“O nível de desigualdade
do Brasil é um obstáculo
para o crescimento. Pior
do que o Brasil só a África
do Sul e o Oriente Médio.
É verdade que o senhor dis-
se em entrevista não ter lido
‘‘O Capital’’ de Karl Marx?
Nunca disse isso. Quem fala is-
so não leu meu livro. Eu disse que
sofri para ler tudo. Li ‘‘O Capital’’
de Karl Marx com atenção. Cito-o
fartamente no meu livro. Observo
que não se trata para meu gosto
de uma obra suficientemente empí-
rica. É demasiado teórica, especu-
lativa, filosófica. Poderia ser mais
concreta e histórica.
O senhor cita escritores como
Balzac e Jane Austen. A litera-
tura ajuda a compreender o
mundo da economia com sua
enorme complexidade?
Com certeza. Karl Marx já dis-
so isso sobre Balzac embora a gen-
te não veja isso tão claramente na
sua obra. A literatura é excelente
instrumento para penetrar no
mundo do dinheiro e nas relações
que ele fixa entre as pessoas. O es-
critor mexicano Carlos Fuentes,
no seu último livro, ‘‘A Vontade e
a Fortuna’’, aborda o capitalismo
mexicano com um presidente que
lembra Vicente Fox e um bilio-
nário que detém realmente o po-
der eterno tanto político quanto
econômico e social. E uma juventu-
de que hesita entre a revolução e
a condição de herdeira de fortu-
nas quase num sentido balzaquia-
no. O poder de penetração da lite-
ratura pode ser muito maior que a
das ciências sociais. Na verdade,
são formas de expressão comple-
mentares. As ciências sociais de-
vem ser modestas. Os economis-
tas ainda mais. A modéstia nem
sempre é a primeira virtude de
um economista. Vou investir mais
nisso do que já fiz em meu livro. A
arte conta muito.
Economistas liberais tentam
encontrar falhas no seu livro
‘‘O Capital do Século XXI.
Muitos alegam que sua base
de dados não é boa. O se-
nhor confirma a sua tese de
que o capitalismo está produ-
zindo enorme concentração
e não distribuição de renda?
Desenvolvi com a contribuição
de mais de cem pesquisadores pe-
lo mundo uma base de dados histó-
ricos sobre a evolução das desi-
gualdades sociais e econômicas.
Não existe outra maior ou melhor.
Mas se trata de uma base aberta
à complementação. Está tudo dis-
ponível na Internet para que cada
um possa melhorar esses dados.
Até agora não apareceram críti-
cas realmente consistentes ou ca-
pazes de invalidar o que está dito
no livro. O debate que aconteceu
depois da publicação de meu livro
foi apaixonante. O mais importan-
te é que isso possibilitou ter aces-
so a dados de países como o Bra-
sil e a Índia. Eu havia ficado con-
centrado nos países europeus por
dificuldade de acesso a dados fis-
cais de certas nações. As críticas
feitas nada mudaram.
O capitalismo concentra rique-
za em vez de distribuí-la?
Não sou contra o capitalismo e
a propriedade privada. Nasci em
1971, tinha 18 anos quando caiu o
muro de Berlim. Era jovem de-
mais para ter sido comunista. Po-
de ser que existam pessoas, no
Brasil ou fora dele, que ainda vi-
vam na Guerra Fria. Não é proble-
ma meu. O que me interessa é sa-
ber qual forma de capitalismo ou
de propriedade privada temos e
quais ou seus impactos. Acredito
no mercado, mas entendo que pre-
cisamos de instituições públicas
democráticas muito forte para en-
quadrá-lo. Necessitamos de impos-
tos progressivos sobre a proprieda-
de, de serviços públicos de qualida-
de, de infraestrutura, de regras pa-
ra o mercado do trabalho, de sindi-
catos organizados, de tudo o que
nos ajude a controlar as forças do
mercado para que estas funcio-
nem no interesse geral. A demo-
cracia deve controlar o capitalis-
mo, não o contrário. É uma conclu-
são baseada nas lições da histó-
ria. Só depois dos grandes cho-
ques como a I Guerra Mundial, a
revolução bolchevique e a crise de
1929 é que surgiram mecanismos
de redução de desigualdades na
Europa e nos Estados Unidos. A
redução da desigualdade estimu-
lou o crescimento econômico e
obrigou o capitalismo a desenvol-
ver sistemas como o da previdên-
cia social. Existem várias manei-
ras de organizar o capitalismo,
que não é o mesmo na Suécia, on-
de o Estado recolhe 50% das rique-
zas em impostos, para sustentar
os serviços prestados à sociedade,
e na Ásia e América.
