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3. as funcoes da linguegem na propaganda

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AS FUNÇÕES
                 DA LINGUAGEM
                 NA PROPAGANDA*


                Nellie Rego Santee**
                Goiamérico Felício Carneiro dos Santos***




              Resumo: as funções da linguagem são determinadas pelos atores
        no processo de comunicação, e não há comunicação mais presente na
        contemporaneidade que a propaganda e a publicidade. Nesta forma de
        comunicação, os processos comunicativos acontecem de forma peculiar,
        visando sempre à persuasão, e, finalmente, ao consumo. Compreender
        como as funções da linguagem aparecem na propaganda torna-se então,
        de grande importância.

              Palavras-chave: Funções da linguagem. Publicidade. Propa-
        ganda.

AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM E A PROPAGANDA


J akobson (1987) revolucionou o mundo da linguística ao apresentar
  seis funções da linguagem, baseadas nos seis fatores envolvidos na co-
municação. Não há melhor maneira de apresentá-las senão nas palavras
do próprio. Palavras estas que são repetidas por inúmeras obras que tem
como objeto de estudo a comunicação social:

        O REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO.
        Para ser eficaz, a mensagem requer um CONTEXTO a que se refere
        (ou “referente”, em outra nomenclatura algo ambígua), apreensível pelo
        destinatário, e que seja verbal ou suscetível de verbalização; um CÓDI-


FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.        169
GO, total ou parcialmente comum ao remetente e ao destinatário (ou,
            em outras palavras, ao codificador e ao decodificador da mensagem); e,
            finalmente, um CONTACTO, um canal físico e uma conexão psicológica
            entre o remetente e o destinatário, que os capacite a ambos a entrarem
            e permanecerem em comunicação. Todos estes fatores inalienavelmente
            envolvidos na comunicação verbal podem ser esquematizados como segue:


                                        CONTEXTO
          REMETENTE                     MENSAGEM                                 DESTINATÁRIO
                   ..............................................................................
                                        CONTACTO
                                           CÓDIGO
                                              (JAKOBSON, 1987, p. 123).

             Dificilmente serão encontrados textos que se encaixem em somente
      uma das funções, mas normalmente há a predominância de uma. É im-
      portante dizer que por função, entende-se: a finalidade que aquele texto
      possui. A seguir trataremos de cada função individualmente.
             O processo de comunicação da propaganda possui uma pequena
      variação no esquema de Jakobson (1987), pois o emissor não é quem apa-
      renta ser. Se não se soubesse nada a respeito do processo de ‘fabricação’
      de uma propaganda, poder-se-ia facilmente imaginar que o autor daquele
      anúncio é a empresa anunciante, quando na verdade é o redator de propa-
      ganda. Os redatores são especialmente contratados para compor textos para
      anúncios publicitários, e normalmente são especialistas em psicolinguística
      da publicidade e possuem formação psicológica, linguística e publicitária
      (LADEIRA, 1987). Essa relação entre o redator e a empresa anunciante
      pode ser expressa graficamente:




                          A – Anunciante E – Emissor R – Receptor


                       Figura 1: Relação anunciante, redator e emissor
                       Fonte: Cardona (apud LADEIRA, 1987, p. 79).




170                    FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.
Desta maneira, o emissor verdadeiro está incluso no anunciante,
pois é um redator contratado por ele para escrever por ele um texto que ele
aprovará. Olivetto (apud CARRASCOZA, 2004, p. 9) diz que a maioria
dos bons anúncios possuem o fenômeno da perda da autoria, pois acabam
parecendo um discurso do próprio produto ou marca.
        Neste processo de comunicação da propaganda, o receptor é o
leitor/consumidor,

        [...] o código (no caso do anúncio impresso) é a linguagem, mas também
        uma certa espécie de código visual [...], o canal consiste em publicações
        impressas e o contexto inclui aspectos como a situação do leitor (já tem o
        produto? Tem condições de adquiri-lo? Etc.), a publicação em que o anúncio
        aparece e – por último, mas não menos importante – o conhecimento
        de que o texto é um anúncio [...] (VESTERGAARD, 1988, p. 15-6).

