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2009
Almir Nabozny
Marcio José Ornat
EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Licenciatura em
GeografiaGeografiaCLIMATOLOGIA 2
Pró-Reitoria de Assuntos Administrativos
Ariangelo Hauer Dias - Pró-Reitor
Pró-Reitoria de Graduação
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Divisão de Educação a Distância e de Programas Especiais
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Cleide Aparecida Faria Rodrigues - Coordenadora Pedagógica
Sistema Universidade Aberta do Brasil
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Colaborador Financeiro
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Colaboradores Operacionais
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Kelly Regina Camargo
Mariná Holzmann Ribas
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA
Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância - NUTEAD
Av. Gal. Carlos Cavalcanti, 4748 - CEP 84030-900 - Ponta Grossa - PR
Tel.: (42) 3220-3163
www.nutead.uepg.br
2009
Todos os direitos reservados ao Ministério da Educação
Sistema Universidade Aberta do Brasil
N117c Nabozny, Almir
Climatologia 2 / Almir Nabozny e Marcio José Ornat. Ponta
Grossa : UEPG/NUTEAD, 2009.
99p.il.
Licenciatura em Geografia – Educação a distância.
1. Clima e o ser humano. 2. Clima - evolução.
3. Classificações climáticas. I. ornat, Marcio José. II. T.
CDD : 551.4
Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Processos Técnicos BICEN/UEPG.
APRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL
Olá, estudante
Seja bem vindo!
Certamente, neste período do curso você já se sente mais preparado para enfrentar
os desafios desta modalidade educacional (EaD). Com certeza, também já percebeu
que estudar a distância significa muita leitura, organização, disciplina e dedicação aos
estudos.
A educação a distância é uma das modalidades educacionais que mais cresce hoje
no Brasil e no mundo. Ela representa uma alternativa ideal para alunos–trabalhadores,
que necessitam de horários diferenciados de estudo e pesquisa, para cumprir a contento
tanto seus compromissos profissionais como suas obrigações acadêmicas. Também é
uma alternativa ideal para as populações dos municípios distantes dos grandes centros
universitários, contribuindo significativamente para a socialização e democratização do
saber.
As novas tecnologias da informação e da comunicação estão cada vez mais
presentes em nossas vidas, desafiando os educadores a inserir-se nesse “mundo sem
fronteiras” que é a realidade virtual.
Sensível a esse novo cenário, a UEPG vem desenvolvendo, desde o ano de 2000,
cursos e programas na modalidade de educação a distância, e para tal fim, investindo na
capacitação de seus professores e funcionários.
Dentre outras iniciativas, a UEPG participou do Edital de Seleção UAB nº 01/2006-
SEED/MEC/2006/2007 e foi contemplada para desenvolver seis cursos de graduação e
quatro cursos de pós-graduação na modalidade a distância pelo Sistema Universidade
Aberta do Brasil.
Isso se tornou possível graças à parceria estabelecida entre o MEC, a CAPES, o
FNDE e as universidades brasileiras, bem como porque a UEPG, ao longo de sua trajetória,
vem acumulando uma rica tradição de ensino, pesquisa e extensão e se destacando
também na educação a distância.
Os cursos ofertados no Sistema UAB, apresentam a mesma carga horária e o mesmo
currículo dos nossos cursos presenciais, mas se utilizam de metodologias, materiais e
mídias próprios da educação a distância que, além de facilitarem o aprendizado, permitirão
constante interação entre alunos, tutores, professores e coordenação.
Esperamos que você aproveite todos os recursos que oferecemos para facilitar
o seu processo de aprendizagem e que tenha muito sucesso nesse período que ora se
inicia.
Mas, lembre-se: você não está sozinho nessa jornada, pois fará parte de uma
ampla rede colaborativa e poderá interagir conosco sempre que desejar, acessando
nossa Plataforma Virtual de Aprendizagem (MOODLE) ou utilizando as demais mídias
disponíveis para nossos alunos e professores.
Nossa equipe terá o maior prazer em atendê-lo, pois a sua aprendizagem é o nosso
principal objetivo.
	
EQUIPE DA UAB/ UEPG
SUMÁRIO
PALAVRAS DOS PROFESSORES ■■ 7
OBJETIVOS e ementa■■  9
Oclima e o ser humano 11
SEÇÃO 1 -■■ Relações entre climas e seres humanos 12
SEÇÃO 2 -■■ Clima e conhecimento popular 17
SEÇÃO 3 -■■ Clima, atividades humanas e alteração climática 20
SEÇÃO 4 -■■ Sociedade e clima urbano 25
A evolução do clima 35
SEÇÃO 1 -■■ Mudanças climáticas e tempo 36
SEÇÃO 2 -■■ Possíveis causas das mudanças climáticas 41
SEÇÃO 3 -■■ História do planeta e do clima 46
Classificações climáticas e seus critérios 53
Seção 1 -■■ Temperatura, precipitação e vegetação como elementos de
classificação dos climas 55
Seção 2 -■■ Classificação de Köppen – Geiger (sistema empírico -
quantitativo) 58
Seção 3 -■■ Classificação de Arthur Strahler (sistema explicativo - descritivo)
 66
Oclima: planeta Terra, Brasil e o Paraná 73
Seção 1 -■■ Regimes Climáticos Globais 74
SEÇÃO 2 -■■ Regimes Climáticos: Brasil e Paraná 80
PALAVRAS FINAIS 9■■ 3
REFERÊNCIAS  9■■ 5
NOTAS SOBRE OS AUTORES 9■■ 9
PALAVRAS DOS PROFESSORES
Prezado estudante!
Damos as boas-vindas a você em mais esta caminhada. Na disciplina de
Climatologia I, você trabalhou com um conjunto de conhecimentos fundamentais
ao ensino da Geografia, tais como a compreensão do planeta Terra, enquanto um
sistema, constituído por subsistemas, em que a atmosfera é um deles.
Dentro do sistema de entradas e saídas de energia (input e output), o Sol foi
tratado como um elemento fundamental na manutenção da vida na Terra, nossa
fonte primária de energia. Além destas questões, foram abordados os elementos
meteorológicos, os fatores climáticos e os elementos do clima.
Neste livro de Climatologia II, enfocaremos as relações entre clima e seres
humanos, passando pelo conhecimento popular relacionado ao clima e pela
discussão sobre as possíveis alterações climáticas, culminando nas reflexões
sobre clima urbano.
Analisaremos a evolução do clima, das classificações e dos tipos climáticos
existentes no planeta, no Brasil e no Paraná. Assim, convidamos você para esta
nova trajetória.
Bons estudos!
OBJETIVOS e ementa
Objetivo Geral
Criar um esteio que auxilie você, educando, na apreensão da importância
da disciplina de Climatologia II para o ensino e estudo da Geografia. Com
a apropriação do conteúdo deste material, espera-se que você adquira
competênciatantonacompreensãodosfenômenosenvolvendooclima,quanto
na aplicação destes conhecimentos no ensino e na pesquisa geográfica.
Objetivos específicos
Apreender os conhecimentos climatológicos.■■
Reconhecer a importância dos conhecimentos climatológicos no ensino da■■
Geografia.
Aplicar os conhecimentos climatológicos no ensino e pesquisa geográfica.■■
Ementa
A Evolução do clima. Critérios para as classificações climáticas. As
classificações climáticas de W. Köppen, de Arthur Strahler e de Lysia Bernardes.
O clima no Paraná, no Brasil e no Mundo. Climatologia urbana. O clima e o
homem.
Climatologia2
11
unidade 1
O clima e o ser
humano
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Relacionar clima e seres humanos.■■
ROTEIRO DE ESTUDOS
SEÇÃO 1 – Relações entre climas e seres humanos■■
SEÇÃO 2 – Clima e conhecimento popular■■
SEÇÃO 3 – Clima, atividades humanas e alteração climática■■
SEÇÃO 4 – Sociedade e clima urbano■■
UNIDADEI
Almir Nabozny
Marcio Jose Ornat
UniversidadeAbertadoBrasil
12
unidade 1
Para início de conversa
O cerne desta unidade é o tratamento das possíveis relações
entre aspectos climáticos e humanos. Na história da humanidade, o
conhecimento científico tem contribuído para a melhoria das condições
de vida. Um desses aspectos é a minimização das ações intempéricas
embora o próprio desenvolvimento científico/humano regido pela lógica
da dominação da natureza, tenha intensificado os resultados de algumas
ações “naturais”. Citemos, como exemplo, o que causará uma forte chuva
convectiva em um grande sítio urbano tal qual o da capital do estado de
São Paulo (enchentes, alagamentos, etc.).
Além desses pontos, tem-se fomentando na comunidade científica
um “espírito de clarividência”, como nas palavras do geógrafo Milton
Santos1
, uma virtude que se adquire pela intuição, mas sobretudo através
dos estudos. Busca-se a partir do conhecido no presente, ou do passado,
projetar um futuro.
Esta é uma das possibilidades e uma das potencialidades da
Climatologia, como subsídio aos estudos geográficos: compreender e
projetar para o futuro as consequências climáticas das relações entre
seres humanos e a superfície da Terra.
SEÇÃO 1
Relações entre climas e seres humanos
O clima é um dos principais agentes em vários processos existentes
no planeta Terra. Tem interferência nos processos geomorfológicos, na
formação dos solos, no crescimento e desenvolvimento das plantas.
Fugindo de uma relação causalística e determinista, o avanço do
conhecimento tem demonstrado que o clima proporciona potencialidades
aos grupos sociais. Essas potencialidades referem-se às atividades
realizadas que buscam a reprodução desses grupos, como indústria,
agricultura, comércio e serviços. (AYOADE, 1986).
1
Fonte: Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá. Dire-
ção: Sílvio Tendler, Caliban Produções Cinematográficas Ltda, 2007.
Climatologia2
13
unidade 1
O clima pode ser considerado tanto sob perspectivas positivas como
negativas. Entretanto, via de regra, os grupos sociais o têm considerado
apenas a partir de seus aspectos negativos, pois a relação entre clima e
seres humanos vai se fazer visível apenas quando aquele interfere na
reprodução das atividades destes. Como afirmado por Ayoade (1986),
os seres humanos são vulneráveis a variações climáticas, podendo suas
atividades se ajustarem ou se desajustarem na relação aos eventos
climáticos. Um exemplo seria o ocorrido entre os meses de outubro e
novembro de 2008, no vale do Itajaí, em Santa Catarina, onde dos 61
dias do bimestre, 49 foram chuvosos, fenômeno denominado pelos
climatólogos como “evento anormal”, que culminou com a morte de mais
de 120 pessoas2
. Outro exemplo é o do furacão Katrina3
, que no dia 29
de agosto de 2005, atingiu o sul dos Estados Unidos. A cidade de New
Orleans foi a mais prejudicada. Em todo o evento, mais de mil pessoas
morreram e os prejuízos foram de dezenas de bilhões de dólares.
A vulnerabilidade a estes tipos de eventos é a suscetibilidade
de determinados grupos sociais em relação a fenômenos naturais de
grande magnitude, como precipitações intensas, ciclones, furacões,
movimentações de massa, alagamentos e enchentes, etc. De forma
contrária, Ayoade (1986) denomina de resiliência a capacidade de
resistênciadedeterminadosgrupossociaisemseprotegerdeadversidades
climáticas. O autor aponta cinco possibilidades de vulnerabilidade dos
grupos sociais (1986, p. 288):
I.	 quanto mais sua atividade econômica depender dos fatores de
produção sensíveis ao clima;
II. quanto maior for a variabilidade e a não dependência de certas
variáveis climáticas essenciais, como precipitação e temperatura;
III.quanto mais baixo for seu nível de reserva de alimentos e outros
materiais;
IV. quanto menos desenvolvida for a capacidade do seu sistema de
transportes em deslocar suprimentos de áreas de excedentes para
áreas de déficits;
V. quanto menos preparada estiver a sociedade para lidar com
impactos climáticos diversos.
2
.Fonte: www.yousol.com. Acesso em: 18 fev. 2009.
3
Fonte: www.metsul.com. Acesso em: 19 fev. 2009.
UniversidadeAbertadoBrasil
14
unidade 1
Da mesma forma, Ayoade (1986, p. 288-9) enumera três elementos
que possibilitariam a resistência dos grupos sociais:
I. existência de acúmulo de reservas de alimentos e outros
materiais;
II. capacidade embutida nos projetos de infraestrutura, como
suprimento de água e força;
III. controle de recursos financeiros, materiais, tecnologia e
transportes, com o objetivo de mitigar o evento climático.
Podemos classificar as relações de interferência entre clima e
seres humanos em dois grupos de ação. O primeiro demonstrado na
interferência das atividades humanas em relação ao clima e nas discutidas
alterações climáticas; o segundo é a interferência do clima nas atividades
humanas.
Conforme visto, em eventos catastróficos, as interferências são
inúmeras, interrompendo completamente a atividade de milhares de
pessoas, e gerando a evacuação de grandes áreas, como em New Orleans
(EUA) e no vale do Itajaí (SC-Brasil). Mas em eventos de normalidade
climática, será que o clima teria força determinante de interferência nos
processos sociais ou no comportamento humano?
Buscamos nos distanciar de uma espécie de determinismo
geográfico, o qual apregoa a interferência da temperatura, umidade e
vento no “vigor físico e mental” das pessoas, tratando os seres humanos
como meros elementos passivos das alterações climáticas.
Para este tipo de afirmação, as variações climáticas e a ocasião de
ocorrênciadeextremosdeumidade,temperaturaequantidadedeoxigênio
na atmosfera, por exemplo, teriam poder de interferir na capacidade e
disposição para o trabalho mental. Há uma visão etnocêntrica que vê o
clima como uma força a:
influenciar as emoções e o comportamento do
homem. Por exemplo, os crimes, as rebeliões,
as loucuras e outras explosões emocionais,
individuais ou grupais, parecem alcançar seu
máximo durante uma temporada muito quente ou
desagradável ao homem. (CRITCHFIELD, 1974
apud AYOADE, 1986, p. 290).
Climatologia2
15
unidade 1
Essa perspectiva teve grande influência de um dos paradigmas que
caracterizaram a geografia no final do séc. XIX. Como visto por Corrêa
(2007), os intelectuais que a defendiam afirmavam que características
ambientais, notadamente as climáticas, determinavam o comportamento
do homem, influenciando substancialmente em seu desenvolvimento.
Todavia, cabe ressaltar que essa é uma questão bastante antiga
na história das ciências. Para Pereira (2006), muitos dos debates-cernes
da ciência geográfica, tal qual o do determinismo, têm correspondentes
nas obras de Heródoto (valentia dos guerreiros e dificuldade do meio
natural), Hipócrates (diferença do meio e evolução física dos indivíduos),
Platão (fortalecimento e fraqueza do Estado e sua correspondência entre
a continentalidade e a maritimidade) e Aristóteles (relação da densidade
da pólis com sua condição de autossuficiência), premissa essa que poderia
ser também inter-relacionada com a querela possibilista (outro debate
fundamental na Geografia).
Teriam mais êxito então os Estados que tivessem “climas mais
propícios”. Este caminho de reflexão, denominado de determinismo
ambiental, na Geografia teve influência das ideias de Lamarck e de
Darwin, sobre hereditariedade de caracteres, sobrevivência e adaptação
face às características ambientais. Tais ideias naturalistas chegaram até as
ciências sociais através de seu defensor, filósofo inglês Herbert Spencer.
Com suas ideias de superioridade e inferioridade, o determinismo
ambiental justificava, a partir do pressuposto de povos mais e menos
desenvolvidos, a expansão territorial, por meio da criação de colônias
de exploração na África e de ocupação de áreas temperadas. Como nas
palavras de Corrêa (2007, p. 10):
Narealidade,odeterminismoambientalconfigura
uma ideologia, a das classes sociais, países ou
povos vencedores, que incorporam as pretensas
virtudes e efetivam as admitidas potencialidades
do meio natural onde vivem. Justificam, assim, o
sucesso, o poder, o desenvolvimento, a expansão
e o domínio. Não é de se estranhar, pois, que
na Grécia da Antiguidade se atribuíssem às
características do clima mediterrâneo o progresso
e o poderio de seu povo em face dos asiáticos
que viviam em áreas caracterizadas pela
invariabilidade anual das temperaturas. Muito
mais tarde, no final do séc. XIX, seriam outras
as características climáticas consideradas como
UniversidadeAbertadoBrasil
16
unidade 1
favoráveis ao crescimento intra e extraterritorial.
Transforma-se assim em natural, portanto fora do
controle humano, uma situação que é econômica
e social, histórica, portanto, denominada
imperialismo.
Assim, funda-se uma correspondência causalística entre natureza
e comportamento humano, sendo o primeiro termo determinante do
segundo. As alcunhas fator e condição geográfica, relacionadas a clima,
relevo, vegetação, são heranças da ideologia determinista. (CORRÊA,
2007).
Consideramos que o clima tem efeito nas atividades dos seres
humanos, em relação à facilidade ou dificuldade de realização de
determinadas atividades, como na agricultura, na comunicação, nos
transportes, na habitação, e também no que se refere à saúde dos grupos
sociais. Mas esses efeitos, de forma nenhuma, têm relação determinante
com estas questões. Funcionam como um fator, em meio a tantos outros,
como distribuição de renda, faixa etária, etnia, gênero, elementos sociais
e culturais, etc.
O clima não tem interferência no funcionamento do cérebro, muito
menos no comportamento grupal dos seres humanos, como em uma
relação causal entre aumento da temperatura e número de homicídios.
Consideramos que o que interfere realmente são outros aspectos da vida
Estes significados têm se colocado como reflexo, meio e condição da
reprodução dos grupos sociais (HOEFLE, 1998). Dentre estes elementos,
o conhecimento climatológico, científico ou não, é de fundamental
importância.
Na próxima seção trataremos da relação entre climatologia e
conhecimento popular.
Outras perspectivas têm sido vistas por Francisco Mendonça, o qual disserta tanto
sobre a relação entre clima e doenças, como entre clima e violência. Segundo o
autor, o clima impacta nas sociedades, repercutindo nas condições humanas de
saúde. Da mesma forma, o autor faz uma análise da interação entre o clima e a
criminalidade urbana no Brasil. Mendonça chama a atenção para este campo do
conhecimento (interações clima/saúde humana – clima/violência), que tem voltado a
ser de interesse dos geógrafos hodiernamente.
Um contraponto para a reflexão de Mendonça nas discussões sobre geografia e
saúde pode ser encontrado em Josué de Castro, em seu livro Geografia da Fome, no
qual o autor, dentre várias outras questões, disserta sobre as relações entre doenças
e fome, a partir do mapeamento de áreas alimentares e das carências nutricionais
do Brasil.
Climatologia2
17
unidade 1
SEÇÃO 2
Clima e conhecimento popular
As secas têm sido uma das principais características do nordeste
brasileiro e, segundo Folhes e Donald (2007), ocorrem em uma área
de aproximadamente 900 mil km², sendo o Ceará o estado com maior
extensão dentro dessa área denominada Bolsão Trópico Semiárido
(SUDENE – atual ADENE).
A relação do sertanejo dessa região com a escassez de água durante
gerações produziu um tipo de conhecimento apoiado no acúmulo de
observações. Conforme salientado pelos autores, a seca é o centro de sua
estratégia de sobrevivência.
Mesmo que existam previsões climáticas resultantes de alta
tecnologia, como através do INPE (Instituto Nacional de Pesquisa
Espacial) e da FUNCEME (Fundação Cearense de Meteorologia e
Recursos Hídricos), existe uma pequena utilização pelos agricultores das
informações desses sistemas.
Por outro lado, o cotidiano do sertanejo cearense é estruturado
pela “superstição e pela crendice”. São chamadas “experiências” os
prognósticos resultantes destas observações e, “profetas da chuva”
as pessoas capazes de interpretar os sinais dos céus e traduzi-los em
previsões meteorológicas.
Essas informações, nascidas do senso comum, são referenciadas por
Folhes e Donald (2007) como elementos que dão credibilidade aos dados
dos sistemas meteorológicos produzidos por procedimentos técnico-
científicos. O trabalho realizado pelos autores foi desenvolvido a partir
de 484 depoimentos de moradores de seis cidades4
do estado do Ceará,
culminando em uma classificação dos fenômenos da natureza na relação
com o clima e a possibilidade de precipitações, segundo o discurso do
sertanejo.
As observações que o sertanejo faz sempre revelam como será o clima
do próximo ano e dizem respeito à interpretação de fatos da natureza,
4
Itarema, Guaraciaba do Norte, Boa Viagem, Perambu, Barbalha, Limoeiro do Norte.
UniversidadeAbertadoBrasil
18
unidade 1
relacionados a previsões empíricas do clima. Para Folhes e Donald (2007),
os depoimentos dos sertanejos revelam um rico universo de previsões de
clima e tempo, ligadas a grupos de “experiências”. Os discursos coletados
neste trabalho foram reunidos pelos autores em quatro grupos:
observação de animais;•	
comportamento da vegetação;•	
posição de estrelas, lua, astros, forma de nuvens, marés e•	
ventos;
crenças religiosas.•	
Segundo os autores, o comportamento dos animais tem a ver com
a chegada das chuvas ou das secas. No conjunto de falas dos sertanejos,
são elencadas mais de dez espécies de animais, desde insetos, pássaros,
roedores e peixes, até grandes mamíferos. As formigas são as mais
lembradas, sendo que sua presença indica períodos chuvosos e sua
ausência, períodos de seca. Em relação aos pássaros, é observada a
posição do ninho, cuja frente estando direcionada para oeste denota forte
probabilidade de período chuvoso e, para leste, de período seco. Da mesma
forma, o canto insistente dos pássaros no começo de cada ano revela
grande possibilidade de período chuvoso. Outra observação interessante
está ligada à existência de filhotes de tatus em tocas, indicando período
chuvoso e, na sua ausência, o período será seco. Nas regiões litorâneas
e ribeirinhas, as previsões estão relacionadas à presença de caranguejos
e peixes.
As plantas também constam do grupo de elementos observados que
possibilitam a previsão das características climáticas futuras. Aspectos
como florescimento e frutificação, produção ou ausência de resina após
o corte de árvores indicam, segundo a fala dos sertanejos, a presença ou
ausência de períodos chuvosos. O florescer do mandacaru, por exemplo,
é sinal de chuva no sertão. Além desta outras plantas são citadas, como o
cipó-vermelho, o pau d’arco, o buriti, o juazeiro, o cumaru, o umbuzeiro, a
carnaúba, o flamboyant, a mangueira, a laranjeira e o jasmim. (FOLHES
e DONALD, 2007). Na maioria das vezes, um bom florescimento e
frutificação é indício de período chuvoso.
Em relação aos fenômenos atmosféricos, merece destaque nas
Climatologia2
19
unidade 1
entrevistas a faixa estreita de nuvens vistas nos primeiros dias do ano, ao
amanhecer, denominada de barra de nuvens, ou a observação da primeira
lua cheia de janeiro. A visualização da estrela D’Alva é tão importante
para o sertanejo quanto a Lua e a direção dos ventos.
Previsões climáticas também estão associadas aos “dias santos”,
como 6 de janeiro (Reis), 20 de janeiro (São Sebastião), 2 de fevereiro
(Nossa Senhora das Candeias), 19 de março (São José), 8 de dezembro
(Nossa Senhora da Conceição) e 21 de dezembro (São Tomé). Sobre o
dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, Folhes e Donald, (2007, p. 28)
salientam que:
Contam os agricultores que a experiência (das
pedras de sal) deve ser feita em jejum no dia 12
de dezembro, ou seja, na véspera do dia santo.
Expostas ao sereno da noite, o sertanejo coloca
sobre o telhado ou qualquer outra superfície lisa,
três pedras de sal que representam os meses de
janeiro, fevereiro e março. A pedra de sal que
amanhecer mais molhada representa o mês do
início das chuvas (...).
