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acompanhado de sua esposa Cheti, sua concubina Jat, e um de seus filhos, o qual, apesar de seutamanho minúsculo na pintura...
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também a arte da bela escrita. Tinha que recortar na pedra, de um modo claro e preciso, asimagens e os símbolos dos hieróg...
o qual foi fundado após uma catastrófica invasão do Egito. Esse rei, chamado Amenófis IV, era umherético. Rompeu com muito...
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no transcurso do tempo, se desintegravam e convertiam em pó. A própria escultura em pedra erarelativamente rara. Mas essa ...
43. Exército assírio assediando uma fortaleza. Relevo em alabastro do Palácio do Rei Assurnasirpal II, cerca de850 a. C. L...
enquanto a imagem do rei com o pé sobre o pescoço do inimigo prostrado ali permanecesse, a triboderrotada não teria forças...
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  1. 1. ALGUMA FORMA DE ARTE existe em todas as partes do globo, mas a história da arte como umesforço contínuo não principia nas cavernas do Sul da França nem entre os índios norte-americanos.Não há uma tradição direta que ligue esses estranhos começos aos nossos próprios dias, mas existe umatradição direta, transmitida de mestre a discípulo, e de discípulo a admirador ou copista. que liga aarte do nosso tempo, qualquer casa ou qualquer cartaz, à arte do vale do Nilo de cerca de cinco milanos atrás. Pois veremos que os mestres gregos freqüentaram a escola dos egípcios — e todos nóssomos discípulos dos gregos. Assim, a arte do Egito reveste-se de tremenda importância para nós.Todo mundo sabe que o Egito é a terra das pirâmides, essas montanhas de pedra que se erguemcomo marcos desgastados pelas intempéries no horizonte distante da história. Por mais remotas emisteriosas que pareçam, elas contam-nos muito sobre a nossa própria história. Falam-nos deuma terra que estava tão completamente organizada que foi possível empilhar esses gigantescosmorros tumulares durante a vida de um único rei; e falam-nos de reis que eram tão ricos epoderosos que puderam forçar milhares e milhares de trabalhadores ou escravos a labutarem poreles, ano após ano, a cortarem as pedras, a arrastarem-nas para o local da construção e adeslocarem-nas por meios sumamente primitivos até que o túmulo ficou pronto para receber o rei.Nenhum monarca e nenhum povo teria suportado semelhante gasto, e passado por tantasdificuldades, caso se tratasse da criação de um mero monumento. De fato, sabemos que aspirâmides tinham sua importância prática aos olhos dos reis e seus súditos. O rei era considerado umser divino que tinha completo domínio sobre eles e, ao partir deste mundo, voltava a ascender parajunto dos deuses donde viera. As pirâmides elevando-se para o céu ajudá-lo-iam provavelmente afazer sua ascensão. Em todo o caso, elas preservariam seu corpo sagrado da decomposição. Pois osegípcios acreditavam que o corpo deve ser preservado para que a alma possa continuar vivendo noalém. Por isso impediam a desintegração do cadáver mediante um método elaborado deembalsamação e enfaixamento em tiras de pano. Era para a múmia do rei que a pirâmide tinha sidoerigida, e seu corpo era colocado exatamente no centro da gigantesca montanha de pedra, numesquife de pedra. Em toda a volta da câmara funerária, fórmulas mágicas e
  2. 2. encantamentos eram escritos para ajudá-lo em sua jornada para o outro mundo. Mas não são apenas essas antiqüíssimas relíquias da arquitetura humana que nos contam opapel desempenhado por vetustas crenças na história da arte. Os egípcios sustentavam a crença deque a preservação do corpo não era bastante. Se a fiel imagem do rei também fosse preservada, nãohavia dúvida alguma de que ele continuaria vivendo para sempre. Assim, ordenavam aos escultoresque esculpissem a cabeça do rei em imperecível granito e a colocassem na tumba onde ninguém avia, para aí exercer sua magia e ajudar sua alma a manter-se viva na imagem e através desta. Umaexpressão