Guia Prático da
Língua Portuguesa
      Luiz Fernando Mazzarotto
Teoria da Redação
Redação nos Vestibulares
Redação Escolar, Comercial e Oficial
      Davi Dias de Camargo
Interpretação de Texto
      Ana Maria Herrera Soares
Guia Prático de Redação
Editor
    Raul Maia
Produção Editorial
    Departamento Editorial DCL
Produção Gráfica
    Nelson Pastor
Capa
    Antonio Briano
Diagramação
    Thiago Nieri
Revisão
    Caio Alexandre Bezarias
          Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
                  (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

                Mazzarotto, Luiz Fernando
                    Manual de redação / Luiz Fernando Mazzarotto,
                Davi Dias de Camargo, Ana Maria Herrera Soares.
                -- São Paulo : DCL, 2001. -- (Guia prático da
                língua portuguesa)

                     Bibliografia.
                     ISBN 85-7338-429-8

                    1. Português — Redação I. Camargo, Davi Dias
                de. II. Soares, Ana Maria Herrera. III. Título.
                IV. Série.


          01-0305                                                  CDD-808.0469
                          Índices para catálogo sistemático:
                           1. Redação : Português       808.0469
                                     Proibida reprodução total ou parcial
                                     Direitos exclusivos desta publicação:
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                                     dcl@editoradcl.com.br
Introdução




      No mundo atual, escrever é sempre im-      comunicadas, resultando em algo prazeroso
portante, necessário e freqüente. Mostrar que    de ler, parece coisa reservada aos professo-
você sabe comunicar-se (bem) usando a es-        res de gramática, aqueles especialistas que
crita é um dos fundamentos da capacidade de      estudam a Língua Portuguesa a ponto de fa-
ser e realizar, da cidadania e da competência.   zerem disso sua profissão.
A tão propalada era do computador que, muitos         Nada mais equivocado. A Língua Portu-
afirmavam, iria diminuir drasticamente a ne-     guesa é acessível a todos, é companheira e
cessidade de papel e de escrever, fez o inver-   filha de nós e da cultura em que vivemos e
so: nunca tanta informação e conhecimento        participamos; companheira porque a utiliza-
circularam entre tantas pessoas e de modo tão    mos continuamente, é o veículo de transmis-
rápido, nunca as pessoas se comunicaram          são de nossos saberes, conhecimento e vi-
tanto (via e-mails, chats, impressos etc), fa-   são de mundo, e filha porque é uma entidade
zendo com que todos escrevamos mais e mais.      continuamente alterada pela vivência e cria-
     E escrever bem exige conhecer as re-        ções de nós, falantes da língua portuguesa
gras e bons autores do idioma em que se          espalhados pelo mundo.
escreve. É nesse momento, em que se exige             Este Manual de Redação é um guia para
segurança no manejo das palavras, que sur-       todos que querem e precisam escrever; pre-
gem temor, dúvida, desconfiança e sentimento     tende ensinar a vencer temores e dúvidas
de debilidade diante dos labirintos da língua.   que cercam a produção de um texto. Contém
Estas são as reações mais comuns de              a teoria completa da redação e suas categori-
vestibulandos, alunos de colégios e cursi-       as, muitos exemplos do uso correto de pala-
nhos e outros praticantes da Língua Portugue-    vras e expressões, como interpretar correta-
sa quando precisam encará-la. E produzir um      mente um texto. E mais: modelos de redação
texto correto e elegante, em que o uso ade-      comercial e oficial, temas de redação e ques-
quado das infinitas e complicadas regras gra-    tões dos principais vestibulares do Brasil, para
maticais case com as idéias a serem              você praticar o que aprendeu.
Sumário



1. Teoria da redação                                   As partes da redação
                                                       — Estrutura ................................. 17
  Introdução ..................................... 1
                                                           I. Introdução ........................... 17
  A redação e os bloqueios ............ 2
                                                           II. Desenvolvimento ................ 17
  Tipos de redação .......................... 4
                                                           III. Conclusão .......................... 18
      Descrição ................................. 4
                                                           Qualidades básicas da
          Tipos de descrição ............. 4
                                                           redação .................................. 20
          Exemplos de descrição ...... 5
                                                       Montagem da redação ................ 20
          Exemplo de descrição
                                                           I. O visual ⇒ estética ............ 20
          de pessoa ........................... 6
                                                           II. Lado interno ⇒ correção .. 22
          Exemplo de descrição
          de ambiente ........................ 7               1. A correção ................... 23
      Narração .................................. 7            2. A clareza ...................... 24
          Exemplos de narração ....... 8                       3. A concisão ................... 25
          Formas de relatar                                    4. A originalidade .............. 25
          o enunciado ...................... 10                5. A elegância ................... 26
      Formas do discurso .............. 11                     6. A coesão ...................... 26
      Dissertação ............................ 12      Montagem dos esquemas .......... 26
          Exemplos de                                      Seleção e organização das
          dissertação ....................... 14           idéias na redação .................. 26
          Objetividade x                                   Modelo de esquema .............. 27
          Subjetividade .................... 15
                                                           Dissertação:
          Texto Subjetivo ................. 16             como proceder? .................... 27
          Texto Objetivo ................... 16            Exemplos de esquemas ........ 28
Descontraia ................................. 29              II – Da elaboração da
      O estilo de cada um ............... 29                    redação ............................. 72
  Mandamentos de                                                III – Das propostas ............ 73
  uma boa redação ........................ 30           Modelo 7 – UNIFOR-CE ............... 74
  O início da redação .................... 33           Modelo 8 – UEMA ........................ 75
  Pontos a ponderar ...................... 34           Modelo 9 – UEL-PR ..................... 75
                                                            Redação ................................. 75
2. A redação nos vestibulares
                                                        Modelo 10 – UFPE ....................... 76
  Lembretes importantes ............... 35                  Objetivo: ................................. 76
  Os erros mais freqüentes .......... 35                        Critérios básicos
  Temas de redação                                              de correção ...................... 77
  de vestibulares ........................... 36
      Proposta ................................. 56   3. Redação escolar, comercial e
                                                         oficial
  Modelo 1 – ENEM 2000 ............... 63
  Modelo 2 – UFMG 99 .................. 65              Exemplo de redação escolar ..... 78
  Modelo 3 – UERJ 2000 ................ 66              Carta comercial – Regras .......... 81
      Instruções .............................. 66          Ata .......................................... 83
      Proposta de                                           Circular ................................... 85
      redação .................................. 66         Certificado .............................. 87
      Coletânea de textos .............. 66
                                                            Contrato ................................. 87
          Conjunto 1 — Crianças e
                                                            Memorando ............................ 89
          adolescentes no Brasil .... 66
                                                            Ordem de serviço .................. 89
          Conjunto 2 — A infância
          na mídia ............................. 67         Procuração ............................ 90
          Conjunto 3 — Alguns                               Parecer .................................. 91
          dados ................................ 69         Recibo .................................... 92
          Conjunto 4 — Cenas                                Relatório ................................. 94
          brasileiras ......................... 70
                                                            Currículo ................................. 95
  Modelo 4 – ESPM-SP .................. 70
                                                                Apresentação ................... 95
  Modelo 5 – PUC-RS 2000 ........... 71
                                                                Conteúdo ........................... 96
      Redação ................................. 71
                                                        Redação oficial ........................... 98
  Modelo 6 – PUCCAMP-SP ........... 72
                                                            Ofício – Regras ..................... 98
      Instruções gerais .................. 72
                                                            Ofício completo ...................... 99
          I – Dos cuidados gerais a
          serem tomados pelos                               Ofício simples ....................... 100
          candidatos ........................ 72            Requerimento ....................... 102
Decreto ................................ 104             3. Metonímia ......................... 121
      Despacho ............................. 105               4. Ironia ................................ 121
      Auto ...................................... 105          5. Eufemismo ........................ 122
      Aviso .................................... 106           6. Prosopopéia ou
      Ato ........................................ 107         Personificação ..................... 122

      Acórdão ............................... 108              7. Hipérbole .......................... 122

      Boletim .................................. 109           8. Antítese ............................ 122

      Comunicado ......................... 109                 9. Gradação ......................... 122
                                                               10. Catacrese ...................... 123
      Edital ..................................... 110
                                                               11. Aliteração ....................... 123
      Folha corrida ........................ 112
                                                               12. Assonância ................... 123
      Portaria ................................. 113
                                                               13. Onomatopéia ................. 123
4. Interpretação de textos                                     14. Polissíndeto ................... 123
  Conceito .................................... 114
                                                         5. Guia prático de redação
  A intenção textual ..................... 115
                                                           Introdução ................................. 155
  O sentido lógico e o sentido
  simbólico das palavras ............. 116                 Especificações ......................... 156
  Graus de compreensão                                     Observações finais .................. 291
  dos textos ................................. 117         Vocabulário ............................... 301
  Figuras de linguagem ............... 119                 Questões de vestibulares ........ 343
      1. Metáfora ........................... 119          Índice ......................................... 371
      2. Comparação .................... 120               Bibliografia ................................ 375
— 1 —


1                     Teoria da redação

         Introdução                         ce-nos normal a reação instintiva de
                                            detestá-la, de abstraí-la de nosso dia-a-
                                            dia, pois seria anormal o regozijo por uma
     A Redação no Vestibular, ou em         redação que nos lembrasse todas as
qualquer tipo de Concurso, certa-           limitações de que somos possuidores.
mente já causou muito mais horror, tre-     E, ainda por cima, com nosso nome e
mores, faniquitos e bloqueios do que        assinatura... É demais!
hoje. Destarte, passou o tempo, apren-
deu-se a conviver com ela, mas não se             Mas, entenda-se o vestibular como
Ihe descobriram os segredos, não se         uma grande maratona, e suponha-se
Ihe assinalaram as técnicas, não se Ihe     que, no lugar da redação (com número
adquiriu o sabor gratificante da con-       de linhas e tempo definidos), exigissem
vivência: tornou-se conhecida, mas          dos vestibulandos uma prova de nata-
não íntima.                                 ção, por exemplo: «o candidato deverá
                                            nadar quinhentos metros em cinqüenta
     O vestibular nos exige muito mais      minutos; não atingir o estabelecido im-
que garatujas, rabiscos, arremedos de       plicará a atribuição do grau zero». Um
comunicação verbal lançados ao papel.       percentual insignificante de candidatos
As falhas, sabemo-las, são de base. A       (aqueles que fizeram da natação, des-
reforma do ensino, com o distaciamento
                                            de a infância, uma prática constante)
da cultura humanística, assolou o debili-
                                            não se preocuparia em absoluto com tal
tado saber, contribuindo muito mais para
                                            prova. Apenas, ao longo do ano prepa-
um ensino pragmático que se coloca ad-
                                            ratório, continuariam a manter a forma.
verso «ao gosto pelas letras».
                                            Os outros, a maioria esmagadora (tal
      E comunicarmo-nos é criar. É ofere-   como na redação), seriam obrigados a
cer a outrem as nossas idéias, as nos-      submeter-se a treinamentos constantes
sas opiniões, as nossas experiências        e intensos, que Ihes exigiriam muita for-
de vida. É mostrar a nossa cultura e per-   ça de vontade e autodeterminação em
sonalidade. A comunicação escrita, muito    treinar mais, muito mais do que uma vez
mais que a oral, é o nosso auto-retrato.    por mês ou por quinzena ou por sema-
A redação surge como um verdadeiro          na. Force-se, agora, um paralelo com a
espelho do que somos — é o peso de          redação e sinta-se o quanto nos falta,
nossa bagagem cultural. Ora, entenden-      não para escrever algumas linhas (como
do-a, mesmo que inconscientemente,          para dar algumas braçadas suficientes
como reflexo da nossa bagagem forma-        para atravessar a piscina na sua late-
tiva, como reflexo «do que sou», pare-      ral), mas para escrevermos (ou nadar-
— 2 —

mos) o suficiente em técnica e corre-
ção, com limites de tempo e de número
de linhas, de forma a nos possibilitar
concorrer, mais do que participar, a uma
vaga na Universidade.

     É necessário, portanto, que cada
um, conscientizado de suas limitações
e necessidades, se atire de corpo e alma
a um trabalho de treinamento contínuo e
gradativo, com vistas a melhorar a sua
redação, à luz das técnicas e orien-
tações dadas.

      O esforço, a dedicação, o reconhe-
cer-se débil — mas capaz — são os
elementos que, juntos, propiciarão ao
                                                 A redação e os
aluno as condições para adquirir a
autoconfiança perdida ao longo de anos
                                                    bloqueios
sem preparo específico, refletidos
basicamente em bloqueios e brancos          «Gastei uma hora pensando um verso
mentais, ou na apavorante quantidade        que a pena não quer escrever.
de erros que surgem após uma corre-
ção. É básico que cada um venha a acre-     No entanto ele está cá dentro inquieto,
ditar em si mesmo, sinta-se o suficiente-   vivo.
mente capaz de, por meio de treinos con-    Ele está cá dentro e não quer sair.»
tínuos, elaborar uma redação que atinja
os padrões mínimos de objetividade, cla-                   (Carlos Drummond de Andrade)

reza e correção das idéias: pré-requisi-
                                            «Tantos estudantes psiquicamente
tos exigidos e propostos para a reda-
                                            normais, que falam bem, e até com
ção nos vestibulares ou nos concursos       exuberância e eloqüência, no inter-
públicos.                                   câmbio de todos os dias, são deso-
    Portanto:                               ladores quando se Ihes põe um lápis
                                            ou uma caneta na mão.»
Eu + Força de Vontade                                                 (Mattoso Câmara)
Proporcional às Minhas Dificul-
                                                São poucas as pessoas que, ao
dades = TREINO + TREINO + TREI-
                                            receberem a incumbência de escrever
NO + ...
                                            alguma coisa, ainda que simples bilhete,
    Esta é a regra: Escrever? Só es-        não sintam inibição paralisante. Aconte-
crevendo...!                                ce um branco em sua mente, um vazio
— 3 —

nas suas potencialidades. Vivem minu-       torne algo não só penoso, mas im-
tos (minutos?) de angústia, roem unhas,     possível.
mascam caneta e nada sai.
                                                Como evitar isso?
     O que acontece, se tal ocorre in-
clusive com pessoas de razoável co-             — Treinando! Escrevendo to-
nhecimento, com executivos desinibidos,     dos os dias. Lendo e escrevendo.
por exemplo?                                    — E tempo?
     Primeiramente, como causa objeti-            — Todos dispõem de tempo. É ape-
va, existe a falta de hábito da escrita e   nas uma questão de saber aproveitá-lo.
da leitura. Secundariamente, existe a       De dez minutos diários para uma leitura,
causa subjetiva, o bloqueio psíquico.       de mais dez minutos para pequena re-
Quando escrevemos, temos medo de            dação, todos dispõem. É só fazer hábito
expor-nos. Em geral, não tememos ser        e... até o gosto é capaz de adquirir.
gozados pelo que dizemos. Mas não
aceitamos a hipótese de gozação pelo                 Lembre-se: 10 e 10
que escrevemos. É a força do docu-
mento!...                                        — Adianta escrever se ninguém
      É importante não esquecer que, o      corrige?
mais das vezes, falar bem não significa          — Evidentemente que sim! Escre-
necessariamente escrever bem. Na            vendo todos os dias você vai se
linguagem oral, usamos de recursos que      desinibindo. Vai adquirindo jeito para a
inexistem na escrita: os gestos, por        coisa. Vai sanando dúvidas de ortogra-
exemplo, ou as situações configuradas,      fia (desde que consulte o dicionário).
facilmente descritas ou levadas a imagi-    Vai ficando fluente.
nar, são elementos fundamentais para
que a comunicação possa ser efetua-             — Escrever sobre quê?
da. Convém ainda lembrar que no falar             — Sobre qualquer coisa. No come-
somos repetitivos e, às vezes, até mes-     ço, é aconselhável escrever sobre coi-
mo obscuros, sem que ninguém nos
                                            sas que aconteceram com você. Expri-
«anule» nada. Na redação, ao contrá-
                                            mimos melhor assuntos que vivemos.
rio, a objetividade e a clareza devem se
                                            Depois sobre uma notícia, um comentá-
fazer presentes, pois nós não seremos
                                            rio. A cena de um filme. Mais tarde um
inquiridos no caso de alguma dúvida.
                                            tema abstrato. Reproduzir aquilo que leu.
     Daí que nossas dificuldades se re-     Ou então reescrever as redações que
fletem em brancos ou bloqueios e so-        voltam da correção, corrigindo-as nos
mente como já dissemos, muito treina-       erros apontados, aumentando-as em
mento e perseverança são capazes de         idéias novas, enriquecendo-as de deta-
nos devolver a autoconfiança abalada        lhes que, porventura, tenhamos lido ou
e de nos oferecer um mínimo de condi-       que tenham nos ocorrido. E assim vai
ções para que o fazer redações não se       indo...
— 4 —


  Tipos de redação                              O interesse de um texto descritivo
                                           reside na impressão que tal descrição
                                           provoca em nós, e nada melhor que o
     Três são os tipos de composição       substantivo — que designa o mundo
escrita: a Descrição, a Narração e a       do ser — e o adjetivo — que designa o
Dissertação.                               mundo das qualidades do ser — para
                                           produzirem enfaticamente aquela im-
                                           pressão que brota da fonte descritiva.
Descrição
                                                 O emissor capta a realidade por meio
                                           de seus sentidos e a transmite, utilizando
     Descrever é traduzir com palavras     os recursos da linguagem, tal que o recep-
aquilo que se viu e se observou. É a       tor a identifique. A caracterização é im-
representação, por meio das palavras,      prescindível, daí a forte incidência de ad-
de um objeto ou imagem.
                                           jetivos no texto. A descrição é atemporal,
     É uma seqüência de aspectos: for-     por um lado, e espacial, por outro. Ver-
ma, tamanho, matriz, quantidade etc.       bos indicativos de ação ou movimento são
Equivale ao registro do que se vê em       secundários, valorizando-se os proces-
uma fotografia. Pessoas, objetos ou pai-   sos verbais não-significativos, ou de liga-
sagens (com todos os seus pormeno-         ção. Há grandes descrições que despre-
res) podem ser objeto de um desenho        zam totalmente formas verbais finitas, res-
ou pintura e, logicamente, de uma des-     saltando o emprego de formas nominais
crição.                                    (infinitivo, gerúndio, particípio).
     Consiste em fazer viver, tornar vi-        Convém que se observe, na des-
vos e tangíveis os pormenores, si-         crição, a quase ausência de processos
tuações ou pessoas. É evocar o que         verbais finitos (indicativo ou subjuntivo),
se vê ou sente, ou criar o que não se      o que dá à descrição um tom especia-
vê, mas se percebe ou imagina. Des-        líssimo de imobilidade do objeto.
crever não é copiar friamente, mas
enriquecer a visão do que é real ou                 Tipos de descrição
procura-se tornar real. Saber descre-
ver não significa enumerar muitos de-      1. Descrição Denotativa: A descrição
talhes, mas procurar transmitir sensa-        é denotativa quando a linguagem re-
ções fortes.                                  presentativa do objeto é objetiva, cla-
                                              ra, direta, sem metáforas ou outras
    A descrição é destituída de ação. É
                                              figuras literárias. Na descrição deno-
estática.
                                              tativa, as palavras são tomadas no
     Na descrição, o ser, o objeto ou o       seu sentido de dicionário, único. De-
ambiente são mais importantes, ocupan-        notativas são, por exemplo, as des-
do lugar de destaque na frase o subs-         crições científicas, as descrições que
tantivo e o adjetivo.                         vêm nos livros didáticos etc.
— 5 —

2. Descrição Conotativa: É a des-                 Exemplos de descrição
   crição literária, onde as palavras são
   tomadas em sentido simbólico, ri-        1. «Duas horas da tarde. Um sol ardente
   cas em polivalências. Visam a re-           nos colmos dardejando e nos eirados
   tratar uma realidade além da realida-       sobreleva aos sussurros abafados o
   de. Uma supra-realidade.                    grito das bigornas estridentes...»

    Dado, por exemplo, o tema «A Ca-                                 (Gonçalves Crespo)

deira» para descrever:
                                            2. «Manhã cinzenta. Partida de Lisboa.
a) A pessoa que se limitasse a descre-         Os primeiros aspectos da campina
   ver fisicamente a cadeira — suas per-       ribatejana: touros, campinos de vara
   nas, espaldar, assento, altura, cor         ao alto, searas infinitas.
   etc. — estaria fazendo descrição              Depois, mutação de cenário: flores-
   denotativa.                              tas de pinheiros verdenegros, outeiros.
b) Mas aquele que passasse, digamos,            Uma aberta de luz: campos exten-
   a descrever «reações psicológicas»       sos de milho e arrozais. Enfim, o tufo
   de uma cadeira diantes dos diferen-      espesso do Choupal. Coimbra, debru-
   tes tipos de nádegas que sobre ela       çada sobre o Mondego».
   repousassem... estaria fazendo des-
                                                                              (R. Lapa)
   crição conotativa.
     Qualidades da boa descrição:           3. «Sala de prédio novo no pátio do
uma descrição é boa quando é viva,             torel. Ornamentações «Liberty» na
animando-se a paisagem com seres vi-           sua clara tonalidade preferida, que
                                               funde o verde-mar e em rosa-páli-
vos e com a presença do homem. Além
                                               do. Duas grandes janelas por onde
de viva, a descrição deve ser real e
                                               se perspectiva a baixa e um largo
pormenorizada. Descrição real é a des-
                                               trecho do rio. A parede do sul corta-
crição em relevo, dotada, podemos di-
                                               da por três arcos envidraçados que
zer, de corpo. Devem ser eliminados to-
                                               dão para uma espécie de estufa
dos os pormenores que não se subordi-
                                               rescendente.»
nem à impressão geral que se quer dar.
                                                                       (Teixeira Gomes)
     O estilo da descrição: a lingua-
gem descritiva exige o vigor e o relevo     4. «Os companheiros de classe eram
do termo forte, próprio, exato, concreto.      cerca de vinte. O Gualtério, miúdo,
Nos quadros de natureza, por exemplo,          redondo de costas, cabelos re-
a linguagem deve traduzir a cor e a vi-        voltos, motilidade brusca e care-
são, os espaços sem limites, as formas         tas de símio — palhaço dos ou-
sem contornos, imprecisas, intangíveis,        tros, como dizia o professor: o Nasci-
para isso utilizando os termos gerais e        mento, o bicanca, alongado por um
abstratos.                                     modelo geral de pelicano, nariz
— 6 —

esbelto, curvo e largo como uma                        Exemplo de descrição de pessoa
voice; o Álvares, moreno, cenho
carregado, cabeleira espessa e                                             NHÔ RUFA
intonsa de vate de caverna, vio-                            Chamava-se Rufino o preto cuja
lento e estúpido ( . . . ); o Almeidinha,              carapinha em desalinho a neve dos anos
claro, translúcido, rosto de me-                       manchara de branco. Não sei a sua ida-
nina, faces de um rosa doentio,                        de, mas meu avô dizia que "Negro quan-
que se levantava, para ir à pedra com                  do pinta tem três vezes trinta". Talvez
um vagar lânguido de convales-                         carregasse por noventa anos aquele
cença; o Maurílio, nervoso, insofri-                   corpo magro e dolorido.
do, fortíssimo em tabuada: cinco                            As pálpebras empapuçadas deixa-
vezes três, vezes dois, noves fora,                    vam entrever, dos olhos, apenas um ris-
vezes sete?. . . Iá estava Maurílio, trê-              co preto que mirava com ódio a menina-
mulo, sacudindo no ar o dedinho                        da que o acompanhava e divertia-se às
esperto... olhos fúlgidos no ros-                      suas custas.
to moreno, marcado por uma pin-
ta na testa; o Negrão, de ventas                             A pele preta era opaca e sem viço,
                                                       próprio da idade avançada. Seu nariz
acesas, lábios inquietos, fisio-
                                                       achatado parecia esborrachado. O lá-
nomia agreste de cabra, canhoto
                                                       bio inferior, bem vermelho e grosso, pen-
e anguloso, incapaz de ficar sen-
                                                       dia desgovernado, dificultando a fala.
tado três minutos; (...) Batista
Carlos, raça de bugre, válido, de                            Os pés grandes e descalços, sem-
má cara, coçando-se muito, co-                         pre inchados, permitiam-lhe apenas um
mo se o incomodasse a roupa no                         caminhar trôpego, arrastado e cansa-
corpo, alheio às coisas da aula,                       do. Usava um velho capote de cor inde-
como se não tivesse nada com aquilo,                   finida, onde predominava o pó da estra-
                                                       da, e um chapéu de feltro, maltratado
espreitando apenas o professor para
                                                       pelas intempéries, tão deformado pela
aproveitar as distrações e ferir a ore-
                                                       falta de forro a ponto de parecer uma
lha dos vizinhos com uma seta de pa-
                                                       tigela desabada sobre os olhos.
pel dobrado. (...)
                                                            Trazia a tiracolo um bodoque (que
Fui também recomendado ao Sanches.                     é um arco para atirar bolotas de barro)
Achei-o supinamente antipático:                        e, no outro ombro, uma velha aljava de
cara extensa, olhos rasos, mor-                        couro, velha e encardida, repleta das
tos, de um pardo transparente, lá-                     ditas bolotas de barro seco, sua arma
bios úmidos, porejando baba,                           contra os meninos. Estes diziam que Nhô
meiguice viscosa de crápula anti-                      Rufa tinha bicho-de-pé e gritavam de
go. Era o primeiro da aula. Primeiro que               longe, em coro:
fosse do coro dos anjos, no meu con-
                                                             — Bichento! Bichento!
ceito era a derradeira das criaturas.»
                                                       (Dalva Ferreira Fanchim. Piraí do Sul, sua gente e suas
(O Ateneu, Raul Pompéia — Coleção dos Clássicos         histórias. Curitiba: Imprensa da Assembléia Legislativa
            Brasileiros, Edições de Ouro, p. 57-58.)                                     do Paraná, 1984, p. 90.)
— 7 —

