Universidade Federal de Alagoas
Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes
Comunicação Social: Jornalismo, Diurno
Pedro Henrique do Rosário Correia
YOUTUBE E A REVOLUÇÃO DIGITAL
Maceió, 2016
1. Apresentação da edição brasileira
Mauricio Mota e Suzana Pedrinho fazem uma apresentação da edição brasileira
para a obra de Burgess e Green demonstrando o entusiasmo de haver uma obra
analisando o YouTube no que diz respeito aos seus efeitos na sociedade e na
tecnologia.
Mota e Pedrinho citam o fato de que um dos fundadores do YouTube afirmou
ue a i te et i ia ata a televis o, o ue o liv o de Bu gess e G ee o t a ia
mostrando que ambos os veículos coexistem e cooperam entre si. Um fato
interessante a ser levantado a respeito disso é a forma como muitas pessoas se
aproveitam da forma mais atual de usar o serviço do YouTube para ganhar fama e ter
suas habilidades reconhecidas e migrar para a televisão – visto que esta última ainda
tem um status ais espeit vel : as p oduç es e volve ais di hei o e t ,
querendo ou não, mais visibilidade para o grande público.
Outra questão importante, apontada pelos autores da apresentação, é o fato
de que Burgess e Green determinaram o YouTube como sendo uma comunidade –
além de um serviço – que é organizada de forma espontânea numa parceria entre os
usuários e os fornecedores do serviço (atualmente o Google). Este fato demonstra
u a dete i ada a a te ísti a de o ti a de t o do se viço, assi o o as
tecnologias mais recentes – que apresentam uma capacidade de se moldar às
necessidades de todos os consumidores possíveis. Essa suposta democratização – mais
a f e te essa uest o a o dada e os e pli ado o otivo de se u a suposta
de o atizaç o – se dá pelo motivo de uma pessoa desconhecida fazer, por exemplo,
um canal no YouTube e começar a mesma maneira que uma celebridade. Ainda que a
celebridade tenha uma capacidade melhor de divulgar seu canal, o serviço do YouTube
fornece para ambos as mesmas ferramentas e ambos têm os mesmos direitos e
deveres dentro da plataforma.
Suponhamos então, por exemplo, que um produtor de televisão que possui um
equipamento profissional para produções audiovisuais tenha interesse em criar um
canal no YouTube. Apesar de trabalhar em produções e ter contatos dentro da
televis o, o p oduto o ais o he ido ue u a pessoa o u . Se a os
tive e a es a ideia e a pessoa o u ta de idi faze u a al o
YouTube, com equipamentos menos sofisticados (seja um celular ou uma câmera
digital), ambos têm a mesma chance de fazer sucesso dentro da plataforma do
YouTube.
2. Prefácio e A I portâ ia do YouTu e
O YouTube é um serviço de streaming criado por Chad Hurley, Steve Chen e
Jawed Karim, ex-funcionários do Paypal. Seu funcionamento consiste em disponibilizar
uma plataforma na web para qualquer pessoa fazer upload de seus vídeos para serem
compartilhados com outras pessoas.
Pa a Bu gess e G ee , o YouTu e e t ou e ossas vidas de u a fo a
intensa ao ponto de nós termos que entender o seu fenômeno e nos acostumar a tê-lo
e ossa vida pois o algo passagei o, u a oda o o g a des o po aç es
acreditavam ser quando tiveram seu bem-estabelecido mercado abalado com a vinda
do serviço.
Para os autores, existem três versões que explicam o sucesso do YouTube.
De acordo com a comunidade tecnológica, a ascensão do YouTube
pode ser traçada a partir de um perfil do site publicado pelo
respeitado blog de tecnologia e negócios TechCrunch em 8 de agosto
de 2005 (Arrington, 2005a), que entrou como destaque na homepage
do Slashdot, um site cujo foco são as notícias de tecnologia voltadas
aos usu ios. Esse site de otí ias pa a e ds ta to iti ou
prontamente a arquitetura tecnológica do YouTube como o colocou
em suas listas de sites que mereciam atenção (BURGESS e GREEN,
2009, p.18-19).
A versão de Jawed Karim – o terceiro co-fundador que deixou o
negócio para voltar à faculdade em novembro de 2005 – afirma que
o sucesso do site se deve à implementação de quatro recursos
esse iais: e o e daç es de vídeos po eio da lista de Vídeos
Rela io ados , u li k de e-mail que permite o compartilhamento de
vídeos, comentários (e outras funcionalidades inerentes a redes
sociais) e um reprodutor de vídeo que pode ser incorporado
(embed) em outras páginas da internet (Gannes, 2006) (BURGESS e
GREEN, 2009, p.19).
A terceira versão para o sucesso do YouTube está relacionada a um
quadro cômico do Saturday Night Live que mostrava dois nova-
iorquinos nerds estereotipados cantando um rap sobre comprar
bolinhos e assistir As crônicas de Nárnia . [...] Em dezembro de 2005
esse clipe – intitulado Laz Su da Do i go de P eguiça –
tornou-se o que poderia ser chamado de primeiro hit do
YouTube. A esquete de dois minutos e meio foi vista 1,2 milhão de
vezes em seus dez primeiros dias on-line, e mais de 5 milhões de
vezes em fevereiro de 2006, quando a NBC Universal exigiu que o
YouTube o retirasse, junto com outros 500 clipes, caso contrário
enfrentariam uma ação legal com base na Lei dos Direitos Autorais
do Milênio Digital (Digital Millennium Copyright Act) (Biggs, 2006)
(BURGESS e GREEN, 2009, p.19).
Até esse momento a função do YouTube não era bem definida. Inicialmente os
iado es do se viço i agi a a u eposit io de vídeos , o ue ais ta de foi
mudado para o slogan t a s ita-se Broadcast Youself em inglês), o que demonstra
u a uda ça de u se viço passivo pa a ativo o se tido de ue o p i ei o
caso a plataforma nada mais era do que um depósito de conteúdo, já no segundo caso
o posicionamento dos criadores era mais de fazer parte de uma tendência
sociocultural – assim como no Facebook e no Twitter onde os serviços incentivam seus
usuários a se expressar.
Essa mudança possibilitou a construção do conceito daquilo que era o serviço.
Se atualmente temos pessoas expressando suas opiniões e criando uma base de
seguidores por causa disso é justamente por essa possibilidade da plataforma ser um
agente social seja para mudanças importantes por meio de ativismo ou para
divulgação de ideias e conteúdo. Claro que a simples mudança de um slogan não seria
responsável sozinho por este fenômeno, mas todo o conceito do serviço foi modificado
seguindo a ideia de que o YouTube não era apenas um site de armazenamento de
vídeos, mas uma plataforma para a expressão.
Algumas pessoas, no entanto, são céticas no que diz respeito ao pensamento
de ue isso t az u a uda ça so ial e fi a. E seu t a alho O Culto do A ado ,
Andrew Kee faz u a a lise atual do teo e a do a a o i fi ito de T. H. Hu le
av de Aldus Hu le , auto de Ad i vel Mu do Novo ; pa a Hu le , se de os
infinitas máquinas de escrever para infinitos primatas, eventualmente eles irão criar
o as-p i as . Para Keen, a única diferença entre a sociedade atual e tal teorema é o
fato de que no lugar de máquinas de escrever temos acesso à internet e no lugar de
primatas temos seres humanos.
Enquanto escrevo, há uma guerra brutal em curso no Líbano entre
Israel e o Hezbollah. Mas o usuário de Reddit não saberia disso,
porque não há nada sobre Israel , o Líbano ou o Hezbollah entre as 20
at ias ais ue tes . E vez disso, os assi a tes pode le
sobre uma atriz inglesa sem seios, os hábitos de caminhar dos
elefantes, uma paródia do último comercial do Mac e túneis
subterrâneos no Japão. Reddit é um espelho de nossos interesses
mais banais. Faz um arremedo da mídia noticiosa tradicional e
transforma eventos em curso num jogo infantil de Trivial Pursuit.
O New York Times noticia que 50% de todos os blogueiros blogam
com o propósito exclusivo de relatar e partilhar experiências sobre
suas vidas pessoais. O sloga do YouTu e T a s ita-se a si
es o . E t a s iti a s es os o Na iso íti o. À edida ue
a mídia convencional é substituída por uma imprensa personalizada,
a internet torna-se um espelho de nós mesmos. Em vez de usá-la
para buscar notícias, informação ou cultura, nós a usamos para
SERMOS de fato a notícia, a informação, a cultura (KEEN, 2009, p.12).