        Gonzales (2003, p. 16) confirma essas relações no Quadro 1.

        Quadro 1: Comunicação na propaganda
                     Anunciante ou dono do produto ou idéia + Especialistas em veicular
 Emissor
                     as mensagens (publicitários)
 Destinatário        Receptor/leitor/ouvinte/espectador/consumidor
 Mensagem            Significado, informação referente a uma idéia, produto ou serviço
 Código              Linguagem verbal e/ou linguagem não-verbal
 Contato             Publicações impressas ou eletrônicas
 Contexto            -

        O destinatário, portanto, é o elemento mais importante da comu-
nicação publicitária, pois é somente em função dele que esta existe, tudo
é voltado para encantá-lo e persuadi-lo. Em publicidade esse destinatário
muitas vezes é chamado de target, ou em português, público-alvo que são
“[...] predominantemente os indivíduos que já consomem o produto ou
serviço anunciado e/ou o contingente de seus potenciais consumidores”
(CARRASCOZA, 2004, p. 15).

A Função Referencial

      Um texto possui esta função quando está orientado para o
contexto, ou referente. É a mais presente na maioria dos textos, nor-

FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.                171
malmente acompanhada de alguma outra. Pode também ser chamada
      de linguagem denotativa, que traz uma aproximação maior entre o
      termo utilizado e o objeto ao qual se refere. Chalhub (2002, p. 10),
      que também escreve sobre as funções da linguagem diz: “A idéia aqui
      é de transparência entre o nome e a coisa (entre o signo e o objeto), de
      equivalência, de colagem: a linguagem denotativa referencial reflete o
      mundo”. É a função normalmente utilizada em textos científicos, que
      colocam os fatos em evidência, e são baseados na terceira pessoa, voz
      passiva. Exemplo de frase na função referencial: O comportamento do
      lagarto-de-língua-azul é bastante peculiar. A função referencial está
      mais do que presente no texto publicitário, visto que é a função predo-
      minante nos textos em geral. Um anúncio normalmente faz referência
      a produtos, serviços ou idéias.

      A Função Emotiva

              A função emotiva, ou expressiva, é centrada diretamente no
      remetente, sendo uma expressão da fala deste. Possui forte tendência à
      emoção, que é expressa pelas interjeições, adjetivos, advérbios, signos de
      pontuação, etc. O emissor normalmente fala de si mesmo, dando vazão
      aos seus sentimentos com frases exclamativas. “Se analisarmos a linguagem
      do ponto de vista da informação que veicula, não poderemos restringir a
      noção de informação ao aspecto cognitivo da linguagem” (JAKOBSON,
      1987, p. 124). Isso significa que a emoção também comunica, que pode
      ser relacionado com o dito nos itens anteriores, o estilo do discurso tam-
      bém carrega parte da mensagem. Exemplo de frase na função emotiva:
      Jamais te esquecerei!
              Campos (1987), discorrendo sobre as técnicas de sedução da publi-
      cidade, destaca que o envolvimento emocional do receptor com a marca
      ou produto é aonde há maior concentração de emotividade no anúncio
      publicitário, sendo o local da função emotiva. Já Jakobson (1987, p. 124)
      defende que a emoção também comunica. Neste ponto, Jakobson tem
      mais razão, pois como ele mesmo destaca, o que interessa ao se definir a
      função de um texto é literalmente a finalidade a que ele se pretende e não
      o que decorre de sua recepção. Anúncios centrados no emissor exaltam
      a marca, o produto, e podem contar uma história por meio dessas falas.
      Quanto à escrita, a função emotiva é empregada nos textos publicitários
      por meio de mensagens em primeira pessoa e interjeições (GONZALES,
      2003, p. 17).

