Educação
                                                          sem fronteiras

                                              SERVIÇO
                                               SOCIAL

                                                                               Autores
                                  Professora Especialista Edilene Maria de Oliveira Araújo
                                    Professora Ma. Amirtes Menezes de Carvalho de Silva
                                     Professora Ma. Angela Cristina Dias do Rego Catonio
                                                Professora Ma. Maria Clotilde Pires Bastos




                                                                                      4
                                                                www.interativa.uniderp.br
                                                               www.unianhanguera.edu.br
                                                                   Anhanguera Publicações
                                                                        Valinhos/SP, 2009




00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 1                                                              5/28/09 3:24:30 PM
© 2009 Anhanguera Publicações
             Proibida a reprodução final ou parcial por qualquer meio de                                                    Ficha Catalográfica realizada pela Bibliotecária
             impressão, em forma idêntica, resumida ou modificada em língua                                              Alessandra Karyne C. de Souza Neves – CRB 8/6640
             portuguesa ou qualquer outro idioma.
             Impresso no Brasil 2009
                                                                                                          S514      Serviço social / Edilene Maria de Oliveira Araújo ...[et al.]. - Valinhos :
                                                                                                                         Anhanguera Publicações, 2009.
                                                                                                                         256 p. - (Educação sem fronteiras ; 4).


                                                                                                                           ISBN: 978-85-62280-44-3


                                                                                                                         1. Comunicação – Metodologia da pesquisa. 2. Direito –
                                                                                                                    Legislação social. 3. Movimento social. I. Araújo, Edilene Maria de
                                                                                                                    Oliveira. II. Título. III. Série.
             ANHANGUERA EDUCACIONAL S.A.
             CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE CAMPO GRANDE/MS
                                                                                                                                                                              CDD: 360
             Presidente
             Prof. Antonio Carbonari Netto

             Diretor Acadêmico
             Prof. José Luis Poli

             Diretor Administrativo
             Adm. Marcos Lima Verde Guimarães Júnior
                                                                                                                                                          ANHANGUERA PUBLICAÇÕES
             CAMPUS I
                                                                                                                                                                                     Diretor
             Chanceler                                                                                                                                         Prof. Diógenes da Silva Júnior
             Profa. Dra. Ana Maria Costa de Sousa
             Reitor                                                                                                                                                     Gerente Acadêmico
             Prof. Dr. Guilherme Marback Neto                                                                                                                            Prof. Adauto Damásio
             Vice-Reitor
                                                                                                                                                                  Gerente Administrativo
             Profa. Heloísa Helena Gianotti Pereira
                                                                                                                                                                 Prof. Cássio Alvarenga Netto
             Pró-Reitores
             Pró-Reitor Administrativo: Adm. Marcos Lima Verde Guimarães Júnior
             Pró-Reitora de Graduação: Profa. Heloisa Helena Gianotti Pereira
             Pró-Reitor de Extensão, Cultura e Desporto: Prof. Ivo Arcângelo Vendrúsculo Busato




             ANHANGUERA EDUCACIONAL S.A.
             UNIDERP INTERATIVA

             Diretor
             Prof. Dr. Ednilson Aparecido Guioti

             Coodernação
             Prof. Wilson Buzinaro

             COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA
             Profa. Terezinha Pereira Braz / Profa. Aparecida Lucinei Lopes Taveira Rizzo / Profa. Maria Massae Sakate /
             Profa. Adriana Amaral Flores Salles / Profa. Lúcia Helena Paula Canto (revisora)

             PROJETO DOS CURSOS
             Administração: Prof. Wilson Correa da Silva / Profa. Mônica Ferreira Satolani
             Ciências Contábeis: Prof. Ruberlei Bulgarelli
             Enfermagem: Profa. Cátia Cristina Valadão Martins / Profa. Roberta Machado Pereira
             Letras: Profa. Márcia Cristina Rocha Figliolini
             Pedagogia: Profa. Vivina Dias Sol Queiroz
             Serviço Social: Profa. Maria de Fátima Bregolato Rubira de Assis / Profa. Ana Lúcia Américo Antonio
             Tecnologia em Gestão e Marketing de Pequenas e Médias Empresas: Profa. Fabiana Annibal Faria de Oliveira Biazetto
             Tecnologia em Gestão e Serviço de Saúde: Profa. Irma Marcario
             Tecnologia em Logística: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias
             Tecnologia em Marketing: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias
             Tecnologia em Recursos Humanos: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias




00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 2                                                                                                                                                                   5/28/09 3:24:30 PM
Nossa Missão, Nossos Valores
                      _______________________________

                A Anhanguera Educacional completa 15 anos em 2009. Desde sua fundação, buscou a ino-
             vação e o aprimoramento acadêmico em todas as suas ações e programas. É uma Instituição de
             Ensino Superior comprometida com a qualidade dos cursos que oferece e privilegia a preparação
             dos alunos para a realização de seus projetos de vida e sucesso no mercado de trabalho.
                A missão da Anhanguera Educacional é traduzida na capacitação dos alunos e estará sempre
             preocupada com o ensino superior voltado às necessidades do mercado de trabalho, à adminis-
             tração de recursos e ao atendimento aos alunos. Para manter esse compromisso com a melhor
             relação qualidade/custo, adotaram-se inovadores e modernos sistemas de gestão nas instituições
             de ensino. As unidades no Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas
             Gerais, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul preservam a missão e difundem os valores
             da Anhanguera.
                Atuando também no Ensino a Distância, a Anhanguera Educacional orgulha-se de poder es-
             tar presente, por meio do exemplar trabalho educacional da Uniderp Interativa, nos seus pólos
             espalhados por todo o Brasil.




                                                                         Boa aprendizagem e bons estudos!



                                                                             Prof. Antonio Carbonari Netto
                                                                    Presidente — Anhanguera Educacional




00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 3                                                                               5/28/09 3:24:31 PM
.




    00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 4   5/28/09 3:24:31 PM
AULA 1 — A Base do Pensamento Econômico



                                       Apresentação
                                   ____________________

                 A Universidade Anhanguera/UNIDERP, ao longo de sua existência, prima pela excelência no
              desenvolvimento de seu sólido projeto institucional, concebido a partir de princípios modernos,
              arrojados, pluralistas, democráticos.
                 Consolidada sobre patamares de qualidade, a Universidade conquistou credibilidade de par-
              ceiros e congêneres no país e no exterior. Em 2007, sua entidade mantenedora (CESUP) passou
              para o comando do Grupo Anhanguera Educacional, reconhecido pelo compromisso com a
              qualidade do ensino, pela forma moderna de gestão acadêmico-administrativa e pelos propósi-
              tos responsáveis em promover, cada vez mais, a inclusão e a ascensão social.
                  Reconhecida pela ousadia de estar sempre na vanguarda, a Universidade impôs a si mais um
              desafio: o de implantar o sistema de ensino a distância. Com o propósito de levar oportunida-
              des de acesso ao ensino superior a comunidades distantes, implantou o Centro de Educação a
              Distância.
                 Trata-se de uma proposta inovadora e bem-sucedida, que, em pouco tempo, saiu das frontei-
              ras do Estado do Mato Grosso do Sul e se expandiu para outras regiões do país, possibilitando o
              acesso ao ensino superior de uma enorme demanda populacional excluída.
                 O Centro de Educação a Distância atua por meio de duas unidades operacionais: a Uniderp
              Interativa e a Faculdade Interativa Anhanguera(FIAN). Com os modelos alternativos ofereci-
              dos e respectivos pólos de apoio presencial de cada uma das unidades operacionais, localizados
              em diversas regiões do país e exterior, oferece cursos de graduação, pós-graduação e educação
              continuada, possibilitando, dessa forma, o atendimento de jovens e adultos com metodologias
              dinâmicas e inovadoras.
                 Com muita determinação, o Grupo Anhanguera tem dado continuidade ao crescimento da
              Instituição e realizado inúmeras benfeitorias na estrutura organizacional e acadêmica, com re-
              flexos positivos nas práticas pedagógicas. Um exemplo é a implantação do Programa do Livro-
              Texto – PLT, que atende às necessidades didático-pedagógicas dos cursos de graduação, viabiliza
              a compra, pelos alunos, de livros a preços bem mais acessíveis do que os praticados no mercado
              e estimula-os a formar a própria biblioteca, promovendo, assim, a melhoria na qualidade de sua
              aprendizagem.
                 É nesse ambiente de efervescente produção intelectual, de construção artístico-cultural, de
              formação de cidadãos competentes e críticos, que você, acadêmico(a), realizará os seus estudos,
              preparando-se para o exercício da profissão escolhida e uma vida mais plena na sociedade.



                                                                               Prof. Guilherme Marback Neto




00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 5                                                                                 5/28/09 3:24:31 PM
00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 6   5/28/09 3:24:31 PM
Autores
                                       ____________________

                                                               AMIRTES MENEZES DE CARVALHO E SILVA
                           Graduação: Pedagogia – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS – 1998
                                           Pós-graduação: Fundamentos da Educação – Área de Concentração:
                          Psicologia da Educação – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS – 2001
                                                 Mestrado: Em Educação – Área de Concentração: Psicologia –
                                                          Universidade de Mato Grosso do Sul – UFMS – 2003

                                                                    EDILENE MARIA DE OLIVEIRA ARAÚJO
                                                       Graduação: Serviço Social – Faculdades Unidades Católica
                                                                               de Mato Grosso – FUCMT – 1986
                                               Pós-graduação Lato Sensu: Formação de Formadores em Educação
                                           de Jovens e Adultos – Universidade Nacional de Brasília – UNB – 2003
                                                        Pós-graduação Lato Sensu: Gestão de Iniciativas Sociais –
                                                          Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ – 2002
                                                        Pós-graduação Lato Sensu: Administração em Marketing
                                                                            e Comércio Exterior – UCDB – 1998

                                                         ANgELA CRISTINA DIAS DO REgO CATONIO
                  Graduação: Letras – Língua Portuguesa e Língua Inglesa/Universidade Católica Dom Bosco
                                                                      – UCDB, Campo Grande/MS – 1996
                    Especialização: Comunicação Social/Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, São
                                                                                            Paulo/SP, 1999
                 Mestrado: Comunicação Social/Universidade Metodista de São Paulo – IMESP, São Bernardo
                                                                                       do Campo/SP, 2000

                                                                            MARIA CLOTILDE PIRES BASTOS
                                          Graduação: Pedagogia com Habilitação em Administração e Supervisão
                                    Escolar de 1º e 2º Graus – Universidade Católica Dom Bosco – UCDB – 1981
                                      Pós-graduação Lato Sensu: Metodologia do Ensino Superior – Universidade
                                  para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal – UNIDERP – 1988
                                                   Pós-graduação Strictu Sensu: Educação – Universidade Federal
                                                                          de Mato Grosso do Sul – UFMS – 1997




00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 7                                                                                     5/28/09 3:24:31 PM
00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 8   5/28/09 3:24:31 PM
Sumário
                                                ____________________
             MÓDULO – COMUNICAÇÃO E METODOLOgIA DA PESQUISA

             UNIDADE DIDÁTICA – ESTÁgIO SUPERVISIONADO EM SERVIÇO SOCIAL
             AULA 1
               Estágio supervisionado e a prática do saber ......................................................................................                      3
             AULA 2
               Legislação e a profissão do assistente social .......................................................................................                  13

             UNIDADE DIDÁTICA – COMUNICAÇÃO SOCIAL
             AULA 1
               Linguagem e sua função social ...........................................................................................................              23
             AULA 2
               Modalidades verbais e não verbais na comunicação .........................................................................                             29
             AULA 3
               Comunicação: conceitos e modelos ...................................................................................................                   33
             AULA 4
               Funções da linguagem e tipos de comunicação.................................................................................                           38
             AULA 5
               Habilidades em comunicação.............................................................................................................                42
             AULA 6
               Comunicação e novas tecnologias da comunicação .........................................................................                               46
             AULA 7
               Relações humanas ...............................................................................................................................       49
             AULA 8
               Comportamento e moda ....................................................................................................................              51

             UNIDADE DIDÁTICA – METODOLOgIA DA PESQUISA CIENTÍFICA
             AULA 1
               O conhecimento e a ciência ................................................................................................................            59
             AULA 2
               O método científico ............................................................................................................................       63
             AULA 3
               O processo de pesquisa .......................................................................................................................         67
             AULA 4
               A pesquisa qualitativa .........................................................................................................................       72
             AULA 5
               Leitura e registro .................................................................................................................................   76
             AULA 6
               Apresentação de trabalhos acadêmicos – Normas da ABNT ............................................................                                     79

             SEMINÁRIO INTEGRADO.....................................................................................................................                 94




00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 9                                                                                                                                            5/28/09 3:24:32 PM
MÓDULO – DIREITO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS

                               UNIDADE DIDÁTICA – DIREITO E LEgISLAÇÃO SOCIAL
                               AULA 1
                                 A aplicabilidade do direito no serviço social .....................................................................................                        97
                               AULA 2
                                 A pessoa e seu inter-relacionamento social .......................................................................................                        106
                               AULA 3
                                 A institucionalização da sociedade.....................................................................................................                   118
                               AULA 4
                                 O direito familiar ................................................................................................................................       132
                               AULA 5
                                 A estruturação dos direitos constitucionais e as garantias fundamentais: direitos humanos
                                 e cidadania ...........................................................................................................................................   143
                               AULA 6
                                 O direito infraconstitucional e suas aplicações no serviço social – a legislação social e a proteção
                                 da sociedade ........................................................................................................................................     160
                               AULA 7
                                 O direito trabalhista e as relações políticas de trabalho ....................................................................                            169
                               AULA 8
                                 O direito previdenciário – sistema brasileiro de seguridade social ..................................................                                     193

                               UNIDADE DIDÁTICA – MOVIMENTOS SOCIAIS
                               AULA 1
                                 Movimentos sociais.............................................................................................................................           209
                               AULA 2
                                 Aspectos teóricos – histórico dos movimentos sociais no Brasil ......................................................                                     212
                               AULA 3
                                 Movimentos sociais e cidadania .........................................................................................................                  215
                               AULA 4
                                 Políticas sociais – a contribuição dos movimentos sociais ...............................................................                                 218
                               AULA 5
                                 A sociedade civil e a construção de espaços públicos........................................................................                              221
                               AULA 6
                                 O caráter educativo do movimento social popular ...........................................................................                               223
                               AULA 7
                                 Os movimentos sociais e a articulação entre educação não formal e sistema formal de ensino ....                                                           226
                               AULA 8
                                 Movimentos sociais em suas diferentes expressões ...........................................................................                              229
                               AULA 9
                                 Tendências dos movimentos sociais na realidade brasileira contemporânea ..................................                                                232
                               AULA 10
                                 Redes de ações coletivas ......................................................................................................................           239

                               SEMINÁRIO INTEGRADO..................................................................................................................... 243




00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 10                                                                                                                                                             5/28/09 3:24:32 PM
Módulo

                                       DIREITO SOCIAL
                                E MOVIMENTOS SOCIAIS




                                           Professora Ma. Laura Marcia Rosa dos Santos




Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 207                                                 5/15/09 2:15:07 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais


                  Apresentação

               Caro(a) acadêmico(a),
               Conhecer a mobilidade das classes sociais no Brasil é muito importante. Diante dessa proposta, esta uni­
            dade didática tem como objetivo estudar e compreender as temáticas classes sociais e as influências dos mo­
            vimentos sociais no Brasil.
               Correlacionar os fenômenos sociais que ocorrem na sociedade brasileira ao longo dos tempos com a
            atuação do serviço social se faz necessário para se entender como esse fenômeno interfere na ação diária do
            profissional da área social.
               Se olharmos para o passado, observamos que as lutas que aconteceram não foram em vão, tornando neces­
            sário conhecer as teorias e a trajetória dos movimentos sociais no Brasil, bem como a dimensão educativa dos
            movimentos sociais na formação da cidadania, a contribuição dos movimentos na elaboração e implemen­
            tação de políticas sociais e o seu papel na articulação educação não formal com o sistema formal de ensino e
            as tendências contemporâneas.

                Grata e até mais!



                                                                           Professora Ma. Laura Marcia Rosa dos Santos




                                                                 208


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 208                                                                               5/15/09 2:15:08 PM
AULA 1 — Movimentos Sociais



                                                                 AULA

                                           ____________________   1




                                                                                                                              Unidade Didática – Movimentos Sociais
                                             MOVIMENTOS SOCIAIS

                 Conteúdo
                 •	 A luta de classes
                 •	 Movimentos sociais

                 Competências e habilidades
                 •	 Identificar os aspectos históricos e sociais que interferem diretamente nas questões sociais
                    na atualidade

                 Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                 Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                 Duração
                 2 h/a – via satélite com professor interativo
                 2 h/a – presenciais com professor local
                 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




                 As questões acerca das lutas e movimentos na so­                 Vale ressaltar que a defesa dos direitos sociais e
              ciedade têm ganhado campo desde o século XIX.                    humanos, da democracia e da justiça social faz parte
              Nesta perspectiva buscaremos resgatar os movimen­                da luta dos assistentes sociais, o que requer muita
              tos e lutas empreendidas pela sociedade civil, mais              atenção para fatos e acontecimentos que marcam a
              especificamente pelas camadas populares em decor­                história da sociedade.
              rência das demandas e reivindicações ocorridas no
              espaço urbano.                                                   A luTA De ClAsses
                 Ao longo do processo iremos abordar os pontos                    De modo geral, o debate central para os estudos
              básicos dos fatos históricos ocorridos no Brasil, mas            de lutas e movimentos está presente na história,
              que também têm relação e sofrem influência norte­                uma vez que ela se desenvolve a partir da população
              americana e europeia. No bojo da discussão será                  civil, ou seja, parte principalmente das camadas so­
              enfatizada a questão da cidadania, para demonstrar               ciais mais pobres. As lutas têm o caráter de rebelião
              as alterações que foram acontecendo em sua pró­                  contra a ordem estabelecida. Diante desse fato, far­
              pria concepção, resgatando, assim, seus princípios               se­á um recorte a partir do século XVIII, no qual
              articulatórios e as conquistas concebidas a respeito,            as lutas tinham em comum o desejo de libertação
              particularmente pelas camadas populares.                         da metrópole. As mudanças ocorrem não porque os

                                                                         209


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 209                                                                                                               5/15/09 2:15:08 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            grupos (liberais radicais) que lideravam as lutas se       vista a passagem de um tipo de sociedade a outro”.
            impuseram, mas devido ao apoio da elite conserva­          Na produção textual em curso, tomamos como re­
            dora ao príncipe herdeiro de uma monarquia deca­           ferência a explicitação do conceito formulado por
            dente para não perder seus privilégios.                    Calado (1999, p. 136) concernente a esses sujeitos
               Por outro lado, o século XIX traz para a histó­         coletivos.
            ria os conflitos que abrangiam as “zonas rurais e              Organizações coletivas empenhadas na luta em
            urbanas, pois dado o sistema produtivo existente,          defesa de seus interesses econômicos e socioculturais,
            baseado na hegemonia da monocultura do café, a             buscando construir sua identidade, de forma pro­
            produção ocorria no campo mas a comercialização,           cessual, tendo como referência oposta a conduta dos
            do produto e da mão­de­obra, ocorria na cidade”            que eles situam como seus adversários ou inimigos.
            (GOHN, 2005, p. 18). Nesse período surgem as se­               A sociedade civil historicamente tem desempe­
            guintes categorias problemáticas de lutas: as que lu­      nhado um papel importante no debate sobre direi­
            tam em torno da questão da escravidão, em torno            tos humanos. Terreno fértil onde nascem os con­
            das cobranças do Fisco, de pequenos camponeses,            flitos, as ações coletivas organizadas e encabeçadas
            contra Legislações e Atos do Poder Público, pela           pela sociedade civil engendram a dinâmica de re­
            mudança do regime político e as lutas entre catego­        lações sociopolíticas e humanas que dão sentido à
            rias socioeconômicas.                                      sociedade. Composta por uma gama de atores que
               O século XX imprimiu um novo caráter às lutas           atuam para dar forma a esse conjunto da vida espi­
            sociais no Brasil. As questões urbanas ganham ca­          ritual e intelectual, permeada de relações ideológi­
            racterísticas próprias, advindas das novas funções         co­culturais (GRAMSCI, 1984), a sociedade civil é
            que passam a se concentrar nas cidades. À medida           fiadora de ações coletivas que afetam a dinâmica e
            que o desenvolvimento vai se instalando na socie­          (re)configuram as relações sociais. Locus dos movi­
            dade por meio da indústria e, em consequência              mentos sociais, essa mesma sociedade civil é espaço
            disso, as novas configurações sociais que surgem na        para construção de hegemonia e atua como media­
            sociedade darão o tom para as ações e conflitos no         dora da infraestrutura econômica e o Estado em seu
            meio urbano. Consequentemente, novas categorias            sentido restrito. O Estado em seu sentido mais am­
            de lutas emergem, como as de lutas sociais da classe       plo é constituído, portanto, pela esfera da sociedade
            operária por melhores salários e condições de vida;        civil e pela esfera da sociedade política (conjunto
            lutas populares e médias por moradia; lutas sociais        de mecanismos em que a classe dominante detém o
            no campo; lutas da categoria dos militares; lutas e        monopólio legal da repressão e da violência (RA­
            movimentos de raça, etnia, cor, gênero; lutas cívicas,     MOS, 2005). Em uma relação dialógica, a socieda­
            entre outros.                                              de civil exerce a hegemonia pela direção política, e
                                                                       o consenso e a sociedade política pela coerção. Na
            MoviMenTos soCiAis                                         dialética entre coerção e consenso, ditadura e hege­
               As concepções e conceitos referentes a movimen­         monia, são expressos o poder de uma classe.
            to social, como observa Scherer­Warren (1996, p.               Desde que a concepção marxista sobre o papel
            18), variam desde a afirmação de que “toda ação            da luta de classes para o entendimento da sociedade
            coletiva com caráter reivindicativo ou de protesto         começa a ser alterado em meados da década de 1970
            é um movimento social, independente do alcance             (GOSS; PRuDêNCIO, 2004), novas questões pas­
            ou significado político ou cultural da luta”, ao ex­       sam a ser introduzidas para análise e compreensão
            tremo de considerar movimento social como “ape­            da realidade social, dentre elas a ênfase em outras
            nas um número muito limitado de ações coletivas            relações que não apenas econômicas como caminho
            de conflito, aquelas que atuam na produção da so­          para pensar as relações, o deslocamento de atenção
            ciedade ou seguem orientações globais, tendo em            da sociedade política para a sociedade civil e da luta

                                                                     210


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 210                                                                                    5/15/09 2:15:09 PM
AULA 1 — Movimentos Sociais

              de classes para os movimentos sociais. Os sujeitos                  movimentos sociais se fecundarem. É o que aponta
              políticos deixam de ser analisados pela relação clas­               Dias (2004), em uma análise sobre a semelhança en­
              se­partido­Estado. Em outras palavras, a categoria                  tre os movimentos populares tradicionais e os con­
              classes sociais torna­se insuficiente para entender os              temporâneos, a partir da arqueologia foucaltiana:
              movimentos arquitetados no âmbito da sociedade
                                                                                       [...] compreende­se que o húmus discursivo de
              civil.
                                                                                       onde nascem as reflexões sobre os movimentos
                  Surge, assim, o que alguns autores da área cha­                      sociais não seria o liberalismo, esse fenômeno do
              mam de novos movimentos sociais, com atuação                             mundo ocidental, nem o Estado Liberal, nem a so­
              pautada em questões identitárias e com foco na                           ciedade civil em si mesmos, mas as práticas políti­
              politização de espaços alternativos de luta, que não                     cas e de poder, os modos de atualização da liberda­
              apenas os partidos políticos e sindicatos. Entre as al­                  de e igualdade na sociedade civil e as conquistas da
              terações mais significativas está a ideia de que o po­                   realização da cidadania e dos direitos individuais
              lítico passa a ser um componente presente em toda                        (GOHN, 2004, p. 98).
              prática social e não apenas em espaços específicos,                    Em se tratando de estratégias, os movimentos so­
              o que configura os movimentos sociais como “ações                   ciais contemporâneos em plena era da globalização
              sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural               e da informação atuam em redes, formas de arti­
              que viabilizam distintas formas da população se or­                 culação que potencializam a ação dos sujeitos que,
              ganizar e expressar suas demandas” (GOHN, 2004,                     interligados por meio de uma teia de relações, am­
              p. 13). Essas mesmas ações coletivas criam identida­                pliam sua esfera de atuação.
              des em espaços não institucionalizados que geram
              transformações no espaço social.
                A essência de atuação dos movimentos sociais é
              chamar o sujeito como forma de resistir à domina­                     *     ANOTAÇÕES

              ção social. Resistir ao poder é defender o sujeito.

                     As novas contestações não visam criar um novo
                     tipo de sociedade, mas “mudar a vida”, defender
                     os direitos do homem, assim como o direito à vida
                     para os que estão ameaçados pela fome e pelo ex­
                     termínio, e também o direito à livre expressão ou à
                     livre escolha de um estilo e de uma história de vida
                     pessoais (TOuRAINE apud GOSS; PRuDêNCIO,
                     2004, p. 80).

                 Na ausência de adversários, os movimentos so­
              ciais discutem e pautam questões que antes esta­
              vam na esfera privada, como as questões de gênero,
              sexual e étnicas e ao mesmo tempo compartilham
              de lutas mais abrangentes. Alguns movimentos da
              sociedade civil de cunho identitário na busca pela
              afirmação de suas diferenças acabam tocando em
              questões estruturais.
                 E é na sociedade construída, sustentada e media­
              da pelas relações de poder, como apontamos ante­
              riormente, que estão criadas as bases férteis para os

                                                                            211


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 211                                                                                                5/15/09 2:15:10 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais



                                                                                                AULA

                                                                          ____________________        2
                                                               ASPECTOS TEÓRICOS – HISTÓRICO
                                                             DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
            Unidade Didática – Movimentos Sociais




                                                    Conteúdo
                                                    •	 As	teorias	clássicas	sobre	as	ações	coletivas
                                                    •	 Teorias	contemporâneas	norte-americanas	da	ação	coletiva	e	dos	movimentos	sociais
                                                    •	 Teorias	na	era	da	globalização:	a	mobilidade	política
                                                    •	 Os	paradigmas	europeus
                                                    •	 As	questões	brasileiras

                                                    Competências e habilidades
                                                    •	 Capacidade	de	introduzir	o	acadêmico	no	universo	histórico	e	social	das	questões	sociais,	a	partir	da	
                                                       realidade do Brasil e do mundo

                                                    Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                    Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                                                    Duração
                                                    2 h/a – via satélite com professor interativo
                                                    2 h/a – presenciais com professor local
                                                    6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




              As TeoriAs ClássiCAs sobre As Ações                                                      Esse paradigma clássico foi apropriado por uma
              ColeTivAs                                                                             nova geração de pesquisadores, tendo como ponto
                 As questões assinaladas conduziram, no nível teó­                                  de partida e referencial histórico para essa análise
              rico, a uma reflexão sobre alguns elementos históri­                                  dois motivos: por um lado, a memória histórica das
              cos que estruturam a criação dos movimentos sociais.                                  primeiras teorias dos movimentos sociais e ações
              Essa reflexão possibilitará retomar os paradigmas                                     coletivas e, por outro, as referências e matrizes teó­
              clássicos e contemporâneos. Cabe observar que não                                     ricas de vários conceitos que estão sendo retomados
              se trata de evidenciar a perpetuação de mecanismos                                    nos anos 1990 pelo próprio paradigma norte­ame­
              de dominação e de determinadas mazelas da cultura                                     ricano (GOHN, 2007).
              social e da política brasileira, mas de apreender esses                                  O período clássico durou até os anos 1960. No
              mecanismos e como eles se atualizam.                                                  entanto, não há um consenso nas abordagens, o

                                                                                               212


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 212                                                                                                                   5/15/09 2:15:10 PM
AULA 2 — Aspectos Teóricos – Histórico dos Movimentos Sociais no Brasil

              que nos leva a considerar cinco grandes linhas com                            meira corrente de teoria sobre os movimentos
              diferentes ênfases com características comuns, que                            sociais, no trabalho de Heebert Blumer (1939).
              são:                                                                       2. A segunda, desenvolvida ao longo dos anos
                                                                                            1940 e 1950, teve como teóricos Eric Fromm
                     [...] o núcleo articulador das análises é a teoria da                  (1941), Hoffer (1951) e Kornhruser (1959).
                     ação social, e a busca de compreensão dos compor­
                                                                                         3. A terceira predominou nos anos 1950 com um
                     tamentos coletivos é nela a meta principal. [...] A
                                                                                            viés político forte que articulava as classes e re­
                     ênfase na ação institucional, contraposta à não ins­
                                                                                            lações sociais de produção na busca do entendi­
                     titucional, também era uma preocupação prioritária
                                                                                            mento tanto dos movimentos revolucionários
                     e um denominador que dividia os dois tipos básicos
                                                                                            como da mobilização partidária, presente nos
                     de ação: a do comportamento coletivo institucional
                                                                                            trabalhos de Lipset (1950) e Heberle (1951).
                     e a do não institucional (GOHN, 2007, p. 23).
                                                                                         4. Combinação das teorias da Escola de Chicago
                Segundo Gohn (2007), pode­se dividir em cin­                                com a teoria da ação social de Parsons.
              co grandes correntes teóricas a abordagem clássica                         5. A quinta corrente denominada organizacional­
              sobre ação coletiva, sendo que em três delas os mo­                           institucional, não gerou nenhuma teoria sobre
              vimentos sociais especificados como teorias e nas                             os movimentos sociais.
              outras duas como ações coletivas. A seguir apresen­
              tamos as correntes:                                                      Elementos comparativos entre as teorias contem­
                1. A Escola de Chicago e alguns interacionistas                     porâneas norte­americanas da ação coletiva e as teo­
                   simbólicos do início do século. Tida como a pri­                 rias sobre movimentos sociais na era da globalização:


                                     Mobilização de recursos                                            Mobilização política
                            Analisa os movimentos dos direitos civis                        Impera a política do “politicamente correto”
                                                                                    A teoria da mobilização política reintroduz a psicologia
                           A psicologia é rejeitada como explicativo                   social como instrumento para a compreensão do
                                                                                                   comportamento coletivo
                                                                                           Com o desenvolvimento do processo político,
                Explica os movimentos sociais no âmbito organizacional formal
                                                                                                o campo da cultura foi reativado
                                                                                           O recurso deixa de ser o eixo central condutor
                          A variável mais importante é a dos recursos
                                                                                            das análises e passa a ser o processo político
                      Dá ênfase à visão economicista, baseada na lógica
                                                                                          Ênfase na estrutura das oportunidades políticas
                          racional da interação entre os indivíduos
                      Concebiam os movimentos sociais em termos de                            Busca entender a identidade coletiva
                    um setor de mercado, livre e aberto a grupos e ideias                    dos grupos e a interação com sua cultura
                            A mobilização das bases do movimento                                O interacionismo ressurge na forma
                               é analisada pela ótica econômica                                     de interacionismo simbólico
                                                                                     A ênfase está na problemática da consciência política,
                         O consenso objetiva a obtenção de recursos
                                                                                        a qual é aplicada para entender os movimentos
                         financeiros e o conflito, as mudanças sociais
                                                                                                  de conflitos e os de consenso



