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Eugénio de Andrade
(19 de Janeiro de 1923 – 13 de Junho de 2005)




                                            Duplo Retrato, 1980
                                por Alfredo Cruz (Tinta da China)




                                                                    1
PALAVRAS INTERDITAS

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir. É preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
                                            2
PROCURO-TE



Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.



                                        3
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.




                                                 4
OS OLHOS RASOS DE ÁGUA


Cansado de ser homem o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser a nostalgia das areias.

É a hora de adormecer na tua boca,
como um marinheiro num barco naufragado,
o vento na margem das espigas.



                                              5
CANÇÃO

Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.




                                        6
VEGETAL E SÓ


É outono, desprende-te de mim.
Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
sem a febre de tantos lábios,
sem nenhum rumor de lágrimas
nas pálpebras acesas.
Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.




                                            7
METAMORFOSES DA PALAVRA



A palavra nasceu:
nos lábios cintila.


Carícia ou aroma,
mal pousa nos dedos.


De ramo em ramo voa,
na luz se derrama.


A morte não existe:
tudo é canto ou chama.




                               8
Quartos ao pé do Mar , 1951
               Rooms by the Sea – Edward Hopper (1882-1967)


       EPITÁFIO PARA UM MARINHEIRO
           MORTO QUANDO JOVEM



Perguntam por ti e oiço
a secreta voz da água.


Perguntam por ti e vejo
o perfil azul do mar.


Perguntam por ti e digo:
Acorda e veste-te de branco.

                                                              9
QUASE MADRIGAL



Os anjos que prometes são apenas
o rosto triste dos dias desolados.

Eu não prometo nada, sou alegria.
Aceito os anjos nos beijos que me dás,
pondo rosas nos teus dedos descuidados.




                                          10
LISBOA



Alguém diz com lentidão:

«Lisboa, sabes…»

Eu sei. É uma rapariga

descalça e leve,

um vento súbito e claro

nos cabelos,

algumas rugas finas

a espreitar-me os olhos,

a solidão aberta

nos lábios e nos dedos,

descendo degraus

e degraus

e degraus até ao rio.


Eu sei. E tu, sabias?


                                    11
PALAVRAS


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

                                   12
À TUA SOMBRA


A terra me sabes,
à luz das manhãs
lisas de verão,
ao calor das pedras
achadas nas dunas.
Apetece cantar
nos gomos, nas luas,
nas colinas breves
do teu corpo nu;
cantar ou correr
na água, na seiva
dos ombros, dos braços,
no azul secreto
da concha das pernas.
Ó sabor eterno,
ó mortal sabor
das fontes da terra,
materno, solar
rumor de alegria:
apetece morrer,
morrer ou cantar.

                             13
MÚSICA MIRABILIS



Talvez a ternura

crepite no pulso,

talvez o vento

súbito se levante,

talvez a palavra

atinja o seu cume,

talvez um segredo

chegue ainda a tempo


– e desperte o lume.



                               14
CRISTALIZAÇÕES


1
Com palavras amo.

2
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.

3
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.

 4
Ama
como o rio sobe os últimos
degraus
ao encontro do seu leito.

5
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?

6
Estou de passagem:
amo o efémero.

7
Onde espero morrer
 será manhã ainda?
                             Cabeça de Bronze, 1964,
                               por Lagoa Henriques

                                                       15
NATUREZA MORTA COM FRUTOS




               Natureza Morta com Maçãs e Laranjas (Óleo sobre tela
                                         Paul Cézanne (1839-1906)
1
O sangue matinal das framboesas
escolhe a brancura do linho para amar.

2
A manhã cheia de brilhos e doçura
debruça o rosto puro da maçã.

3
Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.


4
Cada bago de uva sabe de cor
o nome dos dias todos de verão.


5
Nas romãs eu amo
o repouso no coração do lume.

                                                                      16
ESCRITO NO MURO


Procura a maravilha.

Onde a luz coalha
e cessa o exílio.

Nos ombros, no dorso,
nos flancos suados.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.


