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ESPECIAL
Instalações e Equipamentos
76 DBO maio 2017
Medidas simples prolongam
a vida útil do curral
Renato Villela
A
construção do curral exige investimento alto. Por
isso é preciso conservá-lo. Algumas medidas simples
e baratas, como calçar o arame das remangas, fazer
drenos em pontos estratégicos para evitar a formação de lama
e impermeabilizar – do jeito certo – palanques de madeira aju-
dam a prolongar a vida útil da instalação. A reportagem de
DBO ouviu especialistas no assunto que deram dicas preciosas
para ajudá-lo na conservação do seu curral. Confira!
Calçar o arame dá sustentação às remangas
O arame das remangas, aqueles piquetes projetados no en-
torno do curral que têm como função alojar os animais enquanto
esperam pelo início do manejo ou retorno ao seu pasto de ori-
gem,tendeaseafrouxarcomopassardotempo.Nãoapenasem
razão do uso, mas também pela exposição direta às intempéries,
como as altas temperaturas, que dilatam o material. Para evi-
tar que isso aconteça basta colocar cunhas – pequenos pedaços
de madeira – nos vãos das lascas (mourões) por onde correm o
primeiro e o último fios de arame da cerca. A cunha deverá ser
colocada em ambos os lados. Deste modo, se o animal força a
cerca de um lado, o calço do lado oposto evitará o afrouxamen-
to. “A estrutura se mantém travada, o que dá sustentação para
a cerca como um todo”, afirma Renato dos Santos, consultor
técnico da Beckhauser, de Paranavaí, PR. Com as cunhas, a for-
ça exercida pelos animais atua sobre a cerca inteira e é dividida
entre as lascas e os palanques (esticadores). O mesmo pode ser
feito nas cordoalhas que substituem as tábuas de madeira das
mangas (ou mangueiros) nesses modelos de curral.
Drenos evitam a formação de lama
Ao escolher o local para a construção do curral, deve-se
priorizar terrenos com boa drenagem e declividade que permita
o escoamento da água da chuva. Quando o curral já está pronto,
no entanto, e começam a surgir problemas de encharcamento,
a saída é construir drenos em pontos estratégicos. O principal
deles deve ser feito do centro para fora do curral. Com o auxílio
de uma retro-escavadeira, abre-se uma valeta de 1 m a 1,5 m de
fundura por toda a extensão onde se deseja construir o dreno.
A profundidade depende do tipo de solo. “Nos solos mais ar-
gilosos, pode-se aprofundar até 2 m”, aconselha Dirceu Alves
Torralvo, administrador da FazendaArca de Noé, em Guairaçá,
PR. Depois de aberta, a valeta é preenchida com pedras grandes
até 30 cm da superfície, quando é colocada uma malha de dre-
nagem, conhecida como manta Bidim. “Na falta dela podem ser
utilizadas pedras pequenas, que desempenham a mesma função
de filtro, permitindo a passagem da água e retendo as partículas
Deve-se dar atenção à drenagem, piso e partes em madeira
Abertura de valeta de drenagem, que deve ser preenchida com pedras e depois coberta com manta plástica
maio 2017 DBO	 77
sólidas”, explica Torralvo. Para finalizar, o espaço é preenchido
com terra até a superfície.
De acordo com o consultor Renato dos Santos, nem sempre
é possível, pela configuração do curral, fazer com que o dreno
principal passe no vão das porteiras, onde a formação de lama
é maior. Nesse caso, o recurso é cavar um buraco no local, de
mesma profundidade e realizando igual procedimento de drena-
gem. Outras valetas devem ser construídas no curral, formando
umaespéciedemalhaouespinhadepeixe–nãonecessariamen-
te convergindo para o dreno principal – com uma distância de
1,5 m um do outro. Currais bem drenados, além de prevenir pro-
blemas sanitários (a lama é uma das principais responsáveis por
afecções podais nos bovinos), têm maior durabilidade. Evitam-
-se gastos com reformas periódicas, porque os palanques não
sofrem a ação da umidade por longo tempo.
Terra sim, pedra não!
Mesmo que o curral tenha um bom sistema de drenagem,
o manejo dos animais, em especial nas épocas de trabalho mais
intenso, como nas campanhas de vacinação contra a febre af-
tosa, por exemplo, requer cuidados rotineiros. O vai e vem dos
animais inevitavelmente desloca a terra, em especial na entrada
e saída das porteiras, onde as reses passam mais apressadamen-
te. “Na minha opinião, a principal manutenção de um curral é a
reposição de terra para tapar os buracos imediatamente após o
trabalho”, afirma Santos. Essas áreas côncavas, além de favore-
cerem o acúmulo de água e a consequente formação de lama,
deixam os palanques mais expostos, o que provoca um desgaste
prematuro.