                                                                         os paradigmas
                      Os movimentos sociais devem ser entendidos em                        Constrói-se uma nova teoria, que passa a
                     termos de uma teoria de conflito da ação coletiva                      ser denominada “mobilização política”
                                                                                    Os atores são competidores em um mesmo cenário,
                        Refutam a ideia de incluir como movimentos
                                                                                     sem que haja contradição de interesses, porque
                        sociais as diferentes formas de ação coletiva
                                                                                       não aborda a problemática das classes sociais
                     A sociedade é vista como um arranjo estático das
                                                                                     Resgate da premissa tradicional da ação coletiva
                       elites e não elites, relativamente homogêneo
                                  Destaca o caráter estrutural                                    Reforça a análise estrutural


                                                                              213


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 213                                                                                                       5/15/09 2:15:11 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

                                                                        As quesTões brAsileirAs
                !      IMPORTANTE                                           Na América Latina, mais especificamente no Bra­
                Por meio dos movimentos sociais, as pessoas se en­      sil, as questões teóricas voltadas para os movimentos
                volvem em lutas simbólicas sobre os significados e      ganham corpo a partir do final da década de 1970,
                interpretações dos fatos e coisas.                      quando se fala dos novos movimentos sociais em
                                                                        encontros, seminários e colóquios acadêmicos.
            os PArADigMAs euroPeus
                                                                            Os paradigmas desse período são divididos, e isso
                                                                        se dá no âmbito das interpretações das ações. Segundo
               Segundo Gohn (2007), na Europa pode­se dis­
                                                                        Gohn (2007, p. 283­284), no Brasil o que predominou
            tinguir duas grandes linhas de abordagem sobre as
                                                                        nos anos 1970 foram as análises de cunho marxista, in­
            teorias que determinam o paradigma a partir dos
                                                                        fluenciadas pela corrente franco­espanhola de Castells,
            anos 1960: a neomarxista e a culturalista­acionalis­
                                                                        Borja, Lojkine e Preteceille e as análises acionalistas de
            ta, que se consagrou como a teoria dos Novos Mo­
                                                                        Touraine. Na década de 1980, as análises são influen­
            vimentos Sociais.
                                                                        ciadas por Foucault, Guattari, Melucci, entre outros.
               As características gerais desse novo movimento               Ainda nos anos 1980, o cenário das lutas no Bra­
            seriam:                                                     sil apresenta um conjunto de ações que passam pelo
               •	 o	modelo	teórico	é	baseado	na	cultura,	mas	ne-        plano da atuação concreta, da análise, do otimismo
                  ga os valores e normas herdadas do passado. A         para a perplexidade e, depois, para descrença. Vários
                  ideologia é deixada de lado e sofre influência        fatores colaboram para isso, inclusive as alterações
                  pós­estruturalista e pós­modernista de cultura,       nas políticas públicas e na composição dos agentes
                  centrando suas atenções nos discursos como            e atores que participam de sua implementação, ges­
                  expressões de práticas culturais;                     tão e avaliação (GOHN, 2007).
               •	 nega	 o	 marxismo	 como	 campo	 teórico,	 por	            Nos anos 1990, é preciso entender o contexto a
                  tratar a ação coletiva apenas no nível das estru­     partir da era da globalização, pois o País passa por
                  turas, da ação das classes;                           transformações econômicas e nova ênfase é dada às
               •	 elimina	o	sujeito	histórico	redutor	da	humani­        políticas sociais. Nesse cenário destacam­se elemen­
                  dade, configurado pelas contradições do capi­         tos que exercerão grande influência sobre a dinâmica
                  talismo e formado pela “consciência autêntica”        dos movimentos sociais, principalmente os popula­
                  de uma vanguarda partidária;                          res. Nesse sentido, pode­se apontar a crise econômica
               •	 a	política	ganha	centralidade	na	análise,	sendo	      que levou à diminuição dos empregos no mercado
                  utilizada principalmente no âmbito das rela­          formal; as políticas econômicas dão suporte às ati­
                                                                        vidades na economia informal; a economia semi­
                  ções microssociais e culturais;
                                                                        comunitária encontra nas organizações não gover­
               •	 os	atores	sociais	são	analisados	por	suas	ações	
                                                                        namentais uma forma para servir de suporte como
                  coletivas e pela identidade coletiva criada no
                                                                        estruturas organizativas do processo de produção; e
                  processo. Ressalta­se que essa identidade é
                                                                        o número de pessoas sem­teto, morando permanen­
                  criada por grupo e não por identidade social.         temente nas ruas, cresce de modo assustador.
                                                                            Por outro lado, na década de 1990, novas práticas
               Segundo Mouffe (apud GOHN, 2007), a novida­              civis surgem no cenário nacional de movimentos que
            de dos novos movimentos deriva das novas manei­             já existiam, mas com uma nova roupagem. Estamos
            ras de subordinação ao capitalismo tardio, no qual          falando do Movimento dos Trabalhadores Rurais
            se insurge a banalização da vida social, a burocrati­       Sem­Terra, a união Ruralista Brasileira, como tam­
            zação da sociedade e a massificação da vida social          bém os movimentos centrados nas questões éticas ou
            pela poderosa invasão dos meios de comunicação              de revalorização da vida humana. Mas essas questões
            de massa.                                                   serão aprofundadas no decorrer das aulas.

                                                                      214


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 214                                                                                         5/15/09 2:15:12 PM
AULA 3 — Movimentos Sociais e Cidadania



                                                                 AULA

                                           ____________________   3




                                                                                                                                  Unidade Didática – Movimentos Sociais
                                MOVIMENTOS SOCIAIS E CIDADANIA

                 Conteúdo
                 •	 O	conceito	de	cidadania
                 •	 A	relação	entre	movimentos	sociais	e	cidadania	no	Brasil

                 Competências e habilidades
                 •	 Capacidade	de	compreender	e	exercitar	o	significado	da	palavra	cidadania	no	contexto	social	que	
                    permeia as relações sociais na sociedade brasileira atual

                 Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                 Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                 Duração
                 2 h/a – via satélite com professor interativo
                 2 h/a – presenciais com professor local
                 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




              o ConCeiTo De CiDADAniA                                               de participação integral na comunidade – ou, como
                 Na medida em que observamos a constituição de                      eu diria, de cidadania – o qual não é inconsistente
              direitos referentes à questão social no Brasil, faz­se                com as desigualdades que diferenciam os vários ní­
              necessário explicar a maneira como esse processo é                    veis econômicos na sociedade. Em outras palavras,
              pensado em relação à forma como utilizamos, aqui,                     a desigualdade do sistema de classes sociais pode
              o conceito de cidadania.                                              ser aceitável desde que a igualdade de cidadania
                                                                                    seja reconhecida (MARSHALL, 1967, p. 62).
                 Como ponto de partida, gostaríamos de retomar
              algumas reflexões e questões clássicas explicitadas                Então, podemos dizer que a mais recente fase da
              pelo sociólogo Thomas H. Marshall, a respeito da                 evolução da cidadania seria caminhar rumo à igual­
              cidadania na sociedade inglesa, no período pós­                  dade social. Se este é o caso, para que as argumenta­
              guerra; pois ele estava preocupado com a relação de­             ções sigam uma lógica realizar­se­á uma divisão do
              mocracia e capitalismo. Ressaltando, em seu texto, o             conceito de cidadania, distinguindo­se três dimen­
              que vem a ser a hipótese sociológica latente do ensaio
                                                                               sões: a civil, a política e a social, cada uma relaciona­
              do economista Alfred Marshall:
                                                                               da a um período formativo.
                     [Alfred Marshall] Postula que há uma espécie de             A cidadania civil teria se desenvolvido no século
                     igualdade humana básica associada com o conceito          XVII, como resposta ao absolutismo, caracterizan­

                                                                         215


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 215                                                                                                                  5/15/09 2:15:13 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            do­se pelos direitos necessários à liberdade indivi­          leira, mas se caracteriza pelo caráter conciliatório e
            dual, pela liberdade de ir e vir, de palavra, pensa­          de negociação entre a elite nacional, a coroa portu­
            mento, entre outros.                                          guesa e a inglesa. A solução monárquica e conserva­
               Na cidadania política, associada ao século XIX,            dora estava garantida, e a Constituição de 1824 re­
            desenvolvem­se os direitos referentes à participação          gulou os direitos políticos dos cidadãos e definiu
            no exercício do poder político, com extensão do di­           quem teria direito de votar e ser votado.
            reito ao voto em escala cada vez maior.                          Apesar de certo grau de democracia – grande par­
               Quanto à cidadania social, desenvolvida princi­            te da população adulta masculina podia exercer seus
            palmente no século XX, inclui os direitos a um mí­            direitos políticos –, os brasileiros alçados à categoria
            nimo de bem­estar econômico­social, sendo o siste­            de cidadãos pela Constituição de 1824 eram predo­
            ma educacional e os serviços sociais as instituições          minantemente analfabetos e viviam em áreas rurais
            a ele relacionadas.                                           sob o comando dos grandes proprietários, e na ci­
                                                                          dade os eleitores eram em sua maioria funcionários
                                                                          públicos influenciados e controlados pelo governo.
            A relAção enTre MoviMenTos soCiAis
                                                                             A escravidão foi o grande entrave para o desen­
            e CiDADAniA no brAsil
                                                                          volvimento dos direitos civis no Brasil, pois negava
               Os direitos do cidadão e do homem e a cidadania
                                                                          a condição de humanidade para as pessoas consi­
            são históricos, resultam das relações e dos conflitos
                                                                          deradas escravas. Em 1888, quando a elite descobre
            sociais em determinados momentos da história de
                                                                          que a escravidão impedia a integração do País nos
            um povo. Ou seja, a formulação e o desenvolvimento
                                                                          mercados internacionais, além de bloquear o de­
            dos direitos civis, políticos, sociais, econômicos e cul­
                                                                          senvolvimento das classes sociais e do mercado de
            turais seguiram no Brasil e no resto do mundo um              trabalho, ela finalmente abole a escravidão, mas não
            processo marcado por avanços e retrocessos, ao passo          revê o formato de divisão de bens (a terra), pois o
            que certos direitos estavam sendo discutidos e garan­         movimento pela independência preservou as elites
            tidos em algum lugar do planeta, em outro continen­           nacionais no poder, manteve a nação dividida entre
            te ou país estavam sendo violados ou nem estavam              senhores e não criou um sistema educacional públi­
            em discussão. Os direitos que estavam garantidos por          co de qualidade.
            muito tempo passaram a ser negligenciados por con­
                                                                             Com a urbanização, a industrialização e o surgi­
            ta de interesses ideológicos, políticos e/ou econômi­         mento de uma pequena classe operária no Rio de Ja­
            cos. Além do mais, dentro de uma mesma sociedade,             neiro e São Paulo, alguns direitos básicos como a or­
            os direitos do homem e do cidadão não são garanti­            ganização sindical, as manifestações e reivindicações
            dos do mesmo modo a todas as pessoas.                         públicas e as greves, aparecem no cenário nacional.
               No Brasil, a construção da cidadania e a afirma­              Em 1930, verifica­se um avanço dos direitos so­
            ção dos direitos têm percorrido caminhos difíceis e           ciais com a criação do Ministério do Trabalho e com
            bastante tortuosos, pois, apesar das influências que          uma ampla legislação trabalhista e previdenciária,
            recebemos, construímos um processo diferencia­                culminando com a Consolidação das Leis do Traba­
            do nas discussões e na implementação dos direitos             lho (CLT), em 1943.
            civis, políticos e sociais. Diante dessa constatação,            Em relação ao desenvolvimento dos direitos políti­
            dividiremos o processo histórico por períodos, a co­          cos, a instabilidade democrática do País entre 1930 e
            meçar pela Independência.                                     1964 alterna ditadura e regimes mais democráticos,
                                                                          não permitindo uma plena evolução das discussões
            A independência                                               sobre os direitos civis e políticos. A liberdade de ex­
              A proclamação da independência em 1822 inau­                pressão e de organização chega a ser suspensa no
            gura a era dos direitos políticos na sociedade brasi­         período ditatorial de 1937. A derrubada de Vargas,

                                                                        216


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 216                                                                                         5/15/09 2:15:13 PM
AULA 3 — Movimentos Sociais e Cidadania

              as eleições presidenciais e legislativas e a Constitui­         são questões novas no cenário nacional” (p. 203).
              ção de 1946 garantiram certa estabilidade para os               Ou seja, nesse período o novo é a forma e o modo
              direitos civis e políticos até 1964. A partir daí, por          como equacionar e encaminhar as demandas e as
              conta da ditadura militar, a maioria dos direitos ci­           possíveis soluções.
              vis e políticos foi restringida pela violência.                    Outro ponto é a nova concepção da ideia de co­
                                                                              munidade, por se tratar não apenas de um locus
              os desafios contemporâneos                                      geográfico espacial, mas por ser uma categoria da
                 A década de 1980 inaugura no Brasil novos tem­               realidade social, de intervenção, assim como de re­
              pos para a questão da cidadania, pois os movimen­               definição dos valores seculares, como os dos direi­
              tos e organizações do passado se articulam com o                tos humanos e a articulação entre os valores morais,
              novo, com a Igreja, entre outros, criando uma nova              econômicos e o desejo de mudanças políticas.
              identidade para os movimentos nesse período, no
              qual novas bandeiras foram levantadas. Esses gru­                 Para concluir
              pos eram fortalecidos pela conjuntura internacio­                  Pode­se observar que a questão da cidadania foi
              nal, que também destacava as questões dos direitos              a grande conquista dos movimentos sociais, pois as
              humanos como sendo básicos.                                     pessoas estão se posicionando como protagonistas
                  Esse processo representa para os brasileiros as             da história, na qual a cidadania tutelada dá lugar à
              mudanças no cenário político, como também trans­                cidadania moderna, fundada na noção de direito à
              formações mais profundas no seio da sociedade,                  diferença, mas não somente a vida, mas a autode­
              mas permanece no País uma enorme concentração                   terminação como questão de gênero, raça, idade,
              de renda e seus subprodutos, como a miséria e a                 manifestação sexual, entre outras. E reivindica­se a
              exclusão social. Ao lado disso, a atuação omissa e              participação da sociedade nas questões civis e polí­
              vacilante por parte do Estado que não promove po­               ticas, no mercado de bens e consumo, como tam­
              líticas públicas adequadas e suficientes para corrigir          bém a manutenção dos valores culturais.
              essas desigualdades sociais e regionais.                           Conforme Gohn (2003, p. 209), a “concepção de
                 A garantia dos direitos civis e políticos não resol­         cidadania que resulta deste cenário busca corrigir
              veu os problemas históricos da cidadania no País.               diferenças instituídas, destacando o valor da igual­
              Contudo, esses direitos formam um quadro no                     dade”. A solidariedade volta a ser a mola propulsora
              qual os movimentos sociais podem aparecer publi­                dos grupos sociais e a participação políticas se dá na
              camente trazendo suas reivindicações e propostas,               esfera da igualdade entre os cidadãos.
              ocorrendo alternância de grupos políticos no poder.
              Ao mesmo tempo, os problemas estruturais e secu­
              lares da sociedade brasileira podem ser discutidos e
              estudados.                                                        *     ANOTAÇÕES


              o paradigma
                 Segundo Gohn (2003), as demandas da ação so­
              cial contrastaram com o sistema vigente. Mas, na
              realidade, essas demandas não são novas, posto que
              “a carência de bens e serviços para os setores po­
              pulares, a discriminação social contra os negros,
              os índios, as mulheres, o desrespeito à natureza, ou
              ainda o problema das crianças pobres nas ruas não

                                                                        217


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 217                                                                                         5/15/09 2:15:14 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais



                                                                                                AULA

                                                                          ____________________        4
                                                               POLÍTICAS SOCIAIS – A CONTRIBUIÇÃO
                                                                   DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
            Unidade Didática – Movimentos Sociais




                                                    Conteúdo
                                                    •	 Movimento	social:	a	luta	por	direitos
                                                    •	 O	Estado	e	as	políticas	sociais
                                                    •	 Avanços	da	participação	cidadã

                                                    Competências e habilidades
                                                    •	 Identificar	os	elementos	que	contribuem	e	interferem	na	dinâmica	dos	movimentos	sociais,	a	partir	
                                                       das políticas sociais

                                                    Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                    Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                                                    Duração
                                                    2 h/a – via satélite com professor interativo
                                                    2 h/a – presenciais com professor local
                                                    6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




              MoviMenTo soCiAl: A luTA Por DireiTos                                                 servamos a ação das organizações dos movimentos
                 Quando nos referimos a políticas sociais, enten­                                   sociais, assim como as ações discursivas e as estra­
              demos aquelas ações desenvolvidas pelos governos                                      tégias práticas de intelectuais, militantes e políticos
              e poderes políticos constituídos, uma forma de                                        preocupados com as desigualdades sociais.
              ação prática, que se traduz em leis, organizações e                                      No contexto deste estudo, configura­se como
              programas de intervenção, orientadas pelo Poder                                       movimento social a diversidade de grupos e orga­
              Público, abrangendo os poderes Executivo, Legisla­                                    nizações, em seus diferentes graus de envolvimento
              tivo e Judiciário. Mas a essa definição de políticas                                  com a questão social, que tiveram como um de seus
              incorporamos também a observação da maneira                                           objetivos melhorar as condições de vida da socieda­
              como certos direitos foram estabelecidos e as for­                                    de. Abrangeria o conjunto de iniciativas de natureza
              ças sociais que atuaram para isso. Dessa forma, ob­                                   política, educacional e cultural incorporando, dessa

                                                                                               218


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 218                                                                                                                  5/15/09 2:15:15 PM
AULA 4 — Políticas Sociais – A Contribuição dos Movimentos Sociais

              forma, tanto as reivindicações culturais quantos as              o esTADo e As PolíTiCAs soCiAis
              referentes às condições socioeconômicas da socie­                   No Brasil, persiste a modalidade assistencial de
              dade, entendendo ambas como estratégias políticas                fazer política no campo do social, nos espaços de re­
              que buscam a garantia de direitos.                               lação entre o Estado e os setores excluídos, o que, se­
                  Sendo assim, a Constituição de 1988 garante ao               gundo Yazbek (2006), pode ser traduzido nas ques­
              cidadão brasileiro total e irrestrito direito no que
                                                                               tões relacionadas às políticas estatais de corte social
              tange aos direitos sociais, assegurados por meio da
                                                                               e ao enfrentamento da crescente pauperização das
              assistência social, saúde e previdência, ou seja, o tri­
                                                                               classes subalternas que têm se constituído em temá­
              pé constitutivo da seguridade social que pressupõe
              a universalidade dos direitos, de forma uniforme e               ticas presentes nas análises e estudos das políticas
              equivalente para as populações rurais e urbanas.                 sociais públicas no Brasil. Por outro lado, o caráter
                  Nesse contexto faz­se necessário que entendamos              regulador da intervenção estatal no âmbito das rela­
              que a “seguridade social enquanto conjunto de po­                ções sociais tem dado o formato das políticas sociais
              líticas e ações de reprodução social dos indivíduos              no País, que são traduzidas como políticas casuís­
              humanos se introduz na agenda de compromissos                    ticas, inoperantes, fragmentadas, superpostas, sem
              da humanidade com o advento do capitalismo”                      regras estáveis ou reconhecimento de direitos.
              (FALCÃO, 2006, p. 111). É nesse cenário da era ca­                  Agora, é importante ressaltar que a expansão ca­
              pitalista que é introduzido um novo modo político                pitalista no Brasil em sua forma monopolista se dá
              de condução da vida societária.
                                                                               pela apreensão de suas ambiguidades, contradições
                  Por meio das investidas dos movimentos sociais,
                                                                               e desigualdades que se evidenciam de um lado pelo
              as questões da pobreza ganham visibilidade, não
                                                                               tratamento impune e selvagem à força de trabalho
              podendo mais ser tratada como fenômeno conjun­
                                                                               e, por outro, na presença de um capitalismo moder­
              tural, passando a fenômeno estrutural que decorre
              de um modo de produção que engendra a exclusão,                  no, marcado pelo avanço tecnológico na industriali­
              as desigualdades sociais e a injustiça social (FAL­              zação e pelas altas taxas de concentração e acumu­
              CÃO, 2006).                                                      lação, uma vez que, as intervenções do Estado per­
                  Por outro lado, a seguridade social em seu sen­              meiam o quadro das interlocuções e mediações
              tido amplo se apresenta como peça fundamental e                  que constituem o campo da política social pública,
              estratégica nos pactos estabelecidos pela classe do­             inscrevendo­se no bojo das relações sociais.
              minante com os diversos segmentos da sociedade,                      Assim, o contraste entre miséria e abundância nos
              em especial com a classe trabalhadora, garantindo,               mostra que a evolução econômica capitalista brasi­
              assim, uma revolução passiva, a qual desenhou uma                leira fortaleceu mais a desigualdade do que a dimi­
              nova paisagem capitalista, com alguns elementos
                                                                               nuiu, pois, para Yazbek (2006, p. 40), embora as po­
              em destaque:
                                                                               líticas governamentais no campo social expressem o
                  a) a evolução de um capitalismo individualista
                                                                               “caráter contraditório das lutas sociais, acabam por
                     e selvagem, para um capitalismo planificado,
                                                                               reiterar o perfil da desigualdade no país e mantêm
                     transnacional e monopolista;
                                                                               essa área de ação submersa e paliativa”.
                  b) a generalização e mundialização do assalariado;
                  c) a forte expansão das funções do Estado­nação;                Pode­se evidenciar que a questão social no Brasil
                  d) a introdução de um pacto social com os vários             começa a partir da Primeira República, com o pro­
                     segmentos da sociedade civil, principalmente              cesso da industrialização e da implantação do ca­
                     com a classe trabalhadora;                                pitalismo no País, no qual surgem o operariado e a
                  e) as relações sociais de dominação e poder to­              burguesia nacional, o acirramento das contradições
                     mam forma corporativista, funcional, tendo o              entre capital e trabalho como explicação maior da
                     Estado como mediador principal.                           desigualdade social.

                                                                         219


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 219                                                                                           5/15/09 2:15:15 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            AvAnços DA PArTiCiPAção CiDADã                                 •	 o	direito	de	a	mulher	votar;
               A preocupação com a participação cidadã tem sido            •	 o	direito	a	greve	para	reivindicar	melhores	sa­
            uma constante ao longo do tempo. Existe intersubje­               lários e condições de trabalho;
            tividade a respeito de que os ganhos para um sistema           •	 a	economia	baseada	na	mão-de-obra	livre;
            político são sempre elevados em sociedades que es­             •	 a	criação	de	sindicatos;
            timulam e possibilitam a ingerência dos cidadãos na
                                                                           •	 a	garantia	dos	direitos	civis	e	sociais,	entre	outros.
            determinação do seu destino. A utilização da partici­
            pação cívica sempre foi considerada fundamental no
            processo de construção de uma nação.                             !    DICA
               Desse modo, apontamos alguns avanços que foram             www.ipp­uerj.net
            construídos na sociedade brasileira a partir da arti­
            culação dos movimentos sociais ao longo da história:


                *      ANOTAÇÕES




                                                                    220


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 220                                                                                           5/15/09 2:15:16 PM
AULA 5 — A Sociedade Civil e a Construção de Espaços Públicos



                                                                 AULA

                                           ____________________   5




                                                                                                                               Unidade Didática – Movimentos Sociais
                               A SOCIEDADE CIVIL E A CONSTRUÇÃO
                                     DE ESPAÇOS PÚBLICOS

                 Conteúdo
                 •	 A participação popular no processo de construção das políticas públicas

                 Competências e habilidades
                 •	 Capacidade de conhecer e participar dos mecanismos reguladores das políticas públicas

                 Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                 Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                 Duração
                 2 h/a – via satélite com professor interativo
                 2 h/a – presenciais com professor local
                 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




              A PArTiCiPAção PoPulAr no ProCesso                               diante sufrágio universal, que atribui poder aos
              De ConsTrução DAs PolíTiCAs PúbliCAs                             eleitos para a tarefa da representação. Esse tem sido,
                 Para abordarmos essa discussão, vamos primeiro                durante muito tempo, o principal indicador usado
              entender o que é democracia, a partir da definição               para medir o desenvolvimento democrático. No
              de Bobbio (2000, p. 56), que define a democracia                 entanto, o que deve ser considerado nos dias atuais
              representativa por meio da participação indireta da              são os espaços políticos e não o número de votantes,
              população nos processos decisórios. Nessa forma                  pois, “para dar um juízo sobre o estado da democra­
              de governo, a população elege seus representantes e              tização num dado país, o critério não deve mais ser
              lhes confere poder de decisão. Em geral, a expressão             o de ‘quem’ vota, mas o de ‘onde’ se vota” (BOBBIO,
              “democracia representativa” significa que as delibe­             2000, p. 68).
              rações coletivas, isto é, as deliberações que dizem                 A representação é, sem dúvida, um assunto que
              respeito à coletividade inteira, são tomadas não                 tem suscitado muita discussão no universo político.
              diretamente por aqueles que dela fazem parte, mas                Diante desse fato, os movimentos sociais, nas déca­
              por pessoas eleitas para essa finalidade.                        das de 1970 e 1980, tinham como objetivo a mu­
                 Ou seja, um dos elementos fundamentais da de­                 dança social, configuradas em inúmeras lutas popu­
              mocracia representativa é o voto, alcançado me­                  lares para inserir suas reivindicações no texto final

                                                                         221


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 221                                                                                                                    5/15/09 2:15:16 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            da Constituição Federal de 1988, a qual agregou as           incidência dos direitos humanos e, mais, refletir so­
            reivindicações sociais no tocante aos princípios da          bre como a sociedade civil está e/ou pode se organi­
            participação da população nos processos decisórios           zar e responder às demandas das pessoas em geral é
            e à mudança das práticas de elaboração e execução            entender como a cartilha do capitalismo neoliberal
            de políticas públicas. A Constituição de 1988 repre­         articula os direitos humanos nessa mesma socieda­
            sentou um marco no processo de descentralização              de civil, espaço dos movimentos sociais, que histo­
            político­administrativa do País.                             ricamente se consolidaram e se relacionam. A com­
               O conjunto de inovações trazidas pela nova                preensão e a relação entre essas categorias – neo­
            Constituição não significou a efetivação imediata            liberalismo, sociedade civil e direitos humanos – são
            dos espaços de participação na gestão pública. Por           pressupostos para analisar as implicações da desi­
            outro lado, ainda se têm resquícios da cultura pa­           gualdade social nas relações cotidianas e as respos­
            trimonialista, mas Gohn (2003, p. 211) ressalta que          tas que muitas organizações sociais podem oferecer
            “os conflitos sociais contemporâneos têm encon­              a essa problemática. Esse é um caminho que, pen­
            trado novas formas de se expressar, diferentes das           sado pela ótica das políticas públicas, torna possível
            tradicionais, baseadas na conciliação, na negociação         (re)pensar as estratégias em execução e as ações que
            pessoal. Trata­se do surgimento da forma Conselho            estruturalmente possam ser arquitetadas no âmbito
            como órgão de mediação povo­poder”.
                                                                         da sociedade civil para uma intervenção qualificada
               A inserção na sociedade civil dos mecanismo de            na garantia dos direitos humanos.
            controle do governo, por meio dos conselhos, viabi­
            lizou a participação irrestrita das pessoas, pois a par­
            ticipação popular é entendida como o envolvimen­                   !    DICA
            to da sociedade mediante conselhos, assumindo o                  www.scielo.br
            compromisso de trabalhar pela defesa do bem­estar
                                                                             www.conpedi.org
            coletivo. Podemos usar como exemplo, a participa­
            ção no campo da saúde pública, na qual a proposta

                                                                              *
            de participação popular surgiu como consequência
                                                                                   ANOTAÇÕES
            da redução da confiança da população nas insti­
            tuições governamentais e se configurou como uma
            tendência identificada em várias reformas no setor,
            implementadas em diferentes países, ainda que nem
            sempre com a mesma denominação. Vários estudos
            sustentam a participação popular na elaboração de
            políticas públicas de saúde como instrumento de
            aperfeiçoamento dos serviços oferecidos (JACOBI,
            2002; SERAPIONI, 2003).
               Outro exemplo evidente desse compasso entre go­
            verno e sociedade civil e a experiência do orçamento
            participativo, o qual tem uma visão otimista do ser hu­
            mano, na qual a participação dos cidadãos na toma­
            da das decisões públicas somente não ocorre por não
            existirem mecanismos institucionais apropriados.

              Para concluir
              É por isso que discutir o papel da sociedade civil,
            enquanto espaço de construção de hegemonia para

                                                                       222


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 222                                                                                      5/15/09 2:15:17 PM
AULA 6 — O Caráter Educativo do Movimento Social Popular



                                                             AULA

                                           ____________________   6
                          O CARÁTER EDUCATIVO DO MOVIMENTO




                                                                                                                                  Unidade Didática – Movimentos Sociais
                                   SOCIAL POPULAR

                 Conteúdo
                 •	 O	caráter	educativo	dos	movimentos	populares
                 •	 A	produção	das	ciências	sociais	sobre	a	educação	popular
                 •	 O	caráter	educativo	de	fato

                 Competências e habilidades
                 •	 Capacidade	de	interagir	com	a	diversidade	nos	diversos	campos	das	relações	sociais

                 Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                 Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                 Duração
                 2 h/a – via satélite com professor interativo
                 2 h/a – presenciais com professor local
                 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




              o CAráTer eDuCATivo Dos MoviMenTos                               vos agentes que buscam construir uma identidade
              PoPulAres                                                        coletiva, fundada nos interesses dos subordinados”.
                 Inicialmente, os movimentos populares eram vis­                  No entanto, é importante ressaltar que essa forma
              tos apenas como grupos que reivindicavam questões                renovada da educação não ocorre por meio de um pro­
              básicas relativas ao problema da habitação, uso do               grama previamente estabelecido, mas, sim, por meio
              solo, serviços etc. Na contramão dessa informação,               de princípios que são formulados por agentes ins­
              essa outra vertente que apresenta um movimento                   titucionais oriundos da articulação da Igreja, de par­
              sociocultural com potencial para uma cultura de                  tidos políticos, universidades, sindicatos, entre outros.
              ruptura com a alienação, com a cultura dominante,                E sua aplicação e difusão se dão a partir do trabalho
              no sentido de construir sua própria história.                    das lideranças da parcela da população organizada.
                Conforme Gohn (2003, p. 163), é atribuído aos                     Os trabalhos científicos que tratam dessa questão
              “movimentos populares urbanos um papel de desta­                 se baseiam em artigos, teses e resenhas que foram
              que no processo de transformação social, como no­                realizados sobre a literatura da educação popular.

