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DIOGO LUCIANO
“ARTESUCATARIA”: UMA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA COM
SUCATAS
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
CURSO DE GRADUAÇÃO EM ARTES VISUAIS - BACHARELADO
CAMPO GRANDE – MS
NOVEMBRO DE 2014
1
DIOGO LUCIANO
“ARTESUCATARIA”: UMA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA COM
SUCATAS
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel em Artes
Visuais, sob a orientação da Profa.
Maria Alice Portorossi.
Área de Concentração: Artes Visuais.
Campo Grande – MS
Novembro – 2014
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AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiro a Deus, pela oportunidade de estar vivo e com saúde;
À minha mãe e meu pai por terem me gerado, especialmente minha mãe
que de cima está olhando por mim;
À minha avó e meu tio e tias, por terem cuidado de mim e me educado;
A todos os que sempre acreditaram em mim e em meu potencial dentro
e fora de sala de aula.
A todos os professores da instituição: alguns conhecimento se
estenderam para além das salas de aula e vou levar para a vida inteira. Alguns
serão eternos amigos;
A todos os colegas de classe, em especial Lúcia e Érica;
Ao Walter por ceder seu espaço e auxiliar na confecção das peças.
A todos o meu muito obrigado.
3
RESUMO
A vida contemporânea é marcada pelo consumo e pela condição descartável
de muitos materiais. A sucata representa não apenas um problema ambiental,
mas também uma espécie de retrato daquilo que a vida dos indivíduos mostrou
ser sem lugar e uso em sua rotina. O material descartado, por seu volume,
possibilidades e sentido, representa um substrato que pode ser considerado na
arte e a escultura é uma das expressões que acolhem o seu uso. Na
versatilidade da escultura, este trabalho apresenta uma produção de arte e
intervenção urbana com materiais contemporâneos que serviram à mobilidade
e agilidade da vida, mas que foram descartados. Materiais que serviram para a
caminhada e não foram mais considerados no decorrer do processo e
terminaram por serem ressignificados em produtos de arte na série
“Artesucataria”, que é uma reflexão sobre os caminhos e reinvenções do ser,
do ter e do valer. Os olhares de descarte foram redesenhados pela arte e
receberam novos contextos e sentidos para que pudessem atingir ao
observador com uma nova postura, a dos descartes que retornam para
promover uma reflexão sobre a existência, suas posses e desafios. As obras
analisam a jornada da vida e suas reflexões, o valor do trabalho e do esforço, a
solidão e os amigos e os desafios da jornada humana, em expressões
subjetivas de etapas e sentimentos que formam a existência, como o amor, os
sonhos, o abandono, a construção. O objetivo foi realizar uma intervenção de
transformação com a sucata das antigas “mobilidades” (carros, motos,
bicicletas) e posses (materiais de construção, acessórios descartados e
similares), a fim de mostrar a capacidade de renovação e remodelação de tudo
o que existe, tomando por referência artistas da arte moderna e
contemporânea, com sua base criativa livre e pensamento / técnicas híbridas.
Palavras-chave: Arte. Escultura. Sucata.
4
LISTA DE FIGURAS
Figura 1- CALDER, Alexander. Dobradura com disco vermelho,
1973.......................................................................................
18
Figura 2- LEIRNER, Felícia. Pássaros, 1976....................................... 19
Figura 3- CRAVO JUNIOR, Mário. Sem Título, s.d.............................. 19
Figura 4- TORRES, Caciporé. A grande coluna, s.d. .......................... 20
Figura 5- ESCULTOR, Dimas. Cavalo de Ferro, 2012......................... 21
Figura 6- ESCULTOR, Dimas. Moto de sucata, 2012.......................... 21
Figura 7- Obra de Paulo Eppling, s.d. .................................................. 22
Figura 8- Obra de Vick Muniz, 2009 .................................................... 23
Figura 9- Obra Renascer Etapa I.......................................................... 25
Figura 10- Obra Renascer Etapa II ........................................................ 26
Figura 11- Obra Renascer Obra Renascer Etapa III ............................. 26
Figura 12- Caminhos da Vida ................................................................ 27
Figura 13- “Prisões” em esboço ............................................................. 28
Figura 14- “Prisões” real ........................................................................ 29
Figura 15- “Soma” – se você se unir (?), poderá se tornar o que quiser
(!) .......................................................................................... 30
Figura 16- “Finitude” .............................................................................. 31
5
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO................................................................................................... 6
CAPÍTULO I - A “ARTESUCATARIA”.............................................................. 7
1.1 SOLDA NA ESCULTURA ...................................................................... 13
1.1.1 A solda............................................................................................. 13
1.1.2 O uso da solda na arte e na série “Artesucataria”....................... 15
CAPÍTULO II - SÍMBOLOS E COMPONENTES CENTRAIS DE
ARTESUCATARIA .......................................................................................... 17
2.1 REFERÊNCIAS TÉCNICAS E DE ESTILO............................................ 17
CAPÍTULO III - PROCESSO CRIATIVO E FINALIZAÇÃO DA SÉRIE ........... 24
3.1 A POÉTICA DE “ARTESUCATARIA” ................................................... 24
3.2 OS RESULTADOS ................................................................................. 25
CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................. 32
REFERÊNCIAS................................................................................................ 33
6
INTRODUÇÃO
Da presença constante em uma oficina de motos surgiu a criação:
aquelas roldanas, porcas, parafusos, correias, peças e tantas formas, em aço e
metal frio pareciam ter uma boa poética juntas em suas formas. Contudo,
aqueles materiais, peças de carros e motos principalmente, eram elementos
bastante interessantes: veículos com histórias trágicas, com histórias belas,
com interesses tão diferentes, eram recuperados e após isso, ficavam para trás
restos de suas origens que não raro terminavam descartados e esquecidos.
Então, aos poucos, aqueles resquícios passaram a ser transformados em
pequenas propostas artísticas, ou seja, esculturas.
No decorrer do tempo essa experimentação quase informal se
transformou em possibilidade de produzir esculturas para o TCC, foi então que
se tornou o eixo de desenvolvimento deste trabalho; era possível fazer minhas
obras com a reorganização da sucata daqueles veículos do passado. Eram
obras e posses do homem, descartadas pelo homem, que receberiam então
uma nova leitura de forma e conteúdo estético.
A proposta utilização das peças atribuindo a elas um novo significado,
em uma ressignificação estética se tornou a proposta de trabalho a ser
ressaltada neste estudo. A série “Artesucataria” tem este propósito, criar
esculturas.
O objetivo foi desenvolver uma série de esculturas fazendo uso de
sucatas de automóveis, para a expressão criativa dos elementos belos e
trágicos do homem em seu percurso de vida, em seu fazer e em seus
princípios. Como objetivos específicos, têm-se: i) pesquisar a escultura no
mundo contemporâneo e suas possibilidades artísticas; ii) apresenta uma das
formas possíveis de aproveitamento artístico materiais oriundos de reformas e
recuperações (sucatas) de carros e motocicletas e iii) desenvolver uma
produção artística em forma de escultura utilizando a sucata.
7
CAPÍTULO I
A “ARTESUCATARIA”
A série “Artesucataria” foi produzida mediante a poética da reconstrução,
da ressignificação, ou seja, atribuir um novo significado a elas e da
possibilidade de reinvenção da vida, expressa na linguagem a escultura de
sucata. A série de esculturas se apoderou de objetos que já fizeram parte das
“mobilidades” (carros, motos, bicicletas, etc.) da vida humana e de suas posses
(objetos de construção, acessórios descartados e afins), dando a eles nova
significação. O que foi descartado, rejeitado, refutado do cotidiano das pessoas
foi reelaborado e recebeu novos sentidos, para retornar em forma de arte e da
proposição de novas leituras reflexivas. As sucatas de aço, as peças e metais,
todos duros e frios, adquiriram novos significados ao se transformarem em
esculturas, até se tornarem propostas e possibilidades totalmente distantes da
frieza de sua função original. A leveza das novas formas e o trabalho das
texturas reconstruídas e inovadas, unidas em novos sentidos, são as bases
das intervenções.
No decorrer da vida, o ser humano passa por alterações que, em maior
ou menor grau, o levam a se reconstruir. Seja qual for a natureza das
experiências individuais, a finitude e o ciclo da renovação se apresentam como
os pontos em comum para todos. Com isso, a sucata se assemelha a uma
analogia da vida humana que, conforme o olhar criativo que venha a receber,
possibilita a continuidade daquilo que foi finito em novas formas, novos usos e
reaproveitamentos.
As obras que realizei com sucatas são também referenciadas por Beuys
(1981), para quem a arte, não raramente, pode incorporar uma série de
elementos adicionais, que estendem o seu sentido para além do campo isolado
de uma produção artística. Algumas vezes, é possível aproximar esse
significado de sentidos sociais e a arte se torna ampliada, parte da vida das
pessoas ou constituída a partir de fragmentos dela. Nesses casos, afirma-se
8
que estas produções representam sínteses sistemáticas sobre a capacidade
criadora de seus desenvolvedores. Embora todo o homem possa ser um
artista, apenas alguns conseguem desenvolver essa expressão e um número
mais reduzido ainda de pessoas atinge essa pluralidade de terrenos.
As formas, pesos e texturas dos metais foram reconstruídos em novas
leituras, em nada menos desafiadoras que qualquer outra proposta de arte,
ainda que derivassem do descarte, da sucatada, do aparentemente
inaproveitável. Unger (1991) apontou que a produção da arte não precisa vir de
materiais e suportes tradicionais. A produção artística também pode ser
extraída e produzida com elementos residuais, capazes de reconstruir e reler
aquilo que não mais era incorporado pela vida humana ou transformar essa
incorporação. Nesse sentido, sucatas, restos marcados de história e demais
objetos descartados pela sociedade gerais podem ganhar uma intensa função
discursiva em uma obra de expressão artística
O material utilizado pode ser diverso, a sua natureza não é significativa,
mas o que é determinante nessas produções de novas leituras e
aproveitamentos de sucatas e afins é que possam oferecer uma experiência
relevante para o observado. Além disso, “Artesucataria” se interessa em
promover no observador a observação sobre si, sobre sua vida e sobre seu
ciclo, ilustrando momentos-chave de decisão, solidão e finitude.
Harvey (2005) pontuou a questão da observação significativa quando
mencionou as vanguardas e suas produções inesperadas, revestidas de
surpresas e novos caminhos guardam proporções de inovação e envolvimento
para a arte. Por meio dos materiais relidos e ressignificados, a pluralidade
artística se engrandece e a criatividade nos canais oferecidos se torna um
elemento essencial. Não é necessário ser vanguardista, mas é fundamental
levar ao observador uma visão que o toque em alguma dimensão, a ponto de
trazer para aquela expressão de arte uma troca entre os eus: o eu que produz
e o eu que observa.
A escultura de sucata traria muito dessa significação e pluralidade. Ela
atinge se bem elaborada o aspecto fundamental da arte nos dias atuais: a
incompreensão, algo que é tão presente na sociedade e que pode ser
9
considerado em suas elaborações. Uma escultura de sucata, de resquícios de
vida e de passado pode ser uma obra condensada pelo descarte e pela
renovação de sentidos e de práticas. Para o bom aproveitamento, o caminho
adotado foi a total desconsideração dos sentidos e formas anteriores e o
aproveitamento da essência, a fim de criar novas possibilidades. Com isso,
obteve-se uma criatividade livre do passado da peça, que o velho com o novo
extraído daquilo que sempre foi e nunca foi percebido (TISDAL, 2008).