Na tentativa de solucionar a questão, muitos produtores re-
correm a pedras, o que, além de não resolver o problema, cria
outro. “As pedras se soltam com facilidade. O boi pisa em falso,
se machuca, quebra a ponta do casco”, diz. Do mesmo modo,
restos de construção e cascalho, muito utilizados para esse fim,
devem ser evitados. “Quando me perguntam sobre isso, respon-
do da seguinte maneira: tire a bota e apoie o pé sobre o cascalho
que você quer jogar no piso do seu curral. Se você aguentar, o
boi também aguenta”.
Piso de concreto sem degrau
É muito comum o produtor concretar o piso da seringa
(repartição do curral que dá acesso ao tronco coletivo) ou do
corredor que dá acesso a ela. O problema é que o concreto
costuma terminar abruptamente, formando um degrau com o
chão batido. Na medida em que os animais percorrem o traje-
to, a terra na “divisa” entre os pisos é removida pela ação dos
cascos. “Casco de boi é uma britadeira”, brinca Santos. Em
pouco tempo a porção que está embaixo da laje “desbarran-
ca”, assim como acontece na borda das calçadas de cochos.
“Sem apoio do chão firme, a ponta do concreto se quebra fa-
cilmente”, diz. Para evitar que isso aconteça, deve-se cons-
truir, na extremidade da laje, uma rampa de concreto com in-
clinação de cerca de 45º. Esse “prolongamento” do piso deve
se estender por 40 cm a 50 cm de profundidade, sendo total-
mente recoberto por terra. “Dessa forma, não forma buraco e
nem quebra a laje”, afirma.
Madeira protegida da “cabeça aos pés”
Passar “óleo queimado” (lubrificante usado de veículos)
para proteger palanques e tábuas é uma prática bastante difundi-
da nas fazendas, mas será que esse método é eficiente? Segundo
o consultor, esse produto pode ser usado com essa finalidade,
desde que de modo adequado. “Não adianta somente pintar o
palanque com uma brocha, porque não resolve”. Para melhorar
o efeito impermeabilizante do óleo, explica Santos, é preciso
mergulhar a peça em um recipiente – um tambor, por exemplo
- cerca de 10 cm a mais do que a altura que se deseja enterrar
no chão e deixá-lo descansando de um dia para o outro. “É para
que o óleo penetre uns 3 mm a 4 mm na madeira”, afirma. Nas
tábuas, pode-se aplicar impermeabilizante asfáltico, que é bem
mais caro, mas é mais eficiente que o óleo queimado. A “cabe-
ça” dos palanques pode ser protegida com um recorte de lata,
por exemplo, mas (detalhe importante) deve-se fixa-lo na lateral
do palanque, nunca em cima dele, para que a água não penetre
pelo furo do prego.
Acima de tudo, bem-estar animal.
“Para mim, o ponto mais importante para conservar o curral
é o manejo racional adotado na propriedade”. A frase dita por
Dirceu Torralvo, da FazendaArca de Noé, encontra respaldo no
pensamento de Matheus Paranhos, coordenador do Etco – Gru-
po de Estudos e Pesquisas em Ecologia e Etologia Animal. Se-
gundo Paranhos, a durabilidade dos diferentes componentes de
um curral está diretamente relacionada ao estresse. “Num curral
lotado, o piso estraga mais rápido, a chance de as porteiras que-
brarem é maior, as cordoalhas afrouxam com mais facilidade”,
afirma. O especialista pontua dois aspectos importantes a serem
observados.
