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1
ANDRÉIA TERRAZAS VARGAS
O PRODUTO? UM CULTO AO CONSUMO.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO E ARTE
CURSO DE ARTES VISUAIS - BACHARELADO
CAMPO GRANDE - MS
2013
2
ANDRÉIA TERRAZAS VARGAS
O PRODUTO? UM CULTO AO CONSUMO.
Relatório apresentado como exigência parcial para
a obtenção do grau de Bacharel em Artes Visuais
à Banca Examinadora, da Universidade Federal
de Mato Grosso do Sul, sob a orientação do Prof.
Elomar Bakonyi.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO E ARTE
CURSO DE ARTES VISUAIS - BACHARELADO
CAMPO GRANDE - MS
2013
3
ANDRÉIA TERRAZAS VARGAS
O PRODUTO? UM CULTO AO CONSUMO.
Campo Grande, MS _____de _______________________ de 2013.
COMISSÃO EXAMINADORA
____________________________________________
Profº. Elomar Bakonyi
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
____________________________________________
Profª Sirlene Covre Leme
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
____________________________________________
Profª Zilá Soares
Artista Plástica Convidada
4
"...
Se uma pessoa perguntar durante meia
hora "eu", essa pessoa se esquece quem
é. Outras podem enlouquecer. É mais
seguro não fazer jamais perguntas -
porque nunca se atinge o âmago de uma
resposta. E porque a resposta traz em si
outra pergunta."
Clarice Lispector
5
AGRADECIMENTOS
Acima de tudo agradeço a Deus. “Sonho parece verdade quando a gente
esquece de acordar.”
Hoje, vivo uma realidade que parece um sonho, mais foi preciso muito
esforço, determinação, paciência, perseverança, ousadia e maleabilidade para
finalmente chegar até aqui, e nada disso eu conseguiria sozinha.
É difícil agradecer todas as pessoas que de algum modo, fizeram ou fazem
parte da minha vida, sendo assim primeiramente agradeço a todos.
Agradeço a todos aqueles que colaboraram para que este sonho pudesse ser
concretizado.
Agradeço os meus pais, Silvio e Carmen pela determinação e luta pela
formação tanto acadêmica quanto moral.
Agradeço aos meus irmãos que por mais difícil que fossem as circunstancias
estiveram sempre ao meu lado me amparando e me ajudando.
Aos meus amigos, que mesmo quando distantes estiveram sempre presentes
em minha vida.
E é claro, não podia faltar, agradeço ao meu orientador – Elomar Bakonyi.
6
RESUMO
A moda como conceito fruto de uma sociedade impensante, onde um grupo seleto
utiliza-se da arte como meio para fazer a massa indiferente ser forçada a pensar. O
uso de uma instalação, um modo de arte contemporânea como forma de demonstrar
o corpo como um objeto de desejo e de consumo, algo que acontece cada vez mais
no mundo capitalista. Para meio de demonstração utiliza-se a moda da década de
80, visto que esta foi a grande revolução quando em meio a uma crise econômica
houve um aumento de consumo de roupas e acessórios, como forma de demonstrar
um status e valorizar a pessoa mesmo que ilusoriamente.
PALAVRAS CHAVE: instalação, consumo, objeto e desejo.
7
SUMÁRIO
LISTA DE FIGURA....................................................................................................08
INTRODUÇÃO...........................................................................................................12
CAP. I DESENVOLVIMENTO TEORICO
1.1 A MODA NA ARTE CONTEMPORANEA.............................................................14
1.2 ARTE CONTEMPORANEA..................................................................................17
1.2.1 INSTALAÇAO..................................................................................................17
1.3 TENDENCIA CONCEITUAL ...............................................................................19
1.3.1 HISTORIA DA MODA......................................................................................22
1.3.2 ANOS 80 - OS CRIADORES DO PRÊT-À-PORTER......................................23
CAP.II METODOLOGIA
2.1DA MODA A INSTALAÇÃO..................................................................................27
2.2PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS.............................................................28
2.2.1 MONTAGEM DA OBRA....................................................................................29
CAP.III SOBRE A OBRA
3.1 ANÁLISE DA OBRA.............................................................................................33
CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................35
BIBLIOGRAFIA..........................................................................................................36
8
LISTA DE FIGURAS
Figura 01 – Vik Muniz: Monalisa feita de pasta de amendo-
im................................................................................................................................14
Figura 02 – Vik Muniz: e foto do vídeo clipe da abertura da nove-
la “Passione”...............................................................................................................14
Figura 03 - Guerra de La Paz.....................................................15
Figura 04 – Soundsuits...............................................................16
Figura 05 – Marcelo Sommer: Vestido Vermelho.......................16
Figura 06– Duchamp: Roda de Bicicleta (1913)........................18
Figura 07– Duchamp: A fonte.....................................................20
9
Figura 08 – Joseph Kosuth: Um e três cadeiras (1965).............21
Figura 09 - Joseph Kosuth: Um e três cadeiras (165)..............21
Figura 10 – Coco Chanel...........................................................22
Figura 11 – Princesa Diana.....................................................23
Figura 12 – Xuxa........................................................................24
Figura 13 – Exemplo de cores....................................................25
Figura 14 - Foto tirada em 1987 para um editorial da revista Desfi-
le.................................................................................................................................27
10
Figura 15 – Modelo de oratório..................................................29
Figura 16 – Guarda Roupas.......................................................29
Figura 17– Guarda roupa revestido com cobertores.................30
Figura 18– Acumulo de peças...................................................30
Figura 19- Guarda roupa revestido com as peças.....................31
Figura 20 – Espelho...................................................................31
11
Figura 21 – Primeiro teste espelho............................................32
Figura 22 – Ultimo teste/ Obra concluída........................32
12
INTRODUÇÃO
Através de pesquisas realizadas acerca da história da moda e sua toda trans-
formação, avalia-se a revolução da moda durante todo o século XX, assim ela se
torna intensamente apropriada para transmitir a sensibilidade da busca de ideais de
beleza feminina e assim transpor para a instalação.
Com o conhecimento da história da moda num período em que ela tornava-se
cada vez mais importante, alcançando seu auge na década de 80, tanto de maneira
cultural quanto economicamente, e começou a ser vista como fator fundamental para
a compreensão da sociedade contemporânea. Assim as roupas tornam-se reflexos
de cada época. Esse tema é sensível e muito fascinante e está longe de ser fútil,
constituindo um espelho fiel das mudanças sociais e culturais que ocorreram neste
século. Sem contar que a cada mais a intervenção da arte por estilistas vem virando
moda, então porque não fazer o contrario e fazer uso da moda para inserção de
questionamentos e compreensão da arte. A opção pela instalação veio de uma bus-
ca por uma maneira de interação do espectador com a obra de forma plena, estabe-
lecendo assim uma maior compreensão do conceito nela inserido, o qual no momen-
to em que o espectador de depara diante ao culto ao consumo, ele se encontra no
questionamento de quem realmente é o produto ali cultuado. Ele passa de especta-
dor a parte essencial a obra.
Este relatório esta dividido em três capítulos subdivididos.
No primeiro capitulo, apresentam-se as bases teóricas que fundamentam o
trabalho, sobre a arte contemporânea, e a tendência conceitual, citando alguns
artistas que serviram de referência para estruturação da obra. Relata também
estudos feitos sobre a temática evolutiva da história da moda feminina na década de
80, período descrito como época de experimentações, inovações e transformações,
fator de extrema importância para composição final da obra.
Em seguida, no segundo capitulo, fala-se sobre a metodologia. Como será a
transposição da moda para a instalação fazendo uso de objetos orgânicos para a
composição e compreensão da mesma, o passo a passo para montagem da obra,
técnicas e materiais.
Já no terceiro capitulo se encontra uma analise da obra. Explicando assim
formas, contrastes e conceitos nela inseridos.
13
E por último, se encontram as considerações finais e referencias bibliográficas
que foram utilizadas ao longo do processo de pesquisa.
14
CAP. I DESENVOLVIMENTO TEORICO
Moda e costume existem desde o tempo das cavernas, quando os
grupamentos humanos eram diferenciados não só pela aparência física, mas
também pelo que recobria seus corpos. Desta forma, neste capítulo abordaremos
sobre uma breve história da moda (sec.XX), anos 80, arte contemporânea e a
tendência conceitual. Também neste capitulo são citados alguns artistas
pesquisados, os quais foram necessários para execução do processo de criação.
1.1 A MODA NA ARTE CONTEMPORÂNEA
Nos últimos tempos tem-se visto muito a utilização de materiais descartados
na produção de arte contemporânea, materiais diversos que em muitos casos iriam
parar em aterros sanitários. No Brasil, o artista mais conhecido no trato com materi-
ais descartados é o artista Vik Muniz, sua contemporaneidade está na utilização de
materiais e objetos inusitados na formação de imagens que normalmente são releitu-
ras de grandes mestres da pintura: Leonardo da Vinci, Claude Monet, Albert Dürrer,
Gerhard Richter, Andy Warhol, entre outros.
Figura 01 – Vik Muniz: Monalisa feita Figura 02- Vik Muniz: Foto do vídeo clipe
de pasta de amendoim. da abertura da novela “Passione”.
