Esta seção discute as relações entre clima e seres humanos, incluindo como o clima influencia atividades humanas como agricultura e como as atividades humanas podem alterar o clima, especialmente em áreas urbanas.
pONTA gROSSA -PARANÁ
2009
Almir Nabozny
Marcio José Ornat
EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Licenciatura em
GeografiaGeografiaCLIMATOLOGIA 2
2.
Pró-Reitoria de AssuntosAdministrativos
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Sistema Universidade Aberta do Brasil
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Tel.: (42) 3220-3163
www.nutead.uepg.br
2009
Todos os direitos reservados ao Ministério da Educação
Sistema Universidade Aberta do Brasil
N117c Nabozny, Almir
Climatologia 2 / Almir Nabozny e Marcio José Ornat. Ponta
Grossa : UEPG/NUTEAD, 2009.
99p.il.
Licenciatura em Geografia – Educação a distância.
1. Clima e o ser humano. 2. Clima - evolução.
3. Classificações climáticas. I. ornat, Marcio José. II. T.
CDD : 551.4
Ficha catalográfica elaborada pelo Setor de Processos Técnicos BICEN/UEPG.
3.
APRESENTAÇÃO INSTITUCIONAL
Olá, estudante
Sejabem vindo!
Certamente, neste período do curso você já se sente mais preparado para enfrentar
os desafios desta modalidade educacional (EaD). Com certeza, também já percebeu
que estudar a distância significa muita leitura, organização, disciplina e dedicação aos
estudos.
A educação a distância é uma das modalidades educacionais que mais cresce hoje
no Brasil e no mundo. Ela representa uma alternativa ideal para alunos–trabalhadores,
que necessitam de horários diferenciados de estudo e pesquisa, para cumprir a contento
tanto seus compromissos profissionais como suas obrigações acadêmicas. Também é
uma alternativa ideal para as populações dos municípios distantes dos grandes centros
universitários, contribuindo significativamente para a socialização e democratização do
saber.
As novas tecnologias da informação e da comunicação estão cada vez mais
presentes em nossas vidas, desafiando os educadores a inserir-se nesse “mundo sem
fronteiras” que é a realidade virtual.
Sensível a esse novo cenário, a UEPG vem desenvolvendo, desde o ano de 2000,
cursos e programas na modalidade de educação a distância, e para tal fim, investindo na
capacitação de seus professores e funcionários.
Dentre outras iniciativas, a UEPG participou do Edital de Seleção UAB nº 01/2006-
SEED/MEC/2006/2007 e foi contemplada para desenvolver seis cursos de graduação e
quatro cursos de pós-graduação na modalidade a distância pelo Sistema Universidade
Aberta do Brasil.
Isso se tornou possível graças à parceria estabelecida entre o MEC, a CAPES, o
FNDE e as universidades brasileiras, bem como porque a UEPG, ao longo de sua trajetória,
vem acumulando uma rica tradição de ensino, pesquisa e extensão e se destacando
também na educação a distância.
Os cursos ofertados no Sistema UAB, apresentam a mesma carga horária e o mesmo
currículo dos nossos cursos presenciais, mas se utilizam de metodologias, materiais e
mídias próprios da educação a distância que, além de facilitarem o aprendizado, permitirão
constante interação entre alunos, tutores, professores e coordenação.
Esperamos que você aproveite todos os recursos que oferecemos para facilitar
o seu processo de aprendizagem e que tenha muito sucesso nesse período que ora se
inicia.
Mas, lembre-se: você não está sozinho nessa jornada, pois fará parte de uma
ampla rede colaborativa e poderá interagir conosco sempre que desejar, acessando
nossa Plataforma Virtual de Aprendizagem (MOODLE) ou utilizando as demais mídias
disponíveis para nossos alunos e professores.
Nossa equipe terá o maior prazer em atendê-lo, pois a sua aprendizagem é o nosso
principal objetivo.
EQUIPE DA UAB/ UEPG
5.
SUMÁRIO
PALAVRAS DOS PROFESSORES■■ 7
OBJETIVOS e ementa■■ 9
Oclima e o ser humano 11
SEÇÃO 1 -■■ Relações entre climas e seres humanos 12
SEÇÃO 2 -■■ Clima e conhecimento popular 17
SEÇÃO 3 -■■ Clima, atividades humanas e alteração climática 20
SEÇÃO 4 -■■ Sociedade e clima urbano 25
A evolução do clima 35
SEÇÃO 1 -■■ Mudanças climáticas e tempo 36
SEÇÃO 2 -■■ Possíveis causas das mudanças climáticas 41
SEÇÃO 3 -■■ História do planeta e do clima 46
Classificações climáticas e seus critérios 53
Seção 1 -■■ Temperatura, precipitação e vegetação como elementos de
classificação dos climas 55
Seção 2 -■■ Classificação de Köppen – Geiger (sistema empírico -
quantitativo) 58
Seção 3 -■■ Classificação de Arthur Strahler (sistema explicativo - descritivo)
66
Oclima: planeta Terra, Brasil e o Paraná 73
Seção 1 -■■ Regimes Climáticos Globais 74
SEÇÃO 2 -■■ Regimes Climáticos: Brasil e Paraná 80
PALAVRAS FINAIS 9■■ 3
REFERÊNCIAS 9■■ 5
NOTAS SOBRE OS AUTORES 9■■ 9
7.
PALAVRAS DOS PROFESSORES
Prezadoestudante!
Damos as boas-vindas a você em mais esta caminhada. Na disciplina de
Climatologia I, você trabalhou com um conjunto de conhecimentos fundamentais
ao ensino da Geografia, tais como a compreensão do planeta Terra, enquanto um
sistema, constituído por subsistemas, em que a atmosfera é um deles.
Dentro do sistema de entradas e saídas de energia (input e output), o Sol foi
tratado como um elemento fundamental na manutenção da vida na Terra, nossa
fonte primária de energia. Além destas questões, foram abordados os elementos
meteorológicos, os fatores climáticos e os elementos do clima.
Neste livro de Climatologia II, enfocaremos as relações entre clima e seres
humanos, passando pelo conhecimento popular relacionado ao clima e pela
discussão sobre as possíveis alterações climáticas, culminando nas reflexões
sobre clima urbano.
Analisaremos a evolução do clima, das classificações e dos tipos climáticos
existentes no planeta, no Brasil e no Paraná. Assim, convidamos você para esta
nova trajetória.
Bons estudos!
9.
OBJETIVOS e ementa
ObjetivoGeral
Criar um esteio que auxilie você, educando, na apreensão da importância
da disciplina de Climatologia II para o ensino e estudo da Geografia. Com
a apropriação do conteúdo deste material, espera-se que você adquira
competênciatantonacompreensãodosfenômenosenvolvendooclima,quanto
na aplicação destes conhecimentos no ensino e na pesquisa geográfica.
Objetivos específicos
Apreender os conhecimentos climatológicos.■■
Reconhecer a importância dos conhecimentos climatológicos no ensino da■■
Geografia.
Aplicar os conhecimentos climatológicos no ensino e pesquisa geográfica.■■
Ementa
A Evolução do clima. Critérios para as classificações climáticas. As
classificações climáticas de W. Köppen, de Arthur Strahler e de Lysia Bernardes.
O clima no Paraná, no Brasil e no Mundo. Climatologia urbana. O clima e o
homem.
11.
Climatologia2
11
unidade 1
O climae o ser
humano
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
Relacionar clima e seres humanos.■■
ROTEIRO DE ESTUDOS
SEÇÃO 1 – Relações entre climas e seres humanos■■
SEÇÃO 2 – Clima e conhecimento popular■■
SEÇÃO 3 – Clima, atividades humanas e alteração climática■■
SEÇÃO 4 – Sociedade e clima urbano■■
UNIDADEI
Almir Nabozny
Marcio Jose Ornat
12.
UniversidadeAbertadoBrasil
12
unidade 1
Para iníciode conversa
O cerne desta unidade é o tratamento das possíveis relações
entre aspectos climáticos e humanos. Na história da humanidade, o
conhecimento científico tem contribuído para a melhoria das condições
de vida. Um desses aspectos é a minimização das ações intempéricas
embora o próprio desenvolvimento científico/humano regido pela lógica
da dominação da natureza, tenha intensificado os resultados de algumas
ações “naturais”. Citemos, como exemplo, o que causará uma forte chuva
convectiva em um grande sítio urbano tal qual o da capital do estado de
São Paulo (enchentes, alagamentos, etc.).
Além desses pontos, tem-se fomentando na comunidade científica
um “espírito de clarividência”, como nas palavras do geógrafo Milton
Santos1
, uma virtude que se adquire pela intuição, mas sobretudo através
dos estudos. Busca-se a partir do conhecido no presente, ou do passado,
projetar um futuro.
Esta é uma das possibilidades e uma das potencialidades da
Climatologia, como subsídio aos estudos geográficos: compreender e
projetar para o futuro as consequências climáticas das relações entre
seres humanos e a superfície da Terra.
SEÇÃO 1
Relações entre climas e seres humanos
O clima é um dos principais agentes em vários processos existentes
no planeta Terra. Tem interferência nos processos geomorfológicos, na
formação dos solos, no crescimento e desenvolvimento das plantas.
Fugindo de uma relação causalística e determinista, o avanço do
conhecimento tem demonstrado que o clima proporciona potencialidades
aos grupos sociais. Essas potencialidades referem-se às atividades
realizadas que buscam a reprodução desses grupos, como indústria,
agricultura, comércio e serviços. (AYOADE, 1986).
1
Fonte: Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá. Dire-
ção: Sílvio Tendler, Caliban Produções Cinematográficas Ltda, 2007.
13.
Climatologia2
13
unidade 1
O climapode ser considerado tanto sob perspectivas positivas como
negativas. Entretanto, via de regra, os grupos sociais o têm considerado
apenas a partir de seus aspectos negativos, pois a relação entre clima e
seres humanos vai se fazer visível apenas quando aquele interfere na
reprodução das atividades destes. Como afirmado por Ayoade (1986),
os seres humanos são vulneráveis a variações climáticas, podendo suas
atividades se ajustarem ou se desajustarem na relação aos eventos
climáticos. Um exemplo seria o ocorrido entre os meses de outubro e
novembro de 2008, no vale do Itajaí, em Santa Catarina, onde dos 61
dias do bimestre, 49 foram chuvosos, fenômeno denominado pelos
climatólogos como “evento anormal”, que culminou com a morte de mais
de 120 pessoas2
. Outro exemplo é o do furacão Katrina3
, que no dia 29
de agosto de 2005, atingiu o sul dos Estados Unidos. A cidade de New
Orleans foi a mais prejudicada. Em todo o evento, mais de mil pessoas
morreram e os prejuízos foram de dezenas de bilhões de dólares.
A vulnerabilidade a estes tipos de eventos é a suscetibilidade
de determinados grupos sociais em relação a fenômenos naturais de
grande magnitude, como precipitações intensas, ciclones, furacões,
movimentações de massa, alagamentos e enchentes, etc. De forma
contrária, Ayoade (1986) denomina de resiliência a capacidade de
resistênciadedeterminadosgrupossociaisemseprotegerdeadversidades
climáticas. O autor aponta cinco possibilidades de vulnerabilidade dos
grupos sociais (1986, p. 288):
I. quanto mais sua atividade econômica depender dos fatores de
produção sensíveis ao clima;
II. quanto maior for a variabilidade e a não dependência de certas
variáveis climáticas essenciais, como precipitação e temperatura;
III.quanto mais baixo for seu nível de reserva de alimentos e outros
materiais;
IV. quanto menos desenvolvida for a capacidade do seu sistema de
transportes em deslocar suprimentos de áreas de excedentes para
áreas de déficits;
V. quanto menos preparada estiver a sociedade para lidar com
impactos climáticos diversos.
2
.Fonte: www.yousol.com. Acesso em: 18 fev. 2009.
3
Fonte: www.metsul.com. Acesso em: 19 fev. 2009.
14.
UniversidadeAbertadoBrasil
14
unidade 1
Da mesmaforma, Ayoade (1986, p. 288-9) enumera três elementos
que possibilitariam a resistência dos grupos sociais:
I. existência de acúmulo de reservas de alimentos e outros
materiais;
II. capacidade embutida nos projetos de infraestrutura, como
suprimento de água e força;
III. controle de recursos financeiros, materiais, tecnologia e
transportes, com o objetivo de mitigar o evento climático.
Podemos classificar as relações de interferência entre clima e
seres humanos em dois grupos de ação. O primeiro demonstrado na
interferência das atividades humanas em relação ao clima e nas discutidas
alterações climáticas; o segundo é a interferência do clima nas atividades
humanas.
Conforme visto, em eventos catastróficos, as interferências são
inúmeras, interrompendo completamente a atividade de milhares de
pessoas, e gerando a evacuação de grandes áreas, como em New Orleans
(EUA) e no vale do Itajaí (SC-Brasil). Mas em eventos de normalidade
climática, será que o clima teria força determinante de interferência nos
processos sociais ou no comportamento humano?
Buscamos nos distanciar de uma espécie de determinismo
geográfico, o qual apregoa a interferência da temperatura, umidade e
vento no “vigor físico e mental” das pessoas, tratando os seres humanos
como meros elementos passivos das alterações climáticas.
Para este tipo de afirmação, as variações climáticas e a ocasião de
ocorrênciadeextremosdeumidade,temperaturaequantidadedeoxigênio
na atmosfera, por exemplo, teriam poder de interferir na capacidade e
disposição para o trabalho mental. Há uma visão etnocêntrica que vê o
clima como uma força a:
influenciar as emoções e o comportamento do
homem. Por exemplo, os crimes, as rebeliões,
as loucuras e outras explosões emocionais,
individuais ou grupais, parecem alcançar seu
máximo durante uma temporada muito quente ou
desagradável ao homem. (CRITCHFIELD, 1974
apud AYOADE, 1986, p. 290).
15.
Climatologia2
15
unidade 1
Essa perspectivateve grande influência de um dos paradigmas que
caracterizaram a geografia no final do séc. XIX. Como visto por Corrêa
(2007), os intelectuais que a defendiam afirmavam que características
ambientais, notadamente as climáticas, determinavam o comportamento
do homem, influenciando substancialmente em seu desenvolvimento.
Todavia, cabe ressaltar que essa é uma questão bastante antiga
na história das ciências. Para Pereira (2006), muitos dos debates-cernes
da ciência geográfica, tal qual o do determinismo, têm correspondentes
nas obras de Heródoto (valentia dos guerreiros e dificuldade do meio
natural), Hipócrates (diferença do meio e evolução física dos indivíduos),
Platão (fortalecimento e fraqueza do Estado e sua correspondência entre
a continentalidade e a maritimidade) e Aristóteles (relação da densidade
da pólis com sua condição de autossuficiência), premissa essa que poderia
ser também inter-relacionada com a querela possibilista (outro debate
fundamental na Geografia).
Teriam mais êxito então os Estados que tivessem “climas mais
propícios”. Este caminho de reflexão, denominado de determinismo
ambiental, na Geografia teve influência das ideias de Lamarck e de
Darwin, sobre hereditariedade de caracteres, sobrevivência e adaptação
face às características ambientais. Tais ideias naturalistas chegaram até as
ciências sociais através de seu defensor, filósofo inglês Herbert Spencer.
Com suas ideias de superioridade e inferioridade, o determinismo
ambiental justificava, a partir do pressuposto de povos mais e menos
desenvolvidos, a expansão territorial, por meio da criação de colônias
de exploração na África e de ocupação de áreas temperadas. Como nas
palavras de Corrêa (2007, p. 10):
Narealidade,odeterminismoambientalconfigura
uma ideologia, a das classes sociais, países ou
povos vencedores, que incorporam as pretensas
virtudes e efetivam as admitidas potencialidades
do meio natural onde vivem. Justificam, assim, o
sucesso, o poder, o desenvolvimento, a expansão
e o domínio. Não é de se estranhar, pois, que
na Grécia da Antiguidade se atribuíssem às
características do clima mediterrâneo o progresso
e o poderio de seu povo em face dos asiáticos
que viviam em áreas caracterizadas pela
invariabilidade anual das temperaturas. Muito
mais tarde, no final do séc. XIX, seriam outras
as características climáticas consideradas como
16.
UniversidadeAbertadoBrasil
16
unidade 1
favoráveis aocrescimento intra e extraterritorial.
Transforma-se assim em natural, portanto fora do
controle humano, uma situação que é econômica
e social, histórica, portanto, denominada
imperialismo.
