LUIZGONZAGALOPES/ESPECIAL/CP
Coordenador Editorial: Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br Editor: Luiz Gonzaga Lopes | lgferreira@correiodopovo.com.br
“T
erça-feira, de manhã.
Mas seria possível?
Dois dias antes, no
campo de Petrogra-
do, havia apenas bandos sem
chefes, sem víveres, sem artilha-
ria, vagando à toa, sem nenhu-
ma orientação. Que teria fundi-
do essas massas desorganiza-
das e sem disciplina, de guardas
vermelhos e de soldados sem ofi-
ciais, num exército obediente
aos chefes por eles mesmos es-
colhidos, num exército tempera-
do para receber o choque da ar-
tilharia e o assalto da cavalaria
cossaca?
Os povos sublevados transtor-
nam todas as regras da arte mili-
tar. Basta lembrar os exércitos
esfarrapados da Revolução
Francesa, em Valmy, e Wis-
senburg. As forças soviéti-
cas tinham pela frente o
bloco dos junkers, dos
cossacos, dos gran-
des proprietários,
da nobreza, dos
Cem Negros, a pers-
pectiva de restaura-
ção do czar, da
Okhrana, das pri-
sões siberianas e,
além disso, a terrível
ameaça do imperialis-
mo alemão... A vitória era
o fim da opressão e o começo
de uma era nova e feliz!
Domingo à noite, enquanto
os comissários do Comitê Mili-
tar Revolucionário voltavam,
desesperados, do campo de ba-
talha, a guarnição de Petrogra-
do elegia seu Comitê dos Cin-
co, seu estado-maior de comba-
te: três soldados e dois oficiais,
todos inimigos jurados da
contrarrevolução. O tenente-co-
ronel Muraviov, antigo patriota,
era um homem capaz. Mas os re-
volucionários precisavam vigiá-
lo. Em Kolpino, Obukhovo,
Pulkovo, Krásnoie-Tseló, forma-
vam-se destacamentos provisó-
rios. Os efetivos desses destaca-
mentos, aumentados com as uni-
dades extraviadas, que iam sen-
do pouco a pouco incorporadas,
compunham-se de soldados, ma-
rinheiros, guardas vermelhos, in-
fantaria, cavalaria e artilharia,
tudo misturado, e ainda de car-
ros blindados.
Ao amanhecer, entrou-se em
contato com as patrulhas cossa-
cas de Kerenski. Em cada encon-
tro, uma descarga, uma ordem
de rendição. No ar frio e parado,
elevava-se o fragor da batalha.
Nos bandos errantes, acampa-
dos ao redor das fogueiras, os
homens diziam: — Começou. — E
logo marchavam para o comba-
te. Por todas as estradas e cami-
nhos, os trabalhadores, em gru-
po, apressavam o passo. Sur-
giam, assim, como por milagre,
de todos os pontos, multidões
exasperadas. Os comissários
iam ao seu encontro, distribuin-
do posições a ocupar, ou traba-
lho a executar. Desta vez, a
guerra era sua, a guerra e o
mundo, o seu mundo. E os che-
fes escolhidos por eles mesmos.
As vontades múltiplas e incoe-
rentes da massa fundiam-se nu-
ma vontade única.
Os combatentes dessas jorna-
das, mais tarde, contaram como
os marinheiros, depois de quei-
marem o último cartucho, se ati-
raram ao assalto; como os operá-
rios, sem treino militar, resisti-
ram à carga dos cossacos e os
desmontaram à baioneta; como a
multidão anônima, que durante a
noite havia se reunido no campo
de combate, cresceu, formou um
oceano que cobriu o inimigo. Se-
gunda-feira, antes da meia-noite,
os cossacos já estavam dispersos
e, em fuga, abandonando a arti-
lharia. O exército do proletaria-
do, avançando em toda a frente,
entrou em Tsárskoie-Tseló, an-
tes que o inimigo tivesse podido
destruir a grande estação de telé-
grafo, de onde os comissários do
Smólni irradiaram, imediatamen-
te, para o mundo inteiro, um hi-
no de vitória.’’
REVOLUÇÃO RUSSA | 1917 - 2017
CEM ANOS QUE
ABALAM O MUNDO
Em outubro de 1917 (novembro no calendário vigente na Rússia), aconteceu a revolução mais marcante da
história, aquela que pretendia mudar radicalmente o mundo e criar um homem novo. Há cem anos, um
jornalista norte-americano, John Reed, escreveu o mais impressionante relato dos acontecimentos, “Dez dias
que abalaram o mundo”. Nesta edição do Caderno de Sábado, buscamos saber como esse abalo chegou ao
Brasil e ao Rio Grande do Sul. E o que dele resta? Depois da utopia, a distopia, o stalinismo, os expurgos, a
repressão, a censura, a ditadura de uma burocracia, o reino do partido único, a decepção. Por fim, o ocaso da
revolução. Mas para saber como foi o momento da ruptura nada melhor do que reproduzir um fragmento do
livro de Reed intitulado “A Vitória”. (JUREMIR MACHADO DA SILVA)
Estátua de
Lênin junto
à Estação
Finlândia,
em São
Petersburgo
ainda
resiste,
mesmo
depois da
queda da
Cortina
de Ferro
CScaderno de sábado
CORREIO DO POVO SÁBADO,14 de outubro de 2017
Musical mostra uma Alice conectada
“Alice no País da Internet”, musical com Heloísa Pérrissé como pro-
tagonista ao lado da filha mais nova Antonia, que interpreta a Coelha
Falante, ganha apresentação neste sábado, no Teatro do Bourbon
Country (Túlio de Rose, 80). A adaptação livre de “Alice no País das
Maravilhas”, de Lewis Carroll, feita por Chiquinho Nery mostra Alice
caindo dentro um computador. A partir disso, o palco se transforma
em um imenso monitor que abrigará personagens do conto original,
como o Chapeleiro Maluco, e novos integrantes, como o Vírus Virulino.
A montagem traz em sua trilha sonora grandes nomes da música, pas-
sando por Vivaldi, Beethoven, Mursogsky, Chopin e Debussy.
Palavras do bem, canções de amor —
Teatro do Instituto (Riachuelo, 1317),
sábado, às 20h. Grupos Gandharvas
Mantras e Pétala em repertório de can-
ções autorais, mantras em sânscrito e
músicas populares.
Fabio Luz (Itália/Brasil) — Casa da Músi-
ca (Gonçalo de Carvalho, 22), hoje, 18h.
Participação dos pianistas Andrei Liquer,
Ervino Duarte, Jesyel Quevedo, Newton
Wolf e Rodrigo Fernandes. Recital com
obras Ravel, Mozart, Chopin, Luz, Bene-
dictis. Ingresso: valor espontâneo.
Valeria Houston — No Bate Espaço
Cultural (João Alfredo, 701), depois da
meia-noite. Show com canções de seu
primeiro álbum, com canções autorais.
Camila Toledo — No Gravador Pub (Con-
de de Porto Alegre, 22), ás 21h. Show
é o Especial Billie Holiday.
Afrobeat Grooves — No Groova (Miguel
Tostes, 263), 20h. Com som de DJ Da-
mon M., Guto Nesi e Juliano Oster no
FelaDay, em homenagem a Fela Kuti.
Muralha Trio — No Espaço Cultural 512
(João Alfredo, 512), às 23h. Formada por
Edu Meirelles (baixo), Murilo Moura (tecla-
dos e vocal) e Gustavo Telles (bateria e
vocal), a banda Muralha Trio foca em groo-
ves dançantes e envolventes, com temas
próprios e versões de músicas de Smokey
Robinson, Ray Charles e Marvin Gaye.
Tóin 2 — No Instituto Ling (João Caeta-
no, 440), sábado, 15h e 17h. Para crian-
ças entre três e sete anos, com a Muo-
vere Cia de Dança. Aventuras de três
personagens. Direção Jussara Miranda.
João e Maria — No Teatro da Santa
Casa (Independência, 75), sábado, 16h.
Uma adaptação musical do conto dos
Irmãos Grimm. Direção geral de
Dennys D´Almeida e, no elenco, partici-
pam Anna Angelos, Natália Monteiro,
Wagner dos Santos e Danniel Coelho.
Alice Além da Toca do Coelho — No
Theatro São Pedro (Praça da Matriz,
s/n), sábado, 18h. Baseado no livro
clássico de “Alice no país das Maravi-
lhas”, peça mostra as aventuras desse
clássico. Direção Sue Gotardo.
Gurizada Medonha — Renascença (Éri-
co Veríssimo, 307), sábado, às 16h.
