Ir para o conteúdo principal
TECHNICAL BOOKS EDITORA
um manual para o estudo do comportamento animal
COMPORTAMENTAL
ECOLOGIA
INTRODUÇÃO À
Kleber Del-Claro
um manual para o estudo do comportamento animal
COMPORTAMENTAL
ECOLOGIA
INTRODUÇÃO À
Kleber Del-Claro
um manual para o estudo do comportamento animal
COMPORTAMENTAL
ECOLOGIA
INTRODUÇÃO À
Kleber Del-Claro
T B
Rio de Janeiro
2010
Technical Books Editora
1ª edição
Introdução à Ecologia Comportamental:
um manual para o estudo do comportamento animal
Copyright © 2010
Technical Books Editora Ltda.
Rua Gonçalves Dias, 89 - 2º andar - Sala 208
Centro - Rio de Janeiro - RJ - CEP: 20.050-030
Tel/Fax: (21) 2252-5318
vendas@tbeditora.com.br
www.tbeditora.com.br
VENDAS:
Technical Books Livraria Ltda.
Rua Gonçalves Dias, 89 - 2º andar - Salas 205 / 206
Centro - Rio de Janeiro - RJ - CEP: 20.050-030
Tel/Fax: (21) 2224-3177 - (21) 2531-9027
(21) 2242-4210 - (21) 2292-5525 - (21) 2252-9299
vendas@tblivraria.com.br
www.tblivraria.com.br
T B
Technical Books Editora
Dados internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)
D331 Del-Claro, Kleber.
Introdução à Ecologia Comportamental : um ma-
nual para o estudo do comportamento animal / Kle
ber Del-Claro. ─ 1. ed. ─ Rio de Janeiro : Tech-
nical Books, 2010.
128 p. : il. color. ; 21 cm.
Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-61368-12-8
1. Ecologia Animal. 2. Animais – Comportamento.
I. Título.
CDD 591.51
Dedicado aos meus amores,
Maura, Vergílio, Augusto e Túlio,
fontes de minha felicidade, paz
e segurança de um mundo melhor.
Agradeço a todos que, direta ou indiretamente, colabora-
ram para minha formação profissional. Em especial, agradeço a
Ângela Helena Torezan Silingardi, Gerson Augusto Ribeiro Sil-
veira, Newton Goulart Madeira, João Vasconcellos Neto (meu
orientador de mestrado), Fernando Antônio Frieiro Costa, Rogé-
rio Parentoni Martins, Robert J. Marquis e Paulo Sérgio Moreira
Carvalho de Oliveira (meu orientador de doutorado).
Agradeço à Universidade Estadual de Campinas (Uni-
camp), onde me formei, e à Universidade Federal de Uberlândia,
onde trabalho, desde 1992.
Agradeço imensamente ao Conselho Nacional de Pesquisa,
Ciência e Tecnologia (CNPq), que me apoia formalmente como
pesquisador, desde 1996.
À Fundação de Amparo à Ciência do Estado de Minas Ge-
rais (Fapemig), agradeço pelos diversos apoios e recursos rece-
bidos.
Quero agradecer também aos programas de pós-graduação
que muito me ajudaram e aos quais tenho correspondido com
meu trabalho e dedicação. Sou especialmente grato aos progra-
mas de Ecologia da UFU, UFMS e de Zoologia da USP (FFCLRP),
UFJF e UFPR. Nos últimos anos, tenho recebido um imenso
apoio da diretoria do Instituto de Biologia da UFU, a cujo diretor
e colega, Jimi Naoki Nakajima, agradeço por sempre fazer valer
a verdade e a justiça, no trato do bem público.
Não poderia deixar de agradecer aos muitos colegas e alu-
nos que me enviam fotos, trabalhos e teses, para compartilhar
Agradecimentos
ou corrigir, e aos que me convidam a participar de palestras e
visitas científicas. Vocês são todos muito especiais e grande fonte
de minha felicidade profissional.
Quero agradecer aos meus principais colaboradores cien-
tíficos: Paulo S. Oliveira, Helena Maura Torezan Silingardi, Lu-
célia Nobre Carvalho, Everton Tizo Pedroso, Jean Carlos Santos,
Marina Farcic Mineo, Graziela Diógenes Vieira Marques, Jonas
Byk e a todos os outros com os quais já publiquei ou estamos
publicando em conjunto. Sou muito grato por seu apoio e con-
fiança.
Agradeço a Artur Andriolo e Jean Carlos Santos por algu-
mas fotos cedidas, que foram usadas neste livro.
A Everton Tizo Pedroso agradeço pelo tempo dedicado à
leitura crítica dos originais do livro.
Quero agradecer também aos meus editores e àqueles que
auxiliam na distribuição dos meus livros. Agradeço muito por
sua compreensão para com minhas constantes solicitações de re-
dução de custos e margens de lucro, a fim de que os livros che-
guem aos alunos o mais barato possível.
Agradeço à Sociedade Brasileira de Etologia, à Sociedade
Portuguesa de Etologia, ao CNPq e aos nossos incríveis estudan-
tes, por seu apoio e empenho na divulgação de nossos estudos e
livros.
Não poderia esquecer de agradecer a minha família – minha
esposa e meus filhos –, pela paciência, carinho e dedicação que
têm comigo. Muitas vezes discutindo e dando atenção a um
“maluco” que fala do incrível comportamento de uma estranha
e diminuta formiguinha que carrega sementes ou suga gotículas
em folhas de plantas com nomes estranhíssimos. Tenham a cer-
teza de que vocês são o que amo com mais ardor.
“O comportamento [...] orientado para uma meta está extrema-
mente disseminado pelo mundo orgânico; por exemplo, a maioria das
atividades relacionadas a migração, obtenção de alimento, corte, ontoge-
nia e todas as fases da reprodução é caracterizada por tal orientação por
uma meta. A ocorrência de processos orientados por uma meta talvez
seja o traço mais característico do mundo dos organismos vivos.”
Ernest Mayr (1988)
“A literatura sobre comportamento animal está cheia de descri-
ções de comportamento animal claramente proposital, revelando pla-
nejamento cuidadoso. [...]. Nesse planejamento proposital não há, em
princípio, diferença entre seres humanos e animais pensantes.”
Ernest Mayr (2005)
As formigas-correição são nômades e constantemente mudam seus ninhos
para lugares onde poderão obter mais alimento e segurança, onde possam au-
mentar ou manter alto seu valor adaptativo. Crescer, se desenvolver, sobrevi-
ver e reproduzir, deixar descendência viável: eis a meta final.
“O sonho e a vida são dois galhos gêmeos;
são dois irmãos que um laço amigo aperta.
A noite é o laço.”
Gonçalves Dias
Toda utopia, quando boa, é mais sonho do que pesadelo. O
meu sonho, ao escrever este livro, é que eu consiga lhe transmitir
o mesmo prazer que sinto, quando estou livre para estudar com-
portamento animal. Parar calmamente no campo e sentar sobre
uma pedra, sob uma grande e maravilhosa árvore, com respin-
gos da água gelada das corredeiras da Floresta Atlântica Brasilei-
ra batendo no meu rosto, enquanto observo uma simples formi-
guinha se alimentando das excreções açucaradas de um nectário
extrafloral. E o melhor: ainda ser pago para fazer isso, para tentar
entender os mistérios da natureza e do comportamento animal –
ser pago para viver um sonho!
Este livro não tem, portanto, a menor pretensão de ser uma
obra completa sobre Ecologia Comportamental e/ou Comporta-
mento Animal, para isto há livros excelentes, didáticos, cheios
de exemplos enriquecedores, escritos numa linguagem científi-
ca padronizada. O que eu quero aqui é estimulá-lo, instigá-lo,
aguçar sua curiosidade para o estudo do comportamento e da
ecologia, de modo integrado. Quero lhe mostrar o quanto isto
pode ser bonito, agradável e recompensador. Ao mesmo tempo,
sonho em lhe fornecer as ferramentas básicas para que possa se
iniciar no estudo do comportamento e da ecologia comporta-
mental. O que quero é que você pegue gosto pela coisa.
Prefácio
Ao longo de minha vida acadêmica, procurei afastar de
minha mente idéias dogmáticas, finalistas. Por isso sou biólogo.
Biologia é uma ciência única, na medida em que se transforma,
pois modifica nossa forma de encarar o mundo e é modifica-
da por esse mesmo mundo, a cada dia. Mas algumas pequenas
verdades parecem perdurar em meu caminho e uma delas é a
identificação de que nossa ciência, globalmente e em todas as
áreas do conhecimento, carece de bons e dedicados orientadores.
Não estou dizendo que não existam, pelo contrário, há muitos e
muito bons. O problema é que, perante o universo de estudantes
que temos hoje, esses bons orientadores são poucos e, portan-
to, encontram-se sobrecarregados. Assim, a cada dia, encontro
novos alunos com velhos problemas, como falta de leitura, pou-
co senso crítico, conhecimento técnico limitado, sem paciência,
muitas vezes sem objetivo de vida, desorientados. O sonho aqui
é, simplesmente, lhe propiciar alguma orientação na área da ci-
ência onde tenho um pouco mais de conhecimento.
Assim sendo, este livro será dividido em etapas e peço que
você não salte nenhuma, pois da sua boa compreensão depende
a sequência de seu aprendizado. Partiremos de uma introdução
básica, definiremos comportamento, ecologia comportamental,
suas origens e diferenças. Através de exemplos, vamos procu-
rar entender hipóteses, pressupostos, metodologias, buscando
capacitá-lo para elaborar um projeto nesta interessante área do
conhecimento. Então, seja bem vindo! Vamos sonhar juntos, pois
como nos ensinou Marcel Proust:
“Se sonhar um pouco é perigoso,
a solução para isso não é sonhar menos,
é sonhar mais”.
Aos sonhadores,
com estima,
Kleber
Parte 1 ♦ História e Definições Básicas ........................................... 17
1.1. Uma breve história da ecologia comportamental .............................. 18
1.2. Definindo comportamento .......................................................................... 24
1.3. Quatro termos básicos para iniciar uma descrição ........................... 25
Parte 2 ♦ Guia Introdutório ao Comportamento Animal ............. 29
2.1. Uma linha de pesquisa motivadora ........................................................ 30
2.2. Ferramentas básicas ....................................................................................... 33
2.3. Conhecendo o objeto de estudo ................................................................ 46
2.4. Familiarizando-se com o animal e com o ambiente ......................... 48
2.5. Métodos clássicos de observação de comportamento ...................... 52
2.6. Dicas para estudar o comportamento de invertebrados ................. 57
2.7. Dicas para estudar o comportamento de vertebrados ..................... 62
2.8. Marcando seus animais para estudo ...................................................... 66
2.9. Cuidados pessoais para ter no campo e no laboratório ................... 74
2.10. Como planejar um estudo em comportamento animal? ............... 78
2.11. O que são etogramas? ................................................................................. 90
Parte 3 ♦ Guia Introdutório à Ecologia Comportamental ............. 95
3.1. A questão funcional e a questão evolutiva ........................................... 96
3.2. A questão da ecologia comportamental ................................................ 99
3.3. O teste de hipóteses na ecologia comportamental .......................... 101
3.4. Um exemplo do uso da ecologia comportamental na ecologia
de interações (populações e comunidades) ........................................ 106
3.5. Como encontro meu caminho? ................................................................ 110
Parte 4 ♦ Bibliografia ........................................................................ 113
4.1. Literatura citada ............................................................................................. 114
4.2. Literatura recomendada ............................................................................. 114
Parte 5 ♦ Glossário ........................................................................... 119
Sumário
um manual para o estudo do comportamento animal
COMPORTAMENTAL
ECOLOGIA
INTRODUÇÃO À
Kleber Del-Claro
História e
definições básicas
P
A
R
T
E
1
18
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
1.1. Uma breve história da Ecologia Comportamental
Nosso interesse pelos animais está enraizado em nossas origens. Arte,
pintura ou gravura rupestre é o nome que se dá às mais antigas representa-
ções pictóricas conhecidas (figura 1.1). Mais de 40.000 a.C., milhares dessas
gravuras rupestres foram gravadas nas paredes ou nos tetos de cavernas ou
abrigos da África, Ásia, Europa e Américas. Na caverna espanhola de Alta-
mira, também conhecida como “Capela Sistina da Pré-história”, a pintura
rupestre de um bisão impressiona pelo tamanho e pelo volume conseguido
com o uso da técnica do claro-escuro. Em diversas outras cavernas espalha-
das pelo mundo todo, há inúmeras outras pinturas de animais, inclusive de
alguns flechados ou encurralados por humanos. Essas gravuras rupestres
representam os primeiros registros do interesse humano pelo comportamen-
to animal.
Figura 1.1. Pinturas rupestres em caverna de Serranópolis, GO, no centro-
oeste brasileiro, datada de 12.000 a.C., aproximadamente.
Cerca de 4.000 a.C., os egípcios usavam as fibras do caule de uma planta
chamada Cyperus papyrus para confeccionar o precursor do papel. Essa planta
Parte 1 ♦ História e Definições Básicas
19
era esmagada, prensada e secada para dar origem ao papiro, que era usado
para documentar negócios do Estado, em grande parte, relacionados com a
comercialização de animais. Nos documentos antigos das mais diversas re-
ligiões, há inúmeros relatos sobre o comportamento e características de ani-
mais domésticos e selvagens. Esse interesse pelos animais e seu comporta-
mento pode ser, em grande parte, explicado também pela zoolatria, isto é,
adoração aos animais, que era comum à grande maioria das religiões polite-
ístas. Os próprios egípcios tinham um vasto panteão de divindades antropo-
zoomórficas, ou seja, parcialmente humanas, parcialmente animais.
Assim, se você pensa que foi um pioneiro, ao observar um pardal no
seu quintal, está muito enganado. Nós, humanos, observamos o comporta-
mento animal desde que surgimos. Mas uma coisa não mudou desde o prin-
cípio e, provavelmente, é a grande razão de nosso enorme desenvolvimento
científico e intelectual. Observamos o comportamento dos animais para saber
como, quando e do que podemos nos alimentar; para domesticar os animais;
para evitar a ação de predadores; para aprendizado; mas, principalmente, por
curiosidade. A curiosidade é uma característica peculiar que ressalta a inteli-
gência humana. Em sendo curioso sobre tudo a sua volta e, em especial, sobre
a natureza, o homem se tornou o ser dominante que hoje é.
A tradição oral, ou seja, a transmisão do conhecimento de uma geração
a outra através da fala, contação de histórias, lendas e músicas, foi durante
muito tempo o principal modo de perpetuação do conhecimento adquirido
a partir da observação animal para o grande público. Este modo simples de
transmisão do conhecimento, foi muito útil e eficaz, principalmente se consi-
derarmos que, ainda hoje, grande parte da população mundial é analfabeta
ou tem pouco domínio da leitura. A partir do século XVI, com as grandes
navegações e a descoberta das rotas marítmas para África e Ásia, assim como
a redescoberta do Novo Mundo, o ser humano passou a experimentar uma
explosão de informações sobre a vida e o comportamento animal. Médicos e
pintores de bordo, missionários, cartógrafos e um, pouco mais tarde, os pri-
meiros naturalistas, passaram a descrever, primeiramente em suas cartas e
depois em livros e artigos científicos, o comportamento de espécies nunca
antes vistas. Um dos documentos mais preciosos desse período data de 1526
e foi escrito por Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés, intitulado Sumario
de la Natural Historia de las Indias. Enviado ao Novo Mundo pelo rei Fernando
da Espanha, Valdés fez a primeira descrição elaborada, rica em exemplos e
detalhes específicos da flora e fauna da América Espanhola, principalmente
da região do México. O documento continha não apenas a descrição de com-
portamento animal, mas também humano, o que atraía muito a atenção do
público europeu ávido em conhecer as novas terras, sua gente, seus costumes,
novos alimentos e possíveis medicamentos.
20
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Ao longo dos dois séculos seguintes, inúmeras outras contribuições fo-
ram sendo feitas ao estudo do comportamento animal, mas de forma pontual
e anedótica. Até que, entre o final do século XVIII e início do século XIX, os
cientistas viajantes, denominados naturalistas, principalmente ingleses, ale-
mães, holandeses, franceses e já alguns americanos, começaram a divulgar
os resultados de suas expedições pelo mundo afora. Dentre eles, destacou-
se o inglês Charles Robert Darwin, que publicou uma série de artigos e li-
vros, como seus volumes de Zoologia, dentre os quais podemos citar extensas
monografias sobre a biologia e taxonomia de cracas vivas e fósseis. Em 1859,
Darwin publicou seu mais famoso livro: A Origem das Espécies, estabelecendo
um dos mais importantes pilares no estudo da ecologia comportamental até
os dias atuais, o conceito da evolução por meio da Teoria da Seleção Natural.
Em 1871, Darwin publicou A Descendência do Homem, que, embora não fosse
um livro especificamente sobre comportamento, estabeleceu importantes ba-
ses para as futuras discussões que viriam nos anos seguintes sobre a origem
do homem e das similaridades entre comportamentos sociais de humanos e
outros primatas. Porém, em 1873, mais uma vez, Darwin ousou ao publicar A
Expressão das Emoções no Homem e nos Animais, talvez inaugurando o que, mais
tarde, viria a ser a Psicologia Comparada.
O comportamento animal e humano, também conhecido como Etolo-
gia – do grego ethos, que significa “costume”, “hábito” – é uma área do conhe-
cimento multidisciplinar, pois envolve aspectos da biologia desenvolvimental
dos organismos, fisiologia, genética, evolução, psicologia e também da sua zo-
ologia e ecologia. O termo etologia apareceu na França, no século XVIII, para
designar a descrição de estilos de vida, em muito se confundindo com nossa
definição atual de nicho ecológico. No sentido de se referir especificamente
ao estudo do comportamento animal, o termo etologia foi empregado pela
primeira vez no século XX, mais precisamente em 1950, pelo holandês Niko
Timbergen. Devido aos trabalhos pioneiros no estudo do comportamento em
condições naturais, com atenção voltada para padrões espécie-específicos de
comportamentos, o alemão Oskar Heinroth e o americano Charles Whitman
são também apontados por muitos como cofundadores da etologia moderna.
Depois de um longo início descritivo, seguindo a tradição de histó-
ria natural empregada à etologia pelos naturalistas do século XIX, o estu-
do do comportamento ingressou em uma nova fase, mais experimental,
buscando entender as causas evolutivas dos comportamentos. Do meio
da década de 1950 até o final dos anos 60, três pesquisadores europeus
se destacaram nesta nova abordagem: os austríacos Konrad Zacharias
Lorenz e Karl von Frish, e o holandês Niko Timbergen. Em conjunto,
por “seus estudos voltados para a compreensão da organização e elicitação dos
comportamentos individuais e sociais”, em 1973, esses cientistas receberam
Parte 1 ♦ História e Definições Básicas
21
o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, inaugurando uma nova era na
etologia, que nos levaria à ecologia comportamental.
Em uma definição clássica, o comportamento animal em seu sensu
stricto, inicialmente, apresentou três grandes áreas:
a) Psicologia Comparada – Inicialmente centrada nos Estados Unidos
da América, esta é a área mais descritiva e que dá pouca importância
às causas evolutivas dos comportamentos. O foco é o aprendizado
associativo, especialmente em humanos. Nesses estudos, é comum
o uso de animais como cães, pombos e ratos, como modelos experi-
mentais, visando entender os processos cognitivos e perceptuais em
humanos.
b) Neurobiologia – A partir de uma base biológica, esta abordagem vol-
tou-se, durante muito tempo, para o entendimento dos mecanismos
de funcionamento do sistema nervoso e suas respostas comporta-
mentais, em detrimento de considerações evolucionárias. Atualmen-
te, apresenta linhas com interesse filogenético, buscando entender as
origens da formação e funcionamentos dos sistemas neurais e suas
respostas comportamentais. É um dos campos mais promissores, no
que se refere aos estudos do comportamento humano, no século XXI.
c) Etologia – O estudo descritivo do comportamento animal caracteriza
a etologia clássica, que abordava principalmente as bases fisiológi-
cas dos comportamentos, incluindo os mecanismos causais e fun-
cionais, deixando para segundo plano as bases evolutivas (funções
adaptativas) dos comportamentos.
Devido à formação acadêmica dos primeiros estudiosos do compor-
tamento, a etologia no século XX se desenvolveu inicialmente na Psicologia.
Durante muito tempo, esses primeiros etólogos contemporâneos se preocupa-
ram com padrões estereotipados de comportamentos, os também chamados
padrões fixos de ação (PFA).