Ou no Brasil?
As elites brasileiras erram ao
rejeitar certas formas de
redistribuição de renda que funcio-
naram bem na Europa ou mesmo
nos Estados Unidos permitindo
mais justiça social e mais desen-
volvimento econômico. O nível de
desigualdade brasileiro é um dos
mais extremos do mundo. É preci-
so deixar de lado a ideologia hiper-
capitalista de alguns para aceitar
a ideia de que é possível organizar
a economia de modo a obter ao
mesmo tempo mais igualdade e
mais crescimento.
Como convencer elites con-
servadoras a aceitar essas li-
ções num país como o Brasil
onde o governo atual busca
diminuir gastos sociais?
O nível de desigualdade do Bra-
sil é um obstáculo para o cresci-
mento. Pior do que o Brasil só a
África do Sul e o Oriente Médio.
Acreditar que a redução da desi-
gualdade no Brasil pode ficar para
depois da retomada do crescimen-
to econômico é um erro grave. O
debate democrático precisa fazer o
país avançar no caminho priori-
tário da diminuição da injustiça so-
cial. Uma das conclusões de uma
pesquisa feita por Marc Morgan so-
bre as desigualdades no Brasil é
que entre 2001 e 2015 houve uma
leve melhoria dos ganhos dos 50%
mais pobres. O aumento do salário
mínimo foi um dos responsáveis
por essa melhora. O problema é
que classe média foi desfavoreci-
da. Os 10% mais ricos não foram
afetados. É preciso políticas de
redistribuição que atinjam os mais
favorecidos. Enquanto o governo
japonês de centro-direita acaba de
aumentar o imposto sobre heran-
ças de 45% para 55% (nos Estados
Unidos são 35%, na Alemanha e
na Inglaterra, 40%), no Brasil fica
entre 3% e 4%. Não existe fatalida-
de. Tudo é resultado da história.
Os ricos de Porto Alegre não
querem a correção do IPTU
defasado.
Não conheço a situação. Será
necessário fazer a demonstração
cabalmente. Insistir. Mostrar
quem ganha e quem perde com
clareza. Os ricos não gostam em
país algum de pagar impostos. Te-
mos de obrigá-los.
A resposta mais simples para
o crescimento da desigualda-
de é o nacionalismo e a xeno-
fobia. Como dar a resposta
mais complexa na Europa?
O risco principal do crescimen-
to da desigualdade é com certeza
o avanço da xenofobia e do nacio-
nalismo extremado. Diante da de-
sigualdade não resolvida sempre
há um político para manipular a
população indicando bodes
expiatórios, que podem ser os imi-
grantes, os muçulmanos, os lati-
nos nos Estados Unidos ou outros.
A solução é gerar novos progra-
mas de redistribuição melhorando
as condições de vida dos mais po-
bres e das classes médias. A com-
petição generalizada entre pes-
soas, países e empresas não leva
a uma boa solução. A eleição de
Donaldo Trump resultou dessa di-
visão social, entre brancos pobres
e negros pobres, que leva à respos-
ta fácil diante das grandes crises.
A política de austeridade é
mais uma resposta simples à
crise?