Texto original do jornalista Hélio Bar-
cellos Jr. Seis crianças, entre sete e dez
anos de idade, costumam realizar suas
brincadeiras no prédio. A proposta da
peça é realizar uma crônica social do
entre meninos e meninas.
Plugue: desvio imaginativo — No Multi-
palco Theatro São Pedro (Praça da Ma-
triz, s/n˚), sábado, às 16h. Montagem
mostra um lugar onde realidade e ima-
ginação se misturam.
O Hipnotizador de Jacarés — No Teatro
do Sesc (Alberto Bins, 665), sábado, às
16h. Circo Teatro Girassol mostra os pa-
lhaços Serragem, Farinha e Farofa.
O Mirabolante Rei das Tretas — Na Sala
Álvaro Moreyra (Erico Verissimo, 307),
sábado, às 16h. A Quimera Criações Artís-
ticas apresenta as aventuras e desventu-
ras de um rei que faz de tudo (ou manda
seus súditos fazerem por ele) para reali-
zar seu sonho fútil de possuir a mais
mágica e preciosa das roupas.
Caio do Céu — No Teatro Renascença
(Erico Verissimo, 307), neste sábado, às
20h30min. Espetáculo baseado na obra,
cartas, romances e crônicas, de Caio
Fernando Abreu. Com Deborah Finoc-
chiaro e Fernando Sessé. A direção é de
Luis Artur Nunes.
O Clube do Riso — No Teatro Escola Zé
Rodrigues (Paulo Setúbal 117), sábado,
às 20h30min. O Clube do Riso vem com
11 atores interpretando várias situações
do cotidiano com humor.
Aos Sãos — Na Sala Álvaro Moreyra (Eri-
co Verissimo, 307), às 20h. Espetáculo
inspirado na história do manicômio de
Barbacena, que abrigou durante décadas
milhares de pacientes de modo desuma-
no. Com o grupo Trama Coletivo de Tea-
tro. Direção: Thais Andrade
MÚSICA
O século XX começou inspira-
do por uma utopia e no fim de
seus 100 anos acabou mergulha-
do na nostalgia. Esta trajetória
emocional não é exclusiva a
quem observa hoje a Revolução
Russa de 1917. Ocorreu também
com o fracasso da Revolução
Francesa e a vitória da violên-
cia jacobina. No Camboja e na
China não é possível agora des-
pistar a hecatombe genocida da
Revolução Maoísta. A preten-
são redentora das revoluções
políticas parece estar destina-
da sempre a este tipo de desen-
canto, a esta dolorosa queda do
mundo da fantasia.
O andar da história é lento e
o novo homem descrito nos es-
critos rebeldes não nasce do
dia para a noite, como num pas-
se de mágica. Basta ver o que
restou da memória comunista –
a sensação de frustração, o re-
nascimento dos antigos símbo-
los da nacionalidade (em espe-
cial os da Igreja Ortodoxa) e o
fascínio popular pela dinastia
dos Romanov, seus templos, ri-
queza e simbolismo.
A grande obra produzida pe-
la Revolução de 1917 foi desper-
tar e fazer perdurar em várias
gerações de jovens (principal-
mente) a crença no poder místi-
co da luta armada. Ser revolu-
cionário passou a ser um voto
de fé geracional, na capacidade
quase divina desse super-ho-
mem de recriar a natureza hu-
mana, a sociedade e as leis da
economia.
Os jovens mataram e morre-
ram em nome dessa visão. De-
pois, e mais velhos, optaram
por mundos possíveis, embora
imperfeitos. Muitos deles migra-
ram ao ambientalismo. Por isso
mesmo, e com bom humor, os
ingleses denominam agora es-
ses grupos que são verdes por
fora e vermelhos por dentro de
melancia.
A fase romântica é sempre a
mais excitante. Descortina-se
um novo horizonte e um inimi-
go. Sucede-lhe a fase dramática,
mais decepcionante. Descobre-
se a fragilidade humana. Os al-
truístas são poucos, e perecem.
Logo emerge a rebeldia, a revo-
lução na revolução – os dissiden-
tes, que a ferro e fogo são conti-
dos, por um tempo. Depois, é o
abandono e a melancolia.
Ocorre que as ideias não mor-
rem. Elas hibernam, à espera de
melhores dias. O socialismo, em-
bora inviável, é ideal humano
profundo. Comove sempre os
que pensam mais sobre o futuro.
Celebrar a Revolução Russa é al-
go compreensível. Diz respeito à
nossa indulgência com sonhos
acalentados, embora perdidos.
No velho debate entre refor-
mistas e revolucionários, vence-
ram os mencheviques – mais
discretos e menos arrogantes.
Os bolcheviques ganharam a ba-
talha armada, mas foram derro-
tados por seus rebentos maca-
bros – o estalinismo, o campo
de concentração, o gulag, a ine-
ficiência tecnológica, a ditadura
e a opressão política. A derrota
foi acachapante: na Hungria,
na Romênia, na Tchecoslová-
quia, na Alemanha Oriental, e
noutros lugares.
Gorbachev lhes assinou o
atestado de óbito em 1991. Inau-
gurou com isso o mercado das
recordações — comunismo vendi-
do em buttons, t-shirts, bonés e
charutos cubanos.
Não faltaram alertas a esse
desenlace. A crise de 1929, as
guerras mundiais e a ação impe-
rial das potências ocidentais
abalaram a fé no liberalismo e
animaram a crença no coletivis-
mo, no planejamento econômico
e social e no papel gerenciador
e mediador do Estado. A Guerra
Fria promoveu a luta ideológica,
cativou a juventude bem nasci-
da, embora enfadada, aborreci-
da e encantada com os gritos de
guerra evocados por Jean Paul
Sartre, Frantz Fanon, Che Gue-
vara e tantos outros.
Só agora, depois da decep-
ção, dá-se mais atenção ao que
diziam Karl Popper, José Gui-
lherme Merquior, Raymond
Aron, Ludwig von Mises, Friedri-
ch von Hayek e tantos outros. O
embate continua, certamente.
Cerca de 250 ideologias lutam
hoje por nossa atenção e devo-
ção. O embate contra o sistema
persiste nos gritos de guerra da
Jihad islâmica e na aliança táti-
ca que a extrema-esquerda re-
manescente da Europa faz ago-
ra com esses grupos inspirados
em Alá e seu Profeta.
É difícil admitir, mas a Revo-
lução Russa fracassou. Ela não
foi derrotada pela ação imperial
das potências capitalistas, nem
pelos atos de subversão da CIA.
Ela simplesmente apodreceu.
Tal destino tinha sido previsto
ainda nos anos 70 por Andrei Al-
malrick, autor de “Will the So-
viet Union Survive Until 1984?”.
Este autor, como tantos outros,
pagou um preço por sua here-
sia. Preso e confinado, lhe res-
tou a fuga à Holanda em 1976
onde viveu melhores dias.
*Professor do Programa de
Pós-Graduação em
Comunicação da
Famecos/PUCRS. Autor de
“Mídia e Terror: Comunicação
e violência política” e
“Revolucionários, Mártires e
Terroristas — A utopia e suas
consequências” (Paulus)
ROTEIRO
CADERNO DE SÁBADO
JACQUES A. WAINBERG*
Em 1917, havia no Brasil um
grave problema de carestia de vi-
da, que era mais um elemento
da crise econômica resultante da
I Guerra Mundial. O descontenta-
mento do operariado vinha cres-
cendo por conta do aumento do
preço e da escassez dos alimen-
tos, resultados das exportações
para os países em guerra, e pelo
aumento da carga de trabalho
que não era acompanhado por in-
cremento salarial. Em São Paulo,
um movimento grevista, iniciado
em junho, tornou-se uma Greve
Geral que contou com cem mil
aderentes, em um município que
possuía em torno de 500 mil habi-
tantes. Em Porto Alegre, também
houve uma Greve Geral no mês
de agosto daquele ano, na qual
militantes anarquistas e sindica-
listas formaram a Liga de Defesa
Popular e paralisaram a maioria
das atividades econômicas da ca-
pital, conquistando, ao final, mui-
tas das suas reivindicações. Da
mesma forma, nas cidades de Re-
cife, Rio de Janeiro, Pelotas e
Curitiba deflagraram-se grandes
movimentos paredistas.
Foi neste contexto que as notí-
cias sobre a Revolução Russa
chegaram ao Brasil e, especifica-
mente, ao Rio Grande do Sul. Pa-
ra os militantes operários, in-
fluenciados pelo anarquismo e pe-
lo sindicalismo, aquela revolução
prenunciava o fim da I Guerra
Mundial e encaminhava um de-
senlace para o final do próprio
capitalismo, pois a esperança da-
queles trabalhadores apontava
para a futura Revolução Mundial.