Ou a sombra espessa.

Na laranja aberta
à língua do vento.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.


                        17
Banhista Sentada, 1892
                          Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)



OS JOELHOS


Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde beijo a beijo foi acesa.



                                                                18
CALCEDÓNIA




Afinal os romanos eram

como eu: amavam

os lugares onde a grandeza

e a solidão

andam de mãos dadas.




                             19
PENICHE



Vento
vento


há tanto
há só vento no meu país


vento branco
verde vento negro


ardente


seca as lágrimas


corta a voz na raiz.




                              20
ESSA MULHER, DOCE MELANCOLIA



Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.




                                       21
COM O TEMPO, APROXIMAR-SE-ÃO OS RIOS




Com o tempo aproximar-se-ão os rios

e os montes, com o tempo

acabará por te vir comer à mão

e fazer ninho na tua cama

o silêncio




                                       22
Eugénio de Andrade
                      por Alfredo Cruz, 1989 (Acrílico)




A CLARIDADE COROA-SE DE CINZA, EU SEI




A claridade coroa-se de cinza, eu sei:

é sempre a tremer que levo o sol à boca.




                                                          23
QUANDO O SER DA LUZ FOR




Quando o ser da luz for
o ser da palavra,
no seu centro arder
e subir com a chama
(ou baixar à água),
Então estarei em casa.




                          24
ESTÃO SENTADOS QUASE LADO A LADO




Estão sentados quase lado a lado
no chão à espera que passe um barco,
a luz muito quieta
no regaço

como se fora um gato, o sorriso
antigo, a casa
à beira do crepúsculo
atenta aos passos nas areias;

era outra vez Abril,
chovia no jardim, já não chovia,
um aroma, apenas um aroma,
tornava espesso o ar.

Uma criança me leva rio acima.




                                       25
Eugénio de Andrade
                       por Emerenciano - 1988 (Técnica mista)



CARDOS


Este é o lugar onde só o lume

não demora a florir,

onde o verão abdica

de ser metáfora para arder

até ao fim.

                                                                26
O PEQUENO PERSA

É um pequeno persa

azul o gato deste poema.

Como qualquer outro, o meu

amor por esta alminha é materno:

uma carícia minha lambe-lhe o pêlo,

outra põe-lhe o sol entre as patas

ou uma flor à janela.

Com garras e dentes e obstinação

transforma em festa a minha vida.

Quer-se dizer, o que me resta dela.


                                      27
Ilustração de Cristina Valadares
para o livro ―Os Dóceis Animais‖




                                    28
Andorinha/Amor - 1933/34
                  Pintura-poema de Joan Miró (1893-1983)




SOU FIEL AO ARDOR

Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos,
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.




                                                           29
ESTOU CONTENTE, NÃO DEVO NADA À VIDA

Estou contente, não devo nada à vida,
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim

o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou,
também colheu, e até
alguma coisa dissipou, o pobre,

pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou-me estender
debaixo da figueira, aquela

que vi exasperada e só, há muitos anos:
pertenço à mesma raça.




                                       Eugénio de Andrade
                       Por Emerenciano, 1990 (Tinta da China)
                                                                30
A CHUVA CAI NA POEIRA COMO NO POEMA



A chuva cai na poeira como no poema
de Li Bai. No sul
os dias têm olhos grandes
e redondos; no sul o trigo ondula,

as suas crinas dançam no vento,
são a bandeira
desfraldada da minha embarcação;

no sul a terra cheira a linho branco,
a pão na mesa,
o fulvo ardor da luz invade a água,
caindo na poeira, leve, acesa,

Como no poema.



                                        31
SOBRE A MESA A FRUTA ARDE: PERAS



Sobre a mesa a fruta arde: peras,
laranjas, maçãs, pressentem
a íntima brancura
dos dentes, o desejo represado,

o espesso vinho de vozes antigas;
arde a melancolia ao inventar
outra cidade,
outro país, outros céus onde lançar

os olhos e o riso: deita-te comigo,
trago-te do mar
a crespa luz da espuma,
nos flancos este amor retido.



