No chão da escola acontecências de um universo apaixonante

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No chão da escola acontecências de um universo apaixonante

  1. 1. No chão da escola:Acontencênciasdeumuniversoapaixonante
  2. 2. iiOrganizaçãoHellenice FerreiraConselho EditorialAmanda GuerraCristina SilveiraJosé Alexandre da SilvaMarcia Oliveira FerreiraMarluce Moraes dos SantosRevisãoIzis da Costa Guimarães de OliveiraMarcos Vinícius Knupp BarrettoTiago da Silva RibeiroFotografia da CapaEverton BarsanProjeto GráficoJosé Eustáquio de Queiroz CauperF441cFerreira, Hellenice de Souza, organização.No chão da escola: acontecências de um universo apaixonante / vários autores. –Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias, RJ: H. Ferreira, 2011.1. Escola. 2. Memória. 3. Professores. 4. Sala dos Professores Mestre Paulo Freire– Brasil. I. Título.
  3. 3. iiiPrefeitoJosé Camilo Zito dos Santos FilhoVice-PrefeitoJosé AmorelliSecretaria Municipal de EducaçãoRoberta Barreto de OliveiraSubsecretaria de Planejamento PedagógicoMyrian Medeiros da SilvaSubsecretaria de Gestão de PessoalSônia Pegoral da SilvaAssessoria EspecialAngela Regina Figueiredo LomeuDepartamento de Educação BásicaMariângela MonteiroCoordenadoria de Tecnologias da InformaçãoJosé Eustáquio de Queiroz CauperSala dos Professores Mestre Paulo FreireHellenice Ferreira
  4. 4. iv“Não sou apenas objeto da História,mas seu sujeito igualmente”Paulo Freire
  5. 5. vSUMÁRIOApresentação ...............................................................................................................viNo chão da escola: acontecências de um universo apaixonante......................................1Escola da minha vida......................................................................................................4Memória sinestésica......................................................................................................5Ensino Temperado com Afeto ........................................................................................7A turma do sonho..........................................................................................................8Momentos de um dia-a-di@... .......................................................................................9Tempo, tempo, tempo, tempo .....................................................................................10Do pátio da escola ao palco da vida..............................................................................12Educar, um ato de amor...............................................................................................14Sei onde estou: a história de Salviano, por ele mesmo..................................................16Questão de tempo.......................................................................................................18Que surpresa...!!!! .......................................................................................................19As pequenas histórias que mudaram tudo ...................................................................20Esquecimento..............................................................................................................23A árvore de Músicas ....................................................................................................24A menina que despertou para o universo mágico da leitura .........................................25Santo de casa faz ou não faz milagre? ..........................................................................28Legalização: mais do que um ato legal..........................................................................30Mãe Coragem ..............................................................................................................31Uma nova chance ........................................................................................................33No chão da escola........................................................................................................35Chão de escola.............................................................................................................37Mediar, ação literária de amor.....................................................................................38Crianças.......................................................................................................................40Chão da Escola.............................................................................................................41Uma flor no Jardim Gramacho .....................................................................................42Construindo um futuro ................................................................................................44Pó de Giz .....................................................................................................................46Mosaico chão de escola ...............................................................................................47
  6. 6. viApresentaçãoAtravés da educação, deparamo-nos com novas e inusitadas possibilidades de ver omundo e, consequentemente, atuar nele. Um dos conceitos de educação inovadora e dequalidade é o que destaca a capacidade que o professor tem de ser eterno aprendiz epesquisador, reconstruindo-se, moldando-se e emoldurando-se, na rapidez das transformaçõesconceituais.Já sabemos que o professor é um gestor da sua turma, dos grupos, dos conteúdos, dadisciplina. É ele o gestor do chão da sala de aula, dos passos dos estudantes e dos aparatos queenriquecerão os seus saberes.Ao fazer a gestão de sua aula, o professor é capaz de tomar várias decisões. Muitas delassão pautadas em estudos, pesquisas e leituras, oferecendo resultados mais significativos nodesempenho dos seus alunos. Destaca-se, ainda, o fato de que o estímulo ao confronto deopiniões, à prática de contextualização e à integração de conhecimentos múltiplos do processodecisório cria um ambiente apropriado para o aprendizado contínuo.De fato, não se constrói essa inovação educacional sem alianças, pois muitas vezes aescola não dispõe de toda a estrutura necessária para motivar o professor. Assim, ambientesfortalecedores e que propiciam novas oportunidades e criatividade para o professor, tais comoa Sala dos Professores – Paulo Freire, da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias,renovam formatos essenciais para o crescimento e para soluções inteligentes, no âmbito daqualificação profissional.Hoje, espaços como esse são um pilar imprescindível para bons resultados da uniãoentre gestão, professor e alunos. A decisão de frequentar e de estruturar esse cenário é apenasdo professor. A decisão de manter um pedacinho do chão da escola no dia-a-dia daadministração é uma “acontecência” coletiva e uma vitória de todos nós.Roberta BarretoSecretária de Educação de Duque de Caxias
  7. 7. No chão da escola: acontecências de um universo apaixonanteEstá quase na hora. Sei que, muito em breve, serei passarela para muitos atores mirinsque por mim passarão com um uníssono objetivo: a instigante busca por conhecimentosdiferentes dos que são aprendidos em outros chãos: o da rua, o de casa, o da pracinha, o docomércio local, o das casas de familiares e de vizinhos. Enfim, espaços por onde essesprotagonistas circulam e onde aprendem diversas informações que lhes são também úteis nodecorrer de suas caminhadas como cidadãos.Entretanto, antes da chegada desses personagens tão aguardados por todos que fazemparte do universo escolar, há toda uma preparação para recebê-los: limpeza (passam-me panose até cera para que eu fique brilhante e cheiroso. E devo confessar que adoro esses mimosfeitos pelos profissionais da limpeza! Ah, como é bom sentir a vassoura massageando-metodo!), organização das carteiras (às vezes, acho que me arranham em demasia) ou,dependendo da sala, das mesas que serão instrumentos essenciais para a execução das tarefaspropostas por um ator não menos importante: o professor. E lá vem ele, passos firmes,sincronizados, à espera de dar início a mais uma série de passos que levarão seus discípulos aocrescimento intelectual. É interessante sentir a desenvoltura desses profissionais que – porvezes – se emocionam e também se aborrecem com a atitude de certos atores que ainda nãodescobriram a importância de sobre mim estarem. Sim, é terrível narrar quantas vezes souarranhado, maltratado, pisado com brutalidade por aqueles que ainda não perceberam queestão em um palco onde têm a chance de errar; já que, em outros chãos, normalmente o erroimplica demissão, punição – enfim – chateação.Confesso que me sinto deveras importante, uma vez que sobre mim passaram vultosaspersonagens. Percebo que isso me sensibiliza. Afinal profissionais de todas as áreas têm de(devo usar DE quando houver o intuito de marcar obrigatoriedade. Aprendi – certo dia – na aulade Português, ou você pensa que fico à toa o dia inteiro?) frequentar uma escola e por mimdesfilar. Sei que você estranhou minha nota de tom pessoal feita há pouco, mas saiba quepresto bastante atenção e que – nesses anos – em que sirvo de passarela a todos – tambémacumulo conhecimento. Às vezes, divirto-me com a angústia de alguns alunos que – ao fazeremavaliações – pelas diversas batidas em mim, feitas pelos tênis – sinalizam o nervosismo queestão sentindo. Ah, se eu pudesse ajudá-los!!! Mas também daria uma boa bronca nesses, jáque – no momento em que a professora estava explicando e com a turma construindo oconhecimento – aquele nervosinho simplesmente ignorava a tudo e a todos por estar dandobatidinhas com os pés ao lembrar de uma música de que tanto gosta. (Isso é só um dos motivosque levam muitos a perderem momentos, considerados por mim, imperdíveis!) Veja se oresultado disso será bom! Não há como acertar mesmo qualquer questão!Não posso aqui deixar de relatar também os passos de outros que demonstram, pelasegurança no andar, que dirigem com sabedoria e com firmeza a escola: o diretor, figura que – ao
