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Capítulo 13:

                     Aconselhamento pastoral

                                            Christoph Schneider-Harpprecht

                            13.1 - Introdução
       O termo "aconselhamento pastoral" é uma tradução para o português
da palavra inglesa pastoral counseling, usada especialmente no contexto
norte-americano do séc. 20. Muitos consideram este termo uma expressão
problemática, pois sugere que aconselhamento seria em primeiro lugar uma
atividade do pastor como ministro ordenado e implicaria uma relação de
poder que não deixa espaço para a livre articulação do seu parceiro de
comunicação e para o desenvolvimento independente do mesmo. Outros
termos técnicos usados nesta área, como a palavra artificial poimênica
(a ciência do agir do pastor [em grego: poimen]), clínica pastoral (o
acompanhamento pastoral na área da saúde), psicologia pastoral (a
interpretação da pastoral sob perspectiva psicológica) ou a definição dos
parceiros na conversação como paciente, cliente, aconselhando também
indicam esse problema de poder. A origem dessas metáforas está na
medicina, na psicanálise e no método psicoterápico de Cari Rogers
(counseling). A tendência de entender a atividade do aconselhamento pastoral
a partir da medicina tem as suas raízes já na Igreja antiga e deve-se à
tradição do platonismo, que transparece no conceito clássico de cura
d'almas, o qual entende como tarefa principal do pastor a salvação da alma
imortal através da confissão e absolvição. Para superar o dualismo
antropológico desta concepção, achamos preferível permanecer na
terminologia comum e refletir criticamente sobre as suas implicações e limites.
Falamos neste capítulo da teoria e prática da poimênica e do aconselhamento
pastoral, destacando que esta atividade não se restringe aos ministros
ordenados, que ela implica uma relativização do poder, pois trata-se, em
princípio, de uma relação livre entre dois parceiros iguais.
       Definimos a poimênica como o ministério de ajuda da comunidade
cristã para os seus membros e para outras pessoas que a procuram na área da
saúde através da convivência diária no contexto da Igreja, e definimos o
aconselhamento pastoral como uma dimensão da poimênica que procura




                                                                           291
ajudar através da conversação e outras formas de comunicação
metodologicamente refletidas. Ambos baseiam-se na fé cristã e na tradição
simbólica do cristianismo. O objetivo do aconselhamento pastoral é descobrir
com as pessoas em diferentes situações da sua vida e especialmente em
conflitos e crises o significado concreto da liberdade cristã dos pecadores
cujo direito de viver e cuja auto-aceitação vêm da graça de Deus. O seu
objetivo é também ajudá-las para que possam viver a relação com Deus,
consigo mesmas e com o próximo de uma maneira consciente e adulta. Isto
inclui a capacitação das pessoas para assumirem a sua responsabilidade como
cidadãos que se engajam em favor de uma melhora das condições de vida do
seu povo numa sociedade livre, democrática e justa.
       Essa definição interpreta a poimênica e o aconselhamento pastoral em
primeiro lugar como uma expressão da vida da comunidade e não como
uma tarefa reservada para os pastores ou outros especialistas da Igreja.
Aconselhamento acontece sempre e em qualquer cultura quando pessoas
convivem, participam do discurso público e particular e comunicam-se so-
bre as dificuldades no grupo familiar, no trabalho, na Igreja ou congregação
religiosa, nas diferentes relações sociais nas quais estão inseridas. A convi-
vência e a comunicação são o fundamento social do aconselhamento em
geral. O aconselhamento pastoral é uma forma específica do discurso huma-
no. A sua base social é a convivência no contexto da Igreja, a koinonia dos
membros. Esta koinonia tem para os cristãos um significado espiritual: na
convivência da comunidade acontece a comunhão com Jesus Cristo, o Filho
de Deus encarnado que, na sua vida e morte, compartilhou o destino humano
e, conforme a promessa do evangelho, se torna presente "onde dois ou três
se reúnem no nome dele" (Mt 18.20). A metáfora bíblica da Igreja como
corpo de Cristo provavelmente é a expressão mais exata para a
interdependência das relações humanas e da relação espiritual com Cristo na
comunhão dos membros da comunidade cristã.
       O aconselhamento pastoral é uma dimensão da koinonia, assim como o
culto, a catequese, a missão e a diaconia. Isto implica que todas essas dimen-
sões de convivência têm também um significado poimênico e, por outro lado,
que o aconselhamento pastoral inclui elementos litúrgicos (oração, canto, con-
fissão de pecados e absolvição...), elementos catequéticos (orientação, infor-
mação, processos de aprendizagem...), elementos de missão (anúncio do evan-
gelho, chamado para a mudança de vida, envio para testemunhar a fé através
da vida...) e elementos diacônicos (visitação, comunhão de mesa, assistência
social aos pobres e enfermos...). O aconselhamento pastoral e as outras di-
mensões da vida comunitária estão interligados como círculos que se cruzam
e assim delimitam uma superfície que têm em comum.




                                                                          292
Naturalmente a diaconia e o aconselhamento pastoral estão mais inter-
ligados. É impossível separar a ajuda psicológica e espiritual da ajuda concreta
pela ação social. As necessidades físicas e sociais elementares do ser
humano têm prioridade. O aconselhamento pastoral que oferecesse consola-
ção espiritual aos famintos seria uma contradição cínica do evangelho que
ninguém pode desejar. No contexto de pobreza que é típico dos países da
América Latina o aconselhamento pastoral precisa ser integrado no trabalho
diaconal da comunidade. Este parte diretamente para a ação concreta de
ajuda, enquanto o aconselhamento pastoral lida com processos de mudança
da identidade, de posturas, pensamentos, sentimentos, relações interpessoais
que se refletem no comportamento das pessoas.
       A partir dessa visão é necessário desenvolver na Teologia Prática a
teoria de uma prática interdisciplinar do aconselhamento pastoral que reflita a
sua relação com as outras dimensões da vida comunitária, bem como com as
ciências humanas (psicologia, psicoterapia, teoria da comunicação, sociolo-
gia, antropologia...). Se o aconselhamento pastoral é uma forma específica de
discurso humano no contexto da Igreja inserida numa determinada sociedade,
cultura e tradição, ele está sujeito às regras deste discurso. Por isso a teoria e
prática do aconselhamento pastoral devem levar em consideração os aspectos
psicológicos, sociais e culturais do seu discurso e entrar num diálogo crítico
com as disciplinas que desenvolvem estas perspectivas.
      Nesta primeira aproximação à teoria do aconselhamento pastoral
dentro da Teologia Prática já transparecem os temas fundamentais que
devem ser aprofundados neste capítulo: a fundamentação teológica, o pro-
blema da inculturação, a relação entre aconselhamento pastoral e as ciências
humanas e a questão do método. Antes de abordar esses temas, achamos
necessário esboçar uma visão geral da história do aconselhamento pastoral
e analisar os principais modelos atuais que determinam o trabalho de
aconselhamento pastoral nas igrejas do protestantismo histórico na América
Latina.


             13.2 - Aspectos históricos do aconselhamento
                               pastoral
13.2.1 - As origens platônicas

       A palavra cura d'almas aparece pela primeira vez no diálogo de Platão
intitulado Laches. Dois pais conversam com Sócrates sobre a educação
correia para os seus filhos e concordam logo com a opinião do filósofo de que




                                                                              293
o caminho certo seria a terapia da alma (psyches terapeia)1. Platão exige de
cada cidadão que ele se preocupe não apenas com o dinheiro, a sua fama e
honra. Deve também procurar o melhor para a sua alma {epimeleisthai tes
psyches) através de conhecimento e verdade2. O caminho para tal é o processo
permanente de autoconhecimento e auto-exame {gnothi seauton). Já na sua
origem o aconselhamento, entendido como cura d'almas, aparece como uma
prática social de disciplinar os cidadãos e tem um significado dualista voltado
contra a realidade física do corpo que durante séculos dominaram o tratamento
da alma no Ocidente. Isto transparece quando Platão exige, no seu escrito
Nomoi ("Leis"), que cada cidadão que não acredita nos deuses seja internado
durante cinco anos numa casa onde, através de contatos com pessoas seletas,
possa melhorar e salvar a sua alma. A psicologia platônica, que divide a alma
em três partes, o lado racional (logistikon) relacionado com o verdadeiro ser
das idéias, o lado do sentimento (timoeides) e o lado da pulsão (epitometikon),
relacionado mais com a realidade física e sensual, determina o processo de
autoconhecimento como fuga constante da mente para fora do mundo físico,
voltando-se para o mundo das idéias e de Deus3. Na Antiguidade a terapia e o
aconselhamento não eram práticas específicas de terapia no sentido atual.
Filosofia, teologia, pedagogia e culto eram em grande parte equivalentes4.


13.2.2 - Poimênica no Antigo Testamento

       No mundo do Antigo e do Novo Testamento encontramos uma concep-
ção diferente de alma e, por conseqüência, também outras concepções de
aconselhamento. A alma no AT é idêntica à vida. O sopro que Deus soprou
nas narinas do homem que modelou com a argila do solo é a sua nefesh, ele
mesmo como ser vivente perante Deus (Gn 2.7). Nefesh é sinônimo da
identidade do ser humano nas suas relações com Deus, consigo mesmo e com
o próximo5. A antropologia do AT não separa mente, alma e corpo e entende
o ser humano de maneira integral e relacional. As perturbações da relação
com Deus afetam todo o ser humano. Ele as percebe também de maneira
integral no seu coração (leb) como órgão central das emoções, da autopercepção
e da consciência. Afastada de Deus a nefesh enfraquece, sofre, fica doente,



1   Cf. Thomas BONHOEFFER, Ursprung und Wesen der christlichen Seelsorge, p. 11.
2   Cf. Chrístian MÕLLER, Entstehung und Pragung des Begriffs Seelsorge, p. 9.
3   ID., ibid., p. 10.
4   Cf. Thomas BONHOEFFER, op. cit., p. 11.
5   Cf. Hermann EBERHARDT, Praktische Seel-Sorge-Theologie, p. 19-21.




                                                                                   294
segue o mal nos seus atos e pode morrer. A morte é a falta da relação com
Deus, e quem se afastou dessa relação já participa da realidade da morte
enquanto ainda vive fisicamente.
       O aconselhamento no AT está centrado na luta do ser humano para
resgatar a sua relação com Deus. O aconselhamento aparece como fenômeno
nas diferentes articulações da vida da comunidade, ligado ao culto, ao sistema
jurídico e à sabedoria popular. Agentes do aconselhamento no AT são os
sacerdotes (Lv 12ss.; 1 Sm 1.9ss.), os anciãos e juízes que tomam decisões em
casos de conflitos (Rt 4), os profetas que desenvolvem na sua prática a admoes-
tação e a consolação individual e coletiva (2 Sm 12; Is 40.1ss.) e, em primeiro
lugar, os sábios, homens do povo que transmitem como pais de família os
conselhos da sabedoria popular para os filhos (Pv 4ss.). Nos Salmos podemos
observar como essa luta pela reintegração na relação com Deus acontecia
dentro da vida de culto do povo de Israel. No culto se articulavam o grito, a
lamentação e a prece por ajuda da pessoa que se encontrava fora da relação com
Deus, que não conseguia mais enxergar o seu rosto. Na dinâmica dos Salmos de
lamentação e penitência (p. ex.: Salmos 13,22,51...) que perpassa a lamentação,
a confissão do pecado até poder voltar ao louvor a Deus aparecem elementos
típicos de um aconselhamento liturgicamente ritualizado e ligado à intervenção
de sacerdotes, que realizavam cerimônias de sacrifício, de purificação ou de
cura para reintegrar o indivíduo espiritual e socialmente.
       Os provérbios e os diálogos de Jó com seus amigos nos indicam de que
maneira a admoestação e consolação eram práticas da sabedoria popular.
Conforme o costume de acompanhar enlutados, eles visitam o sofredor para
"compartilhar a dor e o consolar" (Jó 2.11). A solidariedade se exprime em
gestos tradicionais como rasgar as roupas e jogar pó em cima da cabeça, sentar-
se no chão ao lado de Jó e compartilhar sua dor em silêncio durante sete dias e
sete noites (2.12s.). Frente ao sofrimento do justo, o aconselhamento dos
amigos fracassa. Apenas na relação direta com Deus manifesta-se uma solução
para Jó (caps. 38ss.), que apela a Deus como testemunha contra Deus mesmo
(16.19s.). Nesta experiência extrema de um apelo ao Deus justo contra o Deus
ausente que escondeu o seu rosto o AT está sondando profundamente o abismo
da auto-experiência humana e oferece uma figura de pensamento que tornou-se
importante para o aconselhamento pastoral de muitas gerações.