15
Em meio a essa produção de arte a partir de objetos descartados, está a utili-
zação de roupas e acessórios referente a moda. Nesse cenário alguns artistas se
destacam, como é o caso de Alain Guerra e Neraldo de La Paz e Nick Cave.
Alain Guerra e Neraldo de La Paz são artistas cubanos residentes em Miami,
desenvolveram esculturas a partir de roupas velhas coletadas em lixos e brechós.
Guerra de La Paz é uma série onde os artistas buscam transformar bens dispensa-
dos pela sociedade em obras com temas históricos e ícones clássicos através da
experimentação. Segundo os próprios artistas, suas obras levam o público a pensar
no destino do lixo produzido em massa, mas também usa como referencia de traba-
lho a política do conflito moderno e o consumismo ao redor dos símbolos de fé.
Figura 03 - Guerra de La Paz
Já o trabalho de Nick Cave consiste na utilização de diversos materiais alia-
dos à conhecimentos em tecidos para a produção de suas esculturas, o que o deixa
relativamente com o pé na moda. Com base no corpo em movimento, o artista criou
uma série de esculturas semelhantes a roupas conceituais intitulada Soundsuits
(sound= som, suits=roupas), nome dado ao perceber que ao serem movimentas ge-
ravam um som característico.
16
Figura 04 - Soundsuits
Seguindo a ideia de união entre a arte e moda, o estilista Marcelo Sommer
montou a instalação Vestido Vermelho no Museu da Língua Portuguesa, num evento
que busca democratizar o acesso á cultura de moda.
Figura 05 – Marcelo Sommer: Vestido Vermelho
17
1.2 ARTE CONTEMPORÂNEA
É um período artístico que surgiu na segunda metade do século XX e se es-
tende até aos dias de hoje.
Quando se fala em arte contemporânea, certamente não é para especificar
tudo que ocorreu em um determinado período da historia, mas sim fazer referência
àquilo que nos propõe um pensamento sobre a própria arte, um questionamento que
analisa criticamente a pratica visual.
Como dispositivo para tal pensamento, a arte usa novos significados ao se
apropriar de imagens já usadas anteriormente, na história da arte, mas que também
habitam nosso cotidiano.
Desta forma o belo contemporâneo não procura mais o novo, nem quer cau-
sar espanto, como foi visto nas vanguardas modernistas, ela vem pra propor o es-
tranhamento ou ate mesmo questionar a sua linguagem e sua leitura (ARGAN,
2006).
O artista agora possui uma nova mentalidade, seu trabalho passa exigir tam-
bém do espectador uma atenção maior, até ousaria dizer: um olhar que pensa. O
que existe agora é uma pluralidade de estilos, de linguagens, contraditórios e inde-
pendentes, convivendo em paralelo.
Isso foi analisado como um momento de crise de valores tradicionais das ar-
tes e de emergência de uma arte que se renova na relação com uma cultura trans-
formada pelo pós-guerra. Essa transformação surge devido a relação que se esta-
belece entre arte e ciência e que está na base do que Argan (2006) chamou de crise
das artes como “ciência européia. Em outras palavras, se observa uma crise da ra-
cionalidade ao mesmo tempo em que se observa, Harvey (1993, p.45), “uma profun-
da mudança na estrutura do sentimento”.
1.2.1 INSTALAÇÃO
Como já dizia BOSCO; PECCININI, a instalação “é um fazer artístico dos mais
relevantes no panorama das artes.(...) embora já bastante discutida, conta ainda
com frágil definição e com muitos pontos a serem pesquisados de forma incisiva.”
Deste modo coube a mim entender que as instalações não permitem rótulos únicos,
18
possuindo um caráter experimental. A intenção do artista, o conceito utilizado, tudo
já faz parte da essência da obra. Na medida em que a instalação emerge no contex-
to da Arte Conceitual. A obra deste modo é volátil, efêmera, absorve e constrói es-
paços a sua volta e os destrói tudo ao mesmo tempo. E é essa desconstrução de
ideias, de conceitos já pré-estabelecidos que está dentro da práxis artística da qual a
instalação usa para se afirmar como obra.
Essa presença efêmera, passageira se materializa por sua vez apenas na
memória do espectador, cria-se assim uma verdade espacial em lugar e tempo de-
terminado. O tempo passa a possuir um sentido de não-tempo, nos propiciando ao
mesmo tempo um gozo imediato ao apreciarmos a obra e um permanecendo pleno
nas nossas recordações. Essa questão de tempo a torna a um espelho do próprio
tempo, o que nos leva ao questionamento da interação com a obra. A esse fazer
artístico temos exemplos de precursores com Duchamp e os ambientes surrealistas.
A americana Elena Filipovic,define Duchamp como o primeiro "artista-pensador",
segundo FILIPOVIC:
"Ele considerava as ideias e a conceituação tão importantes quanto a obra de
arte em si. Isso influenciou a arte das gerações posteriores a ele. Ele também
colocou às claras o poder das instituições que, ao criar o espaço para a arte,
decidem que o que está dentro é arte, e o que está fora, não".
Figura 06 – Duchamp: Roda de Bicicleta (1913)
19
Na arte contemporânea a sua permanência torna-se destacável, chegando a
ser considerada uma das mais importantes tendências atuais. Em meio a isso a ins-
talação tornou-se mais complexa, utilizando-se de diversas mídias e passou a real-
çar cada dia mais a interatividade e a curiosidade com o público. E é essa combina-
ção com outras linguagens que faz o público se surpreender e até mesmo participar
de maneira mais ativa com a obra, tendo em vista que ele é o ultimo objeto da pró-
pria obra, ou seja, sem essa interação a obra não existiria em sua plenitude. E é esta
participação que ocasiona o gozo pela mesma de maneira arrebatadora, o que em
muitos casos chega a tornar tal experiência incômoda ou mesmo perturbadora.
1.1 TENDENCIA CONCEITUAL
Em meados da década de 60, teve inicio um vale-tudo em arte que durou cer-
ca de uma década. Segundo Stangos, este vale-tudo, conhecido como Arte Concei-
tual, ou de ideias, ou de informação, fazia parte de uma rejeição geral desse artigo
de luxo único, permanente e, no entanto, portátil se tornando desta maneira vendá-
vel que é o tradicional objeto de arte.
Arte Conceitual é uma forma de arte visual baseada na destruição das duas
principais características da arte tal como ela chegou até nós na cultura oci-
dental, ou seja, a produção de objetos que pudessem ser vistos e o olhar
contemplativo, propriamente dito. (WOOD, 2004, p. 6)
Essa tendência da arte, geralmente, desconstrói o objeto artístico como sendo
o “algo”, o objeto físico e o remonta na ideia, no que o objeto, dito como obra, pode
representar. Isso torna a ideia (o que ela significa), a obra real.
Surgiu na história da arte com Marcel Duchamp (1887 - 1968), na primeira
metade do século XX, quando o artista provocou debate entre os críticos e intelectu-
ais de arte em apresentar sua obra “A Fonte” em uma exposição em Nova York. Du-
champ expõe um mictório e o batiza como fonte, consagrando-o como obra de arte,
no momento em que assina o objeto fabricado em série.
20
Figura 07 – Duchamp: A fonte
Esse feito de Duchamp rompe definitivamente as limitações das artes visuais,
não só em seu sentido físico (materiais, superfícies, técnicas, a obra em si), mas
também em seu significado.
A arte conceitual, como passou a ser conhecida foi uma das muitas alternati-
vas inter-relacionadas e parcialmente sobrepostas às formas tradicionais e práticas
de exposição.
Segundo STANGOS (2000, p.226) de todas as tendências que povoavam a
cena artística no final da década de 60 e começo da de 70, a Arte Conceitual foi a
que adotou a postura mais radical e a que, de fato, permanece hoje mais vívida na
memória e na influência.
O conceito ressurge como objeto de arte na segunda metade dos anos 1960,
onde o artista Joseph Kosuth interpreta que a análise linguística marcaria o fim da
filosofia tradicional, e a obra de arte conceitual, dispensando a feitura de objetos,
seria uma proposição analítica, próxima de uma tautologia. Como, por exemplo, em
Uma e Três Cadeiras, ele apresenta o objeto cadeira, uma fotografia dela e uma de-
finição do dicionário de cadeira impressa sobre papel.
21
Figura 08 – Joseph Kosuth: Figura 09 – Joseph Kosuth:
Um e três cadeiras (1965) Um e três cadeiras
De todos os movimentos artísticos do século XX, a Arte conceitual foi, talvez,
o mais genuinamente internacional e de mais rápido crescimento.
O artista Sol LeWitt (1928 – 2007) foi um dos mais importantes artistas con-
ceituais e definiu-a como:
“Em arte conceptual, a ideia ou conceito é o aspecto mais importante da o-
bra. Significa que todo o planejamento e decisões são tomadas antecipa-
damente, sendo a execução um assunto secundário. A ideia torna-se na
máquina que origina a arte.”
O conceito tem prioridade em relação à aparência da obra. O mais importante
são as ideias, a execução da obra fica em segundo plano e tem pouca relevância.
Além disso, não há exigência de que a obra seja construída pelas mãos do artista.
Ele pode muitas vezes delegar o trabalho físico a uma pessoa que tenha habilidade
técnica específica. O que realmente importa é a invenção da obra, o conceito, que é
elaborado antes de sua materialização.
