NEUROBIOLOGIA DOS DELÍRIOS 
Miguel Bajouco 
7 de Novembro de 2013
“O delírio corresponde a uma transformação na vasta consciência de realidade (que se manifesta secundariamente em juízos de realidade), que se constrói sobre as experiências no mundo das resistências e das significações…” 
(Jaspers, 1910) 
Jaspers K. Psicopatologia Geral, Vol.1. 1910
A biologia dos delírios relaciona-se com a neurobiologia da Esquizofrenia mas estas não são idênticas. (Murray, 2011) 
Os delírios estão presentes numa grande variedade de perturbações mentais: 
Esquizofrenia; 
Perturbação Afetiva Bipolar (50%); 
Depressão Unipolar (<15%); 
Doença de Alzheimer (20%); 
Doença de Parkinson (13%); 
Abuso de substâncias; 
Perturbações neurológicas raras (p.e. Encefalopatia dos canais de Potássio, Síndrome de Morvan). 
Será que estas condições têm algum em comum do ponto de vista biológico? Será que existe, por exemplo, uma “via final comum” para o delírio? 
O que sabemos acerca da neurobiologia dos delírios? 
Murray G. K. (2011). The emerging biology of delusions. Psychological Medicine, null, pp 7-13 doi:10.1017/S0033291710000413 
DOPAMINA
O grau de sensibilização do sistema dopaminérgico está ligado à severidade dos sintomas psicóticos (Parsey et al. 2001; Toda & Abi-Dargham, 2007). 
Aumento da capacidade síntese pré-sináptica de dopamina está associada à severidade dos sintomas psicóticos na Esquizofrenia e estados prodrómicos (Howes et al. 2009). 
O que sabemos acerca da neurobiologia dos delírios? 
Parsey R. V. et al (2001). Dopamine D(2) receptoravailability and amphetamine-induced dopamine releasein unipolar depression. Biological Psychiatry; 50, 313–322. 
Toda M, Abi-Dargham A (2007). Dopamine hypothesis of schizophrenia : making sense of it all. Current Psychiatry Reports; 9, 329–336. 
Howes O. D. et al (2009).Elevated striatal dopamine function linked to prodromal signs of schizophrenia. Archives of General Psychiatry; 66, 13–20.
Se aceitarmos a relação causal entre dopamina e psicose, como é que poderemos compreender a relação entre molécula e experiência mental? 
As explicações mais poderosas na psiquiatria são “multi-nível”, na medida em que estabelecem pontes entre várias disciplinas científicas como a fisiologia e fenomenologia.” (Miller, 2008 cit. Murray,2011) 
Porque é que a disfunção dopaminérgica nas perturbações psicóticas leva à paranóia, alucinações e não a qualquer outro tipo de manifestações? 
Uma compreensão completa da neurobiologia dos delírios requer uma teoria que tenha em conta o modo como as alterações cerebrais levam a sintomas através de processos psicológicos intermédios (Frith, 1992; David 2006). 
Uma abordagem multi-dimensional 
Murray G. K. (2011). The emerging biology of delusions. Psychological Medicine, null, pp 7-13 doi:10.1017/S0033291710000413 
Frith C. D. (1992). The Cognitive Neuropsychology of Schizophrenia. Taylor and Francis:Hove, UK. 
David A. S. (2006). A method for studies of madness. Cortex 42, 921–925.
Necessárias duas anomalias diferentes (Murray, 2011): 
uma para gerar percepções , pensamentos ou experiências estranhas (paranóia, coincidencias ou significações bizarras) dopamina 
uma 2ª anomalia: pensamentos estranhos delírios 
défice do raciocínio (Garety et al 1991 
raciocínio lógico “jump to conclusions”; 
raciocínio probabilístico; 
 alterações no estilo atribucional, diferenças ao nível da “teoria da Mente” , pensamento mágico . 
factores cognitivos e interpessoais neuroquímica aberrante 
diferente fenomenologia nas psicoses em diferentes indivíduos e diferentes perturbações (esquizofrenia, mania, abuso de substâncias). 
Modelo de 2 fatores 
Murray G. K. (2011). The emerging biology of delusions. Psychological Medicine, null, pp 7-13 Garety P.A., Hemsley D. R., Wessely S. (1991). Reasoning in deluded schizophrenic and paranoid patients. Biases in performance on a probabilistic inference task. Journal of Nervous and Mental Disease; 179, 194–201.