172                  FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.
A Função Conativa1

       Quando há orientação para o destinatário, existe a função conativa.
Ela é bem demonstrada pela presença de imperativos, vocativos, e pela
segunda pessoa do verbo. Não necessariamente indica ordens diretas
por estar no imperativo, há bastante espaço para pedidos ou conselhos
(SANDMANN, 1993). Exemplo de frase na função conativa: Não pise
na grama. A função conativa é a mais apropriada ao discurso publici-
tário, que, centrada no interlocutor, envia ‘ordens’ a ele, desejando dele
um comportamento específico. Muitas das estratégias utilizadas pela
publicidade, como apelar para a vaidade do interlocutor, caracterizam
uma função conativa mesmo sem a presença das marcas linguísticas
tradicionais, como o verbo no imperativo. Por isso, pode-se dizer que
toda publicidade tem algo de função conativa. A função conativa está
presente na maioria das vezes em que se tenta persuadir alguém de algo,
como a propaganda, que pode possuir alguns traços da função poética e
da referencial, mas a predominante é a conativa.

A Função Fática

       A função fática refere-se ao contato, e basicamente serve para
prolongar ou interromper a comunicação e para verificar se o canal
funciona. Exemplo de frase na função fática: Você entende o que quero
dizer? Sandmann (1993) afirma que a função fática aparece na propa-
ganda na forma de um diálogo ‘ilusionário’ entre emissor e receptor, já
que o anúncio fala diretamente ao leitor, que não tem poder de resposta.
A função fática existe em todo o texto publicitário, pois seu objetivo é
manter o contato com o leitor.

A Função Metalinguística

       A função metalinguística faz referência ao próprio código utiliza-
do, quando se tem a necessidade de verificar se estão usando o mesmo.
O código vai além da própria língua, abrange linguagens em geral, que
organizem os sinais na mensagem, circulando pelo canal entre a emissão
e a recepção. Uma mensagem metalinguística implica em combinações
do código que retornem a ele próprio (CHALHUB, 2002). Exemplo de
frase na função metalinguística: Isso que eu estou dizendo não faz sentido.


FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.    173
Alguns anúncios falam claramente de si mesmos, do mundo publi-
      citário, ou dos próprios elementos que compõe o anúncio, como palavras
      e imagens, o que caracteriza a função metalinguística.

      A Função Poética2

             Quando o texto pende para a mensagem em si mesma e demonstra
      interesse na forma de se comunicar, existe a função poética da linguagem.
      Ela não se resume à poesia, apesar de esta ser sua principal representante.
      Jakobson (1987) cita algumas figuras de estilo3 como recursos poéticos,
      que reforçam a impressividade e a eficácia da mensagem.

            A adaptação dos meios poéticos a algum propósito heterogêneo não lhes
            esconde a essência primeira, assim como elementos da linguagem emoti-
            va, quando utilizados em poesia, conservam ainda sua nuança emotiva
            (JAKOBSON, 1987, p. 131).

             Se as figuras de estilo podem ser consideradas meios poéticos,
      quando usadas fora de seu ambiente da poesia propriamente dita, não
      perdem sua característica, portanto, estas figuras continuam exercendo
      sua função poética, mesmo quando usadas em propaganda. Porém, a
      peça de propaganda não se torna uma poesia, pois, para possuir uma
      função poética verdadeira, é necessário que não se tenha apenas estilo,
      mas também argumentos poéticos, que juntos causem a experiência da
      arte da poesia.
             No século XXI percebe-se um excesso de mensagens publicitárias
      recebidas diariamente pela população, portanto, para que uma delas
      se sobressaia, é preciso que haja algo nela que obtenha a atenção 4 do
      receptor, levando conseqüentemente a uma leitura e memorização das
      informações. Vários autores5 apontam algumas figuras de estilo como
      recursos utilizados pela propaganda para evidenciar a função poética
      de um texto, como a paranomásia, a rima, o ritmo, a aliteração, entre
      outras. Como resultado do uso de tais recursos, o leitor sente-se agradado
      esteticamente, memoriza mais facilmente elementos importantes, como
      o nome da marca ou do produto, e se entretêm com o texto de uma ma-
      neira geral. A função poética tem a responsabilidade, portanto, de tocar
      as esperanças e os sonhos dos leitores e penetrar em sua consciência, para
      assim alcançar seu objetivo (VESTERGAARD, 1998, p. 133). Porém,


