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Interação Psicol., 15(2), 193-201 193
Uma Introdução à Farmacologia Comportamental
Jan Luiz Leonardi*a,b
& André Amaral Bravin**c,d
a
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil, b
Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento, São Paulo, Brasil,
c
Universidade Federal de Goiás, Jataí, Brasil & d
Universidade de Brasília, Brasília, Brasil
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo introduzir a farmacologia comportamental, enfatizando-a como
uma área que demonstra a relevância da complementaridade entre análise do comportamento e
fisiologia. Inicialmente, o texto apresenta um breve histórico da disciplina e explora seu preceito
fundamental – o de que os efeitos de uma droga constituem-se em variáveis ambientais que exercem
diferentes funções de estímulo em contingências respondentes e operantes. Em seguida, alguns
experimentos que investigaram os mecanismos comportamentais de ação das drogas são brevemente
descritos. Por fim, o artigo aponta que a investigação sobre as relações droga-comportamento
realizada pela farmacologia comportamental está de acordo com os pressupostos filosóficos do
behaviorismo radical e com a base conceitual e empírica da análise do comportamento.
Palavras-chave: farmacologia comportamental; análise do comportamento; drogas.
ABSTRACT
An Introduction to Behavioral Pharmacology
The aim of this paper is to introduce behavioral pharmacology, emphasizing it as an area that shows
the relevance of the complementarity between behavior analysis and physiology. Initially, the text
presents a brief history of the subject and explores its fundamental precept – the assertion that the
effects of a drug are environmental variables that exert different stimulus functions in respondent and
operant contingencies. Afterwards, some experiments which investigated the behavioral mechanisms
of drug action are briefly described. Finally, the paper points out that the investigation on drug-
behavior relations carried out by behavioral pharmacology is consistent with the philosophical
assumptions of radical behaviorism and with the conceptual and empirical basis of behavior analysis.
Keywords: behavioral pharmacology; behavior analysis; drugs.
*
Endereço para correspondência: Jan Luiz Leonardi: janleonardi@gmail.com
**
Endereço para correspondência: André Amaral Bravin: andrebravin@yahoo.com
Skinner, ao longo de sua obra (e.g., 1938/1991,
1953/1965, 1974/1976, 1990), defende que a análise
do comportamento é uma ciência independente da
fisiologia. Neste sentido, o autor aponta que as desco-
bertas fisiológicas não invalidam a proposta e a perti-
nência de uma ciência que tem por objeto o compor-
tamento em si mesmo, isto é, uma ciência que se ocu-
pa das relações entre respostas e estímulos. De fato, já
em seu primeiro livro, Skinner (1938/1991) afirma
que
há dois objetos de estudo independentes (comporta-
mento e sistema nervoso) que devem possuir suas
próprias técnicas e métodos e produzir seus respecti-
vos dados. Nenhuma quantidade de informação so-
bre o segundo irá “explicar” o primeiro ou ordená-lo
sem um tratamento analítico direto por parte de uma
ciência do comportamento. (p. 423)
Skinner (1953/1965) argumenta que a neurofisio-
logia não se explica sem se referir às interações do
organismo com o ambiente que lhe é externo. Assim,
quando concebe a possibilidade de a fisiologia identi-
ficar as condições neurais imediatamente antecedentes
às instâncias comportamentais, defende que “será
descoberto, então, que estes eventos, por sua vez, são
antecedidos por outros eventos neurológicos e estes
por outros. Esta série nos levará de volta para os even-
tos fora do sistema nervoso e, finalmente, fora do
organismo” (p. 28).
Jan Luiz Leonardi & André Amaral Bravin
Interação Psicol., 15(2), 193-201
194
As declarações acima indicam que análise do com-
portamento e neurociência são disciplinas que possu-
em domínios diferenciados na investigação do com-
portamento. Reese (1996a, 1996b) defende que as
explicações fisiológicas não podem substituir as ex-
plicações comportamentais, mas apenas suplementar o
conhecimento sobre o comportamento, uma vez que
lidam com os fenômenos que ocorrem dentro do orga-
nismo enquanto ele se comporta. Neste sentido, Skinner
(1974/1976) afirma que o conteúdo fisiológico não
pode ser ignorado no estudo do comportamento, mas
pode ser deixado de lado nos programas de pesquisa
da análise do comportamento, na medida em que essas
ciências se ocupam de partes diferentes do fenômeno
comportamental (para uma elucidativa revisão sobre a
posição de Skinner sobre o papel da biologia na expli-
cação do comportamento, ver Morris, Lazo, & Smith,
2004).
Embora a análise do comportamento seja uma ciên-
cia independente, isso não significa que o conheci-
mento acerca do funcionamento biológico do orga-
nismo não deva ser acrescido a ela. Diversos autores
(e.g., Corchs, 2010; Donahoe & Palmer, 1994; Ilardi
& Feldman, 2001; Strumwasser, 1994; Timberlake,
Schaal, & Steinmetz, 2005) defendem explicitamente
a complementaridade entre análise do comportamento
e neurociência, com base no pressuposto de que o
estudo dos processos comportamentais e dos proces-
sos cerebrais é fundamental para uma explicação
completa do comportamento humano. Quanto a essa
possibilidade de integração, Skinner (1974/1976) é
enfático:
O fisiólogo do futuro nos dirá tudo que pode ser co-
nhecido acerca do que está ocorrendo no interior do
organismo em ação. Sua descrição constituirá um
progresso importante em relação a uma análise do
comportamento, porque esta é necessariamente “his-
tórica” – isto quer dizer que ela está limitada às rela-
ções funcionais que envolvem lacunas temporais.
Faz-se hoje algo que virá a afetar amanhã o compor-
tamento de um organismo. Não importa quão clara-
mente se possa estabelecer esse fato, falta uma eta-
pa, e devemos esperar que o fisiólogo a estabeleça.
Ele será capaz de mostrar como um organismo é
modificado quando é exposto a contingências de re-
forçamento e porque então o organismo modificado
se comporta de maneira diferente, em data possi-
velmente muito posterior. O que ele descobrir não
pode invalidar as leis de uma ciência do comporta-
mento, mas tornará o quadro da ação humana mais
completo. (pp. 236-237)
Dentre as possibilidades de complementaridade en-
tre as ciências comportamentais e as ciências biológi-
cas, o campo que tem se mostrado mais fértil é o da
farmacologia comportamental (Leslie, 2003).
FARMACOLOGIA COMPORTAMENTAL
A farmacologia comportamental tem como origem
uma série de estudos pioneiros conduzidos na década
de 1950 no Laboratório de Psicobiologia da Faculdade
de Medicina de Harvard. Estabelecidos nesse labora-
tório, Peter B. Dews, Roger T. Kelleher e William H.
Morse foram os pesquisadores que lançaram a base
conceitual e o programa experimental que definiu e
dominou a farmacologia comportamental (Barrett,
2002), produção cujo impacto foi tão grande que deu
origem a essa nova disciplina e a influencia até hoje
(para dados biográficos e bibliográficos sobre esses
três autores, ver Barrett, 2006; Branch, 2006b; Marr,
2006; Zeiler, 2006).
A farmacologia comportamental surgiu como uma
disciplina científica formal em um contexto histórico
revolucionário, tanto para a análise do comportamento
quanto para a farmacologia. A década de 1950 é co-
mumente denominada como a “idade de ouro” da
psicofarmacologia devido à identificação das primei-
ras drogas efetivas no tratamento dos chamados
“transtornos mentais” que revolucionaram a clínica
psiquiátrica. Em um período de apenas dez anos, subs-
tâncias como clorpromazina, imipramina e clordiaze-
póxido foram descobertas e introduzidas no tratamento
da esquizofrenia, depressão e ansiedade, respectiva-
mente. Isso motivou a pesquisa e o financiamento de
novos agentes farmacológicos e a experimentação
com animais de laboratório antes de serem testados
em humanos (Barrett, 2002, 2006; Bravin, Pandossio,
& Albuquerque, 2007).
A idade de ouro da psicofarmacologia coincide
com importantes avanços na análise do comportamento:
em 1953, Skinner (1953/1965) publica o livro Science
and Human Behavior, no qual apresenta uma sistema-
tização do conhecimento produzido nas décadas ante-
riores pela pesquisa experimental do comportamento,
analisa sua relevância na compreensão dos fenômenos
psicológicos e discute sua possível extensão para as
relações sociais humanas; em 1957, publica Schedules
of Reinforcement (Ferster & Skinner, 1957), em que
compila mais de setenta mil horas de pesquisa expe-
rimental com sujeitos não humanos; neste mesmo ano,
publica Verbal Behavior (1957/1992), um livro intei-
ramente dedicado a um comportamento especifica-
Uma Introdução à Farmacologia Comportamental
Interação Psicol., 15(2), 193-201
195
mente humano, o comportamento verbal; em 1958,
ocorre a fundação do Journal of the Experimental
Analysis of Behavior, principal veículo de publicação
de pesquisa experimental básica em análise do com-
portamento (Barrett, 2002, 2006; Todorov, 2004).
Ao discorrer sobre o contexto histórico do surgi-
mento da farmacologia comportamental, Barrett
(2006) explica que “as excepcionais ferramentas da
análise experimental do comportamento combinadas
com os empolgantes efeitos das drogas descobertas
pela ciência farmacológica forneceram enormes pos-
sibilidades para essa disciplina emergente” (p. 361).
