Educação em saúde: conceitos e propósitos

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Educação em saúde: conceitos e propósitos

  1. 1. 773 EDUCAÇÃO EM SAÚDE: CONCEITOS E PROPÓSITOS Marjorie Ester Dias Maciel1RESUMO: Com o objetivo de promover reflexão a respeito das mudanças no conceito de educação em saúde e de seusobjetivos realizou-se um levantamento de suas práticas ao longo da história da saúde pública no Brasil.Verificou-se que aeducação em saúde tradicional, utilizada desde a República Velha não é adequada para melhorar as condições de saúde dapopulação e não está condizente com os propósitos do atual sistema de saúde. Assim, outros modelos e concepções deeducação em saúde surgiram. Sendo eles, a educação popular em saúde e a educação dialógica, tendo como base o diálogoe a melhoria das condições de vida da população.PALAVRAS-CHAVE: Educação em saúde; Saúde pública; Prática de saúde pública. EDUCATION IN HEALTH: CONCEPTS AND INTENTIONSABSTRACT : With the aim to promote a reflection regarding the concept of the education in health and its objectives itwas done a survey of its practical through the history of the public health in Brazil. It was verified that the education intraditional health, used since the Old Republic is not adjusted to improve the conditions of health of the population anddon´t agrees with the intentions of the current system of health. Thus, other methodologies and conceptions to educatein health appeared. Being them, popular education in health and dialogical education with basis on dialogue and theimprovement on population´s life conditions.KEYWORDS: Education in health, Public Health, Practice of Public Health. EDUCACIÓN EN SALUD: CONCEPTOS Y PROPÓSITOSRESUMEN: Con el objetivo de promover reflexión al respecto de las mudanzas en el concepto de la educación en salud yde sus objetivos fue hecho un levantamiento de sus prácticas a lo largo de la historia de la salud pública en el Brasil. Fueverificado que la educación en la salud tradicional, usada desde la República Vieja no es adecuada para mejorar lascondiciones de salud de la población y no está condecente con los propósitos del sistema actual de salud. Así, otrosmodelos y concepciones de educación en salud surgieron. Siendo ellos, la educación popular en la salud e la educacióndialógica, teniendo como la base el diálogo y la mejoría de las condiciones de vida de la población.PALABRAS CLAVE: Educación en la Salud, Salud Pública, Práctica de Salud Pública.1Enfermeira. Docente do Curso de Graduação em Enfermagem de Fátima do Sul-MS da disciplina Saúde Mental.Autor correspondente:Marjorie Ester Dias MacielFátima do SulRua Tenente Antonio João, 800 - 79700-000 - Fátima do Sul-MS, Brasil Recebido: 28/12/08E-mail: marjorieester@yahoo.com.br Aprovado: 20/11/09 Cogitare Enferm 2009 Out/Dez; 14(4):773-6
  2. 2. 774INTRODUÇÃO tendo as suas práticas voltadas prioritariamente para a prevenção de doenças e agravos e não somente A educação está presente a todo o momento para cura conforme outrora.na vida do ser humano. Ela prevê interação entre as Embasada por essas transformações depessoas envolvidas dentro do contexto educativo e paradigma sanitário, a educação em saúde passa adestas com o mundo que as cerca, visando a adquirir nova configuração, a fim de tornar-semodificação de ambas as partes(1). Porém, é processo realmente capaz de promover mudanças decomplexo e não existe uma definição única . comportamentos e a melhora na saúde da população. No caso específico da educação em saúde pode- Assim, as ações educativas em saúde passamse dizer que seus conceitos e propósitos adaptaram-se a ser definidas como um processo que objetivaconforme as mudanças de paradigma que ocorreram capacitar indivíduos ou grupos para contribuir nano setor saúde e foram também influenciadas pelas melhoria das condições de vida e saúde da população(6)transformações ocorridas nos processos pedagógicos devendo ainda estimular a reflexão crítica das causasda educação escolar de maneira geral(2) . dos seus problemas bem como das ações necessárias Para entender