Um PFA é todo e qualquer comportamento que pode ser elicitado por
um estímulo sempre muito característico, denominado estímulo sinal ou
liberador. Por exemplo, no ninho, quando um filhote de ave abre seu bico,
exibindo para a mãe as cores fortes de sua mucosa (amarela, laranja ou verme-
lha), faz com que esta regurgite o alimento para ele. Com o passar do tempo
e a descoberta de que a maioria dos comportamentos não são de fato tão este-
riotipados quanto se propunha no início da etologia moderna, os PFAs foram
recentemente renomeados como padrões modais de ação (PMA).
Paralelamente a esses estudos, outros psicólogos direcionavam seus
trabalhos para a investigação de atos comportamentais que pudessem ser cla-
22
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
ramente quantificados, dando origem a estudos sobre aprendizado e sobre
as bases fisiológicas dos comportamentos. Nesta linha, um fisiologista russo,
Ivan Pavlov, trabalhando principalmente com cães e estudando sua capacida-
de de adestramento para a execução de pequenas tarefas, desenvolveu a ideia
de condicionamento clássico, ou seja, condicionar um animal a desempe-
nhar uma determinada função.
A metodologia desenvolvida por Pavlov, criou as bases para que uma
nova escola da psicologia fosse inaugurada, o Behaviorismo. Um dos mais
importantes nomes nessa nova linha de pesquisa foi o americano Burrhus
Frederic Skinner, que propôs que o estudo do comportamento animal fosse
limitado às ações que pudessem efetivamente ser observadas. Skinner de-
monstrou que padrões de comportamento que pudessem ser recompensados,
tenderiam a ser reforçados e aumentariam em frequência. Os clássicos exem-
plos – e os mais lembrados – são as caixas de Skinner, gaiolas contendo rati-
nhos que utilizam as patas dianteiras para abaixar uma barra, fazendo com
que um grão de ração ou uma gota d’água (recompensa) seja liberada a sua
frente. Os experimentos de Skinner mostraram que o controle do comporta-
mento pode ser muito influenciado por ação reforçada.
Entre o final da década de 1960 e o início dos anos 70, William D.
Hamilton deu uma abordagem totalmente nova à etologia. Apoiado nas ideias
de manipulação experimental (e.g. alteração de uma característica do ambien-
te para se testar a função de um ato comportamental) inicialmente propos-
tas nos estudos de Tinbergen, von Frish e Lorenz, este biólogo evolucionista
britânico propôs, pela primeira vez, que os comportamentos exibidos pelos
animais deveriam ser estudados no sentido de entendermos seu real impacto
sobre o valor adaptativo das espécies, traduzido pela sobrevivência desses
animais e de seus parentes. Assim, Hamilton propunha a aplicação da seleção
natural como ferramenta para entendermos as bases genéticas que moldavam
os comportamentos. De suas ideias e das do entomologista e biólogo america-
no Edward Osborne Wilson, emergiu uma nova ciência, a Sociobiologia, que
busca entender as bases evolutivas da existência e a perpetuação dos compor-
tamentos sociais.
No somatório desses esforços, o que, de fato, se via nascer era um novo
modo de se estudar e entender o comportamento animal. Esse novo modo
era um resgate e um aperfeiçoamento do método hipotético-dedutivo (a ser
detalhado, mais à frente), inicialmente empregado pelos darwinistas, apoia-
do na ideia de seleção natural, revigorada pelos conhecimentos modernos da
genética e da evolução. Através da manipulação experimental e também do
uso de ferramentas estatísticas e matemáticas, procurava-se entender não so-
mente como um animal exibia um determinado comportamento, mas princi-
palmente quais seriam as causas evolutivas que mantinham esse comporta-
Parte 1 ♦ História e Definições Básicas
23
mento vivo, em termos de alelos presentes em uma população, ou seja, o valor
adaptativo dos comportamentos. Assim, o Comportamento Animal se transfor-
mava em Ecologia Comportamental.
Hamilton desenvolveu parte de seus estudos no Brasil, em discussões
com o agrônomo e geneticista brasileiro Warwick Estevan Kerr. Através de
seus estudos com abelhas sociais, Hamilton conseguiu demonstrar que o va-
lor adaptativo de um comportamento pode ser medido pela quantidade de
prole (filhos) viável, com chance de sucesso reprodutivo futuro e que o com-
portamento permite que o indivíduo que o exibe produza ao longo de sua
vida. Deste ponto em diante, as portas do estudo do comportamento animal
foram gradualmente arrombadas pelos ecólogos, que passaram a tentar en-
tender não apenas como um determinado comportamento influía na sobre-
vivência e reprodução de um indivíduo, mas também os reflexos disso sobre
as populações desses consumidores (herbívoros e carnívoros). E mais: o que
isso representa em termos de impacto sobre os produtores (plantas), sobre as
interações ecológicas e sobre a estrutura das comunidades.
Hoje, o Comportamento Animal, mais do que uma linha de investiga-
ção científica, transformou-se em uma das mais poderosas ferramentas no
universo multidisciplinar da ecologia comportamental. Nos nossos dias, uma
grande profusão de cientistas se dedica ao estudo da ecologia comportamen-
tal, em maior ou menor escala. Eles estão espalhados pelo mundo todo – ho-
mens e mulheres, alguns mais velhos outros mais jovens, como você!
Seria um absurdo querer listar aqui a ordem de importância do estudo
desses colegas e de suas contribuições. Nesse novo e tão dinâmico universo,
o nome do americano John Alcock1
merece destaque. Sua publicação, Compor-
tamento Animal: Uma Perspeciva Evolutiva, hoje na oitava edição, talvez seja a
obra contemporânea que mais influenciou o desenvolvimento do estudo do
comportamento animal, nas últimas duas décadas, entre jovens biólogos e
ecólogos. Entre o final do século XX e o início do século XXI, o surgimento da
internet, dos PDFs eletrônicos (Portable Document Format), têm disseminado,
de forma cada vez mais rápida e em maior quantidade, os estudos publicados
em todas as áreas do conhecimento. Não apenas textos, mas fotos e filmes so-
bre comportamento são hoje veiculados por famosos e anônimos, na tentativa
de divulgar suas descobertas. Seja, portanto, cauteloso, prudente e criterioso
em suas pesquisas na internet, pois quantidade nem sempre é sinônimo de
qualidade.
Ernest Mary definiu ciência como sendo “um pequeno passo no esforço
humano para entender melhor o mundo por observação, comparação, experimentação,
análise, síntese e contextualização”. Se, nesse sentido, a Biologia é uma ciência
única, pois é mutável e se adapta às transformações impostas pelo tempo, a
Ecologia Comportamental pode ser considerada uma das filhas rebeldes da
24
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Biologia – aquela xereta que entra em toda festa, e que, sem cerimônia nenhu-
ma, põe o dedo no glacê do bolo. O ecólogo comportamental de hoje equi-
vale ao naturalista do século XIX, porém revestido de todo o conhecimento
acumulado pela Biologia, nos últimos dois séculos, da genética à ecologia,
passando pela fisiologia, zoologia e botânica. Hoje, ele utiliza os mais moder-
nos equipamentos eletrônicos para documentação e análise, incluindo aí tudo
que é pacote estatístico, mas... sem dispensar uma boa cadernetinha, lápis e
borracha, além de uma confortável roupa de campo e um boné.
1.2. Definindo comportamento
Há muitas definições para Comportamento Animal. Como toda gran-
de área dentro da Biologia, as definições de comportamento também sofrem
alterações, adaptações, aperfeiçoamentos, de tempos em tempos. Talvez a de-
finição mais simples e precisa seja aquela que define o comportamento como
sendo tudo aquilo que um animal faz ou... deixa de fazer.
Quando vemos um animal correndo, pulando, se lambendo ou predan-
do um outro animal, fica muito claro que esse animal está exibindo algum
tipo de comportamento (figura 1.2A). Entretanto, é bom lembrar que os ani-
mais podem exibir comportamentos nos quais deixam de realizar atividades
que envolvem movimentações ou deslocamentos. Ao nosso olhar, parece que
não estão fazendo nada. Por exemplo, dormir, hibernar, congelar-se ou fingir-
se de morto, o que denominamos tanatose (figura 1.2B). Mesmo quando um
animal aparentemente não está fazendo nada, esse “não fazer nada”, também
representa um tipo de comportamento e tem sua função. Assim sendo, pode-
mos sim entender comportamento como sendo o conjunto de todos os atos que
um animal realiza ou deixa de realizar.
A B
Figura 1.2. A. Zebra (Equus burchelli) pastando em uma área de savana. B. Pe-
rereca (Hyla geografica) fingindo-se de morta (tanatose) nas mãos
de um pesquisador.
Parte 1 ♦ História e Definições Básicas
25
1.3. Quatro termos básicos para iniciar uma descrição
O comportamento é hoje uma linha de pesquisa muito difundida não
somente entre biólogos, incluindo-se aí ecólogos, zoólogos, geneticistas, para-
sitologistas e até mesmo alguns botânicos, mas também entre psicólogos, ve-
terinários, zootecnistas, médicos e alguns agrônomos. Portanto, é necessário
que, logo de início, façamos algumas padronizações para um melhor entendi-
mento do estudo do Comportamento Animal e de suas aplicações na Ecologia
Comportamental. Em muitos congressos da área e até mesmo em textos de
revistas científicas que leio ou recebo para revisar ou editorar, com frequência
encontramos alguns enganos no uso de termos descritivos de comportamen-
tos animais. Vejamos alguns exemplos.
Na figura abaixo, como você descreveria a postura e a posição do ani-
mal? Observe, pense e tente escrever em uma folha de papel, antes de conti-
nuar a leitura.
Figura 1.3. Beija-flor (Eupetomena macroura), em Uberlândia, Minas Gerais,
Brasil.
26
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
1) Postura – Quando falamos em postura, estamos nos referindo às par-
tes do corpo de um animal, em relação a ele mesmo. Assim sendo, o
beija-flor apresenta postura normal de pouso, ou seja, está apoiado
sobre um substrato (normalmente um ramo), com as asas fechadas,
o corpo perpendicular ao substrato (postura “ereta”), com a cabeça
direcionada para sua frente e o bico fechado.
2) Posição – Quanto à posição, podemos dizer que o animal está apoia-
do, ou pousado, sobre o ramo de uma árvore. Na descrição da posi-
ção, procuramos indicar agora a relação entre as partes do animal e o
habitat, o substrato mais próximo, um referencial do meio.
Obviamente, é difícil separar postura de posição na descrição de um
comportamento e o modo mais simples, geralmente o mais correto para des-
crever o animal da foto. Seria simplesmente: “o beija-flor está pousado sobre um
ramo vegetal”, sendo o termo “pousado” referente à postura e a expressão “sobre
um ramo” relativa à posição do mesmo.
Isto pode lhe parecer uma grande bobagem, mas é realmente comum
encontrarmos em textos científicos, ou em painéis de congressos, confusões
como: “o beija-flor está posicionado com as asas fechadas, numa postura frontal
a uma árvore com flores”, o que constitui uma inversão total do correto uso dos
termos descritivos básicos do comportamento.
Vejamos agora outros dois termos de uso muito comum. Analise a foto
abaixo e tente descrever o comportamento do animal, não apenas quanto à pos-
tura e posição, mas também, quanto ao movimento e deslocamento executados.
A B
Figura 1.4. Gavião caracará (Caracara plancus) pousado (A) e levantando voo (B)
a partir de um termiteiro na Serra da Canastra, Minas Gerais, Brasil.
3) Movimento – A palavra movimento deve ser empregada no sentido
de descrever mudanças de postura, ou seja, das partes do corpo de
Parte 1 ♦ História e Definições Básicas
27
um animal, em relação a ele mesmo. Assim, se o gavião mexe o pes-
coço, abre e fecha suas asas, ele está se movimentando. Mas, se o ga-
vião levanta voo a partir o termiteiro, ele não apenas se movimenta,
mas também se desloca.
4) Deslocamento – O deslocamento considera as mudanças de posição,
ou seja, do animal em relação aos substratos ambientais. Esses dois
termos costumam ser usados de modo trocado, com muito mais fre-
quência do que você imagina. Muitas pessoas, erroneamente, des-
creveriam este comportamento como, “o gavião se movimentou em voo
para longe do termiteiro”, por exemplo.
Algumas pessoas consideram um preciosismo de nossa parte quando
insistimos no correto uso dos termos etológicos. Aprenda uma coisa: o capri-
cho em uma descrição, o uso de uma linguagem correta e a precisão da re-
dação são elementos decisivos, que irão aumentar as chances de seu texto ser
bem entendido, do sucesso na transmissão de sua mensagem e, finalmente,
de um trabalho seu ser aceito para publicação. Se, no passado, alguém se deu
ao trabalho de padronizar uma linguagem científica, em qualquer que seja a
área do conhecimento, nós devemos, por respeito e responsabilidade, acatar
e utilizar essa linguagem, ou questioná-la e apresentar uma nova proposta.
Essas padronizações costumam contribuir de modo positivo para um
melhor entendimento entre pesquisadores, para uma melhor compreensão
dos estudos científicos e para evitar que um mesmo comportamento, comum
ou estereotipado, seja descrito diversas vezes, por diferentes pesquisadores,
tomando um enorme espaço editorial e, muitas vezes, causando grande con-
fusão. Vamos dar um exemplo de uma grande vantagem da padronização de
alguns termos.
Na figura 1.2B, eu usei o termo tanatose. Para quem já estuda comporta-
mento eu não precisaria dizer mais nada, pois a pessoa já saberia que o animal
estava se fingindo de morto, ou em imobilidade tônica. Em se tratando de um
anfíbio, a mais comum das tanatoses ocorre em decúbito dorsal, com mem-
bros retraídos, boca e olhos fechados. Trata-se, portanto, de uma descrição de
cinco a seis linhas de texto, que podem ser resumidas em uma única e precisa
palavra. Mais adiante, vamos tratar de repertórios comportamentais ou eto-
gramas, nos quais a importância desses termos será ainda mais evidenciada.
Nos capítulos seguintes, vamos chamar sua atenção para as facilidades
e os problemas em se trabalhar com comportamento animal, quais os cuida-
dos que devemos ter, enfim, vamos tentar lhe mostrar como o comportamento
pode ser uma ferramenta útil, não apenas nos estudos da ecologia do compor-
tamento, mas também em outros estudos como na polinização, dispersão de
sementes e na ecologia de interações.
Guia introdutório ao
comportamento animal
P
A
R
T
E
2
30
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
2.1. Uma motivadora linha de pesquisa
Animais podem fazer coisas extremamente interessantes, às vezes sim-
ples e alegres, outras vezes chocantes, mas coisas que chamam nossa aten-
ção e aguçam nossa curiosidade. Neste ponto, reside principalmente nosso
imenso interesse pelo estudo do comportamento. Quem, por exemplo, não
ficaria intrigado se soubesse que, nas Filipinas, existem pequenas aranhas
Salticidae (Myrmarachne assimilis) que mimetizam formigas tecelãs muito
agressivas (Oecophylla smaragdina), ou seja, imitam perfeitamente essas formi-
gas, juntando-se a elas em ninhos formados por folhas de plantas unidas por
fios de seda2
? Como este complexo interativo poderia ter se estabelecido? Com
quais propósitos? Será que você já pensou em formigas que podem se orientar
pela formação do céu à noite? Isto mesmo! Olhar para cima ao sair do ninho
e ao invés de marcar o terreno com uma longa trilha química (de cheiro),
simplesmente memorizar o contraste entre as copas das árvores, as estrelas, a
luz da lua e se guiar por este mapa visual? (figura 2.1). Veja bem, não estamos
falando de veados, coelhos e aves, mas de formigas!
Figura 2.1. Contraste entre o céu noturno e a sombra das copas das árvores.
Paulo Oliveira e Bert Holldöbler, dois colegas trabalhando num labo-
ratório de Harvard, observando o comportamento de formigas Odontomachus
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
31
bauri (Ponerinae), notaram que toda vez que uma operária saía do ninho pa-
recia parar e olhar para o alto, na direção do observador. Intrigados com isso,
eles tiveram a ideia de testar esta hipótese e conseguiram comprová-la3
.
Outro exemplo. Diga que você não ficaria assustado ao observar ou
tomar conhecimento de casos de infanticídio entre mamíferos? Em 1977, a
pesquisadora Sarah Hrdy4
publicou os resultados de seus estudos pioneiros
feitos na Índia com macacos langurs (gênero Presbytis). O estudo se iniciou
quando ela evidenciou que após as disputas entre machos pelos haréns, que
os vencedores matavam todos os jovens filhotes do bando. Intrigada com suas
observações iniciais, Sarah Hrdy passou a uma longa fase de estudos obser-
vacionais de campo, testando diferentes hipóteses para explicar o fenômeno,
o qual acabou relacionando com seleção sexual, embora seja um assunto con-
troverso até hoje.
Exemplos como estes que acabo de comentar aguçam sua curiosidade?
Mexem com você? Você se sente motivado a estudar este tipo de assunto?
Se você se sente inseguro em responder a essas questões é bom saber
que um conhecimento básico sobre Zoologia, Botânica, Ecologia e Evolução
pode ajudar muito quando a gente quer decidir se vai gostar ou não de estu-
dar comportamento. É importante que você tenha muita capacidade de leitu-
ra, que goste de estudar, que goste de ir ao campo e seja capaz de observar,
com muita paciência e calma, detalhes mínimos, muitas vezes ocultos pela
própria natureza. Veja, por exemplo, as fotos da figura 2.2.
A B C
Figura 2.2. A. Uma serpente Leptodeira engolindo sua presa, um sapi-
nho Eleuterodactilidae. B. Um ninho de pássaro joão-de-barro
(Furnarius rufus) é feito pouco a pouco, com bocados de barro.
C. Um casal de libéluas (Libelulidae) em cópula.
Estas imagens são exemplos distintos de oportunidades de observação
ímpares, simples, mas que só vê quem vai ao campo e, além disso, com muita
paciência. Conheço muita gente que, quando em um ambiente natural, é ca-
paz de olhar apenas para a paisagem. Geralmente, esse tipo de observador se
cansa logo e já diz: “Pronto! Já vimos tudo por aqui. Vamos em frente?”. Ima-
32
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
gine só, se a pessoa não tem paciência, não tem a curiosidade de olhar dentro
de uma flor, de escutar um barulhinho, de respirar os diferentes aromas...
Imagine se, no campo ou no laboratório, essa pessoa vai conseguir encontrar
algo realmente estimulante, que seja capaz de fazer com que ela se apaixone
pelo estudo da Zoologia, Botânica ou Ecologia?
A primeira foto (figura 2.2A) foi feita na transição entre o Pantanal e a
Amazônia, na fronteira entre Brasil e Bolívia. Foi uma tremenda sorte obser-
var e fotografar este evento de predação na natureza. Esta observação surgiu
de um barulho. Na floresta, sempre caminho lentamente, quase em câmera
lenta, tentando ouvir, cheirar, perceber o que acontece a minha volta. Esta
serpente estava na beira de um riacho, no meio de folhas amareladas caídas
no chão da floresta, e foi o barulho de seu bote sobre o sapinho que revelou
sua presença.
O ninho de joão-de-barro (figura 2.2B) é comum no Brasil, mas a maio-
ria das pessoas quando a ele “apresentadas”, costumam mostrar surpresa.
Será que é porque não olham para cima? Dê vez em quando, é bom nos preo-
cuparmos com as coisas que vem do alto.
As libélulas fotografadas na Mata Atlântica (figura 2.2C) pareciam que
estavam brigando. Se enrolavam uma na outra, subiam alto e sumiam entre
as árvores, na beira de um pequeno lago natural. O grupo que estava comigo
foi todo à frente. Eu e alguns alunos paramos e, dois minutos depois, elas
pousaram a nossa frente e ali ficaram por alguns minutos, permitindo que
observássemos, detalhadamente, o bombeamento do esperma do macho para
a fêmea.
O que quero dizer a você é que existem inúmeros exemplos e situações
estimulantes para se estudar comportamento animal. No mundo todo isto se
repete – na floresta tropical, na tundra, no deserto, nos recifes de corais – e
oportunidades não irão faltar, mas você tem que gostar do que faz, tem que
sentir prazer e felicidade fazendo isto.
