DIA  MUNDIAL DA POESIA21 de Março
Olhos postos na terra, tu virás no ritmo da própria primavera, e como as flores e os animais abrirás as mãos de quem te espera.Eugénio de Andrade1923  — 2005 )
As PalavrasSão como um cristal,as palavras.Algumas, um punhal,um incêndio.Outras,orvalho apenas.Secretas vêm, cheias de memória.Inseguras navegam:barcos ou beijos,as águas estremecem.Desamparadas, inocentes,leves.Tecidas são de luze são a noite.E mesmo pálidasverdes paraísos lembram ainda.Quem as escuta? Quemas recolhe, assim,cruéis, desfeitas,nas suas conchas puras?Eugénio de Andrade(1923-2005)
Ser Poeta Ser poeta é ser mais alto, é ser maiorDo que os homens! Morder como quem beija!É ser mendigo e dar como quem sejaRei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendorE não saber sequer que se deseja!É ter cá dentro um astro que flameja,É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito!Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente…É seres alma e sangue e vida em mimE dizê-lo cantando a toda a gente! Florbela Espanca(1894 – 1930)
Há uma primavera em cada vida:é preciso cantá-la assim florida,pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada,que seja a minha noite uma alvorada,que me saiba perder...para me encontrar....Florbela Espanca (1894 – 1930)
A FONTE Com voz nascente a fonte nos convida A renascermos incessantemente Na luz do antigo sol nu e recente E no sussurro da noite primitiva. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004)
GLÓRIA Depois do Inverno, morte figurada, A primavera, uma assunção de flores. A vida Renascida E celebrada Num festival de pétalas e cores. Miguel Torga (1907 -1995)
Cada árvore é um ser para ser em nósCada árvore é um ser para ser em nósPara ver uma árvore não basta vê-aa árvore é uma lenta reverênciauma presença reminiscenteuma habitação perdidae encontradaÀ sombra de uma árvoreo tempo já não é o tempomas a magia de um instante que começa sem fima árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhase de sombras interioresnós habitamos a árvore com a nossa respiraçãocom a da árvorecom a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses António Ramos Rosa1924-
AUTOPSICOGRAFIA O poeta é um fingidor.Finge tão completamenteQue chega a fingir que é dorA dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve,Na dor lida sentem bem,Não as duas que ele teve,Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de rodaGira, a entreter a razão,Esse comboio de cordaQue se chama coração. Fernando Pessoa (1888 —  1935)
PrimaveraAbre-te, Primavera!Tenho um poema à esperaDo teu sorriso.Um poema indecisoEntre a coragem e a covardia.Um poema de lírica alegriaRefreada,A temer ser tardiaE ser antecipada.Dantes, nasciasQuando eu te anunciava.Cantava,E no meu canto aconteciasComo o tempo depois te confirmava.Cada verso era a flor que prometiasNo futuro sonhado...Agora, a lei é outra: principias,E só então eu canto confiado.Miguel Torga(1907 -1995)
FloresEra preciso agradecer às floresTerem guardado em si,Límpida e pura,Aquela promessa antigaDuma manhã futura.Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004)
Saudação à PrimaveraNa hora certa.Disse que chegaria.Declarou dia e hora.Tão longe que ela moraque diabo, atése lhe perdoariaque, perdendo a maré,chegasse no outro dia.De tudo se abrigouna sorte ingratae à hora exacta“aqui estou!”disse da alta esfera.Bem-vinda Primavera!Mário Castrim(1920 – 2002)
What A Wonderful World | Louis Armstrong I see trees of green, red roses tooI see them bloom for me and youAnd I think to myself what a wonderful world.I see skies of blue and clouds of whiteThe bright blessed day, the dark sacred nightAnd I think to myself what a wonderful world.The colors of the rainbow so pretty in the skyAre also on the faces of people going byI see friends shaking hands saying how do you doThey're really saying I love you.I hear babies cry, I watch them growThey'll learn much more than I'll never knowAnd I think to myself what a wonderful worldYes I think to myself what a wonderful world.