como se processaram essas para sua resolução.alterações, convém lembrar que durante séculos o Sendo assim, esse artigo pretende promovermétodo de educação empregado era a mera transmissão reflexão sobre as modificações na concepção e nosde conhecimentos sem reflexão crítica, conhecido como objetivos da educação em saúde, através da descriçãoeducação bancária. Tal método ficou assim denominado de fatos históricos que modificaram as práticas de saúdeporque na visão dos professores a mente do educando pública, incluindo a educação em saúde.era como um banco no qual o educador depositavaconhecimentos para serem arquivados (decorados) sem UM BREVE HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO EMserem questionados a respeito do seu teor. Assim, o SAÚDE TRADICIONAL NO BRASILconteúdo desse tipo de educação é dissociado darealidade do educando servindo apenas para manter a A educação em saúde tradicional, inicialmentedominação sobre a massa(3). chamada de Educação Sanitária, surge no Brasil a partir Ao transportar a educação bancária para o setor da necessidade do Estado brasileiro de controlar assaúde percebe-se que essa se assemelha com a epidemias de doenças infecto-contagiosas queeducação em saúde realizada de forma tradicional. Isto ameaçavam a economia agroexportadora do paísporque na educação em saúde tradicional transmite-se durante a República Velha, no começo do século XX.aos sujeitos normas (conhecimento) de forma prescritiva Nesse período a população brasileira era atingida poratravés de palestras para evitar a doença sem levar em doenças como a varíola, febre amarela, tuberculose econta a realidade individual. Assim, cabe a estes sífilis, que estavam relacionadas às péssimas condiçõessomente acatá-las para que não fiquem doentes e sanitárias e socio-econômicas em que o povo vivia(6-7).quando tais normas não são executadas conforme foram Sem se importar com o componente socio-prescritas pelos profissionais de saúde, estes sujeitos econômico o governo da época, de ideologia liberal-tornam-se os culpados por seus próprios problemas de oligárquica enfrentava os problemas de saúde públicasaúde, que na verdade são originários ou influenciados por meio de campanhas sanitárias voltadas parapor fatores sociais, culturais e financeiros. Esse combater as epidemias, ou seja, depois que as doençasfenômeno descrito acima, muito comum é denominado já haviam tomado grandes proporções. Este modelode “culpabilização da vítima” (4) e acaba por isentar o de intervenção ficou conhecido como campanhista eprofissional quanto a responsabilidade sobre as foi concebido dentro de uma visão militar em que oscondições de saúde da população ao individualizar o fins justificavam os meios, e no qual o uso da força eprocesso de adoecimento(5). da autoridade eram considerados os instrumentos Essa visão culpabilizadora do indivíduo/vítima preferenciais de ação(8).começou a ser superada somente a partir de mudanças Como produto dessa visão, as campanhasocorridas nas práticas e conceitos de saúde. Com essas sanitárias eram compostas por vacina obrigatória, vistoriaalterações, a saúde passou a ser entendida como nas casas, internações forçadas, interdição, despejos eresultante das condições de vida da população, informações sobre higiene e a forma de contágio dasinfluenciadas por fatores de cunho socio-econômicos, doenças através de uma abordagem biologista eCogitare Enferm 2009 Out/Dez; 14(4):773-6
  3. 3. 775mecanicista, que eram ditadas de forma coercitiva e, A Educação Popular em Saúde configura-semuitas vezes, preconceituosa(9). Tão ditadora foi a como um processo de formação e capacitação que secampanha sanitária contra a febre amarela coordenada dá dentro de uma perspectiva política de classe e quepelo médico sanitarista Oswaldo Cruz que essa foi toma parte ou se vincula à ação organizada do povobatizada pela imprensa como “Código de Torturas”(10). para alcançar o objetivo de construir uma sociedade Durante esse momento a população não era nova de acordo com seus interesses. Ela épersuadida ou sensibilizada sobre os benefícios da