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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL
DEPARTAMENTO DE ARTE E COMUNICAÇÃO
CURSO DE ARTES VISUAIS
ESTUDO SOBRE O MERCADO DE ARTES PLÁSTICAS EM
CAMPO GRANDE – MS
MONICA BRANDÃO OLIVEIRA PENNA
Campo Grande – MS
2008
1
MONICA BRANDÃO OLIVEIRA PENNA
ESTUDO SOBRE O MERCADO DE ARTES PLÁSTICAS EM
CAMPO GRANDE – MS
Relatório apresentado como exigência parcial
para obtenção do grau de Bacharel em Artes
Visuais à Banca Examinadora da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul, sob a
orientação do Prof. Ms. Darwin Antonio Longo
de Oliveira.
Campo Grande – MS
2008
2
Dedico este trabalho a Deus, à minha
família e a todos que me ajudaram a amar
as artes da forma como eu amo!
3
AGRADECIMENTOS
Muitas pessoas colaboraram com este trabalho. Das formas mais
distintas, em momentos muito diversos, todas fizeram contribuições valiosas.
Entretanto, é sempre uma difícil tarefa lembrar-se de todos, tal é a quantidade de
dados, informações e opiniões que são prestados no decorrer da elaboração de um
trabalho.
Creio que essa dificuldade se torna maior pelo receio de, sem querer,
esquecer de alguém e, com isso deixar de transparecer que não houve
reconhecimento de alguma ajuda ou conselho.
Inicio, portanto, com um agradecimento genérico a todos aqueles
professores e colegas com os quais convivi no transcorrer do curso, com os quais
tive a oportunidade de trocar idéias, discuti-las e aprender.
Agradeço, de forma especial, ao meu orientador, Prof. Ms. Darwin Antonio
Longo de Oliveira, e à Profa
. Ms. Marley Sigrist, com quem compartilhei minhas
dúvidas e anseios e de quem sempre obtive uma orientação segura e objetiva.
A todos os participantes da pesquisa de campo realizada, por dedicarem
seus preciosos tempos a responderem os diversos questionamentos que lhes fiz:
Alfredo Arruda, Américo Calheiros, Evandro Prado, Idara Duncan, Isaura Corbucci,
Izabella Mercante, Janine Menezes Tortorelli, Jean Lima, Rafael Maldonado, Maria
Raquel Gomes, Yara Penteado, dentre outros.
4
Não entendo. Isso é tão vasto que
ultrapassa qualquer entender. Entender é
sempre limitado. Mas não entender pode
não ter fronteiras. Sinto que sou muito
mais completa quando não entendo. Não
entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples
de espírito. O bom é ser inteligente e não
entender. É uma benção estranha, como
ter loucura sem ser doida. É um
desinteresse manso, é uma doçura de
burrice. Só que de vez em quando vem a
inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender
que não entendo.
Clarice Lispector
5
RESUMO
Este trabalho apresenta um estudo sobre o mercado de artes plásticas de Campo
Grande – MS e foi realizado com o objetivo de conhecer, pesquisar e analisar esse
mercado. A metodologia utilizada para o desenvolvimento do trabalho envolveu, em
um primeiro momento, a pesquisa exploratória e, após, a pesquisa descritiva. Foram
necessárias, ainda, a pesquisa bibliográfica, para o suporte teórico, e a pesquisa de
campo, feita por meio de entrevistas não-estruturadas feitas junto às pessoas
escolhidas a partir do objetivo determinado para o trabalho. O enfoque dado ao
estudo foi qualitativo. O mercado de arte em Campo Grande ainda é pequeno e sua
dinâmica está restrita a poucos espaços e poucos distribuidores e consumidores,
apesar do número significativo de artistas. As instituições governamentais
incentivam por meios que disseminam a arte e os artistas junto ao público, assim
como pessoas interessadas criam espaços alternativos para exposição e venda de
arte. Ainda há muito a ser feito para que a arte e os artistas se tornem conhecidos
de um público que compreenda a sua importância histórica, cultural e
socioeconômica.
Palavras-Chave: Artes plásticas. Mercado. Campo Grande-MS.
6
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Roteiro para descobrir as necessidades dos consumidores ..............19
Figura 2 – Fatores que influenciam o comportamento de compra ......................22
Figura 3 – “O boiadeiro” – quadro de Jorapimo, artista plástico corumbaense,
homenageado pelos seus 70 anos, em 2007, com exposição no Centro Cultural
José Octávio Guizzo, Campo Grande – MS........................................................32
Figura 4 – Casa do Artesão – Campo Grande – MS...........................................32
Figura 5 – MARCO – Campo Grande – MS ........................................................33
Figura 6 – Caminho Kadiwéu, obra de Therezinha Neder, em exposição no
MARCO...............................................................................................................33
Figura 7 – Art Galeria Mara Dolzan.....................................................................34
Figura 8 – Memorial da Cultura e da Cidadania Apolônio de Carvalho – Campo
Grande – MS.......................................................................................................35
Figura 9 – Serrana – óleo sobre tela de Ilton Silva..............................................36
Figura 10 – Sonho – óleo sobre tela e entalhe, de Ilton Silva .............................36
Figura 11 – Armazém Cultural – Campo Grande – MS.......................................37
Figura 12 – “Rodeio” – Humberto Espindola .......................................................40
Figura 13 – Da série Rosa-boi – Humberto Espindola ........................................40
Figura 14 – Imagem externa da Morada dos Bais...............................................42
Figura 15 - Quadro da Exposição Cores e Formas de Kátia D’Ângelo, na Morada
dos Baís ..............................................................................................................43
7
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO....................................................................................................08
CAPÍTULO I: ARTE: ORIGEM E NECESSIDADE .............................................10
CAPÍTULO II: MERCADO DE ARTE..................................................................14
2.1 A ARTE COMO PRODUTO ..........................................................................14
2.2 A ARTE E O MARKETING............................................................................18
2.2.1 O público-alvo e seu comportamento de compra.......................................21
2.2.2 Comunicação com o cliente .......................................................................24
2.2.3 Valoração de uma obra artística.................................................................25
CAPÍTULO III: METODOLOGIA.........................................................................28
3.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS......................................................28
CAPITULO IV: MERCADO DE ARTE EM CAMPO GRANDE – MS..................31
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................46
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................48
8
INTRODUÇÃO
“Numa dialética confusa, o julgamento
estético se transforma em pretexto para
uma operação comercial, e uma operação
comercial bem-sucedida vira julgamento
estético.”
Raymonde Moulin
O mercado de arte, ao longo do tempo, passou por muitas transformações
importantes e necessárias para chegar até onde chegou e com certeza
transformações ainda virão. Inserido neste, o mercado de artes plásticas, tema
desse trabalho, é considerado como um segmento de bens de luxo. Neste contexto,
as pessoas que adquirem peças artísticas passam a ser vistas como de um status
social distinto.
O próprio mercado de arte é estratificado, dividindo-se em circuitos, que
por sua vez se subdividem conforme as diferenças socioeconômicas em que estão
inseridos e o grau de reconhecimento perante o seu público e outros mercados, o
qual é avaliado pela representatividade de sua produção artística.
O mercado de arte é fundamental para a circulação das obras e, ainda
mais, conforme Moulin (2007), a constituição dos valores artísticos efetua-se com a
articulação do campo artístico e do mercado, onde no campo artístico são operadas
e revisadas as avaliações estéticas e no mercado se realizam as transações e se
elaboram os preços.
Tendo em vista, a importância de um mercado para a arte, optou-se pelo
desenvolvimento do tema nesse trabalho de conclusão de curso, a partir das
indagações: Existe mercado de arte em Campo Grande – MS? Como é
comercializada arte em Campo Grande? Qual a percepção dos componentes desse
universo estudado sobre o assunto?
Para o desenvolvimento do estudo foram necessárias as pesquisa
bibliográfica e a pesquisa de campo. A pesquisa bibliográfica foi realizada a partir de
um levantamento, em que se constatou que o material sobre o tema é escasso,
principalmente textos de conteúdo científico, como se desejava para esse trabalho.
Foram encontrados mais artigos sobre consumo de arte. Assim, foi utilizado o livro
9
de João Carlos Lopes dos Santos, “Manual do mercado de arte”, complementado
com outros textos.
A pesquisa de campo foi realizada com a coleta de depoimentos de
pessoas do segmento artístico de Campo Grande, reconhecidas pelo seu trabalho,
experiência e conhecimento do tema em estudo.
Esse trabalho foi estruturado em capítulos, sendo o primeiro sobre a
origem e a necessidade da arte; o segundo versa sobre o mercado da arte, de uma
forma geral, em que são conceituadas as diversas partes de um mercado, que se
complementam para formar o todo.
O terceiro capítulo apresenta a metodologia utilizada para o
desenvolvimento do estudo e o quarto, trata do mercado de arte em Campo Grande,
onde são relatados os resultados da pesquisa bibliográfica e da pesquisa de campo.
10
CAPÍTULO I
ARTE: ORIGEM E NECESSIDADE
Este capítulo traz uma breve análise da origem e necessidade da arte, a
partir da teoria de Ernst Fischer, em sua obra “A necessidade da arte” e de Néstor
Garcia Canclini, em “A socialização da arte: teoria e prática na América Latina.
A arte é quase tão antiga quanto o homem. Fischer (1981) diz que a arte é
uma forma de trabalho e este é característico do homem. O trabalho é uma
transformação da natureza, realizada para prover as necessidades humanas. Para
essa transformação foram necessárias ferramentas, ou utensílios, as quais o homem
criou e aperfeiçoou no decorrer do tempo.
Para a comunicação e expressão, o homem precisou da linguagem. Fischer
(1981) afirma que quanto mais o homem acumula experiência, quanto mais aprende
a conhecer as diferentes coisas em seus diferentes aspectos, tanto mais rica precisa
tornar-se a sua linguagem.
Porém, o homem necessitava de mais instrumentos, para tanto apreendeu o
conceito de semelhança. Com a fabricação de um segundo instrumento semelhante
ao primeiro, o homem produziu um novo instrumento, com a mesma utilidade. E,
com a criação de muitos outros, cópias do primeiro, deu nome aos instrumentos ou a
grupos deles, conforme eram conexos.
Foi dessa maneira que o homem evoluiu; com a utilização de instrumentos e
através do processo coletivo de trabalho. Foi ele, o primeiro a chegar a se defrontar
com o conjunto da natureza como um sujeito ativo. Porém, conforme evoluía se
distanciava da natureza da qual faz parte.
Por meio do seu trabalho, o homem transforma o mundo como um mágico;
objetos materiais são transformados em signos, em nomes, conceitos. O próprio
homem é transformado de animal em homem. Essa magia encontrada na própria
raiz da existência humana, criando, ao mesmo tempo, um senso de fraqueza e uma
consciência de força, um medo da natureza e uma habilidade para controlá-la, essa
magia é a verdadeira essência da arte.
11
A descoberta de que os objetos naturais podiam ser transformados em
instrumentos capazes de agir sobre o mundo exterior e mudá-lo levou a mente do
homem primitivo, sempre experimentando e despertando aos poucos para o
pensamento, a outra idéia: de que o impossível também poderia ser conseguido com
instrumentos mágicos. Ou seja, a mágica de fazer instrumentos levou-o a tentativa
de estender a magia ao infinito. A arte era um instrumento mágico e servia ao
homem na dominação da natureza e no desenvolvimento das relações sociais.
Fischer (1981, p.11) escreve que:
A arte concebida como “substituto da vida”, a arte concebida como o
meio de colocar o homem em estado de equilíbrio com o meio
circundante – trata-se de uma idéia que contém o reconhecimento
parcial da natureza da arte e da sua necessidade.
Para o autor, como esse equilíbrio não pode ser previsto, a arte sempre foi e
será necessária.
Porém a arte não pode ser concebida apenas como substituta. Ela é muito
mais que isso. Suas funções são inúmeras, tendo em vista os desejos e
necessidades do homem. O Homem quer ser mais do que ele mesmo, ou seja, quer
ser um homem total. E este desejo de se desenvolver e completar mostram que ele
é mais que um indivíduo, que somente pode atingir a plenitude ao apoderar-se das
experiências alheias que potencialmente lhe dizem respeito, que, conforme Fischer
(1981), inclui tudo aquilo que a humanidade, como um todo, é capaz. Somente a
arte pode realizar essa união do homem com o todo; somente ela reflete a
capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e idéias.
Na concepção do autor, para conseguir ser um artista é necessário dominar,
controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão e a
matéria em forma. Para o artista, a emoção é essencial, portanto ela deve saber
tratá-la, transmiti-la, assim como conhecer todas as regras, técnicas, recursos,
formas e convenções com que a natureza pode ser dominada e submetida à
concentração da arte (Ibidem).
As exigências destinadas ao artista são necessárias porque a razão de ser
da arte não é permanente. A sua função, em uma sociedade onde existe a luta de
12
classes é diferente, em muitos pontos, da função original da arte. Porém, a arte
mostra ser permanente em alguns aspectos, o que é comprovado com a comoção
causada por quadros e músicas, dentre outras expressões artísticas, de tempos
antigos.
O texto acima remete à verdade de que toda arte é condicionada ao seu
tempo e representa a humanidade em consonância com as idéias e aspirações, as
necessidades e as esperanças de determinada situação histórica. Mas, ao mesmo
tempo, a arte consegue superar essa limitação e cria também um momento de
humanidade que promete constância no desenvolvimento.
Acerca da contribuição da arte para o conhecimento, Canclini (1984) informa
que para verificar o valor dessa contribuição, primeiro deve se estabelecer como a
arte está inserida no contexto, em que medida sofre seus condicionamentos e em
que medida é capaz de tornar a agir sobre eles e produzir um conhecimento efetivo.
O autor diverge da colocação da arte e do conhecimento artístico como um norte
para o conhecimento da própria sociedade, ou mesmo, como um padrão de toda a
vida social. Para o autor, esta é uma visão idealista e romantizada da arte.
Na América Latina, por exemplo, a história da arte era marcada pelos estilos,
desconhecendo o contexto histórico-social de cada época. A mudança nesse padrão
ocorreu devido ao agravamento dos conflitos sociais que levaram à uma tomada de
consciência pelos artistas, assim como a expansão da sociologia no continente, que
influenciou o estudo da arte.
Fischer (1981) relata que no início, a arte era magia, com a função de ser
um auxílio mágico à dominação de um mundo ainda inexplorado. A arte, combinada
com a religião e a ciência, era uma forma primitiva de magia e viviam em um estado
latente. Com a evolução do tempo, esse papel mágico da arte foi cedendo lugar ao
papel de clarificação das relações sociais, da iluminação dos homens em
sociedades que se tornavam opacas, ao papel de auxiliar o homem a reconhecer e
transformar a realidade social.
Conforme a necessidade humana, ou melhor, do estágio alcançado pela
sociedade, predomina um dos dois elementos da arte. Pode ser o da racionalidade,
do esclarecimento; outras vezes o da magia, da intuição, do sonho, o desejo de
aguçar a percepção.
13
Contudo, independente do seu papel na sociedade, a arte jamais é uma
simples descrição clínica do real. Sua função sempre tem relação com o homem
“total”, capacita o “Eu” a identificar-se com a vida dos outros, de incorporar a si
mesmo aquilo que ele não é, mas tem possibilidade de ser (FISCHER, 1981).
Pode ser questionado que a arte relacionada à magia, ao sonho, não serve
para uma classe destinada a transformar o mundo; para isso, a arte deve ser aquela
que esclarece e motiva à ação. Mas, o que é a arte sem um pouco de magia? Sem
esse resíduo mágico, vindo de sua natureza original, a arte deixa de ser arte. A arte
é necessária para que o homem seja capaz de conhecer e transformar o mundo.
Mas ela também é necessária pela magia que lhe é inerente.
Canclini (1984) fala sobre a arte de libertação, que caracteriza-se por
representar a realidade de forma crítica; com uma linguagem capaz de participar nas
transformações impulsionadas pelo povo, na produção de uma sociedade. A
verdadeira arte revolucionária é aquela que, por estar a serviço das lutas populares,
transcende o realismo. Não somente reproduz a realidade, mas está interessada em
imaginar os atos que a superem.
Os condicionamentos sociais são regidos por leis, pertencem ao campo
da necessidade; a ação da arte, como transformadora, busca ir além das leis, está
condicionada pela necessidade, mas abre nela um lugar para o possível. O que
diferencia a arte de outros modos de transformação é que ela procura mudar a
realidade, para participar da evolução história e, também, pelo simples prazer de
inventar.
A arte também deve divertir; o artista também deve trazer entretenimento
ao povo. Mas o que se percebe é que as obras de cunho popular são dramáticas,
solenes, descrevem trabalhadores angustiados e que estampam a indignação. Já
quando o artista se permite experimentar o jogo e o prazer em suas obras, estas são
dirigidas a um público especializado. Canclini (1984) entende que essa diferenciação
traduz a separação entre o trabalho e o ócio, característico do sistema social
burguês. Ao artista cabe mudar essa concepção, sendo também responsável pelo
entretenimento e não deixando somente que os meios de comunicação de massa
manipulem o povo. A arte deve se constituir em um instrumento capaz de reconstruir
as experiências sensíveis e imaginativas do povo. Socializar a arte significa também
redistribuir o acesso ao prazer e ao jogo.
14
CAPÍTULO II
MERCADO DE ARTE
Este capítulo apresenta as noções básicas sobre o mercado de arte,
partindo da visão da arte como um produto e, após, aplicando os conceitos de
marketing para esse mercado, principalmente, a figura do consumidor.
2.1 A ARTE COMO PRODUTO
O termo mercado, originalmente, significava o local onde compradores e
vendedores se reuniam para trocar seus bens ou produtos, geralmente uma praça
de uma pequena vila. Já, os economistas utilizam o termo mercado para se referir a
um grupo de compradores e vendedores que realizam transações em torno de um
produto ou grupo de produtos. Kotler (1998) define mercado como todos os
consumidores potenciais que compartilham de uma necessidade ou desejo
específico, dispostos e habilitados para fazer uma troca que satisfaça essa
necessidade ou desejo.