	 Os autores apontam que, além de buscar descrever os fenômenos
climáticos, as falas dos sertanejos produzem um sentido de realidade,
atribuindo significado a esses fenômenos que ocorrem, ao mesmo tempo
em que os interpretam.
	 Nas palavras dos autores, as “experiências” realizadas pelos
“profetas das chuvas” são multidimensionais, servindo a um amplo
conjunto de propósitos culturais. As previsões climatológicas, pelo
contrário, são apenas destinadas à previsão do clima no futuro, deixando
de lado outras questões, como práticas culturais, tamanho familiar, idade
dos integrantes das famílias, etc.
	 Diferente da ideia de imposição de um conhecimento às suas
ações cotidianas, o conhecimento climatológico popular vai além de uma
normatização e de uma antecipação de eventos futuros, colocando-se
como uma possibilidade de compreensão de fenômenos naturais. Tais
questões, em que o conhecimento (do) local se faz presente, buscam
desvendar aquilo que Escobar (2005) denomina de conhecimento dos
sistemas naturais. Inserem-se como outras possibilidades, propiciando-
nos refletir para além das relações binárias entre natureza e cultura e
UniversidadeAbertadoBrasil
20
unidade 1
valorizar outras matrizes de racionalidade. (PORTO GONÇALVES,
2002).
Esses modelos locais de conhecimento evidenciam a ligação
de grupos sociais ao seu espaço, concebido enquanto uma entidade
multidimensional, resultante de inúmeras práticas e relações. Assim,
muitas vezes é preciso se valer da “tradução” dessas práticas do ponto de
vista interpretativo, fora de nossas formas padronizadas da ciência, para
se ter um melhor conhecimento no encontro com os outros.
Destacamos ainda que Geertz (1998) argumenta que a “tradução”
enquanto técnica explicativa não significa expressar-se acerca de nossas
formas, mas mostrar a lógica das formas de expressão do “pesquisado”.
Isso porque o senso comum não é um mero conhecimento desconexo,
mas um sistema cultural, “um corpo de crenças e juízos, com conexões
vagas, porém mais fortes que uma simples relação de pensamentos
inevitavelmente iguais para todos os membros de um grupo que vive em
comunidade”. (GEERTZ, 1998, p. 21). Fechamos esta seção destacando
que a matriz de racionalidade do saber popular, ao mesmo tempo em
que traz uma explicação para o sertanejo, como no exemplo trabalhado,
traz pistas e (re)cria perguntas para o conhecimento climatológico
sistemático.
SEÇÃO 3
Clima, atividades humanas e alteração climática
As atividades humanas,queiramos ounão,têm alterado as dinâmicas
de funcionamento de vários sistemas existentes no planeta Terra. Essa ação
tem se intensificado concomitantemente ao desenvolvimento do modo de
produção capitalista, tanto no aumento da produção de mercadorias, na
diminuição do tempo de vida delas, denominado tempo de obsolescência,
como na ampliação global de um consumo de massa.
Todos os elementos existentes no planeta, e sua lógica de
funcionamento, são vitais à reprodução da vida na Terra, incluindo a
humana. Dentre os subsídios à reprodução da vida, está a estabilidade
Climatologia2
21
unidade 1
de funcionamento e composição da atmosfera. As duas expressões-chave
que se referem à questão são o efeito estufa e o aquecimento global.
A expressão efeito estufa foi utilizada pela primeira vez durante
o séc. XIX e, desde então, os cientistas têm se dividido entre os que
defendem que o aquecimento global é produto de atividades humanas, e
os que defendem sua origem natural (como o resultado de um conjunto de
variações da radiação solar). Em razão da nossa estrela não ser totalmente
estável, sua atividade de fusão lembra a chama de uma vela, afetando
com sua variação o clima no planeta. (CAPOZZOLLI, 20045
).
Hoyt e Schatten (1997)6
afirmam, por exemplo, que o Sol é um dos
agentes, senão o principal, nas recentes alterações climáticas associadas
ao aquecimento global. Todavia, como salientado por Beckman e Mahoney
(1998)7
, devemos ter parcimônia em abandonar a ideia do efeito estufa
como responsável pelo aquecimento global, dada a complexidade das
relações entre oceano-atmosfera e a produção de gases estufa a partir
das indústrias e veículos.
Por outro lado, para os defensores da responsabilidade do Sol no
aquecimento global, estamos experimentando um aumento na constante
solar e na variabilidade magnética. A principal hipótese que sustenta tais
afirmativas é o fato de que os ciclos de maior atividade solar estariam
relacionadosnãoaciclossolaresde11e22anos,masaumaescalatemporal
da ordem de centenas de anos. (BECKMAN E MAHONEY, 1998). Esse
foi o caso da denominada Mínima de Maunder, com duração entre os
anos de 1645 e 1715, quando a atividade solar reduziu-se, havendo como
consequência diminuição de temperaturas e escassez de chuvas.
Essas questões revelam-se complicadas, colocando-se como uma
armadilha para que forças, notadamente relacionadas a interesses
petrolíferos, utilizem o aquecimento solar como uma desculpa para a
não redução da emissão de gases estufa. Mesmo que existam variações
solares a longo prazo, as alterações drásticas de concentração desses
gases convertem-se em motivação para que aprofundemos a temática.
5
Fonte: CAPOZZOLI, Ulisses. A mídia de olho no ciclone. [30 mar. 2004]. www.observa-
toriodaimprensa.com.br
6
HOYT, D. V.; SCHATTEN, K. H. The Role of the Sun in Climate Change, New York:
Oxford Univ. Press, 1997.
7
BECKMAN, J; MAHONEY, T. The Maunder Minimum and Climate Change: Have
Historical Records Aided Current Research? Library and Information Services in Astro-
nomy III, ASP Conference Series, vol. 153, 1998. Disponível em: http://www.stsci.edu/
stsci/meetings/lisa3/beckmanj.html. Acesso em: 20 fev. 2009.
UniversidadeAbertadoBrasil
22
unidade 1
Aquecimento global e efeito estufa
O denominado efeito estufa é de fato um fenômeno natural no
planeta Terra, que tem possibilitado a reprodução de um considerável
número de espécies animais e vegetais. Há aproximadamente 200 anos,
as atividades industriais passaram a liberar na atmosfera quantidades de
gases estufa, notadamente dióxido de carbono, intensificando o fenômeno
natural. Segundo Kenitiro Suguio (2008), a maioria da liberação de
dióxido de carbono (Co2
) refere-se às emissões norte-americanas (cerca
de 23%). Os principais vilões são os combustíveis fósseis, como petróleo,
carvão mineral e gás natural, constituindo 99% das emissões totais.
Como visto no livro de Climatologia I, a atmosfera evoluiu,
até a sua composição atual, desde a origem do planeta Terra. Nossa
atmosfera primitiva, há cerca de 4,6 bilhões de anos, era composta por
aproximadamente 97% de dióxido de carbono (Co2
). A formação do
calcário e a sedimentação de matérias orgânicas transformaram o teor de
Co2
para 0,03%, produzindo uma atmosfera com 21% de oxigênio.
O equilíbrio de 21% de oxigênio e 0,03% de dióxido de carbono tem
produzido o efeito estufa natural, que é responsável pela temperatura
média global de 15 °C. Um exemplo dado por Kenitiro Suguio (2008) é
de que se a concentração de Co2
fosse de 0%, a temperatura média do
planeta seria de aproximadamente -18 °C. Da mesma forma, a alteração
do percentual para mais, ampliaria a possibilidade de maiores médias de
temperaturas globais.
Suguio (2008) alerta que anualmente são lançados na atmosfera
cerca de:
20 bilhões de toneladas de Co•	 2
(combustíveis fósseis);
7 bilhões de toneladas de Co•	 2
(desmatamento acompanhado de
decomposição de matéria orgânica no solo);
2 bilhões de toneladas de Co•	 2
(respiração de 6 bilhões de
habitantes).
Estimativas apontam que o volume de Co2
na atmosfera alcança
0,035 %, podendo chegar a até 0,6 % em um futuro próximo. Assim, a
temperatura global média poderia aumentar em 2 °C. A construção de
Climatologia2
23
unidade 1
cenários futuros é uma atividade muito complicada, tendo em vista a
plêiade de elementos em jogo no sistema, entretanto dados no passado
da Terra mostram possibilidades.
A partir de registros fósseis, supõe-se que na era Mesozoica, período
de existência dos dinossauros, a temperatura média da Terra deveria ser
de aproximadamente 25 °C. Essa foi uma fase de intensos movimentos
crustais, com tectonismo e abalos sísmicos, cujas atividades exalaram um
volume considerável de Co2
na atmosfera.
A hipótese é de que este foi o motivo para o aquecimento da
atmosfera, chegando ao ponto da maior parte da água existente no planeta
estar no estado líquido ou gasoso. Para Suguio (2008, p. 19), os eventos
relacionados ao efeito referem-se a(o):
aumento de temperatura;•	
derretimento das calotas polares;•	
incremento de pluviosidade;•	
mudanças na umidade do solo;•	
mudanças em correntes oceânicas.•	
No último período glacial, entre 15 e 17 mil anos atrás, o total de
geleiras em volume era três vezes maior que atualmente. Até nossos dias,
cerca de 2/3 das geleiras derreteram. Previsões apontam que, caso as
calotas polares derretam, o nível médio dos oceanos aumentaria em 50
metros, ficando muitas cidades litorâneas sob a água.
Esseselementosmostramoquãofrágiléaestruturadefuncionamento
da atmosfera, mas também quanto fervorosa é a discussão em relação
ao aquecimento global. Entretanto, os climatólogos concordam que por
menores que sejam as alterações, tanto em relação à temperatura como
à composição da atmosfera, processos podem acontecer em cadeia,
alterando todos os pontos do planeta. (Veja através da plataforma Moodle
o link Mudança do Clima, mudanças de vidas).
UniversidadeAbertadoBrasil
24
unidade 1
Deus ainda é brasileiro
Por Aline Durães
(...) Que a temperatura da Terra aumentou ninguém duvida. Nos últimos 100 anos,
ela subiu, em média 0,74 °C. (...) entretanto não existe qualquer trabalho acadêmico
que comprove a influência do homem sobre esse aquecimento. ‘Ainda não sabemos
se o aumento da temperatura percebido hoje é um processo natural nas flutuações
climáticas da Terra ou se é induzido pelo homem’, esclarece Nelson Fernandes,
geógrafo e professor do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências
(IGEO) da UFRJ.
Nessesentido,outrasassociaçõessãofeitaserroneamente.Nemtodososfenômenos
naturais decorrem do aumento da temperatura global. Os terremotos verificados
recentemente no Brasil, por exemplo, não possuem qualquer relação com o clima.
Da mesma forma, a atividade vulcânica não sofre influência das variações climáticas.
Pelo contrário, erupções de alta intensidade lançam na atmosfera partículas de
poeira que, por um período determinado de tempo, reduzem a entrada de luz solar
na superfície e diminuem a temperatura local.
(…) O aquecimento global influencia os movimentos da atmosfera e os do oceano;
com o aumento da temperatura, mais energia é disponibilizada para os sistemas
atmosférico e oceânico, ampliando a frequência e a intensidade dos ventos, das
tempestades, dos ciclones, dos furacões, das ondas de frio e de calor. Esse
aquecimento, no entanto, é imperceptível a qualquer pessoa, explica Isimar Santos,
professor do Departamento de Meteorologia do IGEO.
Segundo Isimar, ainda não há indicadores precisos que evidenciem os impactos
do aquecimento global no clima brasileiro. Existem apenas projeções possíveis
dessas consequências. O quarto relatório do Painel Intergovernamental de Mudança
Climática (IPCC, sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU),
divulgado em abril do ano passado (2007), traçou diferentes cenários futuros do
clima diante do aumento da temperatura da Terra. O modelo mais pessimista aponta
uma alta de 6,1 °C ao longo do século XXI e prevê o fim de grande parte da Floresta
Amazônica até 2080.
(...) Todavia, há muitas críticas a esses relatórios. (...) O que pode acontecer?
Certos impactos do aquecimento global já são consenso entre analistas. Um deles
é a elevação dos índices de precipitação. Choverá mais, o que pode acarretar uma
frequência maior dos deslizamentos de terra. Eles, entretanto, não vão acontecer de
forma homogênea em toda a extensão do país. Capitais como Florianópolis, Belo
Horizonte, Vitória, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, que já enfrentam problemas de
erosão e movimentos de massa, serão mais afetadas. (…)
Isso pode gerar consequências econômicas e causar uma série de mortes. Nelson
lembra ainda que o acréscimo da pluviosidade afetará os rios. Com mais chuvas,
estes receberão um volume extra de água e, consequentemente, precisarão alargar
seus vales. Haverá erosão fluvial, e as populações que ocupam as margens serão
diretamente prejudicadas. (…)
A desertificação também pode ser uma das consequências do aquecimento da
Terra. As secas seriam mais duradouras e teriam efeitos diretos sobre a vegetação
Climatologia2
25
unidade 1
(...) a diminuição da vegetação teria efeito direto na produção de alimentos. O
que pode gerar grandes conflitos fronteiriços. Tentativa de entrada de pessoas de
países de capitalismo periférico para os centros detentores dos alimentos/países de
capitalismo central (...). Um estudo encomendado pelo Pentágono comprovou que
um dos principais problemas estratégicos a ser enfrentado pelos Estados Unidos
da América com o aquecimento global será a imigração de contingentes humanos
vindos do México, o que levou o país a tomar medidas para intensificar o controle
de sua fronteira.
Lucros do aquecimento
Engana-se quem pensa que o aquecimento global será recebido da mesma forma por
todas as regiões do planeta. Também está equivocado quem pensa que o aumento
de temperatura da Terra trará apenas tragédias naturais (e sociais) e prejuízos
econômicos. Isso porque se vislumbra para alguns países a possibilidade de obter
lucros por conta das alterações climáticas. E o Brasil é um deles.
Por ter considerável capacidade de produção de alimentos e reservas de água
potável, o Brasil poderá comercializar esses bens com nações que estejam com
suas economias abaladas por conta do aumento da temperatura da Terra. ‘Nossas
reservas naturais de água, por exemplo, nos atendem plenamente há 500 anos
e poderiam atender a outros países também. Basta que encontremos meios de
transportar essa água. Podemos sim lucrar com a crise mundial, já que o Brasil terá
o que os outros países precisam’, expõe Isimar Santos.
Excertos extraídos: DURAES, Aline. Deus ainda é brasileiro? Jornal da UFRJ. Ano
4, n. 37, p. 18-19. Setembro de 2008.
Leitura complementar:
SANT’ANNA NETO, João Lima. Mudanças Climáticas e Aquecimento Global: um
enredo entre a tragédia e a farsa. In: ANPEGE. (Org.). O Brasil e a América Latina.
Rio de Janeiro: Lamparina, 2008, v. 1, p. 1-16.
SEÇÃO 4
Sociedade e clima urbano
As relações entre cidade e campo começaram a se alterar
profundamente no séc. XX e culminaram com a aceleração da urbanização
na década de 1970.
O espaço urbano enquanto criação da sociedade coloca-se, nas
palavras de Monteiro (2003), como o local de maior efetivação das relações
UniversidadeAbertadoBrasil
26
unidade 1
entre sociedade e natureza. Segundo o autor, é a partir da criação de
objetos e formas, buscando organizar a natureza, que a sociedade produz
derivações do acúmulo dessas criações, como a organização morfológica e
funcional da cidade, com seu sistema viário intra-urbano e inter-regional,
transformando condições geo-ecológicas precedentes.
Dentre as várias ações humanas, encontra-se a realização de aterros,
represamentos e construções de reservatórios de água, eliminação de
feições topográficas indesejáveis, etc. Outras intervenções ocorrem
na alteração ou substituição das coberturas vegetais originais, com a
implantação de parques, praças, jardins, etc.
Quando somamos a esses fatores a própria dinâmica da população,
realizando atividades, transformando, a partir de fábricas, elementos
naturais em recursos sociais, ou mesmo envolvendo-se em atividades de
serviço, a cidade torna-se o local por excelência do acontecimento de
todos os resultados da maioria das alterações ambientais. Sua intensidade
coloca-se como consequência da própria intenção de transformação da
natureza, nas finalidades de reprodução social.
Todo o período de desenvolvimento da urbanização na modernidade,
segundo Mendonça (2003), está conectado ao surgimento do modo de
produção capitalista (rever as temáticas relacionadas ao capitalismo nos
livros de Geografia Econômica I e II). Se, em vários locais, as lógicas de
funcionamento entre sistemas sociais e naturais foram observadas nos
processos de planejamento e gestão, na maioria dessas espacialidades,
todas as ações de objetivação voltam-se ao planejamento econômico.
Como nas palavras do autor:
Este procedimento moderno gera ambientes
urbanos altamente nocivos – o ambiente
atmosférico urbano constitui somente parte
deles – a maioria dos habitantes das cidades no
que concerne ao aparecimento de problemas
relacionados às funções vitais e psicossociais
dos citadinos, principalmente naqueles países
caracterizados por um contexto socioeconômico
complexo. (MENDONÇA, 2003, p. 177).
Dentre os vários resultados dessas relações, como deslizamentos de
massa, desmoronamentos, alagamentos, enchentes, e tantos outros, uma
temática que vem já há algum tempo sendo pauta de discussão, tanto da
Climatologia2
27
unidade 1
política, quanto da própria academia, é o clima, mais especificamente, o
clima urbano.
A porta de entrada das discussões envolvendo este clima foram
os resultados das atividades humanas, referentes à qualidade do ar, na
maioria das cidades. De modo geral, os primeiros estudos aconteceram
no período da Revolução Industrial, na Inglaterra, e no momento em que
a população urbana ultrapassava a rural, no Brasil, a partir da década de
1970. (MENDONÇA, 2003).
O crescimento das cidades foi objeto de reflexão da climatologia
urbana, na década de 1960, reflexões estas que se intensificaram, se
multiplicaram na década de 1990 e se propunham a contribuir com a
gestão e o planejamento urbanos brasileiros.
Mendonça (2003) afirma que o principal caminho de estudo
envolvendo a sociedade e o clima urbano foi a utilização da Teoria Geral
dos Sistemas, as reflexões sobre dinâmica da atmosfera e as preocupações
de alguns intelectuais com as interações entre atmosfera, o sítio e os
espaços urbanos. A partir desses encaminhamentos, o clima urbano
passou a ser estudado sob um ponto de vista mais holístico.
A Teoria Geral dos Sistemas, também conhecida como T.G.S., nasceu com as
reflexões do biólogo austríaco Ludwing von Bertalanffy, entre os anos de 1950 e
1968. Vários pressupostos estruturam essa teoria, entre eles a tendência de
integração com as ciências sociais e naturais, integração esta que se orienta em
direção a uma teoria dos sistemas, a qual pode ser uma maneira mais completa de
compreensão tanto de fenômenos naturais como sociais, desenvolvendo princípios
unificadores da ciência.
Também os estudos do clima urbano em muitos casos se valeram da ideia de Ritmo
Climático, desenvolvida principalmente na Climatologia Geográfica, difundida/
defendida no Brasil pelo geógrafo Carlos Augusto Figueiredo Monteiro, no âmbito
das mudanças climáticas no espaço/tempo.
Leituras Complementares
CHRISTOFOLETTI, Antônio. Aspecto da análise sistêmica em Geografia. In: Revista
Geografia. Rio Claro -SP. v. 3, n. 6, p.1-31. Outubro de 1978.
ZAVATTINI, João Afonso. Estudos do clima no Brasil. Campinas-SP: Alínea. 2004. 398 p.
Seguindo a perspectiva de interseccionalidade entre várias
possibilidades de conhecimento em relação a um mesmo fenômeno, e
de variações de aplicabilidade da T.G.S., os climatólogos urbanos, na
interação com reflexões de urbanistas, integraram a climatologia urbana
ao planejamento. Essa integração se fez a partir de três abordagens, que
UniversidadeAbertadoBrasil
28
unidade 1
se tornaram tendências das pesquisas em clima urbano (MENDONÇA,
2003), a saber:
Campo Termo-Hidrométrico•	 , no qual são enfatizados os estudos
de ilhas de calor e de frescor urbano, do conforto/desconforto
térmico, de inversões térmicas, etc.
Campo Físico-Químico ou Dispersão•	 , voltado à análise da
dinâmica do ar na sua interação com a cidade, destacando a
poluição do ar, as chuvas ácidas, a relação entre a estrutura
urbana e os ventos, etc.
CampoHidrometeórico•	 ,relacionadoaoestudodasprecipitações
urbanas e seus impactos, tais como os processos de inundação
das cidades.
Os trabalhos nesta área têm sido realizados tanto com dados de
institutos de pesquisa, por exemplo o Sistema Meteorológico do Paraná
(SIMEPAR), como por mini-abrigos termométricos móveis, pluviômetros,
anemômetros e equipamentos de coleta de material particulado,
distribuídos na malha viária do espaço urbano. Além desses dados, outras
informações têm sido utilizadas pelos pesquisadores, como hipsometria e
mapas de uso da terra.
Segundo Mendonça (2003), a hipsometria influencia na variação
térmica e barométrica. Em relação ao mapa de uso da terra, a variação
dos tipos de cobertura de superfície interfere na intensidade do albedo.
Outroelementoutilizadonacompreensãodoclimaurbanoéatécnica
denominada Sky View Factor, que busca entender a importância das
sombras dos edifícios, funcionando como canyons urbanos. Atualmente
tem sido significativa a utilização de imagens de satélite: NOAA, Landsat
e Spot (ver livro de Cartografia II).
De modo geral, os estudos em climatologia urbana são descritos na
tabela seguinte. Note-se que a maioria dos trabalhos realizados no Brasil
referem-se às ilhas de calor, de frescor urbano, de conforto/desconforto
térmico e de inversões térmicas, ficando em segundo lugar os processos
de inundação e alagamento. Por último, os estudos de poluição do ar, de
chuva ácida e da relação entre estrutura urbana e direção e intensidade
de ventos.
Climatologia2
29
unidade 1
Tabela 1 – Estudos de Clima Urbano no Brasil8
Campos do Clima Urbano
Regiões Cidades Termo-
higrométrico
Físico - químico Hidro-meteórico
Sudeste
São Paulo/SP 8 7 10
Campinas/SP 1
S. J. Campos/SP 1
P. Prudente/SP 2
Rio Claro/SP 3 1
Piracicaba/SP 1
Limeira/SP 1
Jales/SP 1
Penápolis/SP 1
Sorocaba/SP 1
Lemes/SP 1
Rio de Janeiro/RJ 11 3 4
N. Friburgo/RJ 1
Petrópolis/RJ 1
Volta Redonda/RJ 1
Bangu/RJ 2
B. Horizonte/MG 3
Uberlândia/MG 4 1 3
J. de Fora/MG 1 3
Sul
P. Alegre/RS 3
S. Maria/RS 1
Santa C. do Sul/RS 1
Florianópolis/SC 2 1
Blumenau/SC 1
Rio Negrinho/SC 1
Curitiba/PR 2 1 3
Londrina/PR 1 3
F. Beltrão/PR 2
Maringá/PR 2
Nordeste
Salvador/BA 3 1
V. da Conquista/BA 1
Patos/PB 2
Campina Grande/PB 2
Paraibuna/PB 3
São Luís/MA 1
Fortaleza/CE 5 1
Terezina/PI 1
Centro-
Oeste
Brasília/DF 1
Goiânia/GO 2 1
Rondonópolis/MT 1 1
Cuiabá/MT 1
T. da Serra/MT 1
B. do Burguês/MT 1
Campo Grande/MS 1
Norte
Belém/PA 3 3
Marabá/PA 1
Macapá/AP 1
Totais 79 20 40
8
Fonte: MENDONÇA, 2003, p. 185.
