Teorias do uso da língua - Pragmática

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Aula de "Teorias do uso da língua" ministrada pelos professores Sabine Reiter e Armando da Costa, na casa de estudos germânicos da UFPA, durante o 4º período letivo de 2013, do curso de Letras - Alemão.

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Teorias do uso da língua - Pragmática

  1. 1. Pragmática Estudo do Uso da Língua Estudo de como se age através da língua
  2. 2. • Durante muito tempo o uso da língua era o pano de fundo para o estudo da língua como sistema • Teorias do estudo da língua como sistema: • Estruturalismo (Saussure): langue vs. parole; enfase na langue; parole era considerada a manifestação da língua • Gerativismo (Chomsky): competência vs. performance  echo da dichotomia de Saussure
  3. 3. • A pragmâtica recebeu mais atenção a partir dos anos 1970, p.ex. Na gramâtica gerativa percebeu-se que determinados fenômenos só podem ser descritos ao considerar o uso da língua • Na Alemanha: “pragmatische Wende” (“o torno pragmâtico”)  a geração dos “68” exigia que a linguística seria uma ciência socialmente relevante, p.ex. para professores de escola ou pessoas trabalhando na mídia  mudança de currículo, mudança de foco na linguística
  4. 4. • Para as teorias da linguística como estudo de sistema o uso da língua é a área dos tokens, as aplicações das possibilidades, os types, dadas pelo sistema • Através da perspectiva pragmâtica essa visão é muito simplificada: O uso da língua na comunicação não é simplesmente a aplicação de possibilidades dadas pelo sistema, mas os falantes escolham as possibilidades segundo as suas intenções e à base de regras comunicativas: a pessoa se expressa de diversas maneiras dependendo do interlocutor e da situação  a pragmâtica não se interessa pelos tokens, pelas enunciações individuais, mas interessa-se pelas regras da comunicação refletidas nas enunciações
  5. 5. A pragmática estuda: • A) a relação entre o que é falado e o que se diz com isso sobre o mundo • B) a relação entre o que é falado e as intenções/ motivações comunicativas do falante • C) a maneira como os participantes de comunicação organizam a sua interação linguística; como isso reflete a posição social dos falantes
  6. 6. Temas da pragmâtica: 1) Dêixis 2) Atos de fala 3) Implicaturas conversacionais 4) Princípios da interação conversacional 5) Princípios do uso da língua 6) Polidez 7) Organização de frases in termos de conhecimento mutual
  7. 7. 1) Dêixis • Exemplo: “A onde você esteve ontem à noite?” “Estive aqui.” • Def.: a identificação de pessoas, objetos, lugares, tempos, etc. relativo a um centro de orientação, tipicamente a situação da enunciação • A dêixis trata das maneiras como línguas codificam ou gramaticalizam aspectos do contexto da enunciação ou do evento de fala • A interpretação de expressões dêicticas depende do contexto
  8. 8. Dimensões deicticas: • • • • Pessoa Lugar Tempo Dêixis discursiva (referente a partes do discurso no qual a enunciação está localizada) • Dêixis social (codificação de diferenças sociais em relação aos papeis dos participantes) • Dêixis de modo  exemplos em alemão e português?