Vale notar que a emergência dessa nova disciplina já
parecia ser antecipada por Ferster e Skinner (1957) em
Schedules of Reinforcement. Neste livro, os autores
destacam a participação de Peter Dews em experimen-
tos que avaliaram a influência de drogas sobre o com-
portamento de animais expostos a diferentes esquemas
de reforçamento e agradecem a J. Lawrence Pool por
ter lesionado estruturas cerebrais de pombos para o
estudo de seu padrão de respostas, explicitando a pos-
sibilidade de investigação comportamental de variá-
veis biológicas.
Uma das primeiras pesquisas em análise do com-
portamento envolvendo drogas foi o trabalho de He-
ron e Skinner (1937), em que foi observado o efeito
da cafeína e da benzedrina sobre respostas de pressão
à barra de ratos em FI 4 min. e em extinção. Poling
(2000) lembra que essa pesquisa não despertou inte-
resse na comunidade científica e que mais de uma
década se passou até que a farmacologia comporta-
mental se estabelecesse como uma disciplina formal.
A despeito do estudo supracitado, o trabalho conside-
rado por muitos autores (e.g., Barrett, 2006; Blackman
& Pellon, 1993; Branch, 2006a) como o marco inicial
da farmacologia comportamental foi o estudo de
Dews (1955), que demonstrou que variáveis ambien-
tais podem modificar a maneira pela qual as drogas
afetam o comportamento. Dews treinou pombos pri-
vados de alimento a bicarem um disco em FR 50 (que
gera alta taxa de respostas) e em FI 15 min. (que pro-
duz baixa taxa de respostas). Após atingir desempe-
nho estável nesses esquemas, foram realizadas sessões
de teste nas quais diferentes doses de pentobarbital e
salina (substância inócua) foram administradas nos
sujeitos. Os resultados evidenciaram mudanças no
responder dos pombos em comparação com o desem-
penho estável demonstrado na linha de base após a
administração de pentobarbital, em especial nas doses
de 1.0 mg/kg e 2.0 mg/kg. Sob efeito dessa doses, a
taxa de respostas no esquema FR aumentou, enquanto
que a taxa em FI diminuiu, demonstrando que uma
droga tradicionalmente classificada como “depressora
do sistema nervoso central” pode influenciar tanto o
aumento quanto a diminuição da taxa de respostas a
depender do esquema de reforçamento em vigor. Barrett
(2002, 2006) explica que o estudo de Dews demarcou
o escopo das pesquisas em farmacologia comporta-
mental pelas décadas seguintes e que, ao incorporar o
controle experimental do comportamento na avaliação
dos efeitos das drogas, Dews forneceu à farmacologia
comportamental a precisão e o rigor necessários para
seu estabelecimento.
Em 1968, a definição e os objetivos da farmacologia
comportamental foram explicitamente propostos por
Travis Thompson e Charles Schuster em Behavioral
Pharmacology, o primeiro livro-texto a sistematizar
os conhecimentos produzidos até então na área. Se-
gundo esses autores, a farmacologia comportamental é
um ramo das ciências biológicas que utiliza as fer-
ramentas e conceitos da psicologia experimental e da
farmacologia para explorar a ação comportamental
das drogas. As ferramentas da psicologia experimen-
tal podem ser, para o presente propósito, caracteri-
zadas pela frase “técnicas de controle comportamen-
tal”. As principais “ferramentas” da farmacologia
são as drogas. Portanto, quando alguém estiver inte-
ressado no controle comportamental para delinear a
ação de uma droga ou estiver utilizando drogas para
analisar processos comportamentais, a análise re-
pousa no domínio da farmacologia comportamental.
(Thompson & Schuster, 1968, pp. 1-2)
Na mesma linha, Skinner (1969) afirma que
As manipulações fisiológicas serão simplesmente
acrescentadas ao arsenal do cientista do comporta-
mento. A farmacologia já prenunciou essa situação.
Uma droga muda um organismo de maneira tal que
ele se comporta diferentemente. Poderíamos produ-
zir a mesma mudança manipulando variáveis ambi-
entais típicas, mas agora a droga permite que evite-
mos tal manipulação. (p. 283)
As descobertas empíricas da farmacologia compor-
tamental explicitam que os efeitos de qualquer droga
dependem tanto das características do comportamento
e de seus determinantes ambientais quanto das proprie-
dades químicas da droga. Por isso, Blackman e Pellon
(1993) defendem que “uma farmacologia comporta-
mental científica, efetiva e sensível, deve incluir princí-
pios comportamentais assim como princípios farmaco-
lógicos, e deve analisar as interações dinâmicas entre
variáveis comportamentais e farmacológicas” (p. 21).
Jan Luiz Leonardi & André Amaral Bravin
Interação Psicol., 15(2), 193-201
196
A disciplina elenca como objeto de estudo as rela-
ções droga-comportamento, empregando o referencial
filosófico, conceitual e metodológico da análise do
comportamento. Ao conceber as drogas como eventos
constitutivos do ambiente, a farmacologia comporta-
mental assume que elas podem exercer diferentes
papéis enquanto variáveis de controle do comporta-
mento em contingências respondentes e em contin-
gências operantes. Isto é o que tem sido descrito pela
literatura como mecanismos comportamentais de ação
das drogas (Branch, 2006a; Bravin, Pandossio, &
Albuquerque, 2007; Lejuez, Schaal, & O’Donnell,
1998; Leslie, 2003; Poling, Byrne, & Morgan, 2000).
Mecanismos comportamentais de ação das drogas
Antes de apresentar os mecanismos comportamen-
tais de ação das drogas propriamente ditos, é impor-
tante apontar que a maior parte dos estudos em farma-
cologia comportamental utiliza o comportamento ope-
rante sob controle de esquemas de reforçamento in-
termitente para avaliar os efeitos de diferentes subs-
tâncias, empregando pombos, ratos e macacos como
sujeitos na maioria das vezes. Inúmeras pesquisas
(conforme Ferster & Skinner, 1957) evidenciam que
os procedimentos de reforçamento intermitente têm
grande utilidade por gerar desempenhos estáveis e
previsíveis: um comportamento operante, ao atingir
uma taxa de respostas estável em um esquema inter-
mitente, não sofrerá mudanças significativas se as
condições de reforçamento não forem modificadas.
Por conseguinte, a taxa de respostas mantida por um
esquema de reforçamento intermitente pode ser em-
pregada como linha de base para a investigação dos
efeitos das drogas sobre um desempenho operante
(Catania, 1999; Leslie, 2003). Leslie (2003) explica
que a estabilidade da linha de base produzida por es-
quemas de reforçamento intermitente permite a inves-
tigação de aspectos fundamentais na caracterização
dos efeitos das drogas, como: (a) monitorar o tempo
do efeito comportamental de uma droga; (b) estabele-
cer a curva dose-efeito; (c) identificar a via de admi-
nistração mais efetiva para provocar mudanças com-
portamentais; (d) comparar os efeitos comportamen-
tais de novas substâncias com drogas já utilizadas
clinicamente; (e) classificar as drogas de acordo com
seus efeitos comportamentais em um ambiente contro-
lado; (f) estabelecer se uma classe de drogas com efei-
tos clínicos similares tem os mesmos efeitos em pro-
cedimentos de condicionamento operante.
No contexto do comportamento respondente, a
droga tem função de estímulo incondicional que elicia
respostas incondicionais – seus efeitos no organismo.
Entre esses efeitos encontram-se respostas compensa-
tórias, pois, diante do distúrbio fisiológico produzido
pela droga, o organismo reage com processos regula-
tórios, opostos aos iniciais, que visam restabelecer o
equilíbrio fisiológico anterior (homeostasia). Embora
a droga atue como um estímulo incondicional, outras
variáveis ambientais também afetam seus efeitos
comportamentais (Benvenuti, 2004, 2007; Poling,
Byrne & Morgan, 2000). O ambiente, ao preceder
sistematicamente a presença da droga no organismo,
exerce função de estímulo condicional e passa a eliciar
os processos regulatórios anteriormente eliciados pela
ação da droga, o que foi demonstrado em diversos
trabalhos experimentais (e.g., Lê, Poulos, & Cappel,
1979; Siegel, 1975; Siegel, Hinson, Krank, & McCully,
1982). Desta forma, quantidades cada vez maiores da
droga são necessárias para que os efeitos iniciais se-
jam produzidos no organismo, levando ao fenômeno
conhecido como tolerância. Posteriormente a essa
história, se a substância for consumida em um ambi-
ente bastante diferente do usual (i.e., na ausência dos
estímulos condicionais que eliciam as respostas com-
pensatórias), o organismo pode entrar em colapso,
pois não está preparado para receber aquela quantida-
de da droga, o que é conhecido na literatura por over-
dose (Siegel, 2001). Além disso, o ambiente (estímu-
los condicionais) no qual a droga foi utilizada pode
eliciar os processos regulatórios (respostas condicio-
nais) mesmo na ausência da substância, produzindo o
fenômeno denominado síndrome de abstinência
(Benvenuti, 2007; Macrae, Scoles, & Siegel, 1987).