174                  FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.
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3. as funcoes da linguegem na propaganda

  • 1. AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM NA PROPAGANDA* Nellie Rego Santee** Goiamérico Felício Carneiro dos Santos*** Resumo: as funções da linguagem são determinadas pelos atores no processo de comunicação, e não há comunicação mais presente na contemporaneidade que a propaganda e a publicidade. Nesta forma de comunicação, os processos comunicativos acontecem de forma peculiar, visando sempre à persuasão, e, finalmente, ao consumo. Compreender como as funções da linguagem aparecem na propaganda torna-se então, de grande importância. Palavras-chave: Funções da linguagem. Publicidade. Propa- ganda. AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM E A PROPAGANDA J akobson (1987) revolucionou o mundo da linguística ao apresentar seis funções da linguagem, baseadas nos seis fatores envolvidos na co- municação. Não há melhor maneira de apresentá-las senão nas palavras do próprio. Palavras estas que são repetidas por inúmeras obras que tem como objeto de estudo a comunicação social: O REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO. Para ser eficaz, a mensagem requer um CONTEXTO a que se refere (ou “referente”, em outra nomenclatura algo ambígua), apreensível pelo destinatário, e que seja verbal ou suscetível de verbalização; um CÓDI- FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010. 169
  • 2. GO, total ou parcialmente comum ao remetente e ao destinatário (ou, em outras palavras, ao codificador e ao decodificador da mensagem); e, finalmente, um CONTACTO, um canal físico e uma conexão psicológica entre o remetente e o destinatário, que os capacite a ambos a entrarem e permanecerem em comunicação. Todos estes fatores inalienavelmente envolvidos na comunicação verbal podem ser esquematizados como segue: CONTEXTO REMETENTE MENSAGEM DESTINATÁRIO .............................................................................. CONTACTO CÓDIGO (JAKOBSON, 1987, p. 123). Dificilmente serão encontrados textos que se encaixem em somente uma das funções, mas normalmente há a predominância de uma. É im- portante dizer que por função, entende-se: a finalidade que aquele texto possui. A seguir trataremos de cada função individualmente. O processo de comunicação da propaganda possui uma pequena variação no esquema de Jakobson (1987), pois o emissor não é quem apa- renta ser. Se não se soubesse nada a respeito do processo de ‘fabricação’ de uma propaganda, poder-se-ia facilmente imaginar que o autor daquele anúncio é a empresa anunciante, quando na verdade é o redator de propa- ganda. Os redatores são especialmente contratados para compor textos para anúncios publicitários, e normalmente são especialistas em psicolinguística da publicidade e possuem formação psicológica, linguística e publicitária (LADEIRA, 1987). Essa relação entre o redator e a empresa anunciante pode ser expressa graficamente: A – Anunciante E – Emissor R – Receptor Figura 1: Relação anunciante, redator e emissor Fonte: Cardona (apud LADEIRA, 1987, p. 79). 170 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.
  • 3. Desta maneira, o emissor verdadeiro está incluso no anunciante, pois é um redator contratado por ele para escrever por ele um texto que ele aprovará. Olivetto (apud CARRASCOZA, 2004, p. 9) diz que a maioria dos bons anúncios possuem o fenômeno da perda da autoria, pois acabam parecendo um discurso do próprio produto ou marca. Neste processo de comunicação da propaganda, o receptor é o leitor/consumidor, [...] o código (no caso do anúncio impresso) é a linguagem, mas também uma certa espécie de código visual [...], o canal consiste em publicações impressas e o contexto inclui aspectos como a situação do leitor (já tem o produto? Tem condições de adquiri-lo? Etc.), a