13.2.3 - Poimênica no Novo Testamento

       No NT observamos a continuação de uma prática que integra cura
espiritual e física, aconselhamento, culto, interpretação das leis divinas e




                                                                           295
sabedoria popular. O contexto da prática de Jesus e da comunidade primitiva
era uma sociedade multicultural e multirreligiosa, caracterizada pelo
desenraizamento social e cultural de grandes populações, por insegurança
social, injustiça e violência diária. O pensamento apocalíptico que proclama-
va o fim deste mundo e o início do reino de Deus era uma tentativa de manter
a identidade das pessoas contra o perigo da desintegração total6. A mensagem
escatológica de Jesus de que o tempo se cumpriu, o reino de Deus está
próximo e cada um deve converter-se para o novo mundo de Deus que está à
frente (Mc 1.15) ofereceu uma possibilidade de superar o abismo entre o bem
e o mal, entre este mundo e a realidade de Deus. Através de uma negação
radical de si mesmos como seres que fazem parte deste mundo mau, os
seguidores de Jesus conseguiram uma afirmação dialética da sua identidade:
sendo pobres e pecadores, eles eram amados e valorizados perante Deus por
causa do amor que ele lhes transmitia na pessoa de Jesus. Este apresentava-se
na sua pregação e prática como reconciliador entre Deus e os seres humanos
que representa o amor e o perdão divinos. Esta afirmação dialética da própria
identidade perante Deus permaneceu, também após da morte de Jesus na
cruz, um elemento essencial da autocompreensão cristã e continua sendo um
ponto central para o aconselhamento cristão. A partir da experiência da
ressurreição e da fé de que Jesus é idêntico ao futuro juiz do mundo, os
seguidores dele conseguiram superar a experiência da sua morte e entender a
si mesmos como pessoas que vivem do perdão e do amor de Deus por causa
de Jesus Cristo. Ele, o crucificado e ressurreto, tornou-se o centro e a garantia
da sua identidade7. Paulo a testemunha de maneira exemplar quando diz: "Eu
vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim" (Gl 2.20).
Também os escritos joaninos visam uma transformação da pessoa a partir da
nova vida trazida por Jesus, após a sua morte, pelo Paráclito, o Espírito Santo
como advogado. Essa nova vida relativiza o antigo ser.
       A palavra paracalein, paraclesis torna-se o conceito-chave para o
aconselhamento pastoral no NT8. Em Paulo ela significa a oferta da salvação
através da relação com Cristo que a pregação do evangelho leva até as
pessoas. A paraclesis as chama para deixarem a sua participação na vida de
Cristo a partir do Batismo transformar a sua vida quotidiana e afirmá-la
também em situações de sofrimento (2 Co 1.3ss.). Por isso paraclesis pode
ler dois significados diferentes: admoestação e consolação. O seu fundamen-


6 Cf. Thomas BONHOEFFER, op. cit, p. 26.
7 ID., ibid.
8 Cf. Christoph SCHNEIDER-HARPPRECHT, Trost in der Seelsorge, p. 127ss.




                                                                             296
to é a misericórdia de Deus que justifica o pecador (Rm 12.1). A paraclesis
desafia os crentes a realizar uma identificação com Jesus Cristo que os
fortalece, lhes dá paciência e esperança (2 Co 1.6s.). Ela serve para a edificação
do corpo de Cristo.
       Dois aspectos no NT são importantes para a futura história do
aconselhamento pastoral. A mensagem da vida no reino de Deus e da ressur-
reição de Cristo transforma a antropologia e abre a porta para a desvaloriza-
ção da corporalidade e a espiritualização da vida que se tornaram dominantes
na medida em que o cristianismo abriu-se para o pensamento grego. A
dialética entre esta vida e a nova vida em Cristo que superou a morte levou
paulatinamente a uma compreensão que identifica a psyche com a verdadeira
vida espiritual, constituída pelo pneuma, o Espírito Santo que mora nos
crentes, enquanto que a psyche como vida neste mundo vai ser identificada
com a existência mortal e pecaminosa na carne. A contradição paulina entre
sarx e pneuma como duas formas da constituição do ser perante Deus vai ser
transformada, nos escritos apócrifos, na contradição entre corpo físico e alma
imortal9.
       Os agentes do aconselhamento no NT são todos os crentes. Porém em
Tg 5.13ss. transparece que a visitação aos doentes tornou-se mais e mais uma
atividade específica dos presbíteros da Igreja, que tinham a tarefa de orar com
o doente, ungi-lo com óleo e perdoar os pecados. O tratamento dos doentes
continuou sendo uma prática integral de cura espiritual e física. Tiago coloca
a ênfase ainda na confissão mútua e na oração como meios principais para a
cura, porém destaca que "a oração do justo, feita com insistência, tem muita
força" (5.16), quer dizer, a cura depende da qualidade espiritual da pessoa, e
certos representantes da comunidade parecem ser privilegiados.


13.2.4 - Poimênica na Igreja antiga e
         na Idade Média

       A integração da tradição bíblica e grega na Igreja antiga transformou a
mensagem escatológica num dogma sobre a verdade eterna e levou ao uso de
novos meios de aconselhamento, como cartas de consolação, processos de
auto-investigação e penitência ritualizada com a finalidade de purificar a alma.


----------------------
 9 Cf. Hermann EBERHARDT, op. cit., p. 43ss.




                                                                              297
Os eremitas no deserto do Egito, fundadores do monaquismo oriental, se
submetiam, na solidão de sua caverna, a exames espirituais contínuos,
aprofundaram a cultura da auto-observação e desenvolveram um tipo de acom-
panhamento pastoral por um mestre que assumia o papel de pai espiritual. O
livro de confissões de Agostinho é o documento mais importante do
aconselhamento como processo de auto-experiência perante Deus. Agostinho
reconstrui, reflete e avalia a história da sua vida na forma de uma oração. De
certa forma psicologiza a sua auto-experiência de pecado, culpa, luto, conver-
são e esperança. Assim a torna a fonte mais importante para o seu
aconselhamento. Conhecendo a si mesmo, ele pode ser solidário com outros10.
      A centralização do poder no monarquismo episcopal colocou a tarefa do
aconselhamento pastoral nas mãos dos bispos e presbíteros e lhe deu mais e
mais um caráter jurídico. O bispo julgava, punia e perdoava os pecados, era o
guarda da doutrina ortodoxa, decidia sobre a admissão à Santa Ceia e conseguia
assim controlar o pensamento e o comportamento dos fiéis, a sua consciência e
o seu corpo. Essa tendência desembocou na elaboração de um sistema de
penitência que tinha a função de definir o status de uma pessoa em relação com
a salvação e com a Igreja como representante da verdade eterna. O meio
terapêutico dessa poimênica era o castigo, a exclusão do grupo social dominan-
te como castigo social e como meio de educação que permitia, através de um
longo processo de penitência, o reingresso na comunhão dos santos11.
       O exemplo mais famoso desse tipo de aconselhamento é o Livro de
pastoral do papa Gregório I (590-604), uma coletânea de casos pastorais que
tornou-se durante um milênio a instrução básica para cada pastor. O meio de
poimênica era a conversação pastoral. Cabia ao ministro examinar a situação
moral e religiosa da pessoa, diagnosticando se ela estava de acordo com as
regras da Igreja para uma vida de fé ou não12.



10 Cf. Alfred SCHINDLER, Augustin, p. 204s.
11 Cf. Thomas BONHOEFFER, op. cit., p. 137. O filósofo Michel Foucault identificava nessa prática de
   poimênica "o poder pastoral" como um princípio político que, através de técnicas sistematizadas de
   punição e auto-investigação que estavam à disposição dos pastores, disciplinava o corpo e constituiu a
   alma cristã como reflexo interno do exercício da penitência. Na análise de Foucault, a idéia de alma
   cristã é um produto histórico da internalização da submissão sob "o poder pastoral" através da
   poimênica na era patrística e um elemento básico na formação do sujeito ocidental. Isto quer dizer que
   o sujeito cristão está, desde o início e na sua essência, submisso ao poder espiritual. A análise de
   Foucault exige uma autocrítica da poimênica e o desenvolvimento de uma concepção crítica de
   poimênica como libertação do poder eclesiástico, bem como da submissão por técnicas psicológicas de
   disciplina social (cf. Michel FOUCAULT, História da sexualidade; Hermann STEINKAMP, Die
   "Seele" - "Illusion der Theologen"; Eva ERDMANN, Die Macht unserer Kirchenvãter).
12 Thomas BONHOEFFER, op. cit., p. 56.




                                                                                                     298
A concepção de penitência de Gregório merece atenção específica, pois
tornou-se a base do sistema de confissão até a época da Reforma. Quem
cometia um pecado devia confessá-lo ao ministro. A condição para conseguir
realmente a absolvição por Deus era a contritio corais, a contrição pelo
próprio pecado. Deus vai ao encontro do pecador pela graça da compunctio,
provocando o reconhecimento da própria indignidade completa perante Deus,
quer dizer, uma autocontrição total que torna a pessoa digna para ouvir a
absolvição. O processo: contritio cordis - confessio oris - absolutio -
satisfactio operis do sistema de confissão em Gregório e na Igreja da Idade
Média dava às obras o valor de uma busca ativa para mudar não apenas a
postura interna, mas de recuperar efetivamente o mal causado pelo pecado13.


13.2.5 - A poimênica da Reforma

      O movimento da Reforma se constituiu a partir do protesto de Lutero
contra o abuso desse tipo de aconselhamento pastoral. A partir do seu próprio
processo de luta contra as tentações, a partir de uma profunda experiência
daquilo que significa ser pecador, ser condenado pela voz de Deus na cons-
ciência, de ser anulado, Lutero descobriu na graça pura como dádiva de Deus
por causa da vida e morte de Jesus Cristo o fundamento para uma reconstru-
ção e restruturação da identidade do indivíduo. Era um indivíduo com dois
sujeitos, o verdadeiro sujeito oculto, que é o próprio Cristo ao qual a pessoa
pertence, e o sujeito perante o mundo, dirigido pela razão e pela livre
vontade. Esse sujeito perante o mundo está num processo permanente de
transformação a partir do outro pólo da subjetividade perante Deus. Ou, em
outras palavras: o ser do pecador está sempre sob o juízo da consciência para
ser renovado a partir da fé. Ou, como Lutero disse na primeira das 95 teses de
Wittenberg em 1517: a vida do cristão como um todo é um processo de
penitência. É necessário voltar-se sempre para a primeira identidade definida
no Batismo.
      Essa postura tem conseqüências para o aconselhamento pastoral. Sig-
nifica em primeiro lugar que Lutero tirou o peso do ato de penitência
declarando que este não seria mais obrigatório. Por outro lado, tornou a sua
própria experiência quase um padrão para todos os seus contemporâneos.
Sendo cristãos, eles eram confrontados com o questionamento radical em
13 ID., ibid., p. 52.