                                                                         223


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 223                                                                                                                   5/15/09 2:15:18 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            A ProDução DAs CiênCiAs soCiAis sobre                          Pressupõe­se que foram os princípios do sistema
            A eDuCAção PoPulAr                                          Paulo Freire que embasaram os programas tidos
               Na primeira fase da educação popular no Brasil,          como progressistas na área da educação popular.
            pensava­se, nos textos elaborados pela ciência so­          Cabe ressaltar, que se adotou como princípio bási­
            cial, acerca da identidade nacional e das fases do de­      co da educação popular o desenvolvimento de uma
            senvolvimento brasileiro, ganhando destaque temas           ação pedagógica conscientizadora, que atuaria sobre
            como: raça, cultura, idiomas, costumes, entre outros.       o nível de cultura das camadas populares em termos
               A década de 1960 sofre influência da sociolo­            explícitos de interesse dela.
            gia francesa, promovendo uma safra de estudos
            brilhantes sobre a realidade brasileira.                    o CAráTer eDuCATivo De fATo
               Outro aspecto importante desse período, para                Segundo Gohn (2005, p. 51), com o caráter edu­
            Gohn (2005, p. 46), é a fase da teoria da moderniza­        cativo dos movimentos populares, a educação é au­
            ção, que “ocorreu paralelamente aos programas de            toconstruída no processo, surgindo diferentes fon­
            educação popular. Isto porque a educação era um             tes do caráter educativo, a saber:
            dos pilares fundamentais daquela teoria, na transi­             a) da aprendizagem gerada com a experiência de
            ção da sociedade arcaica para a moderna”. Ou seja,                 contato com fontes de exercício do poder;
            no processo de apresentação, a educação era um ins­             b) da aprendizagem gerada pelo exercício repeti­
            trumento técnico, que continha na realidade carac­
                                                                               do de ações rotineiras que a burocracia estatal
            terísticas políticas. Ocorrendo, então, na década de
                                                                               impõe;
            1970, as críticas dos programas e métodos de educa­
                                                                            c) da aprendizagem das diferenças existentes
            ção popular, por parte de vários estudiosos.
                                                                               na realidade social a partir da percepção das
               Por outro lado, a conjuntura política daquele pe­
                                                                               distinções nos tratamentos que os diferentes
            ríodo se voltava para a busca de alternativas para saí­
                                                                               grupos sociais recebem de suas demandas;
            da do regime militar. E tudo que estimulasse o saber
                                                                            d) da aprendizagem gerada pelo contato com
            dos oprimidos, as energias da sociedade civil, a fala
                                                                               as assessorias contratadas ou que apóiam o
            do povo era incorporada como alternativa política
                                                                               movimento;
            possível (GOHN, 2005), tornando a educação popu­
            lar o centro das discussões. Para ser mais consistente          e) da aprendizagem da desmistificação da au­
            esse saber, o grupo de assessoria deixa de levar mate­             toridade como sinônimo de competência, a
            rial pronto e passa a produzir com o grupo o mate­                 qual seria sinônimo de conhecimento.
            rial a partir da realidade deles, construindo saberes e
            estimulando a produção desse conhecimento.                     À medida que essas fontes e formas de saber vão
               Para Gohn (2005, p. 47), a partir desse momento          se constituindo em instrumento das classes popula­
            tanto a prática social quanto a produção teórica se         res, os movimentos detêm determinado poder para
            reestruturam. Haja vista que, na área da educação,          atingir seus objetivos, gerando mobilizações e in­
            “os programas ‘alternativos’ da educação popular            quietações que podem pôr em risco o poder consti­
            se transformam em trabalhos coletivos de equi­              tuído, ainda que seja um poder nos ditos populares.
            pes junto a populações pobres de áreas específicas:            Mas o saber popular politizado se torna uma
            os Sem­Terra da Zona Leste, os Filhos da Terra da           ameaça para as classes dominantes, quando reivindi­
            Zona Norte, os Favelados do Ipiranga etc.”. Nesse           ca espaço nos aparelhos estatais, por estar invadin­
            contexto, a educação assume um caráter político             do o campo de construção da teia de dominação das
            dos trabalhos e desassume seu caráter educacional           redes de relações sociais e da vida social (cf. GOHN,
            para escolarização entrecortado pela politização.           2005).

                                                                      224


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 224                                                                                     5/15/09 2:15:19 PM
AULA 6 — O Caráter Educativo do Movimento Social Popular



                  !     IMPORTANTE
                                                                              !    DICA
                  Para delinear de fato o caráter educativo dos mo­
                                                                            www.ongcidade.org
                  vimentos sociais, é preciso conhecer a realidade
                  que permeia a vida em comunidade, por meio de
                  experiências de cunho cultural e social. Podem­se
                  citar como experiências que deram certo ao longo
                  da história ações coletivas do Movimento Negro,
                  Movimento Indígena, da Ação da Cidadania, entre
                  outros.



                  *      ANOTAÇÕES




                                                                      225


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 225                                                              5/15/09 2:15:19 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais



                                                                                                AULA

                                                                          ____________________        7
                                                       OS MOVIMENTOS SOCIAIS E A ARTICULAÇÃO
                                                       ENTRE EDUCAÇÃO NÃO FORMAL E SISTEMA
                                                                 FORMAL DE ENSINO
            Unidade Didática – Movimentos Sociais




                                                    Conteúdo
                                                    •	 Uma	abordagem	reflexiva	sobre	educação	formal	e	não	formal

                                                    Competências e habilidades
                                                    •	 Compreender	o	novo	significado	da	educação	inclusiva	e	a	repercussão	na	sociedade	globalizada

                                                    Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                    Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                                                    Duração
                                                    2 h/a – via satélite com professor interativo
                                                    2 h/a – presenciais com professor local
                                                    6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




             uMA AborDAgeM reflexivA sobre                                                             No entanto, a educação formal, segundo Bour­
             eDuCAção forMAl e não forMAl                                                           dieu (1998, p. 53), serve para que sejam favorecidos
                Considera­se que a “educação é um direito de to­                                    os mais favorecidos e desfavorecidos os mais desfa­
             das as pessoas resguardado pela Política Nacional de                                   vorecidos, posto que é “necessário e suficiente que a
             Educação independente de gênero, etnia, religião ou                                    escola ignore, no âmbito dos conteúdos do ensino
             classe social” (BRASIL, 1988), o acesso à escola ex­                                   que transmite, dos métodos e técnicas de transmis­
             trapola o ato da matrícula e implica apropriação do                                    são e dos critérios de avaliação, as desigualdades
             saber e das oportunidades educacionais oferecidas à                                    culturais entre as crianças das diferentes classes so­
             totalidade dos alunos com vistas a atingir as finali­                                  ciais” em que a igualdade formal que pauta a prática
             dades da educação, a despeito da população escolar.                                    pedagógica serve como máscara e justificação para

                                                                                               226


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 226                                                                                                                 5/15/09 2:15:20 PM
AULA 7 — Os Movimentos Sociais e a Articulação entre Educação Não Formal e Sistema Formal de Ensino

              a indiferença no que diz respeito às desigualdades                 dos, dos excluídos. Ele acredita na possibilidade de
              reais diante do ensino e da cultura transmitida.                   se construir a lógica de uma ética universal do ser
                 Deve­se considerar que a tradição pedagógica                    humano, que condena a exploração da força de tra­
              só se dirige, subjacente às ideias inquestionáveis de              balho e as atitudes racistas, fundamentalistas e se­
              igualdade e da universalidade. Observe­se, no en­                  xistas. “Nenhuma pedagogia realmente libertadora
              tanto, que ela não somente exclui as interrogações                 pode ficar distante dos oprimidos” (FREIRE, 2004,
              sobre os meios mais eficazes de transmitir a todos                 p. 41). Pois Freire acredita em uma práxis autêntica,
              os conhecimentos e as habilidades que a escola exige               uma práxis que crie tensão em relação aos valores
              de todos e que as diferentes classes sociais só trans­             estabelecidos, que seja dotado de reflexão e ação e
              mitem de forma desigual (BOuRDIEu, 1998).                          que se empenhe na transformação.
                 Para cumprir o previsto por lei como direito de                    Diante dessas demandas por uma educação in­
              todo cidadão, necessita­se de uma nova escola que                  clusiva, destacamos as práxis de origem popular, ou
              aprenda a refletir criticamente sua função social,
                                                                                 seja, a Educação Popular traz uma pluralidade de
              bem como seu papel enquanto formadora de pes­
                                                                                 perspectivas, concepções teóricas e conceitos acerca
              soas, ou seja, uma escola que não tenha medo de se
                                                                                 dessa modalidade educativa, há concordância nas
              arriscar, mas coragem de criar e questionar o que
                                                                                 abordagens de diferentes autores (CALADO, 1999,
              está estabelecido, em busca de rumos inovadores.
                                                                                 1998; GOHN, 2001, 1994; MELO NETO, 1999; SA­
              Segundo Gohn (2005, p. 108),
                                                                                 LES, 1999; WANDERLEY, 1994), no sentido de que
                     A nova escola deve reconhecer a existência de de­           a Educação Popular se manifesta em um imenso
                     mandas individuais e coletivas, orientar­se para a          leque de espaços formais e não formais e em uma
                     liberdade do sujeito pessoal, para a comunicação            multiplicidade de dimensões sociais nas quais são
                     intercultural e para gestão democrática da socieda­
                                                                                 tecidas as relações cotidianas em diferentes esferas
                     de e suas mudanças. Deve aumentar a capacidade
                                                                                 do mundo concreto e da subjetividade humana.
                     dos indivíduos de ser sujeitos, de compreender o
                     outro em sua cultura.                                          Nessa perspectiva, compreendo a Educação Po­
                                                                                 pular como uma prática que, independentemente
                 E é nesse campo que a preocupação com o saber,                  dos espaços – formais, governamentais, não gover­
              com o conhecimento transmitido pela escola, com                    namentais, alternativos – nos quais se concretiza, se
              o acesso aos bens culturais e com um currículo ca­                 afirma como uma metodologia orgânica, coletiva e
              paz de ajudar na construção de uma sociedade mais
                                                                                 cooperativa que potencializa as condições de cap­
              humana e menos excludente faz que os educadores
                                                                                 tação, apreensão e leitura crítica da realidade e de
              avaliem suas práticas individuais e coletivas.
                                                                                 intervenção dos protagonistas dessa ação educativa
                 Se pretendemos oferecer aos alunos um conheci­
                                                                                 na esfera social (econômica, política, cultural), ob­
              mento significativo, o papel é desconstruir o conhe­
                                                                                 jetivando transformá­la.
              cimento produzido pela cultura dominante e ajudar
              a construir um outro saber com a participação dos                     É nesse sentido que Sales (1999, p. 115) expressa
              segmentos menos privilegiados de nossa sociedade,                  sua concepção de Educação Popular, ponto de vis­
              ou seja, é preciso que esses segmentos possam parti­               ta que serve de referência e fundamentação para as
              cipar como sujeitos e com sua real identidade.                     análises explicitadas neste texto:
                 Paulo Freire nos auxilia muito nisso. Sua luta                       A Educação Popular é um modo de atuar e tem
              contra a educação bancária e, sobretudo, sua cons­                      uma perspectiva: a apuração, organização, apro­
              trução de uma pedagogia da resistência aos proces­                      fundamento do sentir/pensar/agir dos excluídos
              sos de opressão no Brasil e na América Latina são,                      do modo de produção capitalista, dos que estão vi­
              sem dúvida, uma preocupação ética.                                      vendo ou viverão do trabalho, bem como dos seus
                 A ética de Freire está justamente na construção                      parceiros e aliados em todas as práticas e instâncias
              de uma teoria­prática para a libertação dos oprimi­                     da sociedade.

                                                                           227


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 227                                                                                                5/15/09 2:15:21 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

               Estabeleceu­se, nos últimos anos, uma polêmica               Em suma, no MST, a Educação Popular pretendi­
            entre teóricos que estudam os movimentos sociais             da é aquela que deve configurar­se como “produção
            no campo, uns defendendo, como Navarro (1997,                de uma cultura ou de um modo de sentir/pensar/
            2002), ser o MST um movimento reformista, com                agir mais coerente. É a formação de bons lutadores”
            improváveis potencialidades revolucionárias, e ou­           (SALES, 1999, p. 119), de sujeitos que experienciam
            tros, a exemplo de Petras (1997) e Carvalho (2002,           uma práxis de resistência à exploração e à expro­
            2004), abordando o Movimento dos Sem­Terra                   priação do modo capitalista de produção e que lu­
            como um movimento cujas táticas são reformistas,             tam por justiça social, soberania popular e dignida­
            como a luta por terra e reforma agrária, mas subor­          de humana.
            dinadas a uma estratégia revolucionária, um projeto             Os movimentos sociais são ambiências onde
            de construção de uma sociedade socialista.                   ocorrem a construção e a reinvenção de saberes
               Em sua abordagem do conceito de Educação Po­              (ANDRADE, 1997; CALDART, 1997, 2000; GRZY­
            pular, Sales (1999, p. 111­122) enfatiza a produção do       BOWSKI, 1987; NASCIMENTO, 1996; SCHERER­
            saber, diferenciando saber e conhecimento ao susten­         WARREN, 1996). Nesta perspectiva, a inserção de
            tar que o conhecimento é apenas uma das dimensões,           um sujeito nas lutas pela conquista de direitos civis
            a dimensão intelectual, do saber, este entendido como        e políticos, individuais e coletivos (práxis política)
            entrelaçamento dialético entre o sentir, o pensar, o         contribui para o desenvolvimento de competências
            querer e o agir das pessoas, grupos, categorias e clas­      discursivas, reflexivas, morais e políticas; para a am­
                                                                         pliação de competências e habilidades no domínio
            ses sociais. O saber inclui intelecto, afetividade, von­
                                                                         cognitivo e afetivo; para a compreensão crítica do
            tade, prática, dimensões humanas que mutuamente
                                                                         mundo e consequente expansão da consciência;
            se influenciam e se reforçam. O saber é, portanto,
                                                                         para o empreendimento de ações transformadoras,
            cultura: envolve a realidade objetiva e subjetiva das
                                                                         individuais e coletivas.
            pessoas. No confronto de saberes, nas nossas ações e
            omissões, assumimos a condição de educadores, sen­
            do nossas relações interindividuais e intersubjetivas,
            necessariamente, relações pedagógicas.                           *   ANOTAÇÕES
               É por essa razão que, nos movimentos sociais – em
            especial no MST, objeto das reflexões apresentadas –,
            a educação não se restringe aos muros da escola, mas
            estende­se a todos os processos de aprendizagem ge­
            rados pela experiência cotidiana de luta organizada,
            situando­se, preferencialmente, no universo da edu­
            cação informal ou da educação não formal.
               A prática educativa que no MST poderíamos de­
            signar como Educação Popular não desconsidera a
            escola como lugar de formação das pessoas, sendo
            esse um espaço importante dentro da intencionali­
            dade pedagógica do Movimento. Para os Sem­Terra,
            no entanto, é nas ações de luta pela terra e em outras
            lutas sociais (CALDART, 2000) que são forjados ci­
            dadãos com maior aprofundamento do seu saber,
            mais capacitados, então, para a transformação do
            atual modo de organização da sociedade.

                                                                       228


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 228                                                                                       5/15/09 2:15:22 PM
AULA 8 — Movimentos Sociais em suas Diferentes Expressões



                                                                 AULA

                                           ____________________      8
                                         MOVIMENTOS SOCIAIS EM
                                       SUAS DIFERENTES ExPRESSÕES

                 Conteúdo




                                                                                                                                    Unidade Didática – Movimentos Sociais
                 •	 Espaços	de	um	novo	associativismo
                 •	 As	interações	sociais	no	decorrer	dos	séculos

                 Competências e habilidades
                 •	 Capacidade	 de	 identificar	 as	 diferentes	 expressões	 dos	 movimentos	 sociais	 a	 partir	 da	 década	 de	
                    1990 no Brasil

                 Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                 Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                 Duração
                 2 h/a – via satélite com professor interativo
                 2 h/a – presenciais com professor local
                 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




              esPAços De uM novo AssoCiATivisMo                                   ciativismo é a expressão organizada da sociedade,
                O associativismo cinge necessidade, interesse e                   apelando à responsabilização e intervenção dos ci­
              vontade e é o lugar dos debates, das iniciativas, dos               dadãos em várias esferas da vida social, e constituiu
              acordos.                                                            um importante meio de exercer a cidadania.
                A organização associativa instrumentaliza os me­                     A importância e o valor do associativismo decorre
              canismos que dão concretude às demandas sociais                     do fato de se constituir em uma criação viva e inde­
              e que fazem dos homens sujeitos de seu próprio                      pendente; uma expressão da ação social das popula­
              destino, tornando­os mais próximos da autonomia                     ções nas mais variadas áreas. Ou seja, o Movimento
              na promoção do desenvolvimento local. O Asso­                       Associativo é um produto social. Transforma­se com

                                                                            229


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 229                                                                                                                     5/15/09 2:15:22 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            a evolução social, acompanha e participa ativamen­         XX. Nesse sentido, destacamos os seguintes movi­
            te dessa transformação e realiza­se quando tem bem         mentos: as Guerras na Bacia do Prata, a Primeira
            claros os objetivos da sua intervenção e o seu projeto     Greve de Escravos­Operários do Brasil, a Luta pela
            próprio como conteúdo fundamental da sua ação.             Eleição Direta, a Guerra do Paraguai, a Lei do Ven­
                                                                       tre Livre, a Revolta de Canudos, a Fundação da As­
            As inTerAções soCiAis no DeCorrer                          sociação Tipográfica Paulista de Socorros Mútuos,
            Dos séCulos                                                o Movimento Abolicionista, o Movimento Repu­
               Para caracterizar os movimentos em suas mais            blicano, os Movimentos grevistas, o Movimento
            diferentes e expressivas conotações, começaremos           Estudantil, entre outros.
            pelas heranças do século XVIII, as quais tinham               Os movimentos e lutas sociais no Brasil do século
            como características o desejo de liberdade da me­          XX seguem uma linha própria e independente dos
            trópole. Destacamos os principais acontecimentos:          períodos anteriores. Segundo Gohn (2003, p. 59­60),
               A Inconfidência Mineira – foi o primeiro movi­          esse século tem “tonalidade própria, criada a partir
                                                                       das novas funções que passam a se concentrar nas
            mento a definir com clareza a vontade de indepen­
                                                                       cidades. Progressivamente a indústria, e as classes
            dência do Brasil, da colônia portuguesa.
                                                                       sociais que lhes são caudatárias, orientará as ações
               A Conspiração dos Alfaiates – considerada a pri­
                                                                       e os conflitos que ocorrem no meio urbano”. O que
            meira Revolução Social Brasileira, em razão de seu
                                                                       fica evidenciado quando o Estado brasileiro trata a
            caráter de movimento social, que uniu a elite e o
                                                                       questão social como caso de polícia, por meio do
            proletariado da Bahia.
                                                                       qual as greves serão uma constante e o controle so­
               A primeira metade do século XIX é caracterizada         cial dar­se­á por meio de leis e políticas restritivas
            pelas lutas, movimentos e rebeliões nativistas, que        à entrada de trabalhadores imigrantes, com criação
            constituem eventos importantes para a construção           de programas sociais integrativos pela Igreja Católi­
            da cidadania sociopolítica do País. Mas esses levan­       ca, pelos empresários ou pelo próprio Estado.
            tes não tinham projetos bem­delineados ou estavam
                                                                          Ainda nesse período, da segunda fase, as classes
            fora do lugar. O mais importante é que as reivindi­
                                                                       populares começam a emergir como atores históri­
            cações giravam em torno da construção de espaços
                                                                       cos sob novos prismas, deixando de ser apenas casos
            nacionais no mercado de trabalho, nas legislações,         de polícia e se transformando em cidadãos com al­
            no poder político, entre outros, porém, não fomen­         guns direitos. Coroando esse momento simbolica­
            tavam que a escravidão era uma questão a ser tratada       mente de lutas dos trabalhadores, embora tenham
            e eliminada por não tratar a estrutura de produção,        sido promulgadas como dádivas governamentais,
            mas sim o modo como ela estava organizada. Nes­            foram conquistas das classes subordinadas em geral
            se período podem­se destacar os seguintes movi­            (GOHN, 2003).
            mentos: a Conspiração dos Suassunas, a Revolução
                                                                          A terceira fase ficou conhecida como populista,
            Pernambucana, os Atos de Adesões à Revolução no
                                                                       pois foi um tempo fértil para a participação social,
            Porto, a Proclamação da Independência do Brasil, a
                                                                       trazendo de volta a disputa político­partidária. Por
            Guerra Cisplatina, a Balaiada, o Movimento Cabana­
                                                                       outro lado,
            da, o Movimento Cabanagem, a Guerra dos Farra­
            pos, a Sabinada, a Revolução Praieira, entre outros.            o Estado passa também a intervir na sociedade por
               A segunda metade do século XIX é marcada por                 meio de políticas sociais de cunho clientelístico, ob­
            lutas em torno da questão agrária, de resistência às            jetivando integrar na cidade as massas recém­deslo­
                                                                            cadas do campo, e ganhar sua simpatia por meio de
            oligarquias rurais, que não tinham projetos políticos
                                                                            sistemas de barganhas: o voto pelo melhoria urbana,
            e/ou ideológicos claros. Sem contar os movimentos
                                                                            de qualquer natureza (GOHN, 2003, p. 91).
            das Associações de Auxílio Mútuo. Como também
            houve os movimentos que se aproximam das carac­               A quarta fase é marcada pelo período de resistên­
            terísticas de movimentos sociais urbanos do século         cia ao regime militar, em que ocorreram várias lu­

                                                                     230


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 230                                                                                         5/15/09 2:15:23 PM
AULA 8 — Movimentos Sociais em suas Diferentes Expressões

              tas de resistência e movimentos de protesto no País.          xa de ser sinônimo de exclusão. Então, diante desse
              Momento de grande efervescência da esquerda bra­              quadro, como ficamos?
              sileira. Em virtude do regime que imperava na so­                 Como superar as desigualdades na sociedade
              ciedade naquele momento as articulações ocorrem               atual, quando não se reconhece a fragilidade do in­
              na clandestinidade, levando a confrontos armados              divíduo na sociedade? Como enfrentar hoje, pelo
              como a única via de instalar uma nova sociedade               menos no Brasil, um problema que é genericamente
              no País. Os movimentos que mais se destacam nesse             desqualificado como exagero ou manipulação po­
              período são: o Movimento Estudantil, a Guerrilha              lítica, e que muitas vezes aparece realmente assim
              do Araguaia, a Promulgação do AI­5, a implantação             envolto? Que pontos mínimos uma agenda social
              do Movimento das Comunidades Eclesiais de Base                deve contemplar hoje em dia?
              da Igreja Católica no Brasil, a promulgação do Es­

                                                                                !
              tatuto do Índio.
                                                                                    DICA
                 A quinta fase é considerada a mais rica, por ser
              uma fase de resistência e de enfrentamento ao regi­            www.scielo.br
              me militar, como também de rearticulação da socie­
              dade civil, uma vez existia um clima de esperança,
              de crença na necessidade da retomada da democra­
              cia, e se acreditava na crença da força do povo, das            *     ANOTAÇÕES
              camadas populares, que quando organizadas po­
              dem mudar a história. Nesse período são lançados
              vários movimentos feministas, e criada a Comissão
              Pastoral da Terra, o Movimento pela Anistia, o Mo­
              vimento Sindical, o Movimento dos Sem­Terra, o
              Partido dos Trabalhadores, ocorrem grandes greves,
              entre outros.
                 A sexta e última fase caracteriza­se por ser um
              período de intensa movimentação social, em razão
              da facilidade de divulgação e reprodução das ações
              coletivas pelos meios de comunicação de massa.
              Vale ressaltar que as mobilizações coletivas nesse
              período partem de um chamamento à consciência
              individual das pessoas e elas, usualmente, têm se
              apresentado mais como “campanhas” do que como
              movimentos sociais (GOHN, 2003). Esse período
              apresenta as seguintes mobilizações: a criação da
              Central Única dos Trabalhadores (CuT), o Movi­
              mento Diretas­Já, o Movimento pela Constituinte,
              o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de
              Rua, os Movimentos Ecológicos, entre outros.
                 Pode­se dizer que ao longo da história o País teve
              lutas e movimentos empenhados em mudar sua rea­
              lidade social, mas ao mesmo tempo em que havia
              avanços o retrocesso também existia. Porém, pode­
              se afirmar que, no final do século XX, pobreza dei­

                                                                      231


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 231                                                                                    5/15/09 2:15:24 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais



                                                                                               AULA

                                                                         ____________________        9
           Unidade Didática – Movimentos Sociais




                                                       TENDÊNCIAS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA
                                                       REALIDADE BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

                                                   Conteúdo
                                                   •	 A	conjuntura	dos	movimentos	populares	nos	anos	1990
                                                   •	 O	neoliberalismo	influenciando	as	ações	sociais

                                                   Competências e habilidades
                                                   •	 Compreender	o	neoliberalismo	nas	tendências	contemporâneas	dos	movimentos	sociais	na	socieda­
                                                      de brasileira a partir do processo histórico globalizado

                                                   Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                   Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                                                   Duração
                                                   2 h/a – via satélite com professor interativo
                                                   2 h/a – presenciais com professor local
                                                   6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




                 A ConjunTurA Dos MoviMenTos                                                       res transformadores e que a crise é parcial, pois, como
                 PoPulAres nos Anos 1990                                                           diz Gohn (2005, p. 100), os “movimentos são fontes
                    Nos mais diversos ambientes sociais, é senso co­                               de ideias e práticas. As práticas fluem e refluem. As
                 mum ouvir­se falar que os movimentos sociais es­                                  ideias persistem, e se transformam agregando ele­
                 tão em crise e que a descrença e a desmobilização                                 mentos novos, ou negando velhos, segundo a con­
                                                                                                   juntura dos tempos históricos”.
                 predominam, gerando uma onda de individualismo
                 e de relações mais privadas (GOHN, 2005).
                    Vejamos. Os anos 1980 foram frutíferos para ins­                                  !    IMPORTANTE
                 taurar uma nova racionalidade no social, ou seja, o                                  •	 O	 grande	 saldo	 deste	 período	 é	 a	 demarcação	
                 direito de participar das questões que lhe diz respei­                               de espaços para a voz dos não governantes, como
                 to, interferindo diretamente na cultura política do                                  também a eclosão de novos movimentos que não
                 País nesse século.                                                                   são do meio popular.

                   Vale ressaltar, que essa mobilização e organização                                 •	 O	sindicalismo	de	empresas	foi	a	referência	para	
                                                                                                      o sindicalismo público estatal.
                 dos grupos foram consideradas virtudes com pode­

                                                                                              232


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 232                                                                                                                       5/15/09 2:15:25 PM
AULA 9 — Tendências dos Movimentos Sociais na Realidade Brasileira Contemporânea

              o neoliberalismo influenciando as ações sociais                               da pelo economista, como uma espécie de servidão
                 O debate sobre os direitos humanos na contem­                              moderna1 (ANDERSON, 1996; NETTO, 1994).
              poraneidade requer uma reflexão sobre a consti­                                  O pensamento de Hayeck rapidamente foi ga­
              tuição das relações sociais e institucionais em um                            nhando adeptos e, em 1947, ocorreu a primeira reu­
              cenário global marcado pelo capitalismo neoliberal,                           nião, em Mont Pèlerin, na Suíça, com os partidários
              pautado pela desconstrução do Estado­nação e pela                             dessa nova ideologia, no intuito de combater a polí­
              incorporação da esfera política pela econômica, re­                           tica de bem­estar keynesiana e desenvolver a base de
              velando uma verdadeira inaptidão para a socializa­                            um capitalismo livre de regras para cerceá­lo (AN­
              ção do poder político e econômico, concomitante a                             DERSON, 1996). Como argumento, uma retórica
              um novo arranjo dos espaços e das modalidades de                              requintada que apelava para um discurso que tinha
              participação social.                                                          como centro a ideia de liberdade dos cidadãos e da
                 Nessa direção, as organizações da sociedade civil,                         livre concorrência do mercado, considerados im­
              especialmente as envolvidas na garantia dos direitos                          prescindíveis para o desenvolvimento da sociedade.
              humanos, não devem ser analisadas de forma sepa­                                 Hayeck concebia o mercado como uma criação
              rada do contexto sociohistórico em que se inserem.                            da natureza e não da cultura, por isso a economia
              Para tal, faz­se necessário contextualizar brevemen­                          e os direitos sociais deveriam submeter­se às suas
              te o surgimento do projeto neoliberal e algumas de                            leis (VIEIRA, 2001). Sendo assim, o Estado de bem­
              suas implicações em nossa época, oferecendo subsí­                            estar era entendido como destrutivo à liberdade e
              dios para fomentar a discussão relacionada à socie­                           à vitalidade da concorrência, cuja desigualdade re­
              dade civil organizada.                                                        presentava um fator positivo para impulsionar as
                 Conforme Perry Anderson (1996), o neoliberalis­                            sociedades ocidentais (ANDERSON, 1996). A ideia
              mo nasce em regiões da Europa e da América do Nor­                            básica gira em torno da igualdade improdutiva, ao
              te, em um momento histórico marcado pelo apogeu                               passo que a desigualdade impelia a competição, de­
              da social­democracia, visando à reestruturação da                             senvolvia a qualidade, aquecia o mercado e aumen­
              sociedade europeia no período pós­Segunda Guer­                               tava a riqueza; desse modo, o mercado se incumbi­
              ra Mundial. A proposta neoliberal surge como uma                              ria de resolver os problemas sociais.
              crítica teórica e política a essa atuação e tem como                             Na década de 1970, a crise do modelo econômi­
              base a obra O caminho da servidão, 1944, do econo­                            co pós­guerra descerra um campo profícuo para o
              mista austríaco Friedrich Hayeck, que exalta a não                            fortalecimento e propagação das ideias neoliberais.
              limitação das barreiras comerciais entre os países.                           Para Hayeck e seus colaboradores, o problema da
                 No arco teórico idealizado por Hayeck encontra­                            crise era decorrente da atuação dos sindicatos e do
              se o arsenal com que se ergueu a política neoliberal.                         movimento operário, um calo no sapato que corroía
              uma proposta que propunha a limitação das regu­                               as bases da acumulação do capital com as reivindica­
              lações do mercado conduzidas pelo Estado. Para                                ções por melhores salários e condições de trabalho,
              Hayeck, essa intervenção representava uma ameaça                              destruindo os lucros das empresas e desencadeando a
              às “liberdades” econômicas e políticas, compreendi­                           inflação. A pressão das organizações sindicais perante


              1
                  Para Netto, o liberalismo clássico teve seus pilares destroçados quando a ordenação do capital entrou na fase do monopólio, pois tornou retrógra­
                  do os alicerces do pensamento liberal, favorecendo a redução do papel do Estado na esfera econômica e social. Ele acredita que o neoliberalismo
                  não deixa de ser uma nova concepção do liberalismo, pois está ligado a muitas particularidades deste. O liberalismo que, mediante mistificações
                  ideológicas, acabou por ser responsável por confundir e reduzir “liberdade(s) a liberalismo” e a identificá­lo com democracia, revela aí muito da
                  sua resistência ideocultural, e é nesta resistência que se ergueu o que nos tempos hodiernos denota a ofensiva neoliberal. Assim, é especialmente
                  no arco ideoteórico polarizado por Hayek e Friedman que a ofensiva neoliberal se apóia. Nesta premissa encontra­se o princípio substancial do
                  neoliberalismo: “uma argumentação teórica que restaura o mercado como instância mediadora societal elementar e insuperável e uma proposição
                  política que repõe o Estado mínimo como única alternativa e forma para a democracia” (ver NETTO, J. P. A crise do socialismo e a ofensiva neolibe-
                  ral. São Paulo: Cortez, 1994, p. 77).