  8. 8. 2caminhar em direção à sala de aula – transforma a postura de grande parte do corpo discente.Falo grande parte, pois sempre existem aqueles que – mesmo sabendo da importância de ter umapostura de respeito na escola – teimam em fazer estripulias, que levam a repreensões necessáriaspara se manter o espaço escolar disciplinado.Como me emociono à toa, caro leitor! Também o que não faltam são cenas dignas deHollywood. Certo dia, caminhava sobre mim – com muita dificuldade de locomoção – uma lindamenininha. Pelo tamanho de seu pequenino par de tênis, deveria ter – no máximo – sete anos.Mas apesar de sua dificuldade, seus passinhos me passavam uma vontade e um orgulho empoder estar pisando o chão da escola, já que – se não fosse o trabalho em conjunto de pessoastão interessadas em fazer com que cada brasileirinho saiba o que é ser cidadão – por mim, essaartista mirim não teria como circular. E captar a energia boa que dela saía e a emoção de pisar-me pela primeira vez – são cenas que muito me fazem ter orgulho de ser um chão escolar. Masnão é só isso, há poucos dias – também recebi um aluno especial. A princípio, estranhei o fatode não sentir seus passos, apenas pneus de uma novinha cadeira de rodas. Depois inferi(sinônimo de concluir. Já lhe disse, caro leitor, que fico atento às aulas, principalmente dePortuguês, que é ministrada por uma professora cujos sapatos são enormes! Parece calçar 40!!!Percebo que é uma mulher grande e forte, mas com uma suavidade e com um carinho com seuspequenos que me cativa. Acho que estou apaixonado...). Não é muita emoção para um já velhoe gasto chão, minha gente? Não há palavras que consigam dar conta do que senti e do orgulhoque tive ao saber da chegada de alunos inclusivos, que têm o direito, como qualquer outracriança ou jovem, mas que – sem essa cadeira – ficavam impossibilitados de por mim passar.Mas isso é passado na história deles, e o que importa é saber que diariamente aquelas rodinhascircularão freneticamente a caminho da sala de aula, também com uma rampa de acesso (feitade um primo meu, que veio especialmente para fazer junto a mim um chão que sirva a todos eonde não haja exclusão) preparada para a livre circulação desses especiais alunos!Como resolvi me abrir e tive essa chance pela qual muito estou grato, afinal não é sempreque um simples (isso só para os que não veem em mim a beleza e a importância que tenho) chãotem a oportunidade de falar tudo o que sente por ser parte integrante desse essencial momento devida de qualquer cidadão: ser aluno. Aproveito também para contar que, ao final de um turno, ficomuito deprimido, já que sobre mim jazem pontas de lápis, bolinhas de papel (coitadas das árvores!Ouço professores que dizem: “Meninos, não arranquem folhas à toa, usem o corretivo.”Infelizmente, poucos estudantes lhes dão ouvidos e preferem fazer de mim um mar de lixo!) Issotudo acontece – bem sei – apesar das constantes conversas que acontecem logo no início do ano,momento em que o regimento escolar é passado a todos pela equipe diretiva da escola. Só que háalunos que parecem não ter ouvido nada do que foi dito, ou apenas não veem problema algum emsujar-me.Ainda bem que não é só de tristeza que me alimento, visto que todos os profissionaisque são importantes na vida das pessoas (médico, assistente social, psicólogo, professor,
  9. 9. 3políticos) por mim desfilaram e disso sinto-me honrado. Não sei, mas minha afinada percepçãojá demonstrava que aqueles passinhos de criança se transformariam em passos importantespara o futuro e para o desenvolvimento de nosso país. (Estou sentindo as lágrimas escorrerem...É melhor parar de pensar nisso; já que aprendi, na aula de Ciências, que devemos controlar asemoções e que, quanto maior a idade, maiores as chances de termos um enfarte!). Prefiro nãocitar nomes desses alunos também especiais para não deixar ninguém de fora da enorme lista;mas basta você, caro leitor, pensar que todos – independentemente da função que exerçam ouque já tenham exercido fizeram jus aos assíduos passos que deram no decorrer de suacaminhada diária por mim, velho e gasto chão da escola.Já está na hora de terminar minhas anotações, já que tenho de me preparar pararecepcionar mais um imenso grupo de alunos que chegarão ansiosos e curiosos para meexplorar. Falo isso; pois – depois que me conhecerão como um todo – muitos até por mimrolarão (brincadeiras de que muito gosto, pois é um momento em que mais próximo a eles ficoe que posso abraçá-los e senti-los mais perto de mim!) e mais tarde – quando afastados daescola estiverem, lembrar-se-ão (é mais um uso que devo àquela professora de Português....)dos mágicos tempos de escola e de tudo por que passaram nela...Bom, caro leitor, diante desse emocionante texto feito por mim, um tão ignorado chãode escola, só me resta concluir o seguinte: sou um chão escolar e orgulho-me muito de sê-lo.Sim é essa a minha simples, todavia apaixonante conclusão! E, como não poderia deixar deagradecer, sou grato a todos que – de alguma forma – zelaram pela minha manutenção e pelalimpeza de meu corpo tão gasto pelas pisadelas de muitos que de mim nem se lembrarão, masque terão belíssimas histórias para relatar desses saudosos tempos de escola! Peço apenas, que– a partir dessa leitura – todos que por mim circularem retirem um tempo – nem que seja umsegundo – para me contemplar como parte integrante do incrível, emocionante e apaixonanteuniverso escolar!Fernanda Lessa PereiraDivisão de Educação Infantojuvenil – Língua Portuguesa
  10. 10. 4Escola da minha vidaAo ouvir certos discursos sobre a necessidade de tornar a escola um espaço prazeroso,volto ao tempo e perco-me em minhas reminiscências, pois nunca vivi a escola de uma formaque não fosse prazerosa. Penso, com certa nostalgia, nos espaços e pessoas e, em todas assituações vivenciadas, com muita euforia e dinamismo: os recreios e horas vagas, envolvidaspelos jogos de queimado, pique bandeira, garrafão, elástico... E o despertar para literatura.Ah, os livros! A fantasia de histórias como: “A Ilha Perdida”, “Cachorrinho Samba”, “O Meninodo Dedo Verde” e, como esquecer, os suspenses de Agatha Christie... As rodinhas de conversacom os professores e o exercício constante de nossa criatividade: fazíamos teatro, dança,festivais de música. Tantas as performances! Éramos envolvidos pelas mais diversaslinguagens artísticas. E o envolvimento com o Grêmio Estudantil, as reuniões derepresentantes de turma, o despertar do ser político e da consciência da necessidade doenvolvimento nos movimentos que cercavam o nosso Universo.Caminhávamos confiantes, certos do pertencimento aquele espaço.Muito do entusiasmo e da eterna certeza de que a escola é o espaço da diferença emnossas vidas vem desta escola impressa em mim. Registros de um tempo de vivênciassignificativas e, acima de tudo, prazerosas, que ainda hoje endossam minhas ações eposicionamentos ao pensar, planejar e realizar em relação à esta Instituição.Roseli Ramos Duarte FernandesSecretária de Educação (06/2010 a 07/2011)Atual Secretária de Ação Social
  11. 11. 5Memória sinestésicaTudo era muito estranho, novo e intrigante. Sonhara com aquele momento por diversasnoites desde que minha mãe falara que eu iria estudar. Meu irmão já estava estudando e eudesejava isto mais que tudo.Havia muita gente na calçada em frente da escola: crianças, pais, bicicletas, tudo quehoje ainda existe. Mas lá na porta da sala havia uma mulher que hoje não está mais lá, DonaMaria.Era uma mulher não muito alta nem muito baixa que usava um jaleco branquinho, muitocomprido. Seus cabelos vermelhos, que depois descobrimos que era pintado, mas não deixavade ser bonito, não apresentava um fio fora do lugar. Seu rosto, humm... tinha um cheiro bom depó de arroz. A boca, esta era muito diferente, era um leve e fino traço de batom no rosto; olhosclaros e com um brilho que me perdia na tomada de lição. Sinto seu perfume até hoje: Madeirasdo Oriente – vendia na farmácia, minha mãe também usava, havia dois palitinhos amarradosdentro do vidro, eu ficava balançando o vidro horas para vê-los descer lentamente até o fundodo vidro.Mas ela não era a única. Havia outras, muito, mas muito atentas às bagunças quefazíamos. Havia duas que não posso e não quero nunca esquecer o cheiro e os rostos, DonaPaulina e Dona Arlete. Dona Paulina era uma negra não mais jovem, mas cheia de disposição.Tinha um jeito mineiro de falar, olhar terno que aquecia quem olhasse. Dona Arlete tinha umjeitão meio portuguesa, falava alto, mas não deixava de ser terna conosco. Tinha braços fortes,mãos grandes e dedos gordinhos, muito branquinhos. Elas usavam lenços amarrados na cabeça,igualzinho quando minha mãe fazia touca no cabelo, mas elas não estavam de touca. Eram asmerendeiras. Nossa, que cheiro gostoso vinha daquela pequena cozinha... Quando chegávamospara pegar nossos pratos, elas nos serviam com um sorriso nos lábios e uma frase milhões devezes repetidas... Cuidado! Está quente!Ah! Como eu gostava do macarrão com salsicha, da sopa... era tudo novidade; era tudocomo devia ser. Colorido, cheiroso e alegre.Lembro-me das paredes da sala de aula emprestada – sim, emprestada, já que a escolafuncionava em um prédio cedido pelo Centro Espírita Thiago Apóstolo, que também era o nomeda escola: Escola Municipal Thiago Apóstolo. Era um grande salão dividido por biombos demadeira em três partes. O telhado de telha de barro ficava tão longe que parecia o céu. Asjanelas eram altas e as paredes eram grossas, mas mesmo assim os meninos viviam pulando pradentro e para fora quando a professora se distraía.Havia uma grande mesa com muitos bancos a sua volta e muitos, mas muitos cartazes comabelhinha, dado, escova, mapas, esqueletos humanos, muitas imagens, sons...
  12. 12. 6Eu gostava de desenhar. Era mágico falar com o papel e ver sair dele esqueletinhos, semexendo e falando comigo. Jardins floridos, casas no topo de colinas, nuvens em um céu muitoazul.A diretora tinha cheiro de jardim, parecia uma atriz de novela, todas, todas pareciam tersaído de uma página da revista.Gostava de ver a bagunça que as letras faziam no papel e de tentar entender como erapossível realizar uma divisão tão grande. E pra que dividir se o que eu queria era ficar com todasas bolinhas de gude.Em julho era a quadrilha. O ensaio era no terreno baldio próximo da escola. Ele tinhasido aterrado recentemente, e o barro era bem vermelho, a poeira subia e ficávamos com asmeias da cor da terra.No dia da festa, meu pai se vestiu a caráter, calça jeans e chapéu de palha; minha mãepreparou um bolo do norte, aquele de massa puba. Tudo muito enfeitado com pindoba ebandeirinhas que nós mesmos fizemos.As prendas... era muito engraçado na pescaria pegar de volta o seu trabalho deartes...Tudo tinha cheiro, cor, sabor, tudo era como deveria ser, alegre e novo, tudo.Todos os anos minha mãe me fazia bordar um tapete de juta com lã em ponto cruz, paradar de presente no dia do professor.Mas, no dia das mães, os mais levados eram escolhidos para apresentar versinhos,cantar músicas, assim como hoje, mas era diferente. Eu chorava todas as vezes que ia recitar oversinho que tanto ensaiei... eu não sabia porque chorava, até hoje não sei por quê!!!Ah, quase me esqueci. Por várias vezes soldados iam à escola e faziam perguntasengraçadas, que eu não sabia como responder: Quem de vinte e cinco tira? E na verdade elequeria dizer: Quem de vinte, cinco tira, fica com?Quinze! Quinze era a resposta. Outras vezes iam com médicos, vacinas. Puxa... meubraço tem a marca até hoje!E então veio a quinta série. Lá não podíamos mais ficar. Deveríamos fazer o curso deférias no Fluminense, e a prova do Aquino. Era outro universo, participar da banda marcial, dosdesfiles cívicos, queimada na praça da igreja... Tudo tinha cheiro, cor, sabor. Tudo era comodeveria ser: alegre e novo, tudo...Lavínia Dolores da CostaCoordenadoria de Nutrição Escolar