                                                                          299
relação a Deus e com a consciência de que toda a sua existência era pecami-
nosa e não apenas determinados atos. Por conseqüência, essa dinâmica da
consciência e da afirmação da identidade pessoal através da fé como convic-
ção pessoal era o elemento mais forte na prática do aconselhamento pastoral
em Lutero e no protestantismo14.
      Conforme a famosa definição dos "Artigos de Esmalcalde",
aconselhamento pastoral é para Lutero o "mutuum colloquium et consolatio
fratrum"15. Na vida de cada dia na comunidade os irmãos conversam um com
o outro sobre as suas dificuldades e confessam quando erraram ou transgredi-
ram os mandamentos. O irmão vai ouvi-los e consolá-los pela mensagem da
absolvição, pela palavra de Deus e pela oração. A consolação como objetivo
maior da poimênica estabelece de novo a identidade precária lembrando a
pessoa da sua justificação por Deus.
      O problema da proposta de Lutero consiste no fato de que ele mesmo
começou, sob a influência das experiências com os entusiastas, a substituir a
concepção do aconselhamento livre dos irmãos na comunidade por um siste-
ma mais controlador e pastorcêntrico, quando introduziu de novo o exame de
fé (exame do conhecimento dos mandamentos e do Catecismo Menor) pelo
pastor como condição para a admissão à Santa Ceia. Na ortodoxia o poder
poimênico das chaves que cabe ao pastor era acompanhado por meios de
disciplina eclesiástica executada pela comunidade ou o governo estadual. A
poimênica luterana aproximou-se assim da prática das igrejas calvinistas,
que, desde as constituições eclesiásticas de Calvino e Bucer, colocaram o
enfoque poimênico na "disciplina" da comunidade. Eles exigiram, a partir de
Mt 18.15-18 e Mt 16.8s., a disciplina como admoestação individual que
confronta os membros da comunidade com a solicitação concreta de viver
conforme a graça concedida na palavra e nos sacramentos16. De fato a
execução da disciplina eclesiástica tornou-se um sistema de controle moral e
político dos cidadãos.




                                                                         300
13.2.6 - O desenvolvimento da poimênica no
         contexto da modernidade

       O pietismo desenvolveu, contra a rigidez desse sistema de controle
eclesiástico, uma nova forma de aconselhamento que promoveu pela primeira
vez a conversação livre em que uma pessoa podia colocar os seus problemas
independentemente da situação de penitência17. O enfoque na fé pessoal, nas
experiências de conversão e na santificação caracterizava o aconselhamento
pastoral pietista. Instalaram-se pastores como capelães hospitalares cuja tarefa
era exclusivamente a visitação e o acompanhamento dos doentes, porém o
único objetivo dessa prática era a conversão dos pacientes independentemente
da sua situação física, familiar e social18. No racionalismo, o aconselhamento
rompeu com essa tradição, entendendo a conversação pastoral como diálogo
entre amigos em que o pastor tinha a tarefa de animar as pessoas, procurar
melhorá-las moralmente, consolá-las e fornecer ajuda concreta através de
conhecimentos da medicina e psicologia19. A Igreja Metodista, fundada nesta
época por John Wesley, desenvolveu uma prática de aconselhamento pastoral
que integrava os elementos básicos do pietismo com a abertura iluminista
para a razão e o engajamento social.
       Elementos da posição do pietismo e do racionalismo entraram nas
concepções poimênicas do protestantismo alemão no séc. 19, as quais, depen-
dendo do enfoque teológico, tomavam um rumo mais pedagógico do
aconselhamento como conversação que devia reintegrar os membros na
comunidade e ajudá-los na vivência autônoma do cristianismo (Schleier-
macher), ou um rumo mais ortodoxo procurando consolação no sofrimento e
soluções concretas para situações conflituosas através da "orthotomia", da
aplicação de textos bíblicos que indicavam concretamente a palavra de Deus
para a respectiva situação (Nitzsch).
      O surgimento da psicologia como ciência e da psicanálise no final do
século passado agravou em nosso século o conflito latente entre concepções
de caráter liberal e racional que buscam conhecimentos psicológicos, a
auto-experiência do pastor e a proximidade com a empiria, e concepções




17 Cf. Michael KLESSMANN, Krankenseelsorge, 672, 30ss., em que o autor destaca que especialmente no
   moravianismo do conde Zinzendorf o aconselhamento era a "expressão do amor libertador e
   participativo".
18 ID., ibid., 672, 20ss.
19 Ibid., 672, 37ss.




                                                                                                301
que defendem a primazia da proclamação da Palavra e diminuem ou negam
o valor da contribuição da psicoterapia. Enquanto, por um lado, Eduard
Thurneysen, o representante da teologia dialética, insistiu que na conversa-
ção pastoral deve-se proclamar o evangelho do perdão dos pecados e fazer
oração, limitando o papel da psicologia à função de uma ciência auxiliar,
surgiu nos Estados Unidos, a partir da cooperação de pastores e médicos
(A. Boisen e A. Bryan, R. Dicks e R. Cabot), nos anos 20 e 30 o movimento
da "clínica pastoral", que visa o aconselhamento terapêutico e uma forma-
ção clínica de teólogos. Essa corrente uniu-se nos anos 60 na Europa com o
movimento da psicologia pastoral que promoveu a recepção de conheci-
mentos psicológicos e psicoterápicos no aconselhamento e tem as suas
origens especialmente no trabalho pioneiro do pastor e psicanalista Oskar
Pfister, um amigo suíço de Sigmund Freud. Hoje em dia encontramos nos
países norte-atlânticos um sistema elaborado de formação clínica e teórica
para obreiros da Igreja em aconselhamento pastoral que começa a deixar
marcas também na formação teológica em algumas igrejas evangélicas da
América Latina.


               13.3 - Tipos de aconselhamento pastoral na
                          América Latina
       A forma predominante de aconselhamento pastoral na América Latina
ainda consiste no sistema de penitência e na poimênica sacramental (Santa
Ceia, Unção dos Enfermos) da Igreja Católica, porém assumiu, especialmen-
te na convivência das comunidades eclesiais de base, formas e práticas mais
comunitárias. Por causa da dependência histórica das igrejas evangélicas dos
imigrantes europeus no Brasil da teologia produzida no exterior, encontramos
nas comunidades até hoje as diferentes propostas mais ortodoxas ou liberais
de aconselhamento, conforme a respectiva posição do pastor. Porém sempre
existiram fortes tendências de religosidade popular e de práticas de
aconselhamento e terapia integral, como a benzedura e rituais da religiosida-
de afro, que minavam o aconselhamento como instrumento do poder pastoral.
Parece que a maioria das formas de aconselhamento oficial não atinge a
dimensão da cultura popular. Surpreendentemente, na América Latina não se
repetiu ou até se inverteu o conflito entre a psicologia pastoral e o
aconselhamento centrado na Palavra. As alas mais evangelicais das igrejas
promovem a psicologia pastoral e tentam conciliá-la com a crença
fundamentalista, enquanto a teologia da libertação, durante muito tempo,
manteve uma atitude crítica frente à psicologia, uma postura que, após a




                                                                         302
queda do socialismo, está mudando com a redescoberta da importância da
experiência do indivíduo para a teologia da libertação20.
       Uma dificuldade com que nos deparamos na apresentação de tipos de
aconselhamento pastoral na América Latina consiste no fato de que a maioria
dos livros sobre o assunto são traduções de textos escritos no contexto norte-
americano que mostram apenas na superfície algumas semelhanças com o
contexto latino-americano (organização congregacionalista das igrejas, sepa-
ração de Igreja e Estado, fortes movimentos fundamentalistas, problemas
raciais, sociedade multicultural de imigrantes). Atualmente constatamos a
importância de quatro modelos teóricos de aconselhamento pastoral na Amé-
rica Latina: a) o modelo fundamentalista, b) o modelo evangelical de psicolo-
gia pastoral, c) o modelo holístico de libertação e crescimento e d) o modelo
contextual de uma poimênica da libertação.


13.3.1 - O modelo fundamentalista

       O teólogo norte-americano Jay E. Adams promoveu, em livros internaci-
onalmente divulgados, a visão de um "aconselhamento noutético" que critica
de maneira radical o uso de qualquer psicologia e chama o aconselhamento
para voltar exclusivamente à Bíblia como único fundamento para conduzir a
vida do cristão. O aconselhamento quer levar a pessoa à salvação através da
morte do "velho homem" e da ressurreição para um novo modo de vida seguin-
do Jesus Cristo e agindo conforme as regras divinas de comportamento humano
que são descritas na Bíblia. A Bíblia, que é verbalmente inspirada, revela em
todas as suas partes a verdade de Deus e oferece ao ser humano pecador regras
para conduzir a vida. Ela lhe mostra como a desobediência em relação a Deus
cria todo o sofrimento e a doença nos seres humanos. Deus chama as pessoas
para o arrependimento por causa do pecado e para uma mudança radical de
comportamento. Para Adams também doenças psíquicas têm a sua raiz no pe-
cado concreto da pessoa. O seu método é a conversação que confronta a pessoa
com o mal que ela faz (alcoolismo, medo, falta de fé), a responsabiliza pelos
seus atos e busca uma nova orientação. O aconselhamento pastoral educa a
pessoa por meios diretivos para que ela se aproxime do exemplo de Cristo.
Segundo Adams, o sofrimento serve como meio de educação espiritual21.




20 Cf. Lothar C. HOCH, Seelsorge und Befreiung, p. 135; ID., Aconselhamento pastoral e libertação.
21 Cf. Jay ADAMS, Conselheiro capaz.




                                                                                                     303
Chama a atenção, neste modelo, a falta de qualquer reflexão sobre o
contexto social, histórico e cultural do aconselhamento. Adams aplica as
verdades transculturais e eternas da Bíblia que valem para cada pessoa. A
mudança do comportamento do indivíduo tem prioridade absoluta; causas
sociais de problemas parecem não ser importantes. Sem dúvida, esse tipo de
aconselhamento pode ter sucesso especialmente entre toxicômanos (alcoolis-
tas e drogados) que mudam com mais facilidade se existe um sistema efetivo
de controle social e um forte ideal-do-eu que possa substituir a droga. Porém
concordamos com os críticos - alguns deles pertencem ao ambiente evangelical
- que perguntam se a "Bíblia foi realmente escrita como um manual de
aconselhamento"22 e mostram que a leitura bíblica de Adams está dominada
por uma visão de obrigação e obediência que não valoriza suficientemente o
aspecto da liberdade cristã e da graça divina23.


