Educação
                                    sem fronteiras

                                  SERVIÇO
                                   SOCIAL

                                                          Autores
                                            Carmen Ferreira Barbosa
                                   Edilene Maria de Oliveira Araújo
                                        Edilene Xavier Rocha Garcia
                                                  Eloísa Castro Berro
                                                Maria Massae Sakate
                                         Silvia Regina da Silva Costa




                                                                6
                                          www.interativa.uniderp.br
                                         www.unianhanguera.edu.br
                                             Anhanguera Publicações
                                                  Valinhos/SP, 2009




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© 2009 Anhanguera Publicações
             Proibida a reprodução final ou parcial por qualquer meio de                                                    Ficha Catalográfica realizada pela Bibliotecária
             impressão, em forma idêntica, resumida ou modificada em língua                                              Alessandra Karyne C. de Souza Neves – CRB 8/6640
             portuguesa ou qualquer outro idioma.
             Impresso no Brasil 2009
                                                                                                           S514     Serviço social / Carmen Ferreira Barbosa ...[et al.]. - Valinhos :
                                                                                                                         Anhanguera Publicações, 2009.
                                                                                                                         240 p. - (Educação sem fronteiras ; 6)


                                                                                                                           ISBN: 978-85-62280-55-9


                                                                                                                        1. Serviço social – Planejamento. 2. Serviço social – Administração.
                                                                                                                    3. Serviço social – Integração da assistência. I. Barbosa, Carmen
                                                                                                                    Ferreira. II. Título. III. Série.
             ANHANGUERA EDUCACIONAL S.A.
             CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE CAMPO GRANDE/MS
                                                                                                                                                                             CDD: 360
             Presidente
             Prof. Antonio Carbonari Netto

             Diretor Acadêmico
             Prof. José Luis Poli

             Diretor Administrativo
             Adm. Marcos Lima Verde Guimarães Júnior
                                                                                                                                                          ANHANGUERA PUBLICAÇÕES
             CAMPUS I
                                                                                                                                                                                    Diretor
             Chanceler                                                                                                                                        Prof. Diógenes da Silva Júnior
             Profa. Dra. Ana Maria Costa de Sousa
             Reitor                                                                                                                                                    Gerente Acadêmico
             Prof. Dr. Guilherme Marback Neto                                                                                                                           Prof. Adauto Damásio
             Vice-Reitor
                                                                                                                                                                 Gerente Administrativo
             Profa. Heloísa Helena Gianotti Pereira
                                                                                                                                                                Prof. Cássio Alvarenga Netto
             Pró-Reitores
             Pró-Reitor Administrativo: Adm. Marcos Lima Verde Guimarães Júnior
             Pró-Reitora de Graduação: Profa. Heloisa Helena Gianotti Pereira
             Pró-Reitor de Extensão, Cultura e Desporto: Prof. Ivo Arcângelo Vendrúsculo Busato




             ANHANGUERA EDUCACIONAL S.A.
             UNIDERP INTERATIVA

             Diretor
             Prof. Dr. Ednilson Aparecido Guioti

             Coodernação
             Prof. Wilson Buzinaro

             COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA
             Profa. Terezinha Pereira Braz / Profa. Aparecida Lucinei Lopes Taveira Rizzo / Profa. Maria Massae Sakate /
             Profa. Adriana Amaral Flores Salles / Profa. Lúcia Helena Paula Canto (revisora)

             PROJETO DOS CURSOS
             Administração: Prof. Wilson Correa da Silva / Profa. Mônica Ferreira Satolani
             Ciências Contábeis: Prof. Ruberlei Bulgarelli
             Enfermagem: Profa. Cátia Cristina Valadão Martins / Profa. Roberta Machado Pereira
             Letras: Profa. Márcia Cristina Rocha Figliolini
             Pedagogia: Profa. Vivina Dias Sol Queiroz
             Serviço Social: Profa. Maria de Fátima Bregolato Rubira de Assis / Profa. Ana Lúcia Américo Antonio
             Tecnologia em Gestão e Marketing de Pequenas e Médias Empresas: Profa. Fabiana Annibal Faria de Oliveira Biazetto
             Tecnologia em Gestão e Serviço de Saúde: Profa. Irma Marcario
             Tecnologia em Logística: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias
             Tecnologia em Marketing: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias
             Tecnologia em Recursos Humanos: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias




00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 2                                                                                                                                                                6/5/09 10:07:39 AM
Nossa Missão, Nossos Valores
                      _______________________________

                A Anhanguera Educacional completa 15 anos em 2009. Desde sua fundação, buscou a ino-
             vação e o aprimoramento acadêmico em todas as suas ações e programas. É uma Instituição de
             Ensino Superior comprometida com a qualidade dos cursos que oferece e privilegia a preparação
             dos alunos para a realização de seus projetos de vida e sucesso no mercado de trabalho.
                A missão da Anhanguera Educacional é traduzida na capacitação dos alunos e estará sempre
             preocupada com o ensino superior voltado às necessidades do mercado de trabalho, à adminis-
             tração de recursos e ao atendimento aos alunos. Para manter esse compromisso com a melhor
             relação qualidade/custo, adotaram-se inovadores e modernos sistemas de gestão nas instituições
             de ensino. As unidades no Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas
             Gerais, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul preservam a missão e difundem os valores
             da Anhanguera.
                Atuando também no Ensino a Distância, a Anhanguera Educacional orgulha-se de poder es-
             tar presente, por meio do exemplar trabalho educacional da Uniderp Interativa, nos seus pólos
             espalhados por todo o Brasil.




                                                                         Boa aprendizagem e bons estudos!



                                                                             Prof. Antonio Carbonari Netto
                                                                    Presidente — Anhanguera Educacional




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AULA 1 — A Base do Pensamento Econômico



                                       Apresentação
                                   ____________________

                 A Universidade Anhanguera/UNIDERP, ao longo de sua existência, prima pela excelência no
              desenvolvimento de seu sólido projeto institucional, concebido a partir de princípios modernos,
              arrojados, pluralistas, democráticos.
                 Consolidada sobre patamares de qualidade, a Universidade conquistou credibilidade de par-
              ceiros e congêneres no país e no exterior. Em 2007, sua entidade mantenedora (CESUP) passou
              para o comando do Grupo Anhanguera Educacional, reconhecido pelo compromisso com a
              qualidade do ensino, pela forma moderna de gestão acadêmico-administrativa e pelos propósi-
              tos responsáveis em promover, cada vez mais, a inclusão e a ascensão social.
                  Reconhecida pela ousadia de estar sempre na vanguarda, a Universidade impôs a si mais um
              desafio: o de implantar o sistema de ensino a distância. Com o propósito de levar oportunida-
              des de acesso ao ensino superior a comunidades distantes, implantou o Centro de Educação a
              Distância.
                 Trata-se de uma proposta inovadora e bem-sucedida, que, em pouco tempo, saiu das frontei-
              ras do Estado do Mato Grosso do Sul e se expandiu para outras regiões do país, possibilitando o
              acesso ao ensino superior de uma enorme demanda populacional excluída.
                 O Centro de Educação a Distância atua por meio de duas unidades operacionais: a Uniderp
              Interativa e a Faculdade Interativa Anhanguera(FIAN). Com os modelos alternativos ofereci-
              dos e respectivos pólos de apoio presencial de cada uma das unidades operacionais, localizados
              em diversas regiões do país e exterior, oferece cursos de graduação, pós-graduação e educação
              continuada, possibilitando, dessa forma, o atendimento de jovens e adultos com metodologias
              dinâmicas e inovadoras.
                 Com muita determinação, o Grupo Anhanguera tem dado continuidade ao crescimento da
              Instituição e realizado inúmeras benfeitorias na estrutura organizacional e acadêmica, com re-
              flexos positivos nas práticas pedagógicas. Um exemplo é a implantação do Programa do Livro-
              Texto – PLT, que atende às necessidades didático-pedagógicas dos cursos de graduação, viabiliza
              a compra, pelos alunos, de livros a preços bem mais acessíveis do que os praticados no mercado
              e estimula-os a formar a própria biblioteca, promovendo, assim, a melhoria na qualidade de sua
              aprendizagem.
                 É nesse ambiente de efervescente produção intelectual, de construção artístico-cultural, de
              formação de cidadãos competentes e críticos, que você, acadêmico(a), realizará os seus estudos,
              preparando-se para o exercício da profissão escolhida e uma vida mais plena na sociedade.



                                                                               Prof. Guilherme Marback Neto




00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 5                                                                                 6/5/09 10:07:40 AM
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Autores
                                    ____________________

                                                                            CARMEN FERREIRA BARBOSA
                                                   Graduação: Serviço Social – Faculdades Unidas Católica de
                                                                              Mato Grosso – FUCMT – 1984
                              Especialização: Saúde da Família – Universidade Federal de MS – UFMS – 2003
                                          Especialização: Metodologia de Ensino Superior – FUCMAT – 1992
                    Mestrado: Serviço Social – Universidade Estadual Paulista/UNESP e Universidade Católica
                                                                                  Dom Bosco/UCDB – 2002

                                                                EDILENE MARIA DE OLIVEIRA ARAÚJO
                                                 Graduação:Serviço Social – Faculdades Unidas Católica de
                                                                              Mato Grosso – FUCMT – 1986
                    Pós-graduação Latu sensu: Gestão de Iniciativas Sociais – Universidade Federal do Rio de
                                                                                      Janeiro – UFRJ – 2002
                Pós-graduação Lato Sensu: Formação de Formadores de em Educação de Jovens e Adultos –
                                                           Universidade Nacional de Brasília – UNB – 2003
               Pós-graduação Lato Sensu: Administração em Marketing e Comércio Exterior – UCDB – 1998

                                                                      EDILENE XAVIER ROCHA GARCIA
                                                 Graduação: Serviço Social – Faculdades Unidas Católica de
                                                                              Mato Grosso – FUCMT – 1988
                                               Especialização: Gestão de Políticas Sócias – UNIDERP – 2003
                                  Mestrado: Desenvolvimento Local – Universidade Unidas Católicas – UCDB
                                                                                                 MS – 2007

                                                                                 ELOÍSA CASTRO BERRO
                                        Graduação: Serviço Social – Faculdades Integradas de Marília – 1984
                             Especialização: Planejamento e Serviço Social – Faculdades Unidas Católica de
                                                                             Mato Grosso – FUCMT – 1998
                                         Especialização: Metodologia de Ação do Serviço Social - Faculdades
                                                                                         Unidas Católica de
                                                                             Mato Grosso – FUCMT – 1983
             Mestrado: Serviço Social - Universidade Estadual Paulista/UNESP e Universidade Católica Dom
                                                                                       Bosco/UCDB – 2002




00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 7                                                                                6/5/09 10:07:40 AM
MARIA MASSAE SAKATE
                                              Graduação: Matemática – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS,
                                                                                                 Campo Grande, MS – 1992
                                     Especialização: Informática na Educação – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul –
                                                                                         UFMS, Campo Grande, MS – 1998
                                                  Mestrado: Educação – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS,
                                                                                                 Campo Grande, MS – 2003

                                                                                           SILVIA REGINA DA SILVA COSTA
                                                Graduação: Serviço Social – Universidade Católica Dom Bosco – UCDB – 2001
                                  Especialização em Violência Doméstica Contra Criança e Adolescentes – Universidade de São
                                                                                                           Paulo – USP – 2004
                                         Especialização: Políticas Sociais com Ênfase no Território e na Família – Universidade
                                                                                          Católica Dom Bosco – UCDB – 2007
                                                     Mestrado em Educação – Universidade Estadual Paulista – UNESP – 2008




00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 8                                                                                               6/5/09 10:07:40 AM
Sumário
                                               ____________________
             MÓDULO – PLANEJAMENTO E ADMINISTRAÇÃO

             UNIDADE DIDÁTICA – ESTÁGIO SUPERVISIONADO III
             AULA 1
               O estágio supervisionado III - o estágio como atividade integradora entre o saber e a ação .........                                               3
             AULA 2
               A Intervenção em Serviço Social ........................................................................................................           7


             UNIDADE DIDÁTICA – PLANEJAMENTO DE INTERVENÇÕES SOCIAIS
             AULA 1
               Planejamento em Serviço Social – conceitos e definições ................................................................                          14
             AULA 2
               A Administração no Serviço Social – contextualizações básicas ......................................................                              18
             AULA 3
               Gestão Social – aspectos importantes ................................................................................................             23
             AULA 4
               Políticas, Planos, Programas e Projetos – Definições ........................................................................                     29
             AULA 5
               Papel do Gestor Social ........................................................................................................................   32
             AULA 6
               O que é um projeto social? Implicações diretas na realidade atual ..................................................                              36
             AULA 7
               Roteiro básico de um projeto social ...................................................................................................           40
             AULA 8
               Fases metodológicas e a instrumentalização do planejamento social ..............................................                                  47
             AULA 9
               Avaliação e monitoramento de projetos sociais ................................................................................                    54
             AULA 10
               O Sistema Único da Assistência Social (SUAS) e o planejamento na administração pública.........                                                   60


             UNIDADE DIDÁTICA – TRATAMENTO DE INFORMAÇÕES E OS
             INDICADORES SOCIAIS
             AULA 1
               Noções de estatística descritiva – obtenção e organização de dados ................................................                               68
             AULA 2
               Representações dos dados por meio da tabela...................................................................................                    76
             AULA 3
               Representações gráficas dos dados .....................................................................................................           82
             AULA 4
               Aspectos conceituais: o que são indicadores e índices ......................................................................                      86




00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 9                                                                                                                                       6/5/09 10:07:40 AM
AULA 5
                                 Sistema de indicadores: requisitos para a sua construção e produção ............................................. 90
                               AULA 6
                                 Fontes de indicadores sociais .............................................................................................................. 94
                               AULA 7
                                 Desenvolvimento humano ................................................................................................................. 100
                               AULA 8
                                 Objetivos do Desenvolvimento do Milênio - ODM.......................................................................... 106


                               SEMINÁRIO INTEGRADO: PLANEJAMENTO E ADMINISTRAÇÃO .............................................. 115


                               MÓDULO – DESENVOLVIMENTO LOCAL E INTEGRAÇÃO DA
                               ASSISTÊNCIA

                               UNIDADE DIDÁTICA – DESENVOLVIMENTO LOCAL E TERRITORIALIZAÇÃO
                               AULA 1
                                 Desenvolvimento local: reflexões e conceitos ....................................................................................                        119
                               AULA 2
                                 Espaço, lugar e território ....................................................................................................................          125
                               AULA 3
                                 Cultura e identidade ...........................................................................................................................         132
                               AULA 4
                                 Capital social .......................................................................................................................................   138
                               AULA 5
                                 Potencialidade e comunidade .............................................................................................................                146
                               AULA 6
                                 Agentes do desenvolvimento local e dimensões metodológicas .......................................................                                       150
                               AULA 7
                                 Solidariedade e educação ....................................................................................................................            154
                               AULA 8
                                 Cultura do desenvolvimento e desenvolvimento da cultura ............................................................                                     160


                               UNIDADE DIDÁTICA – REDE SOCIOASSISTENCIAL
                               AULA 1
                                 O significado de redes no contexto do trabalho socioassistencial ...................................................                                     171
                               AULA 2
                                 A filantropia no Brasil .........................................................................................................................        175
                               AULA 3
                                 Terceiro setor e suas diversas concepções ..........................................................................................                     182
                               AULA 4
                                 Movimentos sociais, ONGs e redes solidárias ...................................................................................                          186
                               AULA 5
                                 Marco legal das entidades que compõem a rede socioassistencial ...................................................                                       190




00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 10                                                                                                                                                            6/5/09 10:07:41 AM
AULA 6
               O Sistema Único de Assistência Social e a nova forma de gestão da assistência social: caráter
               público, protagonismo e avaliação do processo................................................................................ 197
             AULA 7
               Oficina 1: PEAS/2006 – Pesquisa das Entidades de Assistência Social Privadas sem
               Fins Lucrativos ................................................................................................................................... 208
             AULA 8
               Oficina 2: PEAS/2006 – Pesquisa das Entidades de Assistência Social Privadas sem
               Fins Lucrativos .................................................................................................................................... 215


             SEMINÁRIO INTEGRADO: DESENVOLVIMENTO LOCAL E INTEGRAÇÃO
             DA ASSISTÊNCIA .................................................................................................................................... 227




00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 11                                                                                                                                          6/5/09 10:07:41 AM
Módulo

                       DESENVOLVIMENTO
                     LOCAL E INTEGRAÇÃO
                          DA ASSISTÊNCIA




                            Profa. Ma. Carmen Ferreira Barbosa
                         Profa. Ma. Edilene Xavier Rocha Garcia

                              117


Modulo 01.indd 117                                                2/6/2009 12:15:53
Unidade Didática — Estágio Supervisionado III


                     Apresentação

                Olá acadêmico(a)! É com enorme satisfação que me dirijo a você!
                Estamos iniciando mais uma Unidade Didática “Desenvolvimento Local e Territorialização”, um impor-
             tante aporte teórico cujo objetivo é fundamentar o seu exercício profissional.
                A Unidade Didática está dividida em oito aulas: a aula 1 – Desenvolvimento Local – Reflexões e Conceitos
             traz o conceito do DL, bem como o conceito de Desenvolvimento para o Local (D. para L.) e no Local (D. no
             L.), visando diferenciá-los; a aula 2 inicia a abordagem dos Aspectos Constitutivos do Desenvolvimento Lo-
             cal – Espaço, Lugar, Território; nas aulas 3 a 7, na continuação da explanação sobre os Aspectos Constitutivos
             do Desenvolvimento Local, seguem respectivamente Cultura e Identidade, Capital Social, Potencialidade e
             Comunidade e Agentes do D. L. Ainda na aula 7 discorre-se a respeito das Dimensões Metodológicas para o
             Desenvolvimento Local. Na última aula desta Unidade, a de número 8, discute-se a Cultura do Desenvolvi-
             mento e o Desenvolvimento da Cultura e a importância e aplicação de todos os conceitos aqui estudados para
             o profissional de Serviço Social.
                A ênfase desta Unidade é destacar um novo paradigma de desenvolvimento, uma nova cultura política
             diante do modo de produção que se nos apresenta: o capitalismo.
                É indispensável que você, acadêmico(a), realize o autoestudo, o que engloba a leitura do livro-texto e dos
             textos do Portal bem como o seu esforço no exercício de cada uma das atividades propostas nas aulas.
                Quero lembrá-lo(a) que o que diferencia esta modalidade de ensino das demais é a sua participação
             ativa!