O período entre 1917 e 1920 foi
marcado por uma intensa mobili-
zação, com greves, protestos e
tentativas insurrecionais.
No Rio Grande do Sul, os fatos
ocorridos na Rússia dos sovietes
eram difundidos através dos jor-
nais operários como A Dor Huma-
na, de Bagé, O Nosso Verbo, de
Rio Grande e O Syndicalista, de
Porto Alegre. Os temas como a
formação dos sovietes e o comba-
te às potências capitalistas eram
debatidos intensamente nos sindi-
catos, nos comícios e nas ruas.
Em Porto Alegre, surgiu uma das
primeiras organizações que se
identificou com o bolchevismo, a
União Maximalista, fundada em
1918; além disso, os militantes lo-
cais apoiaram, em 1919, a forma-
ção do primeiro Partido Comunis-
ta do Brasil (que era na verdade
uma ampla frente de lutas). Nes-
se contexto, a Revolução Russa
foi acima de tudo um poderoso
exemplo que fecundou a mobiliza-
ção dos trabalhadores pela eman-
cipação de sua própria classe.
Cem anos depois, as greves de
1917 e a Revolução Russa perma-
necem como importantes marcos
na trajetória de lutas e de organi-
zação da classe trabalhadora. É
essencial valorizar e comunicar
esses acontecimentos, incentivan-
do a refletir sobre eles, a fim de
preservar na memória a atuação
daqueles homens e mulheres que
são exemplos de união, de luta,
de coragem e de abnegação. O
resgate da história daquele perío-
do é ainda mais relevante no con-
texto em que vivemos, marcado
pelo avanço do conservadorismo
e pelos ataques cotidianos aos di-
reitos tão duramente conquista-
dos pelos trabalhadores.
*Mestre e Doutor em
História pela Universidade
Federal do Rio Grande do
Sul (Ufrgs). Autor do livro
“O Horizonte Vermelho, O
impacto da Revolução
Russa no movimento
operário do Rio Grande do
Sul, 1917-1920” (Sulina,
2017).
TEATRO
A queda: utopia,
nostalgiaemelancolia
FREDERICO DUARTE BARTZ
AUI CULTURAL / DIVULGAÇÃO / CP
O impacto no
RioGrandedoSul
Antonia,
como a
Coelha Falante,
contracena
com a mãe
Heloísa
Pérrissé
2 | SÁBADO,14 de outubro de 2017 CORREIO DO POVO
1917
A Revolução Russa na
imprensa brasileira
DoutoremComunicação
tratadacoberturadada
àaçãobolcheviqueem
1917pelosperiódicos
brasileirosdaépoca
ÁLVARO NUNES LARANGEIRA
U
m movimento social
em outubro de 1917 re-
definiu o eixo terres-
tre. Fez a água sorver
a areia, o trabalho a ter a consi-
deração do ouro, o tijolo a relu-
zir como diamante e a cor ver-
melha a assombrar céus, man-
sões e covis. Fez os lobos corre-
rem dos cordeiros. Pela primei-
ra vez a classe trabalhadora to-
mava o poder de um país, cuja
dimensão intercontinental com-
preendia um sexto da superfície
do planeta e abrigava 160 mi-
lhões de pessoas representati-
vas de centenas de nacionalida-
des governadas pela dinastia
dos Románov havia 304 anos.
Os trabalhadores passavam do
erguimento das barricadas, re-
curso natural nos confrontos do
século 19, ao inédito controle do
Estado. A Revolução de Outubro
assentou em solo russo a infin-
dável itinerância ao redor do
mundo de ensaios da revolução
proletária e, no Brasil, descorti-
nou a vocacional predisposição
povofóbica do establishment mi-
diático nacional.
A mídia senhoral pátria cele-
brou a deposição do czarismo –
obra de quem a tsarina Alexan-
dra Fiodorovna classificara como
“um movimento de vândalos, rapa-
zes e moças correndo e gritando
que não têm pão, apenas para tu-
multuar, e operários impedindo
que os outros sigam para o traba-
lho” – como uma epopeia liberal.
Vício da época e interpretação
previsível. Afinal, até aquele singu-
lar momento, o proletariado dre-
nava o terreno e semeava a terra,
mas a colheita das insurreições fi-
cava toda ela nas mãos da burgue-
sia. Sans-cullottes, camponeses e
operários destituíam minorias do-
minantes para minorias dominan-
tes tomarem o Estado. Deu-se as-
sim na França nos golpes de Esta-
do de Napoleão Bonaparte em no-
vembro de 1799 e o do sobrinho
Luís Bonaparte em dezembro de
1851 e nas revoluções europeias
dos anos 1830 a 1849. Em situa-
ções específicas, como na Revolu-
ção de Fevereiro de 1848 e na Co-
muna de Paris em 1871, o Tercei-
ro Estado proletário haveria de so-
frer massacres pelo Terceiro Esta-
do burguês.
Em A Noite, Irineu Marinho,
o patriarca do contemporâneo
Grupo Globo, ressaltava na edi-
ção de 16 de março (havia dife-
rença de 13 dias entre o calendá-
rio ocidental gregoriano e o ca-
lendário juliano, em vigência na
Rússia até 1918) “os sucessos
do movimento liberal em Petro-
grado e Moscou” e entrelinhava,
no texto principal, haver restado
aos “patriotas russos” destituir Ni-
colau II – o termo exato foi “sacri-
ficar o czar” – porque, afora o go-
verno demonstrar simpatia pela
Alemanha (embora estivessem em
guerra), o operariado de Petrogra-
do promovia, influenciado por
agentes germanófilos, greves para
boicotar a produção de armamen-
tos e munições e conflitos com as
forças czaristas. De maneira indé-
bita, tal qual fazia o capital em re-
lação ao trabalho havia séculos,
apropriava-se a mídia patronal do
enfrentamento iniciado pelas mu-
lheres, no Dia Internacional da
Mulher (23 de fevereiro na Rús-
sia), por alimentos e contra a
guerra, encorpado pelos trabalha-
dores das indústrias têxtil e bélica
em greve e respaldado por guarni-
ções militares solidárias aos mani-
festantes e insurretas às ordens
de retaliação dos insurgentes.
O alinhamento do periódico
transpareceria melhor em episó-
dios subsequentes. Em 10 de no-
vembro, o jornal de Irineu Marinho
desqualificava o gabinete constituí-
do por Lenin, tão logo implementa-
da a revolução bolchevique em 25
de outubro (7 de novembro no
Brasil): “Em uma palavra, além
de agentes da Alemanha, que qua-
se todos eles o são mais ou me-
nos disfarçadamente, os novos
‘ministros’ russos são anarquistas
ou sindicalistas”. E ironizava: “...e
a sra. Kollonty (Alexandra Kollon-
tai, bolchevique, feminista e teóri-
ca do marxismo), propagandista
sindicalista, que foi nomeada... mi-
nistra das Obras Públicas”. A
preocupação de fundo do poste-
rior fundador de O Globo era com
as propostas bolcheviques de “dis-
tribuição de terras, da abolição
da força armada, da subversão,
afinal, de toda a ordem constituí-
da”. Tirando a última, as demais
proposições, redistribuição fun-
diária e reformulação militar,
constavam da proposta inicial do
governo provisório formado às
pressas em 2 de março (15 de
março no Ocidente) para aplacar
e frear a rebelião popular passível
de desdobramentos indesejáveis
aos monarquistas, latifundiários,
banqueiros e industriais.
Camaleônicas adjetivações
midiáticas orientadas por incrusta-
dos definidores ideológicos são re-
correntes no jornalismo. Napoleão
foi um caso clássico, protagoniza-
do pelo parisiense Le Moniteur
Universel. “O antropófago saiu da
toca”, titulava o jornal em 9 de
março de 1815, na fuga de Bona-
parte da Ilha de Elba; “O ogro da
Córsega desembarcou no cabo
Juan” (10/3); “O tigre apareceu em
Gap” (11/3); “O monstro pernoitou
em Grenoble” (12/3); “O tirano es-
tá em Lyon” (13/3); “Bonaparte
avança a passos largos...” (19/3),
para, dia 23, noticiar: “Sua majes-
tade imperial deu entrada solene-
mente em Paris, entre seus fiéis sú-
ditos”. Lenin também passaria pe-
lo polimento semântico midiático
no interregno compreendido entre
o retorno a Rússia em abril, na
condição de exilado do regime tsa-
rista pelas manifestações de 1905,
a líder bolchevique e presidente do
conselho soviético instalado em ou-
tubro, a partir da derrubada do Go-
verno Provisório Russo chefiado
por Alexander Kerensky.
