Texto 1
Educação no Brasil
Erson Martins de Oliveira – APROPUC - Associação dos Professores da PUC – SP
Um dos aspectos que refletem a situação educacional de um País é o acesso da população pobre
à escola. A possibilidade que a juventude tem de estudar demonstra bem o quadro social e
educacional. Dois fatores fundamentais estão interligados no que diz respeito ao jovem: emprego e
estrutura do ensino. Quanto ao primeiro, temos as relações condicionantes no plano da economia
capitalista: nível de emprego e exploração do trabalho (medida pela jornada de trabalho, produtividade
e valor do salário). Quanto ao segundo – estrutura do ensino – é preciso verificar o lugar e o espaço
ocupado pelos ensinos público e particular.
Analisemos alguns dados recentemente divulgados pelo Dieese. Os jovens entre 16 e 24 anos
amargam com 45% do total de desempregados brasileiros. Número que corresponde a 25% da
população economicamente ativa. Implicação para a educação: “a situação é pior entre as famílias de
baixa renda. Em São Paulo, entre a parcela de 25% das famílias com maior renda familiar, 40% dos
jovens estudam e trabalham e 59,2% só trabalham. Já entre 25% das famílias com menor renda, a
proporção cai para 23,5% e 76,5%”. (Folha de São Paulo) É calamitoso o fato de a grande maioria não
ter como estudar.
A mesma pesquisa comprova que não só o desemprego constitui obstáculo intransponível para o
acesso aos estudos, mas também a exaustiva jornada de trabalho. Não é possível ir à escola
trabalhando entre 39 e 44 horas semanais, como indica o estudo do Dieese. E aqueles que decidem
enfrentar o sacrifício não têm como acompanhar as aulas e cumprir as exigências do ensino.
Até aqui estamos diante do nível médio. Em relação ao fundamental, tido como universalizado, o
reflexo desse quadro social se observa no fenômeno do “analfabetismo funcional”. Mais de 50% não
aprendem os fundamentos básicos da escrita e da leitura. Bem ou mal, 97% das crianças têm acesso à
escola, mas a pobreza as acompanha aos quatro cantos da sala. Há ainda o analfabetismo, abarcando
12,6% da população (24 milhões).
Quanto à possibilidade dos jovens de chegarem à universidade, os dados anteriores falam por si.
Apenas 4,1 milhões estão matriculados no ensino superior. Desse número irrisório, 2,9 milhões se
acham nas privadas. As universidades públicas não passam de 224 estabelecimentos; em contrapartida
as particulares detêm 1.789. Pela estrutura econômica e de classe, está previsto o acesso ao ensino
superior apenas aos filhos da burguesia e parte dos da classe média, que constituem a maioria dos
estudantes universitários. Ocorre que centenas de milhares de jovens de classe média não têm como
pagar e não têm como ingressar na universidade pública, barrados que são pelo vestibular. Um
agravante: a classe média chegou ao topo da ascensão e se encontra ladeira abaixo.
Criou-se um mercado de ensino e um ensino-mercadoria. Estamos diante da infraestrutura
econômica condicionando inexoravelmente a supraestrutura educacional, de forma a manter a maioria
dos jovens sem estudo e a rebaixar o nível cultural das massas.
Dessa realidade, destacam-se as seguintes tarefas: 1. Defender o ensino público, defendendo o
fim do ensino privado; constituir um sistema estatal único, laico e científico; 2. Defender o vínculo da
escola com a produção social, de forma a permitir a real unidade entre teoria e prática; 3. Defender a
relação entre emprego e escola; nenhum jovem desempregado, nenhum jovem fora da escola; jornada
de trabalho compatível com o estudo.
(Fonte: http://www.apropucsp.org.br/jornal/590_j01.htm)
RedaCEM
9.11
Ano/Série: 9º Fundamental Entrega: 14/05/2017
Tema: A educação em pauta - Editorial
Texto 2
Atraso na educação
10 de fevereiro de 2016
Tornou-se quase um lugar-comum afirmar que a educação pública brasileira está vencendo o
desafio da inclusão, mas não o da qualidade do ensino. Dá-se pouca atenção, contudo, a um terceiro
desafio que o país mal começa a enfrentar: a desigualdade.
Alunos pobres encontram dificuldade muito maior para aprender e escapar do círculo vicioso
que leva do mau desempenho ao atraso e ao abandono da escola. Não há de fato igualdade de
oportunidades, porque eles já largam em desvantagem no longo percurso que deveria culminar numa
formação e num nível de renda dignos.