egípcia para designar o escultor era, realmente, "Aquele que mantém vivo". No começo, esses ritos eram reservados aos reis, mas logo os nobres da casa real passaram a terseus túmulos menores agrupados em filas bem alinhadas em torno do túmulo do rei; e,gradualmente, toda pessoa que se prezava tinha que tomar providências para a vida no além,encomendando uma dispendiosa tumba que abrigasse sua múmia e sua imagem, e onde sua almapudesse habitar e receber as oferendas de alimento e bebida que eram feitas ao morto. Algunsdesses primeiros retratos da era das pirâmides, a quarta dinastia do "Antigo Império", estão entreas mais belas obras da arte egípcia (fig. 33). Existe neles um ar de solenidade e simplicidade que nãose esquece facilmente. Vê-se que o escultor não estava tentando lisonjear seu modelo nem preservaruma expressão fugidia. Interessava-se apenas pelos aspectos essenciais. Todos os pormenoressecundários eram postos de lado. Talvez seja por causa dessa estrita concentração nas formas básicasda cabeça humana que esses retratos continuam sendo tão impressionantes. Pois, apesar de suarigidez quase geométrica, não são tão primitivos quanto às máscaras rituais de que tratamos noCapítulo 1 (figs. 25 e 26). Nem são tão fiéis à realidade quanto os retratos naturalistas dosartistas da Nigéria (fig. 23). A observação da natureza e a regularidade do todo são equilibradas deum modo tão uniforme que essas cabeças nos impressionam como reflexo fiel da vida e, no entanto,remotas e duradouras. Essa combinação de regularidade geométrica e aguda observação da natureza é característica
  3. 3. de toda a arte egípcia. Podemos estudá-la melhor nos relevos e pinturas que adornavam as paredesdos túmulos. A palavra "adornar", é certo, ajusta-se mal a uma arte que não pretendia ser vista porninguém, exceto a alma do morto. De fato, essas obras não tinham a finalidade de serem objetode deleite. Também elas se destinavam a "manter vivo". Num passado sombrio e distante, tinha sidocostume, quando morria um homem poderoso, que seus servos e escravos o acompanhassem nasepultura. Eles eram sacrificados para que o senhor chegasse ao além com um séqüito condigno.Depois, esses horrores foram considerados excessivamente cruéis ou excessivamente onerosos, e aarte acudiu em ajuda. Em vez de servos de carne e osso, aos poderosos da Terra passaram a seroferecidas imagens como substitutos. As pinturas e os modelos encontrados em túmulos egípciosestavam associados à idéia de suprir a alma de ajudantes no outro mundo. Para nós, esses relevos e pinturas murais fornecem um quadro extraordinariamente vigoroso davida no Egito há milhares de anos. E, no entanto, olhando-os pela primeira vez, é muito provávelque os achemos bastante insólitos e nos causem uma certa perplexidade. A razão é que ospintores egípcios tinham um modo de representar a vida real muito diferente do nosso. Talvez isso serelacione com a finalidade diferente que tinha de ser servida por suas pinturas. O que maisimportava não era a boniteza, mas a inteireza. A tarefa do artista consistia em preservar tudo o maisclara e pernamentemente possível. Assim, não se propuseram bosquejar a natureza tal como se lhesapresentava sob qualquer ângulo fortuito. Eles desenhavam de memória, de acordo com regrasestritas que asseguravam que tudo o que tinha de entrar no quadro se destacaria com perfeita clareza.O método do artista, de fato, assemelhava-se mais ao do cartógrafo do que ao do pintor. A fig. 34demonstra-o num exemplo simples, representando um jardim com um tanque. Se tivéssemos quedesenhar tal motivo, ponderaríamos primeiro sob que ângulo o focalizar. A forma e as característicasdas árvores somente poderiam ser vistas dos lados, a forma do tanque somente seria visível se fossevista de cima. Os egípcios não tinham tais escrúpulos ao abordar o problema. Desenhavamsimplesmente o tanque como se fosse visto de cima e as árvores de lado. Os peixes e pássaros nolago, por outra parte, dificilmente seriam reconhecíveis se vistos de cima, de modo que foramdesenhados de perfil. Numa cena tão simples, podemos facilmente entender o procedimento doartista. Um método semelhante é usado com freqüência pelas crianças. Mas os egípcios eram muitomais consistentes em sua aplicação desses métodos do que as crianças jamais o foram. Tudo tinha queser representado desde o seu ângulo mais característico. A fig. 35 mostra o efeito que essa idéiateve na
