Comunicação e expressão

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Comunicação e expressão

  1. 1. UNIVERSIDADE SANTO AMARO Kátia Assis de Oliveira Comunicação e Expressão Pedagogia SÃO PAULO 2007
  2. 2. KÁTIA ASSIS DE OLIVEIRACOMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO Ensino a Distância — E a D Revisão 2 São Paulo 2007
  3. 3. SUMÁRIO1 COMUNICAÇÃO E LINGUAGEM 61.1 LINGUAGEM E LÍNGUAS 61.2 PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO 61.3 ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO 61.3.1 Código e mensagem 61.3.2 O referente 71.3.3 O canal de comunicação 71.3.4 O esquema da comunicação 71.4 AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM 82 TEXTO E TEXTUALIDADE 92.1 COESÃO 122.2 COERÊNCIA 133 AS SUPERESTRUTURAS TEXTUAIS 143.1 O TEXTO DESCRITIVO 143.1.1 Características do texto descritivo 163.2 O TEXTO NARRATIVO 183.2.1 Características do texto narrativo 193.3 O TEXTO DISSERTATIVO 203.3.1 Características da dissertação 213.3.2 Dissertação expositiva 213.3.3 Dissertação Argumentativa 213.3.4 Organização do texto dissertativo 224 A CONSTITUIÇÃO DO TEXTO 264.1 RELEMBRANDO A NOÇÃO DE TEXTO 264.1.1 Texto e discurso 264.1.2 A Intertextualidade 27
  4. 4. 4.1.2.1 A Paródia 274.1.2.2 A Paráfrase 304.1.2.3 A Estilização 324.1.2.4 A Apropriação 345 O TEXTO ACADÊMICO 355.1 O FICHAMENTO 355.2 O RESUMO 395.3 A RESENHA 415.3.1 Resenha crítica 415.3.1.1 Requisitos básicos para se resenhar 425.3.2 Resenha descritiva 426 O TEXTO COMERCIAL 426.1 A CARTA COMERCIAL 446.1.1 A composição da carta comercial 447 E-MAIL 457.1 INTERNET 457.2 O E-MAIL PROPRIAMENTE DITO 457.2.1 E-mails comerciais 467.2.2 E-mails pessoais 478 CONSIDERAÇÕES FINAIS 48 REFERÊNCIAS 49
  5. 5. APRESENTAÇÃO Uma língua é um lugar donde se vê o mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Vergílio Ferreira Antes de iniciarmos a apresentação, propriamente dita, deste trabalho, cabe-nosesclarecer que nosso material de apoio, elaborado especialmente para esta disciplina, foipreparado com base em cursos anteriormente ministrados pela equipe docente da UnisaDigital. Particularizando, dentre esse material, a apostila, esclarecemos que se trata dareedição de uma obra assinada pela Profª Drª Márcia Antônia Guedes Molina, que foi por nósadaptada, de acordo com os propósitos do curso de Pedagogia. Ainda no intuito de dar osmerecidos créditos à principal autora, transcrevemos abaixo, ipsis literis, o texto daapresentação original, escrito por Márcia Molina. Nosso objetivo neste trabalho é sintetizar alguns conceitos relevantes de texto, paraauxiliar o processo de produção escrita dos ingressantes no curso superior, favorecendo-lhestambém uma orientação de como elaborar determinadas superestruturas textuais, por meio detécnicas de escritura e leitura de textos modelares e competência para a produção de textosacadêmicos, oferecendo-lhes também orientação de como elaborar determinados técnicos. O trabalho embasa-se em obras dos mais renomados estudiosos da Lingüística, comoJakobson (s/d) e Vanoye (1998); dos mais importantes estudiosos da Lingüística de texto,como Fávero (1999), Kock (1997), Guimarães (2004) e Fiorin (2003); e em trabalhos demetodologia do trabalho científico, de autores de reconhecida competência, como Severino(2001) e Lakatos (1992). Os conteúdos estão assim organizados: primeiramente, discutiremos a questão deLíngua e Linguagem; depois os elementos da comunicação e, embasados neles, as Funções daLinguagem. Partimos depois para as noções de texto, textualidade, coesão e coerência, para,em seguida, apresentar as superestruturas textuais tradicionalmente reconhecidas: descrição,narração e dissertação. Num outro capítulo, depois de uma revisão de texto e textualidade,apresentamos a noção de intertextualidade, compreendendo a de paródia, paráfrase,estilização e apropriação, para, então, partirmos para a discussão sobre fichamento, resumo eresenha. Partimos na seqüência para a apresentação da redação comercial e finalizamos aapostila com orientações de como escrever e-mails.
  6. 6. A seleção desses conteúdos deve-se à sua relevância como ponto de partida para osdemais textos, embora urge salientarmos que, numa obra simples como a nossa, não temos apretensão de traçar todas as diretrizes possíveis para o bom desenvolvimento de suacompetência escrita. Pelo contrário, apresentamos aqui apenas um roteiro, um caminho inicialque deverá ser percorrido pelo próprio aluno e desvendado e ampliado à medida que seuconhecimento sobre a língua for ampliado. Fruto de nossa experiência docente, as lições aqui apresentadas resultam do que foipossível coletar do prazeroso convívio com nossos alunos e da observação do brilhantetrabalho de muitos colegas com quem tivemos o prazer de cruzar durante nossa jornada,especialmente, das atividades docentes da minha orientadora de doutorado, Profª. Drª. LeonorLopes Fávero, umas das maiores estudiosas de Lingüística Textual no Brasil, do meu queridoProf. Hildebrando A. André, com quem tive o prazer de aprender a ensinar redação, e daslições sublineares a mim fornecidas pelo meu Vice-Diretor, Prof. Leo Ricino. Profª. Kátia Assis de Oliveira
  7. 7. 61 COMUNICAÇÃO E LINGUAGEM Muitos autores costumam definir comunicação como “transmissão voluntária deinformação” (RIEGEL, s/d, p.21). Como se procede, então, essa transmissão? Claro que pormeio da linguagem. Émile Benveniste assevera que a linguagem é um sistema de signossocializados, remetendo-nos à sua função de comunicação. Vale salientar que, para que exista comunicação, as pessoas envolvidas no processoprecisam fazer uso de um código comum, quer dizer, devem “falar a mesma língua”. Issosignifica que só há comunicação quando um entende o outro.1.1 LINGUAGEM E LÍNGUAS As línguas são, de acordo com Vanoye (1998, p.21), “casos particulares de umfenômeno geral”, ou seja, a linguagem é o todo, todas as formas de comunicação e comportavários códigos, como cores, signos, assobios, código morse etc., já as línguas são um tipoespecífico de linguagem.1.2 PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO A comunicação pressupõe sempre a existência de dois pólos: aquele que emite ainformação e aquele que a recebe: emissor-receptor ou locutor-alocutário ou ouvinte-leitoretc. O veículo utilizado para a comunicação pode fazer com que esses papéis sejamintercambiáveis ou não. É importante frisarmos que, para que haja comunicação, deve haversempre e, pelo menos, dois seres envolvidos, fazendo uso dos elementos da comunicação.1.3 ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO1.3.1 Código e mensagem O emissor e o receptor, como já foi dito, devem dispor do mesmo código, ou seja, domesmo sistema de signos, a fim de que a informação possa ser recebida e decodificada peloreceptor. Essa informação decodificada é a mensagem.