Santos (1999) conceitua mercado de arte como a via processual pela qual
transita um segmento de pessoas físicas e jurídicas em torno do objetivo de
comercializar obras de arte que, com base na lei da oferta e da procura, determina
os relacionamentos e, principalmente, estabelece preços.
Braga (2008) afirma, de modo enfático, que arte, hoje, como tudo, é um
produto. Arte vende, e circula na medida em que vende. Os artistas são grandes
artistas e suas obras são primas na proporção quase exata de seu sucesso
comercial.
Quando se fala em mercado de arte e tudo o que isso significa: produção,
distribuição e consumo, ou seja, comercializar a criação artística, alguns
argumentam que isso pode distorcer a concepção da arte, tornando-a uma
mercadoria como outra qualquer. Pode torná-la banal.
15
A arte como qualquer outro mercado divide-se em produtores,
distribuidores e consumidores, estes últimos com valor significativo dado pelo
capitalismo, que, na maioria dos casos, financiam a produção e a exibição,
monopolizando o processo.
Esse monopólio é antigo, vindo desde a troca dos artesanatos indígenas
por quinquilharias. Ao chegarem à cidade, enganam o consumidor, vendendo o
artesanato com alto valor e, inclusive, mentindo sobre a sua procedência. O que
significa que exploravam desde o produtor ao consumidor final.
Atualmente não é muito diferente. Em todos os tipos de arte existem os
distribuidores que exploram os artistas e os consumidores. Na pintura, os
marchands exigem que os artistas pintem o estilo que eles precisam, dominam a
publicidade, a crítica e o acesso dos grupos sociais.
Desta forma, os distribuidores privilegiam um grupo em detrimento ao
outro. O que demonstra não haver somente a liberdade de criação, mas uma
situação distorcida em que a manipulação do mercado resiste. Por isso, é muito
importante que haja canais de distribuição alternativos e democráticos entre os
produtores e os consumidores.
O fato de existir um mercado de arte manipulado faz com que a imagem
da produção artística de um país seja falsa, para aqueles que se atém aos meios
comerciais de exibição. Existe a arte disseminada de forma popular, em espaços
alternativos, como as associações de bairros e de classes; escolas; praças e outros
meios que oferecem acesso fácil e barato para o povo e os artistas.
Muitas experiências deste tipo são bem sucedidas e ampliou a exploração
de canais não convencionais, mas não basta. Para Canclini (1984), as estratégias
devem criar canais específicos e outros que tenham poder comercial que ensinem a
pensar e formar gosto e sensibilidade.
A arte não se torna popular apenas por ser consumida por muitas
pessoas, mas pela influência das pessoas em todos os seus processos: produção,
distribuição e consumo, ou seja, como as pessoas são incluídas ou excluídas
durante os processos. Essa influência pode ser percebida ao se julgarem as obras
com diferentes critérios de valor.
16
A arte elitista privilegia a produção como criação individual, inclui a
burguesia e setores intelectuais da pequena burguesia. A sua distribuição é quase
inexistente, sem importância. O consumidor tem o papel de contemplar a criação do
artista. O valor supremo é a originalidade (CANCLINI, 1984).
A arte para as massas produzida pelas classes dominantes objetiva
transmitir às demais classes a sua ideologia e trazer lucros aos donos dos meios de
difusão. Desta forma, privilegia a distribuição. Quer atingir o maior público possível,
não interessando a originalidade da obra ou as necessidades do consumidor. Seu
valor supremo é a sujeição feliz (Ibidem).
A arte popular produzida pelos trabalhadores ou artistas que exprimem os
seus interesses e objetivos, privilegia o consumo não mercantil. Os seus objetivos
devem trazer utilidade prazerosa e produtiva, não interessando o lucro e
originalidade. O seu alcance está subordinado ao uso e à satisfação das
necessidades do consumidor, entendido como a coletividade. Seu valor supremo é a
representação e a satisfação solidária de desejos coletivos. A arte popular é a arte
da libertação.
Canclini (1984) entende que a arte analisada somente do ponto de vista
ideológico gerou dificuldades ao se alienar de sua vertente material, posto que é
fruto de um processo de produção, disseminação e consumo. Neste caso, foi
esquecido o lado econômico da produção, tendendo a separar o material do
espiritual no processo artístico e criando discussões sobre em que medida o
econômico influi sobre a arte e, conseqüentemente, na própria autonomia do artista.
Outra situação ocasionada pela visão ideológica da arte foi separar o
conteúdo da forma em uma obra, com privilégio do primeiro pela maior clareza com
que exibe os condicionamentos externos, e reduzir as diversas linguagens artísticas
às idéias que se acreditam encontrar nelas.
Canclini (1984) acredita que o mais adequado é vincular as obras às suas
próprias condições materiais de produção. A arte não representa somente as
relações de produção, ela as realiza. E o modo de representação e percepção são
conseqüências do modo de produção da arte e variam com ela. O sistema capitalista
modificou o modo de produzir arte. Enquanto em outros sistemas econômicos, a
prática artística integrava-se ao conjunto da produção, no capitalismo ela separa-se
17
e cria objetos especiais para serem vendidos, por sua beleza formal, em lugares
diferenciados e o artista adéqua-se ao sistema para ser bem sucedido. No sistema
capitalista de produção artística, com produção e consumo organizados, o valor
mais alto é dado para a originalidade.
Outro aspecto do sistema capitalista, é que as obras de arte são tratadas
como mercadoria, em que o valor de troca prevalece sobre o valor de uso. Neste
caso, as qualidades valorizadas na seleção inicial acabam anuladas pelo mercado.
Neste ponto, a obra perde todo aspecto de criação pessoal do artista (produtor) e o
comprador (consumidor) recebem o que a concorrência econômica atribuiu à obra.
Essas características do capitalismo em relação à arte, principalmente
estar voltada ao lucro e não à satisfação das necessidades, trazem muitas
conseqüências, diferentes conforme o campo artístico. Por exemplo, na pintura e na
escultura os artistas não produzem em função das necessidades sensíveis ou
criativas dos espectadores, que na maioria dos casos não conhecem; o estilo e a
freqüência de suas criações são determinados pelas exigências do marchand ou do
empresário. Até mesmo as experiências criativas são limitadas pelo mercado e pela
rentabilidade do produto.
Por outro lado, Lisete Lagnado (2006) argumenta que, já é lugar-comum
responsabilizar a indústria cultural pela banalização da experiência estética. Mas
analisar o mercado de arte contemporânea é uma tarefa que exige um foco duplo:
ao mesmo tempo em que é preciso observar as características atuais da arte, é
indispensável também abandonar a visão idealista de um artista à margem dos
processos econômicos da sociedade.
E, ainda mais, sendo assim, o mercado não poderia deixar de ser parte
dessa trama. Afirmar que a “verdadeira arte” só pode tecer uma negação do
mercado (as galerias e feiras de arte) e das instituições que orbitam em torno dele
(os museus, centros culturais, coleções públicas, bolsas de pesquisa artística,
premiações, bienais de arte etc.) é um grito de alerta necessário, mas não se pode
ignorar a dimensão cultural da arte e eventuais êxitos nesse campo.
Porém, é consenso que a arte é necessária ao homem e faz parte da
sociedade, tendo que ser estendida a todos que dela faz parte, isto é, a todas as
classes sociais. Atualmente, se fala muito em inclusão de todos os tipos, mesmo a
18
digital. A arte também deve fazer parte desse discurso e das mudanças que ele
provoca.
2.2 A ARTE E O MARKETING
Para Raymonde Moulin (2007), o mercado de arte é segmentado conforme
as obras, sendo a primeira segmentação é imposta pelas características das obras,
dividido entre a arte figurativa tradicional (nome dado pelas galerias) e o da arte
contemporânea, com múltiplas especialidades. A arte tradicional é criada sobre uma
tradição rotinizada e satisfaz um mercado relativamente homogêneo, além disso, é
amplo e estável. A arte contemporânea, por seu lado, alimenta um mercado
dinâmico e fragmentado, com diversos segmentos e é estreito e evolutivo.
Uma forma de levar a arte a todos é otimizar o seu mercado. Talvez o
processo de tratá-la como um tipo de mercadoria seja a melhor forma de torná-la
acessível a todos os tipos de público. Sem deixar de lado o artista, que é o produtor,
e deve ser recompensado de forma justa pelo seu trabalho. Para que isto ocorra, o
mercado de arte pode utilizar as ferramentas de marketing, como todos os demais
mercados.
Mostrando como o conceito de marketing vem evoluindo, Kotler (1998, p.27)
formulou uma nova definição: “marketing é um processo social e gerencial pelo qual
indivíduos e grupos obtêm o que necessitam e desejam através da criação, oferta e
troca de produtos de valor com outros”.
O marketing apóia-se nas necessidades humanas e, para tanto, é
necessário compreender o comportamento humano. Descobrir necessidades
envolve a procura cuidadosa de potenciais clientes e pesquisar atentamente as suas
necessidades, estudar as tendências do mercado, examinar os da concorrência e
até mesmo analisar as necessidades dos clientes, quando for o caso. A Figura 1, a
seguir, mostra um roteiro para descobrir as necessidades dos clientes.
19
Figura 1 – Roteiro para descobrir as necessidades dos consumidores
Fonte: Berkowitz et al. (2003)
Segundo Canclini (1984), a arte é produção porque consiste numa
apropriação e numa transformação da realidade material e cultural, mediante um
trabalho e para satisfazer uma necessidade social, de acordo com a ordem vigente
em cada sociedade. Ele considera a sua definição válida pela sua abrangência, pois
abarca todo o processo artístico, em todas as modalidades nos mais diferentes
sistemas culturais e econômicos.
O conceito de produção considera as obras de arte como trabalhos, que
podem ser analisados por meio das condições sociais, assim como as técnicas e os
procedimentos que podem modificar essas condições. O que diverge da visão de
arte como criações de indivíduos com poderes divinos para criar.
A arte abrange também a criação, com suas significações, percepções e
originalidade, mas não se resume ao aspecto criador. Neste sentido, os artistas que
se prendem ao que Canclini (1984) chama de dogma da imaculada concepção, não
desejam que a arte seja entendida como trabalho produtivo e perca o que tem de
sedutor. Porém, o autor salienta que a arte vista como fruto da capacidade produtiva
se aproxima mais do povo e, desta forma, se torna mais fascinante, criativa e
libertadora.
Departamento de Marketing da
organização
Descoberta das necessidades dos
consumidores
Informações sobre as necessidades
Potenciais consumidores: o mercado
20
Canclini (1984) explica que na América Latina a arte como produção e
aspecto lúdico gerou uma polêmica que se dividia em duas vertentes. Em uma
estavam aqueles que, a partir de leitura errada de Marx e Lenin, queriam os artistas
submissos à propaganda política; na outra, estavam os artistas que acreditavam ter
uma missão idealista e subtraiam sua prática à história, e alienavam suas obras de
toda a realidade externa, restringindo-as somente a uma verdade própria, acessível
somente a eles.
A obra de arte só passa a existir de forma efetiva se é consumida. A partir
da sua recepção pelo público, ela é transformada, conforme a classe social e a
cultura daquele que dela se apropria. O seu consumo faz parte do processo de
produção e a completa. Assim, ela deve ser avaliada de forma crítica, levando em
consideração critérios como o processo de produção, a sua percepção, como se
insere na história do gosto e como aceita ou modifica os códigos perceptivos
vigentes.
Partindo desse raciocínio, Canclini (1984) contraria dois dogmas da
estética das belas-artes. O primeiro, em nível ideológico, que determina a qualidade
da arte pelo valor imanente das obras ou do prestígio do autor; o segundo, em nível
de mercado, pelo sucesso econômico ditado pelos distribuidores e empresários de
arte. Todos os dois excluem o consumidor comum do processo, elevando a arte a
um patamar onde só tem acesso poucos privilegiados, contribuindo para a sua
elitização.
A arte é diferenciada conforme as classes sociais, pois se presume que
as classes sociais mais altas, por ser mais educada, mais culta e ter tempo para
cultivar o bom gosto, possui o domínio dos códigos estéticos e, de sua forma, dita o
que possui qualidade artística e o que não a possui.
Esse processo de exclusão social somente pode ser quebrado com a
autonomia do artista, que não deve seguir somente o que é dado como estético e de
qualidade em determinado histórico. Canclini (1984) comenta que foi a autonomia
das obras, em relação ao contexto social e o predomínio da forma sobre a função,
os fatos artísticos que contribuíram para a inserção da arte na cultura popular.
21
Na contemporaneidade, a arte elitizada resulta do conflito entre as
tendências que buscam destruir seu fechamento e outras que sempre necessitam do
espectador mais culto. A abertura da arte para todos traz o muralismo, arte de rua,
desenho ambiental, dentre outras. A preferida pelo sistema mercantil e a estética
burguesa é aquela a qual dão maior valor estético e, conseqüentemente, de
mercado.
Os movimentos artísticos que procuram aproximar a arte do povo
possibilitam construir a interação entre o artista-povo, com maior igualdade entre as
partes, compartilhamento de experiências e de produção. Isto pode , ainda, terminar
ou minimizar com a dependência cultural com as metrópoles, que faz com que a arte
local seja espelhada naquela, com efeito retardado.
2.2.1 O público-alvo e seu comportamento de compra
Santos (1999) escreve que a idéia dominante entre os não-iniciados é que
marketing só tem a ver com a propaganda do produto ou do serviço, levando-se em
conta, e apenas, a indução à compra por parte dos consumidores do produto ou dos
utilizadores do serviço, e, muitas vezes, até criando neles uma necessidade que, na
verdade, sem aquela propaganda indutora, não existiria. Obviamente, ninguém pode
produzir e vender nenhum objeto ou serviço sem anunciá-lo ao universo dos seus
compradores finais.
O público jamais deve ser esquecido, ou seja, os artistas precisam se
comunicar sempre com a comunidade em seu entorno, com a mídia, com outras
pessoas do seu segmento. Assim como, deve acompanhar o que está acontecendo
no mundo. Se ele se fechar de forma exagerada, acaba por ser esquecido e se
tornar uma pessoa alienada, fora do mercado e, até mesmo, da sociedade.
Porém, a questão de se comunicar com o público não significa fazer
concessões para vender mais, pois o artista produz sua arte e compra quem dela
gostar. Porém, complementa o autor, os compradores de arte e o público em geral
devem receber atenção do artista, pois esta também é uma oportunidade do artista
passar sua mensagem, o que ele pensa, falar sobre determinadas obras, enfim, se
22
tornar mais próximo do público, que entenderá melhor suas criações (SANTOS,
1999).
Faz parte da profissão de outros profissionais do mercado de arte, como os
galeristas e marchands, trabalhar corretamente com os clientes, até mesmo ter
comprometimento com as suas necessidades e desejos. A partir do momento que
esse profissional estiver ao lado do cliente, solucionando os seus problemas com a
aquisição de determinada obra de arte, acompanhando os mínimos detalhes, até
algum tempo depois da venda realizada, com certeza esse cliente se tornará fiel e o
recomendará para outras pessoas.
Outro fator positivo da proximidade com os clientes é conhecer o seu
comportamento de compra. A decisão de comprar é influenciada por diversos fatores
internos e externos.
Kotler (1998) explica que o processo pelo qual os consumidores compram
produtos e serviços começam com o reconhecimento de uma necessidade. Esse
processo de tomada de decisão começa com o consumidor reconhecendo um
problema a ser resolvido ou necessidade e/ou desejo a ser satisfeito, sendo
provocadas por estímulos externos (convite a um casamento, propagandas, outros)
e internos (fome, cansaço, sede, tristeza, felicidade, outros). As influências podem
ser psicológicas, pessoais, sociais e culturais. A Figura 2 traz o modelo de Kotler
(1998), que demonstra os fatores psicodinâmicos internos e externos que atuam
sobre o consumidor.
Figura 2 – Fatores que influenciam o comportamento de compra
Fonte: Kotler (1998)
23
Os fatores culturais são os que exercem a mais ampla e profunda
influência sobre os consumidores e subdividem-se em três: cultura, subcultura e
classe social. Cultura consiste em acumulação de significados, rituais, normas e
tradições compartilhadas entre os membros de uma organização e é a lente por
meio das quais as pessoas enxergam os produtos.
Desta forma, a cultura determina as prioridades que ele vincula a
diferentes atividades e produtos. A experiência cultural é vista como a personalidade
de uma sociedade evidenciando e assimilando aprendizados, valores percepções e
preferências de uma organização ou sociedade. Nela incluem-se subculturas
(grupos com seus próprios modos de comportamentos) e classe social (pessoas
com valores, interesses e comportamentos similares). Assim, um conhecimento das
várias culturas, de uma sociedade, auxilia os profissionais de marketing a prever a
aceitação dos seus produtos pelo consumidor (SOLOMON, 2002).
Os valores culturais são enraizados no indivíduo, portanto, através de
uma compreensão de sua cultura, o artista e/ou profissional do mercado de artes
pode melhorar suas vendas e a posição das suas obras ou galeria no mercado.
Os fatores sociais, por sua vez, são os grupos de referência, família,
papéis e posições sociais que acabam por influenciar o comportamento de compra.
Os grupos de referência são os grupos de pessoas que influenciam os
pensamentos, os sentimentos e os comportamentos do consumidor.
Kotler (1998, p.164) relaciona grupos de afinidade denominados
“primários”, e os grupos de afinidade denominados “secundários”. Os grupos
primários são constituídos pela família, pelos amigos, pelos vizinhos e pelos colegas
de trabalho; com estes grupos a pessoa interage mais continuamente e são
informais. Já os grupos secundários são constituídos pelas religiões, sindicatos e
profissões, os quais tendem a ser mais formais e exigem interação menos contínua.