Arte Conceitual foi a primeira brecha na fachada da infalibilidade abstrata: o
mais recente movimento artístico que se proclamou vanguarda, o último so-
bre o qual se podia argumentar sobre seu status como arte, assinalou não
obstante o “moderno”, um período em que jovens artistas, em todos os mei-
os de expressão, parecem preocupados com a imagem e seu significado.
(STANGOS, 2000, p.234)
Pode-se dizer que a arte conceitual é uma tentativa de revisão da noção de
obra de arte arraigada na cultura ocidental. A arte deixa de ser primordialmente vi-
sual feita para ser olhada, a ser considerada como ideia e pensamento.
22
1.4 HISTÓRIA DA MODA (séc. XX)
O uso de roupas é considerado na maior parte do mundo parte do bom senso
e da ética humana, guiado por valores sociais, sendo considerada indispensável pe-
la maioria das pessoas, especialmente, em lugares públicos.
As vestimentas são usadas por questões sociais, culturais, ou por necessida-
des. Outros objetos que são carregados ao invés de serem vestidos sobre certas
partes do corpo são chamados de acessórios, como por exemplo, sombrinhas, bol-
sas, mochilas, etc. (RODRIGUES, 2007, p.37).
No decorrer da história, diferentes civilizações vestiram roupas mais por moti-
vos culturais, como decoração ou ornamentos, do que por necessidade.
Muitas pessoas vestem certo estilo de roupas buscando serem aceitas por um
grupo social, outras usam como um modo de protesto.
Ao longo do século XIX, a industrialização de roupas e tecidos espalhou-se
para outros cantos do mundo. A indústria têxtil ficou firmemente estabelecida nos
Estados Unidos, França, e, mais tarde, a Alemanha e o Japão. Porém, grande parte
das pessoas ainda preferia ter suas roupas feitas por artesões, quando podiam pa-
gar por elas. Já nos lugares mais isolados, pessoas fabricavam roupas e tecidos em
sua própria residência.
Segundo Laver (1989) a moda do século XX é a continuação do século ante-
rior, tendo seu real inicio somente em 1914, com a eclosão da 1ªGrande Guerra.
Figura 10 – Coco Chanel
23
A década de 20 foi marcada pela estilista Gabrielle Bonheur Chanel (Fig. 01),
mais conhecida como Coco Chanel, com seus cortes retos, capas, blazers, cardigãs,
colares compridos, boinas e cabelos curtos. A criação do vestido preto foi o seu mai-
or sucesso, estando presente inclusive nos dias de hoje. Responsável pela criação
do Prêt-à-Porter. (JONES, 2005, p.19).
Desde então a moda passa por uma serie de mudanças tornando-se cada
mais importante, desta forma as roupas nos passam a ser o reflexos de cada época,
tanto economicamente quanto culturalmente, obtendo seu ápice na década de 80.
1.4.1 ANOS 80 - OS CRIADORES DO PRÊT-À-PORTER
Em 1980 o look exagerado, poderoso, para as novas fortunas do mercado de
ações, onde os ombros são marcados por ombreiras enormes, cinturas e quadris
também são marcados nessa época. As mulheres se tornam adeptas dos básicos
inspirados nos guarda-roupas masculinos. O blazer é a peça de resistência. Qual-
quer coisa com a grife Chanel é projeto de desejo. A minissaia reina soberana e a
princesa Diana começa a ditar moda.
Lady Diana saía da plebe para virar a princesa de Gales, mais conhecida
como a Princesa do Povo. Mulheres de todas as idades sonhavam ser como ela, foi
sem duvida nenhuma o símbolo de elegância da moda dos anos 80. Hoje, mesmo
após sua morte seu estilo impecável ecoa como sinônimo de elegância e estilo to-
talmente contemporâneos.
Figura 11 – Princesa Diana
24
Todo mundo ao mesmo tempo, sem que ninguém fosse dono da palavra,
Poe-se a partir de janeiro de 1985, a falar dos “anos 80”. [...] essa verdadei-
ra introspecção de um decênio espelha a moda que vive um grande mo-
mento. Jamais ela esteve tão em moda. Valor maior daquilo que já não se
denuncia como a sociedade de consumo, mas que se celebra como a “soci-
edade do espetáculo”. (BAUDOT, 2008, p.276).
Sem duvida nenhuma será eternamente lembrada como a década do exage-
ro, onde a ostentação se torna uma marca registrada. Os seriados de televisão, co-
mo Dallas, mostravam mulheres glamorosas, cobertas de jóias e por todo luxo que o
dinheiro podia pagar. E dessa forma a moda apressou-se por responder a todos es-
ses desejos, criando um estilo único e nada simplório. Todas as roupas de grifes
famosas tinham estampados no maior tamanho possível seus logos. O jeans alcan-
ça seu ápice, e ganha status. Os shoppings se tornam o paraíso dos consumistas.
Como descreve Baudot não bastava ser bem sucedido e bem vestido, ter um corpo
bonito e saudável era essencial. Assim, numa continuidade pelo amor aos esportes,
explodiram academias por todos os cantos, onde seus freqüentadores usavam po-
lainas e collants para as aulas de aeróbica, com uma temática comum: ginástica,
poder, sucesso.
Em 1986, em seu primeiro LP, Xuxa adotou esse visual mais despojado, fa-
zendo uso do tênis e da calça fuso. E como não falar da Xuxa ? Ela além de hipnoti-
zar os baixinhos, cativou os adultos, e é claro, lançou sua própria moda. Todas as
adolescentes da época queriam ser loiras e de franjinhas.
Figura 12 – Xuxa / Capa primeiro LP
25
Deste modo esse espírito esportivo influenciou as roupas, levando moletons e
a calça fuseaux para fora das academias e consagrando o tênis como calçado para
toda hora. Ressurgindo também a moda dos calçados baixos, como mocassins, até
mesmo multicoloridos ou mesmo clássicos.
O look molhado, conquistado pelo uso de gels e mousses para cabelo, fez a
cabeça de homens e mulheres, juntamente com os permanentes fartos e topetes
altíssimos.
A cartela de cores era vibrante, dotada de tons fortes e fluorescentes, com
jogos de tons e contrastes. A modelagem ampla na maioria das vezes. As mulheres,
que nesse momento já almejavam por cargos de chefia no mercado de trabalho, e
desta forma adotavam um visual masculino. Cintura alta e ombros marcados por
ombreiras era a silhueta de toda década, ao lado de pregas e drapeados, tanto para
noite quanto para o dia.
Figura 13 – Exemplo de cores
A música se consagra como formadora de opinião e estilo. Em um universo
tecnológico, a moda também se inspirou no Japão, emergente com suas novidades
e em tudo que fosse eletrônico; Neons, computadores, automáticos.
O personagem do jovem criador surgido na década de 60 transforma-se num
demiurgo. O mesmo substitui a estrela do rock, enquanto as top models destrona-
vam as atrizes, fazendo dos desfiles verdadeiros espetáculos. Tudo era experimen-
26
tação, inovação e transformação. Até na auto-costura tudo era meio barroco, exube-
rante e dramático.
A idéia de imagem como meio de comunicação foi cristalizada nessa época,
onde o corpo nada mais era que uma vitrine de tudo que viesse à própria cabeça.
Daí então quando alguém perguntava a respeito da moda, respondia-se claramente:
“sou eu que faço minha moda”.
Este conceito esta presente até hoje, na costumização-mania, na mistura de estilos
e até na própria negação da moda enquanto norma, presente em movimentos como
o “grunge”, no inicio dos anos 90.
A releitura de antigos clichês, a exploração das ambiguidades, a reflexão so-
bre conceitos como bom gosto e mau gosto, assim como a mistura de tendências a
partir dos anos 80, provaram que todos os limites são relativos e que a moda não é
mais que a projeção de nossos sonhos, ideias e aspirações, e que, afinal, tudo é
mesmo possível no mundo da criação. (BAUDOT, 2008).
27
CAP.II METODOLOGIA
Neste capítulo são relatados os processos de pesquisa, relacionando-os ate
chegar ao conceito final, essência da obra. Também será abordada a pesquisa por
materiais/objetos que farão parte da obra, assim como todos os procedimentos me-
todológicos usados para a elaboração e conclusão da produção artística.
2.1 DA MODA A INSTALAÇÃO
Baseado nas pesquisas feitas acerca da moda nos anos 80, onde a moda
obteve sua expansão em plena a uma crise econômica. Ao mesmo tempo em que a
população perdia o seu poder de consumo, a moda por sua vez desafiando a tudo
obteve seu auge, expressando com suas peças justamente o contrario do momento,
com um vestuário alegre, esportivo e versátil e ao mesmo tempo extremamente ou-
sado como mostra a foto abaixo:
Figura 14 – Foto tirada em 1987 para um editorial da revista Desfile
28
É com base neste período em que o exagero e a ostentação se tornaram ob-
jeto de desejo, onde a imagem e o culto ao corpo se faz valer acima de tudo, sendo
veiculada pelos meios de comunicação em massa, traz consigo um forte apelo visual
tornando-se fatores essenciais para a pesquisa desenvolvida para a produção artís-
ticas.