                                                                               Professora Ma. Edilene Xavier Rocha Garcia




                                                                 118


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AULA

                                         ____________________          1




                                                                                                                                                     Unidade Didática – Desenvolvimento Local
                                           DESENVOLVIMENTO LOCAL:
                                           REFLEXÕES & CONCEITOS




                                                                                                                                                                        e Territorialização
                 Conteúdo
                     •   Desenvolvimento local
                     •   Desenvolvimento para o local
                     •   Desenvolvimento no local
                     •   Mudança de paradigmas

                 Competências e habilidades
                     • Diferenciar conceitos de desenvolvimento local do conceito de desenvolvimento no local e do desen-
                       volvimento para o local.
                     • Subsidiar por meio desses conceitos o trabalho com as comunidades.


                 Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                     Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.


                 Duração
                     2 h/a – via satélite com o professor interativo
                     2 h/a – presenciais com o professor local
                     6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




                 Inicialmente, quero partilhar com vocês o hábi-                        Segundo Houaiss11 (2001)
              to de buscar o significado das palavras para tentar
                                                                                            é o produto da faculdade de conceber; (...) Deriva-
              captar a totalidade e profundidade da mensagem
                                                                                            ção: por extensão de sentido, faculdade intelectiva e
              proposta pelos autores, para apreender, com mais
                                                                                            cognoscitiva do ser humano; mente, espírito, pen-
              exatidão, a ideia propagada.                                                  samento. Ex.: isso não entra no meu c. (...) com-
                  Investir em qualquer atividade, principalmente nos                        preensão que alguém tem de uma palavra; noção,
              estudos e conhecimento, requer a incessante busca do                          concepção, ideia. Ex.: seu c. de moral é antiquado.
              sentido real transmitido pelo autor. Dessa forma, toda
              leitura, do livro didático ou dos textos do Portal, mere-             É preciso o aporte teórico oferecido por diversos
              cem a imprescindível companhia do dicionário!                       autores para auxiliar na construção do conceito do

                 Para tanto, vamos comentar um pouco sobre o                      11
                                                                                       HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J.
              significado da palavra “conceito”.                                        J. (org) [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

                                                                            119


Modulo 01.indd 119                                                                                                                                                     2/6/2009 12:15:53
Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

             desenvolvimento local – DL, de caráter endógeno, e                               manifestações da pobreza”. O autor afiança Yunus13
             sua aplicação no Serviço Social. Segundo Vicente                                 ao afirmar que não se pode solucionar o problema
             Fideles de Ávila (2001, p. 17),12                                                da pobreza com o mesmo “marco teórico” que per-
                                                                                              mitiu ou ajudou na sua criação.
                       os conceitos constituem as ferramentas do nosso
                                                                                                 O desenvolvimento econômico e tecnológico
                       trabalho. Habilitam-nos a investigar, discrimi-
                                                                                              não alcançou o desenvolvimento social e humano
                       nar, comparar, classificar, e relacionar. São espe-
                       cialmente significativos para as ciências sociais
                                                                                              que havia proposto, ou seja, que por seu intermé-
                       porque a linguagem, da qual todos derivam, é ela                       dio solucionaria o problema da pobreza em todo o
                       mesma, um dos fenômenos, que, como técnicos                            mundo. A história demonstra que não foi esse o re-
                       desta ciência, estudamos e procuramos compre-                          sultado alcançado, assim surge internacionalmente
                       ender.                                                                 um novo conceito de desenvolvimento, o desenvol-
                                                                                              vimento local endógeno, que se estende pelo desen-
               Assim, para analisar o DL devemos antes refletir                                volvimento econômico e meio ambiental, e que tem
             sobre cada palavra que o compõe, ou seja, compre-                                no desenvolvimento sociocultural o princípio e o
             ender o significado de desenvolvimento e de local.                                fim das suas ações.
               O que se entende por desenvolvimento? Cresci-                                     Esse novo arquétipo de desenvolvimento propõe
             mento e desenvolvimento são sinônimos?                                           a autoconsciência, a autossensibilização, a autoesti-
                Cidades desenvolvidas são aquelas que dispõem                                 ma e a automobilização da comunidade-localidade
             de estradas intermunicipais e interestaduais, fá-                                envolvida para torná-la protagonista de seu próprio
             bricas, instalações telefônicas, rede de energia                                 desenvolvimento.
             elétrica, shopping center, rede de esgoto, asfalto,                                 Pode-se, então, compreender que o desenvolvi-
             emprego para seus moradores etc.? Ou será que                                    mento local de caráter endógeno considera, respeita
             “desenvolvimento” é deixar de envolver-e com o                                   e aproveita os modos de ser e de agir de cada comu-
             outro?                                                                           nidade-localidade.
                O que se objetiva com essas indagações é fomen-
             tar a reflexão, o pensamento, o autoquestionamento.                                         Como que procurando detectar a “semente” lá no
                                                                                                        âmago do contexto descritivo de uma “laranja” in-
             Não é necessário “acertar” as respostas. Essa cons-
                                                                                                        teira, já que esta existe em função daquela, (...) me
             trução será conjunta e gradual a partir de discussões
                                                                                                        convenço cada dia mais de que o “núcleo concei-
             e atividades correspondentes.
                                                                                                        tual” do desenvolvimento local consiste essencial-
                Citaremos alguns autores para embasar a discus-                                         mente no efetivo desabrochamento das capacida-
             são. Martins (2002) recomenda mudança de para-                                             des, competências e habilidades de uma “comuni-
             digmas quanto à concepção de desenvolvimento,                                              dade definida” (portanto com interesses comuns
             com uma proposta humanista, holística e ecológica.                                         e situada em determinado território ou local com
             Referenda Mahbub UL Haq (2002, p. 53) que apon-                                            identidade social e histórica), no sentido de ela
             ta para “alguns pecados dos planejadores desen-                                            mesma se tornar paulatinamente apta a agenciar
             volvimentistas, concluindo que o desenvolvimento
                                                                                              13
             deve ser uma ação de enfrentamento real às piores                                     Muhammad Yunus, Nobel da Paz, 2006. Junto com seu banco, o Gra-
                                                                                                   meen, é conhecido como “o banqueiro dos pobres” e considerado o
                                                                                                   grande mentor do microcrédito destinado aos desfavorecidos de Ban-
                                                                                                   gladesh. Professor de economia, Yunus começou a combater a pobre-
                                                                                                   za após uma mortífera fome que assolou seu país. Em 1976, fundou
             12
                   Doutor em Políticas e Programação do Desenvolvimento (enfoque                   um pequeno banco que se propunha a oferecer acesso ao crédito aos
                  em Educação e Emprego), atualmente, docente dos Programas de                     mais pobres. O conceito do banco Grameen (que significa povoado)
                  Mestrado em Educação (área de concentração: Educação Escolar e                   foi exportado para mais de 40 países. Seu sistema de “microcréditos”
                  Formação de Professores) e em Desenvolvimento Local (área de con-                permite aos muito pobres ter acesso a pequenas quantidades de di-
                  centração: Territorialidade e Dinâmicas Socioambientais) da Univer-              nheiro. O banco Grameen conta com 6,5 milhões de clientes em Ban-
                  sidade Católica Dom Bosco (UCDB), de Campo Grande (MS).                          gladesh, 96% deles mulheres.


                                                                                        120


Modulo 01.indd 120                                                                                                                                                    2/6/2009 12:15:53
AULA 1 — Desenvolvimento Local: Reflexões & Conceitos

                         e gerenciar (diagnosticar, tomar decisões, planejar,                   o maior desafio para que o desenvolvimento local
                         agir, avaliar, controlar etc.) o aproveitamento dos                    aconteça, considerando que, diferentemente da Eu-
                         potenciais próprios, assim como a “metabolização”                      ropa, estamos diante de realidades locais nas quais
                         comunitária de insumos e investimentos públicos                        persistem algumas ausências importantes: da cida-
                         e privados externos, visando à processual busca de                     dania, da identificação sociocultural e territorial e
                         soluções para os problemas, necessidades e aspi-                       do sentido de vizinhança. Assim, o caráter necessa-
                         rações, de toda ordem e natureza, que mais dire-                       riamente participativo e democrático do DL é o seu
                         ta e cotidianamente lhe dizem respeito (...) (Ávila,                   “calcanhar de aquiles” (...) (Martins, 2002, p. 52).
                         2000, p. 68).
                                                                                             Para este autor, então, DL “é o resultado da ação
                 José Carpio Martín,14 em entrevista à revista In-                        conjunta articulada” do conjunto dos diversos ato-
              terações (2000, p. 79), assinala que DL é um tipo de                        res (ou agentes) sociais, culturais, políticos e eco-
              desenvolvimento que se coloca entre a lógica do                             nômicos, públicos e privados, existentes no espaço
              mercado global e a lógica da sociedade, entre um                            local (município) “na construção de um projeto
              desenvolvimento convencional e um desenvolvi-                               estratégico que orienta suas ações a longo prazo”.
              mento na escala humana, que se posiciona entre a                            Por essa perspectiva, a promoção do DL depende
              conflituosa comodidade das pessoas e a inovação.                             principalmente da capacidade de organização dos
              Lembrando aqui que a inovação não é responsabi-                             atores locais, para que haja gestão de seus recursos
              lidade apenas das instituições governamentais (dos                          e da capacidade de enfrentar/confrontar os fatores
              governos locais), mas também de empresas priva-                             externos.
              das, universidades e da sociedade civil organizada,                            Evidencia-se, assim, que o DL reporta-se à ques-
              que deve refletir sobre novos conceitos e valorizar                          tão das relações sociais de confiança e solidariedade,
              as ciências sociais e a importância da participação                         de viver em comunidade, do sentimento de perten-
              popular. Essa é responsabilidade de todos nós.                              ça. Implica em existir para pessoas próximas, com
                 Assim, iniciativas globais dão lugar às ideias lo-                       características ou coisas comuns, e não apenas estar
              cais (criatividade), por meio do saber popular.                             junto a, mas também compartilhar, bem como re-
                                                                                          cuperar a sabedoria coletiva, a inteligência social.
                     !   PARA PENSAR!
                    “Em momentos de crise, somente a imaginação                             !    ATENÇÃO!
                    é mais importante que o conhecimento.”
                                                                                               O DL contribui com a emergência de novas
                                                  Albert Einstein                           formas de produzir e compartilhar as riquezas,
                                                                                            de reavivar a participação cidadã, de fazer cres-
                Tais referências permitem inferir que o desenvol-                           cer a democracia, para que cada pessoa tenha ao
                                                                                            mesmo tempo de que viver e razões para viver
              vimento local ou endógeno
                                                                                            (Sherbrooke, 2001, p. 28).
                         seria aquele balizado por iniciativas, necessidades
                         e recursos locais, tal como uma comunidade que
                                                                                             O desenvolvimento que compõe o DL se encon-
                         de fato se conduz a caminho do desenvolvimento,
                                                                                          tra na postura que atribui e assegura à comunida-
                         ou da promoção do seu bem-estar (...) entende-se
                         que criar condições para que a comunidade efeti-                 de o papel de agente. Isso pressupõe rever a ques-
                         vamente exerça este protagonismo se afigura como                  tão da participação. Há que se identificar, resgatar
                                                                                          e potencializar valores positivos de uma localidade,
              14
                                                                                          fomentando laços de cooperação, reciprocidade e
                   Geógrafo espanhol. Departamento de Geografía Humana de la Uni-
                   versidad Complutense de Madrid.                                        solidariedade para promover o desenvolvimento

                                                                                    121


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

             com mudanças paradigmáticas de pensamento, e                         zem, mas, sobretudo, à ideia que as pessoas têm a
             consequentemente, de ação.                                           respeito do que fazem.
                Uma vez discutido o conceito de desenvolvimento
                                                                                       o desenvolvimento sociocultural se caracteriza,
             podemos “pensar” o conceito de local. Vicente Fide-
                                                                                       pois, como ponto de partida, de norteamento e de
             les de Ávila argumenta que a palavra local expressa
                                                                                       chegada do desenvolvimento local (...) visando a
             “um espaço, uma superfície, um território de iden-
                                                                                       autoconscientização, autossensibilização, autoes-
             tidade e de solidariedade, um cenário de reconhe-
                                                                                       tima, autoconfiança, automobilização, auto-orga-
             cimento cultural e de intersubjetividade e também                         nização cooperativa (...) para a gradativa – porém
             um lugar de representações e práticas cotidianas                          contínua – busca de rumos comunitários-locais, de
             (Ávila, 2001, p. 26).                                                     forma que a comunidade-localidade evolua para a
                É inconcebível abordar o indivíduo sem consi-                          condição de sujeito do seu próprio desenvolvimen-
             derar a trama da reciprocidade (Yasbek, 1999). Ou                         to, a partir de suas características, de suas potencia-
             seja, na sociedade contemporânea, não há possibi-                         lidades (...) (Ávila, 2003, p. 20 e 21).
             lidade para tratar questões isoladas de seu contexto
             histórico-social e ambiental. Por isso, é importante                   Gabriela Isla Martins e Cid Isidoro Demarco
             que as universidades adaptem sua grade curricular                    Martins (Martins, 2001, p. 153-178) realizaram uma
             à realidade, preparando a sociedade acadêmica para                   pesquisa na qual apontam autores que conceituam
             atuar holisticamente em suas comunidades, for-                       o DL. Vejamos.
             mando profissionais capacitados na elaboração de                        • Joyal – DL é uma estratégia pela qual os repre-
             projetos que não desterritorializem famílias nem as                      sentantes locais (públicos e privados) traba-
             destituam de si mesmas.                                                  lham pela valorização dos recursos humanos,
                É oportuno ressaltar o avanço das políticas pú-                       técnicos e financeiros de uma coletividade.
             blicas na ênfase da territorialização de suas ações,                   • PNUD – DL é um processo de articulação, co-
             compreendendo que as famílias não estão destituí-                        ordenação e inserção dos empreendimentos
             das dos seus territórios, lugar em que nascem, vi-                       empresariais associativos comunitários, urba-
             vem, trabalham e se relacionam.                                          nos e rurais, à integração socioeconômica de
                Nesse contexto em que se destaca a observação                         reconstrução do tecido social e de geração de
             das tramas que se desenvolvem no território, insere-                     oportunidades de emprego e renda.
             se o DL. Torna-se, assim, um modelo de desenvol-                       • Gonzáles – DL é a melhoria do nível de vida
             vimento que, antes de tudo, ressalta as potenciali-                      da população a partir da combinação eficiente
             dades endógenas de uma comunidade, valorizando                           das potencialidades de cada território, de seus
             suas especificidades.                                                     recursos e de sua força empreendedora (...) es-
                Trata-se de                                                           timular a participação e o comprometimento
                                                                                      das pessoasda comunidade.
                     uma nova filosofia de desenvolvimento no planeta
                     (...) capaz de agenciar e gerenciar o aproveitamento           • Bryant – DL é todo desenvolvimento planeja-
                     dos potenciais próprios, assim como a “metaboli-                 do surgido do meio local que utiliza recursos e
                     zação” comunitária de insumos e investimentos                    iniciativas locais com o objetivo de melhorar as
                     públicos e privados externos, visando à processual               condições de vida dos habitantes e atingir me-
                     busca de soluções para os problemas, necessidades                tas coletivas da comunidade.
                     e aspirações, de toda ordem e natureza, que mais
                                                                                    • Albuquerque – não é resultado da busca de
                     direta e cotidianamente lhe dizem respeito (...)
                                                                                      equilíbrios irreais de grandes agregados estatís-
                     (Ávila, 2000, p. 68).
                                                                                      ticos macroeconômicos, e sim fruto dos esfor-
                Em análise convergente, Ávila (2003) advoga que                       ços e compromissos dos atores sociais em seus
             a cultura não se refere apenas ao que as pessoas fa-                     territórios e meio ambientes concretos (...) o