      Exemplo de descrição                             Narração
          de ambiente
                                                            Narrar é discorrer sobre fatos. É
               A FAZENDA
                                                       contar. Consiste na elaboração de um
     Pior fazenda que a do Espigão, ne-                texto que relate episódios, aconteci-
nhuma. Já arruinara três donos, o que                  mentos, ou seja, é uma seqüência de
fazia dizer aos pragueiros: Espiga é o                 acontecimentos: começo, meio e fim.
que aquilo é!                                          Equivale ao registro de uma história, de
                                                       um "causo", de uma anedota, de uma
     Os cafezais em vara, ano sim ano                  piada. Quando se conta uma história
não batidos de pedra ou esturrados de                  (verdadeira ou inventada), está-se fa-
geada, nunca deram de si colheita de                   zendo uma narração.
entupir tulha. Os pastos ensapezados,
enguaxumados, ensamanbaiados nos                            Ao contrário da descrição, que é
topes, eram acampamentos de cupins                     estática, a narração é eminentemente
com entremeios de macegas mortiças,                    dinâmica. Nela predominam os verbos.
formigantes de carrapatos. Boi entrado                 Aqui o importante está na ação. No «o
ali punha-se logo de costelas à mostra,                que aconteceu».
encaroçado de bernes, triste e dolorido
                                                            A essência da ficção é a Narrativa,
de meter dó.
                                                       respondendo os seus elementos a uma
     As capoeiras substitutas das ma-                  série de perguntas. São elas:
tas nativas revelavam pela indiscrição                 a) Quem participa nos acontecimentos?
das tabocas a mais safada das terras                      (personagens)
secas. Em tal solo a mandioca braceja-
va a medo varetinhas nodosas; a cana                   b) O que acontece? (enredo)
caiana assumia aspecto de caninha, e
esta virava um taquariço magrela dos                   c) Onde e em que circunstâncias acon-
que passam incólumes entre os cilin-                      tece? (o lugar dos fatos, ambiente e
dros moedores. Piolhavam os cavalos.                      situação)
Os porcos escapos à peste encrua-                          Em síntese, a narrativa de um fato
vam na magrém faraônica das vacas                      ou vários é feita a partir de alguns ele-
egípcias.                                              mentos, tais como:
     Por todos os cantos imperava o fer-               o quê?
rão das saúvas, dia e noite entregues à
                                                       o acontecimento a ser narrado;
tosa dos cupins para que em outubro se
toldasse o céu de nuvens de içás, em                   quem?
saracoteios amorosos com enamorados                    a personagem principal (protagonista);
sativus.
                                                       quem?
       (Monteiro Lobato. Urupês. 13. ed., São Paulo:
                       Brasiliense, 1996, p. 234-5.)   o antagonista;
— 8 —

como?                                      de ouvir as personagens); ter como as-
a maneira como se desenrolou o             sunto caso real ou fictício; ser séria,
acontecimento;                             engraçada ou triste. Quem escreve é
                                           quem decide como fazer a redação.
quando?
o tempo da ação;                                 Exemplos de narração
onde?                                      1. «Toda a gente tinha achado estranha
o local do acontecimento;                     a maneira como o Capitão Rodrigo
                                              Cambará entrara na vida de Santa Fé.
por quê?                                      Um dia chegou a cavalo, vindo nin-
a razão do fato;                              guém sabia de onde, com o chapéu de
                                              barbicacho puxado para a nuca, a bela
por isso                                      cabeça de macho altivamente erguida,
o resultado ou conseqüência.                  e aquele seu olhar de gavião que irri-
                                              tava e ao mesmo tempo fascinava as
     Na redação narrativa, o fato é o         pessoas. Devia andar lá pelo meio da
núcleo da ação, e o verbo o elemento          casa dos trinta, montava um alazão,
valioso por excelência. Ao escrevermos        trazia bombachas claras, botas com
uma narração, é importante que uma só         chilenas de prata e o busto musculoso
situação a centralize e envolva as per-       apertado num dólmã militar azul, com
sonagens. Deve haver um centro do             gola vermelha e botões de metal. Ti-
conflito, um núcleo do enredo. A narra-       nha um violão a tiracolo; sua espada,
ção distingue e ordena os fatos.              apresilhada aos arreios, rebrilhava ao
    A sua essência é a criatividade.          sol daquela tarde de outubro de 1828
                                              e o lenço encarnado que trazia ao pes-
     O texto narrativo é eminentemente        coço esvoaçava no ar como uma ban-
temporal e espacial. Envolve a ação,          deira. Apeou na frente da venda do
o que produz a personagem, o agen-            Nicolau, amarrou o alazão no tronco
te do processo narrativo.                     dum cinamomo, entrou arrastando as
                                              esporas, batendo na coxa direita com
     Esta modalidade de texto transita
                                              o rebenque, e foi logo gritando, assim
por um fio condutor que leva a uma situ-
                                              com ar de velho conhecido:
ação denominada «clímax» ou «nó»,
decaindo numa «resolução» ou epílo-            — Buenas e me espalho! Nos pe-
go. O segredo da narrativa concentra-      quenos dou de prancha e nos grandes
se no grau de «suspense» criado, bem       dou de talho!
como no fecho surpreendente.
                                                Havia por ali uns dois ou três ho-
    É importante lembrar que a narra-      mens, que o miraram de soslaio sem di-
ção pode ser curta ou longa; ter diálogo   zer uma palavra. Mas dum canto da sala
ou não (o diálogo torna a narração mais    ergue-se um moço, que puxou a faca,
dinâmica, pois cria no leitor a sensação   olhou para Rodrigo e exclamou:
— 9 —

     — Pois dê!                                   Depois de alguma relutância o ou-
                                             tro guardou a arma, meio desajeitado, e
     Os outros homens se afastaram
                                             Rodrigo estendeu-lhe a mão, dizendo:
como para deixar a arena livre, e Nicolau,
atrás do balcão, começou a gritar:               — Aperte os ossos.»
     — Aqui dentro não! Lá fora! Lá fora!           (Érico Veríssimo, Um certo capitão Rodrigo)

     Rodrigo, porém, sorria imóvel, de       2. «O fiscal da alfândega não podia en-
pernas abertas, rebenque pendente do            tender por que aquela velhinha viaja-
pulso, mãos na cintura, olhando para o          va tanto. A cada dois dias, vinha ela
outro com um ar que era ao mesmo tem-           pilotando uma motocicleta e ultrapas-
po de desafio e simpatia.                       sava a fronteira. Fora interceptada
     — Incomodou-se, amigo? — per-              inúmeras vezes, fiscalizada e nada.
                                                O fiscal alfandegário não se confor-
guntou, jovial, examinando o rapaz de
                                                mava com aquilo.
alto a baixo.
    — Não sou de brigas, mas não cos-            — Que traz a senhora, aí?
tumo agüentar desaforo.                          — Nada, não, senhor!
     — Oi bicho bom!                              A cena, que se repetia com tanta
    Os olhos de Rodrigo tinham uma           freqüência, intrigava o pobre homem.
expressão cômica.                                Não se conteve:
     — Essa sai ou não sai? — pergun-             — Não é por nada, não; me faz um
tou alguém do lado de fora, vendo que        favor, dona. Não Ihe vou multar, nem
Rodrigo não desembainhava a adaga. O         nada; é só por curiosidade, a senhora
recém-chegado voltou a cabeça e res-         está contrabandeando o quê?
pondeu calmo:
                                                  — Seu fiscal, o senhor já desmon-
     — Não sai. Estou cansado de bri-        tou a moto e nada achou, que quer mais?
gas. Não quero puxar arma pelo menos
por um mês. — Voltou-se para o homem             — Só pra saber, dona!
moreno e, num tom sério e conciliador,
                                                  — Tá bem, eu conto: O contraban-
disse: — Guarde a arma, amigo.
                                             do é a moto, moço!»
     O outro, entretanto, continuou de
                                                 (adaptado)
cenho fechado e faca em punho. Era
um tipo indiático, de grossas sobrance-            3. A BORBOLETA PRETA
lhas negras e zigomas salientes.
                                                  A borboleta, depois de esvoaçar
    — Vamos, companheiro — insistiu          muito em torno de mim, pousou-me na
Rodrigo. — Um homem não briga debal-         testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidra-
de. Eu não quis ofender ninguém. Foi         ça; e, porque eu a sacudisse de novo,
uma maneira de falar...                      saiu dali e veio parar em cima de um
— 10 —

velho retrato de meu pai. Era negra como                 Pegou a mala deixada na portaria de um
a noite. O gesto brando com que, uma                     dos hotéis em que havia procurado cô-
vez posta, começou a mover as asas,                      modo, tomou um táxi e foi para a casa
tinha um certo ar escarninho, que me                     do parente, certo de ali encontrar o de-
aborreceu muito. Dei de ombros, saí do                   sejado cantinho onde pudesse passar
quarto; mas tornando lá, minutos depois,                 alguns dias.
e achando-a ainda no mesmo lugar, senti
                                                              Chegou e foi bem recebido. Como,
um repelão dos nervos, lancei a mão de
                                                         porém, a casa era pequena, teve de aco-
uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
                                                         modar-se no mesmo quarto em que dor-
     Não caiu morta; ainda torcia o cor-                 mia um sobrinho de poucos meses. De
po e movia as farpinhas da cabeça.                       madrugada, acordou com a bexiga cheia,
Apiei-me; tomei-a na palma da mão e fui                  desesperado por esvaziá-la. Levantou-
depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a              se, procurou o vaso noturno por todos
infeliz expirou dentro de alguns se-                     os cantos e não o encontrou. Para ir até
gundos. Fiquei um pouco aborrecido, in-                  o banheiro, tinha de atravessar o quarto
comodado.                                                onde dormia o casal, precisaria acender
                                                         as luzes e, com todo esse movimento,
     — Também por que diabo não era                      poderia acordar o irmão e a cunhada.
ela azul? disse comigo.
                                                             Como fazer, então, para sair da-
     E esta reflexão — uma das mais                      quela aflitiva situação?
profundas que se tem feito, desde a in-
venção das borboletas — me consolou                          Depois de muito pensar, pegou o
do maléfico, e me reconciliou comigo                     garoto, passou-o para a sua cama e
mesmo.                                                   esvaziou a bexiga ali mesmo no col-
                                                         chãozinho do berço...
    (Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás
         Cubas. 5. ed., São Paulo: Ática, 1975, p.52.)         Aliviado, o Juventino, ao pegar ou-
                                                         tra vez o garotinho para pô-lo novamen-
        4. CASTIGO MERECIDO                              te no berço, viu que o safadinho havia
                                                         feito coisa muito pior em sua cama...
     Numa das suas viagens a São Pau-
lo, o Juventino não pôde conseguir, de                      (Décio Valente. Coisas que acontecem... 1. ed. São
                                                                                 Paulo: L. Oren, 1969, p. 66-7.)
forma alguma, um quarto em hotel ou
pensão onde pudesse hospedar-se.
    Percorreu a cidade toda, e nada!                      Formas de relatar o enunciado
Tudo cheio, completamente lotado.
                                                              A relação verbal emissor/receptor
     Finalmente, após longas e infrutífe-                efetiva-se mediante o que chamamos
ras caminhadas, resolveu ir para a casa                  discurso. A narrativa se vale de tal
de seu irmão, residente em bairro afas-                  recurso, efetivando o ponto de vista ou
tado do centro da grande metrópole.                      foco narrativo.
— 11 —

a) Quando o narrador participa do en-             c) Ocorrem casos em que o narrador é
   redo, é personagem atuante, diz-se                classificado como onisciente, pelo
   que é narrador-personagem ou                      fato de dominar o lado psíquico de seus
   participante. Isso constitui o foco               personagens, antepondo-se às suas
   narrativo ou ponto de vista da pri-               ações, percorrendo-lhes a mente e a
   meira pessoa.                                     alma. Neste particular, Clarice Lis-
                                                     pector destaca-se brilhantemente.
     Exemplo:
                                                       Exemplo:
     «— Is this an elephant? Minha ten-
dência imediata foi responder que não;                  «Na rua vazia as pedras vibravam
mas a gente não deve se deixar levar              de calor — a cabeça da menina flameja-
pelo primeiro impulso. Um rápido olhar            va. Sentada nos degraus de sua casa,
que lancei à professora bastou para ver           ela suportava. Ninguém na rua, só uma
que ela falava com seriedade e tinha o            pessoa esperando inutilmente no ponto
ar de quem propõe um problema.»                   de bonde. E como se não bastasse seu
                  (Aula de Inglês, Rubem Braga)
                                                  olhar submisso e paciente, o soluço a
                                                  interrompia de momento a momento, aba-
b) Chamamos narrador-observador                   lando o queixo que se apoiava com-
   ao que serve de intermediário entre o          panheiro na mão... Na rua deserta ne-
   episódio e o leitor — é o foco narrati-        nhum sinal de bonde. Numa terra de
   vo de terceira pessoa.                         morenos, ser ruiva era uma revol-
                                                  ta involuntária.
     Exemplo:
                                                       Se num dia futuro sua marca ia fazê-
      «Os dois cabras se aproximaram              la erguer insolente uma cabeça de mu-
sem que ele pressentisse. Eram um alto e          lher? Por enquanto ela estava sentada
um baixo; o baixo, grosso e escuro, ves-          num degrau faiscante da porta, às duas
tido numa camisa de algodãozinho encar-           horas. O que a salvara era uma bolsa
dido. O alto era alourado e não se podia          velha de senhora, com alça partida. Se-
dizer que estivesse vestido de coisa ne-          gurava-a com um amor conjugal já habi-
nhuma, porque era farrapo só. O grosso            tuado, apertando-a contra os joelhos.»
na mão trazia um couro de cabra, ainda
                                                                             (Clarice Lispector)
pingando sangue, esfolado que fora fa-
zia pouco. E nem tirou o caco de chapéu
da cabeça, nem salvou ao menos.
     O velho até se assustou e brusca-
                                                  Formas do discurso
mente se pôs a cavalo na rede, a escu-
tar a voz grossa e áspera, tal e qual             1. O DISCURSO DIRETO constitui a
quem falava:                                         técnica do diálogo. É a persona-
                                                     gem em atividade, animizada, falan-
    — Cidadão, vim Ihe vender este                   do. Estrutura-se, normalmente, com
couro de bode.»                                      a precedência de dois-pontos e ini-
                           (Rachel de Queiroz)       cia-se após um travessão.
— 12 —

    «... Botou as mãos na cabeça e a          que o envolvem, na discussão da pro-
boca no mundo:                                blemática que nele reside, na defesa de
                                              princípios, na tomada de posições.
    — Nossa senhora, meu patrãozinho
me mata!»                                           Caracteriza-se a dissertação pela
                          (Fernando Sabino)   análise objetiva de um assunto, pela
                                              seqüência lógica das idéias, quando re-
2. O DISCURSO INDIRETO caracteriza-           fletidas e expressas, pela coerência na
   se pelo emprego da subordina-              exposição delas.
   ção sintática, impedindo a fala da
   personagem. «D. Evarista ficou                   A redação expositiva ou disserta-
   aterrada. Foi ter com o marido, dis-       ção implica uma estrutura organizada
   se-lhe que estava com desejos.»            em etapas que focalizem o assunto a
                                              partir de uma técnica determinada, bus-
                         (Machado de Assis)
                                              cando objetivos precisos.
3. O DISCURSO INDIRETO LIVRE é uma                 Portanto: a dissertação exige re-
   mescla do discurso direto com              flexão e seleção de idéias. Exige que
   o indireto, proporcionando um mo-          se monte um plano de desenvolvimento.
   vimento interno da fala, o monólo-
   go interior.                                    Para reforçar esta necessidade,
                                              vale a pena transcrevermos algumas li-
    Observe o fragmento:                      nhas de Buffon:
     «Sinhá Vitória falou assim, mas Fa-
                                                   «É pela ausência de plano, é por
biano franziu a testa, achando a frase
                                              não ter refletido bastante sobre o
extravagante. Aves matarem bois e ca-
                                              assunto, que um homem de talento se
valos, que lembrança! Olhou a mulher,
                                              sente embaraçado, não sabendo por
desconfiado, julgou que ela estivesse
                                              onde começar a escrever. Entrevê, ao
tresvariando».
                                              mesmo tempo, grande número de idéi-
                         (Graciliano Ramos)   as; e como não as comparou, nem su-
                                              bordinou, nada o obriga a preferir umas
                                              às outras; fica, pois, perplexo. Mas,
Dissertação                                   quando tiver esboçado um plano,
                                              quando tiver reunido e posto em or-
    Dissertar é tratar com desen-
                                              dem todos os pensamentos essenci-
volvimento um ponto doutrinário,
                                              ais ao seu assunto, sentirá o ponto de
um tema abstrato, um assunto ge-
                                              maturação da produção do espírito,
nérico. Ou seja:
                                              apressar-se-á a fazê-lo desabrochar e
  Dissertar é expor idéias em torno           terá prazer em escrever.
  de um problema qualquer.
                                                   Para escrever bem, é preciso, por-
    Consiste na exposição de um as-           tanto, estar plenamente senhor do seu
sunto, no esclarecimento das verdades         assunto; é preciso refletir bem nele,
— 13 —

para ver claramente a ordem dos                      Introdução — parte em que se
pensamentos e formular deles uma               apresenta o assunto a ser questionado;
seqüência, uma cadeia, em que cada             o desenvolvimento — parte em que
ponto representa uma idéia».                   de se discute a proposta e, por último, a
                                               conclusão — em que se toma posição
      Convém certo domínio de conheci-
                                               relativamente à proposta.
mento do assunto, cultura apreciável e,
sobretudo, domínio das estruturas sin-              Normalmente os vestibulares pe-
táticas mais elaboradas, do período com-       dem que se disserte em 25 ou 30 linhas,
posto por subordinação. As orações re-         no máximo, o que nos faz sugerir pará-
duzidas de infinitivo, particípio e gerúndio   grafos de 5 ou 6 linhas.
constituem excelente material.
                                                     A sermos coerentes, é necessário
⇒ Este é o tipo de redação pedido (ou          entre os parágrafos, correlação. Isto é,
  esperado) pela maioria dos vestibu-          o assunto deve ser criteriosamente
  lares do Brasil ou dos Concursos Pú-         distribuído.
  blicos.
                                                   Resumindo:
     E, infelizmente, desde as primei-
                                                    É uma seqüência de juízos, de con-
ras redações primárias até as colegi-
                                               siderações, de reflexões sobre algum
ais, a redação preferida, pela necessi-
                                               assunto, a partir do que estabelece uma
dade de se incentivar a criatividade, foi
                                               opinião.
a Narração. Contamos sobre piqueni-
ques, passeios, viagens, excursões...;             Para quem vai fazer uma disserta-
contamos o real, o imaginário, o veros-        ção é importante:
símil...; passamos do infantil ao trágico;
seguimos, enfim, por caminhos que a            a) examinar o tema, entendê-lo e rela-
nossa imaginação e potencialidades                cioná-lo a alguma situação conhe-
nos levaram e, em matéria de redação,             cida;
paramos aí.                                    b) anotar as idéias (argumentos fa-
      O discutir assuntos, o criticar situa-      voráveis e contrários) que conseguir
ções, o propor soluções sempre o fo-              sobre o tema;
ram muito distantes de nossa realidade.        c) decidir a posição (favorável ou con-
A juventude, hoje, mais do que nunca,             trária) que vai defender;
alienou-se em páramos de um mundo sem
problemas. Ela não participa, ela não sen-     d) fazer um rol do vocabulário (elenco
te, ela não reage, ela não discute, nor-          de palavras) que se refere ao as-
malmente não entende, e... por isso, não          sunto;
escreve; quando o faz, as paráfrases
                                               e) rascunhar a dissertação a partir do
fazem-se presentes também.
                                                  tema, com rápida introdução em que
     A dissertação baseia-se em três              podem aparecer dados históricos,
partes fundamentais:                              opiniões gerais;
— 14 —

f ) apresentar os argumentos, come-              O marco divisório entre os dois
    çando pelos mais simples, já atacan-    mundos, o que avança destemido e o
    do os contrários e enaltecendo os       que marca passo no círculo de giz de
    favoráveis;                             suas estruturas arcaicas e tradicionais,
                                            é, sem dúvida nenhuma, a educação. É
g) concluir o trabalho, à vista dos argu-
                                            ela que, ao produzir tecnologia, encami-
   mentos, com a posição que está de-
                                            nha as soluções permanentes concebi-
   fendendo;
                                            das em nível de magnitude. Por isso
h) revisar o texto:                         mesmo, é a matéria-prima prioritária, o
                                            elemento deflagrador do progresso rá-
— eliminando o que for supérfluo ou ine-    pido. Terá de ser encarada com imagi-
  ficaz, como repetições, frases que        nação e empenho, pré-requisito que
  pouco dizem (e que, portanto, não         exige a participação imediata e fecunda
  fazem falta);                             da vontade nacional.
— alterando, se preciso, a ordem dos              Muitas nações subdesenvolvidas já
  argumentos;                               despertaram para a ampla semeadura
— corrigindo os erros de concordância,      educacional. O fato de pensar-se na
  de regência, de pontuação, de orto-       educação como meio de desenvolvimen-
  grafia, de acentuação;                    to já constitui um sistema de desenvolvi-
                                            mento, uma atitude para o desen-
i) rever o texto, analisando-o como su-     volvimento. Nem todas, porém, lograram
    põe que o examinador o analisará e,     ainda preencher o hiato entre o desejo e
    se necessário, modificá-lo;             a vontade de se desenvolverem.
j) passar a limpo, lembrando-se de que           O hiato persiste sob a forma de uma
    nenhum examidor gostaria de ter de      mentalidade rançosa, impermeável às
    decifrar a letra.                       mudanças. E, quando o influxo refor-
                                            mista vence barreiras e busca implan-
     Exemplos de dissertação                tar-se, defronta quase sempre a falta
                                            de organização e os condicionamentos
      Os meios de comunicação de mas-
                                            superados.
sa devem alterar, nas próximas duas
ou três décadas, uma boa parte da               Só a esperança não basta; é preci-
fisionomia do mundo civilizado e das        so a consciência.
relações entre os homens e povos. A
                                                                 (Jornal do Brasil, 23/11/69)
educação, mola mestra deste impulso
irresistível, é modernizada dia a dia a
                                              1. NASCEM OS HOMENS IGUAIS
fim de suprir as novas necessidades
que se multiplicam, adaptando o homem            Nascem os homens iguais; um mes-
contemporâneo ao chamado das es-            mo, igual princípio os anima, os conser-
trelas, que ele já não se satisfaz em       va, e também os debilita, e acaba. So-
contemplar.                                 mos organizados pela mesma forma, por
— 15 —

isso estamos sujeitos às mesmas vai-                       pre, cheio de Espinhos e sem uma única
dades. Para todos nasce o Sol; a aurora                    flor que nele se abra e amenize. Haveria
a todos desperta para o trabalho; o si-                    somente um homem em quem palpitasse
lêncio da noite anuncia a todos o des-                     coração tão seco, tão enregelado e sem
canso. O tempo que insensivelmente                         vida de Sentimentos: o homem que não
corre, e se distribui em anos, meses e                     amasse o lugar de seu nascimento. De-
horas, para todos se compõe do mesmo                       pois dos pais, que recebem nosso pri-
número de instantes. Essa transparen-                      meiro grito, o solo pátrio recebe os nos-
te região a todos abraça; todos acham                      sos primeiros passos; é um duplo rece-
nos elementos um patrimônio comum, li-                     ber, que é duplo dar. As idéias grandes
vre, e indefectível; todos respiram o ar;                  e generosas dilatam o horizonte da pá-
a todos sustenta a terra; as qualidades                    tria; a religião, a língua, os costumes, as
da água, e do fogo, a todos se comuni-                     leis, o governo, as aspirações fazem de
cam. O mundo não foi feito mais em be-                     uma nação uma grande família, e de um
nefício de uns, que de outros, para to-                    país imenso a pátria de cada membro
dos é o mesmo; e para o uso dele todos                     dessa família. Mas, deixem-me dizer
têm igual direito; ou seja pela ordem da                   assim, a grande não pode fazer olvidar
natureza, ou seja pela ordem da sua                        a pequena pátria; dessa árvore que se
mesma instituição; todos achamos no                        chama a nação, o país, não há quem
mundo as mesmas partes essenciais.                         não sinta que a raiz é a família e o berço
Que cousa é a vida para todos mais do                      a pátria.
que um enleio de vaidades, e um giro
                                                              (Joaquim Manuel Macedo. Apud Oliveira, Cleófano
sucessivo entre o gosto, a dor, a ale-                          de. Flor do Lácio. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 1961,
gria, a tristeza, a aversão, e o amor?                                                                      p. 287.)