Aprendizagem por condicionamento (associação e reforços) 
O processo de aquisição das associações necessárias para a aprendizagem de uma resposta condicionada em experimentação animal depende da presença da dopamina. Nos doentes esquizofrénicos, o excesso de dopamina no cérebro poderá facilitar a aquisição de associações entre “unidades de informação”, ao ponto de elementos não relacionados serem associados e serem tratados como se fossem combinações significativas: este processo pode ser extinto administrando antagonistas dopaminérgicos. (Miller,1976) 
“attribution of salience” (Kapur, 2003) 
mediação da aquisição de “motivacional saliences” em resposta às experiências e 
predisposições do sujeito (Berridge, 1998, Kapur 2003) 
O papel da Dopamina Saliência 
Miller R (1976). Schizophrenic psychology, associativelearning and the role of forebrain dopamine. MedicalHypotheses 2, 203–211. Berridge K. C., Robinson T. E. (1998) What is the role of dopamine in reward: hedonic impact, reward learning, or incentive salience? Brain Res Brain Res Rev; 28:309–369 Kapur S. (2003). Psychosis as State of Aberrant Salience: A Framework Linking Biology, Phenomenology, and Pharmacology in Schizophrenia. American Journal of Psychiatry;160, 13-23 
Dopamina
Howes O. D., Kapur S.. (2009) The dopamine hypothesis of schizophrenia: version III – the final common pathway. Schizophrenia Bulletin;35, 549–562. 
Kapur S. (2003). Psychosis as State of Aberrant Salience: A Framework Linking Biology, Phenomenology, and Pharmacology in Schizophrenia. American Journal of Psychiatry;160, 13-23 
Kapur S., Mizrahi R., Li M. (2004) From Dopamine to Salience in Psychosis – linking biology, pharmacology and phenomenology of Psychosys. Schizophrenia Res- 79(1), 59-68 
Adapt. Kapur (2004) 
Adapt. Howes (2009)
“Saliência aberrante” e aprendizagem condicionada 
Doentes esquizofrénicos apresentam aumento da ativação do estriado em resposta a estímulos neutros em fMRI 
Jensen J, Willeit M, Zipursky RB, Savina I, Smith AJ, Menon M, Crawley AP, Kapur S (2008). The formation of abnormal associations in schizophrenia : neural and behavioral evidence. Neuropsychopharmacology 33, 473–479. 
Adapt. Jensen (2008)
Atividade mesolímbica anómala, aprendizagem ligada à recompensa e psicose 
Resposta fisiológicas anómalas associadas a estímulos neutros e de recompensa no menséncefalo, estriado e sistema límbico; 
Murray GK et al(2008). Substantia nigra/ventral tegmental reward prediction error disruption in psychosis. Molecular Psychiatry; 13, 239, 267–276. 
Adapt. Murray, (2008)
Fletcher & Frith (2009): modelo de dois fatores dos delírios é desnecessário, uma vez que que a percepção e as crenças baseiam-se em previsões e na atualização dessas previsões à luz das evidências - prediction error (Murray, 2011) 
Modelo de 1 fator 
Murray G. K. (2011). The emerging biology of delusions. Psychological Medicine, null, pp 7-13
Crenças 
conceito difícil definir 
atitude em relação às proposições sobre o mundo. 
baseiam-se em experiências passadas que são usadas para fazer previsões sobre futuro e responder de acordo com essas previsões (Corlett, 2009) 
Crenças enquanto formulações Bayesanas (Bayes, 1763). 
associa crenças e distribuições probabilísticas que são representadas pelo cérebro (Fiser et al., 2010). 
푷푯푫= 푷푫푯 푷푯 푷푫 Teorema de Bayes 
Crenças posteriores são condicionadas por: 
Informação sensorial 
Crenças prévias 
Modelo de 1 fator 
Corlett PR, Krystal JH, Taylor JR, Fletcher PC. (2009).Why do delusions persist? Front Hum Neurosci.; 3:12. Bayes T. (1763). An essay towards solving a problem in the doctrine of chances. Philos Trans R Soc Lond.1763; 53:370–418. Fiser J, Berkes P, Orban G, Lengyel M. (2010). Statistically optimal perception and learning: from behavior to neural representations. Trends Cogn Sci.; 14:119–130
Teoria sobre a perceção visual baseada no Teorema de Bayes 
Cérebro = máquina que faz inferências probabilísticas sobre o mundo: 
elabora hipóteses para possíveis inputs 
compara-as com os dados sensoriais 
hipóteses favorecidas 
minimizam a incerteza associada à situação, i.e., 
diminuiem o erro da previsão (mismatch entre os dados e as hipóteses) 
Modelo de 1 fator 
Colrett et al. (2011) Glutamatergic model psychoses: prediction error, learning, and inference. Neuropsychopharmacology;36(1):294-315 
Herman van Helmholtz 
Adapt. Colrett (2011)
 Formação de Crenças e Teorias de Aprendizagem 
Erros de previsão: Mismatch entre expetativa e experiência 
Fundamental nas teorias formais de aprendizagem 
Evento inesperado contradiz a expetativa ativa: 
reset na memória de curto prazo (expetativas ativas são abandonadas) 
inicia uma resposta orientada, permitindo a aquisição de novas associações explicativas. 
