentada, agora na idade juvenil é momento de experimentar,
                              de saborear, decidir quais caminhos seguir. Antes eram levados
                              pelas decisões dos adultos, hoje, já podem decidir por eles/as
                              mesmos/as. Essas decisões nem sempre são as mais conscientes,
                              nem as mais responsáveis. O/A jovem também não está em idade de
                              ser responsável por tudo no mundo. É momento de fazer
                              descobertas.     Estão no        período da       moratória18      social,    das
                              experimentações, não-cobranças, liberdade e movimentos de “vai-e-
                              vem”.
        A religião vem nesse contexto da sexualidade querer influenciar nas práticas sexuais
ou no conjunto de orientações que regem a sociedade. São concepções muitas vezes
fundamentalistas, que colocam os jovens em situação de radicalismos, “ou santos ou nada” 19.
O/A jovem na procura pelo Sagrado, muitas vezes, não adota totalmente o conjunto de leis e
regras de rege determinada religião. A realidade que vemos, é que cada vez mais pessoas
aderem a diversas práticas religiosas de uma única vez. A quem freqüente a missa dos
domingos, nas terças visitem o terreiro de candomblé, na sexta costumam receber um passe
no centro espírita e se no sábado ainda sobrar um tempinho vão fazer meditação em algum
templo budista. A cada dia cresce a adesão não a um sistema religioso único, “puro”, mas
18
   Moratória – “suspensão da vida”, momento de experimentar a vida e a sociedade não deve “cobrar”
responsabilidades. (Termo cunhado por Erik Erikson no livro Identidade, Juventude e Crise)
19
   Termo usado por adeptos do movimento da Renovação Carismática Católica (RCC) para caracterizar a
necessidade de abandonar tudo para servir a Deus. Em sua crença acreditam que a pessoa deve fazer uma escolha
radical, ou deixam tudo, ou desistem de Deus, pois Ele não aceitaria uma pessoa em dúvida ou com práticas ora
cristãs, ora não-cristãs. A santidade só se alcançaria com a prática totalmente religiosa e o abandono total das
“coisas do mundo”.
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buscam nas igrejas experimentações que podem dar origens a escolhas existenciais
importantes. O crescente índice de jovens “sem religião” não está ligado ao fato de não
acreditarem em um ser superior, pelo contrário, os que se dizem sem religião, adotam estilos
de vida e concepções morais que vão de encontro com uma doutrina, mas contradizem outras.
Os jovens não vêem problema algum em freqüentar várias igrejas ao mesmo tempo.
         Nesse contexto é papel nosso, da escola, igrejas, famílias, ONG‟s e governos garantir
que nossos/as jovens estejam experimentando com responsabilidade sua dimensão sexual.
Não por nossa imposição, mas por construção protagonizada pela participação dos/as jovens
em todas as fases de elaboração dos nossos projetos.
         Fica então, dessa pesquisa, a certeza de que jovens assim como adultos têm sua vida
sexual ativa independe, de já terem feito sexo ou não, mas em sentirem curiosidade em
questões que dizem respeito a seus desejos internos, impulsos sexuais, pensamentos, sonhos
eróticos,   prazeres     da                                           carne, manipulação dos
órgãos            genitais,                                                     relacionamentos,
                                cada vez mais cresce a
amizades e família. A                                                 juventude aparece nessa
                               preocupação das pessoas
pesquisa     como       uma                                           classe social com suas
                              em relação a compreender
especificidades     assim                                             como as demais classes.
                                a sexualidade, pois ela
Crianças,     adultos     e
                              interfere diretamente na                idosos       têm       suas
particularidades quando         presença da pessoa na                 o assunto é sexualidade.
Cada um desses grupos                 sociedade                       sociais    construiu     um
sistema que permite que                                               os/as          mesmos/as
transitem em situações que favoreçam a si próprio quanto ao conjunto social. Jovens assim
como adultos e crianças também discutem sobre sexualidade, têm desejos e sentem
necessidades de supri-los. Nas crianças o complexo de Édipo traduz aquilo que se chama o
jogo da sedução nos/as jovens. Nos adultos, talvez a intenção de construção de uma família
feliz com filhos e netos traduzam o desejo dos/as jovens de conseguirem um namoro sério e
poder firmar relacionamento duradouro. O que se sabe é que cada vez mais cresce a
preocupação das pessoas em relação a compreender a sexualidade, pois ela interfere
diretamente na presença da pessoa na sociedade. Quem não resolveu bem seus
relacionamentos dificilmente conseguirá se relacionar com outras pessoas seja afetivamente
ou socialmente. Quem não compreende a homossexualidade dificilmente conseguirá espaço
de relacionamento amistoso entre os povos e as raças. Aqueles/as que não entendem a
masturbação, o sexo antes do casamento, o “ficar”, certamente não se relacionará bem com os

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outros. Todos esses contextos estão presentes nas sociedades como forma de cultura, opção,
doutrina, escolhas e talvez como política e o repúdio a determinadas realidades dificulta a
harmonia entre os povos. O que se escreve aqui, não quer dizer em momento algum que se
deva aceitar tudo como se fosse permitido, lícito e que faça bem ao/a outro/a, pelo contrário,
necessário é que entendamos as práticas dos/as outros/as como socialmente e/ou
particularmente construída e o que diferencia um/a do/a outro/a são as concepções morais,
religiosas, sociais, culturais e pessoas. O que não se pode, por exemplo, é por causa de um
conceito familiar de um/a conceituar os demais e inferiorizar os mesmos.
       Dessa forma, fica a certeza de que jovens sentem prazer, desejos e querem descobrir o
mundo a partir de seus corpos, pois é a partir dele que se sente o mundo.




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Lista de perguntas feitas pelos jovens na última Roda de Conversa da
Pesquisa


Em relação a pesquisa:


       Qual o maior número de virgens, homem ou mulher?
       Qual o sexo mais atualizado no sentido da sexualidade, meninos ou meninas nas
       turmas participantes da pesquisa?
       De acordo com a pesquisa, mais homens ou mulheres sentem prazer?


Perguntas gerais:


       Um homem estéreo consegue chegar a ejaculação ou não?
       Como saber se o homem é virgem?
       O que é mutilação vaginal?
       Qual a idade ideal para um adolescente perder a virgindade?
       O homem tá casado, tem suas relações com sua mulher, e por sua fraqueza acontece
       ato sexual com outro homem isso quer dizer que ele não gosta mais de mulher?
       Porque o homem tem meios como revistas de mulher pelada, vídeos de sexo, etc. têm
       e sentem prazer vendo eles e as mulheres não sentem tanto prazer os vendo?
       Quando duas mulheres transam porque se diz que “fazem sabão”? É porque espuma?
       As doenças sexualmente transmissíveis foram derivadas da AIDS?
       Não se sabe por que existem homossexuais, mas pessoas assexuadas (que não gostam
       de sexo e não sentem prazer nem por homens, nem por mulheres), se sabe a origem ou
       porque essas pessoas são assim?
       Quando a mulher transa uma vez ou duas, ela pode desistir e não querer mais ter
       relações sexuais?
       Pessoas idosas sentem prazer ou perdem com o passar dos anos?
       Depois de algum tempo da primeira relação anal o ânus fecha novamente?
       Como se deve fazer a higiene intima do homem e da mulher?

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É verdade que quanto mais o homem se masturba mais fica fraco e magro?
A mulher prefere sentir prazer ou fazer seu parceiro sentir?
O ânus tem orgasmo?
É certo um homem casado se masturbar?
Se uma mulher tem sua primeira vez e não sangra e penetra com facilidade é normal?
Porque os homens sentem prazer no sexo oral?
No homem sangra quando perde a virgindade?
O sexo anal faz mal a saúde?
Depois ou na hora que o homem perde a virgindade ele sente alguma dor no pênis?
Como saber que um homem é virgem?
É muito prejudicial o homem se masturbar freqüentemente? E a mulher?
A mulher consegue chegar ao orgasmo várias vezes por dia como o homem?
Alguém bêbado tem relação normal assim como alguém sã?
Quando um homem é estéreo apenas fazendo tratamento pode engravidar a mulher?
Porque quando a mulher tem um namoro sério e transa com ele e depois de um tempo
acaba e quando começa o namoro com outro e chega a hora da relação e ele descobre
que ela não é mais virgem e chama ela de safada?
Existe alguma doença na mulher que a impeça de fazer sexo, tipo impedindo a entrada
do pênis na vagina?
Porque o homem faz sexo e a mulher faz amor?
Como saber quando a mulher está no orgasmo?
A prática do sexo anal causa alguma dilatação?
O sexo anal dói após as três primeiras vezes?
O homem consegue passar muito tempo sem sexo?
É verdade que o homem só perde sua virgindade com uma mulher virgem também?
É verdade que o homem tem uma pelezinha no pênis que a virgindade dele?
Porque a mulher demora chegar ao orgasmo e o homem não?




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Relação dos/as pseudo-s dos/as jovens participantes da pesquisa


PSEUDO                     IDADE       PSEUDO                              IDADE
Aghata                      16          Deywson                                19
Aldair                      16          Di                                     18
Alderlon                    17          Didinha                                19
Biscoito                    18          Duda                                   17
Bruna                       16          Duda²                                  19
Café Gay                    16          Edimir                                 16
Clara                       18          Emilho Torres                          20
Cris                        20          Fa                                     18
Cris²                       30          Fab                                    16
Cristiane                   16          Fla                                    16
Dani                        17          Fofa                                   16
Daniel                      19          Gaby                                   17
Dea                         18          Ɣi Ā                                   24
Gi                          16          Lili                                   17
Glau                        19          Lua                                    16
Hebert                      16          Luan                                   15
Jó                          19          Mailon                                 17
Joaci                       16          Manú                                   16
Joandson                    18          Marcos                                 16
Josy                        16          May                                    18
Josy²                       18          Miro                                   19
Karol                       18          Myla                                   16
Kati                        17          Mylla                                  15
Kelly                       17          Nayde                                  19
Kíria                       19          NE-YO                                  16
Klarinha                    16          Nilda                                  17
Lidy                        18          O‟ Connel                              17

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Paola      16          Sandra                                 15
Patty      16          Sandra²                                18
Paula      19          SKYWALKER                              17
Paulo      17          Stivem                                 18
Polí       19          Taty                                   16
Priscila   19          Taty²                                  17
Rayssa     18          Val                                    17
Rone       16          Valdete                                19
Rosy       19




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                         José Aniervson Souza dos Santos - Possui graduação em Ciências
                         Biológicas pela Universidade de Pernambuco (UPE) e é Pós-
                         Graduado em Juventude no Mundo Contemporâneo pela Faculdade
                         Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (FAJE) e Rede
                         Brasileira de Institutos de Juventude. Já trabalhou na área de
                         Assistência Social em programas do Governo Federal de
                         atendimento a famílias vulneráveis. Atualmente milita na Pastoral da
                         Juventude (PJ). Já foi Coordenador Paroquial da PJ na Paróquia de
São José em Surubim/PE, depois assumiu a articulação do setor diocesano de Surubim e em
seguida tornou-se Coordenador Executivo Diocesano-adjunto da Diocese de Nazaré-PE e
hoje é representante no Regional Nordeste II - CNBB do Projeto "A juventude quer Viver"
fazendo parte da equipe nacional desse projeto. Atualmente é educador e coordenador da
Escola de Educadores de Jovens, projeto de capacitação para agentes e profissionais que
trabalham com jovens na cidade de Surubim/PE e região. É presidente do Instituto de
Protagonismo Juvenil - IPJ com experiência na área de juventude, afetividade e sexualidade,
políticas públicas de juventude, aconselhamento, acompanhamento, assessoria, metodologia,
espiritualidade/mística da Pastoral da Juventude. Coordenou, junto a Pastoral da Juventude de
Surubim/PE, uma pesquisa sobre o desemprego e as condições de emprego juvenil da cidade
tendo publicado em parceria com o IPJ e a PJ o material técnico de análise dessa pesquisa em
2010. Atualmente desenvolve pesquisas junto aos/às alunos/as da Escola de Educadores de
Jovens sobre a temática Juvenil e suas influências na sociedade. Atua como Agente
Socioeducativo da Fundação de Atendimento Socioeducativo (FUNASE) na cidade de
Caruaru-PE desenvolvendo planejamento nas áreas de história de vida, projeto de vida,
formação inicial, cidadania, religiosidade e reaproveitamento.




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                                           O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar


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Sexualidade Juvenil: o discurso sobre a sexualidade no espaço escolar

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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar EXPEDIENTE Diretor Presidente Instituto de Protagonismo Juvenil – IPJ José Aniervson Souza dos Santos Rua Cônego Benigno Lira, s/n – Centro 55750-000 Surubim – PE Diretora de Projetos CNPJ: 12.350.352/0001-56 Cinthia Maria Queiroz da Silva Site: www.juventudeprotagonista.org.br E-mail: ipj@juventudeprotagonista.org.br Diretor Financeiro Taciano Neidson Arruda da Silva Secretária Diagramação: José Aniervson Souza dos Anaihara Assunção de Arruda Santos Capa: José Aniervson Souza dos Santos Setor de Pesquisa e Publicação Correção: Ir. Francisca Simony Silva de Leandro Correia do Nascimento Lima, Lindiana Regina da Silva, José Aniervson S. dos Santos. Área de Gênero e Etnia Revisão: Lindiana Regina da Silva. Kássia Maria Queiroz da Silva Imagens: Web Área de Sociopolítica Robson Santana da Silva Setor de Comunicação e Publicidade José Nivaldo da Silva Júnior ©Todos os direitos reservados / IPJ - 2011 Santos, José Aniervson Souza dos Sexualidade Juvenil: o discurso sobre a sexualidade no espaço escolar / José Aniervson Souza dos Santos. – Surubim: IPJ, 2011. Para garantir a igualdade de gênero este material está escrito numa linguagem inclusiva. Leia-se no masculino e/ou feminino. 3
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar SUMÁRIO Apresentação Institucional.......................................................................... 6 INTRODUÇÃO Escola e Educação Sexual............................................................................ 8 Iniciando a conversa CAPÍTULO 1 Corpo e sexualidade, o jovem em questão............................................... 14 Um pouco de teoria Modificações corporais na cultura contemporânea................................................................. 19 Os jovens e a moda................................................................................................................. 20 Gravidez na adolescência........................................................................................................ 22 Os jovens e suas formas de relacionamentos.......................................................................... 24 Jovens homossexuais dentro da escola................................................................................... 26 CAPÍTULO 2 O espaço escolar e a juventude................................................................. 30 Análise da pesquisa Contexto Social do Município................................................................................................ 33 Educação sexual promovida pela escola, segundo os alunos.................................................. 36 Preconceito na escola.............................................................................................................. 38 Espaço de encontros e relacionamentos.................................................................................. 42 O uso da camisinha................................................................................................................. 44 A Virgindade em questão........................................................................................................ 46 Sexualidade e Religião............................................................................................................ 51 Educando Corpos, produzindo a Sexualidade.......................................................................... 56 Conclusão..................................................................................................... 62 ANEXOS Lista de perguntas feitas pelos jovens na última Roda de Conversa da Pesquisa......................................................................................................... 72 Relação dos/as pseudo-s dos/as jovens participantes da pesquisa.............. 74 Sobre o autor................................................................................................ 76 José Aniervson Souza dos Santos Bibliografia................................................................................................... 80 4