Uma coisa que chama a atenção nesses casos é que os estudos anterior-
mente citados e relatados podem ter começado com uma simples observação
na natureza ou em laboratório, anotada com lápis em uma caderneta de cam-
po, fazendo as devidas correções com uma mera borrachinha branca. Este é
outro fator muito relevante no estudo do comportamento animal. Você não
precisa de grandes e caros materiais para se tornar um ótimo etólogo. Isto
motiva muito, especialmente no início da carreira, ou para um leigo que quer
ter esta atividade como uma simples forma de lazer. Então, quais seriam as
ferramentas básicas, mínimas, para se estudar comportamento? Como posso
evitar um investimento financeiro grande em um tipo de estudo que ainda
não tenho certeza se vou gostar de fazer? Quais os cuidados iniciais que todo
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
33
pesquisador deveria ter? Como saber se o que eu escolhi estudar é interessan-
te para a ciência? Será que eu estou no caminho certo? Quando e a quem devo
pedir ajuda?
Neste e no próximo capítulo, vou tentar ajudar você a encontrar o cami-
nho para estas respostas, para esclarecer suas dúvidas iniciais e para que sua
motivação seja cada vez maior.
2.2. Ferramentas básicas
As ferramentas que vou apresentar aqui serão comentadas em outras
partes deste livro, falando sobre seu uso, importância e utilidade. Muitas de-
las você já deve conhecer, outras apresentam variação em tamanho, forma
e aspecto, dependendo da utilização. Vou dar maior destaque aos materiais
mais simples, mais baratos e que você pode obter facilmente. Nas observações
sobre cada item comentarei sobre as novidades, equipamentos eletrônicos etc.
Vamos lá, vamos listar o que seria bom ter em nossa mochila de campo.
Material de Registro:
a) Caderno de campo ou de laboratório – Sim, isto mesmo: caderno,
lápis e borracha!
Você deve estar achando que estou maluco, pois na era do computa-
dor que cabe na palma da mão, eu venho falar de... caderno!
Olha, não conheço lugar melhor para fazer as anotações iniciais e
elas devem ser feitas com um lápis preto, macio. Assim, não apaga
com a água, caso seu caderno tome chuva, ou caia numa poça d’água
ou mesmo num riacho. Já pensou no seu computadorzinho dentro
de um aquário? Iiiiih! Escorregou da mão! Pois é. Lá se foram seus
dados.
Nos trópicos, chuvas torrenciais podem cair a qualquer momento
e não há aparelho eletrônico totalmente seguro contra as forças da
natureza. Uma rápida inversão térmica, comum na base de muitas
montanhas europeias, pode simplesmente inutilizar muitos equipa-
mentos eletrônicos, temporária ou permanentemente. Assim como,
o calor escaldante dos desertos ou das savanas africanas.
Eu gosto muito de cadernos com arame espiral, pois dá para reti-
rar mais facilmente páginas com anotações erradas. Além disso, são
mais fáceis de virar as folhas e permitir a transcrição das informa-
ções para as planilhas eletrônicas no laboratório. Pranchetas com
folhas e tabelas de campo podem substituir o caderno. Para quem
34
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
trabalha diretamente na água, uma placa de PVC branca também
pode servir de caderno e você pode escrever nela com lápis comum.
Dicas importantes:
► Se você tem boas condições econômicas e sabe fazer uso de equi-
pamentos eletrônicos, pode substituir o caderno de campo por
um palm-top, notebook ou similar. Mas fique atento às circuns-
tâncias da natureza (rios, lagos, poças, intempéries) e aos impre-
vistos (possibilidade de quedas, tombos).
► Ter cópias é fundamental. Por isso, grave sempre seus dados de
campo, tabelas, fotos e planilhas, num pen-drive ou dois (pen-
drives costumam falhar). Sempre faça cópias de seus dados de
campo e guarde-as em lugares diferentes.
► Baterias novas (carregadas, obviamente) são equipamentos bási-
cos.
► Outra informação interessante: já há no mercado papéis à prova
d’água e canetas que escrevem até embaixo d’água.
► Ah! Dinheiro também é um bom equipamento.
b) Gravador – Um gravador portátil pode ajudar muito, inclusive
substituindo o caderno de campo algumas vezes, embora exista o
inconveniente de obrigá-lo a transcrever as informações e o risco de
algum barulho confundir o que foi dito por você.
O gravador pode ser muito útil para captar sons dos animais tam-
bém. Hoje em dia, há inúmeros modelos, de vários tamanhos e pre-
ços. Escolha o mais preciso, com melhor tempo de duração da bate-
ria, de menor tamanho e mais silencioso.
Dicas importantes:
► Hoje, muitos aparelhos de MP3, MP4, telefones celulares etc., per-
mitem gravar sons, mas existem equipamentos específicos para a
gravação de sons de aves, anfíbios e animais aquáticos, por exem-
plo. Muitas vezes você vai precisar acoplar ao equipamento um
microfone direcional ou um hidrofone (microfone subaquático).
► Esses equipamentos são bem mais caros e, quando o uso for even-
tual ou esporádico, é sempre bom buscar a parceria com colegas
que já os tem. Não desperdice recursos financeiros, adquirindo
bens materiais supérfluos ou cujo uso não será extensivo. Apren-
da a compartilhar com os colegas.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
35
c) Câmera fotográfica e filmadora – Há uns dez anos atrás, uma
boa câmera fotográfica, com conjunto de lentes macro (para fo-
tografar animais pequenos, detalhes de flores, por exemplo) e
teleobjetiva (para animais e objetos distantes), além de muito dis-
pendiosa ainda tinha os custos dos filmes e de revelação. Atual-
mente, com a revolução tecnológica da última década, tudo ficou
muito mais fácil. As câmeras profissionais não são mais tão caras
e podem ser encontradas com facilidade na maioria dos países.
Você coloca as fotos num pen-drive, vai a um supermercado e
você mesmo as imprime. O mesmo é válido para filmadoras que
inclusive se tornaram muito mais compactas, práticas e de fácil
manuseio. Entretanto, uma gama enorme de câmeras amadoras,
com excelente resolução, muitas com zoom e outras que permi-
tem uma boa aproximação para flores e objetos pequenos podem,
muitas vezes, substituir as câmeras profissionais, além de pro-
duzirem pequenos filmes. Isto proporcionou uma verdadeira re-
volução na documentação de comportamentos, tanto de animais
como humanos.
Um detalhe importante é que as fotos e filmes podem ser armazena-
dos, reconfigurados e eletronicamente manipulados com um grande
número de programas de computador que surgem a cada dia.
Dicas importantes:
► A leitura dos manuais é de fundamental importância, pois a infi-
nidade de recursos presentes nesses novos equipamentos requer
treino para seu uso e manipulação. Um excelente equipamento
nas mãos de uma pessoa destreinada pode trazer resultados frus-
trantes. É muito comum que, por inépcia, o usuário apague as
imagens, sem antes salvá-las.
► Os programas de computador permitem aumentar ou diminuir o
brilho, a nitidez etc. Mas tome cuidado com o seu uso, para não
alterar artificialmente a realidade da documentação fotográfica
ou da filmagem. Preserve sempre sua credibilidade.
Material de Observação:
d) Binóculo e lupa manual – Para se observar animais à distância, um
binóculo, ou até mesmo uma luneta, é muito útil e importante. Há
binóculos de todos os tamanhos, potências e preços. Se você for um
ornitólogo (ou mesmo observador amador de aves) ou um mastozoó-
36
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
logo, recomendo que, logo de cara, já adquira um bom binóculo, pois
vai valer a pena o investimento.
Um bom binóculo também pode ser útil para entomólogos, espe-
cialmente para quem estuda borboletas, abelhas e libélulas, e tem a
vantagem adicional de ainda poder ser usado em eventos esportivos,
shows, para ver a lua etc., mesmo se você desistir de estudar compor-
tamento animal. Portanto, não será um dinheiro jogado fora.
Uma lupa manual é excelente para quem trabalha com pequenos ani-
mais no campo, ou para quem precisa examinar detalhes em partes
específicas de animais capturados ou de vegetais que são utilizados
ou consumidos por esses animais. Existem lupas com uma pequena
lâmpada adaptada e uma alça para prender na testa, que são muito
boas para quem estuda Biologia da Polinização.
e) Lanterna – É mais um equipamento com extrema variação de preço
e tamanho. Pode ser usada tanto em ambiente seco quanto úmido,
ou mesmo debaixo d’água. É um equipamento obrigatório mesmo
para quem não vai ao campo à noite. Você pode precisar iluminar
um oco de árvore, por exemplo, ou seu carro pode quebrar e você ter
que passar a noite no mato.
Para quem lida com invertebrados, ter um pedaço de papel celofane
vermelho para colocar na frente da lanterna é essencial. Insetos e ara-
nhas não enxergam a luz vermelha e você irá perturbar muito menos
o comportamento desses animais se os observar à luz vermelha.
Uma boa lanterna também é um equipamento básico de segurança.
Certa vez, eu estava trabalhando sozinho em uma savana, durante
a noite, o que é uma tolice! De repente, percebi que estava sendo
seguido por alguém que não se identificou. Caminhei um pouco na
direção da pessoa, que se afastou e se escondeu. Prendi minha lan-
terna num galho de árvore, direcionando o foco para o último ponto
em que vi o vulto, e me afastei na direção oposta, fazendo o contorno
pelo mato, até alcançar a segurança do meu veículo novamente. A
lanterna foi de fundamental ajuda, neste caso.
Material de Orientação:
f) Bússola ou GPS – A velha e boa bússola ajuda muito, mas o GPS é
um equipamento cada dia mais acessível, devido à queda em seu
preço de venda. Atualmente, o GPS (Global Positioning System) é um
equipamento básico para marcação de localidades, medição de dis-
tância e para esquadrinhar áreas naturais. Hoje, muitos telefones ce-
lulares já vêm com as funções de GPS acopladas. São equipamentos
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
37
de fácil uso e manuseio e com enorme confiabilidade dos dados que
captam, armazenam e podem transmitir. Para quem trabalha nos
trópicos, como a Amazônia, as savanas tropicais e as florestas chu-
vosas do Sul da Ásia, ou ainda em regiões remotas, como desertos
quentes ou frios, o GPS é um equipamento obrigatório em qualquer
kit de sobrevivência.
Dicas importantes:
► Considero o telefone celular um equipamento básico de orienta-
ção e segurança.
► Sem um carregador adaptado à bateria do veículo, o telefone celu-
lar não serve para nada. Dica de quem já ficou na mão!
Material de Coleta de Informação:
g) Trena – Serve para a medição de distâncias e alturas, sendo um dos
mais úteis equipamentos para registro de trabalhos de campo.
h) Paquímetro – Este instrumento, que consta de uma escala graduada
fixa, duas garras e um cursor, permite a medição precisa de animais,
partes de seus corpos e partes florais, por exemplo.
i) Cronômetro – É um instrumento indispensável para o registro de
comportamentos, para quantificação da duração de atos comporta-
mentais.
j) Termômetro e termo-higrômetro – Desnecessário dizer que um
termômetro serve para medir a temperatura, mas há muitas varia-
ções deste instrumento, desde os comuns, aos mais complexos, que
marcam a temperatura máxima e mínima. Já um termo-higrômetro,
além de medir a temperatura, também afere a umidade do ar.
k) Oxímetro e pHmetro de mão – O oxímetro é o instrumento que de-
termina, fotoeletricamente, a saturação de oxigênio na água. O pH-
metro é o aparelho usado para medição do pH da água. Medir a oxi-
genação e o pH da água pode ser necessário para ictiólogos, herpe-
tólogos e limnólogos, em seus estudos associados a comportamento.
l) Refratômetro – O instrumento utilizado na medição do índice de
refração de uma dada substância permite medir as quantidades de
açúcares (geralmente frutose) presentes em nectários e exsudações
vegetais.
m) Balança e pesola – Uma balança e uma pesola (balança vertical
manual) são equipamentos básicos, quando se pretende capturar pe-
quenos animais para conhecer seu peso.
38
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Dica importante:
► Em alguns países, é bom andar com uma declaração com o objeti-
vo da pesola, para não ser confundido com traficantes de drogas,
que fazem muito uso deste equipamento.
Não se assuste com esta lista, pois você não vai precisar de tudo
isso. O tamanho de sua mochila de campo vai depender das res-
postas que você quer obter. Tem gente que jamais vai usar um
medidor de pH, outros que nunca usarão um refratômetro e as-
sim por diante.
Material para Coleta:
n) Luvas – São muito úteis no manuseio de invertebrados e também na
manipulação de aves e mamíferos (especialmente roedores e mor-
cegos).
o) Pinças – Há pinças dos mais variados tamanhos e formatos. Aquelas
que estarão em sua mochila deverão atender as suas necessidades.
Por exemplo, uma pinça fina, do tipo de relojoeiro, é útil para quem
vai trabalhar com animais bem pequenos, ou para quem vai precisar
fazer manipulações em flores e botões. Pinças médias, com borda
rombuda, é apropriada para quem quer capturar pequenos insetos
e aranhas, sem ferir os animais. Pinças grandes, com mais de 30cm,
são indicadas para quem vai manipular animais perigosos como
aranhas, escorpiões e morcegos. O bom senso do pesquisador deve
prevalecer sempre.
p) Redes de captura e puçá – Em muitos lugares, especialmente nos
países tropicais, estes importantes apetrechos são vendidos apenas
com autorização oficial do governo.
Um puçá feito de filó, ou melhor, de organza, é um equipamento de
campo básico para todo entomólogo. Na verdade, o puçá nada mais
é que um enorme coador de café (figura 2.3). Com ele, você pode
capturar pequenos espécimes: borboletas, abelhas, vespas, libélulas
etc., com o objetivo de atender às necessidades de seu estudo: sexar o
animal (examinar o sexo), marcá-lo, medi-lo e pesá-lo.
Na figura 2.3, apresento algumas dicas de como fabricar seu próprio
puçá. Você vai precisar de um cabo de vassoura, um pedaço de ara-
me resistente (pode ser um cabide de roupas) e um pedaço de tecido,
o qual recomendo que seja organza branca ou azul-claro. Algumas
vezes, seu puçá pode ser um pequeno frasco coletor (Figura 2.8).
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
39
Figura 2.3. Para construir um puçá, pegue um cabo de vassoura (1) e um peda-
ço de arame firme (2). Dobre o arame para formar um aro com ele,
com um diâmetro (x) de 20 a 25cm. Recorte o tecido nas dimensões
e formato indicados na figura. Faça uma dobra no meio (linha pon-
tilhada) e costure (A + B), a fim de formar um saco. Ponha a boca
do saco sobre o arame e costure novamente para prender o saco
ao arame. Agora é só amarrar o arame no cabo de vassoura e está
pronto o seu puçá.
q) Potes para coleta – Se você trabalha com invertebrados, como inse-
tos diminutos, como apanhá-los sem esmagá-los, ou sem que fujam?
Potes coletores, de plástico ou de vidro, de diferentes tamanhos, são
muito úteis para isto. Esses potes precisam ter dois furos. Você suga
de um lado, criando um vácuo e o animal é puxado para dentro do
pote. Veja como fazer o seu na figura 2.4.
40
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Figura 2.4. Para fazer seu frasco coletor ou aspirador basta pegar um pote de
vidro com uma tampa ou rolha. Faça dois furos na tampa ou ro-
lha. Passe um tubo flexível por cada furo. Ponha uma pequena tela
sobre o furo no qual você vai por sua boca, a fim de impedir que
engula os insetos. Está pronto! Agora é só "chupar" os bichinhos
para dentro do vidro.
r) Tesouras – Podem ser necessárias, tanto para o corte de pequenos
pedaços de vegetais, quanto para a preparação de materiais de iden-
tificação no campo.
s) Material de herborização – Muitas vezes, você vai precisar saber
a espécie vegetal sobre a qual seu modelo de estudo foi observado
fazendo alguma coisa (pousado, comendo, repousando etc.). Então,
você vai ter que saber como coletar e prensar o material, para fu-
tura análise. Assim sendo, é bom saber como montar uma prensa
de campo e como herborizar corretamente o material. Uma prensa
simples de campo consiste de duas placas de madeira, fazendo um
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
41
sanduíche com duas placas de zinco (opcionais), folhas de papelão e,
por fim, jornal contento o material vegetal no meio (figura 2.5). Tudo
isso amarrado por cordões ou barbantes.
Figura 2.5. Esquema de prensa para material vegetal (herborizador).
Dica importante:
► Para diferentes tipos de invertebrados há diferentes tipos de equi-
pamentos, muitas vezes específicos para um determinado grupo.
Procure informações na internet, em publicações específicas ou
com colegas.
Vestuário:
t) Roupas – Este é um dos itens mais importantes para quem trabalha
com comportamento. As roupas devem ser confortáveis (nem quen-
tes, nem frias); devem proteger as partes expostas da excessiva ra-
diação solar e de animais e plantas que podem lhe causar injúrias.
42
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Por exemplo, formigas, aranhas, escorpiões, pernilongos, plantas
urticantes etc.
Dica importante:
► Sugiro sempre cobrir a boca da calça com a meia ou apertá-la com
um elástico. Pense como um escorpião que está no solo, vendo
um tênis e uma calça comprida acima dele: “Oba! Um morrinho
para subir e entrar num túnel escuro, úmido e quentinho... Que
beleza!”. Pois foi exatamente isso que aconteceu com minha espo-
sa, quando estávamos no campo. Por sorte, ela não foi picada. De
fato, foi muita sorte, pois estávamos a mais de 100 quilômetros de
distância de um hospital razoável.
As cores das roupas usadas pelos pesquisadores, no campo, tam-
bém são de grande importância, pois, como veremos mais à fren-
te, elas podem influenciar no comportamento do animal observa-
do, estimulando ou inibindo comportamentos.
u) Calçados – A importância deste item deve-se ao fato de que, no
campo, o pesquisador é obrigado a caminhar grandes distâncias e a
permanecer muito tempo em pé. No laboratório, o pesquisador per-
manecer parado por um longo tempo. Por isso, é muito importante
que você perceba como os calçados ou as roupas influem em sua
circulação sanguínea.
Dicas importantes:
► Botas e perneiras são importantes proteções contra serpentes.
► Talco mentolado nas botas afasta carrapatos.
v) Proteção para a cabeça e para a pele – Chapéu, boné ou mesmo um
guarda-sol pode ser necessário, dependendo do grau de exposição à
luz ao qual você estiver sujeito durante seu estudo.
Dica importante:
► Embora isto nada tenha a ver com o vestuário, se você for traba-
lhar nos trópicos, é bom reservar dinheiro para comprar muito
protetor solar (FPS de 30 para cima).
w) Traje de mergulho – Aqueles que vão trabalhar em ambiente aquá-
tico provavelmente precisarão de trajes de mergulho feitos de neo-
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
43
prene com, pelo menos 4 milímetros de espessura, pois os riachos
tropicais são muito frios. Dê preferência ao traje azul-escuro ou pre-
to, pois essas cores apresentam menor influência no comportamento
dos peixes.
Materiais Diversos e Equipamentos de Laboratório:
Há uma grande diversidade de materiais que podem lhe ser úteis, des-
de produtos químicos até pequenos utensílios domésticos.
x) Produtos químicos – Álcool etílico, éter sulfúrico, água oxigenada,
acetona, formol, ágar-ágar e detergente são produtos muito usados
em comportamento, principalmente com a função de acondiciona-
mento e preservação de materiais coletados.
y) Recipintes – Potes de vidro e/ou plástico, desde diminutos tubos
eppendorf, potes coletores para exames laboratoriais de urina e fe-
zes, até grandes sacos de plástico e pano podem ser úteis para acon-
dicionar e transportar animais do campo para o laboratório.
Mais uma vez o bom senso deve imperar. Como o que mais coleto
são pequenos artrópodes, prefiro potes plásticos de acrílico transpa-
rente com tampa de pressão, pois são muito duráveis, leves, de fácil
manuseio e permitem um exame detalhado do animal em seu inte-
rior. Muitas vezes, podemos fotografar partes do corpo do animal,
através do pote.
z) Utensílios de laboratório – Placas ou discos de Petri, bandejas plás-
ticas, lâminas de vidro, algodão hidrofílico, algodão hidrofóbico, al-
finetes entomológicos, etiquetas, papel vegetal, papel de filtro, placas
de isopor e canetas especiais (para escrita em plástico, vidro e metal)
são coisas básicas que sempre me ocorrem na montagem de um la-
boratório, ou quando tenho que comprar material de consumo para
manutenção.
Alguns equipamentos podem ser fundamentais para a realização de
um bom trabalho.