No paradigma do comportamento operante, as dro-
gas podem exercer diferentes funções comportamen-
tais, como estímulo reforçador, estímulo discriminati-
vo, operação motivadora ou, ainda, interferir em de-
sempenhos comportamentais estáveis (Bravin, Pan-
dossio, & Albuquerque, 2007; Lejuez, Schaal, &
O’Donnell, 1998; Leslie, 2003; Poling, Byrne, &
Morgan, 2000). Uma propriedade das drogas é a capa-
cidade de funcionarem como estímulos reforçadores
positivos e negativos (Schuster, 1976). Experimentos
envolvendo diferentes drogas foram realizados com
animais de laboratório e com humanos, nos quais mais
de 100 compostos foram testados. Em geral, há uma
forte correspondência entre não humanos e humanos
no que diz respeito à função reforçadora de diversas
substâncias, tais como estimulantes, opióides, barbitú-
ricos, benzodiazepínicos e outros sedativos/hipnóticos
(Lejuez, Schaal, & O’Donnell, 1998; Poling, Byrne, &
Morgan, 2000). Para estabelecer o potencial reforça-
Uma Introdução à Farmacologia Comportamental
Interação Psicol., 15(2), 193-201
197
dor de uma droga, são comparados arranjos experi-
mentais que estabelecem um padrão estável de respos-
tas mantidas pela administração da droga com aqueles
que empregam água ou alimento como reforçador.
Schuster (1976), por exemplo, cita um experimento
conduzido em seu laboratório em que o responder de
macacos em FR 20 era mantido por diferentes doses
de codeína ou metadona (agonistas opióides). Outro
exemplo é o estudo de Galuska e Woods (2005), no
qual a resposta de pressão à barra de macacos foi mo-
delada utilizando como consequência a administração
de cocaína com atraso não sinalizado.
Experimentos desse tipo permitem investigar tam-
bém a função de reforçador negativo das drogas. Por
exemplo, Hoffmeister e Wuttke (1976) delinearam um
experimento para avaliar o potencial reforçador nega-
tivo de diversas substâncias, entre as quais dietilamida
de ácido lisérgico (LSD), nalorfina, clorpromazina,
imipramina e pentobarbital. Inicialmente, macacos
foram submetidos a um esquema de reforçamento
negativo cuja consequência era a retirada de choque e,
posteriormente, a um esquema idêntico cuja conse-
quência era a interrupção da administração de diferen-
tes doses das drogas referidas acima. O experimento
mostrou que os animais pressionavam a barra para
interromper a infusão da droga em uma proporção
dose-dependente (i.e., quanto maior era a dose da
substância, mais os animais pressionavam a barra que
produzia a fuga), resultado igual a quando o estímulo
em questão era o choque (i.e., quanto maior era a am-
peragem, maior era a taxa de respostas). Além disso, a
pesquisa de Hoffmeister e Wuttke (1976) demonstrou
também que os sujeitos emitiram respostas que elimi-
navam os estímulos que antecediam a infusão de al-
gumas das drogas estudadas da mesma forma que o
faziam com estímulos emparelhados com choque.
Nalorfina, clorpromazina e LSD funcionaram como
reforçadores negativos, enquanto imipramina e pento-
barbital produziram pouca ou nenhuma resposta de
esquiva.
Além de exercer as já citadas funções de reforça-
dor positivo e negativo, drogas podem ter função de
estímulo reforçador condicionado quando são parea-
das com outros reforçadores. Em uma pesquisa com
humanos, Johanson, Mattox e Schuster (1995) avalia-
ram em que medida substâncias comportamentalmente
inócuas eram preferidas após uma história de contin-
genciamento com outros reforçadores. A ingestão de
um dentre dois tipos de placebo (com rótulos e cores
distintas) era emparelhado com uma contingência de
maior ganho monetário ao passo que o outro com uma
de menor ganho monetário. A maioria dos participan-
tes demonstrou preferência ao placebo correlacionado
com a contingência de maior ganho monetário, reve-
lando que a substância inócua adquiriu valor de refor-
ço condicionado. Estendendo essa descoberta, Alessi,
Roll, Reilly e Johanson (2002) substituíram um dos
placebos por diazepam, fármaco geralmente preterido
por humanos nos experimentos. Na primeira fase, os
pesquisadores avaliaram se a droga era de fato evitada
pelos participantes da pesquisa quando comparada ao
placebo em uma escolha livre de autoadministração, o
que ocorreu para cinco dos seis participantes. Na se-
gunda etapa, eles recebiam novamente droga ou pla-
cebo (em outras cápsulas, para evitar efeito de apren-
dizagem com estímulos exteroceptivos) e eram sub-
metidos a sessões de jogos de computador em que
recebiam maiores quantias de dinheiro sob efeito do
diazepam independentemente do comportamento emi-
tido. Depois de quatro sessões consecutivas, os parti-
cipantes foram submetidos a uma nova condição de
escolha, onde passaram a autoadministrar o diazepam,
que foi preterido na primeira etapa do experimento.
Em suma, a escolha foi invertida quando a droga foi
pareada com outro estímulo reforçador.
Esses achados possuem uma clara relação com o
contexto de aplicação, na medida em que muitas dro-
gas são autoadministradas por seu valor reforçador
condicionado a reforçadores disponibilizados por de-
terminados grupos sociais. Isto pode propiciar a inges-
tão de substâncias preteridas em um primeiro momento
de forma a instalar e manter o comportamento de uso
de substâncias que, com o tempo, pode passar a ficar
também sob controle dos efeitos fisiológicos inerentes
a elas.
A estimulação encoberta produzida pela adminis-
tração de uma droga pode exercer função de estímulo
discriminativo (Sd), desde que duas condições sejam
obedecidas: (a) a droga deve produzir efeitos detectá-
veis pelo organismo e (b) o organismo deve passar por
uma história de reforçamento diferencial na presença
e na ausência da droga (Poling, Byrne, & Morgan,
2000). Assim, em um experimento típico, uma respos-
ta é reforçada quando determinada droga é adminis-
trada e não é reforçada quando outra droga ou uma
substância inócua é aplicada. Kamien, Bickel,
Hughes, Higgins e Smith (1993) conduziram uma
revisão sobre as pesquisas que investigaram o papel
discriminativo que as drogas podem exercer em hu-
manos e não humanos, concluindo que seus efeitos
são parecidos entre as espécies para uma grande varie-
dade de agentes, como anfetaminas, opióides, benzo-
diazepínicos, cafeína, etanol, THC e nicotina.
Jan Luiz Leonardi & André Amaral Bravin
Interação Psicol., 15(2), 193-201
198
O comportamento de organismos que passam por
um treino discriminativo com uma determinada droga
pode se generalizar para outras doses da mesma droga
ou para diferentes substâncias com propriedades far-
macológicas em comum (e.g., drogas estimulantes, tais
como metilfenidato, cocaína e anfetamina). Um exem-
plo de generalização envolvendo diferentes doses de
uma mesma droga é o trabalho de Chait, Uhlenhuth e
Johanson (1984). Inicialmente, os participantes ingeri-
ram d-anfetamina ou placebo por dois dias (período de
amostragem), substâncias nomeadas como droga A ou
droga B. Em seguida, os participantes passaram por
seis dias de treino, nos quais receberam aleatoriamente a
droga A em três desses dias e a droga B nos dias res-
tantes. Após deixarem o laboratório, os participantes
respondiam a um questionário sobre estados de humor
uma, três e seis horas depois de receberem a substân-
cia. Ao completarem o último questionário do dia
(i.e., seis horas depois de receberem a substância),
eles ligavam para os pesquisadores, que reforçavam
diferencialmente (com dinheiro no dia seguinte) a
discriminação correta da droga. Após o treino e a veri-
ficação da aprendizagem discriminativa (acerto na
discriminação em cinco das seis tentativas possíveis),
os participantes seguiram para a fase de teste, na qual
receberam um dos seguintes tratamentos por dez dias
(repetido duas vezes para substância): 2.5 mg, 5 mg e
10 mg de d-anfetamina; 10 mg de diazepam; placebo.
Quando os participantes estavam sob a dose teste de
2.5 mg/kg de anfetamina, o percentual de respostas
corretas foi de 10% do valor obtido na linha de base
(idêntico ao placebo), aumentando para 40% quando
esta estava sob efeito de 5 mg/kg, chegando a 100%
(i.e., idêntico aos valores da linha de base) quando
estava sob a dose de 10 mg/kg. Os dados permitiram
identificar um gradiente de generalização à droga
(enquanto Sd) dentre as doses exploradas.
Por sua vez, um exemplo de generalização envol-
vendo diferentes drogas de uma mesma classe é des-
crita no estudo de Lubinski e Thompson (1987). Os
autores tinham como objetivo determinar se um ope-
rante discriminado, sob controle de um estímulo dis-
criminativo interoceptivo, se generalizaria a outros
estados similares, mas de alguma maneira diferentes
aos previamente induzidos. Embora o experimento
tenha envolvido um arranjo complexo de contingên-
cias, para o presente propósito cabe descrever que
pombos eram treinados a bicar um dentre três discos
enquanto uma luz azul piscava. Os discos apresenta-
vam as letras D, S ou N, cujas bicadas eram reforçadas
quando existia uma correspondência entre o efeito
fisiológico produzido pela substância e o símbolo em
questão. Neste caso, bicadas em D eram reforçadas
quando o animal estava sob efeito do pentobarbital
(um depressor do sistema nervoso), bicadas em S
eram reforçadas quando o animal estava sob efeito de
cocaína (um estimulante do sistema nervoso) e bica-
das em N eram reforçadas quando o animal estava sob
efeito do veículo (salina, substância inerte). O resulta-
dos (Experimento 1) revelaram que, após o treino,
todos os animais mostraram alto grau de acurácia,
apresentando mais de 90% de correspondências entre
o estado fisiológico e a letra do operandum. No Expe-
rimento 2, a droga de treino foi substituída por drogas
diferentes, mas pertencentes à mesma classe farmaco-
lógica; isto é, pentobarbital e cocaína foram respecti-
vamente substituídas por clordiazepóxido e d-
anfetamina (outro depressor e outro estimulante, res-
pectivamente). Os resultados demonstraram que a
discriminação interoceptiva se generalizou para o
clordiazepóxido e para a d-anfetamina, e que estes
produziram efeitos interoceptivos similares (embora
não fossem os mesmos), o que foi confirmado pelo
percentual de acertos, que variou entre 88% e 100%.