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Apresentação Institucional O Instituto de Protagonismo Juvenil é uma Organização Não Governamental, sem fins lucrativos, criada por jovens provenientes da Pastoral da Juventude, que idealizam uma nova organização a qual desenvolve um trabalho com toda juventude, sempre acreditado no potencial criativo e inovador do jovem. A entidade foi fundada no dia 17 de maio de 2010. Acreditamos que podemos “Contribuir para o desenvolvimento integral dos jovens afirmando seu papel social como promotor de cidadania através da intervenção concreta na proposição e consecução de políticas internas e públicas fortalecendo seu protagonismo na sociedade”. Nossa área de atuação abrange todo o território brasileiro na qual trabalhamos alguns eixos temáticos: Políticas Públicas, Relações de Gênero, Capacitação Profissional e Participação Juvenil nos seguintes programas: Formação Integral para Jovens, Formação Continuada para Educadores de Jovens, Articulação em Redes e Gestão & Desenvolvimento Institucional. Identificamos dois segmentos como público: adolescentes/jovens e educadores de jovens. Temos certeza que Educação é um processo que envolve reflexão, ação e a escuta pedagógica centralizada na vida. Desta forma, esperamos fortalecer e criar vínculos de identidade pessoal, com o outro e com a totalidade. Dentro dessa perspectiva é que a partir dos programas “Formação Integral para Jovens; Formação Continuada para Educadores de Jovens e Articulação em Redes” é que desenvolvemos a pesquisa sobre a vivência da Sexualidade dos/as Jovens dentro do espaço escolar, assim apresentando: Programa de Formação Integral para Jovens – este programa tem como foco direto o nosso público – a juventude. Através desse trabalho e do contato com os jovens aprimoramos o estudo a cerca do fenômeno juvenil. Conhecemos e entendemos de perto o perfil da juventude surubinense e região. O jovem sendo entendido em seus anseios, suas angústias, suas dúvidas, sua rebeldia e apaixonados por seus ideais, convicto que pode fazer parte da construção de um novo tipo de sociedade. Programa de Formação Continuada para Educadores de Jovens – acreditamos que os educadores são estrategicamente essenciais no processo formativo da juventude. Com 6
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar eles buscamos descobrir e construir metodologias mais participativas que respeitem os jovens como indivíduos de direitos que são e ajudem a vencer as barreiras nas relações que existem na família, na escola e na comunidade. Programa de Articulação em Redes – os outros programas têm uma ação mais voltada para formação. Entretanto, sabemos que o intercâmbio e a articulação entre as organizações diversas são um importante instrumento para construção de uma nova nação. Acreditamos que o protagonismo juvenil é uma alternativa saudável onde o jovem e o educador, cada um no seu espaço, podem mostrar sua ação, propor, fiscalizar políticas para a juventude e a sociedade, através do estabelecimento de relações em redes e parcerias com outras organizações ampliando assim, sua atuação. Neste sentido, o fazer pedagógico pode ser traduzido através de práticas educativas que valorizem a autonomia dos sujeitos, que tenham a reflexão teórica como elemento estruturante da nossa ação, que aportem a criticidade, a alegria, a ousadia, a esperança e o questionamento cotidianamente, dessa forma tenham o diálogo como instrumento de comunicação. Conselho Diretor Instituto de Protagonismo Juvenil IPJ 7
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar A escola precisa ser o espaço em que a criança e o/a jovem compreendam a sua sexualidade como um todo e não como uma atividade a parte de seu cotidiano. É necessário educar e não apenas informar, o primeiro é mais complexo, é um processo. A sexualidade de um indivíduo define-se como sendo suas preferências, predisposições ou experiências sexuais, na experimentação e descoberta da sua identidade e atividade sexual, construídos socialmente. Ao tratar do tema Sexualidade Juvenil, procura-se considerar a sexualidade não como algo inerente a vida, a saúde, e a educação, que se expressa de forma homogênea no ser humano, mas como diz Guacira Lopes Louro (2001) que a “sexualidade envolve rituais, linguagens, fantasias, A sexualidade de um indivíduo define-se como representações, símbolos, convenções... Processos profundamente sendo suas preferências, culturais e plurais” (p.11). É importante ressaltar o valor de uma predisposições ou experiências sexuais, na prática educacional que esteja inserida no contexto sociocultural, experimentação e psicológico, afetivo e religioso, visando compreender as descoberta da sua identidade e atividade diferenças de cada indivíduo em seus valores familiares. sexual, construídos Ao se tratar da Educação Sexual, o/a educador/a deve socialmente. buscar o maior número de informações e experiências que possam ser passadas para o/a aluno/a de forma que venha enriquecer as informações dele/a a respeito do assunto, propiciando a ele/a uma vida sexual prazerosa e, acima de tudo, com responsabilidade. Os/as educadores/as em parceria com a família são fundamentais na formação sexual do/a adolescente e do/a jovem. A família deve ser orientada, visto que ela é a fonte principal da formação, para que proporcione uma vida moralmente sadia, inclusive sendo responsável em transmitir um conhecimento sadio da sexualidade humana. 10
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Os/as jovens, apesar de muitas vezes não demonstrarem, são extremamente necessitados/as de conceitos morais e do amparo familiar que, quando realizados de forma coerente, proporcionam a formação de homens e mulheres de valores, exemplos para a sociedade. A escola é vista como um importante complemento, isso quando bem orientada. “É preciso que a escola compreenda que também é seu papel, dar ao aluno condições para se inserir no meio social” (ARTIGONAL). A esse respeito, Libâneo (1998), afirma que a escola com a qual sonhamos deve assegurar a todos a formação que ajude o/a aluno/a a transformar-se em um sujeito pensante, capaz de utilizar seu potencial de pensamento na construção e reconstrução de conceitos, habilidades e valores. Para tanto, torna-se necessário ao professor, o conhecimento de estratégias de ensino e o desenvolvimento de suas próprias competências de pensar, além da abertura, em suas aulas, para a reflexão dos problemas sociais, possibilitando aulas mais democráticas, através de um saber emancipador. Pois, apropriar-se criticamente da realidade significa contextualizar um determinado tema de estudo, compreendendo suas ligações com a prática vivenciada pela humanidade (LIBÂNEO, 1998, p. 42). A escola enquanto instituição “detentora do saber” precisa compreender sua importância na formação do sujeito que atua em uma sociedade e deve contribuir positivamente para que esse saber seja trabalhado de forma democrática independentemente de qual grupo social ele/a pertença. Quando falamos em "educação sexual", esbarramos com preconceitos terríveis por parte de muitas pessoas. Por desconhecimento do assunto, pensam que, se ela for implantada na escola, seus/suas filhos/a e alunos/a iniciarão sua vida sexual precocemente. “Pesquisas revelam que mais de 50% das mulheres têm problemas sexuais, que começaram, no caso da maioria delas, na adolescência” (EDUCACIONAL). Esses problemas, muitas vezes bastante graves, são geralmente decorrentes da falta de apoio no período das descobertas sexuais. Fica indispensável à compreensão de como a Educação Sexual promovida pela escola tem interferido na vivência da sexualidade dos/as jovens educandos/as, motivados numa prática sexual responsável, tendo conhecimento dos riscos e perigos da irresponsabilidade e orientando sua prática com respeito, consciência e 11
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar responsabilidade. A discussão entre a escola inserir ou não em seu contexto disciplinar a orientação para uma sexualidade com responsabilidade, tem causado muita polêmica na sociedade. Alguns/mas educadores/as acreditam que é papel dos pais essa preocupação. Enquanto os pais em grande maioria omitem essa responsabilidade, por acharem que é obrigação da escola essa formação, ou por não terem abertura suficiente com os/as filhos/as sobre o tema. O fato de a família ter valores conservadores, liberais ou progressistas, professar alguma crença religiosa ou não e a forma como o faz determina em grande parte a educação das crianças. Pode-se afirmar que é no espaço privado, portanto, que a criança recebe com maior intensidade as noções a partir das quais construirá sua sexualidade na infância (PCN, 1997, p.112). “Quanto mais informação os adolescentes tiverem, quanto melhor a qualidade da mesma, mais condições eles terão de fazer as escolhas corretas, para não prejudicar a sua vida” (GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA). Dessa forma, é essencial que se afirme a importância da educação para a sociedade, visto que é a partir não apenas das informações, mas principalmente da qualidade da mesma que o indivíduo, em especial, os/as adolescentes e jovens poderão fazer escolhas acertadas. Assim, poderemos dizer que é necessário educar e não apenas informar, o primeiro é mais complexo, é um processo. É citando Fiori (1981-1982, p.11) “só após a adolescência e o conhecimento real das conquistas e perigos, a sexualidade externa poderá ser buscada” que reforçamos a importância da condução do processo educacional de orientação e conhecimento da sexualidade juvenil para uma busca e/ou uma prática sadia da sexualidade do/a jovem. 12
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar A atividade sexual na adolescência vem se iniciando precocemente, cada vez mais com conseqüências indesejáveis imediatas como, por exemplo, o aumento da freqüência de doenças sexualmente transmissíveis (DST) nessa faixa etária; gravidez, muitas vezes indesejável; união estável; abortos, etc. A mídia nos bombardeia com uma série de informações que se não transformadas em educação não nos serve de nada. “Os novos produtos audiovisuais e informatizados entraram em nossas vidas tão sorrateiramente que, quando percebemos, já estávamos cercados por eles” (BALAN). “Só podemos concluir uma coisa: não são jovens que andam desorientados. São os adultos que não sabem que orientação lhes dar” (EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS). Nesse contexto, é importante fazer um passeio pelo universo juvenil, por suas cores, seus gostos, crenças, escolhas, formatos, (re)significações, buscas É importante fazer pela afirmação de sua identidade. Falar de temas como um passeio pelo universo juvenil, por namoro, sexo, “zoar”, “ficar”, universo gay, camisinha, suas cores, seus masturbação e tantos outros. Por isso se faz necessário gostos, crenças, antes ouvir o/a jovem e saber como o/a mesmo/a tem escolhas, formatos, encarado as informações que estão à disposição da mídia (re)significações, buscas pela e a favor dela. afirmação de sua Não esquecendo que começa a ser alterado o identidade. discurso quando se parte para questões essenciais, como o caso de gênero. Perceber como homem e mulher têm 16
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar encarado tais práticas, como os/as mesmos/as têm encarado o preconceito e as privações. Como por exemplo: encontrar uma camisinha na bolsa feminina é o mesmo que dizer que a jovem seja “galinha”, “atirada”, que “transa com todo mundo” e portanto não é uma menina confiável. Segundo Goldenberg “o preservativo permanece, dessa forma, associado à idéia de promiscuidade, sujeira, e não à idéia de cuidado e prevenção” (2006, p.102). A juventude é espaço propício para o empoderamento da identidade do individuo, é nessa fase onde o mesmo necessita se afirmar enquanto pessoa, sujeito e parte viva da sociedade de consumo. As práticas homossexuais estão no universo juvenil, entre tantas outras definições, como a forma e o meio pelo qual o/a jovem assume que é um corpo, diferente do discurso do passado que dizia que o/a mesmo/a o possuía. É a idéia do ser e não do possuir. O/A jovem é caracterizado/a por seus relacionamentos semelhantes aos movimentos de ioiô, num vai-e-vem inconstante, caracterizando suas paixões como “vôos de borboleta”, sem pouso certo (PAIS, 2006). O corpo é o primeiro plano da visibilidade humana e um lugar privilegiado das marcas da cultura. Citando Ortega (2006, p.43) “o tabu que se colocava sobre a sexualidade desloca- se agora para o açúcar, as gorduras e taxas de colesterol”. A preocupação do/a jovem com sua aparência, estética, porte físico, corte do cabelo, maquiagem, e outras coisas tem se tornado práticas essenciais no cotidiano de milhares de jovens do nosso século. O jovem do sexo masculino, diferente do que muitos pensam se preocupam tanto quanto as jovens do sexo feminino com seu corpo e sua aparência como mostram um estudo feito com pessoas de sexo masculino: Em estudo recente, mostrei que a extrema preocupação masculina, em particular dos jovens, com altura, força física, virilidade e tamanho do pênis provoca um enorme sofrimento físico e psicológico, causando, inclusive, mortes, como bem mostram os casos de adolescentes que tomaram anabolizantes bovinos para que o corpo crescesse (GOLDENBERG, 2006, p. 27). Existem entre os jovens as práticas de uso de medicamentos para aumento de desempenho sexual, mesmo, dizendo eles, não precisarem, usando-os como forma de garantia. O medo de falhar e a ansiedade com o desempenho sexual principalmente com novas parceiras contribui para o uso desses medicamentos. Os mesmos dão segurança em relação ao desempenho sexual (ibid). Como algo visível e obviamente comparável, ele [o pênis] era o foco implícito do corpo nos vestiários e um ator importante em anedotas e histórias que 17
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar constituíam os recursos básicos de nossa pedagogia sexual. Não era estranho ouvir relatos de concursos nos quais a rapaziada media seu pênis, estabelecendo uma hierarquia entre seus donos, ... O pênis era um ator social a ser permanentemente testado, experimentado e consumido. Como órgão central e explícito da masculinidade, como traço distintivo da condição de “homem”, o fato era um elemento permanente de consciência. De tal modo que não seria exagero afirmar que, naquela cultura, a masculinidade era representada e igualmente englobada pelo pênis, ... Ou seja: quem havia nascido homem, tinha de comportar-se como tal – com hombridade, com consistência, firmeza e certa dureza. Roberto DaMatta Vale ressaltar que a “indústria do aumento do pênis” tem crescido bastante, além das práticas de exercícios nas academias, injeção de anabolizantes e complementos alimentares, tudo pela obsessão de corresponder ao ideal de “ser homem”. Um fator paralelo é o sofrimento silencioso desses meninos adolescentes, pois em nossa sociedade, “homens de verdade” não podem demonstrar preocupação com a aparência, senão podem ser considerados “afeminados” ou “gays” (GOLDENBERG, 2006). Com relação a iniciação sexual, por assim dizer e citando a faixa etária de pessoas entre idade de 31 a 50 anos, apresentam grande proximidade entre homens e mulheres em idade que perderam sua virgindade. Atualmente, entre meninos e meninas a diferença de idade da primeira relação sexual está cada vez mais próxima. Em linhas gerais, os adolescentes de ambos os sexos iniciaram sua experiência sexual em torno dos 16 anos de idade, levando em conta que ainda existe uma pressão social para que os meninos se iniciem sexualmente mais cedo. (ibid). Fatores sociais contribuem para as práticas sexuais e os chamados cuidados excessivo com o corpo. “Ao mesmo tempo, todas as atividades sociais, lúdicas, religiosas, esportivas, sexuais são ressignificadas como práticas de saúde” (ORTEGA, 2006, p.44). O corpo e o self1 são modelados pelo olhar censurador do outro que leva à introjeção da retórica do risco. A ideologia do corpo perfeito nos leva a contemplar as doenças que retorcem a figura humana como sinônimo de fracasso pessoal. A obsessão pelo corpo bronzeado, malhado, sarado e siliconado faz aumentar o preconceito e dificulta o confronto com o fracasso de não atingir esse ideal, como testemunham anorexias, bulimias, distimias e depressões cada vez mais comuns entre jovens e adultos na nossa sociedade. (ibid) 1 Entendemos self neste trabalho de modo consoante com a compreensão de Safra (2005, p. 39), ou seja, como uma “organização dinâmica que possibilita a um indivíduo ser uma pessoa e ser ele mesmo”. O autor ressalta que o self depende da presença de um ambiente facilitador e que “a cada etapa desse processo há uma integração cada vez mais ampla decorrente das novas experiências de vida” (Idem, Ibidem). 18
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    Sexualidade Juvenil subcutâneos, atividadesde fitness e de wellness, anorexia e jejum e todos os tipos de próteses internas e externas colocadas para substituir ou O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar As “modificações corporais” referem-se a uma imensa prática que inclui, entre outros, tatuagem, piercing, cutting, branding, implantes Ainda citando Ortega (id) hoje somos o que aparentamos e estamos, portanto, exposto ao olhar do outro, sem lugar para se esconder, como se estivéssemos totalmente a mercê do outro. “Já que o que existe está à mostra, sou vulnerável ao olhar do outro, mas, ao mesmo tempo, preciso de seu olhar, de ser percebido, senão não existo” (ibid). Nesse contexto, o corpo e as tentativas de personalizá-lo aparecem como conquistas do século. Ele (o corpo) tornou-se objeto de desconfiança e desconforto. “Não podendo mudar o mundo, tentamos mudar o corpo, o único espaço que restou à utopia, à criação. As utopias corporais substituem as utopias sociais” (ibid). Modificações corporais na cultura contemporânea Para Boaventura Santos, à modernidade é um projeto muito rico, capaz de infinitas possibilidades e, como tal, se torna muito complexo e sujeito a desenvolvimentos contraditórios. É um projeto ambicioso, revolucionário, com possibilidades muito amplas e, por serem amplas, são excessivas e difíceis de serem cumpridas. O autor aponta como conseqüência da não realização desse paradigma o surgimento de sinais evidentes de crise, pois não se confirmava o brilho prometido da ciência, com soluções privilegiadas para a vida social e individual (SANTOS, apud SILVA, 2006). Na cultura moderna, as modificações corporais “constituem um esforço no sentido de fugir da cultura da aparência e de recuperar uma dimensão do vivido corporal” (ORTEGA, 2006, p. 49). potencializar o funcionamento dos órgãos. As “modificações corporais” referem-se a uma imensa prática que inclui, entre outros, tatuagem, piercing, cutting, branding, implantes subcutâneos, atividades de fitness e de wellness, anorexia e jejum e todos os tipos de próteses internas e externas colocadas para substituir ou potencializar o funcionamento dos órgãos (ibid). A investidura no corpo é uma resposta dada pelo indivíduo à desestruturação dos laços sociais, ao distanciamento do outro e também a perda de valores significativos para o indivíduo. Essa perda dá uma impressão de insegurança levando à procura da realidade nas marcas corporais. “A marca corporal representa a procura de autenticidade, de uma localização real de nossa essência na sociedade da aparência” (ibid). 19
