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Álvaro Magalhães:
quando eu for grande...
quero ser um brincador!
Ana Margarida Ramos
CIDTFF – Universidade de Aveiro
anamargarida@ua.pt
O Brincador
Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor.
Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for.
Quero brincar de manhã à noite, seja com o que for.
Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um
médico, um engenheiro ou um professor.
Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.
Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que
sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina
um imaginador…
A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E
depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar.
Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes,
mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador.
Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta.
Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois
de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era
um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo
todas as manhãs para ir brincar com as palavras”.
Obra: géneros e registos (exemplos)
—  Romance juvenil – A Ilha do Chifre de Ouro (1998), O Último
Grimm (2007) e O Rapaz dos Sapatos Prateados (2013)
—  Narrativas seriadas e “hybrid novel” – coleções “Triângulo
Jota”; “Crónicas do Vampiro Valentim”; “Novas Crónicas do
Vampiro Valentim”; “Lucas Scarpone”; “Mata dos Medos”
—  Narrativa breve e muito breve – coletâneas de contos - O
menino chamado Menino (1983), Isto É que Foi Ser! (1984),
Histórias Pequenas de Bichos Pequenos (1985), O Homem que
não queria sonhar e outras histórias (1987), Hipopóptimos
Uma História de Amor (2001), Três Histórias de Amor (2003),
O Rapaz da Bicicleta Azul (2004), O Segredo (2007), O Senhor
Pina (2013)
—  Teatro - Enquanto a Cidade Dorme (2000), Todos os Rapazes
São Gatos (2004)
—  Poesia
Tendências transversais à sua
produção literária
—  Temáticas ligadas ao tratamento do tempo e da constatação da sua passagem e
inexorabilidade, à perda e à morte
—  Condição reflexiva do sujeito poético, com aproximações ao pensamento
filosófico de cariz existencialista
—  Temática animal como aproximação à génese e à primitividade humana
—  Metapoesia e reflexão de cariz metalinguístico: centralidade da palavra como a
matéria-prima por excelência da criação literária
—  Centralidade da infância como topos: origem; verdade; essência
—  Sonho, onirismo e fantasia como forma de superação dos limites humanos
—  Valorização das leituras, das aventuras e das brincadeiras infantis
—  Exploração das potencialidades da língua e das suas implicações nonsensicais
—  Humor
Três histórias de amor
—  Tematização do amor,
originalmente cruzado com
o tema da morte – eixos
centrais da vida/existência
—  Fruição intensa da vida
—  Perenidade dos afetos
—  Universo animal
—  Recriação da tradição oral
O Rapaz dos Sapatos Prateados
—  Temáticas ligadas ao
tempo, à existência, às
palavras e à poesia, a deus,
à morte e à vida, à
essência, eixos transversais
da poética do autor
—  Viagem pelas suas
memórias pessoais e pelos
seus valores, tributo às suas
referências, sem deixar de
ser uma história de
aventuras, mistério e
humor.
Obra poética mais relevante
—  O reino perdido (1986)
—  O limpa-palavras e outros poemas (2000)
—  O brincador (2005)
O Reino Perdido
Estamos	
  no	
  Inverno,	
  entristeceu	
  a	
  luz
e	
  eu	
  levo	
  as	
  pequenas	
  coisas	
  do	
  dia
para	
  dentro	
  da	
  casa	
  e	
  da	
  página
muito	
  branca	
  onde	
  brilha	
  agora	
  o	
  sol.
	
  
O	
  gato	
  adormeceu	
  junto	
  ao	
  fogão,
está	
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  sonhar	
  com	
  a	
  primeira	
  serradura;
a	
  mãe	
  espreita	
  da	
  velha	
  fotografia
e	
  parece	
  ensaiar	
  um	
  passo
mas	
  conAnua	
  parada;
no	
  tecto,	
  sobre	
  a	
  cabeça,	
  a	
  lâmpada
vigia-­‐me,	
  como	
  o	
  olho	
  de	
  um	
  insecto.
	
  
Enquanto	
  lá	
  fora	
  passa	
  o	
  vento
que	
  leva	
  para	
  longe	
  o	
  nosso	
  tempo
e	
  não	
  o	
  traz	
  de	
  volta,
tento	
  abrir,	
  com	
  uma	
  chave	
  de	
  palavras,
a	
  porta	
  fechada	
  do	
  meu	
  reino	
  perdido.
O Caçador de Borboletas
Sorridente, ao nascer do dia,

À noite, regressa à casa cansado

ele sai de casa com a sua rede.

e estranhamente feliz

Vai caçar borboletas, mas fica preso

porque a sua caixa está vazia,

à frescura do rio que lhe mata a sede

mas diz sempre, suspirando:

ou ao encanto das flores do prado.