UniversidadeAbertadoBrasil
30
unidade 1
Os principais trabalhos para Mendonça (2003) estão relacionados
nas reflexões de:
Gallego (1972), em•	 Tipo de tempo e poluição atmosférica no Rio
de Janeiro: um ensaio de climatologia urbana;
Tarifa (1977), em•	 Análise comparativa da temperatura e umidade
na área urbana e rural de São José dos Campos (SP), Brasil;
Sartori (1979), em•	 O clima de Santa Maria (RS): do regional ao
urbano;
Fonzar(1981),nareflexãosobre•	 Oprocessodeocupaçãoregional,
o modelo urbano e o conforto térmico na Alta-Sorocabana: um
teste aplicado a Presidente Prudente( SP);
Sampaio (1981), em•	 Correlação entre uso do solo de ilhas de
calor no ambiente urbano: o caso de Salvador;
Lombardo (1989), em•	 A ilha de calor nas metrópoles: o caso de
São Paulo;
Dani (1982), em•	 Aspectos têmporo-espaciais da temperatura e
umidaderelativaemPortoAlegreemjaneirode1982:contribuição
ao estudo do clima urbano;
Brandão (1987), em•	 Tendências e oscilações climáticas na área
metropolitana do Rio de Janeiro;
Monteiro e Severino (1990), em•	 O campo térmico na cidade de
Florianópolis: primeiros experimentos;
Gonçalves (1992), em•	 Impactos pluviais e desorganização do
espaço urbano em Salvador (BA);
Mendonça (1995), discutindo o•	 Clima e o planejamento urbano
de cidades de porte médio e pequeno: proposição metodológica e
sua aplicação à cidade de Londrina (PR);
Sette (1996), estudando o•	 Clima urbano em Rondonópolis (MT);
Brandão (1996), em•	 O clima urbano do Rio de Janeiro;
Collishon (1998), em•	 O campo térmico da região metropolitana
de Porto Alegre: análise a partir da interação entre as variáveis
ambientais na definição do clima urbano;
Danni-Oliveira (2000), analisando•	 A cidade de Curitiba e a
poluição do ar: implicações de seus atributos urbanos e geo-
ecológicos na dispersão de poluentes em período de inverno;
Assis(2000),buscandocompreenderos•	 Impactosdaformaurbana
na mudança climática: método para previsão do comportamento
térmico e melhoria de desempenho do ambiente urbano.
Climatologia2
31
unidade 1
Esses dezesseis trabalhos, em meio aos cento e trinta e nove
demonstrados na tabela 1, comprovam a riqueza de possibilidades de
abordagens envolvendo o clima urbano. Todavia, Mendonça (2003) nos
alerta para o fato de que alguns encaminhamentos estão sendo deixados
de lado nesses estudos, como o impacto de fortes ventos na estrutura
urbana, as possíveis relações entre saúde e clima, as relações entre
sistemas planetários e clima urbano (El Niño, por exemplo).
Tais perspectivas ampliam as relações entre climatologia,
planejamento e gestão urbanos, na interseção entre clima e desigualdades
sociais, nas reflexões sobre impactos ambientais, apontando para a
importância dos estudos de climatologia no cotidiano de todos, a partir de
várias escalas e perspectivas. Sobretudo, para você, caro aluno, destaca-
se efetivamente a Climatologia Geográfica (relação clima, sociedade,
espaço geográfico e tempo), uma vez que o clima pelo clima é objeto de
estudo da Meteorologia e não da Geografia.
Leituras Complementares
CASTRO, Josué de. Geografia da Fome. 10. ed. Rio de Janeiro: Antares Achiamé,
1980.
MENDONÇA, Francisco. Aspectos da interação clima-ambiente-saúde humana: da
relação sociedade-natureza à (in)sustentabilidade ambiental . RA’EGA, Curitiba, n.
4, p. 85-99, 2000.
__________. Clima e criminalidade: ensaio analítico da correlação entre a
criminalidade urbana e a temperatura do ar. Curitiba: Editora da UFPR, 2000.
(No prelo).
MENDONÇA, Francisco; MONTEIRO, Carlos Augusto de Figueiredo (Orgs.). Clima
Urbano. São Paulo: Contexto, 2003.
MOLION, Luiz Carlos. A Amazônia e o clima do globo terrestre. Revista Brasileira
de Geografia, Rio de Janeiro: vol. 52, n. 2, p. 89 – 94.1990.
UNE, Mitiko Yanaga. Fatores Climáticos Influenciando a agricultura em Campo
Grande. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro: vol. 41, n. 1-2, p. 3 –
31.1979.
VASCONCELOS, Francisco de Assis Guedes de. Josué de Castro e a Geografia
da Fome no Brasil. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro: vol. 24, n. 11, p.
2710-2717. 2008.
UniversidadeAbertadoBrasil
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unidade 1
Leia o texto As estrelas eram terrenas: antropologia do clima, da iconografia e das constelações Ticuna,
de Priscila Faulhaber, que demonstra a relação entre antropologia e clima, em um estudo sobre mitos
e ritos indígenas. O texto pode ser, em sala de aula, uma excelente estratégia de incentivação quando
você for trabalhar com climatologia na Geografia. Acesse o texto através da plataforma Moodle.
O clima tem se mostrado um agente importante em vários processos existentes no planeta
Terra, por exemplo, na formação das paisagens naturais. Na relação com a humanidade, o clima tem
funcionado não só como um obstáculo, mas também como uma amenidade às atividades humanas. Os
posicionamentos que atribuem um papel final do clima em relação a doenças e comportamentos sociais
são de fato novas roupagens para velhos discursos relacionados ao determinismo ambiental.
A partir de outras visualizações, o clima tem se colocado como uma força da natureza que é
interpretada pelo conhecimento científico também por comunidades tradicionais, estruturadas como um
mundo de significados que dá sentido tanto a eventos atmosféricos, quanto à resiliência do sertanejo
às intempéries do clima, por exemplo.
Você observou também que o clima tem sido objeto de discussão científica, relacionada às
alterações no final do último século e começo do atual, discussão que pendula entre as variações da
atividade solar e a interferência da intensidade das atividades humanas na composição atmosférica, e,
consequentemente, em seu funcionamento e dinâmica.
Leia o texto As estrelas eram terrenas: antropologia do clima, da iconografia e das constelações
Ticuna, de Priscila Faulhaber, que demonstra a relação entre antropologia e clima, em um estudo sobre
mitos e ritos indígenas. O texto pode ser, em sala de aula, uma excelente estratégia de incentivação
quando você for trabalhar com climatologia na Geografia. Acesse o texto através da plataforma
Moodle
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unidade 1
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A evolução do
clima
OBJETIVO DE APRENDIZAGEM
Compreender as fases e evolução do clima no planeta Terra.■■
ROTEIRO DE ESTUDOS
Seção 1 – Mudanças climáticas e tempo■■
Seção 2 – Possíveis causas das mudanças climáticas■■
Seção 3 – História do planeta Terra e do clima■■
UNIDADEII
Almir Nabozny
Marcio Jose Ornat
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Para início de conversa
Nesta unidade trataremos das alterações climáticas que ocorreram
na história do planeta Terra. Assim, como em relação a diversos aspectos
do Sistema Terra, o clima sofreu alterações profundas, desde a origem
da Terra há aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Essas transformações
referem-se tanto ao aquecimento como ao resfriamento da temperatura
do planeta, com suas consequências, alterando os níveis marinhos e
formando calotas de gelo e glaciações.
SEÇÃO 1
Mudanças climáticas e tempo
A atmosfera é dinâmica, mudando suas características tanto de local
para local como em relação aos intervalos temporais avaliados. Ela é tão
complexa que resultados de processos atmosféricos retornam alterando
as causas (AYOADE, 1986), com a denominação de feedback.
Assim, as mudanças atmosféricas podem ser resultantes de fatores
internos ou externos a ela e referem-se sempre à escala a partir da qual
são analisadas, diferindo-se entre tempo e clima.
Mesmo que sejam termos associados, o tempo e o clima não são a mesma coisa.
O tempo se relaciona ao estado da atmosfera em qualquer momento, incluindo
nebulosidade, temperatura, precipitação, pressão atmosférica, etc. É o caso de um
dia com muita chuva, quando dizemos que o tempo está chuvoso. A previsão do
tempo relaciona-se à probabilidade de ocorrência de determinadas características
em dado intervalo de tempo – via de regra tem intervalo máximo de dias, baseado
em cálculos matemáticos.
De forma distinta, o clima refere-se à média de características atmosféricas em um
período de 30 anos. Quando falamos de previsão climática, estamos buscando prever
possíveis alterações em determinada área do planeta. Quando falamos de clima,
estamos tratando de uma divisão que classifica áreas do planeta com características
aproximadas, como temperatura e precipitação. As principais classificações estão
relacionadas a Wladimir Köppen e Arthur Strahler, assunto a ser tratado na unidade
III.
Assim, uma das principais dificuldades com relação aos estudos do clima no
Brasil, refere-se à ausência de grandes sequências temporais relativas aos dados
climáticos.
Climatologia2
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unidade 2
Constatamos que o tempo atmosférico é altamente dinâmico,
sofrendo alterações em intervalos de horas. Apesar de o clima constituir-
se em uma classificação de um intervalo de tempo maior, ele também
sofre alterações, para as quais existe uma nomenclatura específica, como
descrito a seguir (AYOADE, 1986):
tendência climática: flutuações das características do clima;•	
ciclos climáticos: as flutuações climáticas se apresentam de•	
forma cíclica;
mudança climática: as flutuações passam a acontecer de tal•	
forma que alteram as características do clima relacionado à
determinada área.
As alterações climáticas sempre estão relacionadas aos intervalos
de tempo avaliados. Ayoade (1986, p. 206) propõe quatro escalas de
alterações climáticas, a saber:
variabilidade rápida, incluindo flutuações dentro de um período•	
menor que 30 – 35 anos;
mudanças seculares que ocorrem em intervalos de 100 – 150•	
anos;
mudanças que remontam milhares de anos;•	
variações na escala de milhões de anos.•	
Mas de que maneira podemos saber como era o clima no passado
do planeta Terra? Para responder, várias técnicas são utilizadas, já que
o conhecimento do clima que é anterior à história registrada, nasce de
fontes indiretas por meio de indicadores biológicos, litogenéticos e
morfológicos.
Os indicadores biológicos referem-se a polens, fósseis e anéis
de árvores (AYOADE, 1986). Os fósseis encontrados em depósitos
sedimentares são datados com técnicas paleontológicas, sendo utilizados
para determinação da duração temporal e extensão espacial das condições
climáticas que favoreceram a existência de tais espécies.
A mesma lógica estrutura a utilização de referenciais como polens
e anéis de árvores, todavia a utilização dessa metodologia apresenta
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inconvenientes. Fósseis e polens são seletivamente preservados e podem
não ser representativos da vegetação que existia na época indicada pela
datação. Outra possibilidade é de que derivem, indicando condições
climáticas de períodos anteriores.
A utilização dos anéis de árvores refere-se à sua espessura – os
mais espessos indicam condições climáticas adequadas ao crescimento
da árvore, enquanto os finos apontam variação climática desfavorável.
Há, porém, duas complicações: a primeira relaciona-se à possibilidade
da sua utilização em um período recente e a segunda está respaldada no
fato de que a espessura dos anéis refere-se também à idade da árvore,
não estabelecendo nenhuma ligação com o clima.
Os indicadores litogenéticos referem-se às rochas e suas
características de formação (AYOADE, 1986), ou seja, referem-se aos
varvitos (aluviões lacustres), evaporitos e processos de intemperismo,
notadamente os de laterização.
Os varvitos são camadas distintas que advém de materiais siltosos
ou argilosos, depositados anualmente em lagos próximos a geleiras. O
material de granulometria maior, de cor clara, deposita-se durante o verão,
enquanto o material de granulometria fina de cor escura deposita-se no
inverno. Cada faixa de material claro e escuro é uma varva, referente ao
material depositado durante um ano. O número de varvas diz respeito ao
número de anos necessários à formação do varvito, podendo ser estimado
seu tempo de formação. Da mesma forma, a espessura das varvas pode ser
utilizada para inferir alterações climáticas, que influenciaram a deposição
das camadas (Figura 1).
Obtemos a idade de uma rocha por uma técnica denominada datação, podendo
ser relativa ou absoluta. A datação relativa refere-se à comparação de uma rocha
com datação desconhecida a uma com datação conhecida. A datação absoluta
utiliza o Carbono-14, presente em matéria orgânica morta. Com o passar do tempo,
ele modifica a uma velocidade conhecida. Com a medição da alteração, pode-se
determinar o tempo exato do fóssil.
Climatologia2
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unidade 1
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unidade 2
Figura 1 – Depósito de Varvito1
Os evaporitos, comumente denominados depósitos de sal, só
ocorrem em condições climáticas quentes e secas, quando a evaporação
é maior que a precipitação. A existência de depósitos deste tipo de rocha
em áreas úmidas indica um clima pretérito quente e seco. A laterita
também é associada a climas sazonalmente úmidos, demonstrando um
clima pretérito com tais características nas áreas de ocorrência dessas
rochas. (AYOADE, 1986).
As evidências morfológicas são muito variadas, como praias, dunas,
morenas, eskers e terraços fluviais (Figuras 2 e 3):
1
Fonte: http://www.leonardokurcis.com.br/Itu-Parq.Varvito0008.jpg
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unidade 1
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unidade 2
Figura 2 – Morena2
Figura 3 – Terraço3
As dunas sugerem climas pretéritos áridos; da mesma forma,
morenas relacionam-se a glaciações no passado. Entretanto, feições
2
Fonte: http://www.igc.usp.br/glacial/imagem/glossario/21a.jpg
3
Fonte: http://miguelcorreia25.googlepages.com/Terraos.jpg/Terraos-large.jpg
Climatologia2
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unidade 2
geomorfológicas podem ser resultantes de processos distintos, como
variações de débito de chuvas, não havendo ligação com mudanças
climáticas.
Como salientado por Ayoade (1986), o estudo de climas passados não
pode utilizar indicativos isolados. Para o autor, o estudo de paleoclimas
deve servir-se de triangulações de indicadores de climas passados.
SEÇÃO 2
Possíveis causas das mudanças climáticas
	 Sempre que falamos em alterações climáticas, temos que ter em mente o fato
de que qualquer variação ou alteração não se refere apenas a relações simplistas de
causa e efeito. Uma mudança do clima pressupõe também mudança na circulação
geral da atmosfera, da qual o clima depende em sua grande parte. (AYOADE,
1986).
	 Mas o clima não diz respeito apenas à atmosfera, envolve outros circuitos
de troca de energia, como a litosfera, a hidrosfera e a biosfera. Também lembremos,
como abordado em Climatologia I, a importância da relação entre clima e Sol.
Vejamos a figura 4:
Figura 4 – Sistema Climático Global. Fonte: AYOADE, 1986.
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unidade 1
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unidade 2
De forma geral, as alterações climáticas dependem de dois circuitos
de relação, ou da alteração desses dois circuitos:
os componentes que formam o sistema climático, nas suas•	
existências e relações;
as condições e interferências exteriores ao sistema climático.•	
Assim, três fatores são de fundamental importância na conjuntura
climática de qualquer época, o total de energia que advém do Sol, que é
recebida pelo sistema climático, a forma como essa energia é distribuída
e absorvida pelo sistema e as formas de interação entre os vários
elementos que compõem o sistema climático. (Figura 5).
Se as alterações climáticas referem-se sempre à escala temporal
a partir da qual elas são analisadas, então para cada tipo de alteração,
referente a cada temporalidade, pressupõe-se uma forma de explicação
científica. Ayoade (1986) salienta que é em razão disso que inexistem
teorias completas que compreendam todas as alterações climáticas na
história do planeta Terra.
Todas as teorias que se propõem explicar as alterações climáticas
podem ser categorizadas em três grupos, como visto na tabela 2 a
seguir:
Tabela 2 - TEORIAS E CAUSAS DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS
A. Causas terrestres
Migração polar e deriva continental1.	
Mudança na topografia da Terra2.	
Variações na composição atmosférica3.	
Mudanças na distribuição da superfície continental e hídrica4.	
Variações na cobertura de neve e gelo5.	
B. Causas astronômicas
Mudanças na excentricidade da órbita terrestre1.	
Mudança na precessão dos equinócios2.	
Mudança na obliquidade do plano de eclíptica3.	
C. Causas extraterrestes
Variação na quantidade de radiação solar (1.	 output solar)
Variações na absorção da radiação solar exterior à atmosfera terrestre2.	
Fonte: AYOADE. 1986.
Climatologia2
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unidade 2
Dentre as perspectivas relacionadas às alterações climáticas,
encontra-se um rol de fatores que se referem às causas terrestres. O total
e a variação de áreas emersas resultariam em alterações na distribuição
da energia advinda do Sol, com as quais a circulação atmosférica seria
alterada, culminando seus impactos nas distribuições de temperatura e
umidade sobre o globo. Além disso, a mudança de posição das extensões
de terra produziria alterações no clima. Os processos endógenos de
soerguimento da crosta, por exemplo, vulcanismo e alteração da topografia
do relevo terrestre, teriam grande influência, como bloqueios orográficos,
ou com a liberação de aerossóis pelos vulcões.
Finalmente, as variações dos principais componentes atmosféricos
(CO2
, O3
e vapor d’água) teriam importância nas mudanças climáticas.
O equilíbrio deles seria responsável pela circulação de ar, distribuição
de temperatura e umidade, e consequentemente manutenção da
estabilidade dos climas terrestres. (AYOADE, 1986). Nesta causa, as
atividades humanas exerceriam papel relevante, como visto na unidade
I deste livro.
Os fatores nomeados como causas astronômicas (ou Ciclos de
Milankovitch4
) referem-se à alteração da geometria de movimentação
do planeta Terra no espaço sideral. Seus principais movimentos seriam
a mudança da excentricidade da órbita terrestre, a precessão dos
equinócios e a obliquidade do plano da eclíptica. (Figuras 5, 6 e 7).
Figura 5 – Precessão dos Equinócios
4
Milutin Milankovitch desenvolveu no início do séc. XX a ideia da relação entre ciclos
glaciais e alterações nos movimentos da Terra, que afetariam a radiação do Sol recebida
pelo planeta.
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unidade 2
Figura 6 – Excentricidade da Órbita Terrestre
Figura 7 – Obliquidade do Plano da Eclíptica
As variações da excentricidade da órbita da Terra referem-
se a alterações de sua distância em relação ao Sol. Quanto maior a
excentricidade, maior é a diferença entre as estações do ano. Quanto
menor, mais baixas serão as diferenças. Quando a Terra está mais próxima
do Sol, no periélio (Figura 6), a quantia de energia que ele emite é 6%
maior que no afélio. A variação da excentricidade tem duração aproximada
de 100.000 anos, significando que no futuro as estações do ano podem ter
características distintas das atuais, como foram no passado. (AYOADE,
1986).
A precessão dos equinócios refere-se ao movimento do planeta
em forma de pião. O movimento completo tem duração de 22.000 anos.
Climatologia2
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unidade 1
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unidade 2
Hoje temos equinócios ocorrendo em março e setembro, e solstícios, em
junho e dezembro. No intervalo de tempo acima citado, as estações do
ano migram de posição, equinócio tona-se solstício, e solstício torna-se
equinócio.
A obliquidade do plano de órbita da Terra também é variável, em um
intervalo de tempo de 41.000 anos. Hoje, a obliquidade da órbita terrestre
é de 23° 27’ 30”. Todavia, como visto na figura 7, a variação dela vai de
21,5° a 24,5°. Estando as estações do ano intimamente relacionadas à
inclinação do eixo da Terra, quanto maior a inclinação, maior a diferença
entre as estações; quanto menor a inclinação, menor a diferença entre as
estações. (AYOADE, 1986).
No que se refere às causas extraterrestres, o principal fator é a
variação de energia eletromagnética advinda do Sol que chega até a Terra.
Como discutido na unidade I, essas variações referem-se à ciclicidade
das atividades nucleares do Sol. As órbitas dos planetas do sistema solar
também alteram a energia solar que chega até a Terra. Conforme Ayoade
(1986), o principal interesse da ciência em relação ao Sol tem sido as
manchas solares. Vejamos a figura 8:
Figura 8 – Número médio mensal de manchas, 1750 / 20005
A figura 8 demonstra uma ciclicidade de aumento e diminuição de
manchas solares, variações que interferem tanto nas temperaturas como
5
Fonte: Disponível em: http://astro.if.ufrgs.br/esol/suncycles.gif. Acesso em: 24 fev.
2009.
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unidade 2
nos percentuais de umidade distribuída na superfície da Terra, fazendo
as características climáticas flutuarem neste período.
SEÇÃO 3
História do planeta e do clima
Nosso planeta tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos. De forma
lenta e gradual, a superfície da Terra se resfriou e solidificou, formando e
individualizando a atmosfera. Desde então, o planeta passou por períodos
de aquecimento e resfriamento.
Mesmo estando o planeta em um período interglacial, houve, no
decurso de sua história, o predomínio de uma temperatura atmosférica
superior a 15 °C. Nos períodos de aquecimento foram predominantes um
número menor de áreas emersas, desertos e um nível oceânico superior
em dezenas de metros do atual. (SERRA, 1954).
De toda a história do planeta, o que é mais conhecido são os últimos
500 / 600 milhões de anos. Isso ocorre devido ao fato de que os registros de
climas passados dificilmente são encontrados em rochas pré-cambrianas.
Vejamos a tabela 3:
Tabela 3 – Flutuações das superfícies dos mares e terras emersas6
6
Adaptado de TARDY, Yves. Geoquímica Global: oscilações climáticas e evolução do
meio ambiente desde quatro bilhões de anos. In: Estudos Avançados, vol. 11, n. 30,
1997.
Climatologia2
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unidade 2
Como visto por Yves Tardy (1997), registros que datam do cambriano
demonstram que as áreas referentes a espelho d’água e superfície de terra
mudaram, comprovando a variação da temperatura da atmosfera (quanto
maior a temperatura, menor possibilidade de congelamento da água,
maior espelho d’água; quanto menor a temperatura, maior possibilidade
de congelamento da água, menor área de espelho d’água). Contudo,
diversos registros apontam para temperaturas e totais de umidade maiores
quando regredimos na história do planeta (Figuras 9 e 10):
Figura 9 – Paleomapa e média de temperatura global7
Figura 10 – Temperatura média global a partir da Era Mesozoica8
A figura 9 e mais especificamente a 10 demonstram a temperatura
média da atmosfera nos últimos 100 milhões de anos. A linha tracejada
é uma projeção para os próximos 400 anos, a partir da grande utilização
de combustíveis fósseis e com a duplicação dos níveis de CO2
na
7
Fonte: http://www.lakepowell.net/sciencecenter/geologic%20global%20temp.jpg.
Acesso em: 24 fev. 2009.
8
Idem.
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unidade 2
atmosfera9
.
Alguns autores apontam para várias glaciações que aconteceram na
história do planeta, como também uma gama de períodos de ocorrência.
Adalberto Serra (1954) relaciona que a história do planeta viu a passagem
de quatro glaciações, no Proterozoico Inferior (750 milhões de anos),
Proterozoico Superior e Pré-Cambriano (500 milhões de anos), no
Carbonífero Superior (250 milhões de anos) e no Quaternário (período
atual). Cristopher Scotese (2008)10
indica cinco grandes períodos de
glaciação (Figura 9). Ayoade (1986), baseado em Brooks (1949), defende
que houve três períodos de glaciação, durante o Pré-Cambriano, Permiano
e Pleistoceno.