Com a diminuição da família tradicional, observa-se que as pessoas estão
colocando ênfase maior em irmãos, amigos íntimos e outros familiares (tios, primos,
para ter companhia e apoio social. Portanto, é essencial descobrir os papéis de cada
membro na compra, o que pode ser a chave do sucesso para aqueles que desejam
permanecer competitivas no mercado.
24
Quanto aos fatores psicológicos, a compreensão do comportamento
humano é feito por meio da descoberta de suas necessidades, já que todo o
processo de tomada de decisão de compra baseia-se na percepção da pessoa de
que suas necessidades serão satisfeitas com determinada aquisição.
Para Kotler (1998) quando uma pessoa se encontra motivada, está pronta
para agir. Neste sentido, percepção significa a forma pela qual uma pessoa
seleciona, organiza e interpreta as informações para criar um quadro significativo do
mundo. Um motivo é uma necessidade que é suficientemente importante para levar
a pessoa a agir, a maneira como ela age é influenciada pela percepção que ela tem
da situação.
Enfim, o comprador mesmo que indiretamente possui influência em todas
as etapas do processo decisório de compra, assim, comunicação e planejamento de
vendas devem sempre buscar melhoramentos voltados à satisfação e fidelização do
cliente.
2.2.2 Comunicação com o cliente
Santos (1988) explica que não basta pendurar os quadros em uma galeria
e ficar esperando o comprador. O público precisa ser estimulado a visitar o local,
conhecer o acervo e comprar.
Em arte, quando se refere a “estar exposto” significa existir, pois sem
divulgação, circulação e exposição, a obra não existe. Neste segmento de mercado
existem instituições e meios que fazem com o artista seja visto, tais como: museus,
galerias, instituições culturais, livros, bienais e meios de comunicação.
A elaboração da imagem do artista é feita por agentes, como os críticos,
promotores de eventos, jornalistas, publicitários, donos de galerias e curadores.
Mesmo aqueles artistas que não desejam uma proximidade maior com o público ou
serem conhecidos, têm as suas obras e o seu nome visíveis para que sejam
conhecidas e adquiridas.
25
Em relação aos vários meios disponíveis de mídia e propaganda, mais
uma vez o conhecimento do cliente em potencial é facilitador, para definir o público-
alvo da propaganda deve-se ter informações sobre qual sua classe social, os seus
hábitos, onde moram, dentre outras, quanto maior o conhecimento sobre o seu
público, mais chance existe de obter sucesso na divulgação do artista e suas obras
(Ibidem).
O público-alvo pode ser atraído por meio de eventos e, uma vez que
compareça ao local, deve ser muito bem recebido e tratado, deve ser fornecidas
todas as informações necessárias, proporcionar clima agradável e agradá-lo
plenamente para que se torne um comprador satisfeito e, se não comprar daquela
vez, com certeza fará boa propaganda do local e suas obras, assim como comprará
na primeira oportunidade.
A aquisição de uma obra de arte deve ser transformada em um momento
agradável, importante para o ciente e para o artista ou seu representante. O
comprador deve ser motivado a retornar mais vezes, fazer visitas e ver as
novidades. Após a compra, não deve ser esquecido. O ideal é manter um cadastro
sempre atualizado e fazer contatos com os clientes por meio de catálogos, folders,
convites, até mesmo cumprimentos pelo aniversário dele ou de casamento, por
exemplo. Se ele for sempre lembrado, com certeza não se esquecerá do artista ou
da galeria (Ibidem).
2.2.3 Valoração de uma obra artística
Santos (1999) diz que é difícil, para o artista, a sua entrada em seu
segmento de mercado, é necessário que o artista possua em primeiro lugar, aptidão
natural ou adquirida. Deve ter vocação, pois a profissão é das mais espinhosas; é
essencial ser criativo; dedicar-se ao estudo; ter muitas determinação e disciplina no
trabalho; e finalmente, saber fazer uma correta e adequada divulgação, sem se
esquecer das duas virtudes fundamentais: humildade e paciência.
O artista, além de suas obras, deve “vender” a sua imagem. É essencial
que ele seja visto e percebido como um artista.
26
A esses fatores deve ser incluído, ainda, que “a obra colocada à venda
[...] é singular e única; ela é individual e insubstituível”, conforme Moulin (2007, p.13)
Os preços de venda ao consumidor final, que são sugeridos pelo artista
para a comercialização de suas obras nas galerias (tabela final do artista) e o preço
de mercado, que resulta da análise profissional, subjetiva, de um somatório de
valores, não são, necessariamente, a mesma coisa.
Santos (1988) acredita que o ideal é quando o artista consegue igualar o
seu preço ao de mercado, ou melhor ainda, quando consegue ter os preços de
mercado superiores aos seus.
O preço de um quadro não é determinado simplesmente pelo que se
gastou de materiais nele ou pelo tempo gasto para pintá-lo. Entre as variáveis para
formar o preço estão a qualidade da obra e a freqüência de sua demanda, ou seja,
se é muito procurada ou desejada.
A tabela de preços é convencionada entre as duas partes: o artista e o
galerista ou outro responsável pelas vendas. Santos (1988) relaciona tres preços
para uma mesma obras:
- o do ateliê: que os marchands pagam ao artista;
- o de galeria: aquele que é praticado por esses estabelecimentos;
- o de mercado: aquele que o mercado efetivamente paga.
O preço de mercado é formado por meio de um consenso entre
profissionais do mercado sobre vários aspectos: oferta e procura, criatividade do
artista, habilidade pictórica, padrão de regularidade dos trabalhos, inserção no
mercado, número equilibrado de trabalhos disponíveis, formação profissional,
curriculum, status da galeria e/ou do marchand que representam o artista, o
marketing adotado, qualidade intrínseca do material usado, projeção de
durabilidade, estado de conservação do trabalho, modismos do mercado, influencias
conjunturais e econômicas, dentre outros.
O preço de mercado é específico, em que cada objeto tem o seu próprio
valor. Tendo em vista os inúmeros aspectos que entram na formação de preço de
mercado, o mesmo quadro pode ter preços diferentes em épocas diferentes.
27
Um bom começo para estipular o preço de mercado de uma obra é ter
uma tabela de preços equilibrada. Algumas vezes o artista argumenta consigo
mesmo que arte é uma coisa cara, só para ricos comprarem; ou que é supérflua, por
exemplo. Mas a melhor maneira de elaborar uma tabela de preços é com valores
acessíveis ao mercado, fazendo com que a obra seja sempre procurada, com
chances de ser vendida.
Os preços da tabela vão majorando conforme aumenta a demanda pela
obra. Porém, esse aumento deve ser bem dosado e planejado. Conforme Santos
(1988) ensina, a tabela de preços não pode ser baixada, pois o artista cai em
descrédito. É comum observar artistas iniciantes com tabelas de preços altos,
próximas daqueles que já estão reconhecidos no mercado e com aceitação pelo
público, o que faz com que não sejam vendidos.
28
CAPÍTULO III
METODOLOGIA
Todo estudo necessita de uma seqüência lógica em seu desenvolvimento
e, para tanto, devem ser aplicados métodos científicos adequados. Este capítulo
apresenta a metodologia utilizada para o desenvolvimento deste trabalho.
3.1PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Foram utilizadas duas formas de pesquisas para desenvolver o trabalho. Em
um primeiro momento, foi feita a pesquisa exploratória, que visa proporcionar maior
familiaridade com o problema com vistas a torná-lo explícito. Posteriormente, foi
utilizada a pesquisa descritiva, objetivando descrever as características do
fenômeno, isto é, relatar o que for sendo descoberto ao longo do trabalho. O
enfoque dado ao estudo foi qualitativo.
Conforme Mattar (1999, p. 80), “a pesquisa exploratória visa prover o
pesquisador de um maior conhecimento sobre o tema ou problema de pesquisa em
perspectiva”. Vergara (2000) indica a utilização da pesquisa exploratória quando há
pouco conhecimento acumulado e sistematizado sobre o tema, como é o caso deste
trabalho.
Em geral, a pesquisa exploratória é usada para gerar hipóteses ou
explicações prováveis e identificar áreas para um estudo mais aprofundado.
A pesquisa descritiva, de acordo com Mattar (1999, p.77), “tem o objetivo de
expor o fenômeno em estudo”.
Também foram feitas a pesquisa bibliográfica, em fontes como livros, artigos
e internet e a pesquisa de campo para coletar os dados relacionados ao mercado de
arte em Campo Grande.
29
A pesquisa bibliográfica abrange toda a bibliografia pública em relação ao
tema estudado, desde livros, boletins, jornais, revistas, pesquisas, monografias,
teses, dentre outros (MARCONI; LAKATOS, 2002).
Vergara (2000, p.48) define pesquisa bibliográfica como “o estudo
sistematizado desenvolvido com base em material publicado em livros, revistas,
jornais, redes eletrônicas, isto é, material acessível ao público em geral”. Neste
estudo, esta pesquisa foi utilizada para a fundamentação teórica sobre assuntos
relacionados ao tema.
A pesquisa de campo é “investigação empírica realizada no local onde
ocorre ou ocorreu um fenômeno ou que dispõe de elementos para explicá-lo”,
conforme Vergara (2000, p.47). Neste trabalho esta pesquisa foi realizada por meio
de entrevista não-estruturada com artistas, galeristas, marchands e curadores
(figuras de vendedores, distribuidores, intermediadores) e compradores de arte,
entendida, para este trabalho, como pinturas.
A entrevista possibilita obter dados mais detalhados e abrangentes sobre o
objeto estudado. Trata-se de um método de coleta de dados que, entre outros
objetivos, possibilita captar os motivos conscientes para opiniões, sentimentos,
sistemas ou condutas (MARCONI; LAKATOS, 2002).
Como técnica de pesquisa, a entrevista é utilizada para a obtenção de
informações a respeito do que as pessoas sabem, crêem, esperam, sentem ou
desejam, pretendem fazer, fazem ou fizeram e também acerca das suas explicações
ou razões a respeito de coisas anteriores.
A entrevista não-estruturada é um modelo mais flexível, caracterizado pela
liberdade que o entrevistador tem para desenvolver cada situação em qualquer
direção que considere adequada para o estudo. Geralmente, é constituída por
perguntas abertas, respondidas durante uma conversação.
Gil (1999) divide a entrevista não-estruturada em três tipos:
- Por Pautas: o entrevistador se guia por uma relação de pontos de interesse
(pauta), que vai explorando no decorrer da entrevista; tem a liberdade explorá-los
fazendo as perguntas que julgar necessárias, na ordem e profundidade que quiser.
É utilizada quando os pesquisados não se sentem à vontade para responder a
perguntas formuladas com maior rigidez.
30
- Focalizada: há um roteiro de tópicos relativos ao problema que se vai
estudar, e o entrevistado fala livremente à medida que se refere a eles. Ao
entrevistador cabe conduzir a entrevista não deixando que o entrevistado se desvie
do assunto.
- Não-dirigida: o entrevistado fala livremente a respeito do tema,
expressando suas opiniões e sentimentos; o entrevistador tem a função de
incentivar a entrevista, levando o informante a falar sobre o assunto, sem,
entretanto, lhe fazer perguntas. Esse tipo de entrevista é o menos estruturado
possível, sendo utilizado nos estudos exploratórios, que visam abordar realidades
pouco conhecidas pelo pesquisador.
Para esta pesquisa, foram utilizadas a focalizada e a não-dirigida.
As pessoas entrevistadas foram escolhidas a partir do objetivo determinado
para o trabalho, que foi conhecer, pesquisar e analisar o mercado de arte em Campo
Grande – MS, com o intuito de verificar se existe esse mercado e qual a sua
dinâmica.
Sendo assim, foram escolhidas pessoas:
- Moradoras de Campo Grande;
- Que detém conhecimentos sobre o tema;
- Que executa alguma das atividades de um mercado, no caso o de arte:
produz (artista), distribui (galerista, marchand, curadores) e consome (comprador).
O procedimento utilizado para as entrevista foi, inicialmente, contatar a
pessoa e explicar o trabalho que estava sendo desenvolvido; após, caso a pessoa
aceitava, fazer a entrevista da forma escolhida pela pessoa: por e-mail, gravador ou
por meio de uma conversação sobre o assunto.
31
CAPITULO IV
MERCADO DE ARTE EM CAMPO GRANDE - MS
Este capítulo aponta os resultados encontrados na pesquisa de campo
realizada por meio de entrevista não-estruturada com artistas, marchands,
galeristas, curadores e compradores de arte (pinturas).
Buscou-se restringir a pesquisa ao período pós-1979, com a divisão do
Estado.
Em janeiro de 1979, Idara Duncan era responsável pela área de artes
plásticas da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, que tinha Maria da Glória
Sá Rosa como Diretora Executiva. Na época, foi realizado um levantamento da
realidade para serem traçadas as diretrizes para a proposta de política cultural do
Estado.
Segundo Idara Duncan, “Campo Grande, distante e isolada geográfica e
culturalmente da capital Cuiabá, recebia raros incentivos para as manifestações
artístico-culturais”. A justificativa para tal situação era a falta de espaços adequados,
que se restringiam aos teatros da UFMS e da FUCMAT (atual UCDB), clubes,
praças, escolas, dentre outros. As exposições artísticas eram realizadas em locais
inapropriados.
Essa situação foi vivenciada por artistas na época, como relata Maria
Raquel Gomes, artista plástica formada pela Faculdade de Belas Artes do Paraná,
que veio para Campo Grande em 1974. Ela percebeu a falta de espaços culturais e,
em 1976, uniu-se a um grupo de artistas locais na tentativa de criar uma estrutura
para melhorar o setor, chegaram, até mesmo, a instituir alguns salões de artes com
premiações. Mas o esforço foi em vão.
A artista conta que somente recomeçou em 1995, com a abertura de um
atelier próprio, onde ensina e faz o que mais gosta, que é criar. Na sua opinião “Não
é muito, nunca será muito, pois a arte é infinita”.
32
A Fundação de Cultura buscou mudar esse cenário com a criação de
vários espaços, como: Casas do Artesão, no Estado, pela Casa da Cultura Luiz de
Albuquerque, em Corumbá e principalmente com a implantação do Centro Cultural
José Octávio Guizzo, em 1983, que passa a abrigar oficinas de arte, duas galerias, a
Wega Nery e a Ignes Correa da Costa e a Pinacoteca Estadual, cujo acervo deu
origem, posteriormente ao Museu de Arte Contemporânea - MARCO.
Figura 3 – “O boiadeiro” – quadro de Jorapimo, artista plástico corumbaense, homenageado pelos
seus 70 anos, em 2007, com exposição no Centro Cultural José Octávio Guizzo, Campo Grande –
MS
Figura 4 – Casa do Artesão – Campo Grande – MS
33
Figura 5 – MARCO – Campo Grande – MS
Figura 6 – Caminho Kadiwéu, obra de Therezinha Neder, em exposição no MARCO
Conforme Idara, as exposições de arte eram feitas em espaços
alternativos, como no jornal Diário da Serra e na Papelaria União, do artista
Demétrio Aralampides, D. Hard, que vendia materiais de pintura, cavaletes e
molduras. Depois surgiu a gelaria de arte da loja Mundo dos Quadros, de Marilza
Bissoli.
Idara Duncan coloca dois fatores significativos para o incremento das
artes plásticas no Estado: a criação da Associação Mato-grossense de Arte (AMA),
na década de 60, por Humberto Espindola, Aline Figueiredo e Adelaide Vieira e a
criação dos cursos de Educação Artística, no início da década de 80, na
Universidade Federal de MS, em Campo Grande e na UNIGRAN, de Dourados.
34
As exposições continuaram a serem feitas em espaços informais, como
na Agencia de Turismo Tainá Tour, dirigida por Maira Rezende, assessorada por
Henrique Esplengler. Nesse local ocorreram as reuniões para criação da Unidade
Guaicuru de Cultura, a inauguração da Casa de Cultura em Três Lagoas.
A primeira galeria profissional do Estado foi a Art-Con, de Mara Dolzan.
Posteriormente, Arte Galeria Mara Dolzan, que é um espaço moderno dirigido à
comercialização de arte.
Figura 7 – Art Galeria Mara Dolzan
Idara Duncan prossegue em seu relato e escreve que a década de 90 é
marcada pelo surgimento do Museu de Arte Contemporânea Nelly Martins, o
MARCO - MS, fundado em 1991, vinculado à FCMS, instalado desde 2000, em
moderno prédio próprio, no Parque das Nações Indígenas; da Morada dos Bais,
sobrado onde residiu Lídia Bais, a 1ª artista plástica do Estado, prédio restaurado
pela Prefeitura, transformado em Centro Cultural; o Espaço de Arte Yara Penteado,
galeria de múltiplas atividades; com grande acervo; o Entrerartes de Meire Milan e o
Atelier 1881, de Kinho, Genessi e Hosana Ortiz, em Dourados; do Museu de Arte
Pantaneira, em Aquidauana, da Galeria Izulina Xavier, em Corumbá, e do Museu da
Imagem e do Som - MIS/MS, criado em 1998, vinculado à FCMS.
35
A partir do ano 2000, são inauguradas dezenas de galerias de arte, e
espaços culturais, vinculados a instituições públicas e privadas, como as dos Banco
do Brasil e ITAÚ, SESC, EMBRATEL, Shopping Campo Grande, TVE, Armazém da
Estação da NOB, da Prefeitura Municipal e galerias particulares, de vários artistas
plásticos e o Memorial da Cultura e da Cidadania Apolônio de Carvalho, em prédio
moderno com espaços para múltiplas atividades culturais.
Figura 8 – Memorial da Cultura e da Cidadania Apolônio de Carvalho – Campo Grande – MS
A Fundação de Cultura do Estado prestou homenagem ao artista Ilton
Silva por meio da exposição “Celebração do Trabalhador”, realizada no período de
18/09 a 24/10/2008, no Memorial da Cultura e da Cidadania. Nascido em Ponta Porã
em 1944, Ilton Silva é filho de Conceição dos Bugres, consagrada escultora
primitivista que criou os bugrinhos em madeira que se tornaram referência cultural
de Mato Grosso do Sul.