13.3.2 - O modelo evangelical
         de psicologia pastoral

      Entre os autores evangelicais existe uma forte tendência de usar a
psicologia para realizar um aconselhamento mais efetivo. O psicólogo Gary
Collins justifica isto da seguinte forma:

      (...) toda verdade tem origem em Deus, inclusive a verdade sobre as pessoas por
      ele criadas. Deus revelou esta verdade através da Bíblia, a sua palavra escrita à
      humanidade, mas também permitiu-nos descobrir a verdade mediante a expe-
      riência e os métodos de investigação científica. A verdade descoberta deve estar
      sempre de acordo e ser confrontada com o padrão da verdade bíblica revelada.
      Limitamos, no entanto, nossa eficácia no aconselhamento quando assumimos
      que as descobertas da psicologia nada têm a contribuir para a compreensão e
      solução dos problemas. Comprometemos nossa integridade quando rejeitamos
      abertamente a psicologia, mas a seguir, introduzimos clandestinamente os seus
      conceitos em nosso aconselhamento - algumas vezes ingenuamente e sem
      sequer perceber o que estamos fazendo.24

      Segundo Collins, o "alvo ulterior e abrangente" do aconselhamento é
"a evangelização e o discipulado", que os indivíduos tenham "vida em




22 Cf. Gary R. COLLINS, Aconselhamento cristão, p. 15.
23 Cf. Donald CAPPS, Reframing: A New Method in Pastoral Care.
24 Cf. Gary COLLINS, op. cit., p. 16.




                                                                                   304
abundância" na terra e "a vida eterna prometida aos crentes"25. Ele visa
autocompreensão, comunicação, aprendizado e modificação de comporta-
mento, auto-realização e apoio. Para os não-crentes é um tipo de "pré-
evangelização", para os que sofrem de prejuízos na vida é uma ajuda para
reconhecer "atitudes prejudiciais inconscientes" e "os recursos íntimos para
enfrentar uma crise"26. O aconselhamento pastoral está integrado na visão de
uma "comunidade terapêutica" de obreiros e leigos engajados. Ela pode
"oferecer apoio aos membros, cura aos indivíduos perturbados e orientação
quando as pessoas tomam decisões e seguem em direção à maturidade"27.
       A psicologia pastoral de autores como Collins, León, Ellens e outros
representantes do "Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos" tenta integrar
a psicologia moderna e o cristianismo bíblico numa visão psicoteológica do
ser humano que leva, por um lado, a uma prática psicologicamente bem
refletida, porém, por outro lado, deixa fora a parte da crítica psicológica da
religião, leva a uma psicologização da fé e a uma teologização da psicologia
que não deixa de ser problemática. A psicologia pastoral de Jorge A. León,
um dos modelos mais desenvolvidos deste tipo de reflexão, baseia-se numa
"perspectiva psicoteológica" do ser humano como um "prisma trilateral", um
ser "psico-neumo-somático" em que a dimensão espiritual predomina. A
psicologia pastoral aborda cada dimensão sob as perspectivas psicológicas e
teológicas com o "objetivo de ajudar o ser humano a ser mais humano e
melhor cristão"28. A cada dimensão correspondem determinados tipos de
psicoterapia: ao espiritual a logoterapia de V. Frankl, que parte das idéias da
busca inconsciente de Deus e da "neurose noógena", ao psíquico a psicanáli-
se de S. Freud e J. Lacan, ao corporal as terapias reichianas, gestáltica e o
psicodrama. O esforço enorme de León de respeitar os limites entre as
perspectivas psicqlógicas e teológicas não o preserva de curtos-circuitos
argumentativos. Tentando, numa postura apologética, identificar as "verda-
des" da psicologia também na teologia e da teologia também na psicologia,
afirma, p. ex., que "antes de Jaques Lacan se referir às estruturas do psiquismo,
nosso Senhor Jesus Cristo já nos havia apresentado, na parábola do semeador,
uma tipologia de, pelo menos, quatro maneiras do ser humano se expres-
sar"29. Subordina a psicologia quando nega que ela possa possibilitar um




25   ID., ibid., p. 19.
25   Ibid.
27    Ibid., p. 14.
28    Jorge A. LEÓN, Introdução à psicologia pastoral, p. 18.
29    ID., ibid., p. 14.




                                                                             305
crescimento integral que leve o indivíduo a ser pessoa no sentido pleno, pois
o indivíduo colocado "sob Jesus Cristo" se torna pessoa como se a integralidade
da pessoa esteja reservada exclusivamente aos cristãos30. Apesar da orienta-
ção comunitária e do forte engajamento na questão da família, o modelo não
fornece instrumentos para um trabalho que inclua o contexto social e político
de pobreza e marginalização.


13.3.3 - O modelo holístico de libertação e
         crescimento

       A palavra-chave para a poimênica e o aconselhamento pastoral de
Howard Clinebell é "integralidade centrada no Espírito"31. O modelo de
Clinebell parte de uma visão holística do ser humano a qual baseia-se na
antropologia bíblica que descreve o ser humano como imagem de Deus,
criado à sua semelhança como pessoa na integralidade de corpo, mente e
espírito e em relação com os outros, a comunidade. A libertação das pessoas
para terem vida em abundância (Jo 10.10) era o alvo da vinda de Jesus32. Por
conseqüência, é "o alvo da vida cristã" desenvolver a personalidade com
todas as suas possibilidades num processo de crescimento33.
       Clinebell define poimênica como "o ministério amplo e inclusivo de
cura e crescimento mútuo dentro de uma congregação e de sua comunidade".
Aconselhamento pastoral, como "uma dimensão da poimênica, é a utilização
de uma variedade de métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as pessoas a
lidar com seus problemas e crises de uma forma mais conducente ao cresci-
mento"34. Clinebell diferencia seis dimensões da integralidade humana e
deriva das mesmas seis dimensões da poimênica e do aconselhamento pasto-
ral. Elas servem para avivar a mente, revitalizar o corpo, renovar e enriquecer
os relacionamentos íntimos de uma pessoa, "aprofundar a sua relação com a
natureza e a biosfera, crescer em relação às instituições significativas em sua
vida, aprofundar e vitalizar seu relacionamento com Deus"35 nas mais diversas
situações durante o ciclo da vida. O aconselhamento faz uso de métodos e



3 Ibid., p. 35.
0

3   Howard CLINEBELL, Aconselhamento pastoral, p. 25.
3   ID., ibid., p. 48.
3   Ibid.
3   Ibid., p. 25.
4
3   Ibid., p. 29.




                                                                           306
técnicas de uma variedade de terapias de crescimento humano36. O ministério
poimênico cabe à "congregação inteira", que assume a função de uma rede de
apoio. Os pastores têm a tarefa de "inspirar e supervisionar as pessoas leigas
no ministério de poimênica"37.
        O modelo de Clinebell abriu-se para impulsos da psicologia humanística,
porém tenta fundamentá-los biblicamente. Uma visão aberta para o pluralismo
religioso nas sociedades modernas, a ênfase no aspecto comunitário, a sensi-
bilidade para os problemas causados pelo sexismo e a injustiça social nas
sociedades do norte e na relação norte-sul do planeta aproximam esta concep-
ção das necessidades da realidade latino-americana38. Por conseqüência, a
ênfase é colocada na "poimênica de grupos e instituições" e num trabalho de
conscientização sobre as raízes sociais do sofrimento dos indivíduos39 que
busca especialmente a valorização das experiências de mulheres e a integração
espiritual dos dois sexos. Porém o otimismo da perspectiva da integralidade
holística desperta certo mal-estar. Será que o pecado é apenas uma "resistên-
cia" quantitativa ao processo universal de crescimento, como Clinebell afir-
ma? Apesar do reconhecimento da limitação e finitude do crescimento,
permanece a tendência de contar com um desenvolvimento constante do
reino de Deus, entendido como "nova era de integralidade" (Mt 6.IO)40.
Parece que a confiança no progresso constante, típica do "American way of
life", assumiu um papel forte na interpretação do cristianismo e da poimênica
neste modelo. A pergunta central em relação a qualquer concepção holística é
se ela realmente leva a sério que a vida é sempre um fragmento, que não é a
plenitude da presença de Deus, mas a experiência da ausência de sentido
frente à morte, ao sofrimento e à injustiça, a experiência da carência de ser
que domina o ser humano e faz com que ele, como ser falante, esteja sempre a
caminho, em busca de sentido e de um futuro diferente41.




36 Ibid., p. 36.
37 Ibid., p. 33.
38 "O ponto fraco de boa parte da poimênica tem sido seu hiperindividualismo. A poimênica e o aconse-
   lhamento pastoral privatizados (juntamente com uma religião privatizada em geral) ignoram as formas
   penetrantes pelas quais racismo, sexismo, preconceito de idade, classismo, preconceito de espécie,
   nacionalismo, militarismo, exploração econômica e opressão política mutilam a integralidade humana
   em escala maciça em todas as sociedades." (Ibid., p. 31.)
39 Ibid.
40 Ibid., p. 58.
41 Cf. Henning LUTHER, Leben ais Fragment.




                                                                                                   307
13.3.4 - O modelo contextual de uma poimênica
         da libertação

       Ainda não existem pesquisas sobre o processo de aconselhamento
mútuo em comunidades eclesiais de base e em movimentos populares. À
primeira vista destaca-se o caráter ecumênico de um trabalho solidário de
leigos que são atingidos por determinado problema (barragens, sem terra,
sem teto, pacientes com AIDS...)- O aconselhamento tem um caráter de apoio
solidário na luta popular e acontece dentro do contexto específico de grupos e
encontros. Ele é exercido pelos próprios atingidos ou por representantes
especializados que trabalham com o objetivo de capacitar as vítimas de
problemas e injustiças sociais para defender os seus interesses vitais.
      A reflexão ainda rudimentar sobre uma poimênica da libertação, repre-
sentada especialmente pelo teólogo luterano Lothar Carlos Hoch, parte da
dimensão da encarnação, que leva o/a aconselhador/a a fazer uma opção
pelos pobres e expor-se ao sofrimento do povo42. Esse deslocamento para o
lugar do pobre submete o aconselhador à experiência de sua impotência para
mudar a situação e à crítica de qualquer atitude paternalista de assistência
pastoral e ensino. A transformação da situação dos pobres exige entrar no
caminho da convivência solidária no contexto da vida das pessoas conforme
o exemplo de Jesus.
       Compartilhando o sofrimento, a poimênica deve mudar a sua com-
preensão de pecado e passar de uma compreensão individualista de pecado,
que leva o povo pobre a desvalorizar-se ainda mais, para uma compreensão e
denúncia profética do pecado estrutural. A poimênica precisa capacitar as
pessoas para descobrir o pecado estrutural da sociedade injusta na sua vida
individual, familiar e social e ajudá-las a questionar a sua situação e tornar-se
ativas na luta pela libertação43. O critério decisivo para a poimênica é a sua
contribuição para a conscientização política e o progresso nesta luta44. Inte-
grada na prática libertadora, a poimênica torna-se tarefa de todos e todas e
serve para que as pessoas e os grupos populares achem a sua identidade e
cresçam em conjunto. Metodologicamente o aconselhamento em grupos tem
a mesma importância que o aconselhamento individual, o qual, por sua vez,
mantém sempre uma perspectiva grupai. O aconselhamento parte do sofri-

 ______

42 Cf. Lothar C. HOCH, Aconselhamento pastoral e libertação; ID., Seelsorge und Befreiung, p. 138.
43 ID., ibid., p. 139s.
44 Ibid., p. 140.