Atualiza os modelos sobre o ambiente sempre que é detectada novidade significativa, i.e, um mismatch entre as suas previsões e a experiência real (Grossberg, 1982). 
Alocação apropriada da atenção para eventos salientes depende de otimização da precisão de crenças prévias top-down, relativamente a evidências bottom-up 
Cortex sensoriais: Acetilcolina (Yu and Dayan, 2005)] e 
Circuitos frontoestriatais: Dopamina (Friston et al., 2009)]. 
Modelo de 1 fator 
Grossberg S. (1982)Processing of expected and unexpected events during conditioning and attention: a psychophysiological theory. Psychol Rev.; 89:529–572. Friston K. (2009) The free-energy principle: a rough guide to the brain? Trends Cogn Sci.; 13:293–301. Yu AJ, Dayan P. (2005) Uncertainty, neuromodulation, and attention. Neuron; 46:681–692.
Aprendizagem guiada por erros de previsão - CODIFICAÇÃO PREDITIVA - modo básico de funcionamento cerebral (Friston, 2005, 2009) 
Sistemas cerebrais e neurónios individuais minimizam incerteza acerca da informação ao incorporarem estrutural e funcionalmente uma previsão e respondendo a erros na sua precisão (Fiorillo, 2008) 
Neurotransmissores excitatórios e inibitórios rápidos interagem com neurotransmissores neuromoduladores lentos constituindo substrato para este esquema de codificação (Friston, 2005, 2009). 
Colrett et al. (2011) Glutamatergic model psychoses: prediction error, learning, and inference. Neuropsychopharmacology;36(1):294-315 Friston K. (2005). A theory of cortical responses. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci.; 360:815–836. Friston K. (2009) The free-energy principle: a rough guide to the brain? Trends Cogn Sci.; 13:293–301. Fiorillo C. D. (2008). Towards a general theory of neural computation based on prediction by single neurons. PLoS ONE; 3:e3298 
•NMDA: 
•sinalização feedback/top-down 
•expetativas/crenças prévias 
•Glutamato e GABA: 
•sinalização feedforward/bottom-up 
•experiências 
•AMPA e GABA: 
•erro de previsão/mismatch expetativas vs experiência 
•DA e Ach – 
•neuromodulação; 
•PRECISÃO/INCERTEZA 
Adapt. Colrett (2011)
Alteração do ratio sinal-ruído do sistema de sinalização dopaminérgica alteração da PRECISÃO do Erro de Previsão (Grace, 1991; Miller, 1976; Spitzer, 1995) 
Ruído fisiológico é percebido pelo sistema como sinal verdadeiro 
Sinalização inapropriada/aberrante de um Erro de Previsão 
(Sensação de surpresa e incerteza) 
Alocação de atenção para estímulos irrelevantes e ativação de mecanismos de procura de explicação e aprendizagem 
Formação de inferências enviesadas em relação a inputs deturpados (internos ou externos). 
se imprecisão persiste 
(Corlett et al., 2010) 
Modelo de 1 fator 
Colrett P. R. et al (2010). Towards a neurobiology of delusions. Prog Neurobiol.; 92(3): 345–369 
DELÍRIO
Corlett P. R. et al. (2007). Disrupted prediction-error signal in psychosis: evidence for an associative account of delusions. Brain; 130:2387–2400. 
Sinais de erro de previsão aberrante a nível mesocorticolímbico foram registados durante aprendizagem com neuroimagem funcional em pacientes de primeiro episódio psicótico (Colrett, 2007) 
magnitude dessas aberrações de sinal correlaciona-se com a gravidade dos delírios. 