  4. 4. representação do corpo humano. A cabeça era mais facilmente vista de perfil, de modo que eles adesenharam lateralmente. Mas, se pensamos no olho humano, é como se fosse visto de frente queusualmente o consideramos. Portanto, um olho de frente era plantado na vista lateral da face. Ametade superior do corpo, os ombros e o tronco, são melhor vistos de frente, pois desse modovemos como os braços estão ligados ao corpo. Mas braços e pernas em movimento vêem-se muitomais claramente de lado. Essa é a razão pela qual os egípcios, nessas imagens, nos parecem tãoestranhamente planos e contorcidos. Além disso, os artistas egípcios achavam difícil visualizar um péou outro visto de um plano exterior. Preferiam o contorno claro desde o dedão para cima. Portanto,ambos os pés são vistos de dentro e o homem no releve parece ter dois pés esquerdos. Não se devesupor que os artistas egípcios pensavam que os seres humanos tinham essa aparência. Seguiammeramente uma regra que lhes permitia incluir tudo o que consideravam importante na forma humana.Talvez essa rigorosa adesão à regra tivesse algo a ver com a finalidade mágica da representaçãopictórica. Pois como poderia um homem com seu braço "posto em perspectiva" ou "cortado" levarou receber as oferendas requeridas ao morto? Neste exemplo, como sempre, a arte egípcia não se baseou no que o artista podia ver numdado momento, e sim no que ele sabia pertencer a uma pessoa ou cena. Era a partir dessas formas,por ele aprendidas e dele conhecidas, que construía as suas representações, tal como o artista tribalconstrói suas figuras a partir de formas que ele pode dominar. Não é apenas o seu conhecimento deformas e contornos que o artista consubstancia em sua pintura, mas também o conhecimento que elepossui do significado dessas formas. Chamamos às vezes a um homem um big boss. Os egípciosdesenhavam o patrão maior do que seus criados ou até do que sua esposa. Uma vez apreendidas essas regras e convenções, entenderemos sem maiores dificuldades alinguagem das pinturas em que é historiada a vida dos egípcios. A fig. 36 dá uma boa idéia dadisposição geral de uma parede no túmulo de um alto dignitário egípcio do "Império do Meio",cerca de novecentos anos antes de nossa era. As inscrições em hieróglifos dizem-nos exatamente quemera ele, e que títulos e honrarias reunira durante sua vida. Seu nome, segundo se lê, eraChnemhotep, Administrador do Deserto Oriental, Príncipe de Menat Chufu, Amigo Confidencial doFaraó, Conviva Real, Superintendente dos Sacerdotes, Sacerdote de Horo, Sacerdote de Anúbis.Chefe de Todos os Segredos Divinos e — o mais impressionante de todos os títulos — Mestre deTodas as Túnicas. a esquerda vemo-lo caçando aves selvagens com uma espécie de bumerangue,
  5. 5. acompanhado de sua esposa Cheti, sua concubina Jat, e um de seus filhos, o qual, apesar de seutamanho minúsculo na pintura, ostentava o título de Superintendente das Fronteiras. Abaixo, no friso,vemos pescadores com seu capataz, Mentuhotep, puxando para terra uma farta pescaria. No topoda porta, Chnemhotep é visto de novo, agora apanhando aves aquáticas numa rede.Compreendendo os métodos