  8. 8. 71.3.2 O referente Riegel (s/d. p. 22) assevera: Os signos do código remetem à realidade tal qual é percebida pelo emissor e pelo receptor. O aspecto específico dessa realidade, que é evocada por um signo do código, é o referente desse signo. O universo referencial, exterior ao código, compreende tudo aquilo que pode ser designado pelos signos e suas combinações: seres, coisas, estados, acontecimentos, idéias, etc.1.3.3 O canal de comunicação É necessário um meio físico para que a mensagem possa ser veiculada para ointerlocutor, a esse meio damos o nome de canal de comunicação. Constituem canais decomunicação o ar, um CD, um cabo, um telefone, etc1.3.4 O esquema da comunicação A somatória desses elementos resulta no seguinte esquema que apresenta os elementos indispensáveis para a comunicação: Esquema da Comunicação Contexto Canal de Comunicação Emissor MENSAGEM Receptor Código
  9. 9. 81.4 AS FUNÇÕES DA LINGUAGEM A linguagem, de acordo com Jakobson (s/d, p. 122), “tem toda a variedade de suasfunções.” Antes, porém propõe que recordemos que o remetente envia uma mensagem a umdestinatário. Para que possa ser transmitida, a mensagem requer uma contexto (ou referente),apreensível pelo destinatário e que seja verbal ou passível de verbalização, um códigocomum (parcial ou totalmente)a ambos — remetente e destinatário — e, finalmente, umcontato, ou seja, um canal físico por meio do qual possa ser veiculada. Cada um desses seis elementos encerra uma função da linguagem diferente: CONTEXTO 1) FUNÇÃO REFERENCIAL CANAL 2) FUNÇÃO FÁTICA EMISSOR MENSAGEM RECEPTOR 3) FUNÇÃO EMOTIVA 4) FUNÇÃO POÉTICA 5) FUNÇÃO CONATIVA CÓDIGO 6) METALINGUAGEM Apesar de serem seis elementos e, portanto, seis funções da linguagem, normalmenteas mensagens comportam mais de uma função, havendo uma predominante, mas nãoexclusiva. Deve-se ressaltar que a estrutura da mensagem depende dessa função predominante.Assim, a função referencial (também chamada de denotativa) está centrada no contexto(referente). Tudo o que se refere aos contextos situacionais ou textuais pertencem a estefunção. Por exemplo: Prefeitura libera a pista expressa da Marginal Pinheiros. (Folha de SãoPaulo, 16 de janeiro de 2007)
  10. 10. 9 Quando a mensagem está centrada no canal, falamos da função fática. Temos nessecaso tudo o que serve para, numa comunicação, estabelecer, manter ou encerrar o contato.Por exemplo: Alô, alô, responde... Responde... Já, quando a mensagem prioriza o emissor, revelando sua personalidade, estamos àfrente da função emotiva (ou expressiva). Veja o exemplo abaixo: Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Carlos Drummond de Andrade A função poética é aquela em que a prioridade está na própria mensagem,colocando em destaque o “lado palpável dos signos” (JAKOBSON, s/d.), como no exemplo: Vozes veladas, veludosas vozes, Volúpias dos violões, vozes veladas, Vagam nos velhos vórtices velozes Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. Cruz e Souza Quando ocorre a orientação para o receptor (destinatário) temos a função conativa. Porisso, nessa função é comum observamos o emprego de verbos no modo imperativo e devocativos e ponto de exclamação. Exemplo: Assine uma TV a cabo agora e comece a pagarsomente depois do Carnaval. Finalmente, quando é dada especial relevância ao código, estamos à frente da funçãometalingüística. Veja o exemplo: Quando falamos de funções da linguagem, queremos dizer,da possibilidade que tem a língua de, de acordo com a intenção do falante, dar especialdestaque a determinados elementos da comunicação. Nesse caso, usamos a língua para explicar a própria língua.2 TEXTO E TEXTUALIDADE Texto, etimologicamente, quer dizer tecido, ou seja, trata-se de uma trama em que sedevem enredar as palavras. Hoje, o Míni Houaiss (2001, p. 508) traz a seguinte definição parao termo: “s.m. 1. Conjunto de palavras, frases escritas; 2. Trecho ou fragmento de obra de umautor; 3 qualquer material escrito destinado a ser falado ou lido em voz alta [...]” Cumpre ressaltar que nem todos os conceitos acerca do que venha a ser texto sãoválidos para o estudioso da Gramática ou da Lingüística Textual. A razão é simples, podendo
  11. 11. 10ser subentendida a partir das palavras de KOCK (1997, p. 11), ao afirmar que a Lingüística doDiscurso procura estudar os textos como “manifestações lingüísticas produzidas porindivíduos concretos em situações concretas, sob determinadas condições de produção”,entendendo-os numa situação interacionista. Do princípio de interação, em que se baseiam asanálises de texto e discurso, é que surge a divergência em relação ao conceito apresentado noMíni Houaiss, pois, para nós, não será texto “Qualquer material escrito destinado a ser faladoou lido em voz alta [...]” (op. cit.), mas, apenas aquele que atender a essa “exigência”. Vistopor esse ângulo, não será texto, por exemplo, uma seqüência de enunciados escrita em alemãopara um leitor que não compreenda esse idioma. Nessa hipótese, a seqüência constituirá umnão-texto. Ao adotar o texto como unidade de comunicação, a Lingüística Textual supõe,naturalmente, que ele seja dotado de sentido. Conseqüentemente, conforme explicita Fávero(1993), considera-se que sua produção e compreensão estejam ligadas à competência textualdo falante. Para que haja textualidade, característica que faz com que o texto seja realmente texto,torna-se necessário que se verifiquem alguns fatores, tanto na microestrutura quanto namacroestrutura textual, dentre os quais se destacam a coesão e a coerência. Para melhor compreensão do assunto tratado neste capítulo, tomo de empréstimo, naíntegra, exemplos apresentados por Molina. (recorte da apostila editada exclusivamente parao Curso de Letras da Universidade de Santo Amaro 2006; 2007) aos alunos das disciplinasTécnicas de Produção Textual e Comunicação e Expressão:Para calar a boca: Rícino Para a luz lá na roça: 220 voltsPra lavar a roupa: Omo Para vigias em ronda: CaféPara viagem longa: Jato Para limpar a lousa: ApagadorPara difíceis contas: Calculadora Para o beijo da moça: PaladarPara o pneu na lona: Jacaré Para uma voz muito rouca: HortelãPara a pantalona: Nesga Para a cor roxa: AtaúdePara pular a onda: Litoral Para a galocha: VerlonPara lápis ter ponta: Apontador Para ser moda: MelanciaPara o Pará e o Amazonas: Látex Para abrir a rosa: TemporadaPara parar na pamplona: Assis Para aumentar a vitrola: SábadoPara trazer à tona: Homem - Rã Para a cama de mola: HóspedePara a melhor azeitona: Ibéria Para trancar bem a porta: CadeadoPara o presente da noiva: Marzipã Para que serve a calota: VolkswagenPara Adidas o Conga: Nacional Para quem não acorda: BaldePara o outono a folha: Exclusão Para a letra torta: PautaPara embaixo da sombra: Guarda-Sol Para parecer mais nova: AvonPara todas as coisas: Dicionário Para os dias de prova: AmnésiaPara que fiquem prontas: Paciência Pra estourar pipoca: BarulhoPara dormir a fronha: Madrigal Para quem se afoga: IsoporPara brincar na gangorra: Dois Para levar na escola: ConduçãoPara fazer uma toca: Bobs Para os dias de folga: NamoradoPara beber uma coca: Drops Para o automóvel que capota: GuinchoPara ferver uma sopa: Graus Para fechar uma aposta: Paraninfo
  12. 12. 11 Para a comida das orcas: KrillPara quem se comporta: Brinde Para o telefone que tocaPara a mulher que aborta: Repouso Para a água lá na poçaPara saber a resposta: Vide - o - Verso Para a mesa que vai ser postaPara escolher a compota: Jundiaí Para você o que você gostaPara a menina que engorda: Hipofagi Diariamente (http://marisa-monte.letras.terra.com.br/letras) Num primeiro momento, temos a impressão de que se trata de um amontoado de frasespouco significativas. Contudo, se a inserirmos em seu contexto, passamos a entendê-la comotexto. Então, vamos lá. A seqüência acima é uma composição de Nando Reis, gravada porMarisa Monte, intitulada Diariamente. O texto relata os fatos do cotidiano de uma pessoa quevive numa região urbana, possivelmente, na cidade de São Paulo. O mesmo ocorre com a seguinte seqüência:Por que você é Flamengo ? Por que o fogo queima ?E meu pai Botafogo ? Por que a lua é branca ?O que significa "Impávido Colosso" ? Por que a Terra roda ?Por que os ossos doem ? Por que deitar agora ?Enquanto a gente dorme ? Por que as cobras matam ?Por que os dentes caem ? Por que o vidro embaça ?Por onde os filhos saem ? Por que você se pinta ?Por que os dedos murcham ? Por que o tempo passa ?Quando estou no banho ? Por que que a gente espirra ?Por que as ruas enchem ? Por que as unhas crescem ?Quando está chovendo ? Por que o sangue corre ?Quanto é mil trilhões ? Por que que a gente morre ?Vezes infinito ? Do qué é feita a nuvem ?Quem é Jesus Cristo ? Do que é feita a neve ?Onde estão meus primos ? Como é que se escreveWell, well, well Gabriel ? Reveillon ?Well, well, well Well ? Well, well, well , Gabriel http://vagalume.uol.com.br/adriana-calcanhoto/oito-anos.html) Se não reconhecermos a seqüência, inadvertidamente, podemos julgá-la um amontadode perguntas sem nexo e, portanto, um não-texto. Contudo, novamente, temos aqui a letra deuma composição que Paula Toler dedicou a seu filho Gabriel, com as perguntas que ele,costumeiramente, lhe fazia. A música chama-se “Oito anos” e foi gravada por AdrianaCalcanhoto. Agora, prestemos atenção a este segmento: La variété et la fantaisie de ma vie de Tous les jours Tous les jours de la semaine, je ne me lève jamais a la même heure et ce n’est jamais la mème chose. Mes jours sont fous, fous, fous! Lorsque je me lève, je ne suis pas pressé...
  13. 13. 12 Je vois et je choisis, c’est ça? Qu’il faut faire... Je déjeune chaque jour à un restaurant différent. L’aprés-midi je vais au cinéma, ou pour les courses, ou jouer le bowling, au bien aux shoppings... Je fais de promenade, promenade, promenade... Naturellement, je ne peux pas travailler! Les soirs je m’amuse à quelque show, ou théatre, ou rendez-vous chez un ami... Les personnes ne me retrouvent jamais! http://www.sergiosakall.com.br/girafas/lingua_frances.html A seqüência acima só será texto para aqueles que dominam a língua em que foiescrita: francês, os demais reconhecerão a seqüência, mas como não interagem com ela, nãoconseguindo depreender-lhe o sentido, será um não-texto. A Profª. Márcia Molina (op. cit) fecha sua análise, citando Kock e Travaglia (1990, p.10), para quem texto pode ser compreendido como: Uma unidade lingüística concreta (perceptível pela visão ou audição), que é tomada pelos usuários da língua (falante, escritor/ouvinte, leitor), em uma situação de interação comunicativa, como uma unidade de sentido e como preenchendo uma função comunicativa reconhecível e reconhecida, independentemente da sua extensão. Lembrando que para ser considerado texto o enunciado deve ter textualidade,passemos, agora, ao estudo particularizado de coesão e coerência, principais fatores quecontribuem para que se atinja tal objetivo.2.1 COESÃO Fávero (1999, p.10) assim define coesão: “A coesão, manifestada no nível microtextual,refere-se aos modos como os componentes do universo textual, isto é, as palavras que ouvimos ouvemos, estão ligados entre si dentro de uma seqüência.” Podemos dizer, portanto, que coesão é o nome com que designamos as estratégias deligação utilizadas num texto para torná-lo todo, ou seja, o uso de elementos capazes deestabelecer elos. Esses elos podem “amarrar” elementos mencionados anteriormente no texto,ocorrendo então o que os estudiosos chamam de anáfora, por exemplo: Fiz todo o dever, masminha amiga Carla não os fez (isto é, não fez o dever).