2.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Para o desenvolvimento do projeto, na primeira etapa foi feito um levantamen-
to bibliográfico de livros, revistas ou de outras publicações que se relacionavam com
a moda no século XX, mas direcionada a década de 80 e a arte contemporânea.
Servindo desta forma como material para fundamentação teórica e necessária para
a elaboração conceitual da obra.
Após o estudo teórico sobre o tema das obras, e se valendo da linguagem
adotada para expressá-la, a próxima etapa foi a pesquisa por materiais que se rela-
cionassem conceitualmente á ideia, tendo como base os manifestos da moda na
década de 80.
Vale lembrar que a principio a ideia da obra seria a construção de uma caixa
cênica de modo que nela estariam dispostas esculturas vivas, ou seja, pessoas
transformadas em esculturas de maneira a simbolizarem manequins vestidos, repre-
sentando por sua vez um objeto de consumo. Devido a incerteza se alcançaria a
questão plástica esperada a ideia foi descartada, deixando apenas o conceito nela
presente.
Seguindo essa linha de questionamento da pessoa objeto, cheguei ao esboço
da obra final, um altar/oratório em dimensões grandes fazendo referencia ao culto do
consumo ou do culto ao consumo.
Pensando na ambiguidade possível de alguns objetos e na sua relação com a
ideia da obra, cheguei a conclusão dos seguintes objetos: um guarda roupa antigo
(semelhante a um oratório), roupas e acessórios que fizessem alusão a década de
80, e um espelho o qual foi feita adesivagem com códigos de barra.
29
FIGURA 15 – Modelo de oratório
2.2.1 MONTAGEM DA OBRA
A partir dos objetos estabelecidos, iniciei a montagem da instalação. Come-
çando com o guarda roupa. Primeiramente retirei as partes do seu interior que foram
dispensáveis para a obra, no caso as prateleiras, gavetas e cabideiros, de modo que
ao final deste processo ele se tornou uma caixa.
Figura 16 – Guarda Roupa
30
Em seguida, a caixa foi revestida com cobertores onde as peças foram ane-
xadas criando uma sensação de estofamento em suas laterais, gerando uma sensa-
ção visual de acumulo excessivo. O revestimento do interior foi feito com o auxilio de
grampos para a primeira camada que ficou em contato com a madeira e posterior-
mente algumas peças foram também costuradas a camada inicial, de modo que
alcance o objetivo proposto.
Figura 17 – Guarda roupa revestido com cobertores
Figura 18 – Acumulo de roupas
Depois de pronto o estofamento, percebi que ficou num pouco carregado de-
mais a maneira que coloquei as peças, simplesmente jogadas e sem nenhum plane-
jamento, então refiz o processo, só que dessa vez colocando as peças dispostas
como se estivesse em uma vitrine, de maneira que o expectador conseguisse visua-
liza-las de forma mais agradável.
31
Figura 19 - Guarda roupa revestido com as peças.
O próximo passo foi a inserção de alguns acessórios junto as peças já dispos-
tas, dando um acabamento mais refinado a obra.
Finalmente com o corpo do oratório finalizado, o espelho já adesivado, peça
fundamental para concretização do conceito foi inserido ao centro da obra.
Figura 20 – espelho
Sendo que na primeira tentativa eu fiz uso de um espelho menor ( 60x40cm ),
no entanto não gostei do resultado, como ele era pequeno, para que o expectador
conseguisse se visualizar no mesmo ele teria que ficar em cima de uma banqueta, o
32
que gerou um desconforto meu ao contemplar a obra. Então finalizando o processo
fiz o uso de uma espelho maior, alcançando meus obejtos, tanto visuais quanto con-
ceituais.
Figura 21 – Primeiro teste espelho
Figura 22 – Ultimo teste/ Obra concluída.
Desta forma a obra é na realidade todo esse conjunto, onde o espectador ao
mesmo tempo que de certa forma faz um culto ao consumo diante do altar, ele entra
no questionamento perante ao espelho de quem realmente é o objeto.
33
CAP.III SOBRE A OBRA
Neste capitulo, apresente-se a obra, o que ela representa e qual o olhar a se
fazer sobre a mesma, de maneira a deixar claro o meu objetivo, fazendo uma anali-
se da poética e da construção elaborada da composição.
3.1 ANÁLISE DA OBRA
Em minha produção prática fiz uma união entre a moda da década de 80 com
a instalação em si, intitulando-a “ O PRODUTO? UM CULTO AO CONSUMO“.
Definindo primeiramente o conceito, no caso O culto ao consumo de moda
contrapondo quem realmente é o objeto de consumo, eu compro um peça ou eu me
vendo por ideal de beleza estabelecido por terceiros, sendo que o conceito é primor-
dial e essencial a obra em si. Visto que o consumo é cada dia mais estimulado pela
sociedade, crendo que junto ao objeto adquirimos também valores simbólicos.
Assim o guarda roupa, símbolo máximo desse desejo de compra, um altar
feminino como muitos diriam, assume esse valor de culto e se torna um altar propri-
amente dito.
Contudo ao nos depararmos a ele, ao invés de imagens sacras encontramos
um exagero de peças, por vezes até mesmo desagradável aos olhos de muitos. E-
xagero esse que, por muitas vezes foi realçado na década de 80, onde tudo na mo-
da teve grandes proporções, beirando o grotesco em alguns casos. Então porque os
anos 80? Porque como foi visto em minhas pesquisas ao longo do processo que
nesse período que a moda independente da crise que a cercava teve sua grande
ascensão, onde mulheres claramente buscavam uma ostentação de valores não ne-
cessariamente reais. Um culto exagerado ao corpo, e aos padrões de beleza moti-
vadas por uma sociedade fútil e consumista. Consumismo esse que para alguns foi
dito como uma maneira de fuga a realidade, uma maneira de parar a inquietação
momentânea de uma forma alegre. Um consumo claramente simbólico, que enfati-
zou uma relação exterior com os objetos, sendo diretamente vinculado ao desejo de
status.
A Obra contudo em forma completa não só nos remete essa ideia de culto ao
consumismo mais busca sim o questionamento do que realmente é o objeto de con-
sumo. Nos deparamos diariamente a essa questão ao vermos cada dia mais pesso-
34
as buscando conforto em objetos que a inserem de maneira mais segura numa soci-
edade hipócrita e altamente consumista.
O espelho ao centro da obra vem para nos levar justamente a essa questão,
ao nos depararmos a ele a imagem nele refletida nos mostra nós mesmos, sobretu-
do com um código de barra inserido no próprio corpo. Levando-nos diretamente a
pergunta, estou aqui cultuando o consumo ou sou apenas mais um objeto? O espec-
tador passa então a não só contemplar a obra, adentrando em seu contexto tanto
filosófico quanto físico, sendo que neste momento sua imagem refletida no espelho
torna-se parte crucial da obra.
35
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O julgamento preconceituoso próprio do ser humano nos leva a adotar uma
postura perante a sociedade, postura essa que não possuímos de fato.
A possibilidade de uma linguagem artística expressar essa inquietação com
esse pensamento me levou a escolher a instalação para execução do tema, dando
unidade a obra apresentada como trabalho final do curso de Artes Visuais.
Relacionando o consumo exacerbado em busca de um valor inalcançável ge-
rando o questionamento da pessoa como nada mais que o próprio objeto de consu-
mo me levou a unir duas grandes tendências, a moda e as instalações. Ambas ainda
muito rotuladas ao meu ver de maneira um tanto incoerente e porque não preconcei-
tuosa.
Para executar o projeto, foi sem dúvida nenhuma preciso conciliar a ação com
o conhecimento teórico. Através desse exercício foi possível estabelecer alguns pa-
radigmas que me ajudaram na compreensão da obra em si e do fazer artístico. Re-
saltando também a compreensão de como uma produção estabelece de forma inti-
ma uma relação aos acontecimentos culturais, sociais e econômicos de modo geral,
e regem o cenário que a cerca, influenciando o pensamento e gerando por sua vez
novas tendências.
E foi nesse âmbito por respostas, num percurso de descobertas, que desen-
volvi um objetivo a ser cumprido, e para colocá-lo em prática, utilizei como referência
a tendência conceitual e a moda da década de 80.
A obra em si é um conjunto de objetos orgânicos e interpretações por eles
gerados, tornando o espectador parte da obra, sem o qual a mesma não estaria
completa.
Desta forma esse conjunto de magia e realidade nos força a pensar no que
realmente importa.
Assim pude expressar na minha obra o meu fazer artístico e realmente con-
quistar meus objetivos, numa instalação conceitual, que não apenas faz uma apolo-
gia a moda, mas que contém minha intenção e meu empenho de tentar transmitir
uma certa indignação a um universo fútil onde a beleza não está no que realmente
importa e sim numa subjetividade inserida no contexto social.
36
BIBLIOGRAFIAS
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râneos. Editora Companhia das Letras, 2006.
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Naify, 2005.
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f. (Apostila do curso de graduação de Moda). UNIDERP, 2007.
STANGOS, Nikos. Conceitos da arte moderna. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed.
2000.
WOOD, Paul. Movimentos da Arte Moderna: Arte Conceitual. Editora Cosac
Naify, 2004.