● Estereomicroscópio – Ter um bom estereomicroscópio (lupa
de mesa) é de fundamental importância para a observação de
detalhes de partes dos corpos dos animais, ou do comporta-
mento de animais pequenos, como formigas e pseudoescor-
piões. Este equipamento, assim como o microscópio óptico, é
imprescindível para a fase de identificação de material animal
e vegetal. Para você identificar a espécie com a qual trabalha,
44
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
ou alguma espécie de interesse para o seu estudo, você terá
que lidar com chaves de identificação que vão de ordens e fa-
mílias, até gêneros, espécies e, algumas vezes, subespécies.
As estruturas que separam os animais podem ser muito pe-
quenas, como um detalhe na asa de um besouro, ou um pelo
diferente no dorso de uma abelhinha. Como estes equipamen-
tos costumam ser muito caros, os pesquisadores só conseguem
adquiri-los através da ajuda de órgãos governamentais de fo-
mento à pesquisa. Se você não tem, mas precisa de um deter-
minado equipamento, peça a ajuda de colegas de um laborató-
rio que tem o equipamento e ofereça sua colaboração. Lembre-
se de que uma mão lava a outra e é dando que se recebe.
● Balança analítica de precisão – Ter uma balança analítica de
precisão, com até três casas decimais abaixo do zero, é sempre
bom. Mesmo para quem for trabalhar com ursos, pode haver
a necessidade de se pesar e quantificar pequenas sementes de
gramíneas, eventualmente encontradas em suas fezes. No caso
de pequenos peixes, anfíbios, passarinhos, artrópodes, dife-
renças mínimas no peso dos animais podem trazer importan-
tes informações sobre seu comportamento.
Há ainda alguns outros equipamentos que eu gosto de ter sem-
pre à disposição, pois eles podem apresentar usos diversos.
● Aquário / terrário – Além de servir para acondicionamento
de peixes, um aquário pode ser facilmente convertido em um
terrário. É um recipiente barato, portanto não entre nessa de
pagar caro e prefira o “faça você mesmo”. A vida é para ser
divertida. Veja bem: o que é um aquário além de cinco lâminas
de vidro e um tubo de cola de silicone unidos com muita paci-
ência e capricho?
O mais importante é como você vai montar o aquário. Há mui-
tas dicas sobre isso em revistas e livros de aquariofilia. Eu sem-
pre montei aquários muito simples e que quase não me dão
trabalho com manutenção:
1) Uma placa perfurada no fundo, com um tubo plástico,
onde entra uma bomba submersa (o chamado filtro bio-
lógico) vai puxar a sujeira para o fundo.
2) Cubra a placa com uma camada de lã de vidro ou manta
acrílica, depois cascalho fino, areia fina e lavada, casca-
lho fino e cascalho grosso, nessa ordem, de baixo para
cima. Coloque plantas verdadeiras – nada de plástico.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
45
Vallisneria spiralis é uma ótima opção, por ser uma plan-
ta muito resistente. Está pronto o seu aquário (figura
2.6).
Dicas importantes:
► Muito barulho de bomba de ar e muita iluminação podem causar
estresse excessivo nos animais. Por isso, a bomba e a iluminação
devem ser ligadas por pouco tempo, o suficiente para puxar a
sujeira para o meio das pedrinhas.
► Dois banhos de luz, de duas horas por dia, costumam ser sufi-
cientes.
Se você pegar este mesmo aquário e, em vez de enchê-lo de água,
colocar nele folhas secas, algumas pedras e galhos e um pouco de
areia fina no fundo, poderá transformá-lo em um terrário para
lagartos e aranhas, por exemplo. Esse terrário pode ainda ser um
excelente microestúdio fotográfico para fazer registros de insetos
e outros animais que, no campo, fugiriam.
iluminação
Cascalho fino e grosso
areia
Cascalho fino
Manta acrílica
Placa perfurada - base do filtro
Figura 2.6. Esquema geral para montagem de um aquário simples, básico. Mo-
delo para estudos com água doce.
46
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Se, de alguma maneira, insetos estiverem envolvidos em seu estudo,
montar uma coleção de insetos é muito bom. Há inúmeros livros de entomo-
logia, escritos ou traduzidos para as mais diversas línguas ensinando como
fazer isso5
. É bem simples: basta uma caixa de madeira (30cm de largura,
45cm de comprimento, 7cm de altura) com uma tampa de vidro. No interior,
uma placa de isopor (1cm) que cubra todo o fundo servirá para o iniciante
fixar os animais coletados, que devem ser montados da forma correta5
. Visite
uma coleção de insetos em um museu de zoologia perto de você, quando tiver
a oportunidade. É muito interessante.
Muitos outros utensílios e equipamentos poderiam ser descritos aqui
como ferramentas básicas para o estudo do comportamento animal. Como já
foi dito, use seu bom senso: não adquira todos os materiais de uma só vez.
Veja antes o que você vai precisar e peça dicas a colegas mais experientes.
Há ainda uma ferramenta que, sem ela, você não fará nada. Ela se cha-
ma curiosidade! Ser curioso é fundamental para ser um bom biólogo, um ex-
celente etólogo e um ecólogo comportamental de primeira linha. Curiosidade
pode ser treinada, portanto treine essa sua capacidade. Como? Saia da frente
da televisão, de seu amado computador, fuja dos convites de páginas de bate-
papo. Leia mais, converse mais com os colegas. Vá bater papo de verdade com
amigos, cara a cara e preste atenção nos movimentos, nos detalhes, nos dife-
rentes sorrisos, nas nuances. Vá ao campo, a um parque, a um quintal florido.
Feche os olhos e tente ouvir, tape os ouvidos e tente enxergar mais longe, tente
sentir os cheiros das flores à distância. Se você quer ser um ecólogo compor-
tamental do primeiro time, você precisa ser uma pessoa curiosa, atenta aos
detalhes e paciente. Isto vai inclusive aumentar suas percepções humanas.
2.3. Conhecendo o objeto de estudo
Muito bem, estamos caminhando em nosso aprendizado. Até aqui, já
vimos:
þ um pouco da história do Comportamento Animal, da Etologia e da
Ecologia Comportamental;
þ que é muito importante ser curioso e gostar do que se vai estudar;
þ que existem algumas regrinhas básicas, tais como o uso correto de
alguns termos;
þ que há um monte de materiais simples, baratos que podem ser muito
úteis;
þ que uma pessoa comum, curiosa, estudiosa e dedicada pode se ani-
mar a fazer um bom trabalho de pesquisa em comportamento.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
47
Neste capítulo, vou continuar chamando sua atenção para alguns pon-
tos muito básicos, mas que muita gente esquece e acaba, desnecessariamente,
passando por dificuldades, quando vai realmente iniciar seu estudo. Um des-
ses pontos básicos é que, após escolher qual será seu objeto de estudo, animal
ou grupo de animais, você precisa se familiarizar com a anatomia e também
com comportamentos comuns do grupo a ser estudado. Como você pretende
descrever o comportamento de um animal se você não sabe os nomes corretos
das diferentes partes do corpo desse animal? Vejamos a seguinte descrição:
“Um Diptera, Sepsidae, pousou sobre o ramo mais apical da planta, tocando
com os tarsos do primeiro par de pernas nos nectários extraflorais. A seguir,
o animal dobrou as tíbias anteriores e apoiou o clípeo sobre a base do nec-
tário”. Muito bem, o problema já começa se eu não sei o que é um Diptera
(moscas, mosquitos, pernilongos). Se não sei como é um espécime da família
Sepsidae, pode complicar, pois há moscas enormes, de mais de 7 centímetros
de comprimento, e um Sepsidae pode ser menor que um pernilongo. Tenho
que saber também o que é um trocanter, uma tíbia, um tarso, um clípeo etc.
Tenho que estar familiarizado com os nomes das partes do corpo do animal,
para poder descrevê-lo (figura 2.7).
Figura 2.7. Desenho esquemático de um Diptera: Sepsidae com os nomes de
algumas das partes de seu corpo.
48
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Dependendo do estudo que você está fazendo, não apenas os nomes
das partes do corpo do animal que você estuda serão suficientes. Se esse ani-
mal vive em plantas (dentro de uma flor, por exemplo), você precisará saber
os nomes das diferentes estruturas florais.
Se você estiver no campo ou no laboratório, observando e descrevendo
um comportamento e, num determinado momento, não se lembrar do nome
de alguma estrutura necessária para sua descrição, faça um desenho esque-
mático do animal e marque a estrutura em questão. Saber desenhar é uma
arte, um dom que pode ser aprimorado. Mesmo que você não tenha esse dom,
nada o impede de fazer um esquema, um esboço que lhe permita lembrar a
forma e localização de uma estrutura, para depois registrá-la adequadamen-
te na sua descrição. Conheço algumas pessoas que desenham relativamente
bem, mas não sabiam disso, simplesmente por nunca antes terem tentado.
Tente! Quem sabe, você não é uma dessas pessoas?
Qual o horário de atividade do animal que você pretende estudar? Esta
é outra importante questão. Você precisa saber disso para saber em que horas
irá para o campo e para ter uma ideia mais clara do tipo de material que vai
precisar.
O animal que você pretende estudar apresenta algum tipo de sazona-
lidade? Ou seja, ele fica mais ativo em um determinado horário do dia, mais
do que em outros? O tipo de alimento preferido varia com a época do ano?
Quanto tempo ele vive? Quanto tempo ele demora para atingir a vida adulta?
Qual a razão sexual (machos x fêmeas) da espécie? Ele tem um período espe-
cífico para se reproduzir? Há muita diferença entre o tipo de vida dos jovens
e dos adultos? Ele pode migrar?
Imagine uma lagarta de borboleta e uma borboleta adulta... Quanta di-
ferença!
Dessa forma, toda e qualquer informação disponível na literatura
existente vai ser importante, mas algumas delas você mesmo terá que des-
cobrir.
Quando, onde e o que estudar!
2.4. Familiarizando-se com o animal e com o ambiente
Entre estudar no campo e em laboratório, há quem prefira mil vezes o
campo, quem não queira sair do laboratório por nada deste mundo e quem
se dá bem nos dois ambientes. Nos estudos de comportamento, mesmo que
você não goste, que não se sinta muito bem em um ou outro ambiente, tan-
to o laboratório, quanto o campo, poderão trazer respostas complementares
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
49
ou confirmações definitivas para suas questões. Por isso, é bom ter a men-
te aberta para a possibilidade de explorar um local de trabalho no qual, a
princípio, não se sinta muito confortável. Muitos alunos que já foram para
excursões de campo comigo abominando a ideia de ir ao campo, acabaram
gostando. Muitas vezes, esqueceram as dificuldades e se admiraram com as
belezas a sua volta (figura 2.8). Mas o oposto também ocorre e até com certa
frequência.
A B C
D E F
Figura 2.8. No alto, pesquisadores em um barco observando botos, trabalhan-
do com biologia de polinizadores e escavando um ninho de formi-
ga. Abaixo, a paisagem à frente dos pesquisadores, no momento
em que executavam seu estudo de campo.
Uma coisa muito importante é você não trabalhar com limitações pes-
soais. Se não gosta mesmo de trabalho de campo, ajuste seu interesse às con-
dições de estudos manipulativos em laboratório. Se não tolera ir ao campo
à noite, fica com sono, ou tem receio, fobias, não lute contra suas limitações
individuais, se elas forem fortes. Isso só lhe trará sofrimento e problemas para
seu estudo (possivelmente falhas). Se não sabe nadar, evite os rios, lagos e o
alto mar.
As mesmas ponderações que faço em relação ao ambiente de trabalho
também valem, ainda com mais propriedade, para o objeto de estudo. Veja as
fotos a seguir (figura 2.9).
50
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
A B C
Figura 2.9. A. Lagarta de borboleta se alimentando em folha de Polteria
ramiflora (Sapotaceae). B. Aranha migalomorfa. C. Cascavel (gê-
nero Crotalus).
Você imagina que tem gente que morre de paixão pela caranguejeira
da foto central? Pois é, tem maluco pra tudo nesse mundo, não tem? Mas se
você é como eu, e tem medo só de olhar para a foto, porque vai inventar de
trabalhar justamente com o comportamento dessas aranhas? Esta aí era maior
que a minha mão! Tirei a foto para um aluno que queria muito. Ao me deitar
ao lado da aranha, pedi que ele ficasse com um pedaço de pau na mão, pronto
para evitar que ela se virasse para mim. Eu disse a ele: “Se ela pular em mim,
eu mato você depois!”.
Não lute contra suas limitações individuais, quando elas são muito for-
tes – não vai dar certo. Você vai ter medo, receio, ou nojo e não vai conseguir
registrar os dados com a mesma facilidade, paciência e determinação que fa-
ria com um animal que não lhe causa nenhum transtorno, ou pelo contrário,
que lhe cause prazer. Isto é o que você deve procurar. Se você sente atração ou
curiosidade pelas cascavéis (figura 2.9), vá em frente! Devem ser animais fan-
tásticos. O importante é que você se sinta bem, confiante, que goste do animal
e do ambiente no qual estuda. Isto é fundamental para o desenvolvimento de
um bom estudo.
Problemas físicos e limitações pessoais também têm que ser bem tra-
balhados. Se você tem problemas na coluna, como vai ficar sentado por muito
tempo, em uma mesma posição? Você deve procurar um trabalho de campo
ou laboratório que não tenha esta exigência, ou que, de tempo em tempo, per-
mita uma pausa. Se você não enxerga bem, ou não escuta bem, vá ao médico,
procure resolver o assunto antes de iniciar seu estudo. Em geral, para tudo
há uma saída, na maioria das vezes, mais simples do que imaginamos. Seja
flexível em suas escolhas: a vara que verga mas não se parte é a que perdura.
Para poder fazer um bom estudo, você deve examinar previamente as
condições climáticas do ambiente natural onde vai trabalhar. Procure saber
se há condições que exijam algum cuidado especial. Características simples
do clima, comuns, como uma brusca virada de tempo, com queda de tempe-
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
51
ratura acentuada, ou com pancadas de chuva, já podem prejudicar muito seu
esforço de campo. Uma ida ao campo mal planejada pode resultar em frus-
tração, em gasto financeiro desnecessário e mesmo em acidentes. Eu sempre
procuro saber se há possibilidade de chuvas fortes, a que horas o sol vai nas-
cer e se pôr, quais são as características fenológicas da vegetação, no período
do estudo. Vou explicar: na savana tropical, por exemplo, na estação seca, há
poucas plantas disponíveis para consumo pelos herbívoros, há poucos insetos
no campo, os mamíferos e aves ficam mais expostos e você consegue enxergar
longe na vegetação, pois ela fica aberta. Podem também ocorrer incêndios, o
que é um grande problema e perigo. No sul da Austrália, os meses de janeiro
e fevereiro têm sido terríveis, nesse sentido. Na estação chuvosa, a paisagem
muda completamente nas savanas. No Brasil, dentro de uma savana típica,
fica quase impossível você enxergar além de três ou quatro metros. As plan-
tas ficam cheias de folhas verdes, há muitos insetos, o calor é intenso e você
ouve, mas não vê as aves. Enfim, ao longo das estações, sua área de estudo vai
mudar, portanto esteja atento a isto.
Assim como o ambiente se transforma, o comportamento do seu ani-
mal de estudo, ou algumas de suas características anatômicas também podem
mudar. Muitos passarinhos trocam de plumagem entre as estações, mudam o
tipo de canto e podem migrar. Às vezes, a mudança é drástica dentro de um
mesmo dia. Os jacarés (Caiman crocodilus), por exemplo, passam a maior parte
do dia repousando e caçando por espreita, economizando energia e aprovei-
tando qualquer oportunidade de alimento fácil. Mas, durante a noite, ficam
muito ativos, ocupam todo o leito dos rios e passam a perseguir suas presas,
peixes, na maioria das vezes, com grande voracidade (figura 2.10).
Figura 2.10. Jacarés (Caiman crocodilus) em um rio do Pantanal matogrossen-
se, repousando durante o dia (à esquerda). Durante a noite (à di-
reita), podem ser vistos através do brilho dos olhos refletindo à
luz de lanternas, se deslocando constantemente por todo o leito
do rio.
52
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Antes de começar um estudo, procure aprender tudo que puder sobre
o seu objeto de estudo. Procure saber também sobre os outros animais com
os quais ele interage e sobre animais que podem representar algum perigo
ou incômodo a você, na área de estudo. Já vi gente enlouquecer, literalmente,
no pantanal Paraguai-Brasil, com a infinidade de pernilongos que atacam nos
finais de tarde. Algumas pessoas se desesperam, ou simplesmente caem no
sono, com trabalhos noturnos, outras não aguentam o calor ou o frio intenso.
Somos animais muito vulneráveis e limitados em muitos aspectos, por isso
devemos respeitar nossos limites, assim como aqueles impostos pela natu-
reza.
Parte do conhecimento animal é também reconhecer que o universo
sensorial dos animais é diferente do nosso. Assim sendo, apresentamos dife-
renças em percepção nos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato.
A compreensão desses aspectos vai evitar que você cometa muitos erros em
seu estudo, como veremos mais à frente.
2.5. Métodos clássicos de observação de comportamento
Agora, vamos começar a entrar em uma fase mais técnica do livro. Da-
qui para frente, vamos começar a orientá-lo no sentido de aprender a como
elaborar um projeto de pesquisa em comportamento e ecologia comporta-
mental.
Ao longo de todo o desenvolvimento do estudo do Comportamento
Animal, biólogos, psicólogos, naturalistas, veterinários e médicos têm
buscado por métodos e técnicas comuns que permitam principalmente a
padronização e a comparação entre estudos. Na sequência, vou descre-
ver e exemplificar as quatro técnicas de amostragem de comportamento
mais comumente indicadas6
: amostragem de todas as ocorrências, amos-
tragem de sequências, amostragem instantânea e amostragem do animal
focal.
a) Amostragem de todas as ocorrências – Em inglês, você irá encontrar
o termo all occurrence sampling, o que, na verdade, significa realizar
uma amostragem de comportamento à vontade, ad libitum. Nesse
caso, você registra tudo que você está observando. Nesse momento,
tudo que o animal faz ou deixa de fazer é parte de seu interesse.
Este método é vantajoso em várias situações, por exemplo, no início
do projeto, na fase de familiarização com seu objeto de estudo. É
bom também na padronização da metodologia que você vai usar
e no estabelecimento da confiabilidade intra e interobservadores.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
53
Considero este método básico, na fase de qualificação dos compor-
tamentos para a elaboração de um repertório comportamental ou
etograma. Aguente firme, pois, um pouco mais à frente, explicarei
como planejar uma proposta de estudo e falarei de etogramas. Não
ponha a carroça na frente dos bois! É importante que você siga a
sequência dessa leitura para que este livro realmente o ajude a se
orientar.
Esta técnica de amostragem à vontade é também muito interessante
para o registro de comportamentos fortuitos, raros ou inesperados.
Já pensou se você está no campo, observando um casal de urso-de-
óculos (Tremarctos ornatus), uma rara espécie que vive nos Andes, e
tem a oportunidade de observar todo o seu comportamento de corte
e cópula? Anote tudo, pois pode ser que ninguém nunca mais veja
isso novamente!
b) Amostragem de sequências – Este é o tipo de amostragem na qual
a ordem dos eventos é o que importa. Você está observando um
evento que ocorre em etapas, e cada detalhe é importante. Então,
você não pode perder o animal de vista, o que torna difícil regis-
trar tempo, frequência e o comportamento de outros indivíduos
(se for um grupo) e, até mesmo, fazer as anotações fica compli-
cado. Se for possível usar um gravador ou uma filmadora, essa é
uma daquelas situações onde esses equipamentos podem fazer a
diferença.
Mas quais são as situações para o emprego da sequence sampling? Por
exemplo, na descrição de um evento de corte e cópula. Como o ma-
cho reage ao perceber a presença da fêmea e o que ele faz a seguir?
Como se dá a aproximação, a corte, a subjugação da fêmea e, por fim,
a cópula? Algumas dessas etapas certamente serão subdivididas em
outras sequências mais detalhadas que exigirão toda a sua atenção
(figura 2.11).
Em algumas situações, o mesmo evento poderá ser observado várias
vezes, o que o auxiliará na definição das sequências de amostragem.
Em outras situações, você poderá estar lidando com um evento não
tão frequente, ou mesmo raro, que exigirá de você a capacidade de
perceber isso e mudar de método rapidamente. Nesse caso, recorra
à amostragem de todas as ocorrências, ao menos em um primeiro
momento. Neste tipo de situação, a quantificação de tempo com cro-
nômetro, anotações de mudanças de movimentos, deslocamentos e
posturas, podem ser necessárias.