Que grande caçada e que belo dia!

Vê tanta beleza à sua volta

 

que esquece a rede em qualquer lado

Antes de entrar, limpa as botas

e antes de caçar já foi caçado.

num tapete de compridos pêlos
e sacode, distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.
«Aniversários»
«Aniversários», de Álvaro Magalhães
1

5

As abelhas não fazem anos.

Os anões são tão pequeninos

Nenhuma viveu um ano

que não fazem anos.

para o poder fazer.

Fazem aninhos.

Com um dia de vida

Os gigantes são tão grandalhões

qualquer abelha vai trabalhar.

que não fazem anos.

Com dois já pode namorar

Fazem anões.

e com cinco casa e tem filhos.
Com vinte dias de vida
uma abelha está acabada:
é uma avelha.
Mistérios da Escrita
Escrevi a palavra flor.
Um girassol nasceu
no deserto de papel.
Era um girassol
como é um girassol.
Endireitou o caule,
sacudiu as pétalas
e perfumou o ar.
Voltou a cabeça
à procura do sol
e deixou cair dois grãos de pólen
sobre a mesa.
Depois cresceu até ficar
com a ponta de uma pétala
fora da Natureza.
A Gata Branca
Ela andava por todo o lado,
enterrava as unhas duras no sofá
ou descia, vagarosa, do telhado.
Depois, desenrolou até ao fim
o novelo da lã
e agora está sob a terra, no quintal:
é uma semente adormecida.
Com ela foi essa parte de mim
e eu não sei o que fazer a esse amor
nem onde está o tempo branco que foi meu
- esse pedaço da minha vida.
Experiência de animação da leitura
a partir de O Limpa-Palavras,
de Álvaro Magalhães
Recursos
—  http://conta-meumconto.blogspot.com/2008/02/olimpa-palavras.html
—  http://www.catalivros.org/portal/bo/portal.pl?
pag=02n4_ficha_do_livro&janpap_id=227
—  http://videos.sapo.pt/eOCj5dqJZABp6vSefKuN
—  http://www.youtube.com/watch?v=iWPv0m4b9FI
—  http://catatu.catalivros.org/fala_estar_le-nos/
le_LM11_entr_a_magalhaes_1_a.pdf
O Limpa-Palavras
Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papéis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes um braço para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.
Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.
Análise do Poema
—  Definição do trabalho do poeta e da escrita poética
—  Arte poética aplicada ao universo da literatura para a infância
—  Metáfora do limpa-palavras para definir o poeta
—  Negação do conceito da arbitrariedade do signo
—  Categorias de palavras, funcionalidade (ligação entre a palavra e o
conceito/objeto)
— 
— 
— 
— 
— 
— 
— 

Pesadas – pedra
Perfumadas – rosa
Protetoras – árvore
Vivas – gato, coração
Voadoras – pássaro, vento
Sonoras – canção
…
Pré-leitura
—  Exploração de elementos paratextuais, como o título
—  Relação com as profissões:
—  O que é um limpa-palavras?
—  Onde trabalha?
—  A que se dedica?