36
Figura 9 – Serrana – óleo sobre tela de Ilton Silva
Fonte: Rosa; Duncan; Penteado (2005)
Figura 10 – Sonho – óleo sobre tela e entalhe, de Ilton Silva
Fonte: Rosa; Duncan; Penteado (2005)
37
Figura 11 – Armazém Cultural – Campo Grande – MS
Américo Calheiros, diretor-presidente da Fundação de Cultura, acredita
que o mercado de arte em Campo Grande é incipiente, com poucas galerias que
trabalham de forma sistemática. Em relação ao Governo do Estado, estimula a
amostragem e a divulgação das obras produzidas no Estado, por meio de
instituições e promoções culturais. A venda serve para estimular a produção
artística, pois o artista é criador, trabalha e precisa viver de sua arte.
Conforme Américo Calheiros, ocorre vendas, mas, ainda, o mercado é
pequeno. Em sua opinião, esse mercado vai crescer, na proporção em que mudar
os costumes, a cultura de investimento dos campo-grandenses. As pessoas
freqüentam as exposições e Mostras, admiram as obras, e muitas não sabem que
estão à venda. E, quando descobrem que podem ser adquiridas, nota-se que existe
dificuldade de dispor de um determinado valor para um quadro, por exemplo.
Desta forma, nota-se que existe certa rejeição de ver a arte como
investimento, por parte da população, mesmo para potenciais compradores.
Evandro Prado, Bacharel em Artes Visuais pela UFMS, tem a mesma
visão, da falta de investimento em arte. Segundo Evandro, ainda há muito que
crescer,
38
[...] uma vez que dependemos de um mercado de arte que
praticamente inexiste por aqui. Tenho atuado como artista plástico e
realizado exposições freqüentes em Campo Grande e pelo Brasil
desde 2004 e percebo que não há a cultura de se comprar obras de
arte. Ao contrário de outros estados ou outros países, não há uma
idéia de comprar arte como investimento, e sim como decoração.
Sendo ainda, que são pouquíssimas as pessoas que se interessam e
compram obras pelo seu valor artístico. Existem muitos poucos
colecionadores aqui, deixando nós, artistas plásticos, a mercê de ter
que trabalhar em outras funções, muitas vezes ligadas à
Licenciatura.
A questão do investimento em arte não é simples, não basta apenas
sentir empatia por determinado artista ou peça. Rafael Maldonado coloca esse
problema da seguinte forma,
O que precisa ser entendido é que nem tudo pode ser considerado
como arte. Nem toda pintura é uma obra de arte. Há inúmeras
questões em jogo, é preciso saber exatamente no que investir: quem
são os artistas com carreira constituída, quem são os artistas
emergentes, que tipo de coleção se quer formar, qual a obra certa
para se adquirir. Definido isso já é um grande passo para que o
público esteja apto a consumir arte como investimento, e, assim,
podermos considerar um mercado eficiente.
Ao se enquadrar a compra de uma obra de arte como investimento, entra
em jogo várias questões futuras, pois a peça pode jamais se valorizar
financeiramente, apesar de possuir um valor artístico próprio.
Américo Calheiros relata que as artes plásticas possuem o menor público,
dentre as artes, em Mato Grosso do Sul. A demanda pelo mercado de arte ainda é
baixa, devido à própria cultura do Estado, o que deve ser mudado.
Alfredo Arruda, médico cardiologista em Campo Grande, comprador de
obras artísticas, relata que o universo local dos compradores de arte é similar ao de
outros lugares. A diferença está em que uma pequena parcela adquire pinturas, no
caso, porque gosta. Existem poucos colecionadores na cidade. Ele se considera um
colecionador e investidor, sente prazer em adquirir, mas não é um profissional.
Na seqüência, ele afirma que percebe que está surgindo uma elite cultural
em Campo Grande que separa a arte do dinheiro. Outro fato é a classe média,
constituída por uma maioria de profissionais liberais, que está se tornando mais
numerosa e são os novos consumidores de arte, ou seja, são os novos clientes.
39
Em sua opinião, o que falta na cidade é um local mais descontraído, onde
se possa conhecer artistas consagrados e novos artistas, se possa conversar,
realizar um intercambio de idéias e propostas sobre arte e, também, comprar.
Izabella Mercante, também compradora de arte em Campo Grande, relata
que, no caso dela, ser consumidora de arte é um sonho antigo. Ela não de considera
propriamente uma consumidora, mas sim uma admiradora de arte, seja ela regional
ou universal. A aquisição é feita sempre que surge uma oportunidade financeira, o
que é realizado com paixão, se tornando um investimento prazeroso.
Comprar arte, para Izabella Mercante,
[...] é como adquirir uma parte solta da minha vida; compro em
galerias (normalmente em exposições quando o artista está) e
através de marchand, mais sempre que é possível quero fazer
contato com o artista, gosto de conhecer a pessoa que criou a peça
que admiro ao ponto de levar para minha vida. Tenho pelas obras
de arte regionais uma paixão diferenciada, e sei da dificuldade que
os artistas têm em expor e divulgar seus trabalhos, o que gera uma
dificuldade de acesso a esse produto tão rico.
Isaura Corbucci, arquiteta em Campo Grande, também compra arte
porque gosta. Adquire de forma esporádica e quando se apaixona pelo objeto.
Compra todos os tipos: cerâmicas, cestarias, artesanatos de bom gosto, aqui ou em
viagens. Os valores variam dependendo da obra, podendo ser altos. Acredita que
por sua profissão, está muito atenta à estética e ao belo. Em seus trabalhos de
interiores, tem preferência por usar objetos ou obras de arte, porque valorizam os
ambientes, dão vida e aconchego, além de personalizar os espaços.
Como se observa, existe um público que deseja consumir arte,
comprando para si mesmo, para clientes, por prazer e/ou para investimento. Porém,
esse mercado pode e deve ser incrementado.
Para Calheiros, a mudança pode vir do próprio artista ao se posicionar
como artista e, a partir daí, vender as suas obras. O importante é ter uma visão
profissional. Como exemplo, ele cita o artista Humberto Espíndola que obteve
sucesso nacional e internacional.
40
Figura 12 – “Rodeio” – Humberto Espíndola
Figura 13 – Da série Rosa-boi – Humberto Espíndola
O que Calheiros expõe remete ao pensamento de Santos (1997), de que o
artista deve se aproximar do público, pois ao isolar-se pode terminar esquecido e
alienado, conseqüentemente, fora do mercado e, até mesmo, da sociedade. Além
disso, os compradores de arte e o público em geral merecem atenção eé uma
oportunidade de o artista passar sua mensagem.
Neste sentido, Yara Penteado, antropóloga, relata em sua entrevista que,
as escolas de arte que aumentam em número em Campo Grande podem auxiliar na
41
formação do artista ao cumprirem um papel em que, além de ensinar alguma forma
de arte,
[...] cumpram um papel paralelo de formadores de opinião, ao
associar o ensino da técnica com algo fundamental, que é o
conhecimento do papel da arte na sociedade, o artista e seu papel
transformador, e a trajetória da arte através da história e sua
relevância nela.
O papel do Governo é incentivar, criar oportunidades, com políticas
públicas e parcerias, para que a arte seja reconhecida e valorizada. Assim, o artista,
que é produtor dessa arte, seja valorizado. Nesse sentido, por exemplo, são criados
espaços, em busca de oferecer ao maior número de artistas a oportunidade de
mostrar suas obras, considerando a qualidade e a produção que possuem.
Maria Raquel confirma que, realmente, os órgãos governamentais
facilitam o acesso dos artistas ao público, por meio de exposições, apresentações,
entre outros eventos. Porém, o problema é a centralização da arte em um pequeno
grupo de pessoas, aliado ao preconceito em relação a determinados estilos de
manifestações artísticas. A arte pode ser bela e com excelente qualidade em
qualquer tipo de manifestação ou estilo, não precisa ser fruto de algum tipo de
contestação.
Sobre o que é arte e sua criação, Yara Penteado acredita que esse
conceito pode ser dado a partir do seu criador, do verdadeiro artista, que vai além do
pintor:
Aquele que pinta, que copia ou recria um trabalho, que chamarei de
PINTOR e, aquele que CRIA, o ARTISTA, inspirado em sua visão de
mundo e de sua época, retratando-a, recriando-a, criticando-a,
transgredindo normas, técnicas conceitos, para construir o seu
modelo, a sua linguagem e forma de se expressar e expressar seu
modo de ser e estar no mundo, ao construir uma obra, que é única,
de longe reconhecida como sua ou de sua época ou movimento.
Essa historicidade da obra-de-arte é que tem que ser conhecida e
difundida, para que os formadores de opinião, tenham eles próprios
as suas, embasadas em um conhecimento que distingue a verdade
da burla. Como a obra-de-arte envolve, ainda, um conceito
subjacente, O BELO, fica ainda mais complicada a simplificação, pois
42
a beleza pode ter interpretações variadas,subjetivas ou, ainda,
formadas através da mídia, modismos e outros elementos mais.
Jean Lima acredita que o mercado de arte local tem demonstrado uma
melhora tímida, mas significativa, mas que há muito que melhorar nesse mercado.
Em sua opinião, Campo Grande tem hoje bons espaços para exposições de arte,
mas falta democratizar o acesso a esses espaços. Ele afirma que,
[...] existem jovens artistas interessantes, que precisam expor e
provar sua competência em outros estados para receberem o devido
valor em Campo Grande. Creio que isso não seja bom.
Janine Menezes Tortorelli, coordenadora da Morada dos Baís, da
Fundação de Cultura, informou que a Morada possui três salas temporárias voltadas
para a exposição de artistas regionais. Foi ressaltado que não são realizadas
vendas pelos funcionários (servidores públicos municipais).
Figura 14 – Imagem externa da Morada dos Bais
Segundo Janine, os artistas vendem cerca de 80% das telas nas
vernissages. Esse fato é devido ao trabalho de mídia, que é intenso, assim como, ao
público diferenciado que freqüenta o local, que é distribuído em moradores locais e
turistas.
43
Santos (1997) entende que qualquer tipo de produto ou serviço somente é
vendido se for conhecido pelo público, ou seja, sem anunciá-lo ao universo dos seus
compradores finais.
A Morada dos Baís tem a função de expor as obras dos artistas e divulgar
as exposições. Apesar dos funcionários não venderem, fazem a recepção dos
freqüentadores, com informações sobre as exposições, colocação de etiqueta nas
peças e outras atividades para que o público se sinta bem no local.
Figura 15 - Quadro da Exposição Cores e Formas de Kátia D’Ângelo,
na Morada dos Baís
Janine observa que a postura dos artistas mudou ao longo do tempo,
mostrando maior profissionalidade e atenção com os detalhes de sua exposição,
seguindo, no caso da Morada dos Baís, as normas estipuladas pelo local. Nota-se
que são responsáveis com todos os aspectos, desde com a própria atitude pessoal
até a profissional, tornando-se um gestor de sua arte.
44
Em relação aos consumidores, Campo Grande aumentou bastante os
locais de exposição, após 2003. O que se observa é que quando o artista se
preocupa com sua divulgação, com o preço acessível, com a qualidade dos seus
trabalhos, procurando agregar valor à sua criação, consegue resultados de venda
melhores.
Jean Lima “Mão” acredita que, além disso,
[..] hoje temos um novo público de arte e que esse público clama por
pessoas concatenadas às demandas contemporâneas e mais
observadoras em relação ao nosso quadro de jovens artistas,
envolvidas na cadeia do mercado artístico local. Vejo com bons olhos
o advento da internet, hoje um artista ligado às novas tecnologias,
deve usar conscientemente as ferramentas da internet (fotolog,
youtube, orkut, blog, my space, etc) para promover sua arte e
desenvolver seu marketing pessoal.
Rafael Maldonado, por sua vez, acredita que o público de Campo Grande,
[...] ainda não tem uma educação para o consumo de arte, nem
tampouco possui um perfil ideal para que isso aconteça, mas, com o
trabalho efetivo de formação para o entendimento da arte
contemporânea por parte de instituições referenciais, aos poucos vai
se consolidando uma aprendizagem estética que poderá resultar em
um futuro mercado local mais criterioso e recorrente.
Janine salienta que um diferencial significativo é a presença do artista na
exposição. Já foi notado que quando o artista está presente e fala sobre as suas
obras, quando solicitado, o visitante mostra um interesse maior em conhecer mais e
adquirir.
Observando as galerias, podem ser vistas obras de arte direcionadas
para uma camada social mais abastada, sendo obras muito especiais e artistas mais
consagrados que fazem o seu trabalho com a maior qualidade possível, desde a
produção (matéria-prima) até sua exposição, que sempre irá se valorizar. Esse tipo
de arte e evento é direcionado para consumidores que pertencem a uma classe
social privilegiada, pois são negociados valores altos.
45
Esse fato vai de encontro ao pensamento de Canclini (1984), para quem
os dois dogmas da estética das artes, o ideológico e o mercado, excluem o
consumidor comum do processo, elevando a arte a um patamar onde só tem acesso
poucos privilegiados, tornando a arte elitista.
Nas vernissages encontram-se todo tipo de consumidores: profissionais
liberais, autoridades, apreciadores, investidores e colecionadores, sempre
interessados em conhecer os trabalhos e o artista mais de perto. Geralmente são
pessoas que gostam e acompanham os acontecimentos do universo das artes
plásticas. Para tanto, é exigido estudo mais profundo sobre o assunto para adquirir
conhecimento; conversas com pessoas da área, tudo voltado para este importante e
necessário segmento socioeconômico.
Algumas vezes, nas vernissages, é possível adquirir peças por preços
acessíveis de artistas talentosos, que terminam vendendo quase todas as suas
obras.
46
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Observa-se pelos relatos, que o mercado de artes plásticas em Campo
Grande é pequeno, restrito e estratificado. É um mercado extremamente territorial,
direcionado, ainda, a poucas pessoas, sejam artistas, distribuidores ou
compradores, girando em torno daqueles que possuem acesso a esse universo.
Os compradores optam por adquirir obras artísticas por ser um bom
investimento, por gosto próprio ou por escolha de profissionais (arquitetos,
decoradores).
Embora exista falta de mais espaços para exposição e venda de obras de
arte, o artista deve evitar vender suas obras em seu próprio atelier, gerando assim
alguns fatores que podem prejudicar sua carreira, como: preço inadequado, falta de
divulgação, pouca circulação das obras e falta de prática em comercializar, criando
mal entendidos entre o cliente e o artista.
Constata-se que em Campo Grande não existe somente falta de locais
destinados ao mercado de artes plásticas, mas de mão-de-obra especializada neste
tipo de comércio, tanto em compra como em venda. Esse profissional é uma pessoa
especial, que deve ser muito capacitada, conhecedora do que envolve comprar uma
pintura, por exemplo.
Como deve ser oferecida ao cliente, qual a necessidade do cliente, do
que ele gosta, do estilo do artista, da qualidade do que está oferecendo, como é
calculado o valor da peça, da segurança do investimento, entre outros detalhes
importantes.
Para se adquirir arte, por outro lado, é necessário que o cliente conheça e
goste daquele ou de outro determinado artista e que sua obra faça despertar o seu
interesse, em primeiro lugar. Para a maioria das pessoas, a obra deve trazer algum
tipo de emoção, até mesmo, de mudanças internas ao ser olhada.
E, também, importante aspecto, existem pessoas que compram pensando
na possibilidade de ter que vender a peça mais adiante, se será fácil ou não. Neste
ponto, entra a qualidade do investimento que foi realizado na compra. Se foi mal
47
feito, encontram-se muitas dificuldades, pois o mercado é pequeno, mesmo para os
melhores artistas e obras, cresce de forma lenta e restrita a pequenos grupos.
As instituições governamentais voltados para a área artística criam meios
para disseminar a cultura, de uma forma geral. Promovem mostras itinerantes,
espaços alternativos, incentivos, e outras formas de tornar a arte e os artistas
conhecidos pelo povo. Mas o mercado precisa de mais do que isso, precisa ser
criada uma necessidade de arte, que faça com que ela seja mais produzida,
distribuída e comprada.
Para tanto, devem ocorrer mudanças mais profundas, oferecer mais
educação, promover mais conhecimentos solidificados, do que é bom e do que não
é. Não se trata de cercear ou impor ao povo o que gostar ou não gostar, mas de
oferecer oportunidades de escolha.
Percebe-se que certas músicas, filmes, vídeos, por exemplo, que podem
ser considerados de mau-gosto, tornam-se populares de forma rápida, por meio de
investimento maciço em marketing. E, em pouco tempo, a maioria cai no
esquecimento. Mas nesse intervalo foram vendidos de forma intensa.
Com a verdadeira arte, pode ser realizado um trabalho de marketing, mas
precisa existir um alicerce antes, que é o conhecimento do que é arte realmente; a
pessoa precisa entender porque ela é importante, de sua origem, de como é
produzida e porque deve ser valorizada.
48
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERKOWITZ, E.; KERIN, R.; HARTLEY, S.; RUDELIUS, W. Marketing. Rio de
Janeiro: LTC, 2003.
BRAGA, Diego. Arte: consumo e consumação. Disponível em:
http://www.ciencialit.letras. ufrj.br. Acesso em: 26/08/008.
CANCLINI, N.G. A socialização da arte: teoria e prática na América Latina. São
Paulo : Cultrix, 1984.
FISCHER, Ernst. A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.
GALLO, Silvio. Consumo e Resistência Cultural. Impulso, Piracicaba, v. 10, n. 22-
23, p. 35-39, 1998.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5.ed. São Paulo :
Atlas, 1999.
KOTLER, Philip. Administração de marketing: análise, planejamento,
implementação e controle. 5ed. São Paulo: Atlas, 1998.