A exploração escolhida para a sucata segue a tendência do pensamento
de uma escultura feita com materiais plurais, confere aos elementos que utiliza
a possibilidade de serem conhecidos, vistos e interpretados fora de sua escala
comum de sentidos e significados. Para Gallwitz (1992), esse tipo de
exploração envolve não apenas a extrapolação de formas, mas também o
sentido social desse uso diversificado e o valor da ideia, do pensamento que os
reveste. Quando se coloca o pensamento e a questão social como elementos
criativos, o que se tem é a possibilidade de aportar-se de vários suportes,
matérias e formas – até mesmo o detrito, a sucata – para desenvolver arte e
novas leituras, proposta esta adotada neste trabalho.
Para Câmara (2013), embora o sentido do termo escultura envolva a
produção de um objeto tridimensional, no presente ela não se resume apenas a
esse ato produtivo e também pode conter discursos e elementos adicionais,
bem como se representar por elementos abstratos que antes não seriam
comportados dentro de sua expressão. Um bom exemplo é a voz como
escultura expressiva, no que se considera o seu volume, a sua entonação
como temáticas expressivas consideráveis. A escultura, bem mais que
expressão tridimensional estática, é um conceito e uma possibilidade em
intenso movimento.
O reaproveitamento da sucata e a abertura em muitas das obras para
que as pessoas interajam e o próprio ambiente possa dar movimento e
contexto busca formalizar a sucata como escultura social. Segundo Vicini
(2009), estas esculturas trazem comunicação entre as pessoas e, quando
advêm de um material como a sucata, conforme o modo e a proposição do
artista podem levar a reflexões que tornem a obra um canal de comunicação e
10
expressão do artista e, conforme as possibilidades da obra, também do
observador em sua experiência de fruir daquela arte.
Quanto ao conteúdo, à série apresenta obras que são hora agradáveis
horas bastante desafiadoras à reflexão. Hora de fácil interpretação, hora de
intrigante contato. Vicini (2006) mencionou que, nem sempre, nessa
proposição, as produções tendem a ser agradáveis ao olhar, ou atraentes aos
olhos. O conteúdo comunicativo é o que é importante, o que envolve, o que se
torna a essência de existência. Essas obras realizam uma espécie de
fabulação do mundo e dentro deste contexto, se desenvolvem (VICINI, 2006).
Sobre o uso da sucata e de materiais alternativos, segundo Sevcenko
(2006), foi a partir da primeira geração romântica francesa que a liberdade dos
materiais para a criação se tornou um fenômeno mais notável e praticado nas
expressões artísticas. De modo provável, seria uma situação decorrente da
expressão em arte das agitações da Revolução Francesa e, condensando os
materiais, seria uma forma de exprimir a modelagem de tudo o que houvesse
de alternativo por meio do martelo. Tudo, o que quer que fosse, poderia se
transformar em arte. Nesse momento turbulento, em que a própria identidade
do que era arte e do que não era se encontrava bastante confusa, surgiram
artistas integrados a um submundo produtivo, em várias expressões artísticas e
de comunicação. Lá era possível encontrar jornalistas, caricaturistas, artistas
em geral e indivíduos que queriam testar estes novos limites de expressão e
possibilidades. O volume destes ativistas cresceu de maneira significativa e, de
modo proporcional ao aumento do volume, ocorreu o aumento da repressão
contra o que propunham Eram artistas inadequados, que não raro eram
banidos e isso, de modo indireto, levou a difusão desses usos e radicalidades
pelo mundo. Não que em outras localidades não existisse a mesma força
expressiva, mas, era notável que o teor francês do sentido de transformação
trouxe uma leitura mais crítica e revolucionária à modelagem de materiais.
Não é raro também que s expressão de “sucata” em arte, integre o que
Michel Thévoz chamou de arte bruta, cujas obras expressam alucinações ou
frutos do caos psíquico interior. Não são ligadas ao surrealismo estas obras,
mas bebem do mesmo impulso interior envolvente de propulsão interior,
psíquica, que o surrealismo é envolto. Há um grande teor de imprevisibilidade
11
nesta arte e as expressões se elaboram de modo bastante intenso, com lógica
própria e com estrutura individual. Não raras vezes, os resultados que podem
ser visualizados nestes projetos e produções se distanciam bastante da arte
oficial. Embora a arte bruta nem sempre seja agradável à crítica, há os casos
em que ocorrem movimentos bastante contrários, com artistas que são
acolhidos pela riqueza de suas produções. A natureza bruta expressiva
costuma seguir dois extremos: ou ser muito envolvente, ou muito chocante
(GOLDSTEIN, 2008).
Além disso, é um material plural e de alta expressividade. Segundo
Barreto (2001), a sucata pode servir de suporte para uma variedade intensa de
representações. O artista Jonas Pereira dos Santos, por exemplo, condensa
em sua produção peças de sucata de oficinas e as converte em leituras que
passam trechos da história do Brasil e do mundo. Em outros momentos,
oferece a essas peças movimento e interesse, dinamismo, e apresenta a rica
cultura brasileira com capoeiristas em ação e produções autobiográficas. É
uma diversidade considerável que permite ao artista reler a sucata e dar
expressividade a seu olhar e dizer.
O trabalho proposto neste projeto envolve-se com o sentido de arte bruta
e sua relação com a cultura e com a subjetividade humana. O produto
descartável da vida capital é elaborado e transformando em exemplos do
homem em sua jornada e numa leitura positiva de sua (in)finitude: o homem e a
coisa da qual a sucata veio são finitos, mas sua essência é perene e pode ser,
conforme o olhar, renovada.
Nesse rumo, Soares (2000) apontou que a produção atual da arte é mais
aberta para a acolhida de manifestações que envolvam materiais que integrem
o cotidiano dos indivíduos e que, em uma primeira leitura não sejam ligados à
arte. A cultura pós-moderna é bastante abrangente e permite a absorção de
uma série de diferenças e proposições, inclusive de produções que em um
olhar inicial possam se apresentar contraculturais. O dito detrito, a sucata e
suas novas leituras possíveis enquadram-se nesse escopo de aproveitamento,
gerando produtos culturais da vida pós-moderna e de seus descartes, leituras
que transformam o que antes era desuso em uso imediato, em arte, em
expressão.
12
O delírio do artista ou do leitor e as capacidades de interação também
foram tratados por Soares (2000) quando os cita ligados a uma espécie de
inventários de mundo, de vazões do inconsciente. A arte, quando projeta tais
elementos o faz na única maneira possível para que esses conteúdos interiores
possam se fazer notar e elaborar na Terra. Miniaturas, maquetes, esculturas de
sucata, de detritos e uma série de outros materiais também podem ser
incorporadas a essa remodelação de mundo, a essa leitura renovada, gerando
uma arte advinda do interior do artista e que pode, conforme as oportunidades
e possibilidades do observador, também ser ambiente de vivência de seus
delírios, de suas subjetividades ou do compartilhamento desses sentimentos
em maior ou menor grau se referenciados a quem os produziu.
A escultura é resultado de uma série de interações que envolvem não
apenas a modificação do olhar e as novas dimensões interpretativas de mundo
e de quem produzem a arte. Também envolve as tecnologias pelas quais essa
produção pode ser obtida, bem como as novas técnicas e suportes para a arte.
O que antes não era acolhido, no presente pode o ser de maneira efetiva. A
linguagem escultórica trabalha inúmeros materiais e pode explorar tanto o
espaço quanto o vazio, tem a sua disposição a questão do volume e de suas
possibilidades de modo pleno, uma vez que as tecnologias que podem ser
exploradas para o trabalho com esses materiais se tornaram mais acessíveis.
Da mesma forma, a opção pelo trabalho com a rusticidade e com
ferramentas simples se manteve ativa e possível e o hibridismo é uma
característica do tempo presente (SAFAR, 2006).
Outro contributo e orientação importante que se percebe dos artistas do
presente é o uso, na escultura, da simplificação e estilização das figuras, bem
como da transformação de formas reais em elementos figurativos ou em
essência modificados, que rumam no sentido da abstração. Assim, entende-se
que nesse repertório variado, a sucata e o metal, foram adições do pós-guerra,
e que passaram a ser lidos e transformados em inúmeras produções, das mais
variadas naturezas no mundo todo (PROENÇA, 2007).
13
1.1 SOLDA NA ESCULTURA
1.1.1 A solda
Há várias possibilidades para o trabalho em arte com materiais diversos
e dentro dessas possibilidades, a solda consolida o uso de muitos deles. É o
ato de unir peças de modo definitivo, por meio de reações químicas e calor. O
uso e trabalho com a solda ocorre com o respeito às particularidades dos
materiais que aceitam a sua aplicação, permitindo a solidez e a segurança das
obras. Maidana (2014) apresentou que o eixo do trabalho é a amperagem
utilizada para a solda, valor obtido conforme o tamanho do eletrodo a ser
utilizado e a grossura do metal. A relação é proporcional: metais ou materiais
que tenham uma base mais dura, mais sólida, requerem que a solda seja mais
penetrante. Com isso, é utilizado um eletrodo mais grosso e a amperagem é
modificada. Em geral, cada grossura de eletrodo tem uma amperagem
específica, mas como padrão de referência, sabe-se que um que tenha 0,63
cm requer 250 amperes para que venha a ser trabalhado. As máquinas
caseiras suportam com frequência até o máximo de 300 amperes, o que limita
a essa dimensão de eletrodo o seu uso. As industriais, como foi o caso
utilizado neste trabalho, admitem maiores amplitudes de eletrodos. Mesmo
assim, o trabalho com a solda não requer, necessariamente, que exista maior
amperagem na máquina, uma vez que a opção mais comum é utilizar várias
passagens para que o metal mais grosso seja soldado que uma amperagem de
carga superior a 300 amperes, evitando o aquecimento excessivo da máquina
e garantindo qualidade e uniformidade no trabalho. Na série “Artesucataria”,
foram utilizados eletrodos entre 2 mm – 2,5 mm, na maioria das obras, o que
importa no uso de amperagens entre 55 a 80 amperes.
Outro aspecto: na solda com sucata deve-se ter o cuidado de limpar
completamente a peça, que fique totalmente livre de impurezas, de graxa ou de
qualquer outro tipo de elemento. No geral, é necessário apenas que se retire
óxidos e impurezas comuns, mas, quando se pretende um trabalho que tenha
uma demanda mais intensa de resistência, é aconselhável que se usem
14
respaldos, chanfros e processos de aquecimento prévio e posterior para
reforçar a qualidade final da solda. É importante observar a peça para que não
apresente porosidades em suas emendas, apresentando então problemas de
solda. Pode-se lixar ou utilizar qualquer outro tipo de alternativa para eliminar a
porosidade, a fim de que se torne uniforme e trabalhável com segurança. Por
fim, o término do cordão de solda deve ser feito no formato de caracol, com o
rápido afastamento da peça, para garantir a finalização. Embora existam
eletrodos nus, ou puros, os utilizados para esta série foram pautados no que é
mais recorrentemente utilizado no presente, ou seja, eletrodos revestidos, em
que o núcleo é de metal, mas há uma liga que se mistura a ele no momento em
o calor ativa e forma um retorno maior, uma cola, que geralmente é o silicato
de sódio ou então de potássio. O revestimento utilizado foi o rutílico, pelo bom
acabamento, por suportar chapas finas a médias, por se adequarem a
estruturas metálicas e pela menor apresentação de trincas em razão da
presença de fluorita, carbono de cálcio e de ferro liga em seu revestimento
(SENAI, 1998).