Modelo de 1 fator
A relação entre condicionamento e delírios também foi confirmada no contexto de 
tarefa de aprendizagem de recompensa (Schlagenhauf et al., 2009) e de 
tarefa de condicionamento aversivo (Holt et al., 2008); 
Em ambos os casos, a aprendizagem aberrante relacionou-se com a gravidade das crenças delirantes. 
Em suma, o DELÍRIO… 
…resulta da disrupção dos mecanismos preditivos normais do cérebro em que evento/informação previsível e irrelevante fazem mismatch com expetativas levando a saliencia que exige nova aprendizagem e explicação. 
….representa um mecanismo explicativo, uma tentativa de impôr ordem a um mudo perceptualmente e cognitivamente desordenado (Colrett, 2010) 
Schlagenhauf F. et al (2009). Reward feedback alterations in unmedicated schizophrenia patients: relevance for delusions. Biol Psychiatry; 65:1032–1039 
Holt D. J. et al (2008) Extinction Memory Is Impaired in Schizophrenia. Biol Psychiatry. 
Colrett P. R. et al (2010). Towards a neurobiology of delusions. Prog Neurobiol.; 92(3): 345–369 
Modelo de 1 fator
Hipocampo hiperestimula a área tegmental ventral (ATV) – via receptores NMDA e GABA 
recrutamento aberrante da população de neurónios dopaminérgicos BIZARRIA 
Infusão de NMDA no hipocampo altera a atividade e padrão de disparo de neurónios DA na ATV (Lodge e Grace, 2006) 
O que causa a disfunção dopaminérgica? 
Lodge D. J. e Grace A. A. (2006) The hippocampus modulates dopamine neuron responsivity by regulating the intensity of phasic neuron activation. Neuropsychopharmacology;31(7):1356-61
Disfunção glutamatérgica (hipofunção NMDA) no cortex pré- frontal aumento do burst firing dos neurónios dopaminérgicos na AVT BIZARRIA 
O que causa a disfunção dopaminérgica? 
Adapt. Stahl 2007 
Stahl SM. Essential Psychopharmacology. 3rd ed. New York, NY: Cambridge University Press 2007
Comprometimento da inibição dos neurónios dopaminérgicos da ATV pela disfunção da habénula 
 normalmente inicia os processos de extinção 
 “apaga” aprendizagens prévias, permitindo novas previsões/aprendizagens 
Disfunção leva à RESISTÊNCIA/PERSISTÊNCIA dos delírios perante contra-argumentos e contra- evidências 
(Colrett, 2010) 
O que causa a disfunção dopaminérgica? 
Colrett P. R. et al (2010). Towards a neurobiology of delusions. Prog Neurobiol. 2010 November ; 92(3): 345–369
GENÉTICA 
Estudos de linkage e os Genome-Wide Association Studies identificaram genes candidatos para a Esquizofrenia e Perturbação Afetiva Bipolar 
Dopamina: COMT (l22q1), PPP3CC (8p21) 
Glutamato: DAAO (12q24), G72 (13q32–34), PPP3CC (8p21), DTNBP1 (6p22); Neurogranina 
GABA – GABRB3 
O que causa a disfunção dopaminérgica?
Genes que coordenam o neurodesenvolvimento identificados em GWAS 
DISC-1 (1q42) NRG1(8p12–21), Neurogranina 
Engrailed 2: envolvido na diferenciação do cerebelo, associado à esquizofrenia 
FGF17 (8p13): controla a padronização, organização e desenvolvimento cortical frontal 
DLX1: expressão diminuída no tálamo de indivíduos psicóticos 
Outros genes associados ao delírio 
Colrett P. R. et al (2010). Towards a neurobiology of delusions. Prog Neurobiol. 2010 November ; 92(3): 345–369
Dada a panóplia de patologias em que o delírio surge, cada uma com neuropatologia própria, não é surpreendente que até agora não se tenha alcançado um consenso acerca da neurobiologia dos delírios. 
Os desenvolvimentos na ciência pré-clínica abriram caminho para modelos explicativos multi-nível que relacionam as alterações biológicas e as experiências mentais anómalas que ocorrem no delírio. 
O modo como os delírios surgem, não apenas na Esquizofrenia, pode explicar-se pela combinação da desregulação dos neurónios dopaminérgicos do mensencéfalo com vieses ao nível dos processos de raciocínio. 
Uma compreensão mais completa e precisa da relação entre a biologia e as experiências mentais, será de imenso valor não só para os doentes e seus cuidadores, mas também permitirá o desenvolvimento de novos e melhores tratamentos numa grande variedade de perturbações. 