É uma resposta inadequada. A
história ensina que não se resolve
crise de explosão de dívida públi-
ca com austeridade. Melhor anu-
lar a dívida para retomar a ativida-
de econômica. A Europa foi re-
construída depois da II Guerra
Mundial em cima da anulação das
dívidas passadas, especialmente a
dívida externa alemã. Hoje, na Eu-
ropa e noutras partes do mundo,
estamos numa situação que exige
saber perdoar dívidas para reco-
meçar e apostar no futuro. As dívi-
das públicas normalmente têm a
ver com grupos privilegiados que
acabam por limitar a capacidade
de um Estado de investir no bási-
co como a educação. O aquecimen-
to global é um problema mais gre-
ve que a dívida pública. Esta pode
ser anulada. Não passa às vezes
de jogo contábil.
Por que os catalães querem
se tornar independentes?
Eu desconfio dos regionalismos.
Os movimentos separatistas da Ca-
talunha e da Escócia poderiam
ser positivos se mostrassem con-
teúdos políticos progressistas. O
risco é que se trate apenas de ri-
cos tentando se livrar dos mais po-
bres de um país. Muitos sonham
em transformar a Catalunha num
grande paraíso fiscal. O importan-
te é desenvolver uma união euro-
peia democrática com impostos co-
muns, taxações comuns sobre pa-
trimônio e heranças, mecanismos
de redistribuição de renda e rique-
za, instrumentos de melhoria de vi-
da para todos. O projeto catalão é
conservador e de direita. Nada
mais. O Brexit e esses projetos se-
paratistas retomados resultam da
falha da União Europeia em admi-
nistrar a crise financeira de 2008.
A França e a Alemanha são as
grandes responsáveis pela situa-
ção de países com a Grécia e a Es-
panha. A política de austeridade é
um fracasso grave.
Emmanuel Macron faz esco-
lhas certas?
Macron é demasiado conserva-
dor em economia. Cometeu um
grave erro ao revogar o imposto
sobre as grandes fortunas. O gran-
de capital francês vai bem e agra-
dece. Precisamos avançar em polí-
ticas de orçamento e impostos co-
muns. Macron nada apresentou
de sólido até agora para ajudar a
desenvolver uma Europa mais de-
mocrática. A Europa precisa de
uma assembleia de representan-
tes realmente efetiva e democráti-
ca capaz de tomar decisões e de
implementar políticas solidárias.
Antes de chegar a um imposto
mundial comum sobre o patrimô-
nio, temos de avançar nesse senti-
do na Europa com alguns países.
Sou otimista, não utopista. Pode-
mos ir além do Estado-Nação.
O senhor se define como ho-
mem de esquerda?
Sim e não. Sim no contexto da
política. Não no sentido de que
não vejo significado religioso em
ser de esquerda ou de direita. A
palavra esquerda foi usada para
defender o indefensável. Sou livre.
Tudo sempre pode mudar sem de-
terminismos de qualquer ordem.
Não é estranho um francês
dar aulas de economia ao
mundo?
Foi muito influenciado pela es-
cola francesa de ciências sociais.
A vantagem de trabalhar com eco-
nomia na França é que se precisa
fazer mais para ter prestígio. Aca-
ba sendo um bom desafio.
ENTREVISTA/THOMAS PIKETTY
Liçõesdeliteratura,históriaeeconomia
Nascidoem1971,oeconomistafrancêsThomas
Piketty,professorepesquisadornaEscoladeAltos
EstudosemCiênciasSociaisenaEscolade
EconomiadeParis,comformaçãonaFrançaenos
EstadosUnidos,tornou-semundialmenteconhecido
comolivro‘‘OCapitaldoSéculoXXI’’,quejávendeu
quasetrêsmilhõesdeexemplaresnomundo,no
qualcomdadosestatísticosmostraaconcentração
deriquezanocapitalismo.ConvidadodoFronteiras
doPensamentoparapalestraremSãoPauloeem
PortoAlegreeleconcedeuentrevistaaoCadernode
Sábado.(Juremir Machado da Silva)
CADERNO DE SÁBADO
LUIZ MUNHOZ / FRONTEIRAS DO PENSAMENTO / CP
Conferência de Piketty foi quinta à noite, no Auditório Araújo Vianna
2 | SÁBADO,30 de setembro de 2017 CORREIO DO POVO

Piketty

  • 1.