Sendo ou não um fenômeno benéfico para nós, o YouTube existe, assim
Burgess e Green falam. Entender a forma como o serviço funciona se mostra muito
ais ap oveit vel e elaç o a u a suposta a a te ísti a apo alípti a –
aproveitando o termo de Umberto Eco. Tanto Burgess e Green quanto Keen abordam
o fato de que a indústria cultural tem sido abalada por serviços mais descentralizados
como o YouTube.
Apesar da insistência de que o serviço se destinava ao
compartilhamento de vídeos pessoais entre as redes sociais
existentes (mesmo, como visto acima, referindo-se explicita-mente
ao paradigmático gênero dos vídeos amadores – o vídeo do gato), foi
a combinação da popularidade em grande escala de determinados
vídeos criados por usuários e o emprego do YouTube como meio de
distribuição do conteúdo das empresas de mídia que agradou ao
público. Foi também essa combinação que posicionou o YouTube
como o foco central em que disputas por direitos autorais, cultura
participativa e estruturas comerciais para distribuição de vídeos on-
line estão acontecendo (BURGESS e GREEN, 2009, p.21).
O problema em tal questão é justamente o fato de que as pessoas têm a
liberdade dentro do serviço para fazer o que elas bem entenderem. Vários serviços
que têm o intuito de fazer um compartilhamento entre usuários sofrem com processos
vindos da já bem-estabelecida indústria da produção de conteúdo para meios como a
televisão e o cinema. Em 2012 o Megaupload foi alvo de uma operação do FBI contra
lavagem de dinheiro e pirataria que fechou o serviço. Ao longo de sua história várias
empresas produtoras de conteúdo – música, filmes, séries e afins – atacaram
judicialmente o serviço, assim como o Piratebay que vem se mantendo de pé apesar
de seus problemas na justiça que alegam que o serviço quebra leis de direitos de cópia.
Ambos os serviços se defenderam alegando que são apenar um canal para o
compartilhamento de arquivos. No documentário de 2012 contando a história da
criação do Piratebay, mostra relatos dos co-fundadores se defendendo na justiça
alegando que eles não tinham responsabilidade por aquilo que era compartilhado
de t o de seu se viço. Tais dis uss es leva fal ia da f i a de velas o de a
criação da lâmpada deve ser vista com maus olhos porque irá acabar com o emprego
das pessoas que trabalham nas fábricas de velas – assim como a prensa deveria ser
vista com maus olhos por acabar com a ocupação dos monges nos mosteiros que
escreviam livros à mão –, ou seja, que deveríamos abandonar a perspectiva de avanços
tecnológicos ou inovações por causa de suas consequências. Mais tarde, quando o
criador do Megaupload, Kim Dotcom, resolveu criar um novo serviço com uma
criptografia mais desenvolvida para que apenas os dois usuários (o que fornece o
arquivo e o que vai fazer download do mesmo) sabem o que está sendo
compartilhado.
Essa uest o volta fal ia da f i a de velas por meio das discussões
posteriores à divulgação do novo serviço de Kim Dotcom: muitas pessoas comentaram
que materiais ilegais de conteúdos mais explícitos (como pornografia infantil) seria
compartilhado pelo serviço. Keen aborda outra visão que também se encaixa em tal
fal ia :
O mais grave de tudo é que as próprias instituições tradicionais que
ajudaram a promover e criar nossas notícias, nossa música, nossa
literatura, nossos programas de televisão e nossos filmes estão
igualmente sob ataque. Jornais e revistas de notícias, uma das fontes
mais confiáveis de informações sobre o mundo em que vivemos,
estão em dificuldades, graças à proliferação de blogs e sites gratuitos
como o Craigslist, que oferecem classificados gratuitos, solapando a
publicação de anúncios pagos (KEEN, 2009, p.13).
A resposta para esses problemas, encontrada pelo YouTube, é o ato de
si aliza algu a pu li aç o. Se u vídeo o t o teúdo ue o t a ia s eg as
do YouTube, o serviço retira o vídeo do ar – e funciona com um sistema de strikes
onde a terceira advertência do serviço ao usuário implica no seu banimento.
Essa característica de auto regulação é justamente o que Burgess e Green
apontam na construção da plataforma do YouTube: a comunidade é, talvez, a parte
mais importante do serviço. Além dos exemplos dados no texto, um ponto
interessante a ser discutido é o diálogo entre a comunidade e o serviço no que diz
respeito à tecnologia. Com o passar o tempo, as diversas práticas dos usuários e a
melhoria na internet dos mesmos possibilitou novas práticas dentro da plataforma que
necessitavam de uma estrutura melhorada – o usu io Za gado , o he ido po faze
vídeos mostrando análises de jogos, foi o primeiro brasileiro a fazer upload de um
vídeo de dez minutos ou mais por necessitar de mais tempo para uma análise
detalhada de jogos; atualmente o usuário faz upload de vídeos de meia a uma hora –,
por sua vez, a melhora na estrutura da plataforma caracteriza a necessidade dos
usuários assinarem pacotes de internet melhores para reproduzirem os vídeos numa
qualidade melhor de forma mais rápida.
Enfim, os autores denominam essa característica de construção coletiva de
ultu a pa ti ipativa .
 Entendendo o YouTube
O problema em entender o YouTube é justamente o fato de estar mudando
drástica e constantemente. Os autores exemplificam a concepção de Stephen Heath a
respeito da televisão e sua constante mudança para mostrar o quão radical é a
característica mutável do YouTube: enquanto a televisão era considerada, para Heath,
instável e desorganizada num nível de, suponhamos, 15 a 20 canais de tevê aberta, o
YouTube opera na casa dos milhões de canais de usuários testando,
inconscientemente, novas formas de conteúdo.
Por que inconsciente? Bem, a televisão opera numa situação de risco: para criar
um programa é necessário investimento em equipamento de transmissão, produção
audiovisual e profissionais técnicos e da área do entretenimento, ou seja, sua
produção é reduzida em comparação à internet. Dentro do YouTube essa situação de
risco não existe, podemos criar um canal no serviço utilizando uma câmera digital ou
um estúdio com equipamentos próprios para a televisão e termos a mesma
capacidade de fazer sucesso e determinar o padrão do formato que a plataforma irá
operar por uma questão de tendência.
Em meados de 2010, o vlogger Paulo Cezar Goulart Siqueira iniciou um formato
de vlog onde ele falava suas opiniões a respeito de vários temas e com pouco tempo
viu uma série de pessoas seguindo seu exemplo e transformando o formato numa
tendência. Não foi necessário nenhum grande investimento para modificar a tendência
do uso da plataforma e isso não é restrito à Siqueira, existem várias pessoas fazendo
criações que podem, da noite para o dia, virar uma tendência e determinar a forma
como a plataforma é usada. Essa variedade aumenta ainda mais a incerteza a respeito
do futuro do serviço e sua instabilidade.
O YouTube, mais ainda do que a televisão, é um objeto de
estudo particularmente instável, marcado por mudanças
dinâmicas (tanto em termos de vídeo como de organização),
diversidade de conteúdos (que caminha em um ritmo diferente
do televisivo, mas que, da mesma maneira, escoa por meio do
serviço e, às vezes, desaparece de vista) e uma frequência
otidia a a loga, ou es i e (BURGESS e GREEN, 2009,
p.23-24).
Isso cria um sério problema para as empresas da indústria já estabelecida no
mercado do entretenimento onde os consumidores podem migrar para a internet por
uma maior variedade de conteúdo onde existe uma oferta para cada demanda.
Há ainda a complicação adicional de sua dupla função como
plataforma top-down de distribuição de cultura popular e como
plataforma de bottom-up de criatividade vernacular. É entendido de
vários modos: como plataforma de distribuição que pode popularizar
em muito os produtos da mídia comercial, desafiando o alcance
promocional que a mídia de massa está acostumada a monopolizar e,
ao mesmo tempo, como uma plataforma para conteúdos criados por
usuários na qual desafios à cultura comercial popular podem surgir,
sejam eles serviços de notícias criados por usuários ou formas
genéricas como o vloging – que, por sua vez, podem ser assimiladas e
exploradas pela indústria de mídia tradicional (BURGESS e GREEN,
2009, p.24).
Talvez o problema de tal indústria seja na visão de que está perdendo algo
quando, na verdade, poderia facilmente se aproveitar da situação para lucrar com tais
uda ças de o po ta e to dos o su ido es. E Franquia Transmidia - o futuro
da economia audiovisual mídias sociais , Jo o Ca los Massa olo e Ma us Vinícius
Tavares de Alvarenga abordam a situação das empresas de entretenimento no que diz
respeito ao transmedia storyteling e o o as ídias fo a do ei o i e a-tev
conseguem contribuir para uma narrativa.