                                      32
ANTES DE SABER


Até onde os dedos tocam o quente

do barro a mão sabe

antes de saber.

É um saber mais vivo, um saber

de ave: águia cegonha falcão,

animais quase no fim

como o lume destes dias.

Testemunhar a favor do lince

é nossa obrigação.

Por ser azul.


                                   33
A SÍLABA



Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurei com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de Janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.




                                      34
A JORGE PEIXINHO



Faltava-te essa música ainda,

a do silêncio, fria de tão nua,

agora para sempre e sempre tua.




                                  35
DESENHO ANTIGO


Às vezes ia pela tarde

até ao rio.

Os álamos

mesmo em Agosto

quase de bruma.

Por caminhos

de cabras, nem pastor

nem gado.

Só o riso dos rapazes

despindo-se

perto da água

- o sexo exasperado.

                                 O Banho - 1892/93
                         Paul Cézanne (1839 - 1906)
                                                      36
CANÇÃO DA MÃE DO UM SOLDADO
DE PARTIDA PARA A BÓSNIA

É muito jovem, sem tempo ainda

de ser triste. Demora-se nos meus olhos

enquanto leva a maçã à boca.

Nenhuma fala obscura escurece a tarde,

a cabeleira solta é a sua bandeira;

os pés brancos, irmãos

da chuva de verão, anunciam a paz.

Suplico à estrela da manhã

que lhe guie os passos, agora que partiu;

que tenha em conta a sua ignorância,

não só da morte, também da vida.




                                            37
A PEQUENA PÁTRIA

A pequena pátria; a do pão;
a da água;
a da ternura, tanta vez
envergonhada;
a de nenhum orgulho nem humildade;
a que não cercava de muros
o jardim nem roubava
aos olhos o desajeitado voo
das cegonhas; a do cheiro quente
e acidulado da urina
dos cavalos; a dos amieiros
à sombra onde aprendi
que o sexo se compartilhava;
a pequena pátria da alma e do estrume
suculento morno mole;
a da flor múltipla e tão amada
do girassol.
                                        38
OIÇO FALAR


Oiço falar da minha vocação
mendicante, e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci à rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava à minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara, e doiravam o chão. A música,
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria à minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.




                                                39
SÃO COISAS ASSIM

São coisas assim que tornam o coração vulnerável: o
regresso
das cegonhas brancas,
o comboiinho do ramal da Ceira
que parece de corda, as oito linhas
da Canção Nocturna do Viandante
de Goethe que Schubert musicou.
Quem dividiu comigo a alegria
merecia ao menos
que o trouxesse à orvalhada
e limpa terra do poema. Mas também
o poeta escreve direito por linhas
tortas: a poesia é a ficção
da verdade. Não será
a curva apetecida do teu peito
mas os lémures de Madagáscar,
que só vi num filme francês,
o que verdadeiramente me interessa
hoje trazer ao poema.

                                                      40
RILKIANA




De ti e desta nuvem; desta nuvem

branca como voo de pássaro

em manhã de Abril; de ti

e da íntima chama de um fogo

que não consente extinção;

de ti e de mim fazer um só acorde,

um acorde só; para não te perder.




                                     41
HOMENAGEM A MARK ROTHKO




                            Mark Rothko (1903-1970)