                                                                                      233


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 233                                                                                                                         5/15/09 2:15:26 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            o Estado significava o aumento dos gastos direcio­                            Bolsas de Valores, à especulação financeira e à des­
            nados às políticas sociais (ANDERSON, 1996).                                  regulamentação da economia, fazendo que muitos
               Como saída para a crise, os neoliberais prediziam                          Estados fossem incorporados nessa dinâmica de
            ser necessário romper com o poder dos sindicatos,                             forma assimétrica (VIEIRA, 2001).
            cortar os gastos sociais, a focalização das políticas                            A pouca capacidade de controle das operações
            públicas e redução da intervenção do Estado na                                mundiais contribuiu para o solapamento e até desa­
                                                                                          parecimento de alguns setores econômicos na gran­
            economia, onde a busca pela estabilidade econômi­
                                                                                          de maioria dos Estados­nação. Contudo, alguns ele­
            ca deveria compor a meta principal a ser alcançada
                                                                                          mentos mantiveram­se intocados, como a facilida­
            pelos governos. Isso implicava uma disciplina orça­
                                                                                          de da cobrança de impostos e a desmobilização da
            mentária com severa restrição das políticas sociais,
                                                                                          oposição (VIEIRA, 2001).
            concomitante à restauração do “natural” índice de
                                                                                             Como consequência desse quadro, pôde­se visua­
            desemprego, uma forma de drenar o poder dos sin­                              lizar no Brasil, e na maioria dos países da América
            dicatos com o aumento da massa de mão­de­obra                                 Latina, a existência de diversos mundos que se im­
            disponível (ANDERSON, 1996).                                                  bricam em distintas realidades político­econômicas,
               A crise econômica inaugura os anos 1980, conheci­                          sociais, culturais e ambientais. Esses países vivem
            do como a década perdida. As sociedades latino­                               internamente contradições lancinantes, caracterís­
            americanas, que nunca estiveram completamente                                 ticas que os hierarquizam e os identificam como
            alheias às repercussões do capitalismo internacio­                            primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto mundo,
            nal, viveram um período de baixo crescimento eco­                             paralelo ao crescente alargamento da distância entre
            nômico. O acirramento da concentração de riquezas e                           um e outro.
            o alastramento desenfreado da pobreza se tornaram                                  O primeiro mundo não está lá fora, está aqui den­
            cada vez mais extremados, atingindo contingentes                                   tro mesmo, só que devido à desigualdade social
            consideráveis da população e fazendo emergir inú­                                  presente no país e à incapacidade de superar a po­
            meras categorias de pobreza e riqueza. Criam­se os                                 lítica oligárquica extremamente fechada e depen­
            diversos níveis de pobres: os mais ou menos pobres,                                dente, incompetente para a maioria da população,
            os subpobres, os miseráveis2 etc. Ao mesmo tem­                                    sobrevém a necessidade de modernizar­se pela via
            po, surgem, o rico extravagante, o rico comedido,                                  ideológica. A globalização é mais uma dessas mo­
                                                                                               dernizações (VIEIRA, 2001).
            o milionário, o novo rico, o quase­rico, o rico com
            dinheiro ou investimentos no exterior etc. É dessa                               No Brasil, apesar da dilapidação econômica ocor­
            época também o uso indiscriminado do vocábulo                                 rida durante a década perdida, a sociedade civil or­
            exclusão, característica de um crescimento insu­                              ganizada manteve uma atuação expressiva, uma he­
            portável entre os mundos da riqueza e da pobreza                              rança da luta contra o estado ditatorial que culminou
            (VIEIRA, 2001).                                                               no fortalecimento dos movimentos sociais e organi­
              A nova forma de acumulação do capital inter­                                zações não governamentais na defesa dos direitos hu­
            nacional, em voga desde a década de 1970, impôs                               manos em todo o País. Por isso, ao contrário do que
            novos desafios aos países pobres. Assiste­se ao de­                           supunham diversas teorias econômicas – que faziam
            senvolvimento do capital internacional atrelado às                            uma conexão direta entre a queda dos índices de
                                                                                          crescimento econômico e a apatia política e a anomia
                                                                                          social, a sociedade brasileira respondeu de maneira
            2
                Nesse contexto, as políticas sociais se revestem de inúmeras con­
                dicionalidades, voltando­se cada vez mais para o atendimento dos
                                                                                          positiva mostrando uma grande capacidade de se
                indigentes, isto é, das pessoas sem condições de gerar renda mínima       organizar perante a ofensiva neoliberal (OLIVEIRA,
                (ver VIEIRA, E. Estado e política social na década de 90. In: NO­
                GuEIRA, F. M. G. (Org.). Estado e políticas sociais no Brasil. Casca­
                                                                                          1996), cuja conquista da Constituição de 1988 cons­
                vel: Edunioste, 2001).                                                    tituiu um marco importante dessa trajetória.

                                                                                        234


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 234                                                                                                        5/15/09 2:15:26 PM
AULA 9 — Tendências dos Movimentos Sociais na Realidade Brasileira Contemporânea

                 No final dos anos 1980, a queda do Muro de Ber­                                        atores principais da procedente expansão conquis­
              lim contribuiu para a progressão do ataque neolibe­                                       tadora eram Estados, desta vez são empresas e
              ral, pois simbolizou globalmente – a derrocada do                                         conglomerados, grupos industriais e financeiros
              projeto socialista e a desqualificação da teoria so­                                      privados que pretendem dominar o mundo. Nunca
              cial de Marx – o fim da ideia de revolução (NETTO,                                        os Senhores da Terra foram tão poucos e tão pode­
                                                                                                        rosos. Esses grupos estão situados principalmente
              2005). Nesta ótica, a mensagem deixada às socieda­
                                                                                                        na tríade Estados unidos/união Europeia/Japão. A
              des é clara: os caminhos rumo a uma ordem social
                                                                                                        metade deles está baseada nos Estados unidos (RA­
              diferente são um engodo. Para “endireitar” essa situ­
                                                                                                        MONET apud DEMO, 2005).
              ação, fez­se necessário, mais do que nunca, coroar a
              “sociedade livre fundada no mercado”. E novamente                                       A corrida pela conquista de praças financeiras
              os candidatos considerados mais sensatos foram os                                    e mercados torna­se prioritária ante os países. É a
              ditos neoliberais, proclamando a invencível “dinâ-                                   lógica do capital sem pátria, acirrando as desigual­
              mica do mercado” e o capitalismo do “Estado míni-                                    dades sociais. Os conglomerados internacionais e as
              mo” como arauto de bons tempos3 (NETTO, 2005).                                       instituições financeiras multilaterais – FMI, Banco
                 A desregulamentação dos mercados e de bens e                                      Mundial, BID, Bolsas de Valores etc. – extrapolam
              serviços, a especulação financeira, a abertura econô­                                as fronteiras nacionais. A pressão dessas institui­
              mica, a flexibilização das leis trabalhistas e a priva­                              ções orienta as ações de ajuste estrutural nos países
              tização das empresas estatais são marcos da globali­                                 “subdesenvolvidos”, priorizando o desenvolvimento
              zação neoliberal que irrompem nos anos 1990 com                                      econômico e o corte orçamentário das políticas so­
              extraordinária vitalidade. Este modelo tem influen­                                  ciais (ROCHA; FERREIRA, 2006).
              ciado a economia de inúmeros países até hoje. En­                                       Porém, como ressalta Evaldo Vieira (2001), a glo­
              quanto uns se submetem às características de espo­                                   balização não ocorre de maneira semelhante para
              liação econômica, poucos grupos operam as regras                                     todos os países, já que possui graus e diferenças nas
              do jogo.                                                                             exigências para participação nas relações mundiais.
                 Com a aceleração do processo de globalização,                                     Os países pobres não possuem os mesmos trunfos
              essa característica tornou­se marcante, uma vez que                                  perante os acordos econômicos, políticos e sociais
              algumas empresas e grupos econômicos decidem o                                       travados com os grupos hegemônicos. Por isso, ela
              destino da humanidade, orientados mais pela es­                                      se caracteriza por uma competição desigual na cor­
              peculação financeira alienada, do que pela produ­                                    rida pela dominação de mercados e inserção dos
              tividade competitiva, acirrando a separação entre a                                  países na economia e cultura mundial. Ao passo que
              produção voltada para a satisfação das necessidades                                  a suspensão das barreiras nacionais destinadas ao li­
              genuinamente humanas e a autorreprodução avas­                                       vre comércio nem sempre são uma via de mão du­
              saladora – pois tudo se torna material, inclusive o                                  pla, pois os países de capitalismo muito desenvolvido
              homem –, do capital (DEMO, 2005).                                                    pregam o livre comércio para os outros, mas não para
                     A Terra vive assim uma nova era de conquista, co­                             eles (VIEIRA, 2001, p. 26).
                     mo na época da colonização. Mas, enquanto os                                     Assim, a economia global permite que os países
                                                                                                   mais ricos invadam mercados internacionais, quase
                                                                                                   sempre livres de responsabilidades, fragilizando o
              3
                  De acordo com José Paulo Netto, um dos efeitos mais lamentáveis
                  desembocados com a queda do comunismo da ex­união Soviética
                                                                                                   mercado interno e arrastando as regiões mais remotas
                  refere­se à ausência de medo por parte dos ricos, já que não há no               do globo para a mesma infernal dinâmica financeira.
                  mundo hoje – pelo menos por enquanto – um sistema que afronte
                  com credibilidade a ordem atual. Ocorre, com isso, a impressão do
                                                                                                   Não é à toa que cada uma das cem principais empresas
                  poder incontido do capital, já que não existe nenhuma corrente al­               globais vende mais do que cada um dos 120 países mais
                  ternativa que faça realmente frente ao sistema político­econômico
                  vigente (ver NETTO, J. P. A crise do socialismo e a ofensiva neoliberal.
                                                                                                   pobres exporta (RAMONET, 2003, p. 11 apud DEMO,
                  São Paulo: Cortez, 1994).                                                        2005, p. 17). Isso representa em torno de 70% do co­

                                                                                             235


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 235                                                                                                              5/15/09 2:15:27 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            mércio mundial, complicando ainda mais a desigual­            No cerne desse processo, reside a violência es­
            dade social nos países em desenvolvimento.                 trutural da sociedade capitalista que patrocina o
               No Brasil, por exemplo, um país que apresenta           acirramento das desigualdades e tensões sociais
            grandes contradições hierárquicas e de distribuição        utilizando­se como convém da classe trabalhado­
            de riquezas, a produção de grãos é suficiente para         ra, concomitantemente ao aumento da insegurança
            alimentar a população inteira de alguns países eu­         no mundo do trabalho e do desemprego. Por outro
            ropeus, contudo mantém internamente taxas para             lado, os avanços do desenvolvimento tecnológico,
            segurança alimentar. Conforme Galbraith (1987),            especialmente a automação, não têm significado
            essa contradição é um elemento da globalização,            para contribuir a melhoria da qualidade de vida do
            pois o mercado não foi estabelecido para diagnos­          trabalhador e reduzir os postos de serviços, aumen­
            ticar e atenuar os problemas sociais e promover os         tando os índices de desemprego e miséria.
            direitos humanos, tornando­se comum a condução                Até mesmo a crise da falta de emprego cumpre um
            da economia desvinculada de considerações éticas           papel específico, qual seja, a formação do exército de
            entre meios e fins.                                        reserva. Paralelo a isso, assiste­se à flexibilização e
               Ao lado da aparente liberdade, as injustiças so­        precarização do mundo do trabalho, em um esque­
            ciais são exorbitantes. A abundância da produção           ma de terceirização, cuja demissão massiva dos traba­
            de alimentos e o vertiginoso desenvolvimento da            lhadores é efetuada com vistas a uma recontratação
            tecnociência e informação convivem com a miséria           com salários decrescentes e carga horária extensiva
            crescente da maior parte dos humanos do globo.             (DEMO, 2005). Assim, cai por terra a crendice de que
            Entre os seis bilhões de habitantes do planeta, apenas     o emprego geraria sociedades mais igualitárias.
            500 milhões vivem confortavelmente, ao passo que 5,5          Nessa conjuntura, a pobreza, mais do que um in­
            milhões passam necessidades. É o mundo às avessas,         dicador de uma condição social de classe, torna­se
            observa Ramonet (RAMONET, 2003, p. 11, apud                um produto das relações em que se produzem e re­
            DEMO, 2005, p. 15).                                        produzem as desigualdades no sistema capitalista.
               Segue o mesmo ritmo das desigualdades a con­            E, mais do que um não acesso aos bens de consumo,
            centração de capital: a riqueza das 225 fortunas do        o capitalismo neoliberal versus inclusão à margem
            mundo, cerca de mais de um trilhão de euros, equi­         patrocina a violência e globaliza a pobreza, confi­
            para­se à renda anual de 47% da população mais             gurando um quadro definido pela formação econô­
            pobre do planeta. Desse modo, alguns poucos indi­          mica e social que nos alcança diariamente: trabalho
            víduos são mais ricos que países inteiros. O patri­        escravo, remuneração escassa, jornadas exaustivas
            mônio das 15 pessoas mais afortunadas do mundo             e condições de trabalho insalubres, ausência de
            é maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) de            educação de qualidade, precariedade dos serviços
            todos os países da África Subsaariana (RAMONET,            públicos, exploração sexual comercial, trabalho in­
            2003 apud DEMO, 2005).                                     formal, tráfico de seres humanos, migração forçada,
               Conforme Netto (1994), os prosélitos do capita­         xenofobia etc.
            lismo parecem ignorar que esse sistema funciona               A devastação do meio ambiente, o consumismo
            para cerca de 15% da humanidade apenas, despre­            exacerbado, a mídia de massa e a manipulação in­
            zando, por conseguinte, a generalização da pobre­          sidiosa das tecnologias da informação também são
            za que essa ordem vem produzindo. Nas últimas              fatores preocupantes da sociedade contemporânea.
            décadas do século XX, ele se manifesta pela “curva         O apelo comercial para o consumo, como forma
            decrescente” de eficiência econômico­social, ofere­        de bem­estar, deixa a sociedade à deriva do mar da
            cendo projeções de progressiva instabilidade e in­         próxima novidade, recriando necessidades huma­
            segurança, concomitante à incompatibilidade para           nas artificiais e arregimentando o lucro do capital
            com a socialização do poder político e econômico.          empresarial.

                                                                     236


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 236                                                                                     5/15/09 2:15:28 PM
AULA 9 — Tendências dos Movimentos Sociais na Realidade Brasileira Contemporânea

                 Até mesmo a escola reproduz os conceitos des­                                 mocráticos, configurando seu caráter contraditório:
              sa mesma sociedade, em um modelo de educação                                     a compatibilidade para com a socialização da políti­
              tecnicista mais voltado para o mercado do que para                               ca e ao mesmo tempo a incompatibilidade para com
              a transformação social. O trabalhador é levado a                                 a socialização do poder político.
              se apropriar das tecnologias alheias ao questiona­                                  Diante desse quadro, o debate sobre a sociedade
              mento da realidade. Com isso, encobre-se que a glo-                              civil organizada não é neutro e apresenta posições
              balização liberal destrói o coletivo e apropria-se, via                          das mais variadas. Para Mazzeo (1995), o conceito
              mercado e setor privado, das esferas pública e social                            genérico de sociedade civil organizada que pulula
              (DEMO, 2005, p. 16). Ou seja, no capitalismo do Es­                              nos tempos hodiernos não é novo, posto que a socie­
              tado mínimo, os países são levados, seja por motivos                             dade civil é produto da revolução burguesa, deriva­
              de crise orçamentária, seja pela patrulha ideológica                             da da Revolução Francesa. Isso significa que, desde
              dos defensores do livre comércio, ao desmonte das                                o período pós­revolução, é na sociedade civil que se
              políticas sociais, com a subsequente mercantilização                             encontram organizadas as classes sociais: burguesia
              dos direitos sociais – saúde, educação, previdência                              e proletariado. Por essa lógica, é na própria socieda­
              etc. – transformando­os em reles produtos para se­                               de civil que a burguesia exerce sua hegemonia, seja
              rem vendidos no mercado4 (VIEIRA, 2001).                                         por intermédio dos aparelhos ideológicos – os veí­
                 Nesse contexto de violação dos direitos humanos,                              culos de comunicação de massa, a Família, a Escola,
              ampliam­se as disparidades sociais, tensões, confli­                             a Igreja – ou pelo controle dos meios de produção.
              tos, miséria, violência e criminalidade, em paralelo                             Logo, a sociedade civil é palco das lutas de classe e
              ao surgimento de novos movimentos sociais é para                                 contradições, mas também é preciso observar que
              a economia a explosão do terceiro setor. Soma­se a                               os problemas que acometem a sociedade civil são
              isso um novo arranjo dos espaços e das modalida­                                 originários de contextos de classe.
              des de participação, o que inclui novas estratégias                                 Dessa maneira, Mazzeo (1995) acredita que as
              de ser/estar nas sociedades pelos sujeitos.                                      ONG’s representam frações importantes de parcelas
                 As lutas populares movidas por interesses de                                  particulares da sociedade civil, mas, de outro lado,
              classes foram substituídas, na contemporaneidade,                                revelam também, como subproduto, a fragmentação
              por outros movimentos: liberação sexual, femi­                                   dessa mesma sociedade.
              nismo, visibilidade gay, etc. Enquanto para alguns,
              esses movimentos sociais se caracterizam por uma                                      Podemos dizer que as ONG’s, em seu aspecto ge­
                                                                                                    nérico, acabam apresentando frações singulares, no
              massa nebulosa de indivíduos atomizados, que nem
                                                                                                    contexto da sociabilidade universal capitalista, o
              sempre se articulam com os demais, para outros, os
                                                                                                    que significa dizer que, na maioria das vezes, essas
              novos movimentos oferecem a possibilidade de dis­
                                                                                                    reivindicações, ainda que justas, ficam limitadas a
              cussão das diversidades e singularidades escamotea­                                   ações meramente pontuais, de caráter lobbista e re­
              das pelos movimentos de classe de outrora.                                            formista, de curto alcance social (MAZZEO, 1995).
                 De acordo com Netto (2005), isso revela que a
              burguesia aliada às grandes corporações capitalistas                                Demo (2005) cita Montaño (2002), que reflete o
              e as instâncias estatais acentuam uma autonomia do                               posicionamento ambíguo que vem sendo adotado
              sistema em face das aspirações dos movimentos de­                                pelas organizações não governamentais, já que não
                                                                                               querem ser Estado nem mercado, mas usufruem dos
                                                                                               dois, com um certo espírito privatizante neoliberal.
              4
                  Segundo Evaldo Vieira, não existe política social no Brasil hoje. De
                  acordo com ele, política social é uma estratégia governamental de
                                                                                                  Ao ressaltar que Estado e mercado são elemen­
                  intervenção e não um serviço de distribuição de alimentos, pura              tos históricos vigentes nas sociedades, enfatizando
                  e simplesmente (ver VIEIRA, E. Estado e política social na década
                  de 90. In: NOGuEIRA, F. M. G. (Org.). Estado e políticas sociais no
                                                                                               que é praticamente impossível viver sem eles, Demo
                  Brasil. Cascavel: Edunioste, 2001).                                          (2005) destaca ser necessário o prevalecimento do

                                                                                         237


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 237                                                                                                             5/15/09 2:15:29 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            bem comum, para o qual a garantia do bom fun­             instâncias da globalização internacional, como es­
            cionamento do Estado e dos mercados é condição            tratégia para controlar crises e instaurar uma “mo­
            decisiva. Por isso, “há que se combater o Estado e        ral controladora” nos países periféricos.5
            mercado capitalistas” (p. 8), diz ele. E as organiza­        Na opinião de Boaventura de Sousa Santos (2005),
            ções não governamentais parecem caminhar na               a proliferação de discursos, por vezes ambíguos,
            sombra desse quadro, ora transitando em um, ora           sobre o Estado e a sociedade civil revela em parte
            em outro.                                                 a utilização indiscriminada dos esquemas concei­
               Todavia, alguns autores apontam uma série de va­       tuais de análise provindos do século XIX, logo in­
            lores que caracterizam e diferenciam as organizações      capazes de se adequar com inteireza aos processos
            não governamentais do Estado, como a transparên­          sociais da atualidade. Por outro lado, a categoria de
            cia, os métodos participativos de atuação e gestão, a     Estado­nação predomina enquanto suporte de in­
            disponibilidade de aprendizagem, a busca para o de­       vestigação suprema, o que dificulta a compreensão
            senvolvimento da sociedade e a justiça social, entre      científica dos processos locais infraestatais e dos
            outros (HAYLEY, 2000 apud PEDLOWSKI, in SILVA,            movimentos globais do sistema mundial. Assim,
            2002).                                                    mesmo com os esforços teóricos inovadores das
               Já para Robinson (1997 apud PEDLOWSKI, in              últimas décadas, a teoria sociológica ainda se man­
            SILVA, 2002), o que caracteriza o real pertencimen­       tém arraigada às experiências sociais das sociedades
            to das ONGs à sociedade civil é a capacidade de           centrais – centrocentrismo –, caindo­se no risco de
            implementar e afetar a formulação das políticas           excessiva generalização. Sendo assim, a distinção
            públicas. No outro extremo, Korten (1991 apud             Estado/sociedade civil evidencia uma “ortodoxia
            PEDLOWSKI, in SILVA, 2002) afirma ser cada vez            conceptual”, cuja predominância no discurso polí­
            mais frequente a adoção dos valores de mercado            tico também revela uma falência teórica. Portanto,
            pelas organizações não governamentais, ao mesmo           a discussão nem de longe está encerrada, e precisa,
            tempo em que elas acreditam continuar mantendo            cada vez mais, lançar luz sobre os processos históri­
            seus objetivos estratégicos e de autonomia no forta­      cos de sua constituição.
            lecimento da sociedade civil. Segundo ele, esse hi­
            bridismo comporá o perfil das ONGs prestadoras
            de serviço no futuro.
               Outro ponto que merece ser analisado no cenário
                                                                          *      ANOTAÇÕES

            que envolve as organizações não governamentais
            na atualidade são as reflexões apontadas pelo an­
            tropólogo Bernard Haurs. Ele chama atenção para
            a importância da autonomia das organizações não
            governamentais nos países em desenvolvimento, es­
            pecialmente no que se refere aos recursos financei­
            ros e a sustentabilidade de suas ações, para que não
            dependam dos financiamentos estrangeiros. Para
            Haurs, muitas organizações sediadas nos países ri­
            cos com atuação de campo nos países pobres apre­
            sentam uma estratégia de recolonização comercial,
            composta por métodos de dominação complexos e
            revestidas por um viés humanitário. Desse modo,
                                                                      5
                                                                          Ver entrevista: “Bernard Hours: crítica à ideologia humanitária”, por
            por trás dos elementos aparentemente inocentes da
                                                                          Izabela Moi. Disponível no endereço eletrônico <http://arruda.rits.
            “ajuda humanitária” se escondem os interesses de              org.br>. Consultado em: 10 dez. 2007.


                                                                    238


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 238                                                                                                     5/15/09 2:15:30 PM
AULA 10 — Redes de Ações Coletivas



                                                                 AULA

                                           ____________________  10
                                           REDES DE AÇÕES COLETIVAS




                                                                                                                             Unidade Didática – Movimentos Sociais
                 Conteúdo
                 •	 As	ações	coletivas
                 •	 Principais	características	das	redes	de	movimentos

                 Competências e habilidades
                 •	 Capacidade	de	articular	os	mais	diversos	espaços	de	interações	e	discussões	da	política	pública	na	
                    sociedade

                 Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                 Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.

                 Duração
                 2 h/a – via satélite com professor interativo
                 2 h/a – presenciais com professor local
                 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




              As Ações ColeTivAs                                               des enquanto forma de relação social que atua se­
                 Neste último ponto, trataremos da nova perspectiva            gundo objetivos estratégicos, produzindo resultados
              para os movimentos sociais a partir da década de 1990,           estratégicos para os movimentos e para a sociedade
              em que ele assume novas formas de ações coletivas                em geral, se colocam como espaços para uma ação
              para entendermos o significado político, econômico               coletiva disposta a defender a esfera pública e de
              e cultural. Vinculada a essa discussão, a forma como             responder à crise da noção de cidadania.
              a sociedade civil se organiza diante desse contexto de              É importante destacar que, no âmbito da presen­
              crise, no qual impera o individualismo. Por outro lado,          te pesquisa, consideramos que as redes não se cons­
              existe por parte de alguns movimentos e/ou organiza­             troem exclusivamente de organizações da sociedade
              ções a preocupação de trabalhar com essas demandas               civil, mas incluem uma multiplicidade de atores de
              por meio da organização de uma rede que consolide                organizações governamentais e outras de natureza
              os anseios do grupo em todos os aspectos.                        pública, como são as Defensorias e Promotorias de
                 Sendo assim, a atuação em rede é uma resposta à               Justiça, as Comissões de Direitos Humanos das As­
              individualização que desintegra a cidadania. As re­              sembleias e Câmaras Legislativas.

                                                                         239


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 239                                                                                                           5/15/09 2:15:31 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

               A organização em redes também contribui para              cional, mas ético­político, as redes sociais pavimen­
            uma nova leitura da realidade e coloca novos signifi­        tam o caminho para ressignificação do ator social
            cados às transformações sociais, conforme aponta             diante de si e do mundo.
            Scherer­Warren (apud GOSS; PRuDêNCIO, 2004). O                  O desafio é compreender as organizações em re­
            destaque é para o fim da crença em uma única orien­          des, os movimentos sociais e as organizações da so­
            tação para a transformação social (desfundamen­              ciedade civil, resultado de uma série de composições
            talização), a existência de atores diversos reivindican­     históricas, paradoxais, não lineares e, por vezes, an­
            do projetos distintos (descentramento), o combate            tagônicas, diante da hegemonia das sociedades de
            aos essencialismos em direção ao interculturalismo e         mercado globalizadas.
            o engajamento dialógico na rede, para a superação da
            distinção teórica e prática, ou seja, entre a produção       Principais características das redes
            intelectual, a mediação e a militância.                      de movimentos
               Nesse sentido, a sociedade civil e os movimentos             Segundo Scherer­Warren (1996, p. 119­122), po­
            sociais ligados à defesa dos direitos humanos assu­          de­se fomentar que as redes de movimentos que se
            mem um papel importante, no sentido de fazerem               têm formado no Brasil apresentam algumas carac­
            frente ao discurso hegemônico que pretende legi­             terísticas em comum, quais sejam:
            timar as relações de poder pelas práticas estigma­                a) Articulação de atores e movimentos sociais
            tizantes. Considerando que a luta dos movimentos                     e culturais. Essas articulações podem ocorrer
            sociais se dá em um campo discursivo para a con­                     de forma diversificada e por razões múltiplas.
            quista de cidadania, de direitos e, sobretudo, da                 b) Transnacionalidade. Este aspecto apresenta­se
            liberdade diante das práticas de poder, e que essa                   com diferente intensidade nas diversas redes.
            mesma luta está pautada pela democratização das                      Nas ONGs, frequentemente, as suas possibi­
            relações sociais a partir da defesa do sujeito, os ato­              lidades de sustentação material encontram­se
            res sociais que estão assumidamente inseridos na                     nas redes de financiamento internacionais.
            luta pelos direitos têm pela frente o desafio de de­              c) Pluralismo organizacional e ideológico. Ma­
            senvolver identidades de resistências e de projetos                  nifesta­se pelo fato de os mesmos atores so­
            capazes de redefinir a posição dos atores sociais na                 ciais participarem de várias organizações ou
            sociedade, fazendo que busquem a mudança na es­                      redes, ou pelo fato de a mesma organização
            trutura das relações sociais estigmatizantes.                        incorporar atores com concepções ideológi­
               O advocacy, a mobilização e a ação política e as                  cas ou simpatias partidárias variadas.
            intervenções operadas nesse contexto, quando arti­                d) Atuação nos campos cultural e político. Se os
            culadas e desenhadas estrategicamente com a parti­                   movimentos sociais da década de 1970 e início
            cipação dos atores, potencializam esse sujeito que se                dos anos 1980 tiveram sua relevância na cons­
            descapitaliza socialmente diante da deterioração de                  tituição de novos atores sociais e na redefinição
            sua identidade enquanto cidadão. Ou seja, a inter­                   dos espaços de cidadania, as redes de movi­
            subjetividade remete ao reconhecimento das teias e                   mentos tendem a atuar no sentido da forma­
            das redes sociais, criando um sentido singular de ser                ção de novos sistemas de valores, sobretudo em
            existente, de ser capaz (FALEIROS, 1997).                            relação ao binômio liberdade e sobrevivência.
               As redes, portanto, surgem como matrizes pela
            qual é possível pensar os direitos humanos e como
            respostas da sociedade globalizada e da informação
                                                                                !   DICA
                                                                             www.promenino.org.br
            a demandas apresentadas por essa mesma socieda­
                                                                             www.inter­redes.org.br
            de. Pensada não só do ponto de vista técnico opera­

                                                                       240


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 240                                                                                         5/15/09 2:15:32 PM
Referências

                referências                                               social continuada (resposta a Zander Navarro).
              ANDERSON, P. Balanço do neoliberalismo. In:                 In: SANTOS, Boaventura de Souza (Org.).
              GENTILI, P.; SADER, E. (Org.). Pós-neoliberalismo:          Produzir para viver: os caminhos da produção não
              as políticas sociais e o estado democrático. São            capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
              Paulo: Paz e Terra, 1996.                                   2002. 515 p.
              ANDRADE, Márcia Regina de Oliveira. O                       CARVALHO, Horácio Martins. Tática reformista,
              Movimento dos Trabalhadores Sem­Terra e a                   estratégia revolucionária. In: STÉDILE, João Pedro
              educação: a perspectiva da construção de um novo            (Org.). A questão agrária na década de 90. Porto
              homem e da continuidade do Movimento. In:                   Alegre: Editora da uFRGS, 2004. 322p.
              STÉDILE, João Pedro (Org.). A reforma agrária e a           DEMO, P. Dureza: pobreza política de mulheres
              luta do MST. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 318 p.         pobres. Campinas: Autores Associados, 2005.
              BLuMER, H. Collective Behaviour. In: PARK, R.               DIAS, E. C. Arqueologia dos movimentos sociais.
              (Ed.). An Outline of the Principles of Sociology.           In: GOHN, M. G. M. Movimentos sociais no início
              New York: Barnes & Noble, 1939.                             do século XXI: antigos e novos atores. Petrópolis:
              BOBBIO, N. O futuro da democracia: uma defesa               Vozes, 2004. p. 91­111.
              das regras do jogo. São Paulo: Paz e Terra, 2000.           FALCÃO, M. C. A seguridade na travessia do
              BOuRDIEu, P. In: NOGuEIRA, M. A.; CATANI,                   estado assistencial brasileiro. In: SPOSATI, A. O.
              A. (Seleção, organização, introdução e notas).              Os direitos (dos desassistidos) sociais. São Paulo:
              Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998.              Cortez, 2006.
              BRASIL. Constituição da República Federativa                FALEIROS. V. P. A política social do Estado
              do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988.                  capitalista. São Paulo: Cortez, 1997.
              CALADO, Alder Julio Ferreira. Educação                      FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro:
              popular nos movimentos sociais no campo:                    Paz e Terra, 2004.
              potencializando a relação macro­micro no                    FROMM, E. Escape from freedom. New York:
              cotidiano como espaço de exercício da cidadania.            Rinehart, 1941.
              In: SCOCuGLIA, Afonso Celso; MELO NETO,
                                                                          GALBRAITH, J. K. A economia política: uma história
              José Francisco (Org.). Educação popular: outros
                                                                          crítica. Europa­América: Mem Martins, 1987.
              caminhos. João Pessoa: Editora universitária/
                                                                          GOHN, M. G. M. História dos movimentos sociais
              uFPB, 1999. 184 p.
                                                                          e lutas sociais: a construção da cidadania dos
              CALADO. Reproblematizando o(s) conceito(s) de
                                                                          brasileiros. São Paulo: Loyola, 2003.
              educação Popular. In: COSTA, Marisa Vorraber
              (org.). Educação popular hoje. São Paulo: Loyola,           _______. Movimentos sociais e educação. São Paulo:
              1998. p. 123­146.                                           Cortez, 2005.
              CALDART, Roseli Salete. A pedagogia da                      _______. GOHN, M. G. M. Movimentos sociais
              luta pela terra: o movimento social como                    no início do século XXI: antigos e novos atores.
              princípio educativo. In: REuNIÃO ANuAL DA                   Petrópolis: Vozes, 2004.
              ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQuISA E                           _______. Teorias dos movimentos sociais:
              PÓSGRADuAÇÃO – ANPED, 23, 2000, Caxambu/                    paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo:
              MG. Anais... Caxambu: ANPED,                                Loyola, 2007.
              2000. 1 CD­ROM.                                             GOSS, K. P; PRuDêNCIO, K. O conceito de
              _______. Educação em movimento: formação de                 movimentos sociais revisitado. Em tese, v. 2, n. 1,
              educadoras e educadores do MST. Petrópolis:                 jan./jul. 2004.
              Vozes, 1997.                                                GRAMSCI, A. Maquiavel, a política e o estado
              CARVALHO, H. M. A emancipação do                            moderno. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização
              movimento no movimento de emancipação                       Brasileira, 1984.