[...] A existência de uma marca cultural depende em grande parte, da
capacidade dos grandes conglomerados de mídia de perceberem
comportamentos nas redes sociais que possam orientar a
composição de um universo para o consumo destes. Dentro dessa
nova realidade, se um grande conglomerado de mídia recompensar
as demandas de uma marca em específico (por exemplo, um seriado
televisivo), o telespectador vai se sentir recompensado e encorajado
a fazer novos investimentos, seguindo os desdobramentos da história
em diferentes mídias com o objetivo de aumentar o seu repertório
de conhecimento (MASSAROLO e ALVARENGA, 2010, p.8).
Antes de analisar outro aspecto da importância do YouTube, os autores deixam
clara a abordagem que desejam para o fenômeno que é a plataforma: introduzi-lo na
discussão a respeito da influência dos meios de comunicação na sociedade e qual é o
impacto ue a ultu a pa ti ipativa te de t o de tudo isso.
 YouTube como site de cultura participativa
I i ial e te, o o eito de ultu a pa ti ipativa pode se at ae te se
a alisa os dessa fo a, e t eta to, a p ti a, essa o de espo t ea ue
constrói a comunidade de YouTube se mostra bastante problemática ao longo do
te po: as te ologias e os usos ue tais te ologias t s o, uitas vezes, t o
o testado as e i odas ua to pote ial e te li e t ias . As igas judi iais, a
insistência dos usuá ios e o se ade ua e ao siste a da i dúst ia o ve io al ,
o descontentamento da indústria em ser mantida de fora das decisões de algo que a
atinge diretamente e etc. demonstram a forma como a comunidade incomoda o status
quo de mantido pelo corporativismo (de forma muito expressiva no caso de
Hollywood, por exemplo).
Para os autores, tais discussões e problemas com a manutenção desse status
quo é justamente o que legitima tais discussões como catalizadores de mudanças
sociais drásticas – o fato de Keen, por exemplo, se demonstrar contrário a isso mostra
a fal ia da f i a de velas p ese te de t o da dis uss o, o ue ost a o
antagonismo entre a manutenção dos interesses de uma indústria baseando-se em
poderes econômicos e judiciários contra uma contracultura desenvolvida de forma
bottom-up (ainda que não seja o intuito de Keen defender a manutenção de uma
indústria ou de um suposto corporativismo).
O aumento da forma que as empresas se comunicam com seus clientes pode
ser interpretado desse modo: o emprego de social media tem se mostrado cada vez
mais necessário quando a marca quer se comunicar de forma mais direta com os
consumidores por meio das redes sociais e isso dá uma sensação maior de bottom-up,
apesar de não o ser de verdade.
[...] O crescimento exponencial de formas mais triviais e
a te io e te p ivadas de iatividade ve a ula o o pa te da
cultura pública (Burgess, 2007) – como fica evidente pelo
crescimento das redes sociais on-line, blogs, compartilhamento de
fotos e videoblogagem; a incorporação de conteúdo gerado por
usuários na lógica de serviços de veiculação públicos (até mesmo na
mais recente concessão da BBC); os novos modelos de negócios
associados à Web 2.0, que dependem de conteúdo e inovações
ge ados po usu ios O Reill , 2005 ; e as te tativas de a as
comerciais de produzirem de modo artificial o envolvimento bottom-
up por meio de marketing viral (Spurgeon, 2008) – demonstra que há
u ev s pa ti ipativo ais a plo e a da e to, de odo ue
essas duas definições de popularidade estão convergindo (BURGESS e
GREEN, 2009, p.31).
A forma como o YouTube é construído mostra apenas a ponta do iceberg que é
toda a prática de criação coletiva dos elementos da nossa realidade, seja tecnologias
que convergem, plataformas construídas de forma descentralizada ou um MMORPG
que a comunidade determina como irá funcionar o mercado dentro do jogo: como
dize os auto es, o o su o o ais visto e essa ia e te o o o po to fi al a
adeia de p oduç o e si o o u espaço di i o de i ovaç o e es i e to e si
(BURGESS e GREEN, 2009, p.31).
Talvez essa característica do mercado seja um verdadeiro exemplo de como o
nosso consumo é determinado de forma bottom-up, diferente do que, segundo os
autores, as marcas tentam moldar algumas vezes. De qualquer forma, o crescimento
da voz ue e p esas esponsáveis por tais tecnologias vem tomando é um reflexo
da uilo ue eal e te a a te iza u a de o atizaç o dos eios de o u i aç o e
do consumo: nossas opções a respeito do que consumir, como, onde e quando são as
mais variáveis desde sempre e isso se dá pela demanda de várias pessoas estarem
sendo atendidas.
Querendo ou não essa pluralidade no que diz respeito às vozes tem sido
responsável pela mudança do status quo, o que, como citado anteriormente vem
i o oda do a fo a a tiga de faze e utiliza as te ologias e o su i ultu a. O
YouTube não representa uma volisão e sim uma coevolução aliada a uma coexistência
des o fo t vel e t e a tigas e ovas apli aç es, fo as e p ti as de ídia
(BURGESS e GREEN, 2009, p.33).
3. O YouTube e a mídia de massa
Como já dito anteriormente, o YouTube representa uma grande ruptura entre
a forma convencional dos meios de comunicação e da produção de conteúdo cultural
serem utilizados e consumidos por nós. Muita dessa mudança diz respeito a novos
conceitos sendo introduzidos pelos jovens na sociedade, o que traz para o debate uma
grande preocupação a respeito do papel que a plataforma tem dentro da vida dos
jovens.
Assim como o impacto que o YouTube causa nas mídias de massa, os autores
buscam entender a forma como a própria mass media molda a plataforma do
YouTu e. Poe e e plo, u o eito a se apli ado o de p i o idi ti o e a fo a
como ele modifica o entendimento das pessoas em relação àquilo que lhes é
apresentado. No caso do YouTube, a forma como a plataforma é vista pelas pessoas
depende, querendo ou não, da fo a o o a ídia o ve io al se efe e a ela. U
exemplo disso se dá na forma como a televisão e seus programas se referiam ao
YouTube, e os autores dão exemplos no ano-novo de 2007 em Nova York onde os
programas se referiram ao YouTube mostrando os vídeos mais populares da
plataforma e, quando o feriado passou, os mesmos programas começaram a se referir
à plataforma como algo danoso.
 Pânico Midiático
Para os autores, a opinião popular é de ue os jove s t u e to do
atu al pa a do i a as ovas te ologias, algo ue os dista ia das out as ge aç es
e consequentemente aumenta o estranhamento de tais outras gerações para as
práticas dos mais jovens em relação à tecnologia. Tal estranhamento é potencializado
pela forma como tais tecnologias ou canais que se utilizam de tais tecnologias são
divulgados po pa te da ídia o ve io al .
Tais fato es o st oe o ue os auto es de o i a se p i o idi ti o
no que diz respeito ao YouTube. As at ias ue se efe e pa te ais selvage
do compartilhamento de vídeos moldam, de certa forma, um cenário desfavorável
para a imagem da plataforma num contexto social de forma geral. São dados exemplos
como de compartilhamento de vídeos de abuso sexual e violência física sendo
compartilhados dentro da plataforma – algo que fere as regras de uso do serviço.
Um artigo da revista VICE Brasil critica o fato de estarem vindo à tona vários
relatos de linchamentos onde o ato era filmado e compartilhado na internet. Segundo
o artigo, a prática não era novidade no Brasil, mas agora possuímos smartphone para
g ava os atos. Segu do He Je ki s, o hipe te to est de t o e s (JENKINS,
2008, p.178), nossa capacidade de modificar os serviços de acordo com a nossa
vontade, seja ela de compartilhar conteúdo grotesco ou não, não é novidade nem tem
nas plataformas de compartilhamento a sua razão, mas acontecem apesar de tais
plataformas. Criticar tais serviços em razão do compartilhamento de tais materiais é,
ais u a vez, a fal ia da f i a de velas , o i po ta te ap e de a lida o tal
conteúdo e desenvolver uma forma de combater isso.
Os próprios autores citam essas questões apontando que grande parte da
culpa no compartilhamento desses materiais e, consequentemente, do
o st a gi e to das víti as justa e te da ídia de assa o ve io al ue faz
divulgação de tais materiais – es o ue se ue e .
Os vídeos ofensivos descobertos por jornalistas às vezes são
comparativamente pouco assistidos antes de sua exposição na
imprensa nacional ou internacional, exposição essa que atrai ainda
mais atenção ao fenômeno com o qual estamos sendo encorajados a
nos preocupar (BURGESS e GREEN, 2009, p.42).