Tolosa (1997) descreveu que as esculturas em ferro e solda se
apropriam das técnicas já utilizadas para as soldas em metal, o que amplia as
chances de exploração de formatos e possibilidades. O que difere entre o ferro
e o metal é a dificuldade de trabalho com os materiais, sendo que o ferro
geralmente exige mais força e intensidade, precisa ser moldado, aquecido. O
metal, não. É mais simplificado, maleável. Para as esculturas em sucata, é
comum que sejam reaproveitados materiais como ferros, parafusos, porcas,
pregos, máquinas e partes de peças que tenham dimensões pequenas a
média. Naturalmente que a exploração de dimensões maiores é possível, mas
há um menor número de artistas que opta por isso, dadas as dificuldades de
trabalho com o material, como o transporte e investimento em estrutura e
maquinário para realizar o seu andamento. Esse tipo de escultura é válido e
acolhido nas artes, podendo tanto comportar ideias já existentes e regulares,
como estéticas nada rígidas e incomuns, sendo um material sólido mas que,
com o uso de solda e arte, possibilita a vazão criativa individual.
15
1.1.2 O uso da solda na arte e na série “Artesucataria”
A série produzida fez uso da solda como elemento de ampliação para os
limites da criação, que amplia as modelagens, esse recurso costuma reduzir a
mobilidade da obra, não permitindo que seja desmontada na maioria dos casos
(CALÁBRIA, 2011). Contudo, os artistas que utilizam esse recurso identificam a
resistência e a facilidade de trabalho que tal recurso oferece (solda) com
materiais como aço e ferro, bem como outros materiais pesados, resultando em
peças estáveis, seguras e em uma boa alternativa, de maneira especial quando
se pretende a interação ou que pessoas possam envolver-se, de algum modo,
na proposta de produção.
É um trabalho complexo que teve seu engatilhamento em sala de aula,
no momento em que, durante uma das aulas do Professor Elomar, foi solicitado
o desenvolvimento de um trabalho com o uso da sucata .Com isso, em grupo,
foi explorada a solda fora do espaço de sala de aula e foi possível começar a
conhecer as possibilidades desse recurso. A segurança e a capacidade de
explorar materiais como aço, metal, e ferro entre outros, foi bastante atrativa e,
quando o resultado final daquele trabalho foi entregue (um peixe desenvolvido
pela reciclagem de um extintor, com aplicações de porcas e parafusos), surgiu
e teve início uma exploração pessoal sobre as possibilidades criativas da solda,
que resultou no maior conhecimento de suas capacidades técnicas,
oportunidades e limitações.
Outra leitura da solda, incorporada na seleção para aplicação nas obras,
foi o sentido de união: se entre os homens, o amor que os faz permanecer
próximos e construir histórias junto aos demais, se perpetuando em sua
memória e em sua existência, é a chave de sua existência, a solda é, na série,
o amor que une as sucatas em prol de transformá-las de finitas em perenes
16
CAPÍTULO II
SÍMBOLOS E COMPONENTES CENTRAIS DE ARTESUCATARIA
Neste tópico se descreve a base de escolha e desenvolvimento do tema
proposto, para a elaboração das esculturas. É um relato da experiência criativa
e impulsionadora do artista, que conduziu à série “Artesucataria”.
Ao observar em um trabalho alternativo o grande volume de detritos e
descartes que a atividade de conserto e restauração de motocicletas e veículos
antigos acumula, foi percebida a possibilidade de que tudo o que era
descartado pudesse dar vazão e lugar a um projeto artístico. As peças, os aros,
o metal, o alumínio, o inox e o aço, em várias versões e cores, apresentavam
brilhos e texturas que eram descartados às lixeiras sem receber uma leitura ou
apreciação que permitissem a sua saída para além dos limites da sucata, um
novo significado ao que deixa de ser sucata e se transforma em objeto estético
pelas mãos do artista.
Os detritos relidos, reaproveitados, em nova vertente e leitura do que é
humano e de sua vida cotidiana é a proposição deste projeto. O processo
criativo, tema do próximo capítulo, é descrito de modo pormenorizado em sua
simplicidade, de recolher o que antes era detrito e transformar, unindo, forjando
e solidificando, em leituras de vida e do mundo atual, em humanóides sem
vida, entretanto, frutos da vida e dos desejos passados de humanos, sob a
ótica do artista – no caso, minha leitura e ressignificação.
A “Artesucataria” é uma leitura da morte, do encerramento, em novo
começo, em re-começo, no qual de detrito se torna arte, de descarte se torna
encarte, de inutilidade se torna proposição e passa a ter um novo significado.
Esse novo significado é a do objeto transformado, vivo outra vez, realocado.
17
2.1 REFERÊNCIAS TÉCNICAS E DE ESTILO
A proposição deste estudo se encaixa na proposição de estilo pós-
moderno, pela ótica de Kumar (1997), para quem essas produções podem ter
uma:
[...] mistura eclética de qualquer tradição com a do passado imediato.
É tanto uma continuação do modernismo, quanto sua transcendência.
Seus melhores trabalhos são, caracteristicamente, de dupla
codificação e irônicos, dando destaque à amplitude de opção, conflito
e descontinuidade das tradições porque tal heterogeneidade capta
com a maior clareza possível o nosso pluralismo (p. 116).
Uma das prerrogativas da escultura é a capacidade de angariar e variar
materiais para a sua expressão e na modernidade e pós-modernidade, um dos
principais traços é a variedade e a experimentação. Embora a madeira e a
pedra sejam os materiais mais comuns, no presente, a sucata e a reciclagem
de outros suportes é uma realidade constante. Na própria história e dentro da
contextualização da escultura, o seu sentido pode também se modificar: era
comum na antiguidade que fossem associadas a deuses, a receptáculos de
sua presença, ou teofanias, mas no presente este sentido se modificou e há
uma diversidade de sentidos que deve sempre ser considerada (WITTKOWER,
2001).
Na Grécia, as esculturas tinham forte ligação com as tradições e a pedra
também era o suporte mais utilizado, de modo especial o mármore e quase
sempre as esculturas mostravam formas perfeitas, naturais. Não eram muito
simbólicas, e sim muito afeitas a formas reais e seu interesse era demonstrar
os deuses e servir de elementos que adereçavam os tempos. Após o
renascimento, as esculturas passaram a ter maior associação com a dignidade
humana e visavam proporção, harmonia e perfeição (PROENÇA, 2007).
A partir da industrialização, ainda segundo Proença (2007), a expressão
da arte em geral passou a ser mais variada, expandindo o interesse da
proporção e da perfeição e passou a envolver temáticas mais intensas e a
apresentar a distinção entre movimentos de modo mais claro. As técnicas de
18
escultura passaram a ter expressões como ondulações e aspereza, como
tratamento da incidência de luz e maior complexidade de texturas e volatilidade
em algumas das elaborações. Portanto, o teor imaginativo e variado se tornou
mais latente a partir deste marco.
É o período da escultura moderna, que a partir dali passou a
experimentar também impactos como as novas tecnologias e as variações de
materiais, que também incluiu os despojos das indústrias e toda a série de
possibilidades novas produzidas. A escultura a partir deste período se tornou
mais dinâmica e abstrata e conforme o interesse do artista se tornou possível
explorar sensações cinéticas, auditivas, visuais e variadas e a abstração se
tornou uma parte importante da expressão da escultura (SAFAR, 2006).
O surgimento da sucata como um material de escolha se deu após a Iª
Grande Guerra, quando inúmeros artistas começaram a realizar produções
baseadas em solda, em colagens e no aproveitamento de materiais, como
Alexander Calder. As obras também passaram a ter ainda mais expressividade
e o movimento, em vez da estática, também foi incorporado às esculturas. A
fluidez das obras se tornou uma possibilidade a partir deste marco, O uso do
vazio nas esculturas também foi um ganho e presença deste período,
explorando o inverso da matéria, a contradição do não preenchimento em algo
que se sustenta, a leveza no sólido (PROENÇA, 2007).
Figura 1 – CALDER, Alexander. Dobradura com disco vermelho, 1973.
19
Artistas contemporâneos que trabalham com a sucata, quase sempre
optam por produzir temáticas contemporâneas e também por explorar volumes
geométricos, vazados e contrapontos, como o exemplo citado acima. Boas
referências são Felícia Leirner, com suas esculturas de grande porte que
costumam se integrar de modo muito positivo com o ambiente e Mário Cravo
Júnior, que por meio de suas esculturas de materiais variados explora o
repertório cultural brasileiro de um modo muito próprio (PROENÇA, 2007).
Figura 2 – LEIRNER, Felícia. Pássaros, 1976.
Figura 3 – CRAVO JUNIOR, Mário. Sem Título, s.d.
20
A exploração geométrica é clara, mas o tamanho, a dimensão de suas
obras, idem. Caciporé Torres é outra referência que se utiliza da função do
ferro e do aço inox para criar obras de grande porte que em geral ficam em
espaços externos e que dialogam com as pessoas por sua presença imponente
e leituras possíveis variadas (PROENÇA, 2007).
Figura 4 – TORRES, Caciporé. A grande coluna, s.d.
Outra referência é um artista plural, que atua tanto em tatuagem quanto
na escultura, o artista Dimas Escultor realiza esculturas e pinturas em materiais
reciclados, e cuja suas obras são bastante objetivas e pautadas no
reaproveitamento e leitura de elementos como ferro, metais e restos de objetos
como motocicletas e bicicletas integradas ao cotidiano. Seu “Cavalo de Ferro” e
sua “Moto de Sucata” são dois referenciais importantes de um artista que,
embora sua produção não esteja engajada ou reconhecida em circuitos de arte,
21
representa uma excelente referência de estilo e de técnica para a proposição
deste trabalho.
Figura 5 – ESCULTOR, Dimas. Cavalo de Ferro, 2012.
Figura 6 – ESCULTOR, Dimas. Moto de sucata, 2012
22
Por fim, uma referência adicional são as esculturas de Paulo Eppling
que, por meio do uso de detritos, cria novas formas pautadas em obras de arte
tridimensionais. É um artista americano e suas obras podem ser vistas em
vários locais daquele país, especialmente na Baia de Tampa, na Flórida.
Figura 7 – Obra de Paulo Eppling, s.d.
Outra obra que serviu de referência para a proposição deste trabalho foi
construída mediante a observação da mídia televisiva, com a obra de Vick
Muniz que serviu de abertura da novela Passione. A sucata e sua leitura
associada ao amor, um dos sentimentos mais interessantes e abordados na
história humana, possibilitou um resultado visual muito interessante e, com um
conjunto de peças, descreveu a paixão entre duas pessoas.
23
Figura 8 – Obra de Vick Muniz, 2009.
24
CAPÍTULO III
PROCESSO CRIATIVO E FINALIZAÇÃO DA SÉRIE
1.1 A POÉTICA DE “ARTESUCATARIA”
A série “Artesucataria” se desenvolveu mediante a proposta de uma
poética de reconstrução, de reelaboração e busca por novos sentidos. O
processo que sustenta a sua criação é também parte de um processo interior
da vida, que é o resgate das vivências, das experiências e a colocação de
significados.
A sucata, aquilo que não é mais utilizado e que um dia já serviu – no
caso deste trabalho – para a mobilidade e para as posses dos indivíduos, foi
coletado, limpo e estruturado, a fim de abandonar o seu sentido original e
reproduzir peças que retornam para a vida cotidiana daqueles que as
excluíram, não mais como objetos mortos ou sem serventia, mas como arte,
beleza e chamados para a reflexão.
Os movimentos entre ir e vir, chegar e partir, ler e reler, compreender e
desistir, entre ser e não ser, ter e não ter e entre a finitude e a eternidade são
as bases da poética da obra que é sustentada pelo pilar da continuidade, das
reapresentações e das possibilidades, bastando um olhar inovador nesse
sentido, bastante o interesse de rever tudo em novas possibilidades.