publicação em que o anúncio aparece e – por último, mas não menos importante – o conhecimento de que o texto é um anúncio [...] (VESTERGAARD, 1988, p. 15-6). Gonzales (2003, p. 16) confirma essas relações no Quadro 1. Quadro 1: Comunicação na propaganda Anunciante ou dono do produto ou idéia + Especialistas em veicular Emissor as mensagens (publicitários) Destinatário Receptor/leitor/ouvinte/espectador/consumidor Mensagem Significado, informação referente a uma idéia, produto ou serviço Código Linguagem verbal e/ou linguagem não-verbal Contato Publicações impressas ou eletrônicas Contexto - O destinatário, portanto, é o elemento mais importante da comu- nicação publicitária, pois é somente em função dele que esta existe, tudo é voltado para encantá-lo e persuadi-lo. Em publicidade esse destinatário muitas vezes é chamado de target, ou em português, público-alvo que são “[...] predominantemente os indivíduos que já consomem o produto ou serviço anunciado e/ou o contingente de seus potenciais consumidores” (CARRASCOZA, 2004, p. 15). A Função Referencial Um texto possui esta função quando está orientado para o contexto, ou referente. É a mais presente na maioria dos textos, nor- FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010. 171
  • 4. malmente acompanhada de alguma outra. Pode também ser chamada de linguagem denotativa, que traz uma aproximação maior entre o termo utilizado e o objeto ao qual se refere. Chalhub (2002, p. 10), que também escreve sobre as funções da linguagem diz: “A idéia aqui é de transparência entre o nome e a coisa (entre o signo e o objeto), de equivalência, de colagem: a linguagem denotativa referencial reflete o mundo”. É a função normalmente utilizada em textos científicos, que colocam os fatos em evidência, e são baseados na terceira pessoa, voz passiva. Exemplo de frase na função referencial: O comportamento do lagarto-de-língua-azul é bastante peculiar. A função referencial está mais do que presente no texto publicitário, visto que é a função predo- minante nos textos em geral. Um anúncio normalmente faz referência a produtos, serviços ou idéias. A Função Emotiva A função emotiva, ou expressiva, é centrada diretamente no remetente, sendo uma expressão da fala deste. Possui forte tendência à emoção, que é expressa pelas interjeições, adjetivos, advérbios, signos de pontuação, etc. O emissor normalmente fala de si mesmo, dando vazão aos seus sentimentos com frases exclamativas. “Se analisarmos a linguagem do ponto de vista da informação que veicula, não poderemos restringir a noção de informação ao aspecto cognitivo da linguagem” (JAKOBSON, 1987, p. 124). Isso significa que a emoção também comunica, que pode ser relacionado com o dito nos itens anteriores, o estilo do discurso tam- bém carrega parte da mensagem. Exemplo de frase na função emotiva: Jamais te esquecerei! Campos (1987), discorrendo sobre as técnicas de sedução da publi- cidade, destaca que o envolvimento emocional do receptor com a marca ou produto é aonde há maior concentração de emotividade no anúncio publicitário, sendo o local da função emotiva. Já Jakobson (1987, p. 124) defende que a emoção também comunica. Neste ponto, Jakobson tem mais razão, pois como ele mesmo destaca, o que interessa ao se definir a função de um texto é literalmente a finalidade a que ele se pretende e não o que decorre de sua recepção. Anúncios centrados no emissor exaltam a marca, o produto, e podem contar uma história por meio dessas falas. Quanto à escrita, a função emotiva é empregada nos textos publicitários por meio de mensagens em primeira pessoa e interjeições (GONZALES, 2003, p. 17). 172 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.