  14. 14. 13 Podem também “amarrar” elementos que serão ainda mencionados no texto,ocorrendo então a chamada catáfora, como no exemplo: Fui à feira e comprei todos os itensde que precisava, menos estes: cebola, alho e cheiro verde. A utilização eficiente desses elementos auxilia bastante na boa escritura de umaseqüência, mas não é só isso. Vejamos agora outro elemento responsável pela textualidade,capaz de ajudar na produção textual.2.2 COERÊNCIA Coerência diz respeito ao sentido do texto. A coerência [...], manisfestada em grande parte macrotextualmente, refere- se aos modos como os componentes do universo textual, isto é, os conceitos e as relações subjacentes ao texto de superfície, se unem numa configuração, de maneira reciprocamente acessível e relevante. Assim a coerência é o resultado de processos cognitivos operantes entre os usuários e não mero traço dos textos. (FÁVERO, 1999, p.10) Então, a seguinte seqüência: VENDE-SE Apartamento. 3 dorms. 2 sls. coz. Área serv. Brooklin. R$220.000. Tratar com o proprietário: (XX)7070-7070.constituirá texto para quem a entender como um classificado. Vários são os elementos responsáveis pela coerência. Unindo as informaçõesencontradas em FÁVERO (1993), KOCK e TRAVAGLIA (1990) e ARAÚJO (2002),podemos apontar:a- conhecimentos: lingüístico, de mundo, f- intencionalidade; partilhado, do mundo em que o texto g- aceitabilidade; se inscreve; h- informatividade;b- inferências; i- focalização;c- fatores pragmáticos; j- intertextualidade;d- fatores de contextualização; k- consistência;e- situacionalidade; l- relevância. Resta-nos, ainda, especificar que os textos organizam-se numa hierarquia de tipos desubtipos. Guimarães(2004, p.16) ensina que, se a intenção se volta fundamentalmente para as
  15. 15. 14estruturas internas do texto, fica estabelecida uma tipologia de acordo com a forma deestruturação, sua superestrutura, ou o mundo em que o texto se inscreve. É disso que trataremos a seguir.3 AS SUPERESTRUTURAS TEXTUAIS A noção de superestrutura, emprestada de Van Dijk,1 diz respeito às estruturas globaisque caracterizam alguns tipos de textos, independentemente de seu conteúdo. Dessa forma, relativamente ao aspecto estrutural, podemos inscrever os textos em:descritivos, narrativos e dissertativos. Essas superestruturas têm, como afirma Guimarães((2004, p.65), caráter convencional e são conhecidas e reconhecidas pelos falantes da língua,ou seja: “Uma superestrutura é um tipo de esquema abstrato que estabelece a ordem globaldo texto, e que se compõe de uma série de categorias, cujas possibilidades de combinação sebaseiam em regras convencionais.” A autora informa também que, embora haja sempre uma estrutura dominante, o textopode apresentar outras. Por exemplo, um texto predominantemente narrativo pode apresentartrechos descritivos. O predominantemente dissertativo pode trazer, em alguns momentos,trechos que caracterizam a narração e/ou a descrição. O importante para um estudante doCurso de Letras é saber identificar no todo trechos dessa ou daquela estrutura, cujascaracterísticas agora apresentamos.3.1 O TEXTO DESCRITIVO Descrever é caracterizar com detalhes objetos, locais, pessoas e situações,apresentando as características deles percebidas por meio dos cinco sentidos. Como é atravésdos sentidos que estabelecemos contato com o mundo à nossa volta, podemos dizer que essaestrutura textual é a mais primitiva, constituindo elementos vitais de nossa sensibilidade:“Visão, tato, audição, paladar, olfato são os sentidos com que percebemos as coisas domundo que se traduzem em formas, cores, texturas, cheiros, sonoridades a serem descobertas.(AMARAL; ANTONIO, 1991, p.19) Observemos agora as seguintes seqüências:1 VAN DIJCK, Strategies of Discourse Comprehension, Nova Iorque: Academic, 1983.
  16. 16. 15 Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam, as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se mexiam; as carroças d’água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios, e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho. (AZEVEDO, A. O mulato. São Paulo: Ática, 1997) Trem das Cores E a seda azul do papelA franja na encosta Que envolve a maçãCor de laranja As casas tão verde e rosaCapim rosa chá Que vão passando ao nos ver passarO mel desses olhos luz Os dois lados da janelaMel de cor ímpar E aquela num tom de azulO ouro ainda não bem verde da serra Quase inexistente, azul que não háA prata do trem Azul que é pura memória de algum lugarA lua e a estrela Teu cabelo pretoAnel de turquesa Explícito objetoOs átomos todos dançam Castanhos lábiosMadruga Ou pra ser exatoReluz neblina Lábios cor de açaíCrianças cor de romã E aqui, trem das coresEntram no vagão Sábios projetos:O oliva da nuvem chumbo Tocar na centralFicando E o céu de um azulPra trás da manhã Celeste celestial (http://64.233.187.104/:tremdascoresletra.caetanovelosoletrasdemusicas.lyrics.mus.br/) A primeira seqüência, como se pode observar, é um trecho do romance Omulato de Aluísio Azevedo. Podemos perceber com que precisão o autor descreve a cidadede São Luís do Maranhão. Trechos com sinestesias como: “pedras escaldavam, as vidraças eos lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações deprata polida,” favorecem não só a leitura, como também a percepção sensorial do texto. O mesmo acontece com a letra da música Trem das cores, de Caetano Veloso. Em: “Omel desses olhos luz/E a seda azul do papel/ Que envolve a maçã” temos a impressão de sentiro gosto tanto do mel, quanto da maçã; de ver o brilho dos olhos e de sentir a maciez do papelde seda. Um texto descritivo estará bem produzido, quando possibilitar essas sensações;quando o leitor, ao proceder à sua leitura, tiver a sensação de estar vendo, presenciando,sentindo o que se está descrevendo.
  17. 17. 16 Vejamos então, pormenorizadamente, o que compreende um texto descritivo.3.1.1 Características do texto descritivo Leia o seguinte fragmento da obra Iracema de José de Alencar: Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas. (ALENCAR, J. Iracema. São Paulo: Ática, 1990) Agora, atente para o seguinte: Iracema saiu do banho; o aljôfar dágua ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste O primeiro fragmento é descritivo e o segundo, narrativo. Como identificar adescrição? O texto descritivo é predominantemente figurativo, ou seja, construído com termosessencialmente concretos, evocando uma figura, um efeito de realidade: “Os textos figurativosproduzem um efeito de realidade e, por isso, representam o mundo, com seus seres, seusacontecimentos.” (PLATÃO; FIORIN, 1997, p. 89) No fragmento 1 temos, como exemplos de termos concretos: a morena virgem corriao sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. Opé grácil e nu, mal roçando, etc. Outra característica do texto descritivo é que ele não traz mudança de situação. Éestático. Representa o mundo num determinado momento. É recorte. Além disso, naquela instância em que se efetua a descrição, vários fatossimultâneos podem ser apresentados. Assim, Iracema, quando apreendida pelo narradorapresentava, simultaneamente, as seguintes características: era virgem, tinha lábios de mel;seus cabelos eram mais negros que a asa da graúna e mais longos que o talhe de palmeira; seusorriso era doce como o favo da jati; seu hálito era perfumado, era ainda mais rápida que aema, etc.
  18. 18. 17 Essas características co-ocorriam. Estavam todas presentes na mesma instância,podendo inclusive ser investidas no texto, como o exemplo abaixo mostra: Seu sorriso era doce como o favo da jati; seu hálito era perfumado, era ainda mais rápida que a ema; era virgem, tinha lábios de mel; seus cabelos eram mais negros que a asa da graúna e mais longos que o talhe de palmeira[...],isso porque não existe relação de anterioridade, nem de posterioridade no fragmento. Para que se estabeleça a comparação, retomemos o segundo fragmento: Iracema saiu do banho; o aljôfar dágua ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste. Esse é um fragmento narrativo. Existe nele uma relação de anterioridade eposterioridade: primeiro a índia saiu do banho, depois se pôs a repousar. A inversão dos fatosprejudicaria a seqüenciação do texto. Podemos perceber também, em ambos os textos, uma diferença no emprego dostempos verbais: no primeiro predomina o pretérito imperfeito e, no segundo, o pretéritoperfeito. Como a simultaneidade é a característica do texto descritivo, os tempos verbais maisempregados são o presente do indicativo e o pretérito imperfeito do indicativo. Quanto à organização, podemos afirmar que se deve elaborar o texto descritivoespacialmente, isto é, os elementos devem ser descritos de baixo para cima, da esquerda paradireita, de dentro para fora, etc, para que o leitor, possa, paulatinamente, ir construindo aimagem daquilo de que se está tratando. Agora, reúna todas as informações dadas anteriormente a respeito do texto descritivo eleia a seguinte poesia de Manoel Bandeira, observando nela os traços da descrição: Segunda canção do becoTeu corpo moreno Deve ter o gostoÉ da cor da praia. De fruta de praia.Deve ter o cheiro Deve ter o travo,Da areia da praia. Deve ter a cica Dos cajus da praia.Deve ter o cheiroQue tem ao mormaço Não sei, não sei, masA areia da praia. Uma coisa me diz Que o teu corpo magroTeu corpo moreno Nunca foi feliz.