Assim, funda-se uma correspondência causalística entre natureza
e comportamento humano, sendo o primeiro termo determinante do
segundo. As alcunhas fator e condição geográfica, relacionadas a clima,
relevo, vegetação, são heranças da ideologia determinista. (CORRÊA,
2007).
Consideramos que o clima tem efeito nas atividades dos seres
humanos, em relação à facilidade ou dificuldade de realização de
determinadas atividades, como na agricultura, na comunicação, nos
transportes, na habitação, e também no que se refere à saúde dos grupos
sociais. Mas esses efeitos, de forma nenhuma, têm relação determinante
com estas questões. Funcionam como um fator, em meio a tantos outros,
como distribuição de renda, faixa etária, etnia, gênero, elementos sociais
e culturais, etc.
O clima não tem interferência no funcionamento do cérebro, muito
menos no comportamento grupal dos seres humanos, como em uma
relação causal entre aumento da temperatura e número de homicídios.
Consideramos que o que interfere realmente são outros aspectos da vida
Estes significados têm se colocado como reflexo, meio e condição da
reprodução dos grupos sociais (HOEFLE, 1998). Dentre estes elementos,
o conhecimento climatológico, científico ou não, é de fundamental
importância.
Na próxima seção trataremos da relação entre climatologia e
conhecimento popular.
Outras perspectivas têm sido vistas por Francisco Mendonça, o qual disserta tanto
sobre a relação entre clima e doenças, como entre clima e violência. Segundo o
autor, o clima impacta nas sociedades, repercutindo nas condições humanas de
saúde. Da mesma forma, o autor faz uma análise da interação entre o clima e a
criminalidade urbana no Brasil. Mendonça chama a atenção para este campo do
conhecimento (interações clima/saúde humana – clima/violência), que tem voltado a
ser de interesse dos geógrafos hodiernamente.
Um contraponto para a reflexão de Mendonça nas discussões sobre geografia e
saúde pode ser encontrado em Josué de Castro, em seu livro Geografia da Fome, no
qual o autor, dentre várias outras questões, disserta sobre as relações entre doenças
e fome, a partir do mapeamento de áreas alimentares e das carências nutricionais
do Brasil.
17.
Climatologia2
17
unidade 1
SEÇÃO 2
Climae conhecimento popular
As secas têm sido uma das principais características do nordeste
brasileiro e, segundo Folhes e Donald (2007), ocorrem em uma área
de aproximadamente 900 mil km², sendo o Ceará o estado com maior
extensão dentro dessa área denominada Bolsão Trópico Semiárido
(SUDENE – atual ADENE).
A relação do sertanejo dessa região com a escassez de água durante
gerações produziu um tipo de conhecimento apoiado no acúmulo de
observações. Conforme salientado pelos autores, a seca é o centro de sua
estratégia de sobrevivência.
Mesmo que existam previsões climáticas resultantes de alta
tecnologia, como através do INPE (Instituto Nacional de Pesquisa
Espacial) e da FUNCEME (Fundação Cearense de Meteorologia e
Recursos Hídricos), existe uma pequena utilização pelos agricultores das
informações desses sistemas.
Por outro lado, o cotidiano do sertanejo cearense é estruturado
pela “superstição e pela crendice”. São chamadas “experiências” os
prognósticos resultantes destas observações e, “profetas da chuva”
as pessoas capazes de interpretar os sinais dos céus e traduzi-los em
previsões meteorológicas.
Essas informações, nascidas do senso comum, são referenciadas por
Folhes e Donald (2007) como elementos que dão credibilidade aos dados
dos sistemas meteorológicos produzidos por procedimentos técnico-
científicos. O trabalho realizado pelos autores foi desenvolvido a partir
de 484 depoimentos de moradores de seis cidades4
do estado do Ceará,
culminando em uma classificação dos fenômenos da natureza na relação
com o clima e a possibilidade de precipitações, segundo o discurso do
sertanejo.
As observações que o sertanejo faz sempre revelam como será o clima
do próximo ano e dizem respeito à interpretação de fatos da natureza,
4
Itarema, Guaraciaba do Norte, Boa Viagem, Perambu, Barbalha, Limoeiro do Norte.
18.
UniversidadeAbertadoBrasil
18
unidade 1
relacionados aprevisões empíricas do clima. Para Folhes e Donald (2007),
os depoimentos dos sertanejos revelam um rico universo de previsões de
clima e tempo, ligadas a grupos de “experiências”. Os discursos coletados
neste trabalho foram reunidos pelos autores em quatro grupos:
observação de animais;•
comportamento da vegetação;•
posição de estrelas, lua, astros, forma de nuvens, marés e•
ventos;
crenças religiosas.•
Segundo os autores, o comportamento dos animais tem a ver com
a chegada das chuvas ou das secas. No conjunto de falas dos sertanejos,
são elencadas mais de dez espécies de animais, desde insetos, pássaros,
roedores e peixes, até grandes mamíferos. As formigas são as mais
lembradas, sendo que sua presença indica períodos chuvosos e sua
ausência, períodos de seca. Em relação aos pássaros, é observada a
posição do ninho, cuja frente estando direcionada para oeste denota forte
probabilidade de período chuvoso e, para leste, de período seco. Da mesma
forma, o canto insistente dos pássaros no começo de cada ano revela
grande possibilidade de período chuvoso. Outra observação interessante
está ligada à existência de filhotes de tatus em tocas, indicando período
chuvoso e, na sua ausência, o período será seco. Nas regiões litorâneas
e ribeirinhas, as previsões estão relacionadas à presença de caranguejos
e peixes.
As plantas também constam do grupo de elementos observados que
possibilitam a previsão das características climáticas futuras. Aspectos
como florescimento e frutificação, produção ou ausência de resina após
o corte de árvores indicam, segundo a fala dos sertanejos, a presença ou
ausência de períodos chuvosos. O florescer do mandacaru, por exemplo,
é sinal de chuva no sertão. Além desta outras plantas são citadas, como o
cipó-vermelho, o pau d’arco, o buriti, o juazeiro, o cumaru, o umbuzeiro, a
carnaúba, o flamboyant, a mangueira, a laranjeira e o jasmim. (FOLHES
e DONALD, 2007). Na maioria das vezes, um bom florescimento e
frutificação é indício de período chuvoso.
Em relação aos fenômenos atmosféricos, merece destaque nas
19.
Climatologia2
19
unidade 1
entrevistas afaixa estreita de nuvens vistas nos primeiros dias do ano, ao
amanhecer, denominada de barra de nuvens, ou a observação da primeira
lua cheia de janeiro. A visualização da estrela D’Alva é tão importante
para o sertanejo quanto a Lua e a direção dos ventos.
Previsões climáticas também estão associadas aos “dias santos”,
como 6 de janeiro (Reis), 20 de janeiro (São Sebastião), 2 de fevereiro
(Nossa Senhora das Candeias), 19 de março (São José), 8 de dezembro
(Nossa Senhora da Conceição) e 21 de dezembro (São Tomé). Sobre o
dia 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, Folhes e Donald, (2007, p. 28)
salientam que:
Contam os agricultores que a experiência (das
pedras de sal) deve ser feita em jejum no dia 12
de dezembro, ou seja, na véspera do dia santo.
Expostas ao sereno da noite, o sertanejo coloca
sobre o telhado ou qualquer outra superfície lisa,
três pedras de sal que representam os meses de
janeiro, fevereiro e março. A pedra de sal que
amanhecer mais molhada representa o mês do
início das chuvas (...).
Os autores apontam que, além de buscar descrever os fenômenos
climáticos, as falas dos sertanejos produzem um sentido de realidade,
atribuindo significado a esses fenômenos que ocorrem, ao mesmo tempo
em que os interpretam.
Nas palavras dos autores, as “experiências” realizadas pelos
“profetas das chuvas” são multidimensionais, servindo a um amplo
conjunto de propósitos culturais. As previsões climatológicas, pelo
contrário, são apenas destinadas à previsão do clima no futuro, deixando
de lado outras questões, como práticas culturais, tamanho familiar, idade
dos integrantes das famílias, etc.
Diferente da ideia de imposição de um conhecimento às suas
ações cotidianas, o conhecimento climatológico popular vai além de uma
normatização e de uma antecipação de eventos futuros, colocando-se
como uma possibilidade de compreensão de fenômenos naturais. Tais
questões, em que o conhecimento (do) local se faz presente, buscam
desvendar aquilo que Escobar (2005) denomina de conhecimento dos
sistemas naturais. Inserem-se como outras possibilidades, propiciando-
nos refletir para além das relações binárias entre natureza e cultura e
20.
UniversidadeAbertadoBrasil
20
unidade 1
valorizar outrasmatrizes de racionalidade. (PORTO GONÇALVES,
2002).
Esses modelos locais de conhecimento evidenciam a ligação
de grupos sociais ao seu espaço, concebido enquanto uma entidade
multidimensional, resultante de inúmeras práticas e relações. Assim,
muitas vezes é preciso se valer da “tradução” dessas práticas do ponto de
vista interpretativo, fora de nossas formas padronizadas da ciência, para
se ter um melhor conhecimento no encontro com os outros.
Destacamos ainda que Geertz (1998) argumenta que a “tradução”
enquanto técnica explicativa não significa expressar-se acerca de nossas
formas, mas mostrar a lógica das formas de expressão do “pesquisado”.
Isso porque o senso comum não é um mero conhecimento desconexo,
mas um sistema cultural, “um corpo de crenças e juízos, com conexões
vagas, porém mais fortes que uma simples relação de pensamentos
inevitavelmente iguais para todos os membros de um grupo que vive em
comunidade”. (GEERTZ, 1998, p. 21). Fechamos esta seção destacando
que a matriz de racionalidade do saber popular, ao mesmo tempo em
que traz uma explicação para o sertanejo, como no exemplo trabalhado,
traz pistas e (re)cria perguntas para o conhecimento climatológico
sistemático.
SEÇÃO 3
Clima, atividades humanas e alteração climática
As atividades humanas,queiramos ounão,têm alterado as dinâmicas
de funcionamento de vários sistemas existentes no planeta Terra. Essa ação
tem se intensificado concomitantemente ao desenvolvimento do modo de
produção capitalista, tanto no aumento da produção de mercadorias, na
diminuição do tempo de vida delas, denominado tempo de obsolescência,
como na ampliação global de um consumo de massa.
Todos os elementos existentes no planeta, e sua lógica de
funcionamento, são vitais à reprodução da vida na Terra, incluindo a
humana. Dentre os subsídios à reprodução da vida, está a estabilidade
21.
Climatologia2
21
unidade 1
de funcionamentoe composição da atmosfera. As duas expressões-chave
que se referem à questão são o efeito estufa e o aquecimento global.
A expressão efeito estufa foi utilizada pela primeira vez durante
o séc. XIX e, desde então, os cientistas têm se dividido entre os que
defendem que o aquecimento global é produto de atividades humanas, e
os que defendem sua origem natural (como o resultado de um conjunto de
variações da radiação solar). Em razão da nossa estrela não ser totalmente
estável, sua atividade de fusão lembra a chama de uma vela, afetando
com sua variação o clima no planeta. (CAPOZZOLLI, 20045
).
Hoyt e Schatten (1997)6
afirmam, por exemplo, que o Sol é um dos
agentes, senão o principal, nas recentes alterações climáticas associadas
ao aquecimento global. Todavia, como salientado por Beckman e Mahoney
(1998)7
, devemos ter parcimônia em abandonar a ideia do efeito estufa
como responsável pelo aquecimento global, dada a complexidade das
relações entre oceano-atmosfera e a produção de gases estufa a partir
das indústrias e veículos.
Por outro lado, para os defensores da responsabilidade do Sol no
aquecimento global, estamos experimentando um aumento na constante
solar e na variabilidade magnética. A principal hipótese que sustenta tais
afirmativas é o fato de que os ciclos de maior atividade solar estariam
relacionadosnãoaciclossolaresde11e22anos,masaumaescalatemporal
da ordem de centenas de anos. (BECKMAN E MAHONEY, 1998). Esse
foi o caso da denominada Mínima de Maunder, com duração entre os
anos de 1645 e 1715, quando a atividade solar reduziu-se, havendo como
consequência diminuição de temperaturas e escassez de chuvas.
Essas questões revelam-se complicadas, colocando-se como uma
armadilha para que forças, notadamente relacionadas a interesses
petrolíferos, utilizem o aquecimento solar como uma desculpa para a
não redução da emissão de gases estufa. Mesmo que existam variações
solares a longo prazo, as alterações drásticas de concentração desses
gases convertem-se em motivação para que aprofundemos a temática.
5
Fonte: CAPOZZOLI, Ulisses. A mídia de olho no ciclone. [30 mar. 2004]. www.observa-
toriodaimprensa.com.br
6
HOYT, D. V.; SCHATTEN, K. H. The Role of the Sun in Climate Change, New York:
Oxford Univ. Press, 1997.
7
BECKMAN, J; MAHONEY, T. The Maunder Minimum and Climate Change: Have
Historical Records Aided Current Research? Library and Information Services in Astro-
nomy III, ASP Conference Series, vol. 153, 1998. Disponível em: http://www.stsci.edu/
stsci/meetings/lisa3/beckmanj.html. Acesso em: 20 fev. 2009.
22.
UniversidadeAbertadoBrasil
22
unidade 1
Aquecimento globale efeito estufa
O denominado efeito estufa é de fato um fenômeno natural no
planeta Terra, que tem possibilitado a reprodução de um considerável
número de espécies animais e vegetais. Há aproximadamente 200 anos,
as atividades industriais passaram a liberar na atmosfera quantidades de
gases estufa, notadamente dióxido de carbono, intensificando o fenômeno
natural. Segundo Kenitiro Suguio (2008), a maioria da liberação de
dióxido de carbono (Co2
) refere-se às emissões norte-americanas (cerca
de 23%). Os principais vilões são os combustíveis fósseis, como petróleo,
carvão mineral e gás natural, constituindo 99% das emissões totais.
Como visto no livro de Climatologia I, a atmosfera evoluiu,
até a sua composição atual, desde a origem do planeta Terra. Nossa
atmosfera primitiva, há cerca de 4,6 bilhões de anos, era composta por
aproximadamente 97% de dióxido de carbono (Co2
). A formação do
calcário e a sedimentação de matérias orgânicas transformaram o teor de
Co2
para 0,03%, produzindo uma atmosfera com 21% de oxigênio.
O equilíbrio de 21% de oxigênio e 0,03% de dióxido de carbono tem
produzido o efeito estufa natural, que é responsável pela temperatura
média global de 15 °C. Um exemplo dado por Kenitiro Suguio (2008) é
de que se a concentração de Co2
fosse de 0%, a temperatura média do
planeta seria de aproximadamente -18 °C. Da mesma forma, a alteração
do percentual para mais, ampliaria a possibilidade de maiores médias de
temperaturas globais.
Suguio (2008) alerta que anualmente são lançados na atmosfera
cerca de:
20 bilhões de toneladas de Co• 2
(combustíveis fósseis);
7 bilhões de toneladas de Co• 2
(desmatamento acompanhado de
decomposição de matéria orgânica no solo);
2 bilhões de toneladas de Co• 2
(respiração de 6 bilhões de
habitantes).
Estimativas apontam que o volume de Co2
na atmosfera alcança
0,035 %, podendo chegar a até 0,6 % em um futuro próximo. Assim, a
temperatura global média poderia aumentar em 2 °C. A construção de
23.
Climatologia2
23
unidade 1
cenários futurosé uma atividade muito complicada, tendo em vista a
plêiade de elementos em jogo no sistema, entretanto dados no passado
da Terra mostram possibilidades.
A partir de registros fósseis, supõe-se que na era Mesozoica, período
de existência dos dinossauros, a temperatura média da Terra deveria ser
de aproximadamente 25 °C. Essa foi uma fase de intensos movimentos
crustais, com tectonismo e abalos sísmicos, cujas atividades exalaram um
volume considerável de Co2
na atmosfera.
A hipótese é de que este foi o motivo para o aquecimento da
atmosfera, chegando ao ponto da maior parte da água existente no planeta
estar no estado líquido ou gasoso. Para Suguio (2008, p. 19), os eventos
relacionados ao efeito referem-se a(o):
aumento de temperatura;•
derretimento das calotas polares;•
incremento de pluviosidade;•
mudanças na umidade do solo;•
mudanças em correntes oceânicas.•
No último período glacial, entre 15 e 17 mil anos atrás, o total de
geleiras em volume era três vezes maior que atualmente. Até nossos dias,
cerca de 2/3 das geleiras derreteram. Previsões apontam que, caso as
calotas polares derretam, o nível médio dos oceanos aumentaria em 50
metros, ficando muitas cidades litorâneas sob a água.