Tal variação de proposições refere-se a diferentes técnicas e métodos
utilizados. Assim, quanto mais voltamos no tempo, mais conjecturais
e menos factuais tornam-se as teorias. Mas todos concordam com a
existência de um grande período de glaciação no último milhão de anos,
durante o Pleistoceno. Vejamos a figura 1111
que demonstra a relação
entre concentração de CO2
e temperatura nos últimos 400 mil anos.
Figura 11 – Concentração de CO2 e Ciclos Glaciais12
9
Fonte: CROWLEY, T. J., Are there any satisfactory geologic analogues for a future gree-
nhouse warming? Journal of Climate, vol 3, p. 1282-1292, 1990. [http://www.lakepowell.
net]
10
Disponível em: http://www.scotese.com. Acesso em: 24 fev. 2009.
11
Adaptado de:  http://maps.grida.no/library/files/storage/26_large.jpg. Acesso em: 25
fev. 2009.
12
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d2/Atmospheric_CO2_with_gla-
ciers_cycles.gif Acesso em: 25 fev. 2009.
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No último milhão de anos, aconteceram quatro grandes glaciações:
Glaciação Nebraska – Günz; Glaciação Kansas – Mindel; Glaciação
Illinois – Riss; Glaciação Wisconsin – Würm. Segundo Ayoade (1986), o
último período de glaciação continental terminou entre 22.000 e 14.000
anos, quando se iniciou o recuo das geleiras. Entre sete e cinco mil anos,
a temperatura era maior que a atual. Todavia, nos últimos cinco mil anos a
temperatura declinou, com momentos de anomalias há 2.800 e 350 anos.
O último período com temperaturas baixas ocorreu entre anos de 1550 e
1850, denominado pequena idade do gelo.
Nosso conhecimento das alterações climáticas globais nasce
da justaposição de um conjunto de fontes de informação, incluindo a
arqueologia, antropologia, fontes documentais e registros instrumentais,
que têm demonstrado a variação de elementos climáticos, temperatura
e umidade, em várias partes do planeta, nos últimos 10.000 anos. Em
comparação com os dados do último milhão de anos, estaríamos em um
período interglacial (Figura 11), de duração desconhecida.
Sugerimos que você acesse a plataforma Moodle e assista aos vídeos
Segredos do Sol I, II, III, IV e V.
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unidade 2
Através da plataforma Moodle, no link Ciclos de Milankovitch, assista à animação que demonstra
as causas astronômicas de alterações do clima do planeta Terra e, após, leia o texto Aquecimento
Global: uma impostura científica, de Marcel Leroux. A seguir, elabore um texto, argumentando seu
posicionamento sobre a temática Aquecimento Global: causa natural ou resultado da ação humana?
Além do interesse para a Climatologia Geográfica, os períodos glaciais e suas influências são
elementos importantes também para as análises geomorfológicas das paisagens naturais. Veja, por
exemplo, que a maior parte da morfologia atual do planeta Terra é decorrente do período Quaternário
(PENTEADO, 1983; SALGADO-LABOURIAU, 1994). Também esses períodos climáticos vão influenciar
a paisagem natural no que tange aos seus biomas e consequentemente é um fator essencial na
Biogeografia. (AB’SÁBER, 2003).
Leituras Complementares
TARDY, Yves. Geoquímica Global: oscilações climáticas e evolução do meio ambiente desde quatro
bilhões de anos. Estudos Avançados, vol. 11, n. 30, 1997.
VANZOLINI, Paulo Emílio. Paleoclimas e especiação em animais da América do Sul tropical. Estudos
Avançados, vol. 6, n. 15, 1992.
Vimos nesta unidade que a atmosfera é altamente dinâmica. As diferenciações referem-se
tanto ao tempo como ao clima, mudanças que se apresentam como flutuações, como ciclos ou como
alterações de fato e que podem ir de anos a milhões de anos.
Essa multiplicidade de possibilidades e de variabilidades são sempre provenientes tanto
de fatores internos à própria dinâmica da atmosfera, como de fatores externos a ela, sistema este
constituído da relação entre energia proveniente do Sol, distribuição através da atmosfera e interação
entre os elementos do clima.
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Classificações
climáticas e seus
critérios
OBJETIVO DE APRENDIZAGEM
Compreender as classificações climáticas e seus critérios.■■
ROTEIRO DE ESTUDOS
SEÇÃO 1– Temperatura, precipitação e vegetação como elementos de■■
classificação dos climas
SEÇÃO 2 – Classificação de Köppen – Geiger■■
SEÇÃO 3 – Classificação de Arthur Strahler■■
UNIDADEIII
Almir Nabozny
Marcio Jose Ornat
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Para início de conversa
O clima é uma importante informação geográfica, influenciando
tanto os tipos de solo e vegetação, como as distribuições e as variações das
atividades de uso da terra no planeta. A engenharia tem proporcionado a
alteração da utilização de áreas que até então eram inóspitas, como por
exemplo, várias localidades no semiárido brasileiro. (Consultar na história
do pensamento geográfico o debate em torno das ideias de ecúmeno e
anecúmeno.)
Todavia, essas alterações são via de regra seletivas, estando
relacionadas, ou a grandes investimentos do Estado, demandando um
custo social muito alto, ou à utilização de grandes volumes de capital,
direcionados à produção agro-industrial, visando ao mercado externo,
por exemplo.
O conhecimento científico construiu formas de classificação,
buscando transformar um conjunto de variáveis incompreensíveis em
espacialidades inteligíveis. Como visto por Blair1
(1942), o conceito de
clima é por demais complexo e abstrato. Não é alguma coisa que podemos
possuir ou calcular exatamente. Não é possível levar em consideração,
quando descrevemos um clima, todas as trocas entre os vários elementos
que o compõe. Desta forma, sempre temos que tornar simples e gerais as
características. (STRAHLER, 1974).
Mas se as classificações nos auxiliam na compreensão das
distinções climáticas da superfície da Terra, elas também produzem
alguns inconvenientes. O primeiro refere-se à representação cartográfica
das proposições de classificações. As linhas que separam climas com
características distintas não existem de fato, induzindo sempre o leitor do
documento cartográfico ao erro. Salvo em circunstâncias como bloqueios
orográficos, existem transições entre as características climáticas que
devem ser representadas por cores intermediárias.
Outra deficiência das classificações relaciona-se ao fato de que elas
sempre excluem os oceanos que, segundo Strahler, deveriam ser incluídos
nos esquemas gerais de classificação.
Assim, trataremos nesta unidade dos principais elementos utilizados
nas classificações climáticas mais usuais, como na de Arthur Strahler e
Wladimir Köppen.
1.
Apud STRAHLER. 1974.
Climatologia2
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Seção 1
Temperatura, precipitação e vegetação como
elementos de classificação dos climas
As linhas de temperatura (isotermas) e as linhas de latitude
colocam-se como aproximadamente paralelas, possibilitando uma
primeira classificação do clima global. Entretanto, em razão das distintas
características de massas de água e de terra, não podemos utilizar apenas
a temperatura como elemento preponderante na classificação do clima do
planeta. (STRAHLER, 1974). Uma aproximação pode ser visualizada na
figura 12:
Figura 12 – Temperatura das águas oceânicas / NOAA2
A temperatura não é o único, mas um importante elemento nas
classificações climáticas. Apenas a partir das temperaturas, podemos
definir três tipos climáticos: sem inverno de latitudes baixas; de latitudes
médias, com uma estação de verão e inverno; de latitudes altas sem
verão.
Para Strahler (1974), um clima sem inverno é aquele no qual em
nenhum mês as temperaturas são inferiores a 18 °C; um clima sem verão
seria aquele em que nenhum mês teria temperaturas superiores a 10 °C.
A utilização isolada da temperatura produz alguns graves
inconvenientes, como a ausência de distinção entre regiões desérticas e
úmidas. Assim, uma possibilidade de complementar a classificação seria
2.
Fonte: www.noaa.gov
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a precipitação. O total e a duração das chuvas têm grande importância
tanto nos tipos e distribuição de vegetação, como nos tipos de drenagem
e umidade do solo. (STRAHLER, 1974). Vejamos a figura 13:
Figura 13 – Pluviosidade Maranhão - 20053
Segundo a proposta de Blair (1942)4
, poderíamos classificar o clima
segundo a precipitação anual de determinado local, a partir das seguintes
categorias:
3
Fonte: http://www.nemrh.uema.br/meteoro/figuras/mapa_boletim05.jpg. Acesso em:
27 fev. 2009.
4
Apud STRAHLER, 1974.
Climatologia2
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Tabela 4 – Tipos Climáticos, segundo Blair (1942)
Tipo Climático Tipo de Precipitação Precipitação anual (mm)
Árido Escassa 0 - 250
Semiárido Rápida 250 - 500
Subúmido Moderada 500 - 1000
Úmido Forte 1000 - 2000
Muito úmido Muito Forte Acima de 2000
Considerando que a figura 13 fosse da precipitação anual do
Maranhão, o estado, segundo a classificação de Blair5
, teria dois tipos
climáticos, um árido e um semiárido. Uma representação cartográfica
desta forma de classificação iria coincidir com a distribuição espacial da
precipitação anual.
Mas, igualmente à utilização da temperatura como elemento
isolado, a classificação, a partir da pluviosidade, agruparia em uma
mesma categoria duas áreas com características completamente distintas,
ou seja, climas árticos e climas desérticos. Assim, uma classificação que
leva em consideração essas deficiências, agrupa tanto temperatura como
pluviosidade. (STRAHLER, 1974).
Outros elementos que auxiliam na classificação dos tipos climáticos
são a vegetação e os solos. As plantas devem se adaptar às mudanças
climáticas, ou melhor dizendo, são adaptadas aos totais de temperatura
e pluviosidade as quais são indicadores muito importantes, assim como
os solos.
Mas tanto um quanto outro apresentam inconvenientes, referentes à
interdependência entre eles. Sabemos que tanto a formação da vegetação
como a do solo dependem das intensidades de temperatura e umidade.
O desenvolvimento das coberturas vegetais tem relação com os tipos de
solo, com sua granulometria e componentes químicos; do mesmo modo, a
formação dos solos depende, além do clima, da intensidade de declividade
do terreno, da vegetação e do embasamento geológico.
Na próxima seção demonstraremos as soluções encontradas e as
classificações do clima global realizadas por Strahler e Köppen-Geiger.
5
BLAIR, Thomas A. Climatology, General and Regional. New York: Prentice-Hall, 1942.
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Seção 2
Classificação de Köppen – Geiger6
(sistema
empírico - quantitativo)
Segundo Strahler (1974), o primeiro teórico que classificou os
climas globais utilizando dados de temperatura e pluviosidade, com o
ajustamento das linhas limites e com a utilização da distribuição dos
tipos de vegetação conhecidos, foi o professor Wladimir Köppen, da
Universidade de Graz, em 1918. A sistemática da classificação de Köppen
é estritamente empírica, baseando-se em dados de séries temporais de
temperatura e pluviosidade. Este tipo de classificação não leva em conta
pressão atmosférica, massas de ar, ventos, frentes frias.
Como afirmado por Strahler, tal classificação ganhou popularidade
em razão da obtenção dos dados de temperatura e pluviosidade; não é
uma atividade complicada, pois não demanda equipamentos sofisticados
e operadores especializados.
As principais categorias e suas subdivisões referem-se aos seguintes
critérios7
:
A – Climas tropicais chuvosos: mês mais frio, com temperatura
superior a 18 °C; a precipitação anual é maior que a
evapotranspiração.
B – Climas secos: evapotranspiração potencial média anual
maior que a precipitação média anual. Não existe excedente de
água. Assim, nenhum rio forma-se nestas áreas.
C – Climas temperados chuvosos e quentes: mês mais frio
com temperaturas entre -3 °C e 18 °C. O mês mais quente
possui temperatura média maior que 10 °C. Estação de verão e
inverno bem definidos.
D – Clima frio com neve - floresta: mês mais frio
6
A classificação climática de Köppen-Geiger, mais conhecida por classificação climática
de Köppen, é o sistema de classificação global dos tipos climáticos. Foi proposta pelos
idos de 1900 pelo climatologista alemão Wladimir Köppen, tendo sido por ele aperfeiço-
ada entre 1918-1927. Em 1936, foram publicadas novas versões, preparadas em colabo-
ração com Rudolf Geiger (daí o nome Köppen-Geiger).
7
Fonte: AYOADE, 1986.
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com temperatura menor que – 3 °C e 10 °C. Mês mais
moderadamente quente com temperatura média acima de 10
°C. Estações de Verão e Inverno bem definidas.
E – Climas polares: mês mais quente com temperatura média
menor que 10 °C. O mês mais quente em ET (Tundra) tem
temperatura entre 0 e 10 °C. O mês mais quente em EF (Neve
e gelos perpétuos) tem temperatura menor que 0 °C.
O significado de cada uma das segundas letras utilizadas está
relacionado a distribuição sazonal de precipitação, como veremos a
seguir:
f – nenhuma estação seca, úmido todo o ano (A, C, D);
m – de monção, com breve estação seca e com chuvas intensas
durante o resto do ano (A);
w – chuva de verão (A, C, D);
S – estação seca de verão (B);
W – estação seca de inverno (B).
Características adicionais de temperatura:
a – verão quente: o mês mais quente tem temperatura média maior
do que 22 °C;
b – verão moderadamente quente: o mês mais quente tem
temperatura média inferior a 22 °C;
c – verão breve e moderadamente frio, menos que quatro meses:
tem temperatura média maior do que 10 °C;
d – inverno muito frio: o mês mais frio tem temperatura média menor
que -38 °C.
Nas regiões áridas (BW e BS):
h – quente, temperatura média anual maior que 18 °C;
k – moderadamente frio, temperatura média anual menor do que
18 °C.
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Ayoade (1986) aponta que o modelo de Köppen, proposto em
1900, revisado em 1918, substancialmente, relaciona clima à vegetação,
e também a modelos matemáticos que definiam os tipos climáticos. O
primeiro mapa apresentado pelo autor era respaldado pelo fisiólogo da
vegetação, o francês Alphonse de Candolle.
No modelo atualizado de 1918, Köppen deu maior relevância
à sazonalidade de temperaturas e pluviosidade. Nessa classificação
existem cinco tipos climáticos baseados nas variações de temperatura,
que são subdivididos em outras classes segundo critérios de pluviosidade
e de características específicas de temperatura. A inter-relação entre as
categorias de classificação produziu 24 tipos climáticos demonstrados a
seguir:
Tabela 5 – Tipos Climáticos Köppen8
1° 2° 3° Descrição
A CLIMAS TROPICAIS CHUVOSOS
A f Clima tropical chuvoso de floresta
A w Clima de savana
A m Clima tropical de monção
B CLIMAS SECOS
B S h Clima quente de estepe
B S k Clima frio de estepe
B W h Clima quente de deserto
B W k Clima frio de deserto
C CLIMAS TEMPERADOS CHUVOSOS E QUENTES
C f a Úmido em todas as estações, verão quente
C f b Úmido em todas as estações, verão moderadamente quente
C f c Úmido em todas as estações, verão moderadamente frio e curto
C w a Chuva de verão, verão quente
C w b Chuva de verão, verão moderadamente quente
C s a Chuva de inverno, verão quente
C s b Chuva de inverno, verão moderadamente quente
D CLIMA FRIO COM NEVE - FLORESTA
D f a Úmido em todas as estações, verão quente
D f b Úmido em todas as estações, verão frio
D f c Úmido em todas as estações, verão moderadamente frio e curto
D f d Úmido em todas as estações, inverno intenso
D w a Chuva de verão, verão quente
D w b Chuva de verão, verão moderadamente quente
D w c Chuva de verão, verão moderadamente frio
D w d Chuva de verão, inverno intenso
E CLIMAS POLARES
E T Tundra
E F Neve e gelo perpétuos
8
Fonte: AYOADE, 1986, p. 232-3.
Climatologia2
61
unidade 1
61
unidade 3
Vale ressaltar algumas questões, buscando evitar enganos de
compreensão. O que tem mais relevância na classificação não são as
classes criadas, mas as categorias nas quais se propõem classificar os
climas no planeta.
Prova disso é que, desde a proposição de Köppen, no começo do séc.
XX, várias tentativas foram realizadas com o objetivo de refinar o mapa-
múndi da classificação climática de Köppen-Geiger. Peel et al. (2007)
aponta que, no final do séc. XX, outros autores também buscaram refinar
geograficamente o mapa de Köppen-Geiger, a partir de novos dados de
temperatura e precipitação. 	Três propostas são salientadas por Peel:
– Kalvova et al. (2003) utilizou as unidades de pesquisa climática
(University of East Anglia) com dados entre 1961-1990, apresentando um
mapa dos cinco principais tipos climáticos de Köppen (o tipo E dividido
em duas classes), com uma resolução espacial de 2.5° x 2,5° (lat. / long.).
– Gnanadesikan e Stouffer (2006) apresentaram um mapa de
quatorze tipos climáticos de Köppen, baseado nos mesmos dados de
Kalvova (2003), mas com uma resolução espacial de 5° x 5° (lat. / long.).
– O mais completo mapa climatológico mundial de Köppen-
Geiger, produzido até o final do séc. XX, foi o de Kottek et al. (2006), que
apresentou uma resolução de 0,5° x 0,5° (lat. / long.), baseando-se tanto
nas mesmas fontes de Kalvova (2003), como nas informações do Global
Precipitation Climatology Centre (GPCC) VASClimO. vo1. 1, do período de
1951–2000.
Todas as três perspectivas acima são construídas com períodos
limitados (1961-1990 e 1951-2000). Peel et al. (2007) busca, a partir disso,
atualizar o mapa da classificação mundial do clima de Köppen-Geiger,
baseado em todo o período.
A fonte dos dados utilizados por Peel et al. (2007) são 4.279 estações
de monitoramento de temperatura e precipitação (Figura 14), localizadas
nos Estados Unidos, no sul do Canadá, no nordeste do Brasil (apenas
precipitação), Europa, Índia (apenas precipitação), Japão e leste da
Austrália. As áreas desérticas, polares e algumas regiões tropicais, como a
África subsariana, a Arábia Saudita, Austrália Central, o norte do Canadá,
norte da Rússia e da região amazônica do Brasil tiveram uma escassa
densidade de estações.
UniversidadeAbertadoBrasil
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unidade 1
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unidade 3
Figura 14 – Localização das Estações de Temperatura com 30 ou mais valores para cada
mês. T only = apenas dados de temperatura; P + T = tanto dados de precipitação como
de temperatura9
Estas estações apresentavam informações que variavam de 30 a 299
gravações por mês em relação à precipitação, e de 30 a 297 relacionadas
à temperatura. Os períodos mais representativos de temperatura foram
de 1923 a 1993, e de precipitação, de 1909 até 1991.
Como resultado desse trabalho, são propostos 29 tipos climáticos
divididos em: três tropicais (Af, Am e Aw), quatro áridos (BWh, BWk, BSh
e BSk), oito temperados (Csa, Csb, Cfa, Cfb, Cfc, Cwa, Cwb e Cwc), doze
frios (Dsa, Dsb, Dsc, Dsd, Dfa, Dfb, Dfc, Dfd, Dwa, Dwb, Dwc e Dwd)
e dois polares (ET e EF). Vejamos a seguir os mapas de classificação
climática de Köppen-Geiger que nasceram a partir dessa proposição:
Figura 15 – Classificação
Climática Köppen –
Geiger / África10
9
Fonte: PEEL et al. 2007.
10
Idem.
Climatologia2
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unidade 1
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Figura 16 – Classificação Climática Köppen – Geiger / Europa – Oriente Médio11
Figura 17 – Classificação Climática Köppen – Geiger / Ásia12
11
Idem.
12
Idem.
UniversidadeAbertadoBrasil
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unidade 3
Figura 18 – Classificação Climática Köppen – Geiger / América do Norte – Central13
Figura 19 – Classificação Climática Köppen – Geiger / América do Sul14
13
Idem.
14
Idem.
Climatologia2
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unidade 3
Figura 20 – Classificação Climática Köppen – Geiger / Austrália15
AlgumascríticassãodirecionadasaKöppen,comoaausênciadeuma
categoria subúmida, por ser mais empírica do que genética, pela ausência
de justificativa para a utilização de diversos critérios matemáticos, pelo
uso de critérios rígidos e pela escassez de observações em diversas partes
do planeta. (AYOADE, 1986).
Todavia, muitas das críticas ocorreram na primeira metade do século
XX. Houve significativos avanços relacionados a essa classificação,
conforme demonstrado no esforço de vários pesquisadores como Kalvova
et al. (2003), Gnanadesikan e Stouffer (2006), Kottek et al. (2006), além
de Peel et al. (2007).
Apenas os trabalhos relacionados, dentro de um considerável corpo
de reflexão, demonstram a pertinência dessa classificação com seus
critérios, tanto para a pesquisa como para o ensino de Geografia. Tal
classificação busca, para além das críticas recebidas, conceber o clima
como um fenômeno geográfico, possuindo uma dimensão espacial, uma
espacialidade que é constituída, entre outras coisas, pelo clima, mas
também constituinte dele.
15
Idem.
UniversidadeAbertadoBrasil
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unidade 1
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unidade 3
Seção 3
Classificação de Arthur Strahler (sistema
explicativo - descritivo)
Acirculaçãoglobaldaatmosfera,relacionadaàcirculaçãodasmassas
de ar, com suas informações de origem e comportamento, proporciona
princípios de compreensão das causas do tempo e suas variações.
Segundo Strahler (1974), esse conhecimento deve ser empregado na
compreensão dos climas mundiais, não nos limitando apenas a utilizar
dados de temperatura e precipitação.
Para o autor, os critérios mais produtivos de classificação climática
são aqueles que buscam as origens dos fenômenos. Segundo ele, o sistema
de classificação denominado genético, coloca-se à frente de qualquer
critério, pois se propõe a explicar o próprio sistema classificatório,
colocando-se como explicativo.
Strahler é claro na diferenciação do que ele chama de empírico–
quantitativo (conforme a classificação de Köppen) em relação ao seu
posicionamento explicativo – descritivo. Em suma, sistema explicativo –
descritivo é uma explicação “razoável e científica da existência de grupos
e subgrupos climáticos de Köppen”. (STRAHLER, 1974, p. 243).
A classificação de Strahler está baseada na natureza, no movimento
e nas características das massas de ar, a partir das suas origens. A figura
21 demonstra o esquema da movimentação das massas de ar, ilustrando
os três principais grupos climáticos estabelecidos por Strahler (1974),
enquanto a 22 mostra a espacialidade da classificação dos climas de
Strahler.
Dentre os três grupos climáticos, o Grupo I inclui as regiões
geradoras equatoriais e tropicais. Os climas que possuem essa localização
são controlados por células subtropicais de alta pressão, que são regiões
de subsidência do ar. Estes climas estão, via de regra, determinados pelas
massasdeartropicaiseequatoriais.OGrupoIIéumaáreaondeasrelações
entre massas de ar com características distintas são muito intensas, com
influência tanto de massas de ar tropicais como polares. As interferências
relacionam-se às estações, não sendo nenhuma predominante. A área
relacionada ao Grupo III é influenciada preponderantemente por massas
de ar polares e árticas – antárticas. Algumas áreas da Sibéria e do Canadá
Climatologia2
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unidade 1
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unidade 3
pertencem a este grupo, não tendo ocorrência no Hemisfério Sul.
Esse conjunto de relações constitui, para Strahler, quatorze tipos
climáticos (Figura 23), que têm relação aos tipos climáticos de Köppen,
demonstrados na tabela 6.
Figura 21 – Diagrama global ilustrando os fundamentos dos três principais grupos
climáticos16
16
Extraído de STRAHLER. 1974, p. 242.
UniversidadeAbertadoBrasil
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Figura 22 – Distribuição global da Classificação Climática de Strahler17
17
Extraído de STRAHLER. 1974, p 244.