(Matias Aires. Reflexões Sobre a vaidade dos homens,
ou discursos morais sobre os efeitos da vaidade. 9. ed.,
         Rio de Janeiro: José Olympio, 1953, p. 117-8.)
                                                            Objetividade x Subjetividade

                  2. A PÁTRIA                                 Ao expor um problema, ao discutir
                                                           um assunto, você pode agir de duas
     Um célebre poeta polaco, des-                         maneiras: objetiva ou subjetivamente.
crevendo em magníficos versos uma flo-
                                                                Objetivamente, se a exposição
resta do seu país, imaginou que as aves
                                                           do assunto se apresentar impessoal,
e os animais ali nascidos, se por acaso
                                                           marcada pela presença do raciocínio e
longe se achavam, quando sentiam apro-
                                                           da Iógica universal — quando o assunto
ximar-se a hora da sua morte, voavam
                                                           for abordado e discutido de maneira ge-
ou corriam e vinham todos expirar à som-
                                                           nérica, com idéias e posicionamentos
bra das árvores do bosque imenso onde
                                                           que pudessem ser aceitos por todos,
tinham nascido. O amor da pátria não
                                                           ou por uma maioria.
pode ser explicado por mais bela e deli-
cada imagem. Coração sem amor é um                              Essa redação tem por finalidade
campo árido, quase sempre, ou sem-                         básica instruir e/ou convencer o lei-
— 16 —

tor. As idéias e o modo de se analisar e     é o normal, que dentro de uma surjam
enfocar os problemas são pessoais, mas       aspectos das outras. O seu entrosa-
a colocação disso tudo dentro da reda-       mento é normal, malgrado se conservem
ção deve ser impessoal: verbo na 3ª          sempre a essência e as particularidades
pessoa ou na 1ª do plural — afinal,          de cada uma, pois, se assim não o fosse,
Nós não sou eu, mas... somos todos.          não saberíamos identificá-las.
     Subjetivamente, caso predomi-                Exemplos:
nem, na exposição das idéias, suas pró-
prias opiniões, sua maneira pessoal,                    Texto Subjetivo
particular de ver e encarar as coisas.
Esta modalidade depende essencialmen-              «Nunca será tão domingo como aqui,
te do tema dado, que deve estar próxi-       e domingos e domingas de eternidade se
mo da subjetividade. De um modo geral,       concentram em vigorosa dominicalização.
ela deve ser evitada por aproximar-se        Não acontecer nada, que beatitude! Dei-
demasiadamente da narração, por meio         xar o mato crescer — mas o próprio mato
dos seus subtipos, como a crônica, por       foge à obrigação, e goza o domingo. Lá
exemplo.                                     estão o touro zebu e seu harém de no-
                                             bres e modestas vacas — porque o zebu
      Na redação subjetiva, procura-se,      alia à majestade indiana a placidez das
antes de tudo, angariar a simpatia do        Minas, e boi nenhum se fez tão mineiro
leitor com relação ao exposto. Daí que,      quanto esse, e bicho nenhum é tão minei-
para fazê-lo, baseamo-nos essencial-         ro quanto o boi, em seu calado conheci-
mente em nossas opiniões, no nosso           mento da vida, sua participação no traba-
modo particular de ver as coisas, no         lho. O rebanho amontoa-se em círculos,
nosso pensar em relação aos fatos,           algumas reses em pé, outras deitadas,
deixando transparecer, o mais das ve-        chifres cumprimentando-se sem ruído. Pa-
zes, um tom confessional, pontilhado de      rece um só boi espalhado, maginando. Com
emoções e sentimentalismos: verbo na         o pincel do rabo, executa o milenar movi-
1ª pessoa do sing. — EU.                     mento de repelir a mosca, sei que não o
     O ideal seria que se unissem num        pratica pelo prazer de abanar-se. Mas há
só os dois modelos, escrevendo, num          bois esparsos, bois solitários, que se pos-
tom impessoal, idéias efervescentes de       tam junto a árvores, aparentemente re-
características emotivas que pudessem        colhidos; ou fitam o carro que levanta po-
tocar o leitor, derrubando-o do seu papel    eira sobre a poeira habitual, e ruminam
tirano de riscar, corrigir, apontar defei-   não sei que novelas de boi.»
tos: afinal, ele é «gente como nós».                          (Carlos Drummond de Andrade)

⇒ Observação:
                                                         Texto Objetivo
     Nem sempre a descrição, a narra-
ção e a dissertação aparecem em «esta-           «As casinhas eram alugadas por
do puro». É perfeitamente possível, aliás    mês e as tinas por dia: tudo pago adi-
— 17 —

antado. O preço de cada tina, metendo a               Ela é muito importante. Sendo o
água, quinhentos réis, sabão à parte. As         contato inicial do leitor com o texto, deve
moradoras do cortiço tinham preferência          atraí-lo, despertar-lhe o interesse. As-
e não pagavam nada para lavar.                   sim, deve ser objetiva e simpática. E,
                                                 sobretudo, não pode ser longa. Normal-
     Graças à abundância da água que
                                                 mente um ou dois períodos.
lá havia, como em nenhuma outra parte,
e graças ao muito espaço de que se dis-                O tópico frasal pode se apresentar
punha no cortiço para estender a roupa,          de várias formas: uma declaração, uma
a concorrência às tinas não se fez es-           pergunta, uma divisão, uma citação... Ao
perar; acudiram lavadeiras de todos os           desenvolvê-lo, é preciso ser o mais ob-
pontos da cidade, entre elas algumas vin-        jetivo possível, evitando-se divagações
das de bem longe. E, mal vagava uma              inúteis.
das casinhas, ou um quarto, um canto
onde coubesse um colchão, surgia uma                  Enfim, na introdução, o importante
nuvem de pretendentes a disputá-los.»            é falarmos no tema da redação, mes-
                                                 mo que (ou até obrigatoriamente às ve-
                             (Aluísio Azevedo)   zes) tenhamos de usar as suas pala-
                                                 vras, ou parte delas.

   As partes da                                       Lembre-se: a redação começa na
                                                 linha (1) e não no tema ou no título,
redação — Estrutura                              não havendo desta forma repetição;
                                                 pois, como repetir o que ainda não foi
                                                 dito?
    Classicamente, uma redação deve
constar de três partes:
    I     —     Introdução                       II. Desenvolvimento
    II    —     Desenvolvimento
                                                      É o corpo da redação. Sua parte
    III   —     Conclusão                        principal. É aqui que aparecem as idéi-
                                                 as, os argumentos, a originalida-
                                                 de. A introdução corresponde à tese.
I. Introdução                                    O desenvolvimento vem a ser o debate
                                                 da tese. É a parte mais longa. O corpo
    Introduzir significa «levar para             sempre há de ser maior que a cabeça e
dentro». Na introdução, portanto, con-           os pés. Sob pena de termos uma aber-
duzimo-nos para dentro do tema, do as-           ração!...
sunto.
                                                      Apresenta cada um dos argumen-
     A introdução apresenta a idéia que          tos ordenadamente, analisando deti-
vai ser discutida (tópico frasal), nada          damente as idéias e exemplificando de
Ihe acrescentando.                               maneira rica e suficiente o pensamento.
— 18 —

      O desenvolvimento será a parte mais           Portanto, é a comprovação da te-
longa da redação, mas não necessaria-          se levantada na Introdução e discutida
mente a mais confusa, complicada e             no desenvolvimento.
ininteligível. E isso é o que acontece, nor-
                                                    Ela é, a princípio, retirada da melhor
malmente, quando não se faz uma sele-
                                               idéia que achamos ter no momento da
ção de idéias prévia, quando não se sabe       reflexão inicial sobre o tema. É a nossa
o que escrever antes de começar a es-          posição em face de um problema qual-
crever. Bem se diz: «só comece a es-           quer, a sua solução, ou a projeção futura
crever depois que você souber, com             de conseqüências que advirão caso não
certeza, quais as idéias, aquilo que           sejam tomadas as medidas que acha-
e sobre o que você vai escrever».              mos necessárias (e que devem ter sido
     Não há necessidade de muitas idéi-        citadas no desenvolvimento da redação).
as (e normalmente nem espaço para                  A conclusão não deve ser muito
isso). O importante é que, mesmo sendo         longa, a exemplo da introdução, e deve
poucas, as idéias sejam correta e obje-        ocupar, também, somente um parágrafo
tivamente expostas. Não se deve can-           (ao contrário da introdução, pode ter
sar o leitor com um milhão de argumen-         mais do que um período).
tos diferentes, nem com períodos lon-
gos e maçantes que, fatalmente, resul-         ⇒ Observação:
tam confusos.                                        Principalmente nos contos e nas
                                               crônicas, a conclusão, o «fecho», pode
     Nas redações entre 15 e 18 linhas,
                                               ser imprevisto e absolutamente desliga-
o desenvolvimento deve ocupar um ou
                                               do daquilo para que se vem conduzindo
dois parágrafos (com vários períodos
                                               o leitor. E nisso está o seu valor. É claro
dentro deles). Nas redações com nú-
                                               que isso não cabe às dissertações,
mero de linhas entre 20 e 25, o número
                                               aos temas abstratos. É próprio para a
de parágrafos no desenvolvimento gira          narração.
em torno de 3 ou 4.
                                                    Exemplo:
                                                    PARA LER... E VERIFICAR!
III. Conclusão
                                                    Veja a seguir um exemplo de dis-
                                               sertação, com suas partes respectivas,
    É o acabamento da redação. E, se
                                               e os comentários — ao final — sobre
não se deve iniciar «abruptamente» a
                                               cada uma delas.
redação, também não se pode acabá-la
de súbito.                                               A PAZ E A GUERRA
     A conclusão resume todas as idéi-              «Há ideologias que pressupõem
as apresentadas e discutidas no desen-         seja o homem um ser naturalmente incli-
volvimento, tomando uma posição sobre          nado à guerra, essencialmente agressi-
o problema apresentado na introdução.          vo. São idéias fundamentadas na teoria
— 19 —

da evolução, nos conceitos de luta pela                Comentários:
existência, em que o mais forte ocupa as
                                                       Notamos que o assunto se desen-
altas posições econômicas e políticas.
                                                  volve em torno de uma idéia-núcleo que
     No entanto, estas concepções são             está expressa no trecho: «No entanto...
completamente contrárias à tendência              baixo nível de luta animal» (segundo pa-
evolucionária humana, que retrocede               rágrafo). Esta idéia-núcleo traduz o pen-
não só até a evolução em nível animal,            samento geral do autor em face da pro-
mas também ao mais baixo nível de luta            blemática sugerida pelo título, além de
animal. Nem mesmo os carnívoros se                lançar uma idéia discordante daquela
alimentam uns dos outros, como o ho-              apresentada na introdução (primeiro pa-
mem competitivo devora os rivais.                 rágrafo).
      Nenhum futuro evolucionário espe-                 Nos parágrafos seguintes (segun-
ra o homem que segue este caminho. A              do e terceiro), o autor confirma e justifi-
luta competitiva não deixará sobreviven-          ca os princípios expostos em sua tese,
tes. Mesmo que se limite a uma guerra             utilizando o recurso dos exemplos (qua-
econômica, só pode acabar em conten-              tro últimas linhas do terceiro parágrafo)
da social, em crises de desemprego, em            que reforcem a idéia assumida no de-
apuros financeiros e num fracasso quan-           correr da sua argumentação e apresen-
to à utilização dos recursos do mundo             tando soluções aos impasses que de-
da maneira mais completa e eficiente.             nuncia (quatro primeiras linhas do quar-
                                                  to parágrafo). Ao aproximar-se da con-
     Fora de uma atitude mútua de cola-
                                                  clusão do trabalho, o autor prepara o
boração social e da produção voltada e
                                                  seu término com um retorno às idéias da
planejada para o consumo, não há solu-
                                                  introdução (três últimas linhas do quarto
ção para tais dificuldades. Enquanto se
                                                  parágrafo). Na etapa conclusiva, ex-
mantiverem as condições atuais, o ho-
                                                  pressa no parágrafo final, o autor sinte-
mem sentir-se-á agressivo, estará pre-
                                                  tiza a idéia-núcleo desenvolvida no de-
parado para assegurar seu próprio bem-
                                                  correr da dissertação, e o assunto é
estar à custa do próximo.
                                                  encerrado de forma taxativa e enfática.
      Esta, contudo, não é a natureza do
                                                       O esquema de idéias desta dis-
homem, e sim a natureza do homem em
                                                  sertação poderia ter seguido o roteiro
nível subumano. Se o colocarmos em
                                                  que passaremos a apresentar:
condições de trabalho realmente huma-
nas, tendo em vista o bem comum, sua              I — Introdução:
natureza tornar-se-á mais humana, mais
cooperativa, e seu futuro estará asse-            a) Segundo a teoria da evolução, o ho-
gurado. Se fracassarmos neste propó-                 mem é naturalmente agressivo e deve
sito, seu futuro será a guerra e a des-              competir para viver.
truição.»
                                                  b) Desta competição, sairá vencedor o
             (John Lewis, O homem e a evolução)      mais forte e o mais importante.
— 20 —

II — Desenvolvimento:                       entre as palavras é feita pela organiza-
                                            ção do pensamento no que se refere ao
a) Na luta competitiva, o homem retro-
                                            conteúdo e pelas partículas de transição
   cede ao mais baixo nível animal.
                                            que unem as idéias, tais como as ex-
b) A competição entre os homens aca-        pressões «no entanto», «contudo», li-
   bará por destruir a civilização e as     gando parágrafos, e conjunções, ligan-
   possibilidades de progresso.             do as idéias dentro do período.
c) A única solução: colaboração social            A ênfase consiste no fato de a
   e produção voltada e planejada para      idéia-núcleo estar colocada em lugar de
   o consumo.                               destaque, ocupando um parágrafo in-
                                            teiro e aparecer reforçada em subidéias
III — Conclusão:
                                            no final do segundo e quarto parágra-
a) O futuro do homem assegurado: condi-     fos, e totalmente destacada da conclu-
   ções realmente humanas de trabalho.      são. A ênfase à idéia principal é conse-
                                            guida por meio do uso de expressões
b) Perdurando a atual situação: o homem
                                            fortes e eloqüentes, tais como «nível ani-
   destruir-se-á.
                                            mal», «homem competitivo devora os ri-
                                            vais» (segundo parágrafo), «nível subu-
Qualidades básicas da                       mano», «a guerra e a destruição» (últi-
                                            mo parágrafo) e muitas outras igualmen-
redação                                     te enfáticas.

    Unidade + Coerência + Ênfase
     Observando o estilo da dissertação
                                                  Montagem da
anterior, veremos que ela apresenta as
três qualidades necessárias a um
                                                    redação
bom texto escrito: unidade, coerência
e ênfase.
     A unidade reside no fato de que o      I. O visual ⇒ estética
autor se fixou em uma só idéia central no
decorrer de sua argumentação; em to-             Quando, ao entrar na casa de al-
dos os parágrafos as idéias se sucedem      guém, você a encontra na mais completa
em ordem seqüente e lógica, todas com-      confusão, sujeira por todos os lados: os
pletando e enriquecendo a idéia-núcleo.     pratos de não sei quantos almoços dis-
Não houve pormenores desnecessários,        putando lugares com as panelas; as cri-
nem redundâncias, o que pode atestar o      anças com roupas sujas, o rosto lambu-
esquema anteriormente traçado.              zado, o nariz a escorrer; o cheio de bolor
                                            e gordura a envergonharem seu deso-
     A coerência reside na associação
                                            dorante; qual a sensação que tem?
e correlação de idéias dentro do período
e de um parágrafo a outro. A conexão             — De desleixo, de sujeira, certamente!
— 21 —

     Sentirá acaso vontade de ali per-        c) Todas as palavras com maiúsculas
manecer, ficar para o jantar, pegar ao           (letra de forma).
colo uma criança?
                                              A MISSÃO SOCIAL DO ADVOGADO
     — Seguramente não!                       A VIDA NO PLANETA DOS MACACOS
     E, entretanto, a coisa muda de figura
                                              ⇒ Observação:
se a casa visitada é asseada, as crian-
ças cuidadosas com a roupa e o trato, o            Coloca-se o título apenas nas fo-
ar agradável a lembrar-lhe a sua própria      lhas de redação em que ele não esteja
casa, enfim, causa-lhe «boa impressão».       previamente grafado, ou nas folhas de
Pode até sentir o suco gástrico manifes-      redação que não estejam previamente
tando-se apesar de ter devorado sucu-         numeradas. A linha do título e as duas
lenta refeição há bem pouco tempo.            (ou três) linhas que se deixam em
                                              branco antes do primeiro parágra-
    Com a redação também é assim! O
                                              fo não devem ser contadas. A reda-
impacto (bom ou mau) que nos causa é
                                              ção começa na linha um, ou seja, no
muito importante.
                                              primeiro parágrafo.
Lembre-se: o BELO é um padrão nato
                                              2) Use ponto final nos títulos, em se tra-
e instintivo em nós. E não há beleza onde
não houver ordem e limpeza.                      tando de frase ou citação somente.
                                                 Os temas de redação normais não
    Estes são os elementos que com-              levam ponto final.
põem a estética da redação, concorren-
do para um melhor visual e correção:          3) Entre o título e o contexto, deixe uma
                                                 duas ou três linhas ou espaço equi-
1) Título/Tema                                   valente.
a) Todas as iniciais do título, menos das     ⇒ Observação:
   palavras de pouca extensão, como
   preposições, artigos, conjunções etc.,          Estes três primeiros itens se refe-
   com exceção do primeiro, devem ser         rem aos vestibulares que solicitam que
   maiúsculas:                                o vestibulando dê um título para a sua
                                              Redação.
A Missão Social do Advogado
                                              4) Os parágrafos devem adentrar à li-
A Vida no Planeta dos Macacos
                                                 nha uns dois centímetros e iniciarem-
Ou                                               se, todos, à mesma altura.
b) Maiúscula inicial apenas na primeira pa-        São fundamentais à redação, pois
   lavra, seja ela artigo, preposição etc.    constituem o visual prático da estrutura
A missão social do advogado                   redacional, apontando as três partes
                                              obrigatórias num texto dissertativo: a
A vida no planeta dos macacos                 introdução, o desenvolvimento e a con-
Ou                                            clusão.
— 22 —

     O número de parágrafos é variável            O borrão não possui um valor de
conforme a extensão exigida para a reda-     perda específico: não vale menos um, ou
ção. Nas redações dissertativas, o míni-     menos dois. Ele é negativo na sua es-
mo obrigatório é de três parágrafos;         sência, no exato momento do seu apa-
o máximo depende da quantidade de linhas     recimento.
pedidas. Sugere-se que os parágrafos
                                             7) Letra é importantíssimo! Não apenas
contenham em torno de cinco linhas cada.
                                                pelo visual simpático de uma caligra-
5) Separar as diferentes idéias em pará-        fia, mas por representar a própria re-
   grafos distintos, guardando-lhes a de-       dação. A legibilidade é o item a que
   vida conexão. As idéias que se relacio-      todos os vestibulares fazem referên-
   nam mais intimamente, que se unem            cia específica: alguns poucos espe-
   por um mesmo fio de ligação lógica           cificam também o tipo de letra.
   devem ficar no mesmo parágrafo, ain-
                                                  A realidade é que a ilegibilidade é
   da que em diversos períodos.
                                             item anulatório da redação. E não é
     Porém, toda vez que se mudar o fio      necessário chegar-se a extremos para
do raciocínio, sempre que se passe para      que se caracterize a ilegibilidade. Letra
uma nova idéia que não tenha relação         feia, em redação, é pecado. De que
tão íntima com a anterior, deve-se iniciar   adianta alguém escrever bem, escrever
linha nova. Portanto, novo parágrafo.        substanciosa, estilística e semanticamen-
                                             te com letra que ninguém entenda? Ou
     Apenas o parágrafo inicial pode         ainda com letra que, para ser entendida,
ser constituído por um período (ou           são necessárias a releitura e a adivinha-
dois) somente. Os demais parágrafos          ção? Para os que têm letra feia, a saída é
(os do desenvolvimento) devem ter vários     o treinamento de caligrafia (aliás, este
períodos; portanto, vários pontos finais.    caderno não é para crianças, como mui-
6) Não rasurar a redação. A redação          tos pensam, mas para quem possui letra
   suja, borrada dará ao avaliador uma       feia) ou a letra de forma.
   primeira impressão negativa, que difi-
   cilmente será apagada, por melhor que
   se apresentem o conteúdo e a cor-         II. Lado interno ⇒ correção
   reção.
     A maioria quase que absoluta dos             Ao se compor uma redação, devem
vestibulares oferece oportunidade e lu-      ser levadas em consideração as quali-
gar para se fazer a redação, preliminar-     dades básicas que a habitam e a distin-
mente, no rascunho. Assim sendo, a ra-       guem das redações normais. No vesti-
sura na versão definitiva não pode ser       bular, o número de redações ascende
explicada nem perdoada; ou o aluno não       aos milhares, e são estas qualidades que
fez rascunho (e isso é imperdoável), ou      vão fazer com que algumas poucas se
o fez, mas não aprendeu ainda nem a          diferenciem da maioria. São, exatamen-
fazer o primário trabalho de cópia.          te, estas as qualidades da redação:
— 23 —




                    }
1) correção                                       Há erros, no entanto, que pesam
                                              mais na avaliação de uma redação. Há
2) clareza
                                              aqueles que deixam o avaliador de tal
3) concisão                  Forma +          forma indisposto que...