No fi das o tas, tal p i o idi ti o diz espeito ideia que é criada a
partir das informações passadas pela mídia a respeito de algum fenômeno, fato,
tecnologia, prática e etc. Em termos práticos, é a ideia que a sociedade criou, de forma
geral, sobre aquilo que era o YouTube antes mesmo de a plataforma ser entendida ou
se estruturar de forma consistente – e tudo isso por motivos geralmente frágeis o
bastante para não serem levados a sério como casos isolados de compartilhamento de
conteúdo explícito que logo é retirado do ar ou que não tinha muitas visualizações
antes de ser veiculado dentro da mídia de massa.
 Os significados do vídeo amador
Como dito anteriormente, a análise de que o modo que o YouTube age de
fo a de o ti a est u pou o e uivo ada e os auto es a alisa essa fal ia a
partir deste ponto. Apesar do fato de sabermos que todas as pessoas têm a mesma
capacidade de fazer sucesso dentro da plataforma por disporem das mesmas
ferramentas e terem a mesma capacidade de utilizar o serviço das formas disponíveis,
uitas vezes as pessoas ue faze su esso v o pa a a ídia o ve io al e se
tornam apenas uma peça dentro do sistema da indústria de entretenimento já bem
estabelecida.
Por exemplo: bandas que fazem sucesso no YouTube e vão para o mainstream
– como a banda Ok Go – entram no sistema da indústria da música onde os papéis já
est o e esta ele idos. Se ia o o se o so ho do indie fosse alcançar o
mainstream e se tornar parte do sistema. Ou seja, no fim das contas o YouTube seria
uma ferramenta para efetuar a manutenção do sistema já bem estabelecido de
entretenimento e produção cultural. Burgess e Green deixam isso claro apontando a
interpretação de Graeme Turner sobre isso, onde Turne a edita ue es o ua do
pessoas comuns se tornam celebridades por meio de seu próprio esforço criativo, não
há necessariamente transferência de poder de mídia: elas permanecem dentro do
sistema de celebridades inerente à mídia de massa e por ela controlado BURGESS e
GREEN, 2009, p.45).
Toda essa discussão se dá em relação àquilo que é denominado DIY (Do It
Yourself ou Faça Você Mesmo), onde as pessoas conseguem sair do eixo comum de
produção cultural e produzir seu próprio conteúdo, assim como consumir e conseguir
criar uma demanda daquilo que elas querem. Para os autores, a manutenção da fama
dentro de tais plataformas só é conquistada numa frequente participação na
comunidade e na criação de conteúdo para a plataforma.
Esse conceito abre uma possibilidade para criadores de conteúdo mais
experientes em narrativas audiovisuais experimentem o formato DIY para atingir um
público maior ou criar um mistério dentro da plataforma do YouTube. Apesar de os
autores citarem um caso onde uma vlogger era um personagem criado por roteiristas,
existe um caso mais específico onde uma suposta vlogger publicando no YouTube com
o o e de usu io KeratinGarden i i iou o a al pu li a do vídeos so e
cosméticos. O que chama atenção é o fato de o canal se aproveitar da história criada
dentro de fóruns anônimos da internet de um personagem chamado Slenderman e
introduzi-lo após algumas entradas como se realmente estivesse acontecendo aquilo
com a personagem – ela tivesse criado um canal para falar sobre cosméticos e uma
entidade começasse a persegui-la.
As criações se dão de forma caseira utilizando apenas uma webcam e algumas
e as po t teis o uito sofisti adas. Assi o o KeratinGarden , out os
criadores de conteúdo dentro do universo de Slenderman e outras produções
e pe i e tais do g e o Te o age da es a a ei a. O usu io Marble Hornets
começou uma narrativa semelhante, apesar de já se mostrar claro que se tratava de
u a p oduç o, dife e te de Ke ati Ga de ue ti ha o i tuito de pa e e eal até
certo ponto. Ambos os casos movimentam vários fóruns na internet a respeito de o
que irá acontecer, o que está acontecendo, o motivo de estar acontecendo e para
tentar decifrar as pistas deixadas pelos roteiristas.
Entretanto, os autores caracterizam criadores de conteúdo como sendo
i dividualistas e i te essados uito ais e i te esses p p ios do ue a iaç o
de conteúdo para uma comunidade e de forma coletiva.
 A Guerra dos Direitos Autorais
Diversos serviços para divulgação de material foram criados pelas produtoras
de conteúdo para combater o uso do YouTube como ferramenta de acesso à tais
conteúdos, o problema nisso se dá na forma como a configuração dos serviços são
feitas: o YouTube é uma plataforma onde tanto os responsáveis pelo serviço quanto a
comunidade trabalham em conjunto para estruturar um ambiente de
compartilhamento de conteúdo – podemos categoriza-lo como uma plataforma
bottom-up por isso (?). Agindo de forma horizontal, a plataforma se mostra muito mais
próxima do público do que um serviço de fornecimento de conteúdo de forma paga
onde as empresas simplesmente fornecem aquilo que elas entendem, como, quando e
onde elas querem numa característica top-down.
Ainda que toda essa discussão a respeito daquilo que o YouTube é ou não seja
muito válida, muitas vezes o que se vê é uma quebra clara de leis de direito de cópia –
por parte dos usuários. O responsável pelo conteúdo, em última instância, é a
plataforma do YouTube, que muitas vezes retira tais conteúdos do ar.
Entretanto, um fato destacado por Burgess e Green é a característica
insistente em se mostrar contrário à plataforma por pura antipatia. Os autores relatam
casos onde conteúdos estavam disponíveis gratuitamente e a produtora de tais
conteúdos formalizou pedidos de retirada de tais conteúdos da plataforma do
YouTube. Tal prática demonstra, mais uma vez, uma necessidade das produtoras de
determinar quando, onde e como o consumidor irá consumir as produções.
O que a guerra dos direitos autorais demonstra de maneira
especialmente clara é a complicada dupla identidade que a YouTube
Inc. mantém. O YouTube precisa ser entendido como um negócio –
situação na qual os argumentos da Viacom et al. Podem ser
legitimados – e como uma fonte cultural cocriada por seus usuários –
dentro da qual esses argumentos perdem credibilidade. A verdade é
que essas duas diferentes e difíceis concepções de para que o
YouTube serve são reais e coexistentes, mesmo que nem sempre de
modo pacífico; em várias ocasiões, como nas disputas relacionadas a
alegações de violação de direitos autorais, as falhas do terreno
emergem (BURGESS e GREEN, 2009, p.58).
 O YouTube como mídia de massa
Para os autores, apesar de todas as trocas de farpas entre as produtoras de
o teúdo e a ídia o ve io al , o YouTu e levado a sério como mídia de massa
quando este se coloca dentro dos usos convencionais e de forma mais central para a
veiculação de informações (como quando um candidato divulga um link para assistir
um debate político dentro da plataforma como sendo a sua forma convencional de
divulgação para tal debate).
Por fim, são citadas as formas de uso que a plataforma apresenta de forma
geral entre a mídia convencional (como a entrada de jornais, revistas, canais de
televisão, produtoras de filmes, editoras e etc.), quando esta entra na plataforma para
divulgar conteúdo ou informações, e o público geral.
Entendemos o YouTube de uma forma mais generalizada como uma
plataforma que tenta se deixar ser moldada pela comunidade, direcionando apenas as
diretrizes da comunidade no que diz respeito às publicações e às regras para
monetização dos vídeos. Burgess e Green conseguem entregar ao leitor uma análise a
respeito dos problemas que o YouTube encontra em se estabelecer dentro da internet
e a forma como devemos encarar ele quando já estabelecido – e dentro de nossos
bolsos, casas, televisões e etc.
O YouTube não é somente mais uma empresa de mídia e não é
somente uma plataforma de conteúdo criado por usuários. É mais
proveitoso entender o YouTube (a empresa e a estrutura do site que
fornece) como ocupante de uma função institucional – atuando como
um mecanismo de coordenação entre a criatividade individual e
coletiva e a produção de significado; e como um mediador entre
vários discursos e ideologias divergentes voltados para o mercado e
os vários discursos voltados para a audiência ou para o usuário
(BURGESS e GREEN, 2009, p.60).
REFERÊNCIAS
BURGESS, Jean e GREEN, Joshua. YouTube e a Revolução Digital: como o maior
fenômeno da cultura participativa transformou a mídia e a sociedade. São Paulo:
Aleph, 2009. pp. 7-60.