Amarelo, laranja, limão,
depois o carmim: tudo arde
nas areias
entre as palmeiras e o mar – era verão.
Mas no lugar do teu nome
a terra tem a cor do verde
pensativo, que só a noite
pastoreia leve.
                                                      42
~~~~~~


“Todas as coisas tombam
e são construídas de novo




E os que as constroem outra vez são
felizes.”


               ~~~~~~




                                      43
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  • 1. Eugénio de Andrade (19 de Janeiro de 1923 – 13 de Junho de 2005) Duplo Retrato, 1980 por Alfredo Cruz (Tinta da China) 1
  • 2. PALAVRAS INTERDITAS Os navios existem, e existe o teu rosto encostado ao rosto dos navios. Sem nenhum destino flutuam nas cidades, partem no vento, regressam nos rios. Na areia branca, onde o tempo começa, uma criança passa de costas para o mar. Anoitece. Não há dúvida, anoitece. É preciso partir. É preciso ficar. Os hospitais cobrem-se de cinza. Ondas de sombra quebram nas esquinas. Amo-te… E entram pela janela as primeiras luzes das colinas. As palavras que te envio são interditas até, meu amor, pelo halo das searas; se alguma regressasse, nem já reconhecia o teu nome nas suas curvas claras. Dói-me esta água, este ar que se respira, dói-me esta solidão de pedra escura, estas mãos nocturnas onde aperto os meus dias quebrados na cintura. E a noite cresce apaixonadamente. Nas suas margens nuas, desoladas, cada homem tem apenas para dar um horizonte de cidades bombardeadas. 2
  • 3. PROCURO-TE Procuro a ternura súbita, os olhos ou o sol por nascer do tamanho do mundo, o sangue que nenhuma espada viu, o ar onde a respiração é doce, um pássaro no bosque com a forma de um grito de alegria. Oh, a carícia da terra, a juventude suspensa, a fugidia voz da água entre o azul do prado e de um corpo estendido. Procuro-te: fruto ou nuvem ou música. Chamo por ti, e o teu nome ilumina as coisas mais simples: o pão e a água, a cama e a mesa, os pequenos e dóceis animais, onde também quero que chegue o meu canto e a manhã de maio. 3
  • 4. Um pássaro e um navio são a mesma coisa quando te procuro de rosto cravado na luz. Eu sei que há diferenças, mas não quando se ama, não quando apertamos contra o peito uma flor ávida de orvalho. Ter só dedos e dentes é muito triste: dedos para amortalhar crianças, dentes para roer a solidão, enquanto o verão pinta de azul o céu e o mar é devassado pelas estrelas. Porém eu procuro-te. Antes que a morte se aproxime, procuro-te. Nas ruas, nos barcos, na cama, com amor, com ódio, ao sol, à chuva, de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te. 4
  • 5. OS OLHOS RASOS DE ÁGUA Cansado de ser homem o dia inteiro chego à noite com os olhos rasos de água. Posso então deitar-me ao pé do teu retrato, entrar dentro de ti como num bosque. É a hora de fazer milagres: posso ressuscitar os mortos e trazê-los a este quarto branco e despovoado, onde entro sempre pela primeira vez, para falarmos das grandes searas de trigo afogadas na luz do amanhecer. Posso prometer uma viagem ao paraíso a quem se estender ao pé de mim, ou deixar uma lágrima nos meus olhos ser a nostalgia das areias. É a hora de adormecer na tua boca, como um marinheiro num barco naufragado, o vento na margem das espigas. 5
  • 6. CANÇÃO Hoje venho dizer-te que nevou no rosto familiar que te esperava. Não é nada, meu amor, foi um pássaro, a casca do tempo que caiu, uma lágrima, um barco, uma palavra. Foi apenas mais um dia que passou entre arcos e arcos de solidão; a curva dos teus olhos que se fechou, uma gota de orvalho, uma só gota, secretamente morta na tua mão. 6