  6. 6. do artista egípcio, podemos facilmente ver como esse estratagema funcionou. O caçador sentou-seescondido atrás de uma cortina de juncos, segurando uma corda ligada à rede aberta (vista decima). Quando as aves acudiram à isca, ele puxou a corda e a rede fechou-se sobre elas. Atrás deChnemhotep está seu filho primogênito Nacht e seu Superintendente dos Tesouros, que era tambémo responsável pela arrumação do túmulo. Do lado direito, Chnemhotep, que é cognominado "grandeem peixe, rico em aves selvagens, amante da deusa da caça", apresenta-se no ato de traspassar umpeixe com sua lança. Podemos observar de novo as convenções do artista egípcio, que deixa a águasubir entre os juncos a fim de nos mostrar a clareira com o peixe. A inscrição diz: "Canoagem no leitode papiros, os Ianques de aves selvagens, os brejos e os riachos; caçando com a lança de duaspontas, ele traspassou trinta peixes. Como é delicioso o dia de caça ao hipopótamo!" No friso debaixo, um episódio divertido: um homem que tinha caído na água está sendo pescado pelos seuscompanheiros. A inscrição em torno da porta registra o dia em que as oferendas devem ser dadas ao
  7. 7. morto e inclui preces aos deuses. Quando nos habituamos a olhar essas pinturas egípcias, somos tão pouco perturbados por sua sirrealidades quanto o somos pela ausência de cor numa fotografia em preto e branco. Começamos,inclusive, a dar-nos conta das grandes vantagens do método egípcio. Nada nessas pinturas nos dá aimpressão de casual ou fortuito, nada nos sugere que pudesse ter sido igualmente colocado em algumoutro lugar. Vale a pena pegar num lápis e tentar copiar um desses desenhos egípcios "primitivos".As nossas tentativas parecem sempre canhestras, assimétricas e deformadas. Pelo menos, as minhasparecem. Pois o sentido egípcio de ordem em todos os detalhes é tão forte que qualquer variação, pormínima que seja, parece desorganizar inteiramente o conjunto. O artista egípcio iniciava seutrabalho desenhando uma rede de linhas retas na parede e distribuía suas figuras com grandecuidado ao longo dessas linhas. Entretanto, todo esse sentido geométrico de ordem não o impediade observar com surpreendente precisão os pormenores da natureza. Cada ave ou peixe é desenhadocom tamanha veracidade que os zoólogos ainda hoje podem reconhecer facilmente a espécie a quecada um pertence. A fig. 37 mostra um detalhe da fig. 36 — as aves na árvore vizinha da rede deChnemhotep. Não foi apenas o seu grande conhecimento que guiou o artista, mas também seu olharexperimentado para captar padrões. É uma das maiores façanhas da arte egípcia que todas as estátuas, pinturas e formasarquitetônicas parecem encaixar-se nos lugares certos, como se obedecessem a uma só lei. A tallei, à qual todas as criações de um povo parecem obedecer, chamamos um "estilo". É difícilexplicar com palavras o que produz um estilo, mas é muito menos difícil vê-lo. As regras quegovernam toda a arte egípcia conferem a cada obra individual o efeito de equilíbrio, estabilidade eaustera harmonia. O estilo egípcio englobou uma série de leis muito rigorosas, que todo artista tinha que aprenderdesde muito jovem. As estátuas sentadas tinham que ter as mãos sobre os joelhos; os homenstinham que ser pintados com a pele mais escura do que as mulheres; a aparência de cada deusegípcio era rigorosamente estabelecida: Horo, o deus-sol, tinha que ser apresentado como um falcão oucom uma cabeça de falcão; Anúbis, o deus da morte, como um chacal ou com uma cabeça dechacal. Todo artista tinha que aprender
  8. 8. também a arte da bela escrita. Tinha que recortar na pedra, de um modo claro e preciso, asimagens e os símbolos dos hieróglifos. Mas, assim que dominasse todas essas regras, dava-se porencerrada a sua aprendizagem. Ninguém queria coisas diferentes, ninguém lhe pedia que fosse"original". Pelo contrário, era provavelmente considerado o melhor artista aquele que pudesse fazersuas estátuas o mais parecidas com os monumentos admirados do passado. Por isso aconteceu que. notranscurso de três mil anos ou mais, a arte egípcia mudou muito pouco. Tudo o que era consideradobom e belo na era das pirâmides era tido como igualmente excelente mil anos depois. É certo quesurgiram novas modas e novos temas foram pedidos aos artistas, mas o modo de representarem ohomem e a natureza permaneceu essencialmente o mesmo.Somente um homem abalou as barras de ferro do estilo egípcio. Foi ele um rei da 18ª dinastia, noperíodo conhecido como o "Novo Reino" (ou Império),