  19. 19. 183.2 O TEXTO NARRATIVO De acordo com o Míni Houaiss (2001, p.364): “Narração: s.f. [é] exposição oral ouescrita de um fato.” Narrar é, portanto, representar um acontecimento ou uma série de acontecimentosreais ou fictícios num texto. Humberto Eco (1985, p.21), no Pós-Escrito a O Nome da Rosa, ensina: [...] para contar é necessário primeiramente construir um mundo, o mais mobiliado possível, até os últimos pormenores. Constrói-se um rio, duas margens, e na margem esquerda coloca-se um pescador, e se esse pescador possui um temperamento agressivo e uma folha penal pouco limpa, pronto: pode-se começar a escrever, traduzindo em palavras o que não pode deixar de acontecer.[...] Essa citação de Eco, mesmo que indiretamente, permite-nos depreender que são cincoos elementos da narração: narrador, personagens, ações, tempo e espaço. Leia, agora, o texto a seguir, de Marina Colassanti: Nunca descuidando do dever Jamais permitiria que seu marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada. Debruçada sobre a tábua, com o olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos, afiando o vinco das calças. E a poder de ferro e goma, envolta em vapores, alcançava o ponto máximo de sua arte ao arrancar dos colarinhos liso brilho de celulóide. Impecável, transitava o marido pelo tempo. Que, embora respeitando ternos e camisas, começou subrepticiamente a marcar seu avanço na pele e no rosto. Um dia notou a mulher um leve afrouxar-se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos. Mas foi só muitos meses mais tarde que a presença de duas fortes pregas descendo dos lados do nariz tornou-se inegável. Sem dizer nada, ela esperou a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro. Observemos que, no texto acima, vislumbramos os seguintes elementos da narração: a- narrador onisciente: de 3ª pessoa: “Jamais permitiria que seu marido fosse para personagens: b- protagonista: a esposa: “ Não dissessem os colegas que era esposa descuidada......” c- antagonista: o marido: “Impecável transitava o marido pelo tempo.” d- ações: “Debruçada sobre a tábua [...] dava caça às dobras [...]” e- tempo: “Jamais permitiria [...]” “Um dia notou a mulher [...]” “[...]muitos meses mais tarde [...]”
  20. 20. 19 f- espaço: Na sua casa, em uma determinada cidade. Além desses elementos, a narração apresenta, diferentemente da descrição,transformação.3.2.1 Características do texto narrativo No texto: “Nunca descuidando do dever”, podemos perceber, dentre outras, asseguintes: a- as camisas amassadas ficavam muito bem passadas: “[...] alcançava o ponto máximo de sua arte ao arrancar dos colarinhos liso brilho de celulóide.” b- o marido foi adquirindo rugas no rosto: “[...]transitava o marido pelo tempo. Que, embora respeitando ternos e camisas, começou subrepticiamente a marcar seu avanço na pele e no rosto.” Mas a transformação mais significativa é a que não está explicitada, ou seja, aoperceber o rosto enrugado do marido, a esposa, como um autômato, tenciona passá-lo:“Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou umpaninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro.” Além disso, tanto quanto o texto descritivo, o narrativo é figurativo. Lembremo-nos deque esse tipo de texto é construído com palavras concretas cuja função é representar o mundo.Por meio das figuras empregadas podemos depreender o real sentido do texto. “No caso deNunca descuidando do dever, figuras como: [...] Jamais permitiria que seu marido fosse parao trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada.Debruçada sobre a tábua, com o olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas[...]” Permitindo-nos depreender, sublinearmente, uma crítica às mulheres que, nas décadasde 60 e 70, viviam apenas e tão somente para o lar, realizando robotizadamente as atividadesdomésticas. Além da figurativização, na narração, a ordenação é temporal. O texto deve ter umaseqüenciação para que o leitor possa acompanhar o desenrolar das ações. Assim, vejamos: Jamais permitiria que seu marido fosse para o trabalho com a roupa mal passada, não dissessem os colegas que era esposa descuidada. Debruçada sobre a tábua, com o olho vigilante, dava caça às dobras, desfazia pregas, aplainando punhos e peitos [...]Um dia notou a mulher um leve afrouxar- se das pálpebras. Semanas depois percebeu que, no sorriso, franziam-se fundos os cantos dos olhos. [...] Mas foi só muitos meses mais tarde que a presença de duas fortes pregas descendo dos lados do nariz tornou-se inegável. Sem dizer nada, ela esperou
  21. 21. 20 a noite. Tendo finalmente certeza de que o homem dormia o mais pesado dos sonos, pegou um paninho úmido e, silenciosa, ligou o ferro. A ordenação temporal nesse texto ajuda o leitor a ir acompanhando as ações da esposaaté o inesperado desfecho e, diferentemente do texto descritivo, a disposição dessas ações nãopode ser alterada. Como a ordenação temporal é de extrema relevância no texto narrativo, os temposverbais básicos são os do subsistema do passado: pretérito perfeito, mais-que-perfeito eimperfeito.2 Para finalizar, leia atentamente o texto abaixo, buscando visualizar nele os elementosda narração já discutidos: Desta água não beberás — Por que Demétrio não se casa? Era a indagação geral! Demétrio namorava, noivava, não casava. Sete dias antes do casamento, olha aí Demétrio fugindo. As versões eram múltiplas. A noiva é que o despedira. Tiveram uma briga feia. Gênios incompatíveis. Mal secreto. Intrigas. Demétrio continuava a namorar, noivar e não casar. Não lhe faltavam noivas, pois era agradável, tinha status. Quanto mais se desmanchavam seus projetos de casamento, mais apareciam mulheres dispostas ao desafio, exclamando: — A mim ele não deixa na porta do Mosteiro de São Bento. Deixava. E quanto mais deixava, mais seu prestígio crescia. Concluiu-se que era sua maneira de afirmar-se. Então Livaniuska decidiu enfrentá-lo. Noivou com ele e, uma semana antes do casamento, deu-lhe o fora solene. Demétrio quis reagir, explicou à repórter social que ele é que tomara a ìniciativa, mas a mentira foi patente. Livaniuska foi contratada como atriz por uma emissora de TV e ficou célebre. Daí por diante ela repetiu a carreira de Demétrio, noivando e desmanchando com inúmeros cavalheiros. No fim de cinco anos, Livaniuska e Demétrio casaram-se para sempre, como era fácil de prever mas ninguém previu. Carlos Drummond de Andrade3.3 O TEXTO DISSERTATIVO No Míni Houaiss (2001, p.174), encontramos: “Dissertação: s.f. 1. Exposição oral ouescrita; 2. Monografia. Ensaio [...]” Mas será que, como superestrutura textual, dissertação é só isso? Vamos ver o quedizem alguns estudiosos do assunto. Magalhães (s/d., p.7) assevera que a dissertação ocorre no plano das idéias, doconhecimento, das abstrações. Trata-se de um trabalho reflexivo que consiste, de maneirageral, em organizar as idéias numa linha de raciocínio. Assim, ensina o autor, “todas as vezes2 Geralmente, mas não exclusivamente. Pode-se usar, por exemplo, o presente do indicativo, com valoratemporal, instaurando proximidade e verossimilhança ao texto.
  22. 22. 21em que nos valemos da linguagem verbal para expor, defender ou contestar idéias, estaremosutilizando o chamado discurso dissertativo.” Platão e Fiorin (1997, p.252) afirmam que “dissertação é o tipo de texto que analisainterpreta, explica e avalia os dados da realidade” e relacionam algumas de suascaracterísticas, revisadas a seguir.3.3.1 Características da dissertação A dissertação apresenta as características: a- é um texto temático, ou seja, discute um tema, operando, predominantemente, com termos abstratos; b- mostra mudança de situação, tanto quanto a narração; c- sua ordenação é lógica; d- o tempo básico empregado na dissertação é o presente do indicativo com valor atemporal, embora se admita o uso do pretérito perfeito e do futuro do presente.3 Importa esclarecer que há autores que inscrevem os textos dissertativos em dois tipos:expositivos e argumentativos.3.3.2 Dissertação expositiva É aquela cujo propósito é discorrer sobre o assunto num sentido meramenteinformativo. Assim, pode-se dissertar sobre a pena de morte, a juventude brasileira, etc. semque haja posicionamento sobre o tema. A importância de Música Popular Brasileira A importância da Música Popular Brasileira no cenário de nossa cultura é inegável. Pode-se constatar que a MPB, além de sua relevância como manifestação estética tradutora de nossas múltiplas identidades culturais, apresenta-se como uma das mais poderosas formas de preservação da memória coletiva e como um espaço social privilegiado para as leituras e interpretações do Brasil. (Dicionário Cravo Albim de MPB) Disponível em: http://www.dicionariompb.com.br/default.asp)3.3.3 Dissertação Argumentativa Diferentemente da anterior, na dissertação argumentativa revelam-se reflexões sobre oassunto, a fim de persuadir o receptor que, acompanhando a linha de raciocínio do que é3 Também aqui se trata de tempos básicos, mas não exclusivos.