Conclusões
NEUROBIOLOGIA DOS DELÍRIOS 
Miguel Bajouco 7 de Novembro de 2013

Neurobiologia dos Delírios

  • 1.
    NEUROBIOLOGIA DOS DELÍRIOS Miguel Bajouco 7 de Novembro de 2013
  • 2.
    “O delírio correspondea uma transformação na vasta consciência de realidade (que se manifesta secundariamente em juízos de realidade), que se constrói sobre as experiências no mundo das resistências e das significações…” (Jaspers, 1910) Jaspers K. Psicopatologia Geral, Vol.1. 1910
  • 3.
    A biologia dosdelírios relaciona-se com a neurobiologia da Esquizofrenia mas estas não são idênticas. (Murray, 2011) Os delírios estão presentes numa grande variedade de perturbações mentais: Esquizofrenia; Perturbação Afetiva Bipolar (50%); Depressão Unipolar (<15%); Doença de Alzheimer (20%); Doença de Parkinson (13%); Abuso de substâncias; Perturbações neurológicas raras (p.e. Encefalopatia dos canais de Potássio, Síndrome de Morvan). Será que estas condições têm algum em comum do ponto de vista biológico? Será que existe, por exemplo, uma “via final comum” para o delírio? O que sabemos acerca da neurobiologia dos delírios? Murray G. K. (2011). The emerging biology of delusions. Psychological Medicine, null, pp 7-13 doi:10.1017/S0033291710000413 DOPAMINA
  • 4.
    O grau desensibilização do sistema dopaminérgico está ligado à severidade dos sintomas psicóticos (Parsey et al. 2001; Toda & Abi-Dargham, 2007). Aumento da capacidade síntese pré-sináptica de dopamina está associada à severidade dos sintomas psicóticos na Esquizofrenia e estados prodrómicos (Howes et al. 2009). O que sabemos acerca da neurobiologia dos delírios? Parsey R. V. et al (2001). Dopamine D(2) receptoravailability and amphetamine-induced dopamine releasein unipolar depression. Biological Psychiatry; 50, 313–322. Toda M, Abi-Dargham A (2007). Dopamine hypothesis of schizophrenia : making sense of it all. Current Psychiatry Reports; 9, 329–336. Howes O. D. et al (2009).Elevated striatal dopamine function linked to prodromal signs of schizophrenia. Archives of General Psychiatry; 66, 13–20.
  • 5.
    Se aceitarmos arelação causal entre dopamina e psicose, como é que poderemos compreender a relação entre molécula e experiência mental? As explicações mais poderosas na psiquiatria são “multi-nível”, na medida em que estabelecem pontes entre várias disciplinas científicas como a fisiologia e fenomenologia.” (Miller, 2008 cit. Murray,2011) Porque é que a disfunção dopaminérgica nas perturbações psicóticas leva à paranóia, alucinações e não a qualquer outro tipo de manifestações? Uma compreensão completa da neurobiologia dos delírios requer uma teoria que tenha em conta o modo como as alterações cerebrais levam a sintomas através de processos psicológicos intermédios (Frith, 1992; David 2006). Uma abordagem multi-dimensional Murray G. K. (2011). The emerging biology of delusions. Psychological Medicine, null, pp 7-13 doi:10.1017/S0033291710000413 Frith C. D. (1992). The Cognitive Neuropsychology of Schizophrenia. Taylor and Francis:Hove, UK. David A. S. (2006). A method for studies of madness. Cortex 42, 921–925.
  • 6.
    Necessárias duas anomaliasdiferentes (Murray, 2011): uma para gerar percepções , pensamentos ou experiências estranhas (paranóia, coincidencias ou significações bizarras) dopamina uma 2ª anomalia: pensamentos estranhos delírios défice do raciocínio (Garety et al 1991 raciocínio lógico “jump to conclusions”; raciocínio probabilístico;  alterações no estilo atribucional, diferenças ao nível da “teoria da Mente” , pensamento mágico . factores cognitivos e interpessoais neuroquímica aberrante diferente fenomenologia nas psicoses em diferentes indivíduos e diferentes perturbações (esquizofrenia, mania, abuso de substâncias). Modelo de 2 fatores Murray G. K. (2011). The emerging biology of delusions. Psychological Medicine, null, pp 7-13 Garety P.A., Hemsley D. R., Wessely S. (1991). Reasoning in deluded schizophrenic and paranoid patients. Biases in performance on a probabilistic inference task. Journal of Nervous and Mental Disease; 179, 194–201.