  13. 13. 7Ensino Temperado com AfetoQuando minha mãe separou-se de meu pai, fui enviada para casa de minha tia, que morava noEspírito Santo. Um lugar estranho para mim, com uma família desconhecida. Eu tinha apenas 5 anos eencontrei lá mais duas crianças. Eu era a mais velha do grupo. Logo depois, nos mudamos paraMarapé, distrito de Cachoeira do Itapemirim, e lá chegaram mais 4 crianças. Eu teria que lavar, passar,cozinhar para todos, num total de 7 crianças, contando comigo. Mas, nesse lugar, já na terceira série,encontrei uma professora que fez a diferença em minha vida. Vivendo nos dias de hoje possoperceber que ela tinha visão futurista.Eu estudava à tarde, quando ouvia a sirene tocar para saída do turno da manhã às 12h. Corriapara o rio, tomava banho, colocava o uniforme, do qual me lembro até hoje: saia vermelhapregueada, blusa de pano de saco, esse que utilizamos como pano de chão, e uma gravata vermelha;o cabelo ficava para cima. Sapato não tinha, ia descalço mesmo. Às vezes não dava tempo de tomarbanho, aí eu ia assim mesmo e a professora não se importava com o cheiro de xixi, que fazia todos osdias na cama. Acho que era ansiedade. Para ela isso não significava nada, pois o mais importante eranão faltar aula. O caderno era apenas um. O livro chamava-se meu tesouro e continha todas asmatérias. Era bem grosso e ficava na escola, já que passava de um para o outro a cada ano.Me lembro dela nitidamente: era alta de pele clara, cabelo pretos, óculos quadrados, grandese pretos. Era filha de fazendeiros, não tinha salário, mas estava além de seu tempo. Em apenas quatrohoras de trabalho por dia, ensinava tudo, até mesmo tabuada com premiação, além de ensinar acuidar da horta de onde tirávamos a merenda escolar, da qual sinto o gosto até hoje. Tínhamos umcaderno de dedicatória, que ela deu um para cada aluno. Nele, escrevíamos poesias e dedicatóriaspara os colegas em casa. Eles transitavam na sala de aula o tempo todo. Lia histórias, fazia brinquedoscantados e folclóricos conosco num campo de futebol próximo à escola e, nos últimos meses de aula,dava para cada aluno um poema bem grande para decorarmos no dia de encerramento das aulas.Nesse dia, íamos sem uniforme com nossa melhor roupa, subíamos na cadeira para declamar e todosda classe aplaudiam. Ela ainda arranjava tempo para desenhar no canto das folhas de nossos cadernose, no final da aula, nos oferecia toquinhos de giz. Em casa, dava aula para as crianças de sabugos demilho feitos por mim nas horas vagas. Eu sentia muita falta da minha mãe, mas o carinho dela mefazia sonhar. Sonhar em ser professora. Passei pelas mãos de centenas de professores, muitosesquecidos, mas ela marcou minha infância e guardo até hoje o nome dela: Genilda Cabelini. Emminha trajetória educacional e de vida, a tenho como exemplo.Preciso parar por aqui, pois senão escreverei um livro sobre esse tempo. Acho que meutalento para arte trouxe de lá. Ela viverá em minhas lembranças para sempre e, onde quer queela esteja, tenho a certeza que está feliz, pois seu esforço foi recompensado. Até hoje tenhomeu caderno de dedicatória guardado.Cleuza Maria Daniel de Souza – Equipe de Cerimonial e Eventos
  14. 14. 8A turma do sonhoA turma era 801B, classificada pelos professores como a “turma do agito”. Éramos todosamigos dentro da escola e fora dela, pois morávamos no mesmo bairro. O pátio da nossa escolaera muito pequeno. Devido a isso, na hora do recreio, a diretora autorizava somente as turmas daoitava série a irem à praça, que ficava em frente à escola. Isso era para nós como um prêmio, porisso todos os alunos da escola, inclusive o jardim de infância, queriam chegar logo à oitava série.Lá na praça, nós brincávamos de balanço, jogávamos bola, vôlei, mas o que nós maisgostávamos era ficar conversando com o “Tião”. Ele era um morador de rua muito conhecidopor todos. A vizinhança cuidava dele, dando comida, roupas e tudo que ele precisasse. O Tiãoera muito engraçado e sempre contava umas histórias sem pé nem cabeça, que a turmaadorava ficar ouvindo na hora do recreio.Todos os dias cada um era responsável por comprar um sonho na padaria para o Tião, porqueo Tião só contava as histórias depois de comer o sonho. Quando acabava o recreio, nós voltávamospara a escola e o Tião era nosso guardião: levava a turma toda até ao portão da escola, dava umtchauzinho e abria aquela boca sem dente num sorriso que nos fazia rir mais ainda.Até que um dia, o sinal do recreio bateu, corremos para a praça, e o Tião não estava lá.Procuramos, procuramos, procuramos em todos os lugares. Perguntamos aos moradores se elestinham visto o Tião. E nada.Antes de o sinal bater avisando que o recreio tinha acabado, voltamos para a sala deaula. A diretora, Dona Estela, estranhou, pois todos os dias ia lá na praça buscar a gente, porquefingíamos não ouvir o sinal comunicando o término do recreio. E assim passaram-se duassemanas. E o Tião não aparecia.O recreio não tinha a menor graça, a praça vazia. E ninguém tinha coragem de comer umsonho da padaria. Os professores também estranharam, porque pela primeira vez a turma 801Bficou caladinha nas aulas e nem uma confusão surgiu neste período. Foi então que durante aaula da Dona Marly, professora de matemática, ouvimos uma gritaria lá na rua. Alguém batendono portão, gritando: “Sonho, sonho, sonho.”Corremos para olhar na janela que dava de frente para a rua. Para a nossa surpresa era oTião. Saímos da sala correndo, cada um mais rápido que o outro. Quando chegamos ao portão,o Tião falou assim: “Quero o meu sonho e com doce de leite”Foi a maior felicidade. Nós abraçamos o Tião e o levamos para a nossa sala de aula. Nesse dia aDona Estela autorizou que ele assistisse à aula junto com a turma. Quando o sinal bateu corremospara a padaria e cada um comprou um sonho pro Tião. Foi o melhor recreio das nossas vidas.Cristina das Graças Ferreira ViannaEquipe de Leitura
  15. 15. 9Momentos de um dia-a-di@...Era um dia comum, como outro qualquer... Muitos afazeres, atividades normais de todosos dias: ler emails, twittar, verificar agenda no docs, corrigir textos, fazer algumas ligações... Porvolta de 13h30, antes de sair pra almoçar, lembrei de ligar para casa e verificar como estavam ascoisas por lá. Minha querida mãe, com todo aquele carinho de sempre, me responde que estátudo bem (mesmo ouvindo o bagunça dos meus filhos na casa). As crianças já chegaram daescola, almoçaram e estão assistindo aos desenhos na televisão.Desliguei o celular, já com saudade daquele barulhinho, e lembrei-me de quando eu tinha aidade deles, de como era bom chegar da escola e contar as aventuras de uma manhã. E eram muitas...A escola era um lugar de muita magia, muitos segredos, muitos medos. Era realmenteuma montanha-russa pra mim, mas eu amava aquilo tudo! Até porque eu era muito só, filhaúnica e cheia de imaginação... Lembrei-me de quando, nas manhãs de verão, ia me arrumarpara estudar. Minha casa tinha um quintal enorme, cheio de árvores e muitas plantas. O solentrava na casa junto a uma brisa delicada, que trazia o cheirinho do mato molhado do serenonoturno. Eu tomava um copo de café com leite, mais leite do que café, uniformizada e ansiosa,com os olhos atentos no relógio da vovó que ficava na cristaleira.O sinal tocava e já estava na fila para a forma matinal... “Firme, cobrir, firme... rssss.Nossa, parecia um quartel, mas a gente se divertia assim mesmo. Fazíamos barulho com osbraços e sempre pesávamos nossa mão no ombro do colega da frente, às vezes até fazíamoscócegas... O Hino Nacional brasileiro era sempre cantado com muita emoção, e depois íamospra sala de aula.Os professores eram parceiros de momentos únicos, como o de ensinar o plantio deamêndoas em Técnicas Agrícolas; nos apresentar a arte e a Música com um concerto no TeatroMunicipal; aprender geometria medindo a quadra da escola; conjugar os verbos escrevendouma novelinha do jornal da escola. Tudo era ligado e interligado, era tudo junto e misturado e omais legal disso tudo: a gente aprendia!!!O celular toca novamente. Era do trabalho. Precisava voltar para a SME, pois tinha umprofessor precisando do auxílio da tecnologia e me esperava para atendê-lo. Volto para otrabalho e ouço no caminho um som de sirene... Paro no sinal vermelho do trânsito engarrafadoe procuro a escola. Será o sinal da entrada? Será que ainda estou em meus pensamentos e nãoacordei? Vejo uma ambulância passando na rua correndo... É... que pena, acordei. E volto para arealidade de sempre: correria, e-mails, TV’s, DVD’s, notebooks, projetores. Mas feliz, muito felizcom meu trabalho, meus amigos, minha vida!Alexsandra Rosas dos Santos AzevedoCoordenadoria de Tecnologias da Informação e da Comunicação –Núcleo Tecnológico Educacional Municipal
  16. 16. 10Tempo, tempo, tempo, tempoEstou a dois dias do recesso do mês de julho. Estava ansioso por esta parada tãobenéfica para nós, professores. Tempo de recarregar as baterias, refletir sobre os projetos,rever rumos. Tempo de dar um tempo! Aproveito este intervalo para esvaziar as gavetas (meuDeus, quanto papel!) e ouvir alguns CDs esquecidos na estante por conta do corre-corre docotidiano. Ouço as melodias de Cartola, Nana, Benito Di Paula (meu Deus, nem sabia que tinhaum CD do Benito!), Lenine, Roberta Sá... No momento, com o rádio ligado, Vanusa me diz que“que hoje eu vou mudar, jogar fora sentimentos e ressentimentos tolos!” Escuto e acho que elatem razão. Pra que acumular tanta coisa? Prossigo esvaziando as gavetas e acreditando que avida ficará um pouco mais leve no segundo semestre.Encontro, em meio aos papéis, muitas fotos antigas. Algumas, rasgo com veemência...sentimentos e ressentimentos tolos. Outras, acaricio. Observo a simplicidade dos olhares, avulnerabilidade da vida, a inexperiência dos começos. Encontro uma foto antiga de uma turmaque tive. Paro por um instante. Volto no tempo e tento recordar o nome de cada criança quesorri naquele registro. Meu Deus, essa foi a turma mais difícil que tive. Foi com ela que aprendia ser professor! Recordo-me que todo dia que ia começar a aula eu tinha que desarmá-losprimeiro:– Coloquem as armas aqui!E lá vinham para cima da minha mesa pedaços de canivete, ripas de bambu, soco inglês,espelho quebrado. Quando eu ousava fazer algum passeio com eles era dor de cabeça na certa.Iam cuspindo da janela do ônibus nas pessoas que passavam na rua da saída da escola até odestino derradeiro. Eu voltava para casa chorando escondido dentro do ônibus me prometendoque se eu conseguisse chegar vivo até o fim do ano, eu daria uma grande festa emcomemoração. Era uma turma tão barulhenta que eu já estava fazendo “xxxiiiii” até para papelalumínio em casa. Como estratégia de sobrevivência, resolvi adotar o método do “Só por hoje”dos Alcoólicos Anônimos. Fiz uma lista com regras básicas do tipo: não xingar, não matar, nãocobiçar a mulher do próximo e enumerei cada uma. No início da aula eu sorteava um númeroque teria que ser vivenciado naquele dia: só por hoje. Eu sei que era só uma regra, mas senaquele dia eles não xingassem, por exemplo, já seria um alívio.Um dia começaram os preparativos para uma festa que aconteceria na escola e todas asturmas teriam que apresentar uma coreografia. Começava ali o meu tormento! Querendo serdemocrático para parecer um professor “sangue bom”, pedi para os alunos trazerem músicaspara ensaiarmos. Pra que? Surgiram um monte de CDs piratas com aqueles funks maiscabeludos de corar até os MCs da Furacão 2000. Depois de ouvir muitas pérolas da MPB paragarimpar algo que pelo menos não enfartasse a diretora, encontrei uma música do DJ Malboroque lá no finalzinho dizia: chega de tristeza! Pronto! Era aquela! Agarrei aquela música como sefosse o último bote do Titanic e fui para o ensaio. No dia da festa apresentamos. Fomos