Esseselementosmostramoquãofrágiléaestruturadefuncionamento
da atmosfera, mas também quanto fervorosa é a discussão em relação
ao aquecimento global. Entretanto, os climatólogos concordam que por
menores que sejam as alterações, tanto em relação à temperatura como
à composição da atmosfera, processos podem acontecer em cadeia,
alterando todos os pontos do planeta. (Veja através da plataforma Moodle
o link Mudança do Clima, mudanças de vidas).
24.
UniversidadeAbertadoBrasil
24
unidade 1
Deus aindaé brasileiro
Por Aline Durães
(...) Que a temperatura da Terra aumentou ninguém duvida. Nos últimos 100 anos,
ela subiu, em média 0,74 °C. (...) entretanto não existe qualquer trabalho acadêmico
que comprove a influência do homem sobre esse aquecimento. ‘Ainda não sabemos
se o aumento da temperatura percebido hoje é um processo natural nas flutuações
climáticas da Terra ou se é induzido pelo homem’, esclarece Nelson Fernandes,
geógrafo e professor do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências
(IGEO) da UFRJ.
Nessesentido,outrasassociaçõessãofeitaserroneamente.Nemtodososfenômenos
naturais decorrem do aumento da temperatura global. Os terremotos verificados
recentemente no Brasil, por exemplo, não possuem qualquer relação com o clima.
Da mesma forma, a atividade vulcânica não sofre influência das variações climáticas.
Pelo contrário, erupções de alta intensidade lançam na atmosfera partículas de
poeira que, por um período determinado de tempo, reduzem a entrada de luz solar
na superfície e diminuem a temperatura local.
(…) O aquecimento global influencia os movimentos da atmosfera e os do oceano;
com o aumento da temperatura, mais energia é disponibilizada para os sistemas
atmosférico e oceânico, ampliando a frequência e a intensidade dos ventos, das
tempestades, dos ciclones, dos furacões, das ondas de frio e de calor. Esse
aquecimento, no entanto, é imperceptível a qualquer pessoa, explica Isimar Santos,
professor do Departamento de Meteorologia do IGEO.
Segundo Isimar, ainda não há indicadores precisos que evidenciem os impactos
do aquecimento global no clima brasileiro. Existem apenas projeções possíveis
dessas consequências. O quarto relatório do Painel Intergovernamental de Mudança
Climática (IPCC, sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU),
divulgado em abril do ano passado (2007), traçou diferentes cenários futuros do
clima diante do aumento da temperatura da Terra. O modelo mais pessimista aponta
uma alta de 6,1 °C ao longo do século XXI e prevê o fim de grande parte da Floresta
Amazônica até 2080.
(...) Todavia, há muitas críticas a esses relatórios. (...) O que pode acontecer?
Certos impactos do aquecimento global já são consenso entre analistas. Um deles
é a elevação dos índices de precipitação. Choverá mais, o que pode acarretar uma
frequência maior dos deslizamentos de terra. Eles, entretanto, não vão acontecer de
forma homogênea em toda a extensão do país. Capitais como Florianópolis, Belo
Horizonte, Vitória, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, que já enfrentam problemas de
erosão e movimentos de massa, serão mais afetadas. (…)
Isso pode gerar consequências econômicas e causar uma série de mortes. Nelson
lembra ainda que o acréscimo da pluviosidade afetará os rios. Com mais chuvas,
estes receberão um volume extra de água e, consequentemente, precisarão alargar
seus vales. Haverá erosão fluvial, e as populações que ocupam as margens serão
diretamente prejudicadas. (…)
A desertificação também pode ser uma das consequências do aquecimento da
Terra. As secas seriam mais duradouras e teriam efeitos diretos sobre a vegetação
25.
Climatologia2
25
unidade 1
(...) adiminuição da vegetação teria efeito direto na produção de alimentos. O
que pode gerar grandes conflitos fronteiriços. Tentativa de entrada de pessoas de
países de capitalismo periférico para os centros detentores dos alimentos/países de
capitalismo central (...). Um estudo encomendado pelo Pentágono comprovou que
um dos principais problemas estratégicos a ser enfrentado pelos Estados Unidos
da América com o aquecimento global será a imigração de contingentes humanos
vindos do México, o que levou o país a tomar medidas para intensificar o controle
de sua fronteira.
Lucros do aquecimento
Engana-se quem pensa que o aquecimento global será recebido da mesma forma por
todas as regiões do planeta. Também está equivocado quem pensa que o aumento
de temperatura da Terra trará apenas tragédias naturais (e sociais) e prejuízos
econômicos. Isso porque se vislumbra para alguns países a possibilidade de obter
lucros por conta das alterações climáticas. E o Brasil é um deles.
Por ter considerável capacidade de produção de alimentos e reservas de água
potável, o Brasil poderá comercializar esses bens com nações que estejam com
suas economias abaladas por conta do aumento da temperatura da Terra. ‘Nossas
reservas naturais de água, por exemplo, nos atendem plenamente há 500 anos
e poderiam atender a outros países também. Basta que encontremos meios de
transportar essa água. Podemos sim lucrar com a crise mundial, já que o Brasil terá
o que os outros países precisam’, expõe Isimar Santos.
Excertos extraídos: DURAES, Aline. Deus ainda é brasileiro? Jornal da UFRJ. Ano
4, n. 37, p. 18-19. Setembro de 2008.
Leitura complementar:
SANT’ANNA NETO, João Lima. Mudanças Climáticas e Aquecimento Global: um
enredo entre a tragédia e a farsa. In: ANPEGE. (Org.). O Brasil e a América Latina.
Rio de Janeiro: Lamparina, 2008, v. 1, p. 1-16.
SEÇÃO 4
Sociedade e clima urbano
As relações entre cidade e campo começaram a se alterar
profundamente no séc. XX e culminaram com a aceleração da urbanização
na década de 1970.
O espaço urbano enquanto criação da sociedade coloca-se, nas
palavras de Monteiro (2003), como o local de maior efetivação das relações
26.
UniversidadeAbertadoBrasil
26
unidade 1
entre sociedadee natureza. Segundo o autor, é a partir da criação de
objetos e formas, buscando organizar a natureza, que a sociedade produz
derivações do acúmulo dessas criações, como a organização morfológica e
funcional da cidade, com seu sistema viário intra-urbano e inter-regional,
transformando condições geo-ecológicas precedentes.
Dentre as várias ações humanas, encontra-se a realização de aterros,
represamentos e construções de reservatórios de água, eliminação de
feições topográficas indesejáveis, etc. Outras intervenções ocorrem
na alteração ou substituição das coberturas vegetais originais, com a
implantação de parques, praças, jardins, etc.
Quando somamos a esses fatores a própria dinâmica da população,
realizando atividades, transformando, a partir de fábricas, elementos
naturais em recursos sociais, ou mesmo envolvendo-se em atividades de
serviço, a cidade torna-se o local por excelência do acontecimento de
todos os resultados da maioria das alterações ambientais. Sua intensidade
coloca-se como consequência da própria intenção de transformação da
natureza, nas finalidades de reprodução social.
Todo o período de desenvolvimento da urbanização na modernidade,
segundo Mendonça (2003), está conectado ao surgimento do modo de
produção capitalista (rever as temáticas relacionadas ao capitalismo nos
livros de Geografia Econômica I e II). Se, em vários locais, as lógicas de
funcionamento entre sistemas sociais e naturais foram observadas nos
processos de planejamento e gestão, na maioria dessas espacialidades,
todas as ações de objetivação voltam-se ao planejamento econômico.
Como nas palavras do autor:
Este procedimento moderno gera ambientes
urbanos altamente nocivos – o ambiente
atmosférico urbano constitui somente parte
deles – a maioria dos habitantes das cidades no
que concerne ao aparecimento de problemas
relacionados às funções vitais e psicossociais
dos citadinos, principalmente naqueles países
caracterizados por um contexto socioeconômico
complexo. (MENDONÇA, 2003, p. 177).
Dentre os vários resultados dessas relações, como deslizamentos de
massa, desmoronamentos, alagamentos, enchentes, e tantos outros, uma
temática que vem já há algum tempo sendo pauta de discussão, tanto da
27.
Climatologia2
27
unidade 1
política, quantoda própria academia, é o clima, mais especificamente, o
clima urbano.
A porta de entrada das discussões envolvendo este clima foram
os resultados das atividades humanas, referentes à qualidade do ar, na
maioria das cidades. De modo geral, os primeiros estudos aconteceram
no período da Revolução Industrial, na Inglaterra, e no momento em que
a população urbana ultrapassava a rural, no Brasil, a partir da década de
1970. (MENDONÇA, 2003).
O crescimento das cidades foi objeto de reflexão da climatologia
urbana, na década de 1960, reflexões estas que se intensificaram, se
multiplicaram na década de 1990 e se propunham a contribuir com a
gestão e o planejamento urbanos brasileiros.
Mendonça (2003) afirma que o principal caminho de estudo
envolvendo a sociedade e o clima urbano foi a utilização da Teoria Geral
dos Sistemas, as reflexões sobre dinâmica da atmosfera e as preocupações
de alguns intelectuais com as interações entre atmosfera, o sítio e os
espaços urbanos. A partir desses encaminhamentos, o clima urbano
passou a ser estudado sob um ponto de vista mais holístico.
A Teoria Geral dos Sistemas, também conhecida como T.G.S., nasceu com as
reflexões do biólogo austríaco Ludwing von Bertalanffy, entre os anos de 1950 e
1968. Vários pressupostos estruturam essa teoria, entre eles a tendência de
integração com as ciências sociais e naturais, integração esta que se orienta em
direção a uma teoria dos sistemas, a qual pode ser uma maneira mais completa de
compreensão tanto de fenômenos naturais como sociais, desenvolvendo princípios
unificadores da ciência.
Também os estudos do clima urbano em muitos casos se valeram da ideia de Ritmo
Climático, desenvolvida principalmente na Climatologia Geográfica, difundida/
defendida no Brasil pelo geógrafo Carlos Augusto Figueiredo Monteiro, no âmbito
das mudanças climáticas no espaço/tempo.
Leituras Complementares
CHRISTOFOLETTI, Antônio. Aspecto da análise sistêmica em Geografia. In: Revista
Geografia. Rio Claro -SP. v. 3, n. 6, p.1-31. Outubro de 1978.
ZAVATTINI, João Afonso. Estudos do clima no Brasil. Campinas-SP: Alínea. 2004. 398 p.
Seguindo a perspectiva de interseccionalidade entre várias
possibilidades de conhecimento em relação a um mesmo fenômeno, e
de variações de aplicabilidade da T.G.S., os climatólogos urbanos, na
interação com reflexões de urbanistas, integraram a climatologia urbana
ao planejamento. Essa integração se fez a partir de três abordagens, que
28.
UniversidadeAbertadoBrasil
28
unidade 1
se tornaramtendências das pesquisas em clima urbano (MENDONÇA,
2003), a saber:
Campo Termo-Hidrométrico• , no qual são enfatizados os estudos
de ilhas de calor e de frescor urbano, do conforto/desconforto
térmico, de inversões térmicas, etc.
Campo Físico-Químico ou Dispersão• , voltado à análise da
dinâmica do ar na sua interação com a cidade, destacando a
poluição do ar, as chuvas ácidas, a relação entre a estrutura
urbana e os ventos, etc.
CampoHidrometeórico• ,relacionadoaoestudodasprecipitações
urbanas e seus impactos, tais como os processos de inundação
das cidades.
Os trabalhos nesta área têm sido realizados tanto com dados de
institutos de pesquisa, por exemplo o Sistema Meteorológico do Paraná
(SIMEPAR), como por mini-abrigos termométricos móveis, pluviômetros,
anemômetros e equipamentos de coleta de material particulado,
distribuídos na malha viária do espaço urbano. Além desses dados, outras
informações têm sido utilizadas pelos pesquisadores, como hipsometria e
mapas de uso da terra.
Segundo Mendonça (2003), a hipsometria influencia na variação
térmica e barométrica. Em relação ao mapa de uso da terra, a variação
dos tipos de cobertura de superfície interfere na intensidade do albedo.
Outroelementoutilizadonacompreensãodoclimaurbanoéatécnica
denominada Sky View Factor, que busca entender a importância das
sombras dos edifícios, funcionando como canyons urbanos. Atualmente
tem sido significativa a utilização de imagens de satélite: NOAA, Landsat
e Spot (ver livro de Cartografia II).
De modo geral, os estudos em climatologia urbana são descritos na
tabela seguinte. Note-se que a maioria dos trabalhos realizados no Brasil
referem-se às ilhas de calor, de frescor urbano, de conforto/desconforto
térmico e de inversões térmicas, ficando em segundo lugar os processos
de inundação e alagamento. Por último, os estudos de poluição do ar, de
chuva ácida e da relação entre estrutura urbana e direção e intensidade
de ventos.
29.
Climatologia2
29
unidade 1
Tabela 1– Estudos de Clima Urbano no Brasil8
Campos do Clima Urbano
Regiões Cidades Termo-
higrométrico
Físico - químico Hidro-meteórico
Sudeste
São Paulo/SP 8 7 10
Campinas/SP 1
S. J. Campos/SP 1
P. Prudente/SP 2
Rio Claro/SP 3 1
Piracicaba/SP 1
Limeira/SP 1
Jales/SP 1
Penápolis/SP 1
Sorocaba/SP 1
Lemes/SP 1
Rio de Janeiro/RJ 11 3 4
N. Friburgo/RJ 1
Petrópolis/RJ 1
Volta Redonda/RJ 1
Bangu/RJ 2
B. Horizonte/MG 3
Uberlândia/MG 4 1 3
J. de Fora/MG 1 3
Sul
P. Alegre/RS 3
S. Maria/RS 1
Santa C. do Sul/RS 1
Florianópolis/SC 2 1
Blumenau/SC 1
Rio Negrinho/SC 1
Curitiba/PR 2 1 3
Londrina/PR 1 3
F. Beltrão/PR 2
Maringá/PR 2
Nordeste
Salvador/BA 3 1
V. da Conquista/BA 1
Patos/PB 2
Campina Grande/PB 2
Paraibuna/PB 3
São Luís/MA 1
Fortaleza/CE 5 1
Terezina/PI 1
Centro-
Oeste
Brasília/DF 1
Goiânia/GO 2 1
Rondonópolis/MT 1 1
Cuiabá/MT 1
T. da Serra/MT 1
B. do Burguês/MT 1
Campo Grande/MS 1
Norte
Belém/PA 3 3
Marabá/PA 1
Macapá/AP 1
Totais 79 20 40
8
Fonte: MENDONÇA, 2003, p. 185.
30.
UniversidadeAbertadoBrasil
30
unidade 1
Os principaistrabalhos para Mendonça (2003) estão relacionados
nas reflexões de:
Gallego (1972), em• Tipo de tempo e poluição atmosférica no Rio
de Janeiro: um ensaio de climatologia urbana;
Tarifa (1977), em• Análise comparativa da temperatura e umidade
na área urbana e rural de São José dos Campos (SP), Brasil;
Sartori (1979), em• O clima de Santa Maria (RS): do regional ao
urbano;
Fonzar(1981),nareflexãosobre• Oprocessodeocupaçãoregional,
o modelo urbano e o conforto térmico na Alta-Sorocabana: um
teste aplicado a Presidente Prudente( SP);
Sampaio (1981), em• Correlação entre uso do solo de ilhas de
calor no ambiente urbano: o caso de Salvador;
Lombardo (1989), em• A ilha de calor nas metrópoles: o caso de
São Paulo;
Dani (1982), em• Aspectos têmporo-espaciais da temperatura e
umidaderelativaemPortoAlegreemjaneirode1982:contribuição
ao estudo do clima urbano;
Brandão (1987), em• Tendências e oscilações climáticas na área
metropolitana do Rio de Janeiro;
Monteiro e Severino (1990), em• O campo térmico na cidade de
Florianópolis: primeiros experimentos;
Gonçalves (1992), em• Impactos pluviais e desorganização do
espaço urbano em Salvador (BA);
Mendonça (1995), discutindo o• Clima e o planejamento urbano
de cidades de porte médio e pequeno: proposição metodológica e
sua aplicação à cidade de Londrina (PR);
Sette (1996), estudando o• Clima urbano em Rondonópolis (MT);
Brandão (1996), em• O clima urbano do Rio de Janeiro;
Collishon (1998), em• O campo térmico da região metropolitana
de Porto Alegre: análise a partir da interação entre as variáveis
ambientais na definição do clima urbano;
Danni-Oliveira (2000), analisando• A cidade de Curitiba e a
poluição do ar: implicações de seus atributos urbanos e geo-
ecológicos na dispersão de poluentes em período de inverno;
Assis(2000),buscandocompreenderos• Impactosdaformaurbana
na mudança climática: método para previsão do comportamento
térmico e melhoria de desempenho do ambiente urbano.