  9. 9. o qual foi fundado após uma catastrófica invasão do Egito. Esse rei, chamado Amenófis IV, era umherético. Rompeu com muitos costumes aureolados pela antiga tradição. Não desejava renderhomenagem aos incontáveis deuses de estranhas formas cio seu povo. Para ele, somente um deus erasupremo, Aton, de quem era devoto e a quem fez representar na forma do Sol. Intitulou-se a simesmo Akhnaton, segundo o nome do seu deus, e instalou sua corte longe do alcance dossacerdotes dos outros deuses, numa localidade que hoje se chama El-Amarna. As pinturas que ele encomendou devem ter chocado os egípcios de seu tempo pela novidade. Emnenhuma delas se divisava a solene e rígida dignidade dos faraós anteriores. Preferiu fazer-serepresentar erguendo sua filha para os joelhos e pondo-a no seu colo, passeando com a esposa pelosjardins, apoiado em sua bengala. Alguns de seus retratos mostram-no como um homem feio (fig. 38);talvez ele quisesse que os artistas o retratassem com toda a sua fragilidade humana ou, quem sabe,estivesse tão convencido de sua importância ímpar como profeta que insistisse numa semelhançanatural e fiel. O sucessor de Akhnaton foi Tutankhamen, cujo túmulo com seus tesouros foidescoberto em 1922. Algumas dessas obras ainda são no estilo moderno da religião de Aton —sobretudo o espaldar do trono do rei (fig. 39), que nos mostra o rei e a rainha num idílio doméstico. Eleestá sentado em sua cadeira numa atitude que poderia ter escandalizado os rígidos conservadores
  10. 10. egípcios — quase refestelado, pelos padrões egípcios. Sua esposa não é menor do que ele, ecoloca gentilmente a mão no ombro do rei, enquanto o deus-sol, representado como um globodourado estende suas mãos numa bênção a ambos. Não é de todo impossível que essa reforma da arte na 18ª Dinastia tenha sido facilitada para o reipelo fato de ele poder apontar obras estrangeiras que eram muito menos severas e rígidas do que osprodutos egípcios. Numa ilha do Mediterrâneo, em Creta, habitava um povo talentoso cujos artistas secomprariam na representação de movimentos rápidos e ágeis. Quando o palácio do rei desse povofoi escavado em Cnosso, em fins do século XIX, as pessoas mal podiam acreditar que um estilo tãolivre e gracioso pudesse ter sido desenvolvido no segundo milênio antes de nossa era. Obras nesseestilo foram também encontradas no continente grego; uma adaga proveniente de Micenas (fig. 40)revela um sentido de movimento e linhas fluentes que deve ter impressionado qualquer artíficeegípcio a quem fosse permitido desviar-se das regras consagradas de seu estilo. Mas essa abertura da arte egípcia não durou muito. Já no decorrer do reinado de Tutankhamenas velhas crenças foram restabelecidas e a janela para o mundo exterior voltou a ser fechada. Oestilo egípcio, tal como existira por mais de mil anos antes de seu reinado, continuou a existir poroutros mil anos ou mais, e os egípcios acreditavam, sem dúvida, que continuaria por toda aeternidade. Muitas obras egípcias em nossos museus datam desse período mais recente, e o mesmopode ser dito de quase todas as edificações egípcias, como templos e palácios. Novos temas foramintroduzidos, novas tarefas executadas, mas nada de essencialmente novo foi acrescentado àrealização artística. O Egito, evidememente, era apenas um dos grandes e poderosos impérios que existiram noOriente Próximo durante muitos milhares de anos. Todos sabemos pela Bíblia que a pequenaPalestina se situava entre o reino egípcio do Nilo e os impérios babilônico e assírio, os quais tinhamprosperado no vale dos rios Eufrates e Tigre. A arte da Mesopotâmia, como o vale formado pelosdois rios era designado em grego, é menos conhecida do que a arte do Egito. Isso deve-se, em parte,a um acidente. Não havia pedreiras nesses vales e a maioria dos edifícios eram construídos com tijolocozido que,