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Tatuagem, branding, scarification fornecem a ilusão de uma estabilidade cultural e social, e são tipicamente usados „em situações em que as pessoas sentem ... a necessidade de preservar suas identidades individuais e sociais e de anunciar ... a permanência de suas lealdade, valores e crenças‟ (id). O discurso de gênero também está incluso nas A passagem do simbólico práticas de modificações corporais, citando a ao real acontece pelo tatuagem. Numa pesquisa, os/as entrevistados/as corpo e no corpo. A dor é um elemento abordaram assuntos como, local do corpo e imagens fundamental nas para fazer uma tatuagem. De acordo com os/as modificações corporais, pesquisados/as, existem regiões do corpo “mais uma via de acesso ao corpo vivido numa femininas” ou “mais masculinas”, que norteiam a cultura como a nossa, na escolha do local a ser tatuado: toda a parte superior do qual a dor é um anacronismo que deve tórax (ombros, bíceps, escápulas, região interna dos ser suprimido. braços e antebraços), para os homens; nuca (com raras exceções), cóccix, região lombar, virilha, seios e tornozelos para as mulheres. A divisão “de homem” e “de mulher” estende-se, também, como citado, aos motivos tatuados: para os homens, são proibidas as imagens de fadas, borboletas, florzinhas, estrelinhas etc. (PORTINARI; COUTINHO, 2006). A passagem do simbólico ao real acontece pelo corpo e no corpo(ORTEGA, 2003). A dor é um elemento fundamental nas modificações corporais, uma via de acesso ao corpo vivido numa cultura como a nossa, na qual a dor é um anacronismo que deve ser suprimido. As modificações corporais representam uma recusa do império da visão, uma reivindicação de não ser tratado como imagem, recuperando para isso experiências táteis e sensoriais, formas de tocar a carne, vias de acesso ao corpo vivido (ORTEGA, 2008). Os jovens e a moda ... a função principal da descrição da moda não é apenas propor um modelo que é uma cópia da realidade, mas também e especialmente colocar a moda em circulação amplamente como um significado. (Roland Barthes apud Portinari; Coutinho, 2006, p. 65) 20
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar A moda, em si, é uma linguagem cuidadosamente construída. Ela não se limita apenas a vestuário e acessórios, ela abrange todo o corpo, incluindo a forma corporal, os gestos, a voz, a entonação, o olhar, a postura, o andar, o tom, a textura e a tonicidade da pele, os pêlos, os cabelos, enfim tudo que compõe a imagem pessoal. A moda também não se resume aquilo que é veiculado na mídia (PORTINARI; COUTINHO, 2006). A relação dos/as jovens com a moda oscila, entre o mais arraigado conformismo e uma experimentação que, se não chega a romper inteiramente com os códigos, beneficia-se da permissividade com o que o próprio sistema da moda contempla essa faixa em nossa sociedade. Jovens que freqüentam um mesmo ambiente nunca deixam de impressionar o observador pela uniformidade de roupas, acessórios, penteados, gestual, vocabulário e entonação – chegando até, muitas vezes, a apresentar os mesmos tiques verbais e corporais. Ao mesmo tempo, não parece propriamente um exército de clones, conseguindo apresentar-se como indivíduos claramente diferenciados entre si, graças a variações, às vezes mínimas, introduzidas por cada um em seus “uniformes” (PORTINARI; COUTINHO, 2006, p. 67-68) De acordo com Brandes apud Portinari (2006, p. 68-69) “os corpos andróginos, em toda a sua ambigüidade, são ordenados a promover roupas e produtos de beleza unissex, como, por exemplo, CK ONE, a eau de toilette de Calvin Klein para homens e mulheres”. As lacunas resultantes dos questionamentos e reformulações no que diz respeito à sexualidade e aos papéis sexuais pretende produzir e colocar em circulação “uma nova roupa para um novo homem” dentro, é claro, dos novos padrões da moda masculina, chamados “novos modelos de masculinidade”. Os corpos masculinos “começam a adquirir atributos até então vistos sob a ótica burguesa como exclusivos do sexo feminino: cabelos longos, soltos ou em rabos-de-cavalo, lábios grossos e sensuais” (BRANDES, apud PORTINARI; COUTINHO, 2006, p.71). Dessa forma, nessa grande fase de originalidade permite ao homem explorar a roupa, usando-a de todas as formas, estilos e materiais. O descuidado, o tosco, o rasgado, o puído, o descosturado, o gasto, o desfiado, o sujo, o esgarçado, o apertado, o desbotado, o colorido, o psicodélico, o brilhoso, o estampado, o extravagante e, inclusive, a própria saia – até então rigorosamente excluída – foram incorporados ao mundo da moda masculina (PORTINARI; COUTINHO, 2006, p.71) 21
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Começa o “ritual do culto ao corpo”. Dessa forma adotando rituais de atividades físicas em academias, cooper na praia, onde passaram a exibir seus corpos vaidosamente modelados e definidos. Também passaram a adotar variados estilos, incluindo o uso de brincos, bandanas, gel, maquiagens e esmaltes, cangas amarradas na cintura, cabelos longos, calças com a cueca à mostra etc. Existe também uma segregação pela cor, homens admitem usar todas as variações da escala cromática em seu vestuário, mas nunca usariam uma peça toda cor-de-rosa, explica uma pesquisa feita com homens (ibid). Também a depilação entra no contexto masculino sendo permissível em casos extremos, de homens muito peludos, por motivos higiênicos, e, ainda assim, com algumas restrições em determinadas regiões do corpo, a virilha, por exemplo (ibid). É correto, por assim dizer, que já não se invoca mais uma “essência” masculina ou feminina como ancoragem da diferença entre os sexos, torna-se mais acentuadamente um campo privilegiado para as negociações do indivíduo no que concerne à sua adesão aos papéis sexuais. “„Ser homem‟ ou „ser mulher‟ aparece, mas do que nunca, como... uma questão de gosto”? (ibid). Gravidez na adolescência A gravidez na adolescência tem sérias implicações biológicas, familiares, emocionais e econômicas, além das jurídico-sociais, que atingem o indivíduo isoladamente e a sociedade como um todo, limitando ou mesmo adiando as possibilidades de desenvolvimento e engajamento dessas jovens na sociedade. Devido às repercussões sobre a mãe e sobre o concepto é considerada gestação de alto risco pela Organização Mundial da Saúde (OMS 1977, 1978), porém, atualmente postula-se que o risco seja mais social do que biológico. Quando a atividade sexual tem como resultante a gravidez, gera conseqüências tardias e a longo prazo, tanto para a adolescente quanto para o recém-nascido. A adolescente poderá apresentar problemas de crescimento e desenvolvimento, emocionais e comportamentais, 22
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Segundo os números das pesquisas do quantitativo de adolescentes grávidas o aumento das taxas de gravidez na adolescência se deve, principalmente, à custa das faixas etárias mais jovens, em todo mundo. educacionais e de aprendizado, além de complicações da gravidez e problemas de parto. Há inclusive quem considere a gravidez na adolescência como complicação da atividade sexual. Segundo Mônica Medeiros de Farias2, existem muitos casos de adolescentes grávidas. “O motivo desse fato é muitas vezes a falta de informação que essas jovens têm a respeito da sexualidade. O contexto familiar tem relação direta com a época em que se inicia a atividade sexual. Assim sendo, adolescentes que iniciam sua vida sexual precocemente ou engravidam nesse período, geralmente vêm de famílias cujas mães também iniciaram vida sexual precocemente ou engravidaram durante a adolescência. De qualquer modo, quanto mais jovens e imaturos os pais, maiores as possibilidades de desajustes e desagregação familiar. O relacionamento entre irmãos também está associado com a atividade sexual: experiências sexuais mais cedo são observadas naqueles adolescentes em cuja família os irmãos mais velhos têm vida sexual ativa” comenta. No tocante à educação, a interrupção, temporária ou definitiva, no processo de educação formal, acarretará prejuízo na qualidade de vida e nas oportunidades futuras. E não raro com a conivência do grupamento familiar e social a adolescente se afasta da escola, frente a gravidez indesejada, quer por vergonha, quer por medo da reação de seus pais. Segundo os números das pesquisas do quantitativo de adolescentes grávidas o aumento das taxas de gravidez na adolescência se deve, principalmente, à custa das faixas etárias mais jovens, em todo mundo. Em 1980 o Brasil possuía 27.8 milhões de adolescentes entre 10 e 19 anos de idade, o que representava 23% da população geral. A taxa de fecundidade entre os 15 e 19 anos era de 11%. Nessa época, dos partos realizados pela rede do INAMPS, 13% eram de menores de 19 anos (IBGE, 1980). Rocha (1991), no Recife, encontrou 24,5% de partos na adolescência, em amostra de 5.940 recém-nascidos vivos de BNSE, sendo que as menores de 15 anos representavam 0,5% 2 Monica Medeiros de Farias é Assistente Social que atua no CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) nas cidades de Surubim e Casinhas no estado de Pernambuco (CRESS – 3436). Relato em entrevista oral para pesquisa sobre gravidez na adolescência realizada no Bairro São José, Surubim/PE. 23
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar do total e as de 15 a 19 anos 23,9% do total, dados muito semelhantes aos do Amparo Maternal (VITALLE, 1993), exceto pelas mães menores de 15 anos onde se observam percentuais maiores na população estudada em São Paulo, confirmando assim que a gravidez na adolescência está aumentando às custas, inclusive, das gestantes mais jovens. Por fim, por mais difícil que possa representar uma gravidez na adolescência, presume- se que as decisões de aborto ou reprodução podem ser incorporadas ao processo de construção da identidade juvenil se são vividas como alternativas escolhidas e assumidas por eles e não impostas por terceiros (BRANDÃO; HEILBORN, 2006, p. 1428). Os jovens e suas formas de relacionamentos [...] suas paixões são como “vôos de borboleta”, sem pouso certo; casam-se, não é certo que seja para toda a vida [...] quando se prendem (ao “nó” do casamento), alimentam sempre uma “presunção de divórcio”, isto é, uma crença de que, “se um casamento não funciona... há sempre possibilidades de divórcio” (PAIS, 2006, p. 8-9). Muitos autores comentam que nas últimas décadas alguns termos ganharam mais conotação no universo juvenil. Diferentemente dos termos usados por gerações passadas. A nossa atual geração juvenil detém um novo estilo gramatical em suas sociabilidades. Tais termos são usados muitas vezes como determinante em alguns agrupamentos juvenis, como sendo uma de suas milhares características. Novos termos são cunhados à medida que os pertencentes àquelas culturas desempenham papel muitas vezes dominante no grupo juvenil. Para cada agrupamento existem suas formas de diálogo próprio, tais como gírias, “dialetos” e expressões, cada um, significando um fenômeno ou uma busca específica. É como se fosse um pouco da identidade do grupo. Essas novas gramáticas são utilizadas para identificar também suas novas formas de relacionamento. Expressões como “ficar”, “dar um rolé”, “azará”, “girar” etc. são consumidas diariamente como expressões identificatórias das formas de relacionamentos desses/as jovens. 24
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Para os jovens, do sexo masculino, por exemplo, é sempre motivo de se vangloriarem por sua capacidade de darem “voltas e mais voltas” nos fins de semana, na night, nos bailes funks, com motos e namoradas. PAIS (2006) chama esses relacionamentos de “vôos de borboletas”. Abraçam estilos de vida que possibilitem mobilidade e elasticidade. Segundo Almeida (2006, p.149) “‟ficar‟ é essencialmente beijar. Beijar em série, beijar muito, reconfigurando temporalidades antes submetidas ao crivo da cadência amorosa e sentimental”. A essa afirmação podemos dizer que nas configurações de relacionamento juvenil a dimensão seja a da instantaneidade numa intensidade volátil. “Nos regimes que compõem as novas semióticas afetivas em torno do „ficar‟, o beijo assume a condição de performance, de intransitividade, fisicalidade, arma corporal, descarga rápida da emoção. Princípio e fim”(id, 2006, p.150). A diferenciação entre os gêneros também se faz presente no modo pelo qual meninos e meninas encaram as distinções e as preferências entre o namorar e o “ficar”. É comum ouvir nos discursos femininos a procura pelo namoro, embora sejam elas grandes autoras da procura do “ficar” na night. Elas são um pouco mais contidas, menos “atiradas”, como diriam os garotos. Mas, em contraste, são as que conseguem provocar o sexo oposto para “ir à caça”. Com suas performances corporais, seus gestos, cores e tons vibrantes, jeito de mulher, maquiagem chamativa, decotes... conseguem atrair os olhares daqueles que saíram com a única É comum ouvir nos intenção de “ficar”, “pegar todas”, “beijar muito”. discursos Nos garotos, a busca pelo “ficar” é percebida nitidamente. Na femininos a procura pelo “night” sua busca agora é pegar quantas puder. O namoro e a “nigth” namoro, são pólos opostos. O que importa para esses jovens é a quantidade embora sejam de “minas” que conseguir ficar, não têm intenção de “ficar” com elas grandes autoras da uma só. procura do Enfim, em seus relacionamentos, os/as jovens tendem a “ficar” na night. seguir primeiramente o desejo do gozo a vida. Experimentar de tudo 25
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar antes do compromisso e responsabilidades de um namoro, pois eles/as sabem o que isso significa. Para os/as jovens, o namoro é um compromisso, uma responsabilidade e precisa saber dar conta e antes que cheguem a esse estado desejam “experimentar a vida”. “Os projetos de vida que os jovens idealizam abrem portas a um vazio temporal de enchimento adiado. Projetos de vida cujos trajetos nem sempre os alcançam” (PAIS, 2006, p. 10). Jovens homossexuais dentro da escola Diante do pressuposto que é papel da escola formar o cidadão para uma consciência crítica e capaz de promover igualdade entre os sexos, respeitando as diferenças e valorizando-as é que tomamos o direito de falar da homossexualidade dentro do espaço escolar. Não é preciso realizar uma pesquisa que foque primeiramente a situação do preconceito contra homossexuais para percebemos que ela exista dentro do espaço escolar. Assim como o preconceito contra os negros e pobres é visivelmente assistida em nossas repartições públicas e instituições responsáveis pela igualdade entre os povos, assim também assistimos o preconceito contra os homossexuais e muitas vezes até as práticas de extermínios por essas causas. A educação é, e precisa ganhar ainda mais força, enquanto instituição capaz de promover a emancipação social do indivíduo, contribuindo para a transformação da realidade e a reafirmação da ética democrática. “Nesse sentido, a escola é um espaço de socialização para a diversidade” (LIONÇO; DIDIZ, 2009, p. 9). É importante nesse início de debate compreender o que vem a ser a homossexualidade partindo do conceito da heteronormatividade. Termo que se refere aos ditados sociais que limitam os desejos sexuais, as condutas e as identificações de gênero que são admitidos como “normais” ou aceitáveis àqueles ajustados ao par binário masculino/feminino. Desse modo, toda variação ao modelo heterossexual complementar macho/fêmea – ora através de manifestações atribuídas à homossexualidade, ora à transgeneridade – é marginalizada e perseguida como perigosa para a “ordem” social. 26
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    Sexualidade Juvenil o sufixo "ismo" é utilizado para identificar sobre a sexualidade no espaço escolar O discurso doença, enquanto o sufixo "dade", quer dizer "um modo de ser“, vinculado a idéia de cidadania. Segundo Guacira Lopes Louro, em nossa sociedade, a norma que se estabelece historicamente remete ao homem branco, heterossexual, de classe média urbana, cristão, não- deficiente; e esta passa a ser a referência que não precisa mais ser nomeada. Serão os “outros” sujeitos sociais que se tornarão “marcados”, que se definirão e serão denominados a partir desta referência. Desta forma, a mulher é representada como “segundo sexo” e gays e lésbicas são descritos como desviantes da norma heterossexual (LOURO, 2001). Querendo explicar a diferença entre os sufixos “ismo” e “dade”, teremos: o sufixo "ismo" que é utilizado para identificar doença, enquanto o sufixo "dade", quer dizer "um modo de ser“, vinculado a idéia de cidadania. Dessa forma, pretendemos chamar de homossexualidade ao invés de homossexualismo, colocando na pauta as suas experiências como orientação e não opção sexual. Ainda conceituando, a Orientação Sexual refere-se à capacidade de cada pessoa de ter uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de um gênero, assim como ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas. Enquanto a Identidade de Gênero é uma experiência interna e individual, em termos de gênero, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo o senso pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgico e outros) e outras expressões de gênero, inclusive vestimenta, modo de falar e maneirismos. Ou seja, mudar fenotipicamente. Então, o ideal de homogeneização levava a crer que os/as estudantes negros/as, indígenas, transexuais, lésbicas, meninos e meninas deveriam se adaptar às normas e à normalidade. Com a repetição de imagens, linguagens, contos e repressão aos comportamentos anormais (ser canhoto, por exemplo) se levariam os “desviantes” à integração ao grupo, passando da minimização à eliminação das diferenças (defeitos). E o que seria normal? Ser homem-macho? Ser mulher feminina? Ser negro quase branco? Ser gay sem gestos “afetados”? Espera-se que o discriminado se esforce e adapte-se às regras para que ele, o diferente, seja tratado como “igual”. Nessa visão, “se o aluno for eliminando suas singularidades indesejáveis, será aceito em sua plenitude” (Castro, 2006, p 217). É no ambiente escolar que crianças e jovens podem se dar conta de que somos todos diferentes e que é a diferença, e não o temor ou a indiferença, que deve aguçar a nossa curiosidade. E mais: é na escola que crianças e jovens podem ser, juntamente com os professores e as professoras, promotores e promotoras da transformação do Brasil em um país respeitoso, orgulhoso e disseminador da sua diversidade. 27