Crescem em bairros mais violentos e ambientes insalubres, sem local próprio para estudar e
com parentes de vocabulário limitado. Despendem mais tempo no trajeto até colégios de
infraestrutura precária. Têm de se contentar com professores menos preparados, pois os melhores
docentes se transferem para estabelecimentos menos periféricos e problemáticos.
Não admira, assim, que o nível socioeconômico apareça como o fator que mais explica o
desempenho dos alunos em avaliações como o Enem, segundo disse ao jornal "Valor Econômico"
Priscila Cruz, diretora do movimento Todos pela Educação.
O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) nos anos finais do ensino fundamental
(6º ao 9º ano) é bem diverso entre escolas mais e menos vulneráveis.
Naquelas com maior proporção de estudantes beneficiários do Bolsa Família, por exemplo, o
Ideb fica em 3,5, numa escala de 0 a 10; nas mais afluentes, sobe para 4,1 -bem mais perto da meta de
5,5 fixada pelo Plano Nacional de Educação (PNE) para 2024.
Não é o caso de deixar de reconhecer que já se avançou muito no atendimento às crianças mais
desfavorecidas. Em 2011, na quinta parte mais pobre da população, apenas 21,6% concluíam o ensino
fundamental até os 16 anos; em 2014, esse contingente mais que duplicara, para 58,4%.
A desigualdade fica patente, porém, quando se volta a atenção para o quinto mais rico: os
diplomados já eram 80,2% há 15 anos e chegaram a 92% em 2014. A enorme disparidade
remanescente ficaria oculta se considerada apenas a média da população, em que 73% dos jovens
termina o ensino fundamental aos 16 anos (ainda distante da meta PNE para 2024, de 95%).
A escola pública é a instituição que encarna o ideal republicano da igualdade de oportunidades.
Por ora, ela parece empacada no degrau inicial -garantir a presença de crianças pobres nos seus
bancos. Precisa fazer muito mais: dedicar-lhes atenção especial, na sala de aula, para compensar as
desvantagens que enfrentam só por nascer onde nasceram.
(Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/02/1738194-atraso-na-educacao.shtml#).
Proposta de Redação
Os textos que você acabou de ler abordam uma questão que ganhou muito destaque na mídia,
principalmente com a reforma do Ensino Médio em 2016. A partir das discussões levantadas pelos
textos acima e de suas reflexões sobre o assunto, redija um editorial, para compor a publicação de um
jornal de circulação nacional, de modo que convide o leitor a repensar a temática em questão.

9º ano reda cem - 9.11

  • 1.
    Texto 1 Educação noBrasil Erson Martins de Oliveira – APROPUC - Associação dos Professores da PUC – SP Um dos aspectos que refletem a situação educacional de um País é o acesso da população pobre à escola. A possibilidade que a juventude tem de estudar demonstra bem o quadro social e educacional. Dois fatores fundamentais estão interligados no que diz respeito ao jovem: emprego e estrutura do ensino. Quanto ao primeiro, temos as relações condicionantes no plano da economia capitalista: nível de emprego e exploração do trabalho (medida pela jornada de trabalho, produtividade e valor do salário). Quanto ao segundo – estrutura do ensino – é preciso verificar o lugar e o espaço ocupado pelos ensinos público e particular. Analisemos alguns dados recentemente divulgados pelo Dieese. Os jovens entre 16 e 24 anos amargam com 45% do total de desempregados brasileiros. Número que corresponde a 25% da população economicamente ativa. Implicação para a educação: “a situação é pior entre as famílias de baixa renda. Em São Paulo, entre a parcela de 25% das famílias com maior renda familiar, 40% dos jovens estudam e trabalham e 59,2% só trabalham. Já entre 25% das famílias com menor renda, a proporção cai para 23,5% e 76,5%”. (Folha de São Paulo) É calamitoso o fato de a grande maioria não ter como estudar. A mesma pesquisa comprova que não só o desemprego constitui obstáculo intransponível para o acesso aos estudos, mas também a exaustiva jornada de trabalho. Não é possível ir à escola trabalhando entre 39 e 44 horas semanais, como indica o estudo do Dieese. E aqueles que decidem enfrentar o sacrifício não têm como acompanhar as aulas e cumprir as exigências do ensino. Até aqui estamos diante do nível médio. Em relação ao fundamental, tido como universalizado, o reflexo desse quadro social se observa no fenômeno do “analfabetismo funcional”. Mais de 50% não aprendem os fundamentos básicos da escrita e da leitura. Bem ou mal, 97% das crianças têm acesso à escola, mas a pobreza as acompanha aos quatro cantos da sala. Há ainda o analfabetismo, abarcando 12,6% da população (24 milhões). Quanto à possibilidade dos jovens de chegarem