Gêneros discursivos, formas de textualização e tipologia

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Palestra UNIPAMPA - Jaguarão

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Gêneros discursivos, formas de textualização e tipologia

  1. 1. GênerosDiscursivos, Formas deTextualização eTipologiaTextual:distinçõesAdail Sobral(PPGL – UCPEL)
  2. 2. Tipologia Textual: DescriçãoA descrição é um tipo de texto que procura retratar, através de palavras, as características de uma pessoa, de um objeto, de um animal, de uma paisagem ou de uma situação qualquer. Um bom texto descritivo é aquele que permite que o ser descrito seja identificado pelo que ele tem de particular, de característico em relação aos outros seres da mesma espécie.
  3. 3. Tipologia Textual: Descrição “O grande homem da fé cristã Considerado símbolo de fé, amor e perseverança, Jesus Cristo pode ser tomado como um dos maiores revolucionários que o mundo já conheceu. Ele provou a uma sociedade hipócrita e primitiva que um homem não se faz de seus matérias, mas do seu valor moral. Em sua tênue expressão facial, Jesus sempre tinha um belo sorrido resplandecente. Seu carisma e simplicidade atraíram para si diversos seguidores, bem como inimigos. Ele propôs uma nova filosofia de vida, baseada no amor ao próximo, o que contrastou com as leis do povo judeu, as quais se baseavam no ódio aos inimigos. [...]” Fonte: http://www.algosobre.com.br/redacao/
  4. 4. Tipologia Textual: Narração Situa seres e objetos no tempo. Divide-se em:- Introdução: Apresenta as personagens, localizando-as no tempo e no espaço. - Desenvolvimento: Através das ações das personagens, constrói-se a trama e o suspense que culmina no clímax. - Conclusão: Existem várias maneiras de se concluir uma narração. Esclarecer a trama é apenas uma delas.
  5. 5. Tipologia Textual: Narração “O dia que virou um dia Os primeiros raios de sol, brandos como um leve toque, anunciam um novo dia de uma preguiçosa segunda- feira. Maria acorda, ingere algum pão e café, despede-se da família e se põe a caminhar em direção ao ponto de ônibus. Não tão longe dela, José executa as mesmas ações, porém, não se sabe se desperdiçou os mesmos momentos de adeus. Maria cumpre mais uma jornada de trabalho e, cansada, roga a volta a casa. Entra então, em um lotação, cujos passageiros a rotina a fez conhecer. José, bandido inveterado, passa o mesmo dia a caminhar, tramar e agir. Todavia, finda-se a data para ele também e, não estando satisfeito com as finanças adquiridas, envolve-se em dantescos pensamentos. [...]” Fonte: http://www.algosobre.com.br/redacao/
  6. 6. Tipologia Textual: Dissertação Dissertar é refletir, debater, discutir, questionar a respeito de um determinado tema, expressando o ponto de vista de quem escreve em relação a esse tema. Dissertar, assim, é emitir opiniões de maneira convincente, ou seja, de maneira que elas sejam compreendidas e aceitas pelo leitor; e isso só acontece quando tais opiniões estão bem fundamentadas, comprovadas, explicadas, e xemplificadas.
  7. 7. Tipos Textuais: Dissertação “Páscoa é a festa espiritual da libertação, simbolizada por objetos incorporados em nossas vidas como o ovo de páscoa, que está ligado a um ritual egípcio e, por conveniências comerciais, ganhou seu lugar nas festividades do Domingo de Páscoa assim como outra tradições que surgiram do anseio popular (a malhação do Judas em Sábado de Aleluia). Mas a verdadeira Páscoa está narrada em Exodus e depois a Nova Páscoa está descrita no Evangelho de Jesus Cristo como a vitória do Filho do Homem. A primeira Páscoa da História foi celebrada pelos hebreus no século 13 a.C. para que todos lembrassem que Moisés, com a ajuda do Senhor, salvou o seu povo das mãos do Faraó. Assim, o cordeiro foi o sinal de aliança e o anjo podia saber quem estava com Javé ou Jeová. [...] Fonte: http://www.mundovestibular.com.br/articles/1266/1/EXEMP LOS-DE-REDACAO/Paacutegina1.html
  8. 8.  As “esferas de atividade” são entendidas no círculo de Bakhtin como “regiões” de recorte sócio-histórico- ideológico do mundo, lugar de relações especificas entre sujeitos, e não só em termos de linguagem. São dotadas de maior ou menor grau de estabilização a depender de seu grau de formalização, ou institucionalização, no âmbito da sociedade e da história, de acordo com as conjunturas específicas. Assim, “esfera” deve ser entendida como a versão bakhtiniana marxista de “instituição”, ou seja, de modalidade relativamente estável de relacionamento cristalizado entre os seres humanos, por definição de cunho social e histórico. Logo, o conceito de instituição tem raízes marxistas e abarca desde a intimidade familiar até o aparato institucional do Estado, passando por circunstâncias como as que tornam possíveis comentários casuais que desconhecidos fazem um para o outro na rua sobre diversos assuntos cotidianos.