  23. 23. 22exposto, verifica se o raciocínio verbalizado é correto e, nesse sentido, passível ou não deaceitação. Uma escolha contra a mulher O aborto é freqüentemente apresentado como um problema de "direito das mulheres". É visto como algo desejável para as mulheres, e como um benefício ao qual elas deveriam ter tanto acesso quanto possível. Na verdade, ser "pró-vida" é visto como sendo "contra os direitos da mulher". Se você às vezes pensa desta forma, examine os fatos apresentados aqui. Verá que, na verdade, o aborto prejudica a mulher, ignora os seus direitos, e as abusa e degrada. Qualquer um que se preocupa com a mulher fará bem em conhecer estes fatos. Estudos de mulheres que fizeram aborto, (veja, por exemplo, o livro do Dr. David Reardon, Aborted Women, Silent No More), mostram que o aborto não é uma questão de dar à mulher uma "escolha". É, tragicamente, uma situação em que as mulheres sentiram que não tinham NENHUMA ESCOLHA, sentiram que ninguém se importava com elas e com seu bebê, dando-lhes alternativa alguma a não ser o aborto. A mulher sente-se rejeitada, confusa, com medo, sozinha, incapaz de lidar com a gravidez - e, no meio disto tudo, a sociedade diz-lhe, "Nós eliminaremos o seu problema eliminando o seu bebê. Faça um aborto. É seguro, fácil, e uma solução legal". O fato é que embora o aborto seja legal (nos Estados Unidos), ele NÃO é seguro e fácil, nem respeita a mulher.[...] http://www.comciencia.br/especial/drogas/drogas01.htm Podemos perceber no texto acima que, por exemplo, no trecho: na verdade, o abortoprejudica a mulher, ignora os seus direitos, e as abusa e degrada está expressa a opiniãodo autor e, para que ela seja mesmo aceita, passa ele a relacionar os motivos que o fazempensar assim. Em ambos os tipos de dissertação, importa atentar para sua organização, como veremosa seguir.3.3.4 Organização do texto dissertativo Como esse tipo de texto deve apresentar uma organização lógica, deve-se apresentar combastante clareza: a- o assunto; b- a delimitação do assunto; c- o objetivo; d- o tópico-frasal; e- o desenvolvimento; f- a conclusão.
  24. 24. 23 Como já falamos anteriormente, a dissertação é um texto temático, portanto, deve-sediscutir um tema. Para que o autor do texto não se perca em informações redundantes oudesnecessárias, é importante que proceda à delimitação dele. Por exemplo: dissertação, com otema namoro. Terá as possíveis delimitações do tema: namoro na adolescência, namoro namelhor idade e namoro na escola. Escolhida uma delimitação, deve-se propor um objetivo para que não ocorra fuga aotema. Se resolvêssemos escrever sobre namoro na escola, poderíamos estabelecer comoobjetivo, por exemplo: mostrar ao leitor que, como a escola é o espaço onde os jovens mais seencontram e se relacionam, é normal e saudável que ali comecem sua vida afetiva. O tópico frasal é aquele sobre o qual incide a essência da informação. Na delimitaçãoacima, poderíamos estabelecer um possível tópico-frasal: É na adolescência que se começa a conhecer o mundo, a fazer amigos, a descobrir as verdades e a escola é um dos ambientes mais propícios para isso. Então, nada mais comum que ali ocorram flertes, o ficar e até mesmo namoros nesse ambiente. Tendo em mente tanto a delimitação, quanto os objetivos e o tópico frasal, cabe aoautor, então, elaborar seu texto dissertativo. Se o seu desejo for produzir um textoargumentativo, esses argumentos podem ser apresentados de diferentes maneiras. SeguindoPlatão e Fiorin (1997, p. 286-288), relacionamos três deles: a- argumento de autoridade: citam-se autores ou pessoas de prestígio que tenham reconhecido domínio sobre aquele saber. No caso da delimitação acima (Namoro na escola), poderíamos citar, por exemplo, o psicanalista Içami Tiba, autor de várias obras que tratam da adolescência. b- argumento baseado no consenso: nesse caso, valer-nos-íamos de opiniões já aceitas pela maioria da população. c- argumento baseado em provas concretas: poderíamos, no caso de nossa proposta, fazer uso, por exemplo, de pesquisas que comprovassem que a maioria dos jovens namora na escola e que tal fato tem auxiliado em seu desenvolvimento emocional. d- Para que possamos entender melhor, leiamos Magalhães (s/d., p.16,17) que assim exemplifica o texto dissertativo: Muitas normas, antes apenas do âmbito da Moral, passaram ao campo do Direito pelo fato de o legislador, num momento dado, julgar conveniente atribuir-lhes força coercitiva, impondo uma sanção para sua desobediência. Assim, por exemplo, no passado era altamente meritório o fato de o patrão socorrer seu empregado acidentado. Mas a desobediência a essa regra de moral não provocava qualquer sanção por parte do Estado. Este, entretanto, observando a conveniência de se impor ao patrão a obrigação de socorrer
  25. 25. 24 seu serviçal infortunado, criou a norma de Direito, impondo como obrigação jurídica aquilo que não passava de mero dever moral. Outro exemplo: no passado agia com humanidade o patrão que, antes de despedir seu empregado, lhe dava um prazo para procurar nova colocação, e ao romper o contrato de trabalho lhe oferecia uma indenização pelos anos de serviços prestados. Talvez isso constituísse um dever moral ditado pela preocupação de justiça. Mas o descumprimento de tal dever não provocava qualquer sanção por parte do Estado. Parecendo ao legislador conveniente transformar tal preceito de Moral em regra de Direito, impõe ao patrão o dever de dar aviso prévio e de prestar indenização ao empregado despedido. O descumprimento de tal obrigação, hoje, provoca uma sanção por parte do Estado. A regra de Moral transformou-se em regra de Direito. (RODRIGUES, S. Direito Civil. In: MAGALHÃES, R. Técnicas de Redação: a recepção e a produção de texto. São Paulo: do Brasil, s/d). Nesse texto temos, portanto: a- assunto: direito; b- delimitação: direito e moral; c- objetivo: mostrar que muitas normas morais transformaram-se em normas jurídicas por razão de conveniência social; d- tópico-frasal: “muitas normas, antes apenas do âmbito da moral, passaram ao campo do direito pelo fato de o legislador, num momento dado, julgar conveniente atribuir-lhes força coercitiva, impondo uma sanção para sua desobediência”. Desenvolvimento — argumentos baseados em provas concretas: a- O socorro patronal obrigatório ao empregado acidentado; b- A obrigação jurídica de dar aviso prévio e de prestar indenização ao empregado despedido. Conclusão: “A regra de Moral transformou-se em regra de Direito.” Além disso, podemos perceber que o texto dissertativo tem algumas características quelhes são peculiares. Vejamos quais são. Primeiramente, como pudemos perceber, trata-se de um texto temático, ou seja, onosso exemplo discute uma questão jurídica, operando com, predominantemente, termosabstratos: Muitas normas, antes apenas do âmbito da Moral, passaram ao campo do Direito pelo fato de o legislador, num momento dado, julgar conveniente atribuir-lhes força coercitiva, impondo uma sanção para sua desobediência. Assim, por exemplo, no passado era altamente meritório o fato de o patrão socorrer seu empregado acidentado. [...] Mostra, tanto quanto a narração, mudança de situação: no caso do texto acima, o autoraponta para fatos que passaram de atitudes morais para deveres impostos pelo Direito: [...] Este, entretanto, observando a conveniência de se impor ao patrão a obrigação de socorrer seu serviçal infortunado, criou a norma de Direito, impondo como obrigação jurídica aquilo que não passava de mero dever moral. [...]