—  Expectativas sobre o conteúdo do texto
Leitura
—  Expressiva, em voz alta
—  Com fundo musical apropriado
—  Acompanhada de imagens e/ou objetos, nomeadamente
os que são referidos no poemas (palavras que precisam
de ler limpas)
Pós-leitura
—  Perceber o que significa “limpar palavras” e o sentido que o poema
atribui ao poeta e à poesia;
—  Identificar as emoções que o poema transmite e o tom que o domina;
—  Escolher outras palavras que precisam/podem ser “limpas”;
—  Identificar objetos, seres, conceitos para os quais elas remetem;
—  Descobrir textos/livros que procedam a essa limpeza;
—  Selecionar lugar para contar/ler/dizer poemas/textos de modo a limpar
as palavras dos maus usos;
—  Preparar atividades de escrita (nomeadamente poética) a partir da
leitura do poema;
—  Propor outras atividades para o poeta, para além de limpar as palavras.
Proposta de trabalho:
—  Proposta de leitura com um grupo de crianças/jovens:
—  Todos sabem o que é um poeta? O que fazem os poetas? Quais são as suas
ferramentas de trabalho? Que matérias usam para trabalhar?
—  Estabelecer relações com outras profissões até se chegar à matéria prima usada
pelo poeta: “A Palavra”.
—  E o que fazem os poetas com as palavras? Álvaro Magalhães explica tudo isto, num
poema a que se chamou o Limpa-Palavras. Mas que título! Porque necessitarão os
poetas de limpar as palavras? Que palavras se podem limpar? Onde podem
recolher-se as palavras? Em que lugares é que se encontram as palavras? Que
palavras nos podem fazer companhia?
—  O poema que vamos ler tem a palavra “pedra”? É uma palavra leve ou pesada?
Que som pode fazer uma pedra? O autor usa também a palavra “rosa”. É uma
palavra cheirosa ou fedorenta?
—  Ir apresentando palavras que estão no texto, solicitando a reflexão sobre as suas
características, os sons ou gestos que lhe podem estar associados: árvore, gato,
pássaro, coração, vento, obrigado, adeus, fogão, solidão. Este jogo em torno
destas palavras deve ser conduzido de forma a levar a algumas expressões do
autor.
—  http://195.23.38.178/casadaleitura/portalbeta/bo/documentos/
prat_ser_poeta_a.pdf
bibliografia
—  GOMES, José António, RAMOS, Ana Margarida e SILVA, Sara
Reis da (2009): «“Palavras que não servem para falar”: uma
leitura de O Limpa-Palavras e outros poemas, de Álvaro
Magalhães» in ROIG RECHOU, Blanca-Ana, SOTO LÓPEZ, Isabel
e NEIRA RODRÍGUEZ, Marta (coord.), A Poesía Infantil no
Século XXI (2000-2008), Vigo: Edicións Xerais de Galicia, pp.
359-372 (ISBN 978-84-9914-026-1)
—  RAMOS, Ana Margarida (org.) (2013). Mistérios da Escrita –
Uma aproximação à obra de Álvaro Magalhães. Alfragide: ASA
(ISBN: 9789892325132) (e-book) {colaboração de José António
Gomes, Sara Reis da Silva e Carlos Nogueira}
Obrigada!