31.
Climatologia2
31
unidade 1
Esses dezesseistrabalhos, em meio aos cento e trinta e nove
demonstrados na tabela 1, comprovam a riqueza de possibilidades de
abordagens envolvendo o clima urbano. Todavia, Mendonça (2003) nos
alerta para o fato de que alguns encaminhamentos estão sendo deixados
de lado nesses estudos, como o impacto de fortes ventos na estrutura
urbana, as possíveis relações entre saúde e clima, as relações entre
sistemas planetários e clima urbano (El Niño, por exemplo).
Tais perspectivas ampliam as relações entre climatologia,
planejamento e gestão urbanos, na interseção entre clima e desigualdades
sociais, nas reflexões sobre impactos ambientais, apontando para a
importância dos estudos de climatologia no cotidiano de todos, a partir de
várias escalas e perspectivas. Sobretudo, para você, caro aluno, destaca-
se efetivamente a Climatologia Geográfica (relação clima, sociedade,
espaço geográfico e tempo), uma vez que o clima pelo clima é objeto de
estudo da Meteorologia e não da Geografia.
Leituras Complementares
CASTRO, Josué de. Geografia da Fome. 10. ed. Rio de Janeiro: Antares Achiamé,
1980.
MENDONÇA, Francisco. Aspectos da interação clima-ambiente-saúde humana: da
relação sociedade-natureza à (in)sustentabilidade ambiental . RA’EGA, Curitiba, n.
4, p. 85-99, 2000.
__________. Clima e criminalidade: ensaio analítico da correlação entre a
criminalidade urbana e a temperatura do ar. Curitiba: Editora da UFPR, 2000.
(No prelo).
MENDONÇA, Francisco; MONTEIRO, Carlos Augusto de Figueiredo (Orgs.). Clima
Urbano. São Paulo: Contexto, 2003.
MOLION, Luiz Carlos. A Amazônia e o clima do globo terrestre. Revista Brasileira
de Geografia, Rio de Janeiro: vol. 52, n. 2, p. 89 – 94.1990.
UNE, Mitiko Yanaga. Fatores Climáticos Influenciando a agricultura em Campo
Grande. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro: vol. 41, n. 1-2, p. 3 –
31.1979.
VASCONCELOS, Francisco de Assis Guedes de. Josué de Castro e a Geografia
da Fome no Brasil. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro: vol. 24, n. 11, p.
2710-2717. 2008.
32.
UniversidadeAbertadoBrasil
32
unidade 1
Leia otexto As estrelas eram terrenas: antropologia do clima, da iconografia e das constelações Ticuna,
de Priscila Faulhaber, que demonstra a relação entre antropologia e clima, em um estudo sobre mitos
e ritos indígenas. O texto pode ser, em sala de aula, uma excelente estratégia de incentivação quando
você for trabalhar com climatologia na Geografia. Acesse o texto através da plataforma Moodle.
O clima tem se mostrado um agente importante em vários processos existentes no planeta
Terra, por exemplo, na formação das paisagens naturais. Na relação com a humanidade, o clima tem
funcionado não só como um obstáculo, mas também como uma amenidade às atividades humanas. Os
posicionamentos que atribuem um papel final do clima em relação a doenças e comportamentos sociais
são de fato novas roupagens para velhos discursos relacionados ao determinismo ambiental.
A partir de outras visualizações, o clima tem se colocado como uma força da natureza que é
interpretada pelo conhecimento científico também por comunidades tradicionais, estruturadas como um
mundo de significados que dá sentido tanto a eventos atmosféricos, quanto à resiliência do sertanejo
às intempéries do clima, por exemplo.
Você observou também que o clima tem sido objeto de discussão científica, relacionada às
alterações no final do último século e começo do atual, discussão que pendula entre as variações da
atividade solar e a interferência da intensidade das atividades humanas na composição atmosférica, e,
consequentemente, em seu funcionamento e dinâmica.
Leia o texto As estrelas eram terrenas: antropologia do clima, da iconografia e das constelações
Ticuna, de Priscila Faulhaber, que demonstra a relação entre antropologia e clima, em um estudo sobre
mitos e ritos indígenas. O texto pode ser, em sala de aula, uma excelente estratégia de incentivação
quando você for trabalhar com climatologia na Geografia. Acesse o texto através da plataforma
Moodle
Climatologia2
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unidade 1
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unidade 2
Aevolução do
clima
OBJETIVO DE APRENDIZAGEM
Compreender as fases e evolução do clima no planeta Terra.■■
ROTEIRO DE ESTUDOS
Seção 1 – Mudanças climáticas e tempo■■
Seção 2 – Possíveis causas das mudanças climáticas■■
Seção 3 – História do planeta Terra e do clima■■
UNIDADEII
Almir Nabozny
Marcio Jose Ornat
36.
UniversidadeAbertadoBrasil
36
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unidade 2
Parainício de conversa
Nesta unidade trataremos das alterações climáticas que ocorreram
na história do planeta Terra. Assim, como em relação a diversos aspectos
do Sistema Terra, o clima sofreu alterações profundas, desde a origem
da Terra há aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Essas transformações
referem-se tanto ao aquecimento como ao resfriamento da temperatura
do planeta, com suas consequências, alterando os níveis marinhos e
formando calotas de gelo e glaciações.
SEÇÃO 1
Mudanças climáticas e tempo
A atmosfera é dinâmica, mudando suas características tanto de local
para local como em relação aos intervalos temporais avaliados. Ela é tão
complexa que resultados de processos atmosféricos retornam alterando
as causas (AYOADE, 1986), com a denominação de feedback.
Assim, as mudanças atmosféricas podem ser resultantes de fatores
internos ou externos a ela e referem-se sempre à escala a partir da qual
são analisadas, diferindo-se entre tempo e clima.
Mesmo que sejam termos associados, o tempo e o clima não são a mesma coisa.
O tempo se relaciona ao estado da atmosfera em qualquer momento, incluindo
nebulosidade, temperatura, precipitação, pressão atmosférica, etc. É o caso de um
dia com muita chuva, quando dizemos que o tempo está chuvoso. A previsão do
tempo relaciona-se à probabilidade de ocorrência de determinadas características
em dado intervalo de tempo – via de regra tem intervalo máximo de dias, baseado
em cálculos matemáticos.
De forma distinta, o clima refere-se à média de características atmosféricas em um
período de 30 anos. Quando falamos de previsão climática, estamos buscando prever
possíveis alterações em determinada área do planeta. Quando falamos de clima,
estamos tratando de uma divisão que classifica áreas do planeta com características
aproximadas, como temperatura e precipitação. As principais classificações estão
relacionadas a Wladimir Köppen e Arthur Strahler, assunto a ser tratado na unidade
III.
Assim, uma das principais dificuldades com relação aos estudos do clima no
Brasil, refere-se à ausência de grandes sequências temporais relativas aos dados
climáticos.
37.
Climatologia2
37
unidade 1
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unidade 2
Constatamosque o tempo atmosférico é altamente dinâmico,
sofrendo alterações em intervalos de horas. Apesar de o clima constituir-
se em uma classificação de um intervalo de tempo maior, ele também
sofre alterações, para as quais existe uma nomenclatura específica, como
descrito a seguir (AYOADE, 1986):
tendência climática: flutuações das características do clima;•
ciclos climáticos: as flutuações climáticas se apresentam de•
forma cíclica;
mudança climática: as flutuações passam a acontecer de tal•
forma que alteram as características do clima relacionado à
determinada área.
As alterações climáticas sempre estão relacionadas aos intervalos
de tempo avaliados. Ayoade (1986, p. 206) propõe quatro escalas de
alterações climáticas, a saber:
variabilidade rápida, incluindo flutuações dentro de um período•
menor que 30 – 35 anos;
mudanças seculares que ocorrem em intervalos de 100 – 150•
anos;
mudanças que remontam milhares de anos;•
variações na escala de milhões de anos.•
Mas de que maneira podemos saber como era o clima no passado
do planeta Terra? Para responder, várias técnicas são utilizadas, já que
o conhecimento do clima que é anterior à história registrada, nasce de
fontes indiretas por meio de indicadores biológicos, litogenéticos e
morfológicos.
Os indicadores biológicos referem-se a polens, fósseis e anéis
de árvores (AYOADE, 1986). Os fósseis encontrados em depósitos
sedimentares são datados com técnicas paleontológicas, sendo utilizados
para determinação da duração temporal e extensão espacial das condições
climáticas que favoreceram a existência de tais espécies.
A mesma lógica estrutura a utilização de referenciais como polens
e anéis de árvores, todavia a utilização dessa metodologia apresenta
38.
UniversidadeAbertadoBrasil
38
unidade 1
38
unidade 2
inconvenientes.Fósseis e polens são seletivamente preservados e podem
não ser representativos da vegetação que existia na época indicada pela
datação. Outra possibilidade é de que derivem, indicando condições
climáticas de períodos anteriores.
A utilização dos anéis de árvores refere-se à sua espessura – os
mais espessos indicam condições climáticas adequadas ao crescimento
da árvore, enquanto os finos apontam variação climática desfavorável.
Há, porém, duas complicações: a primeira relaciona-se à possibilidade
da sua utilização em um período recente e a segunda está respaldada no
fato de que a espessura dos anéis refere-se também à idade da árvore,
não estabelecendo nenhuma ligação com o clima.
Os indicadores litogenéticos referem-se às rochas e suas
características de formação (AYOADE, 1986), ou seja, referem-se aos
varvitos (aluviões lacustres), evaporitos e processos de intemperismo,
notadamente os de laterização.
Os varvitos são camadas distintas que advém de materiais siltosos
ou argilosos, depositados anualmente em lagos próximos a geleiras. O
material de granulometria maior, de cor clara, deposita-se durante o verão,
enquanto o material de granulometria fina de cor escura deposita-se no
inverno. Cada faixa de material claro e escuro é uma varva, referente ao
material depositado durante um ano. O número de varvas diz respeito ao
número de anos necessários à formação do varvito, podendo ser estimado
seu tempo de formação. Da mesma forma, a espessura das varvas pode ser
utilizada para inferir alterações climáticas, que influenciaram a deposição
das camadas (Figura 1).
Obtemos a idade de uma rocha por uma técnica denominada datação, podendo
ser relativa ou absoluta. A datação relativa refere-se à comparação de uma rocha
com datação desconhecida a uma com datação conhecida. A datação absoluta
utiliza o Carbono-14, presente em matéria orgânica morta. Com o passar do tempo,
ele modifica a uma velocidade conhecida. Com a medição da alteração, pode-se
determinar o tempo exato do fóssil.
39.
Climatologia2
39
unidade 1
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unidade 2
Figura1 – Depósito de Varvito1
Os evaporitos, comumente denominados depósitos de sal, só
ocorrem em condições climáticas quentes e secas, quando a evaporação
é maior que a precipitação. A existência de depósitos deste tipo de rocha
em áreas úmidas indica um clima pretérito quente e seco. A laterita
também é associada a climas sazonalmente úmidos, demonstrando um
clima pretérito com tais características nas áreas de ocorrência dessas
rochas. (AYOADE, 1986).
As evidências morfológicas são muito variadas, como praias, dunas,
morenas, eskers e terraços fluviais (Figuras 2 e 3):
1
Fonte: http://www.leonardokurcis.com.br/Itu-Parq.Varvito0008.jpg
40.
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Figura2 – Morena2
Figura 3 – Terraço3
As dunas sugerem climas pretéritos áridos; da mesma forma,
morenas relacionam-se a glaciações no passado. Entretanto, feições
2
Fonte: http://www.igc.usp.br/glacial/imagem/glossario/21a.jpg
3
Fonte: http://miguelcorreia25.googlepages.com/Terraos.jpg/Terraos-large.jpg
41.
Climatologia2
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unidade 2
geomorfológicaspodem ser resultantes de processos distintos, como
variações de débito de chuvas, não havendo ligação com mudanças
climáticas.
Como salientado por Ayoade (1986), o estudo de climas passados não
pode utilizar indicativos isolados. Para o autor, o estudo de paleoclimas
deve servir-se de triangulações de indicadores de climas passados.
SEÇÃO 2
Possíveis causas das mudanças climáticas
Sempre que falamos em alterações climáticas, temos que ter em mente o fato
de que qualquer variação ou alteração não se refere apenas a relações simplistas de
causa e efeito. Uma mudança do clima pressupõe também mudança na circulação
geral da atmosfera, da qual o clima depende em sua grande parte. (AYOADE,
1986).
Mas o clima não diz respeito apenas à atmosfera, envolve outros circuitos
de troca de energia, como a litosfera, a hidrosfera e a biosfera. Também lembremos,
como abordado em Climatologia I, a importância da relação entre clima e Sol.
Vejamos a figura 4:
Figura 4 – Sistema Climático Global. Fonte: AYOADE, 1986.
42.
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unidade 1
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unidade 2
Deforma geral, as alterações climáticas dependem de dois circuitos
de relação, ou da alteração desses dois circuitos:
os componentes que formam o sistema climático, nas suas•
existências e relações;
as condições e interferências exteriores ao sistema climático.•
Assim, três fatores são de fundamental importância na conjuntura
climática de qualquer época, o total de energia que advém do Sol, que é
recebida pelo sistema climático, a forma como essa energia é distribuída
e absorvida pelo sistema e as formas de interação entre os vários
elementos que compõem o sistema climático. (Figura 5).
Se as alterações climáticas referem-se sempre à escala temporal
a partir da qual elas são analisadas, então para cada tipo de alteração,
referente a cada temporalidade, pressupõe-se uma forma de explicação
científica. Ayoade (1986) salienta que é em razão disso que inexistem
teorias completas que compreendam todas as alterações climáticas na
história do planeta Terra.
Todas as teorias que se propõem explicar as alterações climáticas
podem ser categorizadas em três grupos, como visto na tabela 2 a
seguir:
Tabela 2 - TEORIAS E CAUSAS DE MUDANÇAS CLIMÁTICAS
A. Causas terrestres
Migração polar e deriva continental1.
Mudança na topografia da Terra2.
Variações na composição atmosférica3.
Mudanças na distribuição da superfície continental e hídrica4.
Variações na cobertura de neve e gelo5.
B. Causas astronômicas
Mudanças na excentricidade da órbita terrestre1.
Mudança na precessão dos equinócios2.
Mudança na obliquidade do plano de eclíptica3.
C. Causas extraterrestes
Variação na quantidade de radiação solar (1. output solar)
Variações na absorção da radiação solar exterior à atmosfera terrestre2.
Fonte: AYOADE. 1986.
43.
Climatologia2
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unidade 2
Dentreas perspectivas relacionadas às alterações climáticas,
encontra-se um rol de fatores que se referem às causas terrestres. O total
e a variação de áreas emersas resultariam em alterações na distribuição
da energia advinda do Sol, com as quais a circulação atmosférica seria
alterada, culminando seus impactos nas distribuições de temperatura e
umidade sobre o globo. Além disso, a mudança de posição das extensões
de terra produziria alterações no clima. Os processos endógenos de
soerguimento da crosta, por exemplo, vulcanismo e alteração da topografia
do relevo terrestre, teriam grande influência, como bloqueios orográficos,
ou com a liberação de aerossóis pelos vulcões.
Finalmente, as variações dos principais componentes atmosféricos
(CO2
, O3
e vapor d’água) teriam importância nas mudanças climáticas.
O equilíbrio deles seria responsável pela circulação de ar, distribuição
de temperatura e umidade, e consequentemente manutenção da
estabilidade dos climas terrestres. (AYOADE, 1986). Nesta causa, as
atividades humanas exerceriam papel relevante, como visto na unidade
I deste livro.