  26. 26. 25 [...] O descumprimento de tal obrigação, hoje, provoca uma sanção por parte do Estado. A regra de Moral transformou-se em regra de Direito. Sua ordenação é lógica. Como já apontado, há no texto um tópico frasal, odesenvolvimento e a conclusão. Os tempos verbais empregados nessa dissertação são o pretérito perfeito e imperfeitodo indicativo, quando o autor remete o leitor ao passado, e o presente, quando aponta para oresultado da ação pretérita: [...] Outro exemplo: no passado agia com humanidade o patrão que, antes de despedir seu empregado, lhe dava um prazo para procurar nova colocação, e ao romper o contrato de trabalho lhe oferecia uma indenização pelos anos de serviços prestados. Talvez isso constituísse um dever moral ditado pela preocupação de justiça. Mas o descumprimento de tal dever não provocava qualquer sanção por parte do Estado. Parecendo ao legislador conveniente transformar tal preceito de Moral em regra de Direito, impõe ao patrão o dever de dar aviso prévio e de prestar indenização ao empregado despedido. O descumprimento de tal obrigação, hoje, provoca uma sanção por parte do Estado. A regra de Moral transformou-se em regra de Direito. Para finalizar, leia atentamente o texto abaixo, buscando visualizar nele os elementosda dissertação já discutidos: Uso de álcool na gravidez traz riscos ao bebê A ingestão de álcool durante a gravidez pode acarretar uma série de problemas na formação do feto. A manifestação mais severa é a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) que causa desde malformações craniofaciais, retardamento no crescimento até a incapacidade de desenvolvimento mental. O fato de um grande número de mulheres beberem socialmente e a maioria das gestações não serem planejadas aumentam o risco de ocorrer a SAF. "Pode haver um desconhecimento do estado gestacional nos primeiros meses. Isso implica muitas vezes a exposição do embrião ao etanol, principalmente no período mais crítico e sensível da gestação", explica Cristiana Corrêa, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Geralmente, a incidência da SAF oscila entre 0,4 a 3,1 casos por 1000 nascimentos. Entre os filhos de mães alcoólatras, estima-se que 30% a 40% dos recém nascidos venham a apresentar a doença. Ainda não foi definida a quantidade mínima de álcool ingerida capaz de afetar o feto. As maiores conseqüências da SAF são: restrição no crescimento, com decréscimo inferior a 10% no peso e no comprimento; envolvimento do Sistema Nervoso Central, apresentando, entre outros problemas, disfunção comportamental, hiperatividade, dificuldade de adaptação social, e anomalias faciais. A prevenção da SAF, na opinião de Corrêa, só será possível através de um sistema articulado de intervenção terapêutica na mãe alcoólatra, programas educacionais nas comunidades, identificação precoce da doença e acompanhamento das crianças afetadas pela síndrome. Liliane Castelões http://www.comciencia.br/especial/drogas/drogas01.htm .
  27. 27. 264 A CONSTITUIÇÃO DO TEXTO4.1 RELEMBRANDO A NOÇÃO DE TEXTO Como vimos, texto, etimologicamente, quer dizer tecido, ou seja, trata-se de umatrama em que se deve enredar as palavras.4. 1.1 Texto e discurso A Lingüística do Discurso procura estudar os textos como “manifestações lingüísticasproduzidas por indivíduos concretos em situações concretas, sob determinadas condições deprodução” (KOCK, 1997, p.11), entendendo-os numa situação interacionista. Para Val (199, p.3), texto (escrito ou falado) é a “unidade lingüística comunicativabásica” utilizadas pelos falantes de uma língua para se comunicarem e será bemcompreendido quando comportar três aspectos fundamentais: o pragmático (atuaçãoinformacional e comunicativa), o semântico-conceitual (relacionado à compreensão, àcognição, portanto, da coerência) e o formal (de sua organização, ou seja, de sua coesão). Assim, texto pode ser compreendido como uma unidade de sentido que depende deuma série de fatores, ligados tanto à coerência quanto à coesão. Por outro lado, discurso é mais abrangente e, de acordo com a Análise do Discurso deLinha Francesa, ele é entendido como o espaço em que emergem as significações(BRANDÃO, s/d, p. 35). Mas, o que comporta essa significação? Primeiramente, temos deentender que o discurso de que tratamos se faz na e pela língua, ou seja, as significações serãoobservadas em sua formação discursiva, somada às suas condições de produção, norteadaspela sua formação ideológica. Dessa forma, a noção de discurso pode ser vista como múltipla e analisá-lo é, deacordo com Foucault (1986, p.187), “fazer desaparecer e reaparecer as contradições é mostraro jogo que jogam entre si; é manifestar como pode exprimi-las, dar-lhes corpo, ou emprestar-lhes uma fugidia aparência.” Isso quer dizer que analisar um discurso é buscar esseselementos de dispersão, os diversos discursos que comporta, os textos que com ele dialogam. E há várias maneiras de os textos conversarem entre si e com os discursos, comoveremos a seguir.
  28. 28. 274.1.2 A Intertextualidade De acordo com Kristeva (1974, p.64) “todo texto se constrói como um mosaico decitações. Todo texto é absorção e transformação de um outro texto,” ou seja, como falouBakhtin (1922) nenhum discurso é neutro, é sempre formado por outros que lhe foramanteriores no tempo, pois produzido por um sujeito descentrado, assumindo diferentes vozessociais, que o tornam um sujeito histórico e ideológico. Fiorin (2003, p.32) ensina: “A intertextualidade é o processo de incorporação de umtexto em outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-lo.” Brandão (s/d., p.76) aponta dois tipos de intertextualidade: uma interna, na qual um“discurso se define por sua relação com o discurso do mesmo campo, podendo divergir ouapresentar enunciados semanticamente vizinhos aos que autoriza sua formação discursiva”; euma externa, “na qual o discurso define uma certa relação com outros campos”. Kock (1986, p.39) também aponta a possibilidade de se observar a intertextualidade deduas maneiras: em sentido amplo, que ocorre implicitamente, ou seja, a identificação dostextos em diálogo é conseguida por meio de atenta observação por parte do leitor, porque onovo texto mantém alguns aspectos, tanto formais quanto de sentido, dos originais; emsentido estrito, que pode aparecer tanto implicitamente – por meio da divulgação de suaideologia e retórica - quanto explicitamente – por meio da revelação direta do texto do qualse origina. Paulino, Walty e Cury (1997) indicam oito possibilidades de a intertextualidade serevelar, isto é, por meio de epígrafe, de citação, de referência, de alusão, da paráfrase, daparódia, do pastiche e da tradução. Esses autores entendem a sociedade como uma granderede intertextual e dão ao espaço cultural um lugar de relevância, pois cada produção dialoganecessariamente com outras. Fiorin (2003) e Sant’Anna (1988) apontam diferentes maneiras de a intertextualidadeocorrer. O primeiro identifica três processos: a citação, a alusão e a estilização; o segundo,quatro: a paródia, a paráfrase, a estilização e a apropriação. Como é a proposta de Sant’Anna que mais atente aos nossos propósitos, estudá-la- osparticularizadamente a seguir.4. 1.2.1 A Paródia Fávero (2003, p. 49) vai à etimologia para conceituar o termo: “Paródia significa cantoparalelo (de para = ao lado de e ode = canto), incorporando a idéia de uma canção, cantada aolado de outra, como uma espécie de contracanto.”
  29. 29. 28 Sant’Anna (1988, p.31) completa, asseverando que ela tem uma função cartática,funcionando como contraponto com os momentos de muita dramacidade. Além disso, o textoparidístico faz uma re-apresentação “daquilo que havia sido recalcado. Uma nova e diferentemaneira de ler o convencional. É um processo de liberação do discurso. Uma tomada deconsciência crítica.” Parodia-se um texto para negá-lo, já que a linguagem nesse tipo de produção é dupla,as vozes que dialogam nos dois discursos se cruzam tanto horizontal (produtor x receptor),quanto verticalmente (texto x contexto) (FÁVERO, 1999, p.53). Temos em nossa literatura muitos exemplos de paródia. Jô Soares, na época decassação do então presidente Collor de Melo, utilizando-se da mesma estrutura da nossaCanção do Exílio, escreveu: Canção do exílio às avessasMinha Dinda tem cascatas Tudo ali foi transplantado,Onde canta o curió Nem parece natural.Não permita Deus que eu tenha Olho a jabuticabeiraDe voltar pra Maceió. dos tempos da minha avó.Minha Dinda tem coqueiros Não permita Deus que eu tenhaDa Ilha de Marajó De voltar pra Maceió.As aves, aqui, gorjeiamNão fazem cocoricó. Até os lagos das carpas São de água mineral.O meu céu tem mais estrelas Da janela do meu quartoMinha várzea tem mais cores. Redescubro o Pantanal.Este bosque reduzido Também adoro as palmeirasdeve ter custado horrores. Onde canta o curió.E depois de tanta planta, Não permita Deus que eu tenhaOrquídea, fruta e cipó, De voltar pra Maceió.Não permita Deus que eu tenhaDe voltar pra Maceió. Finalmente, aqui na Dinda, (...) Sou tratado a pão-de-ló.No meio daquelas plantas Só faltava envolver tudoEu jamais me sinto só. Numa nuvem de ouro em pó.Não permita Deus que eu tenha E depois de ser cuidadoDe voltar pra Maceió. Pelo PC, com xodó,Pois no meu jardim tem lagos Não permita Deus que eu tenhaOnde canta o curió De acabar no xilindróE as aves que lá gorjeiamSão tão pobres que dão dó. Minha Dinda tem primoresDe floresta tropical.