  • 5. A Função Conativa1 Quando há orientação para o destinatário, existe a função conativa. Ela é bem demonstrada pela presença de imperativos, vocativos, e pela segunda pessoa do verbo. Não necessariamente indica ordens diretas por estar no imperativo, há bastante espaço para pedidos ou conselhos (SANDMANN, 1993). Exemplo de frase na função conativa: Não pise na grama. A função conativa é a mais apropriada ao discurso publici- tário, que, centrada no interlocutor, envia ‘ordens’ a ele, desejando dele um comportamento específico. Muitas das estratégias utilizadas pela publicidade, como apelar para a vaidade do interlocutor, caracterizam uma função conativa mesmo sem a presença das marcas linguísticas tradicionais, como o verbo no imperativo. Por isso, pode-se dizer que toda publicidade tem algo de função conativa. A função conativa está presente na maioria das vezes em que se tenta persuadir alguém de algo, como a propaganda, que pode possuir alguns traços da função poética e da referencial, mas a predominante é a conativa. A Função Fática A função fática refere-se ao contato, e basicamente serve para prolongar ou interromper a comunicação e para verificar se o canal funciona. Exemplo de frase na função fática: Você entende o que quero dizer? Sandmann (1993) afirma que a função fática aparece na propa- ganda na forma de um diálogo ‘ilusionário’ entre emissor e receptor, já que o anúncio fala diretamente ao leitor, que não tem poder de resposta. A função fática existe em todo o texto publicitário, pois seu objetivo é manter o contato com o leitor. A Função Metalinguística A função metalinguística faz referência ao próprio código utiliza- do, quando se tem a necessidade de verificar se estão usando o mesmo. O código vai além da própria língua, abrange linguagens em geral, que organizem os sinais na mensagem, circulando pelo canal entre a emissão e a recepção. Uma mensagem metalinguística implica em combinações do código que retornem a ele próprio (CHALHUB, 2002). Exemplo de frase na função metalinguística: Isso que eu estou dizendo não faz sentido. FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010. 173
  • 6. Alguns anúncios falam claramente de si mesmos, do mundo publi- citário, ou dos próprios elementos que compõe o anúncio, como palavras e imagens, o que caracteriza a função metalinguística. A Função Poética2 Quando o texto pende para a mensagem em si mesma e demonstra interesse na forma de se comunicar, existe a função poética da linguagem. Ela não se resume à poesia, apesar de esta ser sua principal representante. Jakobson (1987) cita algumas figuras de estilo3 como recursos poéticos, que reforçam a impressividade e a eficácia da mensagem. A adaptação dos meios poéticos a algum propósito heterogêneo não lhes esconde a essência primeira, assim como elementos da linguagem emoti- va, quando utilizados em poesia, conservam ainda sua nuança emotiva (JAKOBSON, 1987, p. 131). Se as figuras de estilo podem ser consideradas meios poéticos, quando usadas fora de seu ambiente da poesia propriamente dita, não perdem sua característica, portanto, estas figuras continuam exercendo sua função poética, mesmo quando usadas em propaganda. Porém, a peça de propaganda não se torna uma poesia, pois, para possuir uma função poética verdadeira, é necessário que não se tenha apenas estilo, mas também argumentos poéticos, que juntos causem a experiência da arte da poesia. No século XXI percebe-se um excesso de mensagens publicitárias recebidas diariamente pela população, portanto, para que uma delas se sobressaia, é preciso que haja algo nela que obtenha a atenção 4 do receptor, levando conseqüentemente a uma leitura e memorização das informações. Vários autores5 apontam algumas figuras de estilo como recursos utilizados pela propaganda para evidenciar a função poética de um texto, como a paranomásia, a rima, o ritmo, a aliteração, entre outras. Como resultado do uso de tais recursos, o leitor sente-se agradado esteticamente, memoriza mais facilmente elementos importantes, como o nome da marca ou do produto, e se entretêm com o texto de uma ma- neira geral. A função poética tem a responsabilidade, portanto, de tocar as esperanças e os sonhos dos leitores e penetrar em sua consciência, para assim alcançar seu objetivo (VESTERGAARD, 1998, p. 133). Porém, 174 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.