  17. 17. 11execrados! Alguns membros da comunidade acharam um absurdo eu ter colocado em evidênciana festa, alunos que tinham um péssimo comportamento. Naquele dia chorei um pouco mais noônibus. Tinha vontade de desistir, mas como já nos disse Chico Buarque: “meio-dia eu só pensoem dizer não. Depois penso na vida pra levar e me calo com a boca de feijão”. E assim eu fiz.A partir dali comecei a levar para a escola alguns CDs que eu tinha. Quando eu davaalguma tarefa para os alunos sempre colocava uma música suave de fundo. Músicas clássicas,MPB, trilhas sonoras. Parecia que isto não fazia a mínima diferença. Um dia resolvi não colocarmais as músicas durante as atividades, deixando apenas como fundo musical a balbúrdiapeculiar de cada dia. Um aluno se aproximou e perguntou timidamente:– Hoje não tem música, professor?Foi então que percebi que estava fazendo efeito. Quando fomos a uma apresentaçãomusical dos alunos da Escola de Música do Zeca Pagodinho, ouvimos “Aquarela do Brasil”orquestrada. Um aluno veio me perguntar:– Professor, é “Aquarela do Brasil”?E eu, todo orgulho disse:– É, sim.No fim do ano, na Festa da Primavera, a minha turma dançou um bolero: “Solamenteuma vez”. As meninas de vestidos longos e os meninos com as gravatas emboladas no pescoçonum bailado sensível sob os olhares perplexos da plateia presente. Tudo isso por causa dequem? Do Flávio? Não, do tempo. Aprendi que algumas respostas só o tempo pode dar. A fotona minha mão me recordou algo que havia esquecido: estou em construção! Sem muitasrespostas, mas cada vez mais ávido pelas perguntas. Respeitando meus limites e oportunizandoalgumas sementes. Olho a foto e tento por um momento imaginar o destino que cada alunotomou. Será que ainda lembram daquela loucura do “só por hoje!”? Tomara que sim. Tomaraque estejam ainda aplicando nas suas vidas, mas agora com novas regras embaladas pelasmuitas melodias que vivenciaram. Só por hoje serei feliz, só por hoje vou acreditar nos meussonhos, só por hoje ajudarei alguém a se reconhecer como gente, só por hoje vou sorrir, só porhoje vou reservar um tempo para meus amigos e familiares, só por hoje, só por hoje...solamente una vez!Um barulho no rádio interrompe a música e desperta meus pensamentos. Minha filhaHelena trocou o CD. Agora, Pe. Fábio de Melo recita um poema que diz: “eu, sacerdote dasdivinas causas. Ele, o tempo, sacerdote das humanas razões”. Acho que a vida é mesmo assim.Flávio ValadaresE.M. Oswaldo Aranha
  18. 18. 12Do pátio da escola ao palco da vidaA leitura está no ar há muito tempo na nossa unidade escolar. Nossas andanças poresse mágico universo tem nos levado a momentos especiais recheados de risos, choros,medos, sonhos... Ah! Os Sonhos! Como é bom tê-los e vivê-los. Sonhos movem ações, eações tornam-se realidade. Por tal motivo, lendo, relendo e representando juntos, jásonhamos e vivemos muitas personagens. Com os pés no chão (literalmente), mas comtodos os apetrechos como manda o figurino, sempre fizemos e fazemos “acontecer”.Por meio do teatro, que nada mais é que leitura em movimento, transformaçõesreais ocorrem: alunos mais responsáveis, mais parceiros, mais disciplinados, mais LEITORES!Até mesmo aqueles mais inibidos são contagiados e motivados a deixar a timidez de ladopara viver sonhos!Tenho convivido e me encantado por meninos e meninas que têm demonstradoalegria e satisfação em realizar algo que acreditamos valer a pena. E como tem sido válidocada sorriso, cada conquista, cada superação. Os que concluem o ensino fundamental, nahora de partir, deixam muitas marcas e histórias inesquecíveis (que me emocionam só empensar). É, os que se tornam “ex” deixam saudades e, certamente, as têm também.Contudo, como se diz, o mundo é pequeno e, às vezes, reencontramo-nos com fortesabraços e belas lembranças.Dia desses, uma das minhas estrelas apareceu ao vivo para me ver! Morando noCanadá, falando inglês fluente, ela me deixou muito orgulhosa da sua vida por lá e por nãoter esquecido que um dia fez parte do grupo de teatro da escola e o quanto isso lhe fez bemem vários aspectos.Soube ainda que alguns já são pais e mães de família e a maioria, quem diria,professores!Em 2010, quando fomos fazer uma apresentação no Teatro Raul Cortez – como ébom proporcionar aos meninos esse momento tão sublime que é o de pisar num palco deverdade –, enquanto passávamos para o camarim, vi, na sala da administração, um rostoconhecido. Porém, com toda a movimentação da apresentação, não consegui lembrar deonde! Até que aquela moça bonita, educada, bem vestida veio até mim: – Oi, professora!Lembra-se de mim?! Eu fui sua aluna de teatro. Nossa! Aí veio tudo a minha memória... eque alegria! Alegria por vê-la bem, trabalhando (e olha só, no teatro), cursando faculdadede Comunicação.É muito gratificante ver minhas estrelinhas participando de algo que vão levar parasempre em seus acervos pessoais, a ser recordado com satisfação e saudade. Um conjuntode aprendizado que vão impulsioná-los para futuras conquistas. Alguns saem até dizendoque ainda vou vê-los atuando como artistas! Torço, torço para que realmente sejam bonsprofissionais, independente da área em que venham atuar. Torço para que sejam felizes e
  19. 19. 13que façam a diferença por onde passarem. Que sejam sempre ESTRELAS, refletindo boasações e transformações no palco da vida real.E assim seguimos em frente, “teatrando” daqui e dali, mesmo que descalços no chãoda escola, mas flutuando em sonhos e esperanças de que, na vida, o mais importante não éa situação em que nos encontramos, e sim o rumo que damos a ela.Izabel Cristina dos Santos Alvarenga LopesE.M. Nossa Senhora do Pilar
  20. 20. 14Educar, um ato de amor“O noturno é daqueles que, apesar de estaremà margem, nunca perderam a esperança devoltar ao mar”.Assim, num momento de reflexão, defini a Educação de Jovens e Adultos, minha paixãodentro do Universo da Educação. Um lugar onde me descobri mestre pela possibilidade deaprender a me colocar no lugar de aprendiz. A emoção me toma ao falar desta construção.Quem me conhece e acompanhou minha trajetória junto a este segmento sabe do que falo e dosentimento que envolve meu discurso.De toda esta história, não posso me furtar a registrar neste espaço um dos episódiosmais significativos de minha caminhada profissional. Lembro-me de que não só a necessidadede melhor organizar meu tempo, mas também a frustração na realização de um trabalho, queme parecia um perfeito desastre, levaram-me a um concurso de remoção, e a umaoportunidade de trabalhar à noite, num ensino supletivo, que transitava para um então ensinoregular noturno.O nome da Unidade Escolar, Escola Municipal Todos os Santos, era sugestivo para quemtinha as pernas, e também o corpo todo trêmulo diante desse novo desafio.Ao entrar na secretaria e me apresentar, fui focada por olhares descrentes, diante daminha meninice, nos meus vinte anos, que mais pareciam quinze, tamanha a fragilidade física.Pedi para aguardar na sala de aula, pois queria um tempo só, para melhor me articular. Aoentrar na sala, a mesa do professor me pareceu enorme. Um certo constrangimento meimpediu de ocupá-la. Busquei uma cadeira na última fila de carteiras da sala, ali sentei e pensei:“Se pudesse, nunca mais me levantaria daqui”. O tempo passou e os alunos foram chegando.Ocupavam seus espaços, conversavam entre eles. Do lugar onde estava, fitava a cada um deles.Em seus discursos, me apropriava um pouco de suas histórias de vida; ainda estavam despidosda condição de alunos, e iam expondo um pouco de si mesmos. Alguns me olhavam curiosos,mas não se aproximaram. Era comum essa rotatividade, a constante presença de novos rostos,que com o tempo se adaptavam àquela dinâmica. Por um momento ou outro, me lembrava deminha condição, quando indagavam: “Cadê a professora? No primeiro dia já vai chegaratrasada?”Todo aquele transe foi quebrado repentinamente, quando adentrou a sala a diretora daescola, que me apresentou ao grupo. Por um tempo perdida entre o tempo e o espaço, fuigradativamente retomando a consciência de minha própria existência, e, para minha surpresa, aleveza que me invadiu e a empolgação diante de todo aquele rico universo, de múltiplaspossibilidades, me permitiram estar e, muito mais que estar, criar, construir caminhosdiferenciados. A riqueza de nossos contatos permitiu vínculos que até hoje se estabelecem, e,
  21. 21. 15muito mais, permitiu uma construção interna de educadora, que se traduz na possibilidade decompartilhar e de acreditar no potencial e nas possibilidades que envolvem cada ser humano.Foi um período de desconstruções e reconstruções e, essencialmente, foi um momentode tamanha amorosidade, a mesma amorosidade que com certeza inspirou tantos escritos dePaulo Freire, o Mestre, que tão sabiamente nos levou a refletir que a Educação éverdadeiramente um ato de amor.Ana Cláudia Gomes Cunha de CarvalhoAssessoria de Comunicação
  22. 22. 16Sei onde estou: a história de Salviano, por ele mesmo“(...) A carta chegou e tinha o meu nome... sabia que era importante... Então eu abri e li.Arrastado, mas li. Era minha aposentadoria. Fiquei muito emocionado por eu ter lido aquilo... Euia ao médico, pois tinha que ir no clínico geral. Eu não sabia ler as placas das portas e ia pararno cardiologista. Hoje não, mudou tudo. Eu leio na rua, paro na banca de jornal e até tiro umacasquinha.”Salviano ingressou na escola municipal Marcílio Dias, na classe de alfabetização deJovens e Adultos, depois cursou o Ciclo I, onde ficou dois anos e, por fim, o Ciclo II, ondetambém permaneceu por dois anos.Ele é um senhor de 60 anos, que diz ter 49, porque facilita a paquera. Grandão, comcabelos grisalhos estilo Roberto Carlos, solteiro, católico, nascido na Paraíba, veio para Caxiasbem jovem.“Eu sou da Paraíba, vim pra cá com 16 anos, falsifiquei documentos para poder vir para acidade. Só grandão que tirei a certidão de nascimento. Me levaram no cartório, fiquei lá cheio devergonha.”Antes de se matricular na escola, já tinha carreira definida. Recebia um salário mínimode aposentadoria e complementava sua renda com o serviço de pintor de carros. Seu interessena escola não está voltado para o mercado de trabalho. Vai muito além. O que ele conta apontapara significados mais profundos que a escola traz na sua vida:“Pra mim é muito importante, porque eu não estudei quando era novo...”Trabalha em Saracuruna, como lanterneiro; é famoso, conhecido como melhor pintor decarros da localidade. Um funcionário da escola disse que chega a ter fila de espera para que elefaça o serviço nos carros.“Há algum tempo eu já queria estudar, mas eu não sabia onde tinha escola que pegassedo início. Não tinha. Aí aqui abriu. Me levaram para uma sala, aí eu vi que tava no lugar errado.Perguntei à professora e ela me levou para a sala certa”.Quando perguntado quais eram suas metas, desejos em relação ao estudo, elerespondeu:“Eu quero aprender. Não tenho definição, eu quero aprender.”Quando ele diz que estudar é muito importante, porque não estudou quando era novo,ele demonstra acreditar que havia uma carência na sua vida. O fato de se autossustentar, semanter financeiramente, não era suficiente para que se sentisse integrado e independente nomundo. O que ele queria e precisava era saber onde estava, como agir, se virar sem precisarestar o tempo todo pedindo ajuda.