  30. 30. 29 Recordemo-nos do original de Gonçalves Dias: Canção do exílio Gonçalves Dias. Coimbra, julho de 1843, aos 19 anosMinha terra tem palmeiras, Minha terra tem primores,Onde canta o sabiá; Que tais não encontro eu cá;As aves, que aqui gorjeiam, Em cismar – sozinho, à noite –Não gorjeiam como lá. Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras,Nosso céu tem mais estrelas, Onde canta o sabiá.Nossas várzeas têm mais flores,Nossos bosques têm mais vida, Não permita Deus que eu morra,Nossa vida mais amores. Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primoresEm cismar, sozinho, à noite, Que não encontro por cá;Mais prazer encontro eu lá; Sem quinda aviste as palmeiras,Minha terra tem palmeiras, Onde canta o sabiáOnde canta o sabiá. O dialogismo entre os textos é inquestionável, revelando também a característicaprimordial da paródia: temos aqui cantos paralelos aos de Gonçalves Dias, mas ao mesmotempo em que fazem com que nossa memória textual retome o original, seu lado humorísticofaz com que eles nunca se encontrem, como imagens invertidas num espelho (SANT’ANNA,1988). Num texto acadêmico, podemos fazer uso da paródia, quando, especialmente, partindode um texto original, inauguramos um outro paradigma, uma evolução do primeiro, numaoposição, numa crítica tecida com humor e ironia, expondo sua contra-ideologia. Porexemplo: Salários têm melhores reajustes em 10 anos Balanço divulgado pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos) mostra que, em 2005, 72% dos reajustes salariais foram maiores do que a inflação, melhor desempenho já constatado. (adaptado da página: www.pt.org.br) Eles conseguem fazer com que seus salários tenham melhores reajustes em 10 anos. Balanço divulgado pelo Dieese (Departamento de Infâmias, Enrolação e Embute SemEscrúpulos) mostra que, em 2005, 72% dos reajustes salariais dos políticos foram maiores doque a inflação, maior roubalheira e sem-vergonhice já constatada. Como se pôde perceber, embora os dois textos mantenham um diálogo entre si, aparódia subverte o sentido do primeiro, retoma-o para negá-lo, para ironizá-lo, caminhandoao seu lado como se fosse sua imagem invertida. Diferente é a paráfrase, como veremos aseguir.
  31. 31. 304.1.2.2 A Paráfrase O dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa (2001, p. 2127) traz as seguintesconceituações para termo: Paráfrase: (1)sf. interpretação ou tradução em que o autor procura seguir mais o sentido do texto que sua letra: metáfrase; (2) interpretação, explicação ou nova apresentação de um texto que visa torná-lo mais inteligível ou que sugere novo enfoque para o seu sentido. [...] Sant’Anna (1988, p. 17) afirma que o termo para-phrasis (que já no grego significavacontinuidade ou repetição de uma sentença) pode ser considerada, grosso modo, umareafirmação, por meio de outras palavras, do mesmo sentido de uma obra escrita, ou seja,pode-se considerar a paráfrase a tradução ou a transcrição de um texto primitivo. Nesse sentido, Derrida (2002, p. 62) ensina que o tradutor deve resgatar, absolver,resolver o texto original e quando “cria” é como um pintor que “copia” seu“modelo”Benjamin (1996, p. 108) disse que “a natureza engendra semelhanças,” bastandopara entender isso, pensar-se na mímica. Portanto, diferentemente da paródia, a paráfrase é a frase paralela, ou seja, umareleitura do original. Se na primeira temos a ruptura, a crítica sutil, na segunda ficamos àfrente de uma releitura, de uma reprodução. Para que possamos compreendê-la melhor, tomemos como exemplo a mesma Cançãodo Exílio e vamos ver algumas paráfrases elaboradas a partir dela: a) Canção do Exílio (Casimiro de Abreu)Se eu tenho de morrer na flor dos anos E ver se apanho a borboleta branca,Meu Deus! não seja já; Que voa no vergel!Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,Cantar o sabiá! Quero sentar-me à beira do riachoDas tardes ao cair,Dá-me os sítios gentis onde eu brincava E sozinho cismando no crepúsculoLá na quadra infantil; Os sonhos do porvir!Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,O céu do meu Brasil! Se eu tenho de morrer na flor dos anos, Meu Deus! não seja já;Se eu tenho de morrer na flor dos anos Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,Meu Deus! não seja já! A voz do sabiá!Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,Cantar o sabiá! Quero morrer cercado dos perfumes Dum clima tropical,Quero ver esse céu da minha terra E sentir, expirando, as harmoniasTão lindo e tão azul! Do meu berço natal!E a nuvem cor-de-rosa que passavaCorrendo lá do sul! As cachoeiras chorarão sentidas Porque cedo morri,Quero dormir à sombra dos coqueiros, E eu sonho no sepulcro os meus amoresAs folhas por dossel; Na terra onde nasci!
  32. 32. 33 Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,Se eu tenho de morrer na flor dos anos, Cantar o sabiáMeu Deus! não seja já; c- Canção do Exílio b- Canção do Exílio Não permita Deus que eu morraMinha terra não tem palmeiras Sem que volte pra São PauloMinha terra não tem palmeiras... Sem que veja a Rua 15E em vez de um mero sabiá, E o progresso de São PauloCantam aves invisíveisNas palmeiras que não há. Mário de Andrade Mário Quintana André (1988, p.111) assevera que muitas são as formas como utilizamos a paráfraseno texto acadêmico: “Assim, podem ser produzidos diversos tipos de textos acadêmicos,como fichamentos, resumos e resenhas de textos, como veremos a seguir.”4.1.2. 3 A Estilização A palavra estilização deriva de estilo que, de acordo com HOUAISS 2001, p. 1254)significa “o modo pelo qual um indivíduo usa os recursos da língua para expressar,verbalmente ou por escrito, pensamentos, sentimentos, ou para fazer declarações,pronunciamentos, etc.” Então, Sant’Anna (1988) define estilização, uma forma de tomar aquele estilo deoutrem, estabelecendo um desvio tolerável, produzindo um meio do caminho entre a paródia ea paráfrase. Para Fiorin (2003), A estilização é a reprodução do conjunto dos procedimentos do “discurso de outrem”, isto é, do estilo de outrem. Estilos devem ser entendidos aqui como o conjunto das recorrências formais tanto no plano da expressão quanto no plano do conteúdo (manifestado, é claro) que produzem um efeito de sentido de individualização (DENIS BERTRAND, 1985, p.412) Esclarece ainda Fiorin, que a estilização pode ser polêmica ou contratual. Entendemos que estilização, em sentido stritus, pode ser uma forma de alusão já queao citar, temos uma menção ao discurso de outrem, de maneira indireta, ou seja, por meio dautilização do estilo do texto de origem.
  33. 33. 33 Vamos ver agora, a estilização que Murilo Mendes elaborou a partir da Canção deExílio de Gonçalves Dias:Canção do ExílioMinha terra tem macieiras das Califórniaonde cantam gaturamos de Veneza.Os poetas da minha terrasão pretos que vivem em torres de ametista,os sargentos do exército são monistas, cubistas,os filósofos são polacos vendendo a prestações.A gente não pode dormircom os oradores e os pernilongos.Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.Eu morro sufocado em terra estrangeira.Nossas flores são mais bonitasnossas frutas mais gostosasmas custam cem mil réis a dúzia.Ai quem me dera chupar uma carambola de verdadee ouvir um sabiá com certidão de idade! Que elementos no texto acima nos indicam tratar-se de uma estilização ? Ao aludir aotexto de Gonçalves Dias, o autor manteve, em vários momentos, a mesma construção sintáticado texto de origem. Por exemplo: Sujeito + Verbo Transitivo Direto + Objeto Direto (Oração Principal): − Minha terra tem palmeiras − Minha terra tem macieiras da Califórnia. Oração Subordinada Adjetiva: − Onde canta o sabiá − Onde cantam gaturamos de Veneza. Além disso, é mantido o presente do indicativo e, quanto ao léxico, observamos que o texto de Murilo Mendes insere o cotidiano no esquema da nostalgia e o efeito poético de distanciamento do modelo que obtém, não elide, contudo, a reverência - irônica é verdade - à matriz da saudade nacional, tornando- se, ao mesmo tempo, polêmico e contratual.4.1.2.4. A Apropriação Sant’Anna (1988) ensina que essa forma de intertexto é bastante recente na críticaliterária e chegou à literatura por meio das artes plásticas, especialmente pelas experiênciasdadaístas. Também conhecida como Assemplage (reunião, agrupamento), é muito próxima dacolagem, ou seja, trata-se da reunião de materiais diversos para a composição de algo.
  34. 34. 34 Embora recente seu estudo, essa técnica é, de acordo com o autor, antiqüíssima, poisusa de uma artifício muito conhecido na elaboração artística: o deslocamento que, por meiodo desvio, provoca um estranhamento. A apropriação pode ser de dois tipos: − de primeiro grau: quando é o próprio objeto que entra em cena; − de segundo grau: quando ele é representado, traduzido para um outro código. O chargista e humorista Caulus fez o sabiá voar dos versos saudosistas para a denúnciaecológica, no grafismo leve e tocante do exílio de sua própria palmeira: www.comcienci0a.br/carta/migracoes. Ou seja, o artista apropriou-se do original e o transpôs para outro código, fazendosurgir, como disse Maserani (1995, p.94) um novo texto. Nesse sentido, podemos dizer que,ao fazer uso da apropriação, “o artista está querendo desarrumar, inverter, interromper anormalidade cotidiana e chamar a atenção para alguma coisa. (SANT’ANNa, 1988. p.45) José Paulo Paes, no melhor estilo do sintetismo anti-discursivo das grandesvanguardas modernistas, fez o resumo da poesia, despojando-a de acessórios: Lá ? Ah ! Sabiá... Papá... Maná... Sofá... Sinhá...