Primeiro: evitar a sobrecarga (em situações em que todos
animais se agrupam em um dos lados da remanga, pelo menos
metade da área deve ficar livre, como preconiza Temple Gran-
din, uma das maiores especialistas mundiais sobre o tema). Se-
gundo: fazer vistorias periódicas na instalação. “Dessa forma,
as reformas necessárias são feitas de modo mais rápido, com
menos mão-de-obra e baixo investimento”. Outra medida im-
portante é limpar os equipamentos, como tronco de contenção
individual e balança, após o dia de serviço. Deixar os equipa-
mentos sujos tem um custo muito alto, porque depois que o bar-
ro e as fezes secam, o operador precisa forçá-lo para funcionar
corretamente, e muitas vezes acaba por quebrá-los. n
Sobrecarga
acelera
desgaste das
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  • 1. ESPECIAL Instalações e Equipamentos 76 DBO maio 2017 Medidas simples prolongam a vida útil do curral Renato Villela A construção do curral exige investimento alto. Por isso é preciso conservá-lo. Algumas medidas simples e baratas, como calçar o arame das remangas, fazer drenos em pontos estratégicos para evitar a formação de lama e impermeabilizar – do jeito certo – palanques de madeira aju- dam a prolongar a vida útil da instalação. A reportagem de DBO ouviu especialistas no assunto que deram dicas preciosas para ajudá-lo na conservação do seu curral. Confira! Calçar o arame dá sustentação às remangas O arame das remangas, aqueles piquetes projetados no en- torno do curral que têm como função alojar os animais enquanto esperam pelo início do manejo ou retorno ao seu pasto de ori- gem,tendeaseafrouxarcomopassardotempo.Nãoapenasem razão do uso, mas também pela exposição direta às intempéries, como as altas temperaturas, que dilatam o material. Para evi- tar que isso aconteça basta colocar cunhas – pequenos pedaços de madeira – nos vãos das lascas (mourões) por onde correm o primeiro e o último fios de arame da cerca. A cunha deverá ser colocada em ambos os lados. Deste modo, se o animal força a cerca de um lado, o calço do lado oposto evitará o afrouxamen- to. “A estrutura se mantém travada, o que dá sustentação para a cerca como um todo”, afirma Renato dos Santos, consultor técnico da Beckhauser, de Paranavaí, PR. Com as cunhas, a for- ça exercida pelos animais atua sobre a cerca inteira e é dividida entre as lascas e os palanques (esticadores). O mesmo pode ser feito nas cordoalhas que substituem as tábuas de madeira das mangas (ou mangueiros) nesses modelos de curral. Drenos evitam a formação de lama Ao escolher o local para a construção do curral, deve-se priorizar terrenos com boa drenagem e declividade que permita o escoamento da água da chuva. Quando o curral já está pronto, no entanto, e começam a surgir problemas de encharcamento, a saída é construir drenos em pontos estratégicos. O principal deles deve ser feito do centro para fora do curral. Com o auxílio de uma retro-escavadeira, abre-se uma valeta de 1 m a 1,5 m de fundura por toda a extensão onde se deseja construir o dreno. A profundidade depende do tipo de solo. “Nos solos mais ar- gilosos, pode-se aprofundar até 2 m”, aconselha Dirceu Alves Torralvo, administrador da FazendaArca de Noé, em Guairaçá, PR. Depois de aberta, a valeta é preenchida com pedras grandes até 30 cm da superfície, quando é colocada uma malha de dre- nagem, conhecida como manta Bidim. “Na falta dela podem ser utilizadas pedras pequenas, que desempenham a mesma função de filtro, permitindo a passagem da água e retendo as partículas Deve-se dar atenção à drenagem, piso e partes em madeira Abertura de valeta de drenagem, que deve ser preenchida com pedras e depois coberta com manta plástica
  • 2. maio 2017 DBO 77 sólidas”, explica Torralvo. Para finalizar, o espaço é preenchido com terra até a superfície. De acordo com o consultor Renato dos Santos, nem sempre é possível, pela configuração do curral, fazer com que o dreno principal passe no vão das porteiras, onde a formação de lama é maior. Nesse caso, o recurso é cavar um buraco no local, de mesma profundidade e realizando igual procedimento de drena- gem. Outras valetas devem ser construídas no curral, formando umaespéciedemalhaouespinhadepeixe–nãonecessariamen- te convergindo para o dreno principal – com uma distância de 1,5 m um do outro. Currais bem drenados, além de prevenir pro- blemas sanitários (a lama é uma das principais responsáveis por afecções podais nos bovinos), têm maior durabilidade. Evitam- -se gastos com reformas periódicas, porque os palanques não sofrem a ação da umidade por longo tempo. Terra sim, pedra não! Mesmo que o curral