Em 20 de abril, n’O Estado
de S. Paulo, Lenin é o criticado “so-
cialista democrata, que acaba de
chegar do exílio, aconselhando o
governo a solicitar a paz à Alema-
nha”. Referência branda e amigá-
vel a quem enunciaria as Teses de
Abril conclamando o poder ao pro-
letariado, publicadas naquele dia
no Pravda. Em 10 de maio, Lenin
seria elevado à categoria de “chefe
socialista radical russo”. Passados
dois meses, Vladimir Ilitch retorna
às páginas do diário paulista em
20 de julho, agora como socialista
subsidiado pela Alemanha. Mais
11 dias e seria somado ao nome
de Lenin o adjetivo agitador, conta-
bilizando a ele a responsabilidade
pelas manifestações de junho con-
vocadas pelo Primeiro Congresso
dos Sovietes dos Delegados Operá-
rios e Soldados de Toda Rússia –
no qual os bolcheviques eram mi-
noria –, em repúdio à ofensiva no
front da guerra determinada pelo
Governo Provisório, e dos confron-
tos campais com o governo nas de-
nominadas Jornadas de Julho. Em
1918, à frente da República Soviéti-
ca, por vezes Lenin ganharia o
epíteto de ditador.
Por isso, são compreensíveis as
manchetes do Correio da Manhã
relativas a fevereiro e outubro de
1917. A queda do Czar, com a for-
mação de um gabinete monárqui-
co-liberal presidido por um aristo-
crata, o príncipe Georgy Lvov, e ha-
vendo a predominância dos repre-
sentantes das classes proprietá-
rias, mereceu na capa a definição
de “Uma revolução na Rússia”. En-
quanto a conquista do poder pelos
Sovietes – instância deliberativa
dos operários, camponeses e solda-
dos – receberia na terceira página
o cunho de indisciplina militar,
com projeções funestas: “Deposto
Kerensky pelo Conselho de Solda-
dos e Operários, a Rússia entra
em franco regime de anarquia”.
Cristalizava-se, assim, a vocacio-
nal lógica povofóbica do establish-
ment midiático brasileiro.
*Doutor em Comunicação,
jornalista, professor na
Universidade Tuiuti do Paraná.
Desenvolve pesquisa CNPq sobre
a Revolução Russa na imprensa
brasileira
CADERNO DE SÁBADO
SÁBADO,14 de outubro de 2017 | 3CORREIO DO POVO
REPRODUÇÃO / CP
CADERNODESÁBADO
ROBERTO AMARAL
Sobre a revolução russa de 1917
Escritor faz uma
análise da revolução
e os seus efeitos
nas décadas seguintes
até o fim em 1991
E
screvo como beneficiário
da Revolução de 1917,
que desde o primeiro mo-
mento extrapolou os lar-
gos limites territoriais e políticos
herdados do império czarista. Re-
volução popular e de massas, de
base camponesa, conheceu o êxi-
to surpreendente em país sem ba-
se industrial, mudou o curso da
História, para melhor, e suas con-
quistas permanecem atuais, mui-
tas incorporadas pelo patrimônio
político da humanidade. Sua in-
fluência sobre o mundo não se en-
cerrou na noite de 26 de dezem-
bro de 1991, quando a bandeira
vermelha foi arriada pela última
vez do mastro do Kremlin. À Re-
volução bolchevista devemos nos-
sa própria sobrevivência: depois
de poupar-nos do totalitarismo
nazifascista, ao derrotar a Alema-
nha, livrou-nos da morte planetá-
ria. O esforço militar, científico e
tecnológico desenvolvido mesmo
em prejuízo da qualidade de vida
de seu povo, possibilitou a parida-
de nuclear que evitou, e tem evi-
tado até aqui a hecatombe com a
qual a Guerra Fria ameaçava des-
truir a Terra, espectro, aliás,
sempre presente enquanto a paz
depender dos interesses que mo-
vem o complexo militar-industrial
que governa os EUA, ou enquan-
to o futuro da humanidade depen-
der da insanidade de líderes co-
mo Trump.
A Revolução – primeira gran-
de tentativa de construção de
uma sociedade fundada na igual-
dade, primeiro projeto de aboli-
ção da propriedade privada, pro-
messa de um Estado dirigido pe-
los trabalhadores – alterou defini-
tivamente a geopolítica mundial,
influenciou o pensamento político-
filosófico e detonou o colonialis-
mo. Alterando a ordem dominan-
te até a Segunda Guerra, a União
Soviética foi a parteira da
descolonização da África e da
Ásia, ensejou e garantiu experiên-
cias como a cubana e foi decisiva
na libertação do Vietnã.
Seus sucessos econômicos, so-
ciais, científicos e militares trans-
formaram-se em instrumentos de
luta ideológica e alimentaram em
todo o mundo a organização dos
trabalhadores, abrindo caminho
para os partidos trabalhistas e
de esquerda, a que tiveram de
responder a socialdemocracia e
as forças conservadoras, temero-
sas de que o exemplo soviético,
ganhando a consciência social, se
reproduzisse em seus países. As
políticas sociais e econômicas do
ocidente foram obrigadas a fazer
concessões aos programas socia-
listas, como tentativa, afinal bem
sucedida, de conter a luta de clas-
ses, quando crescia planetaria-
mente o movimento comunista.
No seu rasto avançaram as políti-
cas democráticas, socialistas e
progressistas de um modo geral,
elevaram-se à ordem do dia a de-
fesa da dignidade humana, a lu-
ta contra as discriminações so-
ciais, econômicas e étnicas, os
direitos de camponeses e traba-
lhadores, a liberdade sindical,
conquistas fundamentais como a
jornada de oito horas, o direito a
férias e aposentadoria, o sufrá-
gio universal e o voto feminino
e, principalmente na Europa, a
defesa da paz.
Deve-se à Revolução e a essa
emergência das ideias progressis-
tas o surgimento do que se viria
chamar de ‘constitucionalismo so-
cial’, marcando de forma decisiva
todas as constituições políticas
elaboradas ou revisadas após
1917, inclusive as brasileiras a
partir do texto de 1934.
Cessada, porém, a ameaça,
cessados seriam os direitos, cas-
sadas as conquistas. Uma das
muitas consequências do colapso
da URSS em 1991 é o desenca-
deamento, em escala mundial, de
ofensiva destinada a retirar ou re-
duzir os direitos dos trabalhado-
res e assalariados de um modo
geral, onda que percorre todo o
mundo, que atinge principalmen-
te a Europa, e chega até nós,
aqui embalada pela hegemonia
conservadora representada pelo
governo de fato de Michel Temer.
O que estamos assistindo, no
Brasil, reproduzindo o avanço an-
tissocial do neoliberalismo vitorio-
so, não seria possível se os direi-
tos agora ameaçados ou cassa-
dos tivessem a sustentá-los um
amplo e forte movimento sindi-
cal, cujo declínio se deve maior-
mente à crise da ação e do pensa-
mento de esquerda, detonada
com a autodissolução do império
soviético. Um de seus indicado-
res é a quase absoluta falência
dos partidos comunistas ociden-
tais e o recuo histórico da esquer-
da socialista, subsumida, política
e eleitoralmente pela socialdemo-
cracia. Exemplo paradigmático
nos oferecem a Itália com o fim
do Partido Comunista Italiano, e
a França de nossos dias, com os
suicídios dos seus Partido Comu-
nista e Partido Socialista.
Se fracassou em seu projeto
de construir a primeira experiên-
cia de governo e sociedade comu-
nistas, e o fim da URSS é atesta-
do definitivo, o grande feito da
Revolução foi transformar na se-
gunda grande potência do mun-
do um país de estrutura agrária
quase feudal, sem base indus-
trial, destroçado pela Primeira
Grande Guerra, sem infraestrutu-
ra, com a produção agrícola em
queda e a indústria aos franga-
lhos. Acrescente-se que a revolu-
ção detonada em 1917 só se da-
ria como estabelecida em 1921,
com a derrota da última brigada
branca na Crimeia.
O Estado teria que lidar sem-
pre, do primeiro ao último dia,
com a hostilidade, a agressão e
o bloqueio político, econômico,
científico, tecnológico e militar
das potências ocidentais. Para
conter o ‘expansionismo comu-
nista’ foi criada (1949) a OTAN
(Organização do Atlântico Nor-
te), a mais terrível e poderosa
coalizão bélica jamais conheci-
da pela humanidade, ainda hoje
de pé e ameaçadora.