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Enfim, “Temos o direito de ser iguais quando as diferenças nos inferiorizam. Temos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”. Boaventura de Souza Santos 28
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar D urante um longo período, cada uma dessas concepções acima citadas foram pessoalmente testadas e comparadas para que se pudesse, nesse período, chegar a redigir esse material, onde pudesse contribuir para a escola e os/as educadores/as na formação e educação do seu público alvo, aqui identificados como sendo os/as adolescentes e os/as jovens, numa perspectiva de adequação da realidade juvenil e o seu universo dentro da cultura contemporânea. Para esse resultado, utilizo como campo para essa detalhada pesquisa, alunos do Ensino Médio das turmas de 2º e 3º ano da Escola Estadual Maria Cecília Barbosa Leal localizada na Cidade de Surubim/PE, por um longo período de intenso estudo e contato direto com os/as jovens. O objetivo dessa pesquisa foi entender como os/as alunos/as encaravam a Educação Sexual promovida pela escola e como se relacionavam com ela. Ao mesmo tempo foi identificar quais espaços os/as jovens dispunham para discutir sobre tais assuntos que dizem respeito ao seu universo particular de dúvidas e tabus. Nessa proposta, contribuir diretamente com os/as profissionais que atuam com esse público juvenil numa forma dinâmica e “certeira” quando o assunto é sexualidade para o/a jovem, não apenas àqueles que atuam diretamente nessa unidade de ensino, mas a todos/as que acessarem esse material. Por ser uma escola de ensino médio, situada próxima ao centro urbano da cidade e conter como alunado, de um lado, jovens urbanos, freqüentadores de “baladas”, “raves”, “night” e “reboques3”, e de outro, jovens oriundos de comunidades rurais afastadas do centro da cidade tendo em suas práticas de lazer as grandes comemorações religiosas da cidade, como a festa do padroeiro, réveillon, ou raras participações em festas públicas no 3 Reboque – Típico som urbano caracterizado por músicas com batida comumente eletrônica de volume alto, emitido por caixas de som de alta potência, sendo puxado por um carro ou parado em vias públicas. Reúne uma imensa quantidade de jovens oriundos de várias classes sociais e localidades, marcada por notório consumo de bebidas e cigarro. Espaço privilegiado pelos jovens pela facilidade da diversão, consumo e “ficadas”. 32
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar centro da cidade, ou as atividades locais da comunidade como bingos, é que esse trabalho ganha peso e força, visto a diversidade juvenil e concepções morais, religiosas, familiares e pessoais do público alvo da pesquisa (SANTOS, 2010). Nesse material, elencaremos os resultados obtidos com essa pesquisa e quais influências passam a ter na condução do processo de ensino-aprendizagem do corpo discente dessa comunidade escolar. O que os/as jovens pensam a respeito desses assuntos? Quais influências na vida dos/as mesmos/as esses fatores contribuem? O que levam adolescentes e jovens a decidirem por iniciar sua vida sexual com 14 anos de idade, por exemplo? O que se passa na cabeça desses/as jovens ao se depararem em situações diversas, por exemplo, terem amigos/as homossexuais? Vale ressaltar que traremos para a discussão dessas temáticas principalmente as falas dos/as jovens, suas opiniões acerca de cada assunto abordado. Utilizaremos para identificar as falas dos/as jovens e preservar suas identidades, visto que em sua maioria são adolescentes/jovens menores de 18 anos, pseudo-s com suas idades verdadeiras, com isso garantimos a compreensão do fenômeno que acontece nas faixas etárias. Esses nomes foram escolhidos pelos/as mesmos/as no momento da pesquisa, como forma de identificação com um/a “personagem” que escolheram a partir de seus gostos e identificação com o/a mesmo/a. Essas falas encontram-se registradas no Diário de Campo do pesquisador. Contexto Social do Município4 Surubim é uma cidade do interior de Pernambuco com população estimada em 58.444 habitantes, segundo o IBGE em 2010. Desse montante 47,79% representam a população masculina e 52,21% feminina. Ainda em se falando de estatística, é importante também trazer os dados sobre a população urbana e a rural, estando 75,29% e 24,71%, respectivamente. Temos uma população jovem estimada em 14.384 jovens de 15 a 29 anos residentes no município no ano de 2001, o que representa pelo menos 4 Texto obtido do material publicado e impresso pela Pastoral da Juventude de Surubim por ocasião da Semana da Cidadania 2010 tendo desenvolvido uma pesquisa sobre o desemprego e as condições de emprego da juventude de Surubim. 33
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar 24,61% de toda a população surubinense (IBGE, População e Domicílios - Censo 2000 com Divisão Territorial 2001). Se comparássemos esses números ao Censo 2010, certamente teríamos um número mais elevado, porém vislumbraremos essas informações, para, com elas obter as análises. Isso significa dizer que temos uma cidade extremamente jovem. São esses mesmos 24,61% da população surubinense que alimenta a produção, o consumo, as indústrias, as escolas e são os/as mesmos/as que são vítimas do desemprego ou das péssimas condições de emprego na cidade. E citando as estatísticas do IBGE (2009) a incidência da pobreza em Surubim é de 46,91%, representando um alto índice preocupante para a A baixa taxa de população. Apenas 11.892 habitantes possuem oportunidades de emprego na renda de até um salário mínimo e esses números cidade promove um grande caem quando o valor do salário aumenta, chegando êxodo, principalmente de jovens deslocando-se para a 19.529 pessoas sem rendimento mensal algum. cidades vizinhas a procura de O desemprego entre os/as jovens trabalho. brasileiros/as é significativamente superior ao do restante da população - apesar do aumento da escolarização dos/as jovens (IPEA). Segundo a pesquisa realizada pelo Instituto Cidadania no ano de 2004, 84% dos/as jovens afirmam que o trabalho possui um sentido de “auto- realização” e “independência”. Desta forma, é importante reconhecer que a falta do trabalho ou o trabalho em condições precárias ou degradantes, é uma das formas pelas quais o/a jovem entra no universo onde a exclusão no mundo do trabalho pode ser um dos muitos fatores que desencadeiam a violência juvenil. “Isso é sinal de que o trabalho não deixa de ter sentidos diferenciados, e para além do acesso à renda, o trabalho é significado pela juventude como independência, emancipação, de desenvolver a criatividade, de vivência da coletividade, de dignidade” (SANTOS, 2010, p. 6). A exploração do trabalho chega, em alguns casos, a gerar condições de verdadeira escravidão (SANTOS, 2010). Surubim também é cenário artístico na história nacional. Capiba e Chacrinha traduzem essa afirmação. Terra da vaquejada, tão citada na região e no país. Capital da vaquejada, como é conhecida. Festeira e palco das maiores competições de vaqueiros do Brasil, com os seus mais de 80 anos de emancipação adquiriu respeito e tradição por essa grandiosa festa da 34
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar cultura do povo nordestino. Também terra de grandes festivais de dança e teatro. Ótimos atores e atrizes compõem o palco das apresentações culturais de Surubim. População acolhedora e em constantes movimentos de migração. A baixa taxa de oportunidades de emprego na cidade promove um grande êxodo, principalmente de jovens deslocando-se para cidades vizinhas a procura de trabalho. Muitos conseguem, outros se frustram na realidade assombrosa do desemprego ou do subemprego, que em algumas situações, se torna ainda pior. E estes, quase que em sua maioria, não mais conseguem conciliar seus estudos com a vida profissional. A distância da cidade de trabalho com as suas moradias e em alguns casos as baixas condições do mesmo impossibilita em alguns casos a escolarização do indivíduo. Toritama e Santa Cruz do Capibaribe são pólos comerciais e de grande concentração de jovens surubinenses. A indústria da moda e a confecção, principalmente, têm crescido e atraído a juventude para seu meio, embora na cidade de Surubim o que tem crescido nessa área são as facções particulares, dentro das próprias casas. Essas, grosso modo, não empregam pessoas, apenas reúnem alguns membros da família para essa produção. A prostituição, o uso de drogas lícitas e ilícitas, violência, abandono escolar e outros fatores estão fortemente presentes no cenário social do município. Tantas causas poderiam ser citadas para explicar tais fatos, porém, nesse texto, volto àquilo que foi apresentado no início, relacionando o emprego a auto-realização e independência para os jovens. Muitos fatores sociais como a violência, por exemplo, estão intimamente ligadas a questões de oportunidades, como o emprego ou seria o desemprego? Surgem também no município grandes lideranças no que diz respeito ao trabalho com as juventudes. Movimentos religiosos, partidos políticos, atividades sociais, projetos filantrópicos, ONG‟s e tantos outros mecanismos têm tomado força na cidade de Surubim devido às urgências sociais da atualidade. Grandes lideranças em atividades com jovens têm referenciado a cidade como potência e fonte na produção e atenção à juventude nordestina. Seu nome tem sido referenciado em articulações estaduais e nacionais quando a assunto é atendimento juvenil a partir de mecanismos não-governamentais, desenvolvidos pelas lideranças juvenis do município. A Pastoral da Juventude em grande escala é uma das principais responsáveis por esse sucesso. Seus 35
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Muitos índices de gravidez indesejada na líderes tem se tornado referências locais, estaduais e nacionais, adolescência e doenças sexualmente ocupando lugar de destaque no cenário social contemporâneo. transmissíveis, por exemplo, poderiam ser diminuídos com a Educação sexual promovida pela escola, segundo os educação promovida pela escola. alunos A função da educação não se reduz à transmissão formal de conhecimentos, sendo a escola um espaço público para a promoção da cidadania. O Estado democrático de direito assegura o reconhecimento da diversidade de valores morais e culturais em uma mesma sociedade, compreendida como heterogênea e comprometida com a justiça e a garantia universal dos direitos humanos e sociais. A vivência escolar permite a apresentação da realidade social em sua diversidade (LIONÇO; DINIZ, 2009, p.9). Podemos dizer que a diversidade social ocupa as escolas em dois sentidos: primeiro pela presença concreta de mulheres, negros, estrangeiros, deficientes, idosos, homossexuais, os quais freqüentam as instituições de ensino; e depois, pelo compromisso político que fundamenta a educação como um bem público, o que significa que a igualdade deve ser um valor fundamental ao ensino. De acordo com 63% dos/as alunos/as entrevistados/as, a escola fala “as vezes” sobre Orientação ou Educação Sexual. Esquecer que a sexualidade faz parte das preocupações dos/as jovens, assim como o emprego, é colocar esse discurso numa posição contrária aos quais os/as mesmos/as almejam (SANTOS, 2010). Que sentindo então fará a escola para o indivíduo se ele/a não conseguir associá-la ao “mundo lá fora”? Como vimos, os/as jovens buscam relacionamentos instantâneos, voláteis, passageiros, antes que firmem compromissos e relacionamento sério e assim “percam a juventude”. A escola nesse momento tem papel fundamental na condução desse processo, já que os/as mesmos/as estão construindo sua identidade a partir de suas experiências cotidianas. Muitos índices de gravidez indesejada na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis, por exemplo, poderiam ser 36
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar diminuídos com a educação promovida pela escola, não retirando a função dos pais nesse processo, mas acentuando a importância e o papel da escola permitindo ao/a aluno/a fazer escolhas e escolhas acertadas e conscientes. Na escola o debate sobre alguns temas, como o uso da camisinha proporciona uma sensação de que a mesma se preocupa com essas questões que fazem parte diretamente da vida dos/as jovens nos dias atuais. Muitos/as alunos/as se reclamam que o conteúdo o qual aprendem na escola nunca servirá na verdade para alguma coisa. Está na hora da escola começar a mudar essa idéia. Quem sabe começando a partir da educação para a sexualidade? Quando os/as jovens reclamam da falta de oportunidades de conversarem na escola sobre assuntos dessa natureza é porque sentem a necessidade “desse papo”, já que 57% dos/as entrevistados/as não costumam conversar com seus pais em casa, por motivos diversos e o mais citado é pelos pais serem “caretas”, “do tempo antigo”, ou até mesmo terem vergonha de falar “dessas coisas”. Poucos/as jovens disseram conversar com seus pais sobre temas relacionados a sexualidade. Algumas meninas disseram conversar apenas com a mãe, pois se sentiam mais a vontade para falar sobre esses “assuntos de mulheres”, comenta Kelly (17 anos), Clara (18 anos), Didinha (19 anos) e Duda (19 anos). Enquanto alguns meninos mostraram serem mais distantes com seus pais em relação à conversa, embora a figura do pai apareça como exemplo citado para os meninos. Se a escola pouco promove o debate sobre sexualidade aos/as jovens e os/as mesmos/as não dispõem dessas orientações no núcleo familiar, onde então encontram orientação sobre sua vida sexual? As respostas a essa pergunta surgem como um preenchimento a uma lacuna enorme: “conversamos com nossos amigos/as”. A essa afirmativa trago as palavras de Louro (2001, p. 9) quando diz que “a sexualidade era um assunto privado, alguma coisa da qual deveria falar apenas com alguém muito íntimo e, preferencialmente, de forma reservada”. Em parte, alguns/mas jovens mais arguciosos/as chegam até o/a professor/a, em grande regra, o/a de Biologia, e fazem algumas perguntas relacionadas normalmente ao funcionamento de alguns órgãos ou sua relação ao ato sexual, dificilmente resolvem “aconselhar-se” 37
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar com esses/as. O/A professor/a aparece aqui como uma pessoa que servirá para retirar minhas dúvidas, responder as minhas perguntas sobre sexo ou então a orientar quanto às doenças sexualmente transmissíveis. Mas se um costuma orientar o outro, mesmo tendo os/as dois/duas necessidade de orientação, como essa conversa funciona? Não é apenas informação que basta para o/a jovem, mas a qualidade dessas. Portanto, quando um adolescente ou jovem resolve conversar com os/as amigos/as em relação as suas dúvidas sobre sexo e/ou sexualidade, vale a pena levar em consideração em quais grupos essas conversas acontecem. Quando se observa os jovens fica claro a identificação do grupo de amigos/as que os/as mesmos/as têm como forma de discutir tudo a respeito da vida, inclusive sobre sua sexualidade. Nesses grupos, os/as jovens se sentem livres para discutirem sobre qualquer assunto; uma vez que esses grupos são formados por outros/as jovens com a mesma faixa etária e têm preferencialmente os mesmos gostos e estilo; e assim, provavelmente têm as mesmas dúvidas. Dessa forma, torna-se urgente a escola dispor de mecanismos de Educação Sexual – de/com/para – os/as jovens alunos/as. Preconceito na escola De modo geral, o preconceito está ligado àquilo que Donald Winnicott chamou de mecanismo primitivo, onde se projeta no/a outro/a aquilo que não se quer aceitar em si próprio. Dessa forma, o preconceito contra o/a homossexual, por exemplo, seria uma forma de repudiar o que de certa forma, pode está sendo encontrado interiormente no indivíduo, como sentimentos, pensamentos, possibilidades de relacionamentos, medos, vergonha etc. só que na pessoa do outro. Pode ser interpretado também com aquilo que Judith Butler (1999) chamou de “abjetos” que seriam aqueles que não se constituem como sujeitos, mas que se formam o exterior constitutivo relativamente ao domínio dos sujeitos. Como parece que não escolheríamos nascer de pele na cor negra, por exemplo, repudiamos quem a tem. Parece uma questão social bem definida e organizada para que todas as gerações sigam rigorosamente tais conceitos e atitudes. Parece-nos uma bobagem, mas prestemos atenção. Quais atores e/ou atrizes são convidados/as para fazerem comerciais de televisão, de propagandas de marcas famosas senão pessoas de pele branca, jovem, não- 38
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar deficiente e que se diz heterossexual? Será que isso é uma coincidência ou uma forma de organização social? Em raras exceções em que negros/as aparecem como os/as protagonistas de comerciais e propagandas famosas, e, em grande maioria sendo usados/as como produto do sexo, do corpo cobiçado, da “mulata gostosa” e do “negão viril”. Na escola não é diferente quando o assunto é preconceito, tanto daqueles/as que praticam quanto dos/as que sofrem preconceito. E como não fosse nenhuma surpresa, os maiores índices de preconceito estão entre o/a homossexual e o/a negro/a. Jovens que se dizem vítimas de preconceito e jovens que se definem preconceituosos/as caminham juntos/as pelos corredores da escola, sentam lado a lado na sala de aula, lancham juntos/as no pátio e sentem as mesmas dúvidas em relação à sexualidade. Essa bivalência é comum em espaços que aglomeram grande quantidade de pessoas. Alguns/mas jovens entrevistados/as demonstraram terem sido vítimas por serem homossexuais ou ao menos apresentarem alguma característica dita de homossexual. Do grande montante, apenas 9% se disse homossexual, sendo 7% homens e 2% mulheres. O incrível é que esses mesmos 9% do total falaram sofrer preconceito por colegas de turma e de outras turmas da escola. O que parece redundante é que em muitas falas apareceram ditos como “é muito baixo ter preconceito, eu não tenho preconceito” ou então, “tenho preconceito com quem tem preconceito”, mas será que essa verdade passa pela cabeça dos/as jovens como sendo o respeito total e livre ao espaço do outro? Sem cobranças, ou (re)formulações de valores pessoais, morais e religiosos particulares de uma pequena parcela da população e querendo assim impor ao grupo como um todo? O Jovem Hebert, 16 anos comenta sua opinião sobre a homossexualidade: “eu acho um negócio nojento, sem pé nem cabeça”. Quando a pergunta parte para como eles/as reagiriam se na sala de aula tivesse alguém que se assumisse como gay as manifestações foram diversas. “Eu acho que não existe ninguém assim nessa sala” (Nayde, 19 anos). Embora alguns demonstrassem em suas colocações parecer não terem preconceitos enquanto a orientação sexual do/a outro/a, o jovem Kleber, logo se manifesta para não deixar dúvidas a respeito de sua masculinidade e exclama: “eu sou macho, sou homem”. Aqui o discurso é sobre respeitar ou não a orientação sexual do outro. 39