Os fatores nomeados como causas astronômicas (ou Ciclos de
Milankovitch4
) referem-se à alteração da geometria de movimentação
do planeta Terra no espaço sideral. Seus principais movimentos seriam
a mudança da excentricidade da órbita terrestre, a precessão dos
equinócios e a obliquidade do plano da eclíptica. (Figuras 5, 6 e 7).
Figura 5 – Precessão dos Equinócios
4
Milutin Milankovitch desenvolveu no início do séc. XX a ideia da relação entre ciclos
glaciais e alterações nos movimentos da Terra, que afetariam a radiação do Sol recebida
pelo planeta.
44.
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Figura6 – Excentricidade da Órbita Terrestre
Figura 7 – Obliquidade do Plano da Eclíptica
As variações da excentricidade da órbita da Terra referem-
se a alterações de sua distância em relação ao Sol. Quanto maior a
excentricidade, maior é a diferença entre as estações do ano. Quanto
menor, mais baixas serão as diferenças. Quando a Terra está mais próxima
do Sol, no periélio (Figura 6), a quantia de energia que ele emite é 6%
maior que no afélio. A variação da excentricidade tem duração aproximada
de 100.000 anos, significando que no futuro as estações do ano podem ter
características distintas das atuais, como foram no passado. (AYOADE,
1986).
A precessão dos equinócios refere-se ao movimento do planeta
em forma de pião. O movimento completo tem duração de 22.000 anos.
45.
Climatologia2
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unidade 1
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unidade 2
Hojetemos equinócios ocorrendo em março e setembro, e solstícios, em
junho e dezembro. No intervalo de tempo acima citado, as estações do
ano migram de posição, equinócio tona-se solstício, e solstício torna-se
equinócio.
A obliquidade do plano de órbita da Terra também é variável, em um
intervalo de tempo de 41.000 anos. Hoje, a obliquidade da órbita terrestre
é de 23° 27’ 30”. Todavia, como visto na figura 7, a variação dela vai de
21,5° a 24,5°. Estando as estações do ano intimamente relacionadas à
inclinação do eixo da Terra, quanto maior a inclinação, maior a diferença
entre as estações; quanto menor a inclinação, menor a diferença entre as
estações. (AYOADE, 1986).
No que se refere às causas extraterrestres, o principal fator é a
variação de energia eletromagnética advinda do Sol que chega até a Terra.
Como discutido na unidade I, essas variações referem-se à ciclicidade
das atividades nucleares do Sol. As órbitas dos planetas do sistema solar
também alteram a energia solar que chega até a Terra. Conforme Ayoade
(1986), o principal interesse da ciência em relação ao Sol tem sido as
manchas solares. Vejamos a figura 8:
Figura 8 – Número médio mensal de manchas, 1750 / 20005
A figura 8 demonstra uma ciclicidade de aumento e diminuição de
manchas solares, variações que interferem tanto nas temperaturas como
5
Fonte: Disponível em: http://astro.if.ufrgs.br/esol/suncycles.gif. Acesso em: 24 fev.
2009.
46.
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unidade 2
nospercentuais de umidade distribuída na superfície da Terra, fazendo
as características climáticas flutuarem neste período.
SEÇÃO 3
História do planeta e do clima
Nosso planeta tem aproximadamente 4,5 bilhões de anos. De forma
lenta e gradual, a superfície da Terra se resfriou e solidificou, formando e
individualizando a atmosfera. Desde então, o planeta passou por períodos
de aquecimento e resfriamento.
Mesmo estando o planeta em um período interglacial, houve, no
decurso de sua história, o predomínio de uma temperatura atmosférica
superior a 15 °C. Nos períodos de aquecimento foram predominantes um
número menor de áreas emersas, desertos e um nível oceânico superior
em dezenas de metros do atual. (SERRA, 1954).
De toda a história do planeta, o que é mais conhecido são os últimos
500 / 600 milhões de anos. Isso ocorre devido ao fato de que os registros de
climas passados dificilmente são encontrados em rochas pré-cambrianas.
Vejamos a tabela 3:
Tabela 3 – Flutuações das superfícies dos mares e terras emersas6
6
Adaptado de TARDY, Yves. Geoquímica Global: oscilações climáticas e evolução do
meio ambiente desde quatro bilhões de anos. In: Estudos Avançados, vol. 11, n. 30,
1997.
47.
Climatologia2
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unidade 2
Comovisto por Yves Tardy (1997), registros que datam do cambriano
demonstram que as áreas referentes a espelho d’água e superfície de terra
mudaram, comprovando a variação da temperatura da atmosfera (quanto
maior a temperatura, menor possibilidade de congelamento da água,
maior espelho d’água; quanto menor a temperatura, maior possibilidade
de congelamento da água, menor área de espelho d’água). Contudo,
diversos registros apontam para temperaturas e totais de umidade maiores
quando regredimos na história do planeta (Figuras 9 e 10):
Figura 9 – Paleomapa e média de temperatura global7
Figura 10 – Temperatura média global a partir da Era Mesozoica8
A figura 9 e mais especificamente a 10 demonstram a temperatura
média da atmosfera nos últimos 100 milhões de anos. A linha tracejada
é uma projeção para os próximos 400 anos, a partir da grande utilização
de combustíveis fósseis e com a duplicação dos níveis de CO2
na
7
Fonte: http://www.lakepowell.net/sciencecenter/geologic%20global%20temp.jpg.
Acesso em: 24 fev. 2009.
8
Idem.
48.
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unidade 2
atmosfera9
.
Algunsautores apontam para várias glaciações que aconteceram na
história do planeta, como também uma gama de períodos de ocorrência.
Adalberto Serra (1954) relaciona que a história do planeta viu a passagem
de quatro glaciações, no Proterozoico Inferior (750 milhões de anos),
Proterozoico Superior e Pré-Cambriano (500 milhões de anos), no
Carbonífero Superior (250 milhões de anos) e no Quaternário (período
atual). Cristopher Scotese (2008)10
indica cinco grandes períodos de
glaciação (Figura 9). Ayoade (1986), baseado em Brooks (1949), defende
que houve três períodos de glaciação, durante o Pré-Cambriano, Permiano
e Pleistoceno.
Tal variação de proposições refere-se a diferentes técnicas e métodos
utilizados. Assim, quanto mais voltamos no tempo, mais conjecturais
e menos factuais tornam-se as teorias. Mas todos concordam com a
existência de um grande período de glaciação no último milhão de anos,
durante o Pleistoceno. Vejamos a figura 1111
que demonstra a relação
entre concentração de CO2
e temperatura nos últimos 400 mil anos.
Figura 11 – Concentração de CO2 e Ciclos Glaciais12
9
Fonte: CROWLEY, T. J., Are there any satisfactory geologic analogues for a future gree-
nhouse warming? Journal of Climate, vol 3, p. 1282-1292, 1990. [http://www.lakepowell.
net]
10
Disponível em: http://www.scotese.com. Acesso em: 24 fev. 2009.
11
Adaptado de: http://maps.grida.no/library/files/storage/26_large.jpg. Acesso em: 25
fev. 2009.
12
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d2/Atmospheric_CO2_with_gla-
ciers_cycles.gif Acesso em: 25 fev. 2009.
49.
Climatologia2
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unidade 2
Noúltimo milhão de anos, aconteceram quatro grandes glaciações:
Glaciação Nebraska – Günz; Glaciação Kansas – Mindel; Glaciação
Illinois – Riss; Glaciação Wisconsin – Würm. Segundo Ayoade (1986), o
último período de glaciação continental terminou entre 22.000 e 14.000
anos, quando se iniciou o recuo das geleiras. Entre sete e cinco mil anos,
a temperatura era maior que a atual. Todavia, nos últimos cinco mil anos a
temperatura declinou, com momentos de anomalias há 2.800 e 350 anos.
O último período com temperaturas baixas ocorreu entre anos de 1550 e
1850, denominado pequena idade do gelo.
Nosso conhecimento das alterações climáticas globais nasce
da justaposição de um conjunto de fontes de informação, incluindo a
arqueologia, antropologia, fontes documentais e registros instrumentais,
que têm demonstrado a variação de elementos climáticos, temperatura
e umidade, em várias partes do planeta, nos últimos 10.000 anos. Em
comparação com os dados do último milhão de anos, estaríamos em um
período interglacial (Figura 11), de duração desconhecida.
Sugerimos que você acesse a plataforma Moodle e assista aos vídeos
Segredos do Sol I, II, III, IV e V.
50.
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Atravésda plataforma Moodle, no link Ciclos de Milankovitch, assista à animação que demonstra
as causas astronômicas de alterações do clima do planeta Terra e, após, leia o texto Aquecimento
Global: uma impostura científica, de Marcel Leroux. A seguir, elabore um texto, argumentando seu
posicionamento sobre a temática Aquecimento Global: causa natural ou resultado da ação humana?
Além do interesse para a Climatologia Geográfica, os períodos glaciais e suas influências são
elementos importantes também para as análises geomorfológicas das paisagens naturais. Veja, por
exemplo, que a maior parte da morfologia atual do planeta Terra é decorrente do período Quaternário
(PENTEADO, 1983; SALGADO-LABOURIAU, 1994). Também esses períodos climáticos vão influenciar
a paisagem natural no que tange aos seus biomas e consequentemente é um fator essencial na
Biogeografia. (AB’SÁBER, 2003).
Leituras Complementares
TARDY, Yves. Geoquímica Global: oscilações climáticas e evolução do meio ambiente desde quatro
bilhões de anos. Estudos Avançados, vol. 11, n. 30, 1997.
VANZOLINI, Paulo Emílio. Paleoclimas e especiação em animais da América do Sul tropical. Estudos
Avançados, vol. 6, n. 15, 1992.
Vimos nesta unidade que a atmosfera é altamente dinâmica. As diferenciações referem-se
tanto ao tempo como ao clima, mudanças que se apresentam como flutuações, como ciclos ou como
alterações de fato e que podem ir de anos a milhões de anos.
Essa multiplicidade de possibilidades e de variabilidades são sempre provenientes tanto
de fatores internos à própria dinâmica da atmosfera, como de fatores externos a ela, sistema este
constituído da relação entre energia proveniente do Sol, distribuição através da atmosfera e interação
entre os elementos do clima.
Climatologia2
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unidade 1
53
unidade 3
Classificações
climáticase seus
critérios
OBJETIVO DE APRENDIZAGEM
Compreender as classificações climáticas e seus critérios.■■
ROTEIRO DE ESTUDOS
SEÇÃO 1– Temperatura, precipitação e vegetação como elementos de■■
classificação dos climas
SEÇÃO 2 – Classificação de Köppen – Geiger■■
SEÇÃO 3 – Classificação de Arthur Strahler■■
UNIDADEIII
Almir Nabozny
Marcio Jose Ornat
54.
UniversidadeAbertadoBrasil
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unidade 3
Parainício de conversa
O clima é uma importante informação geográfica, influenciando
tanto os tipos de solo e vegetação, como as distribuições e as variações das
atividades de uso da terra no planeta. A engenharia tem proporcionado a
alteração da utilização de áreas que até então eram inóspitas, como por
exemplo, várias localidades no semiárido brasileiro. (Consultar na história
do pensamento geográfico o debate em torno das ideias de ecúmeno e
anecúmeno.)
Todavia, essas alterações são via de regra seletivas, estando
relacionadas, ou a grandes investimentos do Estado, demandando um
custo social muito alto, ou à utilização de grandes volumes de capital,
direcionados à produção agro-industrial, visando ao mercado externo,
por exemplo.
O conhecimento científico construiu formas de classificação,
buscando transformar um conjunto de variáveis incompreensíveis em
espacialidades inteligíveis. Como visto por Blair1
(1942), o conceito de
clima é por demais complexo e abstrato. Não é alguma coisa que podemos
possuir ou calcular exatamente. Não é possível levar em consideração,
quando descrevemos um clima, todas as trocas entre os vários elementos
que o compõe. Desta forma, sempre temos que tornar simples e gerais as
características. (STRAHLER, 1974).
Mas se as classificações nos auxiliam na compreensão das
distinções climáticas da superfície da Terra, elas também produzem
alguns inconvenientes. O primeiro refere-se à representação cartográfica
das proposições de classificações. As linhas que separam climas com
características distintas não existem de fato, induzindo sempre o leitor do
documento cartográfico ao erro. Salvo em circunstâncias como bloqueios
orográficos, existem transições entre as características climáticas que
devem ser representadas por cores intermediárias.
Outra deficiência das classificações relaciona-se ao fato de que elas
sempre excluem os oceanos que, segundo Strahler, deveriam ser incluídos
nos esquemas gerais de classificação.
Assim, trataremos nesta unidade dos principais elementos utilizados
nas classificações climáticas mais usuais, como na de Arthur Strahler e
Wladimir Köppen.
1.
Apud STRAHLER. 1974.
55.
Climatologia2
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Seção1
Temperatura, precipitação e vegetação como
elementos de classificação dos climas
As linhas de temperatura (isotermas) e as linhas de latitude
colocam-se como aproximadamente paralelas, possibilitando uma
primeira classificação do clima global. Entretanto, em razão das distintas
características de massas de água e de terra, não podemos utilizar apenas
a temperatura como elemento preponderante na classificação do clima do
planeta. (STRAHLER, 1974). Uma aproximação pode ser visualizada na
figura 12:
Figura 12 – Temperatura das águas oceânicas / NOAA2
A temperatura não é o único, mas um importante elemento nas
classificações climáticas. Apenas a partir das temperaturas, podemos
definir três tipos climáticos: sem inverno de latitudes baixas; de latitudes
médias, com uma estação de verão e inverno; de latitudes altas sem
verão.
Para Strahler (1974), um clima sem inverno é aquele no qual em
nenhum mês as temperaturas são inferiores a 18 °C; um clima sem verão
seria aquele em que nenhum mês teria temperaturas superiores a 10 °C.
A utilização isolada da temperatura produz alguns graves
inconvenientes, como a ausência de distinção entre regiões desérticas e
úmidas. Assim, uma possibilidade de complementar a classificação seria
2.
Fonte: www.noaa.gov
56.
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unidade 3
aprecipitação. O total e a duração das chuvas têm grande importância
tanto nos tipos e distribuição de vegetação, como nos tipos de drenagem
e umidade do solo. (STRAHLER, 1974). Vejamos a figura 13:
Figura 13 – Pluviosidade Maranhão - 20053
Segundo a proposta de Blair (1942)4
, poderíamos classificar o clima
segundo a precipitação anual de determinado local, a partir das seguintes
categorias:
3
Fonte: http://www.nemrh.uema.br/meteoro/figuras/mapa_boletim05.jpg. Acesso em:
27 fev. 2009.
4
Apud STRAHLER, 1974.
57.
Climatologia2
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unidade 3
Tabela4 – Tipos Climáticos, segundo Blair (1942)
Tipo Climático Tipo de Precipitação Precipitação anual (mm)
Árido Escassa 0 - 250
Semiárido Rápida 250 - 500
Subúmido Moderada 500 - 1000
Úmido Forte 1000 - 2000
Muito úmido Muito Forte Acima de 2000
Considerando que a figura 13 fosse da precipitação anual do
Maranhão, o estado, segundo a classificação de Blair5
, teria dois tipos
climáticos, um árido e um semiárido. Uma representação cartográfica
desta forma de classificação iria coincidir com a distribuição espacial da
precipitação anual.
Mas, igualmente à utilização da temperatura como elemento
isolado, a classificação, a partir da pluviosidade, agruparia em uma
mesma categoria duas áreas com características completamente distintas,
ou seja, climas árticos e climas desérticos. Assim, uma classificação que
leva em consideração essas deficiências, agrupa tanto temperatura como
pluviosidade. (STRAHLER, 1974).
Outros elementos que auxiliam na classificação dos tipos climáticos
são a vegetação e os solos. As plantas devem se adaptar às mudanças
climáticas, ou melhor dizendo, são adaptadas aos totais de temperatura
e pluviosidade as quais são indicadores muito importantes, assim como
os solos.
Mas tanto um quanto outro apresentam inconvenientes, referentes à
interdependência entre eles. Sabemos que tanto a formação da vegetação
como a do solo dependem das intensidades de temperatura e umidade.
O desenvolvimento das coberturas vegetais tem relação com os tipos de
solo, com sua granulometria e componentes químicos; do mesmo modo, a
formação dos solos depende, além do clima, da intensidade de declividade
do terreno, da vegetação e do embasamento geológico.
Na próxima seção demonstraremos as soluções encontradas e as
classificações do clima global realizadas por Strahler e Köppen-Geiger.
5
BLAIR, Thomas A. Climatology, General and Regional. New York: Prentice-Hall, 1942.