caracterizada como a teoria a partir da prática e não avacina ou sobre higiene, ela tinha que acatar as ordens. teoria sobre a prática como ocorre na educação emOs lares e os corpos eram violados para se fazer a saúde tradicional(13).vacina obrigatória, sem respeito aos valores de ordem Seguindo a ideologia freireana, o objetivo damoral da população, já que as mulheres e os filhos educação popular em saúde não é formar sujeitosficavam sozinhos em casa enquanto o marido estava polidos, que bebam água fervida, mas ajudar as classesno trabalho e o lar era invadido por estranhos(11). mais humildes na conquista de sua autonomia e de Diante desse contexto que muitos autores seus direitos(14). Para tanto, a Educação Popular emchamam de “despotismo sanitário” (11-12) e da Saúde é pautada no diálogo e na troca de saberesinsatisfação popular, acabou culminando na Revolta da entre o educador e educando, em que o saber popularvacina em 1904, como uma manifestação popular contra é valorizado e o alvo do Movimento Popular em Saúdea vacina obrigatória para a varíola, tendo como principal está nas discussões sobre temas vivenciados pelafator desencadeante, o desencontro entre a política comunidade que levem a mobilização social para umaesclarecida e os valores populares que tinham a ver vida melhor(4).com a inviolabilidade do lar(11). Essa afirmativa traduz a Convém salientar que a educação popular nãofalta de diálogo e entendimento no discurso da educação é o mesmo que educação informal. Enquanto aem saúde das autoridades sanitárias para com o povo. educação popular é um meio de busca para a melhoria Superada a República Velha, com o início da das condições de vida da população, a educaçãoEra Vargas, começa em 1930 a criação de Centros de informal é aquela que se processa fora do âmbitoSaúde para difundir ainda mais as noções de higiene escolar, continuando muitas vezes atrelada à maneiraindividual e prevenção de doença infecto-parasitária. convencional de educação.Porém, a saúde da população continuava a declinar, Com a consolidação da Reforma Sanitária,começando a haver nesse período uma valorização culminando com a criação do Sistema Único de Saúde-da assistência médica individual em detrimento da SUS, em 1988, com a proposta de um novo modelo desaúde pública(8). Assim, as ações educativas em saúde atenção em saúde voltado para a prevenção e anesse período, ficaram restritas aos programas e integralidade no atendimento, a educação popular emserviços destinados à população de baixa renda(4). saúde passou a ser mais difundida. Neste cenário Com a Revolução de 1964, em que o governo também propiciou o surgimento de outro modelo demilitar ascendeu ao poder, inicia-se no país um período educação em saúde denominado por algunsde repressão e a saúde da população piora ainda mais, especialistas da área como dialógico ou radical.fato este evidenciado pelo recrudescimento de doençascomo a tuberculose, malária e doença de Chagas e EDUCAÇÃO EM SAÚDE DIALÓGICA OUpelos altos índices de mortalidade, morbidade e RADICALacidentes de trabalho(6). Diante desses fatos, os profissionais de saúde, Esse modelo de educação em saúde é assiminsatisfeitos com essa situação, começaram no início denominado por caracterizar-se pelo diálogo bi-da década de 70, experiências de educação em saúde direcional entre as duas partes envolvidas no processovoltadas para a dinâmica e realidade das classes educativo, profissional de saúde e comunidade(15). Épopulares. A essas experiências muitas vezes radical por que rompe com as práticas educativasrealizadas em parcerias com outros segmentos sociais, tradicionais como, por exemplo, as palestras e osdeu-se o nome de Movimento Popular em Saúde ou grupos de patologias. Outras característicasEducação Popular em Saúde(4). importantes desse modelo são a valorização do saber popular, o estímulo e respeito à autonomia do indivíduoEDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE no cuidado de sua própria saúde e o incentivo à sua Cogitare Enferm 2009 Out/Dez; 14(4):773-6