  • 7. o emprego de figuras não torna um texto necessariamente persuasivo, apesar de contribuir para isso, conforme Reboul (1975, p. 83). A função poética fixa a atenção na forma da mensagem, e pode acontecer de o leitor não se atentar ao que é mais importante: a mensagem. Portanto, é preciso tomar cuidado. Sandmann (1993) destaca as funções conativa e poética como as mais importantes para a linguagem publicitária. Podemos subentender uma dualidade argumento-estilo na propaganda, na qual o conteúdo e a forma do texto são interdependentes na tarefa de levar o leitor à persuasão. De Carvalho (2002, p. 94) concorda: “A função poética, aquela que é centrada na forma e predomina na literatura, serve de instrumento para a função conativa, voltada para o receptor e predominante nos textos argumentativos”. Chalhub (2002, p. 25) também: “Concorre [...] na do- minância, enquanto finalidade, a função conativa; mas a função estética é o suporte para persuadir o receptor”. As Funções da Linguagem em Peças Publicitárias Para demonstrar como as funções da linguagem se encontram efetivamente em peças publicitárias reais, analisamos a seguir quatro anúncios de 2008, os dois primeiros retirados da eevista Veja do mês de junho, e os outros dois, do shortlist brasileiro do Festival Internacional Cannes Lions 2008. É interessante analisar essas duas categorias, pois os anúncios selecionados pelo Festival de Cannes Lions tendem a ser considerados mais criativos pela comunidade publicitária, e assim po- demos observar em que grau essa busca pela criatividade influencia na utilização das funções da linguagem. Já as peças veiculadas na revista Veja, a princípio, buscam apenas a persuasão simples do leitor. FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010. 175
  • 8. Figura 2: Visa Fonte: Veja (2008a) Quadro 2: Funções de linguagem no anúncio Visa Função Texto Só com Visa você usa seu cartão em qualquer restaurante do Brasil e concorre a cartões pré-pagos no valor de R$ 400,00 cada para almoçar ou jantar onde quiser. Só com Visa, o cartão Nº 1 do mundo, você concorre a 600 Referencial cartões pré-pagos, no valor de R$ 400,00 cada, para usar no restaurante à sua escolha. Para participar, vasta acessar www.visa. com.br e cadastrar os comprovantes do seu cartão de crédito Visa, de qualquer valor, emitidos em qualquer restaurante. Aproveite. Use sempre seu Visa e aumente as suas chances de Conativa ganhar. Poética Visa. Porque a vida é agora. A maior parte deste anúncio é constituída da função Referencial, pois fala do produto e de sua promoção. Ao final faz-se um apelo ao leitor por meio do imperativo, caracterizando a função Conativa, e no slogan há a função Poética, chamando atenção para a mensagem. 176 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.
  • 9. Figura 3: HSBC Seguros Fonte: Veja (2008b) Quadro 3: Funções de linguagem no anúncio HSBC Seguros Função Texto O único investimento que tem retorno garantido é você. Conativa O futuro pode ser a melhor fase da sua vida. Faça um Plano de Previdência do HSBC. Poética HSBC Seguros. Protegendo suas emoções. Este anúncio do HSBC Seguros fala diretamente ao consumidor, e por isso a função conativa é predominante. A função poética aparece principalmente no slogan, que possui sentidos conotativos extras. Figura 4: Anúncio TAM Airlines6 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010. 177