Não obstante tudo isso, a
URSS promoveu os direitos das
mulheres, saúde e educação (da
creche à universidade) univer-
sais e gratuitas, habitação, trans-
porte público de massa e o pleno
emprego, sonhos brasileiros na
segunda década do terceiro milê-
nio. Mas não lograria superar a
baixa densidade democrática e
manteria gulags, as ‘internações’
e os expurgos. Experimentaria
também os crimes da era stalinis-
ta, a fase perversa da Revolução,
denunciada por Kruschev no céle-
bre discurso no 20˚ Congresso do
PCUS (fevereiro de 1956).
A debacle, acionada sem que
o ocidente precisasse dar um só
tiro de garrucha, a interrupção
da experiência do chamado ‘so-
cialismo real’, substituída pela
concretude de um capitalismo
selvagem, representa, porém, co-
mo o outro lado da mesma moe-
da, uma catástrofe geopolítica
quando consolida a hegemonia
econômica, militar, política e
cultural de uma só potência, im-
perialista e guerreira.
Talvez ainda seja cedo para fa-
zer o julgamento dessa Revolu-
ção que representou para o mun-
do a promessa da sociedade
sem classes e nos legou um mo-
delo de Estado autoritário e bu-
rocrático.
*Escritor, cientista
político, autor, entre outros
livros, de “Socialismo, Vida,
Morte e Ressurreição” (Vozes)
SÁBADO,14 de outubro de 2017

Revolução russa

  • 1.
    LUIZGONZAGALOPES/ESPECIAL/CP Coordenador Editorial: JuremirMachado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br Editor: Luiz Gonzaga Lopes | lgferreira@correiodopovo.com.br “T erça-feira, de manhã. Mas seria possível? Dois dias antes, no campo de Petrogra- do, havia apenas bandos sem chefes, sem víveres, sem artilha- ria, vagando à toa, sem nenhu- ma orientação. Que teria fundi- do essas massas desorganiza- das e sem disciplina, de guardas vermelhos e de soldados sem ofi- ciais, num exército obediente aos chefes por eles mesmos es- colhidos, num exército tempera- do para receber o choque da ar- tilharia e o assalto da cavalaria cossaca? Os povos sublevados transtor- nam todas as regras da arte mili- tar. Basta lembrar os exércitos esfarrapados da Revolução Francesa, em Valmy, e Wis- senburg. As forças soviéti- cas tinham pela frente o bloco dos junkers, dos cossacos, dos gran- des proprietários, da nobreza, dos Cem Negros, a pers- pectiva de restaura- ção do czar, da Okhrana, das pri- sões siberianas e, além disso, a terrível ameaça do imperialis- mo alemão... A vitória era o fim da opressão e o começo de uma era nova e feliz! Domingo à noite, enquanto os comissários do Comitê Mili- tar Revolucionário voltavam, desesperados, do campo de ba- talha, a guarnição de Petrogra- do elegia seu Comitê dos Cin- co, seu estado-maior de comba- te: três soldados e dois oficiais, todos inimigos jurados da contrarrevolução. O tenente-co- ronel Muraviov, antigo patriota, era um homem capaz. Mas os re- volucionários precisavam vigiá- lo. Em Kolpino, Obukhovo, Pulkovo, Krásnoie-Tseló, forma- vam-se destacamentos provisó- rios. Os efetivos desses destaca- mentos, aumentados com as uni- dades extraviadas, que iam sen- do pouco a pouco incorporadas, compunham-se de soldados, ma- rinheiros, guardas vermelhos, in- fantaria, cavalaria e artilharia, tudo misturado, e ainda de car- ros blindados. Ao amanhecer, entrou-se em contato com as patrulhas cossa- cas de Kerenski. Em cada encon- tro, uma descarga, uma ordem de rendição. No ar frio e parado, elevava-se o fragor da batalha. Nos bandos errantes, acampa- dos ao redor das fogueiras, os homens diziam: — Começou. — E logo marchavam para o comba- te. Por todas as estradas e cami- nhos, os trabalhadores, em gru- po, apressavam o passo. Sur- giam, assim, como por milagre, de todos os pontos, multidões exasperadas. Os comissários iam ao seu encontro, distribuin- do posições a ocupar, ou traba- lho a executar. Desta vez, a guerra era sua, a guerra e o mundo, o seu mundo. E os che- fes escolhidos por eles mesmos. As vontades múltiplas e incoe- rentes da massa fundiam-se nu- ma vontade única. Os combatentes dessas jorna- das, mais tarde, contaram como os marinheiros, depois de quei- marem o último cartucho, se ati- raram ao assalto; como os operá- rios, sem treino militar, resisti- ram à carga dos cossacos e os desmontaram à baioneta; como a multidão anônima, que durante a noite havia se reunido no campo de combate, cresceu, formou um oceano que cobriu o inimigo. Se- gunda-feira, antes da meia-noite, os cossacos já estavam dispersos e, em fuga, abandonando a arti- lharia. O exército do proletaria- do, avançando em toda a frente, entrou em Tsárskoie-Tseló, an- tes que o inimigo tivesse podido destruir a grande estação de telé- grafo, de onde os comissários do Smólni irradiaram, imediatamen- te, para o mundo inteiro, um hi- no de vitória.’’ REVOLUÇÃO RUSSA | 1917 - 2017 CEM ANOS QUE ABALAM O MUNDO Em outubro de 1917 (novembro no calendário vigente na Rússia), aconteceu a revolução mais marcante da história, aquela que pretendia mudar radicalmente o mundo e criar um homem novo. Há cem anos, um jornalista norte-americano, John Reed, escreveu o mais impressionante relato dos acontecimentos, “Dez dias que abalaram o mundo”. Nesta edição do Caderno de Sábado, buscamos saber como esse abalo chegou ao Brasil e ao Rio Grande do Sul. E o que dele resta? Depois da utopia, a distopia, o stalinismo, os expurgos, a repressão, a censura, a ditadura de uma burocracia, o reino do partido único, a decepção. Por fim, o ocaso da revolução. Mas para saber como foi o momento da ruptura nada melhor do que reproduzir um fragmento do livro de Reed intitulado “A Vitória”. (JUREMIR MACHADO DA SILVA) Estátua de Lênin junto à Estação Finlândia, em São Petersburgo ainda resiste, mesmo depois da queda da Cortina de Ferro CScaderno de sábado CORREIO DO POVO SÁBADO,14 de outubro de 2017
  • 2.