  • 7. VEGETAL E SÓ É outono, desprende-te de mim. Solta-me os cabelos, potros indomáveis sem nenhuma melancolia, sem encontros marcados, sem cartas a responder. Deixa-me o braço direito, o mais ardente dos meus braços, o mais azul, o mais feito para voar. Devolve-me o rosto de um verão sem a febre de tantos lábios, sem nenhum rumor de lágrimas nas pálpebras acesas. Deixa-me só, vegetal e só, correndo como rio de folhas para a noite onde a mais bela aventura se escreve exactamente sem nenhuma letra. 7
  • 8. METAMORFOSES DA PALAVRA A palavra nasceu: nos lábios cintila. Carícia ou aroma, mal pousa nos dedos. De ramo em ramo voa, na luz se derrama. A morte não existe: tudo é canto ou chama. 8
  • 9. Quartos ao pé do Mar , 1951 Rooms by the Sea – Edward Hopper (1882-1967) EPITÁFIO PARA UM MARINHEIRO MORTO QUANDO JOVEM Perguntam por ti e oiço a secreta voz da água. Perguntam por ti e vejo o perfil azul do mar. Perguntam por ti e digo: Acorda e veste-te de branco. 9
  • 10. QUASE MADRIGAL Os anjos que prometes são apenas o rosto triste dos dias desolados. Eu não prometo nada, sou alegria. Aceito os anjos nos beijos que me dás, pondo rosas nos teus dedos descuidados. 10
  • 11. LISBOA Alguém diz com lentidão: «Lisboa, sabes…» Eu sei. É uma rapariga descalça e leve, um vento súbito e claro nos cabelos, algumas rugas finas a espreitar-me os olhos, a solidão aberta nos lábios e nos dedos, descendo degraus e degraus e degraus até ao rio. Eu sei. E tu, sabias? 11
  • 12. PALAVRAS São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam; barcos ou beijos, as águas estremecem. Desamparadas, inocentes, leves. Tecidas são de luz e são a noite. E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda. Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras? 12
  • 13. À TUA SOMBRA A terra me sabes, à luz das manhãs lisas de verão, ao calor das pedras achadas nas dunas. Apetece cantar nos gomos, nas luas, nas colinas breves do teu corpo nu; cantar ou correr na água, na seiva dos ombros, dos braços, no azul secreto da concha das pernas. Ó sabor eterno, ó mortal sabor das fontes da terra, materno, solar rumor de alegria: apetece morrer, morrer ou cantar. 13
  • 14. MÚSICA MIRABILIS Talvez a ternura crepite no pulso, talvez o vento súbito se levante, talvez a palavra atinja o seu cume, talvez um segredo chegue ainda a tempo – e desperte o lume. 14
  • 15. CRISTALIZAÇÕES 1 Com palavras amo. 2 Inclina-te como a rosa só quando o vento passe. 3 Despe-te como o orvalho na concha da manhã. 4 Ama como o rio sobe os últimos degraus ao encontro do seu leito. 5 Como podemos florir ao peso de tanta luz? 6 Estou de passagem: amo o efémero. 7 Onde espero morrer será manhã ainda? Cabeça de Bronze, 1964, por Lagoa Henriques 15
  • 16. NATUREZA MORTA COM FRUTOS Natureza Morta com Maçãs e Laranjas (Óleo sobre tela Paul Cézanne (1839-1906) 1 O sangue matinal das framboesas escolhe a brancura do linho para amar. 2 A manhã cheia de brilhos e doçura debruça o rosto puro da maçã. 3 Na laranja o sol e a lua dormem de mãos dadas. 4 Cada bago de uva sabe de cor o nome dos dias todos de verão. 5 Nas romãs eu amo o repouso no coração do lume. 16
  • 17. ESCRITO NO MURO Procura a maravilha. Onde a luz coalha e cessa o exílio. Nos ombros, no dorso, nos flancos suados. Onde um beijo sabe a barcos e bruma. Ou a sombra espessa. Na laranja aberta à língua do vento. No brilho redondo e jovem dos joelhos. Na noite inclinada de melancolia. Procura. Procura a maravilha. 17