  23. 23. 17“A gente passa a entender alguma coisa, já pega jornal e fica sabendo das coisas. Pegaônibus, endereço certo, lado par e ímpar da rua. Com pouca coisinha que tá aprendendo já nãoprecisa ficar alugando todo mundo”.Relata também o seu olhar para as pessoas que ainda passam por aquilo que ele passouum dia:“Outro dia eu vi um sujeito novo para receber no banco, tendo que botar o dedão(referência à assinatura com a utilização da impressão digital). Às vezes chega alguém no pontoe pede para mostrar o ônibus, porque não está enxergando. Às vezes acredito, mas às vezes seique é porque não lê (os ônibus da cidade de Duque de Caxias se identificam pelo nome do bairroe não por números)”.Com essas duas falas, ele mostra, com situações reais e até bem comuns em seu meio,como é a vida sem estudo, sem saber ler. E o que ele tenta destacar é que saber ou não saberdefine o cotidiano de uma pessoa: aonde vai, como vai, sua independência e o seu brio. Paraesse aluno, não ter estudado significava estar uma categoria abaixo, era ser menos que osoutros. Ou, o que era mais grave, não ser ninguém. Ele se desqualificava, por não ter estudado,independente da vida que possui hoje em dia, da família que criou, dos empregos queconseguiu, da história de luta, da superação de obstáculos e até da melhoria de vida em relaçãoà vida de seus pais. Não ser instruído, não ter passado pelo processo de educação formal odefinia.Hoje Salviano fala com orgulho da independência que conquistou. Não da financeira,mas da moral, pois já avalia, vê em outros as “deficiências” que tinha e sabe que não tem mais.“Antes eu não sabia de nada; hoje eu vou no banco e sei onde estou.”Paula Figueiredo da Silva CamargoDivisão de Educação Infantojuvenil – Filosofia
  24. 24. 18Questão de tempoSempre que me pergunto: “por que sou professora?”, algum aluno resolve me lembrardo motivo. Crianças sempre me motivam a escrever algo, geralmente engraçado. Entretanto,desta vez será algo profundo, pelo menos pra mim. Durante uma roda de conversa, uma alunase levantou e começou a me contar que havia visto um programa chamado “Sai de baixo” nanoite anterior à aula. Lembrei que este programa era exibido no tempo em que eu tinha amesma idade que meus alunos e exclamei:– Mas isso é do meu tempo!Em seguida, outra aluna disse indignada:– Mas, tia, seu tempo é agora!Tentei explicar a ela a questão do tempo, que eu me referia a minha infância, porém elanão se satisfez.– Mas, tia, você está aqui agora, então também é o seu tempo.Dei-me por vencida. O que poderia fazer diante desta imensa sabedoria lógica e infantil?Não pude parar de pensar no que minha aluna disse. Uma criança me fez perceber quetodo tempo em que vivo é meu! Logo eu, saudosista inata, sempre sentindo falta do quepassou... Pensar que a vida é tão curta e que, se não sentirmos e vivermos cada “tempo” comose fosse o último, podemos perder tanto! Enquanto eu estiver aqui, vivendo, será o meu tempo.E pensar que uma menina tão pequena aprendeu isso antes de mim! Faço questão deagradecer aos meus pequenos mestres sempre que posso pelas lições de vida, pelas pérolassoltas durante as aulas e por alegrarem os meus dias. Obrigada.Aline de Souza FiorentiniCreche e Pré-escola Ayrton Senna
  25. 25. 19Que surpresa...!!!!Aquele foi o meu primeiro ano na Educação Infantil, e, apesar de gostar de cantar ebrincar com as crianças, nunca tive muito interesse em trabalhar com crianças muito pequenas.Acho que tenho um vocabulário mais voltado para alunos com uma faixa etária mais elevada.A turminha era composta de 20 alunos, sendo dois com síndrome de Down. A rotinainicial corria bem como todos os dias e eu sempre dedicava uma atenção especial a esses doisalunos. Num desses momentos, um deles gritou:– Ô, professora, a Júlia está enchendo uma bola!!!!!E eu respondi que já ia ver e continuei a ajudar esses alunos na atividade do momento.De repente, outra criança grita com aquela bocona desdentada que quase todos comcinco ou seis anos têm:– Não é bola não, professora... É camisinha.....!!!!!!Sinceramente, aquilo bateu no meu ouvido e ficou. Eu olhei na direção dos dois e percebique realmente a Júlia estava com uma camisinha na mão, quase ficando gigante. Então eu disse:– Que camisinha o quê, Claudinei? Ninguém vai trazer uma camisinha pequenininha paraa escola. Me dá logo essa bola aí, Júlia.– Não é bola não, professora, é camisinha – disse o Claudinei.Olhei pra ele e percebi que ele estava achando muito engraçado o meu comentário.Neste momento, solicitei que fosse na minha mesa, explicando:– Meu filho, por acaso você sabe o que é camisinha?– Claro, professora. É pra colocar onde a gente faz xixi.Fui ficando vermelha e não sabia mais que rumo dar àquela conversa, mas mesmo assimcontinuei falando com ele.– Quem te ensinou isso?– Meu pai, professora. Seu pai não te contou não, que fica esperando neném se nãovestir a camisinha?Neste momento, resolvi mandar o Claudinei sentar no lugar dele e fui fazer uma lista decoisas que podemos colocar na mochila para levar para a escola.Na hora da saída, fiquei prestando atenção na chegada da mãe da Júlia, pois queriaconversar com ela sobre o ocorrido e pedir que tomasse mais cuidado com as coisas que a suafilha pegava em casa. Para espanto meu, a resposta desta mãe foi:– Só isso professora? Eu sempre dou as camisinhas para eles encherem e brincaremquando estão me perturbando – e começou a rir.Iná Maria Teixeira Lavradas – E. M. México
  26. 26. 20As pequenas histórias que mudaram tudoEsse texto não pretende ser um relato de como me tornei professora de crianças aos“mais de quarenta” anos, mas acho que algumas explicações são válidas, pois não tive umacarreira muito típica. Na adolescência, eu tinha (ainda tenho) horror à ideia de sujar os dedosnum mimeógrafo, por isso, fui estudar “um tal de Processamento de Dados”, que eu não fazia amenor ideia do que se tratava, mas que me livraria do Curso Normal. O tal de “Processamentode Dados” ficou conhecido como “Informática” e me levou a trabalhar em treinamento. E foipor aí que eu cheguei à educação.Eu nunca havia trabalhado com crianças, quando cheguei à escola naquela tarde de sol.A turma com mais de vinte crianças na faixa etária de oito anos me seguiu, desconfiada. Na sala,lembrei dos livros que tive acesso durante o curso de Pedagogia. Definitivamente, nenhumautor mencionou que as crianças gritavam tanto! Ao final do primeiro dia de aula, senti um levedesespero, acompanhado por um zumbido persistente no ouvido. Alguém me disse que eranormal e resolvi acreditar. Saí da sala de aula para assumir outro cargo, cinco anos depois.Desse período, entre muitas coisas boas, ficaram lembranças de pequenas histórias que desejocompartilhar.A surpresa do banheiroUm dia, uma menininha entrou no banheiro da sala de aula e encontrou, boiando dentrodo vaso, um solitário cocô. Foi um escândalo! Todos correram diante do assombro da colega eficaram se acotovelando na entrada do pequeno banheiro. Diante da confusão, organizeirapidamente uma fila. O método era simples: a criança ficava na fila, entrava no banheiro,olhava o cocô e voltava para seu lugar. Assim, depois que todos passaram pela fila, pude dardescarga e tentar retomar a atividade normal. Foi então que a pergunta que não queria calarveio à tona:– Tia, aquele cocô era seu?O saco sem santoEu adoro o Dia de Cosme e Damião. Quando criança, era um dia de doces e sorrisos. Aolongo dos anos, venho mantendo a tradição de distribuir doces no dia 27 de setembro. Esse dia,para mim, não se reveste de um caráter especificamente religioso, está mais ligado à memóriaafetiva. Buscando respeitar a religião das crianças, avisei com antecedência que iria levar docespara quem quisesse. Algumas crianças disseram que queriam, outras avisaram que não iriamquerer e um menino sugeriu que eu colocasse os doces num saco “sem santo”. E assim foi.Estava certa de que os santos não se importariam de ficar sem sua imagem para quealgumas crianças pudessem comer doces sem culpa. No dia combinado, na hora da chamada, a
  27. 27. 21criança levantava e pegava seu saquinho de doces, se quisesse. Quando, na letra C, chamei onome de uma menininha esperta, ela me disse:– Tia, eu não posso pegar.– Tudo bem. Eu respondi, e ela completou:– Tia! Pede a alguém pra pegar para mim!Caso de trânsitoUm dia, um homem foi atropelado. Ali perto, dentro de uma casa, uma mulher choroudesesperadamente. O filho dessa mulher perguntou à avó por que a mãe chorava tanto e asenhora respondeu que aquele homem atropelado era o pai que ele não conhecia. O meninocorreu para conhecer seu pai, morto, quase na porta de sua casa. Alguns anos mais tarde,dentro da sala de aula, o menino me contou essa história, como quem conta um sonho.A caneta corretaTodos o conheciam na escola. Falava com todo mundo, contava histórias e foi o ReiMago mais perfeito que um auto de Natal pode ter. Um dia, fui lhe entregar o material enviadopara crianças como ele, com baixa visão, mas ninguém era como ele.Quando entreguei o caderno de pauta larga e um lápis bem preto, ele me disse:– Você não vai me dar uma caneta?Então, lembrei das orientações sobre a espessura do traço, sobre a cor e demaisespecificações técnicas de uma caneta adequada para pessoas com baixa visão e disse que iriaprocurar. Não encontrei a caneta perfeita e um dia ele me disse uma frase mágica:– Eu quero uma caneta que brilha!E apontou para uma caneta usada na correção dos trabalhos dos alunos. Era uma canetacom glitter, nada técnica, e ele acrescentou:– Eu quero essa, mas rosa, não.E, então, eu lhe dei uma caneta azul, com glitter, tecnicamente inadequada, maseficiente o bastante para fazer aquele menino sorrir.Uma menina com a letra ANaquela escola, o quarto ano de escolaridade carregava um mito: para aprovação, eranecessário que o aluno estivesse muito bem preparado, pois no quinto ano os alunos aprovadosparticipavam da festa de formatura. Portanto, dizia a lenda, que, para evitar decepções, eramelhor ficar reprovado no quarto ano do que no quinto.Na minha turma de quarto ano de escolaridade, havia uma menina que não lia e nãoescrevia. Apesar das dificuldades, havia nela uma admirável vontade de tentar e de fazer
  28. 28. 22sempre de novo. Ao longo do ano, seu desempenho melhorou o suficiente para que apossibilidade de reprovação se transformasse em dúvida.Contrariando todas as regras, fui para a reunião de entrega dos resultados sem saber oque dizer ao responsável por aquela menina de olhos assustados que já se sentia reprovada.Seu pai era um homem muito simples que na primeira frase falou de seu grande amor pelas trêsfilhas. Ele me contou que ela havia procurado, sozinha, uma instituição que oferecia reforçoescolar e material de apoio. Disse também que ela fazia questão de "brincar de escola" paraajudar as crianças menores. Fizemos, então, uma espécie de acordo. Ela seria aprovada e ele ainformaria que seria preciso esforço para não viver, no ano seguinte, a decepção tão anunciada.Um ano depois, ela estava entre os aprovados do quinto ano de escolaridade sorrindoem sua beca improvisada. Decerto acreditando, como nós, que vale a pena continuar tentando.Fátima Denise Peixoto FernandesE.M. Walter Russo
  29. 29. 23EsquecimentoAquele dia estava muito agitado. Parecia que, de alguma forma, as crianças estavam a220v. Essa situação se refletia no refeitório, onde algumas turmas esperavam impacientementeo almoço que havia atrasado.No meio daquela confusão, acabei chamando a atenção de uma das minhas alunas. Disseque falaria com sua mãe. Por um momento, apaguei da mente o nome da mãe da minha aluna.Por isso, perguntei à Natália o nome de sua mãe.Ela olhou para mim assustada, coçando a cabeça como se eu tivesse feito uma perguntamuito difícil. As meninas que estavam com ela indagavam surpresas:– Natália, o que foi? Você esqueceu o nome da sua mãe?Ela, na simplicidade que só uma criança seria capaz de ter, me respondeu, justificandoaquela situação.– Ah, tia não sei. Eu só chamo ela de mãe!Sorri diante da resposta dela e não forcei a situação. Alguns minutos depois levantou-sede onde estava, veio correndo na minha direção e eufórica, como se fosse responder a umapergunta que valesse um milhão de reais, disse confiante com um sorriso de ponta a ponta:– É Jaqueline, tia! O nome dela é Jaqueline!Nice Neves ButtaE.M. Paulo Roberto de Moraes
  30. 30. 24A árvore de MúsicasEra final da década de noventa, exatamente o ano de 1999. A turma era um quinto anode escolaridade dessa rede de ensino. Foi nessa turma que tudo aconteceu, mais ou menos,como será descrito abaixo.Eu lecionava para essa turma naquele horário horrível que existia na rede (existia?!) das9h às 15h e, à noite, cursava o quarto período de Pedagogia.Havia uma disciplina eletiva chamada “Arte e Educação: Teoria e Prática”. Nessas aulas,aliada à teoria, o professor nos passava várias atividades práticas para que aplicássemos comnossos alunos. Essas atividades estavam sempre atreladas a alguma produção escrita.Resolvi propor uma delas a minha turma. Esse ano, por sinal, foi muito produtivo, aturma era muito receptiva e tivemos muitas produções tanto artísticas quanto escritas, mas aque me chamou mais a atenção foi a seguinte.A proposta era “criar” um cenário que poderia ser interno (uma sala, um quarto, etc.) ouexterno, (uma paisagem qualquer, uma casa, etc.), porém esse cenário deveria ser “construído”com recortes de revistas, jornais, ou encartes. Não poderia ser recortada uma figura inteira. Asala, por exemplo, deveria ser montada com “coisas” que seriam encaixadas para formá-la.Depois vinha a segunda parte que consistia na produção escrita, tomando por base ocenário criado por cada um.Um dos alunos que optou pela paisagem externa fez aquele cenário básico conhecidopor todos: uma casinha de um lado, uma árvore do outro, com muitas flores no meio. A árvorefoi feita em duas cores, marrom para o tronco, o verde que serviu para a copa foi retirado dealgum classificado, porém veio a composição escrita que muito me surpreendeu e foi mais oumenos assim:“Era uma vez um homem chamado Roberto Carlos que cantava e encantava multidõescom suas músicas que, segundo ele, eram escritas por ele mesmo.Todo mundo conhecia as músicas desse cantor, o que era desconhecido por todos é queesse homem tinha um grande segredo. Nos fundos da casa dele, havia uma árvore cheia deletras de música. Quando ele queria alguma música diferente, era só ir até lá, no Pé de Músicas,e pegar uma. E tinha cada uma mais bonita que a outra!Ninguém nunca descobriu esse segredo e o cantor, o Roberto Carlos, continua cantandoe encantado até os dias de hoje”.Ana Maria OliveiraE.M. Ruy Barbosa
  31. 31. 25A menina que despertou para o universo mágico da leituraLarissa era uma menina tímida, olhava de soslaio, não conversava com ninguém. Logoque cheguei à escola, ela chamou minha atenção. Vivia pelos cantos, parecia que tinha ummundo só para ela, onde ninguém adentrava. Passei a observá-la e, quando ela percebia minhapresença, se escondia. Sendo sua professora, não poderia deixar que ficasse recolhida em seumundo. Precisava, prudentemente, descobrir a chave para desvendar o que a fazia assim, tãodistante de tudo...Os dias se passavam e Larissa não se relacionava com o grupo. Cautelosamente, fui meaproximando dela para trazê-la ao mundo da escola.Ao entrar em sala de aula dei bom dia à turma, entretanto, Larissa apenas olhou-me. Omais interessante é que ela dizia muito através dos seus olhos, e isso indicava sensibilidade.Iniciei a aula com a história de Alice no País das Maravilhas e, logo após, pedi aos alunos que acomentassem. Larissa continuou muda!No segundo momento, pedi ao grupo que desenhasse e pintasse a história.– Não vai desenhar? – perguntei para Larissa.Ela fez que não, com a cabeça.Convidei uma aluna para sentar-se ao seu lado e mostrar-lhe o que havia desenhado. Elaficou observando a colega pintar.Tente fazer o seu desenho e pintá-lo – pedi a Larissa, apontando para sua folha vazia.Você também consegue fazer um.Larissa não mexeu o lápis. A menina deixava escapar de seus olhos um pedido desocorro. Senti um rastro de esperança surgindo.– Sente aqui pertinho de mim – convidei-a.Ela sentou-se, entretanto, ficou silente.Revelei-lhe que precisava conversar com sua mãe e entreguei-lhe um bilhete.No dia seguinte, a mãe de Larissa estava lá para conversarmos a seu respeito. Fitou-medesconfiada, nem me deu tempo de expor a situação, parecia que adivinhara o que eu iriaexplanar. E com um semblante carrancudo, foi logo sentenciando: “Essa menina tem problemade cabeça, professora”. Fiquei estupefata com a sua afirmação. Com calma, expliquei-lhe queprecisava de seu apoio e que não estava julgando sua filha e nem tampouco ela, como mãe.Uma coisa era evidente: precisávamos nos unir para o bem de Larissa, pois o envolvimento dafamília seria essencial para que a aluna pudesse transpor os obstáculos. Contei-lhe que haviaconversado com a orientadora e juntas fizemos o encaminhamento do caso de Larissa paraavaliação médica. A mãe de Larissa agradeceu-me, porém confidenciou-me não ter maisesperanças. Não me deixei abater com suas palavras...