                             Conteúdo              Quais são os piores erros?
4) originalidade
                                                   Vamos lá:
5) elegância
                                              a) de concordância: Esse negócio de
6) coesão                                        sujeito no plural e o verbo no singular
                                                 é dose! Portanto, muito cuidado! Pro-
       Para redigirmos bem, é necessário
que aliemos à criatividade ou análise de         cure o sujeito de cada verbo e veja se
um assunto a correção e adequação de             há correspondência. Sobretudo tenha
                                                 cuidado quando, na oração que você
linguagem. Não basta elaborar uma idéia
importante. É preciso saber expressá-la          escreveu, ocorre partícula «SE», ver-
com acerto e propriedade. O estilo na re-        bos impessoais como «HAVER», «FA-
                                                 ZER» etc. E para errar concordância
dação é representado pela clareza, uni-
dade, ênfase e coerência que devemos             nada melhor do que fazer períodos
imprimir aos recursos lingüísticos que tra-      longos ou utilizar a ordem inversa.
                                                 Escreva idéias simples em períodos
duzam nossos pensamento. Estes aspec-
tos já foram referidos anteriormente em          simples, portanto curtos.
nosso trabalho. Outros elementos são
                                              b) de regência: Se você usar verbo
importantes na expressão escrita e dizem
                                                 de regência problemática (aqueles
respeito também ao estilo. São aqueles
                                                 que você estudou, como assistir, que-
que influem decisivamente na elaboração
                                                 rer etc.), cuide da regência. Se você
de uma linguagem escrita correta, ade-
                                                 não tem certeza da regência de um
quada e harmoniosa, alcançada não só
                                                 verbo, não o use. Substitua-o por si-
por meio de recursos (leitura, vocabulá-
                                                 nônimo. O problema mais freqüente
rio, interpretação de textos, conhecimen-
                                                 de regência em uma redação ou car-
to de tipos de composição), mas também
                                                 ta, ofício etc. diz respeito ao empre-
pelo conhecimento de fatos gramaticais
                                                 go das formas oblíquas «O» e «LHE».
que ordenam, disciplinam e sistema-
                                                 A norma é:
tizam nossa língua.
                                                  — «O» só para objeto direto (com
              1. A correção                   verbo transitivo direto);

                                                  — «LHE» só para objeto indireto ou
    É a ausência de erros. Consegue-
                                              com valor de possessivo.
se com a observância das normas da
Gramática. Para que serve a Gramática?
                                                   CUIDADO:
— Exatamente para ensinar-nos a es-
crever corretamente! Você tem de pôr              Nada de: «ele Ihe viu», «eu o quero
em prática aquelas regrinhas todas!...        muito bem», «ele assistiu o filme».
— 24 —

c) de colocação: Se é verdade que este      seus erros... bem, estes são de domínio
   tópico não precisa chegar ao requin-     público e de dívida ativa: custam caro!
   te, também é verdade que não se tole-
   rarão os exageros dos modernistas                    2. A clareza
   eufóricos. Assim:
                                                Consiste na transmissão mais com-
     — Nunca comece oração com oblí-        preensível do pensamento. Quem es-
quo átono: Me levaram dali para um lu-      creve (como quem fala) deve fazer-se
gar escuro e misterioso. Te deram o re-     entendido da melhor maneira possível.
cado? etc.
                                                 A concisão concorre muito para a
    — Lembre-se de que não, nunca,          clareza. Para obter-se clareza, além da
que, porque, quando, enquanto, se,          concisão, cumpre:
para que etc. exigem oblíquo antes do       a) Para escrever claro é preciso pensar
verbo!                                         claro. Antes de começar a escrever,
    — Jamais coloque o oblíquo depois          medite sobre o tema, reúna idéi-
de particípio: Vocês tinham levantado-         as, coloque-as de modo coerente. Só
se mais cedo.                                  comece a escrever depois que você
                                               souber o que vai escrever!
     — Depois de vírgula (ou qualquer
                                                Daí a importância de um esquema
outra pontuação) não se deve colocar
                                            e do rascunho.
pronome oblíquo (a não ser que sejam
vírgulas de encaixe, como por exemplo:      b) Frases curtas: períodos longos fa-
Nunca, mesmo nos piores momentos,              talmente resultam confusos.
lhe pedimos ajuda.)
                                            c) Empregar a palavra precisa: só
d) de grafia: Erro ortográfico, sobretu-       empregue palavras simples, de cujo
   do em palavras comuns, de uso coti-         significado você tem certeza. Não
   diano, não se admite. Coisas do tipo        queira esnobar porque o esnobado
   de «ãncia, pêcego, talvêz, xegar». E        poderá ser você!
   escrever «exepicional» em vez de
                                            d) Evitar a ambigüidade, que é a pos-
   «excepcional» é sem comentários...
                                               sibilidade de mais de um sentido em
    Se você não sabe escrever uma              uma oração.
palavra, EVITE-A!                                Ex.: «José mandou dizer a Pedro
    Troque-a por sinônimo! E cuidado        que só trataria daquele negócio no seu
                                            escritório». No escritório de quem?
com os acentos gráficos!
                                                No dele, José, ou no de Pedro? Isso
⇒ Lembre-se: em caso de dúvida, não
                                            é ambigüidade.
use a palavra, coloque outra da qual você
tenha certeza da grafia. Afinal, na sua         Clareza é qualidade; obscuridade,
redação, quem manda é você... mas, nos      defeito.
— 25 —

           3. A concisão                    Ex.:    Tu tens toda a razão.

      Consiste no expressar os aspec-               Tens toda razão.
tos, fatos ou opiniões com o menor nú-              Nós batemos três vezes.
mero de frases ou palavras.
                                                    Dentro não havia ninguém. Ba-
    Portanto, empregam-se apenas as         temos três vezes. Dentro, ninguém.
palavras que são indispensáveis à com-
preensão da mensagem. Em um texto, o             Se não recorremos à elipse, muitas
que não é indispensável constitui proli-    vezes, poderemos cair na redundân-
xidade.                                     cia, que é a repetição inútil e erro imper-
                                            doável.
  Concisão é qualidade; prolixi-
  dade, defeito.                                     4. A originalidade
     Mais uma vez aparece aqui a ne-              Consiste em apresentar os as-
cessidade do rascunho. Devemos              pectos, fatos ou opiniões de modo pes-
escrever segundo o fluxo de idéias que      soal, sem imitação de processos ou par-
nos vêm à mente, sem grandes preocu-        ticularidades alheios. Na originalidade,
pações com a concisão. Pronto o ras-        está a criatividade. Pode revelar-se tan-
cunho, devemos submetê-lo a rigoroso        to nas idéias como nas expressões.
crivo analítico, cortando tudo aquilo que
não faça falta nem imprima vigor.                Idéias originais são idéias pró-
                                            prias?!...
     Naturalmente, só se considera qua-
lidade aquilo que não prejudica as de-          Mas quem é original? O que pensa-
mais qualidades. O excesso de conci-        mos ou o que dizemos que outro antes
são redunda em obscuridade e desar-         de nós não tenha dito ou pensado? Cer-
monia.                                      tamente que a originalidade pertence aos
                                            gênios.
    No texto seguinte, o que vem des-
tacado pode sair. Em saindo, o texto fica         De um estudante, não se pode exi-
conciso e ganha vigor.                      gir originalidade, exige-se, isto sim, que
                                            fuja ao vulgar, ao lugar-comum, ao
     «Em uma certa noite eu saí de mi-      «clichê»: aquilo que todo mundo diz.
nha casa para dar um giro para espai-
recer. Fui até à casa de um amigo meu.           Para isso o fundamental é escre-
Vejam vocês que eu não tinha nenhum         vermos diferençados do linguajar co-
plano traçado, e algo sensacional, que      mum. Escrever como se fala é come-
                                            ter uma série de erros; daí que a ori-
eu não esperava, me aconteceu...»
                                            ginalidade no vestibular fica, real-
    De grande valia para obter-se a         mente, por conta da correção. Será
concisão é a figura da ELIPSE: omissão      original aquele que escrever cor-
de palavras facilmente subentendíveis.      retamente .
— 26 —

            5. A elegância                      a feitura da Redação, ou seja: Unidade,
                                                Coerência e Ênfase.
     Exigir elegância na redação de um
vestibulando já é pedir demais. Vamos                 Esta tomada de posição se concre-
deixar isso para os grandes escritores e        tiza com o lançamento no papel dos tó-
para as meninas... Para os vestibulandos,       picos de exposição, das idéias a se-
basta o cuidado com o visual da redação.        rem desenvolvidas, por meio de expres-
A limpeza, os parágrafos, a letra bo-           sões rápidas e abreviadamente in-
nita, isso é elegância em redação.              dicativas, articuladas entre si.
                                                     O esquema auxilia e encaminha o
              6. A coesão                       trabalho. É um ponto de referência, sem-
      Um texto coeso é aquele em que as         pre sujeito a reduções, interpolações e
                                                alterações.
partes se relacionam entre si de modo
claro e adequado, criando um todo com                Assim, do esquema passa-se ao
sentido, que pode ser captado pelo leitor.      rascunho; deste, para a redação pro-
E como se faz um texto coeso? Usando-           priamente dita, e esta, passada pelo cri-
se corretamente os instrumentos da lín-         vo analítico, chega a uma forma definiti-
gua (usar artigos e pronomes que con-           va, observadas as diversas qualidades
cordem com os nomes a que se referem,           para a sua elaboração.
combinar os tempos verbais de modo lógi-             Tendo o aluno o plano ou roteiro de
co etc.) e observando se há relações de         idéias, poderá dar início a um rascunho,
sentido entre as frases, que unidas entre       no qual vai expressar, por meio de frases
si transmitem de modo claro uma informa-        completas e parágrafos bem distribuídos,
ção, uma opinião, uma mensagem.                 o assunto que se propõe desenvolver.
                                                     Enfrentará, então, problemas de for-
     Montagem dos                               ma, porque o conteúdo, as idéias foram
                                                selecionadas e ordenadas no esquema.
       esquemas                                      A disposição ordenada das idéias
                                                em Introdução, Desenvolvimento e Con-
                                                clusão é o último estágio do esquema.
Seleção e organização                               Obs.: Reveja o texto «A paz e a
das idéias na redação                           guerra» e seus comentários.
                                                     A seguir, damos como sugestão
       Uma vez determinado o assunto so-        um modelo de ESQUEMA. Pelo uso, deve-
bre o qual iremos escrever, é necessário        rá ser modificado, adaptado, ampliado,
um momento de reflexão em torno dele e da       atendendo, desta forma, ao estilo indivi-
disposição que daremos às idéias a serem        dual de cada um, suas tendências, enfo-
utilizadas. Para isso, é necessário traçar de   ques pessoais, abrangência: cada um
antemão um plano, ou seja, um esquema.          deve possuir o seu próprio «modelo de
    As qualidades essenciais desse pla-         ESQUEMA», protótipo que deverá ser
no devem ser as mesmas utilizadas para          conseguido a partir do treino e da prática.
— 27 —


Modelo de esquema

                              {         1. O quê? Matéria tratada ⇒ assunto ⇒




                             {
       INTROD.
                                           tema ⇒ ponto de vista ⇒ TESE.

                                        2. Por quê? Razão — objetivo.
                                        3. Para quê? Objetivo — finalidade.
                                        4. Causas.
                                        5. Conseqüências.
                                        6. Circunstâncias: como? de que maneira?
       DESENV.
                                        7. Analogias = comparações.
                                        8. Prós: argumentos a favor.
                                        9. Contras: argumentos contrários.
                                        10. Análise: situação atual.
                                        11. Síntese.




                              {
                                        12. Observação: perspectivas.
       CONCL.                           13. Soluções.
                                        14. Conclusão.

                                                3. Ao fim dessa pesquisa, terá muitas
Dissertação:                                       outras idéias. Poderá anotá-las.
como proceder?                                  4. Deve delimitar bem seu objetivo: qual
                                                   é a tese ou o ponto de vista que
     Não há uma receita (ou um método,             quer expor ou defender? De que ân-
ou uma técnica) que seja recurso infalí-           gulo, de que perspectiva quer tratar o
vel na produção de textos dissertativos.           assunto? Respondendo a essas per-
Apresentamos, então, sugestões de ati-             guntas, estará definindo o tema de seu
vidades que podem ajudar na criação                texto. Pode resumir o que pretende:
de mensagens dissertativas:
                                                    O que quero dizer sobre o menor
     Imagine um vestibulando que tenha
                                                abandonado pode ser resumido na frase:
de fazer um texto sobre o menor aban-
donado. Como ele pode comportar-se?             ..............................................................
1. Anota suas idéias sobre o assunto.           ..............................................................
2. Se suas idéias são poucas, pode pes-
                                                ..............................................................
   quisar sobre o assunto: buscar dados
   estatísticos, testemunhos, definições etc.   ..............................................................
— 28 —

      Ele tem uma lista de idéias anota-       b. Dados históricos da televisão brasi-
das: destas idéias pode destacar a(s)             leira.
mais importante(s), isto é, aquelas que
estão estreitamente ligadas ao tema que        Desenvolvimento:
escolheu. Serão as idéias centrais (ou         a. Os programas de televisão e o patro-
nucleares, ou básicas). Outras idéias que         cínio comercial.
ele tenha sobre o assunto: verificará se
pode valer-se delas para justificar, ilus-     b. A televisão educativa.
trar, comprovar, realçar a(s) idéia(s) bási-
ca(s). Serão as idéias de apoio (ou se-        c. A seleção dos programas e a aceita-
cundárias, ou delimitadoras, ou su-               ção popular.
bordinadas). Fazendo isso, ele está or-        d. O nível dos programas e o nível cul-
ganizando o conteúdo de seu texto. Ele            tural do povo brasileiro.
deve lembrar-se de que pode valer-se
de muitos recursos, no trabalho de orga-       Conclusão:
nização de seu texto: analogia, oposição
                                               a. A situação atual da televisão brasi-
ou contraste, testemunhos, definições,
                                                  leira.
ilustrações, decomposição etc. Ao esco-
lher algum(ns) desse(s) recurso(s), cer-
                                               2. Título: «Educação e Modernidade»
tamente terá novas idéias.
     O vestibulando dispõe então de um         Introdução:
conteúdo. Esse conteúdo busca uma ex-
                                               a. Modernização da Educação: adapta-
pressão, para tornar-se texto. Ele deve-
                                                  ção do homem ao mundo contempo-
rá estudar agora um plano para seu tra-
                                                  râneo.
balho. Qual será a disposição de suas
idéias nesse plano?                            Desenvolvimento:
     Um texto dissertativo — o vestibulan-
do sabe — pode ter um plano definido em        a. Educação X estruturas arcaicas e tra-
três grandes linhas:                              dicionais.

     • INTRODUÇÃO                              b. Tecnologia e progresso.
     • DESENVOLVIMENTO                         c. A participação do governo nas pro-
     • CONCLUSÃO                                  moções e reformas educacionais.
                                               d. O despertar das nações subdesen-
Exemplos de esquemas                              volvidas para o progresso pela edu-
                                                  cação.
1. Título: «A Televisão no Brasil»             Conclusão:
     Introdução:
                                               a. «A vontade prova-se na ação» (José
a. A importância da televisão na forma-           Ingenieros) — é preciso a consciên-
   ção de uma mentalidade nacional.               cia da renovação cultural.
— 29 —

b. É preciso reformar a mentalidade               O ADVOGADO
   avessa às mudanças.
                                                     Aquelas águas me-
3. Título: «Áreas Verdes»                     ritíssimas se espraiavam
                                              delituosamente pelas
Introdução:
                                              margens. O inocente la-
a. O apelo do mundo moderno à preser-         go defendia-se assim,
   vação das áreas verdes.                    legitimamente, da flores-
                                              ta, que à revelia, desem-
b. O porquê do desaparecimento das            bargava suas árvores
   áreas verdes; crescimento popu-            pelos arredores sem nenhuma apelação.
   lacional, grandes núcleos habita-          No alto, as montanhas, com suas togas
   cionais, escritórios, imobiliárias, edi-   de neve revestindo o cimo.
   fícios por toda a parte.
                                                   O MÉDICO
Desenvolvimento:
                                                                Aquele lago me dei-
a. A poluição do ar.
                                                            xou um diagnóstico. Sua
b. Os problemas de saúde.                                   beleza era selvagem
                                                            como uma crise aguda e
c. Tensão e neurose: falta espaço, fal-                     suas águas viviam per-
   ta ar, falta beleza.                                     manentemente em estado
d. Desaparecimento de praças e par-                         comatoso. O vento, como
   ques: crianças em apartamentos.                          um bisturi, cortava a su-
                                              perfície das águas escarlatinadas pelo
e. O protesto: campanhas, acampamen-          mercúrio que cobria todo o céu no pôr-
   tos: a «volta ao natural».                 do-sol.
Conclusão:                                        O BUROCRATA
a. A humanidade corrigindo seus pró-               Prezado Sr.,
   prios erros: a tentativa de preserva-      quando olhei para
   ção e recriação do que está sendo          o céu, vi nuvens
   destruído.                                 que seguiam ane-
                                              xas atenciosamen-
                                              te por sobre o mon-
        Descontraia                           te abaixo-assinala-
                                              do, que, ciente de
                                              sua participação
                                              na paisagem, pedia deferimento res-
O estilo de cada um                           peitosamente para a floresta, que nes-
                                              tes termos se estendia por todo o vale,
     Várias pessoas descrevendo um            refletindo-se nas respeitosas e desde
lago, segundo suas profissões:                já agradecidas águas do lago.
— 30 —

    O «HIPPIE»                              * Não se preocupe em demonstrar cul-
                                              tura e conhecimento excessivos. As
                      Entende. . . era um
                                              coisas realmente boas e valiosas são
                negócio legal. Aquele         simples. Os grandes sábios são sim-
                lago muito na sua, cur-       ples. As «grandes notas» vêm de re-
                tindo um vale cheio de        dações simples.
                ervas, sacou? O ven-
                to transava pela cuca       * Não queira fazer experimentalismos
                das árvores no bara-          lingüísticos. Não tente neologismos lé-
                tino mais legal, mais         xicos ou sintáticos.
chuchu beleza da paróquia.                       Use apenas palavras comuns. Sem
                                            cair no lugar-comum.
    O INTELECTUAL
                                                 Só recorra a um termo menos co-
     Não sei se por
                                            nhecido se ele se ajustar melhor no tex-
um fenômeno de
                                            to do que um termo usual.
aculturação, ou se
por um processo de                          2. O palavrão.
amadurecimento,
                                              Nunca!
aquele lago se inse-
ria perfeitamente no                        3. Criticar a Universidade, as autori-
contexto da nature-                            dades, as instituições é proibido.
za circundante e
                                              Esse negócio de «meter a lenha» não
marginal. Achei muito válida a inserção       dá pontos.
das árvores, dando uma conotação exis-
tencialista ao pluralismo vegetal que ali       Faça a crítica «construtiva»: mos-
estava.                                     tre os erros e aponte soluções.
                                            4. Ser negativista.

  Mandamentos de                                 Em tudo há um lado bom. Procure
                                            descobri-lo. Aponte alternativas, saídas.
  uma boa redação                           Sugira métodos e maneiras de solu-
                                            cionar as dificuldades e as chagas so-
                                            ciais. A maioria dos temas de vestibula-
    Ao redigir, é importantíssimo que o     res e concursos versam sobre «pro-
candidato não cometa nenhum destes          blemas sociais». Eles querem saber
pecados transcritos a seguir, sob pena      o nosso posicionamento, o que pensa-
de padecer, sem indulgências, o inferno     mos, o que achamos, se conhecemos.
de mais um ano de espera!                   A nossa participação é efetivada,
                                            exatamente, por meio de nossas
1. Esnobar.
                                            prováveis soluções. É a forma de
    Mostrar que é «o bom». Complicar.       que dispomos para participar do
Escrever difícil.                           contexto social.
— 31 —

5. Evite definições.                        15. Eco.
  Elas são perigosas.                            É a rima na prosa. Só os artistas
     Dado um tema como «A Liberda-          têm direito de recorrer a ela, que pode
de», a maioria tende a sair definindo:      fornecer belos efeitos.

    A Liberdade é...                            Exemplo de eco (defeito):

    A Liberdade é...                             Margarida levou toda a vida para
                                            atravessar a avenida.
     A Liberdade é..., monotonamente,
maçantemente, insuportavelmente, de             O Maneco entrou no boteco e
uma pobreza de espírito que revoltaria      bebeu uns trecos.
até São Francisco.                          16. A gíria:
     É sempre melhor criar uma história,         Via de regra não! A menos que se
relatar um episódio, dentro da qual e no    trate de diálogo, e entre como transcri-
decorrer do qual apareça o tema.            ção da linguagem de nível coloquial-
6. O ponto final (.).                       popular. Fora daí, o uso da gíria será
                                            interpretado como pobreza vocabular.
  Não o esqueça. Denota desleixo.           É negativo.
  Depõe contra você e ... é erro!
                                            17. Não abrevie palavras.
7. O pingo no i.
                                                Escreva-as todas por extenso, a
    É preciso pôr os pingos nos is!...
                                            menos que se trate de abreviações con-
8. Cortar o t.                              sagradas como por exemplo o «etc.».
9. A cedilha no ç.                          18. Evite repetir palavras.
10. A inicial maiúscula de período.              Use sinônimos. Há repetições que
11. As maiúsculas nos títulos.              enfatizam. Mas fora o caso intencional
                                            da ênfase, repetir revela pobreza
12. As iniciais de nomes próprios,          vocabular ou desleixo.
    maiúsculas.
                                                Exemplo de repetição enfática:
13. Erro gráfico até no título, é ter-
    rível!                                      «Vamos, não chores...