Climatologia ii
Climatologia ii
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Climatologia ii
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Climatologia ii

  • 1. pONTA gROSSA - PARANÁ 2009 Almir Nabozny Marcio José Ornat EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Licenciatura em GeografiaGeografiaCLIMATOLOGIA 2
  • 2. Pró-Reitoria de Assuntos Administrativos Ariangelo Hauer Dias - Pró-Reitor Pró-Reitoria de Graduação Graciete Tozetto Góes - Pró-Reitor Divisão de Educação a Distância e de Programas Especiais Maria Etelvina Madalozzo Ramos - Chefe Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância Leide Mara Schmidt - Coordenadora Geral Cleide Aparecida Faria Rodrigues - Coordenadora Pedagógica Sistema Universidade Aberta do Brasil Hermínia Regina Bugeste Marinho - Coordenadora Geral Cleide Aparecida Faria Rodrigues - Coordenadora Adjunta Edu Silvestre Albuquerque - Coordenador de Curso Silvia Méri Carvalho - Coordenadora de Tutoria Colaborador Financeiro Luiz Antonio Martins Wosiak Colaboradora de Planejamento Silviane Buss Tupich Projeto Gráfico Anselmo Rodrigues de Andrade Júnior CRÉDITOS João Carlos Gomes Reitor Carlos Luciano Sant’ana Vargas Vice-Reitor Colaboradores em EAD Dênia Falcão de Bittencourt Jucimara Roesler Colaboradores de Informática Carlos Alberto Volpi Carmen Silvia Simão Carneiro Adilson de Oliveira Pimenta Júnior Juscelino Izidoro de Oliveira Júnior Osvaldo Reis Júnior Kin Henrique Kurek Thiago Luiz Dimbarre Thiago Nobuaki Sugahara Colaboradores de Publicação Rosecler Pistum Pasqualini - Revisão Vera Marilha Florenzano - Revisão Anselmo Rodrigues de Andrade Júnior - Diagramação Ceslau Tomaczyk Neto - Ilustração Colaboradores Operacionais Edson Luis Marchinski Joanice de Jesus Küster de Azevedo João Márcio Duran Inglêz Kelly Regina Camargo Mariná Holzmann Ribas UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância - NUTEAD Av. Gal. Carlos Cavalcanti, 4748 - CEP 84030-900 - Ponta Grossa - PR Tel.: (42) 3220-3163 www.nutead.uepg.br 2009 Todos os direitos reservados ao Ministério da Educação Sistema Universidade Aberta do Brasil N117c Nabozny, Almir Climatologia 2 / Almir Nabozny e Marcio José Ornat. Ponta Grossa : UEPG/NUTEAD, 2009. 99p.il. Licenciatura em Geografia – Educação a distância. 1. Clima e o ser humano. 2. Clima - evolução. 3. Classificações climáticas. I. ornat, Marcio José. II. T. CDD : 551.4 Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Processos Técnicos BICEN/UEPG.
  • 3. APRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL Olá, estudante Seja bem vindo! Certamente, neste período do curso você já se sente mais preparado para enfrentar os desafios desta modalidade educacional (EaD). Com certeza, também já percebeu que estudar a distância significa muita leitura, organização, disciplina e dedicação aos estudos. A educação a distância é uma das modalidades educacionais que mais cresce hoje no Brasil e no mundo. Ela representa uma alternativa ideal para alunos–trabalhadores, que necessitam de horários diferenciados de estudo e pesquisa, para cumprir a contento tanto seus compromissos profissionais como suas obrigações acadêmicas. Também é uma alternativa ideal para as populações dos municípios distantes dos grandes centros universitários, contribuindo significativamente para a socialização e democratização do saber. As novas tecnologias da informação e da comunicação estão cada vez mais presentes em nossas vidas, desafiando os educadores a inserir-se nesse “mundo sem fronteiras” que é a realidade virtual. Sensível a esse novo cenário, a UEPG vem desenvolvendo, desde o ano de 2000, cursos e programas na modalidade de educação a distância, e para tal fim, investindo na capacitação de seus professores e funcionários. Dentre outras iniciativas, a UEPG participou do Edital de Seleção UAB nº 01/2006- SEED/MEC/2006/2007 e foi contemplada para desenvolver seis cursos de graduação e quatro cursos de pós-graduação na modalidade a distância pelo Sistema Universidade Aberta do Brasil. Isso se tornou possível graças à parceria estabelecida entre o MEC, a CAPES, o FNDE e as universidades brasileiras, bem como porque a UEPG, ao longo de sua trajetória, vem acumulando uma rica tradição de ensino, pesquisa e extensão e se destacando também na educação a distância. Os cursos ofertados no Sistema UAB, apresentam a mesma carga horária e o mesmo currículo dos nossos cursos presenciais, mas se utilizam de metodologias, materiais e mídias próprios da educação a distância que, além de facilitarem o aprendizado, permitirão constante interação entre alunos, tutores, professores e coordenação. Esperamos que você aproveite todos os recursos que oferecemos para facilitar o seu processo de aprendizagem e que tenha muito sucesso nesse período que ora se inicia. Mas, lembre-se: você não está sozinho nessa jornada, pois fará parte de uma ampla rede colaborativa e poderá interagir conosco sempre que desejar, acessando nossa Plataforma Virtual de Aprendizagem (MOODLE) ou utilizando as demais mídias disponíveis para nossos alunos e professores. Nossa equipe terá o maior prazer em atendê-lo, pois a sua aprendizagem é o nosso principal objetivo. EQUIPE DA UAB/ UEPG
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  • 5. SUMÁRIO PALAVRAS DOS PROFESSORES ■■ 7 OBJETIVOS e ementa■■ 9 Oclima e o ser humano 11 SEÇÃO 1 -■■ Relações entre climas e seres humanos 12 SEÇÃO 2 -■■ Clima e conhecimento popular 17 SEÇÃO 3 -■■ Clima, atividades humanas e alteração climática 20 SEÇÃO 4 -■■ Sociedade e clima urbano 25 A evolução do clima 35 SEÇÃO 1 -■■ Mudanças climáticas e tempo 36 SEÇÃO 2 -■■ Possíveis causas das mudanças climáticas 41 SEÇÃO 3 -■■ História do planeta e do clima 46 Classificações climáticas e seus critérios 53 Seção 1 -■■ Temperatura, precipitação e vegetação como elementos de classificação dos climas 55 Seção 2 -■■ Classificação de Köppen – Geiger (sistema empírico - quantitativo) 58 Seção 3 -■■ Classificação de Arthur Strahler (sistema explicativo - descritivo) 66 Oclima: planeta Terra, Brasil e o Paraná 73 Seção 1 -■■ Regimes Climáticos Globais 74 SEÇÃO 2 -■■ Regimes Climáticos: Brasil e Paraná 80 PALAVRAS FINAIS 9■■ 3 REFERÊNCIAS 9■■ 5 NOTAS SOBRE OS AUTORES 9■■ 9
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  • 7. PALAVRAS DOS PROFESSORES Prezado estudante! Damos as boas-vindas a você em mais esta caminhada. Na disciplina de Climatologia I, você trabalhou com um conjunto de conhecimentos fundamentais ao ensino da Geografia, tais como a compreensão do planeta Terra, enquanto um sistema, constituído por subsistemas, em que a atmosfera é um deles. Dentro do sistema de entradas e saídas de energia (input e output), o Sol foi tratado como um elemento fundamental na manutenção da vida na Terra, nossa fonte primária de energia. Além destas questões, foram abordados os elementos meteorológicos, os fatores climáticos e os elementos do clima. Neste livro de Climatologia II, enfocaremos as relações entre clima e seres humanos, passando pelo conhecimento popular relacionado ao clima e pela discussão sobre as possíveis alterações climáticas, culminando nas reflexões sobre clima urbano. Analisaremos a evolução do clima, das classificações e dos tipos climáticos existentes no planeta, no Brasil e no Paraná. Assim, convidamos você para esta nova trajetória. Bons estudos!
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  • 9. OBJETIVOS e ementa Objetivo Geral Criar um esteio que auxilie você, educando, na apreensão da importância da disciplina de Climatologia II para o ensino e estudo da Geografia. Com a apropriação do conteúdo deste material, espera-se que você adquira competênciatantonacompreensãodosfenômenosenvolvendooclima,quanto na aplicação destes conhecimentos no ensino e na pesquisa geográfica. Objetivos específicos Apreender os conhecimentos climatológicos.■■ Reconhecer a importância dos conhecimentos climatológicos no ensino da■■ Geografia. Aplicar os conhecimentos climatológicos no ensino e pesquisa geográfica.■■ Ementa A Evolução do clima. Critérios para as classificações climáticas. As classificações climáticas de W. Köppen, de Arthur Strahler e de Lysia Bernardes. O clima no Paraná, no Brasil e no Mundo. Climatologia urbana. O clima e o homem.
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  • 11. Climatologia2 11 unidade 1 O clima e o ser humano OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Relacionar clima e seres humanos.■■ ROTEIRO DE ESTUDOS SEÇÃO 1 – Relações entre climas e seres humanos■■ SEÇÃO 2 – Clima e conhecimento popular■■ SEÇÃO 3 – Clima, atividades humanas e alteração climática■■ SEÇÃO 4 – Sociedade e clima urbano■■ UNIDADEI Almir Nabozny Marcio Jose Ornat
  • 12. UniversidadeAbertadoBrasil 12 unidade 1 Para início de conversa O cerne desta unidade é o tratamento das possíveis relações entre aspectos climáticos e humanos. Na história da humanidade, o conhecimento científico tem contribuído para a melhoria das condições de vida. Um desses aspectos é a minimização das ações intempéricas embora o próprio desenvolvimento científico/humano regido pela lógica da dominação da natureza, tenha intensificado os resultados de algumas ações “naturais”. Citemos, como exemplo, o que causará uma forte chuva convectiva em um grande sítio urbano tal qual o da capital do estado de São Paulo (enchentes, alagamentos, etc.). Além desses pontos, tem-se fomentando na comunidade científica um “espírito de clarividência”, como nas palavras do geógrafo Milton Santos1 , uma virtude que se adquire pela intuição, mas sobretudo através dos estudos. Busca-se a partir do conhecido no presente, ou do passado, projetar um futuro. Esta é uma das possibilidades e uma das potencialidades da Climatologia, como subsídio aos estudos geográficos: compreender e projetar para o futuro as consequências climáticas das relações entre seres humanos e a superfície da Terra. SEÇÃO 1 Relações entre climas e seres humanos O clima é um dos principais agentes em vários processos existentes no planeta Terra. Tem interferência nos processos geomorfológicos, na formação dos solos, no crescimento e desenvolvimento das plantas. Fugindo de uma relação causalística e determinista, o avanço do conhecimento tem demonstrado que o clima proporciona potencialidades aos grupos sociais. Essas potencialidades referem-se às atividades realizadas que buscam a reprodução desses grupos, como indústria, agricultura, comércio e serviços. (AYOADE, 1986). 1 Fonte: Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá. Dire- ção: Sílvio Tendler, Caliban Produções Cinematográficas Ltda, 2007.
  • 13. Climatologia2 13 unidade 1 O clima pode ser considerado tanto sob perspectivas positivas como negativas. Entretanto, via de regra, os grupos sociais o têm considerado apenas a partir de seus aspectos negativos, pois a relação entre clima e seres humanos vai se fazer visível apenas quando aquele interfere na reprodução das atividades destes. Como afirmado por Ayoade (1986), os seres humanos são vulneráveis a variações climáticas, podendo suas atividades se ajustarem ou se desajustarem na relação aos eventos climáticos. Um exemplo seria o ocorrido entre os meses de outubro e novembro de 2008, no vale do Itajaí, em Santa Catarina, onde dos 61 dias do bimestre, 49 foram chuvosos, fenômeno denominado pelos climatólogos como “evento anormal”, que culminou com a morte de mais de 120 pessoas2 . Outro exemplo é o do furacão Katrina3 , que no dia 29 de agosto de 2005, atingiu o sul dos Estados Unidos. A cidade de New Orleans foi a mais prejudicada. Em todo o evento, mais de mil pessoas morreram e os prejuízos foram de dezenas de bilhões de dólares. A vulnerabilidade a estes tipos de eventos é a suscetibilidade de determinados grupos sociais em relação a fenômenos naturais de grande magnitude, como precipitações intensas, ciclones, furacões, movimentações de massa, alagamentos e enchentes, etc. De forma contrária, Ayoade (1986) denomina de resiliência a capacidade de resistênciadedeterminadosgrupossociaisemseprotegerdeadversidades climáticas. O autor aponta cinco possibilidades de vulnerabilidade dos grupos sociais (1986, p. 288): I. quanto mais sua atividade econômica depender dos fatores de produção sensíveis ao clima; II. quanto maior for a variabilidade e a não dependência de certas variáveis climáticas essenciais, como precipitação e temperatura; III.quanto mais baixo for seu nível de reserva de alimentos e outros materiais; IV. quanto menos desenvolvida for a capacidade do seu sistema de transportes em deslocar suprimentos de áreas de excedentes para áreas de déficits; V. quanto menos preparada estiver a sociedade para lidar com impactos climáticos diversos. 2 .Fonte: www.yousol.com. Acesso em: 18 fev. 2009. 3 Fonte: www.metsul.com. Acesso em: 19 fev. 2009.
  • 14. UniversidadeAbertadoBrasil 14 unidade 1 Da mesma forma, Ayoade (1986, p. 288-9) enumera três elementos que possibilitariam a resistência dos grupos sociais: I. existência de acúmulo de reservas de alimentos e outros materiais; II. capacidade embutida nos projetos de infraestrutura, como suprimento de água e força; III. controle de recursos financeiros, materiais, tecnologia e transportes, com o objetivo de mitigar o evento climático. Podemos classificar as relações de interferência entre clima e seres humanos em dois grupos de ação. O primeiro demonstrado na interferência das atividades humanas em relação ao clima e nas discutidas alterações climáticas; o segundo é a interferência do clima nas atividades humanas. Conforme visto, em eventos catastróficos, as interferências são inúmeras, interrompendo completamente a atividade de milhares de pessoas, e gerando a evacuação de grandes áreas, como em New Orleans (EUA) e no vale do Itajaí (SC-Brasil). Mas em eventos de normalidade climática, será que o clima teria força determinante de interferência nos processos sociais ou no comportamento humano? Buscamos nos distanciar de uma espécie de determinismo geográfico, o qual apregoa a interferência da temperatura, umidade e vento no “vigor físico e mental” das pessoas, tratando os seres humanos como meros elementos passivos das alterações climáticas. Para este tipo de afirmação, as variações climáticas e a ocasião de ocorrênciadeextremosdeumidade,temperaturaequantidadedeoxigênio na atmosfera, por exemplo, teriam poder de interferir na capacidade e disposição para o trabalho mental. Há uma visão etnocêntrica que vê o clima como uma força a: influenciar as emoções e o comportamento do homem. Por exemplo, os crimes, as rebeliões, as loucuras e outras explosões emocionais, individuais ou grupais, parecem alcançar seu máximo durante uma temporada muito quente ou desagradável ao homem. (CRITCHFIELD, 1974 apud AYOADE, 1986, p. 290).
  • 15. Climatologia2 15 unidade 1 Essa perspectiva teve grande influência de um dos paradigmas que caracterizaram a geografia no final do séc. XIX. Como visto por Corrêa (2007), os intelectuais que a defendiam afirmavam que características ambientais, notadamente as climáticas, determinavam o comportamento do homem, influenciando substancialmente em seu desenvolvimento. Todavia, cabe ressaltar que essa é uma questão bastante antiga na história das ciências. Para Pereira (2006), muitos dos debates-cernes da ciência geográfica, tal qual o do determinismo, têm correspondentes nas obras de Heródoto (valentia dos guerreiros e dificuldade do meio natural), Hipócrates (diferença do meio e evolução física dos indivíduos), Platão (fortalecimento e fraqueza do Estado e sua correspondência entre a continentalidade e a maritimidade) e Aristóteles (relação da densidade da pólis com sua condição de autossuficiência), premissa essa que poderia ser também inter-relacionada com a querela possibilista (outro debate fundamental na Geografia). Teriam mais êxito então os Estados que tivessem “climas mais propícios”. Este caminho de reflexão, denominado de determinismo ambiental, na Geografia teve influência das ideias de Lamarck e de Darwin, sobre hereditariedade de caracteres, sobrevivência e adaptação face às características ambientais. Tais ideias naturalistas chegaram até as ciências sociais através de seu defensor, filósofo inglês Herbert Spencer. Com suas ideias de superioridade e inferioridade, o determinismo ambiental justificava, a partir do pressuposto de povos mais e menos desenvolvidos, a expansão territorial, por meio da criação de colônias de exploração na África e de ocupação de áreas temperadas. Como nas palavras de Corrêa (2007, p. 10): Narealidade,odeterminismoambientalconfigura uma ideologia, a das classes sociais, países ou povos vencedores, que incorporam as pretensas virtudes e efetivam as admitidas potencialidades do meio natural onde vivem. Justificam, assim, o sucesso, o poder, o desenvolvimento, a expansão e o domínio. Não é de se estranhar, pois, que na Grécia da Antiguidade se atribuíssem às características do clima mediterrâneo o progresso e o poderio de seu povo em face dos asiáticos que viviam em áreas caracterizadas pela invariabilidade anual das temperaturas. Muito mais tarde, no final do séc. XIX, seriam outras as características climáticas consideradas como
  • 16. UniversidadeAbertadoBrasil 16 unidade 1 favoráveis ao crescimento intra e extraterritorial. Transforma-se assim em natural, portanto fora do controle humano, uma situação que é econômica e social, histórica, portanto, denominada imperialismo. Assim, funda-se uma correspondência causalística entre natureza e comportamento humano, sendo o primeiro termo determinante do segundo. As alcunhas fator e condição geográfica, relacionadas a clima, relevo, vegetação, são heranças da ideologia determinista. (CORRÊA, 2007). Consideramos que o clima tem efeito nas atividades dos seres humanos, em relação à facilidade ou dificuldade de realização de determinadas atividades, como na agricultura, na comunicação, nos transportes, na habitação, e também no que se refere à saúde dos grupos sociais. Mas esses efeitos, de forma nenhuma, têm relação determinante com estas questões. Funcionam como um fator, em meio a tantos outros, como distribuição de renda, faixa etária, etnia, gênero, elementos sociais e culturais, etc. O clima não tem interferência no funcionamento do cérebro, muito menos no comportamento grupal dos seres humanos, como em uma relação causal entre aumento da temperatura e número de homicídios. Consideramos que o que interfere realmente são outros aspectos da vida Estes significados têm se colocado como reflexo, meio e condição da reprodução dos grupos sociais (HOEFLE, 1998). Dentre estes elementos, o conhecimento climatológico, científico ou não, é de fundamental importância. Na próxima seção trataremos da relação entre climatologia e conhecimento popular. Outras perspectivas têm sido vistas por Francisco Mendonça, o qual disserta tanto sobre a relação entre clima e doenças, como entre clima e violência. Segundo o autor, o clima impacta nas sociedades, repercutindo nas condições humanas de saúde. Da mesma forma, o autor faz uma análise da interação entre o clima e a criminalidade urbana no Brasil. Mendonça chama a atenção para este campo do conhecimento (interações clima/saúde humana – clima/violência), que tem voltado a ser de interesse dos geógrafos hodiernamente. Um contraponto para a reflexão de Mendonça nas discussões sobre geografia e saúde pode ser encontrado em Josué de Castro, em seu livro Geografia da Fome, no qual o autor, dentre várias outras questões, disserta sobre as relações entre doenças e fome, a partir do mapeamento de áreas alimentares e das carências nutricionais do Brasil.
  • 17. Climatologia2 17 unidade 1 SEÇÃO 2 Clima e conhecimento popular As secas têm sido uma das principais características do nordeste brasileiro e, segundo Folhes e Donald (2007), ocorrem em uma área de aproximadamente 900 mil km², sendo o Ceará o estado com maior extensão dentro dessa área denominada Bolsão Trópico Semiárido (SUDENE – atual ADENE). A relação do sertanejo dessa região com a escassez de água durante gerações produziu um tipo de conhecimento apoiado no acúmulo de observações. Conforme salientado pelos autores, a seca é o centro de sua estratégia de sobrevivência. Mesmo que existam previsões climáticas resultantes de alta tecnologia, como através do INPE (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial) e da FUNCEME (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos), existe uma pequena utilização pelos agricultores das informações desses sistemas. Por outro lado, o cotidiano do sertanejo cearense é estruturado pela “superstição e pela crendice”. São chamadas “experiências” os prognósticos resultantes destas observações e, “profetas da chuva” as pessoas capazes de interpretar os sinais dos céus e traduzi-los em previsões meteorológicas. Essas informações, nascidas do senso comum, são referenciadas por Folhes e Donald (2007) como elementos que dão credibilidade aos dados dos sistemas meteorológicos produzidos por procedimentos técnico- científicos. O trabalho realizado pelos autores foi desenvolvido a partir de 484 depoimentos de moradores de seis cidades4 do estado do Ceará, culminando em uma classificação dos fenômenos da natureza na relação com o clima e a possibilidade de precipitações, segundo o discurso do sertanejo. As observações que o sertanejo faz sempre revelam como será o clima do próximo ano e dizem respeito à interpretação de fatos da natureza, 4 Itarema, Guaraciaba do Norte, Boa Viagem, Perambu, Barbalha, Limoeiro do Norte.