  9. 9. 2) Teoria dos atos de fala • Pano de fundo filosófico: uma sentença precisa ser verificada (é falsa ou verdadeira) • Austin: as frases da língua são ações sobre o real; quando falamos ordenamos, perguntamos, pedimos, julgamos, reclamamos etc.  conceito do “performativo”
  10. 10. Austin (1): Frases constativos e frases performativos 1) Ich habe heute 150 Seiten Syntaxtheorie gelesen. vs. 2) Ich danke Ihnen sehr für Ihre Mitarbeit. 3) Ich taufe dich auf den Namen Angelika. 1) é declaração sobre o mundo, verdadeira ou falsa  2), 3) atos; dificil dizer: “não é verdade”
  11. 11. Austin: “How to do things with words” (“Quando dizer é fazer”) Verbos performativos: • Ich verspreche dir, dass ich komme. • Ich warne dich! • Ich vergebe dir. • Entschuldigung. • Ich erkläre euch hiermit zu Mann und Frau. Se faz um ato, quando usados na 1a pessoa do singular (também do plural) no indicativo ativo In alemão muitas vezes acompanhados pela partícula “hiermit” (“com isso”, “neste momento”)
  12. 12. Diferenciação entre “explicitamente” e “em primeiro lugar” ou “implicitamente” performativo a) Ich verspreche dir, dass ich komme. vs. b) Ich komme morgen ganz bestimmt. Alguns atos precisam de verbos performativos para serem realizados Outros atos podem ser realizados sem utilizar esses verbos (b)
  13. 13. Verbos ilocutivos: Alguns atos justamente não podem ser realizados ao utilizar os verbos que denominam o ato: p.ex. Ich verleumde Sie. / Eu difamo você.  difamir não é um verbo performativo, mas ele denomina uma atividade que se realiza através da fala  Sie sind ein alter Nazi.
  14. 14. Problemas com a dichotomia de frase constativa vs. frase performativa • Austin que estabeleceu essa dichotomia se corrigiu depois por vários motivos (i) a (iii): (i) não são as frases que são constativas ou performativas  frases são construções de língua, atos são feitos pelos usuários da língua ao falar  são os enunciados que são performativos o que é verdadeiro ou errado também não são frases mas proposições; proposições são expressos por frases em determinadas situações
  15. 15. (ii) Não existe dichotomia performativo vs. constativo, p.ex. Sie sind ein alter Nazi.  por um lado pode ser um ato de fala (difamação), por outro também uma proposição que pode ser verdadeira ou falsa (na Alemanha um assunto comum na justiça) (iii) todos os enunciados são performativos  sempre há interlocutores e situações específicas quando pessoas falam  todos os enunciados são atos; p.ex. Ich habe heute 150 Seiten Syntaxtheorie gelesen.  o falante quer fazer acreditar/enganar/impressionar/etc. o interlocutor
  16. 16. Segundo Austin, ao dizer algo 3 atos são performados ao mesmo tempo: • (i) o ato locucional (senso, referência) • (ii) o ato ilocucional (p.ex. oferta, promessa, aviso etc.) • (iii) o ato perlocucional (o efeito no interlocutor)
  17. 17. O ato locucional: • a) produzir/emitir sons ou datilografar/ escrever • b) realizar signos abstratos de um sistema linguísticoL fonemas, morfemas/ palavras, frases, textos • c) referir-se com a língua às coisas no mundo, expressar uma proposição  Na concepção de Searle (discípulo de Austin) a) e b) são o ato enunciativo e c) o ato proposicional
  18. 18. O ato ilucucional: d) a pessoa fala para alguém, direciona-se a algum interlocutor e) o falante tem uma certa intenção quando fala, quer informar, comprimentar, avisar, ameaçar, prometer, persuadir etc. O ato perlocucional: f) O falante quer fazer alguém ficar com medo (ameaçando), ficar alegre (elogiando) etc.  a) a f) junto é o ato da fala
  19. 19. • performativos: explicitos e implicitos p.ex. Hau ab! - Ich fordere dich auf zu gehen! – Könntest du jetzt bitte gehen? Mach bitte das Fenster zu! – Hier zieht’s! – Mir ist kalt. (podem não dar certo  “condições de felicidade/ successo”)  todos os enunciados não somente expressam proposições como também performam atos
  20. 20. • • • • • Searle: sistematização do trabalho de Austin Estabelece as “condições de felicidade” (regras para o successo do ato de fala): a) conteúdo proposicional b) condição preparatória c) condição de sinceridade d) condição essencial  Fornecem base/ sistema para analisar/ evaluar atos de fala