Em resumo, o estudo mostrou que o controle discri-
minativo das drogas treinadas se estendeu para as
novas drogas com alta porcentagem de acerto.
No que concerne à aplicação, a função discrimina-
tiva das drogas pode explicar, ao menos parcialmente,
a disrupção de um operante quando uma substância
deixa de ser administrada. Considere o exemplo hipo-
tético de uma pessoa que tenha aprendido a alimentar-
se adequadamente sob o efeito psicoestimulante de
anorexígenos (e.g., dietilpropiona). Uma vez que te-
nha ocorrido o treino discriminativo de menor inges-
tão calórica mediante o efeito da droga (e consequente
perda de peso) e de maior ingestão calórica na ausên-
cia de sua estimulação (e consequente manutenção ou
ganho de peso), a presença da substância no organis-
mo pode passar a controlar o comportamento de esco-
lha por alimentos menos calóricos. A retirada abrupta
do medicamento ou a alteração de sua concentração
no organismo pode funcionar como o desligamento de
uma luz com função de Sd para respostas de pressão à
barra de um rato em uma caixa experimental. Em
ambos os casos, ocorre a perda do controle de estímu-
los, o que acarreta na diminuição da taxa de respostas.
Outro exemplo do potencial prático da função discri-
minativa das drogas foi descrito por Lovibond e
Caddy (1970), que argumentam a favor da possibili-
dade de treinar a discriminação interoceptiva do nível
de álcool no sangue para facilitar o controle do con-
sumo de etanol no tratamento de alcoolistas.
Uma Introdução à Farmacologia Comportamental
Interação Psicol., 15(2), 193-201
199
Outra função comportamental que uma droga pode
exercer é a de operação motivadora, alterando mo-
mentaneamente a eficácia de reforçadores ou punido-
res e a frequência das classes operantes relacionadas
àquelas consequências (conforme Laraway, Snycerski,
Michael, & Poling, 2003; Miguel, 2000). Uma evi-
dência bem estabelecida na literatura é a diminuição
da frequência de respostas de buscar alimento produ-
zida pelo consumo de anfetamina (Poling, Byrne, &
Morgan, 2000). Nesta linha de investigação, Northup,
Fusilier, Swanson, Roane e Borrero (1997) avaliaram
se o metilfenidato poderia ter função de operação
motivadora para crianças com diagnóstico de desaten-
ção e hiperatividade. Para isso, os autores compara-
ram diversos métodos de avaliação de preferência por
diferentes estímulos reforçadores comumente utiliza-
dos na aplicação de procedimentos comportamentais
(itens comestíveis, itens tangíveis, atividades, atenção,
etc.), obtidos por meio de um procedimento de eco-
nomia de fichas. Os resultados da pesquisa mostraram
que a droga aumentou a frequência de classes de res-
postas relacionadas a alguns dos estímulos e diminuiu
a frequência do responder relacionado a outros estí-
mulos. Esses dados permitem inferir que houve uma
alteração momentânea do valor reforçador dos dife-
rentes estímulos utilizados, ou seja, que a droga exer-
ceu função de operação motivadora.
As pesquisas experimentais que analisam as fun-
ções comportamentais das drogas – estímulo eliciador,
estímulo reforçador, estímulo discriminativo e opera-
ção motivadora – são muito importantes na avaliação
do potencial de abuso de novas substâncias, no desen-
volvimento de tratamentos para dependência química,
na compreensão dos mecanismos neurobiológicos
subjacentes à ação das substâncias e na ampliação do
conhecimento sobre processos comportamentais bási-
cos, entre outros (Branch, 2006a).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho apresentou a área da farmaco-
logia comportamental, apontando que a união da aná-
lise do comportamento com as ciências biológicas
talvez seja inevitável, sobretudo em um conhecimento
interdisciplinar como o estudo das relações droga-
comportamento, desde que tal união não obscureça a
filosofia behaviorista radical. Como atesta Lattal
(2005),
trazer a pesquisa e a teoria de outras disciplinas é,
porém, tanto inevitável quanto pode ser altamente
útil em expandir o âmbito da análise do comporta-
mento. Dependendo de como a mistura é feita, a vi-
são de mundo não precisa ser necessariamente com-
prometida. (p. 23)
Aludindo à farmacologia comportamental, este au-
tor acrescenta ainda que “o estudo de ações de drogas
poderia expandir o entendimento dos mecanismos
tanto das drogas quanto do comportamento” (p. 23). A
proposição do autor é que o estudo das drogas contri-
bui para o entendimento do estudo do comportamento
e vice-versa, o que configura certamente uma postura
diferente daqueles que “simplesmente usam os méto-
dos da análise do comportamento como uma tecnolo-
gia para estudar a ação de drogas” (p. 23).
De fato, estudos dessa natureza geralmente encon-
tram-se vinculados a outra tradição epistemológica,
cujo pressuposto é de que as drogas são condições
necessárias e suficientes para a mudança observada no
comportamento. A psicofarmacologia, por exemplo,
pressupõe que o efeito comportamental de uma droga
pode ser explicado quase que exclusivamente por sua
ligação química a determinados receptores. Certamente,
nenhum analista do comportamento seria suficiente-
mente ingênuo para descartar o conhecimento acerca
do funcionamento neurobiológico das drogas. Entre-
tanto, a explicação exclusivamente biológica de um
comportamento que é qualitativamente diferente por
estar, entre outras variáveis, sob controle do efeito da
droga, é o que fere os preceitos comportamentais.
Ao delimitar seu objeto de estudo ao funcionamento
neurobiológico das drogas, a psicofarmacologia pro-
duz um conhecimento incompleto acerca das relações
droga-comportamento. A despeito dessa limitação, o
enfoque e o financiamento da pesquisa nas últimas
décadas têm sido majoritariamente sobre os mecanis-
mos moleculares da ação das drogas, sejam elas tera-
pêuticas ou não, em detrimento do estudo pela intera-
ção entre droga e comportamento (Barrett & Sanger,
1991). Para o psicólogo e farmacologista DeGrandpre
(2006), a relevância das pesquisas em psicofarmacolo-
gia é restrita porque estão comprometidas com aquilo
que ele denomina de farmacologismo:
O farmacologismo, como o racismo, é um sistema
ideológico embasado em uma série de pressupostos
que, embora falsos e exagerados, governam um con-
junto de percepções, entendimentos e ações. Uma
suposição central do farmacologismo é que as po-
tencialidades farmacológicas contidas na estrutura
química da droga determinam os efeitos da droga no
corpo, no cérebro e no comportamento. (p. 27)
Inversamente, a farmacologia comportamental for-
nece explicações das relações droga-comportamento
Jan Luiz Leonardi & André Amaral Bravin
Interação Psicol., 15(2), 193-201
200
observadas no laboratório e na vida cotidiana que
levam em conta tanto as propriedades farmacológicas
das substâncias quanto outras variáveis ambientais.
Desta forma, a investigação sobre as relações droga-
-comportamento está de acordo com os pressupostos
filosóficos do behaviorismo radical e da base concei-
tual e empírica da análise do comportamento, o que
torna possível compreender a influência de variáveis
biológicas na determinação do comportamento humano
sem incorrer em noções mentalistas ou reducionistas.