                                                                            122


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AULA 1 — Desenvolvimento Local: Reflexões & Conceitos

                       planejamento estratégico tem se mostrado                      desenvolvimento PARA O local (DpL) se refere à ideia
                       como uma metodologia participativa efetiva                    de desenvolvimento que, além de se situar no local
                       de promoção do DL.                                            como sede física, gera atividades e efeitos benéficos às
                                                                                     comunidades e aos ecossistemas locais, mas à maneira
                     • Vachon – é o desenvolvimento global da co-
                                                                                     bumerangue: brota das instâncias promotoras, vai aos
                       munidade, tendo o papel da pessoa como prin-
                                                                                     locais-comunidades, mas volta às instâncias promo-
                       cipal fator do progresso social e enfatizando a               toras em termos de consecução mais de suas próprias
                       valorização das microiniciativas e dos recursos               finalidades institucionais (as das instâncias promoto-
                       locais.                                                       ras, evidentemente) que do real, endógeno e perma-
                     • Franco – deverá dinamizar cinco tipos de capi-                nente desenvolvimento das comunidades-localidades
                       tal: capital econômico (renda e riquezas), capital            visadas (Ávila, 2003, p. 22).
                       humano (educação, saúde e cultura), capital
                       social (associação entre pessoas e empresas),              CARACTERÍSTICAS DO DESENVOLVIMENTO
                       capital empresarial (favorecendo o surgimento              LOCAL
                       de empreendedores), que num círculo virtuoso                • Territorialmente localizado, com a noção de
                       gerará mais capital econômico.                                território, além de ocupação do espaço, con-
                  Ficou patente que o reconhecimento dos recursos                    siderando as relações existentes (característi-
              físicos e humanos imprime caráter endógeno ao pro-                     cas físicas, históricas, culturais, inclusive) que,
              cesso de DL, e exige o processo prévio de motivação                    quando são recuperadas, geram relações soli-
                                                                                     dárias entre os agentes.
              dos agentes participantes. Para os autores anterior-
              mente citados, DL é um conjunto original de estraté-                 • Participativo e democrático, com foco na auto-
              gias que devem ser adequadas a um território e par-                    nomia e emancipação da localidade.
              ticipação ativa e solidária da população. Só assim se                • Modo endógeno de desenvolvimento, com as ini-
              encontrarão formas viáveis, sustentáveis, contínuas e                  ciativas surgindo de dentro das comunidades.
              organizadas de utilização integrada dos recursos ma-                 • Desenvolvimento sustentável, combinação de
              teriais, naturais e humanos disponíveis, em prol da                    eficiência econômica com prudência ecológica
              obtenção de melhorias no bem-estar deles mesmos.                       e justiça social.
                                                                                   • Estratégia geradora de emprego e renda como
                                                                                     resultado de ações conjuntas de informação,
              DL NÃO É “Desenvolvimento NO Local – (DnL)”
                                                                                     sensibilização, mobilização e formação.
                Ávila (2000, p. 69) em Pressupostos para forma-
                                                                                   • Busca regatar valores tradicionais e culturais das
              ção educacional em desenvolvimento local evidencia
                                                                                     comunidades com inovação de estratégias de
              que “desenvolvimento NO local (DnL)” é um tipo
                                                                                     ação, aproveitamento dos recursos históricos,
              de desenvolvimento que isenta a participação ativa
                                                                                     tradicionais e culturais de modo a envolver a
              da comunidade/localidade, um empreendimento
                                                                                     comunidade com identidade comum.
              no qual se utilizam apenas agentes externos para a
                                                                                   • Apoia micro e pequenas empresas com formas
              sua promoção, ou seja, aqueles que não pertencem à
                                                                                     diferenciadas de ajuste produtivo no espaço
              comunidade. Destaca ainda que os agentes externos
                                                                                     territorial, que, ao dispor de uma organização
              são os promotores do desenvolvimento e a comuni-                       interna mais flexível, é capaz de gerar mais em-
              dade apenas se envolve participando.                                   prego e se adequar às mudanças e imprevistos.
                                                                                   • Conta com a descentralização para oferecer po-
              DL NÃO É (só) “Desenvolvimento PARA O Local”                           der às instâncias locais para que possam viabi-
              (DpL)                                                                  lizar decisões mais próximas/reais das necessi-
                     Para diferenciar DL de DpL, Ávila afirma que                     dades da população e possibilitar a combina-

                                                                            123


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                     ção participação e uso sustentável dos recursos                 biologia o sistema cardiorrespiratório ou o sistema
                     disponíveis.                                                    gastrointestinal ocorre algo parecido com as ne-
                • Estratégia planejada, apesar não de existir uma                    cessidades (...) todas têm uma importância similar
                                                                                     (...) muda o conceito de pobreza associado exclusi-
                  fórmula a ser aplicada em todas as comunida-
                                                                                     vamente à ausência de subsistência (...) há pessoas
                  des é necessário estar munido de procedimen-
                                                                                     que morrem não somente de fome senão morrem
                  tos sucessivos organizados de forma a atingir
                                                                                     também por carência de afeto ou por carência de
                  os objetivos do enfoque.                                           identidade (Elizalde, 2000, p. 52).
                • Favorece processos inovadores, estimula a cria-
                  tividade a transformar os recursos disponíveis                   Visto que as especificidades locais devam ser con-
                  em oportunidades para aquela localidade.                      sideradas, respeitadas e potencializadas, é oportuno
                • Movimento solidário e cooperativo de caráter                  advertir que não há um “desenho” pronto que possa
                  solidário, com a existência de objetivos comuns               ser aplicado, ou antes, desenvolvido, às diferentes
                  que provoquem uma obrigação moral em cada                     comunidades-localidades. Muito oportunamente
                  individuo de apoiarem-se mutuamente.                          Kujawiski (apud Ávila, 2000, p. 29) assinala o poeta
                                                                                espanhol Antonio Machado “Caminhante, não há
                • Conjunto de estratégias integradas e equilibra-
                                                                                caminho. O caminho se faz ao caminhar”.
                  das das ações que orientam o DL na integração
                                                                                   Para finalizar, as palavras de Ávila (2000, p. 29)
                  poder político (federal, estadual e municipal),
                                                                                “se utopia, uma boa utopia”!
                  poder local (empresas, lideranças e a popula-
                  ção) e valores econômicos, sociais e meio am-
                  bientais. Trata-se de um modelo mais amplo                             “A Utopia está lá no horizonte.
                  que os tradicionais, e equilibrado no sentido                    Me aproximo dois passos, ela se afasta dois
                  de minimizar os riscos de dependência das al-                                       passos.
                  terações cíclicas do mercado.                                    Caminho dez passos e o horizonte corre dez
                • Processo contínuo de ações, pois a interrupção                                      passos.
                  ou a descontinuidade das ações provocada por                     Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
                                                                                            Para que serve a Utopia?
                  um erro de planejamento poderá acarretar o
                                                                                    Serve para isso: para que eu não deixe de
                  descrédito da comunidade no processo. O DL
                                                                                                   caminhar.”
                  perderá a continuidade se as pessoas perderem a
                                                                                              (Eduardo Galeano)
                  motivação da participação, se as estratégias não
                  estiverem realmente integradas, se a conscienti-
                  zação dos vários agentes participantes se desvir-
                  tuarem, se os recursos se esgotarem, se houver
                                                                                 *   ANOTAÇÕES

                  dependência de recursos externos, entre outros.
                Os dados aqui analisados demonstram claramente
             que o DL é um modelo de desenvolvimento que propõe
             identificar e respeitar as potencialidades endógenas de
             um grupo social (Elizalde, 2000), que deve acontecer
             na escala humana. A autora ainda destaca que:

                     (...) são nove as necessidades fundamentais para o
                     ser humano: subsistência, proteção, afeto, enten-
                     dimento, criação, participação, ócio, identidade e
                     liberdade (...) da mesma maneira que seria muito
                     difícil estabelecer se é mais importante em nossa

                                                                          124


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AULA

                                         ____________________          2




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                                         ESPAÇO, LUGAR E TERRITÓRIO




                                                                                                                                                        e Territorialização
                 Conteúdo
                     •   Conceito de espaço
                     •   Conceito de lugar
                     •   Conceito de território
                     •   Senso comum × construção científica

                 Competências e habilidades
                     • Conhecer três dos aspectos construtivos do Desenvolvimento Local – Espaço, Lugar e Território e
                       saber diferenciá-los. Sua relevância está na compreensão do conceito de territorialização a fim de
                       subsidiar o planejamento das ações do profissional de Serviço Social.


                 Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                     Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.


                 Duração
                     2 h/a – via satélite com o professor interativo
                     2 h/a – presenciais com o professor local
                     6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




              ESPAÇO, LUGAR E TERRITÓRIO                                          identidade, capital social, potencialidade, comuni-
                 Na aula anterior abordamos de forma abrangente                   dade e agentes do DL e dimensões metodológicas.
              o conceito de desenvolvimento local – DL. Essa afir-                    Por enquanto nos deteremos em três itens, são
              mação é proposital, pois o seu detalhamento como                    eles: espaço, lugar e território. Mas... eles não são si-
              já o dissemos, será construído de forma conjunta e                  nônimos?
              gradual no decorrer de nossos encontros.                               Rápido! Busquem um dicionário e vejam o que
                 Quero ressaltar, caros acadêmicos, que a leitura                 ele traz.
              dos textos do Portal e do livro Educação sem frontei-
                                                                                    O meu dicionário diz assim:
              ras são de suma importância para que vocês com-
                                                                                    Espaço:
              preendam do que trata este assunto!
                 São 11 os aspectos que iremos abordar como es-                        1. extensão ideal, sem limites, que contém todas as
              senciais nesse modelo de desenvolvimento: espaço,                        extensões finitas e todos os corpos ou objetos exis-
              lugar, território, solidariedade, educação, cultura,                     tentes possíveis; 2. medida que separa duas linhas

                                                                            125


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                     ou dois pontos; 3. região situada além da atmosfera                       demos perder esse foco, pois nossa Unidade Didáti-
                     terrestre (...)15                                                         ca trata de desenvolvimento local.
                  E quanto ao lugar?                                                              Na aula anterior já mencionei a fundamental
                                                                                               importância de se ter sempre à mão o dicionário.
                     (...) substantivo masculino, país, cidade, região não                     Constantemente irei repetir essa recomendação, to-
                     especificada, área de limites definidos ou indefini-                         davia, vale notar que cada ciência tem uma termino-
                     dos, parte do espaço que ocupa ou poderia ocupar                          logia própria, conceitos específicos, que podem ser
                     uma coisa, (...) área apropriada para ser ocupada
                                                                                               superficialmente observados com o auxílio de um
                     por pessoa ou coisa, local onde se está ou deveria
                                                                                               bom dicionário, contudo não compreendidos em
                     estar (...)16
                                                                                               sua totalidade. O que pretendo demonstrar é que
               Finalmente, vejamos o que Antônio Houaiss ad-                                   não se apreende ciência social, ou qualquer outra
             voga sobre território:                                                            ciência a não ser estudando sistemática e assidua-
                                                                                               mente os teóricos correspondentes.
                     (...) substantivo masculino, grande extensão de
                     terra, área de município, distrito, estado, país etc.,
                                                                                                 Você entregaria seu filho a um centro cirúrgico
                     área de uma jurisdição (...) JUR extensão ou base                         cujo instrumentador tenha se diplomado apenas
                     geográfica do Estado, sobre a qual ele exerce a sua                        com um breve dicionário?
                     soberania e que compreende todo o solo ocupado                               Assim também o é na sociedade. Não se pode
                     pela nação, inclusive ilhas que lhe pertencem, rios,                      “pensar”, planejar, muito menos executar projetos
                     lagos, mares interiores, águas adjacentes, golfos, ba-                    e serviços sociais sem aportes teóricos que justifi-
                     ías, portos e também a faixa do mar exterior que                          quem e fundamentem o agir profissional.
                     lhe banha as costas e que constitui suas águas ter-
                                                                                                  No entendimento do senso comum, território diz
                     ritoriais, além do espaço aéreo correspondente ao
                                                                                               respeito a um espaço qualquer, comumente delimi-
                     próprio território (...) ECO área que um animal ou
                     grupo de animais ocupa, e que é defendida contra
                                                                                               tado e defendido, espaço este de sobrevivência de
                     a invasão de outros indivíduos da mesma espécie.17                        um grupo ou pessoa.
                                                                                                  Contudo Bitoun (1999, p. 194) ensina que terri-
                                                                                               tório não pode ser entendido como simples espaço
                                                                                               geográfico, uma vez que,

                                                                                                    (...) para os geógrafos, os municípios não são sim-
                                                                                                    plesmente instâncias federativas no arranjo insti-
                                                                                                    tucional da nação, cada um deles é um território
                                                                                                    caracterizado pela sua posição, suas paisagens, suas
                  Corram, voltem um pouco a página do seu livro                                     práticas culturais e políticas desenvolvidas por
             didático e deem uma olhada...                                                          agentes sociais locais e de outras esferas territo-
                                                                                                    riais.
                  Vicente Fideles de Ávila afirma ser “um cenário
             de reconhecimento cultural, um lugar de represen-                                    A esse respeito Santos e Silveira (2001, p. 248) ex-
             tações e práticas cotidianas”, não é mesmo? Não po-                               plicam que:

                                                                                                    As configurações territoriais são o conjunto dos
                                                                                                    sistemas naturais, herdados por uma determinada
             15
                HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J.              sociedade, e dos sistemas de engenharia, isto é, ob-
                J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
             16
                                                                                                    jetos técnicos e culturais historicamente estabele-
                Ibid.
             17
                Ibid.                                                                               cidos (...) sua atualidade (...) sua significação real
                                                                                                    advém das ações realizadas sobre elas.

                                                                                         126


Modulo 01.indd 126                                                                                                                                      2/6/2009 12:15:54
AULA 2 — Espaço, lugar e território

                 Milton Santos,18 geógrafo brasileiro de reconheci-                                    tir do espaço, é resultado de uma ação conduzida
              mento internacional, afirma que herdamos um con-                                          por um ator sintagmático (ator que realiza um
              ceito incompleto de território, uma velha categoria                                      programa) em qualquer nível. Ao se apropriar de
              denominada região, área. Ressalta ainda que não é                                        um espaço, concreta ou abstratamente (por exem-
              um conceito errôneo, porém incompleto, porque o                                          plo, pela representação), o ator “territorializa” o
                                                                                                       espaço. (...) o território, nessa perspectiva, é um
              território necessita ser compreendido além de espa-
                                                                                                       espaço onde se projetou um trabalho, seja ener-
              ço geográfico, antes como espaço relacional, aquele
                                                                                                       gia e informação, e que, por consequência, revela
              no qual as pessoas vivem, trabalham, estudam, cir-
                                                                                                       relações marcadas pelo poder. O espaço é a “pri-
              culam, se divertem e morrem.
                                                                                                       são original”, o território é a prisão que os homens
                                                                                                       constroem para si.