    “O nível dedesigualdade do Brasil é um obstáculo para o crescimento. Pior do que o Brasil só a África do Sul e o Oriente Médio. É verdade que o senhor dis- se em entrevista não ter lido ‘‘O Capital’’ de Karl Marx? Nunca disse isso. Quem fala is- so não leu meu livro. Eu disse que sofri para ler tudo. Li ‘‘O Capital’’ de Karl Marx com atenção. Cito-o fartamente no meu livro. Observo que não se trata para meu gosto de uma obra suficientemente empí- rica. É demasiado teórica, especu- lativa, filosófica. Poderia ser mais concreta e histórica. O senhor cita escritores como Balzac e Jane Austen. A litera- tura ajuda a compreender o mundo da economia com sua enorme complexidade? Com certeza. Karl Marx já dis- so isso sobre Balzac embora a gen- te não veja isso tão claramente na sua obra. A literatura é excelente instrumento para penetrar no mundo do dinheiro e nas relações que ele fixa entre as pessoas. O es- critor mexicano Carlos Fuentes, no seu último livro, ‘‘A Vontade e a Fortuna’’, aborda o capitalismo mexicano com um presidente que lembra Vicente Fox e um bilio- nário que detém realmente o po- der eterno tanto político quanto econômico e social. E uma juventu- de que hesita entre a revolução e a condição de herdeira de fortu- nas quase num sentido balzaquia- no. O poder de penetração da lite- ratura pode ser muito maior que a das ciências sociais. Na verdade, são formas de expressão comple- mentares. As ciências sociais de- vem ser modestas. Os economis- tas ainda mais. A modéstia nem sempre é a primeira virtude de um economista. Vou investir mais nisso do que já fiz em meu livro. A arte conta muito. Economistas liberais tentam encontrar falhas no seu livro ‘‘O Capital do Século XXI. Muitos alegam que sua base de dados não é boa. O se- nhor confirma a sua tese de que o capitalismo está produ- zindo enorme concentração e não distribuição de renda? Desenvolvi com a contribuição de mais de cem pesquisadores pe- lo mundo uma base de dados histó- ricos sobre a evolução das desi- gualdades sociais e econômicas. Não existe outra maior ou melhor. Mas se trata de uma base aberta à complementação. Está tudo dis- ponível na Internet para que cada um possa melhorar esses dados. Até agora não apareceram críti- cas realmente consistentes ou ca- pazes de invalidar o que está dito no livro. O debate que aconteceu depois da publicação de meu livro foi apaixonante. O mais importan- te é que isso possibilitou ter aces- so a dados de países como o Bra- sil e a Índia. Eu havia ficado con- centrado nos países europeus por dificuldade de acesso a dados fis- cais de certas nações. As críticas feitas nada mudaram. O capitalismo concentra rique- za em vez de distribuí-la? Não sou contra o capitalismo e a propriedade privada. Nasci em 1971, tinha 18 anos quando caiu o muro de Berlim. Era jovem de- mais para ter sido comunista. Po- de ser que existam pessoas, no Brasil ou fora dele, que ainda vi- vam na Guerra Fria. Não é proble- ma meu. O que me interessa é sa- ber qual forma de capitalismo ou de propriedade privada temos e quais ou seus impactos. Acredito no mercado, mas entendo que pre- cisamos de instituições públicas democráticas muito forte para en- quadrá-lo. Necessitamos de impos- tos progressivos sobre a proprieda- de, de serviços públicos de qualida- de, de infraestrutura, de regras pa- ra o mercado do trabalho, de sindi- catos organizados, de tudo o que nos ajude a controlar as forças do mercado para que estas funcio- nem no interesse geral. A demo- cracia deve controlar o capitalis- mo, não o contrário. É