tenha um bom sistema de drenagem, o manejo dos animais, em especial nas épocas de trabalho mais intenso, como nas campanhas de vacinação contra a febre af- tosa, por exemplo, requer cuidados rotineiros. O vai e vem dos animais inevitavelmente desloca a terra, em especial na entrada e saída das porteiras, onde as reses passam mais apressadamen- te. “Na minha opinião, a principal manutenção de um curral é a reposição de terra para tapar os buracos imediatamente após o trabalho”, afirma Santos. Essas áreas côncavas, além de favore- cerem o acúmulo de água e a consequente formação de lama, deixam os palanques mais expostos, o que provoca um desgaste prematuro. Na tentativa de solucionar a questão, muitos produtores re- correm a pedras, o que, além de não resolver o problema, cria outro. “As pedras se soltam com facilidade. O boi pisa em falso, se machuca, quebra a ponta do casco”, diz. Do mesmo modo, restos de construção e cascalho, muito utilizados para esse fim, devem ser evitados. “Quando me perguntam sobre isso, respon- do da seguinte maneira: tire a bota e apoie o pé sobre o cascalho que você quer jogar no piso do seu curral. Se você aguentar, o boi também aguenta”. Piso de concreto sem degrau É muito comum o produtor concretar o piso da seringa (repartição do curral que dá acesso ao tronco coletivo) ou do corredor que dá acesso a ela. O problema é que o concreto costuma terminar abruptamente, formando um degrau com o chão batido. Na medida em que os animais percorrem o traje- to, a terra na “divisa” entre os pisos é removida pela ação dos cascos. “Casco de boi é uma britadeira”, brinca Santos. Em pouco tempo a porção que está embaixo da laje “desbarran- ca”, assim como acontece na borda das calçadas de cochos. “Sem apoio do chão firme, a ponta do concreto se quebra fa- cilmente”, diz. Para evitar que isso aconteça, deve-se cons- truir, na extremidade da laje, uma rampa de concreto com in- clinação de cerca de 45º. Esse “prolongamento” do piso deve se estender por 40 cm a 50 cm de profundidade, sendo total- mente recoberto por terra. “Dessa forma, não forma buraco e nem quebra a laje”, afirma. Madeira protegida da “cabeça aos pés” Passar “óleo queimado” (lubrificante usado de veículos) para proteger palanques e tábuas é uma prática bastante difundi- da nas fazendas, mas será que esse método é eficiente? Segundo o consultor, esse produto pode ser usado com essa finalidade, desde que de modo adequado. “Não adianta somente pintar o palanque com uma brocha, porque não resolve”. Para melhorar o efeito impermeabilizante do óleo, explica Santos, é preciso mergulhar a peça em um recipiente – um tambor, por exemplo - cerca de 10 cm a mais do que a altura que se deseja enterrar no chão e deixá-lo descansando de um dia para o outro. “É para que o óleo penetre uns 3 mm a 4 mm na madeira”, afirma. Nas tábuas, pode-se aplicar impermeabilizante asfáltico, que é bem mais caro, mas é mais eficiente que o óleo queimado. A “cabe- ça” dos palanques pode ser protegida com um recorte de lata, por exemplo, mas (detalhe importante) deve-se fixa-lo na lateral do palanque, nunca em cima dele, para que a água não penetre pelo furo do prego. Acima de tudo, bem-estar animal. “Para mim, o ponto mais importante para conservar o curral é o manejo racional adotado na propriedade”. A frase dita por Dirceu Torralvo, da FazendaArca de Noé, encontra respaldo no pensamento de Matheus Paranhos, coordenador do Etco – Gru- po de Estudos e Pesquisas em Ecologia e Etologia Animal. Se- gundo Paranhos, a durabilidade dos diferentes componentes de um curral está diretamente relacionada ao estresse. “Num curral lotado, o piso estraga mais rápido, a chance de as porteiras que- brarem é maior, as cordoalhas afrouxam com mais facilidade”, afirma. O especialista pontua dois aspectos importantes a serem observados. Primeiro: evitar a sobrecarga (em situações em que todos animais se agrupam em um dos lados da remanga, pelo menos metade da área deve ficar livre, como preconiza Temple Gran- din, uma das maiores especialistas mundiais sobre o tema). Se- gundo: fazer vistorias periódicas na instalação. “Dessa forma, as reformas necessárias são feitas de modo mais rápido, com menos mão-de-obra e baixo investimento”. Outra medida im- portante é limpar os equipamentos, como tronco de contenção individual e balança, após o dia de serviço. Deixar os equipa- mentos sujos tem um custo muito alto, porque depois que o bar- ro e as fezes secam, o operador precisa forçá-lo para funcionar corretamente, e muitas vezes acaba por quebrá-los. n Sobrecarga acelera desgaste das instalações e prejudica animais