54
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Figura 2.11. Exemplo da importância da amostragem de sequências. Corte e
cópula em Zelus leucogrammus (Hemiptera: Reduviidae)7
. O ma-
cho, à esquerda e menor (A), se aproxima frontalmente da fêmea.
Com toques usando suas pernas anteriores, o macho se aproxi-
ma (B) e vai se posicionando lateralmente (C) à fêmea, fazendo a
monta (D), durante a qual toca a cabeça da fêmea com seu rostro.
Na fase seguinte, ocorre a cópula (E). Reduvídeos são insetos co-
muns em toda a região Neotropical e apresentam comportamen-
tos muito interessantes.
c) Amostragem instantânea – Os snapshots, instantaneous samplings ou
fotografias de uma situação, são muito utilizados, principalmente,
para comportamentos lentos.
Já pensou em registrar o comportamento de deslocamento de uma
anêmona? A incrível distância de dois centímetros pode levar uma
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
55
semana para ser percorrida. Outra situação interessante é quando
você deseja anotar o comportamento de um grande grupo de indi-
víduos, por exemplo, uma colônia de formigas. Você tanto pode re-
correr ao método da amostragem de todas as ocorrências, quanto,
em intervalos regulares de tempo, fazer uma “fotografia”, ou seja,
um censo da situação, anotando os atos comportamentais exibidos
pelos indivíduos em um minuto, ou no tempo mais adequado para
isto. Você também pode ter uma lista de comportamentos e, durante
alguns minutos, checar, através de snapshots, quantos indivíduos es-
tão executando cada comportamento da sua lista, seguindo item por
item da lista. Ao final da primeira checagem, você terá um intervalo
de tempo fixo para o início do próximo censo, dentro da mesma ses-
são de observação. Em uma amostragem instantânea, os intervalos de
tempo devem ser um pouco maiores que os intervalos de tempo em
uma amostragem de todas as ocorrências. Isso, porque, na amostragem
instantânea, muitas vezes você trabalha com listas de comportamen-
tos e, geralmente, com grandes grupos de indivíduos. Além disso,
uma amostragem muito rápida pode supervalorizar comportamen-
tos mais demorados e desvalorizar comportamentos mais rápidos
ou raros.
d) Amostragem do animal focal – Este tipo de amostragem deve ser
usado para animais ou grupo de animais que podem ser “facilmen-
te” observados. Quando digo “facilmente”, quero que o leitor enten-
da isso como uma referência àqueles grupos de animais que per-
mitem uma boa aproximação do observador, que se habituam com
sua presença. Nesse tipo de amostragem, um indivíduo do grupo é
observado em intervalos definidos de tempo, anotando-se seu com-
portamento no momento da observação.
Quando aplicada em um grupo, a técnica do focal animal sampling
pode, na prática, se assemelhar muito a uma sequência de snapshots
feitos um a um, sobre cada um dos membros desse grupo. Por exem-
plo, imagine um grupo de cinco macacos com o qual você já está
familiarizado e é capaz de identificar cada membro do grupo. Você
pode construir uma tabela de campo que lhe permita anotar durante
cinco minutos o comportamento de cada um dos indivíduos. Como
fazer isso? No primeiro minuto, você anota tudo que o “Bocão” está
fazendo, ao final desse tempo você passa a anotar os comportamen-
tos da “Margarida”, ignorando os outros membros do grupo, exce-
to durante as interações. Depois, passa para a “Tica”, o “Lelé” e o
“Topete”. Ao final dos cinco minutos, você retorna ao primeiro in-
divíduo de sua sequência e vai repetindo esse procedimento até o
56
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
término de uma sessão de observação. O “Animal Focal” é uma das
técnicas mais empregadas em estudos de comportamento, especial-
mente de primatas e em condições de cativeiro.
Como você notou pelas descrições desses quatro métodos, que
são os mais empregados em etologia (tabela 2.1), pode haver muita
sobreposição entre eles. Isso é comum. Portanto, procure definir
claramente a metodologia empregada para, nos seus resultados,
apontar com clareza qual foi o método predominante em seu es-
tudo.
Mais uma vez, chamo sua atenção para a importância da leitura. Os
artigos científicos já publicados, seguidos pelas teses e dissertações
e, por fim, pelos livros didáticos, serão as principais fontes de refe-
rência a orientá-lo em sua escolha do melhor método de amostra-
gem.
Tabela 2.1. Quadro resumido dos tipos de amostragem e seu uso mais comum em
Comportamento Animal.
Tipo de
amostragem
Situação em que pode ser usada
Todas as
ocorrências
● Início de um estudo;
● Fase de familiarização com o animal;
● Para qualificação de comportamentos;
● Para comportamentos raros ou fortuitos;
● Para padronização de metodologia
interobservadores.
Sequências
● Quando interessa a sequência do comportamento;
● Quando um comportamento pode ser dividido
em fases ou etapas.
Instantânea
● Para estudo de animais muito lentos;
● Para estudo de animais em grandes populações;
● Para etogramas de insetos sociais em laboratório.
Animal focal
● Para grupos, quando se pode identificar cada um
dos membros do grupo;
● Animais que podem ser individualmente
observados com pouca dificuldade na natureza e/
ou no laboratório.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
57
2.6. Dicas para estudar o comportamento de invertebrados
Onde quer que você esteja, a maioria dos animais será formada por
invertebrados e mais de dois terços dos animais existentes serão artrópodes.
Esta é uma estimativa que, a cada dia mais, se torna confiável. Devido a esta
enorme abundância, há inúmeras espécies e muitos gêneros e famílias, to-
talmente, ou quase completamente, desconhecidas da ciência. A diversidade
representada pelo número de espécies irá refletir em uma diversidade pro-
porcional de diferentes tipos de comportamentos exibidos por esses animais,
com a finalidade de solucionar os três problemas básicos de todo organismo:
crescer e se desenvolver (figura 2.12A), sobreviver (figura 2.12) e se reproduzir
(figura 2.12C).
A B C
Figura 2.12. As lagartas de borboleta (A) em fase de crescimento e desenvol-
vimento precisam se alimentar, além de fugir de seus predadores,
pois tanto as borboletas jovens quanto as adultas (B) são alimento
de muitos consumidores secundários e terciários da cadeia trófi-
ca. A maioria das borboletas coloca seus ovos em folhas, botões
florais (C) e flores de angiospermas.
Sendo assim, tanto as formas jovens quanto os invertebrados adultos
representam uma excelente oportunidade de estudo para naturalistas e etó-
logos em todos os níveis, desde leigos até os profissionais mais graduados.
Há desde pesquisadores que estudam o comportamento de protozoários do
rúmen de bovinos e equinos8
até aqueles que estudam os complexos compor-
tamentos sociais em artrópodes9
– as possibilidades são infinitas. Como em
tudo, há vantagens e desvantagens para se escolher um invertebrado como
modelo de estudo. Na tabela 2.2, tentei listar as principais características po-
sitivas e negativas para o estudo desse grupo, em especial dos artrópodes,
quando comparados à maioria dos vertebrados.
Minha história com os invertebrados, em especial com os insetos e
aracnídeos, é uma história de coincidências, acasos e oportunidades. Como
58
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
todo jovem biólogo ou amante da natureza, a princípio, também fui seduzido
pelas maravilhas do mundo dos vertebrados: as baleias cantantes, o golfinho
Flipper, o cachorro Rin-tin-tin, Elza, a leoa africana, os gorilas das montanhas,
Chita, a macaca que acompanhava o Tarzan... enfim, toda a bicharada dos
filmes de nossa infância – a minha certamente mais antiga que a da maioria
dos leitores. Como dizem meus filhos, minha infância deve estar num tempo
muito, muito distante! E não podemos esquecer os primeiros documentários
da vida selvagem que nos encantavam, na década de 1970. Hoje, há inúmeros
programas de TV aberta e por assinatura que usam e abusam do mundo na-
tural e são ainda mais cativantes. Mais recentemente, para nossa surpresa, fil-
mes sobre escorpiões, formigas e invertebrados marinhos também começam
fazer parte desse repertório. Mas o fato é que a maioria dos estudantes que
nos procura está atrás de golfinhos, primatas, outros mamíferos e aves. Em
geral, são animais mais difíceis de serem estudados e cujos estudos demoram
bem mais para surtirem os resultados esperados: apresentações robustas em
congressos e publicações científicas.
Com o tempo, aprendi a não desestimular nenhum tipo de estudo, ne-
nhum tipo de vontade louca de um jovem estudante. A gente nunca sabe onde
pode estar um novo Darwin, Wallace, Bates, Müller, Timbergen ou Mayr –
quem sabe? Procuro ajudar, dosando a ansiedade do aluno, orientando sua
leitura, mostrando os custos e benefícios de sua decisão. Gosto de mostrar aos
estudantes as enormes possibilidades e o amplo e desconhecido universo que
existe no mundo escondido dos invertebrados. Se você procura por sangue e
glória, olhe bem para as formigas e aranhas (figura 2.13), pois elas têm tudo
isso em seu repertório comportamental.
Tabela 2.2. Principais vantagens e desvantagens para se ter um invertebrado, em
especial um artrópode, como modelo de estudo em comportamento. As
características foram descritas para os grupos mais comuns e abundan-
tes, tanto em ambientes tropicais, quanto temperados.
Vantagens Desvantages
● São muito abundantes e muito
diversos. Há sempre um perto
de você.
● Devido à grande diversidade, há
muitos problemas taxonômicos,
muitas espécies novas com caracte-
rísticas totalmente desconhecidas.
● Há maiores chances de encon-
trar novos comportamentos,
coisas diferentes e estimulan-
tes para estudar.
● A maioria dos invertebrados possui
hábitos crípticos.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
59
Continuação Tabela 2.2
● Seu curto ciclo vital permite
acompanhar toda a vida do
animal em estudo, no inter-
valo de semanas ou alguns
meses.
● Seu curto ciclo de vida permite pou-
cos – ou não permite – erros no estu-
do, pois pode não haver tempo para
mudanças.
● Muitos são de fácil captura,
marcação e manutenção em
condições laboratoriais.
● Por serem pequenos, podem fugir
mais facilmente.
● O fato de serem pequenos
facilita seu acondicionamento,
transporte e manutenção.
● Por serem pequenos, os detalhes de
seus comportamentos são mais difí-
ceis de serem observados.
● Permitem manipulações. ● Muitos são agressivos, peçonhentos,
urticantes, ou vetores de doenças.
● Há menores restrições legais
para coleta e manipulações
experimentais.
–
● A sazonalidade de muitas
espécies pode permitir con-
centrar seus estudos de campo
em uma determinada época
do ano.
● A sazonalidade de muitas espécies,
com período curto de presença visí-
vel no campo, limita muito as chan-
ces de sucesso do estudo.
● Podem se reproduzir com fa-
cilidade, mesmo em condições
laboratoriais.
● Podem ser muito susceptíveis a
parasitoides (insetos que parasitam
matando o hospedeiro).
● Muitas espécies não apresen-
tam inibição de seus princi-
pais comportamentos, mesmo
em condições laboratoriais, ou
na presença do observador.
● Apresentam um universo sensorial
totalmente distinto do nosso. Fica
difícil saber se as condições labora-
toriais, ou se nossa simples presença
no campo, realmente não interfere
no comportamento dos animais ob-
servados.
*Há inúmeras exceções que se aplicam a ambas as colunas.
60
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
A B C
Figura 2.13. A. Uma trilha de formigas-correição (army-ants), predando tudo
que encontra pela frente, no chão de savanas e florestas. B.
Uma formiga Ponerinae (Pachycondyla), predando um besouro
(Staphilinidae) sobre uma planta. C. Uma aranha Lycosidae com
um pequeno gafanhoto em suas quelíceras.
Se você quer um pouco de romance, intriga, sexo e drogas, a vida sexu-
al das abelhas e as flores que visitam, cheias de óleos, resinas, odores e outros
produtos químicos de origem vegetal, pode ser exatamente o que procura (fi-
gura 2.14A). Mas se mistério, perseguições implacáveis, estratégias ousadas e
agressivas deixam você excitado, as disputas entre vespas e aranhas são uma
excelente oportunidade (figura 2.14B).
A B
Figura 2.14. A. Abelha Halictidae inspecionando flores de Malpiguiaceae
(Byrsonima intermedia), de onde retirará óleos essenciais para a
criação e o desenvolvimento de suas larvas. B. Vespa Pompilidae
capturando e paralisando uma aranha (Araneidae), a qual levará
para um abrigo subterrâneo, onde depositará seu único ovo, do
qual sairá uma larva que, lentamente, devorará a aranha, parte
por parte.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
61
Tudo que eu pensava ser possível encontrar apenas em estudos com
grandes animais: emoção, entusiasmo, excitação, para minha enorme surpre-
sa, acabei encontrando, com muito mais facilidade e abundância, no mara-
vilhoso mundo das pequenas criaturas que nos rodeiam, o qual eu estimulo
fortemente que você explore, ao longo de sua decisão sobre o que estudar.
Para trabalhar com invertebrados, a primeira coisa a se decidir é se o
estudo envolverá campo, laboratório ou ambos. Na sessão de Ecologia Com-
portamental, você verá que este é um dos grandes trunfos de se trabalhar
com invertebrados. Você pode combinar estudos de campo e laboratório para
responder a perguntas mais complexas, que lhe permitam testar a função
adaptativa de comportamentos. Em sua maioria, são estudos complementa-
res, que podem ser multidisciplinares. Por exemplo, para entender o que uma
formiga faz com a semente que carrega entre as mandíbulas, experimentos de
laboratório podem mostrar se ela consome toda a estrutura ou se auxilia na
germinação da semente.
Outro ponto importante a decidir será o horário de trabalho. Eu, por
exemplo, prefiro imensamente trabalhar durante o dia, com luz natural, de
forma a enxergar melhor o que acontece, embora muitas das coisas mais in-
críveis que já observei no campo, eu tenha observado durante a madrugada.
Então, escolha um animal diurno, ou noturno, ou crepuscular, e veja como o
estudo se adéqua aos seus interesses ou possibilidades. O importante é você
se sentir bem no horário que escolheu para trabalhar.
Em geral, no campo, precisamos de um maior número de equipamen-
tos e utensílios para trabalhar com invertebrados do que com vertebrados.
Pelo simples motivo de que podemos capturá-los, medi-los, pesá-los e marcá-
los. Assim sendo, lembre-se de levar tudo que poderá necessitar, em uma boa
e prática caixa ou mochila de campo: linhas, tesouras, pinças, canetas, tintas
de marcação, papel celofane vermelho, lanterna, potinhos de vários tama-
nhos para coleta, puçá, lupas etc. Uma vantagem é que, apesar de ser em nú-
mero maior, os utensílios para trabalhos com invertebrados, geralmente, são
baratos, mais leves e, muitas vezes, podem ser improvisados.
Esteja sempre atento a tudo que ocorrer à volta de seu objeto de estudo:
insetos, aranhas, caranguejos e camarões podem, com facilidade, estar intera-
gindo com algum aspecto biótico ou abiótico do meio, sem que você perceba
isso. Mesmo que seja um animal desconhecido, deve haver alguma literatura
disponível sobre um animal próximo, procure ler essas informações antes de
ir ao campo ou de iniciar seus estudos de laboratório. Para manter o animal
em condição de cativeiro, essas informações são ainda mais preciosas: de que
temperatura e umidade ele gosta? Do que e quanto se alimenta? É básico sa-
ber essas coisas.
62
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Na manutenção em laboratório, alguns animais são incapazes de voar
e subir em paredes de vidro, o que facilita muito na prevenção das indesejá-
veis fugas. Quando os bichos são bons escaladores, há algumas substâncias
químicas que podem ser passadas nas paredes ou nas bordas do recipiente,
para impedir sua fuga. Se você não quiser usar nenhum produto químico,
um recipiente menor, dentro de outro maior com água, muitas vezes resolve.
A maioria dos invertebrados sobrevive bem em condições ambientais
normais, mas em regiões muito quentes, ou muito frias, ou muito secas, em
algumas épocas do ano, o uso de câmaras climatizadas pode ser adequado.
Algumas dessas câmaras são do tamanho de uma geladeira grande normal
(de 220 a 370 litros) e possuem controle de fotoperíodo, temperatura e umida-
de – não são muito caras e podem ser obtidas nas principais universidades.
Na maioria das vezes, principalmente para o iniciante, materiais sim-
ples e questões que podem ser respondidas no campo são mais adequadas
no estudo do comportamento de invertebrados. Devido a sua abundância,
facilidade de localização e observação na natureza e possibilidades de ma-
nipulação, esses intrigantes animais costumam cativar e estimular os novos
naturalistas, com respostas claras e, muitas vezes, rápidas de questões envol-
vendo os mais variados assuntos, como reprodução, predação e socialidade.
Em seus estudos iniciais, priorize escolher um animal comum, vistoso,
diurno, de fácil localização, captura e observação, como borboleta, besouro,
abelha ou formiga. Com esses animais, você poderá aprender mais rapida-
mente a dominar a metodologia da área. Isto é valido! Mesmo para quem está
mais interessado em trabalhar com vertebrados. Aprenda os métodos, tendo
um inseto como modelo!
2.7. Dicas para estudar o comportamento de vertebrados
Peixes, raias, sapos, lagartos, serpentes, tartarugas, passarinhos, ratos,
cachorros, golfinhos, macacos e muitos outros são, sem dúvida alguma, ani-
mais fascinantes. Especialmente, os que apresentam algum grau de sociali-
dade, como canídeos, felinos, primatas, são ainda mais cativantes para nós
humanos, justamente por sermos também animais sociais. Por isso, muitas
pessoas ficam até mesmo emocionadas quando estão realizando um estudo
de comportamento com vertebrados. Há alguns anos, assisti à filmagem de
um estudo de condicionamento operante voltado para o bem-estar animal,
com enriquecimento ambiental. O estudo foi feito em zoológico por uma cole-
ga que conseguiu retirar um gorila adulto de uma situação de total estresse. A
colega deixava uma câmera ligada enquanto trabalhava e, numa das últimas
filmagens, em um dado momento, ela se distraiu e encostou a cabeça na jaula.
O gorila se aproximou sem que ela percebesse e, num suspense terrível para
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
63
a plateia, que imaginava que algo ruim fosse ocorrer, o animal simplesmente
acariciou os cabelos da pesquisadora, que ficou paralisada. Metade da plateia
de etólogos que assistia a esta palestra caiu em lágrimas de emoção.
Pois é, não espere isso de uma borboleta! Mas, por outro lado, embora
esta cena seja realmente emocionante, ela não faz parte do cotidiano de nosso
trabalho, infelizmente. Muito poucos zoológicos dão condições ideais para
trabalhos de observação e menos ainda para manipulações. Em situação de
campo, avistar o objeto de estudo pode demorar horas, dias, ou meses como
é o caso de colegas que trabalham com baleias jubartes. Inúmeras teses co-
meçam com a Ecologia do comportamento do macaco fulano de tal e terminam
com Fenologia das plantas utilizadas pelo macaco fulano de tal ou Germinação das
sementes encontradas nas fezes do macaco Tião e assim por diante. Não quero
desanimá-lo, mas quero apenas alertá-lo para a realidade de que seus estudos
não serão mil maravilhas. Mas os persistentes, os estudiosos, os verdadeiros
amantes da história natural terão sua recompensa (figura 2.15).
Figura 2.15. Cópula de golfinhos-rotadores (Stenella longirostris), de Fernando
de Noronha. Fotografia feita por José Martins da Silva Jr., depois
de muitas e muitas horas de mergulho.
64
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
No geral, para aumentar o sucesso de iniciantes em estudos com ver-
tebrados, sugiro que se escolha um animal diurno, de fácil visualização, que
permita uma boa aproximação e que tenha boa tolerância quanto à presença
do observador. É imprescindível que o pesquisador seja calmo, paciente e es-
teja preparado para o fracasso. São tantos os problemas que podem surgir em
um estudo com alguns grupos de vertebrados que muitas pessoas rapida-
mente se desestimulam e desistem do estudo. Outros atropelam os métodos,
querem resultados a qualquer custo e acabam por comprometer todo o traba-
lho e o pior: sua credibilidade.