DECLERCQ, Marie. Os Linchamentos no Brasil Não São Novidade, a Diferença É que
Agora Existe o Smartphone. Disponível em: http://www.vice.com/pt_br/read/os-
linchamentos-no-brasil-nao-sao-novidade-a-diferenca-e-que-agora-existe-o-
smartphone Acesso em: 13 de set. de 2016
KEEN, Andrew. O Culto do Amador: como blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital
estão destruindo nossa economia, cultura e valores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
2009. pp. 7 - 36.
MASSAROLO, João Carlos e ALVARENGA, Marcus Vinícius Tavares de. Franquia
Transmídia: O Futuro da Economia Audiovisual nas Mídias Sociais. In: Congresso
Brasileiro de Ciências da Comunicação, 33, 2010, Caxias do Sul. Anais... São Paulo:
Intercom, 2010.

Youtube e a revolução digital

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    Universidade Federal deAlagoas Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes Comunicação Social: Jornalismo, Diurno Pedro Henrique do Rosário Correia YOUTUBE E A REVOLUÇÃO DIGITAL Maceió, 2016
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    1. Apresentação daedição brasileira Mauricio Mota e Suzana Pedrinho fazem uma apresentação da edição brasileira para a obra de Burgess e Green demonstrando o entusiasmo de haver uma obra analisando o YouTube no que diz respeito aos seus efeitos na sociedade e na tecnologia. Mota e Pedrinho citam o fato de que um dos fundadores do YouTube afirmou ue a i te et i ia ata a televis o, o ue o liv o de Bu gess e G ee o t a ia mostrando que ambos os veículos coexistem e cooperam entre si. Um fato interessante a ser levantado a respeito disso é a forma como muitas pessoas se aproveitam da forma mais atual de usar o serviço do YouTube para ganhar fama e ter suas habilidades reconhecidas e migrar para a televisão – visto que esta última ainda tem um status ais espeit vel : as p oduç es e volve ais di hei o e t , querendo ou não, mais visibilidade para o grande público. Outra questão importante, apontada pelos autores da apresentação, é o fato de que Burgess e Green determinaram o YouTube como sendo uma comunidade – além de um serviço – que é organizada de forma espontânea numa parceria entre os usuários e os fornecedores do serviço (atualmente o Google). Este fato demonstra u a dete i ada a a te ísti a de o ti a de t o do se viço, assi o o as tecnologias mais recentes – que apresentam uma capacidade de se moldar às necessidades de todos os consumidores possíveis. Essa suposta democratização – mais a f e te essa uest o a o dada e os e pli ado o otivo de se u a suposta de o atizaç o – se dá pelo motivo de uma pessoa desconhecida fazer, por exemplo, um canal no YouTube e começar a mesma maneira que uma celebridade. Ainda que a celebridade tenha uma capacidade melhor de divulgar seu canal, o serviço do YouTube fornece para ambos as mesmas ferramentas e ambos têm os mesmos direitos e deveres dentro da plataforma. Suponhamos então, por exemplo, que um produtor de televisão que possui um equipamento profissional para produções audiovisuais tenha interesse em criar um canal no YouTube. Apesar de trabalhar em produções e ter contatos dentro da televis o, o p oduto o ais o he ido ue u a pessoa o u . Se a os
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    tive e aes a ideia e a pessoa o u ta de idi faze u a al o YouTube, com equipamentos menos sofisticados (seja um celular ou uma câmera digital), ambos têm a mesma chance de fazer sucesso dentro da plataforma do YouTube. 2. Prefácio e A I portâ ia do YouTu e O YouTube é um serviço de streaming criado por Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim, ex-funcionários do Paypal. Seu funcionamento consiste em disponibilizar uma plataforma na web para qualquer pessoa fazer upload de seus vídeos para serem compartilhados com outras pessoas. Pa a Bu gess e G ee , o YouTu e e t ou e ossas vidas de u a fo a intensa ao ponto de nós termos que entender o seu fenômeno e nos acostumar a tê-lo e ossa vida pois o algo passagei o, u a oda o o g a des o po aç es acreditavam ser quando tiveram seu bem-estabelecido mercado abalado com a vinda do serviço. Para os autores, existem três versões que explicam o sucesso do YouTube. De acordo com a comunidade tecnológica, a ascensão do YouTube pode ser traçada a partir de um perfil do site publicado pelo respeitado blog de tecnologia e negócios TechCrunch em 8 de agosto de 2005 (Arrington, 2005a), que entrou como destaque na homepage do Slashdot, um site cujo foco são as notícias de tecnologia voltadas aos usu ios. Esse site de otí ias pa a e ds ta to iti ou prontamente a arquitetura tecnológica do YouTube como o colocou em suas listas de sites que mereciam atenção (BURGESS e GREEN, 2009, p.18-19). A versão de Jawed Karim – o terceiro co-fundador que deixou o negócio para voltar à faculdade em novembro de 2005 – afirma que o sucesso do site se deve à implementação de quatro recursos esse iais: e o e daç es de vídeos po eio da lista de Vídeos Rela io ados , u li k de e-mail que permite o compartilhamento de vídeos, comentários (e outras funcionalidades inerentes a redes sociais) e um reprodutor de vídeo que pode ser incorporado (embed) em outras páginas da internet (Gannes, 2006) (BURGESS e GREEN, 2009, p.19). A terceira versão para o sucesso do YouTube está relacionada a um quadro cômico do Saturday Night Live que mostrava dois nova- iorquinos nerds estereotipados cantando um rap sobre comprar bolinhos e assistir As crônicas de Nárnia . [...] Em dezembro de 2005 esse clipe – intitulado Laz Su da Do i go de P eguiça –
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    tornou-se o quepoderia ser chamado de primeiro hit do YouTube. A esquete de dois minutos e meio foi vista 1,2 milhão de vezes em seus dez primeiros dias on-line, e mais de 5 milhões de vezes em fevereiro de 2006, quando a NBC Universal exigiu que o YouTube o retirasse, junto com outros 500 clipes, caso contrário enfrentariam uma ação legal com base na Lei dos Direitos Autorais do Milênio Digital (Digital Millennium Copyright Act) (Biggs, 2006) (BURGESS e GREEN, 2009, p.19). Até esse momento a função do YouTube não era bem definida. Inicialmente os iado es do se viço i agi a a u eposit io de vídeos , o ue ais ta de foi mudado para o slogan t a s ita-se Broadcast Youself em inglês), o que demonstra u a uda ça de u se viço passivo pa a ativo o se tido de ue o p i ei o caso a plataforma nada mais era do que um depósito de conteúdo, já no segundo caso o posicionamento dos criadores era mais de fazer parte de uma tendência sociocultural – assim como no Facebook e no Twitter onde os serviços incentivam seus usuários a se expressar. Essa mudança possibilitou a construção do conceito daquilo que era o serviço. Se atualmente temos pessoas expressando suas opiniões e criando uma base de seguidores por causa disso é justamente por essa possibilidade da plataforma ser um agente social seja para mudanças importantes por meio de ativismo ou para divulgação de ideias e conteúdo. Claro que a simples mudança de um slogan não seria responsável sozinho por este fenômeno, mas todo o conceito do serviço foi modificado seguindo a ideia de que o YouTube não era apenas um site de armazenamento de vídeos, mas uma plataforma para a expressão. Algumas pessoas, no entanto, são céticas no que diz respeito ao pensamento de ue isso t az u a uda ça so ial e fi a. E seu t a alho O Culto do A ado , Andrew Kee faz u a a lise atual do teo e a do a a o i fi ito de T. H. Hu le av de Aldus Hu le , auto de Ad i vel Mu do Novo ; pa a Hu le , se de os infinitas máquinas de escrever para infinitos primatas, eventualmente eles irão criar o as-p i as . Para Keen, a única diferença entre a sociedade atual e tal teorema é o fato de que no lugar de máquinas de escrever temos acesso à internet e no lugar de primatas temos seres humanos. Enquanto escrevo, há uma guerra brutal em curso no Líbano entre Israel e o Hezbollah. Mas o usuário de Reddit não saberia disso,