  • 18. Banhista Sentada, 1892 Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) OS JOELHOS Considerai os joelhos com doçura: vereis a noite arder mas não queimar a boca onde beijo a beijo foi acesa. 18
  • 19. CALCEDÓNIA Afinal os romanos eram como eu: amavam os lugares onde a grandeza e a solidão andam de mãos dadas. 19
  • 20. PENICHE Vento vento há tanto há só vento no meu país vento branco verde vento negro ardente seca as lágrimas corta a voz na raiz. 20
  • 21. ESSA MULHER, DOCE MELANCOLIA Essa mulher, a doce melancolia dos seus ombros, canta. O rumor da sua voz entra-me pelo sono, é muito antigo. Traz o cheiro acidulado da minha infância chapinhada ao sol. O corpo leve quase de vidro. 21
  • 22. COM O TEMPO, APROXIMAR-SE-ÃO OS RIOS Com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama o silêncio 22
  • 23. Eugénio de Andrade por Alfredo Cruz, 1989 (Acrílico) A CLARIDADE COROA-SE DE CINZA, EU SEI A claridade coroa-se de cinza, eu sei: é sempre a tremer que levo o sol à boca. 23
  • 24. QUANDO O SER DA LUZ FOR Quando o ser da luz for o ser da palavra, no seu centro arder e subir com a chama (ou baixar à água), Então estarei em casa. 24
  • 25. ESTÃO SENTADOS QUASE LADO A LADO Estão sentados quase lado a lado no chão à espera que passe um barco, a luz muito quieta no regaço como se fora um gato, o sorriso antigo, a casa à beira do crepúsculo atenta aos passos nas areias; era outra vez Abril, chovia no jardim, já não chovia, um aroma, apenas um aroma, tornava espesso o ar. Uma criança me leva rio acima. 25
  • 26. Eugénio de Andrade por Emerenciano - 1988 (Técnica mista) CARDOS Este é o lugar onde só o lume não demora a florir, onde o verão abdica de ser metáfora para arder até ao fim. 26
  • 27. O PEQUENO PERSA É um pequeno persa azul o gato deste poema. Como qualquer outro, o meu amor por esta alminha é materno: uma carícia minha lambe-lhe o pêlo, outra põe-lhe o sol entre as patas ou uma flor à janela. Com garras e dentes e obstinação transforma em festa a minha vida. Quer-se dizer, o que me resta dela. 27
  • 28. Ilustração de Cristina Valadares para o livro ―Os Dóceis Animais‖ 28
  • 29. Andorinha/Amor - 1933/34 Pintura-poema de Joan Miró (1893-1983) SOU FIEL AO ARDOR Sou fiel ao ardor, amo esta espécie de verão que de longe me vem morrer às mãos, e juro que ao fazer da palavra morada do silêncio não há outra razão. 29
  • 30. ESTOU CONTENTE, NÃO DEVO NADA À VIDA Estou contente, não devo nada à vida, e a vida deve-me apenas dez réis de mel coado. Estamos quites, assim o corpo já pode descansar: dia após dia lavrou, semeou, também colheu, e até alguma coisa dissipou, o pobre, pobríssimo animal, agora de testículos aposentados. Um dia destes vou-me estender debaixo da figueira, aquela que vi exasperada e só, há muitos anos: pertenço à mesma raça. Eugénio de Andrade Por Emerenciano, 1990 (Tinta da China) 30
  • 31. A CHUVA CAI NA POEIRA COMO NO POEMA A chuva cai na poeira como no poema de Li Bai. No sul os dias têm olhos grandes e redondos; no sul o trigo ondula, as suas crinas dançam no vento, são a bandeira desfraldada da minha embarcação; no sul a terra cheira a linho branco, a pão na mesa, o fulvo ardor da luz invade a água, caindo na poeira, leve, acesa, Como no poema. 31
  • 32. SOBRE A MESA A FRUTA ARDE: PERAS Sobre a mesa a fruta arde: peras, laranjas, maçãs, pressentem a íntima brancura dos dentes, o desejo represado, o espesso vinho de vozes antigas; arde a melancolia ao inventar outra cidade, outro país, outros céus onde lançar os olhos e o riso: deita-te comigo, trago-te do mar a crespa luz da espuma, nos flancos este amor retido. 32