Problemas que podem surgir e que costumam desestimular os pes-
quisadores:
1) Embora o objeto de seu estudo seja interessante – o animal de seus
sonhos – ele foge de sua presença, e você só consegue saber um pou-
co de seu comportamento através de vestígios deixados, marcas de
sua atuação no ambiente, como galhos partidos, pegadas e fezes, o
que é muito é comum para canídeos, felinos, golfinhos e muito ou-
tros mamíferos.
2) Inibido pela sua presença, o animal fica tímido e não se habitua.
Mesmo em cativeiro (animais de zoológico), ele não faz nada, o que
é comum para primatas e felinos.
3) O animal é muito rápido, não fica parado o tempo suficiente para que
você compreenda um pouco do que ele está fazendo, o que é comum
para aves.
4) Como os grupos são muito grandes, você não consegue focar em
algum ou alguns indivíduos e o trabalho não se desenvolve, o que é
comum para aves e peixes.
5) O ambiente do seu animal de estudo é diferente do seu ambiente na-
tural e você simplesmente não consegue se adequar, ou não se sente
satisfeito com as limitações impostas pelo estudo. O pesquisador fica
frustrado, o que é comum para animais aquáticos e também para
animais noturnos.
Dicas para minimizar problemas e aumentar suas chances de su-
cesso:
1) Procure se familiarizar ao máximo com seu objeto de estudo, leia
sobre ele, a fim de aprender sobre sua anatomia, capacidades per-
ceptivas, forma de vida, alimentação, reprodução, se é territorial etc.
Enfim, aprenda tudo que for possível.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
65
2) Antes de iniciar o estudo, faça observações preliminares. Anote tudo
que vir o animal fazendo, anote livremente, sem preocupações.
3) Sabendo do horário de atividade do animal, chegue antes ao local
de trabalho e prepare-se para já estar com tudo pronto quando ele
entrar em atividade.
4) Use roupas discretas, de cores camufladas, pois cores chamativas
podem inibir ou afugentar o animal.
5) O cheiro do pesquisador pode elicitar ou inibir comportamentos,
portanto evite desodorantes perfumados. É melhor usar antitrans-
pirante inodoro. O mesmo é válido para protetor solar e repelente
de insetos.
6) Não faça barulhos, caminhe com suavidade, evite conversas e equi-
pamentos que produzem ruídos, músicas e sons (principalmente os
agudos).
7) Se conhecer alguém que já trabalhou com o “seu” animal, ou algum
parecido, converse bastante, peça dicas e opiniões, faça isso sem re-
ceio de parecer idiota. No começo, todo mundo faz perguntas idio-
tas. Pior é quem pensa que já nasceu sabendo!
8) Escolha um animal que esteja dentro de suas capacidades físicas para
acompanhá-lo no campo. Por exemplo, se você não sabe nadar, como
vai mergulhar para ver peixes em corredeiras? Se você está comple-
tamente sem preparo físico, como vai seguir muriquis (Brachyteles
arachnoides, macacos também conhecidos como monos-carvoeiros),
por quinze horas seguidas, na mata fechada? Ou estudar os carnei-
ros das montanhas? Tenha bom senso e humildade nessa escolha.
9) O seu primeiro animal deve ser abundante, atrevido (não se inibe
com humanos), conspícuo (vistoso e não se incomoda com isso),
diurno, de anatomia bem conhecida e descrita, já ter uma boa ba-
gagem de conhecimento existente sobre ele ou sobre algum parente
próximo.
Bom, pela dica número 9, você pode estar pensando agora: “Poxa,
esse cara quer que eu trabalhe com gato, galinha, cachorro!”. Não é má ideia
para treinar, antes de escolher um animal silvestre. Mas acredite em mim,
há muitos animais silvestres, especialmente nos trópicos, que vivem dentro
dos ambientes das cidades, que atendem a todos os pré-requisitos do item 9
e são praticamente desconhecidos da ciência, no que diz respeito a ecologia e
comportamento. Aqui no Brasil, há desde sapos, até serpentes, lagartos, aves
e mesmo alguns macacos que se encaixam nestas exigências.
Eu aconselho muito que você faça um curso de fotografia, básico, pelo
menos para aprender a usar direito os recursos de sua câmera ou filmadora.
66
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Quem trabalha com vertebrados vai ter a chance de fazer fotos incríveis e,
até mesmo, ganhar algum dinheiro com isso. Então, esteja preparado para
não falhar na hora certa. É muito bom também fazer parte de uma equipe,
poder se revezar nas observações ou ter companhia de campo. Além disso,
um mesmo animal pode fornecer material para diversas dissertações e teses
distintas. Muitas vezes, os dados podem ser colhidos simultaneamente. Esta
é uma das grandes, ou melhor, uma das enormes vantagens de trabalhar com
vertebrados. Devido à convivência de campo entre os colegas, amizades de
uma vida inteira podem surgir. Um pode querer matar o outro também, mas
nem é bom falar nisso! Pense positivo!
2.8. Marcando seus animais para estudo
Em muitos estudos com invertebrados ou vertebrados, é importante
que o pesquisador saiba exatamente “quem” é o animal que está observando,
medindo, pesando etc. Nesta parte do nosso pequeno guia ao estudo do com-
portamento, vou dar algumas dicas práticas para você poder marcar, possi-
velmente com sucesso, seu animal de estudo.
Bom, aqui começam outros problemas, você vai por as mãos no animal.
Se você vai capturar algum animal para identificação, para coleção científica
como material testemunho, trate de obter uma licença do orgão governamen-
tal responsável. Cuide-se, pois as leis de proteção à fauna e flora silvestres
estão cada vez mais rigorosas e a fiscalização está cada vez mais atuante, prin-
cipalmente nos países de grande biodiversidade. A preocupação maior é com
traficantes de animais e biopiratas. Infelizmente, mesmo alguns colegas de
profissão sacrificam desnecessariamente animais de estudo. Por esse motivo,
também somos constantes alvos de fiscalização.
O melhor, na etapa de marcação, é procurar por sinais pré-existentes
nos animais, evitando sua manipulação ou alteração de suas características
naturais. Cicatrizes, defeitos físicos, manchas, variações em um padrão de
coloração, dimensões, sexo, idade e, até mesmo, alguma peculiaridade com-
portamental, pode e deve ser usada, sempre que possível. Tenho alunos que
estudam aranhas de teia no campo, que marcam as animais pela posição,
tamanho ou idade, numerando as teias na vegetação próxima, sem perturbar
os indivíduos. Outros utilizam marcas em bugios, como um defeito na boca
e o sexo para identificá-los como Bocão, Topete (um tufo de pelos acima do
olho esquerdo), Mãozinha (pelos claros na mão direita de uma fêmea adulta)
e assim por diante.
Muitas vezes, não há outra opção a não ser capturar e marcar os ani-
mais. A seguir, vamos listar alguns grupos animais e sugerir modos de mar-
cação.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
67
2.8.1. Insetos e outros artrópodes
As borboletas são, talvez, o grupo de invertebrados nos quais mais se
empregam técnicas de marcação e recaptura, especialmente em estudos de
ecologia de populações e de comportamento animal. Na maioria das vezes
elas podem ser numeradas, com caneta especial, ou com caneta de retroproje-
tor, pode-se escrever o número na face inferior das asas do animal. Essa mar-
ca costuma persistir por várias semanas, tempo suficiente para a finalização
do estudo. Fazemos o mesmo com libélulas (figura 2.16). Quando capturamos
os Coeagrionidae com os quais trabalhamos, os aspectos de dinâmica po-
pulacional, territorialidade e seleção sexual, além de sexar o animal (figura
2.16A) e medi-lo (figura 2.16B), aproveitamos para marcá-los e depois soltá-los
(figura 2.16C e D).
A B
C D
Figura 2.16. Após capturar uma libélula (A), podemos verificar seu sexo e me-
di-la com um paquímetro (B), além de marcá-la com uma caneta
para escrita em plástico, vidro ou tecido (C, D).
O uso de pintura em insetos é muito difundido. Em geral, uma com-
binação de pontos irá dizer ao pesquisador qual a identidade do animal em
estudo. Dependendo do grupo em questão, das especificidades anatômicas,
68
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
podemos estabelecer diferentes tipos de códigos numéricos através de pin-
tas produzidas com tinta (acrílica, esmalte, de tecidos, ou para aeromodelos).
Tomando um besouro ou uma barata como exemplo, podemos ver como isso
é feito. Na primeira ilustração abaixo, mostro a posição e o número que equi-
valeria a cada ponto no élitro, ou no pronoto de um besouro. Combinações
de pontos, tendo como base os números 1, 2, 3 e 6, assim como suas dezenas
e centenas, nos permitem individualizar centenas de animais. Se você puder
usar mais de uma cor diferente, isso pode ficar ainda mais fácil, pois apenas
com as marcações 1, 2, 3 e 6, alternando duas cores, você pode produzir uni-
dades e dezenas. Com três cores, você pode produzir centenas.
Nas três ilustrações que se seguem, exemplifico como seria a marcação
dos animais 136, 27 e 10, usando apenas uma cor de tinta. Sempre procuro
escolher a cor que menos modifique as características originais do animal.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
69
Os colegas que estudam abelhas podem adquirir, por importação, car-
telas de pequenas calotas plásticas numeradas, com 1 milímetro de diâmetro.
Quando capturam as abelhas, eles as colocam dentro de um tubo semelhante
a uma seringa e, com o êmbolo, empurram as abelhas, de modo que fiquem
com o tórax preso contra uma tela. A calota numerada é colada no tórax da
abelha com uma resina especial. Esse tipo de marcação também pode ser usa-
do para vespas e outros insetos, funcionando bem naqueles mais robustos e
com mais de um centímetro de comprimento.
Artrópodes permitem muitas possibilidades de marcação, em geral, to-
das delicadas e muito variáveis, dependendo das especificidades de cada ani-
mal e de cada estudo. Mas uma coisa muito importante pode ser dita, desde
já, sendo válida para todos os animais: na marcação com cores, seja ela de que
tipo for, tem-se que tomar um cuidado enorme para que essa marca não altere
as características morfológicas do animal em estudo. Na natureza, use marcas
discretas, mesmo que isso dificulte um pouco a identificação. Alterando a co-
loração de um animal, você pode transformar um animal camuflado em um
animal conspícuo. Você pode quebrar sua cripticidade, expondo-o à ação de
predadores. Você pode quebrar uma relação mimética, alterar um comporta-
mento de seleção sexual e assim por diante. Uma marcação equivocada pode
comprometer todo seu estudo e a vida do modelo experimental.
2.8.2. Peixes
Bem, você não vai poder pintá-los não é? O que fazer então? Uma técni-
ca barata, de sucesso garantido e comprovado, consiste em ampolas plásticas,
contendo um pedaço de papel com a identificação do animal em seu interior.
Essas ampolas podem variar de tamanho, dependendo do peixe, mas, geral-
mente, são um pouco maiores do que uma cápsula de remédio. Cada uma
dessas “etiquetas” é presa na nadadeira dorsal do animal capturado, usando
para isso uma agulha com linha de náilon. O animal não fica retido por muito
tempo, toda a manipulação demora um ou dois minutos, sendo o peixe devol-
vido ao seu habitat em boas condições.
Embora essa técnica tenha alguns inconvenientes (por exemplo, não
pode ser empregada em animais pequenos), ela pode ser muito eficiente na
medida em que, nas etiquetas, você pode fazer constar um número de telefo-
ne. O ecólogo José Sabino testou, com relativo sucesso, uma técnica baseada
em fotografar uma folha com números, recortar os números do negativo e
implantá-los sob as escamas de peixes. O tecido parece não rejeitar o filme,
que permanece por um bom tempo no animal. Este colega e alguns outros
têm me informado que estão em teste alguns tipos especiais de tintas e outros
70
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
tipos de papéis e filmes que podem ser implantados nos animais. Pesquisa-se,
até mesmo, o uso de microchips para um futuro próximo.
2.8.3. Anfíbios
Como marcar um animal que não pode ser pintado nem etiquetado e
que apresenta poucas marcas naturais notáveis? Pobres rãs, sapinhos e pe-
rerecas. O leitor pode imaginar o que é ter pedaços de seus dedos (artelhos)
cortados, em diferentes porções, para indicar o seu número através de uma
combinação? Pois é, essa técnica de mutilação é muito usada em anfíbios e,
até mesmo, em roedores. E pior: por incrível que pareça, esta é a única técnica
que realmente permite ao pesquisador ter certeza do animal marcado e a que
dura mais tempo (toda a vida do animal), na maioria dos casos.
No meu primeiro livro (Uma Orientação ao Estudo do Comportamento Ani-
mal), critiquei esta técnica, provocando nossos colegas a fornecerem outra so-
lução. O Prof. Dr. José Peres Pombal Jr., do Museu Nacional no Rio de Janeiro,
referência internacional em anfíbios, me procurou e me garantiu que esta,
além de ser a melhor saída, é a técnica que causa menor sofrimento e risco
aos animais. O professor Pombal conta também que, segundos após terem
os artelhos cortados, os machos já voltam a coaxar, como se nada houvesse
ocorrido. Bom sinal?
A opção menos agressiva para este grupo consiste em prender, entre os
membros anteriores e posteriores do anuro, uma fita de tecido macio conten-
do as informações necessárias. Sugere-se usar fitas parecidas com a coloração
da pele do animal para não afetar drasticamente a história de vida de seu
objeto de estudo. Porém, essas fitas não podem ficar nem folgadas, nem aper-
tadas. Sempre que recapturar o animal, troque a fita. Uma fita folgada pode
se prender em algum objeto do meio e provocar a morte do animal. Uma fita
apertada e que não se desfaça com o tempo pode estrangular a cintura do sa-
pinho, provocando sua morte. Se for fita de algodão, ela logo se desfaz e você
perde o animal. Se for de material sintético, vai ferir a pele do sapinho, cau-
sando infecções por bactérias e fungos. Linhas com miçangas têm os mesmos
problemas. Assim sendo, parece que o melhor mesmo é evitar experimentos
que exijam a marcação individual desses animais. Mas se tiver que recorrer a
isso, lembre-se que, nesse caso, o que parece ser pior, na verdade, pode ser o
caminho “menos ruim”.
2.8.4. Répteis
Dependendo das suas características morfológicas e do uso do habitat,
esses animais podem ser marcados de modo similar aos peixes e, em alguns
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
71
casos (lagartos, por exemplo), da mesma forma que os anfíbios. Jacarés e cro-
codilos podem receber plaquetas ou etiquetas costuradas nas escamas. Ser-
pentes podem ser identificadas através de muitas marcas naturais, incluindo
variações em seu padrão de coloração. Jararacas podem ser reconhecidas in-
dividualmente através de fotografias. Esses animais são extremamente poli-
mórficos – o padrão de cores de um indivíduo jamais se repete. Minha amiga
Christine Strüsmann, no pantanal, identificava sucuris através de cicatrizes,
tais como dentadas de jacarés. Nesse caso, o inconveniente é a troca de pele,
que pode modificar as características dessas cicatrizes. Cágados e tartarugas
podem receber placas de identificação em suas carapaças ou serem pintados
com números, como fazemos para insetos (figura 2.17). Mais recentemente,
tenho recebido informações sobre tintas especiais, subcutâneas, ou implantes
plásticos, que talvez possam vir a ser utilizados em breve.
Figura 2.17. Tartaruga de água-doce marcada com numeração feita com tinta
automotiva de secagem rápida.
72
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
2.8.5. Aves
Em geral, as aves são anilhadas. Anilhas são pequenas argolas plásti-
cas ou metálicas, similares a anéis ou pulseiras, que podem ser colocadas na
região dos tarsos (pernas) das aves. Essas anilhas podem conter numerações,
códigos ou cores para serem identificadas à distância, como mostra a figura
2.18.
Figura 2.18. Anilhas metálicas de vários diâmetros usadas pelo Centro Nacio-
nal de Pesquisa para Conservação das Aves Silvestres (CEMAVE).
Manipular aves não é um trabalho muito fácil, na verdade é muito de-
licado, pois elas podem se machucar facilmente quando caem em redes ou
armadilhas de captura. Algumas espécies podem morrer simplesmente com
o estresse causado pela captura e manipulação.
O CEMAVE, originalmente denominado Centro de Migração de Aves
no Brasil e, mais recentemente, rebatizado como Centro Nacional de Pesqui-
sas para a Conservação das Aves Silvestres, vinculado ao IBAMA (Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente), fornece cursos que são requisito necessário
para receber autorização para trabalhar com captura e marcação de aves, no
Brasil. O endereço eletrônico do CEMAVE é: www2.ibama.gov.Br/cemave/.
Em outros países, onde há uma regulamentação específica para essa ativi-
dade, também existem cursos semelhantes, muitas vezes, ligados a ONGs,
institutos de pesquisa e universidades.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
73
2.8.6. Mamíferos
Para identificar mamíferos, tudo é possível, até mesmo nada, ou seja,
apenas marcas naturais. Além disso, há uma enorme variedade de opções de
identificação para quem estuda os mamíferos: pintura ou descoloração dos
pelos, tatuagens, brincos, colares com sinalizador eletrônico. Vai depender
de com qual espécie você trabalha. Por exemplo, roedores aceitam tudo, até
furinhos nas orelhas. Já baleias e golfinhos você poderá acompanhar por si-
nalizadores implantados sob a pele, ou por marcas naturais, como desenhos
das nadadeiras, coloração e combinações de informações.
A marcação eletrônica, com microchips, colares sinalizadores de di-
ferentes frequências, que podem ser localizados por rádios ou radares, têm
sido uma técnica cada vez mais difundida entre etólogos. Chegamos a ponto
de estudar focas, na Antártida, sem nunca irmos lá. Através de um satélite
da NASA, o colega Artur Andriolo da UFJF, estudou comportamento de um
grupo de focas, obtendo informações diárias, tais como localização, se sobre
o gelo ou na água e profundidade dos mergulhos, dentre outras coisas. Atu-
almente, seu grupo de pesquisas utiliza varas para implantar radiotransmis-
sores em baleias, no litoral brasileiro (figura 2.19).
Figura 2.19. Radiotransmissor implantável, sendo introduzido com vara na
camada de gordura dorsal de uma baleia jubarte (Megaptera
novaeangliae), no litoral brasileiro. Foto cedida por Artur Andrio-
lo.
74
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Quando falei em mamífero, você pensou em macaco, não é mesmo?
Conheço tantos estudantes que gostam de primatologia – pelo menos no
início da carreira – que acho que eles deveriam formar um grupo taxo-
nômico à parte. Marcas naturais, idade, coloração da pelagem, constitui-
ção do grupo e dedicação, muita dedicação, vão fazer você saber quem
é quem no seu grupo de estudo. Como diria a Laiena, uma primatóloga
muito dedicada que conheço, quinze horas por dia são “quase” suficien-
tes.
Seja qual for o grupo, sejam quantos forem os animais, você dará um
jeito! Lembre-se sempre de respeitar seu objeto de estudo, de não estressá-
lo, de não alterar seu padrão de coloração de forma a comprometer suas
atividades vitais. Não use de crueldade na forma de marcação ou de trata-
mento de seu objeto de estudo. Lamente cada perda, pois cada uma significa
uma vida. Há princípios éticos para tudo na vida, inclusive para o trata-
mento com outros animais e com humanos, seja em pesquisas, seja no dia
a dia. Se você não sabe, há regras de conduta que, se não forem respeitadas,
o impedirão de publicar seus resultados e poderão resultar, até mesmo, em
processos criminais sérios. Fique atento e seja responsável! Trate todo ani-
mal com respeito!
2.9. Cuidados pessoais para ter no campo e no laboratório
Há algumas regras básicas que são de extrema utilidade (muitas delas
seus pais já lhe ensinaram). Talvez seja bom dividirmos algumas dessas re-
gras em alguns poucos itens.
þ Ao manipular animais - Esteja absolutamente certo do que,
quando, como e onde está realizando um procedimento que re-
queira a manipulação de seu objeto de estudo. Se for um animal
peçonhento (serpente ou aracnídeo) ou um animal que morda
(morcego, cachorro etc.), tenha à mão os equipamentos básicos
necessários, tais como luvas, pinças, redes, sacos de pano, gan-
chos etc. Não brinque, não abuse da confiança, isto é, não seja
arrogante. Peça ajuda sempre que possível – evite estar sozinho
ao manipular um animal que ofereça algum risco ou perigo.
Prepare-se antes, fazendo cursos, acompanhando o pessoal téc-
nico que está acostumado a dominar e manipular seu objeto de
estudo ou algum animal semelhante. Tome as vacinas necessá-
rias, se for o caso, como a antirrábica e a antitetânica. Certifique-
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
75
se de saber como procurar ajuda o mais rapidamente possível,
caso precise.