                                                                    241


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 241                                                                                    5/15/09 2:15:33 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

            GRZYBOWSKI, C. Caminhos e descaminhos dos                 as políticas sociais e o estado democrático. São
            movimentos sociais no campo. Petrópolis/RJ:               Paulo: Paz e Terra, 1996.
            FASE/Vozes, 1987.                                         PETRAS, James. Os camponeses: uma nova força
            HEBERLE, R. Social Movements. An Introduction             revolucionária na América Latina. In: STÉDILE,
            to Political Sociology. New York: Appleton­Century­       João Pedro (Org.). A reforma agrária e a luta do
            Crofts, 1951.                                             MST. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 318p.
            HOFFER, E. The true believer: Thoughts on the             RAMOS, L. C. S. A sociedade civil em tempos de
            Nature of Mass Movements. New York: Mentor,               globalização: uma perspectiva neogramsciana.
            1951.                                                     2005. Dissertação (Mestrado) – Instituto de
            JACOBI, P. R. Políticas sociais locais e os desafios      Relações Internacionais da Pontifícia universidade
            da participação citadina. Ciência & Saúde Coletiva,       Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
            n. 7, p. 443­454, 2002.                                   ROCHA, S; FERREIRA, V. uma breve
            KORNHAuSER, W. The politics of mass society.              contextualização obre o Sistema Único de Saúde
            Glencoe: Freepress, 1959.                                 (SuS). In: HOLANDA, V. Articulando o ativismo
            LIPSET, S. M. Agrarian socialism. Berkeley:               em AIDS no nordeste. Grupo de Resistência Águia
            Califórnia Press, 1950.                                   Branca, 2006.
            MARSHALL, T. H. Cidadania, classe social e status.        SALES, Ivandro da Costa. Educação popular: uma
            São Paulo: Zahar, 1967.                                   perspectiva, um modo de atuar. In: SCOCuGLIA,
            MAZZEO, A. C. Notas sobre o capitalismo                   Afonso Celso; MELO NETO, José Francisco (Org.).
            e contemporaneidade. In: Sociologia política              Educação popular: outros caminhos. João Pessoa:
            marxista. São Paulo: Cortez, 1995.                        Editora universitária, 1999. p. 111­134.
            MELO NETO, José Francisco. Educação popular:              SANTOS, Boaventura de Sousa. O Estado e os
            uma ontologia. In: SCOCuGLIA, Afonso Celso,               modos de produção de poder social. In: Pela mão
            MELO NETO, José Francisco (Orgs.). Educação               de Alice: o social e o político na pós­modernidade.
            popular: outros caminhos. João Pessoa: Editora            São Paulo: Cortez, 2005.
            universitária/uFPB, 1999. 184 p.
                                                                      SCHERER­WARREN, Ilse. Redes de movimentos
            NASCIMENTO, Severina Ilza. Educação e
                                                                      sociais. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1996.
            movimentos sociais rurais no Brasil e especificamente
                                                                      SERAPIONI, M. A participação dos cidadãos
            na Paraíba. In: CALADO, Alder Julio Ferreira (Org.).
                                                                      no sistema de saúde: a experiência dos comitês
            Movimentos sociais, Estado e educação no Nordeste.
                                                                      consultivos mistos. Petrópolis: Vozes, 2003.
            João Pessoa: Idéia, 1996. 154 p.
            NAVARRO, Z. Sete teses equivocadas sobre as lutas         SILVA, J. O relatório final da pesquisa organizações
            sociais no campo, o MST e a reforma agrária. In:          não-governamentais e assistência social no Vale
            STÉDILE, João Pedro (Org.). A reforma agrária e a         do Rio Sinos. São Leopoldo: universidade
            luta do MST. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 318p.        do Vale do Rio Sinos, 2002.
            NAVARRO, Zander. Mobilização sem emancipação              VIEIRA, E. Estado e políticas social na década de 90.
            – as lutas sociais dos sem­terra no Brasil. In:           In: NOGuEIRA, F. M. G. (Org). Estado e políticas
            SANTOS, Boaventura de Souza (Org.). Produzir              sociais no Brasil. Cascavel: Edunioeste, 2001.
            para viver: os caminhos da produção não                   WANDERLEY, Luiz Eduardo. Formas e orientações
            capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,      da educação popular na América Latina. In:
            2002. 515p.                                               GADOTI, Moacir; TORRES, Carlos A. Educação
            NETTO, J. P. A crise do socialismo e a ofensiva           popular: utopia latino­americana. São Paulo:
            neoliberal. São Paulo: Cortez, 1994.                      Cortez/Edusp, 1994. p. 50­68.
            OLIVEIRA, F. Neoliberalismo à brasileira. In:             YAZBEK, M. C. Classes subalternas e assistência
            GENTILI, P.; SADER, E. (Org.). Pós-neoliberalismo:        social. São Paulo: Cortez, 2006.

                                                                    242


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 242                                                                                  5/15/09 2:15:33 PM
Unidade Didática — Movimentos Sociais

                                              Direito Social e Movimentos Sociais



                                           SEMINÁRIO INTEgRADO

                                                                    Caro(a) Acadêmico(a),

                                                                    A unidade didática Seminário Integrado visa a
                                                                 articulação das unidades existentes no módulo, e a
                                                                 percepção da aplicação prática dos conteúdos mi­
                                                                 nistrados.
                                                                    Por meio da interdependência adquirida com as
                                                                 unidades didáticas deste Seminário, o futuro pro­
                                                                 fissional será capaz de articular a teoria, adquirida
                                                                 no ensino superior, com a prática exigida no coti­
                                                                 diano da profissão. Para tanto, é necessário o enten­
                                                                 dimento de que os conteúdos, de cada unidade Di­
                                                                 dática, permitirão um estudo integrado, formando
                                                                 um profissional completo e compromissado com o
                                                                 mercado de trabalho.
                                                                    Ao desenvolver esta unidade, você deverá aplicar
                                                                 todos os conhecimentos adquiridos no decorrer do
                                                                 módulo, elaborando uma atividade.
                                                                    A atividade referente ao Seminário Integrado está
                                                                 disponibilizada no Portal da Interativa.

                                                                    Bom trabalho!

                                                                                    Professores Interativos do Módulo




                                                              243


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 243                                                                             5/15/09 2:15:34 PM
*      ANOTAÇÕES




                                           244


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 244         5/15/09 2:15:34 PM
*      ANOTAÇÕES




                                           245


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 245         5/15/09 2:15:35 PM
AULA 1 — Movimentos Sociais




                                                      246


Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 246                                 5/15/09 2:15:35 PM