A reconstrução humana e os momentos-chave em que a existência
precisa ser pensada, analisada, refletida e alterada formaram as bases para a
construção das pelas de “Artesucataria”, em uma poética que une morte e vida,
perecimento e ressurgimento. Uma nova leitura do que existia, deixou de existir
e retornou, novo, inovado.
25
1.2 OS RESULTADOS
A primeira obra é Renascer. Nela foi pretendida a retratação de uma
nova chance, de mudar caminhos e conceitos, traçar novos objetivos, esquecer
o passado e seguir em frente. No início da obra, foi feito um protótipo de
papelão, pois como era uma nova leitura humana teria que ter proporções. A
principal dificuldade foi a sustentação da possível coluna vertebral, na qual foi
utilizado um ferro para esse objetivo e uma madeira como contrapeso. Para
auxiliar nessa resolução também foi adquirida uma marionete em madeira e foi
utilizada a proporção das cabeças para esse fim. O papel deu início à obra, que
passada para o ferro. Primeiro foi cortada a cabeça e colo e depois, transposta
a envergadura da coluna. Para dar ideia de mobilidade e de juntas, foi colocada
uma corrente na qual a solda comum não permitiu a fusão dos dois materiais
diferentes. Para isso, foi utilizada a solda amarela com varetas de latão
nitrogênio e um componente químico.
A criatura que surge de coisas que eram e que ainda está no chão,
aprendendo a se sustentar é a analogia do renascimento da vida, quando se
aprende novamente a ser e a ver, tendo tudo sob nova perspectiva. Se antes
era uma perspectiva superior, passa a ser inferior e em reconstrução. Os cacos
e restos que motivaram o renascimento ali estão, relidos e reajustados, de tal
modo a representar uma nova realidade que aprender a se ajustar nesse
mundo. De uma coisa à outra, de finito a novo.
Figura 9 – Obra Renascer Etapa I
26
Figura 10 – Obra Renascer Etapa II
Figura 11 – Obra Renascer Obra Renascer Etapa III
27
A obra seguinte é Caminhos da Vida. Nela, o eixo é que muitas vezes na
vida temos de escolher o caminho que devemos seguir. Algumas escolhas
podem ser certas, outras erradas, mas sempre é preciso escolher. Algumas
vezes é possível escolher o caminho mais rápido, em razão da dificuldade do
outro caminho e nessa escolha, passar por cima de pessoas ou cometer atos
ou atitudes negativas para obter o que se deseja. O interesse da obra é
mostrar que o caminho mais longo leva ao lugar correto e o mais curto, a
nenhum lugar ou pelo menos a nenhum lugar no qual se deseje estar.
O primeiro passo foi traçar um projeto de proporções dos degraus
descrentes da escada da vida. Na circunferência, foi dividida de modo igual.
Então, pegou-se o primeiro degrau e com um cordão foi traçada a outra ponta
do degrau, apontando o local de ligação entre um e outro. As peças foram
cortadas, retiradas do papel e transpostas ao ferro. No tubo, foram feitos
espaçamentos decrescentes para dar a ideia de quanto mais perto do objetivo,
maior a dificuldade com degraus mais estreitos e mais afastados.
Figura 12 – Caminhos da Vida
A antiga metáfora de que os últimos degraus são os mais estreitos e de
que há dificuldade em se galgar um local positivo e elevado na vida, mas a
queda permanece fácil, é o centro dessa peça. A escada da vida é a
caminhada que leva acima e abaixo, tudo depende de onde a pessoa está e
aonde ela quer chegar.
28
Bem como dos fatos imprevisíveis da vida. Construída de sucatas, é
também uma analogia entre o que foi importante e se tornou a sustentação
para a caminhada e apresenta a possibilidade de caminhar e progredir,
encontrando bons destinos justamente sobre os obstáculos da vida, que muitas
vezes são os gatilhos das mudanças.
A obra Prisões retrata o que necessitamos para sobreviver. Com
grandes pássaros de ferro soltos e uma gaiola sem fundo, nela o expectador
poderá se colocar no centro (já que não tem fundo) e se questionar: os
pássaros acordam todos os dias cedo cantando e a casa deles não é de luxo.
Não usam roupas de marca e são felizes. Eles fazem o que o homem
sempre almejou que é voar! A principal mensagem da obra é permitir que o
observador interaja e que perceba a necessidade de não se apegar ao dinheiro
nem as coisas materiais: dar valor ao que realmente tem valor.
O que as prisões ilustram é a distância, não maior que as grades, entre
o que o homem deseja fazer e o que a vida lhe impõe fazer. Entre o que o
homem deseja ser e o que a vida lhe impõe ser. Entre a liberdade e a
obrigação.
A proposta desenvolvida no meu trabalho tem por intenção mostrar ao
observador que a vida pode ser aprisionadora, mas também libertadora tudo
depende se você é pássaro de dentro ou de fora da gaiola. Também por ser
toda de sucata mostra que o mesmo material e o mesmo repertório que pode
tornar uma pessoa livre, conforme a maneira que trabalha esses conceitos e
lugares, tal situação também pode torná-lo cativo.
Figura 13 – “Prisões” em esboço
29
Figura 14 – “Prisões” real
A quarta obra é Soma. Mostra que não importa o tamanho que a pessoa
assuma, a forma que tenha, quem ela seja ou como ela seja, se sozinha
sempre será como uma das porcas que constituiu a obra. Mas se por acaso se
juntar a outras, pode se tornar tudo o que quiser. Soma retrata o tripé morte
(caveira, o maior temor do homem), o espanto do acontecido (o ponto de
exclamação) e a incerteza não respondida (ponto de interrogação), a fim de
apresentar – depois de todas as transformações e remodelagens – a
transformação final, que muda a forma, mas não a essência.
A solda e a união de porcas constituem a sua formação por uma razão
poética: sozinhos, assim como sozinhas as porcas não terão um formato além
de algo comum. Unidos, podemos assumir o sentido e a forma dos maiores
mistérios. Outra mensagem que Soma passa é sobre a morte: só, na vida, o
ser humano será sempre uma peça isolada. Só, na morte, o ser humano será
um indigente. Junto, se faz outra história.
30
Figura 15 – “Soma” – se você se unir (?), poderá se tornar o que quiser (!).
31
Por fim, tem-se a última peça, Finitude. O desfecho do ciclo é a finitude.
Assim como aquilo que era não tem ideia ou semelhança com o que se torna
depois de lido de modo novo como como sucata, assim o homem não tem ideia
do que se tornará no evento de sua morte e após ela. O que é certo é o
espanto dessa hora e a incerteza. Finitude é a síntese do pensamento da
morte, da desfação do ser, do sentido de fim. Por outro lado é também a
continuidade, que mostra que mesmo desfeito o homem e a sucata não
esgotam suas possibilidades. Finitude é o término do ciclo das novas leituras, o
desmanche, o encerramento da forma, mas não o fim, dado que a essência ali
está reconstruída, com olhar criativo e renovador, que forma outro objeto do
antigo e cria outro novo ciclo, diferente, de novas formas.
Figura 16 – “Finitude”
Por fim, é importante acrescentar um detalhe que envolve a finalização
da série: em nenhuma das peças foi dado acabamento, nem acelerado o
processo de enferrujamento das peças. Essa decisão foi tomada em razão da
poética do trabalho, pois as peças – assim como as pessoas – têm um tempo
de vida útil. A aceleração da ferrugem ou um acabamento maior nesse sentido
seria adiantar, fazer acontecer antes da hora um processo, quebrando com a
sequência esperada de seu ciclo natural. Foi optado por deixar isso em aberto,
para que a ferrugem ocorresse, caso ocorra, dentro do tempo de cada obra.
32
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Eu me apropriei de referências contemporâneas, modernas e urbanas
para construir uma leitura sensível a respeito dos desafios e desfechos da vida.
A sua apresentação plural consiste em não somente a leitura poética da
transformação das coisas, mas também nas possibilidades infinitas que
envolvem esse transformar.
A sucata foi um material extremamente importante para a proposição,
porque permitiu analogias importantes com os sentidos de reconstrução e de
infinitude. Embora a coisa que tenha gerado a sucata tenha encontrado o seu
fim enquanto assumia aquele papel, ela não deixou de existir e, transformada,
pode assumir novas possibilidades. Da mesma forma que o homem se
transforma pela vida e por seus desafios, continuando a existir transformado, a
sucata passa pelas mesmas diversas e novas leituras e permanece existindo:
com outras formas.
Me apropriei da sucata e de seu passado para reconstruir e dar nova
forma e sentido ao que já existia e oferecer nessa recuperação de sentidos,
novos olhares e perspectivas. O objetivo foi desenhar o fato de que como a
sucata pode se refazer, pode se modelar do velho em novo, o homem também
pode. Que assim como percurso da sucata é o fim, o do homem também é,
contudo, a finitude do ciclo depende do olhar de cada um, podendo continuar
em um espiral sem fim de possibilidades. Tudo conforme o olhar de quem
capta a história. Por essa razão a sucata foi escolhida, assim como o tema:
pela semelhança e contraposição homem / lata, metal / vida e ação / estática
que, convertidos em arte, contaram uma nova história.
Por fim, a proposta central de “Artesucataria” é poética: é a existência
sem fim, vinculada à criatividade. Nada se esgota nada se acaba. Tudo se
transforma. Assim é na arte, no mundo, na vida.
33
REFERÊNCIAS
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Monografia. Especialista em Arteterapia e Educação em Saúde. Rio de Janeiro:
Universidade Cândido Mendes, 2001.
BEUYS, Joseph. Polentrasnport 1981: entrevista debate conduzida por
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2, 1981.
CÂMARA, Marina Andrade. Joseph Beuys e Giuseppe Penone: Aproximações
Entre Arte e Política. PÓS: Revista do Programa de Pós-graduação em
Artes da Escola de Belas Artes da UFMG, v. 3, n. 6, p. 38-48, 2013.
CALÁBRIA, Querles de Paula Alves. DO MÁRMORE DE MINAS AO AÇO DO
MUNDO: BREVE TRAJETÓRIA DO ESCULTOR DARLAN ROSA.Olhares &
Trilhas, 2011.
FORTUNA, Marlene. Século XXI: a arte como fetiche na sociedade do pós-
humano. Sem data definida. Mimeo.
GALLWITZ, Klaus. Homem com esculturas de feltro. Guia das artes São
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HARVEY, David. Condição pós-moderna. Edições Loyola, 2005.
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Disponível em: < http://www.ehow.com.br/determinar-amperagem-solda-
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MORAES, Rosana Eulâmpio de. A poética da escultura: estudos do uso da
argila na arte-educação. 2013.
34
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis:
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PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Àtica, 2007.
SAFAR, Gisele Hissa. Artes visuais. 2006. Disponível em:
<http://ptscrib.com/doc/80800808/1/curso-artes-visuais.html> Acesso em 20
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SENAI. DR. PE. Tecnologia de Solda – Processo Eletrodo Revestido. Recife,
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arte nas ruas. Anos 70: trajetórias, p. 13-24, 2006.
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tempo contemporâneo-neoliberal: modos de configuração da experiência
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VICINI, Magda Salete. Arte de Joseph Beuys: pedagogia e
hipermídia.Comunicação & Educação, v. 14, n. 1, 2009.