Seja qual for o animal, após a manipulação, lave bem as mãos, os
pulsos e braços, antes de tocar novamente a boca, os olhos, o rosto
ou suas partes íntimas. Por mais bonitinhos que sejam, animais são
fontes de várias bactérias, fungos, parasitos e outros agentes patogê-
nicos, além de, em alguns casos, possuírem toxinas próprias, muitas
vezes liberadas por glândulas cutâneas. Pelos de aracnídeos e, até
mesmo, escamas das asas de borboletas podem causar sérias irrita-
ções nos olhos e nas mucosas do nariz e da boca. O mesmo é válido
para muitas espécies de plantas que podem estar presentes no am-
biente no qual você estuda.
Assim sendo, nunca trate higiene como se fosse “frescura”, não faça
pouco desses cuidados básicos de saúde, pois você pode se arrepen-
der enormemente. Imagine estar bem longe de casa, num lugar de
difícil acesso, após uma viagem dispendiosa que requereu grande
planejamento e, por ter colocado as mãos sujas nos olhos, ser obri-
gado a retornar às pressas para procurar atendimento médico de
emergência. Exija os mesmos cuidados de outros membros de sua
equipe, pois, se viagens de campo já são muito desgastantes com
tudo correndo bem, imagine com problemas.
þ No laboratório - Os mesmos cuidados de higiene são válidos
para as situações em laboratório e, não apenas quando se lida com
um animal, mas também quando se lida com reagentes químicos,
fogo e gases. Use todo o material de segurança, estabeleça e res-
peite os protocolos. Se alguém elaborou um protocolo para uma
determinada manipulação química, siga os passos preestabeleci-
dos. Eu garanto que eles não estão ali porque alguém simples-
mente resolveu complicar as coisas. Alguns reagentes só podem
ser usados embaixo de uma capela, com o exaustor ligado. Não
improvise. Muitos reagentes que normalmente usamos, como o
formol, são reconhecidamente cancerígenos. Outros não são, ain-
da! Além disso, pouco sabermos sobre as combinações de gases.
Então, seja prudente.
þ No campo - Sempre use roupas adequadas: calça, bota ou tênis, ca-
misa de mangas compridas, chapéu ou boné. O tipo de roupa a ser
usada vai depender da situação e da experiência a serem enfrenta-
das. Ouça os mais experientes, quem já esteve no local. Esteja atento
às variações climáticas de cada estação.
76
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Mesmo que você vá para o deserto, é bom saber nadar. Isto é sem-
pre útil e vai lhe dar grande segurança. Tenha bom preparo físico.
Você não precisa ser um atleta, correr dois quilômetros em dez mi-
nutos. Nada disso! Mas precisa aguentar, sem problemas, uma boa
caminhada de cinco a dez quilômetros.
Esteja preparado para eventualidades. Leve água, alimentos leves
e de grande durabilidade, como barras de cereais. Se você for para
algum lugar muito distante, não deixe de levar um vidrinho com
cloro para pingar algumas gotinhas em cada litro de água (espere
um pouco antes de beber). Se sua água acabar, evite remansos – dê
preferência à água corrente e cristalina. Se for possível, ferva a água
antes de beber.
Leve material para produzir luz e fogo. Há muito tempo, as lan-
ternas são ferramentas básicas de campo, assim como um GPS,
nos dias de hoje – saiba como usá-lo. Para produzir fogo, isquei-
ros, fósforos ou uma pederneira podem ser muito úteis. Filtro so-
lar e repelente de insetos são garantia de tranquilidade. Porém,
há ainda uma coisa básica, fundamental: não se esqueça de levar
consigo seu bom senso! Evite fazer movimentos desnecessários:
saltar sobre pedras e riachos, correr pela floresta..., pois você pode
facilmente se acidentar. Uma simples torção de tornozelo pode
por tudo a perder. Não se pendure em galhos nem balance cipós
– um amigo meu fez isso e lançou toda uma colmeia de abelhas
africanizadas sobre nós. Os galhos também podem cair e ferir
gravemente alguém da equipe. Evite revirar troncos e pedras sem
os equipamentos próprios para isso, como ganchos e bastões, pois
uma serpente pode saltar de lá e picar você. Muito cuidado ao
tocar em folhas de plantas e em insetos. Muitos me perguntam
o que eu mais temo na floresta. Se temo encontrar uma onça, ser
picado por cobra etc. Obviamente, tudo isso é preocupante, mas
acredite em mim, é muito mais fácil você se complicar sendo pi-
cado por abelhas ou vespas, ou tocando em plantas urticantes e
lagartas de borboletas. Fuja, a todo custo, do contato com lagartas
de mariposas, como as Megalopigidae. Algumas são tão tóxicas
que podem até matar (figura 2.20).
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
77
Figura 2.20. Lagartas de borboleta (Megalopigidae) possuem pelos urticantes
e são um enorme perigo para todos os naturalistas.
Um ponto muito importante para quem vai executar um estudo dire-
tamente no campo é a companhia. Nunca vá sozinho ao campo! Imprevistos
podem acontecer e você pode precisar de ajuda. Não quer dizer necessaria-
mente que você tenha que trabalhar em dupla, mas você pode trabalhar numa
mesma área que outras pessoas trabalham e combinar os horários de estarem
juntos no campo. Com um rádio intercomunicador, ou mesmo com o celular,
onde ele funcione, você terá uma garantia de auxílio, caso precise. Atualmen-
te, muitos estudos são realizado em parques, reservas e fragmentos florestais
próximos a áreas urbanas e o risco de encontrar com indivíduos seres indese-
jáveis de nossa própria espécie, infelizmente, são grandes.
Escolha bem suas companhias de campo e, quando tiver um bom grupo, ou
dupla montada, valorize isto, preserve essa amizade e seja cooperativo, pois
uma mão lava a outra! As pessoas egoístas, em geral, acabam sem apoio de
campo e com seus estudos comprometidos.
78
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
2.10. Como planejar um estudo em Comportamento Animal
Deste ponto em diante, vamos começar efetivamente a aprender como
estudar comportamento animal, para depois entrarmos no universo da ecolo-
gia comportamental e suas nuances. A primeira coisa para começar é você ter
uma questão! Uma pergunta que o estimule a buscar por uma resposta. Veja
a foto da figura 2.21.
Figura 2.21. Abelha Centridini (Apidae) pairando em frente a flores de uma
Malpighiaceae (Peixotoa tomentosa).
Diga! Que tipo de estímulo esta imagem lhe traz! Olhe para ela nova-
mente e pense em algumas questões que gostaria de responder. (...) Pensou?
(...) Mais um tempinho? (...) Talvez a primeira questão que nos venha à mente
seja:
● Esta abelha é um polinizador desta planta?
Para responder a uma questão como esta, teremos necessariamente que
responder questões relacionadas com o comportamento animal, por exemplo:
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
79
● Esta abelha pousa na planta?
● Se pousa, por qual recurso ela está sendo atraída? Pólen? Néctar?
Óleos?
● Como a abelha coleta o recurso floral?
● Durante sua visita às flores, esta abelha contata os estames (parte
masculina das flores) e os estigmas (parte feminina das flores), trans-
ferindo pólen dos estames para os estigmas, possibilitando assim a
polinização da planta?
Mas outras questões podem surgir e bem diferentes:
● Como esta abelha faz para pairar na frente das flores?
● Como ela faz para coletar e transportar o recurso floral que utiliza?
Assim sendo, diversos tipos de questões podem surgir a partir de uma
mesma observação. Uma coisa importante a se notar é que você pode se in-
teressar por questões mais relacionadas a um determinado assunto, como
a primeira questão: polinização. Mas também pode se interessar mais por
questões diretamente relacionadas ao seu objeto de estudo, como as outras
questões que buscam responder como ocorre um comportamento específico
do animal que você estuda. Independentemente do seu interesse principal,
há um roteiro a seguir para que você tenha sucesso na busca pela resposta as
suas questões. Vamos a ele!
Após ter definido uma pergunta, a primeira coisa que você precisa sa-
ber é se realmente viu o que pensa que viu, ou seja, o problema que você
observou se repete? Você viu direito? Tem certeza? Neste sentido, o melhor a
se fazer é ir novamente observar o animal para confirmar sua questão e tentar
entender um pouco mais sobre o que está acontecendo. Esta fase é chamada
de observações preliminares.
Juntamente a estas primeiras e mais detalhadas observações sobre o
corpo de fatos que caracterizam o comportamento em questão, é muito im-
portante que você já elabore o primeiro levantamento bibliográfico sobre
o assunto. Atualmente, para fazer um levantamento bibliográfico, basta ir a
uma biblioteca universitária e solicitar ao funcionário responsável uma con-
sulta eletrônica ao Biological Abstracts ou outra base de dados, como o Current
Contents. Essa consulta é indispensável para um bom levantamento biblio-
gráfico. Em algumas universidades, o próprio pesquisador faz o seu levan-
tamento.
Outros modos de consulta estão disponíveis através da internet e são
bem práticos e eficientes, principalmente o site Web of Science, mas há outros,
como Scielo e Google Schollar. Atualmente, em vários países, os governos
80
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
oferecem portais de acesso a periódicos, através de suas agências educacio-
nais e de pesquisa, com milhares de revistas de acesso eletrônico. Para poder
fazer uso dessas modernas maravilhas – se você tem menos de 40 anos, não
faz ideia do inferno que era, nos últimos dez anos, fazer, manualmente, um
levantamento bibliográfico nos abstracts – basta saber listar palavras-chave,
principalmente em inglês.
Palavras-chave (keywords) são termos ou expressões que o ajuda-
rão a encontrar a bibliografia desejada. Uma palavra-chave obrigatória é
o gênero do animal que você estuda, a família, ou até o nome popular do
animal. Se for uma pesquisa por assunto, use o termo próprio, por exem-
plo: predação. Podemos também fazer um levantamento através do nome
de algum autor, quando sabemos que aquela pessoa publica muito no as-
sunto que desejamos trabalhar. Neste caso, o nome do autor se torna uma
palavra-chave. Vou dar um exemplo. Se você quer trabalhar com seleção
sexual em insetos, um conjunto de palavras-chave muito importante se-
ria: sexual selection, insects, reproductive behavior, sexual behavior, mate choice,
mating behavior.
Para que tenhamos certeza de que nada de importante tenha esca-
pado, existem artigos (publicações científicas) que costumam ajudar muito
em levantamentos bibliográficos: são as revisões (reviews). Através do le-
vantamento bibliográfico dos artigos de revisão, você pode checar e com-
plementar seu próprio levantamento. Assim sendo, sugiro valorizar buscas
em periódicos cujos títulos se iniciem assim: Annual Review of... Em alguns
casos, a literatura citada em livros também pode auxiliá-lo a encontrar os
artigos mais gerais e os “clássicos” no assunto em que se concentra sua
pesquisa.
A maior parte da literatura disponível em comportamento animal é
escrita em inglês, e a maioria dos periódicos que você vai utilizar só aceita
artigos em inglês. Muitas revistas importantes, mesmo de países onde não é
falada a língua inglesa, já são totalmente em inglês. Assim sendo, você preci-
sa, pelo menos, ler inglês, ou está perdido... e mal pago. É claro que ninguém
vai estudar Comportamento Animal pensando em ficar rico, mas saiba que,
sem o inglês, você não terá a mínima chance de se tornar um especialista em
Ecologia Comportamental.
Para iniciar uma leitura de textos em inglês, sugiro que você se ins-
creva em cursos de inglês instrumental, que são comuns nas universidades
e menos caros. Outra opção é pedir o auxílio de colegas que sabem o idioma,
para conhecer a estrutura gramatical básica da língua. Depois, basta com-
prar um bom dicionário e gastar, pelo menos, meia hora por dia, tentando
traduzir os textos. No tempo das vacas magras, essa estratégia foi muito útil
para mim. Alguns amigos me deram uma força danada e eu pude me tornar
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
81
independente na leitura em inglês “pilotando” o dicionário. Inglês é vocabu-
lário! Com dedicação, você logo estará apto a ler textos técnicos com destreza.
Confie sempre no seu potencial.
Uma pergunta que costuma surgir quando você tem uma pilha
de artigos em suas mãos, ou melhor, um monte de PDFs em seu pen-
drive é: “Tenho que ler todo o artigo?” Mas é claro! O mais difícil você
já conseguiu, que foi obter o artigo, ou livro, ou tese que você precisava.
Agora, você pensa em ler apenas pedaços? Tome muito cuidado com isso.
É comum que pessoas leiam apenas os resumos (abstracts) dos artigos
e tirem conclusões apressadas. Há casos na literatura, de hipóteses que
foram embasadas em artigos que, na verdade, contrariavam o que se es-
tava propondo, sendo que o erro, provavelmente, ocorreu devido a uma
leitura errada ou incompleta do artigo original. Ler é uma coisa maravi-
lhosa, especialmente na fase inicial de uma pesquisa, pois a leitura vai
lhe abrir os olhos, vai gerar novas e mais interessantes questões. Você
acaba se tornando fã de alguns colegas de profissão, falando deles com
carinho e com a intimidade de um amigo. De outros, você já fica des-
confiado, duvida de suas hipóteses e começa a pensar em como provar
que ele está errado. Quando isso acontece, é porque você está realmente
lendo com vontade.
Comece lendo o resumo do artigo. Em muitos casos, a leitura do resu-
mo já vai deixar claro para você se o artigo é ou não relevante para seu estu-
do. Se você estiver apertado de tempo, leia a introdução, procurando sempre
entender os objetivos do estudo. Dê uma passada na discussão, veja como o
autor amarra objetivos, metodologia e resultados com outros estudos existen-
tes. Assim, você já poderá classificar os artigos que selecionou entre os que
têm prioridade máxima na leitura e aqueles que poderá deixar para quando
sobrar um tempinho.
Fichar o artigo é sempre uma boa ideia. Antigamente, eu anexava aos
artigos que já tinha lido um cartão com números, indicando partes impor-
tantes do texto para que pudesse me recordar facilmente delas. Estas fichas
com numeração e dicas eram muito úteis na hora de redigir um texto, pois
as ideias para a discussão vinham mais facilmente e permitia uma releitura
mais dinâmica dos estudos selecionados. Hoje tudo está mudado para melhor
e mais fácil! Além de economizar papel, o que as árvores agradecem muito!
Atualmente, tenho um programa de armazenamento eletrônico de PDFs que
me permite catalogar todos os arquivos que uso, com resumo, abstract, pala-
vras-chave, autores, nome da revista e, até mesmo, um link eletrônico direto
para minha pasta de PDFs ou para o site do artigo na internet. Hoje em dia,
existem vários desses programa de armazenamento. O que eu uso – e acho
muito bom – chama-se EndNote.
82
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Pois bem, definida a questão de seu estudo, feito um primeiro le-
vantamento bibliográfico e observações preliminares, o iniciante ainda vai
sentir muita insegurança no início do estudo. Isso é absolutamente normal
e bom, pois mostra que você não é uma pessoa arrogante, que sabe que
pode errar e que é humilde o suficiente para pedir a ajuda de alguém, um
orientador. Aqui, vou comentar um pouco sobre orientadores e orientação,
pois, muitas vezes, os jovens cientistas acreditam que um orientador é a
solução para seus problemas. Quando era aluno de graduação eu imagina-
va isso, que todos os meus problemas se resolveriam se eu encontrasse um
bom orientador. Sem dúvida, um bom orientador ajuda muito, mas toda e
qualquer atividade de pesquisa, dependerá principalmente de você. É pre-
ciso que você goste do que está fazendo, que se dedique e que leia muito.
Nenhum orientador faz milagres, por melhor que ele seja. Tive orienta-
dores que me queriam apenas como técnico especializado, um piloto de
centrífuga. Outros me queriam apenas para dizer aos colegas que, enfim,
tinham conseguido alguém para orientar. Tive um que era uma mãe super-
protetora, não me deixava fazer nada, fazia tudo por mim. Só me ensinou
a ser inseguro.
Na minha peregrinação por um bom orientador, tive grandes lições
com João Vasconcellos Neto e Fernando Antonio Frieiro Costa, que me ensi-
naram a olhar a natureza sem pressa, a procurar pelos detalhes importantes
em cada relação e, pela primeira vez, me mostraram como observar compor-
tamento animal no campo. Observar com olhos de naturalista. Juntos, desco-
brimos que orientador e orientado podem se tornar amigos, desde que saibam
que os assuntos profissionais não podem ficar em segundo plano. A outra
grande lição que tirei do convívio que tive com mais de uma dúzia de orien-
tadores foi descobrir que um dos melhores tutores é aquele que indica, com
precisão, o que o orientado deve ler. Aprendi isto com Paulo Sérgio Moreira
Carvalho de Oliveira, que me ensinou também a vibrar com os resultados
de uma pesquisa, a pular de alegria com um paper publicado na mão. Isso é
fundamental!
Estou comentando essas coisas porque a relação entre orientador e
orientado é parte essencial do bom andamento de um estudo e acredito que
muitos dos leitores ainda dependam de seus orientadores. Então, sugiro que
evite se indispor com qualquer orientador. Se a relação não estiver legal, con-
verse, tente acertar as coisas, ou mude de orientador. Faça isso sempre deixan-
do uma porta aberta. Como a cobra é quem engole o sapo, muitas vezes, para
termos um bom orientador, temos que aprender a engolir nossos sapinhos.
Um bom orientador pode fazer a diferença. Mas não se fie a isso, lute para ser
independente, pois muitos colegas passam a vida toda engolindo sapo, sem
nunca virar cobra.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
83
A orientação que pode vir de um tutor, de um professor, ou de um
pesquisador; pode vir também de um colega mais experiente e, certamente,
ser comprovada e aperfeiçoada com a literatura, com a leitura. Este conjunto
de dados vai levar você a ter sucesso no próximo passo, a definição da meto-
dologia.
Para entender o que é metodologia, vamos voltar ao exemplo. ini-
cial desta sessão. Olhe novamente para a abelha em frente a uma flor
(figura 2.21) e imagine que sua questão fosse: qual recurso floral esta
abelha usa e de que maneira? Certamente você teria que recorrer a uma
literatura especializada em polinização e reprodução vegetal, teria que
ler algo sobre a anatomia floral da família em questão. Os colegas mais
experientes ou seu orientador lhe indicariam os materiais indispensáveis
para esse estudo: lupas manuais (para observação das estruturas florais
e de partes específicas do animal), puçá (para captura das abelhas), um
vidro com álcool 70% (para coleta de material vegetal), um frasco seco
com tampa (para coleta das abelhas visitantes), uma máquina fotográfica
e/ou uma filmadora (para registrar cada detalhe), enfim, tudo que pu-
desse ajudar na compreensão, caracterização e descrição dos processos
observados.
A detalhada, cuidadosa e criteriosa observação preliminar de campo
e o levantamento bibliográfico serão sempre fundamentais. Neste exemplo
em particular, óleos vegetais produzidos por glândulas na base das sépalas
(figura 2.22) são o principal recurso que as abelhas procuram nestas plantas,
seguidos pelo pólen. Os recursos são colhidos nos estames (pólen) e nas glân-
dulas (óleo) e armazenados nas escopas (parte pilosa das tíbias do último par
de pernas) da abelha visitante.
84
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
A B
Figura 2.22. Detalhe (seta) das glândulas de óleo pares das sépalas (A) de
Peixotoa tomentosa (Malpighiaceae), do cerrado, e da escopa de
uma abelha Centridini (B).
Detalhe cuidadosamente os métodos e prepare todo o material neces-
sário para seu estudo. Depois de definida e iniciada esta fase, se houver al-
gum erro, uma mudança necessária irá invalidar todo o conjunto de dados
previamente colhidos. Fundamente bem o modo como vai observar o com-
portamento do animal, quantas sessões serão necessárias e quanto tempo
deve durar cada sessão de observação. Antes, treine como fará seus registros.
Nunca se acanhe em pedir ajuda. Sempre haverá alguém disposto a ajudar.
Muitas vezes, não será o primeiro, nem o segundo a quem você pediu ajuda,
mas sempre haverá alguém disposto a ajudar. Lembre-se de agradecer, pois a
gratidão sempre abre portas.
Muito bem, uma vez definida a metodologia, o que vem depois?