58.
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Seção2
Classificação de Köppen – Geiger6
(sistema
empírico - quantitativo)
Segundo Strahler (1974), o primeiro teórico que classificou os
climas globais utilizando dados de temperatura e pluviosidade, com o
ajustamento das linhas limites e com a utilização da distribuição dos
tipos de vegetação conhecidos, foi o professor Wladimir Köppen, da
Universidade de Graz, em 1918. A sistemática da classificação de Köppen
é estritamente empírica, baseando-se em dados de séries temporais de
temperatura e pluviosidade. Este tipo de classificação não leva em conta
pressão atmosférica, massas de ar, ventos, frentes frias.
Como afirmado por Strahler, tal classificação ganhou popularidade
em razão da obtenção dos dados de temperatura e pluviosidade; não é
uma atividade complicada, pois não demanda equipamentos sofisticados
e operadores especializados.
As principais categorias e suas subdivisões referem-se aos seguintes
critérios7
:
A – Climas tropicais chuvosos: mês mais frio, com temperatura
superior a 18 °C; a precipitação anual é maior que a
evapotranspiração.
B – Climas secos: evapotranspiração potencial média anual
maior que a precipitação média anual. Não existe excedente de
água. Assim, nenhum rio forma-se nestas áreas.
C – Climas temperados chuvosos e quentes: mês mais frio
com temperaturas entre -3 °C e 18 °C. O mês mais quente
possui temperatura média maior que 10 °C. Estação de verão e
inverno bem definidos.
D – Clima frio com neve - floresta: mês mais frio
6
A classificação climática de Köppen-Geiger, mais conhecida por classificação climática
de Köppen, é o sistema de classificação global dos tipos climáticos. Foi proposta pelos
idos de 1900 pelo climatologista alemão Wladimir Köppen, tendo sido por ele aperfeiço-
ada entre 1918-1927. Em 1936, foram publicadas novas versões, preparadas em colabo-
ração com Rudolf Geiger (daí o nome Köppen-Geiger).
7
Fonte: AYOADE, 1986.
59.
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unidade 3
comtemperatura menor que – 3 °C e 10 °C. Mês mais
moderadamente quente com temperatura média acima de 10
°C. Estações de Verão e Inverno bem definidas.
E – Climas polares: mês mais quente com temperatura média
menor que 10 °C. O mês mais quente em ET (Tundra) tem
temperatura entre 0 e 10 °C. O mês mais quente em EF (Neve
e gelos perpétuos) tem temperatura menor que 0 °C.
O significado de cada uma das segundas letras utilizadas está
relacionado a distribuição sazonal de precipitação, como veremos a
seguir:
f – nenhuma estação seca, úmido todo o ano (A, C, D);
m – de monção, com breve estação seca e com chuvas intensas
durante o resto do ano (A);
w – chuva de verão (A, C, D);
S – estação seca de verão (B);
W – estação seca de inverno (B).
Características adicionais de temperatura:
a – verão quente: o mês mais quente tem temperatura média maior
do que 22 °C;
b – verão moderadamente quente: o mês mais quente tem
temperatura média inferior a 22 °C;
c – verão breve e moderadamente frio, menos que quatro meses:
tem temperatura média maior do que 10 °C;
d – inverno muito frio: o mês mais frio tem temperatura média menor
que -38 °C.
Nas regiões áridas (BW e BS):
h – quente, temperatura média anual maior que 18 °C;
k – moderadamente frio, temperatura média anual menor do que
18 °C.
60.
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unidade 3
Ayoade(1986) aponta que o modelo de Köppen, proposto em
1900, revisado em 1918, substancialmente, relaciona clima à vegetação,
e também a modelos matemáticos que definiam os tipos climáticos. O
primeiro mapa apresentado pelo autor era respaldado pelo fisiólogo da
vegetação, o francês Alphonse de Candolle.
No modelo atualizado de 1918, Köppen deu maior relevância
à sazonalidade de temperaturas e pluviosidade. Nessa classificação
existem cinco tipos climáticos baseados nas variações de temperatura,
que são subdivididos em outras classes segundo critérios de pluviosidade
e de características específicas de temperatura. A inter-relação entre as
categorias de classificação produziu 24 tipos climáticos demonstrados a
seguir:
Tabela 5 – Tipos Climáticos Köppen8
1° 2° 3° Descrição
A CLIMAS TROPICAIS CHUVOSOS
A f Clima tropical chuvoso de floresta
A w Clima de savana
A m Clima tropical de monção
B CLIMAS SECOS
B S h Clima quente de estepe
B S k Clima frio de estepe
B W h Clima quente de deserto
B W k Clima frio de deserto
C CLIMAS TEMPERADOS CHUVOSOS E QUENTES
C f a Úmido em todas as estações, verão quente
C f b Úmido em todas as estações, verão moderadamente quente
C f c Úmido em todas as estações, verão moderadamente frio e curto
C w a Chuva de verão, verão quente
C w b Chuva de verão, verão moderadamente quente
C s a Chuva de inverno, verão quente
C s b Chuva de inverno, verão moderadamente quente
D CLIMA FRIO COM NEVE - FLORESTA
D f a Úmido em todas as estações, verão quente
D f b Úmido em todas as estações, verão frio
D f c Úmido em todas as estações, verão moderadamente frio e curto
D f d Úmido em todas as estações, inverno intenso
D w a Chuva de verão, verão quente
D w b Chuva de verão, verão moderadamente quente
D w c Chuva de verão, verão moderadamente frio
D w d Chuva de verão, inverno intenso
E CLIMAS POLARES
E T Tundra
E F Neve e gelo perpétuos
8
Fonte: AYOADE, 1986, p. 232-3.
61.
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Valeressaltar algumas questões, buscando evitar enganos de
compreensão. O que tem mais relevância na classificação não são as
classes criadas, mas as categorias nas quais se propõem classificar os
climas no planeta.
Prova disso é que, desde a proposição de Köppen, no começo do séc.
XX, várias tentativas foram realizadas com o objetivo de refinar o mapa-
múndi da classificação climática de Köppen-Geiger. Peel et al. (2007)
aponta que, no final do séc. XX, outros autores também buscaram refinar
geograficamente o mapa de Köppen-Geiger, a partir de novos dados de
temperatura e precipitação. Três propostas são salientadas por Peel:
– Kalvova et al. (2003) utilizou as unidades de pesquisa climática
(University of East Anglia) com dados entre 1961-1990, apresentando um
mapa dos cinco principais tipos climáticos de Köppen (o tipo E dividido
em duas classes), com uma resolução espacial de 2.5° x 2,5° (lat. / long.).
– Gnanadesikan e Stouffer (2006) apresentaram um mapa de
quatorze tipos climáticos de Köppen, baseado nos mesmos dados de
Kalvova (2003), mas com uma resolução espacial de 5° x 5° (lat. / long.).
– O mais completo mapa climatológico mundial de Köppen-
Geiger, produzido até o final do séc. XX, foi o de Kottek et al. (2006), que
apresentou uma resolução de 0,5° x 0,5° (lat. / long.), baseando-se tanto
nas mesmas fontes de Kalvova (2003), como nas informações do Global
Precipitation Climatology Centre (GPCC) VASClimO. vo1. 1, do período de
1951–2000.
Todas as três perspectivas acima são construídas com períodos
limitados (1961-1990 e 1951-2000). Peel et al. (2007) busca, a partir disso,
atualizar o mapa da classificação mundial do clima de Köppen-Geiger,
baseado em todo o período.
A fonte dos dados utilizados por Peel et al. (2007) são 4.279 estações
de monitoramento de temperatura e precipitação (Figura 14), localizadas
nos Estados Unidos, no sul do Canadá, no nordeste do Brasil (apenas
precipitação), Europa, Índia (apenas precipitação), Japão e leste da
Austrália. As áreas desérticas, polares e algumas regiões tropicais, como a
África subsariana, a Arábia Saudita, Austrália Central, o norte do Canadá,
norte da Rússia e da região amazônica do Brasil tiveram uma escassa
densidade de estações.
62.
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Figura14 – Localização das Estações de Temperatura com 30 ou mais valores para cada
mês. T only = apenas dados de temperatura; P + T = tanto dados de precipitação como
de temperatura9
Estas estações apresentavam informações que variavam de 30 a 299
gravações por mês em relação à precipitação, e de 30 a 297 relacionadas
à temperatura. Os períodos mais representativos de temperatura foram
de 1923 a 1993, e de precipitação, de 1909 até 1991.
Como resultado desse trabalho, são propostos 29 tipos climáticos
divididos em: três tropicais (Af, Am e Aw), quatro áridos (BWh, BWk, BSh
e BSk), oito temperados (Csa, Csb, Cfa, Cfb, Cfc, Cwa, Cwb e Cwc), doze
frios (Dsa, Dsb, Dsc, Dsd, Dfa, Dfb, Dfc, Dfd, Dwa, Dwb, Dwc e Dwd)
e dois polares (ET e EF). Vejamos a seguir os mapas de classificação
climática de Köppen-Geiger que nasceram a partir dessa proposição:
Figura 15 – Classificação
Climática Köppen –
Geiger / África10
9
Fonte: PEEL et al. 2007.
10
Idem.
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Figura20 – Classificação Climática Köppen – Geiger / Austrália15
AlgumascríticassãodirecionadasaKöppen,comoaausênciadeuma
categoria subúmida, por ser mais empírica do que genética, pela ausência
de justificativa para a utilização de diversos critérios matemáticos, pelo
uso de critérios rígidos e pela escassez de observações em diversas partes
do planeta. (AYOADE, 1986).
Todavia, muitas das críticas ocorreram na primeira metade do século
XX. Houve significativos avanços relacionados a essa classificação,
conforme demonstrado no esforço de vários pesquisadores como Kalvova
et al. (2003), Gnanadesikan e Stouffer (2006), Kottek et al. (2006), além
de Peel et al. (2007).
Apenas os trabalhos relacionados, dentro de um considerável corpo
de reflexão, demonstram a pertinência dessa classificação com seus
critérios, tanto para a pesquisa como para o ensino de Geografia. Tal
classificação busca, para além das críticas recebidas, conceber o clima
como um fenômeno geográfico, possuindo uma dimensão espacial, uma
espacialidade que é constituída, entre outras coisas, pelo clima, mas
também constituinte dele.
15
Idem.
66.
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Seção3
Classificação de Arthur Strahler (sistema
explicativo - descritivo)
Acirculaçãoglobaldaatmosfera,relacionadaàcirculaçãodasmassas
de ar, com suas informações de origem e comportamento, proporciona
princípios de compreensão das causas do tempo e suas variações.
Segundo Strahler (1974), esse conhecimento deve ser empregado na
compreensão dos climas mundiais, não nos limitando apenas a utilizar
dados de temperatura e precipitação.
Para o autor, os critérios mais produtivos de classificação climática
são aqueles que buscam as origens dos fenômenos. Segundo ele, o sistema
de classificação denominado genético, coloca-se à frente de qualquer
critério, pois se propõe a explicar o próprio sistema classificatório,
colocando-se como explicativo.
Strahler é claro na diferenciação do que ele chama de empírico–
quantitativo (conforme a classificação de Köppen) em relação ao seu
posicionamento explicativo – descritivo. Em suma, sistema explicativo –
descritivo é uma explicação “razoável e científica da existência de grupos
e subgrupos climáticos de Köppen”. (STRAHLER, 1974, p. 243).
A classificação de Strahler está baseada na natureza, no movimento
e nas características das massas de ar, a partir das suas origens. A figura
21 demonstra o esquema da movimentação das massas de ar, ilustrando
os três principais grupos climáticos estabelecidos por Strahler (1974),
enquanto a 22 mostra a espacialidade da classificação dos climas de
Strahler.
Dentre os três grupos climáticos, o Grupo I inclui as regiões
geradoras equatoriais e tropicais. Os climas que possuem essa localização
são controlados por células subtropicais de alta pressão, que são regiões
de subsidência do ar. Estes climas estão, via de regra, determinados pelas
massasdeartropicaiseequatoriais.OGrupoIIéumaáreaondeasrelações
entre massas de ar com características distintas são muito intensas, com
influência tanto de massas de ar tropicais como polares. As interferências
relacionam-se às estações, não sendo nenhuma predominante. A área
relacionada ao Grupo III é influenciada preponderantemente por massas
de ar polares e árticas – antárticas. Algumas áreas da Sibéria e do Canadá
67.
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pertencema este grupo, não tendo ocorrência no Hemisfério Sul.
Esse conjunto de relações constitui, para Strahler, quatorze tipos
climáticos (Figura 23), que têm relação aos tipos climáticos de Köppen,
demonstrados na tabela 6.
Figura 21 – Diagrama global ilustrando os fundamentos dos três principais grupos
climáticos16
16
Extraído de STRAHLER. 1974, p. 242.
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Tabela6 – Tipos Climáticos de Strahler18
GRUPO I – CLIMAS DE LATITUDES BAIXAS – regulados por massas de ar equatoriais e tropicais
Nome dos Climas Símbolo de Köppen Regiões de origem das massas de ar – características gerais dos climas
1. Clima equatorial
úmido / 10° lat. N
- 10° lat. S (Ásia
10° - 20 ° N)
Af - Am
Os climas da depressão tropical (zona de convergência) são dominados pelas massas de ar quente
e úmidas marítimas tropicais (mT) e equatoriais (mE) que proporcionam fortes chuvas mediante
tempestades convectivas. Ao longo do ano prevalecem temperaturas uniformes.
2. Clima litorâneo de
ventos alísios / 10° -
25° lat. N e S
Af - Am
Os ventos alísios produzem massas de ar tropicais marítimas (mT), desde o lado úmido das células
subtropicais oceânicas de alta pressão, dando origem a estreitas áreas nas costas orientais com fortes
chuvas e temperaturas uniformemente altas. As chuvas mostram fortes variações entre as estações.
3. Climas tropicais
de deserto e estepe
/ 15° - 35° lat. N e S
BWh - BSh
As regiões de origem das massas de ar continentais-tropicais (cTs), em células de alta pressão em níveis
altos, sobre os continentes, a um ou outro lado dos trópicos de Câncer e Capricórnio, originam climas
áridos a semiáridos com temperaturas máximas muito altas e oscilações anuais moderadas.
4. Clima desértico
das costas
ocidentais / 15° -
30° lat. N e S
BWk - BWh
Nas costas ocidentais que limitam as células subtropicais oceânicas de alta pressão, as massas de ar
tropicais marítimas (mTs) existentes são estáveis e secas. Nos estreitos cinturões costeiros predominam
climas de deserto extremamente secos, porém relativamente frescos e neblinosos. As oscilações
térmicas anuais são fracas.
5. Clima tropical
úmido – seco / 5° a
25° lat. N e S
Aw - Cwa
A alternância estacional de massas de ar úmidas mT e mE com massas de ar seca cT originam um clima
com estações úmidas no período de Sol alto e estações secas no período de Sol baixo.
GRUPO II – CLIMAS DE LATITUDES MÉDIAS – regulados por massas de ar tropicais e polares
Nome dos Climas Símbolo de Köppen Regiões de origem das massas de ar – características gerais dos climas
6. Clima subtropical
úmido / 20° - 35° lat.
N e S
Cfa
Margens continentais do leste subtropicais dominadas por massas de ar marítimas úmidas (mT) que
fluem dos lados ocidentais das células oceânicas de alta pressão. Na estação de Sol alto, a chuva é forte
e as temperaturas quentes. Os invernos são frescos com frequentes invasões de massas de ar polar
continentais (cP). São frequentes as tempestades ciclônicas.
7. Clima marítimo
das costas
ocidentais / 40° - 60°
lat. N e S
Cfb - Cfc
Nas costas ocidentais de barlavento das latitudes médias, se produzem frequentes tempestades
ciclônicas com massas de ar polares marítimas úmidas (mP). Estas produzem muita nebulosidade e uma
precipitação bem distribuída, porém com um máximo no inverno. A oscilação térmica anual é pequena
para as latitudes médias.
8. Clima
mediterrâneo / 30° -
45° lat. N e S
Csa - Csb
Este clima de inverno úmido e verão seco é resultado de alterações estacionais das condições que
originam os climas 4 e 7; as massas de ar mP dominam no inverno com tempestades ciclônicas e
abundante chuva, e as massas de ar mTs dominam no verão com estiagem extrema. A oscilação térmica
anual é moderada.