  9. 9.  Nesses termos, tudo é social: a relação entre duas pessoas traz à cena a soma total das relações sociais dessas pessoas, envolvendo no mínimo um espectro que vai da família ao Estado. A sociedade não existe independentemente das relações entre os sujeitos que dela fazem parte, seja qual for o ambiente e o grau específico de “formalização” desse ambiente: somos povoados pelo outro, dado que o sujeito é dividido interior e exteriormente. Logo, os sujeitos são constituídos pela sociedade e são seus constituintes, nela deixando sua “assinatura” existencial e as de suas relações com essa mesma sociedade (cf. CLOT, 2004).
  10. 10.  “Texto” designa, grosso modo, a materialidade dos discursos/gêneros, o que envolve o escrito, o falado, o pictórico, as mídias eletrônicas etc. O texto assim entendido em termos materiais é meu objeto, mas não o texto como mera “textualidade”, isto é, fora de uma discursividade e de uma genericidade. “Textualidade” (ou “textualização”) designa os aspectos linguístico- textuais estritos dos textos, envolvendo recursos de coesão e coerência, sintáticos etc., entendidos como componentes da superfície aparente do discurso. Compõem-no elementos que, quanto à sua forma, podem estar presentes em diferentes discursos e gêneros sem alterar as características essenciais destes
  11. 11.  Para explicar essa questão, recorro a um exemplo: a presença de uma forma textual historicamente típica de um dado gênero, a coluna social (tipos de enunciado como “x recebe y em sua nova house...”) no gênero coluna editorial assinada não altera o caráter deste último em sua produção, circulação e recepção; a introdução desse elemento “externo” muda a forma de composição, o tema e o estilo da forma discursiva editorial, mas não sua forma arquitetônica nem seus “compromissos” enunciativos de gênero – um pronunciamento opinativo explícito assinado por um editorialista – e uso “explicito” porque a “reportagem” mais “objetiva” ou mesmo a montagem da “capa” do jornal é, por sua própria constituição, uma opinião (cf. BRAIT, 2005c)!
  12. 12.  Por outro lado, a coluna social também não se altera quanto ao gênero ao ser introduzida no editorial, mas sua textualização, ao mudar de gênero, perde os vínculos com o gênero em que se cristalizou e passa a produzir novos sentidos, estranhos ao desse gênero, o que desvincula o texto do gênero. Chamo ainda a atenção para um aspecto curioso: o impacto que a introdução num editorial de formas textuais comuns na coluna social é bem menor, dada a natureza das relações enunciativas de um editorial, do que a introdução na coluna social de formas textuais típicas de um editorial – o que muito diz dos recortes do mundo que essas formas genéricas estabelecem, e num mesmo veículo.
  13. 13.  Uma forma arquitetônica pode realizar-se composicionalmente de mais de uma maneira, e com distintas textualizações, sem por isso ver-se alterada enquanto tal (cf. SOBRAL, 2005b), claro que não, tipicamente, ao mesmo tempo. Por essa razão, uma dada forma textual cristalizada não constitui uma camisa-de- força que define um dado gênero de uma vez por todas. Do mesmo modo, não nego a existência de cristalizações textuais típicas de certos gêneros, com maior ou menor grau de “institucionalização” que vão, por exemplo, do formulário de Imposto de Renda aos blogues (originalmente diários digitais públicos surgidos da moderna “ânsia” de autoexpressão pública da intimidade, incluindo opiniões pessoais dos autores sobre os mais diversos assuntos). Contudo, assim como o formulário pode ser alterado e “flexibilizado”, uma forma específica de blogue pode fixar-se no âmbito de sua esfera e passar a ser considerada o blogue – até mudar. Do mesmo modo, o blogue pode ir se diversificando a ponto de se ter de falar de “blogue pessoal”, “blogue acadêmico” etc.