                                                                                                 308
mento atual das pessoas. Os seus instrumentos, ouvir e falar, servem para dar
uma voz ao sofrimento, para articular o protesto e partir para a ação45. A
psicologia, cuja importância para a teologia da libertação Hoch defende46,
integra-se nesta tarefa. No trabalho da poimênica da libertação ela transfor-
ma-se numa psicologia pastoral contextualizada.
       Para as igrejas históricas surge a dificuldade de integrar o modelo
contextual com as necessidades dos membros de classe média e a estrutura
das comunidades tradicionais. Futuramente será importante para o trabalho
de aconselhamento pastoral superar as barreiras das classes sociais e criar
mais comunicação e cooperação entre os integrantes dessas classes. A reali-
dade da variedade de estilos de viver a fé dentro da Igreja exige também uma
maior cooperação entre os diferentes modelos de poimênica e aconselhamento
pastoral. Parece ser óbvio que a psicologia pastoral evangelical e os modelos
de poimênica integral e contextual têm muito em comum, especialmente a
orientação comunitária que valoriza o trabalho dos leigos, aspectos de uma
antropologia integral, o diálogo com a psicologia e psicoterapia, a visão
libertadora, colocando a ênfase na cooperação de aconselhamento pastoral e
diaconia.


45 Ibid., p. 142.
46 Cf. Lothar C. HOCH, Psicologia a serviço da libertação.




                                                                         309

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Aconselhamento pastoral

  • 1. Capítulo 13: Aconselhamento pastoral Christoph Schneider-Harpprecht 13.1 - Introdução O termo "aconselhamento pastoral" é uma tradução para o português da palavra inglesa pastoral counseling, usada especialmente no contexto norte-americano do séc. 20. Muitos consideram este termo uma expressão problemática, pois sugere que aconselhamento seria em primeiro lugar uma atividade do pastor como ministro ordenado e implicaria uma relação de poder que não deixa espaço para a livre articulação do seu parceiro de comunicação e para o desenvolvimento independente do mesmo. Outros termos técnicos usados nesta área, como a palavra artificial poimênica (a ciência do agir do pastor [em grego: poimen]), clínica pastoral (o acompanhamento pastoral na área da saúde), psicologia pastoral (a interpretação da pastoral sob perspectiva psicológica) ou a definição dos parceiros na conversação como paciente, cliente, aconselhando também indicam esse problema de poder. A origem dessas metáforas está na medicina, na psicanálise e no método psicoterápico de Cari Rogers (counseling). A tendência de entender a atividade do aconselhamento pastoral a partir da medicina tem as suas raízes já na Igreja antiga e deve-se à tradição do platonismo, que transparece no conceito clássico de cura d'almas, o qual entende como tarefa principal do pastor a salvação da alma imortal através da confissão e absolvição. Para superar o dualismo antropológico desta concepção, achamos preferível permanecer na terminologia comum e refletir criticamente sobre as suas implicações e limites. Falamos neste capítulo da teoria e prática da poimênica e do aconselhamento pastoral, destacando que esta atividade não se restringe aos ministros ordenados, que ela implica uma relativização do poder, pois trata-se, em princípio, de uma relação livre entre dois parceiros iguais. Definimos a poimênica como o ministério de ajuda da comunidade cristã para os seus membros e para outras pessoas que a procuram na área da saúde através da convivência diária no contexto da Igreja, e definimos o aconselhamento pastoral como uma dimensão da poimênica que procura 291
  • 2. ajudar através da conversação e outras formas de comunicação metodologicamente refletidas. Ambos baseiam-se na fé cristã e na tradição simbólica do cristianismo. O objetivo do aconselhamento pastoral é descobrir com as pessoas em diferentes situações da sua vida e especialmente em conflitos e crises o significado concreto da liberdade cristã dos pecadores cujo direito de viver e cuja auto-aceitação vêm da graça de Deus. O seu objetivo é também ajudá-las para que possam viver a relação com Deus, consigo mesmas e com o próximo de uma maneira consciente e adulta. Isto inclui a capacitação das pessoas para assumirem a sua responsabilidade como cidadãos que se engajam em favor de uma melhora das condições de vida do seu povo numa sociedade livre, democrática e justa. Essa definição interpreta a poimênica e o aconselhamento pastoral em primeiro lugar como uma expressão da vida da comunidade e não como uma tarefa reservada para os pastores ou outros especialistas da Igreja. Aconselhamento acontece sempre e em qualquer cultura quando pessoas convivem, participam do discurso público e particular e comunicam-se so- bre as dificuldades no grupo familiar, no trabalho, na Igreja ou congregação religiosa, nas diferentes relações sociais nas quais estão inseridas. A convi- vência e a comunicação são o fundamento social do aconselhamento em geral. O aconselhamento pastoral é uma forma específica do discurso huma- no. A sua base social é a convivência no contexto da Igreja, a koinonia dos membros. Esta koinonia tem para os cristãos um significado espiritual: na convivência da comunidade acontece a comunhão com Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado que, na sua vida e morte, compartilhou o destino humano e, conforme a promessa do evangelho, se torna presente "onde dois ou três se reúnem no nome dele" (Mt 18.20). A metáfora bíblica da Igreja como corpo de Cristo provavelmente é a expressão mais exata para a interdependência das relações humanas e da relação espiritual com Cristo na comunhão dos membros da comunidade cristã. O aconselhamento pastoral é uma dimensão da koinonia, assim como o culto, a catequese, a missão e a diaconia. Isto implica que todas essas dimen- sões de convivência têm também um significado poimênico e, por outro lado, que o aconselhamento pastoral inclui elementos litúrgicos (oração, canto, con- fissão de pecados e absolvição...), elementos catequéticos (orientação, infor- mação, processos de aprendizagem...), elementos de missão (anúncio do evan- gelho, chamado para a mudança de vida, envio para testemunhar a fé através da vida...) e elementos diacônicos (visitação, comunhão de mesa, assistência social aos pobres e enfermos...). O aconselhamento pastoral e as outras di- mensões da vida comunitária estão interligados como círculos que se cruzam e assim delimitam uma superfície que têm em comum. 292
  • 3. Naturalmente a diaconia e o aconselhamento pastoral estão mais inter- ligados. É impossível separar a ajuda psicológica e espiritual da ajuda concreta pela ação social. As necessidades físicas e sociais elementares do ser humano têm prioridade. O aconselhamento pastoral que oferecesse consola- ção espiritual aos famintos seria uma contradição cínica do evangelho que ninguém pode desejar. No contexto de pobreza que é típico dos países da América Latina o aconselhamento pastoral precisa ser integrado no trabalho diaconal da comunidade. Este parte diretamente para a ação concreta de ajuda, enquanto o aconselhamento pastoral lida com processos de mudança da identidade, de posturas, pensamentos, sentimentos, relações interpessoais que se refletem no comportamento das pessoas. A partir dessa visão é necessário desenvolver na Teologia Prática a teoria de uma prática interdisciplinar do aconselhamento pastoral que reflita a sua relação com as outras dimensões da vida comunitária, bem como com as ciências humanas (psicologia, psicoterapia, teoria da comunicação, sociolo- gia, antropologia...). Se o aconselhamento pastoral é uma forma específica de discurso humano no contexto da Igreja inserida numa determinada sociedade, cultura e tradição, ele está sujeito às regras deste discurso. Por isso a teoria e prática do aconselhamento pastoral devem levar em consideração os aspectos psicológicos, sociais e culturais do seu discurso e entrar num diálogo crítico com as disciplinas que desenvolvem estas perspectivas. Nesta primeira aproximação à teoria do aconselhamento pastoral dentro da Teologia Prática já transparecem os temas fundamentais que devem ser aprofundados neste capítulo: a fundamentação teológica, o pro- blema da inculturação, a relação entre aconselhamento pastoral e as ciências humanas e a questão do método. Antes de abordar esses temas, achamos necessário esboçar uma visão geral da história do aconselhamento pastoral e analisar os principais modelos atuais que determinam o trabalho de aconselhamento pastoral nas igrejas do protestantismo histórico na América Latina. 13.2 - Aspectos históricos do aconselhamento pastoral 13.2.1 - As origens platônicas A palavra cura d'almas aparece pela primeira vez no diálogo de Platão intitulado Laches. Dois pais conversam com Sócrates sobre a educação correia para os seus filhos e concordam logo com a opinião do filósofo de que 293
  • 4. o caminho certo seria a terapia da alma (psyches terapeia)1. Platão exige de cada cidadão que ele se preocupe não apenas com o dinheiro, a sua fama e honra. Deve também procurar o melhor para a sua alma {epimeleisthai tes psyches) através de conhecimento e verdade2. O caminho para tal é o processo permanente de autoconhecimento e auto-exame {gnothi seauton). Já na sua origem o aconselhamento, entendido como cura d'almas, aparece como uma prática social de disciplinar os cidadãos e tem um significado dualista voltado contra a realidade física do corpo que durante séculos dominaram o tratamento da alma no Ocidente. Isto transparece quando Platão exige, no seu escrito Nomoi ("Leis"), que cada cidadão que não acredita nos deuses seja internado durante cinco anos numa casa onde, através de contatos com pessoas seletas, possa melhorar e salvar a sua alma. A psicologia platônica, que divide a alma em três partes, o lado racional (logistikon) relacionado com o verdadeiro ser das idéias, o lado do sentimento (timoeides) e o lado da pulsão (epitometikon), relacionado mais com a realidade física e sensual, determina o processo de autoconhecimento como fuga constante da mente para fora do mundo físico, voltando-se para o mundo das idéias e de Deus3. Na Antiguidade a terapia e o aconselhamento não eram práticas específicas de terapia no sentido atual. Filosofia, teologia, pedagogia e culto eram em grande parte equivalentes4. 13.2.2 - Poimênica no Antigo Testamento No mundo do Antigo e do Novo Testamento encontramos uma concep- ção diferente de alma e, por conseqüência, também outras concepções de aconselhamento. A alma no AT é idêntica à vida. O sopro que Deus soprou nas narinas do homem que modelou com a argila do solo é a sua nefesh, ele mesmo como ser vivente perante Deus (Gn 2.7). Nefesh é sinônimo da identidade do ser humano nas suas relações com Deus, consigo mesmo e com o próximo5. A antropologia do AT não separa mente, alma e corpo e entende o ser humano de maneira integral e relacional. As perturbações da relação com Deus afetam todo o ser humano. Ele as percebe também de maneira integral no seu coração (leb) como órgão central das emoções, da autopercepção e da consciência. Afastada de Deus a nefesh enfraquece, sofre, fica doente, 1 Cf. Thomas BONHOEFFER, Ursprung und Wesen der christlichen Seelsorge, p. 11. 2 Cf. Chrístian MÕLLER, Entstehung und Pragung des Begriffs Seelsorge, p. 9. 3 ID., ibid., p. 10. 4 Cf. Thomas BONHOEFFER, op. cit., p. 11. 5 Cf. Hermann EBERHARDT, Praktische Seel-Sorge-Theologie, p. 19-21. 294