  • 7.
    Aprendizagem por condicionamento(associação e reforços) O processo de aquisição das associações necessárias para a aprendizagem de uma resposta condicionada em experimentação animal depende da presença da dopamina. Nos doentes esquizofrénicos, o excesso de dopamina no cérebro poderá facilitar a aquisição de associações entre “unidades de informação”, ao ponto de elementos não relacionados serem associados e serem tratados como se fossem combinações significativas: este processo pode ser extinto administrando antagonistas dopaminérgicos. (Miller,1976) “attribution of salience” (Kapur, 2003) mediação da aquisição de “motivacional saliences” em resposta às experiências e predisposições do sujeito (Berridge, 1998, Kapur 2003) O papel da Dopamina Saliência Miller R (1976). Schizophrenic psychology, associativelearning and the role of forebrain dopamine. MedicalHypotheses 2, 203–211. Berridge K. C., Robinson T. E. (1998) What is the role of dopamine in reward: hedonic impact, reward learning, or incentive salience? Brain Res Brain Res Rev; 28:309–369 Kapur S. (2003). Psychosis as State of Aberrant Salience: A Framework Linking Biology, Phenomenology, and Pharmacology in Schizophrenia. American Journal of Psychiatry;160, 13-23 Dopamina
  • 8.
    Howes O. D.,Kapur S.. (2009) The dopamine hypothesis of schizophrenia: version III – the final common pathway. Schizophrenia Bulletin;35, 549–562. Kapur S. (2003). Psychosis as State of Aberrant Salience: A Framework Linking Biology, Phenomenology, and Pharmacology in Schizophrenia. American Journal of Psychiatry;160, 13-23 Kapur S., Mizrahi R., Li M. (2004) From Dopamine to Salience in Psychosis – linking biology, pharmacology and phenomenology of Psychosys. Schizophrenia Res- 79(1), 59-68 Adapt. Kapur (2004) Adapt. Howes (2009)
  • 9.
    “Saliência aberrante” eaprendizagem condicionada Doentes esquizofrénicos apresentam aumento da ativação do estriado em resposta a estímulos neutros em fMRI Jensen J, Willeit M, Zipursky RB, Savina I, Smith AJ, Menon M, Crawley AP, Kapur S (2008). The formation of abnormal associations in schizophrenia : neural and behavioral evidence. Neuropsychopharmacology 33, 473–479. Adapt. Jensen (2008)
  • 10.
    Atividade mesolímbica anómala,aprendizagem ligada à recompensa e psicose Resposta fisiológicas anómalas associadas a estímulos neutros e de recompensa no menséncefalo, estriado e sistema límbico; Murray GK et al(2008). Substantia nigra/ventral tegmental reward prediction error disruption in psychosis. Molecular Psychiatry; 13, 239, 267–276. Adapt. Murray, (2008)
  • 11.
    Fletcher & Frith(2009): modelo de dois fatores dos delírios é desnecessário, uma vez que que a percepção e as crenças baseiam-se em previsões e na atualização dessas previsões à luz das evidências - prediction error (Murray, 2011) Modelo de 1 fator Murray G. K. (2011). The emerging biology of delusions. Psychological Medicine, null, pp 7-13
  • 12.
    Crenças conceito difícildefinir atitude em relação às proposições sobre o mundo. baseiam-se em experiências passadas que são usadas para fazer previsões sobre futuro e responder de acordo com essas previsões (Corlett, 2009) Crenças enquanto formulações Bayesanas (Bayes, 1763). associa crenças e distribuições probabilísticas que são representadas pelo cérebro (Fiser et al., 2010). 푷푯푫= 푷푫푯 푷푯 푷푫 Teorema de Bayes Crenças posteriores são condicionadas por: Informação sensorial Crenças prévias Modelo de 1 fator Corlett PR, Krystal JH, Taylor JR, Fletcher PC. (2009).Why do delusions persist? Front Hum Neurosci.; 3:12. Bayes T. (1763). An essay towards solving a problem in the doctrine of chances. Philos Trans R Soc Lond.1763; 53:370–418. Fiser J, Berkes P, Orban G, Lengyel M. (2010). Statistically optimal perception and learning: from behavior to neural representations. Trends Cogn Sci.; 14:119–130
  • 13.