Questão
Observações
Preliminares
Levantamento
Bibliográfico
Material
&
Métodos
Bom, agora é hora de pôr as mãos na massa, ir para o campo ou labo-
ratório e iniciar seu estudo, com as primeiras coletas de dados. Nas partes
anteriores do livro, já dei várias dicas de como registrar e coletar dados. Nes-
ta fase, a maior dúvida será responder a questão: qual deve ser o tamanho
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
85
amostral? Ou seja, quantas sessões de observação terei que fazer? Se for um
experimento, quantas repetições devo fazer? Como terei certeza que estou
coletando os dados da forma correta e na quantidade necessária? Recorrendo
novamente ao exemplo das abelhas de Malpighiaceae em savanas, surgirão
dúvidas que nos servem bem de exemplo, tais como:
● Quantas sessões – e de quantos minutos cada uma – eu terei que fa-
zer para ter certeza de que cobri a maior parte dos comportamentos
executados pelas abelhas?
● Quantas abelhas eu terei que coletar e verificar as escopas, à procura
de grãos de pólen ou óleos impregnados?
● Quantos estigmas de flores de plantas distintas eu tenho que verificar
e manipular para saber se as abelhas polinizam ou não as plantas?
● Quanto tempo eu tenho que observar as plantas, em cada horário
do dia, para saber qual é o pico de visitação diária das abelhas nas
flores?
Tudo isto será melhor compreendido, mais uma vez, recorrendo à lite-
ratura específica. Lembra-se do levantamento bibliográfico inicial? Ele será
importante em todas as fazes de seu estudo. Os livros, os trabalhos já publi-
cados e uma boa orientação vão ajudá-lo a definir seus números amostrais, a
sanar muitas das dúvidas, como as exemplificadas acima.
Mas, para ter confiança no que está fazendo, para aumentar a con-
fiabilidade intraobservador, ou seja, aquela confiança em si mesmo... Ah!
Somente o treino, o exercício, a familiarização com o animal, com o am-
biente de estudo, o bom conhecimento e o domínio da maior parte possí-
vel de variáveis é que lhe darão essa confiança. Estude, estude e estude!
Lembre-se de que, segundo Albert Einstein: “Um gênio é, na verdade, o
resultado de muita paciência e dedicação; um gênio é uma enorme paciên-
cia!”. Então, na busca da autoconfiabilidade, podemos lembrar de seguir
alguns passos:
þ Aprofunde seus conhecimentos teóricos sobre o assunto ou animal
em questão.
þ Domine a metodologia. Treine!
þ Domine o uso dos equipamentos de amostragem, registro e experi-
mentação.
þ Repita observações e amostragens sempre que tiver dúvidas de que
possa ter falhado.
þ Não lute contra limitações individuais e não faça observações com-
portamentais estando com necessidades fisiológicas insatisfeitas.
86
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
þ Não seja apressado, mas seja humilde. Peça ajuda, sempre que neces-
sário. Lembre-se de zelar pelo seu nome. Em ciência, ele tem muito
valor ou valor nenhum! Depende de você!
“Você não pode ensinar nada a um homem. Você pode apenas ajudá-lo
a encontrar as respostas dentro dele mesmo.” Galileu Galilei
Tendo os dados de campo ou laboratório coletados, agora vem o próxi-
mo passo, a análise dos dados, certo? Errado! Entre as fases de coleta de da-
dos e a seguinte, que é a análise dos dados coletados, há uma fase contínua e
intermediária, que sempre permanece nublada, como se não fosse necessária,
mas que talvez seja uma das mais importantes de todo e qualquer estudo, a
organização dos dados.
Organize criteriosa e cuidadosamente seus dados. Faça isso metodi-
camente, tomando o cuidado de ter cópias de seus dados coletados e organi-
zados, mantidas em lugares seguros e diferentes. Cadernos são de papel e se
molham ou pegam fogo. Discos rígidos de computador podem ser atacados
por inúmeros vírus que geram uma enorme ciranda financeira a sua volta, e
também podem ser inutilizados por uma descarga elétrica. Os pen-drives po-
dem simplesmente parar de funcionar. Enfim, há mil e uma maneiras de você
se dar mal. Acredite! Os escritos daquela camiseta engraçadinha estão certos:
Shit happens! Essas coisas acontecem mesmo e o tempo todo, às vezes, num
simples clique! Então, seja previdente. Quem se previne passa por menos pro-
blemas, sofre menos. Quando coletei os dados de minha tese de doutorado,
eu tinha cópias de todos os dados mantidas em dois locais diferentes. No meu
caso, por uma peculiaridade da minha vida profissional, naquele momento,
as cópias eram mantidas 500 quilômetros distantes uma da outra. Sei de pes-
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
87
soas que foram assaltadas e os bandidos levaram os cadernos de campo que
estavam na bolsa. Também soube de um casal de namorados que, quando a
menina descobriu uma traição do rapaz, num ataque de fúria, destruiu todos
os dados de campo do namorado infiel. Ela dava risadas, com a porta do apar-
tamento fechada! Assim sendo, cuide-se!
Para a análise dos dados, você vai ter que recorrer novamente à lite-
ratura, ver como os outros fizeram, para ter uma boa ideia do que pode fazer
com seus dados. Com experiência e tempo, na fase de planejamento, você já
vai saber, com uma boa certeza, o que vai usar. Um colega bom em estatística
também vai ajudá-lo muito, além do seu orientador, obviamente (Mais uma
vez! Viu como é bom escolher direito?) Quem sabe se você pode precisar
da ajuda de um estatístico profissional? Na análise dos dados, você saberá
definitivamente se seu conjunto amostral foi ou não suficiente. Muitas vezes,
haverá a necessidade de complementações. Faça isso! Não se chateie! E faça
bem feito!
Hoje em dia, há muitos pacotes estatísticos de fácil manuseio em com-
putadores, que vão obrigá-lo a treinar também o modo de inserir os dados
nessas novas ferramentas. Tenha cuidado com pontos, vírgulas, se está colo-
cando os dados certos nas colunas e linhas corretas. Olha... algumas vezes, é
um longo aprendizado! Mas tendo dominado um programa, você verá que os
avanços são incomparáveis com o que tínhamos disponível para trabalhar, há
alguns anos atrás. Os programas que mais usamos atualmente são o Statistica,
o Systat e o BioEstat. Na maior parte das vezes, você vai testar a normalidade
dos dados, comparar médias, fazer algumas correlações e análises de variân-
cia. Vai ter que saber fazer histogramas de barras, tabelas – nada que alguém
com dedicação e um pouco de ajuda não consiga fazer. Seja confiante! Não se
assuste com a matemática, pois ela pode ser uma boa amiga.
A fase final é a que denominamos interpretação dos resultados. Esta
fase nos leva à redação do trabalho científico, ou seja, ao final de uma etapa
em pesquisa. Para interpretar o significado dos dados que você coletou, os re-
sultados dos experimentos que fez, você dependerá diretamente de, ao longo
de todo o estudo, ter efetivamente lido, lido muito! Ter estudado bastante o
grupo ou assunto em questão. Quem não domina a parte teórica do estudo,
não passa de um coletor de dados, não é um cientista de verdade. Você dever
ser tão capaz de observar, experimentar, comparar e analisar, quanto de ela-
borar uma síntese e conceitualização, a partir dos resultados que obteve. Se
fizer isso, você estará fazendo ciência! Eu tenho certeza que você consegue!
Dedique-se! Leia bastante, para dominar a teoria que está por trás de suas
questões.
Em comportamento animal, nós devemos tomar muito cuidado
com alguns fatores que podem nos levar a uma interpretação equivocada
88
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
dos resultados obtidos, ou do modo como ocorre ou para que serve o
comportamento observado. Por exemplo, imagine uma veterinária ob-
servando o comportamento de um grupo de vacas que, por algum mo-
tivo, não aceitam bem sua presença (figura 2.23). Essa rejeição pode ser
motivada pelo uso do avental branco! A veterinária não percebe que as
vacas mudaram o comportamento inicialmente observado e continua
anotando. Este é, portanto, um erro de registro. Ele pode ocorrer também
pela simples anotação de um dado em uma coluna errada, de um “x” no
quadradinho impróprio. Bem, seja como for, o erro de observação leva ao
erro de registro. O erro de registro leva ao erro de análise, que leva ao
erro de interpretação.
Figura 2.23. Erros comumente cometidos em observação animal.
Então, você diz: “Ah! Eu não vou errar!” Doce ilusão... todo mundo erra!
Devemos fazer todo o possível para minimizar nossos erros, mas todos nós
erramos. Sendo assim, descarte os dados ruins, aqueles com possíveis erros,
repita observações para as quais tem dúvida. Manter a atenção na hora das
observações comportamentais, evitar conversas paralelas e estar realmente
focado em seu trabalho são as melhores formas de reduzir erros.
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
89
Geralmente, uma pesquisa termina com um monte de novas questões.
Aprenda a controlar seu ímpeto de responder outra, outra e mais outra ques-
tão. Antes de continuar no mesmo assunto, procure ser objetivo, ou seja, pu-
blique seus resultados. Você pode desvendar a vida amorosa das baleias nas
profundezas dos oceanos mas, antes, terá que responder como elas nadam, o
que comem, onde se reproduzem... Cada uma dessas questões pode se tornar
um importante trabalho publicado, um tijolinho que vai formando as bases
da sua linha de pesquisa. Uma linha de pesquisa pode surgir de uma retroa-
limentação positiva, deste seu roteiro de pesquisa (Figura 27).
Figura 2.24. Roteiro para o desenvolvimento de um projeto de pesquisa. Uma
linha de pesquisa, geralmente, surge a partir da realimentação do
sistema, com novas e boas questões e a publicação dos resultados
de cada etapa.
90
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
2.11. O que é etograma?
Etograma ou repertório comportamental é um tipo de ferramenta
muito interessante para que possamos conhecer todas as possibilidades de
um determinado animal e para que possamos orientar o planejamento de
nossos estudos. O etograma é especialmente importante e interessante nas
fases iniciais de uma pesquisa, quando ainda se define a pergunta, pois ajuda
a responder questões básicas como:
● Quais as principais atividades do animal em estudo?
● Qual seu horário de pico?
● Que tipo de interações apresenta?
● Como divide seu tempo ao longo do dia?
É através deste modo simples de observação de comportamento que
surgem muitas questões e hipóteses interessantes para se testar com manipu-
lação experimental, como veremos na sequência do livro. Etogramas são, de
fato, um ótimo caminho para se ter ideias. Para elaborar um repertório com-
portamental de uma espécie, ou seja, para descrever tudo que ela faz ou deixa
de fazer, eu recomendo que você divida seu estudo em três etapas.
● Primeira etapa: observações preliminares – Você fará as observa-
ções preliminares com levantamento bibliográfico. O principal ob-
jetivo é definir, entre outras coisas, o horário de pico de atividade
da espécie. Você pode, por exemplo, anotar o número de comporta-
mentos exibido pelo animal ou animais em estudo, durante os dez
primeiros minutos de cada hora do dia. Fazendo três repetições, em
dias com condições meteorológicas semelhantes (se for um estudo
no campo), você irá definir os horários de maior atividade para seu
objeto de estudo.
● Segunda etapa: qualificação dos comportamentos – Você irá quali-
ficar todos os comportamentos observados. Utilizando o método da
amostragem de todas as ocorrências, vá anotando tudo que o ani-
mal faz ou deixa de fazer. Procure já ir dividindo esses atos compor-
tamentais observados em tipos e padrões. Cabe esclarecer que Tipo,
ou Categoria, como preferem alguns colegas, se refere a categorias de
comportamento que podem ser subdivididas em Padrões e Atos, com
suas partes componentes. Por exemplo, “voar” se encaixa no Tipo lo-
comoção, que inclui: caminhar, andar, nadar, voar etc. O Padrão é
referente ao Tipo. No caso, o Ato comportamental seria denominado
“voar” ou “voando”, “levantar voo”, “pousar” etc. O Ato comporta-
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
91
mental, por sua vez, se refere ao Padrão. A descrição de cada um
dos movimentos desse padrão caracteriza as Partes componentes do
comportamento (tabela 2.3). Artigos já publicados, com a mesma es-
pécie ou com animais próximos podem ajudar muito, principalmen-
te, na definição dos tipos de comportamento.
Nesta fase, o número de sessões necessárias irá depender da espécie
em questão e do que lhe indicar a bibliografia e sua vivência. Para for-
migas, uma boa fase de qualificação pode demorar de 30 a 40 horas,
aproximadamente. Nesse tempo, para este tipo de animal, nós sabe-
mos que já temos em mãos uma quantidade representativa de atos
comportamentais, quando chegamos a qualificar mais de 35 atos.
Esse número mágico, quem nos diz é, novamente, a literatura e nosso
esforço de coleta, ao longo de vários anos.
Feita a qualificação, passamos à terceira etapa.
● Terceira etapa: quantificação – É hora de quantificar, de anotar
quantas vezes em cada sessão os animais exibem cada um dos com-
portamentos observados. Você fará isso seguindo um dos métodos
de observação e registro previamente indicados. Nesta fase, seja rigo-
roso e disciplinado consigo mesmo. A seguir, apresento um exemplo
de etograma e, nas referências bibliográficas, cito dois estudos que
podem ajudar muito na sua compreensão.
Tabela 2.3. Etograma ou repertório comportamental de soldados da formiga
Cephalotes pusillus (Klug, 1824; Formicidae), em condições de cativeiro
(n = 4 colônias, 100 horas de observação).
Categorias
comportamentais
Colônias
Atos comportamentais 1 2 3 4 TOTAL
EXPLORAÇÃO 24,090 16,800 15,440 5,780 9,154
Parado fora do ninho 10,850 2,440 3,110 1,160 2,170
Andando dentro do
ninho
5,330 11,490 8,070 3,020 4,540
Andando
(explorando) fora do
ninho
7,910 2,880 4,250 1,600 2,000
92
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
Continuação Tabela 2.3
DEFESA 35,600 20,610 12,970 21,450 21,420
Parado na entrada do
ninho
35,090 20,530 12,710 21,440 21,410
Agitado na entrada
do ninho
0,510 0,074 0,260 0,010 0,080
ALIMENTAÇÃO 4,310 4,062 8,270 5,390 5,498
Antenando cupins — — — — —
Trofalaxis com
operária
2,280 2,510 3,340 3,750 3,480
Trofalaxis com
soldado
1,120 1,220 3,470 1,380 1,570
Trofalaxis com rainha — 0,110 — — 0,010
Alimentando-se de
dieta (papa)
— 0,140 0,840 0,260 0,290
Alimentando-se de
solução de mel e
água
0,910 0,074 0,620 0,005 0,140
COMUNICAÇÃO 5,730 6,170 10,440 18,640 15,640
Antenando operária 2,790 2,440 3,696 6,750 5,730
Antenando soldado 1,170 1,180 3,664 2,240 2,220
Antenando na
entrada do ninho
1,780 2,550 3,080 9,640 7,696
LIMPEZA 1,620 1,630 1,300 1,060 1,175
Limpando antena (1o
par de pernas)
1,370 1,290 0,810 0,990 1,027
Limpando soldado — — — 0,010 0,007
Parte 2 ♦ Guia introdutório ao comportamento animal
93
Continuação Tabela 2.3
Carregando formiga
morta
0,250 0,330 0,490 0,050 0,140
Carregando lixo — — — — —
REPOUSO 28,650 50,740 51,590 47,680 47,040
Soldado parado no
ninho
28,650 50,740 51,590 47,680 47,040
TOTAL 100 100 100 100 100
Del-Claro, Durães e Santos, 2002.
Guia introdutório à
ecologia comportamental
P
A
R
T
E
3
96
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
3.1. A questão funcional e a questão evolutiva
No verão de 1997, caminhando pela Mata Atlântica do sudeste do Bra-
sil, me deparei com um estranho animal. À primeira vista, me assustei, pen-
sando ser uma vespa caçadora de aranhas, um pouco mais colorida e con-
fiante, pois o animal não se abalou na minha presença. Ao contrário, abriu
o primeiro par de asas, emitiu o som característico do zumbir de vespas e
curvou o abdome, como se fosse ferroar (figura 3.1). O que, à primeira vista,
me pareceu ser uma vespa, na verdade, era um Scaphura nigra (Orthoptera:
Tetigoniidae), um gafanhoto do grupo das esperanças, mimético de vespas
Pompilidae.
Figura 3.1. Scaphura nigra (Orthoptera: Tetigoniidae), um gafanhoto do gru-
po das esperanças, mimético de vespas Pompilidae. Foto de J. C.
Santos.
Parte 3 ♦ Guia introdutório à ecologia comportamental
97
A primeira coisa que me veio à mente foi me aproximar do animal e
procurar observar, exatamente, como ele fazia para imitar o comportamento
das vespas. Esta é a questão que todo etólogo faria inicialmente, observar
como o animal faz determinada coisa e tentar descrever seu comportamento,
o que é característico da biologia funcional e do comportamento animal. Foi
este tipo de questão que abordamos em todo o capítulo anterior, mas vou ser
ainda mais claro.
Na busca de respostas para a questão: “Como um comportamento
ocorre?”, ou seja, “Quais são os mecanismos intrínsecos do indivíduo?”,
podemos investigar desde seus mecanismos genético-desenvolvimen-
tais até seu sistema neurofisiológico. Estas questões nos respondem,
por exemplo, como os gafanhotos se orientam, como enxergam e como
abrem as asas, ou seja, quais seriam as causas imediatas de um compor-
tamento.
Você ainda não entendeu? Então, vamos lá! Imagine que você esteja
sentado em um gramado, comendo um doce muito cremoso, com muito
recheio – um bolo de chocolate com creme. É tanto recheio que um pouco
do creme cai no seu colo e na grama abaixo de você. Após uns quinze
minutos, haverá dezenas de pequenas formigas subindo em você e se ali-
mentando do doce. Como tantas formigas apareceram tão repentinamen-
te em um local onde antes, aparentemente, não havia nenhuma? Como
essas formigas encontraram o creme tão facilmente? Muitas espécies de
formigas têm um senso de orientação química bastante apurado. Sendo
espécies sociais, algumas formigas têm a capacidade de deixar pistas no
substrato. Essas pistas são substâncias secretadas por glândulas presen-
tes no abdome da formiga que orientam as companheiras durante o for-
rageio. Assim sendo, o que ocorre é que uma “operária exploradora”, ca-
sualmente, encontra o creme, ingere um pouco dele e volta para o ninho.
No caminho para casa, essa operária deixa pistas químicas (gotinhas de
secreções), que outras operárias seguirão, até encontrar a fonte de alimen-
to. As próximas operárias reforçarão a trilha química e logo uma carreira
de formigas se formará até a fonte de alimento, num ir e vir intenso para
o ninho, até que o alimento se acabe.
Este tipo de questão que responde apenas “como” ocorre um deter-
minado comportamento foi predominante no estudo do comportamento
animal e humano, até a metade do século XX. Estas questões descritivas
são básicas, iniciais, em qualquer estudo etológico, pois buscam respon-
der as causas da existência de um dado comportamento. O nível de deta-
98
Introdução à Ecologia Comportamental ♦ um manual para o estudo do comportamento animal
lhamento para respostas a questões descritivas irá depender do interesse
do pesquisador, ou do tipo de pesquisa que se está desenvolvendo. Em
geral, as perguntas do tipo “como?” nos levam a estudar muitos aspec-
tos da biologia e da história natural das espécies com as quais trabalha-
mos, sendo uma importante ponte com outras áreas do conhecimento.
Por exemplo, voltando às formigas e ao creme: como os mirmecologistas
descobriram que as substâncias deixadas pelas formigas no solo, mar-
cando o caminho do alimento ao ninho para outras operárias seguirem,
eram secreções glandulares? Eles tiveram que recorrer a extensos pro-
cedimentos multidisciplinares que incluíram o apoio da histologia e da
bioquímica.
Buscando mais informações sobre o gafanhoto-vespa (figura 3.1),
tive o enorme prazer de encontrar uma citação sobre esse animal, no livro
A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural, no qual Darwin, em sua
passagem pelo Brasil, mais de 150 anos antes, tinha visto a mesma coisa
que eu e também tinha comparado esses gafanhotos com vespas (figura
3.2), isto numa época em que nada se sabia de genética mendeliana e a
seleção natural ainda era uma idéia marginal na mente do naturalista
inglês.
A B
Figura 3.2. Vespa Pompilidae, Pepsis sp (a), modelo aposemático de Scaphura
nigra (Orthoptera: Tetigoniidae), um gafanhoto do grupo das espe-
ranças (b), mimético de vespas Pompilidae.