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  • 1. 1 DIOGO LUCIANO “ARTESUCATARIA”: UMA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA COM SUCATAS UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS CURSO DE GRADUAÇÃO EM ARTES VISUAIS - BACHARELADO CAMPO GRANDE – MS NOVEMBRO DE 2014
  • 2. 1 DIOGO LUCIANO “ARTESUCATARIA”: UMA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA COM SUCATAS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Artes Visuais, sob a orientação da Profa. Maria Alice Portorossi. Área de Concentração: Artes Visuais. Campo Grande – MS Novembro – 2014
  • 3. 2 AGRADECIMENTOS Agradeço primeiro a Deus, pela oportunidade de estar vivo e com saúde; À minha mãe e meu pai por terem me gerado, especialmente minha mãe que de cima está olhando por mim; À minha avó e meu tio e tias, por terem cuidado de mim e me educado; A todos os que sempre acreditaram em mim e em meu potencial dentro e fora de sala de aula. A todos os professores da instituição: alguns conhecimento se estenderam para além das salas de aula e vou levar para a vida inteira. Alguns serão eternos amigos; A todos os colegas de classe, em especial Lúcia e Érica; Ao Walter por ceder seu espaço e auxiliar na confecção das peças. A todos o meu muito obrigado.
  • 4. 3 RESUMO A vida contemporânea é marcada pelo consumo e pela condição descartável de muitos materiais. A sucata representa não apenas um problema ambiental, mas também uma espécie de retrato daquilo que a vida dos indivíduos mostrou ser sem lugar e uso em sua rotina. O material descartado, por seu volume, possibilidades e sentido, representa um substrato que pode ser considerado na arte e a escultura é uma das expressões que acolhem o seu uso. Na versatilidade da escultura, este trabalho apresenta uma produção de arte e intervenção urbana com materiais contemporâneos que serviram à mobilidade e agilidade da vida, mas que foram descartados. Materiais que serviram para a caminhada e não foram mais considerados no decorrer do processo e terminaram por serem ressignificados em produtos de arte na série “Artesucataria”, que é uma reflexão sobre os caminhos e reinvenções do ser, do ter e do valer. Os olhares de descarte foram redesenhados pela arte e receberam novos contextos e sentidos para que pudessem atingir ao observador com uma nova postura, a dos descartes que retornam para promover uma reflexão sobre a existência, suas posses e desafios. As obras analisam a jornada da vida e suas reflexões, o valor do trabalho e do esforço, a solidão e os amigos e os desafios da jornada humana, em expressões subjetivas de etapas e sentimentos que formam a existência, como o amor, os sonhos, o abandono, a construção. O objetivo foi realizar uma intervenção de transformação com a sucata das antigas “mobilidades” (carros, motos, bicicletas) e posses (materiais de construção, acessórios descartados e similares), a fim de mostrar a capacidade de renovação e remodelação de tudo o que existe, tomando por referência artistas da arte moderna e contemporânea, com sua base criativa livre e pensamento / técnicas híbridas. Palavras-chave: Arte. Escultura. Sucata.
  • 5. 4 LISTA DE FIGURAS Figura 1- CALDER, Alexander. Dobradura com disco vermelho, 1973....................................................................................... 18 Figura 2- LEIRNER, Felícia. Pássaros, 1976....................................... 19 Figura 3- CRAVO JUNIOR, Mário. Sem Título, s.d.............................. 19 Figura 4- TORRES, Caciporé. A grande coluna, s.d. .......................... 20 Figura 5- ESCULTOR, Dimas. Cavalo de Ferro, 2012......................... 21 Figura 6- ESCULTOR, Dimas. Moto de sucata, 2012.......................... 21 Figura 7- Obra de Paulo Eppling, s.d. .................................................. 22 Figura 8- Obra de Vick Muniz, 2009 .................................................... 23 Figura 9- Obra Renascer Etapa I.......................................................... 25 Figura 10- Obra Renascer Etapa II ........................................................ 26 Figura 11- Obra Renascer Obra Renascer Etapa III ............................. 26 Figura 12- Caminhos da Vida ................................................................ 27 Figura 13- “Prisões” em esboço ............................................................. 28 Figura 14- “Prisões” real ........................................................................ 29 Figura 15- “Soma” – se você se unir (?), poderá se tornar o que quiser (!) .......................................................................................... 30 Figura 16- “Finitude” .............................................................................. 31
  • 6. 5 SUMÁRIO INTRODUÇÃO................................................................................................... 6 CAPÍTULO I - A “ARTESUCATARIA”.............................................................. 7 1.1 SOLDA NA ESCULTURA ...................................................................... 13 1.1.1 A solda............................................................................................. 13 1.1.2 O uso da solda na arte e na série “Artesucataria”....................... 15 CAPÍTULO II - SÍMBOLOS E COMPONENTES CENTRAIS DE ARTESUCATARIA .......................................................................................... 17 2.1 REFERÊNCIAS TÉCNICAS E DE ESTILO............................................ 17 CAPÍTULO III - PROCESSO CRIATIVO E FINALIZAÇÃO DA SÉRIE ........... 24 3.1 A POÉTICA DE “ARTESUCATARIA” ................................................... 24 3.2 OS RESULTADOS ................................................................................. 25 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................. 32 REFERÊNCIAS................................................................................................ 33
  • 7. 6 INTRODUÇÃO Da presença constante em uma oficina de motos surgiu a criação: aquelas roldanas, porcas, parafusos, correias, peças e tantas formas, em aço e metal frio pareciam ter uma boa poética juntas em suas formas. Contudo, aqueles materiais, peças de carros e motos principalmente, eram elementos bastante interessantes: veículos com histórias trágicas, com histórias belas, com interesses tão diferentes, eram recuperados e após isso, ficavam para trás restos de suas origens que não raro terminavam descartados e esquecidos. Então, aos poucos, aqueles resquícios passaram a ser transformados em pequenas propostas artísticas, ou seja, esculturas. No decorrer do tempo essa experimentação quase informal se transformou em possibilidade de produzir esculturas para o TCC, foi então que se tornou o eixo de desenvolvimento deste trabalho; era possível fazer minhas obras com a reorganização da sucata daqueles veículos do passado. Eram obras e posses do homem, descartadas pelo homem, que receberiam então uma nova leitura de forma e conteúdo estético. A proposta utilização das peças atribuindo a elas um novo significado, em uma ressignificação estética se tornou a proposta de trabalho a ser ressaltada neste estudo. A série “Artesucataria” tem este propósito, criar esculturas. O objetivo foi desenvolver uma série de esculturas fazendo uso de sucatas de automóveis, para a expressão criativa dos elementos belos e trágicos do homem em seu percurso de vida, em seu fazer e em seus princípios. Como objetivos específicos, têm-se: i) pesquisar a escultura no mundo contemporâneo e suas possibilidades artísticas; ii) apresenta uma das formas possíveis de aproveitamento artístico materiais oriundos de reformas e recuperações (sucatas) de carros e motocicletas e iii) desenvolver uma produção artística em forma de escultura utilizando a sucata.
  • 8. 7 CAPÍTULO I A “ARTESUCATARIA” A série “Artesucataria” foi produzida mediante a poética da reconstrução, da ressignificação, ou seja, atribuir um novo significado a elas e da possibilidade de reinvenção da vida, expressa na linguagem a escultura de sucata. A série de esculturas se apoderou de objetos que já fizeram parte das “mobilidades” (carros, motos, bicicletas, etc.) da vida humana e de suas posses (objetos de construção, acessórios descartados e afins), dando a eles nova significação. O que foi descartado, rejeitado, refutado do cotidiano das pessoas foi reelaborado e recebeu novos sentidos, para retornar em forma de arte e da proposição de novas leituras reflexivas. As sucatas de aço, as peças e metais, todos duros e frios, adquiriram novos significados ao se transformarem em esculturas, até se tornarem propostas e possibilidades totalmente distantes da frieza de sua função original. A leveza das novas formas e o trabalho das texturas reconstruídas e inovadas, unidas em novos sentidos, são as bases das intervenções. No decorrer da vida, o ser humano passa por alterações que, em maior ou menor grau, o levam a se reconstruir. Seja qual for a natureza das experiências individuais, a finitude e o ciclo da renovação se apresentam como os pontos em comum para todos. Com isso, a sucata se assemelha a uma analogia da vida humana que, conforme o olhar criativo que venha a receber, possibilita a continuidade daquilo que foi finito em novas formas, novos usos e reaproveitamentos. As obras que realizei com sucatas são também referenciadas por Beuys (1981), para quem a arte, não raramente, pode incorporar uma série de elementos adicionais, que estendem o seu sentido para além do campo isolado de uma produção artística. Algumas vezes, é possível aproximar esse significado de sentidos sociais e a arte se torna ampliada, parte da vida das pessoas ou constituída a partir de fragmentos dela. Nesses casos, afirma-se
  • 9. 8 que estas produções representam sínteses sistemáticas sobre a capacidade criadora de seus desenvolvedores. Embora todo o homem possa ser um artista, apenas alguns conseguem desenvolver essa expressão e um número mais reduzido ainda de pessoas atinge essa pluralidade de terrenos. As formas, pesos e texturas dos metais foram reconstruídos em novas leituras, em nada menos desafiadoras que qualquer outra proposta de arte, ainda que derivassem do descarte, da sucatada, do aparentemente inaproveitável. Unger (1991) apontou que a produção da arte não precisa vir de materiais e suportes tradicionais. A produção artística também pode ser extraída e produzida com elementos residuais, capazes de reconstruir e reler aquilo que não mais era incorporado pela vida humana ou transformar essa incorporação. Nesse sentido, sucatas, restos marcados de história e demais objetos descartados pela sociedade gerais podem ganhar uma intensa função discursiva em uma obra de expressão artística O material utilizado pode ser diverso, a sua natureza não é significativa, mas o que é determinante nessas produções de novas leituras e aproveitamentos de sucatas e afins é que possam oferecer uma experiência relevante para o observado. Além disso, “Artesucataria” se interessa em promover no observador a observação sobre si, sobre sua vida e sobre seu ciclo, ilustrando momentos-chave de decisão, solidão e finitude. Harvey (2005) pontuou a questão da observação significativa quando mencionou as vanguardas e suas produções inesperadas, revestidas de surpresas e novos caminhos guardam proporções de inovação e envolvimento para a arte. Por meio dos materiais relidos e ressignificados, a pluralidade artística se engrandece e a criatividade nos canais oferecidos se torna um elemento essencial. Não é necessário ser vanguardista, mas é fundamental levar ao observador uma visão que o toque em alguma dimensão, a ponto de trazer para aquela expressão de arte uma troca entre os eus: o eu que produz e o eu que observa. A escultura de sucata traria muito dessa significação e pluralidade. Ela atinge se bem elaborada o aspecto fundamental da arte nos dias atuais: a incompreensão, algo que é tão presente na sociedade e que pode ser