14. Estrangeirismo.                             A infância está perdida.

      O emprego de vocábulo que não             A mocidade está perdida.
pertença ao nosso idioma só pode ser            Mas a vida não se perdeu».
feito quando não haja, em português, pa-        (Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo)
lavra de sentido correspondente. Termo
técnico, por exemplo. Se usada, a pala-     19. Não escreva demais!
vra deve vir entre aspas («») ou grifada.         No caso de não limitarem o número
    Ex.: «Know-how».                        de linhas, não vá além de vinte e cinco.
— 32 —

Entendo que o ideal para uma Redação         24. Pensamento novo, período novo.
são vinte linhas.
                                                  É comum, entre os que iniciam, mis-
    Também não escreva «de menos».           turar no mesmo período idéias que não
Dado um limite mínimo (20, por exemplo),     se completam. Tome por norma: idéia
não pare nesta linha. Vá adiante uma ou      nova, período novo. Veja, entretanto, que
duas linhas, pelo menos.                     isso nem sempre significa parágrafo
                                             novo!
20. Não «encha lingüiça»!
                                             25. Oração subordinada sem prin-
     À falta de idéias, não fique repetin-       cipal — não diz nada! Não pode!
do a mesma coisa com palavras dife-
rentes! Isso é redundância, é prolixida-          Se há subordinada, tem de haver
de, é terrível defeito! É preferível pou-    principal. Ou você já viu comandado sem
cas linhas bem redigidas a muitas mal        comandante? Veja se entende alguma
escritas. Faça um trabalho honesto!          coisa:
                                                  — Quando Maria chegou porque
21. Não aumente o tamanho da le-
                                             tinha visto um homem que ela não co-
    tra para dar impressão de que
                                             nhecia.
    escreveu bastante.
                                                 — A menina que estava chorando
      Isso indispõe o avaliador. Letra es-
                                             quando a chamaram.
tilo «bicho-de-pé», só se vê a linha (de
tão pequena), não pode. O avaliador não          — Quando chove, se estamos sem
vai colocar lente de aumento especial-       agasalho, resfriamo-nos.
mente para corrigir sua redação.
                                                 — O embrulho que chutou na cal-
22. Não se desculpe dizendo que              çada.
    não escreveu mais porque o
                                                 Deu para entender? Por que não
    tempo foi pouco.                         deu?
     Ninguém vai acreditar!...                   E agora:
    Essa conversa de que é a primeira             — Quando Maria chegou, porque
redação, então... nem se fala.               tinha visto um homem que ela não co-
23. Não cometa CACOFONIA, que é a            nhecia, desandou a chorar.
    palavra de sentido obsceno, chulo            — A menina, que estava chorando,
    ou ridículo, formada pela junção de      quando a chamaram, foi eleita rainha.
    sílabas entre as palavras:
                                                 — Quando chove, se estamos sem
    Aqui ela se disputa todos os dias...     agasalho, resfriamo-nos.
A boca dela...
                                                 — O embrulho que chutou na cal-
     Fé demais...                            çada furou-lhe o pé.
— 33 —

      Especialmente, tome cuidado com         3. Uma cena descritiva. Exemplo:
os períodos muito longos: resultam
                                                   O som invade a cidade. Buzinas
confusos e são propícios a períodos
                                              estridentes atordoam os passantes.
incompletos; os verbos nas formas
                                              Edifícios altíssimos cobrem os céus cin-
nominais — gerúndio, particípio, in-
                                              zentos da grande metrópole. Uma fuma-
finito — equivalem a subordinadas; por-
                                              ça densa e ameaçadora empresta a São
tanto, deve haver uma principal.
                                              Paulo o aspecto de fotografias antigas
                                              sombreadas pela cor do tempo. É a pai-

         O início da                          sagem tristonha da poluição.
                                              4. Uma pergunta. Exemplo:
          redação                                 Será a chamada música popular
                                              brasileira verdadeiramente popular e
     Começar a redação, para alguns           verdadeiramente brasileira?
alunos, é uma tarefa ingrata e, às ve-
                                              5. Um dado geográfico precisando
zes, irrealizável, determinando desta
                                                 um fato. Exemplo:
forma o seu insucesso. Há alunos que
sentem verdadeiro pavor como «como                  Em Criciúma, no sul de Santa Cata-
é que eu começo». Depois de tudo o            rina, oito mil homens vivem uma aventu-
que foi visto, parece-nos que isto deve       ra todos os dias. A aventura do carvão.
deixar de ser problema: as orientações        São os mineiros, homens que quase
e os treinamentos são elementos desi-         nunca vêem o sol.
nibidores suficientes. E, para que não
                                              6. Dados estatísticos. Exemplo:
persistam dúvidas (e como incentivo ao
trabalho), algumas sugestões para «INÍ-            Naquela cidade de... habitantes,
CIOS», sobre como «DESENVOLVER» e             cerca de ... freqüentam as salas esco-
«CONCLUIR» um assunto.                        lares, o que atesta a preocupação das
                                              autoridades com o nível de instrução de
I. Você pode iniciar um assunto utili-        seus moradores.
   zando os seguintes recursos:
                                              7. Narrativa de um ato. Exemplo:
1. Dados retrospectivos. Exemplo:
                                                   Em agosto de 1976, faleceu o ex-
     As primeiras manifestações de co-        presidente Juscelino Kubitschek de Oli-
municação humana, nas eras mais pri-          veira, em cuja gestão foi construída a
mitivas, foram traduzidas por sons que        monumental capital brasileira.
expressavam sentimentos de dor, ale-
gria ou espanto. Mais tarde...                8. O recurso da linguagem figura-
                                                 da. Exemplo:
2. Uma citação. Exemplo:
                                                    O jornaleiro, filho das madrugadas
     O assunto do (sobre) ... pode ser        frias do Sul, quebra o gelo das manhãs
analisado (ou discutido) a partir das pala-   gaúchas com sua voz cortante e quei-
vras lúcidas de ... quando afirma que «...»   xosa como o minuano nos pampas.
— 34 —

9. Uma frase declarativa. Exemplo:                Em se tratando de um assunto po-
                                             lêmico, o aluno deve examinar os prós
     O artista contemporâneo, diante de
                                             e os contras que o envolvem, concluin-
um mundo fundamentalmente complexo
                                             do com uma idéia que expresse sua
e agitado, tem por missão traduzir o mais
                                             posição em torno da problemática ana-
fielmente possível essa realidade.
                                             lisada.
10. Com idéias contrastantes. Exem-
                                             III. A conclusão de uma redação deve
    plo:
                                                 ser, em primeiro lugar, enfática. Um
     Enquanto os grandes salões de alta          bom início e uma conclusão bem feita
costura das grandes capitais exibem              emprestam brilho e interesse ao tra-
coleções de vestimentas suntuosas, os            balho. A conclusão pode conter uma
marginais da sociedade morrem de frio            idéia pitoresca, humorística, surpre-
por falta de agasalho.                           endente, taxativa, sugestiva. O assun-
                                                 to nunca pode ser abandonado em
⇒ O importante é que na INTRODUÇÃO
                                                 meio à plena discussão dos aspectos
  de uma redação dissertativa apare-
                                                 que a ele se ligam. Um meio adequado
  ça o tema, o ponto de vista, a tese,
                                                 de bem concluir é aquele em que sin-
  alguma referência, enfim, ao assunto
                                                 tetizamos o assunto nos termos em
  da redação; daí que nada obsta que,
                                                 que foi proposto ou questionado na
  na introdução, apareçam as palavras
                                                 etapa introdutória.
  que compõem o tema/título.

      Portanto, a maneira mais simples         Para treinamento, use o modelo de
(de se vencer o tormento) de iniciar uma       esquema sugerido há pouco.
redação, e de que todos dispõem, é fa-
lando sobre ela mesma, sobre o tema
dado, o assunto pedido, o título sugerido.            Pontos a ponderar
Não há que se inventar nada. Ele já está
lá, à nossa disposição. Desta forma, não          Há certas partes de um navio que,
há por temê-lo, mas apreciá-lo pelas van-    tomadas isoladamente, afundariam. A
tagens que pode nos oferecer.                máquina afundaria; a hélice também.
                                             Mas, quando as partes de um navio são
II. Para desenvolver o assunto de uma        colocadas em conjunto, flutuam.
    redação, podemos utilizar os seguin-
    tes recursos:                                 Assim acontece com as nossas ex-
                                             periências em redação. Algumas têm sido
a) citações                                  trágicas; outras, felizes. Mas todas
b) dados estatísticos                        reunidas compõem uma embarcação
c) justificativas                            que está rumando para um destino de-
                                             finido, certo, e isso nos faz sentir re-
d) exemplos                                  confortados, otimistas, confiantes para
e) comparações                               prosseguir e persistir.