    Musical mostra umaAlice conectada “Alice no País da Internet”, musical com Heloísa Pérrissé como pro- tagonista ao lado da filha mais nova Antonia, que interpreta a Coelha Falante, ganha apresentação neste sábado, no Teatro do Bourbon Country (Túlio de Rose, 80). A adaptação livre de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, feita por Chiquinho Nery mostra Alice caindo dentro um computador. A partir disso, o palco se transforma em um imenso monitor que abrigará personagens do conto original, como o Chapeleiro Maluco, e novos integrantes, como o Vírus Virulino. A montagem traz em sua trilha sonora grandes nomes da música, pas- sando por Vivaldi, Beethoven, Mursogsky, Chopin e Debussy. Palavras do bem, canções de amor — Teatro do Instituto (Riachuelo, 1317), sábado, às 20h. Grupos Gandharvas Mantras e Pétala em repertório de can- ções autorais, mantras em sânscrito e músicas populares. Fabio Luz (Itália/Brasil) — Casa da Músi- ca (Gonçalo de Carvalho, 22), hoje, 18h. Participação dos pianistas Andrei Liquer, Ervino Duarte, Jesyel Quevedo, Newton Wolf e Rodrigo Fernandes. Recital com obras Ravel, Mozart, Chopin, Luz, Bene- dictis. Ingresso: valor espontâneo. Valeria Houston — No Bate Espaço Cultural (João Alfredo, 701), depois da meia-noite. Show com canções de seu primeiro álbum, com canções autorais. Camila Toledo — No Gravador Pub (Con- de de Porto Alegre, 22), ás 21h. Show é o Especial Billie Holiday. Afrobeat Grooves — No Groova (Miguel Tostes, 263), 20h. Com som de DJ Da- mon M., Guto Nesi e Juliano Oster no FelaDay, em homenagem a Fela Kuti. Muralha Trio — No Espaço Cultural 512 (João Alfredo, 512), às 23h. Formada por Edu Meirelles (baixo), Murilo Moura (tecla- dos e vocal) e Gustavo Telles (bateria e vocal), a banda Muralha Trio foca em groo- ves dançantes e envolventes, com temas próprios e versões de músicas de Smokey Robinson, Ray Charles e Marvin Gaye. Tóin 2 — No Instituto Ling (João Caeta- no, 440), sábado, 15h e 17h. Para crian- ças entre três e sete anos, com a Muo- vere Cia de Dança. Aventuras de três personagens. Direção Jussara Miranda. João e Maria — No Teatro da Santa Casa (Independência, 75), sábado, 16h. Uma adaptação musical do conto dos Irmãos Grimm. Direção geral de Dennys D´Almeida e, no elenco, partici- pam Anna Angelos, Natália Monteiro, Wagner dos Santos e Danniel Coelho. Alice Além da Toca do Coelho — No Theatro São Pedro (Praça da Matriz, s/n), sábado, 18h. Baseado no livro clássico de “Alice no país das Maravi- lhas”, peça mostra as aventuras desse clássico. Direção Sue Gotardo. Gurizada Medonha — Renascença (Éri- co Veríssimo, 307), sábado, às 16h. Texto original do jornalista Hélio Bar- cellos Jr. Seis crianças, entre sete e dez anos de idade, costumam realizar suas brincadeiras no prédio. A proposta da peça é realizar uma crônica social do entre meninos e meninas. Plugue: desvio imaginativo — No Multi- palco Theatro São Pedro (Praça da Ma- triz, s/n˚), sábado, às 16h. Montagem mostra um lugar onde realidade e ima- ginação se misturam. O Hipnotizador de Jacarés — No Teatro do Sesc (Alberto Bins, 665), sábado, às 16h. Circo Teatro Girassol mostra os pa- lhaços Serragem, Farinha e Farofa. O Mirabolante Rei das Tretas — Na Sala Álvaro Moreyra (Erico Verissimo, 307), sábado, às 16h. A Quimera Criações Artís- ticas apresenta as aventuras e desventu- ras de um rei que faz de tudo (ou manda seus súditos fazerem por ele) para reali- zar seu sonho fútil de possuir a mais mágica e preciosa das roupas. Caio do Céu — No Teatro Renascença (Erico Verissimo, 307), neste sábado, às 20h30min. Espetáculo baseado na obra, cartas, romances e crônicas, de Caio Fernando Abreu. Com Deborah Finoc- chiaro e Fernando Sessé. A direção é de Luis Artur Nunes. O Clube do Riso — No Teatro Escola Zé Rodrigues (Paulo Setúbal 117), sábado, às 20h30min. O Clube do Riso vem com 11 atores interpretando várias situações do cotidiano com humor. Aos Sãos — Na Sala Álvaro Moreyra (Eri- co Verissimo, 307), às 20h. Espetáculo inspirado na história do manicômio de Barbacena, que abrigou durante décadas milhares de pacientes de modo desuma- no. Com o grupo Trama Coletivo de Tea- tro. Direção: Thais Andrade MÚSICA O século XX começou inspira- do por uma utopia e no fim de seus 100 anos acabou mergulha- do na nostalgia. Esta trajetória emocional não é exclusiva a quem observa hoje a Revolução Russa de 1917. Ocorreu também com o fracasso da Revolução Francesa e a vitória da violên- cia jacobina. No Camboja e na China não é possível agora des- pistar a hecatombe genocida da Revolução Maoísta. A preten- são redentora das revoluções políticas parece estar destina- da sempre a este tipo de desen- canto, a esta dolorosa queda do mundo da fantasia. O andar da história é lento e o novo homem descrito nos es- critos rebeldes não nasce do dia para a noite, como num pas- se de mágica. Basta ver o que restou da memória comunista – a sensação de frustração, o re- nascimento dos antigos símbo- los da nacionalidade (em espe- cial os da Igreja Ortodoxa) e o fascínio popular pela dinastia dos Romanov, seus templos, ri- queza e simbolismo. A grande obra produzida pe- la Revolução de 1917 foi desper- tar e fazer perdurar em várias gerações de jovens (principal- mente) a crença no poder místi- co da luta armada. Ser revolu- cionário passou a ser um voto de fé geracional, na capacidade quase divina desse super-ho- mem de recriar a natureza hu- mana, a sociedade e as leis da economia. Os jovens mataram e morre- ram em nome dessa visão. De- pois, e mais velhos, optaram por mundos possíveis, embora imperfeitos. Muitos deles migra- ram ao ambientalismo. Por isso mesmo, e com bom humor, os ingleses denominam agora es- ses grupos que são verdes por fora e vermelhos por dentro de melancia. A fase romântica é sempre a mais excitante. Descortina-se um novo horizonte e um inimi- go. Sucede-lhe a fase dramática, mais decepcionante. Descobre- se a fragilidade humana. Os al- truístas são poucos, e perecem. Logo emerge a rebeldia, a revo- lução na revolução – os dissiden- tes, que a ferro e fogo são conti- dos, por um tempo. Depois, é o abandono e a melancolia. Ocorre que as ideias não mor- rem. Elas hibernam, à espera de melhores dias. O socialismo, em- bora inviável, é ideal humano profundo. Comove sempre os que pensam mais sobre o futuro. Celebrar a Revolução Russa é al- go compreensível. Diz respeito à nossa indulgência com sonhos acalentados, embora perdidos. No velho debate entre refor- mistas e revolucionários, vence- ram os mencheviques – mais discretos e menos arrogantes. Os bolcheviques ganharam a ba- talha armada, mas foram derro- tados por seus rebentos maca- bros – o estalinismo, o campo de concentração, o gulag, a ine- ficiência tecnológica, a ditadura e a opressão política. A derrota foi acachapante: na Hungria, na Romênia, na Tchecoslová- quia, na Alemanha Oriental, e noutros lugares. Gorbachev lhes assinou o atestado de óbito em 1991. Inau- gurou com isso o mercado das recordações — comunismo vendi- do em buttons, t-shirts, bonés e charutos cubanos. Não faltaram alertas a esse desenlace. A crise de 1929, as guerras mundiais e a ação impe- rial das potências ocidentais abalaram a fé no liberalismo e animaram a crença no coletivis- mo, no planejamento econômico e social e no papel gerenciador e mediador do Estado. A Guerra Fria promoveu a luta ideológica, cativou a juventude bem nasci- da, embora enfadada, aborreci- da e encantada com os gritos de guerra evocados por Jean Paul Sartre, Frantz Fanon, Che Gue- vara e tantos outros. Só agora, depois da decep- ção, dá-se mais atenção ao que diziam Karl Popper, José Gui- lherme Merquior, Raymond Aron, Ludwig von Mises, Friedri- ch von Hayek e tantos outros. O embate continua, certamente. Cerca de 250 ideologias lutam hoje por nossa atenção e devo- ção. O embate contra o sistema persiste nos gritos de guerra da Jihad islâmica e na aliança táti- ca que a extrema-esquerda re- manescente da Europa faz ago- ra com esses grupos inspirados em Alá e seu Profeta. É difícil admitir, mas a Revo- lução Russa fracassou. Ela não foi derrotada pela ação imperial das potências capitalistas, nem pelos atos de subversão da CIA. Ela simplesmente apodreceu. Tal destino tinha sido previsto ainda nos anos 70 por Andrei Al- malrick, autor de “Will the So- viet Union Survive Until 1984?”. Este autor, como tantos outros, pagou um preço por sua here- sia. Preso e confinado, lhe res- tou a fuga à Holanda em 1976 onde viveu melhores dias. *Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Famecos/PUCRS. Autor de “Mídia e Terror: Comunicação e violência política” e “Revolucionários, Mártires e Terroristas — A utopia e suas consequências” (Paulus) ROTEIRO CADERNO DE SÁBADO JACQUES A. WAINBERG* Em 1917, havia no Brasil um grave problema de carestia de vi- da, que era mais um elemento da crise econômica resultante da I Guerra Mundial. O descontenta- mento do operariado vinha cres- cendo por conta do aumento do preço e da escassez dos alimen- tos, resultados das exportações para os países em guerra, e pelo aumento da carga de trabalho que não era acompanhado por in- cremento salarial. Em São Paulo, um movimento grevista, iniciado em junho, tornou-se uma Greve Geral que contou com cem mil aderentes, em um município que possuía em torno de 500 mil habi- tantes. Em Porto Alegre, também houve uma Greve Geral no mês de agosto daquele ano, na qual militantes anarquistas e sindica- listas formaram a Liga de Defesa Popular e paralisaram a maioria das atividades econômicas da ca- pital, conquistando, ao final, mui- tas das suas reivindicações. Da mesma forma, nas cidades de Re- cife, Rio de Janeiro, Pelotas e Curitiba deflagraram-se grandes movimentos paredistas. Foi neste contexto que as notí- cias sobre a Revolução Russa chegaram ao Brasil e, especifica- mente, ao Rio Grande do Sul. Pa- ra os militantes operários, in- fluenciados pelo anarquismo e pe- lo sindicalismo, aquela revolução prenunciava o fim da I Guerra Mundial e encaminhava um de- senlace para o final do próprio capitalismo, pois a esperança da- queles trabalhadores apontava para a futura Revolução Mundial. O período entre 1917 e 1920 foi marcado por uma intensa mobili- zação, com greves, protestos e tentativas insurrecionais. No Rio Grande do Sul, os fatos ocorridos na Rússia dos sovietes eram difundidos através dos jor- nais operários como A Dor Huma- na, de Bagé, O Nosso Verbo, de Rio Grande e O Syndicalista, de Porto Alegre. Os temas como a formação dos sovietes e o comba- te às potências capitalistas eram debatidos intensamente nos sindi- catos, nos comícios e nas ruas. Em Porto Alegre, surgiu uma das primeiras organizações que se identificou com o bolchevismo, a União Maximalista, fundada em 1918; além disso, os militantes lo- cais apoiaram, em 1919, a forma- ção do primeiro Partido Comunis- ta do Brasil (que era na verdade uma ampla frente de lutas). Nes- se contexto, a Revolução Russa foi acima de tudo um poderoso exemplo que fecundou a mobiliza- ção dos trabalhadores pela eman- cipação de sua própria classe. Cem anos depois, as greves de 1917 e a Revolução Russa perma- necem como importantes marcos na trajetória de lutas e de organi- zação da classe trabalhadora. É essencial valorizar e comunicar esses acontecimentos, incentivan- do a refletir sobre eles, a fim de preservar na memória a atuação daqueles homens e mulheres que são exemplos de união, de luta, de coragem e de abnegação. O resgate da história daquele perío- do é ainda mais relevante no con- texto em que vivemos, marcado pelo avanço do conservadorismo e pelos ataques cotidianos aos di- reitos tão duramente conquista- dos pelos trabalhadores. *Mestre e Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Autor do livro “O Horizonte Vermelho, O impacto da Revolução Russa no movimento operário do Rio Grande do Sul, 1917-1920” (Sulina, 2017). TEATRO A queda: utopia, nostalgiaemelancolia FREDERICO DUARTE BARTZ AUI CULTURAL / DIVULGAÇÃO / CP O impacto no RioGrandedoSul Antonia, como a Coelha Falante, contracena com a mãe Heloísa Pérrissé 2 | SÁBADO,14 de outubro de 2017 CORREIO DO POVO
  • 3.