9. Clima de deserto
e estepes das
latitudes médias /
30° - 50° lat. N e S
BWk – BWk'
BSk - BSk'
Desertos e estepes interiores de latitudes médias situadas nas regiões em que as montanhas impedem
as invasões de massas de ar marítimas, porém dominadas por massas de ar tropicais continentais (mT
ou mP), no verão, e por massas de ar polares continentais (cP), no inverno. Grande oscilação térmica
anual; verões muito quentes e invernos muito frios.
10. Clima continental
úmido / 35° - 60°
lat. N
Dfa – Dfb
Dwa – Dwb
Localizados nas partes continentais centrais e orientais das latitudes médias, estes climas estão na zona
frontal polar, o campo de batalha das massas de ar tropicais e polares. Os contrastes estacionais são
fortes e o tempo muito variável. Ampla precipitação durante todo o ano, aumentada no verão pela invasão
de massas de ar tropicais marítimas (mT). Os frios de inverno são dominados por frequentes invasões de
massas de ar polares continentais (cP) procedentes de regiões de origem setentrionais.
GRUPO III – CLIMAS DE LATITUDES ALTAS – regulados por massas de ar polares e articas
Nome dos Climas Símbolo de Köppen Regiões de origem das massas de ar – características gerais dos climas
11. Clima continental
sub--ártico / 50° -
70° lat. N
Dfc – Dfd
Dwc – Dwd
Este clima se encontra na região de origem das massas de ar polares continentais (cP), que no inverno
são estáveis e frias. Os verões são curtos e frescos. A oscilação térmica anual é enorme. As tempestades
ciclonais, as que arrastam o ar polar marítimo (mP), proporcionam precipitações rápidas, porém a
evaporação é pequena, e por isso, o clima é úmido.
12. Clima marítimo
sub-ártico / 50° - 60°
lat. N e 45° - 60°
lat. S
ET
Localizadas nas zonas frontais árticas da estação invernal, estas costas e ilhas de barlavento das
altitudes subárticas estão dominadas por massas de ar mP fresco. A precipitação é relativamente grande
e a oscilação térmica anual é pequena para uma região de latitude alta.
18
Extraído de STRAHLER. 1974, p. 246-247.
70.
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13.Clima de tundra /
ao norte de 55° N e
ao sul de 50° S
ET
Os limites costeiros árticos estão situados ao longo de uma pequena zona frontal em que as massas de
ar polar (mP, cP) interagem com as massas de ar árticas (A) em tempestades ciclônicas. O clima é úmido
de frio rigoroso, sem estação quente ou verão. A influência moderadora das águas do oceano impede que
o inverno seja extremamente rigoroso como no clima 11.
14. Clima de calotas
polares(Groenlândia
e Antártida)
EF
As regiões de origem das massas de ar árticas (A) e antárticas (AA) situadas sobre as grandes calotas
polares continentais têm um clima com uma média anual de temperaturas muito abaixo de todos os
climas, e nenhuma média mensal acima de 0 °C. As grandes altitudes dos platôs de gelo intensificam o
frio das massas de ar.
Climas de grandes
altitudes
Os climas úmidos frescos ou frios, que ocupam áreas de grande altitude nas cadeias de montanhas do
mundo, têm uma extensão localizada e não estão incluídas no sistema de classificação.
Enquanto Köppen se propôs a classificar os climas do planeta, tendo
por critério os dados de temperatura e precipitação, Strahler buscou
compreender as causas dos climas. Strahler não contradiz Köppen, mas
vai além do sistema empírico–quantitativo. Com sua proposta explicativo–
descritiva, Strahler conecta a grande movimentação global das massas de
ar às características geográficas do clima.
Para ampliação do seu conhecimento, veja, através da plataforma
Moodle, os links Movimentação Atmosférica I e II e Observação do
Satélite NOAA.
Leituras Complementares
STRAHLER,Arthur. Climas, suelos e vegetación. In: Geografía Física. Barcelona: Ediciones
Ômega, 1974, p. 235 – 253.
AYOADE, J. O. Classificações Climáticas e Climas Regionais. In: Introdução à climatologia
para os trópicos. São Paulo: DIFEL, 1986.
Na presente unidade, tratamos dos principais subsídios das classificações climáticas, a
temperatura, a umidade e os tipos de vegetação. Nenhuma delas, tomada de forma isolada,
pode ser um elemento final nas classificações climáticas. Podemos confundir regiões
desérticas e úmidas se tomarmos apenas a temperatura como elemento, ou regiões
desérticas e polares, usando por critério apenas a precipitação.
Semelhantemente, a espacialidade da vegetação é tanto resultado de totais de temperatura
e pluviosidade, como de formações pedológicas. O solo pode ser considerado também
como elemento de refinamento das classificações climáticas, todavia com parcimônia, pois,
da mesma forma que a vegetação, o solo tem influência, além da temperatura e umidade,
da própria vegetação e do embasamento geológico.
As principais formas de classificação climática global demonstradas nesta unidade estiveram
relacionadas à classificação empírico-quantitativa de Köppen – Geiger, e a classificação
explicativo-descritiva de Strahler.
Cada classificação tem sua importância e pertinência, tanto para a pesquisa como para o
ensino de Geografia. Além disso, pode ser usada de forma complementar, demonstrando a
diversidade climática global (Köppen), e explicando o porquê da distinção (Strahler). Como
já foi dito, as propostas não se colocam como antagônicas, são de fato complementares.
71.
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Tendopor referência tanto os critérios climáticos de Köppen de temperatura e precipitação, como os
de Strahler, relacionados às características das massas de ar, redija um texto explicando o clima do
continente africano para evidenciar suas espacialidades. Uma sugestão é você espacializar sobre o
cartograma abaixo as classificações dos autores.
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unidade 4
Oclima: planeta
Terra, Brasil e o
Paraná
OBJETIVO DE APRENDIZAGEM
Apreender a relação entre escala de análise e classificação de■■
climas.
ROTEIRO DE ESTUDOS
SEÇÃO 1– Regimes Climáticos Globais■■
SEÇÃO 2 – Regimes Climáticos: Brasil e Paraná■■
UNIDADEIV
Almir Nabozny
Marcio Jose Ornat
74.
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Parainício de conversa
Como vimos na unidade anterior, qualquer sistema de classificação
climática tem a temperatura e a pluviosidade como elementos
caracterizadores. São os totais de temperatura e precipitação, com suas
variações de intensidade, relacionadas às estações do ano, que indicam
certo local como pertencente a determinado clima em vez de outro.
Arelaçãoentretemperaturaepluviosidade,denominadade regime
climático, proporciona o entendimento das formações e funcionamento
tanto da geografia dos solos como da geografia da vegetação. (STRAHLER,
1974).
Nesta unidade trataremos das variações, ou melhor dizendo, dos
regimes climáticos, na escala global, na brasileira e na paranaense. Para
Strahler (1974), esses regimes podem ser definidos através da construção
de Diagramas de Termoietas, mais popularmente conhecidos como
Climogramas.
O diagrama de termoietas é constituído pelas medidas mensais
de precipitação e temperatura de determinado local, cujas combinações
colocam-se como pontos que representam essas condições para cada mês,
relacionadas a cada estação do ano. Os meses são ligados por linhas que
demonstram o comportamento, na variação temporal, das características
de temperatura e pluviosidade. Quando os dados refletem uma média
mensal de mais de trinta anos, temos no ato da construção do diagrama
de termoieta o ciclo climático de determinado local.
Vejamos então os principais Regimes Climáticos Globais.
Seção 1
Regimes Climáticos Globais
Segundo Strahler (1974), existem no planeta sete regimes climáticos,
a saber:
Uniforme de Latitudes Médias;•
Equatorial;•
Tropical úmido – seco;•
Mediterrâneo;•
75.
Climatologia2
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Continental;•
Polar;•
Desértico.•
Todosformam-se a partir do cruzamento de temperatura “mais”
pluviosidadeedesuascaracterísticasdeuniformidadeenãouniformidade.
Os dois critérios relacionam-se à regularidade e à irregularidade tanto
de pluviosidade como de temperatura. Segundo Strahler (1974), um
clima uniforme apresenta uma pequena variação das médias mensais de
precipitação e temperatura, postas em um diagrama de termoieta (Figura
23):
Figura 23 – Diagrama de Termoieta1
As áreas representadas no diagrama de termoieta, que possuem uma
1
Fonte: STRAHLER, 1974, p. 710.
76.
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pequenagrafia, são as que apresentam maior uniformidade em relação
àquelas com áreas maiores (Figura 24). Devido ao fato de que temperatura
e precipitação estão interligadas, podemos encontrar possibilidades de
uniformidade: de temperatura e precipitação mensal; na temperatura,
mas não na precipitação; na precipitação, mas não na temperatura.
Figura 24 – Exemplos de Regimes climáticos uniformes2
Regime Uniforme de Latitudes Médias
A uniformidade total é rara na natureza, mas encontrável em certos
locais de latitude média. Os exemplos da figura 25, entre A e E, são de
locais com climas que representam regimes uniformes de latitudes médias
e mostram uma variação anual de temperatura não maior que 6 °C, e uma
distribuição da precipitação uniforme entre os meses3
.
Regime Equatorial
A uniformidade das temperaturas médias mensais, mas não das
precipitações, é o caracterizador das áreas de regime equatorial, possuindo
um grau de uniformidade térmica. Essas áreas estão localizadas em baixas
latitudes, relacionadas na figura 24, nos exemplos F e G.
2
Fonte: STRAHLER, 1974, p. 245.
3
Fonte: STRAHLER, 1974.
77.
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Quandoalinhaformadapelatermoietaéquasehorizontal,demonstra
quemesmo tendo pouca variação na temperatura, a pluviosidade é muito
variada na duração do ano.
Regime Tropical úmido – seco
Caracteriza-se por uma estação muito chuvosa, quando do Sol alto
(solstício de verão), e por uma seca, quando do Sol baixo (solstício de
inverno). Os locais relacionados a esse regime têm pequena variação
de temperatura durante o ano, mas uma precipitação não uniforme,
apresentando contrastes de seca e chuvas (Figura 25)
Figura 25 – Exemplos de Estações com Regime Tropical úmido – seco4
Em consequência da grande variação de pluviosidade, plantas e
animais localizados em áreas com esse regime devem possuir um grande
potencial de adaptação a períodos chuvosos ou secos.
Regime Mediterrâneo
O regime mediterrâneo ou subtropical de verão seco caracteriza-
se por ser muito quente e seco, e ter um inverno úmido e temperado. As
precipitações não são muito diferentes do regime descrito anteriormente,
contudo ocorrem em épocas do ano invertidas (Figura 26). Também exige
uma grande capacidade de adaptação de plantas e animais.
4
Fonte: STRAHLER, 1974, p. 249.
78.
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Figura26 – Exemplos de Estações com Regime Mediterrâneo5
Regime Continental
Tem por característica a oscilação da temperatura, acompanhada
com invernos rigorosos (Figura 27). A direção diagonal demonstra que
as estações quentes possuem maior precipitação, enquanto as mais frias,
menor intensidade de precipitação. Todavia, como salientado por Strahler
(1974), existe uma grande variação de umidade de uma localidade
para outra dentro do continente. Quanto mais próximas do centro dos
continentes, mais secas são as estações.
Figura 27 – Exemplos de Estações com
Regime Continental6
5
Idem.
6
Fonte: STRAHLER, 1974, p. 250.
79.
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RegimePolar
Este regime ocorre em ambos os polos, a partir do Círculo Polar
Ártico e Antártico, e é relacionado sempre a baixas temperaturas. Em
apenas alguns meses do ano, apresenta temperatura maior que 0 °C,
possuindo baixa pluviosidade.
Regime Desértico
Neste regime são combinadas desde baixíssimas médias de
precipitação até altíssimas temperaturas. Sofre influência de outros
regimes com suas características, como o continental e o mediterrâneo, e as
áreas que o possuem são apresentadas por sazonalidades de precipitação
que duram anos.
Os sete regimes possuem áreas de ocorrência ideal e, segundo
Strahler (1974), podemos dizer que constituem uma classificação
climática básica do mundo. Cada uma delas pode ser definida em termos
de variação de insolação, propriedades de massas de terra e água, ventos
dominantes e interações entre as massas de ar. Outras áreas possuem
regimes intermediários e, por essa razão, o autor escolhe uma classificação
com quatorze tipos em vez de sete.
Quando determinada área tem duas ou mais características,
nomeamosoclimacomacaracterísticaprincipaladjetivadacomasdemais:
um clima desértico com tendência mediterrânea, um regime tropical com
uma marcada influência continental, ou um regime continental com
influência polar. (STRAHLER, 1974, p. 252).
Na afirmação do autor, a geografia da vegetação demonstra os sete
tipos climáticos, assim como a geografia dos solos. Desse modo, a tríade
clima-vegetação-solo constitui uma justificativa para a compreensão do
clima a partir de regimes fundamentais.
80.
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SEÇÃO2
Regimes Climáticos: Brasil e Paraná
Como vimos na Unidade III, tanto as classificações de Köppen -
Geiger como as de Strahler são relacionadas, apesar de alguns critérios
específicos. Isso ocorre graças à classificação de Köppen–Geiger, que
busca demonstrar a espacialidade das diferenciações climáticas da
superfície da Terra, a partir de observações de dados quantitativos de
temperatura e precipitação, enquanto Strahler tem por preocupação
explicar as origens das diferenciações, partindo das movimentações de
massas de ar e conectando diferenciações espaciais de temperatura e
pluviosidade com a circulação atmosférica geral.
Quando mudamos a escala de análise de determinados fenômenos
(veja no livro Cartografia II a discussão sobre escala), mesmo que a
partir de iguais critérios, como os de Strahler ou de Köppen, o nível de
detalhamento é completamente alterado. Lembremo-nos da reflexão da
professora Iná Elias de Castro (2000), pois quando o tamanho muda, as
coisas mudam, e tão importante quanto saber que as coisas mudam com o
tamanho, é saber como elas mudam, quais os novos conteúdos das novas
dimensões.
Também temos que lembrar o trabalho de Peel et al. (2007) sobre a
atualização do mapa- múndi da classificação climática de Köppen–Geiger.
O que se busca com atividades como esta é o refinamento, a ampliação
do nível de detalhamento das informações geográficas referentes à
temperatura e precipitação.
Assim, quando passamos de uma espacialidade que trata da
superfície do planeta para uma que se relaciona ao território brasileiro,
o que se pretende é o refinamento das informações que se ligam às
classificações climáticas.
Vejamos então as classificações climáticas de Strahler e Köppen
para o território brasileiro.
Classificação de Köppen
Em sua discussão a respeito da Climatologia do Brasil, Adalberto
Serra (1978) discorre que, na história brasileira, houve mais de trinta
81.
Climatologia2
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tiposde classificações climáticas para o território nacional. Dentre eles,
destacamos dois elencados por Köppen: um primitivo, datando do final
do séc. XIX, e outro definitivo, já na segunda metade do séc. XX.
Os principais critérios utilizados no Brasil pelos pioneiros da
climatologia estavam relacionados ao estudo das coberturas vegetais
nacionais. Como visto por Serra (1978), De Cadolle, já em 1874, citava a
existência de cinco grupos vegetacionais, e com referência em Köppen,
ocorreriam no Brasil os seguintes:
A – megatermas: plantas tropicais que exigem alta temperatura•
e muita chuva, constituindo florestas (Clima A);
B – xerófitas: espécies de temperatura elevada, mas adaptadas a•
secas nas estepes e desertos (Clima B);
C – mesotermas: espécies adaptadas à temperatura moderada•
em latitudes de 25° a 45°, mas exigindo chuva regular e umidade
elevada (Clima C).
Como a vegetação é um resultado, dentre outros fatores, de
características de temperatura e precipitação, na falta de dados de
estações de observação, ela constitui-se um excelente indicador dos tipos
climáticos e seus limites.
A classificação de Köppen é amplamente utilizada tendo em vista
que, da ótica meteorológica ou para reflexões sobre cobertura vegetal, não
existe nada mais exato e mais universalmente aceito. (SERRA, 1978).
Segundo a classificação de Köppen, podem ocorrer no Brasil três
tipos climáticos:
A – climas tropicais chuvosos:• mês mais frio com temperatura
superior a 18 °C; a precipitação anual é maior que a
evapotranspiração;
B – climas secos:• evapotranspiração potencial média anual
maior que a precipitação média anual. Não existe excedente de
água. Assim, nenhum rio forma-se nestas áreas;
C – climas temperados chuvosos e quentes:• mês mais frio com
temperaturas entre -3 °C e 18 °C. O mês mais quente possui
temperatura média maior que 10 °C.