à universidade, os dados anteriores falam por si. Apenas 4,1 milhões estão matriculados no ensino superior. Desse número irrisório, 2,9 milhões se acham nas privadas. As universidades públicas não passam de 224 estabelecimentos; em contrapartida as particulares detêm 1.789. Pela estrutura econômica e de classe, está previsto o acesso ao ensino superior apenas aos filhos da burguesia e parte dos da classe média, que constituem a maioria dos estudantes universitários. Ocorre que centenas de milhares de jovens de classe média não têm como pagar e não têm como ingressar na universidade pública, barrados que são pelo vestibular. Um agravante: a classe média chegou ao topo da ascensão e se encontra ladeira abaixo. Criou-se um mercado de ensino e um ensino-mercadoria. Estamos diante da infraestrutura econômica condicionando inexoravelmente a supraestrutura educacional, de forma a manter a maioria dos jovens sem estudo e a rebaixar o nível cultural das massas. Dessa realidade, destacam-se as seguintes tarefas: 1. Defender o ensino público, defendendo o fim do ensino privado; constituir um sistema estatal único, laico e científico; 2. Defender o vínculo da escola com a produção social, de forma a permitir a real unidade entre teoria e prática; 3. Defender a relação entre emprego e escola; nenhum jovem desempregado, nenhum jovem fora da escola; jornada de trabalho compatível com o estudo. (Fonte: http://www.apropucsp.org.br/jornal/590_j01.htm) RedaCEM 9.11 Ano/Série: 9º Fundamental Entrega: 14/05/2017 Tema: A educação em pauta - Editorial
  • 2.
    Texto 2 Atraso naeducação 10 de fevereiro de 2016 Tornou-se quase um lugar-comum afirmar que a educação pública brasileira está vencendo o desafio da inclusão, mas não o da qualidade do ensino. Dá-se pouca atenção, contudo, a um terceiro desafio que o país mal começa a enfrentar: a desigualdade. Alunos pobres encontram dificuldade muito maior para aprender e escapar do círculo vicioso que leva do mau desempenho ao atraso e ao abandono da escola. Não há de fato igualdade de oportunidades, porque eles já largam em desvantagem no longo percurso que deveria culminar numa formação e num nível de renda dignos. Crescem em bairros mais violentos e ambientes insalubres, sem local próprio para estudar e com parentes de vocabulário limitado. Despendem mais tempo no trajeto até colégios de infraestrutura precária. Têm de se contentar com professores menos preparados, pois os melhores docentes se transferem para estabelecimentos menos periféricos e problemáticos. Não admira, assim, que o nível socioeconômico apareça como o fator que mais explica o desempenho dos alunos em avaliações como o Enem, segundo disse ao jornal "Valor Econômico" Priscila Cruz, diretora do movimento Todos pela Educação. O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) nos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) é bem diverso entre escolas mais e menos vulneráveis. Naquelas com maior proporção de estudantes beneficiários do Bolsa Família, por exemplo, o Ideb fica em 3,5, numa escala de 0 a 10; nas mais afluentes, sobe para 4,1 -bem mais perto da meta de 5,5 fixada pelo Plano Nacional de Educação (PNE) para 2024. Não é o caso de deixar de reconhecer que já se avançou muito no atendimento às crianças mais desfavorecidas. Em 2011, na quinta parte mais pobre da população, apenas 21,6% concluíam o ensino fundamental até os 16 anos; em 2014, esse contingente mais que duplicara, para 58,4%. A desigualdade fica patente, porém, quando se volta a atenção para o quinto mais rico: os diplomados já eram 80,2% há 15 anos e chegaram a 92% em 2014. A enorme disparidade remanescente ficaria oculta se considerada apenas a média da população, em que 73% dos jovens termina o ensino fundamental aos 16 anos (ainda distante da meta PNE para 2024, de 95%). A escola pública é a instituição que encarna o ideal republicano da igualdade de oportunidades. Por ora, ela parece empacada no degrau inicial -garantir a presença de crianças pobres nos seus bancos. Precisa fazer muito mais: dedicar-lhes atenção especial, na sala de aula, para compensar as desvantagens que enfrentam só por nascer onde nasceram. (Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/02/1738194-atraso-na-educacao.shtml#). Proposta de Redação Os textos que você acabou de ler abordam uma questão que ganhou muito destaque na mídia, principalmente com a reforma do Ensino Médio em 2016. A partir das discussões levantadas pelos textos acima e de suas reflexões sobre o assunto, redija um editorial, para compor a publicação de um jornal de circulação nacional, de modo que convide o leitor a repensar a temática em questão.