    Teoria sobre aperceção visual baseada no Teorema de Bayes Cérebro = máquina que faz inferências probabilísticas sobre o mundo: elabora hipóteses para possíveis inputs compara-as com os dados sensoriais hipóteses favorecidas minimizam a incerteza associada à situação, i.e., diminuiem o erro da previsão (mismatch entre os dados e as hipóteses) Modelo de 1 fator Colrett et al. (2011) Glutamatergic model psychoses: prediction error, learning, and inference. Neuropsychopharmacology;36(1):294-315 Herman van Helmholtz Adapt. Colrett (2011)
  • 14.
     Formação deCrenças e Teorias de Aprendizagem Erros de previsão: Mismatch entre expetativa e experiência Fundamental nas teorias formais de aprendizagem Evento inesperado contradiz a expetativa ativa: reset na memória de curto prazo (expetativas ativas são abandonadas) inicia uma resposta orientada, permitindo a aquisição de novas associações explicativas. Atualiza os modelos sobre o ambiente sempre que é detectada novidade significativa, i.e, um mismatch entre as suas previsões e a experiência real (Grossberg, 1982). Alocação apropriada da atenção para eventos salientes depende de otimização da precisão de crenças prévias top-down, relativamente a evidências bottom-up Cortex sensoriais: Acetilcolina (Yu and Dayan, 2005)] e Circuitos frontoestriatais: Dopamina (Friston et al., 2009)]. Modelo de 1 fator Grossberg S. (1982)Processing of expected and unexpected events during conditioning and attention: a psychophysiological theory. Psychol Rev.; 89:529–572. Friston K. (2009) The free-energy principle: a rough guide to the brain? Trends Cogn Sci.; 13:293–301. Yu AJ, Dayan P. (2005) Uncertainty, neuromodulation, and attention. Neuron; 46:681–692.
  • 15.
    Aprendizagem guiada porerros de previsão - CODIFICAÇÃO PREDITIVA - modo básico de funcionamento cerebral (Friston, 2005, 2009) Sistemas cerebrais e neurónios individuais minimizam incerteza acerca da informação ao incorporarem estrutural e funcionalmente uma previsão e respondendo a erros na sua precisão (Fiorillo, 2008) Neurotransmissores excitatórios e inibitórios rápidos interagem com neurotransmissores neuromoduladores lentos constituindo substrato para este esquema de codificação (Friston, 2005, 2009). Colrett et al. (2011) Glutamatergic model psychoses: prediction error, learning, and inference. Neuropsychopharmacology;36(1):294-315 Friston K. (2005). A theory of cortical responses. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci.; 360:815–836. Friston K. (2009) The free-energy principle: a rough guide to the brain? Trends Cogn Sci.; 13:293–301. Fiorillo C. D. (2008). Towards a general theory of neural computation based on prediction by single neurons. PLoS ONE; 3:e3298 •NMDA: •sinalização feedback/top-down •expetativas/crenças prévias •Glutamato e GABA: •sinalização feedforward/bottom-up •experiências •AMPA e GABA: •erro de previsão/mismatch expetativas vs experiência •DA e Ach – •neuromodulação; •PRECISÃO/INCERTEZA Adapt. Colrett (2011)
  • 16.
    Alteração do ratiosinal-ruído do sistema de sinalização dopaminérgica alteração da PRECISÃO do Erro de Previsão (Grace, 1991; Miller, 1976; Spitzer, 1995) Ruído fisiológico é percebido pelo sistema como sinal verdadeiro Sinalização inapropriada/aberrante de um Erro de Previsão (Sensação de surpresa e incerteza) Alocação de atenção para estímulos irrelevantes e ativação de mecanismos de procura de explicação e aprendizagem Formação de inferências enviesadas em relação a inputs deturpados (internos ou externos). se imprecisão persiste (Corlett et al., 2010) Modelo de 1 fator Colrett P. R. et al (2010). Towards a neurobiology of delusions. Prog Neurobiol.; 92(3): 345–369 DELÍRIO
  • 17.
    Corlett P. R.et al. (2007). Disrupted prediction-error signal in psychosis: evidence for an associative account of delusions. Brain; 130:2387–2400. Sinais de erro de previsão aberrante a nível mesocorticolímbico foram registados durante aprendizagem com neuroimagem funcional em pacientes de primeiro episódio psicótico (Colrett, 2007) magnitude dessas aberrações de sinal correlaciona-se com a gravidade dos delírios. Modelo de 1 fator
  • 18.