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Estamos numa sociedade em que o discurso heteronormativo é a supremacia do convívio humano. Quem estiver fora desse padrão, deverá estar fora do Estamos numa sociedade em que o convívio social. Isso é aplicável não discurso heteronormativo é a apenas aos/as homossexuais, mas também supremacia do convívio humano. aos/as negros/as, mulheres, deficientes, Quem estiver fora desse padrão, deverá estar fora do convívio social. não-cristãos, etc. (LOURO, 2001). Isso é aplicável não apenas aos/as Quando a pergunta foi “qual seu homossexuais, mas também aos/as preconceito”? 17% dos meninos negros/as, mulheres, deficientes, responderam ter preconceito com não-cristãos, etc. homossexuais, 3% com negros/as e mais 3% com pobres. Nas meninas esses números se assemelham embora apresentassem ter preconceito apenas com homossexuais e gordos/as, sendo ambos 3%. A presença do preconceito com gordos/as nas mulheres aparece como forma de padrão da beleza imposta pela sociedade de consumo e o chamado universo da moda. As formas corporais ganham destaque no universo feminino como a silhueta, os quadris, o busto que precisam estar dentro dos padrões exigidos para se sentirem belas e atraentes. A pessoa “fora de forma”, muitas vezes é vista como irresponsável, descuidada, que não se ama e não ama o próprio corpo e por isso é excluída em algumas rodas de amigas. O padrão conta quando o assunto é se mostrar para o universo masculino. Segundo o jovem Kleber, “todas as mulheres são sensíveis”. Essa opinião conta muito no universo feminino, afinal são os olhares dos meninos que elas atraem. Nos meninos, mesmo não tendo sido levantada essa forma de preconceito com os/as gordos/as, também há uma preocupação com o corpo, a qual é determinante nos grupos. Exemplo disso são os rapazes que procuram anabolizantes para se tornarem mais musculosos e atraentes, e assim poder “pegar mais minas”. As práticas de musculação e a procura pelas academias estão também associadas às formas de agrupamentos juvenis. Um jovem não se sentirá bem num As práticas de grupo de amigos onde todos são musculosos e apenas ele tem musculação e a procura um corpo magrinho, franzino. Logo procurará freqüentar as pelas academias estão também associadas às mesmas academias e fazer os mesmos exercícios físicos para formas de agrupamentos ganhar músculos e ainda tomar anabolizantes. Se juvenis. acreditarmos que as drogas ilícitas, como a maconha, a 40
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar cocaína, podem ser usadas por influência dos amigos, essas práticas corpóreas também podem ser uma forma de sentir de igual pra igual dentro do grupo de iguais. Entre tantas coisas, as práticas de preconceito aparecem até na forma de se comunicar com o outro. Há jovens que têm medo de fazer algum comentário, pois podem ser interpretados mal e serem motivos de piadas para toda a sala. Foi o que aconteceu com o Kleber quando em sua dúvida a respeito do significado das palavras heterossexual e homossexual, a turma resolveu dizer que ele é homossexual. Por essas e tantas outras atitudes não só dentro do espaço escolar, mas no dia-a-dia dos/as jovens são assistidas práticas de preconceito e desrespeito às preferências ou experiências do/a outro/a. Na nossa sociedade a homossexualidade assume também, em alguns contextos, sinal de fraqueza humana e para algumas tradições, desvio da conduta e da moral. Na fala de um jovem percebemos como se confunde hoje em dia, tendências, desejos, identidade e práticas homossexuais: “o homem tá casado, tem suas relações com sua mulher, e por fraqueza acontece ato sexual com outro homem, isso quer dizer que ele não gosta mais de mulher?” (anônimo). Até que ponto nesse contexto, vemos o homem como “fraco” ou com atitudes impensadas? Em que momento o ato sexual diz respeito à conduta e moral aceitas na sociedade? O que influencia nessas questões? A curiosidade do/a jovem por entender esse “universo gay” mais uma vez reforça a teoria do mecanismo primitivo postulada por Winnicott, já citada anteriormente. O “pré-conceito” com o “diferente” é causado, em grande escala, pela falta de conhecimento do universo do/a outro/a. Jovens não compreendem a sexualidade como algo que é construído historicamente no ser humano e que para isso existem influências do meio que ele/a está inserido/a. Muitos/as de nós costumamos tratar da sexualidade como apenas o ato do sexo ou o prazer na penetração. Porém, o sexo está ligado à atividade sexual, enquanto sexualidade está relacionada ao dia-a-dia do ser humano, que sofre influência também do meio social. “As muitas formas de fazer-se mulher ou homem, as várias possibilidades de viver prazeres e desejos corporais são sempre sugeridas, anunciadas, promovidas socialmente” (LOURO, 2001.p. 9). 41
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Espaço de encontros e relacionamentos Em minha pesquisa, consegui identificar que dentro da escola costumam acontecer os jogos sexuais juvenis. O jogo da sedução. Meninos e meninas que se encontram todos os dias, de caderno na mão, fardamento escolar, tênis e mochila nas costas não se esquecem de usar adereços que os identifiquem no “mercado de estilo”. Brincos que se penduram na orelha, batons em tons fazendo menção aos tons de sombra, pulseiras, anéis, cintos e bolsas fazem parte do universo feminino de fazer sua “apresentação” na escola. Lá é o espaço propício para conhecer novas pessoas. Embora o discurso de ter feito Nos “marmanjos”, bonés da Nike, calças sexo ou não na escola pareça um pouco que mostram a cueca, tênis da “onda”, no pescoço preocupante, os jovens um cordão de prata, sempre andando com costumam se relacionar freqüentemente por movimentos de vai-e-vem nos braços com pernas “ficadas” no ambiente entreabertas, dando impressão de carregarem um escolar. enorme peso nos ombros. “Posição de macho”. Nesse mercado de estilo sobrevive quem estiver com a melhor performance. Quem “pegar” mais garota tem mais respeito dos outros. Os jovens, do sexo masculino, assumiram até já terem feito sexo dentro do espaço escolar. Em grande escala, 41% utilizam a própria sala de aula para encontros e “ficadas” na escola. Apenas 7% utilizam os corredores para os momentos de virilidade masculina. As mulheres, por sua vez, parecem serem mais acanhadas quanto a essas questões, nenhuma respondeu que já havia feito sexo dentro da escola, mas assumiram que usam a sala de aula, pátio e corredores para seus encontros imediatos, sendo 12%, 3% e 6% respectivamente. Embora o discurso de ter feito sexo ou não na escola pareça um pouco preocupante, os jovens costumam se relacionar freqüentemente por “ficadas” no ambiente escolar. Dos meninos entrevistados 34% afirmaram “ficar” sempre que possível com alguma menina na escola. Enquanto as meninas alegaram 18% usar a escola como local de encontro para o “relacionamento relâmpago”. 42
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Por em muitas culturas, a mulher ser mais reprimida, não poder sair de casa sozinha, ser mais controlada pelos pais é que a escola torna-se alvo certeiro das “ficadas” das meninas que em casa são “presas” por seus pais. Enquanto os jovens meninos podem usar a “night” para “caçar suas presas”. “Acho que quase todo mundo aqui já ficou na escola”, afirma Rayssa de 18 anos. Nessa hora toda a turma se manifesta. A professora parte para defender algumas alunas que ela julga não terem coragem de “fazer uma coisa dessas”. “Até você Josy?” pergunta a professora, logo alguém imediatamente dá uma resposta: “aqui na sala só a Josy mesmo, mas o resto todo mundo já ficou na escola” (Sandra, 18 anos). Senti curiosidade em saber por que toda a turma defendia a Josy como Por em muitas culturas, a mulher ser mais ser a única de não ter ficado com ninguém na escola. reprimida, não poder Logo me respondem: “Ela é muito na dela, quietinha, sair de casa sozinha, ser mais controlada é mais inteligente, não bagunça, só faz estudar...” pelos pais é que a (Rayssa). Nesse discurso aparece claramente a idéia escola torna-se alvo certeiro das “ficadas” de que associar estudos com sentimentos não “rola”. das meninas que em Há quem diga que o relacionamento atrapalha os casa são “presas” por estudos ou que os estudos atrapalham o seus pais. relacionamento. Nessa fala da jovem vimos claramente essa idéia ser defendida quando a mesma cita que a Josy “não bagunça, só faz estudar”. Ela (Josy, 18 anos) não teria tempo para “perder” com “ficadas” ou namoro, pelo menos não na escola, que seria lugar apenas de estudar, prestar atenção no/a professor/a e responder as atividades. Se quiser aprender alguma coisa para “ser alguém na vida”, deve mesmo é estudar e esquecer os “namoros”: “eu acho muito errado ficar escondido na escola. Na escola é lugar de aprender” (Valdete, 19 anos). 43
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar O que chama atenção é que os/as jovens não demonstram indiferenças por esses/as que já “ficaram” na escola, pelo contrário, os que não “ficam” na escola é que estão fora desse padrão, mas nem por isso deixam de participar das rodas de conversa entre os/as amigos/as. Há aqueles/as que estão sempre disponíveis quando aparece alguma oportunidade de encontros na escola: “quando aparece oportunidade eu fico...” (Hebert) ou então aqueles/as que começaram a “ficar” na escola: “eu já fiquei na escola. Aliás, comecei a ficar na escola” (Klarinha, 16 anos). O uso da sexualidade no espaço escolar no período da juventude pode ter uma explicação. Se for Na escola existe uma diversidade de pessoas, nessa fase que os hormônios começam a se o contato com o outro é desenvolver com mais potência seria também nessa constante, há uma tendência a sedução fase que os mesmos desejam ser expelidos. Afinal, na sexual tanto para as escola existe uma diversidade de pessoas, o contato meninas quanto para os meninos. com o outro é constante, há uma tendência a sedução sexual tanto para as meninas quanto para os meninos. É na escola que o/a jovem começa a fazer sua apresentação desde quando criança. Mostrar o corpo na aula de Educação Física é se preocupar em atrair os olhares das “presas”, que nesse caso serão os/as amigos/as que assistem encantadamente os jogos sensuais dos corpos jovens. O uso da camisinha Não quero aqui condenar ou defender o uso do preservativo, minha intenção é fazer uma colocação da realidade observada no cotidiano dos/as jovens que estão ainda inseridos/as no processo de educação formal. Certamente se tivesse entrevistado outro público jovem obteria respostas semelhantes em alguns contextos e excludentes noutros. Em minha pesquisa, detectei que a conversa sobre o uso de preservativo ainda perpassa questões de gênero, com preconceito em relação à mulher e de virilidade nos meninos. Mesmo os/as entrevistados/as conhecendo a importância do uso do preservativo, o número dos/as que portam e/ou usam camisinha ainda foi baixa naqueles/as que já iniciaram sua vida sexual. Cerca de 41% dos meninos entrevistados usam sempre camisinha em seus relacionamentos, 10% desses dizem usar, as vezes, e 3% disseram usar a camisinha apenas 44
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar quando a parceira pede. Ainda citando os rapazes 10% deles disseram levar camisinha também para escola. Se fizermos uma comparação dos números em relação ao uso e porte de camisinha pelos meninos e meninas iremos perceber a diferença. Das meninas entrevistadas apenas 21% disseram usar sempre a camisinha e apenas 6% usam sem tanta freqüência. Quanto a carregar a camisinha na bolsa, ou levá-la para escola 100% delas respondeu não carregarem para o espaço escolar, sendo apenas 3% delas que carregam a camisinha para outros lugares e/ou quando marcam encontros. É assim que, apesar de a camisinha ser vista como símbolo de virilidade para os jovens do sexo masculino, quando encontrada nas bolsas femininas é percebida como símbolo da não-confiabilidade da menina, ou, em outras palavras, como atestado de que a menina é “atirada”, “galinha”, “transa com todo mundo” e, portanto, não é uma menina confiável, “de família” (KNAUTH; GONÇALVES, 2006, p. 102). Para os/as jovens é necessário e importante o uso da camisinha quando vai ter relações com seu parceiro/a. “O certo é usar a camisinha, evita doenças, gravidez indesejada...” (Klarinha). Os/As jovens demonstraram preocupação quanto a saúde, o bem estar, e a vida futura quando falam que a camisinha evita algumas situações indesejadas pela pessoa. O discurso com a preocupação com o corpo é sinônimo daquilo que chamei antes de “ritual de culto ao corpo5”. Mas não é só com o corpo que os/as jovens se preocupam, é também com aquilo que as outras pessoas dirão de suas atitudes. “O certo é o homem carregar a camisinha e não a mulher” (Valdete); “mulher com camisinha é mulher safada” (Kati, 17 anos). O discurso parte mais uma vez para dizer que portar camisinha não é coisa de mulher. “O homem que se preocupe. É dever dele”. Esses comentários transitam facilmente pelas falas femininas. Esse preconceito com elas próprias é causa de uma “conquista” geracional onde posiciona a mulher em lugar de sexo inferior e o homem na posição de Ser dominante e superior. Ainda, em contraponto a essa idéia existe quem acredite na desconstrução dessa filosofia e prática social. Algumas garotas e até garotos aceitam e concordam que mulheres também devem levar camisinha em sua bolsa, embora os sentimentos divergissem quando o assunto foi “o que os meninos achariam se encontrasse na bolsa de alguma mulher uma camisinha?”. São perguntas e questionamentos 5 Termo encontrado no capítulo sobre Corpo e sexualidade, o jovem em questão, no sub-tema: os jovens e a moda. 45
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar que necessitariam de um tempo pra pensar e refletir e para alguns como foi citado “só sei responder se já tivesse passado por isso” (Joaci, 16 anos), pois se torna algo delicado e depende muito da “mulher” em questão. Alguns meninos demonstraram que se encontrassem na bolsa de suas namoradas pensariam que ela está com desejo de fazer sexo, outros, poucos, disseram que ela se cuida e quando o assunto é a própria irmã, ninguém responde. Afinal, até que ponto a camisinha no universo jovem vem a ser uma questão de cuidado, de preservação, de respeito ao/a outro/a? Até que ponto vem a ser questão de promiscuidade e “safadeza”? Qual discurso costuma ser proferido pelos/as alunos/as? O que se percebe claramente é que os/as jovens estão preocupados mesmo é com viver sua vida de forma intensa. Experimentar o novo, descobrir hipóteses, quebrar tabus e desbravar caminhos. A preocupação com o que dizem ou pensam sobre eles/as é apenas mais uma etapa que conseguem superar aos poucos acertando e errando no longo percurso de suas vidas. Afinal, o que de verdade é correto ou errado? Dessa forma, para as meninas o uso do preservativo é quase que uma imposição do parceiro. Se o jovem não portar a camisinha em sua carteira, a menina está à mercê de seus desejos. Se ela, porém, carregar em sua bolsa pode ser interpretada de forma errada. Está de qualquer forma, a mulher, sob a decisão masculina, em linhas gerais, quanto ao uso da camisinha? A Virgindade em questão “Acho que nessa sala foram os meninos que iniciaram mais cedo sua vida sexual. As meninas têm mais receio por causa da sociedade. As mulheres têm que ter um voto de castidade” (Kelly, 17 anos); “eu discordo da Kelly, agora está mais aberto para as mulheres terem relações” (Kíria, 17 anos); “o homem começa sua vida sexual primeiro, começa a se masturbar primeiro. Os pais incentivam o menino a iniciar sua vida sexual e as meninas não” (Hebert). O discurso de o homem ou a mulher iniciarem sua vida sexual primeiro nas falas dos/as jovens nos dá uma idéia de questões socialmente construídas. Como já foi mencionado anteriormente, a mulher é vista como um ser inferior ao homem. Ela não pode gozar das mesmas coisas que um homem, do contrário ela será chamada de “galinha” e “atirada”. Tratar 46
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar do assunto sobre virgindade é deslocar o chavão de que o homem quanto mais “pegar mulher” é que se torna homem, para uma discussão acerca dessas idéias no cotidiano dos/as milhares de jovens do nosso país. O preconceito na sociedade é uma questão muito discutida pelas jovens meninas ao falarem do inicio de sua vida sexual: “o homem é mais liberal, tem mais liberdade. A sociedade não tem preconceito com eles, para as mulheres o povo diz logo, olha ela... já deu...” (Rayssa, 18 anos); “quando o homem tem duas namoradas o povo fala que ele é garanhão e se for à mulher, dizem que ela é rapariga” (Glau, 19 anos). A pauta nessa conversa é como são analisadas as atitudes femininas em relação a sua sexualidade. Para a mulher fica proibido terem mais de um parceiro sexual, ou “ficar” com diversos garotos numa mesma festa. Segundo Louro (2001) nossos sentidos são treinados para identificar e decodificar essas marcas, para que possamos “classificar os sujeitos pelas formas como eles se apresentam corporalmente, pelos comportamentos e gestos que empregam e pelas várias formas com que se expressam” (p. 15). Mesmo diante de todas as acusações de má conduta da mulher, as jovens se mostraram objetivas quanto ao seu desejo de perderem a virgindade. “Eu queria. Perdi a virgindade com meu namorado, ele disse que também era virgem. Foi uma decisão dos dois...” (Didinha, 19 anos); “eu conheci uma menina que queria perder a virgindade, mas com alguém que fosse virgem também” (Herbert). As meninas aparecem aqui assumindo sua condição. Não têm medo de assumir que não são mais virgens e nem por qual motivo decidiram perder a virgindade. Os garotos demonstraram aceitar que as meninas também tivessem já iniciado sua vida sexual. A Didinha fazia questão de repetir várias vezes: “foi uma escolha minha”. As meninas também optam por terem uma vida sexual ativa, não em comparação com os meninos, ou em contraposição, mas por fazerem parte de um todo na sociedade. Elas também sentem desejos, têm necessidades. Elas também amam, sentem prazer, se masturbam e esperam por uma relação duradoura e verdadeira. Existem também os tabus em relação à prática da sexualidade feminina. Mulheres se masturbam? Sentem orgasmo? Podem transar antes do casamento?... Essas e outras indagações fazem parte do estereótipo social em que para a mulher ficam proibidas algumas práticas sexuais e para o homem é “natural” que as experimente e de forma “desenfreada”. Quando um/a jovem pergunta “porque a mulher demora chegar ao orgasmo e o homem 47