                                                                                                    Santos (1996, p. 25 -27) menciona que

                                                                                                       Muito tempo e talento foram dissipados recente-
                                                                                                       mente por geógrafos numa discussão semântica
                                                                                                       sem-saída. Chegou-se mesmo a inventar novas
                                                                                                       denominações. Por exemplo, alguns preferem falar
                     A geografia, ciência que estuda a organização do
                                                                                                       da espacialidade ou até de espacialização da socie-
              espaço realizada pelo homem, alerta-nos quanto à                                         dade, recusando a palavra espaço, mesmo o espaço
              reconceituação de território, até então sinônimo de                                      social. No entanto, a renovação da geografia passa
              espaço ocupado, “chão”. Nas palavras de Raffestin                                        pela depuração da noção de espaço e pela investiga-
              (1993, p. 143-144):                                                                      ção de suas categorias de análise. Quando Arman-
                                                                                                       do Corrêa da Silva (1982, p. 52) enuncia que não
                       Espaço e território não são termos equivalentes                                 há geografia sem teoria espacial consistente, afirma
                       (...) é essencial compreender que o espaço é an-                                também que essa “teoria espacial consistente” só é
                       terior ao território. O território se forma a par-                              válida analiticamente se se dispuser de um “concei-
                                                                                                       to referente à natureza do espaço”. Que espaço não
                                                                                                       é nem uma coisa, nem um sistema de coisas, senão
              18
                   Doutorado em Geografia Humana pela Universite de Strasbourg I,                       uma realidade relacional: coisas e relações juntas.
                   França (1958). Livre docência pela Universidade Federal da Bahia,                   Eis por que sua definição não pode ser encontrada
                   Brasil (1961) Atuação em Geografia Humana como professor emé-
                   rito da Universidade de São Paulo, Brasil. O prof. dr. Milton Santos                senão em relação a outras realidades: a natureza e
                   (Milton de Almeida Santos ou Milton Almeida dos Santos), nasceu                     a sociedade, mediatizadas pelo trabalho. Não é o
                   em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, no dia 3 de maio de                    espaço, portanto, como nas definições clássicas da
                   1926. Geógrafo e livre pensador brasileiro, homem amoroso, afá-
                   vel, fino, discreto e combativo, dizia que a maior coragem, nos dias                 geografia, o resultado de uma interação entre o ho-
                   atuais, é pensar, coragem que sempre teve. Doutor honoris causa em                  mem e a natureza bruta, nem sequer um amálgama
                   vários países, ganhador do prêmio Vautrin Lud, em 1994 (o Prêmio
                                                                                                       formado pela sociedade de hoje e o meio ambiente.
                   Nobel da Geografia), professor em diversos países (em função do
                   exílio político causado pela ditadura de 1964), autor de cerca de 40                O espaço deve ser considerado como um conjunto
                   livros e membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, entre ou-                   indissociável de que participam, de um lado, certo
                   tros. Formou-se em Direito no ano de 1948, pela UFBA, foi professor
                                                                                                       arranjo de objetos geográficos, objetos naturais e
                   em Ilhéus e Salvador, autor de livros, que surpreenderam os geó-
                   grafos brasileiros e de todo o mundo, pela originalidade e audácia:                 objetos sociais, e, de outro, a vida que os preenche
                   O povoamento da Bahia (1948), O futuro da geografia (1953), Zona                     e os anima, ou seja, a sociedade em movimento. O
                   do cacau (1955) entre muitos outros.Passou o período entre 1964 a
                                                                                                       conteúdo (da sociedade) não é independente da
                   1977 ensinando na França, Estados Unidos, Canadá, Peru, Venezuela,
                   Tanzânia; escrevendo e lutando por suas ideias. Foi o único brasileiro              forma (os objetos geográficos) (...).
                   e receber um “Prêmio Nobel”, o Vautrin Lud, que é como um Nobel
                   de Geografia. Outras de suas magistrais obras são: Por uma outra                   O território não se restringe a uma entidade ju-
                   globalização e Território e sociedade no século XXI (Record). Milton
                   Santos, este grande brasileiro, morreu em São Paulo (SP), no dia 24
                                                                                                  rídica. É preciso considerar um sentimento de per-
                   de junho de 2001, aos 75 anos, vítima de câncer.                               tencimento e de apropriação.

                                                                                            127


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

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                                                                                 os animais defendiam “seus nichos ecológicos” con-
                                                                                 tra possíveis intrusos. No seu entendimento, cien-
                                                                                 tistas e escritores populares têm extrapolado dados
                                                                                 do mundo animal para o mundo humano.

                                                                                          O humanista, contudo, deve ir além da analogia e
                                                                                          perguntar como a territorialidade humana e a liga-
                                                                                          ção ao lugar diferem daquelas das criaturas menos
                                                                                          carregadas com a emoção e pensamento simbóli-
                                                                                          co. Há, por exemplo, o problema de conceituação.
                                                                                          Todos os animais, incluindo os seres humanos,
                                                                                          ocupam e usam espaço, mas a área como unidade
                A singularidade e particularidade de cada territó-                        limitada de espaço é também um conceito.
             rio é que faz dele mais do que um espaço geográfico.
                                                                                    Em seus pertinentes argumentos, Tuan (1976,
             O território contribui para a criação dessas especi-
                                                                                 p. 4) destaca que raramente o território poderá ser
             ficidades que fomentam o sentimento de pertença
                                                                                 observado integralmente por um animal, exceto pe-
             (Castells, 1999).
                                                                                 los pássaros “empoleirados no alto de uma árvore”;
                Tuan (1976, p. 4) considera que o conceito de ter-               os mamíferos, os répteis não o podem fazê-lo, nem
             ritório difere de espaço limitado. É uma “rede de ca-               mesmo o ser humano. Assim sendo, o
             minhos e lugares”. Um lugar deve ser visto como um
             centro de significância, no qual há a ligação emocio-                         (...) território real não é um espaço limitado, mas
             nal a objetos, ao espaço habitado. Nele encontram-                           uma rede de caminhos e lugares. As pessoas são ca-
                                                                                          pazes de manter o território como um conceito, con-
             se conceitos e símbolos que constroem a identidade
                                                                                          templar mentalmente o seu formato, incluindo aque-
             do lugar. A concepção dimensional do território, di-
                                                                                          las partes que não podem correntemente perceber. A
             ferentemente do espaço, considera que o lugar onde                           necessidade de fazer isso, contudo, pode não apare-
             a existência humana está inscrita foi construído                             cer. Por exemplo, os caçadores e coletores migrado-
             pelo homem, pela sua ação técnica e pelo discurso                            res têm poucas ocasiões em que necessitam divisar
             que mantinha sobre ela.                                                      a fronteira do seu território. O território, para eles, é
               Observem que aqui abordamos outro conceito, o                              portanto uma área não circunscrita; é essencialmen-
             de lugar, espaço, lugar e território estão de tal ma-                        te uma rede de caminhos e lugares permeáveis com
                                                                                          os caminhos de outros caçadores. Em comparação,
             neira imbricados que separá-los para fins de concei-
                                                                                          as comunidades das fazendas tendem a ter um forte
             tuação se torna delicado.
                                                                                          senso de propriedade e de espaço delimitado.
                Tuan (1976) propõe a ideia de que a geografia
             humanística busca refletir a respeito dos fenômenos                    Percebe-se, então, uma valorização ao que até o
             geográficos de um modo não tradicional, ou seja,                     momento não foi citado, ao subjetivo, ao passional,
             entrosando-se às ciências sociais, na esperança de                  àquilo que está na mente, todavia, às vezes não tra-
             dispor uma visão precisa do mundo humano.                           zemos à tona: a emoção!

                     A geografia humanística procura um entendimento                       Qual é o papel da emoção e do pensamento na liga-
                     do mundo humano através do estudo das relações                       ção ao lugar? Considerem o animal como moven-
                     das pessoas com a natureza, do seu comportamento
                     geográfico bem como dos seus sentimentos e ideias            19
                                                                                       Que ou aquele que se dedica ao estudo do comportamento social e
                     a respeito do espaço e do lugar (Tuan, 1976, p. 1).              individual dos animais.


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AULA 2 — Espaço, lugar e território

                     do-se ao longo de um caminho, parando de tempo                 É no território que a relação existente entre cul-
                     em tempo. O animal para por uma razão, usual-               tura e espaço se materializa. Nesse contexto, Casti-
                     mente para satisfazer uma necessidade biológica             lho (2004) afirma que a religiosidade influencia a
                     importante – a necessidade de descansar, beber,             estruturação dos territórios. Sobre essa temática
                     comer ou acasalar. A localização da parada torna-se
                                                                                 discorreremos na Aula 4.
                     para o animal um lugar, um centro de significância
                                                                                    Até aqui se pode dimensionar que “a ordem in-
                     que ele pode defender contra intrusos. Este modelo
                     de comportamento animal e sentimento de lugar               terna do lugar” é o que diferencia o ambiente or-
                     é prontamente aplicável aos seres humanos. Nós              denado por humanos (Le Bourlegat, 2000, p. 13).
                     paramos para atender a exigências biológicas; cada          Ao fazer alusão a essa ordem, Cleonice Alexandre Le
                     pausa estabelece uma localização como sendo sig-            Bourlegart pretende evocar os fenômenos da cons-
                     nificativa, transformando-a em lugar. O humanista            ciência, estimando ser o propulsor de transforma-
                     reconhece a analogia, mas novamente está dispos-            ções sociais.
                     to a perguntar como a qualidade da emoção é do
                     pensamento humano dão ao lugar uma gama de                       Nesse sentido, é hoje preciso avaliar o lugar, tanto
                     significação humana inconcebível no mundo ani-                    em função de sua própria ordem interna como de
                     mal. Um caso que esclarece a peculiaridade huma-                 sua combinação dialética com as informações de
                     na é a importância que as pessoas dão aos eventos                origem externa. Assim, o lugar atual, cada vez mais
                     biológicos do nascimento e da morte. Os animais                  integrado ao mundo globalizado, deve ser avaliado
                     não têm nenhuma preocupação sobre isso. As loca-                 sob duas óticas, ou seja, de dentro para fora e de
                     lizações pragmáticas dos animais têm valor porque                fora para dentro (Santos, 1995, apud Le Bourlegat,
                     satisfazem suas necessidades vitais correntes. Um                2000, p. 17).
                     chimpanzé não tem preocupações sentimentais
                                                                                   Para o autor em voga, o lugar visto de dentro “é
                     sobre o seu passado, sobre sua terra natal, mas ele
                     antecipa o futuro e teme a sua própria mortalidade.         o plano do vivido (...) é a escala territorial passível
                     Santuários dedicados ao nascimento e à morte são            de ser percebida, vivida”, reconhecida por meio dos
                     unicamente lugares humanos (ibid).                          sentidos, um encontro sensorial (do corpo físico)
                                                                                 com as relações de afetividade. Deixa assim de ser
                 É de interesse específico da geografia humanísti-                 apenas um suporte material para alçar a dimensão
              ca o fato de um “mero espaço se tornar um lugar”,                  do simbólico. Sob esta óptica,
              como também o momento e de que forma ocorre
              a “ligação emocional aos objetos físicos, as funções                    (...) o ser humano identifica-se com o lugar vivido
              dos conceitos e símbolos na criação da identidade                       como materialidade impregnada de valores, que
              do lugar” (ibid).                                                       ganha significado pelo próprio uso cotidiano, (...)
                 Já que nos referimos ao mundo simbólico, traze-                      o lugar, portanto, é onde a vida se desenvolve em
                                                                                      todas as suas dimensões. Assim, a ordem interna
              mos Rosendahl e Correa (2006, p. 1), que ressaltam
                                                                                      construída no lugar, tecida pela história e pela cul-
              que o território “apresenta, além do caráter político,
                                                                                      tura, produz a identidade. É através dessa identida-
              um nítido caráter cultural – mundo simbólico, es-
                                                                                      de que o ser humano se comunica como o resto do
              pecialmente quando os agentes sociais são grupos
                                                                                      mundo (Le Bourlegat, 2000, p. 18).
              étnicos, religiosos ou de outras identidades”.
                 Caros(as) acadêmicos(as), vocês já devem ter per-                  Em perspicaz e pertinente análise, Le Bourlegart
              cebido que é impossível separar em tópicos nossa aula              (2000, p. 18) evidencia que o momento criativo
              e abordar um item de cada vez. Como dito anterior-                 acontece quando os indivíduos que compõem esse
              mente, espaço, lugar e território estão absolutamente              lugar são capazes de perceber seu mundo interior
              atados, não se trata de um sem citar o outro, para isso,           e interpretar suas raízes culturais ali construídas,
              é ímpar o autoestudo para a fixação do conteúdo.                    nascidas a partir das relações profundas entre eles

                                                                           129


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

             mesmos e o meio. Maiores detalhamentos a esse                            na organização do território administrativo do
             respeito serão feitos na Aula 4.                                         Estado nacional.
                                                                                    • Território dos bens coletivos – no meio terri-
                                                                                      torial manifestam-se como formas materiais
                                                                                      (físicas e construídas) e imateriais (patrimônio
                                                                                      coletivo) que espelham a formação socioespa-
                                                                                      cial e a cultura local.
                                                                                    • Território de herança e memória cultural –
                                                                                      pelo qual se constrói sentimento de pertença e
                                                                                      a diferenciação do outro (com limites).
                                                                                    • Manifesta-se em várias escalas de organização
                                                                                      – família, bairro, município, região, federação
                                                                                      de estado, Estado nacional.
                Em seu texto, complementa a autora, visto de
             fora, o lugar                                                        Território como espaço do trabalho
                                                                                  ou de outras ações específicas
                     (...) aparece como uma unidade de interação com
                     outros lugares conectados em rede, e também com
                                                                                     O território de trabalho ou de outras ações es-
                     a globalidade. Em outros termos, o lugar, como um            pecíficas da vida humana é um constructo social e
                     dos elementos do circuito espacial, é parcela do es-         tem como substrato físico uma estrutura em rede
                     paço (ibid).                                                 (reticulada).
                                                                                    • Território unidimensional – nele se manifesta
             TIPOS DE TERRITÓRIO                                                      apenas uma das dimensões da vida coletiva,
               Cleonice Alexandre Le Bourlegat (2006, p. 6-7)                         pois é construído para atender interesses espe-
             aponta e conceitua os tipos de território existentes,                    cíficos: econômico, religioso, cultural, científi-
             demonstrados a seguir:                                                   co, serviços sociais, entre outros.
                                                                                    • Território de fixos e fluxos – o substrato físico
                                                                                      de referência abriga uma estrutura descontínua
             Território de reprodução da vida
                                                                                      de fixos e fluxos (uma rede de lugares), sendo
               O território de reprodução da vida, ou seja, do
                                                                                      mantido por um modelo de circuito entre os
             cotidiano vivido é um constructo social que tem
                                                                                      fixos cuja articulação entre os integrantes ra-
             como substrato um espaço físico contíguo modifi-
                                                                                      ramente é corpórea (exceto em alguns casos
             cado pelo uso social e coletivo.                                         como o turismo e eventos coletivos programa-
                • Território multidimensional – nele se manifes-                      dos pelos integrantes da rede), predominando
                  tam todas as dimensões da vida coletiva (hu-                        relações secundárias.
                  mana, social, econômica, cultural, política).                     • Território organizacional – de estrutura hori-
                • Território do encontro e articulação corpóreo                       zontal ou vertical, regido por normas próprias
                  – o substrato físico de referência é contíguo e                     da organização, com limites flexíveis e nem
                  nele predominam relações pessoais e emocio-                         sempre duradouros, não se inserem obriga-
                  nais do tipo primária, geradora de vínculos de                      toriamente nas estruturas de organização do
                  identidade coletiva.                                                Estado. E no caso de estruturas hierarquizadas,
                • Território institucional – constitui campo de                       nem sempre as forças de regulação emergem
                  forças sociais locais com regras de vivência                        do local (nó da rede), podendo aparecer como
                  próprias (espaço político), geralmente inserido                     força de submissão a um nó central externo.