  4. 4. 776participação ativa no controle social do sistema de [monografia].Campo Grande (MS):Universidade Federalsaúde do qual é usuário. Por essas características de Mato Grosso do Sul; 2008.percebe-se que esse modelo se enquadra às demandas 3. Freire P. Pedagogia do oprimido. 38ª ed.Rio de Janeiro:do atual sistema de saúde, o SUS, uma vez que essas Paz e Terra; 2004.características coincidem com as diretrizes dessesistema, como o controle social e a autonomia. 4. Vasconcelos EM. Educação popular e atenção à saúde da família. São Paulo: Hucitec; 1999.CONSIDERAÇÕES FINAIS 5. Pimenta DN, Leandro A, Schall VT. A estética do Verifica-se que a educação em saúde grotesco e a produção audiovisual para educação emtradicional, refletindo a postura e os interesses das saúde: segregação ou empatia? O caso da leishmaniose no Brasil. Cad Saúde Publ. 2007; 23(5):15-22.classes dominantes, tinha como escopo manter o povosobre regras de higiene e comportamentos 6. Kwamoto EE. Enfermagem comunitária. São Paulo: EPU;“adequados” muitas vezes descontextualizados da 1995.realidade comunitária, para controle de doençasinfecto-contagiosas. Estes procedimentos educativos 7. Andrade LOM. SUS passo a passo: normas, gestão eeram feitos através do diálogo unidirecional no fluxo financiamento. São Paulo: Hucitec; 2001.profissional de saúde – população, em que o 8. Polignano MV. História das políticas de saúde no Brasil:conhecimento popular era totalmente desprezado. uma pequena revisão. 2007. [acesso em 2007 Dez 26]. Todavia, esse método mostrou-se ineficaz para Disponível: http://www.internatorural.medicina.ufmg.br/atingir tais propósitos. Ao invés disto, em algumas saude_no_brasil.rtf.situações, ele contribuiu para agravar ou criar outrosproblemas devido à imposição do seu autoritarismo, 9. Pedrosa JIS. Promoção da saúde e educação em saúde.como no episódio da Revolta da Vacina. Porém, devido In: Castro A, Malo M, organizadores. SUS:a esses fatos e ao surgimento do SUS, no qual a ressignificando a promoção da saúde. São Paulo: Hucitec; 2006.p.59-64.promoção da saúde e a qualidade de vida passam aser tratados como prioridades, houve a necessidade 10. Viveiro AA. A revolta da vacina [periódico na Internet].de se adotar novas formas de educação em saúde. Rev Eletron Ciênc. 2003 [acesso em 2007 Dez 20]. Assim, nessa conjuntura, contata-se que as Disponível: hhp://www.cdcc.sc.usp.br/ciencia/artigos/metodologias de educação em saúde mais adequadas art_21/revoltavacina.html.para poder satisfazer as necessidades de saúde da 11. Carvalho JM. Abaixo a vacina. Rev Nossa História.população, preservando a sua autonomia, valorizando 2004:50-7.o seu saber e buscando uma melhoria na sua qualidadede vida são a educação popular em saúde e a educação 12. Gonçalves RS. A construção jurídica das favelas dodialógica, na qual uma complementa a outra. Isto por Rio de Janeiro: das origens ao código de obras de 1937.que, ambas mantém o diálogo com a população e troca Os urbanitas: Rev Antr Urb. 2007 Fev;4(5):20-3.de saberes e enquanto o movimento popular em saúdeprima pela luta de uma sociedade mais justa, a 13. Hurtado C. A educação popular: conceito que se define na práxis. 2007. [acesso em 2007 Dez 20] Disponível:educação dialógica incentiva a autonomia do cuidado http://www.redepopsaude.com.br/varal..em saúde e a participação do indíviduo no controle efiscalização do serviço de saúde . 14. Souza AC, Colomé ICS, Costa LED, Oliveira DLLC. A educação em saúde com grupos na comunidade: umaREFERÊNCIAS estratégia facilitadora da promoção da saúde. Rev Gaúcha Enferm. 2005 Ago;26(2):147-153.1. Girondi J, Nothaft S, Mallmann F. A metodologia problematizadora utilizada pelo enfermeiro na educação 15. Alves VS. Um modelo de educação em saúde para o sexual de adolescentes. Cogitare Enferm. 2006 Maio/ programa de saúde da família: pela integralidade e Ago;11(2):161-5. reorientação do modelo assistencial. Interface. 2005 Fev;9(16):39-52.2. Maciel MED. A educação em saúde na concepção do agentes comunitários de saúde de Fátima do Sul-MSCogitare Enferm 2009 Out/Dez; 14(4):773-6

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