  14. 14.  “Intergenericidade” designa o caráter constitutivo dos gêneros em circulação com respeito a gêneros elaborados/em elaboração, envolvendo igualmente as próprias relações temporais e espaciais entre culturas e Zeitgeisten, ou seja, as maneiras pelas quais os gêneros se interconstituem na sociedade e na história por meio das discursividades e das textualidades.
  15. 15.  “Tipo de texto” designar o que a meu ver são as formas “primárias” dos textos: descritivo, narrativo, dissertativo e instativo (manuais, instruções, normas etc.). Naturalmente, sendo essas formas entendidas como “primárias”, não afirmo que existam textos estritamente de um ou de outro desses tipos, exceto na forma de “dominantes”: no texto dominantemente descritivo, destaca-se a descrição; no texto dominantemente narrativo, a narração; no texto dominantemente dissertativo, a dissertação; no texto dominantemente instativo, a injunção, na forma de instruções, sequências de operações etc.
  16. 16.  Os textos concretos em geral apresentam diferentes combinações de tipos de texto, havendo um gradiente de combinações que permite marcar os textos, a rigor, como mais descritivos, mais dissertativos etc. Essa minha observação parte da consideração de diversas tipologias, de textos, de gêneros, de discursos etc., tendo por objetivo destacar que diferencio os “tipos” de texto dos “gêneros”, assim como diferencio os “tipos” de discurso dos “tipos” de texto. Há “tipos” de texto que comparecem com mais frequência a discursivizações dadas, mas não há aí uma correlação necessária, mas cristalizações de uso cuja fons et origo podem ser reveladas por uma análise histórica fundamentada.
  17. 17.  Com base nessas considerações, proponho uma análise genérico-discursiva “pura”, ou seja, uma análise que não se concentra nas especificidades da textualização (se bem que as leve necessariamente em conta, dado que todo discurso/gênero se manifesta em textos) mas na discursivização, entendendo-a no âmbito de uma generificação, planos mais amplos do que a textualização e que, como pretendo demonstrar, são a instância que confere sentido a esta última.
  18. 18.  Nenhum desses elementos constitui isoladamente o enunciado, e é sua unidade, isto é, sua integração, que constitui os gêneros. Além disso, a composição e o estilo do enunciado dependem da expressividade, ou caráter valorativo do enunciado, ou seja, a relação valorativa falante- objeto-ouvinte determina a escolha de todos os recursos linguísticos. Assim, a depender de sua intenção comunicativa, o autor recorre a uma enumeração de itens, usa um exemplo específico, remete a fatos especiais etc. e o faz à sua própria maneira: se lermos 10 editoriais, veremos que há neles muito de parecido e muito de diferente, embora todos sejam editoriais.
  19. 19. O que é um texto? O texto pode ser abordado de 4 pontos de vista complementares, ainda que várias sejam as propostas que ficam a meio caminho entre esses níveis, que não apenas teóricos, mas da ordem do próprio objeto “texto”: (1) sua materialidade de sequência organizada de sinais convencionais; (2) seu estatuto de espaço de articulação de elementos estritamente linguísticos (que vão até o nível da frase e da junção de frases); (3) sua natureza de unidade estruturada de segmentos linguístico-semióticos ligados à produção de um sentido que vai além da estruturação sintática das frases, sentido vinculado com os mecanismos de textura: a coesão, a coerência etc.;
  20. 20.  (4) seu estatuto de unidade potencial de sentido produzida - a partir das restrições do uso de sinais, da combinação de elementos linguísticos e dos mecanismos de criação de textura etc. - por sujeitos concretos, objetivados, isto é, transformados em sujeitos de discurso, numa dada situação histórico- social que sempre vai além da interação imediata, visto que aí se faz presente a soma total das relações e vivências sociais dos envolvidos, incluindo sua consciência individual (que também é histórico-social, mas não menos individual), relações entre grupos, classes, culturas e mesmo épocas, o que envolve as várias mediações institucionais, informais, ou do cotidiano, e do âmbito formal, estatal e de outros tipos
  21. 21.  Da perspectiva de uma translinguística, todos os elementos considerados pelas outras três são considerados pertinentes e relevantes. Não obstante, essa perspectiva mostra que faltam a todos esses modos de ver a textualidade, o texto, dois elementos cruciais para o entendimento do processo de produção textual de sentido: em primeiro lugar, a situação de produção do texto, da textualidade, da superfície textual, no âmbito do enunciado, do discurso, e, em segundo, como consequência lógica, os interlocutores aí envolvidos em termos de suas interrelações sócio-historicamente possíveis.