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Recebido: 12/01/2011
Última revisão: 23/05/2011
Aceito: 19/07/2011

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  • 1. Interação Psicol., 15(2), 193-201 193 Uma Introdução à Farmacologia Comportamental Jan Luiz Leonardi*a,b & André Amaral Bravin**c,d a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil, b Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento, São Paulo, Brasil, c Universidade Federal de Goiás, Jataí, Brasil & d Universidade de Brasília, Brasília, Brasil RESUMO O presente artigo tem como objetivo introduzir a farmacologia comportamental, enfatizando-a como uma área que demonstra a relevância da complementaridade entre análise do comportamento e fisiologia. Inicialmente, o texto apresenta um breve histórico da disciplina e explora seu preceito fundamental – o de que os efeitos de uma droga constituem-se em variáveis ambientais que exercem diferentes funções de estímulo em contingências respondentes e operantes. Em seguida, alguns experimentos que investigaram os mecanismos comportamentais de ação das drogas são brevemente descritos. Por fim, o artigo aponta que a investigação sobre as relações droga-comportamento realizada pela farmacologia comportamental está de acordo com os pressupostos filosóficos do behaviorismo radical e com a base conceitual e empírica da análise do comportamento. Palavras-chave: farmacologia comportamental; análise do comportamento; drogas. ABSTRACT An Introduction to Behavioral Pharmacology The aim of this paper is to introduce behavioral pharmacology, emphasizing it as an area that shows the relevance of the complementarity between behavior analysis and physiology. Initially, the text presents a brief history of the subject and explores its fundamental precept – the assertion that the effects of a drug are environmental variables that exert different stimulus functions in respondent and operant contingencies. Afterwards, some experiments which investigated the behavioral mechanisms of drug action are briefly described. Finally, the paper points out that the investigation on drug- behavior relations carried out by behavioral pharmacology is consistent with the philosophical assumptions of radical behaviorism and with the conceptual and empirical basis of behavior analysis. Keywords: behavioral pharmacology; behavior analysis; drugs. * Endereço para correspondência: Jan Luiz Leonardi: janleonardi@gmail.com ** Endereço para correspondência: André Amaral Bravin: andrebravin@yahoo.com Skinner, ao longo de sua obra (e.g., 1938/1991, 1953/1965, 1974/1976, 1990), defende que a análise do comportamento é uma ciência independente da fisiologia. Neste sentido, o autor aponta que as desco- bertas fisiológicas não invalidam a proposta e a perti- nência de uma ciência que tem por objeto o compor- tamento em si mesmo, isto é, uma ciência que se ocu- pa das relações entre respostas e estímulos. De fato, já em seu primeiro livro, Skinner (1938/1991) afirma que há dois objetos de estudo independentes (comporta- mento e sistema nervoso) que devem possuir suas próprias técnicas e métodos e produzir seus respecti- vos dados. Nenhuma quantidade de informação so- bre o segundo irá “explicar” o primeiro ou ordená-lo sem um tratamento analítico direto por parte de uma ciência do comportamento. (p. 423) Skinner (1953/1965) argumenta que a neurofisio- logia não se explica sem se referir às interações do organismo com o ambiente que lhe é externo. Assim, quando concebe a possibilidade de a fisiologia identi- ficar as condições neurais imediatamente antecedentes às instâncias comportamentais, defende que “será descoberto, então, que estes eventos, por sua vez, são antecedidos por outros eventos neurológicos e estes por outros. Esta série nos levará de volta para os even- tos fora do sistema nervoso e, finalmente, fora do organismo” (p. 28).
  • 2. Jan Luiz Leonardi & André Amaral Bravin Interação Psicol., 15(2), 193-201 194 As declarações acima indicam que análise do com- portamento e neurociência são disciplinas que possu- em domínios diferenciados na investigação do com- portamento. Reese (1996a, 1996b) defende que as explicações fisiológicas não podem substituir as ex- plicações comportamentais, mas apenas suplementar o conhecimento sobre o comportamento, uma vez que lidam com os fenômenos que ocorrem dentro do orga- nismo enquanto ele se comporta. Neste sentido, Skinner (1974/1976) afirma que o conteúdo fisiológico não pode ser ignorado no estudo do comportamento, mas pode ser deixado de lado nos programas de pesquisa da análise do comportamento, na medida em que essas ciências se ocupam de partes diferentes do fenômeno comportamental (para uma elucidativa revisão sobre a posição de Skinner sobre o papel da biologia na expli- cação do comportamento, ver Morris, Lazo, & Smith, 2004). Embora a análise do comportamento seja uma ciên- cia independente, isso não significa que o conheci- mento acerca do funcionamento biológico do orga- nismo não deva ser acrescido a ela. Diversos autores (e.g., Corchs, 2010; Donahoe & Palmer, 1994; Ilardi & Feldman, 2001; Strumwasser, 1994; Timberlake, Schaal, & Steinmetz, 2005) defendem explicitamente a complementaridade entre análise do comportamento e neurociência, com base no pressuposto de que o estudo dos processos comportamentais e dos proces- sos cerebrais é fundamental para uma explicação completa do comportamento humano. Quanto a essa possibilidade de integração, Skinner (1974/1976) é enfático: O fisiólogo do futuro nos dirá tudo que pode ser co- nhecido acerca do que está ocorrendo no interior do organismo em ação. Sua descrição constituirá um progresso importante em relação a uma análise do comportamento, porque esta é necessariamente “his- tórica” – isto quer dizer que ela está limitada às rela- ções funcionais que envolvem lacunas temporais. Faz-se hoje algo que virá a afetar amanhã o compor- tamento de um organismo. Não importa quão clara- mente se possa estabelecer esse fato, falta uma eta- pa, e devemos esperar que o fisiólogo a estabeleça. Ele será capaz de mostrar como um organismo é modificado quando é exposto a contingências de re- forçamento e porque então o organismo modificado se comporta de maneira diferente, em data possi- velmente muito posterior. O que ele descobrir não pode invalidar as leis de uma ciência do comporta- mento, mas tornará o quadro da ação humana mais completo. (pp. 236-237) Dentre as possibilidades de complementaridade en- tre as ciências comportamentais e as ciências biológi- cas, o campo que tem se mostrado mais fértil é o da farmacologia comportamental (Leslie, 2003). FARMACOLOGIA COMPORTAMENTAL A farmacologia comportamental tem como origem uma série de estudos pioneiros conduzidos na década de 1950 no Laboratório de Psicobiologia da Faculdade de Medicina de Harvard. Estabelecidos nesse labora- tório, Peter B. Dews, Roger T. Kelleher e William H. Morse foram os pesquisadores que lançaram a base conceitual e o programa experimental que definiu e dominou a farmacologia comportamental (Barrett, 2002), produção cujo impacto foi tão grande que deu origem a essa nova disciplina e a influencia até hoje (para dados biográficos e bibliográficos sobre esses três autores, ver Barrett, 2006; Branch, 2006b; Marr, 2006; Zeiler, 2006). A farmacologia comportamental surgiu como uma disciplina científica formal em um contexto histórico revolucionário, tanto para a análise do comportamento quanto para a farmacologia. A década de 1950 é co- mumente denominada como a “idade de ouro” da psicofarmacologia devido à identificação das primei- ras drogas efetivas no tratamento dos chamados “transtornos mentais” que revolucionaram a clínica psiquiátrica. Em um período de apenas dez anos, subs- tâncias como clorpromazina, imipramina e clordiaze- póxido foram descobertas e introduzidas no tratamento da esquizofrenia, depressão e ansiedade, respectiva- mente. Isso motivou a pesquisa e o financiamento de novos agentes farmacológicos e a experimentação com animais de laboratório antes de serem testados em humanos (Barrett, 2002, 2006; Bravin, Pandossio, & Albuquerque, 2007). A idade de ouro da psicofarmacologia coincide com importantes avanços na análise do comportamento: em 1953, Skinner (1953/1965) publica o livro Science and Human Behavior, no qual apresenta uma sistema- tização do conhecimento produzido nas décadas ante- riores pela pesquisa experimental do comportamento, analisa sua relevância na compreensão dos fenômenos psicológicos e discute sua possível extensão para as relações sociais humanas; em 1957, publica Schedules of Reinforcement (Ferster & Skinner, 1957), em que compila mais de setenta mil horas de pesquisa expe- rimental com sujeitos não humanos; neste mesmo ano, publica Verbal Behavior (1957/1992), um livro intei- ramente dedicado a um comportamento especifica-
  • 3. Uma Introdução à Farmacologia Comportamental Interação Psicol., 15(2), 193-201 195 mente humano, o comportamento verbal; em 1958, ocorre a fundação do Journal of the Experimental Analysis of Behavior, principal veículo de publicação de pesquisa experimental básica em análise do com- portamento (Barrett, 2002, 2006; Todorov, 2004). Ao discorrer sobre o contexto histórico do surgi- mento da farmacologia comportamental, Barrett (2006) explica que “as excepcionais ferramentas da análise experimental do comportamento combinadas com os empolgantes efeitos das drogas descobertas pela ciência farmacológica forneceram enormes pos- sibilidades para essa disciplina emergente” (p. 361). Vale notar que a emergência dessa nova disciplina já parecia ser antecipada por Ferster e Skinner (1957) em Schedules of Reinforcement. Neste livro, os autores destacam a participação de Peter Dews em experimen- tos que avaliaram a influência de drogas sobre o com- portamento de animais expostos a diferentes esquemas de reforçamento e agradecem a J. Lawrence Pool por ter lesionado estruturas cerebrais de pombos para o estudo de seu padrão de respostas, explicitando a pos- sibilidade de investigação comportamental de variá- veis biológicas. Uma das primeiras pesquisas em análise do com- portamento envolvendo drogas foi o trabalho de He- ron e Skinner (1937), em que foi observado o efeito da cafeína e da benzedrina sobre respostas de pressão à barra de ratos em FI 4 min. e em extinção. Poling (2000) lembra que essa pesquisa não despertou inte- resse na comunidade científica e que mais de uma década se passou até que a farmacologia comporta- mental se estabelecesse como uma disciplina formal. A despeito do estudo supracitado, o trabalho conside- rado por muitos autores (e.g., Barrett, 2006; Blackman & Pellon, 1993; Branch, 2006a) como o marco inicial da farmacologia comportamental foi o estudo de Dews (1955), que demonstrou que variáveis ambien- tais podem modificar a maneira pela qual as drogas afetam o comportamento. Dews treinou pombos pri- vados de alimento a bicarem um disco em FR 50 (que gera alta taxa de respostas) e em FI 15 min. (que pro- duz baixa taxa de respostas). Após atingir desempe- nho estável nesses esquemas, foram realizadas sessões de teste nas quais diferentes doses de pentobarbital e salina (substância inócua) foram administradas nos sujeitos. Os resultados evidenciaram mudanças no responder dos pombos em comparação com o desem- penho estável demonstrado na linha de base após a administração de pentobarbital, em especial nas doses de 1.0 mg/kg e 2.0 mg/kg. Sob efeito dessa doses, a taxa de respostas no esquema FR aumentou, enquanto que a taxa em FI diminuiu, demonstrando que uma droga tradicionalmente classificada como “depressora do sistema nervoso central” pode influenciar tanto o aumento quanto a diminuição da taxa de respostas a depender do esquema de reforçamento em vigor. Barrett (2002, 2006) explica que o estudo de Dews demarcou o escopo das pesquisas em farmacologia comporta- mental pelas décadas seguintes e que, ao incorporar o controle experimental do comportamento na avaliação dos efeitos das drogas, Dews forneceu à farmacologia comportamental a precisão e o rigor necessários para seu estabelecimento. Em 1968, a definição e os objetivos da farmacologia comportamental foram explicitamente propostos por Travis Thompson e Charles Schuster em Behavioral Pharmacology, o primeiro livro-texto a sistematizar os conhecimentos produzidos até então na área. Se- gundo esses autores, a farmacologia comportamental é um ramo das ciências biológicas que utiliza as fer- ramentas e conceitos da psicologia experimental e da farmacologia para explorar a ação comportamental das drogas. As ferramentas da psicologia experimen- tal podem ser, para o presente propósito, caracteri- zadas pela frase “técnicas de controle comportamen- tal”. As principais “ferramentas” da farmacologia são as drogas. Portanto, quando alguém estiver inte- ressado no controle comportamental para delinear a ação de uma droga ou estiver utilizando drogas para analisar processos comportamentais, a análise re- pousa no domínio da farmacologia comportamental. (Thompson & Schuster, 1968, pp. 1-2) Na mesma linha, Skinner (1969) afirma que As manipulações fisiológicas serão simplesmente acrescentadas ao arsenal do cientista do comporta- mento. A farmacologia já prenunciou essa situação. Uma droga muda um organismo de maneira tal que ele se comporta diferentemente. Poderíamos produ- zir a mesma mudança manipulando variáveis ambi- entais típicas, mas agora a droga permite que evite- mos tal manipulação. (p. 283) As descobertas empíricas da farmacologia compor- tamental explicitam que os efeitos de qualquer droga dependem tanto das características do comportamento e de seus determinantes ambientais quanto das proprie- dades químicas da droga. Por isso, Blackman e Pellon (1993) defendem que “uma farmacologia comporta- mental científica, efetiva e sensível, deve incluir princí- pios comportamentais assim como princípios farmaco- lógicos, e deve analisar as interações dinâmicas entre variáveis comportamentais e farmacológicas” (p. 21).