uma conclu- são baseada nas lições da histó- ria. Só depois dos grandes cho- ques como a I Guerra Mundial, a revolução bolchevique e a crise de 1929 é que surgiram mecanismos de redução de desigualdades na Europa e nos Estados Unidos. A redução da desigualdade estimu- lou o crescimento econômico e obrigou o capitalismo a desenvol- ver sistemas como o da previdên- cia social. Existem várias manei- ras de organizar o capitalismo, que não é o mesmo na Suécia, on- de o Estado recolhe 50% das rique- zas em impostos, para sustentar os serviços prestados à sociedade, e na Ásia e América. Ou no Brasil? As elites brasileiras erram ao rejeitar certas formas de redistribuição de renda que funcio- naram bem na Europa ou mesmo nos Estados Unidos permitindo mais justiça social e mais desen- volvimento econômico. O nível de desigualdade brasileiro é um dos mais extremos do mundo. É preci- so deixar de lado a ideologia hiper- capitalista de alguns para aceitar a ideia de que é possível organizar a economia de modo a obter ao mesmo tempo mais igualdade e mais crescimento. Como convencer elites con- servadoras a aceitar essas li- ções num país como o Brasil onde o governo atual busca diminuir gastos sociais? O nível de desigualdade do Bra- sil é um obstáculo para o cresci- mento. Pior do que o Brasil só a África do Sul e o Oriente Médio. Acreditar que a redução da desi- gualdade no Brasil pode ficar para depois da retomada do crescimen- to econômico é um erro grave. O debate democrático precisa fazer o país avançar no caminho priori- tário da diminuição da injustiça so- cial. Uma das conclusões de uma pesquisa feita por Marc Morgan so- bre as desigualdades no Brasil é que entre 2001 e 2015 houve uma leve melhoria dos ganhos dos 50% mais pobres. O aumento do salário mínimo foi um dos responsáveis por essa melhora. O problema é que classe média foi desfavoreci- da. Os 10% mais ricos não foram afetados. É preciso políticas de redistribuição que atinjam os mais favorecidos. Enquanto o governo japonês de centro-direita acaba de aumentar o imposto sobre heran- ças de 45% para 55% (nos Estados Unidos são 35%, na Alemanha e na Inglaterra, 40%), no Brasil fica entre 3% e 4%. Não existe fatalida- de. Tudo é resultado da história. Os ricos de Porto Alegre não querem a correção do IPTU defasado. Não conheço a situação. Será necessário fazer a demonstração cabalmente. Insistir. Mostrar quem ganha e quem perde com clareza. Os ricos não gostam em país algum de pagar impostos. Te- mos de obrigá-los. A resposta mais simples para o crescimento da desigualda- de é o nacionalismo e a xeno- fobia. Como dar a resposta mais complexa na Europa? O risco principal do crescimen- to da desigualdade é com certeza o avanço da xenofobia e do nacio- nalismo extremado. Diante da de- sigualdade não resolvida sempre há um político para manipular a população indicando bodes expiatórios, que podem ser os imi- grantes, os muçulmanos, os lati- nos nos Estados Unidos ou outros. A solução é gerar novos progra- mas de redistribuição melhorando as condições de vida dos mais po- bres e das classes médias. A com- petição generalizada entre pes- soas, países e empresas não leva a uma boa solução. A eleição de Donaldo Trump resultou dessa di- visão social, entre brancos pobres e negros pobres, que leva à respos- ta fácil diante das grandes crises. A política de austeridade é mais uma resposta simples à crise? É uma resposta inadequada. A história ensina que não se resolve crise de explosão de dívida públi- ca com austeridade. Melhor anu- lar a dívida