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    porque não hánada sobre Israel , o Líbano ou o Hezbollah entre as 20 at ias ais ue tes . E vez disso, os assi a tes pode le sobre uma atriz inglesa sem seios, os hábitos de caminhar dos elefantes, uma paródia do último comercial do Mac e túneis subterrâneos no Japão. Reddit é um espelho de nossos interesses mais banais. Faz um arremedo da mídia noticiosa tradicional e transforma eventos em curso num jogo infantil de Trivial Pursuit. O New York Times noticia que 50% de todos os blogueiros blogam com o propósito exclusivo de relatar e partilhar experiências sobre suas vidas pessoais. O sloga do YouTu e T a s ita-se a si es o . E t a s iti a s es os o Na iso íti o. À edida ue a mídia convencional é substituída por uma imprensa personalizada, a internet torna-se um espelho de nós mesmos. Em vez de usá-la para buscar notícias, informação ou cultura, nós a usamos para SERMOS de fato a notícia, a informação, a cultura (KEEN, 2009, p.12). Sendo ou não um fenômeno benéfico para nós, o YouTube existe, assim Burgess e Green falam. Entender a forma como o serviço funciona se mostra muito ais ap oveit vel e elaç o a u a suposta a a te ísti a apo alípti a – aproveitando o termo de Umberto Eco. Tanto Burgess e Green quanto Keen abordam o fato de que a indústria cultural tem sido abalada por serviços mais descentralizados como o YouTube. Apesar da insistência de que o serviço se destinava ao compartilhamento de vídeos pessoais entre as redes sociais existentes (mesmo, como visto acima, referindo-se explicita-mente ao paradigmático gênero dos vídeos amadores – o vídeo do gato), foi a combinação da popularidade em grande escala de determinados vídeos criados por usuários e o emprego do YouTube como meio de distribuição do conteúdo das empresas de mídia que agradou ao público. Foi também essa combinação que posicionou o YouTube como o foco central em que disputas por direitos autorais, cultura participativa e estruturas comerciais para distribuição de vídeos on- line estão acontecendo (BURGESS e GREEN, 2009, p.21). O problema em tal questão é justamente o fato de que as pessoas têm a liberdade dentro do serviço para fazer o que elas bem entenderem. Vários serviços que têm o intuito de fazer um compartilhamento entre usuários sofrem com processos vindos da já bem-estabelecida indústria da produção de conteúdo para meios como a televisão e o cinema. Em 2012 o Megaupload foi alvo de uma operação do FBI contra lavagem de dinheiro e pirataria que fechou o serviço. Ao longo de sua história várias empresas produtoras de conteúdo – música, filmes, séries e afins – atacaram
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    judicialmente o serviço,assim como o Piratebay que vem se mantendo de pé apesar de seus problemas na justiça que alegam que o serviço quebra leis de direitos de cópia. Ambos os serviços se defenderam alegando que são apenar um canal para o compartilhamento de arquivos. No documentário de 2012 contando a história da criação do Piratebay, mostra relatos dos co-fundadores se defendendo na justiça alegando que eles não tinham responsabilidade por aquilo que era compartilhado de t o de seu se viço. Tais dis uss es leva fal ia da f i a de velas o de a criação da lâmpada deve ser vista com maus olhos porque irá acabar com o emprego das pessoas que trabalham nas fábricas de velas – assim como a prensa deveria ser vista com maus olhos por acabar com a ocupação dos monges nos mosteiros que escreviam livros à mão –, ou seja, que deveríamos abandonar a perspectiva de avanços tecnológicos ou inovações por causa de suas consequências. Mais tarde, quando o criador do Megaupload, Kim Dotcom, resolveu criar um novo serviço com uma criptografia mais desenvolvida para que apenas os dois usuários (o que fornece o arquivo e o que vai fazer download do mesmo) sabem o que está sendo compartilhado. Essa uest o volta fal ia da f i a de velas por meio das discussões posteriores à divulgação do novo serviço de Kim Dotcom: muitas pessoas comentaram que materiais ilegais de conteúdos mais explícitos (como pornografia infantil) seria compartilhado pelo serviço. Keen aborda outra visão que também se encaixa em tal fal ia : O mais grave de tudo é que as próprias instituições tradicionais que ajudaram a promover e criar nossas notícias, nossa música, nossa literatura, nossos programas de televisão e nossos filmes estão igualmente sob ataque. Jornais e revistas de notícias, uma das fontes mais confiáveis de informações sobre o mundo em que vivemos, estão em dificuldades, graças à proliferação de blogs e sites gratuitos como o Craigslist, que oferecem classificados gratuitos, solapando a publicação de anúncios pagos (KEEN, 2009, p.13). A resposta para esses problemas, encontrada pelo YouTube, é o ato de si aliza algu a pu li aç o. Se u vídeo o t o teúdo ue o t a ia s eg as
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    do YouTube, oserviço retira o vídeo do ar – e funciona com um sistema de strikes onde a terceira advertência do serviço ao usuário implica no seu banimento. Essa característica de auto regulação é justamente o que Burgess e Green apontam na construção da plataforma do YouTube: a comunidade é, talvez, a parte mais importante do serviço. Além dos exemplos dados no texto, um ponto interessante a ser discutido é o diálogo entre a comunidade e o serviço no que diz respeito à tecnologia. Com o passar o tempo, as diversas práticas dos usuários e a melhoria na internet dos mesmos possibilitou novas práticas dentro da plataforma que necessitavam de uma estrutura melhorada – o usu io Za gado , o he ido po faze vídeos mostrando análises de jogos, foi o primeiro brasileiro a fazer upload de um vídeo de dez minutos ou mais por necessitar de mais tempo para uma análise detalhada de jogos; atualmente o usuário faz upload de vídeos de meia a uma hora –, por sua vez, a melhora na estrutura da plataforma caracteriza a necessidade dos usuários assinarem pacotes de internet melhores para reproduzirem os vídeos numa qualidade melhor de forma mais rápida. Enfim, os autores denominam essa característica de construção coletiva de ultu a pa ti ipativa .  Entendendo o YouTube O problema em entender o YouTube é justamente o fato de estar mudando drástica e constantemente. Os autores exemplificam a concepção de Stephen Heath a respeito da televisão e sua constante mudança para mostrar o quão radical é a característica mutável do YouTube: enquanto a televisão era considerada, para Heath, instável e desorganizada num nível de, suponhamos, 15 a 20 canais de tevê aberta, o YouTube opera na casa dos milhões de canais de usuários testando, inconscientemente, novas formas de conteúdo. Por que inconsciente? Bem, a televisão opera numa situação de risco: para criar um programa é necessário investimento em equipamento de transmissão, produção audiovisual e profissionais técnicos e da área do entretenimento, ou seja, sua produção é reduzida em comparação à internet. Dentro do YouTube essa situação de
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    risco não existe,podemos criar um canal no serviço utilizando uma câmera digital ou um estúdio com equipamentos próprios para a televisão e termos a mesma capacidade de fazer sucesso e determinar o padrão do formato que a plataforma irá operar por uma questão de tendência. Em meados de 2010, o vlogger Paulo Cezar Goulart Siqueira iniciou um formato de vlog onde ele falava suas opiniões a respeito de vários temas e com pouco tempo viu uma série de pessoas seguindo seu exemplo e transformando o formato numa tendência. Não foi necessário nenhum grande investimento para modificar a tendência do uso da plataforma e isso não é restrito à Siqueira, existem várias pessoas fazendo criações que podem, da noite para o dia, virar uma tendência e determinar a forma como a plataforma é usada. Essa variedade aumenta ainda mais a incerteza a respeito do futuro do serviço e sua instabilidade. O YouTube, mais ainda do que a televisão, é um objeto de estudo particularmente instável, marcado por mudanças dinâmicas (tanto em termos de vídeo como de organização), diversidade de conteúdos (que caminha em um ritmo diferente do televisivo, mas que, da mesma maneira, escoa por meio do serviço e, às vezes, desaparece de vista) e uma frequência otidia a a loga, ou es i e (BURGESS e GREEN, 2009, p.23-24). Isso cria um sério problema para as empresas da indústria já estabelecida no mercado do entretenimento onde os consumidores podem migrar para a internet por uma maior variedade de conteúdo onde existe uma oferta para cada demanda. Há ainda a complicação adicional de sua dupla função como plataforma top-down de distribuição de cultura popular e como plataforma de bottom-up de criatividade vernacular. É entendido de vários modos: como plataforma de distribuição que pode popularizar em muito os produtos da mídia comercial, desafiando o alcance promocional que a mídia de massa está acostumada a monopolizar e, ao mesmo tempo, como uma plataforma para conteúdos criados por usuários na qual desafios à cultura comercial popular podem surgir, sejam eles serviços de notícias criados por usuários ou formas genéricas como o vloging – que, por sua vez, podem ser assimiladas e exploradas pela indústria de mídia tradicional (BURGESS e GREEN, 2009, p.24). Talvez o problema de tal indústria seja na visão de que está perdendo algo quando, na verdade, poderia facilmente se aproveitar da situação para lucrar com tais