  • 18. UniversidadeAbertadoBrasil 18 unidade 1 relacionados a previsões empíricas do clima. Para Folhes e Donald (2007), os depoimentos dos sertanejos revelam um rico universo de previsões de clima e tempo, ligadas a grupos de “experiências”. Os discursos coletados neste trabalho foram reunidos pelos autores em quatro grupos: observação de animais;• comportamento da vegetação;• posição de estrelas, lua, astros, forma de nuvens, marés e• ventos; crenças religiosas.• Segundo os autores, o comportamento dos animais tem a ver com a chegada das chuvas ou das secas. No conjunto de falas dos sertanejos, são elencadas mais de dez espécies de animais, desde insetos, pássaros, roedores e peixes, até grandes mamíferos. As formigas são as mais lembradas, sendo que sua presença indica períodos chuvosos e sua ausência, períodos de seca. Em relação aos pássaros, é observada a posição do ninho, cuja frente estando direcionada para oeste denota forte probabilidade de período chuvoso e, para leste, de período seco. Da mesma forma, o canto insistente dos pássaros no começo de cada ano revela grande possibilidade de período chuvoso. Outra observação interessante está ligada à existência de filhotes de tatus em tocas, indicando período chuvoso e, na sua ausência, o período será seco. Nas regiões litorâneas e ribeirinhas, as previsões estão relacionadas à presença de caranguejos e peixes. As plantas também constam do grupo de elementos observados que possibilitam a previsão das características climáticas futuras. Aspectos como florescimento e frutificação, produção ou ausência de resina após o corte de árvores indicam, segundo a fala dos sertanejos, a presença ou ausência de períodos chuvosos. O florescer do mandacaru, por exemplo, é sinal de chuva no sertão. Além desta outras plantas são citadas, como o cipó-vermelho, o pau d’arco, o buriti, o juazeiro, o cumaru, o umbuzeiro, a carnaúba, o flamboyant, a mangueira, a laranjeira e o jasmim. (FOLHES e DONALD, 2007). Na maioria das vezes, um bom florescimento e frutificação é indício de período chuvoso. Em relação aos fenômenos atmosféricos, merece destaque nas
  • 19. Climatologia2 19 unidade 1 entrevistas a faixa estreita de nuvens vistas nos primeiros dias do ano, ao amanhecer, denominada de barra de nuvens, ou a observação da primeira lua cheia de janeiro. A visualização da estrela D’Alva é tão importante para o sertanejo quanto a Lua e a direção dos ventos. Previsões climáticas também estão associadas aos “dias santos”, como 6 de janeiro (Reis), 20 de janeiro (São Sebastião), 2 de fevereiro (Nossa Senhora das Candeias), 19 de março (São José), 8 de dezembro (Nossa Senhora da Conceição) e 21 de dezembro (São Tomé). Sobre o dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, Folhes e Donald, (2007, p. 28) salientam que: Contam os agricultores que a experiência (das pedras de sal) deve ser feita em jejum no dia 12 de dezembro, ou seja, na véspera do dia santo. Expostas ao sereno da noite, o sertanejo coloca sobre o telhado ou qualquer outra superfície lisa, três pedras de sal que representam os meses de janeiro, fevereiro e março. A pedra de sal que amanhecer mais molhada representa o mês do início das chuvas (...). Os autores apontam que, além de buscar descrever os fenômenos climáticos, as falas dos sertanejos produzem um sentido de realidade, atribuindo significado a esses fenômenos que ocorrem, ao mesmo tempo em que os interpretam. Nas palavras dos autores, as “experiências” realizadas pelos “profetas das chuvas” são multidimensionais, servindo a um amplo conjunto de propósitos culturais. As previsões climatológicas, pelo contrário, são apenas destinadas à previsão do clima no futuro, deixando de lado outras questões, como práticas culturais, tamanho familiar, idade dos integrantes das famílias, etc. Diferente da ideia de imposição de um conhecimento às suas ações cotidianas, o conhecimento climatológico popular vai além de uma normatização e de uma antecipação de eventos futuros, colocando-se como uma possibilidade de compreensão de fenômenos naturais. Tais questões, em que o conhecimento (do) local se faz presente, buscam desvendar aquilo que Escobar (2005) denomina de conhecimento dos sistemas naturais. Inserem-se como outras possibilidades, propiciando- nos refletir para além das relações binárias entre natureza e cultura e
  • 20. UniversidadeAbertadoBrasil 20 unidade 1 valorizar outras matrizes de racionalidade. (PORTO GONÇALVES, 2002). Esses modelos locais de conhecimento evidenciam a ligação de grupos sociais ao seu espaço, concebido enquanto uma entidade multidimensional, resultante de inúmeras práticas e relações. Assim, muitas vezes é preciso se valer da “tradução” dessas práticas do ponto de vista interpretativo, fora de nossas formas padronizadas da ciência, para se ter um melhor conhecimento no encontro com os outros. Destacamos ainda que Geertz (1998) argumenta que a “tradução” enquanto técnica explicativa não significa expressar-se acerca de nossas formas, mas mostrar a lógica das formas de expressão do “pesquisado”. Isso porque o senso comum não é um mero conhecimento desconexo, mas um sistema cultural, “um corpo de crenças e juízos, com conexões vagas, porém mais fortes que uma simples relação de pensamentos inevitavelmente iguais para todos os membros de um grupo que vive em comunidade”. (GEERTZ, 1998, p. 21). Fechamos esta seção destacando que a matriz de racionalidade do saber popular, ao mesmo tempo em que traz uma explicação para o sertanejo, como no exemplo trabalhado, traz pistas e (re)cria perguntas para o conhecimento climatológico sistemático. SEÇÃO 3 Clima, atividades humanas e alteração climática As atividades humanas,queiramos ounão,têm alterado as dinâmicas de funcionamento de vários sistemas existentes no planeta Terra. Essa ação tem se intensificado concomitantemente ao desenvolvimento do modo de produção capitalista, tanto no aumento da produção de mercadorias, na diminuição do tempo de vida delas, denominado tempo de obsolescência, como na ampliação global de um consumo de massa. Todos os elementos existentes no planeta, e sua lógica de funcionamento, são vitais à reprodução da vida na Terra, incluindo a humana. Dentre os subsídios à reprodução da vida, está a estabilidade
  • 21. Climatologia2 21 unidade 1 de funcionamento e composição da atmosfera. As duas expressões-chave que se referem à questão são o efeito estufa e o aquecimento global. A expressão efeito estufa foi utilizada pela primeira vez durante o séc. XIX e, desde então, os cientistas têm se dividido entre os que defendem que o aquecimento global é produto de atividades humanas, e os que defendem sua origem natural (como o resultado de um conjunto de variações da radiação solar). Em razão da nossa estrela não ser totalmente estável, sua atividade de fusão lembra a chama de uma vela, afetando com sua variação o clima no planeta. (CAPOZZOLLI, 20045 ). Hoyt e Schatten (1997)6 afirmam, por exemplo, que o Sol é um dos agentes, senão o principal, nas recentes alterações climáticas associadas ao aquecimento global. Todavia, como salientado por Beckman e Mahoney (1998)7 , devemos ter parcimônia em abandonar a ideia do efeito estufa como responsável pelo aquecimento global, dada a complexidade das relações entre oceano-atmosfera e a produção de gases estufa a partir das indústrias e veículos. Por outro lado, para os defensores da responsabilidade do Sol no aquecimento global, estamos experimentando um aumento na constante solar e na variabilidade magnética. A principal hipótese que sustenta tais afirmativas é o fato de que os ciclos de maior atividade solar estariam relacionadosnãoaciclossolaresde11e22anos,masaumaescalatemporal da ordem de centenas de anos. (BECKMAN E MAHONEY, 1998). Esse foi o caso da denominada Mínima de Maunder, com duração entre os anos de 1645 e 1715, quando a atividade solar reduziu-se, havendo como consequência diminuição de temperaturas e escassez de chuvas. Essas questões revelam-se complicadas, colocando-se como uma armadilha para que forças, notadamente relacionadas a interesses petrolíferos, utilizem o aquecimento solar como uma desculpa para a não redução da emissão de gases estufa. Mesmo que existam variações solares a longo prazo, as alterações drásticas de concentração desses gases convertem-se em motivação para que aprofundemos a temática. 5 Fonte: CAPOZZOLI, Ulisses. A mídia de olho no ciclone. [30 mar. 2004]. www.observa- toriodaimprensa.com.br 6 HOYT, D. V.; SCHATTEN, K. H. The Role of the Sun in Climate Change, New York: Oxford Univ. Press, 1997. 7 BECKMAN, J; MAHONEY, T. The Maunder Minimum and Climate Change: Have Historical Records Aided Current Research? Library and Information Services in Astro- nomy III, ASP Conference Series, vol. 153, 1998. Disponível em: http://www.stsci.edu/ stsci/meetings/lisa3/beckmanj.html. Acesso em: 20 fev. 2009.
  • 22. UniversidadeAbertadoBrasil 22 unidade 1 Aquecimento global e efeito estufa O denominado efeito estufa é de fato um fenômeno natural no planeta Terra, que tem possibilitado a reprodução de um considerável número de espécies animais e vegetais. Há aproximadamente 200 anos, as atividades industriais passaram a liberar na atmosfera quantidades de gases estufa, notadamente dióxido de carbono, intensificando o fenômeno natural. Segundo Kenitiro Suguio (2008), a maioria da liberação de dióxido de carbono (Co2 ) refere-se às emissões norte-americanas (cerca de 23%). Os principais vilões são os combustíveis fósseis, como petróleo, carvão mineral e gás natural, constituindo 99% das emissões totais. Como visto no livro de Climatologia I, a atmosfera evoluiu, até a sua composição atual, desde a origem do planeta Terra. Nossa atmosfera primitiva, há cerca de 4,6 bilhões de anos, era composta por aproximadamente 97% de dióxido de carbono (Co2 ). A formação do calcário e a sedimentação de matérias orgânicas transformaram o teor de Co2 para 0,03%, produzindo uma atmosfera com 21% de oxigênio. O equilíbrio de 21% de oxigênio e 0,03% de dióxido de carbono tem produzido o efeito estufa natural, que é responsável pela temperatura média global de 15 °C. Um exemplo dado por Kenitiro Suguio (2008) é de que se a concentração de Co2 fosse de 0%, a temperatura média do planeta seria de aproximadamente -18 °C. Da mesma forma, a alteração do percentual para mais, ampliaria a possibilidade de maiores médias de temperaturas globais. Suguio (2008) alerta que anualmente são lançados na atmosfera cerca de: 20 bilhões de toneladas de Co• 2 (combustíveis fósseis); 7 bilhões de toneladas de Co• 2 (desmatamento acompanhado de decomposição de matéria orgânica no solo); 2 bilhões de toneladas de Co• 2 (respiração de 6 bilhões de habitantes). Estimativas apontam que o volume de Co2 na atmosfera alcança 0,035 %, podendo chegar a até 0,6 % em um futuro próximo. Assim, a temperatura global média poderia aumentar em 2 °C. A construção de
  • 23. Climatologia2 23 unidade 1 cenários futuros é uma atividade muito complicada, tendo em vista a plêiade de elementos em jogo no sistema, entretanto dados no passado da Terra mostram possibilidades. A partir de registros fósseis, supõe-se que na era Mesozoica, período de existência dos dinossauros, a temperatura média da Terra deveria ser de aproximadamente 25 °C. Essa foi uma fase de intensos movimentos crustais, com tectonismo e abalos sísmicos, cujas atividades exalaram um volume considerável de Co2 na atmosfera. A hipótese é de que este foi o motivo para o aquecimento da atmosfera, chegando ao ponto da maior parte da água existente no planeta estar no estado líquido ou gasoso. Para Suguio (2008, p. 19), os eventos relacionados ao efeito referem-se a(o): aumento de temperatura;• derretimento das calotas polares;• incremento de pluviosidade;• mudanças na umidade do solo;• mudanças em correntes oceânicas.• No último período glacial, entre 15 e 17 mil anos atrás, o total de geleiras em volume era três vezes maior que atualmente. Até nossos dias, cerca de 2/3 das geleiras derreteram. Previsões apontam que, caso as calotas polares derretam, o nível médio dos oceanos aumentaria em 50 metros, ficando muitas cidades litorâneas sob a água. Esseselementosmostramoquãofrágiléaestruturadefuncionamento da atmosfera, mas também quanto fervorosa é a discussão em relação ao aquecimento global. Entretanto, os climatólogos concordam que por menores que sejam as alterações, tanto em relação à temperatura como à composição da atmosfera, processos podem acontecer em cadeia, alterando todos os pontos do planeta. (Veja através da plataforma Moodle o link Mudança do Clima, mudanças de vidas).
  • 24. UniversidadeAbertadoBrasil 24 unidade 1 Deus ainda é brasileiro Por Aline Durães (...) Que a temperatura da Terra aumentou ninguém duvida. Nos últimos 100 anos, ela subiu, em média 0,74 °C. (...) entretanto não existe qualquer trabalho acadêmico que comprove a influência do homem sobre esse aquecimento. ‘Ainda não sabemos se o aumento da temperatura percebido hoje é um processo natural nas flutuações climáticas da Terra ou se é induzido pelo homem’, esclarece Nelson Fernandes, geógrafo e professor do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências (IGEO) da UFRJ. Nessesentido,outrasassociaçõessãofeitaserroneamente.Nemtodososfenômenos naturais decorrem do aumento da temperatura global. Os terremotos verificados recentemente no Brasil, por exemplo, não possuem qualquer relação com o clima. Da mesma forma, a atividade vulcânica não sofre influência das variações climáticas. Pelo contrário, erupções de alta intensidade lançam na atmosfera partículas de poeira que, por um período determinado de tempo, reduzem a entrada de luz solar na superfície e diminuem a temperatura local. (…) O aquecimento global influencia os movimentos da atmosfera e os do oceano; com o aumento da temperatura, mais energia é disponibilizada para os sistemas atmosférico e oceânico, ampliando a frequência e a intensidade dos ventos, das tempestades, dos ciclones, dos furacões, das ondas de frio e de calor. Esse aquecimento, no entanto, é imperceptível a qualquer pessoa, explica Isimar Santos, professor do Departamento de Meteorologia do IGEO. Segundo Isimar, ainda não há indicadores precisos que evidenciem os impactos do aquecimento global no clima brasileiro. Existem apenas projeções possíveis dessas consequências. O quarto relatório do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em abril do ano passado (2007), traçou diferentes cenários futuros do clima diante do aumento da temperatura da Terra. O modelo mais pessimista aponta uma alta de 6,1 °C ao longo do século XXI e prevê o fim de grande parte da Floresta Amazônica até 2080. (...) Todavia, há muitas críticas a esses relatórios. (...) O que pode acontecer? Certos impactos do aquecimento global já são consenso entre analistas. Um deles é a elevação dos índices de precipitação. Choverá mais, o que pode acarretar uma frequência maior dos deslizamentos de terra. Eles, entretanto, não vão acontecer de forma homogênea em toda a extensão do país. Capitais como Florianópolis, Belo Horizonte, Vitória, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, que já enfrentam problemas de erosão e movimentos de massa, serão mais afetadas. (…) Isso pode gerar consequências econômicas e causar uma série de mortes. Nelson lembra ainda que o acréscimo da pluviosidade afetará os rios. Com mais chuvas, estes receberão um volume extra de água e, consequentemente, precisarão alargar seus vales. Haverá erosão fluvial, e as populações que ocupam as margens serão diretamente prejudicadas. (…) A desertificação também pode ser uma das consequências do aquecimento da Terra. As secas seriam mais duradouras e teriam efeitos diretos sobre a vegetação
  • 25. Climatologia2 25 unidade 1 (...) a diminuição da vegetação teria efeito direto na produção de alimentos. O que pode gerar grandes conflitos fronteiriços. Tentativa de entrada de pessoas de países de capitalismo periférico para os centros detentores dos alimentos/países de capitalismo central (...). Um estudo encomendado pelo Pentágono comprovou que um dos principais problemas estratégicos a ser enfrentado pelos Estados Unidos da América com o aquecimento global será a imigração de contingentes humanos vindos do México, o que levou o país a tomar medidas para intensificar o controle de sua fronteira. Lucros do aquecimento Engana-se quem pensa que o aquecimento global será recebido da mesma forma por todas as regiões do planeta. Também está equivocado quem pensa que o aumento de temperatura da Terra trará apenas tragédias naturais (e sociais) e prejuízos econômicos. Isso porque se vislumbra para alguns países a possibilidade de obter lucros por conta das alterações climáticas. E o Brasil é um deles. Por ter considerável capacidade de produção de alimentos e reservas de água potável, o Brasil poderá comercializar esses bens com nações que estejam com suas economias abaladas por conta do aumento da temperatura da Terra. ‘Nossas reservas naturais de água, por exemplo, nos atendem plenamente há 500 anos e poderiam atender a outros países também. Basta que encontremos meios de transportar essa água. Podemos sim lucrar com a crise mundial, já que o Brasil terá o que os outros países precisam’, expõe Isimar Santos. Excertos extraídos: DURAES, Aline. Deus ainda é brasileiro? Jornal da UFRJ. Ano 4, n. 37, p. 18-19. Setembro de 2008. Leitura complementar: SANT’ANNA NETO, João Lima. Mudanças Climáticas e Aquecimento Global: um enredo entre a tragédia e a farsa. In: ANPEGE. (Org.). O Brasil e a América Latina. Rio de Janeiro: Lamparina, 2008, v. 1, p. 1-16. SEÇÃO 4 Sociedade e clima urbano As relações entre cidade e campo começaram a se alterar profundamente no séc. XX e culminaram com a aceleração da urbanização na década de 1970. O espaço urbano enquanto criação da sociedade coloca-se, nas palavras de Monteiro (2003), como o local de maior efetivação das relações
  • 26. UniversidadeAbertadoBrasil 26 unidade 1 entre sociedade e natureza. Segundo o autor, é a partir da criação de objetos e formas, buscando organizar a natureza, que a sociedade produz derivações do acúmulo dessas criações, como a organização morfológica e funcional da cidade, com seu sistema viário intra-urbano e inter-regional, transformando condições geo-ecológicas precedentes. Dentre as várias ações humanas, encontra-se a realização de aterros, represamentos e construções de reservatórios de água, eliminação de feições topográficas indesejáveis, etc. Outras intervenções ocorrem na alteração ou substituição das coberturas vegetais originais, com a implantação de parques, praças, jardins, etc. Quando somamos a esses fatores a própria dinâmica da população, realizando atividades, transformando, a partir de fábricas, elementos naturais em recursos sociais, ou mesmo envolvendo-se em atividades de serviço, a cidade torna-se o local por excelência do acontecimento de todos os resultados da maioria das alterações ambientais. Sua intensidade coloca-se como consequência da própria intenção de transformação da natureza, nas finalidades de reprodução social. Todo o período de desenvolvimento da urbanização na modernidade, segundo Mendonça (2003), está conectado ao surgimento do modo de produção capitalista (rever as temáticas relacionadas ao capitalismo nos livros de Geografia Econômica I e II). Se, em vários locais, as lógicas de funcionamento entre sistemas sociais e naturais foram observadas nos processos de planejamento e gestão, na maioria dessas espacialidades, todas as ações de objetivação voltam-se ao planejamento econômico. Como nas palavras do autor: Este procedimento moderno gera ambientes urbanos altamente nocivos – o ambiente atmosférico urbano constitui somente parte deles – a maioria dos habitantes das cidades no que concerne ao aparecimento de problemas relacionados às funções vitais e psicossociais dos citadinos, principalmente naqueles países caracterizados por um contexto socioeconômico complexo. (MENDONÇA, 2003, p. 177). Dentre os vários resultados dessas relações, como deslizamentos de massa, desmoronamentos, alagamentos, enchentes, e tantos outros, uma temática que vem já há algum tempo sendo pauta de discussão, tanto da
  • 27. Climatologia2 27 unidade 1 política, quanto da própria academia, é o clima, mais especificamente, o clima urbano. A porta de entrada das discussões envolvendo este clima foram os resultados das atividades humanas, referentes à qualidade do ar, na maioria das cidades. De modo geral, os primeiros estudos aconteceram no período da Revolução Industrial, na Inglaterra, e no momento em que a população urbana ultrapassava a rural, no Brasil, a partir da década de 1970. (MENDONÇA, 2003). O crescimento das cidades foi objeto de reflexão da climatologia urbana, na década de 1960, reflexões estas que se intensificaram, se multiplicaram na década de 1990 e se propunham a contribuir com a gestão e o planejamento urbanos brasileiros. Mendonça (2003) afirma que o principal caminho de estudo envolvendo a sociedade e o clima urbano foi a utilização da Teoria Geral dos Sistemas, as reflexões sobre dinâmica da atmosfera e as preocupações de alguns intelectuais com as interações entre atmosfera, o sítio e os espaços urbanos. A partir desses encaminhamentos, o clima urbano passou a ser estudado sob um ponto de vista mais holístico. A Teoria Geral dos Sistemas, também conhecida como T.G.S., nasceu com as reflexões do biólogo austríaco Ludwing von Bertalanffy, entre os anos de 1950 e 1968. Vários pressupostos estruturam essa teoria, entre eles a tendência de integração com as ciências sociais e naturais, integração esta que se orienta em direção a uma teoria dos sistemas, a qual pode ser uma maneira mais completa de compreensão tanto de fenômenos naturais como sociais, desenvolvendo princípios unificadores da ciência. Também os estudos do clima urbano em muitos casos se valeram da ideia de Ritmo Climático, desenvolvida principalmente na Climatologia Geográfica, difundida/ defendida no Brasil pelo geógrafo Carlos Augusto Figueiredo Monteiro, no âmbito das mudanças climáticas no espaço/tempo. Leituras Complementares CHRISTOFOLETTI, Antônio. Aspecto da análise sistêmica em Geografia. In: Revista Geografia. Rio Claro -SP. v. 3, n. 6, p.1-31. Outubro de 1978. ZAVATTINI, João Afonso. Estudos do clima no Brasil. Campinas-SP: Alínea. 2004. 398 p. Seguindo a perspectiva de interseccionalidade entre várias possibilidades de conhecimento em relação a um mesmo fenômeno, e de variações de aplicabilidade da T.G.S., os climatólogos urbanos, na interação com reflexões de urbanistas, integraram a climatologia urbana ao planejamento. Essa integração se fez a partir de três abordagens, que
  • 28. UniversidadeAbertadoBrasil 28 unidade 1 se tornaram tendências das pesquisas em clima urbano (MENDONÇA, 2003), a saber: Campo Termo-Hidrométrico• , no qual são enfatizados os estudos de ilhas de calor e de frescor urbano, do conforto/desconforto térmico, de inversões térmicas, etc. Campo Físico-Químico ou Dispersão• , voltado à análise da dinâmica do ar na sua interação com a cidade, destacando a poluição do ar, as chuvas ácidas, a relação entre a estrutura urbana e os ventos, etc. CampoHidrometeórico• ,relacionadoaoestudodasprecipitações urbanas e seus impactos, tais como os processos de inundação das cidades. Os trabalhos nesta área têm sido realizados tanto com dados de institutos de pesquisa, por exemplo o Sistema Meteorológico do Paraná (SIMEPAR), como por mini-abrigos termométricos móveis, pluviômetros, anemômetros e equipamentos de coleta de material particulado, distribuídos na malha viária do espaço urbano. Além desses dados, outras informações têm sido utilizadas pelos pesquisadores, como hipsometria e mapas de uso da terra. Segundo Mendonça (2003), a hipsometria influencia na variação térmica e barométrica. Em relação ao mapa de uso da terra, a variação dos tipos de cobertura de superfície interfere na intensidade do albedo. Outroelementoutilizadonacompreensãodoclimaurbanoéatécnica denominada Sky View Factor, que busca entender a importância das sombras dos edifícios, funcionando como canyons urbanos. Atualmente tem sido significativa a utilização de imagens de satélite: NOAA, Landsat e Spot (ver livro de Cartografia II). De modo geral, os estudos em climatologia urbana são descritos na tabela seguinte. Note-se que a maioria dos trabalhos realizados no Brasil referem-se às ilhas de calor, de frescor urbano, de conforto/desconforto térmico e de inversões térmicas, ficando em segundo lugar os processos de inundação e alagamento. Por último, os estudos de poluição do ar, de chuva ácida e da relação entre estrutura urbana e direção e intensidade de ventos.
  • 29. Climatologia2 29 unidade 1 Tabela 1 – Estudos de Clima Urbano no Brasil8 Campos do Clima Urbano Regiões Cidades Termo- higrométrico Físico - químico Hidro-meteórico Sudeste São Paulo/SP 8 7 10 Campinas/SP 1 S. J. Campos/SP 1 P. Prudente/SP 2 Rio Claro/SP 3 1 Piracicaba/SP 1 Limeira/SP 1 Jales/SP 1 Penápolis/SP 1 Sorocaba/SP 1 Lemes/SP 1 Rio de Janeiro/RJ 11 3 4 N. Friburgo/RJ 1 Petrópolis/RJ 1 Volta Redonda/RJ 1 Bangu/RJ 2 B. Horizonte/MG 3 Uberlândia/MG 4 1 3 J. de Fora/MG 1 3 Sul P. Alegre/RS 3 S. Maria/RS 1 Santa C. do Sul/RS 1 Florianópolis/SC 2 1 Blumenau/SC 1 Rio Negrinho/SC 1 Curitiba/PR 2 1 3 Londrina/PR 1 3 F. Beltrão/PR 2 Maringá/PR 2 Nordeste Salvador/BA 3 1 V. da Conquista/BA 1 Patos/PB 2 Campina Grande/PB 2 Paraibuna/PB 3 São Luís/MA 1 Fortaleza/CE 5 1 Terezina/PI 1 Centro- Oeste Brasília/DF 1 Goiânia/GO 2 1 Rondonópolis/MT 1 1 Cuiabá/MT 1 T. da Serra/MT 1 B. do Burguês/MT 1 Campo Grande/MS 1 Norte Belém/PA 3 3 Marabá/PA 1 Macapá/AP 1 Totais 79 20 40 8 Fonte: MENDONÇA, 2003, p. 185.