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  • 1. 1 ANDRÉIA TERRAZAS VARGAS O PRODUTO? UM CULTO AO CONSUMO. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO E ARTE CURSO DE ARTES VISUAIS - BACHARELADO CAMPO GRANDE - MS 2013
  • 2. 2 ANDRÉIA TERRAZAS VARGAS O PRODUTO? UM CULTO AO CONSUMO. Relatório apresentado como exigência parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Artes Visuais à Banca Examinadora, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, sob a orientação do Prof. Elomar Bakonyi. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO E ARTE CURSO DE ARTES VISUAIS - BACHARELADO CAMPO GRANDE - MS 2013
  • 3. 3 ANDRÉIA TERRAZAS VARGAS O PRODUTO? UM CULTO AO CONSUMO. Campo Grande, MS _____de _______________________ de 2013. COMISSÃO EXAMINADORA ____________________________________________ Profº. Elomar Bakonyi Universidade Federal de Mato Grosso do Sul ____________________________________________ Profª Sirlene Covre Leme Universidade Federal de Mato Grosso do Sul ____________________________________________ Profª Zilá Soares Artista Plástica Convidada
  • 4. 4 "... Se uma pessoa perguntar durante meia hora "eu", essa pessoa se esquece quem é. Outras podem enlouquecer. É mais seguro não fazer jamais perguntas - porque nunca se atinge o âmago de uma resposta. E porque a resposta traz em si outra pergunta." Clarice Lispector
  • 5. 5 AGRADECIMENTOS Acima de tudo agradeço a Deus. “Sonho parece verdade quando a gente esquece de acordar.” Hoje, vivo uma realidade que parece um sonho, mais foi preciso muito esforço, determinação, paciência, perseverança, ousadia e maleabilidade para finalmente chegar até aqui, e nada disso eu conseguiria sozinha. É difícil agradecer todas as pessoas que de algum modo, fizeram ou fazem parte da minha vida, sendo assim primeiramente agradeço a todos. Agradeço a todos aqueles que colaboraram para que este sonho pudesse ser concretizado. Agradeço os meus pais, Silvio e Carmen pela determinação e luta pela formação tanto acadêmica quanto moral. Agradeço aos meus irmãos que por mais difícil que fossem as circunstancias estiveram sempre ao meu lado me amparando e me ajudando. Aos meus amigos, que mesmo quando distantes estiveram sempre presentes em minha vida. E é claro, não podia faltar, agradeço ao meu orientador – Elomar Bakonyi.
  • 6. 6 RESUMO A moda como conceito fruto de uma sociedade impensante, onde um grupo seleto utiliza-se da arte como meio para fazer a massa indiferente ser forçada a pensar. O uso de uma instalação, um modo de arte contemporânea como forma de demonstrar o corpo como um objeto de desejo e de consumo, algo que acontece cada vez mais no mundo capitalista. Para meio de demonstração utiliza-se a moda da década de 80, visto que esta foi a grande revolução quando em meio a uma crise econômica houve um aumento de consumo de roupas e acessórios, como forma de demonstrar um status e valorizar a pessoa mesmo que ilusoriamente. PALAVRAS CHAVE: instalação, consumo, objeto e desejo.
  • 7. 7 SUMÁRIO LISTA DE FIGURA....................................................................................................08 INTRODUÇÃO...........................................................................................................12 CAP. I DESENVOLVIMENTO TEORICO 1.1 A MODA NA ARTE CONTEMPORANEA.............................................................14 1.2 ARTE CONTEMPORANEA..................................................................................17 1.2.1 INSTALAÇAO..................................................................................................17 1.3 TENDENCIA CONCEITUAL ...............................................................................19 1.3.1 HISTORIA DA MODA......................................................................................22 1.3.2 ANOS 80 - OS CRIADORES DO PRÊT-À-PORTER......................................23 CAP.II METODOLOGIA 2.1DA MODA A INSTALAÇÃO..................................................................................27 2.2PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS.............................................................28 2.2.1 MONTAGEM DA OBRA....................................................................................29 CAP.III SOBRE A OBRA 3.1 ANÁLISE DA OBRA.............................................................................................33 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................35 BIBLIOGRAFIA..........................................................................................................36
  • 8. 8 LISTA DE FIGURAS Figura 01 – Vik Muniz: Monalisa feita de pasta de amendo- im................................................................................................................................14 Figura 02 – Vik Muniz: e foto do vídeo clipe da abertura da nove- la “Passione”...............................................................................................................14 Figura 03 - Guerra de La Paz.....................................................15 Figura 04 – Soundsuits...............................................................16 Figura 05 – Marcelo Sommer: Vestido Vermelho.......................16 Figura 06– Duchamp: Roda de Bicicleta (1913)........................18 Figura 07– Duchamp: A fonte.....................................................20
  • 9. 9 Figura 08 – Joseph Kosuth: Um e três cadeiras (1965).............21 Figura 09 - Joseph Kosuth: Um e três cadeiras (165)..............21 Figura 10 – Coco Chanel...........................................................22 Figura 11 – Princesa Diana.....................................................23 Figura 12 – Xuxa........................................................................24 Figura 13 – Exemplo de cores....................................................25 Figura 14 - Foto tirada em 1987 para um editorial da revista Desfi- le.................................................................................................................................27
  • 10. 10 Figura 15 – Modelo de oratório..................................................29 Figura 16 – Guarda Roupas.......................................................29 Figura 17– Guarda roupa revestido com cobertores.................30 Figura 18– Acumulo de peças...................................................30 Figura 19- Guarda roupa revestido com as peças.....................31 Figura 20 – Espelho...................................................................31
  • 11. 11 Figura 21 – Primeiro teste espelho............................................32 Figura 22 – Ultimo teste/ Obra concluída........................32
  • 12. 12 INTRODUÇÃO Através de pesquisas realizadas acerca da história da moda e sua toda trans- formação, avalia-se a revolução da moda durante todo o século XX, assim ela se torna intensamente apropriada para transmitir a sensibilidade da busca de ideais de beleza feminina e assim transpor para a instalação. Com o conhecimento da história da moda num período em que ela tornava-se cada vez mais importante, alcançando seu auge na década de 80, tanto de maneira cultural quanto economicamente, e começou a ser vista como fator fundamental para a compreensão da sociedade contemporânea. Assim as roupas tornam-se reflexos de cada época. Esse tema é sensível e muito fascinante e está longe de ser fútil, constituindo um espelho fiel das mudanças sociais e culturais que ocorreram neste século. Sem contar que a cada mais a intervenção da arte por estilistas vem virando moda, então porque não fazer o contrario e fazer uso da moda para inserção de questionamentos e compreensão da arte. A opção pela instalação veio de uma bus- ca por uma maneira de interação do espectador com a obra de forma plena, estabe- lecendo assim uma maior compreensão do conceito nela inserido, o qual no momen- to em que o espectador de depara diante ao culto ao consumo, ele se encontra no questionamento de quem realmente é o produto ali cultuado. Ele passa de especta- dor a parte essencial a obra. Este relatório esta dividido em três capítulos subdivididos. No primeiro capitulo, apresentam-se as bases teóricas que fundamentam o trabalho, sobre a arte contemporânea, e a tendência conceitual, citando alguns artistas que serviram de referência para estruturação da obra. Relata também estudos feitos sobre a temática evolutiva da história da moda feminina na década de 80, período descrito como época de experimentações, inovações e transformações, fator de extrema importância para composição final da obra. Em seguida, no segundo capitulo, fala-se sobre a metodologia. Como será a transposição da moda para a instalação fazendo uso de objetos orgânicos para a composição e compreensão da mesma, o passo a passo para montagem da obra, técnicas e materiais. Já no terceiro capitulo se encontra uma analise da obra. Explicando assim formas, contrastes e conceitos nela inseridos.
  • 13. 13 E por último, se encontram as considerações finais e referencias bibliográficas que foram utilizadas ao longo do processo de pesquisa.
  • 14. 14 CAP. I DESENVOLVIMENTO TEORICO Moda e costume existem desde o tempo das cavernas, quando os grupamentos humanos eram diferenciados não só pela aparência física, mas também pelo que recobria seus corpos. Desta forma, neste capítulo abordaremos sobre uma breve história da moda (sec.XX), anos 80, arte contemporânea e a tendência conceitual. Também neste capitulo são citados alguns artistas pesquisados, os quais foram necessários para execução do processo de criação. 1.1 A MODA NA ARTE CONTEMPORÂNEA Nos últimos tempos tem-se visto muito a utilização de materiais descartados na produção de arte contemporânea, materiais diversos que em muitos casos iriam parar em aterros sanitários. No Brasil, o artista mais conhecido no trato com materi- ais descartados é o artista Vik Muniz, sua contemporaneidade está na utilização de materiais e objetos inusitados na formação de imagens que normalmente são releitu- ras de grandes mestres da pintura: Leonardo da Vinci, Claude Monet, Albert Dürrer, Gerhard Richter, Andy Warhol, entre outros. Figura 01 – Vik Muniz: Monalisa feita Figura 02- Vik Muniz: Foto do vídeo clipe de pasta de amendoim. da abertura da novela “Passione”.