    A relação entrecondicionamento e delírios também foi confirmada no contexto de tarefa de aprendizagem de recompensa (Schlagenhauf et al., 2009) e de tarefa de condicionamento aversivo (Holt et al., 2008); Em ambos os casos, a aprendizagem aberrante relacionou-se com a gravidade das crenças delirantes. Em suma, o DELÍRIO… …resulta da disrupção dos mecanismos preditivos normais do cérebro em que evento/informação previsível e irrelevante fazem mismatch com expetativas levando a saliencia que exige nova aprendizagem e explicação. ….representa um mecanismo explicativo, uma tentativa de impôr ordem a um mudo perceptualmente e cognitivamente desordenado (Colrett, 2010) Schlagenhauf F. et al (2009). Reward feedback alterations in unmedicated schizophrenia patients: relevance for delusions. Biol Psychiatry; 65:1032–1039 Holt D. J. et al (2008) Extinction Memory Is Impaired in Schizophrenia. Biol Psychiatry. Colrett P. R. et al (2010). Towards a neurobiology of delusions. Prog Neurobiol.; 92(3): 345–369 Modelo de 1 fator
  • 19.
    Hipocampo hiperestimula aárea tegmental ventral (ATV) – via receptores NMDA e GABA recrutamento aberrante da população de neurónios dopaminérgicos BIZARRIA Infusão de NMDA no hipocampo altera a atividade e padrão de disparo de neurónios DA na ATV (Lodge e Grace, 2006) O que causa a disfunção dopaminérgica? Lodge D. J. e Grace A. A. (2006) The hippocampus modulates dopamine neuron responsivity by regulating the intensity of phasic neuron activation. Neuropsychopharmacology;31(7):1356-61
  • 20.
    Disfunção glutamatérgica (hipofunçãoNMDA) no cortex pré- frontal aumento do burst firing dos neurónios dopaminérgicos na AVT BIZARRIA O que causa a disfunção dopaminérgica? Adapt. Stahl 2007 Stahl SM. Essential Psychopharmacology. 3rd ed. New York, NY: Cambridge University Press 2007
  • 21.
    Comprometimento da inibiçãodos neurónios dopaminérgicos da ATV pela disfunção da habénula  normalmente inicia os processos de extinção  “apaga” aprendizagens prévias, permitindo novas previsões/aprendizagens Disfunção leva à RESISTÊNCIA/PERSISTÊNCIA dos delírios perante contra-argumentos e contra- evidências (Colrett, 2010) O que causa a disfunção dopaminérgica? Colrett P. R. et al (2010). Towards a neurobiology of delusions. Prog Neurobiol. 2010 November ; 92(3): 345–369
  • 22.
    GENÉTICA Estudos delinkage e os Genome-Wide Association Studies identificaram genes candidatos para a Esquizofrenia e Perturbação Afetiva Bipolar Dopamina: COMT (l22q1), PPP3CC (8p21) Glutamato: DAAO (12q24), G72 (13q32–34), PPP3CC (8p21), DTNBP1 (6p22); Neurogranina GABA – GABRB3 O que causa a disfunção dopaminérgica?
  • 23.
    Genes que coordenamo neurodesenvolvimento identificados em GWAS DISC-1 (1q42) NRG1(8p12–21), Neurogranina Engrailed 2: envolvido na diferenciação do cerebelo, associado à esquizofrenia FGF17 (8p13): controla a padronização, organização e desenvolvimento cortical frontal DLX1: expressão diminuída no tálamo de indivíduos psicóticos Outros genes associados ao delírio Colrett P. R. et al (2010). Towards a neurobiology of delusions. Prog Neurobiol. 2010 November ; 92(3): 345–369
  • 24.
    Dada a panópliade patologias em que o delírio surge, cada uma com neuropatologia própria, não é surpreendente que até agora não se tenha alcançado um consenso acerca da neurobiologia dos delírios. Os desenvolvimentos na ciência pré-clínica abriram caminho para modelos explicativos multi-nível que relacionam as alterações biológicas e as experiências mentais anómalas que ocorrem no delírio. O modo como os delírios surgem, não apenas na Esquizofrenia, pode explicar-se pela combinação da desregulação dos neurónios dopaminérgicos do mensencéfalo com vieses ao nível dos processos de raciocínio. Uma compreensão mais completa e precisa da relação entre a biologia e as experiências mentais, será de imenso valor não só para os doentes e seus cuidadores, mas também permitirá o desenvolvimento de novos e melhores tratamentos numa grande variedade de perturbações. Conclusões
  • 25.
    NEUROBIOLOGIA DOS DELÍRIOS Miguel Bajouco 7 de Novembro de 2013