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar não?” mostra a imagem que se faz da mulher, não biologicamente, mas socialmente, que ela é um sexo frágil, desprotegido, talvez incomum, quando o assunto é sexualidade. O motivo de a mulher demorar ou não sentir orgasmo, está na visão da sociedade, e aqui na dos/as jovens, dela ser mais sentimental, sensível, apaixonada, dar mais valor ao romantismo, do que os homens. A imagem que se criou da mulher é que a mesma é mais reservada que o homem, não apenas no tocante a sexualidade, mas a tantos outros. Espera-se que a mulher seja mais compreensiva que o homem, mais romântica, verdadeira e se comprometa mais com o/a seu/sua parceiro/a sexual. A utilização de revistas, vídeos, imagens e sites pornôs, estão associados ao homem/macho, como sexo rude, sem vergonha. Essa prática na mulher é percebida, muitas vezes, como promiscuidade. “Porque o homem tem meios como revistas de mulher pelada, vídeos de sexo e etc. e tem e sente prazer vendo eles e as mulheres não sentem tanto prazer os vendo?” (O Connel, 17 anos). A afirmação desse jovem nos mostra muito bem essa análise em que para homens essas práticas são comuns enquanto na mulher é algo socialmente não tão aceito. Mesmo assim, as mulheres nesse trabalho aparecem muito autênticas, autônomas e independentes. Não se recusam a responder a nenhum tipo de pergunta. Então, resolvi direcionar o debate para um assunto mais íntimo e pessoal, para ver se realmente o discurso feminino continuaria sobressaindo o masculino. Perguntei com quantos anos haviam iniciado sua vida sexual, imediatamente algumas meninas logo me responderam: “com 17 anos” (Rosy, 19 anos); “com 16 anos” (Didinha, 19 anos); “com 14 anos” (Rayssa, 18 anos) e “com 15 anos” (Duda, 17 anos). Nesse discurso não significa dizer que os meninos não aparecem e omitem suas respostas. Eles também resolvem responder e respondem com a mesma precisão das meninas: “com 15 anos” (Kleber); “com 14 anos” (Hebert e Roberto) e “com 13 anos” (Eduardo e Paulo). Reparemos que meninos e meninas iniciam sua vida sexual numa mesma faixa etária. A diferença que em décadas atrás era possível classificar entre atividade sexual masculina e feminina, hoje aparecem tão próximas que sua classificação depende da identificação de sexo. Homens e mulheres costumam iniciar sua vida sexual na faixa de 14 anos de idade. Nesse período de vida chamado pela teoria dos estágios psicossociais de Erikson6 6 Erik Erikson – psicanalista (1902 – 1994). Artista plástico. Foi paciente de Anna Freud. Postulou oito estágios (dilema) psicossociais do desenvolvimento humano: Confiança x Desconfiança (0-1); Autonomia x Vergonha, dúvida (2-3); Iniciativa x culpa (4-5); Produtividade x Inferioridade (6-12); Identidade x Confusão de 48
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar de identidade versus confusão de papéis onde o indivíduo busca adaptar o senso de self 7 a mudanças físicas da puberdade, fazer a escolha profissional, adquirir uma identidade sexual adulta e buscar novos valores. Podemos conceituar a identidade sexual como aquilo que permite as filiações; o campo profissional como sendo o sujeito ativo, produtivo dentro de seu grupo social; o de independente como a marca que deixo no mundo e de ideológica como a atitude de saber posicionar-se. Identidade: define aqui o EU SOU. Sentimento de quem se é verdadeiramente. Segurança. Buscamos uma identidade para termos o sentimento de estabilidade, de não vulnerabilidade. Queremos contar histórias a respeito de nós mesmos. Esses dados parecem indicar que, embora haja uma tendência de homens e mulheres terem sua primeira relação sexual em idades próximas, ainda existe certa pressão social para que os garotos se iniciem sexualmente mais cedo. Quando o assunto parte para a virilidade feminina e/ou masculina as precisões nos números e nas respostas começam a mudar. Pois meninos, na sociedade machista devem mesmo é “pegar” todas que poder. Quanto mais meninas eles ficarem, mais respeito no grupo de amigos terá. O contrário Podemos conceituar a identidade sexual como aquilo que permite para as meninas. Elas não as filiações; o campo profissional como sendo o sujeito ativo, devem assumir que já produtivo dentro de seu grupo social; o de independente como a marca que deixo no mundo e de ideológica como a atitude de ficaram com vários saber posicionar-se. meninos ou então que já fizeram sexo com um número alto de garotos, isso seria motivo para serem chamadas de “galinha”, “trepa com todo mundo”, “infiéis”, etc. essas certamente na visão dos garotos não servem para casar, apenas para “usar” e depois “jogar fora”. “Porque quando a mulher tem um namoro sério e transa com ele e depois de um tempo acaba e quando começa o namoro com outro e chega a hora da relação e ele descobre que ela não é mais virgem ele chama ela de safada?” (anônimo) “Eu só fiz sexo com um menino, meu namorado” (Didinha); “eu casei virgem, tinha 17 anos” (Rosy); “perdi a conta de quantas garotas eu já fiz sexo” (Roberto); “eu só fiz sexo com um menino também” (Rayssa); “não quero dizer com quantas eu fiz sexo” (Kleber). papéis (13-18); Intimidade x Isolamento (19-25); Generatividade x Estagnação (26-40); Integridade do ego x Desespero (41+). 7 Termo que pode ser encontrado no capítulo Corpo e sexualidade, o jovem em questão. 49
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Segundo Goldenberg (2006) existem duas teorias que podem explicar a imprecisão das respostas masculinas em relação à quantidade de parceiras sexuais que já tiveram. Uma das hipóteses é que eles acreditam que seu número de parceiras é tão reduzido que preferem declarar algo impressivo. Uma segunda hipótese seria a de que realmente eles não se lembrem de todas as parceiras, confirmando a idéia de que homens mais que mulheres tendem a dissociar sexo de afeto. Existe aqui uma forte oposição de papéis entre meninos e meninas. Enquanto os jovens do sexo masculino são “forçados” a serem “homens de verdade” e viverem sua virilidade com inúmeras parceiras às jovens é reservado à condição de se darem ao respeito do contrário serão acusadas de “putas” ou “vagabundas” por terem tido mais parceiros que a “média”. Existem aqueles/as é claro que se sentem bem em serem virgens. Existem aqueles/as que desejam casar virgens. Discurso contrário ao imposto pela sociedade do corpo que prega a valorização do sexo como forma de se auto-conhecer e como a satisfação do outro. Vemos esse desejo de uma vida “pura” bem clara nas falas desses/as jovens: “Eu me sinto privilegiada por ser pura. Meus amigos não acreditam que eu sou virgem porque tenho 19 anos, eles dizem que não sou mais virgem” (Duda², 19 anos); “quero encontrar uma mulher e casar com ela ainda virgem. Antes eu tinha vergonha de dizer que era virgem ainda e mentia pra me sentir grande, mas hoje não tenho mais vergonha” (Berg). É claro que nesses discursos o que está por trás são muitas vezes concepções religiosas e morais. Como a família encara tais assuntos influencia diretamente nas concepções dos/as jovens. A igreja, nesse discurso tem papel fundamental em sua elaboração. Duda² é evangélica de uma congregação conservadora, rígida, que tem seus valores morais repassados como dogma que deve ser respeitado. A religião do Jovem Berg não foi colocada em pauta, mas o que se percebe são concepções familiares que resultam nesse seu desejo. A conservação da “pureza” de seus desejos, ainda de acordo com os conceitos familiares construídos, se dá certamente pela vivência da religião de seus antepassados. Na escola ele se relaciona muito mais com as amigas que com os amigos. Seria então esse motivo pelo qual seu objetivo é casar virgem, por entender e estar mais próximo do universo feminino? 50
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Tudo indica que para os/as jovens é melhor ser homem do que ser mulher. Isso confirma outra pesquisa realizada pela pesquisadora Mirian Goldenberg8. Quando pergunto “o que mais invejam em um homem?”, grande parte das meninas respondeu “liberdade”. “Invejo a liberdade, meu “Invejo a liberdade, meu irmão mais novo que irmão mais novo que eu eu pode sair pra qualquer festa sozinho e pode sair pra qualquer eu não posso sair sozinha” (Kíria, 17 anos); festa sozinho e eu não “acho que todas as meninas invejam a mesma posso sair sozinha” (Kíria, coisa que Valkíria disse” (Kelly, 17 anos); 17 anos) “eles podem se divertir mais, tem os melhores empregos...” (Nilda, 17 anos); “... eu não concordo com isso, acho que direitos são iguais independente do sexo” (Klarinha, 16 anos). Já em grande maioria dos homens pesquisados disseram não invejar nada nas mulheres. O único que respondeu sentir inveja está relacionado às questões sexuais: “invejo a demora que elas têm para gozar. Porque elas demoram mais do que o homem” e acrescenta “o homem é tão superior a mulher que não precisa nada dela” (Hebert). As meninas afirmam que “todo homem é”, mentiroso, safado, machista, sem vergonha, sem sentimento, infiel e sem medo. Os meninos dizem que “toda mulher é”, sensível, ciumenta, companheira, forte, amiga e mãe. Sexualidade e Religião Muitas são as orientações que as diversas religiões dão a respeito da vivência da sexualidade de seus adeptos. Cada religião, cristã ou não, detém uma catequese a respeito das práticas sexuais e de questões polêmicas como a camisinha, sexo fora do casamento, aborto, homossexualidade, fertilização in vitro e outras questões. O que abordarei nesse item é como os/as jovens encaram essas temáticas mesmo estando inseridos numa religião; como os/as mesmos/as produzem o seu discurso, influenciados ou não, pelo discurso religioso e se a religião influencia em suas decisões a respeito da sexualidade. 8 Mirian Goldenberg pesquisou o discurso sobre o sexo e as diferenças de gênero na juventude carioca. Essa pesquisa encontra-se disponível em: ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de & EUGENIO, Fernanda(org). Culturas jovens: novos mapas do afeto. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2006. 51
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Farei um passeio por algumas religiões citadas no trabalho da Carina Rabelo: A Juventude e as Religiões Minoritárias9 (2006), focando o que as doutrinas dizem a respeito do tema e o que os/as jovens dizem a esse respeito. Citarei também uma pesquisa feita na web sobre a Igreja Cristã Contemporânea que fala em relação à presença dos homossexuais dentro do espaço religioso. Segundo a autora, no Islamismo os adeptos não namoram. Quando começa o relacionamento parte-se logo para o casamento. Cita também que a fé islâmica exige disciplina, moderação na conduta, respeito às instituições e as pessoas, retidão ética e rigor moral, mas isso não quer dizer que exista distanciamento dos jovens na religião, pelo contrário, “a forma rigorosa que com que o islamismo se apresenta acaba sendo um forte atrativo aos jovens” (Edebrande Cavalieri)10. No Candomblé, a autora comenta que apesar das obrigações os adeptos têm muita liberdade e acolhem as pessoas de outras religiões que tenham curiosidade em freqüentar os terreiros. A mesma comenta que não existe “pré-conceito” quanto à orientação sexual e o que atrai a juventude é a idéia do respeito e a liberdade encontrando no Candomblé orientação espiritual e festividades. Tratando do Espiritismo “a juventude tem sido atraída pelo caráter científico da explicação dos fenômenos da vida e pela prática de trabalhos sociais promovidos nos centros” (Emerson Giumbelli)11. Segundo a autora o espiritismo não apresenta sacerdócio ou hierarquia e não há ritos e sacramentos, em si não possui dogmas, e deixa o processo de crescimento interior, moral e intelectual, na dependência e no ritmo de cada um/a. Essas três visões religiosas, tidas no Brasil e nessa pesquisa, como religiões minoritárias nos remete a um pensamento de qual discurso é produzido nas doutrinas das diferentes religiões existentes no território brasileiro. Percebe-se que o que atrai os/as jovens em cada uma dessas religiões citadas em essência não difere muito uma da outra. Mesmo o islã sendo tão rígida em sua disciplina o que se observa é que os/as jovens buscam um equilíbrio em suas práticas, tanto sexuais quanto sociais. O que se observa no candomblé e no espiritismo é que a busca pela liberdade não significa dizer fazer tudo a qualquer tempo, sem regras ou preocupações. É poder ter espaço de escolhas e saber que essas mesmas têm conseqüências, mas elas devem ser responsabilidades de quem as decide. 9 Trabalho de pesquisa feito na cidade de Salvador/BA publicado na revista Religare em 06 de dezembro de 2006. 10 Edebrande Cavalieri – filósofo e especialista em femenologia da religião. 11 Emerson Giumbelli – antropólogo e especialista em espiritismo. 52
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar E se falando de religiões tradicionais como o Existe mesmo Cristianismo, a Igreja Católica orienta seus fiéis numa prática uma prática efetiva daquilo sexual com algumas restrições e privações. “Um caso exemplar que se prega nas encontra-se nos discursos sobre moral e práticas reprodutivas doutrinas e do proferidos pelo líder mundial do catolicismo durante sua recente dia-a-dia dos milhares de visita ao Brasil” (RODRIGUES, 2007, p. 73). “[...] o Papa jovens Bento XVI, em visita ao Brasil em 2007, reafirmou sua posição espalhados pelo Brasil? contra o uso de contraceptivos e cobrou dos governos que este tema não fosse tratado nas salas de aula” 12. “há aqueles que Citando a Igreja Cristã Contemporânea, sua doutrina mesmo optando fala a respeito da sexualidade de seus convertidos como por uma orientação livre e abençoada por Deus. Muitos/as jovens nessa determinada religião não igreja falam de seu (re)encontro com Deus independente de sua adotam o orientação sexual. Dizem que foram aceitos/as mesmo sendo sistema completo” homossexuais e outros/as encontraram seus parceiros/as dentro da igreja. Os líderes religiosos dessa instituição são um casal de pastores homossexuais que em sua doutrina falam que a Bíblia não condena a homossexualidade. Mesmo com esta afirmação, dizem não pretender receber o rótulo de “igreja gay” ou de um ministério direcionado apenas à comunidade LGBT13, muito embora não neguem um real compromisso em “levar o amor de Deus” a estes, já que são tão rejeitados pelas outras igrejas14. O passeio por essas visões religiosas é para, antes de tudo, compreender como se dá a acolhida das questões referentes à sexualidade no campo religioso brasileiro. O que vale ressaltar é se existe mesmo uma prática efetiva daquilo que se prega nas doutrinas e do dia-a-dia dos/as milhares de jovens espalhados pelo Brasil. O que vemos claramente em pesquisas realizadas no Brasil é que as práticas dos adeptos não estão totalmente dentro daquilo que é esperado pelas doutrinas. 12 Caderno sobre Sexualidade. 1ª Conferência Nacional de Juventude. CONJUVE. 13 LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais. 14 Esse texto foi pesquisado no site da Igreja Cristã Contemporânea, disponível em: www.igrejacontemporanea.com.br , acesso em 18 de Set. de 2010. 53
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Segundo Solange Rodrigues (2007, p 69) “há aqueles que mesmo optando por uma determinada religião não adotam o sistema completo”, isso quer dizer que cada vez mais as pessoas aderem àquilo que naquela determinada religião ela “necessite”. O que se pode observar é que a pessoa começa a estabelecer uma “negociação” com o corpus doutrinário da religião que escolheu. Um verdadeiro “Shopping Center da fé”. Entre os/as entrevistados/as na pesquisa Religião e Crenças15 os/as católicos/as e evangélicos/as disseram acreditar em Deus, Jesus Cristo, Espírito Santo, anjos, Virgem Maria, espíritos, demônios, reencarnação e Orixás. Ainda, 10% dos/as católicos/as praticantes disseram não acreditarem na Virgem Maria (NOVAES; MELLO, 2002). “[...] mesmo optando por uma determinada religião, estabelecem negociações próprias com o conjunto de concepções e práticas requeridas dos adeptos, ou seja, não adotam o sistema completo de olhos fechados” (RODRIGUES, 2007, p. 69). O que podemos analisar é como os jovens de minha pesquisa convivem com a teoria versus prática entre o discurso das privações da sexualidade dentro do campo religioso e seu cotidiano. Vale trazer de volta o discurso da jovem Duda², 19 anos, evangélica sobre o que pensa em relação à virgindade: “eu me sinto privilegiada por ser pura. Meus amigos não acreditam que eu sou virgem porque tenho 19 anos, eles dizem que não sou mais virgem”. Na mesma conversa que tive com a jovem ela fala em sua relação com os pais: “eu posso levar dez, onze homens para dentro de casa e meus pais não ligam. Para minha mãe o que importa é não deixar filho para ela criar, mas o resto posso fazer o que quiser”, comenta. Essa jovem mesmo imersa e regida por um campo moral de uma religião tradicional e conservadora tem sua vida sexual “liberada” pelos pais que “não ligam” com o que a jovem venha a fazer. Não é estranho, se comparado aos dados da pesquisa que revela mesmo os evangélicos pentecostais em um percentual de 24,8% acreditarem na Virgem Maria e 15% acreditarem em Orixás (NOVAES; MELLO, 2002). Cada vez mais, doutrina e prática se (re)configuram na vida dos adeptos das religiões. Se citarmos mais uma vez, como exemplo, a opinião da Igreja Católica em relação ao uso da camisinha também vamos perceber a “negociação” entre a obrigação doutrinária e a 15 Pesquisa realizada pelo ISER. 54
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar prática social. Na pesquisa tanto meninos quanto meninas, em alto grau de adesão, disseram usar ou aceitar o uso da camisinha. Esses/as mesmos/as se disseram, em grande maioria, que eram católicos, isso significa que esses/as jovens não vivem na íntegra a sua religião professa. Em que momento a religião influencia, contribui ou dificulta as práticas da sexualidade dos/as jovens na sociedade e até que ponto esses/as jovens leva em consideração as orientações de suas igrejas? O que se percebe mesmo é que eles/as não estão tão preocupados com algumas questões ou orientações dos líderes religiosos, estão querendo mesmo é experimentar e viver suas vidas, da forma como acharem correto. A religião aqui é colocada como buscas de si através do sagrado, confirmando ainda o que foi citado acima, quando os adeptos a sistemas religiosos não aderem a toda a estrutura, se mantendo fixo àquilo que lhe convém, mesclando muitas vezes a sistemas religiosos diferentes. Vivendo o que os autores chamam de sincretismo religioso. Se trouxer a fala da jovem Didinha (19 anos) mais uma vez, iremos perceber uma prática contrária daquilo que se prega em diversos sistemas religiosos, o sexo apenas depois do casamento. “Eu queria, perdi a virgindade com meu namorado, ele disse que também era virgem. Foi uma decisão dos dois...”. O que já vimos até aqui em diversos contextos dessa pesquisa já era suficiente para explicar essa fala, porém irei pedir licença para fazer mais um comentário a esse respeito. Para quem as religiões estão pregando? Qual público está sendo alvo das doutrinas? O que os adeptos têm acolhido dessas religiões tradicionais e/ou neo- pentecostais? Onde estão as práticas de acordo com as orientações religiosas? Será que as religiões estão ficando cada dia mais em declínio de influência com seus adeptos ou será que elas estão distantes socialmente das “novas” necessidades dos indivíduos na atualidade? Em que momento existe a vivência integral das doutrinas no nosso cenário religioso brasileiro? Percebemos aqui que estão distantes as doutrinas das “realidades” juvenis na contemporaneidade. A sexualidade como tabu nas igrejas tradicionais tem feito milhares de jovens recusarem essas doutrinas ou pelo menos algumas orientações. Como já existe pouca adesão a um único sistema religioso, os/as jovens buscam nas religiões algo que possam preencher vazios. Para isso, muitas vezes, existe uma prática mista de religiosidades. Há quem no sábado a noite vá a missa, no domingo procure uma mãe ou pai de santo para consultar os Orixás, na quinta-feira a tarde vai ao culto de adoração, na sexta-feira ao Centro Espírita para tomar um passe. Significa dizer que uma só religião não tem suprido todas as necessidades integrais dos indivíduos. Aquilo que não se encontra numa, certamente estará em outra. Talvez não apenas porque elas sejam incompletas, mas, certamente, porque o ser humano, e 55