Manual de Redação

  • 1.
    Guia Prático da LínguaPortuguesa Luiz Fernando Mazzarotto Teoria da Redação Redação nos Vestibulares Redação Escolar, Comercial e Oficial Davi Dias de Camargo Interpretação de Texto Ana Maria Herrera Soares Guia Prático de Redação
  • 2.
    Editor Raul Maia Produção Editorial Departamento Editorial DCL Produção Gráfica Nelson Pastor Capa Antonio Briano Diagramação Thiago Nieri Revisão Caio Alexandre Bezarias Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Mazzarotto, Luiz Fernando Manual de redação / Luiz Fernando Mazzarotto, Davi Dias de Camargo, Ana Maria Herrera Soares. -- São Paulo : DCL, 2001. -- (Guia prático da língua portuguesa) Bibliografia. ISBN 85-7338-429-8 1. Português — Redação I. Camargo, Davi Dias de. II. Soares, Ana Maria Herrera. III. Título. IV. Série. 01-0305 CDD-808.0469 Índices para catálogo sistemático: 1. Redação : Português 808.0469 Proibida reprodução total ou parcial Direitos exclusivos desta publicação: © Difusão Cultural do Livro Ltda. Rua Manoel Pinto de Carvalho, 80 CEP: 02712-120 – São Paulo – Brasil dcl@editoradcl.com.br
  • 3.
    Introdução No mundo atual, escrever é sempre im- comunicadas, resultando em algo prazeroso portante, necessário e freqüente. Mostrar que de ler, parece coisa reservada aos professo- você sabe comunicar-se (bem) usando a es- res de gramática, aqueles especialistas que crita é um dos fundamentos da capacidade de estudam a Língua Portuguesa a ponto de fa- ser e realizar, da cidadania e da competência. zerem disso sua profissão. A tão propalada era do computador que, muitos Nada mais equivocado. A Língua Portu- afirmavam, iria diminuir drasticamente a ne- guesa é acessível a todos, é companheira e cessidade de papel e de escrever, fez o inver- filha de nós e da cultura em que vivemos e so: nunca tanta informação e conhecimento participamos; companheira porque a utiliza- circularam entre tantas pessoas e de modo tão mos continuamente, é o veículo de transmis- rápido, nunca as pessoas se comunicaram são de nossos saberes, conhecimento e vi- tanto (via e-mails, chats, impressos etc), fa- são de mundo, e filha porque é uma entidade zendo com que todos escrevamos mais e mais. continuamente alterada pela vivência e cria- E escrever bem exige conhecer as re- ções de nós, falantes da língua portuguesa gras e bons autores do idioma em que se espalhados pelo mundo. escreve. É nesse momento, em que se exige Este Manual de Redação é um guia para segurança no manejo das palavras, que sur- todos que querem e precisam escrever; pre- gem temor, dúvida, desconfiança e sentimento tende ensinar a vencer temores e dúvidas de debilidade diante dos labirintos da língua. que cercam a produção de um texto. Contém Estas são as reações mais comuns de a teoria completa da redação e suas categori- vestibulandos, alunos de colégios e cursi- as, muitos exemplos do uso correto de pala- nhos e outros praticantes da Língua Portugue- vras e expressões, como interpretar correta- sa quando precisam encará-la. E produzir um mente um texto. E mais: modelos de redação texto correto e elegante, em que o uso ade- comercial e oficial, temas de redação e ques- quado das infinitas e complicadas regras gra- tões dos principais vestibulares do Brasil, para maticais case com as idéias a serem você praticar o que aprendeu.
  • 5.
    Sumário 1. Teoria daredação As partes da redação — Estrutura ................................. 17 Introdução ..................................... 1 I. Introdução ........................... 17 A redação e os bloqueios ............ 2 II. Desenvolvimento ................ 17 Tipos de redação .......................... 4 III. Conclusão .......................... 18 Descrição ................................. 4 Qualidades básicas da Tipos de descrição ............. 4 redação .................................. 20 Exemplos de descrição ...... 5 Montagem da redação ................ 20 Exemplo de descrição I. O visual ⇒ estética ............ 20 de pessoa ........................... 6 II. Lado interno ⇒ correção .. 22 Exemplo de descrição de ambiente ........................ 7 1. A correção ................... 23 Narração .................................. 7 2. A clareza ...................... 24 Exemplos de narração ....... 8 3. A concisão ................... 25 Formas de relatar 4. A originalidade .............. 25 o enunciado ...................... 10 5. A elegância ................... 26 Formas do discurso .............. 11 6. A coesão ...................... 26 Dissertação ............................ 12 Montagem dos esquemas .......... 26 Exemplos de Seleção e organização das dissertação ....................... 14 idéias na redação .................. 26 Objetividade x Modelo de esquema .............. 27 Subjetividade .................... 15 Dissertação: Texto Subjetivo ................. 16 como proceder? .................... 27 Texto Objetivo ................... 16 Exemplos de esquemas ........ 28
  • 6.
    Descontraia ................................. 29 II – Da elaboração da O estilo de cada um ............... 29 redação ............................. 72 Mandamentos de III – Das propostas ............ 73 uma boa redação ........................ 30 Modelo 7 – UNIFOR-CE ............... 74 O início da redação .................... 33 Modelo 8 – UEMA ........................ 75 Pontos a ponderar ...................... 34 Modelo 9 – UEL-PR ..................... 75 Redação ................................. 75 2. A redação nos vestibulares Modelo 10 – UFPE ....................... 76 Lembretes importantes ............... 35 Objetivo: ................................. 76 Os erros mais freqüentes .......... 35 Critérios básicos Temas de redação de correção ...................... 77 de vestibulares ........................... 36 Proposta ................................. 56 3. Redação escolar, comercial e oficial Modelo 1 – ENEM 2000 ............... 63 Modelo 2 – UFMG 99 .................. 65 Exemplo de redação escolar ..... 78 Modelo 3 – UERJ 2000 ................ 66 Carta comercial – Regras .......... 81 Instruções .............................. 66 Ata .......................................... 83 Proposta de Circular ................................... 85 redação .................................. 66 Certificado .............................. 87 Coletânea de textos .............. 66 Contrato ................................. 87 Conjunto 1 — Crianças e Memorando ............................ 89 adolescentes no Brasil .... 66 Ordem de serviço .................. 89 Conjunto 2 — A infância na mídia ............................. 67 Procuração ............................ 90 Conjunto 3 — Alguns Parecer .................................. 91 dados ................................ 69 Recibo .................................... 92 Conjunto 4 — Cenas Relatório ................................. 94 brasileiras ......................... 70 Currículo ................................. 95 Modelo 4 – ESPM-SP .................. 70 Apresentação ................... 95 Modelo 5 – PUC-RS 2000 ........... 71 Conteúdo ........................... 96 Redação ................................. 71 Redação oficial ........................... 98 Modelo 6 – PUCCAMP-SP ........... 72 Ofício – Regras ..................... 98 Instruções gerais .................. 72 Ofício completo ...................... 99 I – Dos cuidados gerais a serem tomados pelos Ofício simples ....................... 100 candidatos ........................ 72 Requerimento ....................... 102
  • 7.
    Decreto ................................ 104 3. Metonímia ......................... 121 Despacho ............................. 105 4. Ironia ................................ 121 Auto ...................................... 105 5. Eufemismo ........................ 122 Aviso .................................... 106 6. Prosopopéia ou Ato ........................................ 107 Personificação ..................... 122 Acórdão ............................... 108 7. Hipérbole .......................... 122 Boletim .................................. 109 8. Antítese ............................ 122 Comunicado ......................... 109 9. Gradação ......................... 122 10. Catacrese ...................... 123 Edital ..................................... 110 11. Aliteração ....................... 123 Folha corrida ........................ 112 12. Assonância ................... 123 Portaria ................................. 113 13. Onomatopéia ................. 123 4. Interpretação de textos 14. Polissíndeto ................... 123 Conceito .................................... 114 5. Guia prático de redação A intenção textual ..................... 115 Introdução ................................. 155 O sentido lógico e o sentido simbólico das palavras ............. 116 Especificações ......................... 156 Graus de compreensão Observações finais .................. 291 dos textos ................................. 117 Vocabulário ............................... 301 Figuras de linguagem ............... 119 Questões de vestibulares ........ 343 1. Metáfora ........................... 119 Índice ......................................... 371 2. Comparação .................... 120 Bibliografia ................................ 375
  • 9.
    — 1 — 1 Teoria da redação Introdução ce-nos normal a reação instintiva de detestá-la, de abstraí-la de nosso dia-a- dia, pois seria anormal o regozijo por uma A Redação no Vestibular, ou em redação que nos lembrasse todas as qualquer tipo de Concurso, certa- limitações de que somos possuidores. mente já causou muito mais horror, tre- E, ainda por cima, com nosso nome e mores, faniquitos e bloqueios do que assinatura... É demais! hoje. Destarte, passou o tempo, apren- deu-se a conviver com ela, mas não se Mas, entenda-se o vestibular como Ihe descobriram os segredos, não se uma grande maratona, e suponha-se Ihe assinalaram as técnicas, não se Ihe que, no lugar da redação (com número adquiriu o sabor gratificante da con- de linhas e tempo definidos), exigissem vivência: tornou-se conhecida, mas dos vestibulandos uma prova de nata- não íntima. ção, por exemplo: «o candidato deverá nadar quinhentos metros em cinqüenta O vestibular nos exige muito mais minutos; não atingir o estabelecido im- que garatujas, rabiscos, arremedos de plicará a atribuição do grau zero». Um comunicação verbal lançados ao papel. percentual insignificante de candidatos As falhas, sabemo-las, são de base. A (aqueles que fizeram da natação, des- reforma do ensino, com o distaciamento de a infância, uma prática constante) da cultura humanística, assolou o debili- não se preocuparia em absoluto com tal tado saber, contribuindo muito mais para prova. Apenas, ao longo do ano prepa- um ensino pragmático que se coloca ad- ratório, continuariam a manter a forma. verso «ao gosto pelas letras». Os outros, a maioria esmagadora (tal E comunicarmo-nos é criar. É ofere- como na redação), seriam obrigados a cer a outrem as nossas idéias, as nos- submeter-se a treinamentos constantes sas opiniões, as nossas experiências e intensos, que Ihes exigiriam muita for- de vida. É mostrar a nossa cultura e per- ça de vontade e autodeterminação em sonalidade. A comunicação escrita, muito treinar mais, muito mais do que uma vez mais que a oral, é o nosso auto-retrato. por mês ou por quinzena ou por sema- A redação surge como um verdadeiro na. Force-se, agora, um paralelo com a espelho do que somos — é o peso de redação e sinta-se o quanto nos falta, nossa bagagem cultural. Ora, entenden- não para escrever algumas linhas (como do-a, mesmo que inconscientemente, para dar algumas braçadas suficientes como reflexo da nossa bagagem forma- para atravessar a piscina na sua late- tiva, como reflexo «do que sou», pare- ral), mas para escrevermos (ou nadar-
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    — 2 — mos)o suficiente em técnica e corre- ção, com limites de tempo e de número de linhas, de forma a nos possibilitar concorrer, mais do que participar, a uma vaga na Universidade. É necessário, portanto, que cada um, conscientizado de suas limitações e necessidades, se atire de corpo e alma a um trabalho de treinamento contínuo e gradativo, com vistas a melhorar a sua redação, à luz das técnicas e orien- tações dadas. O esforço, a dedicação, o reconhe- cer-se débil — mas capaz — são os elementos que, juntos, propiciarão ao A redação e os aluno as condições para adquirir a autoconfiança perdida ao longo de anos bloqueios sem preparo específico, refletidos basicamente em bloqueios e brancos «Gastei uma hora pensando um verso mentais, ou na apavorante quantidade que a pena não quer escrever. de erros que surgem após uma corre- ção. É básico que cada um venha a acre- No entanto ele está cá dentro inquieto, ditar em si mesmo, sinta-se o suficiente- vivo. mente capaz de, por meio de treinos con- Ele está cá dentro e não quer sair.» tínuos, elaborar uma redação que atinja os padrões mínimos de objetividade, cla- (Carlos Drummond de Andrade) reza e correção das idéias: pré-requisi- «Tantos estudantes psiquicamente tos exigidos e propostos para a reda- normais, que falam bem, e até com ção nos vestibulares ou nos concursos exuberância e eloqüência, no inter- públicos. câmbio de todos os dias, são deso- Portanto: ladores quando se Ihes põe um lápis ou uma caneta na mão.» Eu + Força de Vontade (Mattoso Câmara) Proporcional às Minhas Dificul- São poucas as pessoas que, ao dades = TREINO + TREINO + TREI- receberem a incumbência de escrever NO + ... alguma coisa, ainda que simples bilhete, Esta é a regra: Escrever? Só es- não sintam inibição paralisante. Aconte- crevendo...! ce um branco em sua mente, um vazio
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    — 3 — nassuas potencialidades. Vivem minu- torne algo não só penoso, mas im- tos (minutos?) de angústia, roem unhas, possível. mascam caneta e nada sai. Como evitar isso? O que acontece, se tal ocorre in- clusive com pessoas de razoável co- — Treinando! Escrevendo to- nhecimento, com executivos desinibidos, dos os dias. Lendo e escrevendo. por exemplo? — E tempo? Primeiramente, como causa objeti- — Todos dispõem de tempo. É ape- va, existe a falta de hábito da escrita e nas uma questão de saber aproveitá-lo. da leitura. Secundariamente, existe a De dez minutos diários para uma leitura, causa subjetiva, o bloqueio psíquico. de mais dez minutos para pequena re- Quando escrevemos, temos medo de dação, todos dispõem. É só fazer hábito expor-nos. Em geral, não tememos ser e... até o gosto é capaz de adquirir. gozados pelo que dizemos. Mas não aceitamos a hipótese de gozação pelo Lembre-se: 10 e 10 que escrevemos. É a força do docu- mento!... — Adianta escrever se ninguém É importante não esquecer que, o corrige? mais das vezes, falar bem não significa — Evidentemente que sim! Escre- necessariamente escrever bem. Na vendo todos os dias você vai se linguagem oral, usamos de recursos que desinibindo. Vai adquirindo jeito para a inexistem na escrita: os gestos, por coisa. Vai sanando dúvidas de ortogra- exemplo, ou as situações configuradas, fia (desde que consulte o dicionário). facilmente descritas ou levadas a imagi- Vai ficando fluente. nar, são elementos fundamentais para que a comunicação possa ser efetua- — Escrever sobre quê? da. Convém ainda lembrar que no falar — Sobre qualquer coisa. No come- somos repetitivos e, às vezes, até mes- ço, é aconselhável escrever sobre coi- mo obscuros, sem que ninguém nos sas que aconteceram com você. Expri- «anule» nada. Na redação, ao contrá- mimos melhor assuntos que vivemos. rio, a objetividade e a clareza devem se Depois sobre uma notícia, um comentá- fazer presentes, pois nós não seremos rio. A cena de um filme. Mais tarde um inquiridos no caso de alguma dúvida. tema abstrato. Reproduzir aquilo que leu. Daí que nossas dificuldades se re- Ou então reescrever as redações que fletem em brancos ou bloqueios e so- voltam da correção, corrigindo-as nos mente como já dissemos, muito treina- erros apontados, aumentando-as em mento e perseverança são capazes de idéias novas, enriquecendo-as de deta- nos devolver a autoconfiança abalada lhes que, porventura, tenhamos lido ou e de nos oferecer um mínimo de condi- que tenham nos ocorrido. E assim vai ções para que o fazer redações não se indo...
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    — 4 — Tipos de redação O interesse de um texto descritivo reside na impressão que tal descrição provoca em nós, e nada melhor que o Três são os tipos de composição substantivo — que designa o mundo escrita: a Descrição, a Narração e a do ser — e o adjetivo — que designa o Dissertação. mundo das qualidades do ser — para produzirem enfaticamente aquela im- pressão que brota da fonte descritiva. Descrição O emissor capta a realidade por meio de seus sentidos e a transmite, utilizando Descrever é traduzir com palavras os recursos da linguagem, tal que o recep- aquilo que se viu e se observou. É a tor a identifique. A caracterização é im- representação, por meio das palavras, prescindível, daí a forte incidência de ad- de um objeto ou imagem. jetivos no texto. A descrição é atemporal, É uma seqüência de aspectos: for- por um lado, e espacial, por outro. Ver- ma, tamanho, matriz, quantidade etc. bos indicativos de ação ou movimento são Equivale ao registro do que se vê em secundários, valorizando-se os proces- uma fotografia. Pessoas, objetos ou pai- sos verbais não-significativos, ou de liga- sagens (com todos os seus pormeno- ção. Há grandes descrições que despre- res) podem ser objeto de um desenho zam totalmente formas verbais finitas, res- ou pintura e, logicamente, de uma des- saltando o emprego de formas nominais crição. (infinitivo, gerúndio, particípio). Consiste em fazer viver, tornar vi- Convém que se observe, na des- vos e tangíveis os pormenores, si- crição, a quase ausência de processos tuações ou pessoas. É evocar o que verbais finitos (indicativo ou subjuntivo), se vê ou sente, ou criar o que não se o que dá à descrição um tom especia- vê, mas se percebe ou imagina. Des- líssimo de imobilidade do objeto. crever não é copiar friamente, mas enriquecer a visão do que é real ou Tipos de descrição procura-se tornar real. Saber descre- ver não significa enumerar muitos de- 1. Descrição Denotativa: A descrição talhes, mas procurar transmitir sensa- é denotativa quando a linguagem re- ções fortes. presentativa do objeto é objetiva, cla- ra, direta, sem metáforas ou outras A descrição é destituída de ação. É figuras literárias. Na descrição deno- estática. tativa, as palavras são tomadas no Na descrição, o ser, o objeto ou o seu sentido de dicionário, único. De- ambiente são mais importantes, ocupan- notativas são, por exemplo, as des- do lugar de destaque na frase o subs- crições científicas, as descrições que tantivo e o adjetivo. vêm nos livros didáticos etc.
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    — 5 — 2.Descrição Conotativa: É a des- Exemplos de descrição crição literária, onde as palavras são tomadas em sentido simbólico, ri- 1. «Duas horas da tarde. Um sol ardente cas em polivalências. Visam a re- nos colmos dardejando e nos eirados tratar uma realidade além da realida- sobreleva aos sussurros abafados o de. Uma supra-realidade. grito das bigornas estridentes...» Dado, por exemplo, o tema «A Ca- (Gonçalves Crespo) deira» para descrever: 2. «Manhã cinzenta. Partida de Lisboa. a) A pessoa que se limitasse a descre- Os primeiros aspectos da campina ver fisicamente a cadeira — suas per- ribatejana: touros, campinos de vara nas, espaldar, assento, altura, cor ao alto, searas infinitas. etc. — estaria fazendo descrição Depois, mutação de cenário: flores- denotativa. tas de pinheiros verdenegros, outeiros. b) Mas aquele que passasse, digamos, Uma aberta de luz: campos exten- a descrever «reações psicológicas» sos de milho e arrozais. Enfim, o tufo de uma cadeira diantes dos diferen- espesso do Choupal. Coimbra, debru- tes tipos de nádegas que sobre ela çada sobre o Mondego». repousassem... estaria fazendo des- (R. Lapa) crição conotativa. Qualidades da boa descrição: 3. «Sala de prédio novo no pátio do uma descrição é boa quando é viva, torel. Ornamentações «Liberty» na animando-se a paisagem com seres vi- sua clara tonalidade preferida, que funde o verde-mar e em rosa-páli- vos e com a presença do homem. Além do. Duas grandes janelas por onde de viva, a descrição deve ser real e se perspectiva a baixa e um largo pormenorizada. Descrição real é a des- trecho do rio. A parede do sul corta- crição em relevo, dotada, podemos di- da por três arcos envidraçados que zer, de corpo. Devem ser eliminados to- dão para uma espécie de estufa dos os pormenores que não se subordi- rescendente.» nem à impressão geral que se quer dar. (Teixeira Gomes) O estilo da descrição: a lingua- gem descritiva exige o vigor e o relevo 4. «Os companheiros de classe eram do termo forte, próprio, exato, concreto. cerca de vinte. O Gualtério, miúdo, Nos quadros de natureza, por exemplo, redondo de costas, cabelos re- a linguagem deve traduzir a cor e a vi- voltos, motilidade brusca e care- são, os espaços sem limites, as formas tas de símio — palhaço dos ou- sem contornos, imprecisas, intangíveis, tros, como dizia o professor: o Nasci- para isso utilizando os termos gerais e mento, o bicanca, alongado por um abstratos. modelo geral de pelicano, nariz
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    — 6 — esbelto,curvo e largo como uma Exemplo de descrição de pessoa voice; o Álvares, moreno, cenho carregado, cabeleira espessa e NHÔ RUFA intonsa de vate de caverna, vio- Chamava-se Rufino o preto cuja lento e estúpido ( . . . ); o Almeidinha, carapinha em desalinho a neve dos anos claro, translúcido, rosto de me- manchara de branco. Não sei a sua ida- nina, faces de um rosa doentio, de, mas meu avô dizia que "Negro quan- que se levantava, para ir à pedra com do pinta tem três vezes trinta". Talvez um vagar lânguido de convales- carregasse por noventa anos aquele cença; o Maurílio, nervoso, insofri- corpo magro e dolorido. do, fortíssimo em tabuada: cinco As pálpebras empapuçadas deixa- vezes três, vezes dois, noves fora, vam entrever, dos olhos, apenas um ris- vezes sete?. . . Iá estava Maurílio, trê- co preto que mirava com ódio a menina- mulo, sacudindo no ar o dedinho da que o acompanhava e divertia-se às esperto... olhos fúlgidos no ros- suas custas. to moreno, marcado por uma pin- ta na testa; o Negrão, de ventas A pele preta era opaca e sem viço, próprio da idade avançada. Seu nariz acesas, lábios inquietos, fisio- achatado parecia esborrachado. O lá- nomia agreste de cabra, canhoto bio inferior, bem vermelho e grosso, pen- e anguloso, incapaz de ficar sen- dia desgovernado, dificultando a fala. tado três minutos; (...) Batista Carlos, raça de bugre, válido, de Os pés grandes e descalços, sem- má cara, coçando-se muito, co- pre inchados, permitiam-lhe apenas um mo se o incomodasse a roupa no caminhar trôpego, arrastado e cansa- corpo, alheio às coisas da aula, do. Usava um velho capote de cor inde- como se não tivesse nada com aquilo, finida, onde predominava o pó da estra- da, e um chapéu de feltro, maltratado espreitando apenas o professor para pelas intempéries, tão deformado pela aproveitar as distrações e ferir a ore- falta de forro a ponto de parecer uma lha dos vizinhos com uma seta de pa- tigela desabada sobre os olhos. pel dobrado. (...) Trazia a tiracolo um bodoque (que Fui também recomendado ao Sanches. é um arco para atirar bolotas de barro) Achei-o supinamente antipático: e, no outro ombro, uma velha aljava de cara extensa, olhos rasos, mor- couro, velha e encardida, repleta das tos, de um pardo transparente, lá- ditas bolotas de barro seco, sua arma bios úmidos, porejando baba, contra os meninos. Estes diziam que Nhô meiguice viscosa de crápula anti- Rufa tinha bicho-de-pé e gritavam de go. Era o primeiro da aula. Primeiro que longe, em coro: fosse do coro dos anjos, no meu con- — Bichento! Bichento! ceito era a derradeira das criaturas.» (Dalva Ferreira Fanchim. Piraí do Sul, sua gente e suas (O Ateneu, Raul Pompéia — Coleção dos Clássicos histórias. Curitiba: Imprensa da Assembléia Legislativa Brasileiros, Edições de Ouro, p. 57-58.) do Paraná, 1984, p. 90.)
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    — 7 — Exemplo de descrição Narração de ambiente Narrar é discorrer sobre fatos. É A FAZENDA contar. Consiste na elaboração de um Pior fazenda que a do Espigão, ne- texto que relate episódios, aconteci- nhuma. Já arruinara três donos, o que mentos, ou seja, é uma seqüência de fazia dizer aos pragueiros: Espiga é o acontecimentos: começo, meio e fim. que aquilo é! Equivale ao registro de uma história, de um "causo", de uma anedota, de uma Os cafezais em vara, ano sim ano piada. Quando se conta uma história não batidos de pedra ou esturrados de (verdadeira ou inventada), está-se fa- geada, nunca deram de si colheita de zendo uma narração. entupir tulha. Os pastos ensapezados, enguaxumados, ensamanbaiados nos Ao contrário da descrição, que é topes, eram acampamentos de cupins estática, a narração é eminentemente com entremeios de macegas mortiças, dinâmica. Nela predominam os verbos. formigantes de carrapatos. Boi entrado Aqui o importante está na ação. No «o ali punha-se logo de costelas à mostra, que aconteceu». encaroçado de bernes, triste e dolorido A essência da ficção é a Narrativa, de meter dó. respondendo os seus elementos a uma As capoeiras substitutas das ma- série de perguntas. São elas: tas nativas revelavam pela indiscrição a) Quem participa nos acontecimentos? das tabocas a mais safada das terras (personagens) secas. Em tal solo a mandioca braceja- va a medo varetinhas nodosas; a cana b) O que acontece? (enredo) caiana assumia aspecto de caninha, e esta virava um taquariço magrela dos c) Onde e em que circunstâncias acon- que passam incólumes entre os cilin- tece? (o lugar dos fatos, ambiente e dros moedores. Piolhavam os cavalos. situação) Os porcos escapos à peste encrua- Em síntese, a narrativa de um fato vam na magrém faraônica das vacas ou vários é feita a partir de alguns ele- egípcias. mentos, tais como: Por todos os cantos imperava o fer- o quê? rão das saúvas, dia e noite entregues à o acontecimento a ser narrado; tosa dos cupins para que em outubro se toldasse o céu de nuvens de içás, em quem? saracoteios amorosos com enamorados a personagem principal (protagonista); sativus. quem? (Monteiro Lobato. Urupês. 13. ed., São Paulo: Brasiliense, 1996, p. 234-5.) o antagonista;
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    — 8 — como? de ouvir as personagens); ter como as- a maneira como se desenrolou o sunto caso real ou fictício; ser séria, acontecimento; engraçada ou triste. Quem escreve é quem decide como fazer a redação. quando? o tempo da ação; Exemplos de narração onde? 1. «Toda a gente tinha achado estranha o local do acontecimento; a maneira como o Capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. por quê? Um dia chegou a cavalo, vindo nin- a razão do fato; guém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela por isso cabeça de macho altivamente erguida, o resultado ou conseqüência. e aquele seu olhar de gavião que irri- tava e ao mesmo tempo fascinava as Na redação narrativa, o fato é o pessoas. Devia andar lá pelo meio da núcleo da ação, e o verbo o elemento casa dos trinta, montava um alazão, valioso por excelência. Ao escrevermos trazia bombachas claras, botas com uma narração, é importante que uma só chilenas de prata e o busto musculoso situação a centralize e envolva as per- apertado num dólmã militar azul, com sonagens. Deve haver um centro do gola vermelha e botões de metal. Ti- conflito, um núcleo do enredo. A narra- nha um violão a tiracolo; sua espada, ção distingue e ordena os fatos. apresilhada aos arreios, rebrilhava ao A sua essência é a criatividade. sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pes- O texto narrativo é eminentemente coço esvoaçava no ar como uma ban- temporal e espacial. Envolve a ação, deira. Apeou na frente da venda do o que produz a personagem, o agen- Nicolau, amarrou o alazão no tronco te do processo narrativo. dum cinamomo, entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com Esta modalidade de texto transita o rebenque, e foi logo gritando, assim por um fio condutor que leva a uma situ- com ar de velho conhecido: ação denominada «clímax» ou «nó», decaindo numa «resolução» ou epílo- — Buenas e me espalho! Nos pe- go. O segredo da narrativa concentra- quenos dou de prancha e nos grandes se no grau de «suspense» criado, bem dou de talho! como no fecho surpreendente. Havia por ali uns dois ou três ho- É importante lembrar que a narra- mens, que o miraram de soslaio sem di- ção pode ser curta ou longa; ter diálogo zer uma palavra. Mas dum canto da sala ou não (o diálogo torna a narração mais ergue-se um moço, que puxou a faca, dinâmica, pois cria no leitor a sensação olhou para Rodrigo e exclamou:
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    — 9 — — Pois dê! Depois de alguma relutância o ou- tro guardou a arma, meio desajeitado, e Os outros homens se afastaram Rodrigo estendeu-lhe a mão, dizendo: como para deixar a arena livre, e Nicolau, atrás do balcão, começou a gritar: — Aperte os ossos.» — Aqui dentro não! Lá fora! Lá fora! (Érico Veríssimo, Um certo capitão Rodrigo) Rodrigo, porém, sorria imóvel, de 2. «O fiscal da alfândega não podia en- pernas abertas, rebenque pendente do tender por que aquela velhinha viaja- pulso, mãos na cintura, olhando para o va tanto. A cada dois dias, vinha ela outro com um ar que era ao mesmo tem- pilotando uma motocicleta e ultrapas- po de desafio e simpatia. sava a fronteira. Fora interceptada — Incomodou-se, amigo? — per- inúmeras vezes, fiscalizada e nada. O fiscal alfandegário não se confor- guntou, jovial, examinando o rapaz de mava com aquilo. alto a baixo. — Não sou de brigas, mas não cos- — Que traz a senhora, aí? tumo agüentar desaforo. — Nada, não, senhor! — Oi bicho bom! A cena, que se repetia com tanta Os olhos de Rodrigo tinham uma freqüência, intrigava o pobre homem. expressão cômica. Não se conteve: — Essa sai ou não sai? — pergun- — Não é por nada, não; me faz um tou alguém do lado de fora, vendo que favor, dona. Não Ihe vou multar, nem Rodrigo não desembainhava a adaga. O nada; é só por curiosidade, a senhora recém-chegado voltou a cabeça e res- está contrabandeando o quê? pondeu calmo: — Seu fiscal, o senhor já desmon- — Não sai. Estou cansado de bri- tou a moto e nada achou, que quer mais? gas. Não quero puxar arma pelo menos por um mês. — Voltou-se para o homem — Só pra saber, dona! moreno e, num tom sério e conciliador, — Tá bem, eu conto: O contraban- disse: — Guarde a arma, amigo. do é a moto, moço!» O outro, entretanto, continuou de (adaptado) cenho fechado e faca em punho. Era um tipo indiático, de grossas sobrance- 3. A BORBOLETA PRETA lhas negras e zigomas salientes. A borboleta, depois de esvoaçar — Vamos, companheiro — insistiu muito em torno de mim, pousou-me na Rodrigo. — Um homem não briga debal- testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidra- de. Eu não quis ofender ninguém. Foi ça; e, porque eu a sacudisse de novo, uma maneira de falar... saiu dali e veio parar em cima de um