  • 5. segue o mal nos seus atos e pode morrer. A morte é a falta da relação com Deus, e quem se afastou dessa relação já participa da realidade da morte enquanto ainda vive fisicamente. O aconselhamento no AT está centrado na luta do ser humano para resgatar a sua relação com Deus. O aconselhamento aparece como fenômeno nas diferentes articulações da vida da comunidade, ligado ao culto, ao sistema jurídico e à sabedoria popular. Agentes do aconselhamento no AT são os sacerdotes (Lv 12ss.; 1 Sm 1.9ss.), os anciãos e juízes que tomam decisões em casos de conflitos (Rt 4), os profetas que desenvolvem na sua prática a admoes- tação e a consolação individual e coletiva (2 Sm 12; Is 40.1ss.) e, em primeiro lugar, os sábios, homens do povo que transmitem como pais de família os conselhos da sabedoria popular para os filhos (Pv 4ss.). Nos Salmos podemos observar como essa luta pela reintegração na relação com Deus acontecia dentro da vida de culto do povo de Israel. No culto se articulavam o grito, a lamentação e a prece por ajuda da pessoa que se encontrava fora da relação com Deus, que não conseguia mais enxergar o seu rosto. Na dinâmica dos Salmos de lamentação e penitência (p. ex.: Salmos 13,22,51...) que perpassa a lamentação, a confissão do pecado até poder voltar ao louvor a Deus aparecem elementos típicos de um aconselhamento liturgicamente ritualizado e ligado à intervenção de sacerdotes, que realizavam cerimônias de sacrifício, de purificação ou de cura para reintegrar o indivíduo espiritual e socialmente. Os provérbios e os diálogos de Jó com seus amigos nos indicam de que maneira a admoestação e consolação eram práticas da sabedoria popular. Conforme o costume de acompanhar enlutados, eles visitam o sofredor para "compartilhar a dor e o consolar" (Jó 2.11). A solidariedade se exprime em gestos tradicionais como rasgar as roupas e jogar pó em cima da cabeça, sentar- se no chão ao lado de Jó e compartilhar sua dor em silêncio durante sete dias e sete noites (2.12s.). Frente ao sofrimento do justo, o aconselhamento dos amigos fracassa. Apenas na relação direta com Deus manifesta-se uma solução para Jó (caps. 38ss.), que apela a Deus como testemunha contra Deus mesmo (16.19s.). Nesta experiência extrema de um apelo ao Deus justo contra o Deus ausente que escondeu o seu rosto o AT está sondando profundamente o abismo da auto-experiência humana e oferece uma figura de pensamento que tornou-se importante para o aconselhamento pastoral de muitas gerações. 13.2.3 - Poimênica no Novo Testamento No NT observamos a continuação de uma prática que integra cura espiritual e física, aconselhamento, culto, interpretação das leis divinas e 295
  • 6. sabedoria popular. O contexto da prática de Jesus e da comunidade primitiva era uma sociedade multicultural e multirreligiosa, caracterizada pelo desenraizamento social e cultural de grandes populações, por insegurança social, injustiça e violência diária. O pensamento apocalíptico que proclama- va o fim deste mundo e o início do reino de Deus era uma tentativa de manter a identidade das pessoas contra o perigo da desintegração total6. A mensagem escatológica de Jesus de que o tempo se cumpriu, o reino de Deus está próximo e cada um deve converter-se para o novo mundo de Deus que está à frente (Mc 1.15) ofereceu uma possibilidade de superar o abismo entre o bem e o mal, entre este mundo e a realidade de Deus. Através de uma negação radical de si mesmos como seres que fazem parte deste mundo mau, os seguidores de Jesus conseguiram uma afirmação dialética da sua identidade: sendo pobres e pecadores, eles eram amados e valorizados perante Deus por causa do amor que ele lhes transmitia na pessoa de Jesus. Este apresentava-se na sua pregação e prática como reconciliador entre Deus e os seres humanos que representa o amor e o perdão divinos. Esta afirmação dialética da própria identidade perante Deus permaneceu, também após da morte de Jesus na cruz, um elemento essencial da autocompreensão cristã e continua sendo um ponto central para o aconselhamento cristão. A partir da experiência da ressurreição e da fé de que Jesus é idêntico ao futuro juiz do mundo, os seguidores dele conseguiram superar a experiência da sua morte e entender a si mesmos como pessoas que vivem do perdão e do amor de Deus por causa de Jesus Cristo. Ele, o crucificado e ressurreto, tornou-se o centro e a garantia da sua identidade7. Paulo a testemunha de maneira exemplar quando diz: "Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim" (Gl 2.20). Também os escritos joaninos visam uma transformação da pessoa a partir da nova vida trazida por Jesus, após a sua morte, pelo Paráclito, o Espírito Santo como advogado. Essa nova vida relativiza o antigo ser. A palavra paracalein, paraclesis torna-se o conceito-chave para o aconselhamento pastoral no NT8. Em Paulo ela significa a oferta da salvação através da relação com Cristo que a pregação do evangelho leva até as pessoas. A paraclesis as chama para deixarem a sua participação na vida de Cristo a partir do Batismo transformar a sua vida quotidiana e afirmá-la também em situações de sofrimento (2 Co 1.3ss.). Por isso paraclesis pode ler dois significados diferentes: admoestação e consolação. O seu fundamen- 6 Cf. Thomas BONHOEFFER, op. cit, p. 26. 7 ID., ibid. 8 Cf. Christoph SCHNEIDER-HARPPRECHT, Trost in der Seelsorge, p. 127ss. 296
  • 7. to é a misericórdia de Deus que justifica o pecador (Rm 12.1). A paraclesis desafia os crentes a realizar uma identificação com Jesus Cristo que os fortalece, lhes dá paciência e esperança (2 Co 1.6s.). Ela serve para a edificação do corpo de Cristo. Dois aspectos no NT são importantes para a futura história do aconselhamento pastoral. A mensagem da vida no reino de Deus e da ressur- reição de Cristo transforma a antropologia e abre a porta para a desvaloriza- ção da corporalidade e a espiritualização da vida que se tornaram dominantes na medida em que o cristianismo abriu-se para o pensamento grego. A dialética entre esta vida e a nova vida em Cristo que superou a morte levou paulatinamente a uma compreensão que identifica a psyche com a verdadeira vida espiritual, constituída pelo pneuma, o Espírito Santo que mora nos crentes, enquanto que a psyche como vida neste mundo vai ser identificada com a existência mortal e pecaminosa na carne. A contradição paulina entre sarx e pneuma como duas formas da constituição do ser perante Deus vai ser transformada, nos escritos apócrifos, na contradição entre corpo físico e alma imortal9. Os agentes do aconselhamento no NT são todos os crentes. Porém em Tg 5.13ss. transparece que a visitação aos doentes tornou-se mais e mais uma atividade específica dos presbíteros da Igreja, que tinham a tarefa de orar com o doente, ungi-lo com óleo e perdoar os pecados. O tratamento dos doentes continuou sendo uma prática integral de cura espiritual e física. Tiago coloca a ênfase ainda na confissão mútua e na oração como meios principais para a cura, porém destaca que "a oração do justo, feita com insistência, tem muita força" (5.16), quer dizer, a cura depende da qualidade espiritual da pessoa, e certos representantes da comunidade parecem ser privilegiados. 13.2.4 - Poimênica na Igreja antiga e na Idade Média A integração da tradição bíblica e grega na Igreja antiga transformou a mensagem escatológica num dogma sobre a verdade eterna e levou ao uso de novos meios de aconselhamento, como cartas de consolação, processos de auto-investigação e penitência ritualizada com a finalidade de purificar a alma. ---------------------- 9 Cf. Hermann EBERHARDT, op. cit., p. 43ss. 297
  • 8. Os eremitas no deserto do Egito, fundadores do monaquismo oriental, se submetiam, na solidão de sua caverna, a exames espirituais contínuos, aprofundaram a cultura da auto-observação e desenvolveram um tipo de acom- panhamento pastoral por um mestre que assumia o papel de pai espiritual. O livro de confissões de Agostinho é o documento mais importante do aconselhamento como processo de auto-experiência perante Deus. Agostinho reconstrui, reflete e avalia a história da sua vida na forma de uma oração. De certa forma psicologiza a sua auto-experiência de pecado, culpa, luto, conver- são e esperança. Assim a torna a fonte mais importante para o seu aconselhamento. Conhecendo a si mesmo, ele pode ser solidário com outros10. A centralização do poder no monarquismo episcopal colocou a tarefa do aconselhamento pastoral nas mãos dos bispos e presbíteros e lhe deu mais e mais um caráter jurídico. O bispo julgava, punia e perdoava os pecados, era o guarda da doutrina ortodoxa, decidia sobre a admissão à Santa Ceia e conseguia assim controlar o pensamento e o comportamento dos fiéis, a sua consciência e o seu corpo. Essa tendência desembocou na elaboração de um sistema de penitência que tinha a função de definir o status de uma pessoa em relação com a salvação e com a Igreja como representante da verdade eterna. O meio terapêutico dessa poimênica era o castigo, a exclusão do grupo social dominan- te como castigo social e como meio de educação que permitia, através de um longo processo de penitência, o reingresso na comunhão dos santos11. O exemplo mais famoso desse tipo de aconselhamento é o Livro de pastoral do papa Gregório I (590-604), uma coletânea de casos pastorais que tornou-se durante um milênio a instrução básica para cada pastor. O meio de poimênica era a conversação pastoral. Cabia ao ministro examinar a situação moral e religiosa da pessoa, diagnosticando se ela estava de acordo com as regras da Igreja para uma vida de fé ou não12. 10 Cf. Alfred SCHINDLER, Augustin, p. 204s. 11 Cf. Thomas BONHOEFFER, op. cit., p. 137. O filósofo Michel Foucault identificava nessa prática de poimênica "o poder pastoral" como um princípio político que, através de técnicas sistematizadas de punição e auto-investigação que estavam à disposição dos pastores, disciplinava o corpo e constituiu a alma cristã como reflexo interno do exercício da penitência. Na análise de Foucault, a idéia de alma cristã é um produto histórico da internalização da submissão sob "o poder pastoral" através da poimênica na era patrística e um elemento básico na formação do sujeito ocidental. Isto quer dizer que o sujeito cristão está, desde o início e na sua essência, submisso ao poder espiritual. A análise de Foucault exige uma autocrítica da poimênica e o desenvolvimento de uma concepção crítica de poimênica como libertação do poder eclesiástico, bem como da submissão por técnicas psicológicas de disciplina social (cf. Michel FOUCAULT, História da sexualidade; Hermann STEINKAMP, Die "Seele" - "Illusion der Theologen"; Eva ERDMANN, Die Macht unserer Kirchenvãter). 12 Thomas BONHOEFFER, op. cit., p. 56. 298
  • 9. A concepção de penitência de Gregório merece atenção específica, pois tornou-se a base do sistema de confissão até a época da Reforma. Quem cometia um pecado devia confessá-lo ao ministro. A condição para conseguir realmente a absolvição por Deus era a contritio corais, a contrição pelo próprio pecado. Deus vai ao encontro do pecador pela graça da compunctio, provocando o reconhecimento da própria indignidade completa perante Deus, quer dizer, uma autocontrição total que torna a pessoa digna para ouvir a absolvição. O processo: contritio cordis - confessio oris - absolutio - satisfactio operis do sistema de confissão em Gregório e na Igreja da Idade Média dava às obras o valor de uma busca ativa para mudar não apenas a postura interna, mas de recuperar efetivamente o mal causado pelo pecado13. 13.2.5 - A poimênica da Reforma O movimento da Reforma se constituiu a partir do protesto de Lutero contra o abuso desse tipo de aconselhamento pastoral. A partir do seu próprio processo de luta contra as tentações, a partir de uma profunda experiência daquilo que significa ser pecador, ser condenado pela voz de Deus na cons- ciência, de ser anulado, Lutero descobriu na graça pura como dádiva de Deus por causa da vida e morte de Jesus Cristo o fundamento para uma reconstru- ção e restruturação da identidade do indivíduo. Era um indivíduo com dois sujeitos, o verdadeiro sujeito oculto, que é o próprio Cristo ao qual a pessoa pertence, e o sujeito perante o mundo, dirigido pela razão e pela livre vontade. Esse sujeito perante o mundo está num processo permanente de transformação a partir do outro pólo da subjetividade perante Deus. Ou, em outras palavras: o ser do pecador está sempre sob o juízo da consciência para ser renovado a partir da fé. Ou, como Lutero disse na primeira das 95 teses de Wittenberg em 1517: a vida do cristão como um todo é um processo de penitência. É necessário voltar-se sempre para a primeira identidade definida no Batismo. Essa postura tem conseqüências para o aconselhamento pastoral. Sig- nifica em primeiro lugar que Lutero tirou o peso do ato de penitência declarando que este não seria mais obrigatório. Por outro lado, tornou a sua própria experiência quase um padrão para todos os seus contemporâneos. Sendo cristãos, eles eram confrontados com o questionamento radical em 13 ID., ibid., p. 52. 299