  • 15. 15 Em meio a essa produção de arte a partir de objetos descartados, está a utili- zação de roupas e acessórios referente a moda. Nesse cenário alguns artistas se destacam, como é o caso de Alain Guerra e Neraldo de La Paz e Nick Cave. Alain Guerra e Neraldo de La Paz são artistas cubanos residentes em Miami, desenvolveram esculturas a partir de roupas velhas coletadas em lixos e brechós. Guerra de La Paz é uma série onde os artistas buscam transformar bens dispensa- dos pela sociedade em obras com temas históricos e ícones clássicos através da experimentação. Segundo os próprios artistas, suas obras levam o público a pensar no destino do lixo produzido em massa, mas também usa como referencia de traba- lho a política do conflito moderno e o consumismo ao redor dos símbolos de fé. Figura 03 - Guerra de La Paz Já o trabalho de Nick Cave consiste na utilização de diversos materiais alia- dos à conhecimentos em tecidos para a produção de suas esculturas, o que o deixa relativamente com o pé na moda. Com base no corpo em movimento, o artista criou uma série de esculturas semelhantes a roupas conceituais intitulada Soundsuits (sound= som, suits=roupas), nome dado ao perceber que ao serem movimentas ge- ravam um som característico.
  • 16. 16 Figura 04 - Soundsuits Seguindo a ideia de união entre a arte e moda, o estilista Marcelo Sommer montou a instalação Vestido Vermelho no Museu da Língua Portuguesa, num evento que busca democratizar o acesso á cultura de moda. Figura 05 – Marcelo Sommer: Vestido Vermelho
  • 17. 17 1.2 ARTE CONTEMPORÂNEA É um período artístico que surgiu na segunda metade do século XX e se es- tende até aos dias de hoje. Quando se fala em arte contemporânea, certamente não é para especificar tudo que ocorreu em um determinado período da historia, mas sim fazer referência àquilo que nos propõe um pensamento sobre a própria arte, um questionamento que analisa criticamente a pratica visual. Como dispositivo para tal pensamento, a arte usa novos significados ao se apropriar de imagens já usadas anteriormente, na história da arte, mas que também habitam nosso cotidiano. Desta forma o belo contemporâneo não procura mais o novo, nem quer cau- sar espanto, como foi visto nas vanguardas modernistas, ela vem pra propor o es- tranhamento ou ate mesmo questionar a sua linguagem e sua leitura (ARGAN, 2006). O artista agora possui uma nova mentalidade, seu trabalho passa exigir tam- bém do espectador uma atenção maior, até ousaria dizer: um olhar que pensa. O que existe agora é uma pluralidade de estilos, de linguagens, contraditórios e inde- pendentes, convivendo em paralelo. Isso foi analisado como um momento de crise de valores tradicionais das ar- tes e de emergência de uma arte que se renova na relação com uma cultura trans- formada pelo pós-guerra. Essa transformação surge devido a relação que se esta- belece entre arte e ciência e que está na base do que Argan (2006) chamou de crise das artes como “ciência européia. Em outras palavras, se observa uma crise da ra- cionalidade ao mesmo tempo em que se observa, Harvey (1993, p.45), “uma profun- da mudança na estrutura do sentimento”. 1.2.1 INSTALAÇÃO Como já dizia BOSCO; PECCININI, a instalação “é um fazer artístico dos mais relevantes no panorama das artes.(...) embora já bastante discutida, conta ainda com frágil definição e com muitos pontos a serem pesquisados de forma incisiva.” Deste modo coube a mim entender que as instalações não permitem rótulos únicos,
  • 18. 18 possuindo um caráter experimental. A intenção do artista, o conceito utilizado, tudo já faz parte da essência da obra. Na medida em que a instalação emerge no contex- to da Arte Conceitual. A obra deste modo é volátil, efêmera, absorve e constrói es- paços a sua volta e os destrói tudo ao mesmo tempo. E é essa desconstrução de ideias, de conceitos já pré-estabelecidos que está dentro da práxis artística da qual a instalação usa para se afirmar como obra. Essa presença efêmera, passageira se materializa por sua vez apenas na memória do espectador, cria-se assim uma verdade espacial em lugar e tempo de- terminado. O tempo passa a possuir um sentido de não-tempo, nos propiciando ao mesmo tempo um gozo imediato ao apreciarmos a obra e um permanecendo pleno nas nossas recordações. Essa questão de tempo a torna a um espelho do próprio tempo, o que nos leva ao questionamento da interação com a obra. A esse fazer artístico temos exemplos de precursores com Duchamp e os ambientes surrealistas. A americana Elena Filipovic,define Duchamp como o primeiro "artista-pensador", segundo FILIPOVIC: "Ele considerava as ideias e a conceituação tão importantes quanto a obra de arte em si. Isso influenciou a arte das gerações posteriores a ele. Ele também colocou às claras o poder das instituições que, ao criar o espaço para a arte, decidem que o que está dentro é arte, e o que está fora, não". Figura 06 – Duchamp: Roda de Bicicleta (1913)
  • 19. 19 Na arte contemporânea a sua permanência torna-se destacável, chegando a ser considerada uma das mais importantes tendências atuais. Em meio a isso a ins- talação tornou-se mais complexa, utilizando-se de diversas mídias e passou a real- çar cada dia mais a interatividade e a curiosidade com o público. E é essa combina- ção com outras linguagens que faz o público se surpreender e até mesmo participar de maneira mais ativa com a obra, tendo em vista que ele é o ultimo objeto da pró- pria obra, ou seja, sem essa interação a obra não existiria em sua plenitude. E é esta participação que ocasiona o gozo pela mesma de maneira arrebatadora, o que em muitos casos chega a tornar tal experiência incômoda ou mesmo perturbadora. 1.1 TENDENCIA CONCEITUAL Em meados da década de 60, teve inicio um vale-tudo em arte que durou cer- ca de uma década. Segundo Stangos, este vale-tudo, conhecido como Arte Concei- tual, ou de ideias, ou de informação, fazia parte de uma rejeição geral desse artigo de luxo único, permanente e, no entanto, portátil se tornando desta maneira vendá- vel que é o tradicional objeto de arte. Arte Conceitual é uma forma de arte visual baseada na destruição das duas principais características da arte tal como ela chegou até nós na cultura oci- dental, ou seja, a produção de objetos que pudessem ser vistos e o olhar contemplativo, propriamente dito. (WOOD, 2004, p. 6) Essa tendência da arte, geralmente, desconstrói o objeto artístico como sendo o “algo”, o objeto físico e o remonta na ideia, no que o objeto, dito como obra, pode representar. Isso torna a ideia (o que ela significa), a obra real. Surgiu na história da arte com Marcel Duchamp (1887 - 1968), na primeira metade do século XX, quando o artista provocou debate entre os críticos e intelectu- ais de arte em apresentar sua obra “A Fonte” em uma exposição em Nova York. Du- champ expõe um mictório e o batiza como fonte, consagrando-o como obra de arte, no momento em que assina o objeto fabricado em série.
  • 20. 20 Figura 07 – Duchamp: A fonte Esse feito de Duchamp rompe definitivamente as limitações das artes visuais, não só em seu sentido físico (materiais, superfícies, técnicas, a obra em si), mas também em seu significado. A arte conceitual, como passou a ser conhecida foi uma das muitas alternati- vas inter-relacionadas e parcialmente sobrepostas às formas tradicionais e práticas de exposição. Segundo STANGOS (2000, p.226) de todas as tendências que povoavam a cena artística no final da década de 60 e começo da de 70, a Arte Conceitual foi a que adotou a postura mais radical e a que, de fato, permanece hoje mais vívida na memória e na influência. O conceito ressurge como objeto de arte na segunda metade dos anos 1960, onde o artista Joseph Kosuth interpreta que a análise linguística marcaria o fim da filosofia tradicional, e a obra de arte conceitual, dispensando a feitura de objetos, seria uma proposição analítica, próxima de uma tautologia. Como, por exemplo, em Uma e Três Cadeiras, ele apresenta o objeto cadeira, uma fotografia dela e uma de- finição do dicionário de cadeira impressa sobre papel.
  • 21. 21 Figura 08 – Joseph Kosuth: Figura 09 – Joseph Kosuth: Um e três cadeiras (1965) Um e três cadeiras De todos os movimentos artísticos do século XX, a Arte conceitual foi, talvez, o mais genuinamente internacional e de mais rápido crescimento. O artista Sol LeWitt (1928 – 2007) foi um dos mais importantes artistas con- ceituais e definiu-a como: “Em arte conceptual, a ideia ou conceito é o aspecto mais importante da o- bra. Significa que todo o planejamento e decisões são tomadas antecipa- damente, sendo a execução um assunto secundário. A ideia torna-se na máquina que origina a arte.” O conceito tem prioridade em relação à aparência da obra. O mais importante são as ideias, a execução da obra fica em segundo plano e tem pouca relevância. Além disso, não há exigência de que a obra seja construída pelas mãos do artista. Ele pode muitas vezes delegar o trabalho físico a uma pessoa que tenha habilidade técnica específica. O que realmente importa é a invenção da obra, o conceito, que é elaborado antes de sua materialização. Arte Conceitual foi a primeira brecha na fachada da infalibilidade abstrata: o mais recente movimento artístico que se proclamou vanguarda, o último so- bre o qual se podia argumentar sobre seu status como arte, assinalou não obstante o “moderno”, um período em que jovens artistas, em todos os mei- os de expressão, parecem preocupados com a imagem e seu significado. (STANGOS, 2000, p.234) Pode-se dizer que a arte conceitual é uma tentativa de revisão da noção de obra de arte arraigada na cultura ocidental. A arte deixa de ser primordialmente vi- sual feita para ser olhada, a ser considerada como ideia e pensamento.