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  • 1. Álvaro Magalhães: quando eu for grande... quero ser um brincador! Ana Margarida Ramos CIDTFF – Universidade de Aveiro anamargarida@ua.pt
  • 2. O Brincador Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor. Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for. Quero brincar de manhã à noite, seja com o que for. Quando for grande, quero ser um brincador. Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor. Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer. Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador… A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar. A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras”.
  • 3. Obra: géneros e registos (exemplos) —  Romance juvenil – A Ilha do Chifre de Ouro (1998), O Último Grimm (2007) e O Rapaz dos Sapatos Prateados (2013) —  Narrativas seriadas e “hybrid novel” – coleções “Triângulo Jota”; “Crónicas do Vampiro Valentim”; “Novas Crónicas do Vampiro Valentim”; “Lucas Scarpone”; “Mata dos Medos” —  Narrativa breve e muito breve – coletâneas de contos - O menino chamado Menino (1983), Isto É que Foi Ser! (1984), Histórias Pequenas de Bichos Pequenos (1985), O Homem que não queria sonhar e outras histórias (1987), Hipopóptimos Uma História de Amor (2001), Três Histórias de Amor (2003), O Rapaz da Bicicleta Azul (2004), O Segredo (2007), O Senhor Pina (2013) —  Teatro - Enquanto a Cidade Dorme (2000), Todos os Rapazes São Gatos (2004) —  Poesia
  • 4. Tendências transversais à sua produção literária —  Temáticas ligadas ao tratamento do tempo e da constatação da sua passagem e inexorabilidade, à perda e à morte —  Condição reflexiva do sujeito poético, com aproximações ao pensamento filosófico de cariz existencialista —  Temática animal como aproximação à génese e à primitividade humana —  Metapoesia e reflexão de cariz metalinguístico: centralidade da palavra como a matéria-prima por excelência da criação literária —  Centralidade da infância como topos: origem; verdade; essência —  Sonho, onirismo e fantasia como forma de superação dos limites humanos —  Valorização das leituras, das aventuras e das brincadeiras infantis —  Exploração das potencialidades da língua e das suas implicações nonsensicais —  Humor
  • 5. Três histórias de amor —  Tematização do amor, originalmente cruzado com o tema da morte – eixos centrais da vida/existência —  Fruição intensa da vida —  Perenidade dos afetos —  Universo animal —  Recriação da tradição oral
  • 6. O Rapaz dos Sapatos Prateados —  Temáticas ligadas ao tempo, à existência, às palavras e à poesia, a deus, à morte e à vida, à essência, eixos transversais da poética do autor —  Viagem pelas suas memórias pessoais e pelos seus valores, tributo às suas referências, sem deixar de ser uma história de aventuras, mistério e humor.
  • 7. Obra poética mais relevante —  O reino perdido (1986) —  O limpa-palavras e outros poemas (2000) —  O brincador (2005)
  • 8. O Reino Perdido Estamos  no  Inverno,  entristeceu  a  luz e  eu  levo  as  pequenas  coisas  do  dia para  dentro  da  casa  e  da  página muito  branca  onde  brilha  agora  o  sol.   O  gato  adormeceu  junto  ao  fogão, está  a  sonhar  com  a  primeira  serradura; a  mãe  espreita  da  velha  fotografia e  parece  ensaiar  um  passo mas  conAnua  parada; no  tecto,  sobre  a  cabeça,  a  lâmpada vigia-­‐me,  como  o  olho  de  um  insecto.   Enquanto  lá  fora  passa  o  vento que  leva  para  longe  o  nosso  tempo e  não  o  traz  de  volta, tento  abrir,  com  uma  chave  de  palavras, a  porta  fechada  do  meu  reino  perdido.
  • 9. O Caçador de Borboletas Sorridente, ao nascer do dia, À noite, regressa à casa cansado ele sai de casa com a sua rede. e estranhamente feliz Vai caçar borboletas, mas fica preso porque a sua caixa está vazia, à frescura do rio que lhe mata a sede mas diz sempre, suspirando: ou ao encanto das flores do prado. Que grande caçada e que belo dia! Vê tanta beleza à sua volta   que esquece a rede em qualquer lado Antes de entrar, limpa as botas e antes de caçar já foi caçado. num tapete de compridos pêlos e sacode, distraído, as muitas borboletas de mil cores que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.
  • 11. «Aniversários», de Álvaro Magalhães 1 5 As abelhas não fazem anos. Os anões são tão pequeninos Nenhuma viveu um ano que não fazem anos. para o poder fazer. Fazem aninhos. Com um dia de vida Os gigantes são tão grandalhões qualquer abelha vai trabalhar. que não fazem anos. Com dois já pode namorar Fazem anões. e com cinco casa e tem filhos. Com vinte dias de vida uma abelha está acabada: é uma avelha.
  • 12. Mistérios da Escrita Escrevi a palavra flor. Um girassol nasceu no deserto de papel. Era um girassol como é um girassol. Endireitou o caule, sacudiu as pétalas e perfumou o ar. Voltou a cabeça à procura do sol e deixou cair dois grãos de pólen sobre a mesa. Depois cresceu até ficar com a ponta de uma pétala fora da Natureza.
  • 13. A Gata Branca Ela andava por todo o lado, enterrava as unhas duras no sofá ou descia, vagarosa, do telhado. Depois, desenrolou até ao fim o novelo da lã e agora está sob a terra, no quintal: é uma semente adormecida. Com ela foi essa parte de mim e eu não sei o que fazer a esse amor nem onde está o tempo branco que foi meu - esse pedaço da minha vida.
  • 14. Experiência de animação da leitura a partir de O Limpa-Palavras, de Álvaro Magalhães
  • 15.
  • 16.