Servico social 2009_4_5

  • 1.
    Educação sem fronteiras SERVIÇO SOCIAL Autores Professora Especialista Edilene Maria de Oliveira Araújo Professora Ma. Amirtes Menezes de Carvalho de Silva Professora Ma. Angela Cristina Dias do Rego Catonio Professora Ma. Maria Clotilde Pires Bastos 4 www.interativa.uniderp.br www.unianhanguera.edu.br Anhanguera Publicações Valinhos/SP, 2009 00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 1 5/28/09 3:24:30 PM
  • 2.
    © 2009 AnhangueraPublicações Proibida a reprodução final ou parcial por qualquer meio de Ficha Catalográfica realizada pela Bibliotecária impressão, em forma idêntica, resumida ou modificada em língua Alessandra Karyne C. de Souza Neves – CRB 8/6640 portuguesa ou qualquer outro idioma. Impresso no Brasil 2009 S514 Serviço social / Edilene Maria de Oliveira Araújo ...[et al.]. - Valinhos : Anhanguera Publicações, 2009. 256 p. - (Educação sem fronteiras ; 4). ISBN: 978-85-62280-44-3 1. Comunicação – Metodologia da pesquisa. 2. Direito – Legislação social. 3. Movimento social. I. Araújo, Edilene Maria de Oliveira. II. Título. III. Série. ANHANGUERA EDUCACIONAL S.A. CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE CAMPO GRANDE/MS CDD: 360 Presidente Prof. Antonio Carbonari Netto Diretor Acadêmico Prof. José Luis Poli Diretor Administrativo Adm. Marcos Lima Verde Guimarães Júnior ANHANGUERA PUBLICAÇÕES CAMPUS I Diretor Chanceler Prof. Diógenes da Silva Júnior Profa. Dra. Ana Maria Costa de Sousa Reitor Gerente Acadêmico Prof. Dr. Guilherme Marback Neto Prof. Adauto Damásio Vice-Reitor Gerente Administrativo Profa. Heloísa Helena Gianotti Pereira Prof. Cássio Alvarenga Netto Pró-Reitores Pró-Reitor Administrativo: Adm. Marcos Lima Verde Guimarães Júnior Pró-Reitora de Graduação: Profa. Heloisa Helena Gianotti Pereira Pró-Reitor de Extensão, Cultura e Desporto: Prof. Ivo Arcângelo Vendrúsculo Busato ANHANGUERA EDUCACIONAL S.A. UNIDERP INTERATIVA Diretor Prof. Dr. Ednilson Aparecido Guioti Coodernação Prof. Wilson Buzinaro COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA Profa. Terezinha Pereira Braz / Profa. Aparecida Lucinei Lopes Taveira Rizzo / Profa. Maria Massae Sakate / Profa. Adriana Amaral Flores Salles / Profa. Lúcia Helena Paula Canto (revisora) PROJETO DOS CURSOS Administração: Prof. Wilson Correa da Silva / Profa. Mônica Ferreira Satolani Ciências Contábeis: Prof. Ruberlei Bulgarelli Enfermagem: Profa. Cátia Cristina Valadão Martins / Profa. Roberta Machado Pereira Letras: Profa. Márcia Cristina Rocha Figliolini Pedagogia: Profa. Vivina Dias Sol Queiroz Serviço Social: Profa. Maria de Fátima Bregolato Rubira de Assis / Profa. Ana Lúcia Américo Antonio Tecnologia em Gestão e Marketing de Pequenas e Médias Empresas: Profa. Fabiana Annibal Faria de Oliveira Biazetto Tecnologia em Gestão e Serviço de Saúde: Profa. Irma Marcario Tecnologia em Logística: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias Tecnologia em Marketing: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias Tecnologia em Recursos Humanos: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias 00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 2 5/28/09 3:24:30 PM
  • 3.
    Nossa Missão, NossosValores _______________________________ A Anhanguera Educacional completa 15 anos em 2009. Desde sua fundação, buscou a ino- vação e o aprimoramento acadêmico em todas as suas ações e programas. É uma Instituição de Ensino Superior comprometida com a qualidade dos cursos que oferece e privilegia a preparação dos alunos para a realização de seus projetos de vida e sucesso no mercado de trabalho. A missão da Anhanguera Educacional é traduzida na capacitação dos alunos e estará sempre preocupada com o ensino superior voltado às necessidades do mercado de trabalho, à adminis- tração de recursos e ao atendimento aos alunos. Para manter esse compromisso com a melhor relação qualidade/custo, adotaram-se inovadores e modernos sistemas de gestão nas instituições de ensino. As unidades no Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul preservam a missão e difundem os valores da Anhanguera. Atuando também no Ensino a Distância, a Anhanguera Educacional orgulha-se de poder es- tar presente, por meio do exemplar trabalho educacional da Uniderp Interativa, nos seus pólos espalhados por todo o Brasil. Boa aprendizagem e bons estudos! Prof. Antonio Carbonari Netto Presidente — Anhanguera Educacional 00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 3 5/28/09 3:24:31 PM
  • 4.
    . 00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 4 5/28/09 3:24:31 PM
  • 5.
    AULA 1 —A Base do Pensamento Econômico Apresentação ____________________ A Universidade Anhanguera/UNIDERP, ao longo de sua existência, prima pela excelência no desenvolvimento de seu sólido projeto institucional, concebido a partir de princípios modernos, arrojados, pluralistas, democráticos. Consolidada sobre patamares de qualidade, a Universidade conquistou credibilidade de par- ceiros e congêneres no país e no exterior. Em 2007, sua entidade mantenedora (CESUP) passou para o comando do Grupo Anhanguera Educacional, reconhecido pelo compromisso com a qualidade do ensino, pela forma moderna de gestão acadêmico-administrativa e pelos propósi- tos responsáveis em promover, cada vez mais, a inclusão e a ascensão social. Reconhecida pela ousadia de estar sempre na vanguarda, a Universidade impôs a si mais um desafio: o de implantar o sistema de ensino a distância. Com o propósito de levar oportunida- des de acesso ao ensino superior a comunidades distantes, implantou o Centro de Educação a Distância. Trata-se de uma proposta inovadora e bem-sucedida, que, em pouco tempo, saiu das frontei- ras do Estado do Mato Grosso do Sul e se expandiu para outras regiões do país, possibilitando o acesso ao ensino superior de uma enorme demanda populacional excluída. O Centro de Educação a Distância atua por meio de duas unidades operacionais: a Uniderp Interativa e a Faculdade Interativa Anhanguera(FIAN). Com os modelos alternativos ofereci- dos e respectivos pólos de apoio presencial de cada uma das unidades operacionais, localizados em diversas regiões do país e exterior, oferece cursos de graduação, pós-graduação e educação continuada, possibilitando, dessa forma, o atendimento de jovens e adultos com metodologias dinâmicas e inovadoras. Com muita determinação, o Grupo Anhanguera tem dado continuidade ao crescimento da Instituição e realizado inúmeras benfeitorias na estrutura organizacional e acadêmica, com re- flexos positivos nas práticas pedagógicas. Um exemplo é a implantação do Programa do Livro- Texto – PLT, que atende às necessidades didático-pedagógicas dos cursos de graduação, viabiliza a compra, pelos alunos, de livros a preços bem mais acessíveis do que os praticados no mercado e estimula-os a formar a própria biblioteca, promovendo, assim, a melhoria na qualidade de sua aprendizagem. É nesse ambiente de efervescente produção intelectual, de construção artístico-cultural, de formação de cidadãos competentes e críticos, que você, acadêmico(a), realizará os seus estudos, preparando-se para o exercício da profissão escolhida e uma vida mais plena na sociedade. Prof. Guilherme Marback Neto 00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 5 5/28/09 3:24:31 PM
  • 6.
  • 7.
    Autores ____________________ AMIRTES MENEZES DE CARVALHO E SILVA Graduação: Pedagogia – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS – 1998 Pós-graduação: Fundamentos da Educação – Área de Concentração: Psicologia da Educação – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS – 2001 Mestrado: Em Educação – Área de Concentração: Psicologia – Universidade de Mato Grosso do Sul – UFMS – 2003 EDILENE MARIA DE OLIVEIRA ARAÚJO Graduação: Serviço Social – Faculdades Unidades Católica de Mato Grosso – FUCMT – 1986 Pós-graduação Lato Sensu: Formação de Formadores em Educação de Jovens e Adultos – Universidade Nacional de Brasília – UNB – 2003 Pós-graduação Lato Sensu: Gestão de Iniciativas Sociais – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ – 2002 Pós-graduação Lato Sensu: Administração em Marketing e Comércio Exterior – UCDB – 1998 ANgELA CRISTINA DIAS DO REgO CATONIO Graduação: Letras – Língua Portuguesa e Língua Inglesa/Universidade Católica Dom Bosco – UCDB, Campo Grande/MS – 1996 Especialização: Comunicação Social/Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, São Paulo/SP, 1999 Mestrado: Comunicação Social/Universidade Metodista de São Paulo – IMESP, São Bernardo do Campo/SP, 2000 MARIA CLOTILDE PIRES BASTOS Graduação: Pedagogia com Habilitação em Administração e Supervisão Escolar de 1º e 2º Graus – Universidade Católica Dom Bosco – UCDB – 1981 Pós-graduação Lato Sensu: Metodologia do Ensino Superior – Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal – UNIDERP – 1988 Pós-graduação Strictu Sensu: Educação – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS – 1997 00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 7 5/28/09 3:24:31 PM
  • 8.
  • 9.
    Sumário ____________________ MÓDULO – COMUNICAÇÃO E METODOLOgIA DA PESQUISA UNIDADE DIDÁTICA – ESTÁgIO SUPERVISIONADO EM SERVIÇO SOCIAL AULA 1 Estágio supervisionado e a prática do saber ...................................................................................... 3 AULA 2 Legislação e a profissão do assistente social ....................................................................................... 13 UNIDADE DIDÁTICA – COMUNICAÇÃO SOCIAL AULA 1 Linguagem e sua função social ........................................................................................................... 23 AULA 2 Modalidades verbais e não verbais na comunicação ......................................................................... 29 AULA 3 Comunicação: conceitos e modelos ................................................................................................... 33 AULA 4 Funções da linguagem e tipos de comunicação................................................................................. 38 AULA 5 Habilidades em comunicação............................................................................................................. 42 AULA 6 Comunicação e novas tecnologias da comunicação ......................................................................... 46 AULA 7 Relações humanas ............................................................................................................................... 49 AULA 8 Comportamento e moda .................................................................................................................... 51 UNIDADE DIDÁTICA – METODOLOgIA DA PESQUISA CIENTÍFICA AULA 1 O conhecimento e a ciência ................................................................................................................ 59 AULA 2 O método científico ............................................................................................................................ 63 AULA 3 O processo de pesquisa ....................................................................................................................... 67 AULA 4 A pesquisa qualitativa ......................................................................................................................... 72 AULA 5 Leitura e registro ................................................................................................................................. 76 AULA 6 Apresentação de trabalhos acadêmicos – Normas da ABNT ............................................................ 79 SEMINÁRIO INTEGRADO..................................................................................................................... 94 00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 9 5/28/09 3:24:32 PM
  • 10.
    MÓDULO – DIREITOSOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS UNIDADE DIDÁTICA – DIREITO E LEgISLAÇÃO SOCIAL AULA 1 A aplicabilidade do direito no serviço social ..................................................................................... 97 AULA 2 A pessoa e seu inter-relacionamento social ....................................................................................... 106 AULA 3 A institucionalização da sociedade..................................................................................................... 118 AULA 4 O direito familiar ................................................................................................................................ 132 AULA 5 A estruturação dos direitos constitucionais e as garantias fundamentais: direitos humanos e cidadania ........................................................................................................................................... 143 AULA 6 O direito infraconstitucional e suas aplicações no serviço social – a legislação social e a proteção da sociedade ........................................................................................................................................ 160 AULA 7 O direito trabalhista e as relações políticas de trabalho .................................................................... 169 AULA 8 O direito previdenciário – sistema brasileiro de seguridade social .................................................. 193 UNIDADE DIDÁTICA – MOVIMENTOS SOCIAIS AULA 1 Movimentos sociais............................................................................................................................. 209 AULA 2 Aspectos teóricos – histórico dos movimentos sociais no Brasil ...................................................... 212 AULA 3 Movimentos sociais e cidadania ......................................................................................................... 215 AULA 4 Políticas sociais – a contribuição dos movimentos sociais ............................................................... 218 AULA 5 A sociedade civil e a construção de espaços públicos........................................................................ 221 AULA 6 O caráter educativo do movimento social popular ........................................................................... 223 AULA 7 Os movimentos sociais e a articulação entre educação não formal e sistema formal de ensino .... 226 AULA 8 Movimentos sociais em suas diferentes expressões ........................................................................... 229 AULA 9 Tendências dos movimentos sociais na realidade brasileira contemporânea .................................. 232 AULA 10 Redes de ações coletivas ...................................................................................................................... 239 SEMINÁRIO INTEGRADO..................................................................................................................... 243 00_Abertura_SSocial_4Sem.indd 10 5/28/09 3:24:32 PM
  • 11.
    Módulo DIREITO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS Professora Ma. Laura Marcia Rosa dos Santos Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 207 5/15/09 2:15:07 PM
  • 12.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais Apresentação Caro(a) acadêmico(a), Conhecer a mobilidade das classes sociais no Brasil é muito importante. Diante dessa proposta, esta uni­ dade didática tem como objetivo estudar e compreender as temáticas classes sociais e as influências dos mo­ vimentos sociais no Brasil. Correlacionar os fenômenos sociais que ocorrem na sociedade brasileira ao longo dos tempos com a atuação do serviço social se faz necessário para se entender como esse fenômeno interfere na ação diária do profissional da área social. Se olharmos para o passado, observamos que as lutas que aconteceram não foram em vão, tornando neces­ sário conhecer as teorias e a trajetória dos movimentos sociais no Brasil, bem como a dimensão educativa dos movimentos sociais na formação da cidadania, a contribuição dos movimentos na elaboração e implemen­ tação de políticas sociais e o seu papel na articulação educação não formal com o sistema formal de ensino e as tendências contemporâneas. Grata e até mais! Professora Ma. Laura Marcia Rosa dos Santos 208 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 208 5/15/09 2:15:08 PM
  • 13.
    AULA 1 —Movimentos Sociais AULA ____________________ 1 Unidade Didática – Movimentos Sociais MOVIMENTOS SOCIAIS Conteúdo • A luta de classes • Movimentos sociais Competências e habilidades • Identificar os aspectos históricos e sociais que interferem diretamente nas questões sociais na atualidade Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo As questões acerca das lutas e movimentos na so­ Vale ressaltar que a defesa dos direitos sociais e ciedade têm ganhado campo desde o século XIX. humanos, da democracia e da justiça social faz parte Nesta perspectiva buscaremos resgatar os movimen­ da luta dos assistentes sociais, o que requer muita tos e lutas empreendidas pela sociedade civil, mais atenção para fatos e acontecimentos que marcam a especificamente pelas camadas populares em decor­ história da sociedade. rência das demandas e reivindicações ocorridas no espaço urbano. A luTA De ClAsses Ao longo do processo iremos abordar os pontos De modo geral, o debate central para os estudos básicos dos fatos históricos ocorridos no Brasil, mas de lutas e movimentos está presente na história, que também têm relação e sofrem influência norte­ uma vez que ela se desenvolve a partir da população americana e europeia. No bojo da discussão será civil, ou seja, parte principalmente das camadas so­ enfatizada a questão da cidadania, para demonstrar ciais mais pobres. As lutas têm o caráter de rebelião as alterações que foram acontecendo em sua pró­ contra a ordem estabelecida. Diante desse fato, far­ pria concepção, resgatando, assim, seus princípios se­á um recorte a partir do século XVIII, no qual articulatórios e as conquistas concebidas a respeito, as lutas tinham em comum o desejo de libertação particularmente pelas camadas populares. da metrópole. As mudanças ocorrem não porque os 209 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 209 5/15/09 2:15:08 PM
  • 14.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais grupos (liberais radicais) que lideravam as lutas se vista a passagem de um tipo de sociedade a outro”. impuseram, mas devido ao apoio da elite conserva­ Na produção textual em curso, tomamos como re­ dora ao príncipe herdeiro de uma monarquia deca­ ferência a explicitação do conceito formulado por dente para não perder seus privilégios. Calado (1999, p. 136) concernente a esses sujeitos Por outro lado, o século XIX traz para a histó­ coletivos. ria os conflitos que abrangiam as “zonas rurais e Organizações coletivas empenhadas na luta em urbanas, pois dado o sistema produtivo existente, defesa de seus interesses econômicos e socioculturais, baseado na hegemonia da monocultura do café, a buscando construir sua identidade, de forma pro­ produção ocorria no campo mas a comercialização, cessual, tendo como referência oposta a conduta dos do produto e da mão­de­obra, ocorria na cidade” que eles situam como seus adversários ou inimigos. (GOHN, 2005, p. 18). Nesse período surgem as se­ A sociedade civil historicamente tem desempe­ guintes categorias problemáticas de lutas: as que lu­ nhado um papel importante no debate sobre direi­ tam em torno da questão da escravidão, em torno tos humanos. Terreno fértil onde nascem os con­ das cobranças do Fisco, de pequenos camponeses, flitos, as ações coletivas organizadas e encabeçadas contra Legislações e Atos do Poder Público, pela pela sociedade civil engendram a dinâmica de re­ mudança do regime político e as lutas entre catego­ lações sociopolíticas e humanas que dão sentido à rias socioeconômicas. sociedade. Composta por uma gama de atores que O século XX imprimiu um novo caráter às lutas atuam para dar forma a esse conjunto da vida espi­ sociais no Brasil. As questões urbanas ganham ca­ ritual e intelectual, permeada de relações ideológi­ racterísticas próprias, advindas das novas funções co­culturais (GRAMSCI, 1984), a sociedade civil é que passam a se concentrar nas cidades. À medida fiadora de ações coletivas que afetam a dinâmica e que o desenvolvimento vai se instalando na socie­ (re)configuram as relações sociais. Locus dos movi­ dade por meio da indústria e, em consequência mentos sociais, essa mesma sociedade civil é espaço disso, as novas configurações sociais que surgem na para construção de hegemonia e atua como media­ sociedade darão o tom para as ações e conflitos no dora da infraestrutura econômica e o Estado em seu meio urbano. Consequentemente, novas categorias sentido restrito. O Estado em seu sentido mais am­ de lutas emergem, como as de lutas sociais da classe plo é constituído, portanto, pela esfera da sociedade operária por melhores salários e condições de vida; civil e pela esfera da sociedade política (conjunto lutas populares e médias por moradia; lutas sociais de mecanismos em que a classe dominante detém o no campo; lutas da categoria dos militares; lutas e monopólio legal da repressão e da violência (RA­ movimentos de raça, etnia, cor, gênero; lutas cívicas, MOS, 2005). Em uma relação dialógica, a socieda­ entre outros. de civil exerce a hegemonia pela direção política, e o consenso e a sociedade política pela coerção. Na MoviMenTos soCiAis dialética entre coerção e consenso, ditadura e hege­ As concepções e conceitos referentes a movimen­ monia, são expressos o poder de uma classe. to social, como observa Scherer­Warren (1996, p. Desde que a concepção marxista sobre o papel 18), variam desde a afirmação de que “toda ação da luta de classes para o entendimento da sociedade coletiva com caráter reivindicativo ou de protesto começa a ser alterado em meados da década de 1970 é um movimento social, independente do alcance (GOSS; PRuDêNCIO, 2004), novas questões pas­ ou significado político ou cultural da luta”, ao ex­ sam a ser introduzidas para análise e compreensão tremo de considerar movimento social como “ape­ da realidade social, dentre elas a ênfase em outras nas um número muito limitado de ações coletivas relações que não apenas econômicas como caminho de conflito, aquelas que atuam na produção da so­ para pensar as relações, o deslocamento de atenção ciedade ou seguem orientações globais, tendo em da sociedade política para a sociedade civil e da luta 210 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 210 5/15/09 2:15:09 PM
  • 15.
    AULA 1 —Movimentos Sociais de classes para os movimentos sociais. Os sujeitos movimentos sociais se fecundarem. É o que aponta políticos deixam de ser analisados pela relação clas­ Dias (2004), em uma análise sobre a semelhança en­ se­partido­Estado. Em outras palavras, a categoria tre os movimentos populares tradicionais e os con­ classes sociais torna­se insuficiente para entender os temporâneos, a partir da arqueologia foucaltiana: movimentos arquitetados no âmbito da sociedade [...] compreende­se que o húmus discursivo de civil. onde nascem as reflexões sobre os movimentos Surge, assim, o que alguns autores da área cha­ sociais não seria o liberalismo, esse fenômeno do mam de novos movimentos sociais, com atuação mundo ocidental, nem o Estado Liberal, nem a so­ pautada em questões identitárias e com foco na ciedade civil em si mesmos, mas as práticas políti­ politização de espaços alternativos de luta, que não cas e de poder, os modos de atualização da liberda­ apenas os partidos políticos e sindicatos. Entre as al­ de e igualdade na sociedade civil e as conquistas da terações mais significativas está a ideia de que o po­ realização da cidadania e dos direitos individuais lítico passa a ser um componente presente em toda (GOHN, 2004, p. 98). prática social e não apenas em espaços específicos, Em se tratando de estratégias, os movimentos so­ o que configura os movimentos sociais como “ações ciais contemporâneos em plena era da globalização sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural e da informação atuam em redes, formas de arti­ que viabilizam distintas formas da população se or­ culação que potencializam a ação dos sujeitos que, ganizar e expressar suas demandas” (GOHN, 2004, interligados por meio de uma teia de relações, am­ p. 13). Essas mesmas ações coletivas criam identida­ pliam sua esfera de atuação. des em espaços não institucionalizados que geram transformações no espaço social. A essência de atuação dos movimentos sociais é chamar o sujeito como forma de resistir à domina­ * ANOTAÇÕES ção social. Resistir ao poder é defender o sujeito. As novas contestações não visam criar um novo tipo de sociedade, mas “mudar a vida”, defender os direitos do homem, assim como o direito à vida para os que estão ameaçados pela fome e pelo ex­ termínio, e também o direito à livre expressão ou à livre escolha de um estilo e de uma história de vida pessoais (TOuRAINE apud GOSS; PRuDêNCIO, 2004, p. 80). Na ausência de adversários, os movimentos so­ ciais discutem e pautam questões que antes esta­ vam na esfera privada, como as questões de gênero, sexual e étnicas e ao mesmo tempo compartilham de lutas mais abrangentes. Alguns movimentos da sociedade civil de cunho identitário na busca pela afirmação de suas diferenças acabam tocando em questões estruturais. E é na sociedade construída, sustentada e media­ da pelas relações de poder, como apontamos ante­ riormente, que estão criadas as bases férteis para os 211 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 211 5/15/09 2:15:10 PM
  • 16.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais AULA ____________________ 2 ASPECTOS TEÓRICOS – HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL Unidade Didática – Movimentos Sociais Conteúdo • As teorias clássicas sobre as ações coletivas • Teorias contemporâneas norte-americanas da ação coletiva e dos movimentos sociais • Teorias na era da globalização: a mobilidade política • Os paradigmas europeus • As questões brasileiras Competências e habilidades • Capacidade de introduzir o acadêmico no universo histórico e social das questões sociais, a partir da realidade do Brasil e do mundo Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo As TeoriAs ClássiCAs sobre As Ações Esse paradigma clássico foi apropriado por uma ColeTivAs nova geração de pesquisadores, tendo como ponto As questões assinaladas conduziram, no nível teó­ de partida e referencial histórico para essa análise rico, a uma reflexão sobre alguns elementos históri­ dois motivos: por um lado, a memória histórica das cos que estruturam a criação dos movimentos sociais. primeiras teorias dos movimentos sociais e ações Essa reflexão possibilitará retomar os paradigmas coletivas e, por outro, as referências e matrizes teó­ clássicos e contemporâneos. Cabe observar que não ricas de vários conceitos que estão sendo retomados se trata de evidenciar a perpetuação de mecanismos nos anos 1990 pelo próprio paradigma norte­ame­ de dominação e de determinadas mazelas da cultura ricano (GOHN, 2007). social e da política brasileira, mas de apreender esses O período clássico durou até os anos 1960. No mecanismos e como eles se atualizam. entanto, não há um consenso nas abordagens, o 212 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 212 5/15/09 2:15:10 PM
  • 17.
    AULA 2 —Aspectos Teóricos – Histórico dos Movimentos Sociais no Brasil que nos leva a considerar cinco grandes linhas com meira corrente de teoria sobre os movimentos diferentes ênfases com características comuns, que sociais, no trabalho de Heebert Blumer (1939). são: 2. A segunda, desenvolvida ao longo dos anos 1940 e 1950, teve como teóricos Eric Fromm [...] o núcleo articulador das análises é a teoria da (1941), Hoffer (1951) e Kornhruser (1959). ação social, e a busca de compreensão dos compor­ 3. A terceira predominou nos anos 1950 com um tamentos coletivos é nela a meta principal. [...] A viés político forte que articulava as classes e re­ ênfase na ação institucional, contraposta à não ins­ lações sociais de produção na busca do entendi­ titucional, também era uma preocupação prioritária mento tanto dos movimentos revolucionários e um denominador que dividia os dois tipos básicos como da mobilização partidária, presente nos de ação: a do comportamento coletivo institucional trabalhos de Lipset (1950) e Heberle (1951). e a do não institucional (GOHN, 2007, p. 23). 4. Combinação das teorias da Escola de Chicago Segundo Gohn (2007), pode­se dividir em cin­ com a teoria da ação social de Parsons. co grandes correntes teóricas a abordagem clássica 5. A quinta corrente denominada organizacional­ sobre ação coletiva, sendo que em três delas os mo­ institucional, não gerou nenhuma teoria sobre vimentos sociais especificados como teorias e nas os movimentos sociais. outras duas como ações coletivas. A seguir apresen­ tamos as correntes: Elementos comparativos entre as teorias contem­ 1. A Escola de Chicago e alguns interacionistas porâneas norte­americanas da ação coletiva e as teo­ simbólicos do início do século. Tida como a pri­ rias sobre movimentos sociais na era da globalização: Mobilização de recursos Mobilização política Analisa os movimentos dos direitos civis Impera a política do “politicamente correto” A teoria da mobilização política reintroduz a psicologia A psicologia é rejeitada como explicativo social como instrumento para a compreensão do comportamento coletivo Com o desenvolvimento do processo político, Explica os movimentos sociais no âmbito organizacional formal o campo da cultura foi reativado O recurso deixa de ser o eixo central condutor A variável mais importante é a dos recursos das análises e passa a ser o processo político Dá ênfase à visão economicista, baseada na lógica Ênfase na estrutura das oportunidades políticas racional da interação entre os indivíduos Concebiam os movimentos sociais em termos de Busca entender a identidade coletiva um setor de mercado, livre e aberto a grupos e ideias dos grupos e a interação com sua cultura A mobilização das bases do movimento O interacionismo ressurge na forma é analisada pela ótica econômica de interacionismo simbólico A ênfase está na problemática da consciência política, O consenso objetiva a obtenção de recursos a qual é aplicada para entender os movimentos financeiros e o conflito, as mudanças sociais de conflitos e os de consenso os paradigmas Os movimentos sociais devem ser entendidos em Constrói-se uma nova teoria, que passa a termos de uma teoria de conflito da ação coletiva ser denominada “mobilização política” Os atores são competidores em um mesmo cenário, Refutam a ideia de incluir como movimentos sem que haja contradição de interesses, porque sociais as diferentes formas de ação coletiva não aborda a problemática das classes sociais A sociedade é vista como um arranjo estático das Resgate da premissa tradicional da ação coletiva elites e não elites, relativamente homogêneo Destaca o caráter estrutural Reforça a análise estrutural 213 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 213 5/15/09 2:15:11 PM
  • 18.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais As quesTões brAsileirAs ! IMPORTANTE Na América Latina, mais especificamente no Bra­ Por meio dos movimentos sociais, as pessoas se en­ sil, as questões teóricas voltadas para os movimentos volvem em lutas simbólicas sobre os significados e ganham corpo a partir do final da década de 1970, interpretações dos fatos e coisas. quando se fala dos novos movimentos sociais em encontros, seminários e colóquios acadêmicos. os PArADigMAs euroPeus Os paradigmas desse período são divididos, e isso se dá no âmbito das interpretações das ações. Segundo Segundo Gohn (2007), na Europa pode­se dis­ Gohn (2007, p. 283­284), no Brasil o que predominou tinguir duas grandes linhas de abordagem sobre as nos anos 1970 foram as análises de cunho marxista, in­ teorias que determinam o paradigma a partir dos fluenciadas pela corrente franco­espanhola de Castells, anos 1960: a neomarxista e a culturalista­acionalis­ Borja, Lojkine e Preteceille e as análises acionalistas de ta, que se consagrou como a teoria dos Novos Mo­ Touraine. Na década de 1980, as análises são influen­ vimentos Sociais. ciadas por Foucault, Guattari, Melucci, entre outros. As características gerais desse novo movimento Ainda nos anos 1980, o cenário das lutas no Bra­ seriam: sil apresenta um conjunto de ações que passam pelo • o modelo teórico é baseado na cultura, mas ne- plano da atuação concreta, da análise, do otimismo ga os valores e normas herdadas do passado. A para a perplexidade e, depois, para descrença. Vários ideologia é deixada de lado e sofre influência fatores colaboram para isso, inclusive as alterações pós­estruturalista e pós­modernista de cultura, nas políticas públicas e na composição dos agentes centrando suas atenções nos discursos como e atores que participam de sua implementação, ges­ expressões de práticas culturais; tão e avaliação (GOHN, 2007). • nega o marxismo como campo teórico, por Nos anos 1990, é preciso entender o contexto a tratar a ação coletiva apenas no nível das estru­ partir da era da globalização, pois o País passa por turas, da ação das classes; transformações econômicas e nova ênfase é dada às • elimina o sujeito histórico redutor da humani­ políticas sociais. Nesse cenário destacam­se elemen­ dade, configurado pelas contradições do capi­ tos que exercerão grande influência sobre a dinâmica talismo e formado pela “consciência autêntica” dos movimentos sociais, principalmente os popula­ de uma vanguarda partidária; res. Nesse sentido, pode­se apontar a crise econômica • a política ganha centralidade na análise, sendo que levou à diminuição dos empregos no mercado utilizada principalmente no âmbito das rela­ formal; as políticas econômicas dão suporte às ati­ vidades na economia informal; a economia semi­ ções microssociais e culturais; comunitária encontra nas organizações não gover­ • os atores sociais são analisados por suas ações namentais uma forma para servir de suporte como coletivas e pela identidade coletiva criada no estruturas organizativas do processo de produção; e processo. Ressalta­se que essa identidade é o número de pessoas sem­teto, morando permanen­ criada por grupo e não por identidade social. temente nas ruas, cresce de modo assustador. Por outro lado, na década de 1990, novas práticas Segundo Mouffe (apud GOHN, 2007), a novida­ civis surgem no cenário nacional de movimentos que de dos novos movimentos deriva das novas manei­ já existiam, mas com uma nova roupagem. Estamos ras de subordinação ao capitalismo tardio, no qual falando do Movimento dos Trabalhadores Rurais se insurge a banalização da vida social, a burocrati­ Sem­Terra, a união Ruralista Brasileira, como tam­ zação da sociedade e a massificação da vida social bém os movimentos centrados nas questões éticas ou pela poderosa invasão dos meios de comunicação de revalorização da vida humana. Mas essas questões de massa. serão aprofundadas no decorrer das aulas. 214 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 214 5/15/09 2:15:12 PM
  • 19.
    AULA 3 —Movimentos Sociais e Cidadania AULA ____________________ 3 Unidade Didática – Movimentos Sociais MOVIMENTOS SOCIAIS E CIDADANIA Conteúdo • O conceito de cidadania • A relação entre movimentos sociais e cidadania no Brasil Competências e habilidades • Capacidade de compreender e exercitar o significado da palavra cidadania no contexto social que permeia as relações sociais na sociedade brasileira atual Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo o ConCeiTo De CiDADAniA de participação integral na comunidade – ou, como Na medida em que observamos a constituição de eu diria, de cidadania – o qual não é inconsistente direitos referentes à questão social no Brasil, faz­se com as desigualdades que diferenciam os vários ní­ necessário explicar a maneira como esse processo é veis econômicos na sociedade. Em outras palavras, pensado em relação à forma como utilizamos, aqui, a desigualdade do sistema de classes sociais pode o conceito de cidadania. ser aceitável desde que a igualdade de cidadania seja reconhecida (MARSHALL, 1967, p. 62). Como ponto de partida, gostaríamos de retomar algumas reflexões e questões clássicas explicitadas Então, podemos dizer que a mais recente fase da pelo sociólogo Thomas H. Marshall, a respeito da evolução da cidadania seria caminhar rumo à igual­ cidadania na sociedade inglesa, no período pós­ dade social. Se este é o caso, para que as argumenta­ guerra; pois ele estava preocupado com a relação de­ ções sigam uma lógica realizar­se­á uma divisão do mocracia e capitalismo. Ressaltando, em seu texto, o conceito de cidadania, distinguindo­se três dimen­ que vem a ser a hipótese sociológica latente do ensaio sões: a civil, a política e a social, cada uma relaciona­ do economista Alfred Marshall: da a um período formativo. [Alfred Marshall] Postula que há uma espécie de A cidadania civil teria se desenvolvido no século igualdade humana básica associada com o conceito XVII, como resposta ao absolutismo, caracterizan­ 215 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 215 5/15/09 2:15:13 PM
  • 20.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais do­se pelos direitos necessários à liberdade indivi­ leira, mas se caracteriza pelo caráter conciliatório e dual, pela liberdade de ir e vir, de palavra, pensa­ de negociação entre a elite nacional, a coroa portu­ mento, entre outros. guesa e a inglesa. A solução monárquica e conserva­ Na cidadania política, associada ao século XIX, dora estava garantida, e a Constituição de 1824 re­ desenvolvem­se os direitos referentes à participação gulou os direitos políticos dos cidadãos e definiu no exercício do poder político, com extensão do di­ quem teria direito de votar e ser votado. reito ao voto em escala cada vez maior. Apesar de certo grau de democracia – grande par­ Quanto à cidadania social, desenvolvida princi­ te da população adulta masculina podia exercer seus palmente no século XX, inclui os direitos a um mí­ direitos políticos –, os brasileiros alçados à categoria nimo de bem­estar econômico­social, sendo o siste­ de cidadãos pela Constituição de 1824 eram predo­ ma educacional e os serviços sociais as instituições minantemente analfabetos e viviam em áreas rurais a ele relacionadas. sob o comando dos grandes proprietários, e na ci­ dade os eleitores eram em sua maioria funcionários públicos influenciados e controlados pelo governo. A relAção enTre MoviMenTos soCiAis A escravidão foi o grande entrave para o desen­ e CiDADAniA no brAsil volvimento dos direitos civis no Brasil, pois negava Os direitos do cidadão e do homem e a cidadania a condição de humanidade para as pessoas consi­ são históricos, resultam das relações e dos conflitos deradas escravas. Em 1888, quando a elite descobre sociais em determinados momentos da história de que a escravidão impedia a integração do País nos um povo. Ou seja, a formulação e o desenvolvimento mercados internacionais, além de bloquear o de­ dos direitos civis, políticos, sociais, econômicos e cul­ senvolvimento das classes sociais e do mercado de turais seguiram no Brasil e no resto do mundo um trabalho, ela finalmente abole a escravidão, mas não processo marcado por avanços e retrocessos, ao passo revê o formato de divisão de bens (a terra), pois o que certos direitos estavam sendo discutidos e garan­ movimento pela independência preservou as elites tidos em algum lugar do planeta, em outro continen­ nacionais no poder, manteve a nação dividida entre te ou país estavam sendo violados ou nem estavam senhores e não criou um sistema educacional públi­ em discussão. Os direitos que estavam garantidos por co de qualidade. muito tempo passaram a ser negligenciados por con­ Com a urbanização, a industrialização e o surgi­ ta de interesses ideológicos, políticos e/ou econômi­ mento de uma pequena classe operária no Rio de Ja­ cos. Além do mais, dentro de uma mesma sociedade, neiro e São Paulo, alguns direitos básicos como a or­ os direitos do homem e do cidadão não são garanti­ ganização sindical, as manifestações e reivindicações dos do mesmo modo a todas as pessoas. públicas e as greves, aparecem no cenário nacional. No Brasil, a construção da cidadania e a afirma­ Em 1930, verifica­se um avanço dos direitos so­ ção dos direitos têm percorrido caminhos difíceis e ciais com a criação do Ministério do Trabalho e com bastante tortuosos, pois, apesar das influências que uma ampla legislação trabalhista e previdenciária, recebemos, construímos um processo diferencia­ culminando com a Consolidação das Leis do Traba­ do nas discussões e na implementação dos direitos lho (CLT), em 1943. civis, políticos e sociais. Diante dessa constatação, Em relação ao desenvolvimento dos direitos políti­ dividiremos o processo histórico por períodos, a co­ cos, a instabilidade democrática do País entre 1930 e meçar pela Independência. 1964 alterna ditadura e regimes mais democráticos, não permitindo uma plena evolução das discussões A independência sobre os direitos civis e políticos. A liberdade de ex­ A proclamação da independência em 1822 inau­ pressão e de organização chega a ser suspensa no gura a era dos direitos políticos na sociedade brasi­ período ditatorial de 1937. A derrubada de Vargas, 216 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 216 5/15/09 2:15:13 PM
  • 21.