  11. 11. no transcurso do tempo, se desintegravam e convertiam em pó. A própria escultura em pedra erarelativamente rara. Mas essa não é a única explicação para o fato de comparativamente poucas dasprimeiras obras dessa arte terem chegado até nós. A principal razão consiste, provavelmente, em queesses povos não compartilhavam da crença religiosa dos egípcios de que o corpo humano e suarepresentação deviam ser preservados para que a alma sobrevivesse. Nos primeiros tempos, quandoum povo, os sumérios, governou na capital de Ur, os reis ainda eram sepultados com toda a sua casa,escravos e tudo, para que não lhes faltasse um séquito no mundo do além. Foram descobertassepulturas desse período e podemos admirar alguns dos deuses domésticos desses antigos e bárbarosreis no Museu Britânico. Pode-se apreciar quanto refinamento e engenho artístico é capaz deacompanhar a superstição e crueldade primitivas. Existia, por exemplo, uma harpa em um
  12. 12. 43. Exército assírio assediando uma fortaleza. Relevo em alabastro do Palácio do Rei Assurnasirpal II, cerca de850 a. C. Londres, Museu Britânico.dos túmulos, decorada com animais fabulosos (fig. 41). Assemelham-se um pouco aos nossos animaisheráldicos, não só em sua aparência geral, mas também na disposição, pois os sumérios revelavamparticular gosto pela simetria e a precisão. Não sabemos exatamente o que se pretendia significarcom esses animais fabulosos, mas é quase certo que se tratava de figuras da mitologia desses recuadostempos, e que cenas que hoje nos lembram as páginas de um livro infantil tinham uma significaçãomuito solene e austera. Embora os artistas da Mesopotâmia não fossem chamados a decorar as paredes dos túmulos,também tinham de se assegurar, de um modo diferente, de que a imagem ajudava a manter vivos ospoderosos. Desde os primeiros tempos, era costume dos reis mesopotâmicos encomendarmonumentos em celebração de suas vitórias na guerra, os quais falavam das tribos que tinham sidoderrotadas e dos despojos que tinham sido tomados. A fig. 42 mostra-nos um desses relevos,representando o rei que espezinha o corpo de seu inimigo trucidado, enquanto outros de seus inimigosimploram misericórdia. Talvez a idéia subjacente nesses monumentos não fosse apenas conservarviva a memória dessas vitórias. Nos primeiros tempos, pelo menos, as antigas crenças no poderda imagem poderiam ter ainda influenciado aqueles que as encomendavam. Talvez pensassem que,
  13. 13. enquanto a imagem do rei com o pé sobre o pescoço do inimigo prostrado ali permanecesse, a triboderrotada não teria forças para se rebelar de novo. Em tempos mais recentes, tais monumentos converteram-se em completas crônicas ilustradasdas campanhas do rei. A mais bem conservada dessas crônicas data de um período relativamenterecente, o reinado de Assurnasirpal II da Assina, que viveu no século IX a.C, um pouco depois dobíblico Rei Salomão. O relevo está exposto no Museu Britânico. Aí vemos todos os episódios de umacampanha bem organizada; vemos o exército cruzando rios e atacando fortalezas (fig. 43), seusacampamentos e suas refeições. O modo como essas cenas são representadas é bastantesemelhante aos métodos egípcios, mas talvez um pouco menos arrumado e rígido. Quando asolhamos, sentimos como se estivéssemos assistindo a um cine-jornal filmado há 2.000 anos. Tudoparece tão real e convincente. Mas, se observarmos mais atentamente, descobriremos um fatocurioso: é grande a profusão de mortos e feridos nessas horríveis guerras... mas nenhum deles éassírio. A arte do ufanismo jactancioso e da propaganda já estava bem avançada nessa época. Mastalvez possamos adotar uma idéia algo mais tolerante a respeito desses assírios. Talvez eles aindafossem governados pela antiga superstição que intervém com tanta freqüência nesta história: asuperstição de que numa pintura, num relevo, numa estátua, existe algo mais do que uma simplespintura, um relevo ou uma estátua. Talvez não quisessem representar assírios feridos por algumadessas razões. Em todo o caso, a tradição que se iniciou então teve uma vida muito longa. Emtodos os monumentos que glorificam os senhores da guerra do passado, a guerra não chega a serproblema. Basta o herói aparecer e o inimigo é dispersado como palha ao vento.

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