  • 17. Recursos —  http://conta-meumconto.blogspot.com/2008/02/olimpa-palavras.html —  http://www.catalivros.org/portal/bo/portal.pl? pag=02n4_ficha_do_livro&janpap_id=227 —  http://videos.sapo.pt/eOCj5dqJZABp6vSefKuN —  http://www.youtube.com/watch?v=iWPv0m4b9FI —  http://catatu.catalivros.org/fala_estar_le-nos/ le_LM11_entr_a_magalhaes_1_a.pdf
  • 18. O Limpa-Palavras Limpo palavras. Recolho-as à noite, por todo o lado: a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor. Trato delas durante o dia enquanto sonho acordado. A palavra solidão faz-me companhia. No fim de tudo voltam os olhos para a luz e vão para longe, leves palavras voadoras sem nada que as prenda à terra, outra vez nascidas pela minha mão: a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão. Quase todas as palavras precisam de ser limpas e acariciadas: a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar. Algumas têm mesmo de ser lavadas, é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias e do mau uso. Muitas chegam doentes, outras simplesmente gastas, estafadas, dobradas pelo peso das coisas que trazem às costas. A palavra obrigado agradece-me. As outras não. A palavra adeus despede-se. As outras já lá vão, belas palavras lisas e lavadas como seixos do rio: a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio. A palavra pedra pesa como uma pedra. A palavra rosa espalha o perfume no ar. A palavra árvore tem folhas, ramos altos. Podes descansar à sombra dela. A palavra gato espeta as unhas no tapete. A palavra pássaro abre as asas para voar. A palavra coração não pára de bater. Ouve-se a palavra canção. A palavra vento levanta os papéis no ar e é preciso fechá-la na arrecadação. Vão à procura de quem as queira dizer, de mais palavras e de novos sentidos. Basta estenderes um braço para apanhares a palavra barco ou a palavra amor. Limpo palavras. A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra. Recolho-as à noite, trato delas durante o dia. A palavra fogão cozinha o meu jantar. A palavra brisa refresca-me. A palavra solidão faz-me companhia.
  • 19. Análise do Poema —  Definição do trabalho do poeta e da escrita poética —  Arte poética aplicada ao universo da literatura para a infância —  Metáfora do limpa-palavras para definir o poeta —  Negação do conceito da arbitrariedade do signo —  Categorias de palavras, funcionalidade (ligação entre a palavra e o conceito/objeto) —  —  —  —  —  —  —  Pesadas – pedra Perfumadas – rosa Protetoras – árvore Vivas – gato, coração Voadoras – pássaro, vento Sonoras – canção …
  • 20. Pré-leitura —  Exploração de elementos paratextuais, como o título —  Relação com as profissões: —  O que é um limpa-palavras? —  Onde trabalha? —  A que se dedica? —  Expectativas sobre o conteúdo do texto
  • 21. Leitura —  Expressiva, em voz alta —  Com fundo musical apropriado —  Acompanhada de imagens e/ou objetos, nomeadamente os que são referidos no poemas (palavras que precisam de ler limpas)
  • 22. Pós-leitura —  Perceber o que significa “limpar palavras” e o sentido que o poema atribui ao poeta e à poesia; —  Identificar as emoções que o poema transmite e o tom que o domina; —  Escolher outras palavras que precisam/podem ser “limpas”; —  Identificar objetos, seres, conceitos para os quais elas remetem; —  Descobrir textos/livros que procedam a essa limpeza; —  Selecionar lugar para contar/ler/dizer poemas/textos de modo a limpar as palavras dos maus usos; —  Preparar atividades de escrita (nomeadamente poética) a partir da leitura do poema; —  Propor outras atividades para o poeta, para além de limpar as palavras.
  • 23. Proposta de trabalho: —  Proposta de leitura com um grupo de crianças/jovens: —  Todos sabem o que é um poeta? O que fazem os poetas? Quais são as suas ferramentas de trabalho? Que matérias usam para trabalhar? —  Estabelecer relações com outras profissões até se chegar à matéria prima usada pelo poeta: “A Palavra”. —  E o que fazem os poetas com as palavras? Álvaro Magalhães explica tudo isto, num poema a que se chamou o Limpa-Palavras. Mas que título! Porque necessitarão os poetas de limpar as palavras? Que palavras se podem limpar? Onde podem recolher-se as palavras? Em que lugares é que se encontram as palavras? Que palavras nos podem fazer companhia? —  O poema que vamos ler tem a palavra “pedra”? É uma palavra leve ou pesada? Que som pode fazer uma pedra? O autor usa também a palavra “rosa”. É uma palavra cheirosa ou fedorenta? —  Ir apresentando palavras que estão no texto, solicitando a reflexão sobre as suas características, os sons ou gestos que lhe podem estar associados: árvore, gato, pássaro, coração, vento, obrigado, adeus, fogão, solidão. Este jogo em torno destas palavras deve ser conduzido de forma a levar a algumas expressões do autor. —  http://195.23.38.178/casadaleitura/portalbeta/bo/documentos/ prat_ser_poeta_a.pdf
  • 24. bibliografia —  GOMES, José António, RAMOS, Ana Margarida e SILVA, Sara Reis da (2009): «“Palavras que não servem para falar”: uma leitura de O Limpa-Palavras e outros poemas, de Álvaro Magalhães» in ROIG RECHOU, Blanca-Ana, SOTO LÓPEZ, Isabel e NEIRA RODRÍGUEZ, Marta (coord.), A Poesía Infantil no Século XXI (2000-2008), Vigo: Edicións Xerais de Galicia, pp. 359-372 (ISBN 978-84-9914-026-1) —  RAMOS, Ana Margarida (org.) (2013). Mistérios da Escrita – Uma aproximação à obra de Álvaro Magalhães. Alfragide: ASA (ISBN: 9789892325132) (e-book) {colaboração de José António Gomes, Sara Reis da Silva e Carlos Nogueira}