  • 10. 9 considerado em suas elaborações. Uma escultura de sucata, de resquícios de vida e de passado pode ser uma obra condensada pelo descarte e pela renovação de sentidos e de práticas. Para o bom aproveitamento, o caminho adotado foi a total desconsideração dos sentidos e formas anteriores e o aproveitamento da essência, a fim de criar novas possibilidades. Com isso, obteve-se uma criatividade livre do passado da peça, que o velho com o novo extraído daquilo que sempre foi e nunca foi percebido (TISDAL, 2008). A exploração escolhida para a sucata segue a tendência do pensamento de uma escultura feita com materiais plurais, confere aos elementos que utiliza a possibilidade de serem conhecidos, vistos e interpretados fora de sua escala comum de sentidos e significados. Para Gallwitz (1992), esse tipo de exploração envolve não apenas a extrapolação de formas, mas também o sentido social desse uso diversificado e o valor da ideia, do pensamento que os reveste. Quando se coloca o pensamento e a questão social como elementos criativos, o que se tem é a possibilidade de aportar-se de vários suportes, matérias e formas – até mesmo o detrito, a sucata – para desenvolver arte e novas leituras, proposta esta adotada neste trabalho. Para Câmara (2013), embora o sentido do termo escultura envolva a produção de um objeto tridimensional, no presente ela não se resume apenas a esse ato produtivo e também pode conter discursos e elementos adicionais, bem como se representar por elementos abstratos que antes não seriam comportados dentro de sua expressão. Um bom exemplo é a voz como escultura expressiva, no que se considera o seu volume, a sua entonação como temáticas expressivas consideráveis. A escultura, bem mais que expressão tridimensional estática, é um conceito e uma possibilidade em intenso movimento. O reaproveitamento da sucata e a abertura em muitas das obras para que as pessoas interajam e o próprio ambiente possa dar movimento e contexto busca formalizar a sucata como escultura social. Segundo Vicini (2009), estas esculturas trazem comunicação entre as pessoas e, quando advêm de um material como a sucata, conforme o modo e a proposição do artista podem levar a reflexões que tornem a obra um canal de comunicação e
  • 11. 10 expressão do artista e, conforme as possibilidades da obra, também do observador em sua experiência de fruir daquela arte. Quanto ao conteúdo, à série apresenta obras que são hora agradáveis horas bastante desafiadoras à reflexão. Hora de fácil interpretação, hora de intrigante contato. Vicini (2006) mencionou que, nem sempre, nessa proposição, as produções tendem a ser agradáveis ao olhar, ou atraentes aos olhos. O conteúdo comunicativo é o que é importante, o que envolve, o que se torna a essência de existência. Essas obras realizam uma espécie de fabulação do mundo e dentro deste contexto, se desenvolvem (VICINI, 2006). Sobre o uso da sucata e de materiais alternativos, segundo Sevcenko (2006), foi a partir da primeira geração romântica francesa que a liberdade dos materiais para a criação se tornou um fenômeno mais notável e praticado nas expressões artísticas. De modo provável, seria uma situação decorrente da expressão em arte das agitações da Revolução Francesa e, condensando os materiais, seria uma forma de exprimir a modelagem de tudo o que houvesse de alternativo por meio do martelo. Tudo, o que quer que fosse, poderia se transformar em arte. Nesse momento turbulento, em que a própria identidade do que era arte e do que não era se encontrava bastante confusa, surgiram artistas integrados a um submundo produtivo, em várias expressões artísticas e de comunicação. Lá era possível encontrar jornalistas, caricaturistas, artistas em geral e indivíduos que queriam testar estes novos limites de expressão e possibilidades. O volume destes ativistas cresceu de maneira significativa e, de modo proporcional ao aumento do volume, ocorreu o aumento da repressão contra o que propunham Eram artistas inadequados, que não raro eram banidos e isso, de modo indireto, levou a difusão desses usos e radicalidades pelo mundo. Não que em outras localidades não existisse a mesma força expressiva, mas, era notável que o teor francês do sentido de transformação trouxe uma leitura mais crítica e revolucionária à modelagem de materiais. Não é raro também que s expressão de “sucata” em arte, integre o que Michel Thévoz chamou de arte bruta, cujas obras expressam alucinações ou frutos do caos psíquico interior. Não são ligadas ao surrealismo estas obras, mas bebem do mesmo impulso interior envolvente de propulsão interior, psíquica, que o surrealismo é envolto. Há um grande teor de imprevisibilidade
  • 12. 11 nesta arte e as expressões se elaboram de modo bastante intenso, com lógica própria e com estrutura individual. Não raras vezes, os resultados que podem ser visualizados nestes projetos e produções se distanciam bastante da arte oficial. Embora a arte bruta nem sempre seja agradável à crítica, há os casos em que ocorrem movimentos bastante contrários, com artistas que são acolhidos pela riqueza de suas produções. A natureza bruta expressiva costuma seguir dois extremos: ou ser muito envolvente, ou muito chocante (GOLDSTEIN, 2008). Além disso, é um material plural e de alta expressividade. Segundo Barreto (2001), a sucata pode servir de suporte para uma variedade intensa de representações. O artista Jonas Pereira dos Santos, por exemplo, condensa em sua produção peças de sucata de oficinas e as converte em leituras que passam trechos da história do Brasil e do mundo. Em outros momentos, oferece a essas peças movimento e interesse, dinamismo, e apresenta a rica cultura brasileira com capoeiristas em ação e produções autobiográficas. É uma diversidade considerável que permite ao artista reler a sucata e dar expressividade a seu olhar e dizer. O trabalho proposto neste projeto envolve-se com o sentido de arte bruta e sua relação com a cultura e com a subjetividade humana. O produto descartável da vida capital é elaborado e transformando em exemplos do homem em sua jornada e numa leitura positiva de sua (in)finitude: o homem e a coisa da qual a sucata veio são finitos, mas sua essência é perene e pode ser, conforme o olhar, renovada. Nesse rumo, Soares (2000) apontou que a produção atual da arte é mais aberta para a acolhida de manifestações que envolvam materiais que integrem o cotidiano dos indivíduos e que, em uma primeira leitura não sejam ligados à arte. A cultura pós-moderna é bastante abrangente e permite a absorção de uma série de diferenças e proposições, inclusive de produções que em um olhar inicial possam se apresentar contraculturais. O dito detrito, a sucata e suas novas leituras possíveis enquadram-se nesse escopo de aproveitamento, gerando produtos culturais da vida pós-moderna e de seus descartes, leituras que transformam o que antes era desuso em uso imediato, em arte, em expressão.
  • 13. 12 O delírio do artista ou do leitor e as capacidades de interação também foram tratados por Soares (2000) quando os cita ligados a uma espécie de inventários de mundo, de vazões do inconsciente. A arte, quando projeta tais elementos o faz na única maneira possível para que esses conteúdos interiores possam se fazer notar e elaborar na Terra. Miniaturas, maquetes, esculturas de sucata, de detritos e uma série de outros materiais também podem ser incorporadas a essa remodelação de mundo, a essa leitura renovada, gerando uma arte advinda do interior do artista e que pode, conforme as oportunidades e possibilidades do observador, também ser ambiente de vivência de seus delírios, de suas subjetividades ou do compartilhamento desses sentimentos em maior ou menor grau se referenciados a quem os produziu. A escultura é resultado de uma série de interações que envolvem não apenas a modificação do olhar e as novas dimensões interpretativas de mundo e de quem produzem a arte. Também envolve as tecnologias pelas quais essa produção pode ser obtida, bem como as novas técnicas e suportes para a arte. O que antes não era acolhido, no presente pode o ser de maneira efetiva. A linguagem escultórica trabalha inúmeros materiais e pode explorar tanto o espaço quanto o vazio, tem a sua disposição a questão do volume e de suas possibilidades de modo pleno, uma vez que as tecnologias que podem ser exploradas para o trabalho com esses materiais se tornaram mais acessíveis. Da mesma forma, a opção pelo trabalho com a rusticidade e com ferramentas simples se manteve ativa e possível e o hibridismo é uma característica do tempo presente (SAFAR, 2006). Outro contributo e orientação importante que se percebe dos artistas do presente é o uso, na escultura, da simplificação e estilização das figuras, bem como da transformação de formas reais em elementos figurativos ou em essência modificados, que rumam no sentido da abstração. Assim, entende-se que nesse repertório variado, a sucata e o metal, foram adições do pós-guerra, e que passaram a ser lidos e transformados em inúmeras produções, das mais variadas naturezas no mundo todo (PROENÇA, 2007).
  • 14. 13 1.1 SOLDA NA ESCULTURA 1.1.1 A solda Há várias possibilidades para o trabalho em arte com materiais diversos e dentro dessas possibilidades, a solda consolida o uso de muitos deles. É o ato de unir peças de modo definitivo, por meio de reações químicas e calor. O uso e trabalho com a solda ocorre com o respeito às particularidades dos materiais que aceitam a sua aplicação, permitindo a solidez e a segurança das obras. Maidana (2014) apresentou que o eixo do trabalho é a amperagem utilizada para a solda, valor obtido conforme o tamanho do eletrodo a ser utilizado e a grossura do metal. A relação é proporcional: metais ou materiais que tenham uma base mais dura, mais sólida, requerem que a solda seja mais penetrante. Com isso, é utilizado um eletrodo mais grosso e a amperagem é modificada. Em geral, cada grossura de eletrodo tem uma amperagem específica, mas como padrão de referência, sabe-se que um que tenha 0,63 cm requer 250 amperes para que venha a ser trabalhado. As máquinas caseiras suportam com frequência até o máximo de 300 amperes, o que limita a essa dimensão de eletrodo o seu uso. As industriais, como foi o caso utilizado neste trabalho, admitem maiores amplitudes de eletrodos. Mesmo assim, o trabalho com a solda não requer, necessariamente, que exista maior amperagem na máquina, uma vez que a opção mais comum é utilizar várias passagens para que o metal mais grosso seja soldado que uma amperagem de carga superior a 300 amperes, evitando o aquecimento excessivo da máquina e garantindo qualidade e uniformidade no trabalho. Na série “Artesucataria”, foram utilizados eletrodos entre 2 mm – 2,5 mm, na maioria das obras, o que importa no uso de amperagens entre 55 a 80 amperes. Outro aspecto: na solda com sucata deve-se ter o cuidado de limpar completamente a peça, que fique totalmente livre de impurezas, de graxa ou de qualquer outro tipo de elemento. No geral, é necessário apenas que se retire óxidos e impurezas comuns, mas, quando se pretende um trabalho que tenha uma demanda mais intensa de resistência, é aconselhável que se usem
  • 15. 14 respaldos, chanfros e processos de aquecimento prévio e posterior para reforçar a qualidade final da solda. É importante observar a peça para que não apresente porosidades em suas emendas, apresentando então problemas de solda. Pode-se lixar ou utilizar qualquer outro tipo de alternativa para eliminar a porosidade, a fim de que se torne uniforme e trabalhável com segurança. Por fim, o término do cordão de solda deve ser feito no formato de caracol, com o rápido afastamento da peça, para garantir a finalização. Embora existam eletrodos nus, ou puros, os utilizados para esta série foram pautados no que é mais recorrentemente utilizado no presente, ou seja, eletrodos revestidos, em que o núcleo é de metal, mas há uma liga que se mistura a ele no momento em o calor ativa e forma um retorno maior, uma cola, que geralmente é o silicato de sódio ou então de potássio. O revestimento utilizado foi o rutílico, pelo bom acabamento, por suportar chapas finas a médias, por se adequarem a estruturas metálicas e pela menor apresentação de trincas em razão da presença de fluorita, carbono de cálcio e de ferro liga em seu revestimento (SENAI, 1998). Tolosa (1997) descreveu que as esculturas em ferro e solda se apropriam das técnicas já utilizadas para as soldas em metal, o que amplia as chances de exploração de formatos e possibilidades. O que difere entre o ferro e o metal é a dificuldade de trabalho com os materiais, sendo que o ferro geralmente exige mais força e intensidade, precisa ser moldado, aquecido. O metal, não. É mais simplificado, maleável. Para as esculturas em sucata, é comum que sejam reaproveitados materiais como ferros, parafusos, porcas, pregos, máquinas e partes de peças que tenham dimensões pequenas a média. Naturalmente que a exploração de dimensões maiores é possível, mas há um menor número de artistas que opta por isso, dadas as dificuldades de trabalho com o material, como o transporte e investimento em estrutura e maquinário para realizar o seu andamento. Esse tipo de escultura é válido e acolhido nas artes, podendo tanto comportar ideias já existentes e regulares, como estéticas nada rígidas e incomuns, sendo um material sólido mas que, com o uso de solda e arte, possibilita a vazão criativa individual.