  • 30. UniversidadeAbertadoBrasil 30 unidade 1 Os principais trabalhos para Mendonça (2003) estão relacionados nas reflexões de: Gallego (1972), em• Tipo de tempo e poluição atmosférica no Rio de Janeiro: um ensaio de climatologia urbana; Tarifa (1977), em• Análise comparativa da temperatura e umidade na área urbana e rural de São José dos Campos (SP), Brasil; Sartori (1979), em• O clima de Santa Maria (RS): do regional ao urbano; Fonzar(1981),nareflexãosobre• Oprocessodeocupaçãoregional, o modelo urbano e o conforto térmico na Alta-Sorocabana: um teste aplicado a Presidente Prudente( SP); Sampaio (1981), em• Correlação entre uso do solo de ilhas de calor no ambiente urbano: o caso de Salvador; Lombardo (1989), em• A ilha de calor nas metrópoles: o caso de São Paulo; Dani (1982), em• Aspectos têmporo-espaciais da temperatura e umidaderelativaemPortoAlegreemjaneirode1982:contribuição ao estudo do clima urbano; Brandão (1987), em• Tendências e oscilações climáticas na área metropolitana do Rio de Janeiro; Monteiro e Severino (1990), em• O campo térmico na cidade de Florianópolis: primeiros experimentos; Gonçalves (1992), em• Impactos pluviais e desorganização do espaço urbano em Salvador (BA); Mendonça (1995), discutindo o• Clima e o planejamento urbano de cidades de porte médio e pequeno: proposição metodológica e sua aplicação à cidade de Londrina (PR); Sette (1996), estudando o• Clima urbano em Rondonópolis (MT); Brandão (1996), em• O clima urbano do Rio de Janeiro; Collishon (1998), em• O campo térmico da região metropolitana de Porto Alegre: análise a partir da interação entre as variáveis ambientais na definição do clima urbano; Danni-Oliveira (2000), analisando• A cidade de Curitiba e a poluição do ar: implicações de seus atributos urbanos e geo- ecológicos na dispersão de poluentes em período de inverno; Assis(2000),buscandocompreenderos• Impactosdaformaurbana na mudança climática: método para previsão do comportamento térmico e melhoria de desempenho do ambiente urbano.
  • 31. Climatologia2 31 unidade 1 Esses dezesseis trabalhos, em meio aos cento e trinta e nove demonstrados na tabela 1, comprovam a riqueza de possibilidades de abordagens envolvendo o clima urbano. Todavia, Mendonça (2003) nos alerta para o fato de que alguns encaminhamentos estão sendo deixados de lado nesses estudos, como o impacto de fortes ventos na estrutura urbana, as possíveis relações entre saúde e clima, as relações entre sistemas planetários e clima urbano (El Niño, por exemplo). Tais perspectivas ampliam as relações entre climatologia, planejamento e gestão urbanos, na interseção entre clima e desigualdades sociais, nas reflexões sobre impactos ambientais, apontando para a importância dos estudos de climatologia no cotidiano de todos, a partir de várias escalas e perspectivas. Sobretudo, para você, caro aluno, destaca- se efetivamente a Climatologia Geográfica (relação clima, sociedade, espaço geográfico e tempo), uma vez que o clima pelo clima é objeto de estudo da Meteorologia e não da Geografia. Leituras Complementares CASTRO, Josué de. Geografia da Fome. 10. ed. Rio de Janeiro: Antares Achiamé, 1980. MENDONÇA, Francisco. Aspectos da interação clima-ambiente-saúde humana: da relação sociedade-natureza à (in)sustentabilidade ambiental . RA’EGA, Curitiba, n. 4, p. 85-99, 2000. __________. Clima e criminalidade: ensaio analítico da correlação entre a criminalidade urbana e a temperatura do ar. Curitiba: Editora da UFPR, 2000. (No prelo). MENDONÇA, Francisco; MONTEIRO, Carlos Augusto de Figueiredo (Orgs.). Clima Urbano. São Paulo: Contexto, 2003. MOLION, Luiz Carlos. A Amazônia e o clima do globo terrestre. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro: vol. 52, n. 2, p. 89 – 94.1990. UNE, Mitiko Yanaga. Fatores Climáticos Influenciando a agricultura em Campo Grande. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro: vol. 41, n. 1-2, p. 3 – 31.1979. VASCONCELOS, Francisco de Assis Guedes de. Josué de Castro e a Geografia da Fome no Brasil. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro: vol. 24, n. 11, p. 2710-2717. 2008.
  • 32. UniversidadeAbertadoBrasil 32 unidade 1 Leia o texto As estrelas eram terrenas: antropologia do clima, da iconografia e das constelações Ticuna, de Priscila Faulhaber, que demonstra a relação entre antropologia e clima, em um estudo sobre mitos e ritos indígenas. O texto pode ser, em sala de aula, uma excelente estratégia de incentivação quando você for trabalhar com climatologia na Geografia. Acesse o texto através da plataforma Moodle. O clima tem se mostrado um agente importante em vários processos existentes no planeta Terra, por exemplo, na formação das paisagens naturais. Na relação com a humanidade, o clima tem funcionado não só como um obstáculo, mas também como uma amenidade às atividades humanas. Os posicionamentos que atribuem um papel final do clima em relação a doenças e comportamentos sociais são de fato novas roupagens para velhos discursos relacionados ao determinismo ambiental. A partir de outras visualizações, o clima tem se colocado como uma força da natureza que é interpretada pelo conhecimento científico também por comunidades tradicionais, estruturadas como um mundo de significados que dá sentido tanto a eventos atmosféricos, quanto à resiliência do sertanejo às intempéries do clima, por exemplo. Você observou também que o clima tem sido objeto de discussão científica, relacionada às alterações no final do último século e começo do atual, discussão que pendula entre as variações da atividade solar e a interferência da intensidade das atividades humanas na composição atmosférica, e, consequentemente, em seu funcionamento e dinâmica. Leia o texto As estrelas eram terrenas: antropologia do clima, da iconografia e das constelações Ticuna, de Priscila Faulhaber, que demonstra a relação entre antropologia e clima, em um estudo sobre mitos e ritos indígenas. O texto pode ser, em sala de aula, uma excelente estratégia de incentivação quando você for trabalhar com climatologia na Geografia. Acesse o texto através da plataforma Moodle
  • 35. Climatologia2 35 unidade 1 35 unidade 2 A evolução do clima OBJETIVO DE APRENDIZAGEM Compreender as fases e evolução do clima no planeta Terra.■■ ROTEIRO DE ESTUDOS Seção 1 – Mudanças climáticas e tempo■■ Seção 2 – Possíveis causas das mudanças climáticas■■ Seção 3 – História do planeta Terra e do clima■■ UNIDADEII Almir Nabozny Marcio Jose Ornat
  • 36. UniversidadeAbertadoBrasil 36 unidade 1 36 unidade 2 Para início de conversa Nesta unidade trataremos das alterações climáticas que ocorreram na história do planeta Terra. Assim, como em relação a diversos aspectos do Sistema Terra, o clima sofreu alterações profundas, desde a origem da Terra há aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Essas transformações referem-se tanto ao aquecimento como ao resfriamento da temperatura do planeta, com suas consequências, alterando os níveis marinhos e formando calotas de gelo e glaciações. SEÇÃO 1 Mudanças climáticas e tempo A atmosfera é dinâmica, mudando suas características tanto de local para local como em relação aos intervalos temporais avaliados. Ela é tão complexa que resultados de processos atmosféricos retornam alterando as causas (AYOADE, 1986), com a denominação de feedback. Assim, as mudanças atmosféricas podem ser resultantes de fatores internos ou externos a ela e referem-se sempre à escala a partir da qual são analisadas, diferindo-se entre tempo e clima. Mesmo que sejam termos associados, o tempo e o clima não são a mesma coisa. O tempo se relaciona ao estado da atmosfera em qualquer momento, incluindo nebulosidade, temperatura, precipitação, pressão atmosférica, etc. É o caso de um dia com muita chuva, quando dizemos que o tempo está chuvoso. A previsão do tempo relaciona-se à probabilidade de ocorrência de determinadas características em dado intervalo de tempo – via de regra tem intervalo máximo de dias, baseado em cálculos matemáticos. De forma distinta, o clima refere-se à média de características atmosféricas em um período de 30 anos. Quando falamos de previsão climática, estamos buscando prever possíveis alterações em determinada área do planeta. Quando falamos de clima, estamos tratando de uma divisão que classifica áreas do planeta com características aproximadas, como temperatura e precipitação. As principais classificações estão relacionadas a Wladimir Köppen e Arthur Strahler, assunto a ser tratado na unidade III. Assim, uma das principais dificuldades com relação aos estudos do clima no Brasil, refere-se à ausência de grandes sequências temporais relativas aos dados climáticos.
  • 37. Climatologia2 37 unidade 1 37 unidade 2 Constatamos que o tempo atmosférico é altamente dinâmico, sofrendo alterações em intervalos de horas. Apesar de o clima constituir- se em uma classificação de um intervalo de tempo maior, ele também sofre alterações, para as quais existe uma nomenclatura específica, como descrito a seguir (AYOADE, 1986): tendência climática: flutuações das características do clima;• ciclos climáticos: as flutuações climáticas se apresentam de• forma cíclica; mudança climática: as flutuações passam a acontecer de tal• forma que alteram as características do clima relacionado à determinada área. As alterações climáticas sempre estão relacionadas aos intervalos de tempo avaliados. Ayoade (1986, p. 206) propõe quatro escalas de alterações climáticas, a saber: variabilidade rápida, incluindo flutuações dentro de um período• menor que 30 – 35 anos; mudanças seculares que ocorrem em intervalos de 100 – 150• anos; mudanças que remontam milhares de anos;• variações na escala de milhões de anos.• Mas de que maneira podemos saber como era o clima no passado do planeta Terra? Para responder, várias técnicas são utilizadas, já que o conhecimento do clima que é anterior à história registrada, nasce de fontes indiretas por meio de indicadores biológicos, litogenéticos e morfológicos. Os indicadores biológicos referem-se a polens, fósseis e anéis de árvores (AYOADE, 1986). Os fósseis encontrados em depósitos sedimentares são datados com técnicas paleontológicas, sendo utilizados para determinação da duração temporal e extensão espacial das condições climáticas que favoreceram a existência de tais espécies. A mesma lógica estrutura a utilização de referenciais como polens e anéis de árvores, todavia a utilização dessa metodologia apresenta
  • 38. UniversidadeAbertadoBrasil 38 unidade 1 38 unidade 2 inconvenientes. Fósseis e polens são seletivamente preservados e podem não ser representativos da vegetação que existia na época indicada pela datação. Outra possibilidade é de que derivem, indicando condições climáticas de períodos anteriores. A utilização dos anéis de árvores refere-se à sua espessura – os mais espessos indicam condições climáticas adequadas ao crescimento da árvore, enquanto os finos apontam variação climática desfavorável. Há, porém, duas complicações: a primeira relaciona-se à possibilidade da sua utilização em um período recente e a segunda está respaldada no fato de que a espessura dos anéis refere-se também à idade da árvore, não estabelecendo nenhuma ligação com o clima. Os indicadores litogenéticos referem-se às rochas e suas características de formação (AYOADE, 1986), ou seja, referem-se aos varvitos (aluviões lacustres), evaporitos e processos de intemperismo, notadamente os de laterização. Os varvitos são camadas distintas que advém de materiais siltosos ou argilosos, depositados anualmente em lagos próximos a geleiras. O material de granulometria maior, de cor clara, deposita-se durante o verão, enquanto o material de granulometria fina de cor escura deposita-se no inverno. Cada faixa de material claro e escuro é uma varva, referente ao material depositado durante um ano. O número de varvas diz respeito ao número de anos necessários à formação do varvito, podendo ser estimado seu tempo de formação. Da mesma forma, a espessura das varvas pode ser utilizada para inferir alterações climáticas, que influenciaram a deposição das camadas (Figura 1). Obtemos a idade de uma rocha por uma técnica denominada datação, podendo ser relativa ou absoluta. A datação relativa refere-se à comparação de uma rocha com datação desconhecida a uma com datação conhecida. A datação absoluta utiliza o Carbono-14, presente em matéria orgânica morta. Com o passar do tempo, ele modifica a uma velocidade conhecida. Com a medição da alteração, pode-se determinar o tempo exato do fóssil.
  • 39. Climatologia2 39 unidade 1 39 unidade 2 Figura 1 – Depósito de Varvito1 Os evaporitos, comumente denominados depósitos de sal, só ocorrem em condições climáticas quentes e secas, quando a evaporação é maior que a precipitação. A existência de depósitos deste tipo de rocha em áreas úmidas indica um clima pretérito quente e seco. A laterita também é associada a climas sazonalmente úmidos, demonstrando um clima pretérito com tais características nas áreas de ocorrência dessas rochas. (AYOADE, 1986). As evidências morfológicas são muito variadas, como praias, dunas, morenas, eskers e terraços fluviais (Figuras 2 e 3): 1 Fonte: http://www.leonardokurcis.com.br/Itu-Parq.Varvito0008.jpg
  • 40. UniversidadeAbertadoBrasil 40 unidade 1 40 unidade 2 Figura 2 – Morena2 Figura 3 – Terraço3 As dunas sugerem climas pretéritos áridos; da mesma forma, morenas relacionam-se a glaciações no passado. Entretanto, feições 2 Fonte: http://www.igc.usp.br/glacial/imagem/glossario/21a.jpg 3 Fonte: http://miguelcorreia25.googlepages.com/Terraos.jpg/Terraos-large.jpg
  • 41. Climatologia2 41 unidade 1 41 unidade 2 geomorfológicas podem ser resultantes de processos distintos, como variações de débito de chuvas, não havendo ligação com mudanças climáticas. Como salientado por Ayoade (1986), o estudo de climas passados não pode utilizar indicativos isolados. Para o autor, o estudo de paleoclimas deve servir-se de triangulações de indicadores de climas passados. SEÇÃO 2 Possíveis causas das mudanças climáticas Sempre que falamos em alterações climáticas, temos que ter em mente o fato de que qualquer variação ou alteração não se refere apenas a relações simplistas de causa e efeito. Uma mudança do clima pressupõe também mudança na circulação geral da atmosfera, da qual o clima depende em sua grande parte. (AYOADE, 1986). Mas o clima não diz respeito apenas à atmosfera, envolve outros circuitos de troca de energia, como a litosfera, a hidrosfera e a biosfera. Também lembremos, como abordado em Climatologia I, a importância da relação entre clima e Sol. Vejamos a figura 4: Figura 4 – Sistema Climático Global. Fonte: AYOADE, 1986.
  • 42. UniversidadeAbertadoBrasil 42 unidade 1 42 unidade 2 De forma geral, as alterações climáticas dependem de dois circuitos de relação, ou da alteração desses dois circuitos: os componentes que formam o sistema climático, nas suas• existências e relações; as condições e interferências exteriores ao sistema climático.• Assim, três fatores são de fundamental importância na conjuntura climática de qualquer época, o total de energia que advém do Sol, que é recebida pelo sistema climático, a forma como essa energia é distribuída e absorvida pelo sistema e as formas de interação entre os vários elementos que compõem o sistema climático. (Figura 5). Se as alterações climáticas referem-se sempre à escala temporal a partir da qual elas são analisadas, então para cada tipo de alteração, referente a cada temporalidade, pressupõe-se uma forma de explicação científica. Ayoade (1986) salienta que é em razão disso que inexistem teorias completas que compreendam todas as alterações climáticas na história do planeta Terra. Todas as teorias que se propõem explicar as alterações climáticas podem ser categorizadas em três grupos, como visto na tabela 2 a seguir: Tabela 2 - TEORIAS E CAUSAS DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS A. Causas terrestres Migração polar e deriva continental1. Mudança na topografia da Terra2. Variações na composição atmosférica3. Mudanças na distribuição da superfície continental e hídrica4. Variações na cobertura de neve e gelo5. B. Causas astronômicas Mudanças na excentricidade da órbita terrestre1. Mudança na precessão dos equinócios2. Mudança na obliquidade do plano de eclíptica3. C. Causas extraterrestes Variação na quantidade de radiação solar (1. output solar) Variações na absorção da radiação solar exterior à atmosfera terrestre2. Fonte: AYOADE. 1986.
  • 43. Climatologia2 43 unidade 1 43 unidade 2 Dentre as perspectivas relacionadas às alterações climáticas, encontra-se um rol de fatores que se referem às causas terrestres. O total e a variação de áreas emersas resultariam em alterações na distribuição da energia advinda do Sol, com as quais a circulação atmosférica seria alterada, culminando seus impactos nas distribuições de temperatura e umidade sobre o globo. Além disso, a mudança de posição das extensões de terra produziria alterações no clima. Os processos endógenos de soerguimento da crosta, por exemplo, vulcanismo e alteração da topografia do relevo terrestre, teriam grande influência, como bloqueios orográficos, ou com a liberação de aerossóis pelos vulcões. Finalmente, as variações dos principais componentes atmosféricos (CO2 , O3 e vapor d’água) teriam importância nas mudanças climáticas. O equilíbrio deles seria responsável pela circulação de ar, distribuição de temperatura e umidade, e consequentemente manutenção da estabilidade dos climas terrestres. (AYOADE, 1986). Nesta causa, as atividades humanas exerceriam papel relevante, como visto na unidade I deste livro. Os fatores nomeados como causas astronômicas (ou Ciclos de Milankovitch4 ) referem-se à alteração da geometria de movimentação do planeta Terra no espaço sideral. Seus principais movimentos seriam a mudança da excentricidade da órbita terrestre, a precessão dos equinócios e a obliquidade do plano da eclíptica. (Figuras 5, 6 e 7). Figura 5 – Precessão dos Equinócios 4 Milutin Milankovitch desenvolveu no início do séc. XX a ideia da relação entre ciclos glaciais e alterações nos movimentos da Terra, que afetariam a radiação do Sol recebida pelo planeta.
  • 44. UniversidadeAbertadoBrasil 44 unidade 1 44 unidade 2 Figura 6 – Excentricidade da Órbita Terrestre Figura 7 – Obliquidade do Plano da Eclíptica As variações da excentricidade da órbita da Terra referem- se a alterações de sua distância em relação ao Sol. Quanto maior a excentricidade, maior é a diferença entre as estações do ano. Quanto menor, mais baixas serão as diferenças. Quando a Terra está mais próxima do Sol, no periélio (Figura 6), a quantia de energia que ele emite é 6% maior que no afélio. A variação da excentricidade tem duração aproximada de 100.000 anos, significando que no futuro as estações do ano podem ter características distintas das atuais, como foram no passado. (AYOADE, 1986). A precessão dos equinócios refere-se ao movimento do planeta em forma de pião. O movimento completo tem duração de 22.000 anos.
  • 45. Climatologia2 45 unidade 1 45 unidade 2 Hoje temos equinócios ocorrendo em março e setembro, e solstícios, em junho e dezembro. No intervalo de tempo acima citado, as estações do ano migram de posição, equinócio tona-se solstício, e solstício torna-se equinócio. A obliquidade do plano de órbita da Terra também é variável, em um intervalo de tempo de 41.000 anos. Hoje, a obliquidade da órbita terrestre é de 23° 27’ 30”. Todavia, como visto na figura 7, a variação dela vai de 21,5° a 24,5°. Estando as estações do ano intimamente relacionadas à inclinação do eixo da Terra, quanto maior a inclinação, maior a diferença entre as estações; quanto menor a inclinação, menor a diferença entre as estações. (AYOADE, 1986). No que se refere às causas extraterrestres, o principal fator é a variação de energia eletromagnética advinda do Sol que chega até a Terra. Como discutido na unidade I, essas variações referem-se à ciclicidade das atividades nucleares do Sol. As órbitas dos planetas do sistema solar também alteram a energia solar que chega até a Terra. Conforme Ayoade (1986), o principal interesse da ciência em relação ao Sol tem sido as manchas solares. Vejamos a figura 8: Figura 8 – Número médio mensal de manchas, 1750 / 20005 A figura 8 demonstra uma ciclicidade de aumento e diminuição de manchas solares, variações que interferem tanto nas temperaturas como 5 Fonte: Disponível em: http://astro.if.ufrgs.br/esol/suncycles.gif. Acesso em: 24 fev. 2009.
  • 46. UniversidadeAbertadoBrasil 46 unidade 1 46 unidade 2 nos percentuais de umidade distribuída na superfície da Terra, fazendo as características climáticas flutuarem neste período. SEÇÃO 3 História do planeta e do clima Nosso planeta tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos. De forma lenta e gradual, a superfície da Terra se resfriou e solidificou, formando e individualizando a atmosfera. Desde então, o planeta passou por períodos de aquecimento e resfriamento. Mesmo estando o planeta em um período interglacial, houve, no decurso de sua história, o predomínio de uma temperatura atmosférica superior a 15 °C. Nos períodos de aquecimento foram predominantes um número menor de áreas emersas, desertos e um nível oceânico superior em dezenas de metros do atual. (SERRA, 1954). De toda a história do planeta, o que é mais conhecido são os últimos 500 / 600 milhões de anos. Isso ocorre devido ao fato de que os registros de climas passados dificilmente são encontrados em rochas pré-cambrianas. Vejamos a tabela 3: Tabela 3 – Flutuações das superfícies dos mares e terras emersas6 6 Adaptado de TARDY, Yves. Geoquímica Global: oscilações climáticas e evolução do meio ambiente desde quatro bilhões de anos. In: Estudos Avançados, vol. 11, n. 30, 1997.
  • 47. Climatologia2 47 unidade 1 47 unidade 2 Como visto por Yves Tardy (1997), registros que datam do cambriano demonstram que as áreas referentes a espelho d’água e superfície de terra mudaram, comprovando a variação da temperatura da atmosfera (quanto maior a temperatura, menor possibilidade de congelamento da água, maior espelho d’água; quanto menor a temperatura, maior possibilidade de congelamento da água, menor área de espelho d’água). Contudo, diversos registros apontam para temperaturas e totais de umidade maiores quando regredimos na história do planeta (Figuras 9 e 10): Figura 9 – Paleomapa e média de temperatura global7 Figura 10 – Temperatura média global a partir da Era Mesozoica8 A figura 9 e mais especificamente a 10 demonstram a temperatura média da atmosfera nos últimos 100 milhões de anos. A linha tracejada é uma projeção para os próximos 400 anos, a partir da grande utilização de combustíveis fósseis e com a duplicação dos níveis de CO2 na 7 Fonte: http://www.lakepowell.net/sciencecenter/geologic%20global%20temp.jpg. Acesso em: 24 fev. 2009. 8 Idem.
  • 48. UniversidadeAbertadoBrasil 48 unidade 1 48 unidade 2 atmosfera9 . Alguns autores apontam para várias glaciações que aconteceram na história do planeta, como também uma gama de períodos de ocorrência. Adalberto Serra (1954) relaciona que a história do planeta viu a passagem de quatro glaciações, no Proterozoico Inferior (750 milhões de anos), Proterozoico Superior e Pré-Cambriano (500 milhões de anos), no Carbonífero Superior (250 milhões de anos) e no Quaternário (período atual). Cristopher Scotese (2008)10 indica cinco grandes períodos de glaciação (Figura 9). Ayoade (1986), baseado em Brooks (1949), defende que houve três períodos de glaciação, durante o Pré-Cambriano, Permiano e Pleistoceno. Tal variação de proposições refere-se a diferentes técnicas e métodos utilizados. Assim, quanto mais voltamos no tempo, mais conjecturais e menos factuais tornam-se as teorias. Mas todos concordam com a existência de um grande período de glaciação no último milhão de anos, durante o Pleistoceno. Vejamos a figura 1111 que demonstra a relação entre concentração de CO2 e temperatura nos últimos 400 mil anos. Figura 11 – Concentração de CO2 e Ciclos Glaciais12 9 Fonte: CROWLEY, T. J., Are there any satisfactory geologic analogues for a future gree- nhouse warming? Journal of Climate, vol 3, p. 1282-1292, 1990. [http://www.lakepowell. net] 10 Disponível em: http://www.scotese.com. Acesso em: 24 fev. 2009. 11 Adaptado de: http://maps.grida.no/library/files/storage/26_large.jpg. Acesso em: 25 fev. 2009. 12 http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d2/Atmospheric_CO2_with_gla- ciers_cycles.gif Acesso em: 25 fev. 2009.