  • 33. ANTES DE SABER Até onde os dedos tocam o quente do barro a mão sabe antes de saber. É um saber mais vivo, um saber de ave: águia cegonha falcão, animais quase no fim como o lume destes dias. Testemunhar a favor do lince é nossa obrigação. Por ser azul. 33
  • 34. A SÍLABA Toda a manhã procurei uma sílaba. É pouca coisa, é certo: uma vogal, uma consoante, quase nada. Mas faz-me falta. Só eu sei a falta que me faz. Por isso a procurei com obstinação. Só ela me podia defender do frio de Janeiro, da estiagem do verão. Uma sílaba. Uma única sílaba. A salvação. 34
  • 35. A JORGE PEIXINHO Faltava-te essa música ainda, a do silêncio, fria de tão nua, agora para sempre e sempre tua. 35
  • 36. DESENHO ANTIGO Às vezes ia pela tarde até ao rio. Os álamos mesmo em Agosto quase de bruma. Por caminhos de cabras, nem pastor nem gado. Só o riso dos rapazes despindo-se perto da água - o sexo exasperado. O Banho - 1892/93 Paul Cézanne (1839 - 1906) 36
  • 37. CANÇÃO DA MÃE DO UM SOLDADO DE PARTIDA PARA A BÓSNIA É muito jovem, sem tempo ainda de ser triste. Demora-se nos meus olhos enquanto leva a maçã à boca. Nenhuma fala obscura escurece a tarde, a cabeleira solta é a sua bandeira; os pés brancos, irmãos da chuva de verão, anunciam a paz. Suplico à estrela da manhã que lhe guie os passos, agora que partiu; que tenha em conta a sua ignorância, não só da morte, também da vida. 37
  • 38. A PEQUENA PÁTRIA A pequena pátria; a do pão; a da água; a da ternura, tanta vez envergonhada; a de nenhum orgulho nem humildade; a que não cercava de muros o jardim nem roubava aos olhos o desajeitado voo das cegonhas; a do cheiro quente e acidulado da urina dos cavalos; a dos amieiros à sombra onde aprendi que o sexo se compartilhava; a pequena pátria da alma e do estrume suculento morno mole; a da flor múltipla e tão amada do girassol. 38
  • 39. OIÇO FALAR Oiço falar da minha vocação mendicante, e sorrio. Porque não sei se tal vocação não é apenas uma escolha entre riquezas, como Keats diz ser a poesia. Desci à rua pensando nisto, atravessei o jardim, um cão saltava à minha frente, louco com as folhas do outono que principiara, e doiravam o chão. A música, digamos assim, a que toda a alma aspira, quando a alma aspira a ter do mundo o melhor dele, corria à minha frente, subia por certo aos ouvidos de deus com a ajuda de um cão, que nem sequer me pertencia. 39
  • 40. SÃO COISAS ASSIM São coisas assim que tornam o coração vulnerável: o regresso das cegonhas brancas, o comboiinho do ramal da Ceira que parece de corda, as oito linhas da Canção Nocturna do Viandante de Goethe que Schubert musicou. Quem dividiu comigo a alegria merecia ao menos que o trouxesse à orvalhada e limpa terra do poema. Mas também o poeta escreve direito por linhas tortas: a poesia é a ficção da verdade. Não será a curva apetecida do teu peito mas os lémures de Madagáscar, que só vi num filme francês, o que verdadeiramente me interessa hoje trazer ao poema. 40
  • 41. RILKIANA De ti e desta nuvem; desta nuvem branca como voo de pássaro em manhã de Abril; de ti e da íntima chama de um fogo que não consente extinção; de ti e de mim fazer um só acorde, um acorde só; para não te perder. 41
  • 42. HOMENAGEM A MARK ROTHKO Mark Rothko (1903-1970) Amarelo, laranja, limão, depois o carmim: tudo arde nas areias entre as palmeiras e o mar – era verão. Mas no lugar do teu nome a terra tem a cor do verde pensativo, que só a noite pastoreia leve. 42
  • 43. ~~~~~~ “Todas as coisas tombam e são construídas de novo E os que as constroem outra vez são felizes.” ~~~~~~ 43
  • 44. 44