LAGNADO, Lisette. Mercado de arte contemporânea. Revista D’ Art, São Paulo,
v.12, dezembro 2005.
MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Técnicas de Pesquisa. 5.ed. São Paulo: Atlas,
2002.
MATTAR, F. N. Pesquisa de Marketing. São Paulo: Atlas, 1999.
MOULIN, R. O mercado da arte: mundialização e novas tecnologias. Porto Alegre :
Zouk, 2007.
ROSA, M. da G.S.; DUNCAN, I.; PENTEADO, Y. Artes plásticas em Mato Grosso
do Sul. Campo Grande, 2005.
49
SANTOS, J.C.L. dos. Manual do mercado de arte. São Paulo : Julio Louzada
Publicações, 1999.
SOLOMON, Michael R. O comportamento do consumidor: comprando, possuindo
e sendo. Porto Alegre: Bookman, 2002.
VERGARA, S.C. Projetos e relatórios de pesquisa em Administração. 3.ed. São
Paulo : Atlas, 2000.

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Penna; monica brandão oliveira estudo sobre o mercado de artes plásticas em cg-ms

  • 1. 0 UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL DEPARTAMENTO DE ARTE E COMUNICAÇÃO CURSO DE ARTES VISUAIS ESTUDO SOBRE O MERCADO DE ARTES PLÁSTICAS EM CAMPO GRANDE – MS MONICA BRANDÃO OLIVEIRA PENNA Campo Grande – MS 2008
  • 2. 1 MONICA BRANDÃO OLIVEIRA PENNA ESTUDO SOBRE O MERCADO DE ARTES PLÁSTICAS EM CAMPO GRANDE – MS Relatório apresentado como exigência parcial para obtenção do grau de Bacharel em Artes Visuais à Banca Examinadora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, sob a orientação do Prof. Ms. Darwin Antonio Longo de Oliveira. Campo Grande – MS 2008
  • 3. 2 Dedico este trabalho a Deus, à minha família e a todos que me ajudaram a amar as artes da forma como eu amo!
  • 4. 3 AGRADECIMENTOS Muitas pessoas colaboraram com este trabalho. Das formas mais distintas, em momentos muito diversos, todas fizeram contribuições valiosas. Entretanto, é sempre uma difícil tarefa lembrar-se de todos, tal é a quantidade de dados, informações e opiniões que são prestados no decorrer da elaboração de um trabalho. Creio que essa dificuldade se torna maior pelo receio de, sem querer, esquecer de alguém e, com isso deixar de transparecer que não houve reconhecimento de alguma ajuda ou conselho. Inicio, portanto, com um agradecimento genérico a todos aqueles professores e colegas com os quais convivi no transcorrer do curso, com os quais tive a oportunidade de trocar idéias, discuti-las e aprender. Agradeço, de forma especial, ao meu orientador, Prof. Ms. Darwin Antonio Longo de Oliveira, e à Profa . Ms. Marley Sigrist, com quem compartilhei minhas dúvidas e anseios e de quem sempre obtive uma orientação segura e objetiva. A todos os participantes da pesquisa de campo realizada, por dedicarem seus preciosos tempos a responderem os diversos questionamentos que lhes fiz: Alfredo Arruda, Américo Calheiros, Evandro Prado, Idara Duncan, Isaura Corbucci, Izabella Mercante, Janine Menezes Tortorelli, Jean Lima, Rafael Maldonado, Maria Raquel Gomes, Yara Penteado, dentre outros.
  • 5. 4 Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo. Clarice Lispector
  • 6. 5 RESUMO Este trabalho apresenta um estudo sobre o mercado de artes plásticas de Campo Grande – MS e foi realizado com o objetivo de conhecer, pesquisar e analisar esse mercado. A metodologia utilizada para o desenvolvimento do trabalho envolveu, em um primeiro momento, a pesquisa exploratória e, após, a pesquisa descritiva. Foram necessárias, ainda, a pesquisa bibliográfica, para o suporte teórico, e a pesquisa de campo, feita por meio de entrevistas não-estruturadas feitas junto às pessoas escolhidas a partir do objetivo determinado para o trabalho. O enfoque dado ao estudo foi qualitativo. O mercado de arte em Campo Grande ainda é pequeno e sua dinâmica está restrita a poucos espaços e poucos distribuidores e consumidores, apesar do número significativo de artistas. As instituições governamentais incentivam por meios que disseminam a arte e os artistas junto ao público, assim como pessoas interessadas criam espaços alternativos para exposição e venda de arte. Ainda há muito a ser feito para que a arte e os artistas se tornem conhecidos de um público que compreenda a sua importância histórica, cultural e socioeconômica. Palavras-Chave: Artes plásticas. Mercado. Campo Grande-MS.
  • 7. 6 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Roteiro para descobrir as necessidades dos consumidores ..............19 Figura 2 – Fatores que influenciam o comportamento de compra ......................22 Figura 3 – “O boiadeiro” – quadro de Jorapimo, artista plástico corumbaense, homenageado pelos seus 70 anos, em 2007, com exposição no Centro Cultural José Octávio Guizzo, Campo Grande – MS........................................................32 Figura 4 – Casa do Artesão – Campo Grande – MS...........................................32 Figura 5 – MARCO – Campo Grande – MS ........................................................33 Figura 6 – Caminho Kadiwéu, obra de Therezinha Neder, em exposição no MARCO...............................................................................................................33 Figura 7 – Art Galeria Mara Dolzan.....................................................................34 Figura 8 – Memorial da Cultura e da Cidadania Apolônio de Carvalho – Campo Grande – MS.......................................................................................................35 Figura 9 – Serrana – óleo sobre tela de Ilton Silva..............................................36 Figura 10 – Sonho – óleo sobre tela e entalhe, de Ilton Silva .............................36 Figura 11 – Armazém Cultural – Campo Grande – MS.......................................37 Figura 12 – “Rodeio” – Humberto Espindola .......................................................40 Figura 13 – Da série Rosa-boi – Humberto Espindola ........................................40 Figura 14 – Imagem externa da Morada dos Bais...............................................42 Figura 15 - Quadro da Exposição Cores e Formas de Kátia D’Ângelo, na Morada dos Baís ..............................................................................................................43
  • 8. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO....................................................................................................08 CAPÍTULO I: ARTE: ORIGEM E NECESSIDADE .............................................10 CAPÍTULO II: MERCADO DE ARTE..................................................................14 2.1 A ARTE COMO PRODUTO ..........................................................................14 2.2 A ARTE E O MARKETING............................................................................18 2.2.1 O público-alvo e seu comportamento de compra.......................................21 2.2.2 Comunicação com o cliente .......................................................................24 2.2.3 Valoração de uma obra artística.................................................................25 CAPÍTULO III: METODOLOGIA.........................................................................28 3.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS......................................................28 CAPITULO IV: MERCADO DE ARTE EM CAMPO GRANDE – MS..................31 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................46 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...................................................................48
  • 9. 8 INTRODUÇÃO “Numa dialética confusa, o julgamento estético se transforma em pretexto para uma operação comercial, e uma operação comercial bem-sucedida vira julgamento estético.” Raymonde Moulin O mercado de arte, ao longo do tempo, passou por muitas transformações importantes e necessárias para chegar até onde chegou e com certeza transformações ainda virão. Inserido neste, o mercado de artes plásticas, tema desse trabalho, é considerado como um segmento de bens de luxo. Neste contexto, as pessoas que adquirem peças artísticas passam a ser vistas como de um status social distinto. O próprio mercado de arte é estratificado, dividindo-se em circuitos, que por sua vez se subdividem conforme as diferenças socioeconômicas em que estão inseridos e o grau de reconhecimento perante o seu público e outros mercados, o qual é avaliado pela representatividade de sua produção artística. O mercado de arte é fundamental para a circulação das obras e, ainda mais, conforme Moulin (2007), a constituição dos valores artísticos efetua-se com a articulação do campo artístico e do mercado, onde no campo artístico são operadas e revisadas as avaliações estéticas e no mercado se realizam as transações e se elaboram os preços. Tendo em vista, a importância de um mercado para a arte, optou-se pelo desenvolvimento do tema nesse trabalho de conclusão de curso, a partir das indagações: Existe mercado de arte em Campo Grande – MS? Como é comercializada arte em Campo Grande? Qual a percepção dos componentes desse universo estudado sobre o assunto? Para o desenvolvimento do estudo foram necessárias as pesquisa bibliográfica e a pesquisa de campo. A pesquisa bibliográfica foi realizada a partir de um levantamento, em que se constatou que o material sobre o tema é escasso, principalmente textos de conteúdo científico, como se desejava para esse trabalho. Foram encontrados mais artigos sobre consumo de arte. Assim, foi utilizado o livro
  • 10. 9 de João Carlos Lopes dos Santos, “Manual do mercado de arte”, complementado com outros textos. A pesquisa de campo foi realizada com a coleta de depoimentos de pessoas do segmento artístico de Campo Grande, reconhecidas pelo seu trabalho, experiência e conhecimento do tema em estudo. Esse trabalho foi estruturado em capítulos, sendo o primeiro sobre a origem e a necessidade da arte; o segundo versa sobre o mercado da arte, de uma forma geral, em que são conceituadas as diversas partes de um mercado, que se complementam para formar o todo. O terceiro capítulo apresenta a metodologia utilizada para o desenvolvimento do estudo e o quarto, trata do mercado de arte em Campo Grande, onde são relatados os resultados da pesquisa bibliográfica e da pesquisa de campo.
  • 11. 10 CAPÍTULO I ARTE: ORIGEM E NECESSIDADE Este capítulo traz uma breve análise da origem e necessidade da arte, a partir da teoria de Ernst Fischer, em sua obra “A necessidade da arte” e de Néstor Garcia Canclini, em “A socialização da arte: teoria e prática na América Latina. A arte é quase tão antiga quanto o homem. Fischer (1981) diz que a arte é uma forma de trabalho e este é característico do homem. O trabalho é uma transformação da natureza, realizada para prover as necessidades humanas. Para essa transformação foram necessárias ferramentas, ou utensílios, as quais o homem criou e aperfeiçoou no decorrer do tempo. Para a comunicação e expressão, o homem precisou da linguagem. Fischer (1981) afirma que quanto mais o homem acumula experiência, quanto mais aprende a conhecer as diferentes coisas em seus diferentes aspectos, tanto mais rica precisa tornar-se a sua linguagem. Porém, o homem necessitava de mais instrumentos, para tanto apreendeu o conceito de semelhança. Com a fabricação de um segundo instrumento semelhante ao primeiro, o homem produziu um novo instrumento, com a mesma utilidade. E, com a criação de muitos outros, cópias do primeiro, deu nome aos instrumentos ou a grupos deles, conforme eram conexos. Foi dessa maneira que o homem evoluiu; com a utilização de instrumentos e através do processo coletivo de trabalho. Foi ele, o primeiro a chegar a se defrontar com o conjunto da natureza como um sujeito ativo. Porém, conforme evoluía se distanciava da natureza da qual faz parte. Por meio do seu trabalho, o homem transforma o mundo como um mágico; objetos materiais são transformados em signos, em nomes, conceitos. O próprio homem é transformado de animal em homem. Essa magia encontrada na própria raiz da existência humana, criando, ao mesmo tempo, um senso de fraqueza e uma consciência de força, um medo da natureza e uma habilidade para controlá-la, essa magia é a verdadeira essência da arte.
  • 12. 11 A descoberta de que os objetos naturais podiam ser transformados em instrumentos capazes de agir sobre o mundo exterior e mudá-lo levou a mente do homem primitivo, sempre experimentando e despertando aos poucos para o pensamento, a outra idéia: de que o impossível também poderia ser conseguido com instrumentos mágicos. Ou seja, a mágica de fazer instrumentos levou-o a tentativa de estender a magia ao infinito. A arte era um instrumento mágico e servia ao homem na dominação da natureza e no desenvolvimento das relações sociais. Fischer (1981, p.11) escreve que: A arte concebida como “substituto da vida”, a arte concebida como o meio de colocar o homem em estado de equilíbrio com o meio circundante – trata-se de uma idéia que contém o reconhecimento parcial da natureza da arte e da sua necessidade. Para o autor, como esse equilíbrio não pode ser previsto, a arte sempre foi e será necessária. Porém a arte não pode ser concebida apenas como substituta. Ela é muito mais que isso. Suas funções são inúmeras, tendo em vista os desejos e necessidades do homem. O Homem quer ser mais do que ele mesmo, ou seja, quer ser um homem total. E este desejo de se desenvolver e completar mostram que ele é mais que um indivíduo, que somente pode atingir a plenitude ao apoderar-se das experiências alheias que potencialmente lhe dizem respeito, que, conforme Fischer (1981), inclui tudo aquilo que a humanidade, como um todo, é capaz. Somente a arte pode realizar essa união do homem com o todo; somente ela reflete a capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e idéias. Na concepção do autor, para conseguir ser um artista é necessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão e a matéria em forma. Para o artista, a emoção é essencial, portanto ela deve saber tratá-la, transmiti-la, assim como conhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e convenções com que a natureza pode ser dominada e submetida à concentração da arte (Ibidem). As exigências destinadas ao artista são necessárias porque a razão de ser da arte não é permanente. A sua função, em uma sociedade onde existe a luta de
  • 13. 12 classes é diferente, em muitos pontos, da função original da arte. Porém, a arte mostra ser permanente em alguns aspectos, o que é comprovado com a comoção causada por quadros e músicas, dentre outras expressões artísticas, de tempos antigos. O texto acima remete à verdade de que toda arte é condicionada ao seu tempo e representa a humanidade em consonância com as idéias e aspirações, as necessidades e as esperanças de determinada situação histórica. Mas, ao mesmo tempo, a arte consegue superar essa limitação e cria também um momento de humanidade que promete constância no desenvolvimento. Acerca da contribuição da arte para o conhecimento, Canclini (1984) informa que para verificar o valor dessa contribuição, primeiro deve se estabelecer como a arte está inserida no contexto, em que medida sofre seus condicionamentos e em que medida é capaz de tornar a agir sobre eles e produzir um conhecimento efetivo. O autor diverge da colocação da arte e do conhecimento artístico como um norte para o conhecimento da própria sociedade, ou mesmo, como um padrão de toda a vida social. Para o autor, esta é uma visão idealista e romantizada da arte. Na América Latina, por exemplo, a história da arte era marcada pelos estilos, desconhecendo o contexto histórico-social de cada época. A mudança nesse padrão ocorreu devido ao agravamento dos conflitos sociais que levaram à uma tomada de consciência pelos artistas, assim como a expansão da sociologia no continente, que influenciou o estudo da arte. Fischer (1981) relata que no início, a arte era magia, com a função de ser um auxílio mágico à dominação de um mundo ainda inexplorado. A arte, combinada com a religião e a ciência, era uma forma primitiva de magia e viviam em um estado latente. Com a evolução do tempo, esse papel mágico da arte foi cedendo lugar ao papel de clarificação das relações sociais, da iluminação dos homens em sociedades que se tornavam opacas, ao papel de auxiliar o homem a reconhecer e transformar a realidade social. Conforme a necessidade humana, ou melhor, do estágio alcançado pela sociedade, predomina um dos dois elementos da arte. Pode ser o da racionalidade, do esclarecimento; outras vezes o da magia, da intuição, do sonho, o desejo de aguçar a percepção.
  • 14. 13 Contudo, independente do seu papel na sociedade, a arte jamais é uma simples descrição clínica do real. Sua função sempre tem relação com o homem “total”, capacita o “Eu” a identificar-se com a vida dos outros, de incorporar a si mesmo aquilo que ele não é, mas tem possibilidade de ser (FISCHER, 1981). Pode ser questionado que a arte relacionada à magia, ao sonho, não serve para uma classe destinada a transformar o mundo; para isso, a arte deve ser aquela que esclarece e motiva à ação. Mas, o que é a arte sem um pouco de magia? Sem esse resíduo mágico, vindo de sua natureza original, a arte deixa de ser arte. A arte é necessária para que o homem seja capaz de conhecer e transformar o mundo. Mas ela também é necessária pela magia que lhe é inerente. Canclini (1984) fala sobre a arte de libertação, que caracteriza-se por representar a realidade de forma crítica; com uma linguagem capaz de participar nas transformações impulsionadas pelo povo, na produção de uma sociedade. A verdadeira arte revolucionária é aquela que, por estar a serviço das lutas populares, transcende o realismo. Não somente reproduz a realidade, mas está interessada em imaginar os atos que a superem. Os condicionamentos sociais são regidos por leis, pertencem ao campo da necessidade; a ação da arte, como transformadora, busca ir além das leis, está condicionada pela necessidade, mas abre nela um lugar para o possível. O que diferencia a arte de outros modos de transformação é que ela procura mudar a realidade, para participar da evolução história e, também, pelo simples prazer de inventar. A arte também deve divertir; o artista também deve trazer entretenimento ao povo. Mas o que se percebe é que as obras de cunho popular são dramáticas, solenes, descrevem trabalhadores angustiados e que estampam a indignação. Já quando o artista se permite experimentar o jogo e o prazer em suas obras, estas são dirigidas a um público especializado. Canclini (1984) entende que essa diferenciação traduz a separação entre o trabalho e o ócio, característico do sistema social burguês. Ao artista cabe mudar essa concepção, sendo também responsável pelo entretenimento e não deixando somente que os meios de comunicação de massa manipulem o povo. A arte deve se constituir em um instrumento capaz de reconstruir as experiências sensíveis e imaginativas do povo. Socializar a arte significa também redistribuir o acesso ao prazer e ao jogo.