    1917 A Revolução Russana imprensa brasileira DoutoremComunicação tratadacoberturadada àaçãobolcheviqueem 1917pelosperiódicos brasileirosdaépoca ÁLVARO NUNES LARANGEIRA U m movimento social em outubro de 1917 re- definiu o eixo terres- tre. Fez a água sorver a areia, o trabalho a ter a consi- deração do ouro, o tijolo a relu- zir como diamante e a cor ver- melha a assombrar céus, man- sões e covis. Fez os lobos corre- rem dos cordeiros. Pela primei- ra vez a classe trabalhadora to- mava o poder de um país, cuja dimensão intercontinental com- preendia um sexto da superfície do planeta e abrigava 160 mi- lhões de pessoas representati- vas de centenas de nacionalida- des governadas pela dinastia dos Románov havia 304 anos. Os trabalhadores passavam do erguimento das barricadas, re- curso natural nos confrontos do século 19, ao inédito controle do Estado. A Revolução de Outubro assentou em solo russo a infin- dável itinerância ao redor do mundo de ensaios da revolução proletária e, no Brasil, descorti- nou a vocacional predisposição povofóbica do establishment mi- diático nacional. A mídia senhoral pátria cele- brou a deposição do czarismo – obra de quem a tsarina Alexan- dra Fiodorovna classificara como “um movimento de vândalos, rapa- zes e moças correndo e gritando que não têm pão, apenas para tu- multuar, e operários impedindo que os outros sigam para o traba- lho” – como uma epopeia liberal. Vício da época e interpretação previsível. Afinal, até aquele singu- lar momento, o proletariado dre- nava o terreno e semeava a terra, mas a colheita das insurreições fi- cava toda ela nas mãos da burgue- sia. Sans-cullottes, camponeses e operários destituíam minorias do- minantes para minorias dominan- tes tomarem o Estado. Deu-se as- sim na França nos golpes de Esta- do de Napoleão Bonaparte em no- vembro de 1799 e o do sobrinho Luís Bonaparte em dezembro de 1851 e nas revoluções europeias dos anos 1830 a 1849. Em situa- ções específicas, como na Revolu- ção de Fevereiro de 1848 e na Co- muna de Paris em 1871, o Tercei- ro Estado proletário haveria de so- frer massacres pelo Terceiro Esta- do burguês. Em A Noite, Irineu Marinho, o patriarca do contemporâneo Grupo Globo, ressaltava na edi- ção de 16 de março (havia dife- rença de 13 dias entre o calendá- rio ocidental gregoriano e o ca- lendário juliano, em vigência na Rússia até 1918) “os sucessos do movimento liberal em Petro- grado e Moscou” e entrelinhava, no texto principal, haver restado aos “patriotas russos” destituir Ni- colau II – o termo exato foi “sacri- ficar o czar” – porque, afora o go- verno demonstrar simpatia pela Alemanha (embora estivessem em guerra), o operariado de Petrogra- do promovia, influenciado por agentes germanófilos, greves para boicotar a produção de armamen- tos e munições e conflitos com as forças czaristas. De maneira indé- bita, tal qual fazia o capital em re- lação ao trabalho havia séculos, apropriava-se a mídia patronal do enfrentamento iniciado pelas mu- lheres, no Dia Internacional da Mulher (23 de fevereiro na Rús- sia), por alimentos e contra a guerra, encorpado pelos trabalha- dores das indústrias têxtil e bélica em greve e respaldado por guarni- ções militares solidárias aos mani- festantes e insurretas às ordens de retaliação dos insurgentes. O alinhamento do periódico transpareceria melhor em episó- dios subsequentes. Em 10 de no- vembro, o jornal de Irineu Marinho desqualificava o gabinete constituí- do por Lenin, tão logo implementa- da a revolução bolchevique em 25 de outubro (7 de novembro no Brasil): “Em uma palavra, além de agentes da Alemanha, que qua- se todos eles o são mais ou me- nos disfarçadamente, os novos ‘ministros’ russos são anarquistas ou sindicalistas”. E ironizava: “...e a sra. Kollonty (Alexandra Kollon- tai, bolchevique, feminista e teóri- ca do marxismo), propagandista sindicalista, que foi nomeada... mi- nistra das Obras Públicas”. A preocupação de fundo do poste- rior fundador de O Globo era com as propostas bolcheviques de “dis- tribuição de terras, da abolição da força armada, da subversão, afinal, de toda a ordem constituí- da”. Tirando a última, as demais proposições, redistribuição fun- diária e reformulação militar, constavam da proposta inicial do governo provisório formado às pressas em 2 de março (15 de março no Ocidente) para aplacar e frear a rebelião popular passível de desdobramentos indesejáveis aos monarquistas, latifundiários, banqueiros e industriais. Camaleônicas adjetivações midiáticas orientadas por incrusta- dos definidores ideológicos são re- correntes no jornalismo. Napoleão foi um caso clássico, protagoniza- do pelo parisiense Le Moniteur Universel. “O antropófago saiu da toca”, titulava o jornal em 9 de março de 1815, na fuga de Bona- parte da Ilha de Elba; “O ogro da Córsega desembarcou no cabo Juan” (10/3); “O tigre apareceu em Gap” (11/3); “O monstro pernoitou em Grenoble” (12/3); “O tirano es- tá em Lyon” (13/3); “Bonaparte avança a passos largos...” (19/3), para, dia 23, noticiar: “Sua majes- tade imperial deu entrada solene- mente em Paris, entre seus fiéis sú- ditos”. Lenin também passaria pe- lo polimento semântico midiático no interregno compreendido entre o retorno a Rússia em abril, na condição de exilado do regime tsa- rista pelas manifestações de 1905, a líder bolchevique e presidente do conselho soviético instalado em ou- tubro, a partir da derrubada do Go- verno Provisório Russo chefiado por Alexander Kerensky. Em 20 de abril, n’O Estado de S. Paulo, Lenin é o criticado “so- cialista democrata, que acaba de chegar do exílio, aconselhando o governo a solicitar a paz à Alema- nha”. Referência branda e amigá- vel a quem enunciaria as Teses de Abril conclamando o poder ao pro- letariado, publicadas naquele dia no Pravda. Em 10 de maio, Lenin seria elevado à categoria de “chefe socialista radical russo”. Passados dois meses, Vladimir Ilitch retorna às páginas do diário paulista em 20 de julho, agora como socialista subsidiado pela Alemanha. Mais 11 dias e seria somado ao nome de Lenin o adjetivo agitador, conta- bilizando a ele a responsabilidade pelas manifestações de junho con- vocadas pelo Primeiro Congresso dos Sovietes dos Delegados Operá- rios e Soldados de Toda Rússia – no qual os bolcheviques eram mi- noria –, em repúdio à ofensiva no front da guerra determinada pelo Governo Provisório, e dos confron- tos campais com o governo nas de- nominadas Jornadas de Julho. Em 1918, à frente da República Soviéti- ca, por vezes Lenin ganharia o epíteto de ditador. Por isso, são compreensíveis as manchetes do Correio da Manhã relativas a fevereiro e outubro de 1917. A queda do Czar, com a for- mação de um gabinete monárqui- co-liberal presidido por um aristo- crata, o príncipe Georgy Lvov, e ha- vendo a predominância dos repre- sentantes das classes proprietá- rias, mereceu na capa a definição de “Uma revolução na Rússia”. En- quanto a conquista do poder pelos Sovietes – instância deliberativa dos operários, camponeses e solda- dos – receberia na terceira página o cunho de indisciplina militar, com projeções funestas: “Deposto Kerensky pelo Conselho de Solda- dos e Operários, a Rússia entra em franco regime de anarquia”. Cristalizava-se, assim, a vocacio- nal lógica povofóbica do establish- ment midiático brasileiro. *Doutor em Comunicação, jornalista, professor na Universidade Tuiuti do Paraná. Desenvolve pesquisa CNPq sobre a Revolução Russa na imprensa brasileira CADERNO DE SÁBADO SÁBADO,14 de outubro de 2017 | 3CORREIO DO POVO