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Vejamosa figura 28 com os tipos climáticos brasileiros:
Figura 28 – Classificação Climática de Köppen – Geiger. Fonte: PEEL et al. 2007
Segundo a classificação de Pell et al. (2007), baseada nos critérios
de Köppen, existem no Brasil nove tipos climáticos: três tropicais (Af, Am
e Aw), dois áridos (Bwh e Bsh) e quatro temperados (Cfa, Cfb,Cwa e Cwb).
O Paraná apresenta dois tipos climáticos temperados (Cfa e Cfb). A partir
dos critérios de Köppen, podemos descrever os climas estabelecidos por
Peel.
No grupo dos climas tropicais chuvosos (A), encontra-se o clima
Af, sem estação seca, úmido durante todo o ano. Nas áreas influenciadas
pelo clima Am, existe uma breve estação seca e chuvas intensas durante
o resto do ano. O clima Aw apresenta chuvas de verão.
No grupo dos climas secos (B), encontram-se os tipos climáticos BSh
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eBWh. O clima BSh possui uma estação seca no verão, com temperatura
média elevada acima de 18 °C. O clima BWh possui uma estação seca de
inverno, com temperatura média anual superior a 18 °C.
No grupo dos climas temperados chuvoso e quente (C), encontram-
se os tipos climáticos Cfa, Cfb, Cwa e Cwb. O clima Cfa, predominante
no sul do país, não possui estação seca, úmido durante todo o ano, com
verão quente, tendo o mês mais quente temperatura média maior do
que 22 °C. O clima Cfb, existente no Paraná e Santa Catarina, também
não possui estação seca, é úmido todo o ano, com verão moderadamente
quente, tendo o mês mais quente temperatura média inferior a 22 °C. O
clima Cwa possui verão quente e chuvoso. O mês mais quente apresenta
temperatura média maior do que 22 °C. E finalmente, o tipo climático
Cwb possui chuvas de verão, mas com verão moderadamente quente. O
mês mais quente tem temperatura média inferior a 22 °C.
Note-se que esses dados estão primeiramente relacionados aos
critérios da Classificação Climática de Köppen. Em segundo lugar, a
variação das localizações ou o surgimento de novos tipos climáticos no
território nacional, se dá graças à melhoria dos dados de temperatura e
precipitação ou, no mínimo, da distinção dos dados desta natureza e da
metodologia de interpolação deles.
A geógrafa Lysia Bernardes7
elaborou um trabalho adaptando a
classificação de Köppen ao Brasil, que resultou em cinco tipos:
equatorial (Af e Am)• – apresentando temperaturas médias
elevadas, com ausência de uma estação seca, e reduzida
amplitude térmica;
tropical (Aw e As)• – é o clima mais comum no Brasil, com
temperaturasaltasemédiade25°C.Apresentaumadiferenciação
nítida entre um inverno seco e um verão chuvoso;
semiárido (Bsh)• – clima com chuvas escassas e irregulares, com
precipitação de 600 mm anuais e com temperatura média de 26
°C;
tropical de altitude (Cwa, Cwb e Csa)• – possui temperaturas
7
BERNARDES, Lysia. Clima do Brasil. Boletim Geográfico, Rio de Janeiro, vol. 9, n. 103,
p. 727-739, 1951; BERNARDES, Lysia. Notas sobre o clima da bacia do São Francisco.
Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, jul./set. de 1951a. p. 473-479.;
BERNARDES, Lysia. Tipos de clima do Estado do Espírito Santo. Revista Brasileira de
Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, ano XIII (4): 1951b. p. 619-621; BERNARDES, Lysia.
Tipos de clima do Estado do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Ja-
neiro, IBGE, ano XIV (1): 1952: 57-80.
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médiasde 18 °C, mais baixas do que o clima tropical, sofre
influênciadaproximidadedosoceanosemrelaçãoàpluviosidade
e as chuvas são bem distribuídas durante o ano;
subtropical (Cfa e Cfb)• – com considerável amplitude térmica
entre verão e inverno, não tem estação seca e as chuvas são
uniformes durante o ano.
Classificação de Strahler
Uma classificação que se proponha, nos termos de Strahler (1974),
a explicar as circunstâncias de funcionamento dos tipos climáticos,
deve levar em consideração um conjunto de elementos geográficos e
atmosféricos próprios da América do Sul.
Dentre todos os fatores, os que mais se destacam para Francisco
Mendonça (2007) são:
a própria disposição geográfica em forma triangular, com uma•
área maior na linha do equador, afunilando na direção sul;
influência da maritimidade e continentalidade, com correntes•
quentes (corrente sul equatorial e do Brasil) e frias (Malvinas).
Da mesma forma, apresenta uma extensão continental afastada
da influência marítima;
pequena altitude média do relevo, com extremos de de até 3.000•
m;
área de 8.511 milhões de km² dispostos em sua grande maioria•
no hemisfério sul;
distribuição dos compartimentos de relevo formando corredores•
para formação de sistemas atmosféricos, notadamente no sentido
norte – sul;
dinâmicas de massas de ar e frentes, as que mais interferem no•
clima do Brasil são a equatorial (continental e atlântica), tropical
(continental e atlântica) e a polar atlântica.
Além destes, o autor aponta que devemos considerar as relações
com outros fatores, como vegetação e atividade humana, tanto nas
extensas áreas de agricultura como nas relacionadas aos processos
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deurbanização. Esse volume de elementos e fatores, relacionados à
temperatura, pluviosidade, cacterísticas geográficas e dinâmicas de
massas de ar, constituem cinco compartimentos climáticos.
Da mesma forma que em relação a outras classificações, existem
um nível e uma generalização. Ao se alterar a escala de análise, os limites
entre os tipos climáticos tornam-se apenas variações de intensidade dos
elementos constituintes.
Os tipos climáticos e suas espacialidades são vistos na figura 29:
Figura 29 – Domínios Climáticos do Brasil e Principais Subtipos / Mendonça (2007)
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Climaequatorial
O clima que predomina nos estados do Amazonas, Pará, Acre,
Rondônia, Amapá, parte do Mato Grosso e Tocantins, área coincidente com
a floresta amazônica, é controlado pelas Massa Equatorial Continental
(MEC), Massa Equatorial Atlântica (MEA) e a Zona de Convergência
Intertropical (ZCIT). Nesta área a temperatura média é de 24 °C a 26 °C.
As temperaturas mais baixas localizam-se nas regiões serranas e as mais
elevadas nas proximidades do rio Amazonas. A elevada umidade do ar e
a intensa nebulosidade produzem uma pequena amplitude térmica. Os
meses mais quentes do ano são setembro e outubro, podendo atingir a
temperatura de 40 °C, em algumas localidades.
Mendonça (2007) aponta que embora a área tenha os maiores
índices pluviométricos, as precipitações são heterogêneas espacial e
temporalmente, variando de 3.000 mm a 1.600 mm. O período chuvoso,
ao norte, ocorre no inverno, enquanto, no restante da área, o principal
período é o verão. Em razão da pequena variação térmica, o que diferencia
as três áreas desse clima (1a, 1b, 1c) é a variabilidade pluviométrica.
Pertencendo ao Grupo I de Strahler, esse clima foi denominado pelo
professor Carlos Augusto Figueiredo Monteiro (1968), segundo Mendonça
(2007), de clima equatorial úmido de frente intertropical (FIT), Nimer
(1989) o classificou como pertencendo ao domínio climático quente e o
IBGE (1997) de clima equatorial.
Clima tropical equatorial
Este clima localiza-se no centro-norte do estado de Tocantins,
Maranhão, Piauí, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte
e Ceará. Os elementos que diferenciam seus subtipos são tanto a
variabilidade térmica como a pluviométrica (pertence ao Grupo I de
Strahler).
Ao norte da área, a principal atuação é da Zona de Convergência
Intertropical, enquanto o restante sofre influência da Massa Equatorial
Continental, Massa Equatorial do Atlântico Norte e Sul, Massa Tropical
Atlântica e Massa Polar Atlântica.
Asassociaçõesdessestiposclimáticos,avegetaçãodetransiçãoentre
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florestaamazônica e caatinga refletem a variação de precipitação, entre
620 mm e 2.300 mm. As temperaturas variam espacial e temporalmente,
sendo a média em torno de 24 °C a 26 °C e podendo variar de 10 °C a 40
°C.
Clima tropical litorâneo do Nordeste Oriental
Como visto na figura 30, esse tipo climático ocorre em uma área
localizada no litoral nordestino Atlântico Oriental, presente em uma faixa
de algumas centenas de quilômetros, influenciada pela Massa Equatorial
do Atlântico Sul, Massa Tropical Atlântica, Massa Polar Atlântica e pela
Zona de Convergência Intertropical.
É um tipo climático muito específico, pertencente ao Grupo I de
Strahler. Sua característica é um clima úmido e quente, diferindo dos
climas do interior. A variedade de vegetação é um reflexo da diferenciação
de umidade entre vegetação litorânea, zona da mata e agreste.
As grandes médias de temperaturas imperam nessa área, variando
entre 23 °C a 26 °C. Entretanto, as médias podem atingir 30 °C, tendo picos
de 42 °C. A pluviosidade varia de 700 mm a 2.500 mm. Os subtipos desse
tipo climático são agrupados em relação á sazonalidade pluviométrica.
Clima tropical úmido-seco ou tropical do Brasil central
Como visto por Mendonça (2007), esta é uma área de transição
climática. É controlada pela Massa Equatorial Continental, Massa
Tropical Atlântica e Massa Polar Atlântica. Tal variação de influências
vai se refletir em uma variedade de tipos climáticos durante o ano, com
verões quentes e úmidos e invernos quentes e secos. É a variabilidade
e sazonalidade entre verão e inverno que definem a tropicalidade deste
tipo de clima.
Essa área é caracterizada pela heterogeneidade, com médias de
Monteiro (1968) denominou essa área climática de Clima Tropical Alternadamente Úmido
e Seco. Nimer (1989) identificou dois tipos climáticos, com três subdivisões. Esta divisão é
admitida pelo IBGE (1997).
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temperaturaque vão de 20 °C (sul) a 26 °C (norte). As máximas podem
atingir de 36 °C a 40 °C. Todavia, as temperaturas mais baixas podem
atingir 8 °C. A pluviosidade varia de 2.000 mm a 3.000 mm, sendo que
70% do total ocorre entre novembro e março.
As massas de ar que atuam na área são a Massa Equatorial
Continental, Massa Tropical Atlântica, Massa Tropical Continental, Massa
Polar Atlântica, linhas de instabilidade nordeste (INW), ondas de calor de
noroeste, frio de leste e sudeste e Frentes Polares Atlânticas (FPA).
O que atribui uma semelhança a toda a área é a sazonalidade da
associação entre temperatura e precipitação, com temperaturas menores
e baixos índices de pluviosidade nos meses de junho a agosto, com alta
temperatura e pluviosidade no verão.
Clima Subtropical Úmido
Os climas da Região Sul, contendo o estado do Paraná, são
controlados pela Massa Tropical Atlântica, Massa Tropical Continental
e Massa Polar Atlântica. O predominante é o clima subtropical úmido
das costas orientais e subtropicais dominados por Massas Tropicais
Marítimas. A Massa Equatorial Continental tem também influência neste
tipo climático, principalmente no verão.
Sua principal característica é a distribuição da pluviosidade durante
o ano, de 1.200 mm a 2.000 mm, e temperaturas baixas no inverno,
resultado da posição geográfica da área, do relevo e da atuação de sistemas
atmosféricos intertropicais e polares. (MENDONÇA, 2007). De forma
diferente da precipitação, a temperatura tem uma amplitude considerável,
variando de 14 °C a 22 °C em média. Estas temperaturas podem cair para
10 ° C e ir até 40 °C. Via de regra, os climas desta área apresentam verão
de quente a fresco, e inverno de fresco a frio. A pluviosidade é distribuída
durante todo o ano, mesmo a partir de pequenas variações internas.
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Ascidades de Paranaguá e Curitiba possuem totais pluviométricos, tanto mensais como anuais,
maiores que as outras áreas. Com uma sazonalidade evidente, a principal pluviosidade ocorre no
verão, diminuindo no inverno. Na cidade de Irati, o efeito da continentalidade influi na variabilidade das
chuvas anuais. Dois subtipos climáticos ocorrem no Paraná: o clima subtropical úmido com inverno
fresco a frio, na porção oeste, e o clima subtropical com inverno frio, na porção leste.
Leituras Complementares
BERNARDES, Lysia. Clima do Brasil. Boletim Geográfico. Rio de Janeiro, vol. 9, n. 103, p. 727-
739, 1951.
BERNARDES, Lysia. Notas sobre o clima da bacia do São Francisco. Revista Brasileira de
Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, jul./set. de 1951a. p. 473-479.
MENDONÇA, Francisco. Circulação e Dinâmica Atmosférica. In: Climatologia – noções
básicas e climas do Brasil. São Paulo: Oficina de Textos, 2007.
Os totais de temperatura e precipitação, somados a outras informações de refinamento, como
vegetação, solo, massas de ar, são elementos que caracterizam os climas. Tendo em vista a
clara dimensão espacial desses elementos, temos uma diferenciação destas formas.
Vimos que é o entendimento das relações entre temperatura e precipitação, denominado por
Strahler (1974) de regime climático, que pode proporcionar a compreensão, a partir da sua
relação com o comportamento da atmosfera e de outras espacialidades, como vegetação
e solo. Mas alertamos, como visto por Ayoade (1986), para o fato de que em situações de
feedback, resultados podem retornar alterando as causas, como nas relações entre clima,
vegetação e ação humana.
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Diagramade Termoietas
Localize, no diagrama de termoieta, o cruzamento de temperatura máxima–média / precipitação média,
e temperatura mínima–média / precipitação média, referentes ao estado do Paraná - 2008, utilizando o
quadro a seguir, extraído do Sistema de Monitoramento Agrometeorológico1
. Após, descreva o regime
climático desta espacialidade nos termos de Strahler (1974). Como os dados desse sistema não estão
colocados por estação do ano, considere as características de inverno e verão relacionadas à Região
Sul, descritas anteriormente.
1
Disponível em: http://www.agritempo.gov.br. Acesso em: 5 mar. 2009.
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PALAVRAS FINAIS
PALAVRASFINAIS
Caro aluno!
Concluímos com este livro os estudos relacionados ao clima e à
climatologia, nas suas mais diversas facetas. Estudamos a atmosfera
terrestre, os elementos meteorológicos, os fatores climáticos e os elementos
do clima.
Também foram objeto de reflexão as possíveis relações entre o
clima e os seres humanos, as discussões sobre a evolução do clima, as
classificações climáticas, culminando com os estudos sobre o clima global,
brasileiro e paranaense.
Todo o conteúdo debatido com você, tanto através de Climatologia
I como II, demonstrou a importância deste conhecimento específico para o
ensino e a pesquisa geográfica, mas também para nossa prática cotidiana,
pois sempre, no final das contas, a Geografia está em toda parte.
Nossos parabéns!!!
95.
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AUTORes
NOTAS SOBREOS AUTORES
Almir NABOZNY
(almirnabozny@yahoo.com.br)
Licenciado e bacharel em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta
Grossa (UEPG). Mestre em Gestão do Território no Programa de Pós-graduação
em Geografia da UEPG. É membro da equipe técnica responsável pelo site:
http://www.territoriolivre.net/. Faz parte do Grupo de Estudos Territoriais
(GETE) e compõe a equipe de coordenação da Rede de Estudos de Geografia e
Gênero da América Latina (http://www.reggal.uepg.br/). Atualmente é professor
colaborador da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) –
Campus Universitário de Irati - PR.
Mais detalhes: http://lattes.cnpq.br/3128969547056177
Marcio José ORNAT
(geogenero@gmail.com)
Licenciado e bacharel em Geografia pela Universidade Estadual
de Ponta Grossa (UEPG). Mestre em Gestão do Território no Programa
de Pós-graduação em Geografia da UEPG. Doutorando no Programa de
Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ). É membro da equipe técnica responsável pelo site: http://www.
territoriolivre.net/. Faz parte do Grupo de Estudos Territoriais (GETE) e
compõe a equipe de coordenação da Rede de Estudos de Geografia e
Gênero da América Latina (http://www.reggal.uepg.br/).
Mais detalhes: http://lattes.cnpq.br/7175969138658908