  32. 32. 26Já em sala de aula, chamei Larissa para ler. Ela sentou-se ao meu lado e começou agaguejar. Sua voz saía rouca, e, aos poucos, esvaía-se até emudecer. Percebi que tinha medo deerrar, esse era seu fantasma!Cada dia que se passava era um degrau que eu subia juntamente com ela. Larissa estavacomeçando a ler, entretanto, sua voz ainda sumia.Enquanto esperávamos o resultado da avaliação, não poderia ficar de braços cruzados,então, planejei o seguinte: pedi que ela lesse, enquanto eu corrigia uns testes (usei essaestratégia para que Larissa não se intimidasse comigo prestando atenção na sua leitura). Naverdade, eu estava prestando bastante atenção na sua leitura, só queria deixá-la à vontade. Foientão que a luz se acendeu entre mim e Larissa: ela começou a ler perfeitamente, sua voz saíacomo canto mavioso, mas notando que eu a olhava começou a gaguejar.Paulatinamente, Larissa foi se libertando de seus medos. Havia lhe explicado que o errofaz parte da vida e com ele aprendemos a alçar voos longos e seguros.Chamei sua mãe novamente e participei-lhe que, segundo a avaliação médica, Larissaera uma criança normal. Sua mãe ficou surpresa! Deu um suspiro de alívio e, emocionada,proferiu as seguintes palavras: “Eu ajudo de lá e a senhora ajuda de cá!” Assim, despediu-se,com um sorriso nos lábios.De repente, ouvi um: “Bom dia, professora!” E quando olhei para trás, avistei Larissasorrindo. Uma enorme satisfação tomou conta de mim, afinal de contas a minha menina estavase comunicando. Isso era motivo de festejar, e muito!Aos poucos, Larissa foi obtendo confiança e se desinibindo. Com a minha ajuda e a doscolegas de classe a menina progredia. Os amigos a encorajavam, auxiliando-a na leitura oumesmo nas atividades de escrita. Integrou-se ao grupo de dança, dizia que queria ser bailarina.Larissa estava se socializando e isso era crucial na sua caminhada. Os meses foram se passandoe, a cada mês, o progresso de Larissa e da turma era irrefutável.Um dia, a orientadora tomou a lição de todos os alunos. Fiquei aguardando o resultado.Larissa voltou e disse baixinho que a orientadora solicitava a minha presença em sua sala. Fuipelo corredor a passos largos, tamanha era a minha vontade de saber do desempenho de meusalunos. Chegando lá, fui saudada pela orientadora: “Parabéns, professora, todos estão ótimos!”– O que você está fazendo? – perguntou-me.– Estou realizando várias atividades pertinentes à aquisição da leitura e conscientizando-os da importância do letramento em suas vidas, uma vez que ampliará seus horizontes –respondi, com um largo sorriso. – Podemos viajar pelo mundo que o livro nos desvenda!– E quanto a Larissa? – perguntou ela, segurando minhas mãos.
  33. 33. 27– Eu li o olhar dela clamando e ouvi a voz do meu coração – revelei. – Com o meu auxílio,da família e dos amigos, seu desempenho melhorou e, consequentemente, sua autoestimatambém.A Festa da Primavera chegou e Larissa juntamente com seus amigos dançaram muitobem, arrancando aplausos calorosos da plateia. Eu, orgulhosa da turma, sorria.Larissa é um exemplo vivo de que, com dedicação, união, compreensão e vontade firme,é possível plantar a semente, vê-la germinar, crescer, desfrutar de sua sombra amiga, saborearseus frutos e sentir o perfume de suas flores.Jurema Nascimento da SilveiraE.M. Eulina Pinto
  34. 34. 28Santo de casa faz ou não faz milagre?Costumamos dizer, vulgarmente, que “santo de casa não faz milagre”. Como nãoacredito nem em santo nem em milagre, resolvi usar esse provérbio para demonstrar o quantosomos importantes também em nossas casas. Sim, porque não somos professoras somente comos nossos alunos. Muitas vezes, temos jornada tripla, ou seja, duas na escola e uma terceira comos nossos filhos ou com os filhos dos nossos amigos, como é o caso que vou relatar.Eu, Levada, e minha amiga Fofucha trabalhamos juntas desde 2003, quando atuávamosno projeto “De professor para professor: um convite ao trabalho cooperativo”, que foimaravilhosamente bem organizado e coordenado pelas professoras Tereza Barreiros e MarlizaBodê na rede municipal de Duque de Caxias, onde trabalhamos até hoje. Além disso,morávamos perto uma da outra nessa época e ela vinha de carona comigo depois das incríveisreuniões do projeto que ocorriam segunda-feira à noite. Para completar, dois de nossos filhosestudavam na mesma sala de aula de uma escolinha aqui na Penha.No ano seguinte, nos separamos, porque o projeto, infelizmente, acabou e só nosreencontramos em 2007 numa escola onde fomos trabalhar. Em 2009, vivemos uma arriscadaexperiência em uma outra escola municipal, onde fomos com o nosso grupo todo tentar fazerum trabalho sério e diferente. No fim do mesmo ano, nos mudamos para uma outra e hoje,vivemos no paraíso, a Escola Municipal Zilda Arns Neumann, com parte daquele nosso grupo de2009. Fazemos um trabalho muito bonito e somos realmente um grupo em todos os momentos.Estamos conseguindo realizar parte do nosso sonho de ser feliz e trabalhar da melhor maneiraque podemos, mesmo encontrando dificuldades de todos os tipos.Contei um pouco da nossa trajetória nessa rede para contextualizar a linda vivência quecompartilhamos desde o ano passado.Em 2010, eu tinha uma turminha fofa de primeiro ano (Turma Maluquinha) e Fofuchafazia o seu trabalho especial na Sala de Leitura. Conversando, ela me disse que sua filha estavacom muitos problemas para se alfabetizar e que adoraria que ela fosse minha aluna. Eu disseque ela trouxesse a menina para estudar na minha sala, mas, como moravam em outromunicípio, isso não era possível. Fui para casa, pensando num jeito de ajudar minha amiga e, acada atividade diferente que eu fazia com a turma e que causava alguma euforia, eu pensava“Joice ia adorar isso”. Tanto pensei, que fui iluminada com uma ideia simples, que acabouajudando nesse processo tão metamórfico que é a alfabetização.Comprei um caderno, encapei, e escrevi um bilhete para a menina, convidando-a paraque participasse da minha ideia: ela receberia aquele caderno toda semana com uma atividadepara cada dia. Faria a atividade e expressaria como se sentiu fazendo através do desenho deuma carinha feliz se tivesse gostado muito; séria se tivesse suportado; e triste se não tivessegostado. Mostrei correndo minha ideia para a Fofucha, que na hora ficou entusiasmada (aindatenho na minha mente a carinha dela) e levou o material para casa como se fosse ouro.