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    REPRODUÇÃO / CP CADERNODESÁBADO ROBERTOAMARAL Sobre a revolução russa de 1917 Escritor faz uma análise da revolução e os seus efeitos nas décadas seguintes até o fim em 1991 E screvo como beneficiário da Revolução de 1917, que desde o primeiro mo- mento extrapolou os lar- gos limites territoriais e políticos herdados do império czarista. Re- volução popular e de massas, de base camponesa, conheceu o êxi- to surpreendente em país sem ba- se industrial, mudou o curso da História, para melhor, e suas con- quistas permanecem atuais, mui- tas incorporadas pelo patrimônio político da humanidade. Sua in- fluência sobre o mundo não se en- cerrou na noite de 26 de dezem- bro de 1991, quando a bandeira vermelha foi arriada pela última vez do mastro do Kremlin. À Re- volução bolchevista devemos nos- sa própria sobrevivência: depois de poupar-nos do totalitarismo nazifascista, ao derrotar a Alema- nha, livrou-nos da morte planetá- ria. O esforço militar, científico e tecnológico desenvolvido mesmo em prejuízo da qualidade de vida de seu povo, possibilitou a parida- de nuclear que evitou, e tem evi- tado até aqui a hecatombe com a qual a Guerra Fria ameaçava des- truir a Terra, espectro, aliás, sempre presente enquanto a paz depender dos interesses que mo- vem o complexo militar-industrial que governa os EUA, ou enquan- to o futuro da humanidade depen- der da insanidade de líderes co- mo Trump. A Revolução – primeira gran- de tentativa de construção de uma sociedade fundada na igual- dade, primeiro projeto de aboli- ção da propriedade privada, pro- messa de um Estado dirigido pe- los trabalhadores – alterou defini- tivamente a geopolítica mundial, influenciou o pensamento político- filosófico e detonou o colonialis- mo. Alterando a ordem dominan- te até a Segunda Guerra, a União Soviética foi a parteira da descolonização da África e da Ásia, ensejou e garantiu experiên- cias como a cubana e foi decisiva na libertação do Vietnã. Seus sucessos econômicos, so- ciais, científicos e militares trans- formaram-se em instrumentos de luta ideológica e alimentaram em todo o mundo a organização dos trabalhadores, abrindo caminho para os partidos trabalhistas e de esquerda, a que tiveram de responder a socialdemocracia e as forças conservadoras, temero- sas de que o exemplo soviético, ganhando a consciência social, se reproduzisse em seus países. As políticas sociais e econômicas do ocidente foram obrigadas a fazer concessões aos programas socia- listas, como tentativa, afinal bem sucedida, de conter a luta de clas- ses, quando crescia planetaria- mente o movimento comunista. No seu rasto avançaram as políti- cas democráticas, socialistas e progressistas de um modo geral, elevaram-se à ordem do dia a de- fesa da dignidade humana, a lu- ta contra as discriminações so- ciais, econômicas e étnicas, os direitos de camponeses e traba- lhadores, a liberdade sindical, conquistas fundamentais como a jornada de oito horas, o direito a férias e aposentadoria, o sufrá- gio universal e o voto feminino e, principalmente na Europa, a defesa da paz. Deve-se à Revolução e a essa emergência das ideias progressis- tas o surgimento do que se viria chamar de ‘constitucionalismo so- cial’, marcando de forma decisiva todas as constituições políticas elaboradas ou revisadas após 1917, inclusive as brasileiras a partir do texto de 1934. Cessada, porém, a ameaça, cessados seriam os direitos, cas- sadas as conquistas. Uma das muitas consequências do colapso da URSS em 1991 é o desenca- deamento, em escala mundial, de ofensiva destinada a retirar ou re- duzir os direitos dos trabalhado- res e assalariados de um modo geral, onda que percorre todo o mundo, que atinge principalmen- te a Europa, e chega até nós, aqui embalada pela hegemonia conservadora representada pelo governo de fato de Michel Temer. O que estamos assistindo, no Brasil, reproduzindo o avanço an- tissocial do neoliberalismo vitorio- so, não seria possível se os direi- tos agora ameaçados ou cassa- dos tivessem a sustentá-los um amplo e forte movimento sindi- cal, cujo declínio se deve maior- mente à crise da ação e do pensa- mento de esquerda, detonada com a autodissolução do império soviético. Um de seus indicado- res é a quase absoluta falência dos partidos comunistas ociden- tais e o recuo histórico da esquer- da socialista, subsumida, política e eleitoralmente pela socialdemo- cracia. Exemplo paradigmático nos oferecem a Itália com o fim do Partido Comunista Italiano, e a França de nossos dias, com os suicídios dos seus Partido Comu- nista e Partido Socialista. Se fracassou em seu projeto de construir a primeira experiên- cia de governo e sociedade comu- nistas, e o fim da URSS é atesta- do definitivo, o grande feito da Revolução foi transformar na se- gunda grande potência do mun- do um país de estrutura agrária quase feudal, sem base indus- trial, destroçado pela Primeira Grande Guerra, sem infraestrutu- ra, com a produção agrícola em queda e a indústria aos franga- lhos. Acrescente-se que a revolu- ção detonada em 1917 só se da- ria como estabelecida em 1921, com a derrota da última brigada branca na Crimeia. O Estado teria que lidar sem- pre, do primeiro ao último dia, com a hostilidade, a agressão e o bloqueio político, econômico, científico, tecnológico e militar das potências ocidentais. Para conter o ‘expansionismo comu- nista’ foi criada (1949) a OTAN (Organização do Atlântico Nor- te), a mais terrível e poderosa coalizão bélica jamais conheci- da pela humanidade, ainda hoje de pé e ameaçadora. Não obstante tudo isso, a URSS promoveu os direitos das mulheres, saúde e educação (da creche à universidade) univer- sais e gratuitas, habitação, trans- porte público de massa e o pleno emprego, sonhos brasileiros na segunda década do terceiro milê- nio. Mas não lograria superar a baixa densidade democrática e manteria gulags, as ‘internações’ e os expurgos. Experimentaria também os crimes da era stalinis- ta, a fase perversa da Revolução, denunciada por Kruschev no céle- bre discurso no 20˚ Congresso do PCUS (fevereiro de 1956). A debacle, acionada sem que o ocidente precisasse dar um só tiro de garrucha, a interrupção da experiência do chamado ‘so- cialismo real’, substituída pela concretude de um capitalismo selvagem, representa, porém, co- mo o outro lado da mesma moe- da, uma catástrofe geopolítica quando consolida a hegemonia econômica, militar, política e cultural de uma só potência, im- perialista e guerreira. Talvez ainda seja cedo para fa- zer o julgamento dessa Revolu- ção que representou para o mun- do a promessa da sociedade sem classes e nos legou um mo- delo de Estado autoritário e bu- rocrático. *Escritor, cientista político, autor, entre outros livros, de “Socialismo, Vida, Morte e Ressurreição” (Vozes) SÁBADO,14 de outubro de 2017