                                                                            130


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AULA 2 — Espaço, lugar e território

                     • Território de bens da organização – geralmente               priori pelo Estado para o atendimento de um
                       obedecem a um modelo padronizado que es-                     objetivo específico predeterminado, a efeti-
                       pelha o padrão de identidade da organização.                 vação de seu uso ocorre segundo um siste-
                     • Manifesta-se em várias escalas de organização –              ma de regras internas do Estado nacional e
                       local, regional, nacional, internacional, global.            seu federalismo intraestatal viabilizadas por
                                                                                    meio de ações planejadas e monitoradas pelo
              Território institucional fruto de estratégia                          Estado.
              política de Estado                                                  • Território uni e multidimensional – o uso pre-
                     • Território institucional – não é constructo so-              visto pode ser unidimensional quando a ação
                       cial, já que surge como território instituído na             estratégica atende uma dimensão específica,
                       forma de lei para atender a uma forma de uso                 como: definição de territórios de trabalho (ex.,
                       proposto pelo Estado, formulado por meio de                  divisão territorial de trabalho definido por re-
                       estratégias políticas. Ex., políticas territoriais           gionalização), promoção e regulamentação do
                       para: assentamento de famílias no campo (re-                 uso e ocupação do solo (ex., política de zone-
                       forma agrária), criação de unidades de con-                  amento para conservação da natureza, distri-
                       servação do patrimônio natural e cultural; de-               buição da população, implantação de infra-
                       senvolvimento de segmentos específicos (agri-                 estrutura etc.), integridade do território (uso
                       cultores familiares, setores estratégicos) ou de             da faixa de fronteira). Mas a política pode ter
                       ocupação funcional de espaços do território                  como fim a criação de territórios multidimen-
                       nacional (regionalização, zoneamento, faixa de               sionais, de reprodução da vida (definição de
                       fronteira etc.).                                             assentamentos agrários).
                     • Território de idealização estatal – sua forma-
                       conteúdo emerge de um espaço idealizado pelo
                       Estado e que, portanto, cumpre uma intencio-               !   IMPORTANTE
                       nalidade estratégica, cujo uso efetivo será aten-
                                                                                     É na história da sociedade, na prática social,
                       dido pelos atores que se engajarem nessa ação
                                                                                  que se encontra a fonte dos nossos problemas e
                       de coordenação política.
                                                                                  a chave de suas soluções.
                     • Território de organização do Estado – como
                                                                                                              Marilda Iamamoto
                       território (forma-conteúdo) configurado a




                 *      ANOTAÇÕES




                                                                            131


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização



                                                                                                          AULA
        Unidade Didática – Desenvolvimento Local




                                                                                  ____________________          3
                           e Territorialização




                                                                                        CULTURA E IDENTIDADE

                                                             Conteúdo
                                                             • Relevância
                                                             • Aplicação para o DL

                                                             Competências e habilidades
                                                             • Compreender a cultura e a identidade como aspectos construtivos do DL e valorizá-los no processo
                                                               do fortalecimento social e comunitário.


                                                             Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                             Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.


                                                             Duração
                                                             2 h/a – via satélite com o professor interativo
                                                             2 h/a – presenciais com o professor local
                                                             6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




                        CULTURA E IDENTIDADE                                                                    mumente utilizado para definir atenção regular a
                                                                                                                algo específico.
                                                   A cultura popular local por ser oriunda das relações
                                                                                                                   Segundo Kashimoto (2002, p. 35), cultura é
                                                   profundas entre a comunidade do lugar e o seu meio
                                                   (natural e social), simboliza o homem e seu entorno,              (...) um conjunto de atividades e crenças que uma
                                                   implicando um tipo de consciência e de materialida-               comunidade adota para enfrentar os problemas
                                                   de social que evidencia o grau de afeição ou apego a              impostos pelo meio ambiente, noção que será com-
                                                   um lugar; esse é um fator de extrema importância                  plementada pela definição segundo a qual a cultura
                                                   para o desenvolvimento local, posto que permite a                 é o conjunto de soluções originais que um grupo
                                                   configuração da identidade do lugar e de sua popu-                 de seres humanos inventa, a fim de se adaptar a seu
                                                   lação (Kashimoto, Marinho e Russeff, 2002, p. 35).                meio ambiente natural e social.

                           Inicialmente, é preciso delimitar o conceito de                                         Por sua vez, a história da humanidade demons-
                        cultura, haja visto que o conceito de cultura é co-                                     tra que a palavra cultura passou por transformações




                                                                                                          132


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AULA 3 — Cultura e Identidade

              em função da exigência que cada época lhe impôs.                                    metáfora,23 quando seu sentido figurado se fixa pelo
              Cuche enfatiza que a gênese de cada vocábulo tra-                                   “vocabulário do Iluminismo”. A partir daí, a palavra
              duz a história, bem como a necessidade cultural de                                  cultura desenvolve sentido próprio, libertando-se de
              cada povo. Pondera ainda que                                                        seus complementos, passando a ser entendida como
                                                                                                  a soma dos saberes acumulados e transmitidos pela
                     (...) se o século XVIII pode ser considerado como o
                                                                                                  humanidade, cujo sentido se assemelha à palavra
                     período de formação do sentido moderno da pala-
                     vra, em 1700, no entanto, “cultura” já é uma palavra                         “civilização”, pois as “duas pertencem ao mesmo
                     antiga no vocabulário francês. Vinda do latim cul-                           campo semântico (...) e possuem iguais concepções
                     tura significa o cuidado dispensado ao campo ou                               fundamentais” (Cuche, 2002, p. 9-21).
                     ao gado, ela aparece nos fins do século XIII para de-                            Para Hermet (2002, p. 16) a cultura “(...) é a ma-
                     signar uma parcela da terra cultivada (...) No come-                         triz, em permanente evolução, dos sentimentos e
                     ço do século XVI, ela não significa mais um estado                            das maneiras de perceber as coisas que caracterizam
                     (da coisa cultivada), mas uma ação, ou seja, o fato
                                                                                                  todas as comunidades em um momento dado”.
                     de cultivar a terra. Somente no meio do século XVI
                     se forma o sentido figurado e “cultura” pode desig-                              Assim, percebe-se que o significado de cultura
                     nar então a cultura de uma faculdade, isto é, o fato                         evolui ao longo dos séculos, e passa a caracterizar,
                     de trabalhar para desenvolvê-la. Mas este sentido                            de forma muito particular, cada comunidade, con-
                     figurado será pouco conhecido até a metade do sé-                             siderando-se suas crenças, costumes e valores como
                     culo XVII, obtendo pouco conhecimento acadêmi-                               fatores preponderantes para a formação do modo
                     co e não figurado na maior parte dos dicionários da                           como as pessoas, em suas comunidades, compre-
                     época. (...) No século XVIII, “cultura” é sempre em-
                                                                                                  endem suas próprias relações interpessoais com os
                     pregada no singular, o que reflete o universalismo e
                                                                                                  outros e como isso influencia seu viver.
                     o humanismo dos filósofos: a cultura é própria do
                     Homem (com maiúscula) além de toda distinção
                     de povos ou de classes. “Cultura” se inscreve então                                !    IMPORTANTE!
                     plenamente na ideologia do Iluminismo: a palavra
                     é associada às ideias de progresso, de educação, de                                   Cultura são sistemas que servem para adap-
                     razão, que estão no centro do pensamento da épo-                                   tar as comunidades humanas aos seus emba-
                     ca. (...) Está muito próxima de uma palavra que vai                                samentos biológicos. Esse modo de vida inclui
                     ter um grande sucesso no vocabulário francês do                                    tecnologia, organização social, econômica,
                     século XVIII: “civilização” (Cuche, 2002, p. 17-21).                               política, prática religiosa, e assim por diante
                                                                                                        (Laraia, 2001).
                Utilizando o ponto de vista de Cuche (2002), pro-
              ponho uma reflexão: Existem povos inculturados?20
              Quem seriam eles? Aqueles que não são civilizados?                                     Lembra Kliksberg (2001, p. 122) que “a cultura
              E quais são os povos civilizados?                                                   incide claramente sobre o estilo de vida dos diver-
                Na abordagem do referido autor, até o início                                      sos grupos sociais” e “é um fator decisivo de coesão
              do século XVIII, dentro da semântica,21 a evolu-                                    social”, já que traz o sentido de crescer, cultivar e
              ção da palavra cultura acontece pela metonímia22 e                                  desenvolver-se mutuamente.
                                                                                                    Destarte, cultura pode ser conceituada lembran-
              20
                 Caráter do que é inculto; ausência de cultura, de erudição.                      do as palavras de Tylor (1871, apud Cuche 2002, p.
              21
                 Ciência que estuda a evolução do significado das palavras e de outros
                 símbolos que servem à comunicação humana; semiologia.                            35), como um “(...) conjunto complexo que inclui
              22
                 Figura de retórica que consiste no uso de uma palavra fora do seu con-
                 texto semântico normal, por ter uma significação que tenha relação
                                                                                                  23
                 objetiva, de contigüidade, material ou conceitual, com o conteúdo ou o                 Designação de um objeto ou qualidade mediante uma palavra que
                 referente ocasionalmente pensado. [Não se trata de relação comparati-                 designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma re-
                 va, como no caso da metáfora.] Ex.: respeite os meus cabelos brancos por              lação de semelhança (ex., ele tem uma vontade de ferro, para designar
                 “a minha velhice”; adora Portinari por “a obra de Portinari”.                         uma vontade forte, como o ferro).


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

             conhecimento, crenças, a arte, a moral, o direito,             existir cultura sem identidade, a identidade, no en-
             os costumes e as outras capacidades ou hábitos                 tanto, pode manipular e modificar toda cultura de
             adquiridos pelo homem enquanto membro da so-                   uma comunidade.
             ciedade”.                                                         A questão da identidade cultural surgiu nos anos
                Depreende-se, assim, que cultura é a soma de toda           1970, pela consagração das diferentes tendências
             vida social humana, qualificada por sua magnitude               ideológicas e é definida por Cuche (2002, p. 177)
             grupal. Aos valores, às crenças e aos costumes per-            como sendo o
             passados de pai para filho, são acrescentadas novas
                                                                                      (...) instrumento que permite pensar a articulação
             ideias, resultantes da evolução tecnológica, da re-
                                                                                      do psicológico e do social em um indivíduo (...)
             flexão filosófica do viver inerente a cada indivíduo,
                                                                                      cuja (...) identidade social se caracteriza pelo con-
             cuja consciência crítica permite o desenvolvimento
                                                                                      junto de suas vinculações em um sistema social,
             e o progredir em todos os sentidos, beneficiando a
                                                                                      permitindo que “um indivíduo se localize em um
             sociedade e/ou a comunidade onde se vive e que                           sistema social e seja localizado socialmente”.
             traz a ideia da identidade cultural.
                Por sua vez, Santos (1994) assinala que o estudo               Cuche lembra-nos, ainda, de que a identidade so-
             da cultura de um povo contribui no combate a pre-              cial também diz respeito aos grupos, identificando-
             conceitos, oferecendo uma plataforma firme para o               os e diferenciando-os. Dessa forma, pode ser enten-
             respeito e a dignidade nas relações humanas com                dida como uma forma de hierarquização das distin-
             pretensões de entender a própria história, de inter-           ções, que se originam nas diferenças culturais.
             pretar a particularidade dos costumes e crenças e,                Barreto (2000) apresenta o conceito de identida-
             ainda, o desenvolvimento dos povos no contexto                 de como sentimento de pertencer a uma comunida-
             das condições materiais em que se desenvolvem.                 de onde as pessoas não se conhecem, mas compar-
                A partir do século 20, o conceito de cultura mo-            tilham a mesma história e tradição. A manutenção
             dificou-se. Constatou-se que as sociedades não são              da identidade étnica, local ou regional é fator im-
             todas iguais. A cultura se inscreve na história como           portante na segurança de se saber pertencente a um
             diversidade de culturas, particulares e distintas, que         lugar, a um povo, a um grupo.
             diferenciam as sociedades entre si. Se assumirmos                 O realce da palavra identidade, como aqui se colo-
             essa visão natural, poderemos sugerir que as dife-             ca, tem por fundamento a cultura e sua ligação com
             renças entre as sociedades correspondem a diferen-             a socialização do indivíduo dentro de sua comuni-
             ças naturais.                                                  dade. Em conformidade com as relevantes ideias
               A cultura será aqui considerada como conjunto                de Cuche (2002, p. 179) “(...) toda identidade cul-
             de ações que podem conduzir ao fortalecimento da               tural é vista como consubstancial com uma cultura
             autoestima da comunidade (Kashimoto, 2002).                    particular”. Portanto, o conhecimento adquirido e
                Enfatiza-se que as comunidades convivem, em seu             acumulado pelo indivíduo, em particular, dentro de
             território, diversificadas social e geograficamente. O           seu grupo social, torna-se uma propriedade essen-
             ponto principal é procurar conhecer suas particu-              cial da identidade cultural.
             laridades, seus modos de vida, sua cultura, para que             Para Houaiss,24 é “estado do que não muda, do
             façam sentido as suas práticas, os seus costumes, as           que fica sempre igual; consciência da própria per-
             concepções e as transformações pelas quais passam,             sonalidade; conjunto de características e circuns-
             buscando o fortalecimento de sua identidade.
                O que vem a ser identidade?
               Apesar de intimamente ligadas, as duas significa-             24
                                                                                 HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J.
             ções, cultura e identidade, não se confundem. Pode                  J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.


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AULA 3 — Cultura e Identidade

              tâncias que distinguem uma pessoa ou uma coisa e                        concentradas na aplicação das características mais
              graças às quais é possível individualizá-la”.                           adequadas à afirmação de sua identidade; à preser-
                 Caro(a) acadêmico(a), reflita a respeito da sua                       vação da unidade de seu movimento, à construção
                                                                                      de linhas defensivas para suas fronteiras e à manu-
              identidade. Quem é você? Qual a sua identidade?
                                                                                      tenção dos outros a distância... Os fundamentalis-
                 Por que é importante este quesito em sua vida e
                                                                                      tas lutam amparados por Deus – no caso de uma
              para o desenvolvimento local de uma comunidade/                         religião teísta – ou pelos sinais de alguma forma de
              localidade?                                                             transcendência (Castells, 2006, p. 29).
                 Castells (2006, p. 22) entende por identidade “a
              fonte de significado e experiência de um povo”. As-                    Como sublinha Geertz (1989), a religião é uma
              severa que há necessidade de distinção entre iden-                 manifestação cultural, carrega símbolos historica-
              tidade e aquilo que os sociólogos denominam “pa-                   mente enraizados, formula conceitos a respeito da
              péis”. Genericamente identidade organiza significa-                 existência humana, traduz o caráter e a visão de
              dos como papéis e funções.                                         mundo de um povo.
                No entendimento de Yasbek (1999) é por meio                           A religião une a sociedade, sustenta valores, man-
              das relações que se constrói identidade.                                tém a moral, impõe ordem ao comportamento pú-
                                                                                      blico, mistifica o poder, racionaliza as desigualda-
                     Não temos conhecimento de um povo que não
                                                                                      des, justifica a injustiça (Geertz, 2001, p. 25).
                     tenha nomes, idiomas ou culturas em que algu-
                     ma forma de distinção entre o eu e o outro, nós                Isso ocorre visto que a religião se faz valer de uma
                     e eles, não seja estabelecida... O autoconhecimento         crença sobrenatural que cria atmosfera distinta,
                     – invariavelmente uma construção, não importa o             modo de vida, uma filosofia religiosa.
                     quanto possa parecer uma descoberta – nunca está               É por meio da paisagem cultural, carregada de
                     totalmente dissociado da necessidade de ser conhe-
                                                                                 seus geossímbolos, que um determinado grupo ins-
                     cido, de modos específicos, pelos outros (Calhoun
                                                                                 creve sua cultura no espaço. Também a religião pos-
                     apud Castells, 2006, p. 22).
                                                                                 sui seus símbolos, ou seja, marcas que identificam e
                 No esteio dos estudos de Castells (2006), é im-                 delimitam seu território religioso.
              portante salientar que a identidade é construída
                                                                                      São espaços qualitativamente fortes, constituídos
              sociologicamente. Em outras palavras, sua matéria-
                                                                                      por fixos e fluxos, possuindo funções e formas es-
              prima é fornecida pela história, geografia, pela me-
                                                                                      paciais que constituem os meios por intermédio
              mória coletiva, pelas instituições religiosas. Todo                     dos quais o território realiza efetivamente os papéis
              esse aparato social é metabolizado e enraizado, ofe-                    a ele atribuídos pelo agente social que o criou e o
              recendo conteúdo simbólico para a construção da                         controla (Rosendahl e Correa, 2006, p. 2).
              identidade de um povo. Por esse motivo, identidade
              nunca poderá ser situada fora do seu contexto his-                    Assim entendido, o território religioso abrange
              tórico!                                                            a comunidade de fiéis, não se limitando apenas ao
                                                                                 espaço onde está localizado.
                 Castells destaca três processos fundamentais para
              a construção da identidade: o fundamentalismo reli-                   Na abordagem da geografia cultural, a territoria-
              gioso; a identidade étnica e a identidade territorial.             lidade religiosa é o conjunto de práticas desenvol-
                                                                                 vidas por instituições ou grupos religiosos visando
                                                                                 controlar um determinado território. É fortalecida
              O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO
                                                                                 por meio de experiências religiosas individuais ou
                     Os fundamentalistas são seletivos. Podem muito              coletivas que o grupo mantém no lugar sagrado e
                     bem julgar estarem abraçando todo o passado em              nos itinerários que constituem seu território (Ro-
                     sua forma mais pura, porém suas energias estarão            sendahl e Correa, 2006).