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    — 10 — velhoretrato de meu pai. Era negra como Pegou a mala deixada na portaria de um a noite. O gesto brando com que, uma dos hotéis em que havia procurado cô- vez posta, começou a mover as asas, modo, tomou um táxi e foi para a casa tinha um certo ar escarninho, que me do parente, certo de ali encontrar o de- aborreceu muito. Dei de ombros, saí do sejado cantinho onde pudesse passar quarto; mas tornando lá, minutos depois, alguns dias. e achando-a ainda no mesmo lugar, senti Chegou e foi bem recebido. Como, um repelão dos nervos, lancei a mão de porém, a casa era pequena, teve de aco- uma toalha, bati-lhe e ela caiu. modar-se no mesmo quarto em que dor- Não caiu morta; ainda torcia o cor- mia um sobrinho de poucos meses. De po e movia as farpinhas da cabeça. madrugada, acordou com a bexiga cheia, Apiei-me; tomei-a na palma da mão e fui desesperado por esvaziá-la. Levantou- depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a se, procurou o vaso noturno por todos infeliz expirou dentro de alguns se- os cantos e não o encontrou. Para ir até gundos. Fiquei um pouco aborrecido, in- o banheiro, tinha de atravessar o quarto comodado. onde dormia o casal, precisaria acender as luzes e, com todo esse movimento, — Também por que diabo não era poderia acordar o irmão e a cunhada. ela azul? disse comigo. Como fazer, então, para sair da- E esta reflexão — uma das mais quela aflitiva situação? profundas que se tem feito, desde a in- venção das borboletas — me consolou Depois de muito pensar, pegou o do maléfico, e me reconciliou comigo garoto, passou-o para a sua cama e mesmo. esvaziou a bexiga ali mesmo no col- chãozinho do berço... (Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. 5. ed., São Paulo: Ática, 1975, p.52.) Aliviado, o Juventino, ao pegar ou- tra vez o garotinho para pô-lo novamen- 4. CASTIGO MERECIDO te no berço, viu que o safadinho havia feito coisa muito pior em sua cama... Numa das suas viagens a São Pau- lo, o Juventino não pôde conseguir, de (Décio Valente. Coisas que acontecem... 1. ed. São Paulo: L. Oren, 1969, p. 66-7.) forma alguma, um quarto em hotel ou pensão onde pudesse hospedar-se. Percorreu a cidade toda, e nada! Formas de relatar o enunciado Tudo cheio, completamente lotado. A relação verbal emissor/receptor Finalmente, após longas e infrutífe- efetiva-se mediante o que chamamos ras caminhadas, resolveu ir para a casa discurso. A narrativa se vale de tal de seu irmão, residente em bairro afas- recurso, efetivando o ponto de vista ou tado do centro da grande metrópole. foco narrativo.
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    — 11 — a)Quando o narrador participa do en- c) Ocorrem casos em que o narrador é redo, é personagem atuante, diz-se classificado como onisciente, pelo que é narrador-personagem ou fato de dominar o lado psíquico de seus participante. Isso constitui o foco personagens, antepondo-se às suas narrativo ou ponto de vista da pri- ações, percorrendo-lhes a mente e a meira pessoa. alma. Neste particular, Clarice Lis- pector destaca-se brilhantemente. Exemplo: Exemplo: «— Is this an elephant? Minha ten- dência imediata foi responder que não; «Na rua vazia as pedras vibravam mas a gente não deve se deixar levar de calor — a cabeça da menina flameja- pelo primeiro impulso. Um rápido olhar va. Sentada nos degraus de sua casa, que lancei à professora bastou para ver ela suportava. Ninguém na rua, só uma que ela falava com seriedade e tinha o pessoa esperando inutilmente no ponto ar de quem propõe um problema.» de bonde. E como se não bastasse seu (Aula de Inglês, Rubem Braga) olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, aba- b) Chamamos narrador-observador lando o queixo que se apoiava com- ao que serve de intermediário entre o panheiro na mão... Na rua deserta ne- episódio e o leitor — é o foco narrati- nhum sinal de bonde. Numa terra de vo de terceira pessoa. morenos, ser ruiva era uma revol- ta involuntária. Exemplo: Se num dia futuro sua marca ia fazê- «Os dois cabras se aproximaram la erguer insolente uma cabeça de mu- sem que ele pressentisse. Eram um alto e lher? Por enquanto ela estava sentada um baixo; o baixo, grosso e escuro, ves- num degrau faiscante da porta, às duas tido numa camisa de algodãozinho encar- horas. O que a salvara era uma bolsa dido. O alto era alourado e não se podia velha de senhora, com alça partida. Se- dizer que estivesse vestido de coisa ne- gurava-a com um amor conjugal já habi- nhuma, porque era farrapo só. O grosso tuado, apertando-a contra os joelhos.» na mão trazia um couro de cabra, ainda (Clarice Lispector) pingando sangue, esfolado que fora fa- zia pouco. E nem tirou o caco de chapéu da cabeça, nem salvou ao menos. O velho até se assustou e brusca- Formas do discurso mente se pôs a cavalo na rede, a escu- tar a voz grossa e áspera, tal e qual 1. O DISCURSO DIRETO constitui a quem falava: técnica do diálogo. É a persona- gem em atividade, animizada, falan- — Cidadão, vim Ihe vender este do. Estrutura-se, normalmente, com couro de bode.» a precedência de dois-pontos e ini- (Rachel de Queiroz) cia-se após um travessão.
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    — 12 — «... Botou as mãos na cabeça e a que o envolvem, na discussão da pro- boca no mundo: blemática que nele reside, na defesa de princípios, na tomada de posições. — Nossa senhora, meu patrãozinho me mata!» Caracteriza-se a dissertação pela (Fernando Sabino) análise objetiva de um assunto, pela seqüência lógica das idéias, quando re- 2. O DISCURSO INDIRETO caracteriza- fletidas e expressas, pela coerência na se pelo emprego da subordina- exposição delas. ção sintática, impedindo a fala da personagem. «D. Evarista ficou A redação expositiva ou disserta- aterrada. Foi ter com o marido, dis- ção implica uma estrutura organizada se-lhe que estava com desejos.» em etapas que focalizem o assunto a partir de uma técnica determinada, bus- (Machado de Assis) cando objetivos precisos. 3. O DISCURSO INDIRETO LIVRE é uma Portanto: a dissertação exige re- mescla do discurso direto com flexão e seleção de idéias. Exige que o indireto, proporcionando um mo- se monte um plano de desenvolvimento. vimento interno da fala, o monólo- go interior. Para reforçar esta necessidade, vale a pena transcrevermos algumas li- Observe o fragmento: nhas de Buffon: «Sinhá Vitória falou assim, mas Fa- «É pela ausência de plano, é por biano franziu a testa, achando a frase não ter refletido bastante sobre o extravagante. Aves matarem bois e ca- assunto, que um homem de talento se valos, que lembrança! Olhou a mulher, sente embaraçado, não sabendo por desconfiado, julgou que ela estivesse onde começar a escrever. Entrevê, ao tresvariando». mesmo tempo, grande número de idéi- (Graciliano Ramos) as; e como não as comparou, nem su- bordinou, nada o obriga a preferir umas às outras; fica, pois, perplexo. Mas, Dissertação quando tiver esboçado um plano, quando tiver reunido e posto em or- Dissertar é tratar com desen- dem todos os pensamentos essenci- volvimento um ponto doutrinário, ais ao seu assunto, sentirá o ponto de um tema abstrato, um assunto ge- maturação da produção do espírito, nérico. Ou seja: apressar-se-á a fazê-lo desabrochar e Dissertar é expor idéias em torno terá prazer em escrever. de um problema qualquer. Para escrever bem, é preciso, por- Consiste na exposição de um as- tanto, estar plenamente senhor do seu sunto, no esclarecimento das verdades assunto; é preciso refletir bem nele,
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    — 13 — paraver claramente a ordem dos Introdução — parte em que se pensamentos e formular deles uma apresenta o assunto a ser questionado; seqüência, uma cadeia, em que cada o desenvolvimento — parte em que ponto representa uma idéia». de se discute a proposta e, por último, a conclusão — em que se toma posição Convém certo domínio de conheci- relativamente à proposta. mento do assunto, cultura apreciável e, sobretudo, domínio das estruturas sin- Normalmente os vestibulares pe- táticas mais elaboradas, do período com- dem que se disserte em 25 ou 30 linhas, posto por subordinação. As orações re- no máximo, o que nos faz sugerir pará- duzidas de infinitivo, particípio e gerúndio grafos de 5 ou 6 linhas. constituem excelente material. A sermos coerentes, é necessário ⇒ Este é o tipo de redação pedido (ou entre os parágrafos, correlação. Isto é, esperado) pela maioria dos vestibu- o assunto deve ser criteriosamente lares do Brasil ou dos Concursos Pú- distribuído. blicos. Resumindo: E, infelizmente, desde as primei- É uma seqüência de juízos, de con- ras redações primárias até as colegi- siderações, de reflexões sobre algum ais, a redação preferida, pela necessi- assunto, a partir do que estabelece uma dade de se incentivar a criatividade, foi opinião. a Narração. Contamos sobre piqueni- ques, passeios, viagens, excursões...; Para quem vai fazer uma disserta- contamos o real, o imaginário, o veros- ção é importante: símil...; passamos do infantil ao trágico; seguimos, enfim, por caminhos que a a) examinar o tema, entendê-lo e rela- nossa imaginação e potencialidades cioná-lo a alguma situação conhe- nos levaram e, em matéria de redação, cida; paramos aí. b) anotar as idéias (argumentos fa- O discutir assuntos, o criticar situa- voráveis e contrários) que conseguir ções, o propor soluções sempre o fo- sobre o tema; ram muito distantes de nossa realidade. c) decidir a posição (favorável ou con- A juventude, hoje, mais do que nunca, trária) que vai defender; alienou-se em páramos de um mundo sem problemas. Ela não participa, ela não sen- d) fazer um rol do vocabulário (elenco te, ela não reage, ela não discute, nor- de palavras) que se refere ao as- malmente não entende, e... por isso, não sunto; escreve; quando o faz, as paráfrases e) rascunhar a dissertação a partir do fazem-se presentes também. tema, com rápida introdução em que A dissertação baseia-se em três podem aparecer dados históricos, partes fundamentais: opiniões gerais;
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    — 14 — f) apresentar os argumentos, come- O marco divisório entre os dois çando pelos mais simples, já atacan- mundos, o que avança destemido e o do os contrários e enaltecendo os que marca passo no círculo de giz de favoráveis; suas estruturas arcaicas e tradicionais, é, sem dúvida nenhuma, a educação. É g) concluir o trabalho, à vista dos argu- ela que, ao produzir tecnologia, encami- mentos, com a posição que está de- nha as soluções permanentes concebi- fendendo; das em nível de magnitude. Por isso h) revisar o texto: mesmo, é a matéria-prima prioritária, o elemento deflagrador do progresso rá- — eliminando o que for supérfluo ou ine- pido. Terá de ser encarada com imagi- ficaz, como repetições, frases que nação e empenho, pré-requisito que pouco dizem (e que, portanto, não exige a participação imediata e fecunda fazem falta); da vontade nacional. — alterando, se preciso, a ordem dos Muitas nações subdesenvolvidas já argumentos; despertaram para a ampla semeadura — corrigindo os erros de concordância, educacional. O fato de pensar-se na de regência, de pontuação, de orto- educação como meio de desenvolvimen- grafia, de acentuação; to já constitui um sistema de desenvolvi- mento, uma atitude para o desen- i) rever o texto, analisando-o como su- volvimento. Nem todas, porém, lograram põe que o examinador o analisará e, ainda preencher o hiato entre o desejo e se necessário, modificá-lo; a vontade de se desenvolverem. j) passar a limpo, lembrando-se de que O hiato persiste sob a forma de uma nenhum examidor gostaria de ter de mentalidade rançosa, impermeável às decifrar a letra. mudanças. E, quando o influxo refor- mista vence barreiras e busca implan- Exemplos de dissertação tar-se, defronta quase sempre a falta de organização e os condicionamentos Os meios de comunicação de mas- superados. sa devem alterar, nas próximas duas ou três décadas, uma boa parte da Só a esperança não basta; é preci- fisionomia do mundo civilizado e das so a consciência. relações entre os homens e povos. A (Jornal do Brasil, 23/11/69) educação, mola mestra deste impulso irresistível, é modernizada dia a dia a 1. NASCEM OS HOMENS IGUAIS fim de suprir as novas necessidades que se multiplicam, adaptando o homem Nascem os homens iguais; um mes- contemporâneo ao chamado das es- mo, igual princípio os anima, os conser- trelas, que ele já não se satisfaz em va, e também os debilita, e acaba. So- contemplar. mos organizados pela mesma forma, por
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    — 15 — issoestamos sujeitos às mesmas vai- pre, cheio de Espinhos e sem uma única dades. Para todos nasce o Sol; a aurora flor que nele se abra e amenize. Haveria a todos desperta para o trabalho; o si- somente um homem em quem palpitasse lêncio da noite anuncia a todos o des- coração tão seco, tão enregelado e sem canso. O tempo que insensivelmente vida de Sentimentos: o homem que não corre, e se distribui em anos, meses e amasse o lugar de seu nascimento. De- horas, para todos se compõe do mesmo pois dos pais, que recebem nosso pri- número de instantes. Essa transparen- meiro grito, o solo pátrio recebe os nos- te região a todos abraça; todos acham sos primeiros passos; é um duplo rece- nos elementos um patrimônio comum, li- ber, que é duplo dar. As idéias grandes vre, e indefectível; todos respiram o ar; e generosas dilatam o horizonte da pá- a todos sustenta a terra; as qualidades tria; a religião, a língua, os costumes, as da água, e do fogo, a todos se comuni- leis, o governo, as aspirações fazem de cam. O mundo não foi feito mais em be- uma nação uma grande família, e de um nefício de uns, que de outros, para to- país imenso a pátria de cada membro dos é o mesmo; e para o uso dele todos dessa família. Mas, deixem-me dizer têm igual direito; ou seja pela ordem da assim, a grande não pode fazer olvidar natureza, ou seja pela ordem da sua a pequena pátria; dessa árvore que se mesma instituição; todos achamos no chama a nação, o país, não há quem mundo as mesmas partes essenciais. não sinta que a raiz é a família e o berço Que cousa é a vida para todos mais do a pátria. que um enleio de vaidades, e um giro (Joaquim Manuel Macedo. Apud Oliveira, Cleófano sucessivo entre o gosto, a dor, a ale- de. Flor do Lácio. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 1961, gria, a tristeza, a aversão, e o amor? p. 287.) (Matias Aires. Reflexões Sobre a vaidade dos homens, ou discursos morais sobre os efeitos da vaidade. 9. ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1953, p. 117-8.) Objetividade x Subjetividade 2. A PÁTRIA Ao expor um problema, ao discutir um assunto, você pode agir de duas Um célebre poeta polaco, des- maneiras: objetiva ou subjetivamente. crevendo em magníficos versos uma flo- Objetivamente, se a exposição resta do seu país, imaginou que as aves do assunto se apresentar impessoal, e os animais ali nascidos, se por acaso marcada pela presença do raciocínio e longe se achavam, quando sentiam apro- da Iógica universal — quando o assunto ximar-se a hora da sua morte, voavam for abordado e discutido de maneira ge- ou corriam e vinham todos expirar à som- nérica, com idéias e posicionamentos bra das árvores do bosque imenso onde que pudessem ser aceitos por todos, tinham nascido. O amor da pátria não ou por uma maioria. pode ser explicado por mais bela e deli- cada imagem. Coração sem amor é um Essa redação tem por finalidade campo árido, quase sempre, ou sem- básica instruir e/ou convencer o lei-
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    — 16 — tor.As idéias e o modo de se analisar e é o normal, que dentro de uma surjam enfocar os problemas são pessoais, mas aspectos das outras. O seu entrosa- a colocação disso tudo dentro da reda- mento é normal, malgrado se conservem ção deve ser impessoal: verbo na 3ª sempre a essência e as particularidades pessoa ou na 1ª do plural — afinal, de cada uma, pois, se assim não o fosse, Nós não sou eu, mas... somos todos. não saberíamos identificá-las. Subjetivamente, caso predomi- Exemplos: nem, na exposição das idéias, suas pró- prias opiniões, sua maneira pessoal, Texto Subjetivo particular de ver e encarar as coisas. Esta modalidade depende essencialmen- «Nunca será tão domingo como aqui, te do tema dado, que deve estar próxi- e domingos e domingas de eternidade se mo da subjetividade. De um modo geral, concentram em vigorosa dominicalização. ela deve ser evitada por aproximar-se Não acontecer nada, que beatitude! Dei- demasiadamente da narração, por meio xar o mato crescer — mas o próprio mato dos seus subtipos, como a crônica, por foge à obrigação, e goza o domingo. Lá exemplo. estão o touro zebu e seu harém de no- bres e modestas vacas — porque o zebu Na redação subjetiva, procura-se, alia à majestade indiana a placidez das antes de tudo, angariar a simpatia do Minas, e boi nenhum se fez tão mineiro leitor com relação ao exposto. Daí que, quanto esse, e bicho nenhum é tão minei- para fazê-lo, baseamo-nos essencial- ro quanto o boi, em seu calado conheci- mente em nossas opiniões, no nosso mento da vida, sua participação no traba- modo particular de ver as coisas, no lho. O rebanho amontoa-se em círculos, nosso pensar em relação aos fatos, algumas reses em pé, outras deitadas, deixando transparecer, o mais das ve- chifres cumprimentando-se sem ruído. Pa- zes, um tom confessional, pontilhado de rece um só boi espalhado, maginando. Com emoções e sentimentalismos: verbo na o pincel do rabo, executa o milenar movi- 1ª pessoa do sing. — EU. mento de repelir a mosca, sei que não o O ideal seria que se unissem num pratica pelo prazer de abanar-se. Mas há só os dois modelos, escrevendo, num bois esparsos, bois solitários, que se pos- tom impessoal, idéias efervescentes de tam junto a árvores, aparentemente re- características emotivas que pudessem colhidos; ou fitam o carro que levanta po- tocar o leitor, derrubando-o do seu papel eira sobre a poeira habitual, e ruminam tirano de riscar, corrigir, apontar defei- não sei que novelas de boi.» tos: afinal, ele é «gente como nós». (Carlos Drummond de Andrade) ⇒ Observação: Texto Objetivo Nem sempre a descrição, a narra- ção e a dissertação aparecem em «esta- «As casinhas eram alugadas por do puro». É perfeitamente possível, aliás mês e as tinas por dia: tudo pago adi-
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    — 17 — antado.O preço de cada tina, metendo a Ela é muito importante. Sendo o água, quinhentos réis, sabão à parte. As contato inicial do leitor com o texto, deve moradoras do cortiço tinham preferência atraí-lo, despertar-lhe o interesse. As- e não pagavam nada para lavar. sim, deve ser objetiva e simpática. E, sobretudo, não pode ser longa. Normal- Graças à abundância da água que mente um ou dois períodos. lá havia, como em nenhuma outra parte, e graças ao muito espaço de que se dis- O tópico frasal pode se apresentar punha no cortiço para estender a roupa, de várias formas: uma declaração, uma a concorrência às tinas não se fez es- pergunta, uma divisão, uma citação... Ao perar; acudiram lavadeiras de todos os desenvolvê-lo, é preciso ser o mais ob- pontos da cidade, entre elas algumas vin- jetivo possível, evitando-se divagações das de bem longe. E, mal vagava uma inúteis. das casinhas, ou um quarto, um canto onde coubesse um colchão, surgia uma Enfim, na introdução, o importante nuvem de pretendentes a disputá-los.» é falarmos no tema da redação, mes- mo que (ou até obrigatoriamente às ve- (Aluísio Azevedo) zes) tenhamos de usar as suas pala- vras, ou parte delas. As partes da Lembre-se: a redação começa na linha (1) e não no tema ou no título, redação — Estrutura não havendo desta forma repetição; pois, como repetir o que ainda não foi dito? Classicamente, uma redação deve constar de três partes: I — Introdução II. Desenvolvimento II — Desenvolvimento É o corpo da redação. Sua parte III — Conclusão principal. É aqui que aparecem as idéi- as, os argumentos, a originalida- de. A introdução corresponde à tese. I. Introdução O desenvolvimento vem a ser o debate da tese. É a parte mais longa. O corpo Introduzir significa «levar para sempre há de ser maior que a cabeça e dentro». Na introdução, portanto, con- os pés. Sob pena de termos uma aber- duzimo-nos para dentro do tema, do as- ração!... sunto. Apresenta cada um dos argumen- A introdução apresenta a idéia que tos ordenadamente, analisando deti- vai ser discutida (tópico frasal), nada damente as idéias e exemplificando de Ihe acrescentando. maneira rica e suficiente o pensamento.
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    — 18 — O desenvolvimento será a parte mais Portanto, é a comprovação da te- longa da redação, mas não necessaria- se levantada na Introdução e discutida mente a mais confusa, complicada e no desenvolvimento. ininteligível. E isso é o que acontece, nor- Ela é, a princípio, retirada da melhor malmente, quando não se faz uma sele- idéia que achamos ter no momento da ção de idéias prévia, quando não se sabe reflexão inicial sobre o tema. É a nossa o que escrever antes de começar a es- posição em face de um problema qual- crever. Bem se diz: «só comece a es- quer, a sua solução, ou a projeção futura crever depois que você souber, com de conseqüências que advirão caso não certeza, quais as idéias, aquilo que sejam tomadas as medidas que acha- e sobre o que você vai escrever». mos necessárias (e que devem ter sido Não há necessidade de muitas idéi- citadas no desenvolvimento da redação). as (e normalmente nem espaço para A conclusão não deve ser muito isso). O importante é que, mesmo sendo longa, a exemplo da introdução, e deve poucas, as idéias sejam correta e obje- ocupar, também, somente um parágrafo tivamente expostas. Não se deve can- (ao contrário da introdução, pode ter sar o leitor com um milhão de argumen- mais do que um período). tos diferentes, nem com períodos lon- gos e maçantes que, fatalmente, resul- ⇒ Observação: tam confusos. Principalmente nos contos e nas crônicas, a conclusão, o «fecho», pode Nas redações entre 15 e 18 linhas, ser imprevisto e absolutamente desliga- o desenvolvimento deve ocupar um ou do daquilo para que se vem conduzindo dois parágrafos (com vários períodos o leitor. E nisso está o seu valor. É claro dentro deles). Nas redações com nú- que isso não cabe às dissertações, mero de linhas entre 20 e 25, o número aos temas abstratos. É próprio para a de parágrafos no desenvolvimento gira narração. em torno de 3 ou 4. Exemplo: PARA LER... E VERIFICAR! III. Conclusão Veja a seguir um exemplo de dis- sertação, com suas partes respectivas, É o acabamento da redação. E, se e os comentários — ao final — sobre não se deve iniciar «abruptamente» a cada uma delas. redação, também não se pode acabá-la de súbito. A PAZ E A GUERRA A conclusão resume todas as idéi- «Há ideologias que pressupõem as apresentadas e discutidas no desen- seja o homem um ser naturalmente incli- volvimento, tomando uma posição sobre nado à guerra, essencialmente agressi- o problema apresentado na introdução. vo. São idéias fundamentadas na teoria
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    — 19 — daevolução, nos conceitos de luta pela Comentários: existência, em que o mais forte ocupa as Notamos que o assunto se desen- altas posições econômicas e políticas. volve em torno de uma idéia-núcleo que No entanto, estas concepções são está expressa no trecho: «No entanto... completamente contrárias à tendência baixo nível de luta animal» (segundo pa- evolucionária humana, que retrocede rágrafo). Esta idéia-núcleo traduz o pen- não só até a evolução em nível animal, samento geral do autor em face da pro- mas também ao mais baixo nível de luta blemática sugerida pelo título, além de animal. Nem mesmo os carnívoros se lançar uma idéia discordante daquela alimentam uns dos outros, como o ho- apresentada na introdução (primeiro pa- mem competitivo devora os rivais. rágrafo). Nenhum futuro evolucionário espe- Nos parágrafos seguintes (segun- ra o homem que segue este caminho. A do e terceiro), o autor confirma e justifi- luta competitiva não deixará sobreviven- ca os princípios expostos em sua tese, tes. Mesmo que se limite a uma guerra utilizando o recurso dos exemplos (qua- econômica, só pode acabar em conten- tro últimas linhas do terceiro parágrafo) da social, em crises de desemprego, em que reforcem a idéia assumida no de- apuros financeiros e num fracasso quan- correr da sua argumentação e apresen- to à utilização dos recursos do mundo tando soluções aos impasses que de- da maneira mais completa e eficiente. nuncia (quatro primeiras linhas do quar- to parágrafo). Ao aproximar-se da con- Fora de uma atitude mútua de cola- clusão do trabalho, o autor prepara o boração social e da produção voltada e seu término com um retorno às idéias da planejada para o consumo, não há solu- introdução (três últimas linhas do quarto ção para tais dificuldades. Enquanto se parágrafo). Na etapa conclusiva, ex- mantiverem as condições atuais, o ho- pressa no parágrafo final, o autor sinte- mem sentir-se-á agressivo, estará pre- tiza a idéia-núcleo desenvolvida no de- parado para assegurar seu próprio bem- correr da dissertação, e o assunto é estar à custa do próximo. encerrado de forma taxativa e enfática. Esta, contudo, não é a natureza do O esquema de idéias desta dis- homem, e sim a natureza do homem em sertação poderia ter seguido o roteiro nível subumano. Se o colocarmos em que passaremos a apresentar: condições de trabalho realmente huma- nas, tendo em vista o bem comum, sua I — Introdução: natureza tornar-se-á mais humana, mais cooperativa, e seu futuro estará asse- a) Segundo a teoria da evolução, o ho- gurado. Se fracassarmos neste propó- mem é naturalmente agressivo e deve sito, seu futuro será a guerra e a des- competir para viver. truição.» b) Desta competição, sairá vencedor o (John Lewis, O homem e a evolução) mais forte e o mais importante.
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    — 20 — II— Desenvolvimento: entre as palavras é feita pela organiza- ção do pensamento no que se refere ao a) Na luta competitiva, o homem retro- conteúdo e pelas partículas de transição cede ao mais baixo nível animal. que unem as idéias, tais como as ex- b) A competição entre os homens aca- pressões «no entanto», «contudo», li- bará por destruir a civilização e as gando parágrafos, e conjunções, ligan- possibilidades de progresso. do as idéias dentro do período. c) A única solução: colaboração social A ênfase consiste no fato de a e produção voltada e planejada para idéia-núcleo estar colocada em lugar de o consumo. destaque, ocupando um parágrafo in- teiro e aparecer reforçada em subidéias III — Conclusão: no final do segundo e quarto parágra- a) O futuro do homem assegurado: condi- fos, e totalmente destacada da conclu- ções realmente humanas de trabalho. são. A ênfase à idéia principal é conse- guida por meio do uso de expressões b) Perdurando a atual situação: o homem fortes e eloqüentes, tais como «nível ani- destruir-se-á. mal», «homem competitivo devora os ri- vais» (segundo parágrafo), «nível subu- Qualidades básicas da mano», «a guerra e a destruição» (últi- mo parágrafo) e muitas outras igualmen- redação te enfáticas. Unidade + Coerência + Ênfase Observando o estilo da dissertação Montagem da anterior, veremos que ela apresenta as três qualidades necessárias a um redação bom texto escrito: unidade, coerência e ênfase. A unidade reside no fato de que o I. O visual ⇒ estética autor se fixou em uma só idéia central no decorrer de sua argumentação; em to- Quando, ao entrar na casa de al- dos os parágrafos as idéias se sucedem guém, você a encontra na mais completa em ordem seqüente e lógica, todas com- confusão, sujeira por todos os lados: os pletando e enriquecendo a idéia-núcleo. pratos de não sei quantos almoços dis- Não houve pormenores desnecessários, putando lugares com as panelas; as cri- nem redundâncias, o que pode atestar o anças com roupas sujas, o rosto lambu- esquema anteriormente traçado. zado, o nariz a escorrer; o cheio de bolor e gordura a envergonharem seu deso- A coerência reside na associação dorante; qual a sensação que tem? e correlação de idéias dentro do período e de um parágrafo a outro. A conexão — De desleixo, de sujeira, certamente!
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    — 21 — Sentirá acaso vontade de ali per- c) Todas as palavras com maiúsculas manecer, ficar para o jantar, pegar ao (letra de forma). colo uma criança? A MISSÃO SOCIAL DO ADVOGADO — Seguramente não! A VIDA NO PLANETA DOS MACACOS E, entretanto, a coisa muda de figura ⇒ Observação: se a casa visitada é asseada, as crian- ças cuidadosas com a roupa e o trato, o Coloca-se o título apenas nas fo- ar agradável a lembrar-lhe a sua própria lhas de redação em que ele não esteja casa, enfim, causa-lhe «boa impressão». previamente grafado, ou nas folhas de Pode até sentir o suco gástrico manifes- redação que não estejam previamente tando-se apesar de ter devorado sucu- numeradas. A linha do título e as duas lenta refeição há bem pouco tempo. (ou três) linhas que se deixam em branco antes do primeiro parágra- Com a redação também é assim! O fo não devem ser contadas. A reda- impacto (bom ou mau) que nos causa é ção começa na linha um, ou seja, no muito importante. primeiro parágrafo. Lembre-se: o BELO é um padrão nato 2) Use ponto final nos títulos, em se tra- e instintivo em nós. E não há beleza onde não houver ordem e limpeza. tando de frase ou citação somente. Os temas de redação normais não Estes são os elementos que com- levam ponto final. põem a estética da redação, concorren- do para um melhor visual e correção: 3) Entre o título e o contexto, deixe uma duas ou três linhas ou espaço equi- 1) Título/Tema valente. a) Todas as iniciais do título, menos das ⇒ Observação: palavras de pouca extensão, como preposições, artigos, conjunções etc., Estes três primeiros itens se refe- com exceção do primeiro, devem ser rem aos vestibulares que solicitam que maiúsculas: o vestibulando dê um título para a sua Redação. A Missão Social do Advogado 4) Os parágrafos devem adentrar à li- A Vida no Planeta dos Macacos nha uns dois centímetros e iniciarem- Ou se, todos, à mesma altura. b) Maiúscula inicial apenas na primeira pa- São fundamentais à redação, pois lavra, seja ela artigo, preposição etc. constituem o visual prático da estrutura A missão social do advogado redacional, apontando as três partes obrigatórias num texto dissertativo: a A vida no planeta dos macacos introdução, o desenvolvimento e a con- Ou clusão.