  • 16. 15 1.1.2 O uso da solda na arte e na série “Artesucataria” A série produzida fez uso da solda como elemento de ampliação para os limites da criação, que amplia as modelagens, esse recurso costuma reduzir a mobilidade da obra, não permitindo que seja desmontada na maioria dos casos (CALÁBRIA, 2011). Contudo, os artistas que utilizam esse recurso identificam a resistência e a facilidade de trabalho que tal recurso oferece (solda) com materiais como aço e ferro, bem como outros materiais pesados, resultando em peças estáveis, seguras e em uma boa alternativa, de maneira especial quando se pretende a interação ou que pessoas possam envolver-se, de algum modo, na proposta de produção. É um trabalho complexo que teve seu engatilhamento em sala de aula, no momento em que, durante uma das aulas do Professor Elomar, foi solicitado o desenvolvimento de um trabalho com o uso da sucata .Com isso, em grupo, foi explorada a solda fora do espaço de sala de aula e foi possível começar a conhecer as possibilidades desse recurso. A segurança e a capacidade de explorar materiais como aço, metal, e ferro entre outros, foi bastante atrativa e, quando o resultado final daquele trabalho foi entregue (um peixe desenvolvido pela reciclagem de um extintor, com aplicações de porcas e parafusos), surgiu e teve início uma exploração pessoal sobre as possibilidades criativas da solda, que resultou no maior conhecimento de suas capacidades técnicas, oportunidades e limitações. Outra leitura da solda, incorporada na seleção para aplicação nas obras, foi o sentido de união: se entre os homens, o amor que os faz permanecer próximos e construir histórias junto aos demais, se perpetuando em sua memória e em sua existência, é a chave de sua existência, a solda é, na série, o amor que une as sucatas em prol de transformá-las de finitas em perenes
  • 17. 16 CAPÍTULO II SÍMBOLOS E COMPONENTES CENTRAIS DE ARTESUCATARIA Neste tópico se descreve a base de escolha e desenvolvimento do tema proposto, para a elaboração das esculturas. É um relato da experiência criativa e impulsionadora do artista, que conduziu à série “Artesucataria”. Ao observar em um trabalho alternativo o grande volume de detritos e descartes que a atividade de conserto e restauração de motocicletas e veículos antigos acumula, foi percebida a possibilidade de que tudo o que era descartado pudesse dar vazão e lugar a um projeto artístico. As peças, os aros, o metal, o alumínio, o inox e o aço, em várias versões e cores, apresentavam brilhos e texturas que eram descartados às lixeiras sem receber uma leitura ou apreciação que permitissem a sua saída para além dos limites da sucata, um novo significado ao que deixa de ser sucata e se transforma em objeto estético pelas mãos do artista. Os detritos relidos, reaproveitados, em nova vertente e leitura do que é humano e de sua vida cotidiana é a proposição deste projeto. O processo criativo, tema do próximo capítulo, é descrito de modo pormenorizado em sua simplicidade, de recolher o que antes era detrito e transformar, unindo, forjando e solidificando, em leituras de vida e do mundo atual, em humanóides sem vida, entretanto, frutos da vida e dos desejos passados de humanos, sob a ótica do artista – no caso, minha leitura e ressignificação. A “Artesucataria” é uma leitura da morte, do encerramento, em novo começo, em re-começo, no qual de detrito se torna arte, de descarte se torna encarte, de inutilidade se torna proposição e passa a ter um novo significado. Esse novo significado é a do objeto transformado, vivo outra vez, realocado.
  • 18. 17 2.1 REFERÊNCIAS TÉCNICAS E DE ESTILO A proposição deste estudo se encaixa na proposição de estilo pós- moderno, pela ótica de Kumar (1997), para quem essas produções podem ter uma: [...] mistura eclética de qualquer tradição com a do passado imediato. É tanto uma continuação do modernismo, quanto sua transcendência. Seus melhores trabalhos são, caracteristicamente, de dupla codificação e irônicos, dando destaque à amplitude de opção, conflito e descontinuidade das tradições porque tal heterogeneidade capta com a maior clareza possível o nosso pluralismo (p. 116). Uma das prerrogativas da escultura é a capacidade de angariar e variar materiais para a sua expressão e na modernidade e pós-modernidade, um dos principais traços é a variedade e a experimentação. Embora a madeira e a pedra sejam os materiais mais comuns, no presente, a sucata e a reciclagem de outros suportes é uma realidade constante. Na própria história e dentro da contextualização da escultura, o seu sentido pode também se modificar: era comum na antiguidade que fossem associadas a deuses, a receptáculos de sua presença, ou teofanias, mas no presente este sentido se modificou e há uma diversidade de sentidos que deve sempre ser considerada (WITTKOWER, 2001). Na Grécia, as esculturas tinham forte ligação com as tradições e a pedra também era o suporte mais utilizado, de modo especial o mármore e quase sempre as esculturas mostravam formas perfeitas, naturais. Não eram muito simbólicas, e sim muito afeitas a formas reais e seu interesse era demonstrar os deuses e servir de elementos que adereçavam os tempos. Após o renascimento, as esculturas passaram a ter maior associação com a dignidade humana e visavam proporção, harmonia e perfeição (PROENÇA, 2007). A partir da industrialização, ainda segundo Proença (2007), a expressão da arte em geral passou a ser mais variada, expandindo o interesse da proporção e da perfeição e passou a envolver temáticas mais intensas e a apresentar a distinção entre movimentos de modo mais claro. As técnicas de
  • 19. 18 escultura passaram a ter expressões como ondulações e aspereza, como tratamento da incidência de luz e maior complexidade de texturas e volatilidade em algumas das elaborações. Portanto, o teor imaginativo e variado se tornou mais latente a partir deste marco. É o período da escultura moderna, que a partir dali passou a experimentar também impactos como as novas tecnologias e as variações de materiais, que também incluiu os despojos das indústrias e toda a série de possibilidades novas produzidas. A escultura a partir deste período se tornou mais dinâmica e abstrata e conforme o interesse do artista se tornou possível explorar sensações cinéticas, auditivas, visuais e variadas e a abstração se tornou uma parte importante da expressão da escultura (SAFAR, 2006). O surgimento da sucata como um material de escolha se deu após a Iª Grande Guerra, quando inúmeros artistas começaram a realizar produções baseadas em solda, em colagens e no aproveitamento de materiais, como Alexander Calder. As obras também passaram a ter ainda mais expressividade e o movimento, em vez da estática, também foi incorporado às esculturas. A fluidez das obras se tornou uma possibilidade a partir deste marco, O uso do vazio nas esculturas também foi um ganho e presença deste período, explorando o inverso da matéria, a contradição do não preenchimento em algo que se sustenta, a leveza no sólido (PROENÇA, 2007). Figura 1 – CALDER, Alexander. Dobradura com disco vermelho, 1973.
  • 20. 19 Artistas contemporâneos que trabalham com a sucata, quase sempre optam por produzir temáticas contemporâneas e também por explorar volumes geométricos, vazados e contrapontos, como o exemplo citado acima. Boas referências são Felícia Leirner, com suas esculturas de grande porte que costumam se integrar de modo muito positivo com o ambiente e Mário Cravo Júnior, que por meio de suas esculturas de materiais variados explora o repertório cultural brasileiro de um modo muito próprio (PROENÇA, 2007). Figura 2 – LEIRNER, Felícia. Pássaros, 1976. Figura 3 – CRAVO JUNIOR, Mário. Sem Título, s.d.
  • 21. 20 A exploração geométrica é clara, mas o tamanho, a dimensão de suas obras, idem. Caciporé Torres é outra referência que se utiliza da função do ferro e do aço inox para criar obras de grande porte que em geral ficam em espaços externos e que dialogam com as pessoas por sua presença imponente e leituras possíveis variadas (PROENÇA, 2007). Figura 4 – TORRES, Caciporé. A grande coluna, s.d. Outra referência é um artista plural, que atua tanto em tatuagem quanto na escultura, o artista Dimas Escultor realiza esculturas e pinturas em materiais reciclados, e cuja suas obras são bastante objetivas e pautadas no reaproveitamento e leitura de elementos como ferro, metais e restos de objetos como motocicletas e bicicletas integradas ao cotidiano. Seu “Cavalo de Ferro” e sua “Moto de Sucata” são dois referenciais importantes de um artista que, embora sua produção não esteja engajada ou reconhecida em circuitos de arte,
  • 22. 21 representa uma excelente referência de estilo e de técnica para a proposição deste trabalho. Figura 5 – ESCULTOR, Dimas. Cavalo de Ferro, 2012. Figura 6 – ESCULTOR, Dimas. Moto de sucata, 2012
  • 23. 22 Por fim, uma referência adicional são as esculturas de Paulo Eppling que, por meio do uso de detritos, cria novas formas pautadas em obras de arte tridimensionais. É um artista americano e suas obras podem ser vistas em vários locais daquele país, especialmente na Baia de Tampa, na Flórida. Figura 7 – Obra de Paulo Eppling, s.d. Outra obra que serviu de referência para a proposição deste trabalho foi construída mediante a observação da mídia televisiva, com a obra de Vick Muniz que serviu de abertura da novela Passione. A sucata e sua leitura associada ao amor, um dos sentimentos mais interessantes e abordados na história humana, possibilitou um resultado visual muito interessante e, com um conjunto de peças, descreveu a paixão entre duas pessoas.
  • 24. 23 Figura 8 – Obra de Vick Muniz, 2009.
  • 25. 24 CAPÍTULO III PROCESSO CRIATIVO E FINALIZAÇÃO DA SÉRIE 1.1 A POÉTICA DE “ARTESUCATARIA” A série “Artesucataria” se desenvolveu mediante a proposta de uma poética de reconstrução, de reelaboração e busca por novos sentidos. O processo que sustenta a sua criação é também parte de um processo interior da vida, que é o resgate das vivências, das experiências e a colocação de significados. A sucata, aquilo que não é mais utilizado e que um dia já serviu – no caso deste trabalho – para a mobilidade e para as posses dos indivíduos, foi coletado, limpo e estruturado, a fim de abandonar o seu sentido original e reproduzir peças que retornam para a vida cotidiana daqueles que as excluíram, não mais como objetos mortos ou sem serventia, mas como arte, beleza e chamados para a reflexão. Os movimentos entre ir e vir, chegar e partir, ler e reler, compreender e desistir, entre ser e não ser, ter e não ter e entre a finitude e a eternidade são as bases da poética da obra que é sustentada pelo pilar da continuidade, das reapresentações e das possibilidades, bastando um olhar inovador nesse sentido, bastante o interesse de rever tudo em novas possibilidades. A reconstrução humana e os momentos-chave em que a existência precisa ser pensada, analisada, refletida e alterada formaram as bases para a construção das pelas de “Artesucataria”, em uma poética que une morte e vida, perecimento e ressurgimento. Uma nova leitura do que existia, deixou de existir e retornou, novo, inovado.