  35. 35. 29Precisei aguardar uma semana até que Fofucha voltasse com o caderno para saber comotinha sido esse primeiro momento. Felizmente, Joice gostou e fez as atividades com capricho emuita ajuda da mãe e do pai.Durante todo o ano passado, o caderno foi sendo preenchido e virou um meio decomunicação entre nós duas. As atividades eram variadas e divertidas. Foram ficando maisdifíceis e ela acompanhando tudo. Ela me mandava desenhos, perguntava a mãe como eu erafisicamente, me escrevia bilhetes. Eu mandava adesivos, bilhetes de incentivos, lápis de cor parapintar as tarefas. A nossa pombo-correio nunca falhava e me dizia como tudo tinha sido. Se elaprecisou de ajuda, se desejou fazer, se teve dificuldade, enfim, ia me dando elementos para eupensar nas próximas atividades. O esquisito era que a aluna sempre fazia com prazer as minhasatividades, mesmo que com ajuda, e odiava as que recebia na escola em que estuda. Joice veiolutando ferozmente e, com a ajuda de todos, alfabetizou-se no fim de 2010.Em 2011, contamos essa experiência para nossas colegas de escola e duas delaschoraram ao ver o caderno e ouvir nossos relatos. Isso mexeu tanto comigo que resolvi escreverpara dizer que santo de casa faz milagre, sim. Eu tive a ideia e providenciei os meios para quetudo ocorresse, mas Fofucha e Marcos Paulo fizeram a coisa acontecer. Se eles não tivessem seproposto a isso, o caderno não teria tido nenhum efeito.Ainda esse ano, Joice veio à nossa escola e o nosso encontro foi incrível. Parece que nosconhecemos há muito tempo. Ela ficou grudada comigo e, na hora de ir embora, adivinhem?Pediu o caderno com as atividades da semana, que eu havia esquecido na minha sala. Hoje,coloco atividades mais elaboradas com textos, fazemos concurso de adivinhas, escrita debilhetes e ela faz tudo com mais autonomia. Já não precisa mais do caderno, mas gosta daatenção e carinho que recebe por conta dele.Foi muito gratificante ter participado a distância do processo de alfabetização de umacriança que, se não tivesse os pais que tem, com seus olhares bem atentos, conhecimentopedagógico e disposição, poderia ter sido mais uma das muitas crianças que a escola nãoconsegue ajudar.Quem diria que, no tempo da internet, um caderno, com atividades coladas, iria cativaruma criança do mundo moderno? Parece que ela conseguiu sentir o tanto de envolvimento quetodos nós colocamos nesse projeto tão simples e correspondeu à nossa expectativa com o quetinha de melhor.Obrigada, Joice. Nunca mais serei a mesma depois dessa experiência.Luciane Maciel Ceccopieri BeloE.M. Dra. Zilda Arns
  36. 36. 30Legalização: mais do que um ato legalChego apressada depois de enfrentar um megaengarrafamento e procuro uma vaga paraestacionar. Em vão... Meu horário adiantado rapidamente transforma-se em atraso. A reuniãointerna vai começar e preciso apressar‐me. A pauta está pronta e os assuntos são extensos. Osprocessos não param de chegar, fruto dos mapeamentos realizados no município. Escolasnascem de um dia para o outro e precisamos legalizá-las. A Comissão precisa prestar atenção...mapear não é tarefa fácil, não! Demanda persistência. Bato à porta e nada! O barulho dacriançada ecoa de longe, mas a pessoa que vem à porta jura que naquele espaço não existe umaescola. Entretanto, o convite está em mãos e calmamente é entregue à senhora que gostariamuito de ter convencido, mesmo com sua argumentação sem sentido.Em breve, receberemos nossos convidados em nosso quartel-general. Sim, quartel-general! Afinal, é na nossa sala de trabalho que encontramos o espaço para as trocas, asmediações e a aprendizagem coletiva. É nesse cantinho que o administrativo e o pedagógicodão as mãos, construindo a união necessária à legalidade da educação formal.Mais uma escola comparece na hora marcada. Chega ansiosa para receber orientaçõessobre os procedimentos de autorização para funcionar. Teme que sua escola seja fechada!Entretanto, entre a orientação acompanhada de um café e um sorriso, a calma e a tranquilidadese estabelecem. Conquistamos mais uma amiga. Coisa boa... trabalhar e ainda fazer amigos!Mas o tempo passa muito rápido e mais uma e outra e outra, as escolas são pontuais,comparecem!– Hoje viemos entregar documentos. – Hoje passei só para ver vocês. – Preciso deorientações sobre o regimento escolar...Amanhã teremos comissão, vamos visitar três escolas! Os processos já estão separados,os termos de visita também. Escola, lugar do educador que tem como ideal a educação dequalidade, a educação legal. Ela nos aguarda! Visitar uma escola não é tarefa simples, naprimeira visita é necessário um diagnóstico geral e, assim, olhares atentos! Olhosadministrativos e pedagógicos bem abertos. São três pares de olhos a olhar e a olhar. Em breve,retornaremos e, de visita em visita, a escola vai se modificando. Logo, logo, será encerrado maisum processo, emitido mais um parecer. Nossa lista é ampliada e agora é garantir a qualidade dainstituição, do projeto pedagógico, das nossas relações. Legalizamos escolas e a parte legal éconhecer tantas gentes, tantos lugares, tantas realidades. Descobrir “gentes que fazem” é anossa especialidade e, por mais complicado que pareça, é muito legal!Maria Celeste Rodrigues Pais Alves &Equipe de Inspeção Escolar
  37. 37. 31Mãe CoragemNuma noite estrelada de uma terça-feira qualquer, a menina que cursava a terceira sérieprimária chorava compulsivamente diante de uma folha de papel de pão onde ela costumavafazer os seus rascunhos escolares. A mãe, depois de uma longa jornada de trabalho, e já devolta ao lar, percebendo a aflição em que se encontrava a filha, resolveu perguntar-lhe o quepodia fazer para ajudá-la, uma vez que o choro dela a entristecia por demais. A menina,mergulhada num choro melancólico e profundo diante de sua dificuldade, não respondia àsindagações feitas pela mãe. Num gesto extremamente afetuoso, a mãe pôs a menina no colo eperguntou-lhe novamente o motivo do choro. A menina, muito fragilizada, olhou para a mãecom os olhos vermelhos e lacrimejantes e disse: “Estou muito triste porque não sei fazer a contade dividir com dois algarismos”. A mãe olhou para o papel de pão já amassado devido àquantidade de vezes que a operação matemática fora apagada, disse: “Mas isso é muitosimples, eu vou te ensinar”.As tentativas da mãe foram inúteis, a menina já bloqueada não acreditava noconhecimento da mãe, dizia que ela não sabia resolver a questão, pois a única pessoa que sabiaresolver o problema era a professora, Dona Nair. A mãe, já esgotada de tantas tentativasfracassadas, pois a menina não dava ouvidos às suas explicações, silenciou-se.Na manhã seguinte a filha ficou surpresa ao perceber que a mãe faltara ao trabalho. Aolongo de sua vida, a menina não se lembrava de ter testemunhado tal situação. A mãe nuncafaltava ao trabalho. A menina tinha em mente as palavras sempre proferidas com muitadignidade pela mãe: “O trabalho está acima de tudo, dependemos dele para sobreviver”. Entãoa menina perguntou: “Mãe, a senhora vai ficar em casa hoje?” “Vai faltar ao trabalho?” A mãe,de uma forma bem natural, respondeu que aquele dia ela iria ao médico. Então a menina se deupor satisfeita e não questionou mais a mulher.Às 10h30 da quarta-feira, a menina, como em todos os dias do ano, saiu para fazer o seutrajeto rotineiro de ir para a escola. Naquele dia a mãe seguiu a menina sorrateiramente. Semque a menina percebesse, a mãe entrou e esperou que as turmas fossem para as salas de aula.Aproximadamente às 11h30, alguém bateu na porta da turma 303 da professora Nair, toc, toc,toc.... Tamanha foi a surpresa de todos ao ouvir uma mulher dizer as seguintes palavras para aprofessora: “Bom dia, professora!” “Tudo bem com a senhora?” A professora respondeueducadamente. Então a mãe continuou: “Eu me chamo Maria, sou a mãe da Joana e vim aquipara pedir a sua ajuda”. A professora convidou a mãe a entrar na sala.A menina ao perceber que aquela era a sua mãe afundou na carteira todaenvergonhada. Os colegas de classe começaram a caçoar da menina que àquela altura já estavachorando. Então a professora perguntou à mãe: “Em que posso ajudá-la, dona Maria?”. Ela commuita determinação, sempre peculiar a sua pessoa, disse: “Eu hoje faltei ao trabalho para vir atéaqui pedir à senhora que me ensine a resolver a conta de dividir por dois algarismos, pois tentei
  38. 38. 32ensinar a minha filha e ela disse que o meu “jeito” de resolver a conta estava errado, apenas asenhora sabia resolver a conta corretamente. A professora, muito solícita, disse: “Gostaria dever o seu ‘jeito’ de resolver a conta”. “A senhora se importa de vir até o quadro”? Nesta altura amenina já estava de cabeça baixa soluçando. A turma impactada, não tirava os olhos daquelasenhora negra, magra, alta, dona de uma altivez de dar inveja. A professora então passou umaconta para a mãe de Joana no quadro e entregou um pedaço de giz a ela. Imediatamente, elacomeçou a resolver a conta e ao mesmo tempo em que resolvia a operação, narrava em vozalta: “...quatro vezes cinco, vinte, para vinte e dois, dois..” e desta maneira Dona Maria resolveua operação até o final. A professora, uma senhora negra, baixinha e muito segura, olhoufixamente para a menina que estava sentada no meio da sala, e com muito orgulho disse:“Joana, sua mãe sabe muito bem resolver esta operação. Parabéns! A senhora merece CEM.” Aturma veio à loucura. Todas as crianças começaram a aplaudir a mãe de Joana. A senhorahumildemente agradeceu a professora, olhou para a menina e disse: “Quando você voltar hojepra casa, mamãe vai te ensinar as continhas.”Aquele foi um dia que ficou marcado na vida de Joana, provavelmente também daprofessora e de muitas crianças que testemunharam aquele ato de coragem.Norma SantosSubsecretaria de Planejamento Pedagógico
  39. 39. 33Uma nova chanceCaminhava devagar, tinha a cabeça povoada por dúvidas e lembranças, enquantocrianças agitadas passavam correndo à sua volta. Deveria realmente ir até lá? O medo eragrande, mas não tanto quanto sua esperança.Havia acordado bem cedinho, num sobressalto, após a noite mal dormida. Estava muitoansiosa. Pensou em todas as coisas que faria ao longo do dia e não pôde conter o sorriso, aopensar no final do mesmo.Levantou-se. Depois do banho, passou o pente de dentes quebrados pelos cabelos,olhou no espelho e gostou do que viu. Já nem se lembrava mais da última vez em que estiveranaquele estado, tão empolgada e confusa ao mesmo tempo. Sentia as emoções num turbilhãodentro de si, um misto de medo, curiosidade e felicidade que eram concomitantes. Seu coraçãoestava irrequieto e sua cabeça se negava a focar em outra coisa.Resolvendo não se antecipar, decidiu não pensar no que a aguardava, não naquelemomento. Foi até a cozinha, preparou o café da manhã da família, regou as plantas, fez comida,acariciou o cachorro e brincou com o neto, na esperança de viver um dia normal. Mesmosabendo ser impossível.Tentou assistir à TV, mas sempre se distraía. Descobriu não ter sido capaz de gravar umaúnica cena, passada na programação diária. Ligou o rádio, fez crochê, mas foi em vão, errou ospontos repetidos, com destreza, tantas vezes antes. Repousou as palmas das mãos sobre orosto e receou passar mal.Estava tão perto que passou o dia inteiro ouvindo o som da bagunça provocada pelascrianças excitadas. Por um momento as invejou e desejou que as horas passassem maisdepressa. Conferiu o relógio da parede e percebeu que era a quinta vez em menos de meiahora, que seus olhos seguiam aquela direção. A sensação que tinha era a de que o tempo nãoestava passando, ou então passava mais lentamente como se, egoísta, a envolvesse em umabrincadeira cruel e indecente.Pegou papel e caneta, pensou, respirou fundo, olhou-os fixamente, mas não se atreveu aarriscar. Balançou a cabeça em sinal de negação. Rindo de si mesma, apertou-os contra o peito,cheirou a folha em branco, após passar suas mãos sobre ela e guardou tudo de novo.Foi até a cozinha, descobriu-se com a geladeira aberta, embora não tivesse a menorideia do que tinha ido procurar ali. Aproveitou e bebeu água.Foi limpar a casa, a poeira retirada dos móveis parecia solicitar a retirada da poeiraexistente nas gavetas de sua memória. Pensou nos dias difíceis vividos na infância, nos sonhostrocados por vassouras e ferro de passar, nas linhas, agulhas e máquinas de costura naadolescência. Em como sua vida tinha se desenrolado até aquele momento e no quanto domundo ainda tinha a descobrir. Olhou as mãos ásperas e calejadas e não se conteve ao
  40. 40. 34relembrar tantas pessoas, tantos momentos, quantos sentimentos e tempo que tinhamescorrido por ali.Perdeu a conta de quanto tempo tinha estado parada em frente ao móvel, inerte,perdida em seus próprios pensamentos. Olhou novamente o relógio e resolveu se arrumar.Colocou uma roupa bonita, prendeu os cabelos em um coque, arrumou suas coisas comcuidado, tinha comprado cada objeto com muito carinho. Guardou na bolsa o caderno bonito,ajeitou no estojo o lápis, a borracha, as canetas. Pegou a bolsa e saiu de casa, com a sensaçãode exploração de um mundo novo.Agora estava ali, parada diante do portão. Seu coração batia acelerado como numcompasso de escola de samba. Respirou fundo, ouviu o toque do sinal e os portões abriram-selentamente a atraindo como um ímã é atraído à geladeira.Quando se deu conta, já estava sentada em uma carteira, bem na primeira fila que erapra não perder de vista nem uma letrinha sequer. Correu os olhos pela sala, viu as paredescoloridas por letras e desenhos de crianças que tinham estado ali anteriormente, observou aprofessora, olhou nos olhos dos colegas de turma e não pôde impedir que uma lágrima solitária,grata e feliz, se deslocasse de seus olhos e encontrasse seu sorriso.Sirlane Araujo MarquesE.M. Albert Sabin
  41. 41. 35No chão da escolaNo chão da escolaOlhares que se deitamOlhares tão pequenosHorizontes de outros passosPassos para novas terras,Passos para novas conquistas,Passos para ir em frenteCaminhar constanteCorrida permanenteDe pés que precisam flutuar neste chão.Flutuar neste chão?Pode ser barco de nuvemPara carregar olhos colados de poeira triste,E abri-los aos céus.No chão da escolaOlhares se sentam:Para ouvir expectativasPara dizer versos da vidaPara chorar junto algumas tristezasPara pedir um colinhoQuando a dor apertaE para pular levadicesQuando a alegria faz sorrir girassóis.No chão da escolaOlhares que buscamOlhares que pedemOlhares que se constroemOlhares que construímosOlhares que destruímos?Viver de reconstruções,Porque não há como fugir da vida!