  • 4. Jan Luiz Leonardi & André Amaral Bravin Interação Psicol., 15(2), 193-201 196 A disciplina elenca como objeto de estudo as rela- ções droga-comportamento, empregando o referencial filosófico, conceitual e metodológico da análise do comportamento. Ao conceber as drogas como eventos constitutivos do ambiente, a farmacologia comporta- mental assume que elas podem exercer diferentes papéis enquanto variáveis de controle do comporta- mento em contingências respondentes e em contin- gências operantes. Isto é o que tem sido descrito pela literatura como mecanismos comportamentais de ação das drogas (Branch, 2006a; Bravin, Pandossio, & Albuquerque, 2007; Lejuez, Schaal, & O’Donnell, 1998; Leslie, 2003; Poling, Byrne, & Morgan, 2000). Mecanismos comportamentais de ação das drogas Antes de apresentar os mecanismos comportamen- tais de ação das drogas propriamente ditos, é impor- tante apontar que a maior parte dos estudos em farma- cologia comportamental utiliza o comportamento ope- rante sob controle de esquemas de reforçamento in- termitente para avaliar os efeitos de diferentes subs- tâncias, empregando pombos, ratos e macacos como sujeitos na maioria das vezes. Inúmeras pesquisas (conforme Ferster & Skinner, 1957) evidenciam que os procedimentos de reforçamento intermitente têm grande utilidade por gerar desempenhos estáveis e previsíveis: um comportamento operante, ao atingir uma taxa de respostas estável em um esquema inter- mitente, não sofrerá mudanças significativas se as condições de reforçamento não forem modificadas. Por conseguinte, a taxa de respostas mantida por um esquema de reforçamento intermitente pode ser em- pregada como linha de base para a investigação dos efeitos das drogas sobre um desempenho operante (Catania, 1999; Leslie, 2003). Leslie (2003) explica que a estabilidade da linha de base produzida por es- quemas de reforçamento intermitente permite a inves- tigação de aspectos fundamentais na caracterização dos efeitos das drogas, como: (a) monitorar o tempo do efeito comportamental de uma droga; (b) estabele- cer a curva dose-efeito; (c) identificar a via de admi- nistração mais efetiva para provocar mudanças com- portamentais; (d) comparar os efeitos comportamen- tais de novas substâncias com drogas já utilizadas clinicamente; (e) classificar as drogas de acordo com seus efeitos comportamentais em um ambiente contro- lado; (f) estabelecer se uma classe de drogas com efei- tos clínicos similares tem os mesmos efeitos em pro- cedimentos de condicionamento operante. No contexto do comportamento respondente, a droga tem função de estímulo incondicional que elicia respostas incondicionais – seus efeitos no organismo. Entre esses efeitos encontram-se respostas compensa- tórias, pois, diante do distúrbio fisiológico produzido pela droga, o organismo reage com processos regula- tórios, opostos aos iniciais, que visam restabelecer o equilíbrio fisiológico anterior (homeostasia). Embora a droga atue como um estímulo incondicional, outras variáveis ambientais também afetam seus efeitos comportamentais (Benvenuti, 2004, 2007; Poling, Byrne & Morgan, 2000). O ambiente, ao preceder sistematicamente a presença da droga no organismo, exerce função de estímulo condicional e passa a eliciar os processos regulatórios anteriormente eliciados pela ação da droga, o que foi demonstrado em diversos trabalhos experimentais (e.g., Lê, Poulos, & Cappel, 1979; Siegel, 1975; Siegel, Hinson, Krank, & McCully, 1982). Desta forma, quantidades cada vez maiores da droga são necessárias para que os efeitos iniciais se- jam produzidos no organismo, levando ao fenômeno conhecido como tolerância. Posteriormente a essa história, se a substância for consumida em um ambi- ente bastante diferente do usual (i.e., na ausência dos estímulos condicionais que eliciam as respostas com- pensatórias), o organismo pode entrar em colapso, pois não está preparado para receber aquela quantida- de da droga, o que é conhecido na literatura por over- dose (Siegel, 2001). Além disso, o ambiente (estímu- los condicionais) no qual a droga foi utilizada pode eliciar os processos regulatórios (respostas condicio- nais) mesmo na ausência da substância, produzindo o fenômeno denominado síndrome de abstinência (Benvenuti, 2007; Macrae, Scoles, & Siegel, 1987). No paradigma do comportamento operante, as dro- gas podem exercer diferentes funções comportamen- tais, como estímulo reforçador, estímulo discriminati- vo, operação motivadora ou, ainda, interferir em de- sempenhos comportamentais estáveis (Bravin, Pan- dossio, & Albuquerque, 2007; Lejuez, Schaal, & O’Donnell, 1998; Leslie, 2003; Poling, Byrne, & Morgan, 2000). Uma propriedade das drogas é a capa- cidade de funcionarem como estímulos reforçadores positivos e negativos (Schuster, 1976). Experimentos envolvendo diferentes drogas foram realizados com animais de laboratório e com humanos, nos quais mais de 100 compostos foram testados. Em geral, há uma forte correspondência entre não humanos e humanos no que diz respeito à função reforçadora de diversas substâncias, tais como estimulantes, opióides, barbitú- ricos, benzodiazepínicos e outros sedativos/hipnóticos (Lejuez, Schaal, & O’Donnell, 1998; Poling, Byrne, & Morgan, 2000). Para estabelecer o potencial reforça-
  • 5. Uma Introdução à Farmacologia Comportamental Interação Psicol., 15(2), 193-201 197 dor de uma droga, são comparados arranjos experi- mentais que estabelecem um padrão estável de respos- tas mantidas pela administração da droga com aqueles que empregam água ou alimento como reforçador. Schuster (1976), por exemplo, cita um experimento conduzido em seu laboratório em que o responder de macacos em FR 20 era mantido por diferentes doses de codeína ou metadona (agonistas opióides). Outro exemplo é o estudo de Galuska e Woods (2005), no qual a resposta de pressão à barra de macacos foi mo- delada utilizando como consequência a administração de cocaína com atraso não sinalizado. Experimentos desse tipo permitem investigar tam- bém a função de reforçador negativo das drogas. Por exemplo, Hoffmeister e Wuttke (1976) delinearam um experimento para avaliar o potencial reforçador nega- tivo de diversas substâncias, entre as quais dietilamida de ácido lisérgico (LSD), nalorfina, clorpromazina, imipramina e pentobarbital. Inicialmente, macacos foram submetidos a um esquema de reforçamento negativo cuja consequência era a retirada de choque e, posteriormente, a um esquema idêntico cuja conse- quência era a interrupção da administração de diferen- tes doses das drogas referidas acima. O experimento mostrou que os animais pressionavam a barra para interromper a infusão da droga em uma proporção dose-dependente (i.e., quanto maior era a dose da substância, mais os animais pressionavam a barra que produzia a fuga), resultado igual a quando o estímulo em questão era o choque (i.e., quanto maior era a am- peragem, maior era a taxa de respostas). Além disso, a pesquisa de Hoffmeister e Wuttke (1976) demonstrou também que os sujeitos emitiram respostas que elimi- navam os estímulos que antecediam a infusão de al- gumas das drogas estudadas da mesma forma que o faziam com estímulos emparelhados com choque. Nalorfina, clorpromazina e LSD funcionaram como reforçadores negativos, enquanto imipramina e pento- barbital produziram pouca ou nenhuma resposta de esquiva. Além de exercer as já citadas funções de reforça- dor positivo e negativo, drogas podem ter função de estímulo reforçador condicionado quando são parea- das com outros reforçadores. Em uma pesquisa com humanos, Johanson, Mattox e Schuster (1995) avalia- ram em que medida substâncias comportamentalmente inócuas eram preferidas após uma história de contin- genciamento com outros reforçadores. A ingestão de um dentre dois tipos de placebo (com rótulos e cores distintas) era emparelhado com uma contingência de maior ganho monetário ao passo que o outro com uma de menor ganho monetário. A maioria dos participan- tes