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    uda ças deo po ta e to dos o su ido es. E Franquia Transmidia - o futuro da economia audiovisual mídias sociais , Jo o Ca los Massa olo e Ma us Vinícius Tavares de Alvarenga abordam a situação das empresas de entretenimento no que diz respeito ao transmedia storyteling e o o as ídias fo a do ei o i e a-tev conseguem contribuir para uma narrativa. [...] A existência de uma marca cultural depende em grande parte, da capacidade dos grandes conglomerados de mídia de perceberem comportamentos nas redes sociais que possam orientar a composição de um universo para o consumo destes. Dentro dessa nova realidade, se um grande conglomerado de mídia recompensar as demandas de uma marca em específico (por exemplo, um seriado televisivo), o telespectador vai se sentir recompensado e encorajado a fazer novos investimentos, seguindo os desdobramentos da história em diferentes mídias com o objetivo de aumentar o seu repertório de conhecimento (MASSAROLO e ALVARENGA, 2010, p.8). Antes de analisar outro aspecto da importância do YouTube, os autores deixam clara a abordagem que desejam para o fenômeno que é a plataforma: introduzi-lo na discussão a respeito da influência dos meios de comunicação na sociedade e qual é o impacto ue a ultu a pa ti ipativa te de t o de tudo isso.  YouTube como site de cultura participativa I i ial e te, o o eito de ultu a pa ti ipativa pode se at ae te se a alisa os dessa fo a, e t eta to, a p ti a, essa o de espo t ea ue constrói a comunidade de YouTube se mostra bastante problemática ao longo do te po: as te ologias e os usos ue tais te ologias t s o, uitas vezes, t o o testado as e i odas ua to pote ial e te li e t ias . As igas judi iais, a insistência dos usuá ios e o se ade ua e ao siste a da i dúst ia o ve io al , o descontentamento da indústria em ser mantida de fora das decisões de algo que a atinge diretamente e etc. demonstram a forma como a comunidade incomoda o status quo de mantido pelo corporativismo (de forma muito expressiva no caso de Hollywood, por exemplo). Para os autores, tais discussões e problemas com a manutenção desse status quo é justamente o que legitima tais discussões como catalizadores de mudanças sociais drásticas – o fato de Keen, por exemplo, se demonstrar contrário a isso mostra
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    a fal iada f i a de velas p ese te de t o da dis uss o, o ue ost a o antagonismo entre a manutenção dos interesses de uma indústria baseando-se em poderes econômicos e judiciários contra uma contracultura desenvolvida de forma bottom-up (ainda que não seja o intuito de Keen defender a manutenção de uma indústria ou de um suposto corporativismo). O aumento da forma que as empresas se comunicam com seus clientes pode ser interpretado desse modo: o emprego de social media tem se mostrado cada vez mais necessário quando a marca quer se comunicar de forma mais direta com os consumidores por meio das redes sociais e isso dá uma sensação maior de bottom-up, apesar de não o ser de verdade. [...] O crescimento exponencial de formas mais triviais e a te io e te p ivadas de iatividade ve a ula o o pa te da cultura pública (Burgess, 2007) – como fica evidente pelo crescimento das redes sociais on-line, blogs, compartilhamento de fotos e videoblogagem; a incorporação de conteúdo gerado por usuários na lógica de serviços de veiculação públicos (até mesmo na mais recente concessão da BBC); os novos modelos de negócios associados à Web 2.0, que dependem de conteúdo e inovações ge ados po usu ios O Reill , 2005 ; e as te tativas de a as comerciais de produzirem de modo artificial o envolvimento bottom- up por meio de marketing viral (Spurgeon, 2008) – demonstra que há u ev s pa ti ipativo ais a plo e a da e to, de odo ue essas duas definições de popularidade estão convergindo (BURGESS e GREEN, 2009, p.31). A forma como o YouTube é construído mostra apenas a ponta do iceberg que é toda a prática de criação coletiva dos elementos da nossa realidade, seja tecnologias que convergem, plataformas construídas de forma descentralizada ou um MMORPG que a comunidade determina como irá funcionar o mercado dentro do jogo: como dize os auto es, o o su o o ais visto e essa ia e te o o o po to fi al a adeia de p oduç o e si o o u espaço di i o de i ovaç o e es i e to e si (BURGESS e GREEN, 2009, p.31). Talvez essa característica do mercado seja um verdadeiro exemplo de como o nosso consumo é determinado de forma bottom-up, diferente do que, segundo os autores, as marcas tentam moldar algumas vezes. De qualquer forma, o crescimento da voz ue e p esas esponsáveis por tais tecnologias vem tomando é um reflexo
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    da uilo ueeal e te a a te iza u a de o atizaç o dos eios de o u i aç o e do consumo: nossas opções a respeito do que consumir, como, onde e quando são as mais variáveis desde sempre e isso se dá pela demanda de várias pessoas estarem sendo atendidas. Querendo ou não essa pluralidade no que diz respeito às vozes tem sido responsável pela mudança do status quo, o que, como citado anteriormente vem i o oda do a fo a a tiga de faze e utiliza as te ologias e o su i ultu a. O YouTube não representa uma volisão e sim uma coevolução aliada a uma coexistência des o fo t vel e t e a tigas e ovas apli aç es, fo as e p ti as de ídia (BURGESS e GREEN, 2009, p.33). 3. O YouTube e a mídia de massa Como já dito anteriormente, o YouTube representa uma grande ruptura entre a forma convencional dos meios de comunicação e da produção de conteúdo cultural serem utilizados e consumidos por nós. Muita dessa mudança diz respeito a novos conceitos sendo introduzidos pelos jovens na sociedade, o que traz para o debate uma grande preocupação a respeito do papel que a plataforma tem dentro da vida dos jovens. Assim como o impacto que o YouTube causa nas mídias de massa, os autores buscam entender a forma como a própria mass media molda a plataforma do YouTu e. Poe e e plo, u o eito a se apli ado o de p i o idi ti o e a fo a como ele modifica o entendimento das pessoas em relação àquilo que lhes é apresentado. No caso do YouTube, a forma como a plataforma é vista pelas pessoas depende, querendo ou não, da fo a o o a ídia o ve io al se efe e a ela. U exemplo disso se dá na forma como a televisão e seus programas se referiam ao YouTube, e os autores dão exemplos no ano-novo de 2007 em Nova York onde os programas se referiram ao YouTube mostrando os vídeos mais populares da plataforma e, quando o feriado passou, os mesmos programas começaram a se referir à plataforma como algo danoso.  Pânico Midiático
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    Para os autores,a opinião popular é de ue os jove s t u e to do atu al pa a do i a as ovas te ologias, algo ue os dista ia das out as ge aç es e consequentemente aumenta o estranhamento de tais outras gerações para as práticas dos mais jovens em relação à tecnologia. Tal estranhamento é potencializado pela forma como tais tecnologias ou canais que se utilizam de tais tecnologias são divulgados po pa te da ídia o ve io al . Tais fato es o st oe o ue os auto es de o i a se p i o idi ti o no que diz respeito ao YouTube. As at ias ue se efe e pa te ais selvage do compartilhamento de vídeos moldam, de certa forma, um cenário desfavorável para a imagem da plataforma num contexto social de forma geral. São dados exemplos como de compartilhamento de vídeos de abuso sexual e violência física sendo compartilhados dentro da plataforma – algo que fere as regras de uso do serviço. Um artigo da revista VICE Brasil critica o fato de estarem vindo à tona vários relatos de linchamentos onde o ato era filmado e compartilhado na internet. Segundo o artigo, a prática não era novidade no Brasil, mas agora possuímos smartphone para g ava os atos. Segu do He Je ki s, o hipe te to est de t o e s (JENKINS, 2008, p.178), nossa capacidade de modificar os serviços de acordo com a nossa vontade, seja ela de compartilhar conteúdo grotesco ou não, não é novidade nem tem nas plataformas de compartilhamento a sua razão, mas acontecem apesar de tais plataformas. Criticar tais serviços em razão do compartilhamento de tais materiais é, ais u a vez, a fal ia da f i a de velas , o i po ta te ap e de a lida o tal conteúdo e desenvolver uma forma de combater isso. Os próprios autores citam essas questões apontando que grande parte da culpa no compartilhamento desses materiais e, consequentemente, do o st a gi e to das víti as justa e te da ídia de assa o ve io al ue faz divulgação de tais materiais – es o ue se ue e . Os vídeos ofensivos descobertos por jornalistas às vezes são comparativamente pouco assistidos antes de sua exposição na imprensa nacional ou internacional, exposição essa que atrai ainda mais atenção ao fenômeno com o qual estamos sendo encorajados a nos preocupar (BURGESS e GREEN, 2009, p.42).