  • 10. Quadro 4: Funções de linguagem no Anúncio TAM Airlines Função Texto Os melhores filmes a 36 mil pés. Novo entretenimento de bordo Poética TAM. TAM Airlines. A primeira vista, esse anúncio pode parecer totalmente constituído da função referencial, pois ele apenas descreve o produto. Porém, sua interação com a imagem chama uma atenção especial para a mensagem, que faz com que ele se encontre no âmbito da função poética. Figura 5: Anúncio Herbert Richers7 Quadro 5: Funções de linguagem no Anúncio Herbert Richers Função Texto (Balão) Ele era o homem da minha vida. Referencial Uma dublagem fora do lugar pode mudar sua história. Poética ? É extremamente difícil definir uma função para este anúncio. A rigor, linguisticamente, ele é Referencial, pois só trata do serviço da empresa: a dublagem. Porém, a mensagem dela é de uma forma bastante diferente e inusitada, chamando a atenção para a sua construção. Isso caracteriza uma função Poética, que não se sabe onde está localizada. 178 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.
  • 11. CONCLUSÃO As funções da linguagem percebidas nos anúncios correspondem com o que foi estudado. As predominantes são a Referencial e a Cona- tiva, aparecendo em menor grau a Poética, que é bastante influenciada pela busca da criatividade pelos redatores. Os anúncios do shortlist de Cannes estiveram mais próximos da Função Poética que os retirados da Revista Veja, indicando que chamar a atenção para a mensagem é uma forma de criatividade publicitária. THE FUNCTIONS OF LANGUAGE IN ADVERTISING Abstract: the Functions of Language are determined in the communication process, and there isn’t any type of communication more present in modern days than advertising. In advertising, the communication processes occur in a peculiar way, always aiming persuasion, and of course, consumption. To understand how the Functions of Language appear in advertising is then, very important. Keywords: Functions of Language. Publicidade. Propaganda. Notas 1 Também chamada de Função apelativa por Sandmann (1993). 2 Também chamada de Função Estética por Sandmann (1993) 3 Conhecidas também por Figuras de Linguagem. 4 Que é considerada a primeira tarefa que um texto deve realizar, de acordo com o modelo AIDA, seguido de ‘atrair o interesse’, ‘despertar o desejo’, e ‘levar à ação’ (MARCHIONI, 2000). 5 Sandmann (1993); Jakobson (1987); Martins (1997); Gonzales (2003). 6 Site: <http://www.ccsp.com.br/novo/pop_pecas.php?id=25595>. Acesso em: 02.11.2008. 7 Site: <http://www.ccsp.com.br/novo/pop_pecas.php?id=24974>. Acesso em 02.11.2008. FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010. 179
  • 12. Referências CAMPOS, Maria Helena Rabelo. O canto da sereia: uma análise do discurso publicitário. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1987. CHALHUB, Samira. Funções da linguagem. 11. ed. São Paulo: Ática, 2002. DE CARVALHO, Nelly. Publicidade: a linguagem da sedução. 3. ed. São Paulo: Ática, 2002. GONZALES, Lucilene. Linguagem publicitária: análise e produção. São Paulo: Arte e Ciência, 2003. JAKOBSON, Roman. Linguística e Poética. In: ____. Linguística e comunicação. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1987. LADEIRA, Julieta de Godoy. Contato imediato com criação de propaganda. 2. ed. São Paulo: Global, 1987. MARCHIONI, Rubens. Criatividade & redação: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2000. MARTINS, Jorge S. Redação publicitária: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1997. REBOUL, Olivier. O slogan. Tradução de Ignácio Assis Silva. São Paulo: Cultrix, 1975. SANDMANN, Antônio. A linguagem da propaganda. São Paulo: Contexto, 1993. VEJA, São Paulo, ano 41, n. 26, ed. 2064. 11 de jun. 2008a. VEJA, São Paulo, ano 41, n. 22, ed. 2063. 4 de jun 2008b. VESTERGAARD, Torben; SCHRODER, Kim. A linguagem da propaganda. Tradução de João Alves dos Santos. São Paulo: M. Fontes, 1988. * Recebido em: 13.04.2010. Aprovado em: 04.05.2010. ** Mestranda em Mídia e Cultura na FacomB/UFG. E-mail: nelliesantee@ gmail.com. *** Professor Adjunto na FacomB/UFG. E-mail: goiamerico@facomb.ufg.br 180 FRAGMENTOS DE CULTURA, Goiânia, v. 20, n. 3/4, p. 169-180, mar./abr. 2010.