  22. 22.  Assim, o texto é um objeto material que, ao ser tomado como o texto produzido por um sujeito, é incorporado a um discurso, algo proferido por alguém num dado contexto, um processo cujas “marcas” estão no próprio texto! Logo, os sujeitos e os contextos não estão submetidos ao texto, não se podendo tomar o texto como unidade autárquica transferível integralmente. O texto traz assim potenciais de sentidos; é uma materialidade em que são criados sentidos a partir da produção do discurso, que transforma frases em enunciados. O texto em si, tal como a frase, não pertence a ninguém; o enunciado e o discurso, ao contrário, vêm de alguém, dirigem-se a alguém, são “endereçados”, trazem em si um tom avaliativo e remetem a uma compreensão responsiva ativa.
  23. 23. O que é discurso? Discurso é uma unidade de produção de sentido que é parte das práticas simbólicas de sujeitos concretos e articulada dialogicamente às suas condições de produção, bem como vinculada constitutivamente com outros discursos. Mobilizando as formas da língua e as formas típicas de enunciados em suas condições sociais e históricas de produção, o discurso constitui seus sujeitos e inscreve em sua superfície sua própria existência e legitimidade social e histórica.
  24. 24. O que é gênero? Gênero: formas ou tipos relativamente estáveis de enunciados/discursos que têm uma lógica própria, de caráter concreto, e recorrem a certos tipos estáveis de textualização (tipos de frases e de organizações frasais mobilizadas costumeiramente pelos enunciados e discursos de certos gêneros), mas não necessariamente a textualizações estáveis (frases e organizações frasais que sempre se repitam), pois são tipos ou formas de enunciados.
  25. 25. Ainda o gênero Ou seja, gêneros são formas de interlocução vinculadas a esferas de atividade, onde ocorre a produção, circulação e recepção de discursos, definindo-se através da forma de composição, do tema e do estilo, mobilizados pelo projeto enunciativo, estando este vinculado com uma dada arquitetônica.
  26. 26.  Chamo sentido ao que é resposta a uma pergunta. O que não responde a nenhuma pergunta carece de sentido. [...] O sentido sempre responde a uma pergunta. O que não responde a nada parece-nos insensato, separa-se do diálogo.
  27. 27. Essa consideração [do destinatário] irá determinartambém a escolha do gênero do enunciado e a escolhados procedimentos composicionais e, por último, dosmeios linguísticos, isto é, o estilo do enunciado.(Bakhtin 1953/2003, p. 302)Portanto, o direcionamento, o endereçamento doenunciado é sua peculiaridade constitutiva, sem a qualnão há nem pode haver enunciado [grifei]. As váriasformas típicas de tal direcionamento e as diferentesconcepções típicas de destinatários são peculiaridadesconstitutivas e determinantes dos vários gêneros dodiscurso. (...) A escolha de todos os recursoslinguísticos é feita pelo falante sob maior ou menorinfluência do destinatário e da sua resposta antecipada[grifei]. (Bakhtin 1953/2003, p. 305-306)
  28. 28.  Logo, os tipos de textos descrevem dominantes textuais; formas de textualização descrevem formas habitualmente, mas não obrigatoriamente, empregadas em gêneros do discurso; e gêneros do discurso são formas relativamente estáveis de interlocução vinculadas a esferas de atividade, onde ocorre a produção, circulação e recepção de discursos, definindo-se através da forma de composição, do tema e do estilo, mobilizados pelo projeto enunciativo de um dado locutor, estando este vinculado com uma dada arquitetônica.
  29. 29.  De modo geral, numa análise, fazem-se “perguntas” aos exemplares de gênero. Essas perguntas abordam (1) as condições em que os gêneros são produzidos e recebidos e nas quais circulam e quem os produz para quem; e (2) as características textuais e composicionais desses exemplares. Em outras palavras, cabe cobrir os aspectos textuais mais restritos e os aspectos enunciativos mais amplos, porque um gênero é composto por um texto inserido de uma dada maneira num contexto. Não se deve propriamente procurar isolar tema, estilo e forma de composição, mas ver o texto a partir dessas categorias. E as perguntas devem ser adequadas ao nível dos alunos com os quais se trabalha usando os gêneros.

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