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar especialmente os/as jovens, são complexos, diferentes uns/umas dos/as outros/as, cheios/as de desejos diferentes, geneticamente únicos/as, socialmente diferentes, etc. Dizer então, que a religião está presente na vida dos/as milhares de jovens do nosso Brasil, é dizer também, que em certo momento de suas vidas, elas representam a busca apenas pelo sagrado e sua chegada nele mesmo existindo uma presença muito forte no Brasil das religiões tradicionais as mesmas pouco influenciam na sua experimentação da sexualidade. Olhar para essa experimentação dentro do espaço escolar a partir da religiosidade dos/as jovens é também estar atento/a para suas expressões culturais e políticas, visto que como citado anteriormente, nossa identidade sexual é sugerida/promovida socialmente sofrendo influências além dos estratos etários, econômicos, geográficos, históricos, familiares e também religiosos. Dessa forma, olhar para a religiosidade do sujeito jovem é perceber que nela também se influencia suas formas de experimentação da sexualidade, embora não seja ela [a religião] que, isolada, a determine. Educando corpos, produzindo a sexualidade Esse artigo visa analisar, de forma geral, como a escola determina a sexualidade dos/as seus alunos/as como forma de produzir a sexualidade “normal” e o discurso e prática heteronormativa, já citada anteriormente neste trabalho. Minha intenção não será a de colocar a escola como a única a produzir uma determinação da utilização da sexualidade do sujeito, mas verificar como a mesma contribui para esse fenômeno. Para esse diálogo trarei dois exemplos de como a escola consegue influenciar nas práticas sexuais e vivência da sexualidade de crianças, jovens e adultos que nela estão inseridos/as. Os exemplos citados são de Phillip R. D. Corrigan e de Guacira Lopes que estão no livro O Corpo Educado: pedagogias da sexualidade de Guacira Lopes Louro, já utilizado em outros contextos desse trabalho. As histórias se assemelham no tocante em como a escola contribuiu para o quesito – sexualidade – na vida dos/as citados/as. “O primeiro dia ficou impresso com horror para o resto da minha vida” diz Corrigan. A “produção do menino” era um projeto amplo, audacioso, integral, que se desdobrava em 56
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar situações diversas que objetivavam uma determinada forma de masculinidade. Masculinidade essa dura, forte, alimentada no esporte, competição e, parecendo mentira, numa violência consentida. Segundo Corrigan apud Louro (2001, p. 18-19) “os corpos „são ensinados, disciplinados, medidos, avaliados, examinados, aprovados (ou não), categorizados, magoados, coagidos, consentidos...‟” Enquanto que na experiência de Guacira os métodos usados eram para produzir uma personalidade dócil, frágil, discreta, capaz de pedir licença e ser gentil, na experiência do Corrigan a produção de sua sexualidade era algo duro, másculo, competitivo. Tanto Guacira como Corrigan receberam ensinamentos sobre as ciências, as letras, as artes, etc. que deveriam dominar para poderem sobreviver na sociedade. O que marca esses ensinamentos são as sutis e profundas imposições físicas na transmissão dessas habilidades. Jovens escolarizados aprendem a suportar o cansaço e a prestar atenção ao que professores e professoras dizem; a utilizar códigos para debater, persuadir, vencer; a empregar os gestos e os comportamentos adequados e distintivos dessas instituições. “Os propósitos desses investimentos escolares eram a produção de um homem e de uma mulher „civilizados‟, capazes de viver em coerência e adequação nas sociedades (...)” (LOURO, 2001, p. 18). Existem alguns critérios e referências para discernir e caracterizar o quanto cada menino e menina, cada adolescente e jovem estão se aproximando ou se afastando da “norma” desejada pela sociedade. Como diz Louro (idem) possivelmente deve ser por isso que as marcas que guardamos da escola não se referem aos conteúdos didáticos que elas podem nos ter apresentado, mas as situações do dia-a-dia, às relações comuns e/ou extraordinárias que vivemos ao longo da jornada escolar com os/as colegas, professores e professoras. A escola, constantemente insere uma prática com a intenção de distanciar ou adiar, a todo preço, a atenção dos/as alunos a sexualidade. O que a autora chama de “dessexualização”. Existe, é claro, uma intenção das escolas privarem por sua “imagem” e “tradição” e dessa forma intensificam em seus/suas alunos/as essa obrigação. O uniforme aparece em muitas épocas (e ainda hoje) como a própria imagem da escola e cabe ao/a aluno/a preservar 57
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar As expressões físicas de essa imagem enquanto estiver trajando esse uniforme. amizade e de afeto entre homens são Recai sobre ele/a a obrigação de “cuidar” da imagem controladas, quase da escola e não tão raro, repressões por parte dos/as impedidas, em muitas situações sociais, e as professores/as aos alunos e alunas quando fora do manifestações de afeto e espaço escolar, de porte do uniforme, são carinho entre eles são quase “proibidas” repreendidos quanto aos seus comportamentos e intenções afetivas. Noutro contexto, enquanto para os meninos existe a cobrança de que ele precisa ser macho, forte, viril, participar dos times da escola, representar a instituição nos campeonatos, para as meninas fica a obrigação de representar a ética, a responsabilidade, a competência e a disciplina da instituição. Nesse contexto é claro, existem as “frustrações” do sujeito. Alguns meninos como meninas não conseguem atender a essas exigências das escolas. Em depoimento a uma entrevista um homem respondeu que investiu no intelectual, pois como sua escola investia muito no esporte, e ele se caracterizava como “miúdo”, “frágil” e inadequado para o esporte resolveu investir no campo “intelectual”, pois ali estava sua oportunidade de vencer e ser o melhor. Ainda citando as diferenças de gênero nos espaços escolares trazendo como outro exemplo a utilização dos banheiros entre os meninos e meninas na escola, mostraremos como existem diferenciações entre o que é “coisa de homem” e o que é “coisa de mulher”. Não precisa ir muito longe para perceber que “as expressões físicas de amizade e de afeto entre homens são controladas, quase impedidas, em muitas situações sociais” e as manifestações de afeto e carinho entre eles são quase “proibidas” (LOURO, 2001, p. 27). Nesse momento entra em discussão a homofobia como forma de “obstáculo à expressão de intimidade entre homens” (idem). O que não se pode é exceder nos gestos e comportamentos autorizados aos machos. Como diz Louro (ibidem) que mesmo a homofobia seja clara e notória em nossas sociedades, ainda não impede que meninos constituam agregação em grupos extremamente fechados e os vivam de forma intensa. Times de futebol, pescarias, rodas de chope ou jogos de cartas e bilhar, etc. constituem em grupos estritamente masculinos nos quais a presença de mulheres é terminantemente proibida. Nesses agrupamentos, muitas vezes, existem situações que permitem que os corpos possam ser comparados, tocados, admirados, de formas “justificadas”. Nos banheiros das escolas, desde cedo, os garotos aprendem a conviver com a nudez coletiva. Certamente neste momento há também a intensificação da disputa pela 58
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar virilidade masculina, com as práticas da comparação do tamanho do pênis, como citado anteriormente nesse trabalho, por exemplo. O mesmo não acontece com as garotas, mesmo sendo perceptível que a nudez entre elas seja mais comum, porém nos banheiros escolares e clubes, ainda prevê, nos setores de uso feminino, cabines ou biombos para garantir a sua privacidade. Se citarmos a utilização dos espelhos nesses espaços, teremos visivelmente, embora essa situação já tenha mudado um pouco, que nos banheiros de uso masculino não existe, ou pouco existe, espelhos enquanto que nos banheiros femininos o espelho é um objeto obrigatório, como se fosse proibido para os rapazes a preocupação e o cuidado com a aparência, como que isso fosse coisa de “mulherzinha” e para as garotas o cuidado com sua aparência fosse obrigatória, pois do contrário seriam vistas como “duronas”, descuidadas. “Consentida e ensinada na escola, a homofobia expressa-se pelo desprezo, pelo afastamento, pela imposição do ridículo. Como se a homossexualidade fosse „contagiosa‟”, dessa forma se cria um distanciamento desses sujeitos, pois sua aproximação poderá ser interpretada como uma adesão a tal prática ou identidade (LOURO, 2001, p. 29). O que pode acontecer é aquilo que Peter McLaren apud Louro (2001) chamou de um “apartheid sexual”, ou seja, uma segregação que é promovida tanto pelos que querem se afastar dos/as homossexuais como pelos/as próprios/as. “O que efetivamente incomoda é a manifestação aberta e pública de sujeitos e práticas não-heterossexuais” (idem). O que poderia ser aceitável, desde que permanecem em segredo e fossem vividas apenas na intimidade. A escola, segundo Louro (2001) é, “um dos espaços mais difíceis para que alguém „assuma‟ sua condição de homossexual ou bissexual”, tendo em vista que a idéia social que se têm é que existe apenas um tipo de desejo sexual, que vem a ser inato a todos/as, tendo como alvo um indivíduo do sexo oposto e dessa forma passa a ignorar e negar o/a homossexual dando pouquíssimas – para não dizer nenhuma – oportunidade do sujeito assumir sem culpa ou vergonha, seus desejos. “O lugar do conhecimento mantém-se, com relação a sexualidade, como o lugar do desconhecimento e da ignorância” (idem). Essas práticas (não-heterossexuais) são tidas nesse trabalho da Guacira Louro como sujeitos “deslizantes”, que escapam da moral e conduta que ansiamos localizá-los/as. Não obstante, a sociedade busca, através de múltiplas estratégias e táticas, “fixar” uma identidade 59
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar feminina e masculina “normal” e duradoura e nesse processo a escola tem uma tarefa bastante importante e difícil que é conseguir se equilibrar em meio as situações, pois de um lado ela precisa incentivar a sexualidade “normal” e, de outro, simultaneamente, contê-la, pois como dito anteriormente, a sexualidade terá que ser adiada para mais tarde, para depois da escola, para a vida adulta (LOURO, 2011). A escola, não diferente das outras instituições, não está privada de intermediações da mídia, músicas, programas de TV e rádios e outras múltiplas intermediações experimentadas pelas crianças, adolescentes e jovens que a freqüentam e assim essas experimentações vem alimentando o que alguns chamam de “pânico moral”. “A produção da heterossexualidade é acompanhada pela rejeição da homossexualidade” (idem, p. 27). Não foi minha intenção nesse artigo atribuir a escola a responsabilidade e nem o poder de explicar as identidades sociais e nem ao menos de determiná-las de forma definitiva, buscou-se aqui reconhecer que, suas proposições, imposições e proibições fazem sentido e têm, para os sujeitos, “efeitos de verdade” e constituem parte integrantes de suas histórias pessoais de vida. Embora seja verdade que muitos/as indivíduos não passem pela instituição escolar em sua trajetória de vida, mas elas (as escolas) ainda são as “apostas” das sociedades urbanas para que a expressão da verdade, da conduta e da moral seja disseminada pelos indivíduos, sabendo que passar pela escola, ou não, é uma das formas de distinções sociais. “Os corpos dos indivíduos devem, pois, apresentar marcas visíveis desse processo; marcas que, ao serem valorizadas por essas sociedades, tornam-se referência para todos (LOURO, 2001, p. 21). Um corpo escolarizado é capaz de manter comportamentos cheios de expressões carregadas de adjetivos do tipo habilidoso/a, educado/a, gentil, etc.; também deve ser capaz de passar muitas horas sentado e dispor habilidades para expressar gestos e/ou comportamentos que indiquem atenção e interesse, mesmo que falsos. “Um corpo disciplinado pela escola é treinado no silêncio e num determinado modelo de fala; concebe e usa o tempo e o espaço de uma forma particular” certamente os olhos, ouvidos, as mãos estão “adestradas” para alguns tipos de tarefas intelectuais, porém estão desatentos para tantas outras (ibidem). 60
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    Sexualidade Juvenil Aprodução do sujeito é um processo plural eatambém permanente (...) O discurso sobre sexualidade no espaço escolar Os sujeitos estão envolvidos e são construtores ativos de suas identidades (...) Os discursos dos/as jovens sobre sua sexualidade continuam se modificando e se multiplicando. O que quis levantar nesse artigo é que todas essas práticas, linguagens e símbolos constituem sujeitos masculinos e femininos e também são produtoras de “marcas”. Pessoas de todas as idades, contam como essas experiências marcaram suas histórias de vida, enquanto inseridos/as no espaço escolar. Outros grupos também contribuem, é claro, para essas “marcas”: família, igreja, mídia, escola, lei participam dessa produção. Todas essas – e ainda outras – contribuem diretamente para a “educação” da sexualidade e fazem investimento em um discurso hegemônico de identidades e práticas, e dessa forma nega ou recusa outras identidades e práticas, assim produzem, constantemente, representações divergentes e alternativas contraditórias. “A produção do sujeito é um processo plural e também permanente” (LOURO, 2001, p .25). Portanto, esse processo não é um mecanismo pelos quais os sujeitos participem como meros receptores, alvos de instâncias externas e manipulados, ao contrário, os sujeitos estão envolvidos e são construtores ativos de suas identidades (idem). É preciso ter em evidência que muitas respostas e perguntas têm surgido a respeito da sexualidade; muitas intervenções sociais e estudos têm elencado um leque enorme de suposições a respeito das práticas sexuais dos sujeitos, evidentemente, porque os discursos dos/as jovens sobre sua sexualidade continuam se modificando e se multiplicando (ibidem). Como já se procurou mostrar antes, existe uma diferença entre a teoria e a prática na vida dos/as jovens, não apenas em relação a sexualidade, mas, nesse trabalho, principalmente. O que nos aponta para um olhar mais direcionado da intencionalidade deste material é aquilo que Foucault disse a respeito sobre sua intenção em fazer uma linha histórica da sexualidade do sujeito, dizendo que sua intenção era “uma relação ente o que fazemos, o que estamos obrigados a fazer, o que nos está permitido fazer, o que nos está proibido fazer no campo da sexualidade; e o que está proibido, permitido, ou é obrigatório dizer sobre nosso comportamento sexual” (FOUCALT Apud LOURO, 2001, p. 32-33). 61
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar As meninas cada dia mais se O discurso sobre sexo e sexualidade nesse interessam por “caras sarados”, trabalho foi contemplado a partir das falas chamados hoje de metrossexuais. e das indagações dos/as jovens. Perguntas Que cuidam do corpo, dos cabelos, como: “as mulheres também se masturbam e das unhas, da pele, que se conseguem chegar ao orgasmo?”; “existe depilem e se vestem bem. contaminação quando se faz sexo vaginal e depois anal com a mesma camisinha?”; “os produtos vendidos no sex shop trazem algum problema a saúde?”; “como é sentir orgasmos?”... Foram discutidas e muitas vezes pelos/as próprios/as jovens respondidas. Meninos e meninas discutiam essas questões abertamente. Sem preconceito um com o outro. Uma explicação para isso talvez seja a amizade que ambos têm devido ao convívio escolar. A grande maioria já conversa sobre esses assuntos diariamente nos intervalos das aulas e nos corredores. Alguns “ficam” entre si. A sedução e os jogos sexuais acontecem também dentro das aulas. Garotos e garotas comentam sobre alguns assuntos ou fazem perguntas à professora de biologia, a resposta eles mesmo dão algumas vezes. Afinal, conhecer do assunto também é coisa de “macho”. O homem precisa saber até que ponto pode falar com uma mulher? O que elas gostam? Quais seus pontos fracos? Qual parte do corpo lhe dá mais prazer? Eles também precisam se preocupar com a aparência. Corpos volumosos, musculosos, “barriguinha tanquinho”. A performance corporal chama atenção da fêmea. As meninas cada dia mais se interessam por “caras sarados”, chamados hoje de metrossexuais16. Que cuidam do corpo, dos cabelos, das unhas, da pele, que se depilem17 e se vestem bem. As meninas se preocupam excessivamente ou seria influenciadamente pela medida da silhueta. Vestir um número muito grande e calçar um sapato 40 não é coisa de mulher. As unhas devem estar sempre feitas, bem pintadas, cabelos escovados, lábios com batom, brincos 16 Metrossexual é um termo originado nos finais dos anos 90, pela junção das palavras metropolitano e heterossexual, sendo uma gíria para um homem heterossexual urbano excessivamente preocupado com a aparência, gastando grande parte do seu tempo e dinheiro em cosméticos, acessórios e roupas de marca. Diponível em (http://pt.wikipedia.org/wiki/Metrossexual) , acesso em 07.08.2010. 17 Em muitas culturas a depilação masculina só é permitida em casos extremos, como homens peludos demais e por motivos higiênicos, porém permitido em algumas regiões do corpo, virilha jamais. 64