  • 10. relação a Deus e com a consciência de que toda a sua existência era pecami- nosa e não apenas determinados atos. Por conseqüência, essa dinâmica da consciência e da afirmação da identidade pessoal através da fé como convic- ção pessoal era o elemento mais forte na prática do aconselhamento pastoral em Lutero e no protestantismo14. Conforme a famosa definição dos "Artigos de Esmalcalde", aconselhamento pastoral é para Lutero o "mutuum colloquium et consolatio fratrum"15. Na vida de cada dia na comunidade os irmãos conversam um com o outro sobre as suas dificuldades e confessam quando erraram ou transgredi- ram os mandamentos. O irmão vai ouvi-los e consolá-los pela mensagem da absolvição, pela palavra de Deus e pela oração. A consolação como objetivo maior da poimênica estabelece de novo a identidade precária lembrando a pessoa da sua justificação por Deus. O problema da proposta de Lutero consiste no fato de que ele mesmo começou, sob a influência das experiências com os entusiastas, a substituir a concepção do aconselhamento livre dos irmãos na comunidade por um siste- ma mais controlador e pastorcêntrico, quando introduziu de novo o exame de fé (exame do conhecimento dos mandamentos e do Catecismo Menor) pelo pastor como condição para a admissão à Santa Ceia. Na ortodoxia o poder poimênico das chaves que cabe ao pastor era acompanhado por meios de disciplina eclesiástica executada pela comunidade ou o governo estadual. A poimênica luterana aproximou-se assim da prática das igrejas calvinistas, que, desde as constituições eclesiásticas de Calvino e Bucer, colocaram o enfoque poimênico na "disciplina" da comunidade. Eles exigiram, a partir de Mt 18.15-18 e Mt 16.8s., a disciplina como admoestação individual que confronta os membros da comunidade com a solicitação concreta de viver conforme a graça concedida na palavra e nos sacramentos16. De fato a execução da disciplina eclesiástica tornou-se um sistema de controle moral e político dos cidadãos. 300
  • 11. 13.2.6 - O desenvolvimento da poimênica no contexto da modernidade O pietismo desenvolveu, contra a rigidez desse sistema de controle eclesiástico, uma nova forma de aconselhamento que promoveu pela primeira vez a conversação livre em que uma pessoa podia colocar os seus problemas independentemente da situação de penitência17. O enfoque na fé pessoal, nas experiências de conversão e na santificação caracterizava o aconselhamento pastoral pietista. Instalaram-se pastores como capelães hospitalares cuja tarefa era exclusivamente a visitação e o acompanhamento dos doentes, porém o único objetivo dessa prática era a conversão dos pacientes independentemente da sua situação física, familiar e social18. No racionalismo, o aconselhamento rompeu com essa tradição, entendendo a conversação pastoral como diálogo entre amigos em que o pastor tinha a tarefa de animar as pessoas, procurar melhorá-las moralmente, consolá-las e fornecer ajuda concreta através de conhecimentos da medicina e psicologia19. A Igreja Metodista, fundada nesta época por John Wesley, desenvolveu uma prática de aconselhamento pastoral que integrava os elementos básicos do pietismo com a abertura iluminista para a razão e o engajamento social. Elementos da posição do pietismo e do racionalismo entraram nas concepções poimênicas do protestantismo alemão no séc. 19, as quais, depen- dendo do enfoque teológico, tomavam um rumo mais pedagógico do aconselhamento como conversação que devia reintegrar os membros na comunidade e ajudá-los na vivência autônoma do cristianismo (Schleier- macher), ou um rumo mais ortodoxo procurando consolação no sofrimento e soluções concretas para situações conflituosas através da "orthotomia", da aplicação de textos bíblicos que indicavam concretamente a palavra de Deus para a respectiva situação (Nitzsch). O surgimento da psicologia como ciência e da psicanálise no final do século passado agravou em nosso século o conflito latente entre concepções de caráter liberal e racional que buscam conhecimentos psicológicos, a auto-experiência do pastor e a proximidade com a empiria, e concepções 17 Cf. Michael KLESSMANN, Krankenseelsorge, 672, 30ss., em que o autor destaca que especialmente no moravianismo do conde Zinzendorf o aconselhamento era a "expressão do amor libertador e participativo". 18 ID., ibid., 672, 20ss. 19 Ibid., 672, 37ss. 301
  • 12. que defendem a primazia da proclamação da Palavra e diminuem ou negam o valor da contribuição da psicoterapia. Enquanto, por um lado, Eduard Thurneysen, o representante da teologia dialética, insistiu que na conversa- ção pastoral deve-se proclamar o evangelho do perdão dos pecados e fazer oração, limitando o papel da psicologia à função de uma ciência auxiliar, surgiu nos Estados Unidos, a partir da cooperação de pastores e médicos (A. Boisen e A. Bryan, R. Dicks e R. Cabot), nos anos 20 e 30 o movimento da "clínica pastoral", que visa o aconselhamento terapêutico e uma forma- ção clínica de teólogos. Essa corrente uniu-se nos anos 60 na Europa com o movimento da psicologia pastoral que promoveu a recepção de conheci- mentos psicológicos e psicoterápicos no aconselhamento e tem as suas origens especialmente no trabalho pioneiro do pastor e psicanalista Oskar Pfister, um amigo suíço de Sigmund Freud. Hoje em dia encontramos nos países norte-atlânticos um sistema elaborado de formação clínica e teórica para obreiros da Igreja em aconselhamento pastoral que começa a deixar marcas também na formação teológica em algumas igrejas evangélicas da América Latina. 13.3 - Tipos de aconselhamento pastoral na América Latina A forma predominante de aconselhamento pastoral na América Latina ainda consiste no sistema de penitência e na poimênica sacramental (Santa Ceia, Unção dos Enfermos) da Igreja Católica, porém assumiu, especialmen- te na convivência das comunidades eclesiais de base, formas e práticas mais comunitárias. Por causa da dependência histórica das igrejas evangélicas dos imigrantes europeus no Brasil da teologia produzida no exterior, encontramos nas comunidades até hoje as diferentes propostas mais ortodoxas ou liberais de aconselhamento, conforme a respectiva posição do pastor. Porém sempre existiram fortes tendências de religosidade popular e de práticas de aconselhamento e terapia integral, como a benzedura e rituais da religiosida- de afro, que minavam o aconselhamento como instrumento do poder pastoral. Parece que a maioria das formas de aconselhamento oficial não atinge a dimensão da cultura popular. Surpreendentemente, na América Latina não se repetiu ou até se inverteu o conflito entre a psicologia pastoral e o aconselhamento centrado na Palavra. As alas mais evangelicais das igrejas promovem a psicologia pastoral e tentam conciliá-la com a crença fundamentalista, enquanto a teologia da libertação, durante muito tempo, manteve uma atitude crítica frente à psicologia, uma postura que, após a 302
  • 13. queda do socialismo, está mudando com a redescoberta da importância da experiência do indivíduo para a teologia da libertação20. Uma dificuldade com que nos deparamos na apresentação de tipos de aconselhamento pastoral na América Latina consiste no fato de que a maioria dos livros sobre o assunto são traduções de textos escritos no contexto norte- americano que mostram apenas na superfície algumas semelhanças com o contexto latino-americano (organização congregacionalista das igrejas, sepa- ração de Igreja e Estado, fortes movimentos fundamentalistas, problemas raciais, sociedade multicultural de imigrantes). Atualmente constatamos a importância de quatro modelos teóricos de aconselhamento pastoral na Amé- rica Latina: a) o modelo fundamentalista, b) o modelo evangelical de psicolo- gia pastoral, c) o modelo holístico de libertação e crescimento e d) o modelo contextual de uma poimênica da libertação. 13.3.1 - O modelo fundamentalista O teólogo norte-americano Jay E. Adams promoveu, em livros internaci- onalmente divulgados, a visão de um "aconselhamento noutético" que critica de maneira radical o uso de qualquer psicologia e chama o aconselhamento para voltar exclusivamente à Bíblia como único fundamento para conduzir a vida do cristão. O aconselhamento quer levar a pessoa à salvação através da morte do "velho homem" e da ressurreição para um novo modo de vida seguin- do Jesus Cristo e agindo conforme as regras divinas de comportamento humano que são descritas na Bíblia. A Bíblia, que é verbalmente inspirada, revela em todas as suas partes a verdade de Deus e oferece ao ser humano pecador regras para conduzir a vida. Ela lhe mostra como a desobediência em relação a Deus cria todo o sofrimento e a doença nos seres humanos. Deus chama as pessoas para o arrependimento por causa do pecado e para uma mudança radical de comportamento. Para Adams também doenças psíquicas têm a sua raiz no pe- cado concreto da pessoa. O seu método é a conversação que confronta a pessoa com o mal que ela faz (alcoolismo, medo, falta de fé), a responsabiliza pelos seus atos e busca uma nova orientação. O aconselhamento pastoral educa a pessoa por meios diretivos para que ela se aproxime do exemplo de Cristo. Segundo Adams, o sofrimento serve como meio de educação espiritual21. 20 Cf. Lothar C. HOCH, Seelsorge und Befreiung, p. 135; ID., Aconselhamento pastoral e libertação. 21 Cf. Jay ADAMS, Conselheiro capaz. 303
  • 14. Chama a atenção, neste modelo, a falta de qualquer reflexão sobre o contexto social, histórico e cultural do aconselhamento. Adams aplica as verdades transculturais e eternas da Bíblia que valem para cada pessoa. A mudança do comportamento do indivíduo tem prioridade absoluta; causas sociais de problemas parecem não ser importantes. Sem dúvida, esse tipo de aconselhamento pode ter sucesso especialmente entre toxicômanos (alcoolis- tas e drogados) que mudam com mais facilidade se existe um sistema efetivo de controle social e um forte ideal-do-eu que possa substituir a droga. Porém concordamos com os críticos - alguns deles pertencem ao ambiente evangelical - que perguntam se a "Bíblia foi realmente escrita como um manual de aconselhamento"22 e mostram que a leitura bíblica de Adams está dominada por uma visão de obrigação e obediência que não valoriza suficientemente o aspecto da liberdade cristã e da graça divina23. 13.3.2 - O modelo evangelical de psicologia pastoral Entre os autores evangelicais existe uma forte tendência de usar a psicologia para realizar um aconselhamento mais efetivo. O psicólogo Gary Collins justifica isto da seguinte forma: (...) toda verdade tem origem em Deus, inclusive a verdade sobre as pessoas por ele criadas. Deus revelou esta verdade através da Bíblia, a sua palavra escrita à humanidade, mas também permitiu-nos descobrir a verdade mediante a expe- riência e os métodos de investigação científica. A verdade descoberta deve estar sempre de acordo e ser confrontada com o padrão da verdade bíblica revelada. Limitamos, no entanto, nossa eficácia no aconselhamento quando assumimos que as descobertas da psicologia nada têm a contribuir para a compreensão e solução dos problemas. Comprometemos nossa integridade quando rejeitamos abertamente a psicologia, mas a seguir, introduzimos clandestinamente os seus conceitos em nosso aconselhamento - algumas vezes ingenuamente e sem sequer perceber o que estamos fazendo.24 Segundo Collins, o "alvo ulterior e abrangente" do aconselhamento é "a evangelização e o discipulado", que os indivíduos tenham "vida em 22 Cf. Gary R. COLLINS, Aconselhamento cristão, p. 15. 23 Cf. Donald CAPPS, Reframing: A New Method in Pastoral Care. 24 Cf. Gary COLLINS, op. cit., p. 16. 304