                                                                           135


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                Na concepção de Castilho (2004), todo homem                                     que dá margem a interpretações alternativas (...)
             é religioso à medida que busca significado e orien-                                 O provável argumento dos autores comunitaristas,
             tação para o mundo em que vive. Sob essa ótica, é                                  coerente com minha própria observação intercul-
             uma expressão inevitável na análise cultural do ter-                               tural, é que as pessoas resistem ao processo de in-
                                                                                                dividualização e atomização tendendo a agrupar-se
             ritório. Valores religiosos motivam trabalhos sociais
                                                                                                em organizações comunitárias que, ao longo do
             em comunidades locais (Castells, 1999).
                                                                                                tempo, geram um sentimento de pertença e, em úl-
                Para Haesbaert (1997), a identidade territorial é                               tima análise, em muitos casos, uma identidade cul-
             criada pela relação existente entre território e terri-                            tural, comunal. Apresento a hipótese de que, para
             torialidade, por meio de elementos como a identi-                                  que isso aconteça, faz-se necessário um processo de
             dade cultural e a identidade religiosa.                                            mobilização social, isto é, as pessoas precisam par-
               Esse conjunto de fatores impõe que o profissional                                 ticipar de movimentos urbanos (não exatamente
             de Serviço Social reconheça e respeite a religiosidade                             revolucionários), pelos quais são revelados e defen-
             da comunidade/localidade em que estiver inserido.                                  didos dos interesses em comum, e a vida é, de al-
                                                                                                gum modo, compartilhada, e um novo significado
                                                                                                pode ser produzido (Castells, 2006, p. 79).
             A IDENTIDADE ÉTNICA
                                                                                         Para Mesquita (1995), a territorialidade é vista
                     Ao longo da história da humanidade, a etnia sem-                  como projeção da identidade do indivíduo, e
                     pre foi uma fonte de significado e reconhecimento.
                     Trata-se de uma das estruturas mais primárias de                           (...) a territorialidade que comumente vivenciamos
                     distinção e reconhecimento social, como também                             assume, tenhamos ou não consciência disso, feições
                     de discriminação, em muitas sociedades contem-                             de uma territorialidade familiar, quando no terri-
                     porâneas, dos Estados Unidos à África subsaariana.                         tório atualizamos, pela nossa identidade com ele,
                     Ela foi, e é, a base para o surgimento de revoltas na                      antigos sentimentos de emulação,25 competição ou
                     luta por justiça social (Castells, 2006, p. 71).                           solidariedade vividos no território familiar. Pode
                                                                                                assumir também uma feição sintetizada como ter-
                Adverte ainda Castells (2006) que a etnia não de-                               ritorialidade senhorial quando se atualizam e ex-
             verá jamais ser desprezada no estudo da identidade,                                pressam raízes de posse (...) fundamentando não
             pois vem sendo incorporada a princípios como cul-                                  só o sentimento de pertença territorial, como ainda
             tura, nação, questão de gênero e religião quando o                                 condutas direcionadas a um uso político do territó-
             assunto é autodefinição cultural.                                                   rio. Esta territorialidade senhorial frequentemente
                                                                                                vale-se de (...) uma identidade contrastiva em que
                                                                                                os outros são os diferentes que não pertencem ao
             IDENTIDADE TERRITORIAL: A COMUNIDADE
                                                                                                nosso território, mesmo que este “nosso” não con-
             LOCAL
                                                                                                figure uma propriedade coletiva, mas apenas de al-
                O crescimento das cidades, sua nova organização                                 guns (...) (Mesquita, 1995, p. 86).
             em rede, produz um dos mais antigos debates socio-
             lógicos, o desaparecimento das comunidades. Estu-                            Assim, territorialidade funciona como um es-
             diosos denunciam que essa nova ordenação urbana                           pelho, onde os homens idealizam seu ambiente, e
             é fruto da relação entre espaço e cultura.                                veem suas imagens refletidas, o que os ajuda a to-
                                                                                       mar consciência daquilo que eles partilham.
                     As pessoas se socializam e interagem em seu am-                      Para tanto, é preciso existir políticas de coopera-
                     biente local, seja ele a vila, a cidade, o subúrbio, for-         ção, como uma forma de articulação entre o Estado
                     mando redes sociais entre seus vizinhos. Por outro                e a sociedade. As políticas públicas sociais devem
                     lado, identidades locais entram em interseção com
                     outras fontes de significados e reconhecimento so-
                     cial, seguindo um padrão altamente diversificado                   25
                                                                                            Competição, disputa.


                                                                                 136


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AULA 3 — Cultura e Identidade

              privilegiar a interação entre a cultura e o desen-         tado para que haja o aproveitamento da cultura e o
              volvimento das potencialidades endógenas de cada           fomento da identidade, oferecendo meios para que
              região, como forma de promover a manutenção da             essa comunidade/localidade seja protagonista de
              cultura local, ao mesmo tempo, que essa cultura            sua própria história.
              possa se metabolizar em ferramenta de autonomia
              e desenvolvimento local.                                        Mais do que ao pesquisador, importa à comuni-
                 Não apenas as políticas sociais públicas, mas                dade reconhecer essa autoidentificação cultural e
              também os profissionais que executam essas polí-                 assumir esse eficaz instrumento com o objetivo de
              ticas devem ser sensíveis à realidade, promovendo               se tornar protagonista do seu próprio processo de
              a criação de um canal entre a comunidade e o Es-                desenvolvimento local (Kashimoto, 2002).



                 *   ANOTAÇÕES




                                                                   137


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização



                                                                                                           AULA
        Unidade Didática – Desenvolvimento Local




                                                                                  ____________________           4
                           e Territorialização




                                                                                                 CAPITAL SOCIAL

                                                             Conteúdo
                                                              • Capital social × status quo

                                                             Competências e habilidades
                                                              • Compreender o conceito de Capital Social e suas aplicações no DL. Sua relevância está na apreensão,
                                                                por parte do futuro profissional do Serviço Social, deste importante elemento na análise e interven-
                                                                ção da questão social.


                                                             Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                              Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.


                                                             Duração
                                                              2 h/a – via satélite com o professor interativo
                                                              2 h/a – presenciais com o professor local
                                                              6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




                        CAPITAL SOCIAL                                                                               de produzir renda; bens disponíveis; patrimônio,
                          Inicialmente, é necessário compreendermos o sig-                                           riqueza (...) Derivação: por metáfora. Ex.: sua saú-
                        nificado da palavra capital e o sentido que se preten-                                        de é seu maior capital.
                        de aplicar ao contexto do desenvolvimento local.
                                                                                                                   Em sua obra, Maria Celina D’Araujo (2003, p.
                          O dicionário eletrônico Houaiss26 traz para o ver-                                     8-9) esclarece que capital é
                        bete capital:
                                                                                                                     (...) uma palavra forte e, como conceito, é um dos
                                                   (...) adjetivo de dois gêneros: de relevo; principal,             mais importantes e mais controversos nas ciências
                                                   fundamental. Ex.: de importância capital (...) Ru-
                                                                                                                     sociais. Karl Marx, no século XIX, definiu-o como
                                                   brica: economia, termo jurídico: todo bem econô-
                                                                                                                     o produto da mais-valia (trabalho não-pago) (...)
                                                   mico aplicável à produção (...) toda riqueza capaz
                                                                                                                     em comum com a economia clássica (...) é o pro-
                                                                                                                     duto do trabalho utilizado para a produção de
                       26
                             HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J.
                                                                                                                     outros bens. Modernamente, na área econômica
                             J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001                                     e empresarial, capital pode vir acompanhado de




                                                                                                           138


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AULA 4 — Capital Social

                     vários adjetivos: capital aberto, capital constante            dieu27 reformulou-o, excluindo a ociosidade, o que
                     ou variável, capital de giro, capital de risco, capi-          o tornou um atributo individual e coletivo de dis-
                     tal fechado, capital financeiro, capital fixo, capital           tinção, apoiado pelo capital econômico, capital cul-
                     intensivo, capital social das empresas. A palavra é            tural e o capital relacional ou social (Hermet, 2002,
                     a matriz econômica e ideológica de uma época da
                                                                                    p. 101).
                     humanidade, a do capitalismo, que permanecerá al-
                     guns séculos. Remete-nos a mercado, propriedade
                                                                                       Para Bourdieu (2002), não há um conceito único
                     privada, trabalho assalariado, recursos econômicos             sobre capital social. Ele acredita que este vem sendo
                     e miséria (grifo nosso).                                       utilizado com frequência nas ciências humanas no
                                                                                    sentido de compreender a “gênese e natureza da po-
                 Contudo, a autora observa que a palavra capital                    breza em uma economia” e aplicá-lo na formulação
              tem sido empregada além dos limites econômico-                        de políticas públicas.
              empresariais e relembra ainda que a partir de 1990,
                                                                                       O referido autor verifica que o capital social se
              para fins de avaliação de projetos de desenvolvi-
                                                                                    desenvolve sob certas circunstâncias e se deprecia
              mento, o Banco Mundial passou a distinguir quatro
                                                                                    sob outras. Tem no sistema educacional o setor em
              formas de capital:
                                                                                    que se deva investir para a construção do capital so-
                     (...) capital natural, isto é, os recursos naturais de         cial, com mais democracia – empoderamento dos
                     que é dotado um país; capital financeiro, aque-                 pobres.
                     le produzido pela sociedade e que se expressa em                  Conforme foi demonstrado por Milani (2002)
                     infraestrutura, bens de capital, capital financeiro,            em sua pesquisa, Bourdieu compreende então o ca-
                     imobiliário, entre outros; capital humano, defini-              pital social como um conjunto de recursos reais ou
                     do pelos graus de saúde educação e nutrição de
                                                                                    potenciais resultantes do fato de pertencer, há muito
                     um povo; e, finalmente, capital social, que expressa,
                                                                                    tempo e de modo mais ou menos institucionaliza-
                     basicamente, a capacidade de uma sociedade esta-
                     belecer laço de confiança interpessoal e redes de co-
                                                                                    do, a redes de relações de conhecimento e reconhe-
                     operação com vistas à produção de bens coletivos.              cimento mútuos.
                     Segundo o Banco Mundial capital social refere-se                  O referido sociólogo parte do princípio de que o
                     às instituições, relações e normas sociais que dão             capital e suas diversas expressões (econômico, his-
                     qualidade às relações interpessoais em uma dada                tórico, simbólico, cultural, social) podem ser pro-
                     sociedade (D’Araujo, 2003, p. 9-10).                           jetados a diferentes aspectos da sociedade capitalis-
                                                                                    ta e a outros modos de produção, desde que sejam
                Vários são os autores que versam sobre esse tema;
                                                                                    considerados social e historicamente limitados às
              Eduardo Loebel (2006, p. 2), em uma pesquisa ex-
              ploratória sobre as noções de capital social e seus                   circunstâncias que os produzem, promovendo be-
              usos no combate à pobreza no Brasil, verifica que:                     nefícios individuais e para a classe social a qual per-
                                                                                    tençam.
                     (...) a ideia em si não é nova, autores clássicos como
                     Adam Smith, Karl Marx, Émile Durkheim, Thors-
                     tein Veblen, Max Weber, entre outros, escreveram
                                                                                    27
                                                                                         Pierre Félix Bourdieu (1930-2002). Importante sociólogo francês cuja
                     sobre a importância dos fatores sociais e culturais                 discussão sociológica centralizou-se na tarefa de desvendar os meca-
                     no desenvolvimento e nas trocas econômicas.                         nismos da reprodução social que legitimam as diversas formas de
                                                                                         dominação. Para empreender essa tarefa, Bourdieu desenvolve con-
                 A sentença capital social foi sugerida por Veblen                       ceitos específicos, retirando os fatores econômicos do epicentro das
                                                                                         análises da sociedade a partir de um conceito concebido por ele como
              (1899) para designar o conjunto de atributos espe-                         violência simbólica, no qual advoga acerca da não arbitrariedade da
              cíficos da classe ociosa, que usava o capital social,                       produção simbólica na vida social, advertindo para seu caráter efeti-
                                                                                         vamente legitimador das forças dominantes, que expressam por meio
              juntamente com o monetário, para viver elegante-                           delas seus gostos de classe e estilos de vida, gerando o que ele pretende
              mente do trabalho alheio. Posteriormente, Bour-                            ser uma distinção social.


                                                                              139


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                Em sua experiência de desenvolvimento local no               sença e à qualidade das relações sociais para a pro-
             município de Pintadas (Bahia), Carlos Milani bus-               moção do desenvolvimento, explicitando as rela-
             cou significados (práticas e expressões) do capital              ções sociais institucionalizadas por meio de normas
             social no projeto de desenvolvimento local a fim de              ou de redes sociais, pois representam acúmulos de
             verificar empiricamente as possíveis relações entre              práticas sociais culturalmente coligadas na história
             tais significados e o projeto de transformação social,           das relações de grupos, comunidades ou classes so-
             investigando acerca da importância desse conceito               ciais (Correa, 2003).
             para compreender as estruturas de poder local e                    Em seus argumentos, Coleman (1990, apud Kli-
             para analisar o desenvolvimento local em sua com-               ksberg, 2001, p. 117) entende que capital social exis-
             plexidade.                                                      te tanto no plano individual, porque está relaciona-
                Coleman (1988 apud Hermet, 2002, p. 102) “in-                do ao grau de interação do indivíduo e sua rede de
             terpreta o capital social como um recurso inscrito              contatos sociais, como no coletivo, quando explicita
             no modo de organização econômica e social de uma                normas que beneficiam toda a comunidade, produ-
             população, ou melhor, como um ‘bem coletivo’ (...)”             zindo um bem público, como a questão da seguran-
             do qual não se pode apropriar individualmente. O                ça da população.
             autor manifesta a ideia de que o capital social en-                Seria oportuno evidenciar que para Newton
             contra-se imbricado nas normas vigentes das rela-               (1997, apud Kliksberg, 2001, p. 117), o capital social
             ções sociais, por essa razão é capaz de fortalecer esse         é visto como um fato natural subjetivo, associado
             vínculo e ainda gerar laços de confiança entre si.               a “(...) valores e atitudes que influenciam como as
                Vale salientar que capital social não é sinônimo             pessoas se relacionam entre si. Inclui confiança,
             de “capital humano, baseado em capacidades, em                  normas de reciprocidade, atitudes e valores (...)”
             conhecimentos ou em criatividade puramente indi-                que ajudam a transformar conflitos em cooperação
             viduais” (Hermet, 2002, p. 102).                                e ajuda mútua. Por meio das ações coletivas e o uso
               Para Coleman (1990), capital social são os recur-             comunitário de recursos, o capital social estimula a
             sos sociais – a crença na estrutura social, as relações         solidariedade e supera as falhas de mercado.
             de amizade e confiança, entre outros – apontado-o                   Tem, portanto, profunda ligação com a união das
             como facilitador de certas ações que podem ser úteis            sociedades, comunidades ou grupos sociais. Essa união
             ou não para a comunidade.                                       de valores, crenças, comportamentos e conhecimento
                O grande valor desse conceito, para Coleman                  possibilita a geração de benefícios que podem ser vis-
             (1990), está na possibilidade de identificar certos              tos como estratégias de desenvolvimento, atingindo
             aspectos funcionais da estrutura social que propor-             toda a comunidade, o Estado e o setor privado, no qual
             cionam aos atores sociais recursos para a realização            a cultura ocupa um papel fundamental.
             de seus interesses.                                                Segundo o percuciente parecer de Kliksberg
                Dias Júnior (2001), em sua dissertação de mes-               (2001), a cultura é o elemento do capital social que
             trado, enfatiza que, para Coleman (1990), o capital             incide sobre o estilo de vida dos diversos grupos so-
             social possibilita, por meio dos esforços somados das           ciais e sua potencialização e afirmação podem de-
             comunidades, ganhos sociais importantes para as                 sencadear enormes potenciais de energia criativa,
             pessoas e para a sociedade, pois esta poderá munir-             sendo fator primordial na coesão social, a alavanca
             se de possibilidades que, em conjunto com outros                principal do desenvolvimento, desde que se criem
             tipos de capital e com o auxílio do Estado, poderão             condições adequadas para tal, sua importância já foi
             transformar positivamente sua realidade social.                 abordada na aula anterior.
               A locução capital social designa uma ampliação                   A interação das empresas, da comunidade, dos
             do vocábulo capital que empresta significado à pre-              intermediários comerciais e financeiros exige o de-