  • 15. 14 CAPÍTULO II MERCADO DE ARTE Este capítulo apresenta as noções básicas sobre o mercado de arte, partindo da visão da arte como um produto e, após, aplicando os conceitos de marketing para esse mercado, principalmente, a figura do consumidor. 2.1 A ARTE COMO PRODUTO O termo mercado, originalmente, significava o local onde compradores e vendedores se reuniam para trocar seus bens ou produtos, geralmente uma praça de uma pequena vila. Já, os economistas utilizam o termo mercado para se referir a um grupo de compradores e vendedores que realizam transações em torno de um produto ou grupo de produtos. Kotler (1998) define mercado como todos os consumidores potenciais que compartilham de uma necessidade ou desejo específico, dispostos e habilitados para fazer uma troca que satisfaça essa necessidade ou desejo. Santos (1999) conceitua mercado de arte como a via processual pela qual transita um segmento de pessoas físicas e jurídicas em torno do objetivo de comercializar obras de arte que, com base na lei da oferta e da procura, determina os relacionamentos e, principalmente, estabelece preços. Braga (2008) afirma, de modo enfático, que arte, hoje, como tudo, é um produto. Arte vende, e circula na medida em que vende. Os artistas são grandes artistas e suas obras são primas na proporção quase exata de seu sucesso comercial. Quando se fala em mercado de arte e tudo o que isso significa: produção, distribuição e consumo, ou seja, comercializar a criação artística, alguns argumentam que isso pode distorcer a concepção da arte, tornando-a uma mercadoria como outra qualquer. Pode torná-la banal.
  • 16. 15 A arte como qualquer outro mercado divide-se em produtores, distribuidores e consumidores, estes últimos com valor significativo dado pelo capitalismo, que, na maioria dos casos, financiam a produção e a exibição, monopolizando o processo. Esse monopólio é antigo, vindo desde a troca dos artesanatos indígenas por quinquilharias. Ao chegarem à cidade, enganam o consumidor, vendendo o artesanato com alto valor e, inclusive, mentindo sobre a sua procedência. O que significa que exploravam desde o produtor ao consumidor final. Atualmente não é muito diferente. Em todos os tipos de arte existem os distribuidores que exploram os artistas e os consumidores. Na pintura, os marchands exigem que os artistas pintem o estilo que eles precisam, dominam a publicidade, a crítica e o acesso dos grupos sociais. Desta forma, os distribuidores privilegiam um grupo em detrimento ao outro. O que demonstra não haver somente a liberdade de criação, mas uma situação distorcida em que a manipulação do mercado resiste. Por isso, é muito importante que haja canais de distribuição alternativos e democráticos entre os produtores e os consumidores. O fato de existir um mercado de arte manipulado faz com que a imagem da produção artística de um país seja falsa, para aqueles que se atém aos meios comerciais de exibição. Existe a arte disseminada de forma popular, em espaços alternativos, como as associações de bairros e de classes; escolas; praças e outros meios que oferecem acesso fácil e barato para o povo e os artistas. Muitas experiências deste tipo são bem sucedidas e ampliou a exploração de canais não convencionais, mas não basta. Para Canclini (1984), as estratégias devem criar canais específicos e outros que tenham poder comercial que ensinem a pensar e formar gosto e sensibilidade. A arte não se torna popular apenas por ser consumida por muitas pessoas, mas pela influência das pessoas em todos os seus processos: produção, distribuição e consumo, ou seja, como as pessoas são incluídas ou excluídas durante os processos. Essa influência pode ser percebida ao se julgarem as obras com diferentes critérios de valor.
  • 17. 16 A arte elitista privilegia a produção como criação individual, inclui a burguesia e setores intelectuais da pequena burguesia. A sua distribuição é quase inexistente, sem importância. O consumidor tem o papel de contemplar a criação do artista. O valor supremo é a originalidade (CANCLINI, 1984). A arte para as massas produzida pelas classes dominantes objetiva transmitir às demais classes a sua ideologia e trazer lucros aos donos dos meios de difusão. Desta forma, privilegia a distribuição. Quer atingir o maior público possível, não interessando a originalidade da obra ou as necessidades do consumidor. Seu valor supremo é a sujeição feliz (Ibidem). A arte popular produzida pelos trabalhadores ou artistas que exprimem os seus interesses e objetivos, privilegia o consumo não mercantil. Os seus objetivos devem trazer utilidade prazerosa e produtiva, não interessando o lucro e originalidade. O seu alcance está subordinado ao uso e à satisfação das necessidades do consumidor, entendido como a coletividade. Seu valor supremo é a representação e a satisfação solidária de desejos coletivos. A arte popular é a arte da libertação. Canclini (1984) entende que a arte analisada somente do ponto de vista ideológico gerou dificuldades ao se alienar de sua vertente material, posto que é fruto de um processo de produção, disseminação e consumo. Neste caso, foi esquecido o lado econômico da produção, tendendo a separar o material do espiritual no processo artístico e criando discussões sobre em que medida o econômico influi sobre a arte e, conseqüentemente, na própria autonomia do artista. Outra situação ocasionada pela visão ideológica da arte foi separar o conteúdo da forma em uma obra, com privilégio do primeiro pela maior clareza com que exibe os condicionamentos externos, e reduzir as diversas linguagens artísticas às idéias que se acreditam encontrar nelas. Canclini (1984) acredita que o mais adequado é vincular as obras às suas próprias condições materiais de produção. A arte não representa somente as relações de produção, ela as realiza. E o modo de representação e percepção são conseqüências do modo de produção da arte e variam com ela. O sistema capitalista modificou o modo de produzir arte. Enquanto em outros sistemas econômicos, a prática artística integrava-se ao conjunto da produção, no capitalismo ela separa-se
  • 18. 17 e cria objetos especiais para serem vendidos, por sua beleza formal, em lugares diferenciados e o artista adéqua-se ao sistema para ser bem sucedido. No sistema capitalista de produção artística, com produção e consumo organizados, o valor mais alto é dado para a originalidade. Outro aspecto do sistema capitalista, é que as obras de arte são tratadas como mercadoria, em que o valor de troca prevalece sobre o valor de uso. Neste caso, as qualidades valorizadas na seleção inicial acabam anuladas pelo mercado. Neste ponto, a obra perde todo aspecto de criação pessoal do artista (produtor) e o comprador (consumidor) recebem o que a concorrência econômica atribuiu à obra. Essas características do capitalismo em relação à arte, principalmente estar voltada ao lucro e não à satisfação das necessidades, trazem muitas conseqüências, diferentes conforme o campo artístico. Por exemplo, na pintura e na escultura os artistas não produzem em função das necessidades sensíveis ou criativas dos espectadores, que na maioria dos casos não conhecem; o estilo e a freqüência de suas criações são determinados pelas exigências do marchand ou do empresário. Até mesmo as experiências criativas são limitadas pelo mercado e pela rentabilidade do produto. Por outro lado, Lisete Lagnado (2006) argumenta que, já é lugar-comum responsabilizar a indústria cultural pela banalização da experiência estética. Mas analisar o mercado de arte contemporânea é uma tarefa que exige um foco duplo: ao mesmo tempo em que é preciso observar as características atuais da arte, é indispensável também abandonar a visão idealista de um artista à margem dos processos econômicos da sociedade. E, ainda mais, sendo assim, o mercado não poderia deixar de ser parte dessa trama. Afirmar que a “verdadeira arte” só pode tecer uma negação do mercado (as galerias e feiras de arte) e das instituições que orbitam em torno dele (os museus, centros culturais, coleções públicas, bolsas de pesquisa artística, premiações, bienais de arte etc.) é um grito de alerta necessário, mas não se pode ignorar a dimensão cultural da arte e eventuais êxitos nesse campo. Porém, é consenso que a arte é necessária ao homem e faz parte da sociedade, tendo que ser estendida a todos que dela faz parte, isto é, a todas as classes sociais. Atualmente, se fala muito em inclusão de todos os tipos, mesmo a
  • 19. 18 digital. A arte também deve fazer parte desse discurso e das mudanças que ele provoca. 2.2 A ARTE E O MARKETING Para Raymonde Moulin (2007), o mercado de arte é segmentado conforme as obras, sendo a primeira segmentação é imposta pelas características das obras, dividido entre a arte figurativa tradicional (nome dado pelas galerias) e o da arte contemporânea, com múltiplas especialidades. A arte tradicional é criada sobre uma tradição rotinizada e satisfaz um mercado relativamente homogêneo, além disso, é amplo e estável. A arte contemporânea, por seu lado, alimenta um mercado dinâmico e fragmentado, com diversos segmentos e é estreito e evolutivo. Uma forma de levar a arte a todos é otimizar o seu mercado. Talvez o processo de tratá-la como um tipo de mercadoria seja a melhor forma de torná-la acessível a todos os tipos de público. Sem deixar de lado o artista, que é o produtor, e deve ser recompensado de forma justa pelo seu trabalho. Para que isto ocorra, o mercado de arte pode utilizar as ferramentas de marketing, como todos os demais mercados. Mostrando como o conceito de marketing vem evoluindo, Kotler (1998, p.27) formulou uma nova definição: “marketing é um processo social e gerencial pelo qual indivíduos e grupos obtêm o que necessitam e desejam através da criação, oferta e troca de produtos de valor com outros”. O marketing apóia-se nas necessidades humanas e, para tanto, é necessário compreender o comportamento humano. Descobrir necessidades envolve a procura cuidadosa de potenciais clientes e pesquisar atentamente as suas necessidades, estudar as tendências do mercado, examinar os da concorrência e até mesmo analisar as necessidades dos clientes, quando for o caso. A Figura 1, a seguir, mostra um roteiro para descobrir as necessidades dos clientes.
  • 20. 19 Figura 1 – Roteiro para descobrir as necessidades dos consumidores Fonte: Berkowitz et al. (2003) Segundo Canclini (1984), a arte é produção porque consiste numa apropriação e numa transformação da realidade material e cultural, mediante um trabalho e para satisfazer uma necessidade social, de acordo com a ordem vigente em cada sociedade. Ele considera a sua definição válida pela sua abrangência, pois abarca todo o processo artístico, em todas as modalidades nos mais diferentes sistemas culturais e econômicos. O conceito de produção considera as obras de arte como trabalhos, que podem ser analisados por meio das condições sociais, assim como as técnicas e os procedimentos que podem modificar essas condições. O que diverge da visão de arte como criações de indivíduos com poderes divinos para criar. A arte abrange também a criação, com suas significações, percepções e originalidade, mas não se resume ao aspecto criador. Neste sentido, os artistas que se prendem ao que Canclini (1984) chama de dogma da imaculada concepção, não desejam que a arte seja entendida como trabalho produtivo e perca o que tem de sedutor. Porém, o autor salienta que a arte vista como fruto da capacidade produtiva se aproxima mais do povo e, desta forma, se torna mais fascinante, criativa e libertadora. Departamento de Marketing da organização Descoberta das necessidades dos consumidores Informações sobre as necessidades Potenciais consumidores: o mercado
  • 21. 20 Canclini (1984) explica que na América Latina a arte como produção e aspecto lúdico gerou uma polêmica que se dividia em duas vertentes. Em uma estavam aqueles que, a partir de leitura errada de Marx e Lenin, queriam os artistas submissos à propaganda política; na outra, estavam os artistas que acreditavam ter uma missão idealista e subtraiam sua prática à história, e alienavam suas obras de toda a realidade externa, restringindo-as somente a uma verdade própria, acessível somente a eles. A obra de arte só passa a existir de forma efetiva se é consumida. A partir da sua recepção pelo público, ela é transformada, conforme a classe social e a cultura daquele que dela se apropria. O seu consumo faz parte do processo de produção e a completa. Assim, ela deve ser avaliada de forma crítica, levando em consideração critérios como o processo de produção, a sua percepção, como se insere na história do gosto e como aceita ou modifica os códigos perceptivos vigentes. Partindo desse raciocínio, Canclini (1984) contraria dois dogmas da estética das belas-artes. O primeiro, em nível ideológico, que determina a qualidade da arte pelo valor imanente das obras ou do prestígio do autor; o segundo, em nível de mercado, pelo sucesso econômico ditado pelos distribuidores e empresários de arte. Todos os dois excluem o consumidor comum do processo, elevando a arte a um patamar onde só tem acesso poucos privilegiados, contribuindo para a sua elitização. A arte é diferenciada conforme as classes sociais, pois se presume que as classes sociais mais altas, por ser mais educada, mais culta e ter tempo para cultivar o bom gosto, possui o domínio dos códigos estéticos e, de sua forma, dita o que possui qualidade artística e o que não a possui. Esse processo de exclusão social somente pode ser quebrado com a autonomia do artista, que não deve seguir somente o que é dado como estético e de qualidade em determinado histórico. Canclini (1984) comenta que foi a autonomia das obras, em relação ao contexto social e o predomínio da forma sobre a função, os fatos artísticos que contribuíram para a inserção da arte na cultura popular.
  • 22. 21 Na contemporaneidade, a arte elitizada resulta do conflito entre as tendências que buscam destruir seu fechamento e outras que sempre necessitam do espectador mais culto. A abertura da arte para todos traz o muralismo, arte de rua, desenho ambiental, dentre outras. A preferida pelo sistema mercantil e a estética burguesa é aquela a qual dão maior valor estético e, conseqüentemente, de mercado. Os movimentos artísticos que procuram aproximar a arte do povo possibilitam construir a interação entre o artista-povo, com maior igualdade entre as partes, compartilhamento de experiências e de produção. Isto pode , ainda, terminar ou minimizar com a dependência cultural com as metrópoles, que faz com que a arte local seja espelhada naquela, com efeito retardado. 2.2.1 O público-alvo e seu comportamento de compra Santos (1999) escreve que a idéia dominante entre os não-iniciados é que marketing só tem a ver com a propaganda do produto ou do serviço, levando-se em conta, e apenas, a indução à compra por parte dos consumidores do produto ou dos utilizadores do serviço, e, muitas vezes, até criando neles uma necessidade que, na verdade, sem aquela propaganda indutora, não existiria. Obviamente, ninguém pode produzir e vender nenhum objeto ou serviço sem anunciá-lo ao universo dos seus compradores finais. O público jamais deve ser esquecido, ou seja, os artistas precisam se comunicar sempre com a comunidade em seu entorno, com a mídia, com outras pessoas do seu segmento. Assim como, deve acompanhar o que está acontecendo no mundo. Se ele se fechar de forma exagerada, acaba por ser esquecido e se tornar uma pessoa alienada, fora do mercado e, até mesmo, da sociedade. Porém, a questão de se comunicar com o público não significa fazer concessões para vender mais, pois o artista produz sua arte e compra quem dela gostar. Porém, complementa o autor, os compradores de arte e o público em geral devem receber atenção do artista, pois esta também é uma oportunidade do artista passar sua mensagem, o que ele pensa, falar sobre determinadas obras, enfim, se
  • 23. 22 tornar mais próximo do público, que entenderá melhor suas criações (SANTOS, 1999). Faz parte da profissão de outros profissionais do mercado de arte, como os galeristas e marchands, trabalhar corretamente com os clientes, até mesmo ter comprometimento com as suas necessidades e desejos. A partir do momento que esse profissional estiver ao lado do cliente, solucionando os seus problemas com a aquisição de determinada obra de arte, acompanhando os mínimos detalhes, até algum tempo depois da venda realizada, com certeza esse cliente se tornará fiel e o recomendará para outras pessoas. Outro fator positivo da proximidade com os clientes é conhecer o seu comportamento de compra. A decisão de comprar é influenciada por diversos fatores internos e externos. Kotler (1998) explica que o processo pelo qual os consumidores compram produtos e serviços começam com o reconhecimento de uma necessidade. Esse processo de tomada de decisão começa com o consumidor reconhecendo um problema a ser resolvido ou necessidade e/ou desejo a ser satisfeito, sendo provocadas por estímulos externos (convite a um casamento, propagandas, outros) e internos (fome, cansaço, sede, tristeza, felicidade, outros). As influências podem ser psicológicas, pessoais, sociais e culturais. A Figura 2 traz o modelo de Kotler (1998), que demonstra os fatores psicodinâmicos internos e externos que atuam sobre o consumidor. Figura 2 – Fatores que influenciam o comportamento de compra Fonte: Kotler (1998)
  • 24. 23 Os fatores culturais são os que exercem a mais ampla e profunda influência sobre os consumidores e subdividem-se em três: cultura, subcultura e classe social. Cultura consiste em acumulação de significados, rituais, normas e tradições compartilhadas entre os membros de uma organização e é a lente por meio das quais as pessoas enxergam os produtos. Desta forma, a cultura determina as prioridades que ele vincula a diferentes atividades e produtos. A experiência cultural é vista como a personalidade de uma sociedade evidenciando e assimilando aprendizados, valores percepções e preferências de uma organização ou sociedade. Nela incluem-se subculturas (grupos com seus próprios modos de comportamentos) e classe social (pessoas com valores, interesses e comportamentos similares). Assim, um conhecimento das várias culturas, de uma sociedade, auxilia os profissionais de marketing a prever a aceitação dos seus produtos pelo consumidor (SOLOMON, 2002). Os valores culturais são enraizados no indivíduo, portanto, através de uma compreensão de sua cultura, o artista e/ou profissional do mercado de artes pode melhorar suas vendas e a posição das suas obras ou galeria no mercado. Os fatores sociais, por sua vez, são os grupos de referência, família, papéis e posições sociais que acabam por influenciar o comportamento de compra. Os grupos de referência são os grupos de pessoas que influenciam os pensamentos, os sentimentos e os comportamentos do consumidor. Kotler (1998, p.164) relaciona grupos de afinidade denominados “primários”, e os grupos de afinidade denominados “secundários”. Os grupos primários são constituídos pela família, pelos amigos, pelos vizinhos e pelos colegas de trabalho; com estes grupos a pessoa interage mais continuamente e são informais. Já os grupos secundários são constituídos pelas religiões, sindicatos e profissões, os quais tendem a ser mais formais e exigem interação menos contínua. Com a diminuição da família tradicional, observa-se que as pessoas estão colocando ênfase maior em irmãos, amigos íntimos e outros familiares (tios, primos, para ter companhia e apoio social. Portanto, é essencial descobrir os papéis de cada membro na compra, o que pode ser a chave do sucesso para aqueles que desejam permanecer competitivas no mercado.