  • 26. 25 1.2 OS RESULTADOS A primeira obra é Renascer. Nela foi pretendida a retratação de uma nova chance, de mudar caminhos e conceitos, traçar novos objetivos, esquecer o passado e seguir em frente. No início da obra, foi feito um protótipo de papelão, pois como era uma nova leitura humana teria que ter proporções. A principal dificuldade foi a sustentação da possível coluna vertebral, na qual foi utilizado um ferro para esse objetivo e uma madeira como contrapeso. Para auxiliar nessa resolução também foi adquirida uma marionete em madeira e foi utilizada a proporção das cabeças para esse fim. O papel deu início à obra, que passada para o ferro. Primeiro foi cortada a cabeça e colo e depois, transposta a envergadura da coluna. Para dar ideia de mobilidade e de juntas, foi colocada uma corrente na qual a solda comum não permitiu a fusão dos dois materiais diferentes. Para isso, foi utilizada a solda amarela com varetas de latão nitrogênio e um componente químico. A criatura que surge de coisas que eram e que ainda está no chão, aprendendo a se sustentar é a analogia do renascimento da vida, quando se aprende novamente a ser e a ver, tendo tudo sob nova perspectiva. Se antes era uma perspectiva superior, passa a ser inferior e em reconstrução. Os cacos e restos que motivaram o renascimento ali estão, relidos e reajustados, de tal modo a representar uma nova realidade que aprender a se ajustar nesse mundo. De uma coisa à outra, de finito a novo. Figura 9 – Obra Renascer Etapa I
  • 27. 26 Figura 10 – Obra Renascer Etapa II Figura 11 – Obra Renascer Obra Renascer Etapa III
  • 28. 27 A obra seguinte é Caminhos da Vida. Nela, o eixo é que muitas vezes na vida temos de escolher o caminho que devemos seguir. Algumas escolhas podem ser certas, outras erradas, mas sempre é preciso escolher. Algumas vezes é possível escolher o caminho mais rápido, em razão da dificuldade do outro caminho e nessa escolha, passar por cima de pessoas ou cometer atos ou atitudes negativas para obter o que se deseja. O interesse da obra é mostrar que o caminho mais longo leva ao lugar correto e o mais curto, a nenhum lugar ou pelo menos a nenhum lugar no qual se deseje estar. O primeiro passo foi traçar um projeto de proporções dos degraus descrentes da escada da vida. Na circunferência, foi dividida de modo igual. Então, pegou-se o primeiro degrau e com um cordão foi traçada a outra ponta do degrau, apontando o local de ligação entre um e outro. As peças foram cortadas, retiradas do papel e transpostas ao ferro. No tubo, foram feitos espaçamentos decrescentes para dar a ideia de quanto mais perto do objetivo, maior a dificuldade com degraus mais estreitos e mais afastados. Figura 12 – Caminhos da Vida A antiga metáfora de que os últimos degraus são os mais estreitos e de que há dificuldade em se galgar um local positivo e elevado na vida, mas a queda permanece fácil, é o centro dessa peça. A escada da vida é a caminhada que leva acima e abaixo, tudo depende de onde a pessoa está e aonde ela quer chegar.
  • 29. 28 Bem como dos fatos imprevisíveis da vida. Construída de sucatas, é também uma analogia entre o que foi importante e se tornou a sustentação para a caminhada e apresenta a possibilidade de caminhar e progredir, encontrando bons destinos justamente sobre os obstáculos da vida, que muitas vezes são os gatilhos das mudanças. A obra Prisões retrata o que necessitamos para sobreviver. Com grandes pássaros de ferro soltos e uma gaiola sem fundo, nela o expectador poderá se colocar no centro (já que não tem fundo) e se questionar: os pássaros acordam todos os dias cedo cantando e a casa deles não é de luxo. Não usam roupas de marca e são felizes. Eles fazem o que o homem sempre almejou que é voar! A principal mensagem da obra é permitir que o observador interaja e que perceba a necessidade de não se apegar ao dinheiro nem as coisas materiais: dar valor ao que realmente tem valor. O que as prisões ilustram é a distância, não maior que as grades, entre o que o homem deseja fazer e o que a vida lhe impõe fazer. Entre o que o homem deseja ser e o que a vida lhe impõe ser. Entre a liberdade e a obrigação. A proposta desenvolvida no meu trabalho tem por intenção mostrar ao observador que a vida pode ser aprisionadora, mas também libertadora tudo depende se você é pássaro de dentro ou de fora da gaiola. Também por ser toda de sucata mostra que o mesmo material e o mesmo repertório que pode tornar uma pessoa livre, conforme a maneira que trabalha esses conceitos e lugares, tal situação também pode torná-lo cativo. Figura 13 – “Prisões” em esboço
  • 30. 29 Figura 14 – “Prisões” real A quarta obra é Soma. Mostra que não importa o tamanho que a pessoa assuma, a forma que tenha, quem ela seja ou como ela seja, se sozinha sempre será como uma das porcas que constituiu a obra. Mas se por acaso se juntar a outras, pode se tornar tudo o que quiser. Soma retrata o tripé morte (caveira, o maior temor do homem), o espanto do acontecido (o ponto de exclamação) e a incerteza não respondida (ponto de interrogação), a fim de apresentar – depois de todas as transformações e remodelagens – a transformação final, que muda a forma, mas não a essência. A solda e a união de porcas constituem a sua formação por uma razão poética: sozinhos, assim como sozinhas as porcas não terão um formato além de algo comum. Unidos, podemos assumir o sentido e a forma dos maiores mistérios. Outra mensagem que Soma passa é sobre a morte: só, na vida, o ser humano será sempre uma peça isolada. Só, na morte, o ser humano será um indigente. Junto, se faz outra história.
  • 31. 30 Figura 15 – “Soma” – se você se unir (?), poderá se tornar o que quiser (!).
  • 32. 31 Por fim, tem-se a última peça, Finitude. O desfecho do ciclo é a finitude. Assim como aquilo que era não tem ideia ou semelhança com o que se torna depois de lido de modo novo como como sucata, assim o homem não tem ideia do que se tornará no evento de sua morte e após ela. O que é certo é o espanto dessa hora e a incerteza. Finitude é a síntese do pensamento da morte, da desfação do ser, do sentido de fim. Por outro lado é também a continuidade, que mostra que mesmo desfeito o homem e a sucata não esgotam suas possibilidades. Finitude é o término do ciclo das novas leituras, o desmanche, o encerramento da forma, mas não o fim, dado que a essência ali está reconstruída, com olhar criativo e renovador, que forma outro objeto do antigo e cria outro novo ciclo, diferente, de novas formas. Figura 16 – “Finitude” Por fim, é importante acrescentar um detalhe que envolve a finalização da série: em nenhuma das peças foi dado acabamento, nem acelerado o processo de enferrujamento das peças. Essa decisão foi tomada em razão da poética do trabalho, pois as peças – assim como as pessoas – têm um tempo de vida útil. A aceleração da ferrugem ou um acabamento maior nesse sentido seria adiantar, fazer acontecer antes da hora um processo, quebrando com a sequência esperada de seu ciclo natural. Foi optado por deixar isso em aberto, para que a ferrugem ocorresse, caso ocorra, dentro do tempo de cada obra.
  • 33. 32 CONSIDERAÇÕES FINAIS Eu me apropriei de referências contemporâneas, modernas e urbanas para construir uma leitura sensível a respeito dos desafios e desfechos da vida. A sua apresentação plural consiste em não somente a leitura poética da transformação das coisas, mas também nas possibilidades infinitas que envolvem esse transformar. A sucata foi um material extremamente importante para a proposição, porque permitiu analogias importantes com os sentidos de reconstrução e de infinitude. Embora a coisa que tenha gerado a sucata tenha encontrado o seu fim enquanto assumia aquele papel, ela não deixou de existir e, transformada, pode assumir novas possibilidades. Da mesma forma que o homem se transforma pela vida e por seus desafios, continuando a existir transformado, a sucata passa pelas mesmas diversas e novas leituras e permanece existindo: com outras formas. Me apropriei da sucata e de seu passado para reconstruir e dar nova forma e sentido ao que já existia e oferecer nessa recuperação de sentidos, novos olhares e perspectivas. O objetivo foi desenhar o fato de que como a sucata pode se refazer, pode se modelar do velho em novo, o homem também pode. Que assim como percurso da sucata é o fim, o do homem também é, contudo, a finitude do ciclo depende do olhar de cada um, podendo continuar em um espiral sem fim de possibilidades. Tudo conforme o olhar de quem capta a história. Por essa razão a sucata foi escolhida, assim como o tema: pela semelhança e contraposição homem / lata, metal / vida e ação / estática que, convertidos em arte, contaram uma nova história. Por fim, a proposta central de “Artesucataria” é poética: é a existência sem fim, vinculada à criatividade. Nada se esgota nada se acaba. Tudo se transforma. Assim é na arte, no mundo, na vida.
  • 34. 33 REFERÊNCIAS BARRETO, Osana de Azevedo Gonçalves. Construindo com sucata. Monografia. Especialista em Arteterapia e Educação em Saúde. Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2001. BEUYS, Joseph. Polentrasnport 1981: entrevista debate conduzida por Ryszard Syanislawisk. ET TOUS ILS CHANGET LE MONDE. Catálogo da, v. 2, 1981. CÂMARA, Marina Andrade. Joseph Beuys e Giuseppe Penone: Aproximações Entre Arte e Política. PÓS: Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da Escola de Belas Artes da UFMG, v. 3, n. 6, p. 38-48, 2013. CALÁBRIA, Querles de Paula Alves. DO MÁRMORE DE MINAS AO AÇO DO MUNDO: BREVE TRAJETÓRIA DO ESCULTOR DARLAN ROSA.Olhares & Trilhas, 2011. FORTUNA, Marlene. Século XXI: a arte como fetiche na sociedade do pós- humano. Sem data definida. Mimeo. GALLWITZ, Klaus. Homem com esculturas de feltro. Guia das artes São Paulo, v.20, n.6, p. 12, jun.-jul. 1992. GOLDSTEIN, Ilana. Reflexões sobre a arte" primitiva": o caso do Musée Branly. Horizontes Antropológicos, v. 14, n. 29, p. 279-314, 2008. HARVEY, David. Condição pós-moderna. Edições Loyola, 2005. KUMAR, Krishan. Da sociedade pós-conceitual à pós-moderna. Novas teorias sobre o mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. MAIDANA, Eduardo Horst. Como determinar a amperagem da solda. (2014). Disponível em: < http://www.ehow.com.br/determinar-amperagem-solda- como_19105/> Acesso em 15 ago 2014. MORAES, Rosana Eulâmpio de. A poética da escultura: estudos do uso da argila na arte-educação. 2013.
  • 35. 34 OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 1993. PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Àtica, 2007. SAFAR, Gisele Hissa. Artes visuais. 2006. Disponível em: <http://ptscrib.com/doc/80800808/1/curso-artes-visuais.html> Acesso em 20 mar 2014. SENAI. DR. PE. Tecnologia de Solda – Processo Eletrodo Revestido. Recife, SENAI.PE/DITEC/DET, 1998. SEVCENKO, Nicolau. Configurando os anos 70: a imaginação no poder e a arte nas ruas. Anos 70: trajetórias, p. 13-24, 2006. SILVA, Daniele Nunes Henrique; MORAES, Rodrigo. Dimensões de um tempo contemporâneo-neoliberal: modos de configuração da experiência criativa na sala de aula- a situação do Estado do Rio de Janeiro. 2007. SOARES, Ilka de Araújo. Arthur Bispo do Rosário a arte bruta ea propagação na cultura pós-moderna. Psicologia: ciência e profissão, v. 20, n. 4, p. 38-45, 2000. TISDALL, Caroline. Joseph Beuys. Thames and Hudson, 2008. TOLOSA, Erasmo M. Castro. Escultura de sucata de ferro. Rev. Comum. & Artes, v. 20, n. 32, p. 87-90, set./dez., 1997. UNGER, Nancy Mangabeira. O encantamento do humano: ecologia e espiritualidade. Edições Loyola, 1991. VICINI, Magda. A arte de Joseph Beuys: pedagogia e hipermídia. São Paulo: Ed. Mackienzie, 2006. VICINI, Magda Salete. Arte de Joseph Beuys: pedagogia e hipermídia.Comunicação & Educação, v. 14, n. 1, 2009.