                                                                       140


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AULA 4 — Capital Social

              senvolvimento de uma nova institucionalidade de-              D’Araujo (2003, p. 11), razão pela qual conhecer sua
              mocrática, moderna, representativa e transparente             pesquisa é ímpar para a compreensão e apreensão
              que possibilite a participação da população nas de-           do conceito de capital social.
              cisões que envolvem o capital social de determinada              Putnam (1996), intrigado pelos determinantes
              região, sendo necessários mecanismos diferenciados            que levam alguns governos democráticos a lograr
              de gestão que possam articular o governo e as insti-          êxito e outros não, desenvolve na Itália, a partir de
              tuições locais com a comunidade (Correa, 2003).               1970, uma pesquisa, com duas décadas de duração,
                 Esse tipo de gestão depende dos mecanismos de-             cuja finalidade é acompanhar as reformas político-
              mocráticos que possam gerar oportunidades para o              administrativas pelas quais passara aquele país.
              envolvimento de pessoas na vida social, econômica                Nessas duas décadas investiga a reforma institu-
              e política de uma determinada região, como a or-              cional, suas consequências positivas e negativas, as
              ganização popular, os diálogos entre as pessoas e os          variáveis que facilitaram ou dificultaram o processo,
              espaços de participação (Correa, 2003).                       bem como o processo em si do ideário ao concreto,
                 É preciso haver políticas de cooperação, como              passando pela resistência da situação, frustração dos
              uma forma de articulação entre o Estado e a socie-            ideólogos, participação da sociedade e sua avaliação
              dade, para o desenvolvimento de um trabalho asso-             quanto às vantagens e desvantagens da referida re-
              ciativo na sociedade civil.                                   forma. Seu objetivo é teórico e o método utilizado
                 Bandeira (1999, apud Correa, 2003) atesta que              foi o empírico.
              qualquer proposta de política pública que vise à                 O ano de 1970 na Itália foi marcado pela tenta-
              ampliação do capital social regional, por meio de             tiva de maior democratização do Estado em todo o
              práticas participativas, terá que manter o apoio ins-         mundo e a grande questão era desvendar se a refor-
              titucional, a credibilidade e a sustentação política          ma institucional pela qual passava o país provocaria
              da proposta. Por isso, é necessário que haja novos            uma alteração no comportamento político.
              modelos de atuação governamental, de formulação                  A experiência de elaboração constitucional em
              e gestão de políticas públicas para o desenvolvimen-          todo o mundo mostrava-se nem sempre suficiente
              to regional endógeno.                                         para promover a ruptura dos paradigmas ineren-
                 Para Abu-El-Haj (1999), o sucesso de qualquer              tes à prática política, conforme assinala Deschanel
              ação coletiva depende da capacidade de mobiliza-              (apud Putnam, 1996, p. 33) com a expressão: “vinho
              ção dos recursos de poder que consiste na formação            velho em garrafas novas”.
              de grupos políticos compostos por várias comuni-                 Assim sendo, tomando por base os acontecimen-
              dades, os quais teriam poderes para desencadear               tos históricos, Putnam (1996) decide investigar em-
              uma ação social que modificasse as forças políticas            piricamente se o êxito de um governo democrático
              e, consequentemente, a intervenção pública.                   depende de uma comunidade cívica28 a qual é carac-
                Discorrer sobre capital social sem mencionar e re-          terizada pela participação nos negócios públicos, o
              comendar Robert Putnam é absolutamente inócuo,                que implica direitos e deveres iguais a todos – igual-
              não que o conceito não fora anteriormente aborda-             dade política.
              do, como acabamos de demonstrar; contudo, esse                  Tal comunidade se mantém unida por relações
              autor ganhou notoriedade por meio de sua obra                 horizontais de reciprocidade e cooperação e não
              Comunidade e democracia: a experiência da Itália              por relações verticais de autoridade e dependência.
              moderna, publicada pela primeira vez em 1993.
                Logo, a obra em questão se tornou um clássico
                                                                            28
                                                                                 Civismo: dedicação e fidelidade ao interesse público; patriotismo, ci-
              das ciências sociais e de áreas como estatística, me-              vilismo. Cívico: patriótico, referente ao cidadão como elemento inte-
              todologia, economia, entre outras, como assevera                   grante do Estado, que tem deveres para com o Estado.


                                                                      141


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                Os cidadãos de uma comunidade cívica são pres-              ausência facilita a instalação da corrupção e, no
             tativos, respeitosos e confiantes, ainda que suas opi-          caso estudado, foi decisiva para o estabelecimento
             niões sejam divergentes. Existe o conflito, porém ele           da Máfia italiana.
             se estabelece num ambiente de confiança, solidarie-                Mesmo um governo austero torna-se enfraque-
             dade e tolerância.                                             cido pelo contexto social menos cívico. Provavel-
                Em sua trajetória de pesquisador, o autor em                mente é essa a explicação razoável da ineficácia do
             questão obtém dados suficientes para a verificação               Estado italiano no combate à Máfia, nos últimos 50
             de que a participação política em regiões menos cí-            anos. Em regiões mais cívicas, o governo pode ser
             vicas é induzida pelo clientelismo e não por ques-             mais brando por poder contar com a cooperação e
             tões públicas.                                                 a autodisciplina de seus cidadãos.
                 Por exemplo, verificou-se que em regiões cujos                 De 1975 a 1989 foi realizada uma sondagem na-
             cidadãos usam o voto preferencial e não o referen-             cional quanto à satisfação com a qualidade de vida
             do, não pertencem a associações cívicas, não têm               dos indivíduos. Não foi surpresa ao pesquisador ve-
             o hábito da leitura de jornais e ainda, mantêm um              rificar que em regiões mais cívicas a coisa pública
             relacionamento mais estreito com os seus represen-             era mais bem administrada e apresentava maior efi-
             tantes políticos, instituiu-se uma política cliente-           cácia, consequentemente, os indivíduos eram mais
             lista personalizada. Pelo viés proposto por Putnam             satisfeitos e mais felizes do que em regiões menos
             (1996), o voto preferencial incide onde não há co-             cívicas.
             munidade cívica.                                                  Nas regiões mais cívicas, o autor encontrou
                                                                            uma extraordinária rede de solidariedade social,
                !     SAIBA MAIS:                                           uma população de espírito público e uma das áre-
                                                                            as mais desenvolvidas tecnologicamente na face
                     • Voto preferencial: é aquele no qual os elei-         da terra.
                       tores, se quiserem, podem indicar sua pre-
                                                                               Nessas regiões constatou-se a presença das mais
                       ferência por um determinado candidato
                                                                            contemporâneas arquiteturas da península, con-
                       integrante da chapa que escolheram.
                                                                            trariando o pensamento do sociólogo alemão Fer-
                     • Referendo: um direito concedido ao cida-
                                                                            dinand Tönnies que afirmava que a modernidade
                       dão de se manifestar, por meio do voto,
                                                                            não indicava necessariamente espírito cívico, nas
                       sobre questões de interesse nacional.
                                                                            palavras de Putnam “era inimiga da civilidade”
                                                                            (Putnam, 2006, p. 127).
                Além das questões concentradas no compor-                      Putnam, com diligência, segue suas investigações
             tamento do cidadão comum, é possível analisar a                no sentido de descobrir como as regiões cívicas vie-
             existência, ou não, de uma comunidade cívica a                 ram a tornar-se o que são, em outras palavras, onde
             partir do caráter das elites políticas. As atitudes da         e por que se deu início a esse processo.
             elite e das massas são os dois lados de uma mesma                 É impossível analisar as causas de as regiões cívi-
             moeda, que se combinam num equilíbrio que se re-               cas terem o modelo atual, sem antes nos remeter-
             força mutuamente.                                              mos a mil anos atrás quando os italianos emergiam
               Apesar de sua politização, os cidadãos das regi-             do obscurantismo da Idade Média.
             ões menos cívicas demonstraram um sentimento                     • Século 11: desestabilização do sistema imperial
             de exploração, impotência e alienação. Sentimento                  de governo – bizantino no sul e germânico no
             comum até mesmo entre os mais instruídos.                          norte.
               Honestidade, confiança e observância da lei são                 • Surge no sul um reino poderoso alicerçado em
             características da comunidade cívica, porém a sua                  tradições bizantinas e árabes.

                                                                      142


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AULA 4 — Capital Social

                     • No norte, as tentativas de restauração do impé-            Com a Revolução Industrial, emerge a necessida-
                       rio naufragaram, prevalecendo o princípio da            de de criação de novas formas de solidariedade so-
                       autonomia local.                                        cial e econômica. Devido à turbulência e à incerteza
                 Nas regiões norte e central da Itália surgia uma              que marcavam a época, muitos buscavam amparo e
              forma de governo autônomo sem precedentes, cuja                  conforto na camaradagem organizada, começando
              principal característica era a capacidade de seus ci-            a surgir novas associações em substituição às que
              dadãos estabelecerem as leis que governariam suas                anteriormente haviam sido abolidas.
              vidas.                                                              Não há registros históricos sobre a vida social
                 A autoridade eclesiástica é superada pelas asso-              italiana no início do século 19, mas é provável que
              ciações leigas. O regime medieval assolara as cidades            tenham surgido tendências semelhantes durante o
              de ambas as regiões, sul e norte, porém a solução                Renascimento, despertando os italianos para a ação
              encontrada nas cidades da região norte baseava-se                política que culminou na unificação política da Itá-
              mais na colaboração horizontal, ao contrário das                 lia. Os argumentos para essa unificação baseavam-
              relações verticais de dependência e autoridade ob-               se principalmente no “princípio de associação”.
              servadas nas cidades sulistas.                                      Desenvolveram-se na Itália pós-unificada as so-
                 Enquanto no sul a riqueza era proveniente da                  ciedades de mútua assistência – uma versão daquilo
              terra, no norte era resultante das finanças e do co-              que no século 20 conheceríamos como Estado pre-
              mércio. Iniciam-se as atividades bancárias e de co-              videnciário.
              mércio exterior fundamentadas essencialmente nas                    Surgiram as cooperativas cujo princípio con-
              relações contratuais de confiança.                                servador era o de autoajuda. Tinham por objetivo
                 As normas e os sistemas de participação cívica                melhorar as condições de seus membros e buscar
              proporcionaram às repúblicas comunais do nor-                    mudanças na ordem econômica vigente. Propaga-
              te da Itália revolucionárias formas de instituições              ram-se por todos os setores da economia assumin-
              políticas e econômicas. Seus vínculos horizontais                do a forma de cooperativas agrícolas, cooperativas
              de relacionamento – colaboração e solidariedade                  de trabalhadores, cooperativas de crédito, coopera-
              – constituíram uma terra fértil ao desenvolvimen-                tivas de bancos rurais, cooperativas de produtores e
              to político e econômico, fortalecendo ainda mais a               cooperativas de consumidores.
              comunidade cívica.                                                  Estudiosos das organizações das classes trabalha-
                 Esse século fora marcado também pelo sectaris-                doras concluíram que tal variedade atribuiu à Itá-
              mo, pela fome, pela Peste Negra, pela Guerra dos                 lia um lugar único no mundo da cooperação. Essas
              Cem Anos que, somados, começaram por minar o                     formas de solidariedade social organizada, porém
              espírito da comunidade cívica e do governo repu-                 voluntária, expandiram-se rapidamente nas últimas
              blicano.                                                         duas décadas do século 19.
                Mesmo diante de um retrocesso social e eco-                       A combinação desconfiança e pobreza corrobora-
              nômico provocado pela depredação estrangeira e                   ram com o insucesso da solidariedade horizontal nas
              pelas epidemias, o ideal vita civile manteve-se vivo             regiões do sul. Isso não significa afirmar que os sulistas
              nas regiões cujas tradições eram republicanas co-                eram desprovidos de habilidade política, ao contrário,
              munais.                                                          esta era fundamental à sobrevivência nessa região.
                 No sul, um contraste duradouro foi observado.                    Verifica-se apenas que esse lado da península re-
              O legado medieval contribuiu para que o governo                  fugiou-se nos vínculos verticais do clientelismo. Era
              permanecesse feudal e autocrático; as instituições               um povo marcado pela submissão a qual propiciou
              políticas autoritárias eram reforçadas pelos víncu-              o surgimento e instalação de outra forma de poder
              los sociais verticais.                                           – o crime organizado.

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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                Ainda que historiadores, antropólogos e crimino-            xas: as regras de reciprocidade e os sistemas de parti-
             logistas discordem quanto as suas origens históricas,          cipação cívica.
             todos concordam que as tradições clientelistas e as               As duas décadas de reformas institucionais anali-
             deficiências estruturais administrativas e judiciais do         sadas por Putnam (1996) são suficientes para detec-
             Estado contribuíram com o advento da Máfia, que                 tar o impacto no comportamento político, porém
             encontrou descanso no solo fértil da desconfiança. Na           insuficientes para aferir as mudanças culturais e na
             ineficiência do Estado, a máfia encontrou espaço para            estrutura social. É ilusão acreditar em uma mudan-
             oferecer proteção contra o banditismo. Sua atividade           ça estrutural sob iniciativa externa. Se a democracia
             mais específica consistia em produzir e vender algo in-         é almejada, há que se incitar o capital social e, para
             dispensável nas transações econômicas: a confiança.             tanto, devem-se investir esforços na endogeinização
                As diferenças entre as regiões norte e sul já ha-           das estruturas locais.
             viam sido confirmadas historicamente, segundo                      A pesquisa de Robert Putnam torna evidente o
             Putnam (1996), bem como as tradições cívicas,                  diagrama abaixo:
             porém o pesquisador dirige-se para a investigação
             quanto à durabilidade dessas tradições.                              BOM DESEMPENHO INSTITUCIONAL
                Ao autor fica claro que teria sido possível prever o                                   ⇑
             êxito ou o fracasso do governo regional na Itália nos                       COMUNIDADE CÍVICA
             anos 1980, fundamentando-se no grau de participa-                                        ⇑
             ção cívica existente há um século.
                                                                            CONSCIÊNCIA DE SEUS DEVERES DE CIDADÃO
                Para Putnam (1996), no último século as tradi-
                                                                                                      ⇑
             ções regionais de participação cívica favorecem a ex-
                                                                            COMPROMISSO COM A IGUALDADE POLÍTICA
             plicação da diferença no nível de desenvolvimento,
                                                                                                      ⇑
             ou seja, talvez o desenvolvimento econômico possa
             ser explicado por meio do civismo e não o inverso.                              RECIPROCIDADE

               Mas por que algumas instituições formais supe-                                         ⇑
             ram a lógica da ação coletiva e outras não?                                      COOPERAÇÃO
                Essa incógnita deverá ser compreendida a partir                                       ⇑
             do contexto social em que ela ocorre. “A cooperação                               CONFIANÇA
             voluntária é mais fácil numa comunidade que te-                                          ⇑
             nha herdado um bom estoque de capital social sob a                              VIRTUDE CÍVICA
             forma de regras de reciprocidade e sistemas de par-
             ticipação” (Putnam, 2006, p. 177). Capital social é
             entendido aqui como confiança, normas e sistemas                  !   SAIBA MAIS:
             que visem elevar a eficiência de uma sociedade.                      “Capital social é produtivo, possibilitando a
                Assim sendo, o capital social funciona como uma               realização de certos objetivos que seriam inal-
             espécie de garantia, da mesma forma que o capital                cançáveis se ele não existisse.” (Putnam, 1996)
             convencional e facilita a cooperação espontânea.
             Assim, as relações sociais já existentes em um grupo
             servirão como respaldo para o bom funcionamento                  A investigação de Putnam (1996) e de seus cola-
             do mesmo. A confiança pessoal se transforma em                  boradores revela que nas duas décadas seguintes à
             confiança social.                                               criação dos governos regionais, as regiões tradicio-
               Em contextos modernos e complexos, observa-se                nalmente cívicas cresceram mais rapidamente que
             que a confiança social advém de duas fontes cone-               aquelas de estrutura hierárquica.

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AULA 4 — Capital Social

                 De duas regiões igualmente desenvolvidas, em                      buindo com a transformação dessa comunidade em
              1970, sob o ponto de vista econômico, aquela cujo                    sujeito de seu próprio desenvolvimento, investida
              sistema de participação cívica era mais desenvolvi-                  de direitos, mas também de responsabilidades.
              do cresceu consideravelmente mais rápido nos anos
              subsequentes.
                     Portanto, esse estudo sugere a existência de:                   !   SAIBA MAIS:
                     • Uma forte correlação entre associações cívicas                   Quando interrogado se havia deixado de ser
                       e instituições públicas eficazes.                              sociólogo para ser político, respondeu: “Por que
                                                                                     a política? Penso que uma das razões importan-
                 ⇑        Associações      ⇒       Instituição       ⇑
                            cívicas               pública eficaz                      tes de se querer entender o mundo é ter interesse
                                                                                     político pelo mundo. O que não quer dizer uma
                 ⇓        Associações      ⇒         Instituição         ⇓           tomada de posição política sobre o mundo. (...)
                            cívicas                 pública eficaz                    Contudo, penso que ter um interesse político é
                                                                                     algo absolutamente fundamental para um inte-
                     • Uma correlação positiva entre o capital social
                                                                                     lectual...”
                       e o bom desempenho governamental e econô-
                                                                                                                      Pierrre Bourdieu
                       mico.