demonstrou preferência ao placebo correlacionado com a contingência de maior ganho monetário, reve- lando que a substância inócua adquiriu valor de refor- ço condicionado. Estendendo essa descoberta, Alessi, Roll, Reilly e Johanson (2002) substituíram um dos placebos por diazepam, fármaco geralmente preterido por humanos nos experimentos. Na primeira fase, os pesquisadores avaliaram se a droga era de fato evitada pelos participantes da pesquisa quando comparada ao placebo em uma escolha livre de autoadministração, o que ocorreu para cinco dos seis participantes. Na se- gunda etapa, eles recebiam novamente droga ou pla- cebo (em outras cápsulas, para evitar efeito de apren- dizagem com estímulos exteroceptivos) e eram sub- metidos a sessões de jogos de computador em que recebiam maiores quantias de dinheiro sob efeito do diazepam independentemente do comportamento emi- tido. Depois de quatro sessões consecutivas, os parti- cipantes foram submetidos a uma nova condição de escolha, onde passaram a autoadministrar o diazepam, que foi preterido na primeira etapa do experimento. Em suma, a escolha foi invertida quando a droga foi pareada com outro estímulo reforçador. Esses achados possuem uma clara relação com o contexto de aplicação, na medida em que muitas dro- gas são autoadministradas por seu valor reforçador condicionado a reforçadores disponibilizados por de- terminados grupos sociais. Isto pode propiciar a inges- tão de substâncias preteridas em um primeiro momento de forma a instalar e manter o comportamento de uso de substâncias que, com o tempo, pode passar a ficar também sob controle dos efeitos fisiológicos inerentes a elas. A estimulação encoberta produzida pela adminis- tração de uma droga pode exercer função de estímulo discriminativo (Sd), desde que duas condições sejam obedecidas: (a) a droga deve produzir efeitos detectá- veis pelo organismo e (b) o organismo deve passar por uma história de reforçamento diferencial na presença e na ausência da droga (Poling, Byrne, & Morgan, 2000). Assim, em um experimento típico, uma respos- ta é reforçada quando determinada droga é adminis- trada e não é reforçada quando outra droga ou uma substância inócua é aplicada. Kamien, Bickel, Hughes, Higgins e Smith (1993) conduziram uma revisão sobre as pesquisas que investigaram o papel discriminativo que as drogas podem exercer em hu- manos e não humanos, concluindo que seus efeitos são parecidos entre as espécies para uma grande varie- dade de agentes, como anfetaminas, opióides, benzo- diazepínicos, cafeína, etanol, THC e nicotina.
  • 6. Jan Luiz Leonardi & André Amaral Bravin Interação Psicol., 15(2), 193-201 198 O comportamento de organismos que passam por um treino discriminativo com uma determinada droga pode se generalizar para outras doses da mesma droga ou para diferentes substâncias com propriedades far- macológicas em comum (e.g., drogas estimulantes, tais como metilfenidato, cocaína e anfetamina). Um exem- plo de generalização envolvendo diferentes doses de uma mesma droga é o trabalho de Chait, Uhlenhuth e Johanson (1984). Inicialmente, os participantes ingeri- ram d-anfetamina ou placebo por dois dias (período de amostragem), substâncias nomeadas como droga A ou droga B. Em seguida, os participantes passaram por seis dias de treino, nos quais receberam aleatoriamente a droga A em três desses dias e a droga B nos dias res- tantes. Após deixarem o laboratório, os participantes respondiam a um questionário sobre estados de humor uma, três e seis horas depois de receberem a substân- cia. Ao completarem o último questionário do dia (i.e., seis horas depois de receberem a substância), eles ligavam para os pesquisadores, que reforçavam diferencialmente (com dinheiro no dia seguinte) a discriminação correta da droga. Após o treino e a veri- ficação da aprendizagem discriminativa (acerto na discriminação em cinco das seis tentativas possíveis), os participantes seguiram para a fase de teste, na qual receberam um dos seguintes tratamentos por dez dias (repetido duas vezes para substância): 2.5 mg, 5 mg e 10 mg de d-anfetamina; 10 mg de diazepam; placebo. Quando os participantes estavam sob a dose teste de 2.5 mg/kg de anfetamina, o percentual de respostas corretas foi de 10% do valor obtido na linha de base (idêntico ao placebo), aumentando para 40% quando esta estava sob efeito de 5 mg/kg, chegando a 100% (i.e., idêntico aos valores da linha de base) quando estava sob a dose de 10 mg/kg. Os dados permitiram identificar um gradiente de generalização à droga (enquanto Sd) dentre as doses exploradas. Por sua vez, um exemplo de generalização envol- vendo diferentes drogas de uma mesma classe é des- crita no estudo de Lubinski e Thompson (1987). Os autores tinham como objetivo determinar se um ope- rante discriminado, sob controle de um estímulo dis- criminativo interoceptivo, se generalizaria a outros estados similares, mas de alguma maneira diferentes aos previamente induzidos. Embora o experimento tenha envolvido um arranjo complexo de contingên- cias, para o presente propósito cabe descrever que pombos eram treinados a bicar um dentre três discos enquanto uma luz azul piscava. Os discos apresenta- vam as letras D, S ou N, cujas bicadas eram reforçadas quando existia uma correspondência entre o efeito fisiológico produzido pela substância e o símbolo em questão. Neste caso, bicadas em D eram reforçadas quando o animal estava sob efeito do pentobarbital (um depressor do sistema nervoso), bicadas em S eram reforçadas quando o animal estava sob efeito de cocaína (um estimulante do sistema nervoso) e bica- das em N eram reforçadas quando o animal estava sob efeito do veículo (salina, substância inerte). O resulta- dos (Experimento 1) revelaram que, após o treino, todos os animais mostraram alto grau de acurácia, apresentando mais de 90% de correspondências entre o estado fisiológico e a letra do operandum. No Expe- rimento 2, a droga de treino foi substituída por drogas diferentes, mas pertencentes à mesma classe farmaco- lógica; isto é, pentobarbital e cocaína foram respecti- vamente substituídas por clordiazepóxido e d- anfetamina (outro depressor e outro estimulante, res- pectivamente). Os resultados demonstraram que a discriminação interoceptiva se generalizou para o clordiazepóxido e para a d-anfetamina, e que estes produziram efeitos interoceptivos similares (embora não fossem os mesmos), o que foi confirmado pelo percentual de acertos, que variou entre 88% e 100%. Em resumo, o estudo mostrou que o controle discri- minativo das drogas treinadas se estendeu para as novas drogas com alta porcentagem de acerto. No que concerne à aplicação, a função discrimina- tiva das drogas pode explicar, ao menos parcialmente, a disrupção de um operante quando uma substância deixa de ser administrada. Considere o exemplo hipo- tético de uma pessoa que tenha aprendido a alimentar- se adequadamente sob o efeito psicoestimulante de anorexígenos (e.g., dietilpropiona). Uma vez que te- nha ocorrido o treino discriminativo de menor inges- tão calórica mediante o efeito da droga (e consequente perda de peso) e de maior ingestão calórica na ausên- cia de sua estimulação (e consequente manutenção ou ganho de peso), a presença da substância no organis- mo pode passar a controlar o comportamento de esco- lha por alimentos menos calóricos. A retirada abrupta do medicamento ou a alteração de sua concentração no organismo pode funcionar como o desligamento de uma luz com função de Sd para respostas de pressão à barra de um rato em uma caixa experimental. Em ambos os casos, ocorre a perda do controle de estímu- los, o que acarreta na diminuição da taxa de respostas. Outro exemplo do potencial prático da função discri- minativa das drogas foi descrito por Lovibond e Caddy (1970), que argumentam a favor da possibili- dade de treinar a discriminação interoceptiva do nível de álcool no sangue para facilitar o controle do con- sumo de etanol no tratamento de alcoolistas.