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar e colares. Não devem ser muito “atiradas”, pois assim não conseguem um bom namorado, mas também não podem sair do jogo totalmente, pois os meninos hoje em dia também esperam pelas meninas. “fui eu que perguntei se ele queria namorar comigo” (Klarinha, 16 anos). O que não pode é perder o controle e se tornar uma “galinha”. A jovem tem que ser difícil, não pode ficar com qualquer um, assim fica falada. Ela tem que ser dura, mas não pode ser demais, senão também fica encalhada, pois os meninos estão procurando por sexo e não apenas por beijo na boca: “não só beijar, só vou mesmo na intenção do sexo” (Herbert, 16 anos). Nem tudo se resume às práticas sexuais quando se fala no jogo da sedução. Existem aqueles/as que desejam um relacionamento sério, com compromisso: “só ficar você não está respeitando a pessoa e o seu corpo. Relacionamento pra mim, só por namoro” (O‟ Connel, 17 anos). Esse discurso nos remete a imaginar que embora a pressão social seja fortemente marcada em produzir um discurso machista de que ser homem é fazer sexo com quantas mulheres puder. Existem ainda preservados valores morais e familiares que determinam a forma que o indivíduo se apresenta na sociedade. As mudanças ocorridas nas idéias e projetos de vida dos/as jovens são ocasionadas por fatores sócio-políticos construídos historicamente. O que o/a jovem da idade média ansiava a milhões de anos atrás, hoje a procura é totalmente outra. Isso não quer dizer que exista mais ou menos felicidade em estar imerso nesse ou naquele contexto social, é preciso dessa forma entender como cada fator presente na sociedade contribui e permite que o outro seja construtor de seus objetivos, projetos e sonhos. Não se pode esquecer que homens e mulheres foram construídos historicamente com produtos sociais diferentes e com papéis diferentes. Existe uma distância, ainda, naquilo que se preconiza para o homem àquilo que se preconiza para a mulher. Cada um é cobrado socialmente de maneira diferente. Para a mulher é reservado o direito a maternidade, amamentação, cuidar do lar, dos filhos, garantirem a perpetuação da espécie, ser fiel e saber cozinhar. Para o homem é determinado o papel de ser macho, procriador, trabalhador, sustentar a família, alimentar os filhos e ser o sexo superior. Diante do conceito da heteronormatividade é que citamos os preconceitos. Quem estiver fora dos padrões “normais” é tido como “desviante” da norma e da conduta, ou será o 65
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar “sexo inferior”. Mulheres, negros, não-cristãos, homossexuais, deficientes, pobres, esses são os alvos da praga moderna em querer normatizar os povos, como se estivéssemos no nazismo e devêssemos prezar por uma raça “pura” que não fujam dos padrões estéticos, sociais, políticos, econômicos, religiosos e morais construídos. Querer que um todo, seja, determinado em detrimento a minoria é vendar os olhos para enxergar que existe uma diversidade cultural, de pessoas, de credos, raças, crenças e que essa diversidade é o que torna nossa existência no mundo ter algum sentido. Pensar no universo juvenil, mesmo inserido no espaço escolar, é saber que esses jovens vão à escola, mas não deixam em suas casas, guardados na gaveta ou no guarda roupas sua sexualidade. Ela é inerente ao ser humano. Dessa forma não se pode pensar no jovem sem pensar nele como ser sexuado dotado de desejos, curiosidades, anseios e medos. Assim como a família, o  lazer, a religiosidade, os amigos, a escola, o trabalho também a família, o lazer, a fazem parte do universo e do contexto juvenil. É impossível religiosidade, os separar o jovem de sua sexualidade e dizer aos/as mesmos/as amigos, a escola, o trabalho também que é proibido “ficar”, seja na escola ou em qualquer lugar, é fazem parte do preciso dar oportunidade aos mesmos para discutirem esses universo e do assuntos de forma aberta, sem “pré-conceitos”, cobranças, ou contexto juvenil. É taxações. Ele/a deve se sentir a vontade na escola para impossível separar conversar sobre esses assuntos. A escola, as igrejas, as o jovem de sua famílias, as instituições em geral devem perceber que falar sexualidade de sexo ou sexualidade não estão ensinando os/as jovens a  serem “promíscuos”, pelo contrário, quando existe um interesse dos responsáveis em chamar os/as jovens para o diálogo e construir juntos/as com eles/as um conceito isso facilita a confiança dos/as mesmos/as a essas pessoas, bem como sua permanência nesses espaços. O que se deve ter cuidado é não tratar o/a jovem apenas como “errantes”, inexperientes, descompromissados, volúveis e irascíveis. Permitam que eles/as sintam confiança na pessoa que se aproxima. Que esses/as jovens sejam protagonistas e não voluntários. Eles/as precisam construir juntos/as, devem se sentir parte integrante do processo de construção das políticas públicas, do regimento interno, dos projetos, das eleições, enfim, das tomadas de decisões que dizem respeito diretamente a eles/as. O que mais pode deixar os/as jovens “fora de si” é a idéia de que eles/as não têm capacidade para isto ao aquilo ou ainda decidirem por eles/as. Os/As jovens não suportam executar decisões dos adultos, 66
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar embora saibam que a presença desses é fundamental, porém o que eles/as prezam é que possam participar das tomadas de decisões, assim se sentem pertencentes e donos daquela decisão. O/A jovem não vive pensando apenas em sexo, porém, a sexualidade na idade juvenil está de certa forma em evidência, visto que é nesse período da vida que começam a despertar mais claramente os desejos pelo corpo do outro, a preocupação com o seu corpo, a curiosidade pelo prazer no orgasmo, e principalmente em se identificar enquanto “macho” ou “fêmea” dentro do espaço social. Aquilo que na infância e/ou adolescência era apenas uma curiosidade quase que impossível de ser descoberta e experimentada, agora na idade juvenil é momento de experimentar, de saborear, decidir quais caminhos seguir. Antes eram levados pelas decisões dos adultos, hoje, já podem decidir por eles/as mesmos/as. Essas decisões nem sempre são as mais conscientes, nem as mais responsáveis. O/A jovem também não está em idade de ser responsável por tudo no mundo. É momento de fazer descobertas. Estão no período da moratória18 social, das experimentações, não-cobranças, liberdade e movimentos de “vai-e- vem”. A religião vem nesse contexto da sexualidade querer influenciar nas práticas sexuais ou no conjunto de orientações que regem a sociedade. São concepções muitas vezes fundamentalistas, que colocam os jovens em situação de radicalismos, “ou santos ou nada” 19. O/A jovem na procura pelo Sagrado, muitas vezes, não adota totalmente o conjunto de leis e regras de rege determinada religião. A realidade que vemos, é que cada vez mais pessoas aderem a diversas práticas religiosas de uma única vez. A quem freqüente a missa dos domingos, nas terças visitem o terreiro de candomblé, na sexta costumam receber um passe no centro espírita e se no sábado ainda sobrar um tempinho vão fazer meditação em algum templo budista. A cada dia cresce a adesão não a um sistema religioso único, “puro”, mas 18 Moratória – “suspensão da vida”, momento de experimentar a vida e a sociedade não deve “cobrar” responsabilidades. (Termo cunhado por Erik Erikson no livro Identidade, Juventude e Crise) 19 Termo usado por adeptos do movimento da Renovação Carismática Católica (RCC) para caracterizar a necessidade de abandonar tudo para servir a Deus. Em sua crença acreditam que a pessoa deve fazer uma escolha radical, ou deixam tudo, ou desistem de Deus, pois Ele não aceitaria uma pessoa em dúvida ou com práticas ora cristãs, ora não-cristãs. A santidade só se alcançaria com a prática totalmente religiosa e o abandono total das “coisas do mundo”. 67
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar buscam nas igrejas experimentações que podem dar origens a escolhas existenciais importantes. O crescente índice de jovens “sem religião” não está ligado ao fato de não acreditarem em um ser superior, pelo contrário, os que se dizem sem religião, adotam estilos de vida e concepções morais que vão de encontro com uma doutrina, mas contradizem outras. Os jovens não vêem problema algum em freqüentar várias igrejas ao mesmo tempo. Nesse contexto é papel nosso, da escola, igrejas, famílias, ONG‟s e governos garantir que nossos/as jovens estejam experimentando com responsabilidade sua dimensão sexual. Não por nossa imposição, mas por construção protagonizada pela participação dos/as jovens em todas as fases de elaboração dos nossos projetos. Fica então, dessa pesquisa, a certeza de que jovens assim como adultos têm sua vida sexual ativa independe, de já terem feito sexo ou não, mas em sentirem curiosidade em questões que dizem respeito a seus desejos internos, impulsos sexuais, pensamentos, sonhos eróticos, prazeres da carne, manipulação dos órgãos genitais, relacionamentos, cada vez mais cresce a amizades e família. A juventude aparece nessa preocupação das pessoas pesquisa como uma classe social com suas em relação a compreender especificidades assim como as demais classes. a sexualidade, pois ela Crianças, adultos e interfere diretamente na idosos têm suas particularidades quando presença da pessoa na o assunto é sexualidade. Cada um desses grupos sociedade sociais construiu um sistema que permite que os/as mesmos/as transitem em situações que favoreçam a si próprio quanto ao conjunto social. Jovens assim como adultos e crianças também discutem sobre sexualidade, têm desejos e sentem necessidades de supri-los. Nas crianças o complexo de Édipo traduz aquilo que se chama o jogo da sedução nos/as jovens. Nos adultos, talvez a intenção de construção de uma família feliz com filhos e netos traduzam o desejo dos/as jovens de conseguirem um namoro sério e poder firmar relacionamento duradouro. O que se sabe é que cada vez mais cresce a preocupação das pessoas em relação a compreender a sexualidade, pois ela interfere diretamente na presença da pessoa na sociedade. Quem não resolveu bem seus relacionamentos dificilmente conseguirá se relacionar com outras pessoas seja afetivamente ou socialmente. Quem não compreende a homossexualidade dificilmente conseguirá espaço de relacionamento amistoso entre os povos e as raças. Aqueles/as que não entendem a masturbação, o sexo antes do casamento, o “ficar”, certamente não se relacionará bem com os 68
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar outros. Todos esses contextos estão presentes nas sociedades como forma de cultura, opção, doutrina, escolhas e talvez como política e o repúdio a determinadas realidades dificulta a harmonia entre os povos. O que se escreve aqui, não quer dizer em momento algum que se deva aceitar tudo como se fosse permitido, lícito e que faça bem ao/a outro/a, pelo contrário, necessário é que entendamos as práticas dos/as outros/as como socialmente e/ou particularmente construída e o que diferencia um/a do/a outro/a são as concepções morais, religiosas, sociais, culturais e pessoas. O que não se pode, por exemplo, é por causa de um conceito familiar de um/a conceituar os demais e inferiorizar os mesmos. Dessa forma, fica a certeza de que jovens sentem prazer, desejos e querem descobrir o mundo a partir de seus corpos, pois é a partir dele que se sente o mundo. 69
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Lista de perguntas feitas pelos jovens na última Roda de Conversa da Pesquisa Em relação a pesquisa: Qual o maior número de virgens, homem ou mulher? Qual o sexo mais atualizado no sentido da sexualidade, meninos ou meninas nas turmas participantes da pesquisa? De acordo com a pesquisa, mais homens ou mulheres sentem prazer? Perguntas gerais: Um homem estéreo consegue chegar a ejaculação ou não? Como saber se o homem é virgem? O que é mutilação vaginal? Qual a idade ideal para um adolescente perder a virgindade? O homem tá casado, tem suas relações com sua mulher, e por sua fraqueza acontece ato sexual com outro homem isso quer dizer que ele não gosta mais de mulher? Porque o homem tem meios como revistas de mulher pelada, vídeos de sexo, etc. têm e sentem prazer vendo eles e as mulheres não sentem tanto prazer os vendo? Quando duas mulheres transam porque se diz que “fazem sabão”? É porque espuma? As doenças sexualmente transmissíveis foram derivadas da AIDS? Não se sabe por que existem homossexuais, mas pessoas assexuadas (que não gostam de sexo e não sentem prazer nem por homens, nem por mulheres), se sabe a origem ou porque essas pessoas são assim? Quando a mulher transa uma vez ou duas, ela pode desistir e não querer mais ter relações sexuais? Pessoas idosas sentem prazer ou perdem com o passar dos anos? Depois de algum tempo da primeira relação anal o ânus fecha novamente? Como se deve fazer a higiene intima do homem e da mulher? 72
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar É verdade que quanto mais o homem se masturba mais fica fraco e magro? A mulher prefere sentir prazer ou fazer seu parceiro sentir? O ânus tem orgasmo? É certo um homem casado se masturbar? Se uma mulher tem sua primeira vez e não sangra e penetra com facilidade é normal? Porque os homens sentem prazer no sexo oral? No homem sangra quando perde a virgindade? O sexo anal faz mal a saúde? Depois ou na hora que o homem perde a virgindade ele sente alguma dor no pênis? Como saber que um homem é virgem? É muito prejudicial o homem se masturbar freqüentemente? E a mulher? A mulher consegue chegar ao orgasmo várias vezes por dia como o homem? Alguém bêbado tem relação normal assim como alguém sã? Quando um homem é estéreo apenas fazendo tratamento pode engravidar a mulher? Porque quando a mulher tem um namoro sério e transa com ele e depois de um tempo acaba e quando começa o namoro com outro e chega a hora da relação e ele descobre que ela não é mais virgem e chama ela de safada? Existe alguma doença na mulher que a impeça de fazer sexo, tipo impedindo a entrada do pênis na vagina? Porque o homem faz sexo e a mulher faz amor? Como saber quando a mulher está no orgasmo? A prática do sexo anal causa alguma dilatação? O sexo anal dói após as três primeiras vezes? O homem consegue passar muito tempo sem sexo? É verdade que o homem só perde sua virgindade com uma mulher virgem também? É verdade que o homem tem uma pelezinha no pênis que a virgindade dele? Porque a mulher demora chegar ao orgasmo e o homem não? 73
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Relação dos/as pseudo-s dos/as jovens participantes da pesquisa PSEUDO IDADE PSEUDO IDADE Aghata 16 Deywson 19 Aldair 16 Di 18 Alderlon 17 Didinha 19 Biscoito 18 Duda 17 Bruna 16 Duda² 19 Café Gay 16 Edimir 16 Clara 18 Emilho Torres 20 Cris 20 Fa 18 Cris² 30 Fab 16 Cristiane 16 Fla 16 Dani 17 Fofa 16 Daniel 19 Gaby 17 Dea 18 Ɣi Ā 24 Gi 16 Lili 17 Glau 19 Lua 16 Hebert 16 Luan 15 Jó 19 Mailon 17 Joaci 16 Manú 16 Joandson 18 Marcos 16 Josy 16 May 18 Josy² 18 Miro 19 Karol 18 Myla 16 Kati 17 Mylla 15 Kelly 17 Nayde 19 Kíria 19 NE-YO 16 Klarinha 16 Nilda 17 Lidy 18 O‟ Connel 17 74
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar Paola 16 Sandra 15 Patty 16 Sandra² 18 Paula 19 SKYWALKER 17 Paulo 17 Stivem 18 Polí 19 Taty 16 Priscila 19 Taty² 17 Rayssa 18 Val 17 Rone 16 Valdete 19 Rosy 19 75
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar José Aniervson Souza dos Santos - Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade de Pernambuco (UPE) e é Pós- Graduado em Juventude no Mundo Contemporâneo pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte (FAJE) e Rede Brasileira de Institutos de Juventude. Já trabalhou na área de Assistência Social em programas do Governo Federal de atendimento a famílias vulneráveis. Atualmente milita na Pastoral da Juventude (PJ). Já foi Coordenador Paroquial da PJ na Paróquia de São José em Surubim/PE, depois assumiu a articulação do setor diocesano de Surubim e em seguida tornou-se Coordenador Executivo Diocesano-adjunto da Diocese de Nazaré-PE e hoje é representante no Regional Nordeste II - CNBB do Projeto "A juventude quer Viver" fazendo parte da equipe nacional desse projeto. Atualmente é educador e coordenador da Escola de Educadores de Jovens, projeto de capacitação para agentes e profissionais que trabalham com jovens na cidade de Surubim/PE e região. É presidente do Instituto de Protagonismo Juvenil - IPJ com experiência na área de juventude, afetividade e sexualidade, políticas públicas de juventude, aconselhamento, acompanhamento, assessoria, metodologia, espiritualidade/mística da Pastoral da Juventude. Coordenou, junto a Pastoral da Juventude de Surubim/PE, uma pesquisa sobre o desemprego e as condições de emprego juvenil da cidade tendo publicado em parceria com o IPJ e a PJ o material técnico de análise dessa pesquisa em 2010. Atualmente desenvolve pesquisas junto aos/às alunos/as da Escola de Educadores de Jovens sobre a temática Juvenil e suas influências na sociedade. Atua como Agente Socioeducativo da Fundação de Atendimento Socioeducativo (FUNASE) na cidade de Caruaru-PE desenvolvendo planejamento nas áreas de história de vida, projeto de vida, formação inicial, cidadania, religiosidade e reaproveitamento. 78
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    Sexualidade Juvenil O discurso sobre a sexualidade no espaço escolar ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de. “zoar” e “ficar”: novos termos da sociabilidade jovem. In: ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de & EUGENIO, Fernanda(org). Culturas jovens: novos mapas do afeto. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2006, pp. 139-157. ARTIGONAL. Educação. O Papel Da Escola E Do Professor Na Construção Do Saber Crítico Do Aluno. Disponível em: http://www.artigonal.com/educacao-artigos/o-papel-da- escola-e-do-professor-na-construcao-do-saber-critico-do-aluno-1361189.html, acesso em 23/06/2010. BEE, Helen. Os estágios psicossociais de Erikson. In: A criança em desenvolvimento. Trad: Maria Adriana Veríssimo Veronese. 9.ed. Porto Alegre: Artmed, 2003. BRANDÃO, Elaine Reis. Gravidez na adolescência nas camadas médias: um olhar alternativo. In: ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de & EUGENIO, Fernanda(org). Culturas jovens: novos mapas do afeto. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2006. BRANDÃO, Elaine Reis; HEILBORN, Maria Luiza. Sexualidade e gravidez na adolesc~encia entre jovens de camadas médias do Rio de Janeiro, Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 22, n. 7, July 2006. Disponível em: HTTP://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 311X2006000700007&lng=en&nrm=iso. Acessado em: 24 de fevereiro de 2011. CANAL DO EDUCADOR. Educação Sexual na Escola. A orientação sexual no ambiente escolar. Disponível em http://www.educador.brasilescola.com/orientacao-escolar/educacao- sexual-na-escola.htm, acesso em 13/07/2009. CASTRO, M.G. Gênero e Raça: desafios à escola. In: SANTANA, M.O. (Org.). Lei 10.639/03 – educação das relações étnico-raciais epara o ensino da história e cultura afro- brasileira e africana na educação fundamental. Pasta de Texto da Professora e do Professor. Salvador: Prefeitura Municipal de Salvador, 2005. DAMATTA, Roberto. Tem pente aí?: reflexões sobre a identidade masculina. Revista Enfoques: revista semestral eletrônica dos alunos do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1, p. 130-151, agosto, 2010. Disponível em: http://www.enfoques.ifcs.ufrj.br. Acessado em: 23 de janeiro de 2011. EDUCACIONAL. Educação. Educação Sexual na Escola. Disponível em: http://www.educacional.com.br/articulistas/outrosEducacao_artigo.asp?artigo=artigo0008, acesso em 23/06/2010. 82
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