  35. 35. 35 Cá ? Bah ! Estudando os quatro elementos revistos acima, Sant’Anna uniu-os em dois conjuntos,chegando à seguinte co-relação. Paráfrase Paródia Estilização Apropriação (Conjunto das similaridades) (Conjunto das diferenças) Agora, veremos como esses elementos interagem na construção do texto acadêmico.5 O TEXTO ACADÊMICO Os textos produzidos no mundo acadêmicos podem ser feitos ora por meio dasimilaridade, ora da diferença. Veremos como se comportam e como produzir: o fichamento,o resumo e a resenha.5.1 O FICHAMENTO Para que fichemos qualquer obra, é necessário, antes de tudo, uma leitura atentadaquilo que se deseja fichar. Ruiz (1980, p.70) aconselha: Não basta ir às aulas para garantir pleno êxito nos estudos. É preciso ler e, principalmente, ler bem. Quem não sabe ler, não saberá resumir, não saberá tomar apontamentos e, finalmente, não saberá estudar. Então para que façamos um bom fichamento, é preciso seguir algumas etapas: a- ler atentamente uma primeira vez o texto na íntegra, grifando as palavras desconhecidas e as procurando no dicionário; b- ler uma segunda vez, munidos com lápis, para sublinhar os trechos mais importantes. Andrade e Henriques (1992) informam que é importante sublinhar um texto, para: a- assimilá-lo melhor; b- memorizá-lo; c- preparar uma revisão rápida do assunto; d- aplicar em citações; e- resumir, esquematizar ou fichar.
  36. 36. 36 De acordo com esses autores, a técnica de sublinhar compreende, depois das leiturassugeridas, a- identificação da idéia-núcleo de cada parágrafo; b- indicação com uma linha vertical colocada à margem, nos tópicos mais importantes; c- colocação de um ponto de interrogação à margem do texto, para indicar casos de discordância e as passagens obscuras; d- leitura do que foi sublinhado para ver se há sentido; e- reconstrução do texto, tomando os trechos sublinhados como base. Os autores também recomendam que há de se sublinhar o estritamente necessário,evitando-se argumentações, exemplificações, citações etc. Depois desse primeiro passo, procede-se, então, ao fichamento. Hoje, com a facilidadedo computador, podemos utilizar uma pasta especialmente aberta para salvar este tipo dedocumento. Quem não dispõe desse recurso, deve usar fichas, vendidas em papelaria em trêsformatos: 7,5 x 12,5; 10,5 x 15,5 e 12,5 x 20,5. A de tamanho médio, no nosso ponto devista, é a ideal, porque cabe numa caixa de sapatos, por exemplo, se a quisermos arquivar. Devemos utilizar uma ficha (ou uma página de computador) para cada tópico ouassunto, cuidadosamente anotados. Deve-se também evitar escrever no verso das fichas, poruma questão de praticidade. A estrutura da ficha deve ser a seguinte: a- cabeçalho, com a identificação do assunto (título geral, título específico, número di título, etc) b- indicação da fonte de onde se extrai o fichamento, de acordo com as normas da ABNT. c- corpo da ficha, compreendendo anotações ou comentários.Exemplo:Título geral (da obra) Título específico (do capítulo) Nº(da ficha)Fonte bibliográfica: (de acordo com a ABNT)Corpo: (ASSUNTO)
  37. 37. 37 De acordo com os propósitos, as fichas podem ser: a- Bibliográfica: a que contém, além da bibliografia, um pequeno comentário da obra, ou de parte da obra. Exemplo:A inter-ação pela linguagem Introdução: N° 1.0 As diferentes concepções de linguagemKOCK, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem – São Paulo: Contexto, 1997 No capítulo introdutório desta obra, a autora discorre a respeito das várias concepções delinguagem, apondo a Lingüística do Sistema com a Lingüística do Discurso. b- Ficha de citação: a que contém a transcrição fiel de trechos ou frases da obra consultada. Normalmente, aquelas grifadas como as mais importantes na instância da leitura. Na citação deve-se observar: a- o uso de aspas; b- a referência da página de onde foi retirada a citação; c- o uso de (...) para marcar que o trecho foi recortado. Exemplo:A inter-ação pela linguagem Introdução: N° 1.0 As diferentes concepções de linguagemKOCK, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem – São Paulo: Contexto, 1997“A linguagem humana tem sido concebida, no curso da História, de maneiras bastantediversas, que podem ser sintetizadas em três principais: a- como representação (...) b- como instrumento (...) c- como forma (....)” (p.9)
  38. 38. 38 d- Ficha de resumo: é a que contém uma paráfrase do trecho lido. O resumo pode ser apresentado como esboço ou como sumário: − como esboço: apresenta a mesma estrutura do texto citado, com as palavras-chave, títulos e subtítulos, procedendo-se a um resumo dele. − Como sumário: topicalizam-se os itens julgados mais relevantes. Exemplos de fichas de resumo: a- como sumário:A inter-ação pela linguagem Introdução: N° 1.0 As diferentes concepções de linguagemKOCK, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem – São Paulo: Contexto, 1997Linguagem humana: História: concepção de três maneiras bastante diversas: a) como representação (...) b) como instrumento (...) c) como forma (....)” (p.9) b- como esboço:A inter-ação pela linguagem Introdução: N° 1.0 As diferentes concepções de linguagemKOCK, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem – São Paulo: Contexto, 1997A autora, nesta Introdução, apresenta, sintetizadas, três das principais maneiras como vemsendo concebida a linguagem humana, na História, ou seja, como representação, comoinstrumento e como forma. (p.9)
  39. 39. 39 De toda maneira, quando fazemos um fichamento, estamos fazendo uma pequenaparáfrase do texto.5.2 RESUMO Resumir é, de acordo com André (1988, p.105) reproduzir em poucas palavras o queo autor expressou amplamente. Trata-se de um treinamento essencial para quem desejacomunicar-se de forma organizada, pois quem resume um texto é levado a depreender o quelhe é essencial e o que lhe é secundário. Além disso, resumir um texto ensina a relacionar as idéias, entender com clareza oassunto, perceber o sentido próprio do figurado que os vocábulos podem adquirir numaprodução textual. Para se realizar um resumo, seguem-se os mesmos passos do fichamento, isto é, antesde tudo: a- ler atentamente uma primeira vez o texto na íntegra, grifando as palavras desconhecidas e as procurando no dicionário; b- ler uma segunda vez, munidos com lápis, para sublinhar os trechos mais importantes. E mais: c- ficar atento para as palavras de ligação que organização de forma lógica o raciocínio, tais como: assim sendo, além do mais, pois, em decorrência, etc. e os que modificam os enunciados: mais que tudo, não, nunca, etc. Quando temos de resumir um texto, um capítulo de um livro, por exemplo, o ideal éque o façamos por partes, ou seja, que elaboremos o resumo de cada capítulo. Quando setratar do resumo de um livro, o interessante seria que o procedêssemos por capítulos. O bom resumo deve, de acordo com André (1988, p. 106), “conservar os traços doestilo do texto original, como por exemplo, nível de linguagem, ironia, humor, vivacidade,etc”. Por outro lado, não devemos opinar ou criticar: o procedimento é de resumo e não deresenha, não de interpretação. Quanto à extensão, normalmente essa é estabelecida por quem o faz, ou por quem osolicita, dependendo dos objetivos visados, mas normalmente, um bom resumo contém de 10a 15 por cento do texto original. Exemplo de resumo:
  40. 40. 40 a- Texto: A escola e sua finalidade A finalidade da escola é educar e ensinar. Ensinar é ministrar conhecimento e experiências. “Aeducação é ação formadora da personalidade humana, que faculta ao indivíduo alcançar, com suaatividade, a meta de sua vida”. A educação e o ensino devem ter um escopo: formar integralmente o homem (no espírito e nocorpo) a fim de que consiga, na luta de todos os dias, viver feliz e satisfeito por saber que trilha omelhor caminho com os melhores recursos, dentro do bem-estar da comunidade. Embora a função específica da escola seja ensinar, cumpre-lhe também, e por lei, educar. Aescola que não educa é perniciosa.Hildebrando A. André − A leitura atenta e a técnica de sublinhar as palavras-chave: A finalidade da escola é educar e ensinar. Ensinar é ministrar conhecimento eexperiências. “A educação é ação formadora da personalidade humana, que faculta aoindivíduo alcançar, com sua atividade, a meta de sua vida”. A educação e o ensino devem ter um escopo: formar integralmente o homem (noespírito e no corpo) a fim de que consiga, na luta de todos os dias, viver feliz e satisfeito porsaber que trilha o melhor caminho com os melhores recursos, dentro do bem-estar dacomunidade. Embora a função específica da escola seja ensinar, cumpre-lhe também, e por lei,educar. A escola que não educa é perniciosa. − Resumo por parágrafos: 1º) A finalidade da escola é educar: auxiliar o indivíduo alcançar seu objetivos; e ensinar: ministrar conhecimento e experiências. 2º) A educação e o ensino: formar integralmente o homem. 3º) Embora a função da escola seja, antes de tudo, ensinar: tem também (por lei), de educar. A escola que assim não age é perniciosa. a) Redação final: A finalidade da escola é educar, ou seja, auxiliar o indivíduo a alcançar seu objetivos;e ensinar, isto é, ministrar conhecimentos e experiências. A educação e o ensino devemformar integralmente o homem. Embora a função da escola seja, antes de tudo, ensinar, temela também, e por lei, de educar. A escola que assim não age é perniciosa. Quem desejar, pode colocar introduções no resumo: No texto, A escola e sua finalidade, de Hildebrando A. André, publicado no livroCurso de Redação, discute a finalidade da escola. Nele o autor afirma que [...] Como já dissemos, resumir um texto é fazer, também, uma pequena paráfrase dele.

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