  • 7. Uma Introdução à Farmacologia Comportamental Interação Psicol., 15(2), 193-201 199 Outra função comportamental que uma droga pode exercer é a de operação motivadora, alterando mo- mentaneamente a eficácia de reforçadores ou punido- res e a frequência das classes operantes relacionadas àquelas consequências (conforme Laraway, Snycerski, Michael, & Poling, 2003; Miguel, 2000). Uma evi- dência bem estabelecida na literatura é a diminuição da frequência de respostas de buscar alimento produ- zida pelo consumo de anfetamina (Poling, Byrne, & Morgan, 2000). Nesta linha de investigação, Northup, Fusilier, Swanson, Roane e Borrero (1997) avaliaram se o metilfenidato poderia ter função de operação motivadora para crianças com diagnóstico de desaten- ção e hiperatividade. Para isso, os autores compara- ram diversos métodos de avaliação de preferência por diferentes estímulos reforçadores comumente utiliza- dos na aplicação de procedimentos comportamentais (itens comestíveis, itens tangíveis, atividades, atenção, etc.), obtidos por meio de um procedimento de eco- nomia de fichas. Os resultados da pesquisa mostraram que a droga aumentou a frequência de classes de res- postas relacionadas a alguns dos estímulos e diminuiu a frequência do responder relacionado a outros estí- mulos. Esses dados permitem inferir que houve uma alteração momentânea do valor reforçador dos dife- rentes estímulos utilizados, ou seja, que a droga exer- ceu função de operação motivadora. As pesquisas experimentais que analisam as fun- ções comportamentais das drogas – estímulo eliciador, estímulo reforçador, estímulo discriminativo e opera- ção motivadora – são muito importantes na avaliação do potencial de abuso de novas substâncias, no desen- volvimento de tratamentos para dependência química, na compreensão dos mecanismos neurobiológicos subjacentes à ação das substâncias e na ampliação do conhecimento sobre processos comportamentais bási- cos, entre outros (Branch, 2006a). CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente trabalho apresentou a área da farmaco- logia comportamental, apontando que a união da aná- lise do comportamento com as ciências biológicas talvez seja inevitável, sobretudo em um conhecimento interdisciplinar como o estudo das relações droga- comportamento, desde que tal união não obscureça a filosofia behaviorista radical. Como atesta Lattal (2005), trazer a pesquisa e a teoria de outras disciplinas é, porém, tanto inevitável quanto pode ser altamente útil em expandir o âmbito da análise do comporta- mento. Dependendo de como a mistura é feita, a vi- são de mundo não precisa ser necessariamente com- prometida. (p. 23) Aludindo à farmacologia comportamental, este au- tor acrescenta ainda que “o estudo de ações de drogas poderia expandir o entendimento dos mecanismos tanto das drogas quanto do comportamento” (p. 23). A proposição do autor é que o estudo das drogas contri- bui para o entendimento do estudo do comportamento e vice-versa, o que configura certamente uma postura diferente daqueles que “simplesmente usam os méto- dos da análise do comportamento como uma tecnolo- gia para estudar a ação de drogas” (p. 23). De fato, estudos dessa natureza geralmente encon- tram-se vinculados a outra tradição epistemológica, cujo pressuposto é de que as drogas são condições necessárias e suficientes para a mudança observada no comportamento. A psicofarmacologia, por exemplo, pressupõe que o efeito comportamental de uma droga pode ser explicado quase que exclusivamente por sua ligação química a determinados receptores. Certamente, nenhum analista do comportamento seria suficiente- mente ingênuo para descartar o conhecimento acerca do funcionamento neurobiológico das drogas. Entre- tanto, a explicação exclusivamente biológica de um comportamento que é qualitativamente diferente por estar, entre outras variáveis, sob controle do efeito da droga, é o que fere os preceitos comportamentais. Ao delimitar seu objeto de estudo ao funcionamento neurobiológico das drogas, a psicofarmacologia pro- duz um conhecimento incompleto acerca das relações droga-comportamento. A despeito dessa limitação, o enfoque e o financiamento da pesquisa nas últimas décadas têm sido majoritariamente sobre os mecanis- mos moleculares da ação das drogas, sejam elas tera- pêuticas ou não, em detrimento do estudo pela intera- ção entre droga e comportamento (Barrett & Sanger, 1991). Para o psicólogo e farmacologista DeGrandpre (2006), a relevância das pesquisas em psicofarmacolo- gia é restrita porque estão comprometidas com aquilo que ele denomina de farmacologismo: O farmacologismo, como o racismo, é um sistema ideológico embasado em uma série de pressupostos que, embora falsos e exagerados, governam um con- junto de percepções, entendimentos e ações. Uma suposição central do farmacologismo é que as po- tencialidades farmacológicas contidas na estrutura química da droga determinam os efeitos da droga no corpo, no cérebro e no comportamento. (p. 27) Inversamente, a farmacologia comportamental for- nece explicações das relações droga-comportamento
  • 8. Jan Luiz Leonardi & André Amaral Bravin Interação Psicol., 15(2), 193-201 200 observadas no laboratório e na vida cotidiana que levam em conta tanto as propriedades farmacológicas das substâncias quanto outras variáveis ambientais. Desta forma, a investigação sobre as relações droga- -comportamento está de acordo com os pressupostos filosóficos do behaviorismo radical e da base concei- tual e empírica da análise do comportamento, o que torna possível compreender a influência de variáveis biológicas na determinação do comportamento humano sem incorrer em noções mentalistas ou reducionistas. REFERÊNCIAS Alessi, S. M., Roll, J. M., Reilly, M. P., & Johanson, C. E. (2002). Establishment of a diazepam preference in human volunteers following a differential-conditioning history of placebo versus diazepam choice. Experimental and Clinical Psychopharma- cology, 10, 77-83. Barrett, J. E., & Sanger, D. J. (1991). Behavioral pharmacology in the era of neuroscience. 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  • 9. Uma Introdução à Farmacologia Comportamental Interação Psicol., 15(2), 193-201 201 Lubinski, D., & Thompson, T. (1987). An animal model of inter- personal communication of interpersonal communication of interoceptive (private) states. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 48, 1-15. Macrae, J. R., Scoles, M. T., & Siegel, S. (1987). The contribution of pavlovian conditioning to drug tolerance and dependence. British Journal of Addiction, 82, 371-380. Marr, M. J. (2006). A major trio. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 86, 355-357. Miguel, C. F. (2000). O conceito de operação estabelecedora na análise do comportamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 16, 259-267. Morris, E. K., Lazo, J. F., & Smith, N. G. (2004). Whether, when, and why Skinner published on biological participation in behavior. The Behavior Analyst, 27, 153-169. Northup, J., Fusilier, I., Swanson, V., Roane, H., & Borrero, J. (1997). An evaluation of methylphenidate as a potential esta- blishing operation for some common classroom reinforcers. Journal of Applied Behavior Analysis, 30, 615-625. Poling, A. (2000). Introduction. Em A. Poling & T. Byrne (Orgs.), Introduction to behavioral pharmacology (pp. 9-24). Reno, NV: Context Press. Poling, A., Byrne, T., & Morgan, T. (2000). Stimulus properties of drugs. Em A. Poling & T. Byrne (Orgs.), Introduction to be- havioral pharmacology (pp. 141-166). Reno, NV: Context Press. Reese, H. W. (1996a). How is physiology relevant to behavior analysis? The Behavior Analyst, 19, 61-70. Reese, H. W. (1996b). Response to commentaries. The Behavior Analyst, 19, 85-88. Schuster, C. R. (1976). Drugs as reinforcers in monkey and man. Pharmacological Reviews, 27, 511-521. Siegel, S. (1975). Evidence from rats that morphine tolerance is a learned response. Journal of Comparative and Physiological Psychology, 89, 498-506. Siegel, S. (2001). Pavlovian conditioning and drug overdose: When tolerance fails. Addiction Research & Theory, 9, 503- 513. Siegel, S., Hinson, R. E., Krank, M. D., & McCully, J. (1982). Heroin “overdose” death: Contributions of drug-associated en- vironmental cues. Science, 216, 436-437. Skinner, B. F. (1991). The behavior of organisms: An experi- mental analysis. Acton, MA: Copley. (Original publicado em 1938) Skinner, B. F. (1965). Science and human behavior. New York, NY: Free Press. (Original publicado em 1953) Skinner, B. F. (1992). Verbal behavior. Acton, MA: Copley Pub- lishing Group. (Original publicado em 1957) Skinner, B. F. (1969). The inside story. Em B. F. Skinner (Org.), Contingencies of reinforcement: A theoretical analysis (pp. 269-297). New York, NY: Appleton-Century-Crofts. Skinner, B. F. (1976). About behaviorism. New York: Vintage Books. (Original publicado em 1974) Skinner, B. F. (1990). Can psychology be a science of mind? American Psychologist, 45, 1206-1210. Strumwasser, F. (1994). The relations between neuroscience and human behavioral science. Journal of the Experimental Analy- sis of Behavior, 61, 307-317. Thompson, T. I., & Schuster, C. R. (1968). Behavioral pharma- cology. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall. Timberlake, W., Schaal, D. W., & Steinmetz, J. E. (2005). Rela- ting behavior and neuroscience: Introduction and synopsis. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 84, 305-311. Todorov, J. C. (2004). Da aplysia à constituição: Evolução de conceitos na análise do comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica, 17, 151-156. Zeiler, M. D. (2006). An architect of the golden years. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 86, 385-391. Recebido: 12/01/2011 Última revisão: 23/05/2011 Aceito: 19/07/2011