para retomar a ativida- de econômica. A Europa foi re- construída depois da II Guerra Mundial em cima da anulação das dívidas passadas, especialmente a dívida externa alemã. Hoje, na Eu- ropa e noutras partes do mundo, estamos numa situação que exige saber perdoar dívidas para reco- meçar e apostar no futuro. As dívi- das públicas normalmente têm a ver com grupos privilegiados que acabam por limitar a capacidade de um Estado de investir no bási- co como a educação. O aquecimen- to global é um problema mais gre- ve que a dívida pública. Esta pode ser anulada. Não passa às vezes de jogo contábil. Por que os catalães querem se tornar independentes? Eu desconfio dos regionalismos. Os movimentos separatistas da Ca- talunha e da Escócia poderiam ser positivos se mostrassem con- teúdos políticos progressistas. O risco é que se trate apenas de ri- cos tentando se livrar dos mais po- bres de um país. Muitos sonham em transformar a Catalunha num grande paraíso fiscal. O importan- te é desenvolver uma união euro- peia democrática com impostos co- muns, taxações comuns sobre pa- trimônio e heranças, mecanismos de redistribuição de renda e rique- za, instrumentos de melhoria de vi- da para todos. O projeto catalão é conservador e de direita. Nada mais. O Brexit e esses projetos se- paratistas retomados resultam da falha da União Europeia em admi- nistrar a crise financeira de 2008. A França e a Alemanha são as grandes responsáveis pela situa- ção de países com a Grécia e a Es- panha. A política de austeridade é um fracasso grave. Emmanuel Macron faz esco- lhas certas? Macron é demasiado conserva- dor em economia. Cometeu um grave erro ao revogar o imposto sobre as grandes fortunas. O gran- de capital francês vai bem e agra- dece. Precisamos avançar em polí- ticas de orçamento e impostos co- muns. Macron nada apresentou de sólido até agora para ajudar a desenvolver uma Europa mais de- mocrática. A Europa precisa de uma assembleia de representan- tes realmente efetiva e democráti- ca capaz de tomar decisões e de implementar políticas solidárias. Antes de chegar a um imposto mundial comum sobre o patrimô- nio, temos de avançar nesse senti- do na Europa com alguns países. Sou otimista, não utopista. Pode- mos ir além do Estado-Nação. O senhor se define como ho- mem de esquerda? Sim e não. Sim no contexto da política. Não no sentido de que não vejo significado religioso em ser de esquerda ou de direita. A palavra esquerda foi usada para defender o indefensável. Sou livre. Tudo sempre pode mudar sem de- terminismos de qualquer ordem. Não é estranho um francês dar aulas de economia ao mundo? Foi muito influenciado pela es- cola francesa de ciências sociais. A vantagem de trabalhar com eco- nomia na França é que se precisa fazer mais para ter prestígio. Aca- ba sendo um bom desafio. ENTREVISTA/THOMAS PIKETTY Liçõesdeliteratura,históriaeeconomia Nascidoem1971,oeconomistafrancêsThomas Piketty,professorepesquisadornaEscoladeAltos EstudosemCiênciasSociaisenaEscolade EconomiadeParis,comformaçãonaFrançaenos EstadosUnidos,tornou-semundialmenteconhecido comolivro‘‘OCapitaldoSéculoXXI’’,quejávendeu quasetrêsmilhõesdeexemplaresnomundo,no qualcomdadosestatísticosmostraaconcentração deriquezanocapitalismo.ConvidadodoFronteiras doPensamentoparapalestraremSãoPauloeem PortoAlegreeleconcedeuentrevistaaoCadernode Sábado.(Juremir Machado da Silva) CADERNO DE SÁBADO LUIZ MUNHOZ / FRONTEIRAS DO PENSAMENTO / CP Conferência de Piketty foi quinta à noite, no Auditório Araújo Vianna 2 | SÁBADO,30 de setembro de 2017 CORREIO DO POVO