  42. 42. 36Vivências de quem caminha,Olhares de quem deseja,Andar sem ferir os pés.Mistério de um chão tão mágicoConstruído na realidadeEncantado por fadas e bruxas,Transformador de sapos em príncipes,Fazendo a vez de todas as cinderelas.Ensinando que é no chãoQue plantamos sementesQue serão flores e alimento.No chão a gente aprendeA brincar de roda e amarelinhaConstruir castelinhos de areiaSorrir junto, cair junto e levantar junto.Porque cair no chão dói, rala!A gente chora!Depois aprende que é só passar merthiolate que saraE aí vai em frente,Porque não há como fugir da vida!No chão da escola,Aprende-se tudo.O chão da escola é estrada de todos.Passamos por ele em todas as vivências.Pois se a vida é uma escolaA escola que vive,Sabe transformar acontecimentosEm um universo apaixonante.Fabíola de Souza AlvesE.M. Bairro Califórnia
  43. 43. 37Chão de escolaO chão da escola não é vazio nem frioé cheio de vidavidas secruzamselaçamentrelaçameseabraçam alio ontem, o hoje, o amanhã.Quem aprende? Quem ensina?Cada um deixa uma parte de si no outromarca única, inconfundível e insubstituível.O chão da escola não é estérilnele germinam ideias sorrisos lágrimashistórias sonhos amigos amores valores...eu germinei, tu germinaste... nós germinamos...no chão da escola.O chão da escola não é inerteestremece ao pulsar dos coraçõesnos primeiros amores(o despertar das emoções)treme com a energia pura da criançapulando amarelinhaou saltando a distância.Certo dia, no chão de uma escola,um menino se olhou no espelhosonhando seu futuro.Hoje, no chão de uma outra escola,em um outro espelho,um homem se olhasonhando o futurode outros meninos...José de Freitas SilvaE.M. Parque Capivari
  44. 44. 38Mediar, ação literária de amorEnsinar o Bê-a-BáE também a escreverPro professor importanteCom certeza o seu dever.O desafio do percursoÉ criar paixão por ler.Paixão pela poesia,Pelo livro, pela história,Por aquela mais humildeE outra cheia de glória.Pra quem é apaixonadoLer não tem escapatória.Pra saciar esta angústiaDe todo bom professor,Que promove a leituraCom carinho e amor,Abraçamos o projetoDo “Jovem Mediador”.Projeto que quer o alunoDisseminando leituraNas escolas de CaxiasEm todas da prefeituraFazendo leitura em rodasQue ao girar ninguém segura.O mediador de leituraÉ um sujeito especialLê e fala com posturaNão é aluno normalNa escola se destacaDa maneira especial.
  45. 45. 39Pra ser bom mediadorPrecisa se prepararLer jornal, poema, história,De tudo apreciar,Pra escolher o melhor livroE com classe mediar.Com seu livro de história,Colcha e almofada à mão,Lá vai o mediadorCumprir com sua missãoDe disseminar leituraPro pequeno e pro grandão.Este aluno no futuroCriará comunidadeComunidade EducadoraTransformará a cidadeCidadão que faz históriaMelhora a sociedade.Viviane Alves GuimarãesE.M. Presidente Costa e Silva
  46. 46. 40CriançasEntre sorrisos e encantosPerco-me por vezes infinitasNum perder-se que, entretanto,Leva-me ao encontro da vidaA cada olhar que me ensinaE um convite me fazDe ser menino ou meninaDe ser artífice da Paz.Cada um é tão real!Não a promessa de um futuro,É a certeza de um ideal eNão um caminho no escuro.Em seus gestos delicadosQue transbordam energia,As crianças, aos bocados,Revelam tamanha alegria!E sendo assim como são,Pequeninas e grandiosas,Elas, em suas emoções,São as almas dadivosasQue ensinam mais que aprendemNo universo escolarÀqueles que as compreendemDe maneira singular.A escola é, então, um jardimEm que cada flor cultivadaTransforma o mundo, enfim,Com o amor e a paz almejadaÉ ainda mais que um espaço,É mais que um tempo, ou lugar...Na escola, cria-se o mundo que,Enfim se quer transformarE na criança, esse mundoBuscamos realizar!Fatima AnselmoDivisão de Educação Infantojuvenil
  47. 47. 41Chão da EscolaChão de luta e labutaForça, fé na condutaChão de histórias de vidasEntrelaçadas e aguerridasChão que pulsa saberTroca, mistura e dá prazerChão de conhecimento, afeto e emoçãoQue faz diferença na populaçãoChão do valor eterno de aprenderCidadania, direito e deverFormação solidáriaChão de vida humanitáriaPise firme neste chãoEscola é a soluçãoChão que rege uma NaçãoQue não progride sem Educação.Maria Fátima Martins D’AquiE.M. Expedicionário Aquino de Araújo
  48. 48. 42Uma flor no Jardim GramachoQuando cheguei ao Jardim Gramacho,não vi jardim, nem flor, nem riacho,mas em pleno verão vi o rastrode luz brilhando nos muros azuisda Escola Municipal Mauro de Castro.Talvez aqui esteja o jardimEsperançoso pensei assimEstaria oculto entre as salas?Não, não senti o aroma das floresnem vislumbrei das frutas e folhas as cores.Diziam: “ali a terra é dura,não há jeito, é um mal sem cura.”Mas quando a sala olhei por inteiro,vi em cada aluno uma semente.Concluí: “Mais que professor, serei jardineiro”A turma do sexto ano fervia como o verãoEuforia, gritaria, hormônios em ebulição.Tantos cadernos, professores: tudo novidade!Ah! nas paredes o cheiro de tinta fresca,Nas sementes o sonho da felicidade!O sétimo ano chegou lento como o outonoMuitas sementes se perdem sem dono.Muitos vão, muitos chegam sem esperançaCadê a Jéssica, o Maicon, o Ernani?Está grávida, está trabalhando, está de mudança.Eis o oitavo ano, frio que nem o invernomuitas mentes inertes em sono eterno.Os jardineiros debatemos na reunião:como cuidar do ramo que desponta?como salvar a nossa plantação?Mas com o nono ano irrompe a primaverae se sempre alcança quem esperanossos brotos já germinam com vigoralgumas sementes ainda resistem a vingarenquanto algumas já têm caule e até flor.
  49. 49. 43Aconteceu então certo diaquando eu da sala já saíaencontrei uma dessas flores tão abatidacom olhar distante e pétalas caídas“O que te aflige, o que te faz tão dolorida?”Seu nome era Deise, só eu, professorde inglês sabia que ali estava uma flor.Mas a margarida de pele negra reluzentenão sorria mais como antigamentenão brilhava mais ao sol nascente.“Descobri que tenho problema no coração,não posso brincar, correr: tudo agora é em vão.Minha vida agora é remédio e hospitalNada tem mais graça, nem amigos, nem escolaAgora é só aguardar com dó o meu funeral.”Como um jardineiro, com o olhar atento,não perdi tempo, nem o alento:“Coragem, menina, abraça tua vida!Olha o que tens, vive a cada diacomo se fosse único, alegre e decidida!”Continuei com palavras aquela flor a regarE a cada dia cultivava e alegre vi brotarnovas pétalas de esperançanaquele caule adubado em dor,renascia naquele rosto o sorriso de criança!O tempo passa, floresceu aquele jardim,rosa e cravo, azaleia e jasmim,mas como anda a nossa margarida?alegrando a terra de outros canteiroscheia de brilho, cheia de vida!Como na parábola, muitas sementes no caminhose perderam, isoladas, sem carinho.Nessa semeadura, o que nos consolaé descobrir que a cada ano se renovaa confiança de se colher no chão da escola!André Luiz Lacerda DeschampsE.M. Mauro de Castro
  50. 50. 44Construindo um futuroQuem disse que professor sabe tudoVive uma vida de ilusão.No chão da primeira escola aprendiQue ser professor é mais que profissão.Na sala repleta de alunosO pequeno menino se apresentou.Não sabia ler nem falava direito,Mas muitas lições nos ensinou.A aula ficava emocionanteCom toda experiência que trazia.E cada assunto que falavaEra motivo de muita alegria.Um dia o menino triste chegou.Procurei uma explicação.Descobri que a violência o marcou,Ferindo seu pequeno coração.Quem poderia ter a coragemDe maltratar o menino sonhador?O que fizeram da aprendizagemQue o pequeno sempre ensinou?Mesmo com toda essa tristeza,O menino voltou a sorrir.E essa experiência de vidaTive que registrar aqui.
  51. 51. 45Nossos alunos passam problemasE cada um tem uma reação.O que você tem feito, professor,Para amenizar essa situação?Uns colocam de castigo,Outros mandam para a Direção.E o menino que está entristecidoNão vê esperança na Educação.Por isso, em cada escola que piso,Deixo as marcas do amor.Prefiro educar o meninoPara, quem sabe, torná-lo doutor.Nossas mãos são preciosasE nossas palavras têm poder.Eduque, você também, o meninoPara que ele não venha a se perder.Eloiza Cristina de Freitas da ConceiçãoE.M. Sônia Scudese
  52. 52. 46Pó de GizNas batidas das horasAssim começa o diaCom o pó de giza construir linhas infinitasFaz casa e árvore. Casa na árvore.Casa-árvore, João-de-barro.E o mundo inteiroa arder pelas pupilas.Pó que vai colorindo de vidaOs sonhos do aprendizPó dissolvido no ventoCom restos de vozesE risos em movimentoPó de gizFeito de um traço a outro,entre um passa e outro,A escrever no tempoTudo o que o sonho dizTermina o dia eUm pó de gizcai no chão da sala.No avesso do sentido,A pá não o apaga.Fica ali latentepara quem quiser resgatá-lo.Aline Pupato Couto CostaE.M. José Medeiros Cabral
  53. 53. 47Mosaico chão de escolaChão de escolaQue te quero diversoQual mosaico de passos rápidos do fulgor da idadeOu passos lentos da maior idadeChão de escolaMosaico de pegadasPegadas das rodas circulantes das cadeiras metálicasDas pontas guias de bengalas que conduzemChão de escolaMosaico de caminhosDe guias e trilhasCaminhos que se mesclamQue se diferenciamChão de escola molhadoEspelho que reflete tantas formasTantas linguagensReluz o balé dos corpos que conversam em línguas de sinaisOs rostos brilhantesMatizes sem iguaisChão de escolaChão de vidasTão minhasTão suasTão nossasHistóriasPonto de chegadaPonto de partidaDe muitas trajetóriasEdicléa Mascarenhas FernandesCoordenadoria de Educação Especial

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