  • 49. Climatologia2 49 unidade 1 49 unidade 2 No último milhão de anos, aconteceram quatro grandes glaciações: Glaciação Nebraska – Günz; Glaciação Kansas – Mindel; Glaciação Illinois – Riss; Glaciação Wisconsin – Würm. Segundo Ayoade (1986), o último período de glaciação continental terminou entre 22.000 e 14.000 anos, quando se iniciou o recuo das geleiras. Entre sete e cinco mil anos, a temperatura era maior que a atual. Todavia, nos últimos cinco mil anos a temperatura declinou, com momentos de anomalias há 2.800 e 350 anos. O último período com temperaturas baixas ocorreu entre anos de 1550 e 1850, denominado pequena idade do gelo. Nosso conhecimento das alterações climáticas globais nasce da justaposição de um conjunto de fontes de informação, incluindo a arqueologia, antropologia, fontes documentais e registros instrumentais, que têm demonstrado a variação de elementos climáticos, temperatura e umidade, em várias partes do planeta, nos últimos 10.000 anos. Em comparação com os dados do último milhão de anos, estaríamos em um período interglacial (Figura 11), de duração desconhecida. Sugerimos que você acesse a plataforma Moodle e assista aos vídeos Segredos do Sol I, II, III, IV e V.
  • 50. UniversidadeAbertadoBrasil 50 unidade 1 50 unidade 2 Através da plataforma Moodle, no link Ciclos de Milankovitch, assista à animação que demonstra as causas astronômicas de alterações do clima do planeta Terra e, após, leia o texto Aquecimento Global: uma impostura científica, de Marcel Leroux. A seguir, elabore um texto, argumentando seu posicionamento sobre a temática Aquecimento Global: causa natural ou resultado da ação humana? Além do interesse para a Climatologia Geográfica, os períodos glaciais e suas influências são elementos importantes também para as análises geomorfológicas das paisagens naturais. Veja, por exemplo, que a maior parte da morfologia atual do planeta Terra é decorrente do período Quaternário (PENTEADO, 1983; SALGADO-LABOURIAU, 1994). Também esses períodos climáticos vão influenciar a paisagem natural no que tange aos seus biomas e consequentemente é um fator essencial na Biogeografia. (AB’SÁBER, 2003). Leituras Complementares TARDY, Yves. Geoquímica Global: oscilações climáticas e evolução do meio ambiente desde quatro bilhões de anos. Estudos Avançados, vol. 11, n. 30, 1997. VANZOLINI, Paulo Emílio. Paleoclimas e especiação em animais da América do Sul tropical. Estudos Avançados, vol. 6, n. 15, 1992. Vimos nesta unidade que a atmosfera é altamente dinâmica. As diferenciações referem-se tanto ao tempo como ao clima, mudanças que se apresentam como flutuações, como ciclos ou como alterações de fato e que podem ir de anos a milhões de anos. Essa multiplicidade de possibilidades e de variabilidades são sempre provenientes tanto de fatores internos à própria dinâmica da atmosfera, como de fatores externos a ela, sistema este constituído da relação entre energia proveniente do Sol, distribuição através da atmosfera e interação entre os elementos do clima.
  • 53. Climatologia2 53 unidade 1 53 unidade 3 Classificações climáticas e seus critérios OBJETIVO DE APRENDIZAGEM Compreender as classificações climáticas e seus critérios.■■ ROTEIRO DE ESTUDOS SEÇÃO 1– Temperatura, precipitação e vegetação como elementos de■■ classificação dos climas SEÇÃO 2 – Classificação de Köppen – Geiger■■ SEÇÃO 3 – Classificação de Arthur Strahler■■ UNIDADEIII Almir Nabozny Marcio Jose Ornat
  • 54. UniversidadeAbertadoBrasil 54 unidade 1 54 unidade 3 Para início de conversa O clima é uma importante informação geográfica, influenciando tanto os tipos de solo e vegetação, como as distribuições e as variações das atividades de uso da terra no planeta. A engenharia tem proporcionado a alteração da utilização de áreas que até então eram inóspitas, como por exemplo, várias localidades no semiárido brasileiro. (Consultar na história do pensamento geográfico o debate em torno das ideias de ecúmeno e anecúmeno.) Todavia, essas alterações são via de regra seletivas, estando relacionadas, ou a grandes investimentos do Estado, demandando um custo social muito alto, ou à utilização de grandes volumes de capital, direcionados à produção agro-industrial, visando ao mercado externo, por exemplo. O conhecimento científico construiu formas de classificação, buscando transformar um conjunto de variáveis incompreensíveis em espacialidades inteligíveis. Como visto por Blair1 (1942), o conceito de clima é por demais complexo e abstrato. Não é alguma coisa que podemos possuir ou calcular exatamente. Não é possível levar em consideração, quando descrevemos um clima, todas as trocas entre os vários elementos que o compõe. Desta forma, sempre temos que tornar simples e gerais as características. (STRAHLER, 1974). Mas se as classificações nos auxiliam na compreensão das distinções climáticas da superfície da Terra, elas também produzem alguns inconvenientes. O primeiro refere-se à representação cartográfica das proposições de classificações. As linhas que separam climas com características distintas não existem de fato, induzindo sempre o leitor do documento cartográfico ao erro. Salvo em circunstâncias como bloqueios orográficos, existem transições entre as características climáticas que devem ser representadas por cores intermediárias. Outra deficiência das classificações relaciona-se ao fato de que elas sempre excluem os oceanos que, segundo Strahler, deveriam ser incluídos nos esquemas gerais de classificação. Assim, trataremos nesta unidade dos principais elementos utilizados nas classificações climáticas mais usuais, como na de Arthur Strahler e Wladimir Köppen. 1. Apud STRAHLER. 1974.
  • 55. Climatologia2 55 unidade 1 55 unidade 3 Seção 1 Temperatura, precipitação e vegetação como elementos de classificação dos climas As linhas de temperatura (isotermas) e as linhas de latitude colocam-se como aproximadamente paralelas, possibilitando uma primeira classificação do clima global. Entretanto, em razão das distintas características de massas de água e de terra, não podemos utilizar apenas a temperatura como elemento preponderante na classificação do clima do planeta. (STRAHLER, 1974). Uma aproximação pode ser visualizada na figura 12: Figura 12 – Temperatura das águas oceânicas / NOAA2 A temperatura não é o único, mas um importante elemento nas classificações climáticas. Apenas a partir das temperaturas, podemos definir três tipos climáticos: sem inverno de latitudes baixas; de latitudes médias, com uma estação de verão e inverno; de latitudes altas sem verão. Para Strahler (1974), um clima sem inverno é aquele no qual em nenhum mês as temperaturas são inferiores a 18 °C; um clima sem verão seria aquele em que nenhum mês teria temperaturas superiores a 10 °C. A utilização isolada da temperatura produz alguns graves inconvenientes, como a ausência de distinção entre regiões desérticas e úmidas. Assim, uma possibilidade de complementar a classificação seria 2. Fonte: www.noaa.gov
  • 56. UniversidadeAbertadoBrasil 56 unidade 1 56 unidade 3 a precipitação. O total e a duração das chuvas têm grande importância tanto nos tipos e distribuição de vegetação, como nos tipos de drenagem e umidade do solo. (STRAHLER, 1974). Vejamos a figura 13: Figura 13 – Pluviosidade Maranhão - 20053 Segundo a proposta de Blair (1942)4 , poderíamos classificar o clima segundo a precipitação anual de determinado local, a partir das seguintes categorias: 3 Fonte: http://www.nemrh.uema.br/meteoro/figuras/mapa_boletim05.jpg. Acesso em: 27 fev. 2009. 4 Apud STRAHLER, 1974.
  • 57. Climatologia2 57 unidade 1 57 unidade 3 Tabela 4 – Tipos Climáticos, segundo Blair (1942) Tipo Climático Tipo de Precipitação Precipitação anual (mm) Árido Escassa 0 - 250 Semiárido Rápida 250 - 500 Subúmido Moderada 500 - 1000 Úmido Forte 1000 - 2000 Muito úmido Muito Forte Acima de 2000 Considerando que a figura 13 fosse da precipitação anual do Maranhão, o estado, segundo a classificação de Blair5 , teria dois tipos climáticos, um árido e um semiárido. Uma representação cartográfica desta forma de classificação iria coincidir com a distribuição espacial da precipitação anual. Mas, igualmente à utilização da temperatura como elemento isolado, a classificação, a partir da pluviosidade, agruparia em uma mesma categoria duas áreas com características completamente distintas, ou seja, climas árticos e climas desérticos. Assim, uma classificação que leva em consideração essas deficiências, agrupa tanto temperatura como pluviosidade. (STRAHLER, 1974). Outros elementos que auxiliam na classificação dos tipos climáticos são a vegetação e os solos. As plantas devem se adaptar às mudanças climáticas, ou melhor dizendo, são adaptadas aos totais de temperatura e pluviosidade as quais são indicadores muito importantes, assim como os solos. Mas tanto um quanto outro apresentam inconvenientes, referentes à interdependência entre eles. Sabemos que tanto a formação da vegetação como a do solo dependem das intensidades de temperatura e umidade. O desenvolvimento das coberturas vegetais tem relação com os tipos de solo, com sua granulometria e componentes químicos; do mesmo modo, a formação dos solos depende, além do clima, da intensidade de declividade do terreno, da vegetação e do embasamento geológico. Na próxima seção demonstraremos as soluções encontradas e as classificações do clima global realizadas por Strahler e Köppen-Geiger. 5 BLAIR, Thomas A. Climatology, General and Regional. New York: Prentice-Hall, 1942.
  • 58. UniversidadeAbertadoBrasil 58 unidade 1 58 unidade 3 Seção 2 Classificação de Köppen – Geiger6 (sistema empírico - quantitativo) Segundo Strahler (1974), o primeiro teórico que classificou os climas globais utilizando dados de temperatura e pluviosidade, com o ajustamento das linhas limites e com a utilização da distribuição dos tipos de vegetação conhecidos, foi o professor Wladimir Köppen, da Universidade de Graz, em 1918. A sistemática da classificação de Köppen é estritamente empírica, baseando-se em dados de séries temporais de temperatura e pluviosidade. Este tipo de classificação não leva em conta pressão atmosférica, massas de ar, ventos, frentes frias. Como afirmado por Strahler, tal classificação ganhou popularidade em razão da obtenção dos dados de temperatura e pluviosidade; não é uma atividade complicada, pois não demanda equipamentos sofisticados e operadores especializados. As principais categorias e suas subdivisões referem-se aos seguintes critérios7 : A – Climas tropicais chuvosos: mês mais frio, com temperatura superior a 18 °C; a precipitação anual é maior que a evapotranspiração. B – Climas secos: evapotranspiração potencial média anual maior que a precipitação média anual. Não existe excedente de água. Assim, nenhum rio forma-se nestas áreas. C – Climas temperados chuvosos e quentes: mês mais frio com temperaturas entre -3 °C e 18 °C. O mês mais quente possui temperatura média maior que 10 °C. Estação de verão e inverno bem definidos. D – Clima frio com neve - floresta: mês mais frio 6 A classificação climática de Köppen-Geiger, mais conhecida por classificação climática de Köppen, é o sistema de classificação global dos tipos climáticos. Foi proposta pelos idos de 1900 pelo climatologista alemão Wladimir Köppen, tendo sido por ele aperfeiço- ada entre 1918-1927. Em 1936, foram publicadas novas versões, preparadas em colabo- ração com Rudolf Geiger (daí o nome Köppen-Geiger). 7 Fonte: AYOADE, 1986.
  • 59. Climatologia2 59 unidade 1 59 unidade 3 com temperatura menor que – 3 °C e 10 °C. Mês mais moderadamente quente com temperatura média acima de 10 °C. Estações de Verão e Inverno bem definidas. E – Climas polares: mês mais quente com temperatura média menor que 10 °C. O mês mais quente em ET (Tundra) tem temperatura entre 0 e 10 °C. O mês mais quente em EF (Neve e gelos perpétuos) tem temperatura menor que 0 °C. O significado de cada uma das segundas letras utilizadas está relacionado a distribuição sazonal de precipitação, como veremos a seguir: f – nenhuma estação seca, úmido todo o ano (A, C, D); m – de monção, com breve estação seca e com chuvas intensas durante o resto do ano (A); w – chuva de verão (A, C, D); S – estação seca de verão (B); W – estação seca de inverno (B). Características adicionais de temperatura: a – verão quente: o mês mais quente tem temperatura média maior do que 22 °C; b – verão moderadamente quente: o mês mais quente tem temperatura média inferior a 22 °C; c – verão breve e moderadamente frio, menos que quatro meses: tem temperatura média maior do que 10 °C; d – inverno muito frio: o mês mais frio tem temperatura média menor que -38 °C. Nas regiões áridas (BW e BS): h – quente, temperatura média anual maior que 18 °C; k – moderadamente frio, temperatura média anual menor do que 18 °C.
  • 60. UniversidadeAbertadoBrasil 60 unidade 1 60 unidade 3 Ayoade (1986) aponta que o modelo de Köppen, proposto em 1900, revisado em 1918, substancialmente, relaciona clima à vegetação, e também a modelos matemáticos que definiam os tipos climáticos. O primeiro mapa apresentado pelo autor era respaldado pelo fisiólogo da vegetação, o francês Alphonse de Candolle. No modelo atualizado de 1918, Köppen deu maior relevância à sazonalidade de temperaturas e pluviosidade. Nessa classificação existem cinco tipos climáticos baseados nas variações de temperatura, que são subdivididos em outras classes segundo critérios de pluviosidade e de características específicas de temperatura. A inter-relação entre as categorias de classificação produziu 24 tipos climáticos demonstrados a seguir: Tabela 5 – Tipos Climáticos Köppen8 1° 2° 3° Descrição A CLIMAS TROPICAIS CHUVOSOS A f Clima tropical chuvoso de floresta A w Clima de savana A m Clima tropical de monção B CLIMAS SECOS B S h Clima quente de estepe B S k Clima frio de estepe B W h Clima quente de deserto B W k Clima frio de deserto C CLIMAS TEMPERADOS CHUVOSOS E QUENTES C f a Úmido em todas as estações, verão quente C f b Úmido em todas as estações, verão moderadamente quente C f c Úmido em todas as estações, verão moderadamente frio e curto C w a Chuva de verão, verão quente C w b Chuva de verão, verão moderadamente quente C s a Chuva de inverno, verão quente C s b Chuva de inverno, verão moderadamente quente D CLIMA FRIO COM NEVE - FLORESTA D f a Úmido em todas as estações, verão quente D f b Úmido em todas as estações, verão frio D f c Úmido em todas as estações, verão moderadamente frio e curto D f d Úmido em todas as estações, inverno intenso D w a Chuva de verão, verão quente D w b Chuva de verão, verão moderadamente quente D w c Chuva de verão, verão moderadamente frio D w d Chuva de verão, inverno intenso E CLIMAS POLARES E T Tundra E F Neve e gelo perpétuos 8 Fonte: AYOADE, 1986, p. 232-3.
  • 61. Climatologia2 61 unidade 1 61 unidade 3 Vale ressaltar algumas questões, buscando evitar enganos de compreensão. O que tem mais relevância na classificação não são as classes criadas, mas as categorias nas quais se propõem classificar os climas no planeta. Prova disso é que, desde a proposição de Köppen, no começo do séc. XX, várias tentativas foram realizadas com o objetivo de refinar o mapa- múndi da classificação climática de Köppen-Geiger. Peel et al. (2007) aponta que, no final do séc. XX, outros autores também buscaram refinar geograficamente o mapa de Köppen-Geiger, a partir de novos dados de temperatura e precipitação. Três propostas são salientadas por Peel: – Kalvova et al. (2003) utilizou as unidades de pesquisa climática (University of East Anglia) com dados entre 1961-1990, apresentando um mapa dos cinco principais tipos climáticos de Köppen (o tipo E dividido em duas classes), com uma resolução espacial de 2.5° x 2,5° (lat. / long.). – Gnanadesikan e Stouffer (2006) apresentaram um mapa de quatorze tipos climáticos de Köppen, baseado nos mesmos dados de Kalvova (2003), mas com uma resolução espacial de 5° x 5° (lat. / long.). – O mais completo mapa climatológico mundial de Köppen- Geiger, produzido até o final do séc. XX, foi o de Kottek et al. (2006), que apresentou uma resolução de 0,5° x 0,5° (lat. / long.), baseando-se tanto nas mesmas fontes de Kalvova (2003), como nas informações do Global Precipitation Climatology Centre (GPCC) VASClimO. vo1. 1, do período de 1951–2000. Todas as três perspectivas acima são construídas com períodos limitados (1961-1990 e 1951-2000). Peel et al. (2007) busca, a partir disso, atualizar o mapa da classificação mundial do clima de Köppen-Geiger, baseado em todo o período. A fonte dos dados utilizados por Peel et al. (2007) são 4.279 estações de monitoramento de temperatura e precipitação (Figura 14), localizadas nos Estados Unidos, no sul do Canadá, no nordeste do Brasil (apenas precipitação), Europa, Índia (apenas precipitação), Japão e leste da Austrália. As áreas desérticas, polares e algumas regiões tropicais, como a África subsariana, a Arábia Saudita, Austrália Central, o norte do Canadá, norte da Rússia e da região amazônica do Brasil tiveram uma escassa densidade de estações.
  • 62. UniversidadeAbertadoBrasil 62 unidade 1 62 unidade 3 Figura 14 – Localização das Estações de Temperatura com 30 ou mais valores para cada mês. T only = apenas dados de temperatura; P + T = tanto dados de precipitação como de temperatura9 Estas estações apresentavam informações que variavam de 30 a 299 gravações por mês em relação à precipitação, e de 30 a 297 relacionadas à temperatura. Os períodos mais representativos de temperatura foram de 1923 a 1993, e de precipitação, de 1909 até 1991. Como resultado desse trabalho, são propostos 29 tipos climáticos divididos em: três tropicais (Af, Am e Aw), quatro áridos (BWh, BWk, BSh e BSk), oito temperados (Csa, Csb, Cfa, Cfb, Cfc, Cwa, Cwb e Cwc), doze frios (Dsa, Dsb, Dsc, Dsd, Dfa, Dfb, Dfc, Dfd, Dwa, Dwb, Dwc e Dwd) e dois polares (ET e EF). Vejamos a seguir os mapas de classificação climática de Köppen-Geiger que nasceram a partir dessa proposição: Figura 15 – Classificação Climática Köppen – Geiger / África10 9 Fonte: PEEL et al. 2007. 10 Idem.
  • 63. Climatologia2 63 unidade 1 63 unidade 3 Figura 16 – Classificação Climática Köppen – Geiger / Europa – Oriente Médio11 Figura 17 – Classificação Climática Köppen – Geiger / Ásia12 11 Idem. 12 Idem.
  • 64. UniversidadeAbertadoBrasil 64 unidade 1 64 unidade 3 Figura 18 – Classificação Climática Köppen – Geiger / América do Norte – Central13 Figura 19 – Classificação Climática Köppen – Geiger / América do Sul14 13 Idem. 14 Idem.
  • 65. Climatologia2 65 unidade 1 65 unidade 3 Figura 20 – Classificação Climática Köppen – Geiger / Austrália15 AlgumascríticassãodirecionadasaKöppen,comoaausênciadeuma categoria subúmida, por ser mais empírica do que genética, pela ausência de justificativa para a utilização de diversos critérios matemáticos, pelo uso de critérios rígidos e pela escassez de observações em diversas partes do planeta. (AYOADE, 1986). Todavia, muitas das críticas ocorreram na primeira metade do século XX. Houve significativos avanços relacionados a essa classificação, conforme demonstrado no esforço de vários pesquisadores como Kalvova et al. (2003), Gnanadesikan e Stouffer (2006), Kottek et al. (2006), além de Peel et al. (2007). Apenas os trabalhos relacionados, dentro de um considerável corpo de reflexão, demonstram a pertinência dessa classificação com seus critérios, tanto para a pesquisa como para o ensino de Geografia. Tal classificação busca, para além das críticas recebidas, conceber o clima como um fenômeno geográfico, possuindo uma dimensão espacial, uma espacialidade que é constituída, entre outras coisas, pelo clima, mas também constituinte dele. 15 Idem.
  • 66. UniversidadeAbertadoBrasil 66 unidade 1 66 unidade 3 Seção 3 Classificação de Arthur Strahler (sistema explicativo - descritivo) Acirculaçãoglobaldaatmosfera,relacionadaàcirculaçãodasmassas de ar, com suas informações de origem e comportamento, proporciona princípios de compreensão das causas do tempo e suas variações. Segundo Strahler (1974), esse conhecimento deve ser empregado na compreensão dos climas mundiais, não nos limitando apenas a utilizar dados de temperatura e precipitação. Para o autor, os critérios mais produtivos de classificação climática são aqueles que buscam as origens dos fenômenos. Segundo ele, o sistema de classificação denominado genético, coloca-se à frente de qualquer critério, pois se propõe a explicar o próprio sistema classificatório, colocando-se como explicativo. Strahler é claro na diferenciação do que ele chama de empírico– quantitativo (conforme a classificação de Köppen) em relação ao seu posicionamento explicativo – descritivo. Em suma, sistema explicativo – descritivo é uma explicação “razoável e científica da existência de grupos e subgrupos climáticos de Köppen”. (STRAHLER, 1974, p. 243). A classificação de Strahler está baseada na natureza, no movimento e nas características das massas de ar, a partir das suas origens. A figura 21 demonstra o esquema da movimentação das massas de ar, ilustrando os três principais grupos climáticos estabelecidos por Strahler (1974), enquanto a 22 mostra a espacialidade da classificação dos climas de Strahler. Dentre os três grupos climáticos, o Grupo I inclui as regiões geradoras equatoriais e tropicais. Os climas que possuem essa localização são controlados por células subtropicais de alta pressão, que são regiões de subsidência do ar. Estes climas estão, via de regra, determinados pelas massasdeartropicaiseequatoriais.OGrupoIIéumaáreaondeasrelações entre massas de ar com características distintas são muito intensas, com influência tanto de massas de ar tropicais como polares. As interferências relacionam-se às estações, não sendo nenhuma predominante. A área relacionada ao Grupo III é influenciada preponderantemente por massas de ar polares e árticas – antárticas. Algumas áreas da Sibéria e do Canadá
  • 67. Climatologia2 67 unidade 1 67 unidade 3 pertencem a este grupo, não tendo ocorrência no Hemisfério Sul. Esse conjunto de relações constitui, para Strahler, quatorze tipos climáticos (Figura 23), que têm relação aos tipos climáticos de Köppen, demonstrados na tabela 6. Figura 21 – Diagrama global ilustrando os fundamentos dos três principais grupos climáticos16 16 Extraído de STRAHLER. 1974, p. 242.
  • 68. UniversidadeAbertadoBrasil 68 unidade 1 68 unidade 3 Figura 22 – Distribuição global da Classificação Climática de Strahler17 17 Extraído de STRAHLER. 1974, p 244.