  • 22. 22 1.4 HISTÓRIA DA MODA (séc. XX) O uso de roupas é considerado na maior parte do mundo parte do bom senso e da ética humana, guiado por valores sociais, sendo considerada indispensável pe- la maioria das pessoas, especialmente, em lugares públicos. As vestimentas são usadas por questões sociais, culturais, ou por necessida- des. Outros objetos que são carregados ao invés de serem vestidos sobre certas partes do corpo são chamados de acessórios, como por exemplo, sombrinhas, bol- sas, mochilas, etc. (RODRIGUES, 2007, p.37). No decorrer da história, diferentes civilizações vestiram roupas mais por moti- vos culturais, como decoração ou ornamentos, do que por necessidade. Muitas pessoas vestem certo estilo de roupas buscando serem aceitas por um grupo social, outras usam como um modo de protesto. Ao longo do século XIX, a industrialização de roupas e tecidos espalhou-se para outros cantos do mundo. A indústria têxtil ficou firmemente estabelecida nos Estados Unidos, França, e, mais tarde, a Alemanha e o Japão. Porém, grande parte das pessoas ainda preferia ter suas roupas feitas por artesões, quando podiam pa- gar por elas. Já nos lugares mais isolados, pessoas fabricavam roupas e tecidos em sua própria residência. Segundo Laver (1989) a moda do século XX é a continuação do século ante- rior, tendo seu real inicio somente em 1914, com a eclosão da 1ªGrande Guerra. Figura 10 – Coco Chanel
  • 23. 23 A década de 20 foi marcada pela estilista Gabrielle Bonheur Chanel (Fig. 01), mais conhecida como Coco Chanel, com seus cortes retos, capas, blazers, cardigãs, colares compridos, boinas e cabelos curtos. A criação do vestido preto foi o seu mai- or sucesso, estando presente inclusive nos dias de hoje. Responsável pela criação do Prêt-à-Porter. (JONES, 2005, p.19). Desde então a moda passa por uma serie de mudanças tornando-se cada mais importante, desta forma as roupas nos passam a ser o reflexos de cada época, tanto economicamente quanto culturalmente, obtendo seu ápice na década de 80. 1.4.1 ANOS 80 - OS CRIADORES DO PRÊT-À-PORTER Em 1980 o look exagerado, poderoso, para as novas fortunas do mercado de ações, onde os ombros são marcados por ombreiras enormes, cinturas e quadris também são marcados nessa época. As mulheres se tornam adeptas dos básicos inspirados nos guarda-roupas masculinos. O blazer é a peça de resistência. Qual- quer coisa com a grife Chanel é projeto de desejo. A minissaia reina soberana e a princesa Diana começa a ditar moda. Lady Diana saía da plebe para virar a princesa de Gales, mais conhecida como a Princesa do Povo. Mulheres de todas as idades sonhavam ser como ela, foi sem duvida nenhuma o símbolo de elegância da moda dos anos 80. Hoje, mesmo após sua morte seu estilo impecável ecoa como sinônimo de elegância e estilo to- talmente contemporâneos. Figura 11 – Princesa Diana
  • 24. 24 Todo mundo ao mesmo tempo, sem que ninguém fosse dono da palavra, Poe-se a partir de janeiro de 1985, a falar dos “anos 80”. [...] essa verdadei- ra introspecção de um decênio espelha a moda que vive um grande mo- mento. Jamais ela esteve tão em moda. Valor maior daquilo que já não se denuncia como a sociedade de consumo, mas que se celebra como a “soci- edade do espetáculo”. (BAUDOT, 2008, p.276). Sem duvida nenhuma será eternamente lembrada como a década do exage- ro, onde a ostentação se torna uma marca registrada. Os seriados de televisão, co- mo Dallas, mostravam mulheres glamorosas, cobertas de jóias e por todo luxo que o dinheiro podia pagar. E dessa forma a moda apressou-se por responder a todos es- ses desejos, criando um estilo único e nada simplório. Todas as roupas de grifes famosas tinham estampados no maior tamanho possível seus logos. O jeans alcan- ça seu ápice, e ganha status. Os shoppings se tornam o paraíso dos consumistas. Como descreve Baudot não bastava ser bem sucedido e bem vestido, ter um corpo bonito e saudável era essencial. Assim, numa continuidade pelo amor aos esportes, explodiram academias por todos os cantos, onde seus freqüentadores usavam po- lainas e collants para as aulas de aeróbica, com uma temática comum: ginástica, poder, sucesso. Em 1986, em seu primeiro LP, Xuxa adotou esse visual mais despojado, fa- zendo uso do tênis e da calça fuso. E como não falar da Xuxa ? Ela além de hipnoti- zar os baixinhos, cativou os adultos, e é claro, lançou sua própria moda. Todas as adolescentes da época queriam ser loiras e de franjinhas. Figura 12 – Xuxa / Capa primeiro LP
  • 25. 25 Deste modo esse espírito esportivo influenciou as roupas, levando moletons e a calça fuseaux para fora das academias e consagrando o tênis como calçado para toda hora. Ressurgindo também a moda dos calçados baixos, como mocassins, até mesmo multicoloridos ou mesmo clássicos. O look molhado, conquistado pelo uso de gels e mousses para cabelo, fez a cabeça de homens e mulheres, juntamente com os permanentes fartos e topetes altíssimos. A cartela de cores era vibrante, dotada de tons fortes e fluorescentes, com jogos de tons e contrastes. A modelagem ampla na maioria das vezes. As mulheres, que nesse momento já almejavam por cargos de chefia no mercado de trabalho, e desta forma adotavam um visual masculino. Cintura alta e ombros marcados por ombreiras era a silhueta de toda década, ao lado de pregas e drapeados, tanto para noite quanto para o dia. Figura 13 – Exemplo de cores A música se consagra como formadora de opinião e estilo. Em um universo tecnológico, a moda também se inspirou no Japão, emergente com suas novidades e em tudo que fosse eletrônico; Neons, computadores, automáticos. O personagem do jovem criador surgido na década de 60 transforma-se num demiurgo. O mesmo substitui a estrela do rock, enquanto as top models destrona- vam as atrizes, fazendo dos desfiles verdadeiros espetáculos. Tudo era experimen-
  • 26. 26 tação, inovação e transformação. Até na auto-costura tudo era meio barroco, exube- rante e dramático. A idéia de imagem como meio de comunicação foi cristalizada nessa época, onde o corpo nada mais era que uma vitrine de tudo que viesse à própria cabeça. Daí então quando alguém perguntava a respeito da moda, respondia-se claramente: “sou eu que faço minha moda”. Este conceito esta presente até hoje, na costumização-mania, na mistura de estilos e até na própria negação da moda enquanto norma, presente em movimentos como o “grunge”, no inicio dos anos 90. A releitura de antigos clichês, a exploração das ambiguidades, a reflexão so- bre conceitos como bom gosto e mau gosto, assim como a mistura de tendências a partir dos anos 80, provaram que todos os limites são relativos e que a moda não é mais que a projeção de nossos sonhos, ideias e aspirações, e que, afinal, tudo é mesmo possível no mundo da criação. (BAUDOT, 2008).
  • 27. 27 CAP.II METODOLOGIA Neste capítulo são relatados os processos de pesquisa, relacionando-os ate chegar ao conceito final, essência da obra. Também será abordada a pesquisa por materiais/objetos que farão parte da obra, assim como todos os procedimentos me- todológicos usados para a elaboração e conclusão da produção artística. 2.1 DA MODA A INSTALAÇÃO Baseado nas pesquisas feitas acerca da moda nos anos 80, onde a moda obteve sua expansão em plena a uma crise econômica. Ao mesmo tempo em que a população perdia o seu poder de consumo, a moda por sua vez desafiando a tudo obteve seu auge, expressando com suas peças justamente o contrario do momento, com um vestuário alegre, esportivo e versátil e ao mesmo tempo extremamente ou- sado como mostra a foto abaixo: Figura 14 – Foto tirada em 1987 para um editorial da revista Desfile
  • 28. 28 É com base neste período em que o exagero e a ostentação se tornaram ob- jeto de desejo, onde a imagem e o culto ao corpo se faz valer acima de tudo, sendo veiculada pelos meios de comunicação em massa, traz consigo um forte apelo visual tornando-se fatores essenciais para a pesquisa desenvolvida para a produção artís- ticas. 2.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Para o desenvolvimento do projeto, na primeira etapa foi feito um levantamen- to bibliográfico de livros, revistas ou de outras publicações que se relacionavam com a moda no século XX, mas direcionada a década de 80 e a arte contemporânea. Servindo desta forma como material para fundamentação teórica e necessária para a elaboração conceitual da obra. Após o estudo teórico sobre o tema das obras, e se valendo da linguagem adotada para expressá-la, a próxima etapa foi a pesquisa por materiais que se rela- cionassem conceitualmente á ideia, tendo como base os manifestos da moda na década de 80. Vale lembrar que a principio a ideia da obra seria a construção de uma caixa cênica de modo que nela estariam dispostas esculturas vivas, ou seja, pessoas transformadas em esculturas de maneira a simbolizarem manequins vestidos, repre- sentando por sua vez um objeto de consumo. Devido a incerteza se alcançaria a questão plástica esperada a ideia foi descartada, deixando apenas o conceito nela presente. Seguindo essa linha de questionamento da pessoa objeto, cheguei ao esboço da obra final, um altar/oratório em dimensões grandes fazendo referencia ao culto do consumo ou do culto ao consumo. Pensando na ambiguidade possível de alguns objetos e na sua relação com a ideia da obra, cheguei a conclusão dos seguintes objetos: um guarda roupa antigo (semelhante a um oratório), roupas e acessórios que fizessem alusão a década de 80, e um espelho o qual foi feita adesivagem com códigos de barra.