    AULA 3 —Movimentos Sociais e Cidadania as eleições presidenciais e legislativas e a Constitui­ são questões novas no cenário nacional” (p. 203). ção de 1946 garantiram certa estabilidade para os Ou seja, nesse período o novo é a forma e o modo direitos civis e políticos até 1964. A partir daí, por como equacionar e encaminhar as demandas e as conta da ditadura militar, a maioria dos direitos ci­ possíveis soluções. vis e políticos foi restringida pela violência. Outro ponto é a nova concepção da ideia de co­ munidade, por se tratar não apenas de um locus os desafios contemporâneos geográfico espacial, mas por ser uma categoria da A década de 1980 inaugura no Brasil novos tem­ realidade social, de intervenção, assim como de re­ pos para a questão da cidadania, pois os movimen­ definição dos valores seculares, como os dos direi­ tos e organizações do passado se articulam com o tos humanos e a articulação entre os valores morais, novo, com a Igreja, entre outros, criando uma nova econômicos e o desejo de mudanças políticas. identidade para os movimentos nesse período, no qual novas bandeiras foram levantadas. Esses gru­ Para concluir pos eram fortalecidos pela conjuntura internacio­ Pode­se observar que a questão da cidadania foi nal, que também destacava as questões dos direitos a grande conquista dos movimentos sociais, pois as humanos como sendo básicos. pessoas estão se posicionando como protagonistas Esse processo representa para os brasileiros as da história, na qual a cidadania tutelada dá lugar à mudanças no cenário político, como também trans­ cidadania moderna, fundada na noção de direito à formações mais profundas no seio da sociedade, diferença, mas não somente a vida, mas a autode­ mas permanece no País uma enorme concentração terminação como questão de gênero, raça, idade, de renda e seus subprodutos, como a miséria e a manifestação sexual, entre outras. E reivindica­se a exclusão social. Ao lado disso, a atuação omissa e participação da sociedade nas questões civis e polí­ vacilante por parte do Estado que não promove po­ ticas, no mercado de bens e consumo, como tam­ líticas públicas adequadas e suficientes para corrigir bém a manutenção dos valores culturais. essas desigualdades sociais e regionais. Conforme Gohn (2003, p. 209), a “concepção de A garantia dos direitos civis e políticos não resol­ cidadania que resulta deste cenário busca corrigir veu os problemas históricos da cidadania no País. diferenças instituídas, destacando o valor da igual­ Contudo, esses direitos formam um quadro no dade”. A solidariedade volta a ser a mola propulsora qual os movimentos sociais podem aparecer publi­ dos grupos sociais e a participação políticas se dá na camente trazendo suas reivindicações e propostas, esfera da igualdade entre os cidadãos. ocorrendo alternância de grupos políticos no poder. Ao mesmo tempo, os problemas estruturais e secu­ lares da sociedade brasileira podem ser discutidos e estudados. * ANOTAÇÕES o paradigma Segundo Gohn (2003), as demandas da ação so­ cial contrastaram com o sistema vigente. Mas, na realidade, essas demandas não são novas, posto que “a carência de bens e serviços para os setores po­ pulares, a discriminação social contra os negros, os índios, as mulheres, o desrespeito à natureza, ou ainda o problema das crianças pobres nas ruas não 217 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 217 5/15/09 2:15:14 PM
  • 22.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais AULA ____________________ 4 POLÍTICAS SOCIAIS – A CONTRIBUIÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS Unidade Didática – Movimentos Sociais Conteúdo • Movimento social: a luta por direitos • O Estado e as políticas sociais • Avanços da participação cidadã Competências e habilidades • Identificar os elementos que contribuem e interferem na dinâmica dos movimentos sociais, a partir das políticas sociais Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo MoviMenTo soCiAl: A luTA Por DireiTos servamos a ação das organizações dos movimentos Quando nos referimos a políticas sociais, enten­ sociais, assim como as ações discursivas e as estra­ demos aquelas ações desenvolvidas pelos governos tégias práticas de intelectuais, militantes e políticos e poderes políticos constituídos, uma forma de preocupados com as desigualdades sociais. ação prática, que se traduz em leis, organizações e No contexto deste estudo, configura­se como programas de intervenção, orientadas pelo Poder movimento social a diversidade de grupos e orga­ Público, abrangendo os poderes Executivo, Legisla­ nizações, em seus diferentes graus de envolvimento tivo e Judiciário. Mas a essa definição de políticas com a questão social, que tiveram como um de seus incorporamos também a observação da maneira objetivos melhorar as condições de vida da socieda­ como certos direitos foram estabelecidos e as for­ de. Abrangeria o conjunto de iniciativas de natureza ças sociais que atuaram para isso. Dessa forma, ob­ política, educacional e cultural incorporando, dessa 218 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 218 5/15/09 2:15:15 PM
  • 23.
    AULA 4 —Políticas Sociais – A Contribuição dos Movimentos Sociais forma, tanto as reivindicações culturais quantos as o esTADo e As PolíTiCAs soCiAis referentes às condições socioeconômicas da socie­ No Brasil, persiste a modalidade assistencial de dade, entendendo ambas como estratégias políticas fazer política no campo do social, nos espaços de re­ que buscam a garantia de direitos. lação entre o Estado e os setores excluídos, o que, se­ Sendo assim, a Constituição de 1988 garante ao gundo Yazbek (2006), pode ser traduzido nas ques­ cidadão brasileiro total e irrestrito direito no que tões relacionadas às políticas estatais de corte social tange aos direitos sociais, assegurados por meio da e ao enfrentamento da crescente pauperização das assistência social, saúde e previdência, ou seja, o tri­ classes subalternas que têm se constituído em temá­ pé constitutivo da seguridade social que pressupõe a universalidade dos direitos, de forma uniforme e ticas presentes nas análises e estudos das políticas equivalente para as populações rurais e urbanas. sociais públicas no Brasil. Por outro lado, o caráter Nesse contexto faz­se necessário que entendamos regulador da intervenção estatal no âmbito das rela­ que a “seguridade social enquanto conjunto de po­ ções sociais tem dado o formato das políticas sociais líticas e ações de reprodução social dos indivíduos no País, que são traduzidas como políticas casuís­ humanos se introduz na agenda de compromissos ticas, inoperantes, fragmentadas, superpostas, sem da humanidade com o advento do capitalismo” regras estáveis ou reconhecimento de direitos. (FALCÃO, 2006, p. 111). É nesse cenário da era ca­ Agora, é importante ressaltar que a expansão ca­ pitalista que é introduzido um novo modo político pitalista no Brasil em sua forma monopolista se dá de condução da vida societária. pela apreensão de suas ambiguidades, contradições Por meio das investidas dos movimentos sociais, e desigualdades que se evidenciam de um lado pelo as questões da pobreza ganham visibilidade, não tratamento impune e selvagem à força de trabalho podendo mais ser tratada como fenômeno conjun­ e, por outro, na presença de um capitalismo moder­ tural, passando a fenômeno estrutural que decorre de um modo de produção que engendra a exclusão, no, marcado pelo avanço tecnológico na industriali­ as desigualdades sociais e a injustiça social (FAL­ zação e pelas altas taxas de concentração e acumu­ CÃO, 2006). lação, uma vez que, as intervenções do Estado per­ Por outro lado, a seguridade social em seu sen­ meiam o quadro das interlocuções e mediações tido amplo se apresenta como peça fundamental e que constituem o campo da política social pública, estratégica nos pactos estabelecidos pela classe do­ inscrevendo­se no bojo das relações sociais. minante com os diversos segmentos da sociedade, Assim, o contraste entre miséria e abundância nos em especial com a classe trabalhadora, garantindo, mostra que a evolução econômica capitalista brasi­ assim, uma revolução passiva, a qual desenhou uma leira fortaleceu mais a desigualdade do que a dimi­ nova paisagem capitalista, com alguns elementos nuiu, pois, para Yazbek (2006, p. 40), embora as po­ em destaque: líticas governamentais no campo social expressem o a) a evolução de um capitalismo individualista “caráter contraditório das lutas sociais, acabam por e selvagem, para um capitalismo planificado, reiterar o perfil da desigualdade no país e mantêm transnacional e monopolista; essa área de ação submersa e paliativa”. b) a generalização e mundialização do assalariado; c) a forte expansão das funções do Estado­nação; Pode­se evidenciar que a questão social no Brasil d) a introdução de um pacto social com os vários começa a partir da Primeira República, com o pro­ segmentos da sociedade civil, principalmente cesso da industrialização e da implantação do ca­ com a classe trabalhadora; pitalismo no País, no qual surgem o operariado e a e) as relações sociais de dominação e poder to­ burguesia nacional, o acirramento das contradições mam forma corporativista, funcional, tendo o entre capital e trabalho como explicação maior da Estado como mediador principal. desigualdade social. 219 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 219 5/15/09 2:15:15 PM
  • 24.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais AvAnços DA PArTiCiPAção CiDADã • o direito de a mulher votar; A preocupação com a participação cidadã tem sido • o direito a greve para reivindicar melhores sa­ uma constante ao longo do tempo. Existe intersubje­ lários e condições de trabalho; tividade a respeito de que os ganhos para um sistema • a economia baseada na mão-de-obra livre; político são sempre elevados em sociedades que es­ • a criação de sindicatos; timulam e possibilitam a ingerência dos cidadãos na • a garantia dos direitos civis e sociais, entre outros. determinação do seu destino. A utilização da partici­ pação cívica sempre foi considerada fundamental no processo de construção de uma nação. ! DICA Desse modo, apontamos alguns avanços que foram www.ipp­uerj.net construídos na sociedade brasileira a partir da arti­ culação dos movimentos sociais ao longo da história: * ANOTAÇÕES 220 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 220 5/15/09 2:15:16 PM
  • 25.
    AULA 5 —A Sociedade Civil e a Construção de Espaços Públicos AULA ____________________ 5 Unidade Didática – Movimentos Sociais A SOCIEDADE CIVIL E A CONSTRUÇÃO DE ESPAÇOS PÚBLICOS Conteúdo • A participação popular no processo de construção das políticas públicas Competências e habilidades • Capacidade de conhecer e participar dos mecanismos reguladores das políticas públicas Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo A PArTiCiPAção PoPulAr no ProCesso diante sufrágio universal, que atribui poder aos De ConsTrução DAs PolíTiCAs PúbliCAs eleitos para a tarefa da representação. Esse tem sido, Para abordarmos essa discussão, vamos primeiro durante muito tempo, o principal indicador usado entender o que é democracia, a partir da definição para medir o desenvolvimento democrático. No de Bobbio (2000, p. 56), que define a democracia entanto, o que deve ser considerado nos dias atuais representativa por meio da participação indireta da são os espaços políticos e não o número de votantes, população nos processos decisórios. Nessa forma pois, “para dar um juízo sobre o estado da democra­ de governo, a população elege seus representantes e tização num dado país, o critério não deve mais ser lhes confere poder de decisão. Em geral, a expressão o de ‘quem’ vota, mas o de ‘onde’ se vota” (BOBBIO, “democracia representativa” significa que as delibe­ 2000, p. 68). rações coletivas, isto é, as deliberações que dizem A representação é, sem dúvida, um assunto que respeito à coletividade inteira, são tomadas não tem suscitado muita discussão no universo político. diretamente por aqueles que dela fazem parte, mas Diante desse fato, os movimentos sociais, nas déca­ por pessoas eleitas para essa finalidade. das de 1970 e 1980, tinham como objetivo a mu­ Ou seja, um dos elementos fundamentais da de­ dança social, configuradas em inúmeras lutas popu­ mocracia representativa é o voto, alcançado me­ lares para inserir suas reivindicações no texto final 221 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 221 5/15/09 2:15:16 PM
  • 26.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais da Constituição Federal de 1988, a qual agregou as incidência dos direitos humanos e, mais, refletir so­ reivindicações sociais no tocante aos princípios da bre como a sociedade civil está e/ou pode se organi­ participação da população nos processos decisórios zar e responder às demandas das pessoas em geral é e à mudança das práticas de elaboração e execução entender como a cartilha do capitalismo neoliberal de políticas públicas. A Constituição de 1988 repre­ articula os direitos humanos nessa mesma socieda­ sentou um marco no processo de descentralização de civil, espaço dos movimentos sociais, que histo­ político­administrativa do País. ricamente se consolidaram e se relacionam. A com­ O conjunto de inovações trazidas pela nova preensão e a relação entre essas categorias – neo­ Constituição não significou a efetivação imediata liberalismo, sociedade civil e direitos humanos – são dos espaços de participação na gestão pública. Por pressupostos para analisar as implicações da desi­ outro lado, ainda se têm resquícios da cultura pa­ gualdade social nas relações cotidianas e as respos­ trimonialista, mas Gohn (2003, p. 211) ressalta que tas que muitas organizações sociais podem oferecer “os conflitos sociais contemporâneos têm encon­ a essa problemática. Esse é um caminho que, pen­ trado novas formas de se expressar, diferentes das sado pela ótica das políticas públicas, torna possível tradicionais, baseadas na conciliação, na negociação (re)pensar as estratégias em execução e as ações que pessoal. Trata­se do surgimento da forma Conselho estruturalmente possam ser arquitetadas no âmbito como órgão de mediação povo­poder”. da sociedade civil para uma intervenção qualificada A inserção na sociedade civil dos mecanismo de na garantia dos direitos humanos. controle do governo, por meio dos conselhos, viabi­ lizou a participação irrestrita das pessoas, pois a par­ ticipação popular é entendida como o envolvimen­ ! DICA to da sociedade mediante conselhos, assumindo o www.scielo.br compromisso de trabalhar pela defesa do bem­estar www.conpedi.org coletivo. Podemos usar como exemplo, a participa­ ção no campo da saúde pública, na qual a proposta * de participação popular surgiu como consequência ANOTAÇÕES da redução da confiança da população nas insti­ tuições governamentais e se configurou como uma tendência identificada em várias reformas no setor, implementadas em diferentes países, ainda que nem sempre com a mesma denominação. Vários estudos sustentam a participação popular na elaboração de políticas públicas de saúde como instrumento de aperfeiçoamento dos serviços oferecidos (JACOBI, 2002; SERAPIONI, 2003). Outro exemplo evidente desse compasso entre go­ verno e sociedade civil e a experiência do orçamento participativo, o qual tem uma visão otimista do ser hu­ mano, na qual a participação dos cidadãos na toma­ da das decisões públicas somente não ocorre por não existirem mecanismos institucionais apropriados. Para concluir É por isso que discutir o papel da sociedade civil, enquanto espaço de construção de hegemonia para 222 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 222 5/15/09 2:15:17 PM
  • 27.
    AULA 6 —O Caráter Educativo do Movimento Social Popular AULA ____________________ 6 O CARÁTER EDUCATIVO DO MOVIMENTO Unidade Didática – Movimentos Sociais SOCIAL POPULAR Conteúdo • O caráter educativo dos movimentos populares • A produção das ciências sociais sobre a educação popular • O caráter educativo de fato Competências e habilidades • Capacidade de interagir com a diversidade nos diversos campos das relações sociais Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo o CAráTer eDuCATivo Dos MoviMenTos vos agentes que buscam construir uma identidade PoPulAres coletiva, fundada nos interesses dos subordinados”. Inicialmente, os movimentos populares eram vis­ No entanto, é importante ressaltar que essa forma tos apenas como grupos que reivindicavam questões renovada da educação não ocorre por meio de um pro­ básicas relativas ao problema da habitação, uso do grama previamente estabelecido, mas, sim, por meio solo, serviços etc. Na contramão dessa informação, de princípios que são formulados por agentes ins­ essa outra vertente que apresenta um movimento titucionais oriundos da articulação da Igreja, de par­ sociocultural com potencial para uma cultura de tidos políticos, universidades, sindicatos, entre outros. ruptura com a alienação, com a cultura dominante, E sua aplicação e difusão se dão a partir do trabalho no sentido de construir sua própria história. das lideranças da parcela da população organizada. Conforme Gohn (2003, p. 163), é atribuído aos Os trabalhos científicos que tratam dessa questão “movimentos populares urbanos um papel de desta­ se baseiam em artigos, teses e resenhas que foram que no processo de transformação social, como no­ realizados sobre a literatura da educação popular. 223 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 223 5/15/09 2:15:18 PM
  • 28.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais A ProDução DAs CiênCiAs soCiAis sobre Pressupõe­se que foram os princípios do sistema A eDuCAção PoPulAr Paulo Freire que embasaram os programas tidos Na primeira fase da educação popular no Brasil, como progressistas na área da educação popular. pensava­se, nos textos elaborados pela ciência so­ Cabe ressaltar, que se adotou como princípio bási­ cial, acerca da identidade nacional e das fases do de­ co da educação popular o desenvolvimento de uma senvolvimento brasileiro, ganhando destaque temas ação pedagógica conscientizadora, que atuaria sobre como: raça, cultura, idiomas, costumes, entre outros. o nível de cultura das camadas populares em termos A década de 1960 sofre influência da sociolo­ explícitos de interesse dela. gia francesa, promovendo uma safra de estudos brilhantes sobre a realidade brasileira. o CAráTer eDuCATivo De fATo Outro aspecto importante desse período, para Segundo Gohn (2005, p. 51), com o caráter edu­ Gohn (2005, p. 46), é a fase da teoria da moderniza­ cativo dos movimentos populares, a educação é au­ ção, que “ocorreu paralelamente aos programas de toconstruída no processo, surgindo diferentes fon­ educação popular. Isto porque a educação era um tes do caráter educativo, a saber: dos pilares fundamentais daquela teoria, na transi­ a) da aprendizagem gerada com a experiência de ção da sociedade arcaica para a moderna”. Ou seja, contato com fontes de exercício do poder; no processo de apresentação, a educação era um ins­ b) da aprendizagem gerada pelo exercício repeti­ trumento técnico, que continha na realidade carac­ do de ações rotineiras que a burocracia estatal terísticas políticas. Ocorrendo, então, na década de impõe; 1970, as críticas dos programas e métodos de educa­ c) da aprendizagem das diferenças existentes ção popular, por parte de vários estudiosos. na realidade social a partir da percepção das Por outro lado, a conjuntura política daquele pe­ distinções nos tratamentos que os diferentes ríodo se voltava para a busca de alternativas para saí­ grupos sociais recebem de suas demandas; da do regime militar. E tudo que estimulasse o saber d) da aprendizagem gerada pelo contato com dos oprimidos, as energias da sociedade civil, a fala as assessorias contratadas ou que apóiam o do povo era incorporada como alternativa política movimento; possível (GOHN, 2005), tornando a educação popu­ lar o centro das discussões. Para ser mais consistente e) da aprendizagem da desmistificação da au­ esse saber, o grupo de assessoria deixa de levar mate­ toridade como sinônimo de competência, a rial pronto e passa a produzir com o grupo o mate­ qual seria sinônimo de conhecimento. rial a partir da realidade deles, construindo saberes e estimulando a produção desse conhecimento. À medida que essas fontes e formas de saber vão Para Gohn (2005, p. 47), a partir desse momento se constituindo em instrumento das classes popula­ tanto a prática social quanto a produção teórica se res, os movimentos detêm determinado poder para reestruturam. Haja vista que, na área da educação, atingir seus objetivos, gerando mobilizações e in­ “os programas ‘alternativos’ da educação popular quietações que podem pôr em risco o poder consti­ se transformam em trabalhos coletivos de equi­ tuído, ainda que seja um poder nos ditos populares. pes junto a populações pobres de áreas específicas: Mas o saber popular politizado se torna uma os Sem­Terra da Zona Leste, os Filhos da Terra da ameaça para as classes dominantes, quando reivindi­ Zona Norte, os Favelados do Ipiranga etc.”. Nesse ca espaço nos aparelhos estatais, por estar invadin­ contexto, a educação assume um caráter político do o campo de construção da teia de dominação das dos trabalhos e desassume seu caráter educacional redes de relações sociais e da vida social (cf. GOHN, para escolarização entrecortado pela politização. 2005). 224 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 224 5/15/09 2:15:19 PM
  • 29.
    AULA 6 —O Caráter Educativo do Movimento Social Popular ! IMPORTANTE ! DICA Para delinear de fato o caráter educativo dos mo­ www.ongcidade.org vimentos sociais, é preciso conhecer a realidade que permeia a vida em comunidade, por meio de experiências de cunho cultural e social. Podem­se citar como experiências que deram certo ao longo da história ações coletivas do Movimento Negro, Movimento Indígena, da Ação da Cidadania, entre outros. * ANOTAÇÕES 225 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 225 5/15/09 2:15:19 PM
  • 30.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais AULA ____________________ 7 OS MOVIMENTOS SOCIAIS E A ARTICULAÇÃO ENTRE EDUCAÇÃO NÃO FORMAL E SISTEMA FORMAL DE ENSINO Unidade Didática – Movimentos Sociais Conteúdo • Uma abordagem reflexiva sobre educação formal e não formal Competências e habilidades • Compreender o novo significado da educação inclusiva e a repercussão na sociedade globalizada Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo uMA AborDAgeM reflexivA sobre No entanto, a educação formal, segundo Bour­ eDuCAção forMAl e não forMAl dieu (1998, p. 53), serve para que sejam favorecidos Considera­se que a “educação é um direito de to­ os mais favorecidos e desfavorecidos os mais desfa­ das as pessoas resguardado pela Política Nacional de vorecidos, posto que é “necessário e suficiente que a Educação independente de gênero, etnia, religião ou escola ignore, no âmbito dos conteúdos do ensino classe social” (BRASIL, 1988), o acesso à escola ex­ que transmite, dos métodos e técnicas de transmis­ trapola o ato da matrícula e implica apropriação do são e dos critérios de avaliação, as desigualdades saber e das oportunidades educacionais oferecidas à culturais entre as crianças das diferentes classes so­ totalidade dos alunos com vistas a atingir as finali­ ciais” em que a igualdade formal que pauta a prática dades da educação, a despeito da população escolar. pedagógica serve como máscara e justificação para 226 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 226 5/15/09 2:15:20 PM
  • 31.
    AULA 7 —Os Movimentos Sociais e a Articulação entre Educação Não Formal e Sistema Formal de Ensino a indiferença no que diz respeito às desigualdades dos, dos excluídos. Ele acredita na possibilidade de reais diante do ensino e da cultura transmitida. se construir a lógica de uma ética universal do ser Deve­se considerar que a tradição pedagógica humano, que condena a exploração da força de tra­ só se dirige, subjacente às ideias inquestionáveis de balho e as atitudes racistas, fundamentalistas e se­ igualdade e da universalidade. Observe­se, no en­ xistas. “Nenhuma pedagogia realmente libertadora tanto, que ela não somente exclui as interrogações pode ficar distante dos oprimidos” (FREIRE, 2004, sobre os meios mais eficazes de transmitir a todos p. 41). Pois Freire acredita em uma práxis autêntica, os conhecimentos e as habilidades que a escola exige uma práxis que crie tensão em relação aos valores de todos e que as diferentes classes sociais só trans­ estabelecidos, que seja dotado de reflexão e ação e mitem de forma desigual (BOuRDIEu, 1998). que se empenhe na transformação. Para cumprir o previsto por lei como direito de Diante dessas demandas por uma educação in­ todo cidadão, necessita­se de uma nova escola que clusiva, destacamos as práxis de origem popular, ou aprenda a refletir criticamente sua função social, seja, a Educação Popular traz uma pluralidade de bem como seu papel enquanto formadora de pes­ perspectivas, concepções teóricas e conceitos acerca soas, ou seja, uma escola que não tenha medo de se dessa modalidade educativa, há concordância nas arriscar, mas coragem de criar e questionar o que abordagens de diferentes autores (CALADO, 1999, está estabelecido, em busca de rumos inovadores. 1998; GOHN, 2001, 1994; MELO NETO, 1999; SA­ Segundo Gohn (2005, p. 108), LES, 1999; WANDERLEY, 1994), no sentido de que A nova escola deve reconhecer a existência de de­ a Educação Popular se manifesta em um imenso mandas individuais e coletivas, orientar­se para a leque de espaços formais e não formais e em uma liberdade do sujeito pessoal, para a comunicação multiplicidade de dimensões sociais nas quais são intercultural e para gestão democrática da socieda­ tecidas as relações cotidianas em diferentes esferas de e suas mudanças. Deve aumentar a capacidade do mundo concreto e da subjetividade humana. dos indivíduos de ser sujeitos, de compreender o outro em sua cultura. Nessa perspectiva, compreendo a Educação Po­ pular como uma prática que, independentemente E é nesse campo que a preocupação com o saber, dos espaços – formais, governamentais, não gover­ com o conhecimento transmitido pela escola, com namentais, alternativos – nos quais se concretiza, se o acesso aos bens culturais e com um currículo ca­ afirma como uma metodologia orgânica, coletiva e paz de ajudar na construção de uma sociedade mais cooperativa que potencializa as condições de cap­ humana e menos excludente faz que os educadores tação, apreensão e leitura crítica da realidade e de avaliem suas práticas individuais e coletivas. intervenção dos protagonistas dessa ação educativa Se pretendemos oferecer aos alunos um conheci­ na esfera social (econômica, política, cultural), ob­ mento significativo, o papel é desconstruir o conhe­ jetivando transformá­la. cimento produzido pela cultura dominante e ajudar a construir um outro saber com a participação dos É nesse sentido que Sales (1999, p. 115) expressa segmentos menos privilegiados de nossa sociedade, sua concepção de Educação Popular, ponto de vis­ ou seja, é preciso que esses segmentos possam parti­ ta que serve de referência e fundamentação para as cipar como sujeitos e com sua real identidade. análises explicitadas neste texto: Paulo Freire nos auxilia muito nisso. Sua luta A Educação Popular é um modo de atuar e tem contra a educação bancária e, sobretudo, sua cons­ uma perspectiva: a apuração, organização, apro­ trução de uma pedagogia da resistência aos proces­ fundamento do sentir/pensar/agir dos excluídos sos de opressão no Brasil e na América Latina são, do modo de produção capitalista, dos que estão vi­ sem dúvida, uma preocupação ética. vendo ou viverão do trabalho, bem como dos seus A ética de Freire está justamente na construção parceiros e aliados em todas as práticas e instâncias de uma teoria­prática para a libertação dos oprimi­ da sociedade. 227 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 227 5/15/09 2:15:21 PM
  • 32.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais Estabeleceu­se, nos últimos anos, uma polêmica Em suma, no MST, a Educação Popular pretendi­ entre teóricos que estudam os movimentos sociais da é aquela que deve configurar­se como “produção no campo, uns defendendo, como Navarro (1997, de uma cultura ou de um modo de sentir/pensar/ 2002), ser o MST um movimento reformista, com agir mais coerente. É a formação de bons lutadores” improváveis potencialidades revolucionárias, e ou­ (SALES, 1999, p. 119), de sujeitos que experienciam tros, a exemplo de Petras (1997) e Carvalho (2002, uma práxis de resistência à exploração e à expro­ 2004), abordando o Movimento dos Sem­Terra priação do modo capitalista de produção e que lu­ como um movimento cujas táticas são reformistas, tam por justiça social, soberania popular e dignida­ como a luta por terra e reforma agrária, mas subor­ de humana. dinadas a uma estratégia revolucionária, um projeto Os movimentos sociais são ambiências onde de construção de uma sociedade socialista. ocorrem a construção e a reinvenção de saberes Em sua abordagem do conceito de Educação Po­ (ANDRADE, 1997; CALDART, 1997, 2000; GRZY­ pular, Sales (1999, p. 111­122) enfatiza a produção do BOWSKI, 1987; NASCIMENTO, 1996; SCHERER­ saber, diferenciando saber e conhecimento ao susten­ WARREN, 1996). Nesta perspectiva, a inserção de tar que o conhecimento é apenas uma das dimensões, um sujeito nas lutas pela conquista de direitos civis a dimensão intelectual, do saber, este entendido como e políticos, individuais e coletivos (práxis política) entrelaçamento dialético entre o sentir, o pensar, o contribui para o desenvolvimento de competências querer e o agir das pessoas, grupos, categorias e clas­ discursivas, reflexivas, morais e políticas; para a am­ pliação de competências e habilidades no domínio ses sociais. O saber inclui intelecto, afetividade, von­ cognitivo e afetivo; para a compreensão crítica do tade, prática, dimensões humanas que mutuamente mundo e consequente expansão da consciência; se influenciam e se reforçam. O saber é, portanto, para o empreendimento de ações transformadoras, cultura: envolve a realidade objetiva e subjetiva das individuais e coletivas. pessoas. No confronto de saberes, nas nossas ações e omissões, assumimos a condição de educadores, sen­ do nossas relações interindividuais e intersubjetivas, necessariamente, relações pedagógicas. * ANOTAÇÕES É por essa razão que, nos movimentos sociais – em especial no MST, objeto das reflexões apresentadas –, a educação não se restringe aos muros da escola, mas estende­se a todos os processos de aprendizagem ge­ rados pela experiência cotidiana de luta organizada, situando­se, preferencialmente, no universo da edu­ cação informal ou da educação não formal. A prática educativa que no MST poderíamos de­ signar como Educação Popular não desconsidera a escola como lugar de formação das pessoas, sendo esse um espaço importante dentro da intencionali­ dade pedagógica do Movimento. Para os Sem­Terra, no entanto, é nas ações de luta pela terra e em outras lutas sociais (CALDART, 2000) que são forjados ci­ dadãos com maior aprofundamento do seu saber, mais capacitados, então, para a transformação do atual modo de organização da sociedade. 228 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 228 5/15/09 2:15:22 PM
  • 33.
    AULA 8 —Movimentos Sociais em suas Diferentes Expressões AULA ____________________ 8 MOVIMENTOS SOCIAIS EM SUAS DIFERENTES ExPRESSÕES Conteúdo Unidade Didática – Movimentos Sociais • Espaços de um novo associativismo • As interações sociais no decorrer dos séculos Competências e habilidades • Capacidade de identificar as diferentes expressões dos movimentos sociais a partir da década de 1990 no Brasil Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo esPAços De uM novo AssoCiATivisMo ciativismo é a expressão organizada da sociedade, O associativismo cinge necessidade, interesse e apelando à responsabilização e intervenção dos ci­ vontade e é o lugar dos debates, das iniciativas, dos dadãos em várias esferas da vida social, e constituiu acordos. um importante meio de exercer a cidadania. A organização associativa instrumentaliza os me­ A importância e o valor do associativismo decorre canismos que dão concretude às demandas sociais do fato de se constituir em uma criação viva e inde­ e que fazem dos homens sujeitos de seu próprio pendente; uma expressão da ação social das popula­ destino, tornando­os mais próximos da autonomia ções nas mais variadas áreas. Ou seja, o Movimento na promoção do desenvolvimento local. O Asso­ Associativo é um produto social. Transforma­se com 229 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 229 5/15/09 2:15:22 PM
  • 34.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais a evolução social, acompanha e participa ativamen­ XX. Nesse sentido, destacamos os seguintes movi­ te dessa transformação e realiza­se quando tem bem mentos: as Guerras na Bacia do Prata, a Primeira claros os objetivos da sua intervenção e o seu projeto Greve de Escravos­Operários do Brasil, a Luta pela próprio como conteúdo fundamental da sua ação. Eleição Direta, a Guerra do Paraguai, a Lei do Ven­ tre Livre, a Revolta de Canudos, a Fundação da As­ As inTerAções soCiAis no DeCorrer sociação Tipográfica Paulista de Socorros Mútuos, Dos séCulos o Movimento Abolicionista, o Movimento Repu­ Para caracterizar os movimentos em suas mais blicano, os Movimentos grevistas, o Movimento diferentes e expressivas conotações, começaremos Estudantil, entre outros. pelas heranças do século XVIII, as quais tinham Os movimentos e lutas sociais no Brasil do século como características o desejo de liberdade da me­ XX seguem uma linha própria e independente dos trópole. Destacamos os principais acontecimentos: períodos anteriores. Segundo Gohn (2003, p. 59­60), A Inconfidência Mineira – foi o primeiro movi­ esse século tem “tonalidade própria, criada a partir das novas funções que passam a se concentrar nas mento a definir com clareza a vontade de indepen­ cidades. Progressivamente a indústria, e as classes dência do Brasil, da colônia portuguesa. sociais que lhes são caudatárias, orientará as ações A Conspiração dos Alfaiates – considerada a pri­ e os conflitos que ocorrem no meio urbano”. O que meira Revolução Social Brasileira, em razão de seu fica evidenciado quando o Estado brasileiro trata a caráter de movimento social, que uniu a elite e o questão social como caso de polícia, por meio do proletariado da Bahia. qual as greves serão uma constante e o controle so­ A primeira metade do século XIX é caracterizada cial dar­se­á por meio de leis e políticas restritivas pelas lutas, movimentos e rebeliões nativistas, que à entrada de trabalhadores imigrantes, com criação constituem eventos importantes para a construção de programas sociais integrativos pela Igreja Católi­ da cidadania sociopolítica do País. Mas esses levan­ ca, pelos empresários ou pelo próprio Estado. tes não tinham projetos bem­delineados ou estavam Ainda nesse período, da segunda fase, as classes fora do lugar. O mais importante é que as reivindi­ populares começam a emergir como atores históri­ cações giravam em torno da construção de espaços cos sob novos prismas, deixando de ser apenas casos nacionais no mercado de trabalho, nas legislações, de polícia e se transformando em cidadãos com al­ no poder político, entre outros, porém, não fomen­ guns direitos. Coroando esse momento simbolica­ tavam que a escravidão era uma questão a ser tratada mente de lutas dos trabalhadores, embora tenham e eliminada por não tratar a estrutura de produção, sido promulgadas como dádivas governamentais, mas sim o modo como ela estava organizada. Nes­ foram conquistas das classes subordinadas em geral se período podem­se destacar os seguintes movi­ (GOHN, 2003). mentos: a Conspiração dos Suassunas, a Revolução A terceira fase ficou conhecida como populista, Pernambucana, os Atos de Adesões à Revolução no pois foi um tempo fértil para a participação social, Porto, a Proclamação da Independência do Brasil, a trazendo de volta a disputa político­partidária. Por Guerra Cisplatina, a Balaiada, o Movimento Cabana­ outro lado, da, o Movimento Cabanagem, a Guerra dos Farra­ pos, a Sabinada, a Revolução Praieira, entre outros. o Estado passa também a intervir na sociedade por A segunda metade do século XIX é marcada por meio de políticas sociais de cunho clientelístico, ob­ lutas em torno da questão agrária, de resistência às jetivando integrar na cidade as massas recém­deslo­ cadas do campo, e ganhar sua simpatia por meio de oligarquias rurais, que não tinham projetos políticos sistemas de barganhas: o voto pelo melhoria urbana, e/ou ideológicos claros. Sem contar os movimentos de qualquer natureza (GOHN, 2003, p. 91). das Associações de Auxílio Mútuo. Como também houve os movimentos que se aproximam das carac­ A quarta fase é marcada pelo período de resistên­ terísticas de movimentos sociais urbanos do século cia ao regime militar, em que ocorreram várias lu­ 230 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 230 5/15/09 2:15:23 PM
  • 35.
    AULA 8 —Movimentos Sociais em suas Diferentes Expressões tas de resistência e movimentos de protesto no País. xa de ser sinônimo de exclusão. Então, diante desse Momento de grande efervescência da esquerda bra­ quadro, como ficamos? sileira. Em virtude do regime que imperava na so­ Como superar as desigualdades na sociedade ciedade naquele momento as articulações ocorrem atual, quando não se reconhece a fragilidade do in­ na clandestinidade, levando a confrontos armados divíduo na sociedade? Como enfrentar hoje, pelo como a única via de instalar uma nova sociedade menos no Brasil, um problema que é genericamente no País. Os movimentos que mais se destacam nesse desqualificado como exagero ou manipulação po­ período são: o Movimento Estudantil, a Guerrilha lítica, e que muitas vezes aparece realmente assim do Araguaia, a Promulgação do AI­5, a implantação envolto? Que pontos mínimos uma agenda social do Movimento das Comunidades Eclesiais de Base deve contemplar hoje em dia? da Igreja Católica no Brasil, a promulgação do Es­ ! tatuto do Índio. DICA A quinta fase é considerada a mais rica, por ser uma fase de resistência e de enfrentamento ao regi­ www.scielo.br me militar, como também de rearticulação da socie­ dade civil, uma vez existia um clima de esperança, de crença na necessidade da retomada da democra­ cia, e se acreditava na crença da força do povo, das * ANOTAÇÕES camadas populares, que quando organizadas po­ dem mudar a história. Nesse período são lançados vários movimentos feministas, e criada a Comissão Pastoral da Terra, o Movimento pela Anistia, o Mo­ vimento Sindical, o Movimento dos Sem­Terra, o Partido dos Trabalhadores, ocorrem grandes greves, entre outros. A sexta e última fase caracteriza­se por ser um período de intensa movimentação social, em razão da facilidade de divulgação e reprodução das ações coletivas pelos meios de comunicação de massa. Vale ressaltar que as mobilizações coletivas nesse período partem de um chamamento à consciência individual das pessoas e elas, usualmente, têm se apresentado mais como “campanhas” do que como movimentos sociais (GOHN, 2003). Esse período apresenta as seguintes mobilizações: a criação da Central Única dos Trabalhadores (CuT), o Movi­ mento Diretas­Já, o Movimento pela Constituinte, o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, os Movimentos Ecológicos, entre outros. Pode­se dizer que ao longo da história o País teve lutas e movimentos empenhados em mudar sua rea­ lidade social, mas ao mesmo tempo em que havia avanços o retrocesso também existia. Porém, pode­ se afirmar que, no final do século XX, pobreza dei­ 231 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 231 5/15/09 2:15:24 PM
  • 36.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais AULA ____________________ 9 Unidade Didática – Movimentos Sociais TENDÊNCIAS DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA REALIDADE BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA Conteúdo • A conjuntura dos movimentos populares nos anos 1990 • O neoliberalismo influenciando as ações sociais Competências e habilidades • Compreender o neoliberalismo nas tendências contemporâneas dos movimentos sociais na socieda­ de brasileira a partir do processo histórico globalizado Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo A ConjunTurA Dos MoviMenTos res transformadores e que a crise é parcial, pois, como PoPulAres nos Anos 1990 diz Gohn (2005, p. 100), os “movimentos são fontes Nos mais diversos ambientes sociais, é senso co­ de ideias e práticas. As práticas fluem e refluem. As mum ouvir­se falar que os movimentos sociais es­ ideias persistem, e se transformam agregando ele­ tão em crise e que a descrença e a desmobilização mentos novos, ou negando velhos, segundo a con­ juntura dos tempos históricos”. predominam, gerando uma onda de individualismo e de relações mais privadas (GOHN, 2005). Vejamos. Os anos 1980 foram frutíferos para ins­ ! IMPORTANTE taurar uma nova racionalidade no social, ou seja, o • O grande saldo deste período é a demarcação direito de participar das questões que lhe diz respei­ de espaços para a voz dos não governantes, como to, interferindo diretamente na cultura política do também a eclosão de novos movimentos que não País nesse século. são do meio popular. Vale ressaltar, que essa mobilização e organização • O sindicalismo de empresas foi a referência para o sindicalismo público estatal. dos grupos foram consideradas virtudes com pode­ 232 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 232 5/15/09 2:15:25 PM