  • 25. 24 Quanto aos fatores psicológicos, a compreensão do comportamento humano é feito por meio da descoberta de suas necessidades, já que todo o processo de tomada de decisão de compra baseia-se na percepção da pessoa de que suas necessidades serão satisfeitas com determinada aquisição. Para Kotler (1998) quando uma pessoa se encontra motivada, está pronta para agir. Neste sentido, percepção significa a forma pela qual uma pessoa seleciona, organiza e interpreta as informações para criar um quadro significativo do mundo. Um motivo é uma necessidade que é suficientemente importante para levar a pessoa a agir, a maneira como ela age é influenciada pela percepção que ela tem da situação. Enfim, o comprador mesmo que indiretamente possui influência em todas as etapas do processo decisório de compra, assim, comunicação e planejamento de vendas devem sempre buscar melhoramentos voltados à satisfação e fidelização do cliente. 2.2.2 Comunicação com o cliente Santos (1988) explica que não basta pendurar os quadros em uma galeria e ficar esperando o comprador. O público precisa ser estimulado a visitar o local, conhecer o acervo e comprar. Em arte, quando se refere a “estar exposto” significa existir, pois sem divulgação, circulação e exposição, a obra não existe. Neste segmento de mercado existem instituições e meios que fazem com o artista seja visto, tais como: museus, galerias, instituições culturais, livros, bienais e meios de comunicação. A elaboração da imagem do artista é feita por agentes, como os críticos, promotores de eventos, jornalistas, publicitários, donos de galerias e curadores. Mesmo aqueles artistas que não desejam uma proximidade maior com o público ou serem conhecidos, têm as suas obras e o seu nome visíveis para que sejam conhecidas e adquiridas.
  • 26. 25 Em relação aos vários meios disponíveis de mídia e propaganda, mais uma vez o conhecimento do cliente em potencial é facilitador, para definir o público- alvo da propaganda deve-se ter informações sobre qual sua classe social, os seus hábitos, onde moram, dentre outras, quanto maior o conhecimento sobre o seu público, mais chance existe de obter sucesso na divulgação do artista e suas obras (Ibidem). O público-alvo pode ser atraído por meio de eventos e, uma vez que compareça ao local, deve ser muito bem recebido e tratado, deve ser fornecidas todas as informações necessárias, proporcionar clima agradável e agradá-lo plenamente para que se torne um comprador satisfeito e, se não comprar daquela vez, com certeza fará boa propaganda do local e suas obras, assim como comprará na primeira oportunidade. A aquisição de uma obra de arte deve ser transformada em um momento agradável, importante para o ciente e para o artista ou seu representante. O comprador deve ser motivado a retornar mais vezes, fazer visitas e ver as novidades. Após a compra, não deve ser esquecido. O ideal é manter um cadastro sempre atualizado e fazer contatos com os clientes por meio de catálogos, folders, convites, até mesmo cumprimentos pelo aniversário dele ou de casamento, por exemplo. Se ele for sempre lembrado, com certeza não se esquecerá do artista ou da galeria (Ibidem). 2.2.3 Valoração de uma obra artística Santos (1999) diz que é difícil, para o artista, a sua entrada em seu segmento de mercado, é necessário que o artista possua em primeiro lugar, aptidão natural ou adquirida. Deve ter vocação, pois a profissão é das mais espinhosas; é essencial ser criativo; dedicar-se ao estudo; ter muitas determinação e disciplina no trabalho; e finalmente, saber fazer uma correta e adequada divulgação, sem se esquecer das duas virtudes fundamentais: humildade e paciência. O artista, além de suas obras, deve “vender” a sua imagem. É essencial que ele seja visto e percebido como um artista.
  • 27. 26 A esses fatores deve ser incluído, ainda, que “a obra colocada à venda [...] é singular e única; ela é individual e insubstituível”, conforme Moulin (2007, p.13) Os preços de venda ao consumidor final, que são sugeridos pelo artista para a comercialização de suas obras nas galerias (tabela final do artista) e o preço de mercado, que resulta da análise profissional, subjetiva, de um somatório de valores, não são, necessariamente, a mesma coisa. Santos (1988) acredita que o ideal é quando o artista consegue igualar o seu preço ao de mercado, ou melhor ainda, quando consegue ter os preços de mercado superiores aos seus. O preço de um quadro não é determinado simplesmente pelo que se gastou de materiais nele ou pelo tempo gasto para pintá-lo. Entre as variáveis para formar o preço estão a qualidade da obra e a freqüência de sua demanda, ou seja, se é muito procurada ou desejada. A tabela de preços é convencionada entre as duas partes: o artista e o galerista ou outro responsável pelas vendas. Santos (1988) relaciona tres preços para uma mesma obras: - o do ateliê: que os marchands pagam ao artista; - o de galeria: aquele que é praticado por esses estabelecimentos; - o de mercado: aquele que o mercado efetivamente paga. O preço de mercado é formado por meio de um consenso entre profissionais do mercado sobre vários aspectos: oferta e procura, criatividade do artista, habilidade pictórica, padrão de regularidade dos trabalhos, inserção no mercado, número equilibrado de trabalhos disponíveis, formação profissional, curriculum, status da galeria e/ou do marchand que representam o artista, o marketing adotado, qualidade intrínseca do material usado, projeção de durabilidade, estado de conservação do trabalho, modismos do mercado, influencias conjunturais e econômicas, dentre outros. O preço de mercado é específico, em que cada objeto tem o seu próprio valor. Tendo em vista os inúmeros aspectos que entram na formação de preço de mercado, o mesmo quadro pode ter preços diferentes em épocas diferentes.
  • 28. 27 Um bom começo para estipular o preço de mercado de uma obra é ter uma tabela de preços equilibrada. Algumas vezes o artista argumenta consigo mesmo que arte é uma coisa cara, só para ricos comprarem; ou que é supérflua, por exemplo. Mas a melhor maneira de elaborar uma tabela de preços é com valores acessíveis ao mercado, fazendo com que a obra seja sempre procurada, com chances de ser vendida. Os preços da tabela vão majorando conforme aumenta a demanda pela obra. Porém, esse aumento deve ser bem dosado e planejado. Conforme Santos (1988) ensina, a tabela de preços não pode ser baixada, pois o artista cai em descrédito. É comum observar artistas iniciantes com tabelas de preços altos, próximas daqueles que já estão reconhecidos no mercado e com aceitação pelo público, o que faz com que não sejam vendidos.
  • 29. 28 CAPÍTULO III METODOLOGIA Todo estudo necessita de uma seqüência lógica em seu desenvolvimento e, para tanto, devem ser aplicados métodos científicos adequados. Este capítulo apresenta a metodologia utilizada para o desenvolvimento deste trabalho. 3.1PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Foram utilizadas duas formas de pesquisas para desenvolver o trabalho. Em um primeiro momento, foi feita a pesquisa exploratória, que visa proporcionar maior familiaridade com o problema com vistas a torná-lo explícito. Posteriormente, foi utilizada a pesquisa descritiva, objetivando descrever as características do fenômeno, isto é, relatar o que for sendo descoberto ao longo do trabalho. O enfoque dado ao estudo foi qualitativo. Conforme Mattar (1999, p. 80), “a pesquisa exploratória visa prover o pesquisador de um maior conhecimento sobre o tema ou problema de pesquisa em perspectiva”. Vergara (2000) indica a utilização da pesquisa exploratória quando há pouco conhecimento acumulado e sistematizado sobre o tema, como é o caso deste trabalho. Em geral, a pesquisa exploratória é usada para gerar hipóteses ou explicações prováveis e identificar áreas para um estudo mais aprofundado. A pesquisa descritiva, de acordo com Mattar (1999, p.77), “tem o objetivo de expor o fenômeno em estudo”. Também foram feitas a pesquisa bibliográfica, em fontes como livros, artigos e internet e a pesquisa de campo para coletar os dados relacionados ao mercado de arte em Campo Grande.
  • 30. 29 A pesquisa bibliográfica abrange toda a bibliografia pública em relação ao tema estudado, desde livros, boletins, jornais, revistas, pesquisas, monografias, teses, dentre outros (MARCONI; LAKATOS, 2002). Vergara (2000, p.48) define pesquisa bibliográfica como “o estudo sistematizado desenvolvido com base em material publicado em livros, revistas, jornais, redes eletrônicas, isto é, material acessível ao público em geral”. Neste estudo, esta pesquisa foi utilizada para a fundamentação teórica sobre assuntos relacionados ao tema. A pesquisa de campo é “investigação empírica realizada no local onde ocorre ou ocorreu um fenômeno ou que dispõe de elementos para explicá-lo”, conforme Vergara (2000, p.47). Neste trabalho esta pesquisa foi realizada por meio de entrevista não-estruturada com artistas, galeristas, marchands e curadores (figuras de vendedores, distribuidores, intermediadores) e compradores de arte, entendida, para este trabalho, como pinturas. A entrevista possibilita obter dados mais detalhados e abrangentes sobre o objeto estudado. Trata-se de um método de coleta de dados que, entre outros objetivos, possibilita captar os motivos conscientes para opiniões, sentimentos, sistemas ou condutas (MARCONI; LAKATOS, 2002). Como técnica de pesquisa, a entrevista é utilizada para a obtenção de informações a respeito do que as pessoas sabem, crêem, esperam, sentem ou desejam, pretendem fazer, fazem ou fizeram e também acerca das suas explicações ou razões a respeito de coisas anteriores. A entrevista não-estruturada é um modelo mais flexível, caracterizado pela liberdade que o entrevistador tem para desenvolver cada situação em qualquer direção que considere adequada para o estudo. Geralmente, é constituída por perguntas abertas, respondidas durante uma conversação. Gil (1999) divide a entrevista não-estruturada em três tipos: - Por Pautas: o entrevistador se guia por uma relação de pontos de interesse (pauta), que vai explorando no decorrer da entrevista; tem a liberdade explorá-los fazendo as perguntas que julgar necessárias, na ordem e profundidade que quiser. É utilizada quando os pesquisados não se sentem à vontade para responder a perguntas formuladas com maior rigidez.
  • 31. 30 - Focalizada: há um roteiro de tópicos relativos ao problema que se vai estudar, e o entrevistado fala livremente à medida que se refere a eles. Ao entrevistador cabe conduzir a entrevista não deixando que o entrevistado se desvie do assunto. - Não-dirigida: o entrevistado fala livremente a respeito do tema, expressando suas opiniões e sentimentos; o entrevistador tem a função de incentivar a entrevista, levando o informante a falar sobre o assunto, sem, entretanto, lhe fazer perguntas. Esse tipo de entrevista é o menos estruturado possível, sendo utilizado nos estudos exploratórios, que visam abordar realidades pouco conhecidas pelo pesquisador. Para esta pesquisa, foram utilizadas a focalizada e a não-dirigida. As pessoas entrevistadas foram escolhidas a partir do objetivo determinado para o trabalho, que foi conhecer, pesquisar e analisar o mercado de arte em Campo Grande – MS, com o intuito de verificar se existe esse mercado e qual a sua dinâmica. Sendo assim, foram escolhidas pessoas: - Moradoras de Campo Grande; - Que detém conhecimentos sobre o tema; - Que executa alguma das atividades de um mercado, no caso o de arte: produz (artista), distribui (galerista, marchand, curadores) e consome (comprador). O procedimento utilizado para as entrevista foi, inicialmente, contatar a pessoa e explicar o trabalho que estava sendo desenvolvido; após, caso a pessoa aceitava, fazer a entrevista da forma escolhida pela pessoa: por e-mail, gravador ou por meio de uma conversação sobre o assunto.
  • 32. 31 CAPITULO IV MERCADO DE ARTE EM CAMPO GRANDE - MS Este capítulo aponta os resultados encontrados na pesquisa de campo realizada por meio de entrevista não-estruturada com artistas, marchands, galeristas, curadores e compradores de arte (pinturas). Buscou-se restringir a pesquisa ao período pós-1979, com a divisão do Estado. Em janeiro de 1979, Idara Duncan era responsável pela área de artes plásticas da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, que tinha Maria da Glória Sá Rosa como Diretora Executiva. Na época, foi realizado um levantamento da realidade para serem traçadas as diretrizes para a proposta de política cultural do Estado. Segundo Idara Duncan, “Campo Grande, distante e isolada geográfica e culturalmente da capital Cuiabá, recebia raros incentivos para as manifestações artístico-culturais”. A justificativa para tal situação era a falta de espaços adequados, que se restringiam aos teatros da UFMS e da FUCMAT (atual UCDB), clubes, praças, escolas, dentre outros. As exposições artísticas eram realizadas em locais inapropriados. Essa situação foi vivenciada por artistas na época, como relata Maria Raquel Gomes, artista plástica formada pela Faculdade de Belas Artes do Paraná, que veio para Campo Grande em 1974. Ela percebeu a falta de espaços culturais e, em 1976, uniu-se a um grupo de artistas locais na tentativa de criar uma estrutura para melhorar o setor, chegaram, até mesmo, a instituir alguns salões de artes com premiações. Mas o esforço foi em vão. A artista conta que somente recomeçou em 1995, com a abertura de um atelier próprio, onde ensina e faz o que mais gosta, que é criar. Na sua opinião “Não é muito, nunca será muito, pois a arte é infinita”.
  • 33. 32 A Fundação de Cultura buscou mudar esse cenário com a criação de vários espaços, como: Casas do Artesão, no Estado, pela Casa da Cultura Luiz de Albuquerque, em Corumbá e principalmente com a implantação do Centro Cultural José Octávio Guizzo, em 1983, que passa a abrigar oficinas de arte, duas galerias, a Wega Nery e a Ignes Correa da Costa e a Pinacoteca Estadual, cujo acervo deu origem, posteriormente ao Museu de Arte Contemporânea - MARCO. Figura 3 – “O boiadeiro” – quadro de Jorapimo, artista plástico corumbaense, homenageado pelos seus 70 anos, em 2007, com exposição no Centro Cultural José Octávio Guizzo, Campo Grande – MS Figura 4 – Casa do Artesão – Campo Grande – MS
  • 34. 33 Figura 5 – MARCO – Campo Grande – MS Figura 6 – Caminho Kadiwéu, obra de Therezinha Neder, em exposição no MARCO Conforme Idara, as exposições de arte eram feitas em espaços alternativos, como no jornal Diário da Serra e na Papelaria União, do artista Demétrio Aralampides, D. Hard, que vendia materiais de pintura, cavaletes e molduras. Depois surgiu a gelaria de arte da loja Mundo dos Quadros, de Marilza Bissoli. Idara Duncan coloca dois fatores significativos para o incremento das artes plásticas no Estado: a criação da Associação Mato-grossense de Arte (AMA), na década de 60, por Humberto Espindola, Aline Figueiredo e Adelaide Vieira e a criação dos cursos de Educação Artística, no início da década de 80, na Universidade Federal de MS, em Campo Grande e na UNIGRAN, de Dourados.
  • 35. 34 As exposições continuaram a serem feitas em espaços informais, como na Agencia de Turismo Tainá Tour, dirigida por Maira Rezende, assessorada por Henrique Esplengler. Nesse local ocorreram as reuniões para criação da Unidade Guaicuru de Cultura, a inauguração da Casa de Cultura em Três Lagoas. A primeira galeria profissional do Estado foi a Art-Con, de Mara Dolzan. Posteriormente, Arte Galeria Mara Dolzan, que é um espaço moderno dirigido à comercialização de arte. Figura 7 – Art Galeria Mara Dolzan Idara Duncan prossegue em seu relato e escreve que a década de 90 é marcada pelo surgimento do Museu de Arte Contemporânea Nelly Martins, o MARCO - MS, fundado em 1991, vinculado à FCMS, instalado desde 2000, em moderno prédio próprio, no Parque das Nações Indígenas; da Morada dos Bais, sobrado onde residiu Lídia Bais, a 1ª artista plástica do Estado, prédio restaurado pela Prefeitura, transformado em Centro Cultural; o Espaço de Arte Yara Penteado, galeria de múltiplas atividades; com grande acervo; o Entrerartes de Meire Milan e o Atelier 1881, de Kinho, Genessi e Hosana Ortiz, em Dourados; do Museu de Arte Pantaneira, em Aquidauana, da Galeria Izulina Xavier, em Corumbá, e do Museu da Imagem e do Som - MIS/MS, criado em 1998, vinculado à FCMS.
  • 36. 35 A partir do ano 2000, são inauguradas dezenas de galerias de arte, e espaços culturais, vinculados a instituições públicas e privadas, como as dos Banco do Brasil e ITAÚ, SESC, EMBRATEL, Shopping Campo Grande, TVE, Armazém da Estação da NOB, da Prefeitura Municipal e galerias particulares, de vários artistas plásticos e o Memorial da Cultura e da Cidadania Apolônio de Carvalho, em prédio moderno com espaços para múltiplas atividades culturais. Figura 8 – Memorial da Cultura e da Cidadania Apolônio de Carvalho – Campo Grande – MS A Fundação de Cultura do Estado prestou homenagem ao artista Ilton Silva por meio da exposição “Celebração do Trabalhador”, realizada no período de 18/09 a 24/10/2008, no Memorial da Cultura e da Cidadania. Nascido em Ponta Porã em 1944, Ilton Silva é filho de Conceição dos Bugres, consagrada escultora primitivista que criou os bugrinhos em madeira que se tornaram referência cultural de Mato Grosso do Sul.