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    — 22 — O número de parágrafos é variável O borrão não possui um valor de conforme a extensão exigida para a reda- perda específico: não vale menos um, ou ção. Nas redações dissertativas, o míni- menos dois. Ele é negativo na sua es- mo obrigatório é de três parágrafos; sência, no exato momento do seu apa- o máximo depende da quantidade de linhas recimento. pedidas. Sugere-se que os parágrafos 7) Letra é importantíssimo! Não apenas contenham em torno de cinco linhas cada. pelo visual simpático de uma caligra- 5) Separar as diferentes idéias em pará- fia, mas por representar a própria re- grafos distintos, guardando-lhes a de- dação. A legibilidade é o item a que vida conexão. As idéias que se relacio- todos os vestibulares fazem referên- nam mais intimamente, que se unem cia específica: alguns poucos espe- por um mesmo fio de ligação lógica cificam também o tipo de letra. devem ficar no mesmo parágrafo, ain- A realidade é que a ilegibilidade é da que em diversos períodos. item anulatório da redação. E não é Porém, toda vez que se mudar o fio necessário chegar-se a extremos para do raciocínio, sempre que se passe para que se caracterize a ilegibilidade. Letra uma nova idéia que não tenha relação feia, em redação, é pecado. De que tão íntima com a anterior, deve-se iniciar adianta alguém escrever bem, escrever linha nova. Portanto, novo parágrafo. substanciosa, estilística e semanticamen- te com letra que ninguém entenda? Ou Apenas o parágrafo inicial pode ainda com letra que, para ser entendida, ser constituído por um período (ou são necessárias a releitura e a adivinha- dois) somente. Os demais parágrafos ção? Para os que têm letra feia, a saída é (os do desenvolvimento) devem ter vários o treinamento de caligrafia (aliás, este períodos; portanto, vários pontos finais. caderno não é para crianças, como mui- 6) Não rasurar a redação. A redação tos pensam, mas para quem possui letra suja, borrada dará ao avaliador uma feia) ou a letra de forma. primeira impressão negativa, que difi- cilmente será apagada, por melhor que se apresentem o conteúdo e a cor- II. Lado interno ⇒ correção reção. A maioria quase que absoluta dos Ao se compor uma redação, devem vestibulares oferece oportunidade e lu- ser levadas em consideração as quali- gar para se fazer a redação, preliminar- dades básicas que a habitam e a distin- mente, no rascunho. Assim sendo, a ra- guem das redações normais. No vesti- sura na versão definitiva não pode ser bular, o número de redações ascende explicada nem perdoada; ou o aluno não aos milhares, e são estas qualidades que fez rascunho (e isso é imperdoável), ou vão fazer com que algumas poucas se o fez, mas não aprendeu ainda nem a diferenciem da maioria. São, exatamen- fazer o primário trabalho de cópia. te, estas as qualidades da redação:
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    — 23 — } 1) correção Há erros, no entanto, que pesam mais na avaliação de uma redação. Há 2) clareza aqueles que deixam o avaliador de tal 3) concisão Forma + forma indisposto que... Conteúdo Quais são os piores erros? 4) originalidade Vamos lá: 5) elegância a) de concordância: Esse negócio de 6) coesão sujeito no plural e o verbo no singular é dose! Portanto, muito cuidado! Pro- Para redigirmos bem, é necessário que aliemos à criatividade ou análise de cure o sujeito de cada verbo e veja se um assunto a correção e adequação de há correspondência. Sobretudo tenha cuidado quando, na oração que você linguagem. Não basta elaborar uma idéia importante. É preciso saber expressá-la escreveu, ocorre partícula «SE», ver- com acerto e propriedade. O estilo na re- bos impessoais como «HAVER», «FA- ZER» etc. E para errar concordância dação é representado pela clareza, uni- dade, ênfase e coerência que devemos nada melhor do que fazer períodos imprimir aos recursos lingüísticos que tra- longos ou utilizar a ordem inversa. Escreva idéias simples em períodos duzam nossos pensamento. Estes aspec- tos já foram referidos anteriormente em simples, portanto curtos. nosso trabalho. Outros elementos são b) de regência: Se você usar verbo importantes na expressão escrita e dizem de regência problemática (aqueles respeito também ao estilo. São aqueles que você estudou, como assistir, que- que influem decisivamente na elaboração rer etc.), cuide da regência. Se você de uma linguagem escrita correta, ade- não tem certeza da regência de um quada e harmoniosa, alcançada não só verbo, não o use. Substitua-o por si- por meio de recursos (leitura, vocabulá- nônimo. O problema mais freqüente rio, interpretação de textos, conhecimen- de regência em uma redação ou car- to de tipos de composição), mas também ta, ofício etc. diz respeito ao empre- pelo conhecimento de fatos gramaticais go das formas oblíquas «O» e «LHE». que ordenam, disciplinam e sistema- A norma é: tizam nossa língua. — «O» só para objeto direto (com 1. A correção verbo transitivo direto); — «LHE» só para objeto indireto ou É a ausência de erros. Consegue- com valor de possessivo. se com a observância das normas da Gramática. Para que serve a Gramática? CUIDADO: — Exatamente para ensinar-nos a es- crever corretamente! Você tem de pôr Nada de: «ele Ihe viu», «eu o quero em prática aquelas regrinhas todas!... muito bem», «ele assistiu o filme».
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    — 24 — c)de colocação: Se é verdade que este seus erros... bem, estes são de domínio tópico não precisa chegar ao requin- público e de dívida ativa: custam caro! te, também é verdade que não se tole- rarão os exageros dos modernistas 2. A clareza eufóricos. Assim: Consiste na transmissão mais com- — Nunca comece oração com oblí- preensível do pensamento. Quem es- quo átono: Me levaram dali para um lu- creve (como quem fala) deve fazer-se gar escuro e misterioso. Te deram o re- entendido da melhor maneira possível. cado? etc. A concisão concorre muito para a — Lembre-se de que não, nunca, clareza. Para obter-se clareza, além da que, porque, quando, enquanto, se, concisão, cumpre: para que etc. exigem oblíquo antes do a) Para escrever claro é preciso pensar verbo! claro. Antes de começar a escrever, — Jamais coloque o oblíquo depois medite sobre o tema, reúna idéi- de particípio: Vocês tinham levantado- as, coloque-as de modo coerente. Só se mais cedo. comece a escrever depois que você souber o que vai escrever! — Depois de vírgula (ou qualquer Daí a importância de um esquema outra pontuação) não se deve colocar e do rascunho. pronome oblíquo (a não ser que sejam vírgulas de encaixe, como por exemplo: b) Frases curtas: períodos longos fa- Nunca, mesmo nos piores momentos, talmente resultam confusos. lhe pedimos ajuda.) c) Empregar a palavra precisa: só d) de grafia: Erro ortográfico, sobretu- empregue palavras simples, de cujo do em palavras comuns, de uso coti- significado você tem certeza. Não diano, não se admite. Coisas do tipo queira esnobar porque o esnobado de «ãncia, pêcego, talvêz, xegar». E poderá ser você! escrever «exepicional» em vez de d) Evitar a ambigüidade, que é a pos- «excepcional» é sem comentários... sibilidade de mais de um sentido em Se você não sabe escrever uma uma oração. palavra, EVITE-A! Ex.: «José mandou dizer a Pedro Troque-a por sinônimo! E cuidado que só trataria daquele negócio no seu escritório». No escritório de quem? com os acentos gráficos! No dele, José, ou no de Pedro? Isso ⇒ Lembre-se: em caso de dúvida, não é ambigüidade. use a palavra, coloque outra da qual você tenha certeza da grafia. Afinal, na sua Clareza é qualidade; obscuridade, redação, quem manda é você... mas, nos defeito.
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    — 25 — 3. A concisão Ex.: Tu tens toda a razão. Consiste no expressar os aspec- Tens toda razão. tos, fatos ou opiniões com o menor nú- Nós batemos três vezes. mero de frases ou palavras. Dentro não havia ninguém. Ba- Portanto, empregam-se apenas as temos três vezes. Dentro, ninguém. palavras que são indispensáveis à com- preensão da mensagem. Em um texto, o Se não recorremos à elipse, muitas que não é indispensável constitui proli- vezes, poderemos cair na redundân- xidade. cia, que é a repetição inútil e erro imper- doável. Concisão é qualidade; prolixi- dade, defeito. 4. A originalidade Mais uma vez aparece aqui a ne- Consiste em apresentar os as- cessidade do rascunho. Devemos pectos, fatos ou opiniões de modo pes- escrever segundo o fluxo de idéias que soal, sem imitação de processos ou par- nos vêm à mente, sem grandes preocu- ticularidades alheios. Na originalidade, pações com a concisão. Pronto o ras- está a criatividade. Pode revelar-se tan- cunho, devemos submetê-lo a rigoroso to nas idéias como nas expressões. crivo analítico, cortando tudo aquilo que não faça falta nem imprima vigor. Idéias originais são idéias pró- prias?!... Naturalmente, só se considera qua- lidade aquilo que não prejudica as de- Mas quem é original? O que pensa- mais qualidades. O excesso de conci- mos ou o que dizemos que outro antes são redunda em obscuridade e desar- de nós não tenha dito ou pensado? Cer- monia. tamente que a originalidade pertence aos gênios. No texto seguinte, o que vem des- tacado pode sair. Em saindo, o texto fica De um estudante, não se pode exi- conciso e ganha vigor. gir originalidade, exige-se, isto sim, que fuja ao vulgar, ao lugar-comum, ao «Em uma certa noite eu saí de mi- «clichê»: aquilo que todo mundo diz. nha casa para dar um giro para espai- recer. Fui até à casa de um amigo meu. Para isso o fundamental é escre- Vejam vocês que eu não tinha nenhum vermos diferençados do linguajar co- plano traçado, e algo sensacional, que mum. Escrever como se fala é come- ter uma série de erros; daí que a ori- eu não esperava, me aconteceu...» ginalidade no vestibular fica, real- De grande valia para obter-se a mente, por conta da correção. Será concisão é a figura da ELIPSE: omissão original aquele que escrever cor- de palavras facilmente subentendíveis. retamente .
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    — 26 — 5. A elegância a feitura da Redação, ou seja: Unidade, Coerência e Ênfase. Exigir elegância na redação de um vestibulando já é pedir demais. Vamos Esta tomada de posição se concre- deixar isso para os grandes escritores e tiza com o lançamento no papel dos tó- para as meninas... Para os vestibulandos, picos de exposição, das idéias a se- basta o cuidado com o visual da redação. rem desenvolvidas, por meio de expres- A limpeza, os parágrafos, a letra bo- sões rápidas e abreviadamente in- nita, isso é elegância em redação. dicativas, articuladas entre si. O esquema auxilia e encaminha o 6. A coesão trabalho. É um ponto de referência, sem- Um texto coeso é aquele em que as pre sujeito a reduções, interpolações e alterações. partes se relacionam entre si de modo claro e adequado, criando um todo com Assim, do esquema passa-se ao sentido, que pode ser captado pelo leitor. rascunho; deste, para a redação pro- E como se faz um texto coeso? Usando- priamente dita, e esta, passada pelo cri- se corretamente os instrumentos da lín- vo analítico, chega a uma forma definiti- gua (usar artigos e pronomes que con- va, observadas as diversas qualidades cordem com os nomes a que se referem, para a sua elaboração. combinar os tempos verbais de modo lógi- Tendo o aluno o plano ou roteiro de co etc.) e observando se há relações de idéias, poderá dar início a um rascunho, sentido entre as frases, que unidas entre no qual vai expressar, por meio de frases si transmitem de modo claro uma informa- completas e parágrafos bem distribuídos, ção, uma opinião, uma mensagem. o assunto que se propõe desenvolver. Enfrentará, então, problemas de for- Montagem dos ma, porque o conteúdo, as idéias foram selecionadas e ordenadas no esquema. esquemas A disposição ordenada das idéias em Introdução, Desenvolvimento e Con- clusão é o último estágio do esquema. Seleção e organização Obs.: Reveja o texto «A paz e a das idéias na redação guerra» e seus comentários. A seguir, damos como sugestão Uma vez determinado o assunto so- um modelo de ESQUEMA. Pelo uso, deve- bre o qual iremos escrever, é necessário rá ser modificado, adaptado, ampliado, um momento de reflexão em torno dele e da atendendo, desta forma, ao estilo indivi- disposição que daremos às idéias a serem dual de cada um, suas tendências, enfo- utilizadas. Para isso, é necessário traçar de ques pessoais, abrangência: cada um antemão um plano, ou seja, um esquema. deve possuir o seu próprio «modelo de As qualidades essenciais desse pla- ESQUEMA», protótipo que deverá ser no devem ser as mesmas utilizadas para conseguido a partir do treino e da prática.
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    — 27 — Modelode esquema { 1. O quê? Matéria tratada ⇒ assunto ⇒ { INTROD. tema ⇒ ponto de vista ⇒ TESE. 2. Por quê? Razão — objetivo. 3. Para quê? Objetivo — finalidade. 4. Causas. 5. Conseqüências. 6. Circunstâncias: como? de que maneira? DESENV. 7. Analogias = comparações. 8. Prós: argumentos a favor. 9. Contras: argumentos contrários. 10. Análise: situação atual. 11. Síntese. { 12. Observação: perspectivas. CONCL. 13. Soluções. 14. Conclusão. 3. Ao fim dessa pesquisa, terá muitas Dissertação: outras idéias. Poderá anotá-las. como proceder? 4. Deve delimitar bem seu objetivo: qual é a tese ou o ponto de vista que Não há uma receita (ou um método, quer expor ou defender? De que ân- ou uma técnica) que seja recurso infalí- gulo, de que perspectiva quer tratar o vel na produção de textos dissertativos. assunto? Respondendo a essas per- Apresentamos, então, sugestões de ati- guntas, estará definindo o tema de seu vidades que podem ajudar na criação texto. Pode resumir o que pretende: de mensagens dissertativas: O que quero dizer sobre o menor Imagine um vestibulando que tenha abandonado pode ser resumido na frase: de fazer um texto sobre o menor aban- donado. Como ele pode comportar-se? .............................................................. 1. Anota suas idéias sobre o assunto. .............................................................. 2. Se suas idéias são poucas, pode pes- .............................................................. quisar sobre o assunto: buscar dados estatísticos, testemunhos, definições etc. ..............................................................
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    — 28 — Ele tem uma lista de idéias anota- b. Dados históricos da televisão brasi- das: destas idéias pode destacar a(s) leira. mais importante(s), isto é, aquelas que estão estreitamente ligadas ao tema que Desenvolvimento: escolheu. Serão as idéias centrais (ou a. Os programas de televisão e o patro- nucleares, ou básicas). Outras idéias que cínio comercial. ele tenha sobre o assunto: verificará se pode valer-se delas para justificar, ilus- b. A televisão educativa. trar, comprovar, realçar a(s) idéia(s) bási- ca(s). Serão as idéias de apoio (ou se- c. A seleção dos programas e a aceita- cundárias, ou delimitadoras, ou su- ção popular. bordinadas). Fazendo isso, ele está or- d. O nível dos programas e o nível cul- ganizando o conteúdo de seu texto. Ele tural do povo brasileiro. deve lembrar-se de que pode valer-se de muitos recursos, no trabalho de orga- Conclusão: nização de seu texto: analogia, oposição a. A situação atual da televisão brasi- ou contraste, testemunhos, definições, leira. ilustrações, decomposição etc. Ao esco- lher algum(ns) desse(s) recurso(s), cer- 2. Título: «Educação e Modernidade» tamente terá novas idéias. O vestibulando dispõe então de um Introdução: conteúdo. Esse conteúdo busca uma ex- a. Modernização da Educação: adapta- pressão, para tornar-se texto. Ele deve- ção do homem ao mundo contempo- rá estudar agora um plano para seu tra- râneo. balho. Qual será a disposição de suas idéias nesse plano? Desenvolvimento: Um texto dissertativo — o vestibulan- do sabe — pode ter um plano definido em a. Educação X estruturas arcaicas e tra- três grandes linhas: dicionais. • INTRODUÇÃO b. Tecnologia e progresso. • DESENVOLVIMENTO c. A participação do governo nas pro- • CONCLUSÃO moções e reformas educacionais. d. O despertar das nações subdesen- Exemplos de esquemas volvidas para o progresso pela edu- cação. 1. Título: «A Televisão no Brasil» Conclusão: Introdução: a. «A vontade prova-se na ação» (José a. A importância da televisão na forma- Ingenieros) — é preciso a consciên- ção de uma mentalidade nacional. cia da renovação cultural.
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    — 29 — b.É preciso reformar a mentalidade O ADVOGADO avessa às mudanças. Aquelas águas me- 3. Título: «Áreas Verdes» ritíssimas se espraiavam delituosamente pelas Introdução: margens. O inocente la- a. O apelo do mundo moderno à preser- go defendia-se assim, vação das áreas verdes. legitimamente, da flores- ta, que à revelia, desem- b. O porquê do desaparecimento das bargava suas árvores áreas verdes; crescimento popu- pelos arredores sem nenhuma apelação. lacional, grandes núcleos habita- No alto, as montanhas, com suas togas cionais, escritórios, imobiliárias, edi- de neve revestindo o cimo. fícios por toda a parte. O MÉDICO Desenvolvimento: Aquele lago me dei- a. A poluição do ar. xou um diagnóstico. Sua b. Os problemas de saúde. beleza era selvagem como uma crise aguda e c. Tensão e neurose: falta espaço, fal- suas águas viviam per- ta ar, falta beleza. manentemente em estado d. Desaparecimento de praças e par- comatoso. O vento, como ques: crianças em apartamentos. um bisturi, cortava a su- perfície das águas escarlatinadas pelo e. O protesto: campanhas, acampamen- mercúrio que cobria todo o céu no pôr- tos: a «volta ao natural». do-sol. Conclusão: O BUROCRATA a. A humanidade corrigindo seus pró- Prezado Sr., prios erros: a tentativa de preserva- quando olhei para ção e recriação do que está sendo o céu, vi nuvens destruído. que seguiam ane- xas atenciosamen- te por sobre o mon- Descontraia te abaixo-assinala- do, que, ciente de sua participação na paisagem, pedia deferimento res- O estilo de cada um peitosamente para a floresta, que nes- tes termos se estendia por todo o vale, Várias pessoas descrevendo um refletindo-se nas respeitosas e desde lago, segundo suas profissões: já agradecidas águas do lago.
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    — 30 — O «HIPPIE» * Não se preocupe em demonstrar cul- tura e conhecimento excessivos. As Entende. . . era um coisas realmente boas e valiosas são negócio legal. Aquele simples. Os grandes sábios são sim- lago muito na sua, cur- ples. As «grandes notas» vêm de re- tindo um vale cheio de dações simples. ervas, sacou? O ven- to transava pela cuca * Não queira fazer experimentalismos das árvores no bara- lingüísticos. Não tente neologismos lé- tino mais legal, mais xicos ou sintáticos. chuchu beleza da paróquia. Use apenas palavras comuns. Sem cair no lugar-comum. O INTELECTUAL Só recorra a um termo menos co- Não sei se por nhecido se ele se ajustar melhor no tex- um fenômeno de to do que um termo usual. aculturação, ou se por um processo de 2. O palavrão. amadurecimento, Nunca! aquele lago se inse- ria perfeitamente no 3. Criticar a Universidade, as autori- contexto da nature- dades, as instituições é proibido. za circundante e Esse negócio de «meter a lenha» não marginal. Achei muito válida a inserção dá pontos. das árvores, dando uma conotação exis- tencialista ao pluralismo vegetal que ali Faça a crítica «construtiva»: mos- estava. tre os erros e aponte soluções. 4. Ser negativista. Mandamentos de Em tudo há um lado bom. Procure descobri-lo. Aponte alternativas, saídas. uma boa redação Sugira métodos e maneiras de solu- cionar as dificuldades e as chagas so- ciais. A maioria dos temas de vestibula- Ao redigir, é importantíssimo que o res e concursos versam sobre «pro- candidato não cometa nenhum destes blemas sociais». Eles querem saber pecados transcritos a seguir, sob pena o nosso posicionamento, o que pensa- de padecer, sem indulgências, o inferno mos, o que achamos, se conhecemos. de mais um ano de espera! A nossa participação é efetivada, exatamente, por meio de nossas 1. Esnobar. prováveis soluções. É a forma de Mostrar que é «o bom». Complicar. que dispomos para participar do Escrever difícil. contexto social.
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    — 31 — 5.Evite definições. 15. Eco. Elas são perigosas. É a rima na prosa. Só os artistas Dado um tema como «A Liberda- têm direito de recorrer a ela, que pode de», a maioria tende a sair definindo: fornecer belos efeitos. A Liberdade é... Exemplo de eco (defeito): A Liberdade é... Margarida levou toda a vida para atravessar a avenida. A Liberdade é..., monotonamente, maçantemente, insuportavelmente, de O Maneco entrou no boteco e uma pobreza de espírito que revoltaria bebeu uns trecos. até São Francisco. 16. A gíria: É sempre melhor criar uma história, Via de regra não! A menos que se relatar um episódio, dentro da qual e no trate de diálogo, e entre como transcri- decorrer do qual apareça o tema. ção da linguagem de nível coloquial- 6. O ponto final (.). popular. Fora daí, o uso da gíria será interpretado como pobreza vocabular. Não o esqueça. Denota desleixo. É negativo. Depõe contra você e ... é erro! 17. Não abrevie palavras. 7. O pingo no i. Escreva-as todas por extenso, a É preciso pôr os pingos nos is!... menos que se trate de abreviações con- 8. Cortar o t. sagradas como por exemplo o «etc.». 9. A cedilha no ç. 18. Evite repetir palavras. 10. A inicial maiúscula de período. Use sinônimos. Há repetições que 11. As maiúsculas nos títulos. enfatizam. Mas fora o caso intencional da ênfase, repetir revela pobreza 12. As iniciais de nomes próprios, vocabular ou desleixo. maiúsculas. Exemplo de repetição enfática: 13. Erro gráfico até no título, é ter- rível! «Vamos, não chores... 14. Estrangeirismo. A infância está perdida. O emprego de vocábulo que não A mocidade está perdida. pertença ao nosso idioma só pode ser Mas a vida não se perdeu». feito quando não haja, em português, pa- (Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo) lavra de sentido correspondente. Termo técnico, por exemplo. Se usada, a pala- 19. Não escreva demais! vra deve vir entre aspas («») ou grifada. No caso de não limitarem o número Ex.: «Know-how». de linhas, não vá além de vinte e cinco.
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    — 32 — Entendoque o ideal para uma Redação 24. Pensamento novo, período novo. são vinte linhas. É comum, entre os que iniciam, mis- Também não escreva «de menos». turar no mesmo período idéias que não Dado um limite mínimo (20, por exemplo), se completam. Tome por norma: idéia não pare nesta linha. Vá adiante uma ou nova, período novo. Veja, entretanto, que duas linhas, pelo menos. isso nem sempre significa parágrafo novo! 20. Não «encha lingüiça»! 25. Oração subordinada sem prin- À falta de idéias, não fique repetin- cipal — não diz nada! Não pode! do a mesma coisa com palavras dife- rentes! Isso é redundância, é prolixida- Se há subordinada, tem de haver de, é terrível defeito! É preferível pou- principal. Ou você já viu comandado sem cas linhas bem redigidas a muitas mal comandante? Veja se entende alguma escritas. Faça um trabalho honesto! coisa: — Quando Maria chegou porque 21. Não aumente o tamanho da le- tinha visto um homem que ela não co- tra para dar impressão de que nhecia. escreveu bastante. — A menina que estava chorando Isso indispõe o avaliador. Letra es- quando a chamaram. tilo «bicho-de-pé», só se vê a linha (de tão pequena), não pode. O avaliador não — Quando chove, se estamos sem vai colocar lente de aumento especial- agasalho, resfriamo-nos. mente para corrigir sua redação. — O embrulho que chutou na cal- 22. Não se desculpe dizendo que çada. não escreveu mais porque o Deu para entender? Por que não tempo foi pouco. deu? Ninguém vai acreditar!... E agora: Essa conversa de que é a primeira — Quando Maria chegou, porque redação, então... nem se fala. tinha visto um homem que ela não co- 23. Não cometa CACOFONIA, que é a nhecia, desandou a chorar. palavra de sentido obsceno, chulo — A menina, que estava chorando, ou ridículo, formada pela junção de quando a chamaram, foi eleita rainha. sílabas entre as palavras: — Quando chove, se estamos sem Aqui ela se disputa todos os dias... agasalho, resfriamo-nos. A boca dela... — O embrulho que chutou na cal- Fé demais... çada furou-lhe o pé.
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    — 33 — Especialmente, tome cuidado com 3. Uma cena descritiva. Exemplo: os períodos muito longos: resultam O som invade a cidade. Buzinas confusos e são propícios a períodos estridentes atordoam os passantes. incompletos; os verbos nas formas Edifícios altíssimos cobrem os céus cin- nominais — gerúndio, particípio, in- zentos da grande metrópole. Uma fuma- finito — equivalem a subordinadas; por- ça densa e ameaçadora empresta a São tanto, deve haver uma principal. Paulo o aspecto de fotografias antigas sombreadas pela cor do tempo. É a pai- O início da sagem tristonha da poluição. 4. Uma pergunta. Exemplo: redação Será a chamada música popular brasileira verdadeiramente popular e Começar a redação, para alguns verdadeiramente brasileira? alunos, é uma tarefa ingrata e, às ve- 5. Um dado geográfico precisando zes, irrealizável, determinando desta um fato. Exemplo: forma o seu insucesso. Há alunos que sentem verdadeiro pavor como «como Em Criciúma, no sul de Santa Cata- é que eu começo». Depois de tudo o rina, oito mil homens vivem uma aventu- que foi visto, parece-nos que isto deve ra todos os dias. A aventura do carvão. deixar de ser problema: as orientações São os mineiros, homens que quase e os treinamentos são elementos desi- nunca vêem o sol. nibidores suficientes. E, para que não 6. Dados estatísticos. Exemplo: persistam dúvidas (e como incentivo ao trabalho), algumas sugestões para «INÍ- Naquela cidade de... habitantes, CIOS», sobre como «DESENVOLVER» e cerca de ... freqüentam as salas esco- «CONCLUIR» um assunto. lares, o que atesta a preocupação das autoridades com o nível de instrução de I. Você pode iniciar um assunto utili- seus moradores. zando os seguintes recursos: 7. Narrativa de um ato. Exemplo: 1. Dados retrospectivos. Exemplo: Em agosto de 1976, faleceu o ex- As primeiras manifestações de co- presidente Juscelino Kubitschek de Oli- municação humana, nas eras mais pri- veira, em cuja gestão foi construída a mitivas, foram traduzidas por sons que monumental capital brasileira. expressavam sentimentos de dor, ale- gria ou espanto. Mais tarde... 8. O recurso da linguagem figura- da. Exemplo: 2. Uma citação. Exemplo: O jornaleiro, filho das madrugadas O assunto do (sobre) ... pode ser frias do Sul, quebra o gelo das manhãs analisado (ou discutido) a partir das pala- gaúchas com sua voz cortante e quei- vras lúcidas de ... quando afirma que «...» xosa como o minuano nos pampas.
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    — 34 — 9.Uma frase declarativa. Exemplo: Em se tratando de um assunto po- lêmico, o aluno deve examinar os prós O artista contemporâneo, diante de e os contras que o envolvem, concluin- um mundo fundamentalmente complexo do com uma idéia que expresse sua e agitado, tem por missão traduzir o mais posição em torno da problemática ana- fielmente possível essa realidade. lisada. 10. Com idéias contrastantes. Exem- III. A conclusão de uma redação deve plo: ser, em primeiro lugar, enfática. Um Enquanto os grandes salões de alta bom início e uma conclusão bem feita costura das grandes capitais exibem emprestam brilho e interesse ao tra- coleções de vestimentas suntuosas, os balho. A conclusão pode conter uma marginais da sociedade morrem de frio idéia pitoresca, humorística, surpre- por falta de agasalho. endente, taxativa, sugestiva. O assun- to nunca pode ser abandonado em ⇒ O importante é que na INTRODUÇÃO meio à plena discussão dos aspectos de uma redação dissertativa apare- que a ele se ligam. Um meio adequado ça o tema, o ponto de vista, a tese, de bem concluir é aquele em que sin- alguma referência, enfim, ao assunto tetizamos o assunto nos termos em da redação; daí que nada obsta que, que foi proposto ou questionado na na introdução, apareçam as palavras etapa introdutória. que compõem o tema/título. Portanto, a maneira mais simples Para treinamento, use o modelo de (de se vencer o tormento) de iniciar uma esquema sugerido há pouco. redação, e de que todos dispõem, é fa- lando sobre ela mesma, sobre o tema dado, o assunto pedido, o título sugerido. Pontos a ponderar Não há que se inventar nada. Ele já está lá, à nossa disposição. Desta forma, não Há certas partes de um navio que, há por temê-lo, mas apreciá-lo pelas van- tomadas isoladamente, afundariam. A tagens que pode nos oferecer. máquina afundaria; a hélice também. Mas, quando as partes de um navio são II. Para desenvolver o assunto de uma colocadas em conjunto, flutuam. redação, podemos utilizar os seguin- tes recursos: Assim acontece com as nossas ex- periências em redação. Algumas têm sido a) citações trágicas; outras, felizes. Mas todas b) dados estatísticos reunidas compõem uma embarcação c) justificativas que está rumando para um destino de- finido, certo, e isso nos faz sentir re- d) exemplos confortados, otimistas, confiantes para e) comparações prosseguir e persistir.