  • 37.
    AULA 9 —Tendências dos Movimentos Sociais na Realidade Brasileira Contemporânea o neoliberalismo influenciando as ações sociais da pelo economista, como uma espécie de servidão O debate sobre os direitos humanos na contem­ moderna1 (ANDERSON, 1996; NETTO, 1994). poraneidade requer uma reflexão sobre a consti­ O pensamento de Hayeck rapidamente foi ga­ tuição das relações sociais e institucionais em um nhando adeptos e, em 1947, ocorreu a primeira reu­ cenário global marcado pelo capitalismo neoliberal, nião, em Mont Pèlerin, na Suíça, com os partidários pautado pela desconstrução do Estado­nação e pela dessa nova ideologia, no intuito de combater a polí­ incorporação da esfera política pela econômica, re­ tica de bem­estar keynesiana e desenvolver a base de velando uma verdadeira inaptidão para a socializa­ um capitalismo livre de regras para cerceá­lo (AN­ ção do poder político e econômico, concomitante a DERSON, 1996). Como argumento, uma retórica um novo arranjo dos espaços e das modalidades de requintada que apelava para um discurso que tinha participação social. como centro a ideia de liberdade dos cidadãos e da Nessa direção, as organizações da sociedade civil, livre concorrência do mercado, considerados im­ especialmente as envolvidas na garantia dos direitos prescindíveis para o desenvolvimento da sociedade. humanos, não devem ser analisadas de forma sepa­ Hayeck concebia o mercado como uma criação rada do contexto sociohistórico em que se inserem. da natureza e não da cultura, por isso a economia Para tal, faz­se necessário contextualizar brevemen­ e os direitos sociais deveriam submeter­se às suas te o surgimento do projeto neoliberal e algumas de leis (VIEIRA, 2001). Sendo assim, o Estado de bem­ suas implicações em nossa época, oferecendo subsí­ estar era entendido como destrutivo à liberdade e dios para fomentar a discussão relacionada à socie­ à vitalidade da concorrência, cuja desigualdade re­ dade civil organizada. presentava um fator positivo para impulsionar as Conforme Perry Anderson (1996), o neoliberalis­ sociedades ocidentais (ANDERSON, 1996). A ideia mo nasce em regiões da Europa e da América do Nor­ básica gira em torno da igualdade improdutiva, ao te, em um momento histórico marcado pelo apogeu passo que a desigualdade impelia a competição, de­ da social­democracia, visando à reestruturação da senvolvia a qualidade, aquecia o mercado e aumen­ sociedade europeia no período pós­Segunda Guer­ tava a riqueza; desse modo, o mercado se incumbi­ ra Mundial. A proposta neoliberal surge como uma ria de resolver os problemas sociais. crítica teórica e política a essa atuação e tem como Na década de 1970, a crise do modelo econômi­ base a obra O caminho da servidão, 1944, do econo­ co pós­guerra descerra um campo profícuo para o mista austríaco Friedrich Hayeck, que exalta a não fortalecimento e propagação das ideias neoliberais. limitação das barreiras comerciais entre os países. Para Hayeck e seus colaboradores, o problema da No arco teórico idealizado por Hayeck encontra­ crise era decorrente da atuação dos sindicatos e do se o arsenal com que se ergueu a política neoliberal. movimento operário, um calo no sapato que corroía uma proposta que propunha a limitação das regu­ as bases da acumulação do capital com as reivindica­ lações do mercado conduzidas pelo Estado. Para ções por melhores salários e condições de trabalho, Hayeck, essa intervenção representava uma ameaça destruindo os lucros das empresas e desencadeando a às “liberdades” econômicas e políticas, compreendi­ inflação. A pressão das organizações sindicais perante 1 Para Netto, o liberalismo clássico teve seus pilares destroçados quando a ordenação do capital entrou na fase do monopólio, pois tornou retrógra­ do os alicerces do pensamento liberal, favorecendo a redução do papel do Estado na esfera econômica e social. Ele acredita que o neoliberalismo não deixa de ser uma nova concepção do liberalismo, pois está ligado a muitas particularidades deste. O liberalismo que, mediante mistificações ideológicas, acabou por ser responsável por confundir e reduzir “liberdade(s) a liberalismo” e a identificá­lo com democracia, revela aí muito da sua resistência ideocultural, e é nesta resistência que se ergueu o que nos tempos hodiernos denota a ofensiva neoliberal. Assim, é especialmente no arco ideoteórico polarizado por Hayek e Friedman que a ofensiva neoliberal se apóia. Nesta premissa encontra­se o princípio substancial do neoliberalismo: “uma argumentação teórica que restaura o mercado como instância mediadora societal elementar e insuperável e uma proposição política que repõe o Estado mínimo como única alternativa e forma para a democracia” (ver NETTO, J. P. A crise do socialismo e a ofensiva neolibe- ral. São Paulo: Cortez, 1994, p. 77). 233 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 233 5/15/09 2:15:26 PM
  • 38.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais o Estado significava o aumento dos gastos direcio­ Bolsas de Valores, à especulação financeira e à des­ nados às políticas sociais (ANDERSON, 1996). regulamentação da economia, fazendo que muitos Como saída para a crise, os neoliberais prediziam Estados fossem incorporados nessa dinâmica de ser necessário romper com o poder dos sindicatos, forma assimétrica (VIEIRA, 2001). cortar os gastos sociais, a focalização das políticas A pouca capacidade de controle das operações públicas e redução da intervenção do Estado na mundiais contribuiu para o solapamento e até desa­ parecimento de alguns setores econômicos na gran­ economia, onde a busca pela estabilidade econômi­ de maioria dos Estados­nação. Contudo, alguns ele­ ca deveria compor a meta principal a ser alcançada mentos mantiveram­se intocados, como a facilida­ pelos governos. Isso implicava uma disciplina orça­ de da cobrança de impostos e a desmobilização da mentária com severa restrição das políticas sociais, oposição (VIEIRA, 2001). concomitante à restauração do “natural” índice de Como consequência desse quadro, pôde­se visua­ desemprego, uma forma de drenar o poder dos sin­ lizar no Brasil, e na maioria dos países da América dicatos com o aumento da massa de mão­de­obra Latina, a existência de diversos mundos que se im­ disponível (ANDERSON, 1996). bricam em distintas realidades político­econômicas, A crise econômica inaugura os anos 1980, conheci­ sociais, culturais e ambientais. Esses países vivem do como a década perdida. As sociedades latino­ internamente contradições lancinantes, caracterís­ americanas, que nunca estiveram completamente ticas que os hierarquizam e os identificam como alheias às repercussões do capitalismo internacio­ primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto mundo, nal, viveram um período de baixo crescimento eco­ paralelo ao crescente alargamento da distância entre nômico. O acirramento da concentração de riquezas e um e outro. o alastramento desenfreado da pobreza se tornaram O primeiro mundo não está lá fora, está aqui den­ cada vez mais extremados, atingindo contingentes tro mesmo, só que devido à desigualdade social consideráveis da população e fazendo emergir inú­ presente no país e à incapacidade de superar a po­ meras categorias de pobreza e riqueza. Criam­se os lítica oligárquica extremamente fechada e depen­ diversos níveis de pobres: os mais ou menos pobres, dente, incompetente para a maioria da população, os subpobres, os miseráveis2 etc. Ao mesmo tem­ sobrevém a necessidade de modernizar­se pela via po, surgem, o rico extravagante, o rico comedido, ideológica. A globalização é mais uma dessas mo­ dernizações (VIEIRA, 2001). o milionário, o novo rico, o quase­rico, o rico com dinheiro ou investimentos no exterior etc. É dessa No Brasil, apesar da dilapidação econômica ocor­ época também o uso indiscriminado do vocábulo rida durante a década perdida, a sociedade civil or­ exclusão, característica de um crescimento insu­ ganizada manteve uma atuação expressiva, uma he­ portável entre os mundos da riqueza e da pobreza rança da luta contra o estado ditatorial que culminou (VIEIRA, 2001). no fortalecimento dos movimentos sociais e organi­ A nova forma de acumulação do capital inter­ zações não governamentais na defesa dos direitos hu­ nacional, em voga desde a década de 1970, impôs manos em todo o País. Por isso, ao contrário do que novos desafios aos países pobres. Assiste­se ao de­ supunham diversas teorias econômicas – que faziam senvolvimento do capital internacional atrelado às uma conexão direta entre a queda dos índices de crescimento econômico e a apatia política e a anomia social, a sociedade brasileira respondeu de maneira 2 Nesse contexto, as políticas sociais se revestem de inúmeras con­ dicionalidades, voltando­se cada vez mais para o atendimento dos positiva mostrando uma grande capacidade de se indigentes, isto é, das pessoas sem condições de gerar renda mínima organizar perante a ofensiva neoliberal (OLIVEIRA, (ver VIEIRA, E. Estado e política social na década de 90. In: NO­ GuEIRA, F. M. G. (Org.). Estado e políticas sociais no Brasil. Casca­ 1996), cuja conquista da Constituição de 1988 cons­ vel: Edunioste, 2001). tituiu um marco importante dessa trajetória. 234 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 234 5/15/09 2:15:26 PM
  • 39.
    AULA 9 —Tendências dos Movimentos Sociais na Realidade Brasileira Contemporânea No final dos anos 1980, a queda do Muro de Ber­ atores principais da procedente expansão conquis­ lim contribuiu para a progressão do ataque neolibe­ tadora eram Estados, desta vez são empresas e ral, pois simbolizou globalmente – a derrocada do conglomerados, grupos industriais e financeiros projeto socialista e a desqualificação da teoria so­ privados que pretendem dominar o mundo. Nunca cial de Marx – o fim da ideia de revolução (NETTO, os Senhores da Terra foram tão poucos e tão pode­ rosos. Esses grupos estão situados principalmente 2005). Nesta ótica, a mensagem deixada às socieda­ na tríade Estados unidos/união Europeia/Japão. A des é clara: os caminhos rumo a uma ordem social metade deles está baseada nos Estados unidos (RA­ diferente são um engodo. Para “endireitar” essa situ­ MONET apud DEMO, 2005). ação, fez­se necessário, mais do que nunca, coroar a “sociedade livre fundada no mercado”. E novamente A corrida pela conquista de praças financeiras os candidatos considerados mais sensatos foram os e mercados torna­se prioritária ante os países. É a ditos neoliberais, proclamando a invencível “dinâ- lógica do capital sem pátria, acirrando as desigual­ mica do mercado” e o capitalismo do “Estado míni- dades sociais. Os conglomerados internacionais e as mo” como arauto de bons tempos3 (NETTO, 2005). instituições financeiras multilaterais – FMI, Banco A desregulamentação dos mercados e de bens e Mundial, BID, Bolsas de Valores etc. – extrapolam serviços, a especulação financeira, a abertura econô­ as fronteiras nacionais. A pressão dessas institui­ mica, a flexibilização das leis trabalhistas e a priva­ ções orienta as ações de ajuste estrutural nos países tização das empresas estatais são marcos da globali­ “subdesenvolvidos”, priorizando o desenvolvimento zação neoliberal que irrompem nos anos 1990 com econômico e o corte orçamentário das políticas so­ extraordinária vitalidade. Este modelo tem influen­ ciais (ROCHA; FERREIRA, 2006). ciado a economia de inúmeros países até hoje. En­ Porém, como ressalta Evaldo Vieira (2001), a glo­ quanto uns se submetem às características de espo­ balização não ocorre de maneira semelhante para liação econômica, poucos grupos operam as regras todos os países, já que possui graus e diferenças nas do jogo. exigências para participação nas relações mundiais. Com a aceleração do processo de globalização, Os países pobres não possuem os mesmos trunfos essa característica tornou­se marcante, uma vez que perante os acordos econômicos, políticos e sociais algumas empresas e grupos econômicos decidem o travados com os grupos hegemônicos. Por isso, ela destino da humanidade, orientados mais pela es­ se caracteriza por uma competição desigual na cor­ peculação financeira alienada, do que pela produ­ rida pela dominação de mercados e inserção dos tividade competitiva, acirrando a separação entre a países na economia e cultura mundial. Ao passo que produção voltada para a satisfação das necessidades a suspensão das barreiras nacionais destinadas ao li­ genuinamente humanas e a autorreprodução avas­ vre comércio nem sempre são uma via de mão du­ saladora – pois tudo se torna material, inclusive o pla, pois os países de capitalismo muito desenvolvido homem –, do capital (DEMO, 2005). pregam o livre comércio para os outros, mas não para A Terra vive assim uma nova era de conquista, co­ eles (VIEIRA, 2001, p. 26). mo na época da colonização. Mas, enquanto os Assim, a economia global permite que os países mais ricos invadam mercados internacionais, quase sempre livres de responsabilidades, fragilizando o 3 De acordo com José Paulo Netto, um dos efeitos mais lamentáveis desembocados com a queda do comunismo da ex­união Soviética mercado interno e arrastando as regiões mais remotas refere­se à ausência de medo por parte dos ricos, já que não há no do globo para a mesma infernal dinâmica financeira. mundo hoje – pelo menos por enquanto – um sistema que afronte com credibilidade a ordem atual. Ocorre, com isso, a impressão do Não é à toa que cada uma das cem principais empresas poder incontido do capital, já que não existe nenhuma corrente al­ globais vende mais do que cada um dos 120 países mais ternativa que faça realmente frente ao sistema político­econômico vigente (ver NETTO, J. P. A crise do socialismo e a ofensiva neoliberal. pobres exporta (RAMONET, 2003, p. 11 apud DEMO, São Paulo: Cortez, 1994). 2005, p. 17). Isso representa em torno de 70% do co­ 235 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 235 5/15/09 2:15:27 PM
  • 40.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais mércio mundial, complicando ainda mais a desigual­ No cerne desse processo, reside a violência es­ dade social nos países em desenvolvimento. trutural da sociedade capitalista que patrocina o No Brasil, por exemplo, um país que apresenta acirramento das desigualdades e tensões sociais grandes contradições hierárquicas e de distribuição utilizando­se como convém da classe trabalhado­ de riquezas, a produção de grãos é suficiente para ra, concomitantemente ao aumento da insegurança alimentar a população inteira de alguns países eu­ no mundo do trabalho e do desemprego. Por outro ropeus, contudo mantém internamente taxas para lado, os avanços do desenvolvimento tecnológico, segurança alimentar. Conforme Galbraith (1987), especialmente a automação, não têm significado essa contradição é um elemento da globalização, para contribuir a melhoria da qualidade de vida do pois o mercado não foi estabelecido para diagnos­ trabalhador e reduzir os postos de serviços, aumen­ ticar e atenuar os problemas sociais e promover os tando os índices de desemprego e miséria. direitos humanos, tornando­se comum a condução Até mesmo a crise da falta de emprego cumpre um da economia desvinculada de considerações éticas papel específico, qual seja, a formação do exército de entre meios e fins. reserva. Paralelo a isso, assiste­se à flexibilização e Ao lado da aparente liberdade, as injustiças so­ precarização do mundo do trabalho, em um esque­ ciais são exorbitantes. A abundância da produção ma de terceirização, cuja demissão massiva dos traba­ de alimentos e o vertiginoso desenvolvimento da lhadores é efetuada com vistas a uma recontratação tecnociência e informação convivem com a miséria com salários decrescentes e carga horária extensiva crescente da maior parte dos humanos do globo. (DEMO, 2005). Assim, cai por terra a crendice de que Entre os seis bilhões de habitantes do planeta, apenas o emprego geraria sociedades mais igualitárias. 500 milhões vivem confortavelmente, ao passo que 5,5 Nessa conjuntura, a pobreza, mais do que um in­ milhões passam necessidades. É o mundo às avessas, dicador de uma condição social de classe, torna­se observa Ramonet (RAMONET, 2003, p. 11, apud um produto das relações em que se produzem e re­ DEMO, 2005, p. 15). produzem as desigualdades no sistema capitalista. Segue o mesmo ritmo das desigualdades a con­ E, mais do que um não acesso aos bens de consumo, centração de capital: a riqueza das 225 fortunas do o capitalismo neoliberal versus inclusão à margem mundo, cerca de mais de um trilhão de euros, equi­ patrocina a violência e globaliza a pobreza, confi­ para­se à renda anual de 47% da população mais gurando um quadro definido pela formação econô­ pobre do planeta. Desse modo, alguns poucos indi­ mica e social que nos alcança diariamente: trabalho víduos são mais ricos que países inteiros. O patri­ escravo, remuneração escassa, jornadas exaustivas mônio das 15 pessoas mais afortunadas do mundo e condições de trabalho insalubres, ausência de é maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) de educação de qualidade, precariedade dos serviços todos os países da África Subsaariana (RAMONET, públicos, exploração sexual comercial, trabalho in­ 2003 apud DEMO, 2005). formal, tráfico de seres humanos, migração forçada, Conforme Netto (1994), os prosélitos do capita­ xenofobia etc. lismo parecem ignorar que esse sistema funciona A devastação do meio ambiente, o consumismo para cerca de 15% da humanidade apenas, despre­ exacerbado, a mídia de massa e a manipulação in­ zando, por conseguinte, a generalização da pobre­ sidiosa das tecnologias da informação também são za que essa ordem vem produzindo. Nas últimas fatores preocupantes da sociedade contemporânea. décadas do século XX, ele se manifesta pela “curva O apelo comercial para o consumo, como forma decrescente” de eficiência econômico­social, ofere­ de bem­estar, deixa a sociedade à deriva do mar da cendo projeções de progressiva instabilidade e in­ próxima novidade, recriando necessidades huma­ segurança, concomitante à incompatibilidade para nas artificiais e arregimentando o lucro do capital com a socialização do poder político e econômico. empresarial. 236 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 236 5/15/09 2:15:28 PM
  • 41.
    AULA 9 —Tendências dos Movimentos Sociais na Realidade Brasileira Contemporânea Até mesmo a escola reproduz os conceitos des­ mocráticos, configurando seu caráter contraditório: sa mesma sociedade, em um modelo de educação a compatibilidade para com a socialização da políti­ tecnicista mais voltado para o mercado do que para ca e ao mesmo tempo a incompatibilidade para com a transformação social. O trabalhador é levado a a socialização do poder político. se apropriar das tecnologias alheias ao questiona­ Diante desse quadro, o debate sobre a sociedade mento da realidade. Com isso, encobre-se que a glo- civil organizada não é neutro e apresenta posições balização liberal destrói o coletivo e apropria-se, via das mais variadas. Para Mazzeo (1995), o conceito mercado e setor privado, das esferas pública e social genérico de sociedade civil organizada que pulula (DEMO, 2005, p. 16). Ou seja, no capitalismo do Es­ nos tempos hodiernos não é novo, posto que a socie­ tado mínimo, os países são levados, seja por motivos dade civil é produto da revolução burguesa, deriva­ de crise orçamentária, seja pela patrulha ideológica da da Revolução Francesa. Isso significa que, desde dos defensores do livre comércio, ao desmonte das o período pós­revolução, é na sociedade civil que se políticas sociais, com a subsequente mercantilização encontram organizadas as classes sociais: burguesia dos direitos sociais – saúde, educação, previdência e proletariado. Por essa lógica, é na própria socieda­ etc. – transformando­os em reles produtos para se­ de civil que a burguesia exerce sua hegemonia, seja rem vendidos no mercado4 (VIEIRA, 2001). por intermédio dos aparelhos ideológicos – os veí­ Nesse contexto de violação dos direitos humanos, culos de comunicação de massa, a Família, a Escola, ampliam­se as disparidades sociais, tensões, confli­ a Igreja – ou pelo controle dos meios de produção. tos, miséria, violência e criminalidade, em paralelo Logo, a sociedade civil é palco das lutas de classe e ao surgimento de novos movimentos sociais é para contradições, mas também é preciso observar que a economia a explosão do terceiro setor. Soma­se a os problemas que acometem a sociedade civil são isso um novo arranjo dos espaços e das modalida­ originários de contextos de classe. des de participação, o que inclui novas estratégias Dessa maneira, Mazzeo (1995) acredita que as de ser/estar nas sociedades pelos sujeitos. ONG’s representam frações importantes de parcelas As lutas populares movidas por interesses de particulares da sociedade civil, mas, de outro lado, classes foram substituídas, na contemporaneidade, revelam também, como subproduto, a fragmentação por outros movimentos: liberação sexual, femi­ dessa mesma sociedade. nismo, visibilidade gay, etc. Enquanto para alguns, esses movimentos sociais se caracterizam por uma Podemos dizer que as ONG’s, em seu aspecto ge­ nérico, acabam apresentando frações singulares, no massa nebulosa de indivíduos atomizados, que nem contexto da sociabilidade universal capitalista, o sempre se articulam com os demais, para outros, os que significa dizer que, na maioria das vezes, essas novos movimentos oferecem a possibilidade de dis­ reivindicações, ainda que justas, ficam limitadas a cussão das diversidades e singularidades escamotea­ ações meramente pontuais, de caráter lobbista e re­ das pelos movimentos de classe de outrora. formista, de curto alcance social (MAZZEO, 1995). De acordo com Netto (2005), isso revela que a burguesia aliada às grandes corporações capitalistas Demo (2005) cita Montaño (2002), que reflete o e as instâncias estatais acentuam uma autonomia do posicionamento ambíguo que vem sendo adotado sistema em face das aspirações dos movimentos de­ pelas organizações não governamentais, já que não querem ser Estado nem mercado, mas usufruem dos dois, com um certo espírito privatizante neoliberal. 4 Segundo Evaldo Vieira, não existe política social no Brasil hoje. De acordo com ele, política social é uma estratégia governamental de Ao ressaltar que Estado e mercado são elemen­ intervenção e não um serviço de distribuição de alimentos, pura tos históricos vigentes nas sociedades, enfatizando e simplesmente (ver VIEIRA, E. Estado e política social na década de 90. In: NOGuEIRA, F. M. G. (Org.). Estado e políticas sociais no que é praticamente impossível viver sem eles, Demo Brasil. Cascavel: Edunioste, 2001). (2005) destaca ser necessário o prevalecimento do 237 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 237 5/15/09 2:15:29 PM
  • 42.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais bem comum, para o qual a garantia do bom fun­ instâncias da globalização internacional, como es­ cionamento do Estado e dos mercados é condição tratégia para controlar crises e instaurar uma “mo­ decisiva. Por isso, “há que se combater o Estado e ral controladora” nos países periféricos.5 mercado capitalistas” (p. 8), diz ele. E as organiza­ Na opinião de Boaventura de Sousa Santos (2005), ções não governamentais parecem caminhar na a proliferação de discursos, por vezes ambíguos, sombra desse quadro, ora transitando em um, ora sobre o Estado e a sociedade civil revela em parte em outro. a utilização indiscriminada dos esquemas concei­ Todavia, alguns autores apontam uma série de va­ tuais de análise provindos do século XIX, logo in­ lores que caracterizam e diferenciam as organizações capazes de se adequar com inteireza aos processos não governamentais do Estado, como a transparên­ sociais da atualidade. Por outro lado, a categoria de cia, os métodos participativos de atuação e gestão, a Estado­nação predomina enquanto suporte de in­ disponibilidade de aprendizagem, a busca para o de­ vestigação suprema, o que dificulta a compreensão senvolvimento da sociedade e a justiça social, entre científica dos processos locais infraestatais e dos outros (HAYLEY, 2000 apud PEDLOWSKI, in SILVA, movimentos globais do sistema mundial. Assim, 2002). mesmo com os esforços teóricos inovadores das Já para Robinson (1997 apud PEDLOWSKI, in últimas décadas, a teoria sociológica ainda se man­ SILVA, 2002), o que caracteriza o real pertencimen­ tém arraigada às experiências sociais das sociedades to das ONGs à sociedade civil é a capacidade de centrais – centrocentrismo –, caindo­se no risco de implementar e afetar a formulação das políticas excessiva generalização. Sendo assim, a distinção públicas. No outro extremo, Korten (1991 apud Estado/sociedade civil evidencia uma “ortodoxia PEDLOWSKI, in SILVA, 2002) afirma ser cada vez conceptual”, cuja predominância no discurso polí­ mais frequente a adoção dos valores de mercado tico também revela uma falência teórica. Portanto, pelas organizações não governamentais, ao mesmo a discussão nem de longe está encerrada, e precisa, tempo em que elas acreditam continuar mantendo cada vez mais, lançar luz sobre os processos históri­ seus objetivos estratégicos e de autonomia no forta­ cos de sua constituição. lecimento da sociedade civil. Segundo ele, esse hi­ bridismo comporá o perfil das ONGs prestadoras de serviço no futuro. Outro ponto que merece ser analisado no cenário * ANOTAÇÕES que envolve as organizações não governamentais na atualidade são as reflexões apontadas pelo an­ tropólogo Bernard Haurs. Ele chama atenção para a importância da autonomia das organizações não governamentais nos países em desenvolvimento, es­ pecialmente no que se refere aos recursos financei­ ros e a sustentabilidade de suas ações, para que não dependam dos financiamentos estrangeiros. Para Haurs, muitas organizações sediadas nos países ri­ cos com atuação de campo nos países pobres apre­ sentam uma estratégia de recolonização comercial, composta por métodos de dominação complexos e revestidas por um viés humanitário. Desse modo, 5 Ver entrevista: “Bernard Hours: crítica à ideologia humanitária”, por por trás dos elementos aparentemente inocentes da Izabela Moi. Disponível no endereço eletrônico <http://arruda.rits. “ajuda humanitária” se escondem os interesses de org.br>. Consultado em: 10 dez. 2007. 238 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 238 5/15/09 2:15:30 PM
  • 43.
    AULA 10 —Redes de Ações Coletivas AULA ____________________ 10 REDES DE AÇÕES COLETIVAS Unidade Didática – Movimentos Sociais Conteúdo • As ações coletivas • Principais características das redes de movimentos Competências e habilidades • Capacidade de articular os mais diversos espaços de interações e discussões da política pública na sociedade Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com professor interativo 2 h/a – presenciais com professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo As Ações ColeTivAs des enquanto forma de relação social que atua se­ Neste último ponto, trataremos da nova perspectiva gundo objetivos estratégicos, produzindo resultados para os movimentos sociais a partir da década de 1990, estratégicos para os movimentos e para a sociedade em que ele assume novas formas de ações coletivas em geral, se colocam como espaços para uma ação para entendermos o significado político, econômico coletiva disposta a defender a esfera pública e de e cultural. Vinculada a essa discussão, a forma como responder à crise da noção de cidadania. a sociedade civil se organiza diante desse contexto de É importante destacar que, no âmbito da presen­ crise, no qual impera o individualismo. Por outro lado, te pesquisa, consideramos que as redes não se cons­ existe por parte de alguns movimentos e/ou organiza­ troem exclusivamente de organizações da sociedade ções a preocupação de trabalhar com essas demandas civil, mas incluem uma multiplicidade de atores de por meio da organização de uma rede que consolide organizações governamentais e outras de natureza os anseios do grupo em todos os aspectos. pública, como são as Defensorias e Promotorias de Sendo assim, a atuação em rede é uma resposta à Justiça, as Comissões de Direitos Humanos das As­ individualização que desintegra a cidadania. As re­ sembleias e Câmaras Legislativas. 239 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 239 5/15/09 2:15:31 PM
  • 44.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais A organização em redes também contribui para cional, mas ético­político, as redes sociais pavimen­ uma nova leitura da realidade e coloca novos signifi­ tam o caminho para ressignificação do ator social cados às transformações sociais, conforme aponta diante de si e do mundo. Scherer­Warren (apud GOSS; PRuDêNCIO, 2004). O O desafio é compreender as organizações em re­ destaque é para o fim da crença em uma única orien­ des, os movimentos sociais e as organizações da so­ tação para a transformação social (desfundamen­ ciedade civil, resultado de uma série de composições talização), a existência de atores diversos reivindican­ históricas, paradoxais, não lineares e, por vezes, an­ do projetos distintos (descentramento), o combate tagônicas, diante da hegemonia das sociedades de aos essencialismos em direção ao interculturalismo e mercado globalizadas. o engajamento dialógico na rede, para a superação da distinção teórica e prática, ou seja, entre a produção Principais características das redes intelectual, a mediação e a militância. de movimentos Nesse sentido, a sociedade civil e os movimentos Segundo Scherer­Warren (1996, p. 119­122), po­ sociais ligados à defesa dos direitos humanos assu­ de­se fomentar que as redes de movimentos que se mem um papel importante, no sentido de fazerem têm formado no Brasil apresentam algumas carac­ frente ao discurso hegemônico que pretende legi­ terísticas em comum, quais sejam: timar as relações de poder pelas práticas estigma­ a) Articulação de atores e movimentos sociais tizantes. Considerando que a luta dos movimentos e culturais. Essas articulações podem ocorrer sociais se dá em um campo discursivo para a con­ de forma diversificada e por razões múltiplas. quista de cidadania, de direitos e, sobretudo, da b) Transnacionalidade. Este aspecto apresenta­se liberdade diante das práticas de poder, e que essa com diferente intensidade nas diversas redes. mesma luta está pautada pela democratização das Nas ONGs, frequentemente, as suas possibi­ relações sociais a partir da defesa do sujeito, os ato­ lidades de sustentação material encontram­se res sociais que estão assumidamente inseridos na nas redes de financiamento internacionais. luta pelos direitos têm pela frente o desafio de de­ c) Pluralismo organizacional e ideológico. Ma­ senvolver identidades de resistências e de projetos nifesta­se pelo fato de os mesmos atores so­ capazes de redefinir a posição dos atores sociais na ciais participarem de várias organizações ou sociedade, fazendo que busquem a mudança na es­ redes, ou pelo fato de a mesma organização trutura das relações sociais estigmatizantes. incorporar atores com concepções ideológi­ O advocacy, a mobilização e a ação política e as cas ou simpatias partidárias variadas. intervenções operadas nesse contexto, quando arti­ d) Atuação nos campos cultural e político. Se os culadas e desenhadas estrategicamente com a parti­ movimentos sociais da década de 1970 e início cipação dos atores, potencializam esse sujeito que se dos anos 1980 tiveram sua relevância na cons­ descapitaliza socialmente diante da deterioração de tituição de novos atores sociais e na redefinição sua identidade enquanto cidadão. Ou seja, a inter­ dos espaços de cidadania, as redes de movi­ subjetividade remete ao reconhecimento das teias e mentos tendem a atuar no sentido da forma­ das redes sociais, criando um sentido singular de ser ção de novos sistemas de valores, sobretudo em existente, de ser capaz (FALEIROS, 1997). relação ao binômio liberdade e sobrevivência. As redes, portanto, surgem como matrizes pela qual é possível pensar os direitos humanos e como respostas da sociedade globalizada e da informação ! DICA www.promenino.org.br a demandas apresentadas por essa mesma socieda­ www.inter­redes.org.br de. Pensada não só do ponto de vista técnico opera­ 240 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 240 5/15/09 2:15:32 PM
  • 45.
    Referências referências social continuada (resposta a Zander Navarro). ANDERSON, P. Balanço do neoliberalismo. In: In: SANTOS, Boaventura de Souza (Org.). GENTILI, P.; SADER, E. (Org.). Pós-neoliberalismo: Produzir para viver: os caminhos da produção não as políticas sociais e o estado democrático. São capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, Paulo: Paz e Terra, 1996. 2002. 515 p. ANDRADE, Márcia Regina de Oliveira. O CARVALHO, Horácio Martins. Tática reformista, Movimento dos Trabalhadores Sem­Terra e a estratégia revolucionária. In: STÉDILE, João Pedro educação: a perspectiva da construção de um novo (Org.). A questão agrária na década de 90. Porto homem e da continuidade do Movimento. In: Alegre: Editora da uFRGS, 2004. 322p. STÉDILE, João Pedro (Org.). A reforma agrária e a DEMO, P. Dureza: pobreza política de mulheres luta do MST. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 318 p. pobres. Campinas: Autores Associados, 2005. BLuMER, H. Collective Behaviour. In: PARK, R. DIAS, E. C. Arqueologia dos movimentos sociais. (Ed.). An Outline of the Principles of Sociology. In: GOHN, M. G. M. Movimentos sociais no início New York: Barnes & Noble, 1939. do século XXI: antigos e novos atores. Petrópolis: BOBBIO, N. O futuro da democracia: uma defesa Vozes, 2004. p. 91­111. das regras do jogo. São Paulo: Paz e Terra, 2000. FALCÃO, M. C. A seguridade na travessia do BOuRDIEu, P. In: NOGuEIRA, M. A.; CATANI, estado assistencial brasileiro. In: SPOSATI, A. O. A. (Seleção, organização, introdução e notas). Os direitos (dos desassistidos) sociais. São Paulo: Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998. Cortez, 2006. BRASIL. Constituição da República Federativa FALEIROS. V. P. A política social do Estado do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. capitalista. São Paulo: Cortez, 1997. CALADO, Alder Julio Ferreira. Educação FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: popular nos movimentos sociais no campo: Paz e Terra, 2004. potencializando a relação macro­micro no FROMM, E. Escape from freedom. New York: cotidiano como espaço de exercício da cidadania. Rinehart, 1941. In: SCOCuGLIA, Afonso Celso; MELO NETO, GALBRAITH, J. K. A economia política: uma história José Francisco (Org.). Educação popular: outros crítica. Europa­América: Mem Martins, 1987. caminhos. João Pessoa: Editora universitária/ GOHN, M. G. M. História dos movimentos sociais uFPB, 1999. 184 p. e lutas sociais: a construção da cidadania dos CALADO. Reproblematizando o(s) conceito(s) de brasileiros. São Paulo: Loyola, 2003. educação Popular. In: COSTA, Marisa Vorraber (org.). Educação popular hoje. São Paulo: Loyola, _______. Movimentos sociais e educação. São Paulo: 1998. p. 123­146. Cortez, 2005. CALDART, Roseli Salete. A pedagogia da _______. GOHN, M. G. M. Movimentos sociais luta pela terra: o movimento social como no início do século XXI: antigos e novos atores. princípio educativo. In: REuNIÃO ANuAL DA Petrópolis: Vozes, 2004. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQuISA E _______. Teorias dos movimentos sociais: PÓSGRADuAÇÃO – ANPED, 23, 2000, Caxambu/ paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo: MG. Anais... Caxambu: ANPED, Loyola, 2007. 2000. 1 CD­ROM. GOSS, K. P; PRuDêNCIO, K. O conceito de _______. Educação em movimento: formação de movimentos sociais revisitado. Em tese, v. 2, n. 1, educadoras e educadores do MST. Petrópolis: jan./jul. 2004. Vozes, 1997. GRAMSCI, A. Maquiavel, a política e o estado CARVALHO, H. M. A emancipação do moderno. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização movimento no movimento de emancipação Brasileira, 1984. 241 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 241 5/15/09 2:15:33 PM
  • 46.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais GRZYBOWSKI, C. Caminhos e descaminhos dos as políticas sociais e o estado democrático. São movimentos sociais no campo. Petrópolis/RJ: Paulo: Paz e Terra, 1996. FASE/Vozes, 1987. PETRAS, James. Os camponeses: uma nova força HEBERLE, R. Social Movements. An Introduction revolucionária na América Latina. In: STÉDILE, to Political Sociology. New York: Appleton­Century­ João Pedro (Org.). A reforma agrária e a luta do Crofts, 1951. MST. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 318p. HOFFER, E. The true believer: Thoughts on the RAMOS, L. C. S. A sociedade civil em tempos de Nature of Mass Movements. New York: Mentor, globalização: uma perspectiva neogramsciana. 1951. 2005. Dissertação (Mestrado) – Instituto de JACOBI, P. R. Políticas sociais locais e os desafios Relações Internacionais da Pontifícia universidade da participação citadina. Ciência & Saúde Coletiva, Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. n. 7, p. 443­454, 2002. ROCHA, S; FERREIRA, V. uma breve KORNHAuSER, W. The politics of mass society. contextualização obre o Sistema Único de Saúde Glencoe: Freepress, 1959. (SuS). In: HOLANDA, V. Articulando o ativismo LIPSET, S. M. Agrarian socialism. Berkeley: em AIDS no nordeste. Grupo de Resistência Águia Califórnia Press, 1950. Branca, 2006. MARSHALL, T. H. Cidadania, classe social e status. SALES, Ivandro da Costa. Educação popular: uma São Paulo: Zahar, 1967. perspectiva, um modo de atuar. In: SCOCuGLIA, MAZZEO, A. C. Notas sobre o capitalismo Afonso Celso; MELO NETO, José Francisco (Org.). e contemporaneidade. In: Sociologia política Educação popular: outros caminhos. João Pessoa: marxista. São Paulo: Cortez, 1995. Editora universitária, 1999. p. 111­134. MELO NETO, José Francisco. Educação popular: SANTOS, Boaventura de Sousa. O Estado e os uma ontologia. In: SCOCuGLIA, Afonso Celso, modos de produção de poder social. In: Pela mão MELO NETO, José Francisco (Orgs.). Educação de Alice: o social e o político na pós­modernidade. popular: outros caminhos. João Pessoa: Editora São Paulo: Cortez, 2005. universitária/uFPB, 1999. 184 p. SCHERER­WARREN, Ilse. Redes de movimentos NASCIMENTO, Severina Ilza. Educação e sociais. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1996. movimentos sociais rurais no Brasil e especificamente SERAPIONI, M. A participação dos cidadãos na Paraíba. In: CALADO, Alder Julio Ferreira (Org.). no sistema de saúde: a experiência dos comitês Movimentos sociais, Estado e educação no Nordeste. consultivos mistos. Petrópolis: Vozes, 2003. João Pessoa: Idéia, 1996. 154 p. NAVARRO, Z. Sete teses equivocadas sobre as lutas SILVA, J. O relatório final da pesquisa organizações sociais no campo, o MST e a reforma agrária. In: não-governamentais e assistência social no Vale STÉDILE, João Pedro (Org.). A reforma agrária e a do Rio Sinos. São Leopoldo: universidade luta do MST. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 318p. do Vale do Rio Sinos, 2002. NAVARRO, Zander. Mobilização sem emancipação VIEIRA, E. Estado e políticas social na década de 90. – as lutas sociais dos sem­terra no Brasil. In: In: NOGuEIRA, F. M. G. (Org). Estado e políticas SANTOS, Boaventura de Souza (Org.). Produzir sociais no Brasil. Cascavel: Edunioeste, 2001. para viver: os caminhos da produção não WANDERLEY, Luiz Eduardo. Formas e orientações capitalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, da educação popular na América Latina. In: 2002. 515p. GADOTI, Moacir; TORRES, Carlos A. Educação NETTO, J. P. A crise do socialismo e a ofensiva popular: utopia latino­americana. São Paulo: neoliberal. São Paulo: Cortez, 1994. Cortez/Edusp, 1994. p. 50­68. OLIVEIRA, F. Neoliberalismo à brasileira. In: YAZBEK, M. C. Classes subalternas e assistência GENTILI, P.; SADER, E. (Org.). Pós-neoliberalismo: social. São Paulo: Cortez, 2006. 242 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 242 5/15/09 2:15:33 PM
  • 47.
    Unidade Didática —Movimentos Sociais Direito Social e Movimentos Sociais SEMINÁRIO INTEgRADO Caro(a) Acadêmico(a), A unidade didática Seminário Integrado visa a articulação das unidades existentes no módulo, e a percepção da aplicação prática dos conteúdos mi­ nistrados. Por meio da interdependência adquirida com as unidades didáticas deste Seminário, o futuro pro­ fissional será capaz de articular a teoria, adquirida no ensino superior, com a prática exigida no coti­ diano da profissão. Para tanto, é necessário o enten­ dimento de que os conteúdos, de cada unidade Di­ dática, permitirão um estudo integrado, formando um profissional completo e compromissado com o mercado de trabalho. Ao desenvolver esta unidade, você deverá aplicar todos os conhecimentos adquiridos no decorrer do módulo, elaborando uma atividade. A atividade referente ao Seminário Integrado está disponibilizada no Portal da Interativa. Bom trabalho! Professores Interativos do Módulo 243 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 243 5/15/09 2:15:34 PM
  • 48.
    * ANOTAÇÕES 244 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 244 5/15/09 2:15:34 PM
  • 49.
    * ANOTAÇÕES 245 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 245 5/15/09 2:15:35 PM
  • 50.
    AULA 1 —Movimentos Sociais 246 Modulo02_SSocial_4sem_Unidade02.indd 246 5/15/09 2:15:35 PM