  • 37. 36 Figura 9 – Serrana – óleo sobre tela de Ilton Silva Fonte: Rosa; Duncan; Penteado (2005) Figura 10 – Sonho – óleo sobre tela e entalhe, de Ilton Silva Fonte: Rosa; Duncan; Penteado (2005)
  • 38. 37 Figura 11 – Armazém Cultural – Campo Grande – MS Américo Calheiros, diretor-presidente da Fundação de Cultura, acredita que o mercado de arte em Campo Grande é incipiente, com poucas galerias que trabalham de forma sistemática. Em relação ao Governo do Estado, estimula a amostragem e a divulgação das obras produzidas no Estado, por meio de instituições e promoções culturais. A venda serve para estimular a produção artística, pois o artista é criador, trabalha e precisa viver de sua arte. Conforme Américo Calheiros, ocorre vendas, mas, ainda, o mercado é pequeno. Em sua opinião, esse mercado vai crescer, na proporção em que mudar os costumes, a cultura de investimento dos campo-grandenses. As pessoas freqüentam as exposições e Mostras, admiram as obras, e muitas não sabem que estão à venda. E, quando descobrem que podem ser adquiridas, nota-se que existe dificuldade de dispor de um determinado valor para um quadro, por exemplo. Desta forma, nota-se que existe certa rejeição de ver a arte como investimento, por parte da população, mesmo para potenciais compradores. Evandro Prado, Bacharel em Artes Visuais pela UFMS, tem a mesma visão, da falta de investimento em arte. Segundo Evandro, ainda há muito que crescer,
  • 39. 38 [...] uma vez que dependemos de um mercado de arte que praticamente inexiste por aqui. Tenho atuado como artista plástico e realizado exposições freqüentes em Campo Grande e pelo Brasil desde 2004 e percebo que não há a cultura de se comprar obras de arte. Ao contrário de outros estados ou outros países, não há uma idéia de comprar arte como investimento, e sim como decoração. Sendo ainda, que são pouquíssimas as pessoas que se interessam e compram obras pelo seu valor artístico. Existem muitos poucos colecionadores aqui, deixando nós, artistas plásticos, a mercê de ter que trabalhar em outras funções, muitas vezes ligadas à Licenciatura. A questão do investimento em arte não é simples, não basta apenas sentir empatia por determinado artista ou peça. Rafael Maldonado coloca esse problema da seguinte forma, O que precisa ser entendido é que nem tudo pode ser considerado como arte. Nem toda pintura é uma obra de arte. Há inúmeras questões em jogo, é preciso saber exatamente no que investir: quem são os artistas com carreira constituída, quem são os artistas emergentes, que tipo de coleção se quer formar, qual a obra certa para se adquirir. Definido isso já é um grande passo para que o público esteja apto a consumir arte como investimento, e, assim, podermos considerar um mercado eficiente. Ao se enquadrar a compra de uma obra de arte como investimento, entra em jogo várias questões futuras, pois a peça pode jamais se valorizar financeiramente, apesar de possuir um valor artístico próprio. Américo Calheiros relata que as artes plásticas possuem o menor público, dentre as artes, em Mato Grosso do Sul. A demanda pelo mercado de arte ainda é baixa, devido à própria cultura do Estado, o que deve ser mudado. Alfredo Arruda, médico cardiologista em Campo Grande, comprador de obras artísticas, relata que o universo local dos compradores de arte é similar ao de outros lugares. A diferença está em que uma pequena parcela adquire pinturas, no caso, porque gosta. Existem poucos colecionadores na cidade. Ele se considera um colecionador e investidor, sente prazer em adquirir, mas não é um profissional. Na seqüência, ele afirma que percebe que está surgindo uma elite cultural em Campo Grande que separa a arte do dinheiro. Outro fato é a classe média, constituída por uma maioria de profissionais liberais, que está se tornando mais numerosa e são os novos consumidores de arte, ou seja, são os novos clientes.
  • 40. 39 Em sua opinião, o que falta na cidade é um local mais descontraído, onde se possa conhecer artistas consagrados e novos artistas, se possa conversar, realizar um intercambio de idéias e propostas sobre arte e, também, comprar. Izabella Mercante, também compradora de arte em Campo Grande, relata que, no caso dela, ser consumidora de arte é um sonho antigo. Ela não de considera propriamente uma consumidora, mas sim uma admiradora de arte, seja ela regional ou universal. A aquisição é feita sempre que surge uma oportunidade financeira, o que é realizado com paixão, se tornando um investimento prazeroso. Comprar arte, para Izabella Mercante, [...] é como adquirir uma parte solta da minha vida; compro em galerias (normalmente em exposições quando o artista está) e através de marchand, mais sempre que é possível quero fazer contato com o artista, gosto de conhecer a pessoa que criou a peça que admiro ao ponto de levar para minha vida. Tenho pelas obras de arte regionais uma paixão diferenciada, e sei da dificuldade que os artistas têm em expor e divulgar seus trabalhos, o que gera uma dificuldade de acesso a esse produto tão rico. Isaura Corbucci, arquiteta em Campo Grande, também compra arte porque gosta. Adquire de forma esporádica e quando se apaixona pelo objeto. Compra todos os tipos: cerâmicas, cestarias, artesanatos de bom gosto, aqui ou em viagens. Os valores variam dependendo da obra, podendo ser altos. Acredita que por sua profissão, está muito atenta à estética e ao belo. Em seus trabalhos de interiores, tem preferência por usar objetos ou obras de arte, porque valorizam os ambientes, dão vida e aconchego, além de personalizar os espaços. Como se observa, existe um público que deseja consumir arte, comprando para si mesmo, para clientes, por prazer e/ou para investimento. Porém, esse mercado pode e deve ser incrementado. Para Calheiros, a mudança pode vir do próprio artista ao se posicionar como artista e, a partir daí, vender as suas obras. O importante é ter uma visão profissional. Como exemplo, ele cita o artista Humberto Espíndola que obteve sucesso nacional e internacional.
  • 41. 40 Figura 12 – “Rodeio” – Humberto Espíndola Figura 13 – Da série Rosa-boi – Humberto Espíndola O que Calheiros expõe remete ao pensamento de Santos (1997), de que o artista deve se aproximar do público, pois ao isolar-se pode terminar esquecido e alienado, conseqüentemente, fora do mercado e, até mesmo, da sociedade. Além disso, os compradores de arte e o público em geral merecem atenção eé uma oportunidade de o artista passar sua mensagem. Neste sentido, Yara Penteado, antropóloga, relata em sua entrevista que, as escolas de arte que aumentam em número em Campo Grande podem auxiliar na
  • 42. 41 formação do artista ao cumprirem um papel em que, além de ensinar alguma forma de arte, [...] cumpram um papel paralelo de formadores de opinião, ao associar o ensino da técnica com algo fundamental, que é o conhecimento do papel da arte na sociedade, o artista e seu papel transformador, e a trajetória da arte através da história e sua relevância nela. O papel do Governo é incentivar, criar oportunidades, com políticas públicas e parcerias, para que a arte seja reconhecida e valorizada. Assim, o artista, que é produtor dessa arte, seja valorizado. Nesse sentido, por exemplo, são criados espaços, em busca de oferecer ao maior número de artistas a oportunidade de mostrar suas obras, considerando a qualidade e a produção que possuem. Maria Raquel confirma que, realmente, os órgãos governamentais facilitam o acesso dos artistas ao público, por meio de exposições, apresentações, entre outros eventos. Porém, o problema é a centralização da arte em um pequeno grupo de pessoas, aliado ao preconceito em relação a determinados estilos de manifestações artísticas. A arte pode ser bela e com excelente qualidade em qualquer tipo de manifestação ou estilo, não precisa ser fruto de algum tipo de contestação. Sobre o que é arte e sua criação, Yara Penteado acredita que esse conceito pode ser dado a partir do seu criador, do verdadeiro artista, que vai além do pintor: Aquele que pinta, que copia ou recria um trabalho, que chamarei de PINTOR e, aquele que CRIA, o ARTISTA, inspirado em sua visão de mundo e de sua época, retratando-a, recriando-a, criticando-a, transgredindo normas, técnicas conceitos, para construir o seu modelo, a sua linguagem e forma de se expressar e expressar seu modo de ser e estar no mundo, ao construir uma obra, que é única, de longe reconhecida como sua ou de sua época ou movimento. Essa historicidade da obra-de-arte é que tem que ser conhecida e difundida, para que os formadores de opinião, tenham eles próprios as suas, embasadas em um conhecimento que distingue a verdade da burla. Como a obra-de-arte envolve, ainda, um conceito subjacente, O BELO, fica ainda mais complicada a simplificação, pois
  • 43. 42 a beleza pode ter interpretações variadas,subjetivas ou, ainda, formadas através da mídia, modismos e outros elementos mais. Jean Lima acredita que o mercado de arte local tem demonstrado uma melhora tímida, mas significativa, mas que há muito que melhorar nesse mercado. Em sua opinião, Campo Grande tem hoje bons espaços para exposições de arte, mas falta democratizar o acesso a esses espaços. Ele afirma que, [...] existem jovens artistas interessantes, que precisam expor e provar sua competência em outros estados para receberem o devido valor em Campo Grande. Creio que isso não seja bom. Janine Menezes Tortorelli, coordenadora da Morada dos Baís, da Fundação de Cultura, informou que a Morada possui três salas temporárias voltadas para a exposição de artistas regionais. Foi ressaltado que não são realizadas vendas pelos funcionários (servidores públicos municipais). Figura 14 – Imagem externa da Morada dos Bais Segundo Janine, os artistas vendem cerca de 80% das telas nas vernissages. Esse fato é devido ao trabalho de mídia, que é intenso, assim como, ao público diferenciado que freqüenta o local, que é distribuído em moradores locais e turistas.
  • 44. 43 Santos (1997) entende que qualquer tipo de produto ou serviço somente é vendido se for conhecido pelo público, ou seja, sem anunciá-lo ao universo dos seus compradores finais. A Morada dos Baís tem a função de expor as obras dos artistas e divulgar as exposições. Apesar dos funcionários não venderem, fazem a recepção dos freqüentadores, com informações sobre as exposições, colocação de etiqueta nas peças e outras atividades para que o público se sinta bem no local. Figura 15 - Quadro da Exposição Cores e Formas de Kátia D’Ângelo, na Morada dos Baís Janine observa que a postura dos artistas mudou ao longo do tempo, mostrando maior profissionalidade e atenção com os detalhes de sua exposição, seguindo, no caso da Morada dos Baís, as normas estipuladas pelo local. Nota-se que são responsáveis com todos os aspectos, desde com a própria atitude pessoal até a profissional, tornando-se um gestor de sua arte.
  • 45. 44 Em relação aos consumidores, Campo Grande aumentou bastante os locais de exposição, após 2003. O que se observa é que quando o artista se preocupa com sua divulgação, com o preço acessível, com a qualidade dos seus trabalhos, procurando agregar valor à sua criação, consegue resultados de venda melhores. Jean Lima “Mão” acredita que, além disso, [..] hoje temos um novo público de arte e que esse público clama por pessoas concatenadas às demandas contemporâneas e mais observadoras em relação ao nosso quadro de jovens artistas, envolvidas na cadeia do mercado artístico local. Vejo com bons olhos o advento da internet, hoje um artista ligado às novas tecnologias, deve usar conscientemente as ferramentas da internet (fotolog, youtube, orkut, blog, my space, etc) para promover sua arte e desenvolver seu marketing pessoal. Rafael Maldonado, por sua vez, acredita que o público de Campo Grande, [...] ainda não tem uma educação para o consumo de arte, nem tampouco possui um perfil ideal para que isso aconteça, mas, com o trabalho efetivo de formação para o entendimento da arte contemporânea por parte de instituições referenciais, aos poucos vai se consolidando uma aprendizagem estética que poderá resultar em um futuro mercado local mais criterioso e recorrente. Janine salienta que um diferencial significativo é a presença do artista na exposição. Já foi notado que quando o artista está presente e fala sobre as suas obras, quando solicitado, o visitante mostra um interesse maior em conhecer mais e adquirir. Observando as galerias, podem ser vistas obras de arte direcionadas para uma camada social mais abastada, sendo obras muito especiais e artistas mais consagrados que fazem o seu trabalho com a maior qualidade possível, desde a produção (matéria-prima) até sua exposição, que sempre irá se valorizar. Esse tipo de arte e evento é direcionado para consumidores que pertencem a uma classe social privilegiada, pois são negociados valores altos.
  • 46. 45 Esse fato vai de encontro ao pensamento de Canclini (1984), para quem os dois dogmas da estética das artes, o ideológico e o mercado, excluem o consumidor comum do processo, elevando a arte a um patamar onde só tem acesso poucos privilegiados, tornando a arte elitista. Nas vernissages encontram-se todo tipo de consumidores: profissionais liberais, autoridades, apreciadores, investidores e colecionadores, sempre interessados em conhecer os trabalhos e o artista mais de perto. Geralmente são pessoas que gostam e acompanham os acontecimentos do universo das artes plásticas. Para tanto, é exigido estudo mais profundo sobre o assunto para adquirir conhecimento; conversas com pessoas da área, tudo voltado para este importante e necessário segmento socioeconômico. Algumas vezes, nas vernissages, é possível adquirir peças por preços acessíveis de artistas talentosos, que terminam vendendo quase todas as suas obras.
  • 47. 46 CONSIDERAÇÕES FINAIS Observa-se pelos relatos, que o mercado de artes plásticas em Campo Grande é pequeno, restrito e estratificado. É um mercado extremamente territorial, direcionado, ainda, a poucas pessoas, sejam artistas, distribuidores ou compradores, girando em torno daqueles que possuem acesso a esse universo. Os compradores optam por adquirir obras artísticas por ser um bom investimento, por gosto próprio ou por escolha de profissionais (arquitetos, decoradores). Embora exista falta de mais espaços para exposição e venda de obras de arte, o artista deve evitar vender suas obras em seu próprio atelier, gerando assim alguns fatores que podem prejudicar sua carreira, como: preço inadequado, falta de divulgação, pouca circulação das obras e falta de prática em comercializar, criando mal entendidos entre o cliente e o artista. Constata-se que em Campo Grande não existe somente falta de locais destinados ao mercado de artes plásticas, mas de mão-de-obra especializada neste tipo de comércio, tanto em compra como em venda. Esse profissional é uma pessoa especial, que deve ser muito capacitada, conhecedora do que envolve comprar uma pintura, por exemplo. Como deve ser oferecida ao cliente, qual a necessidade do cliente, do que ele gosta, do estilo do artista, da qualidade do que está oferecendo, como é calculado o valor da peça, da segurança do investimento, entre outros detalhes importantes. Para se adquirir arte, por outro lado, é necessário que o cliente conheça e goste daquele ou de outro determinado artista e que sua obra faça despertar o seu interesse, em primeiro lugar. Para a maioria das pessoas, a obra deve trazer algum tipo de emoção, até mesmo, de mudanças internas ao ser olhada. E, também, importante aspecto, existem pessoas que compram pensando na possibilidade de ter que vender a peça mais adiante, se será fácil ou não. Neste ponto, entra a qualidade do investimento que foi realizado na compra. Se foi mal
  • 48. 47 feito, encontram-se muitas dificuldades, pois o mercado é pequeno, mesmo para os melhores artistas e obras, cresce de forma lenta e restrita a pequenos grupos. As instituições governamentais voltados para a área artística criam meios para disseminar a cultura, de uma forma geral. Promovem mostras itinerantes, espaços alternativos, incentivos, e outras formas de tornar a arte e os artistas conhecidos pelo povo. Mas o mercado precisa de mais do que isso, precisa ser criada uma necessidade de arte, que faça com que ela seja mais produzida, distribuída e comprada. Para tanto, devem ocorrer mudanças mais profundas, oferecer mais educação, promover mais conhecimentos solidificados, do que é bom e do que não é. Não se trata de cercear ou impor ao povo o que gostar ou não gostar, mas de oferecer oportunidades de escolha. Percebe-se que certas músicas, filmes, vídeos, por exemplo, que podem ser considerados de mau-gosto, tornam-se populares de forma rápida, por meio de investimento maciço em marketing. E, em pouco tempo, a maioria cai no esquecimento. Mas nesse intervalo foram vendidos de forma intensa. Com a verdadeira arte, pode ser realizado um trabalho de marketing, mas precisa existir um alicerce antes, que é o conhecimento do que é arte realmente; a pessoa precisa entender porque ela é importante, de sua origem, de como é produzida e porque deve ser valorizada.
  • 49. 48 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERKOWITZ, E.; KERIN, R.; HARTLEY, S.; RUDELIUS, W. Marketing. Rio de Janeiro: LTC, 2003. BRAGA, Diego. Arte: consumo e consumação. Disponível em: http://www.ciencialit.letras. ufrj.br. Acesso em: 26/08/008. CANCLINI, N.G. A socialização da arte: teoria e prática na América Latina. São Paulo : Cultrix, 1984. FISCHER, Ernst. A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1983. GALLO, Silvio. Consumo e Resistência Cultural. Impulso, Piracicaba, v. 10, n. 22- 23, p. 35-39, 1998. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5.ed. São Paulo : Atlas, 1999. KOTLER, Philip. Administração de marketing: análise, planejamento, implementação e controle. 5ed. São Paulo: Atlas, 1998. LAGNADO, Lisette. Mercado de arte contemporânea. Revista D’ Art, São Paulo, v.12, dezembro 2005. MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Técnicas de Pesquisa. 5.ed. São Paulo: Atlas, 2002. MATTAR, F. N. Pesquisa de Marketing. São Paulo: Atlas, 1999. MOULIN, R. O mercado da arte: mundialização e novas tecnologias. Porto Alegre : Zouk, 2007. ROSA, M. da G.S.; DUNCAN, I.; PENTEADO, Y. Artes plásticas em Mato Grosso do Sul. Campo Grande, 2005.
  • 50. 49 SANTOS, J.C.L. dos. Manual do mercado de arte. São Paulo : Julio Louzada Publicações, 1999. SOLOMON, Michael R. O comportamento do consumidor: comprando, possuindo e sendo. Porto Alegre: Bookman, 2002. VERGARA, S.C. Projetos e relatórios de pesquisa em Administração. 3.ed. São Paulo : Atlas, 2000.