  • 29. 29 FIGURA 15 – Modelo de oratório 2.2.1 MONTAGEM DA OBRA A partir dos objetos estabelecidos, iniciei a montagem da instalação. Come- çando com o guarda roupa. Primeiramente retirei as partes do seu interior que foram dispensáveis para a obra, no caso as prateleiras, gavetas e cabideiros, de modo que ao final deste processo ele se tornou uma caixa. Figura 16 – Guarda Roupa
  • 30. 30 Em seguida, a caixa foi revestida com cobertores onde as peças foram ane- xadas criando uma sensação de estofamento em suas laterais, gerando uma sensa- ção visual de acumulo excessivo. O revestimento do interior foi feito com o auxilio de grampos para a primeira camada que ficou em contato com a madeira e posterior- mente algumas peças foram também costuradas a camada inicial, de modo que alcance o objetivo proposto. Figura 17 – Guarda roupa revestido com cobertores Figura 18 – Acumulo de roupas Depois de pronto o estofamento, percebi que ficou num pouco carregado de- mais a maneira que coloquei as peças, simplesmente jogadas e sem nenhum plane- jamento, então refiz o processo, só que dessa vez colocando as peças dispostas como se estivesse em uma vitrine, de maneira que o expectador conseguisse visua- liza-las de forma mais agradável.
  • 31. 31 Figura 19 - Guarda roupa revestido com as peças. O próximo passo foi a inserção de alguns acessórios junto as peças já dispos- tas, dando um acabamento mais refinado a obra. Finalmente com o corpo do oratório finalizado, o espelho já adesivado, peça fundamental para concretização do conceito foi inserido ao centro da obra. Figura 20 – espelho Sendo que na primeira tentativa eu fiz uso de um espelho menor ( 60x40cm ), no entanto não gostei do resultado, como ele era pequeno, para que o expectador conseguisse se visualizar no mesmo ele teria que ficar em cima de uma banqueta, o
  • 32. 32 que gerou um desconforto meu ao contemplar a obra. Então finalizando o processo fiz o uso de uma espelho maior, alcançando meus obejtos, tanto visuais quanto con- ceituais. Figura 21 – Primeiro teste espelho Figura 22 – Ultimo teste/ Obra concluída. Desta forma a obra é na realidade todo esse conjunto, onde o espectador ao mesmo tempo que de certa forma faz um culto ao consumo diante do altar, ele entra no questionamento perante ao espelho de quem realmente é o objeto.
  • 33. 33 CAP.III SOBRE A OBRA Neste capitulo, apresente-se a obra, o que ela representa e qual o olhar a se fazer sobre a mesma, de maneira a deixar claro o meu objetivo, fazendo uma anali- se da poética e da construção elaborada da composição. 3.1 ANÁLISE DA OBRA Em minha produção prática fiz uma união entre a moda da década de 80 com a instalação em si, intitulando-a “ O PRODUTO? UM CULTO AO CONSUMO“. Definindo primeiramente o conceito, no caso O culto ao consumo de moda contrapondo quem realmente é o objeto de consumo, eu compro um peça ou eu me vendo por ideal de beleza estabelecido por terceiros, sendo que o conceito é primor- dial e essencial a obra em si. Visto que o consumo é cada dia mais estimulado pela sociedade, crendo que junto ao objeto adquirimos também valores simbólicos. Assim o guarda roupa, símbolo máximo desse desejo de compra, um altar feminino como muitos diriam, assume esse valor de culto e se torna um altar propri- amente dito. Contudo ao nos depararmos a ele, ao invés de imagens sacras encontramos um exagero de peças, por vezes até mesmo desagradável aos olhos de muitos. E- xagero esse que, por muitas vezes foi realçado na década de 80, onde tudo na mo- da teve grandes proporções, beirando o grotesco em alguns casos. Então porque os anos 80? Porque como foi visto em minhas pesquisas ao longo do processo que nesse período que a moda independente da crise que a cercava teve sua grande ascensão, onde mulheres claramente buscavam uma ostentação de valores não ne- cessariamente reais. Um culto exagerado ao corpo, e aos padrões de beleza moti- vadas por uma sociedade fútil e consumista. Consumismo esse que para alguns foi dito como uma maneira de fuga a realidade, uma maneira de parar a inquietação momentânea de uma forma alegre. Um consumo claramente simbólico, que enfati- zou uma relação exterior com os objetos, sendo diretamente vinculado ao desejo de status. A Obra contudo em forma completa não só nos remete essa ideia de culto ao consumismo mais busca sim o questionamento do que realmente é o objeto de con- sumo. Nos deparamos diariamente a essa questão ao vermos cada dia mais pesso-
  • 34. 34 as buscando conforto em objetos que a inserem de maneira mais segura numa soci- edade hipócrita e altamente consumista. O espelho ao centro da obra vem para nos levar justamente a essa questão, ao nos depararmos a ele a imagem nele refletida nos mostra nós mesmos, sobretu- do com um código de barra inserido no próprio corpo. Levando-nos diretamente a pergunta, estou aqui cultuando o consumo ou sou apenas mais um objeto? O espec- tador passa então a não só contemplar a obra, adentrando em seu contexto tanto filosófico quanto físico, sendo que neste momento sua imagem refletida no espelho torna-se parte crucial da obra.
  • 35. 35 CONSIDERAÇÕES FINAIS O julgamento preconceituoso próprio do ser humano nos leva a adotar uma postura perante a sociedade, postura essa que não possuímos de fato. A possibilidade de uma linguagem artística expressar essa inquietação com esse pensamento me levou a escolher a instalação para execução do tema, dando unidade a obra apresentada como trabalho final do curso de Artes Visuais. Relacionando o consumo exacerbado em busca de um valor inalcançável ge- rando o questionamento da pessoa como nada mais que o próprio objeto de consu- mo me levou a unir duas grandes tendências, a moda e as instalações. Ambas ainda muito rotuladas ao meu ver de maneira um tanto incoerente e porque não preconcei- tuosa. Para executar o projeto, foi sem dúvida nenhuma preciso conciliar a ação com o conhecimento teórico. Através desse exercício foi possível estabelecer alguns pa- radigmas que me ajudaram na compreensão da obra em si e do fazer artístico. Re- saltando também a compreensão de como uma produção estabelece de forma inti- ma uma relação aos acontecimentos culturais, sociais e econômicos de modo geral, e regem o cenário que a cerca, influenciando o pensamento e gerando por sua vez novas tendências. E foi nesse âmbito por respostas, num percurso de descobertas, que desen- volvi um objetivo a ser cumprido, e para colocá-lo em prática, utilizei como referência a tendência conceitual e a moda da década de 80. A obra em si é um conjunto de objetos orgânicos e interpretações por eles gerados, tornando o espectador parte da obra, sem o qual a mesma não estaria completa. Desta forma esse conjunto de magia e realidade nos força a pensar no que realmente importa. Assim pude expressar na minha obra o meu fazer artístico e realmente con- quistar meus objetivos, numa instalação conceitual, que não apenas faz uma apolo- gia a moda, mas que contém minha intenção e meu empenho de tentar transmitir uma certa indignação a um universo fútil onde a beleza não está no que realmente importa e sim numa subjetividade inserida no contexto social.
  • 36. 36 BIBLIOGRAFIAS ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contempo- râneos. Editora Companhia das Letras, 2006. BAUDOT, François. A Moda do Século. 4ªed. São Paulo: Cosac Naify, 2008. DESFILE. Rio de Janeiro: Bloch, 1987. FIELL, Charlotte & Peter. Design do Século XX. Lisboa: Taschen, 2001. HONNEF, Klaus. Pop Art. Editor Taschen, 2004 JONES, Sue Jenkyn. Fashion Design: manual do estilista. São Paulo: Cosac Naify, 2005. MOUTINHO, Maria Rita. A Moda no Século XX. São Paulo: Senac, 2000. POLLINI, Denise. Breve História da Moda. São Paulo: Ed. Claridade, 2007. RODRIGUES, Selma M. História da Moda: Curso sequencial de moda. 2007. 112 f. (Apostila do curso de graduação de Moda). UNIDERP, 2007. STANGOS, Nikos. Conceitos da arte moderna. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed. 2000. WOOD, Paul. Movimentos da Arte Moderna: Arte Conceitual. Editora Cosac Naify, 2004.