  • 15. abundância" na terra e "a vida eterna prometida aos crentes"25. Ele visa autocompreensão, comunicação, aprendizado e modificação de comporta- mento, auto-realização e apoio. Para os não-crentes é um tipo de "pré- evangelização", para os que sofrem de prejuízos na vida é uma ajuda para reconhecer "atitudes prejudiciais inconscientes" e "os recursos íntimos para enfrentar uma crise"26. O aconselhamento pastoral está integrado na visão de uma "comunidade terapêutica" de obreiros e leigos engajados. Ela pode "oferecer apoio aos membros, cura aos indivíduos perturbados e orientação quando as pessoas tomam decisões e seguem em direção à maturidade"27. A psicologia pastoral de autores como Collins, León, Ellens e outros representantes do "Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos" tenta integrar a psicologia moderna e o cristianismo bíblico numa visão psicoteológica do ser humano que leva, por um lado, a uma prática psicologicamente bem refletida, porém, por outro lado, deixa fora a parte da crítica psicológica da religião, leva a uma psicologização da fé e a uma teologização da psicologia que não deixa de ser problemática. A psicologia pastoral de Jorge A. León, um dos modelos mais desenvolvidos deste tipo de reflexão, baseia-se numa "perspectiva psicoteológica" do ser humano como um "prisma trilateral", um ser "psico-neumo-somático" em que a dimensão espiritual predomina. A psicologia pastoral aborda cada dimensão sob as perspectivas psicológicas e teológicas com o "objetivo de ajudar o ser humano a ser mais humano e melhor cristão"28. A cada dimensão correspondem determinados tipos de psicoterapia: ao espiritual a logoterapia de V. Frankl, que parte das idéias da busca inconsciente de Deus e da "neurose noógena", ao psíquico a psicanáli- se de S. Freud e J. Lacan, ao corporal as terapias reichianas, gestáltica e o psicodrama. O esforço enorme de León de respeitar os limites entre as perspectivas psicqlógicas e teológicas não o preserva de curtos-circuitos argumentativos. Tentando, numa postura apologética, identificar as "verda- des" da psicologia também na teologia e da teologia também na psicologia, afirma, p. ex., que "antes de Jaques Lacan se referir às estruturas do psiquismo, nosso Senhor Jesus Cristo já nos havia apresentado, na parábola do semeador, uma tipologia de, pelo menos, quatro maneiras do ser humano se expres- sar"29. Subordina a psicologia quando nega que ela possa possibilitar um 25 ID., ibid., p. 19. 25 Ibid. 27 Ibid., p. 14. 28 Jorge A. LEÓN, Introdução à psicologia pastoral, p. 18. 29 ID., ibid., p. 14. 305
  • 16. crescimento integral que leve o indivíduo a ser pessoa no sentido pleno, pois o indivíduo colocado "sob Jesus Cristo" se torna pessoa como se a integralidade da pessoa esteja reservada exclusivamente aos cristãos30. Apesar da orienta- ção comunitária e do forte engajamento na questão da família, o modelo não fornece instrumentos para um trabalho que inclua o contexto social e político de pobreza e marginalização. 13.3.3 - O modelo holístico de libertação e crescimento A palavra-chave para a poimênica e o aconselhamento pastoral de Howard Clinebell é "integralidade centrada no Espírito"31. O modelo de Clinebell parte de uma visão holística do ser humano a qual baseia-se na antropologia bíblica que descreve o ser humano como imagem de Deus, criado à sua semelhança como pessoa na integralidade de corpo, mente e espírito e em relação com os outros, a comunidade. A libertação das pessoas para terem vida em abundância (Jo 10.10) era o alvo da vinda de Jesus32. Por conseqüência, é "o alvo da vida cristã" desenvolver a personalidade com todas as suas possibilidades num processo de crescimento33. Clinebell define poimênica como "o ministério amplo e inclusivo de cura e crescimento mútuo dentro de uma congregação e de sua comunidade". Aconselhamento pastoral, como "uma dimensão da poimênica, é a utilização de uma variedade de métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as pessoas a lidar com seus problemas e crises de uma forma mais conducente ao cresci- mento"34. Clinebell diferencia seis dimensões da integralidade humana e deriva das mesmas seis dimensões da poimênica e do aconselhamento pasto- ral. Elas servem para avivar a mente, revitalizar o corpo, renovar e enriquecer os relacionamentos íntimos de uma pessoa, "aprofundar a sua relação com a natureza e a biosfera, crescer em relação às instituições significativas em sua vida, aprofundar e vitalizar seu relacionamento com Deus"35 nas mais diversas situações durante o ciclo da vida. O aconselhamento faz uso de métodos e 3 Ibid., p. 35. 0 3 Howard CLINEBELL, Aconselhamento pastoral, p. 25. 3 ID., ibid., p. 48. 3 Ibid. 3 Ibid., p. 25. 4 3 Ibid., p. 29. 306
  • 17. técnicas de uma variedade de terapias de crescimento humano36. O ministério poimênico cabe à "congregação inteira", que assume a função de uma rede de apoio. Os pastores têm a tarefa de "inspirar e supervisionar as pessoas leigas no ministério de poimênica"37. O modelo de Clinebell abriu-se para impulsos da psicologia humanística, porém tenta fundamentá-los biblicamente. Uma visão aberta para o pluralismo religioso nas sociedades modernas, a ênfase no aspecto comunitário, a sensi- bilidade para os problemas causados pelo sexismo e a injustiça social nas sociedades do norte e na relação norte-sul do planeta aproximam esta concep- ção das necessidades da realidade latino-americana38. Por conseqüência, a ênfase é colocada na "poimênica de grupos e instituições" e num trabalho de conscientização sobre as raízes sociais do sofrimento dos indivíduos39 que busca especialmente a valorização das experiências de mulheres e a integração espiritual dos dois sexos. Porém o otimismo da perspectiva da integralidade holística desperta certo mal-estar. Será que o pecado é apenas uma "resistên- cia" quantitativa ao processo universal de crescimento, como Clinebell afir- ma? Apesar do reconhecimento da limitação e finitude do crescimento, permanece a tendência de contar com um desenvolvimento constante do reino de Deus, entendido como "nova era de integralidade" (Mt 6.IO)40. Parece que a confiança no progresso constante, típica do "American way of life", assumiu um papel forte na interpretação do cristianismo e da poimênica neste modelo. A pergunta central em relação a qualquer concepção holística é se ela realmente leva a sério que a vida é sempre um fragmento, que não é a plenitude da presença de Deus, mas a experiência da ausência de sentido frente à morte, ao sofrimento e à injustiça, a experiência da carência de ser que domina o ser humano e faz com que ele, como ser falante, esteja sempre a caminho, em busca de sentido e de um futuro diferente41. 36 Ibid., p. 36. 37 Ibid., p. 33. 38 "O ponto fraco de boa parte da poimênica tem sido seu hiperindividualismo. A poimênica e o aconse- lhamento pastoral privatizados (juntamente com uma religião privatizada em geral) ignoram as formas penetrantes pelas quais racismo, sexismo, preconceito de idade, classismo, preconceito de espécie, nacionalismo, militarismo, exploração econômica e opressão política mutilam a integralidade humana em escala maciça em todas as sociedades." (Ibid., p. 31.) 39 Ibid. 40 Ibid., p. 58. 41 Cf. Henning LUTHER, Leben ais Fragment. 307
  • 18. 13.3.4 - O modelo contextual de uma poimênica da libertação Ainda não existem pesquisas sobre o processo de aconselhamento mútuo em comunidades eclesiais de base e em movimentos populares. À primeira vista destaca-se o caráter ecumênico de um trabalho solidário de leigos que são atingidos por determinado problema (barragens, sem terra, sem teto, pacientes com AIDS...)- O aconselhamento tem um caráter de apoio solidário na luta popular e acontece dentro do contexto específico de grupos e encontros. Ele é exercido pelos próprios atingidos ou por representantes especializados que trabalham com o objetivo de capacitar as vítimas de problemas e injustiças sociais para defender os seus interesses vitais. A reflexão ainda rudimentar sobre uma poimênica da libertação, repre- sentada especialmente pelo teólogo luterano Lothar Carlos Hoch, parte da dimensão da encarnação, que leva o/a aconselhador/a a fazer uma opção pelos pobres e expor-se ao sofrimento do povo42. Esse deslocamento para o lugar do pobre submete o aconselhador à experiência de sua impotência para mudar a situação e à crítica de qualquer atitude paternalista de assistência pastoral e ensino. A transformação da situação dos pobres exige entrar no caminho da convivência solidária no contexto da vida das pessoas conforme o exemplo de Jesus. Compartilhando o sofrimento, a poimênica deve mudar a sua com- preensão de pecado e passar de uma compreensão individualista de pecado, que leva o povo pobre a desvalorizar-se ainda mais, para uma compreensão e denúncia profética do pecado estrutural. A poimênica precisa capacitar as pessoas para descobrir o pecado estrutural da sociedade injusta na sua vida individual, familiar e social e ajudá-las a questionar a sua situação e tornar-se ativas na luta pela libertação43. O critério decisivo para a poimênica é a sua contribuição para a conscientização política e o progresso nesta luta44. Inte- grada na prática libertadora, a poimênica torna-se tarefa de todos e todas e serve para que as pessoas e os grupos populares achem a sua identidade e cresçam em conjunto. Metodologicamente o aconselhamento em grupos tem a mesma importância que o aconselhamento individual, o qual, por sua vez, mantém sempre uma perspectiva grupai. O aconselhamento parte do sofri- ______ 42 Cf. Lothar C. HOCH, Aconselhamento pastoral e libertação; ID., Seelsorge und Befreiung, p. 138. 43 ID., ibid., p. 139s. 44 Ibid., p. 140. 308
  • 19. mento atual das pessoas. Os seus instrumentos, ouvir e falar, servem para dar uma voz ao sofrimento, para articular o protesto e partir para a ação45. A psicologia, cuja importância para a teologia da libertação Hoch defende46, integra-se nesta tarefa. No trabalho da poimênica da libertação ela transfor- ma-se numa psicologia pastoral contextualizada. Para as igrejas históricas surge a dificuldade de integrar o modelo contextual com as necessidades dos membros de classe média e a estrutura das comunidades tradicionais. Futuramente será importante para o trabalho de aconselhamento pastoral superar as barreiras das classes sociais e criar mais comunicação e cooperação entre os integrantes dessas classes. A reali- dade da variedade de estilos de viver a fé dentro da Igreja exige também uma maior cooperação entre os diferentes modelos de poimênica e aconselhamento pastoral. Parece ser óbvio que a psicologia pastoral evangelical e os modelos de poimênica integral e contextual têm muito em comum, especialmente a orientação comunitária que valoriza o trabalho dos leigos, aspectos de uma antropologia integral, o diálogo com a psicologia e psicoterapia, a visão libertadora, colocando a ênfase na cooperação de aconselhamento pastoral e diaconia. 45 Ibid., p. 142. 46 Cf. Lothar C. HOCH, Psicologia a serviço da libertação. 309