Primavera

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    DIA MUNDIALDA POESIA21 de Março
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    Olhos postos naterra, tu virás no ritmo da própria primavera, e como as flores e os animais abrirás as mãos de quem te espera.Eugénio de Andrade1923 — 2005 )
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    As PalavrasSão comoum cristal,as palavras.Algumas, um punhal,um incêndio.Outras,orvalho apenas.Secretas vêm, cheias de memória.Inseguras navegam:barcos ou beijos,as águas estremecem.Desamparadas, inocentes,leves.Tecidas são de luze são a noite.E mesmo pálidasverdes paraísos lembram ainda.Quem as escuta? Quemas recolhe, assim,cruéis, desfeitas,nas suas conchas puras?Eugénio de Andrade(1923-2005)
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    Ser Poeta Ser poetaé ser mais alto, é ser maiorDo que os homens! Morder como quem beija!É ser mendigo e dar como quem sejaRei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendorE não saber sequer que se deseja!É ter cá dentro um astro que flameja,É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito!Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente…É seres alma e sangue e vida em mimE dizê-lo cantando a toda a gente! Florbela Espanca(1894 – 1930)
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    Há uma primaveraem cada vida:é preciso cantá-la assim florida,pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada,que seja a minha noite uma alvorada,que me saiba perder...para me encontrar....Florbela Espanca (1894 – 1930)
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    A FONTE Comvoz nascente a fonte nos convida A renascermos incessantemente Na luz do antigo sol nu e recente E no sussurro da noite primitiva. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004)
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    GLÓRIA Depois doInverno, morte figurada, A primavera, uma assunção de flores. A vida Renascida E celebrada Num festival de pétalas e cores. Miguel Torga (1907 -1995)
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    Cada árvore éum ser para ser em nósCada árvore é um ser para ser em nósPara ver uma árvore não basta vê-aa árvore é uma lenta reverênciauma presença reminiscenteuma habitação perdidae encontradaÀ sombra de uma árvoreo tempo já não é o tempomas a magia de um instante que começa sem fima árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhase de sombras interioresnós habitamos a árvore com a nossa respiraçãocom a da árvorecom a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses António Ramos Rosa1924-
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    AUTOPSICOGRAFIA O poetaé um fingidor.Finge tão completamenteQue chega a fingir que é dorA dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve,Na dor lida sentem bem,Não as duas que ele teve,Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de rodaGira, a entreter a razão,Esse comboio de cordaQue se chama coração. Fernando Pessoa (1888 — 1935)
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    PrimaveraAbre-te, Primavera!Tenho umpoema à esperaDo teu sorriso.Um poema indecisoEntre a coragem e a covardia.Um poema de lírica alegriaRefreada,A temer ser tardiaE ser antecipada.Dantes, nasciasQuando eu te anunciava.Cantava,E no meu canto aconteciasComo o tempo depois te confirmava.Cada verso era a flor que prometiasNo futuro sonhado...Agora, a lei é outra: principias,E só então eu canto confiado.Miguel Torga(1907 -1995)
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    FloresEra preciso agradeceràs floresTerem guardado em si,Límpida e pura,Aquela promessa antigaDuma manhã futura.Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004)
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    Saudação à PrimaveraNahora certa.Disse que chegaria.Declarou dia e hora.Tão longe que ela moraque diabo, atése lhe perdoariaque, perdendo a maré,chegasse no outro dia.De tudo se abrigouna sorte ingratae à hora exacta“aqui estou!”disse da alta esfera.Bem-vinda Primavera!Mário Castrim(1920 – 2002)
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    What A WonderfulWorld | Louis Armstrong I see trees of green, red roses tooI see them bloom for me and youAnd I think to myself what a wonderful world.I see skies of blue and clouds of whiteThe bright blessed day, the dark sacred nightAnd I think to myself what a wonderful world.The colors of the rainbow so pretty in the skyAre also on the faces of people going byI see friends shaking hands saying how do you doThey're really saying I love you.I hear babies cry, I watch them growThey'll learn much more than I'll never knowAnd I think to myself what a wonderful worldYes I think to myself what a wonderful world.