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    No fi daso tas, tal p i o idi ti o diz espeito ideia que é criada a partir das informações passadas pela mídia a respeito de algum fenômeno, fato, tecnologia, prática e etc. Em termos práticos, é a ideia que a sociedade criou, de forma geral, sobre aquilo que era o YouTube antes mesmo de a plataforma ser entendida ou se estruturar de forma consistente – e tudo isso por motivos geralmente frágeis o bastante para não serem levados a sério como casos isolados de compartilhamento de conteúdo explícito que logo é retirado do ar ou que não tinha muitas visualizações antes de ser veiculado dentro da mídia de massa.  Os significados do vídeo amador Como dito anteriormente, a análise de que o modo que o YouTube age de fo a de o ti a est u pou o e uivo ada e os auto es a alisa essa fal ia a partir deste ponto. Apesar do fato de sabermos que todas as pessoas têm a mesma capacidade de fazer sucesso dentro da plataforma por disporem das mesmas ferramentas e terem a mesma capacidade de utilizar o serviço das formas disponíveis, uitas vezes as pessoas ue faze su esso v o pa a a ídia o ve io al e se tornam apenas uma peça dentro do sistema da indústria de entretenimento já bem estabelecida. Por exemplo: bandas que fazem sucesso no YouTube e vão para o mainstream – como a banda Ok Go – entram no sistema da indústria da música onde os papéis já est o e esta ele idos. Se ia o o se o so ho do indie fosse alcançar o mainstream e se tornar parte do sistema. Ou seja, no fim das contas o YouTube seria uma ferramenta para efetuar a manutenção do sistema já bem estabelecido de entretenimento e produção cultural. Burgess e Green deixam isso claro apontando a interpretação de Graeme Turner sobre isso, onde Turne a edita ue es o ua do pessoas comuns se tornam celebridades por meio de seu próprio esforço criativo, não há necessariamente transferência de poder de mídia: elas permanecem dentro do sistema de celebridades inerente à mídia de massa e por ela controlado BURGESS e GREEN, 2009, p.45).
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    Toda essa discussãose dá em relação àquilo que é denominado DIY (Do It Yourself ou Faça Você Mesmo), onde as pessoas conseguem sair do eixo comum de produção cultural e produzir seu próprio conteúdo, assim como consumir e conseguir criar uma demanda daquilo que elas querem. Para os autores, a manutenção da fama dentro de tais plataformas só é conquistada numa frequente participação na comunidade e na criação de conteúdo para a plataforma. Esse conceito abre uma possibilidade para criadores de conteúdo mais experientes em narrativas audiovisuais experimentem o formato DIY para atingir um público maior ou criar um mistério dentro da plataforma do YouTube. Apesar de os autores citarem um caso onde uma vlogger era um personagem criado por roteiristas, existe um caso mais específico onde uma suposta vlogger publicando no YouTube com o o e de usu io KeratinGarden i i iou o a al pu li a do vídeos so e cosméticos. O que chama atenção é o fato de o canal se aproveitar da história criada dentro de fóruns anônimos da internet de um personagem chamado Slenderman e introduzi-lo após algumas entradas como se realmente estivesse acontecendo aquilo com a personagem – ela tivesse criado um canal para falar sobre cosméticos e uma entidade começasse a persegui-la. As criações se dão de forma caseira utilizando apenas uma webcam e algumas e as po t teis o uito sofisti adas. Assi o o KeratinGarden , out os criadores de conteúdo dentro do universo de Slenderman e outras produções e pe i e tais do g e o Te o age da es a a ei a. O usu io Marble Hornets começou uma narrativa semelhante, apesar de já se mostrar claro que se tratava de u a p oduç o, dife e te de Ke ati Ga de ue ti ha o i tuito de pa e e eal até certo ponto. Ambos os casos movimentam vários fóruns na internet a respeito de o que irá acontecer, o que está acontecendo, o motivo de estar acontecendo e para tentar decifrar as pistas deixadas pelos roteiristas. Entretanto, os autores caracterizam criadores de conteúdo como sendo i dividualistas e i te essados uito ais e i te esses p p ios do ue a iaç o de conteúdo para uma comunidade e de forma coletiva.
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     A Guerrados Direitos Autorais Diversos serviços para divulgação de material foram criados pelas produtoras de conteúdo para combater o uso do YouTube como ferramenta de acesso à tais conteúdos, o problema nisso se dá na forma como a configuração dos serviços são feitas: o YouTube é uma plataforma onde tanto os responsáveis pelo serviço quanto a comunidade trabalham em conjunto para estruturar um ambiente de compartilhamento de conteúdo – podemos categoriza-lo como uma plataforma bottom-up por isso (?). Agindo de forma horizontal, a plataforma se mostra muito mais próxima do público do que um serviço de fornecimento de conteúdo de forma paga onde as empresas simplesmente fornecem aquilo que elas entendem, como, quando e onde elas querem numa característica top-down. Ainda que toda essa discussão a respeito daquilo que o YouTube é ou não seja muito válida, muitas vezes o que se vê é uma quebra clara de leis de direito de cópia – por parte dos usuários. O responsável pelo conteúdo, em última instância, é a plataforma do YouTube, que muitas vezes retira tais conteúdos do ar. Entretanto, um fato destacado por Burgess e Green é a característica insistente em se mostrar contrário à plataforma por pura antipatia. Os autores relatam casos onde conteúdos estavam disponíveis gratuitamente e a produtora de tais conteúdos formalizou pedidos de retirada de tais conteúdos da plataforma do YouTube. Tal prática demonstra, mais uma vez, uma necessidade das produtoras de determinar quando, onde e como o consumidor irá consumir as produções. O que a guerra dos direitos autorais demonstra de maneira especialmente clara é a complicada dupla identidade que a YouTube Inc. mantém. O YouTube precisa ser entendido como um negócio – situação na qual os argumentos da Viacom et al. Podem ser legitimados – e como uma fonte cultural cocriada por seus usuários – dentro da qual esses argumentos perdem credibilidade. A verdade é que essas duas diferentes e difíceis concepções de para que o YouTube serve são reais e coexistentes, mesmo que nem sempre de modo pacífico; em várias ocasiões, como nas disputas relacionadas a alegações de violação de direitos autorais, as falhas do terreno emergem (BURGESS e GREEN, 2009, p.58).  O YouTube como mídia de massa
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    Para os autores,apesar de todas as trocas de farpas entre as produtoras de o teúdo e a ídia o ve io al , o YouTu e levado a sério como mídia de massa quando este se coloca dentro dos usos convencionais e de forma mais central para a veiculação de informações (como quando um candidato divulga um link para assistir um debate político dentro da plataforma como sendo a sua forma convencional de divulgação para tal debate). Por fim, são citadas as formas de uso que a plataforma apresenta de forma geral entre a mídia convencional (como a entrada de jornais, revistas, canais de televisão, produtoras de filmes, editoras e etc.), quando esta entra na plataforma para divulgar conteúdo ou informações, e o público geral. Entendemos o YouTube de uma forma mais generalizada como uma plataforma que tenta se deixar ser moldada pela comunidade, direcionando apenas as diretrizes da comunidade no que diz respeito às publicações e às regras para monetização dos vídeos. Burgess e Green conseguem entregar ao leitor uma análise a respeito dos problemas que o YouTube encontra em se estabelecer dentro da internet e a forma como devemos encarar ele quando já estabelecido – e dentro de nossos bolsos, casas, televisões e etc. O YouTube não é somente mais uma empresa de mídia e não é somente uma plataforma de conteúdo criado por usuários. É mais proveitoso entender o YouTube (a empresa e a estrutura do site que fornece) como ocupante de uma função institucional – atuando como um mecanismo de coordenação entre a criatividade individual e coletiva e a produção de significado; e como um mediador entre vários discursos e ideologias divergentes voltados para o mercado e os vários discursos voltados para a audiência ou para o usuário (BURGESS e GREEN, 2009, p.60).
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    REFERÊNCIAS BURGESS, Jean eGREEN, Joshua. YouTube e a Revolução Digital: como o maior fenômeno da cultura participativa transformou a mídia e a sociedade. São Paulo: Aleph, 2009. pp. 7-60. DECLERCQ, Marie. Os Linchamentos no Brasil Não São Novidade, a Diferença É que Agora Existe o Smartphone. Disponível em: http://www.vice.com/pt_br/read/os- linchamentos-no-brasil-nao-sao-novidade-a-diferenca-e-que-agora-existe-o- smartphone Acesso em: 13 de set. de 2016 KEEN, Andrew. O Culto do Amador: como blogs, MySpace, YouTube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2009. pp. 7 - 36. MASSAROLO, João Carlos e ALVARENGA, Marcus Vinícius Tavares de. Franquia Transmídia: O Futuro da Economia Audiovisual nas Mídias Sociais. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 33, 2010, Caxias do Sul. Anais... São Paulo: Intercom, 2010.