  21. 21. Exemplo: promessa • a) conteúdo proposicional: o falante fala sobre algo no futuro • b) condições preparatórias: (i) fala sobre algo que não acontece sozinho, que o falante tem o poder de realizar; (ii) fala sobre algo que o falante acha que o interlocutor quer • c) condição de sinceridade  é necessário que o falante seja sincero?  condição contestada
  22. 22. 5 atos básicos que podem ser performados através da fala: • 1) atos assertivos: comprometimento do falante com a “verdade” da proposição expressada • 2) atos diretivos: p.ex. aconselhar, ordenar  falante quer que o interlocutor faça algo • 3) atos expressivos: p.ex. agradecer, desculparse  expressa estado psicológico do falante • 4) atos comissivos: p.ex. prometer  o falante se compromete a uma ação no futuro • 5) atos declarativos: promovem mudança na realidade, “falar é fazer”, p.ex. batizar, casar, nomear
  23. 23. Resumindo: • Todos os enunciados não só expressam proposições como também performam atos • O ato ilocucional é mais “privilegiado” para realizar a ação • O ato é associado via convenções com certas formas de enunciados • A força ilocucional pode ser expressa diretamente e de modo convencionalizado por performativos • Uma caraterização nítida da força ilocucional é feita pela especificação de um conjunto de “condições de felicidade”
  24. 24. • A teoria dos atos de fala se orienta no enunciado e no que o falante pode fazer e precisa saber para formular um ato de fala • Não diz muito sobre como o interlocutor reconhece a ilocução e perlocução de um enunciado (além de certos indicadores linguisticos) • Não é sempre possível que o interlocutor se apoia nesses indicadores linguísticos como mostram os exemplos dos atos de fala indiretos  a teoria das implicaturas conversacionais tenta explicar como os interlocutores entendem os enunciados em situações específicas
  25. 25. 3) Implicaturas conversacionais • Grice (1957): “implicaturas”  2 tipos: a) as convencionais e b) as conversacionais; • a) Apesar de fanfarrão, ele é um bom jogador de futebol.  “apesar de” (elemento do sistema linguístico) provoca relação de sentido • b) ligados ao contexto extralinguístico
  26. 26.  Idéia principal: pessoas tentam manter certos padrões no comportamento comunicativo; enunciados são interpretados com esses padrões na cabeça; existem princípios que adicionam ao conteúdo/ especificam o conteúdo • Exemplos: • A) “Você quer café?” “Café me faria ficar acordada.” • B) “Você vai ao cinema com a gente?” “Estou com dor de cabeça.”
  27. 27. O princípio de cooperação: • Faça a sua contribuição na conversação, atendendo ao que é solicitado, no momento exigido, visando aos propósitos comuns e imediatos, de forma consequente em relação aos compromissos conversacionais estabelecidos.
  28. 28. 4 máximas: • 1) máxima de quantidade (seja informativo) • 2) máxima de qualidade (seja verdadeiro) • 3) máxima de relação (seja relevante) • 4) máxima de modo (seja claro)
  29. 29. Exemplo: carta de reclamação • Prezados Senhores: Eu, (XX), proprietário do apto. 1004, situado à (endereço do apto.), venho através da presente solicitar a V.Sas. Que vistorie e conserte a pia da cozinha. O serviço de vedação ao redor da cuba já foi feito há algum tempo atrás, mas já está saindo tudo. Certos de vossas atenções, subscrevo-me. Minha área está provocando uma infiltração do apto. 904 há mais de 2 meses. Eles, já fizeram a reclamação por escrito. Atenciosamente
  30. 30. Análise do exemplo: • 1) máxima de quantidade: o escritor da carta é informativo e objetivo; não acrescente informação desnecessária • 2) máxima da qualidade: escritor fala sobre coisas que ele pode comprovar; está sendo “verdadeiro” • 3) máxima da relação: escritor só escreve sobre coisas relevantes na situação • 4) máxima de modo: escritor evita ambiguidades, está sendo claro
  31. 31. Outros exemplos: • A1: “A onde está o João?” • A2: “Que horas são?” • B: “Alguns bares já estão abertos.” • A: “Was hast du gesagt?” • B: “Warum stellst du das Radio nicht noch etwas lauter?”  teoria tenta explicar como é possível saber mais do que é de fato falado

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