                 ⇑          Capital         ⇔       Economia forte
                            social                  Estado forte

                Infere-se disso que a economia não pode ser usa-
                                                                                    *    ANOTAÇÕES

              da para prognosticar o civismo, e sim este certa-
              mente prognosticará a economia, mais até do que a
              própria economia.
                Os dados aqui apresentados incitam ao debate so-
              bre os territórios além das fronteiras das regiões sul e
              norte da Itália, o denominado Terceiro Mundo.
                Sem dúvida, o Brasil exibe ainda um conjunto de
              graves problemas sociais que afetam amplos setores
              da sociedade.
                 Apesar de ser um país com tantos recursos natu-
              rais, com capacidade técnica e uma larga experiência
              no campo social, continua apresentando deprimen-
              tes diagnósticos de pobreza e essa é uma situação
              que convoca toda a sociedade a se movimentar ética
              e politicamente.
                 Pode-se buscar fundamentação teórico-metodo-
              lógica na obra de Putnam para os transtornos so-
              ciais aqui apresentados?
                Aos futuros profissionais do Serviço Social fica o
              desafio de aplicar os conhecimentos aqui apresenta-
              dos, a fim de fomentar o capital social positivo nas
              comunidades com as quais irão trabalhar, contri-

                                                                             145


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização



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                                                                                                                 5
        Unidade Didática – Desenvolvimento Local




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                           e Territorialização




                                                                             POTENCIALIDADE E COMUNIDADE

                                                             Conteúdo
                                                              • Conceito de Potencialidade
                                                              • Conceito de comunidade
                                                              • Relevância e aplicação para o DL

                                                             Competências e habilidades
                                                              • Oferecer subsídios para compreender sua importância. Identificar e promover as peculiaridades/
                                                                potencialidades de cada comunidade/localidade.


                                                             Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                              Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.


                                                             Duração
                                                              2 h/a – via satélite com o professor interativo
                                                              2 h/a – presenciais com o professor local
                                                              6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




                        POTENCIALIDADE E COMUNIDADE                                                               dade social e histórica), no sentido de ela mesma
                          Inicialmente é necessário compreendermos o                                              – mediante ativa colaboração de agentes externos e
                        que é comunidade e potencialidade e sua aplicação                                         internos – incrementar a cultura da solidariedade em
                        no contexto do DL.                                                                        seu meio e se tornar paulatinamente apta a agenciar
                                                                                                                  (discernindo e assumindo entre rumos alternativos de
                           Recordemos o que Ávila (2003 apud Coelho, 2009
                                                                                                                  reorientação do seu presente e de sua evolução para
                        p. 9-10) versa a respeito do DL.
                                                                                                                  o futuro aqueles que se lhe apresentem mais consen-
                                                   (...) o “núcleo conceitual” do desenvolvimento local           tâneos) e gerenciar (diagnosticar, tomar decisões,
                                                   consiste no efetivo desabrochamento – a partir do              agir, avaliar, controlar etc.) o aproveitamento dos
                                                   rompimento de amarras que prendam as pessoas em                potenciais próprio – ou cabedais de potencialidades
                                                   seus status quo de vida – das capacidades, compe-              peculiares à localidade –, assim como a “metaboli-
                                                   tências e habilidades de uma “comunidade defini-                zação” comunitária de insumos e investimentos
                                                   da” (portanto com interesses comuns e situada em               públicos e privados externos, visando à processual
                                                   (...) espaço territorialmente delimitado, com identi-          busca de soluções para os problemas, necessidades


                                                                                                           146


Modulo 01.indd 146                                                                                                                                                   2/6/2009 12:15:56
AULA 5 — Potencialidade e Comunidade

                        e aspirações, de toda ordem e natureza, que mais                               de indivíduos, inclusive de nações diferentes, liga-
                        direta e cotidianamente lhe dizem respeito (grifos                             do por determinada consciência histórica e/ou por
                        do original).                                                                  interesses sociais e/ou culturais e/ou econômicos
                                                                                                       e/ou políticos comuns. Ex.: <a c. europeia do carvão
                Segundo Houaiss29 (2001), o termo comunidade é                                         e do aço> <a c. cristã mundial> <a c. latino-ame-
              conceituado como:                                                                        ricana>; (...) Rubrica: biologia, ecologia – conjunto
                                                                                                       de populações que habitam uma mesma área ao
                        (...) substantivo feminino – estado ou qualidade das
                                                                                                       mesmo tempo; (...) Rubrica: termo jurídico – pos-
                        coisas materiais ou das noções abstratas comuns a
                                                                                                       se ou domínio exercido ao mesmo tempo por duas
                        diversos indivíduos; comunhão; (...) conjunto de
                                                                                                       ou mais pessoas sobre a mesma coisa que, por sua
                        indivíduos organizados num todo ou que mani-
                                                                                                       natureza ou destinação, se encontra indivisa. Ex.: c.
                        festam, ger. de maneira consciente, algum traço de
                                                                                                       de bens; (...) Rubrica: termo jurídico – direito ou
                        união. Ex.: a c. dos artistas; (...) conjunto de habi-
                                                                                                       obrigação comum (...).
                        tantes de um mesmo Estado ou qualquer grupo
                        social cujos elementos vivam numa dada área, sob                             Antônio Houaiss, habitualmente auspicioso em
                        um governo comum e irmanados por um mesmo                                 sua definição de comunidade, oferece subsídios à
                        legado cultural e histórico. (...) Rubrica: sociologia                    percepção acadêmica quanto a essa importante
                        – população que vive num dado lugar ou região,                            categoria, que vai além das “comunidades pobres”
                        ger. ligada por interesses comuns (...) Derivação:                        muito mencionadas aos profissionais de Serviço So-
                        por metonímia – essa região ou esse lugar. Ex.: a c.
                                                                                                  cial, enquanto para o DL comunidade se configura
                        do ABC paulista; (...) Derivação: por extensão de
                                                                                                  como o ajuntamento/agrupamento de pessoas que
                        sentido – (...) qualquer agrupamento populacional;
                                                                                                  têm algo em comum.
                        (...) Derivação: por extensão de sentido – grupo
                        monástico ou outro qualquer grupo de religiosos,
                                                                                                     Assim sendo, cabe ao assistente social “desvelar”
                        com hábitos de vida e ideais comuns, codificados                           os traços e os interesses comuns dessa comunidade/
                        numa regra; ordem, congregação, confraria. Ex.: a                         localidade, antes é claro, ser aceito por ela, e para
                        c. dos beneditinos; (...) Derivação: por metonímia                        isso é preciso lançar mão de mecanismos de aproxi-
                        – qualquer grupo de indivíduos unidos pela mesma                          mação da localidade em voga que em Serviço Social
                        profissão ou que exerça uma mesma atividade. Ex.:                          costumeiramente denomina-se de “a benzedeira”.
                        <a c. dos médicos> <a c. dos lexicógrafos>; (...) con-                       Esse termo refere-se àquela pessoa chave que,
                        junto de indivíduos com determinada característi-                         ainda que velado, em caráter extraoficial, ocupa
                        ca comum, inserido em grupo ou sociedade maior                            o lugar de máxima confiança e representativida-
                        que não partilha suas características fundamentais.                       de nessa comunidade, e é, por esse motivo, capaz
                        Ex.: <a c. japonesa de São Paulo> <a c. de artistas                       de lhe “abrir as portas” para o trabalho na mesma:
                        de Arcozelo> <a c. Sikh da Índia>; (...) Derivação:
                                                                                                  pode ser o padre, o líder comunitário, o bombeiro
                        por extensão de sentido – grupo de indivíduos que
                                                                                                  que lá reside, ou mesmo a benzedeira, ou qualquer
                        partilha uma crença econômica ou social particular
                                                                                                  outra pessoa que represente as características aci-
                        e vive em conjunto. Ex.: uma c. hippie; (...) Deriva-
                                                                                                  ma descritas.
                        ção: por extensão de sentido – grupo de indivíduos
                        que partilha um interesse comum. Ex.: <a c. dos                              Com base nos conceitos oferecidos, Ávila (2000, p.
                        orquidófilos> <a c. dos torcedores de futebol>; De-                        71-73) aponta que nas comunidades seus membros
                        rivação: por metonímia – grupo de indivíduos liga-                        “se articulam e interagem através de relacionamen-
                        dos por uma política de ação comum. Ex.: a c. dos                         tos primários e secundários”. Os primeiros referem-
                        liberais; (...) Derivação: por metonímia – conjunto                       se a vínculos cotidianos, informais e espontâneos;
                                                                                                  neles as pessoas se avaliam e controlam esse relacio-
              29
                   HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J.
                                                                                                  namento como, por exemplo, os vizinhos, os amigos
                   J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.                           etc. Por outro lado, os relacionamentos secundários

                                                                                            147


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

             se fundamentam em regras formais, como leis, es-                            sua capacidade de realização/criação, visto que esta
             tatutos, regulamentos e são de controle externo aos                         é imanente do ser humano!
             indivíduos que deles fazem parte.                                             Do que se trata então a potencialidade? Tudo
                O autor supracitado define comunidade stricto                             aquilo que o indivíduo ou o grupo pode canalizar/
             sensu como aquela em que há predomínio dos “re-                             conduzir/produzir para um determinado fim.
             lacionamentos primários sobre os secundários até o                             Ávila (2001, p. 44) sublinha potencialidade como
             ponto do equilíbrio e a comunidade lato sensu estará                        “(...) caráter do que pode ser produzido, ou produ-
             se configurando a partir do ponto de desequilíbrio                           zir-se, mas ainda não existe (...), ou ainda, (...) fonte
             em favor dos relacionamentos secundários”.                                  original da ação”.
                O que nos convém verificar é que não haja tal                               Em que pesem as ideias sustentadas por Thon-
             desequilíbrio. A “comunidade média ideal”, esclarece                        nard (apud Ávila, 2001, p. 50), é preciso observar
             Ávila (2001, p. 33),                                                        que potencialidade é
                          (...) para efeito do desenvolvimento local é aque-                  (...) uma força capaz de dirigir o movimento, de
                          la stricto sensu em que haja certa (não exagerada)                  forma a assegurar as condições necessárias ao bem
                          preponderância dos relacionamentos primários                        de cada ser (finalidade imanente) e ao bem do uni-
                          sobre os secundários ou no máximo se constate o                     verso (finalidade extrínseca). Este princípio, cha-
                          equilíbrio entre essas duas categorias: a localidade                mado finito porque é fonte de determinação e de
                          demasiadamente primarizada é muito conservado-                      harmonia, por oposição à matéria, fonte de mu-
                          ra e fechada, tendendo a se manter no isolamento.                   danças desordenadas, é a participação no mundo
                          E a muito secundarizada já se encontra esfacelada                   das ideias.
                          em termos de seus comuns sentimentos, interesses,
                          objetivos, perfis de identidades e outros laços de co-             Uma vez conceituada a palavra comunidade, com-
                          esão espontânea, sem os quais o desenvolvimento                preendeu-se que o termo não faz alusão apenas às
                          não emergirá de dentro para fora da própria comu-              comunidades pobres e sim ao ajuntamento de indi-
                          nidade (...).                                                  víduos com características e/ou interesses comuns,
                Na continuidade dessa aula, verificamos que po-                           bem como potencialidade como caráter daquilo a
             tencial30 é um                                                              ser fomentado.
                                                                                           Todavia, em conformidade com as análises de
                          (...) substantivo masculino: conjunto de qualidades            Garcia (2007, p. 14- 15),
                          inatas de um indivíduo; potencialidade. Substan-
                          tivo feminino: capacidade, faculdade, inteligência,                 (...) o Brasil exibe ainda um conjunto de graves
                          possibilidade, talento, virtualidade; (...) indica ca-              problemas sociais que afetam amplos setores da
                          racterística ou condição do que é potencial; (...) po-              sociedade. Apesar de ser um país com tantos recur-
                          tencial refere-se a um conjunto de qualidades, ca-                  sos naturais, com capacidade técnica e uma larga
                          pacidade de realização e capacidade não posta em                    experiência no campo social, continua apresentan-
                          prática; filosofia: no aristotelismo, que se encontra                 do deprimentes diagnósticos de pobreza (...) essa
                          em potência, em estado inacabado; que ainda não                     é uma situação que convoca toda a sociedade a se
                          desenvolveu plenamente suas tendências inatas ou                    movimentar ética e politicamente.
                          intrínsecas; que ainda não atingiu a plenitude de
                          sua forma final (...).                                             Assim sendo, o profissional de Serviço Social terá
                                                                                         uma maior probabilidade em trabalhar com comu-
                Para fins didáticos, destaca-se o conceito de Aris-                       nidades empobrecidas ou decorrentes delas e, nesse
             tóteles, ou seja, aquilo que ainda não atingiu toda a                       viés, é ímpar evidenciar as peculiaridades de cada
                                                                                         comunidade/localidade. Salientam-se aqui as espe-
             30
                  Ibid.                                                                  cificidades positivas e não as negativas, pois essas os

                                                                                   148


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AULA 5 — Potencialidade e Comunidade

              meios de comunicação de massa já o fazem, e dia-                      atendimento às carências materiais, mas a identifi-
              riamente.                                                             cação e a promoção das qualidades, capacidades e
                É determinante que na elaboração cotidiana de                       competências existentes na comunidade e no lugar
              seu plano de ação o profissional de Serviço Social                     (Rozas, 1998, apud Martins, 2002, p. 53).
              lembre-se de que o desenvolvimento endógeno

                     (...) é a organização comunitária em torno de um           !   SAIBA MAIS:
                     planejamento para o desenvolvimento, por uma                 “(...) é muito fácil contar as sementes que
                     perspectiva de construção social, constituindo as-         tem uma maçã, mas nunca sabemos quantas
                     sim em um instrumento fundamental, de caráter              maçãs existem em cada semente.”
                     orientador e condutor, de superação da pobreza.
                                                                                 (Vitor Hugo em entrevista para Garcia 2007)
                     Não se trata, contudo, de buscar tão somente o




                 *   ANOTAÇÕES




                                                                          149


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização



                                                                                                        AULA

                                                                          ____________________                6
        Unidade Didática – Desenvolvimento Local




                                                           AGENTES DO DESENVOLVIMENTO LOCAL
                           e Territorialização




                                                              E DIMENSÕES METODOLÓGICAS

                                                   Conteúdo
                                                   • Agentes do DL
                                                   • Metodologia para o DL

                                                   Competências e habilidades
                                                   • Conceituação, subsídios metodológicos e aporte teórico para o acadêmico de Serviço Social. Sua
                                                     ênfase está na dimensão metodológica e na diferenciação do papel do agente do DL como mediador
                                                     social e não “solucionador” social.


                                                   Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                   Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.


                                                   Duração
                                                   2 h/a – via satélite com o professor interativo
                                                   2 h/a – presenciais com o professor local
                                                   6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




                        AGENTES DO DL E DIMENSÕES                                                               (...) que ou quem atua, opera, agencia; (...) que ou
                        METODOLÓGICAS                                                                           quem agencia negócios alheios; (...) pessoa ou algo
                                                                                                                que produz ou desencadeia ação ou efeito; (...) o
                                     Na busca pela compreensão da temática em des-
                                                                                                                que origina (alguma coisa); causa, motivo; (...) o
                        taque indica-se, como de costume, o significado dos
                                                                                                                que impulsiona; propulsor; (...) Rubrica: medicina
                        vocábulos mencionados no título desta aula.                                             – força ou substância ativa capaz de produzir um
                                     Agente, segundo o dicionário eletrônico Houaiss                            efeito (...).
                        (2001),31 configura-se como:
                                                                                                              Enquanto o termo metodologia é definido como:

                                                                                                                Rubrica: lógica – ramo da lógica que se ocupa dos
                        31
                               HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J.           métodos das diferentes ciências 1.1 parte de uma
                               J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.                             ciência que estuda os métodos aos quais ela própria


                                                                                                        150


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AULA 6 — Agentes do Desenvolvimento Local e Dimensões Metodológicas

                     recorre 1.2 Rubrica: literatura – em literatura, in-                   sua vida e as dos companheiros da equipe técnica.
                     vestigação e estudo, segundo métodos específicos,                       A dinâmica metodológica do desenvolvimento local
                     dos componentes e do caráter subjetivo de uma                          tem muito a ver com essa metodologia de alpinis-
                     narrativa, de um poema ou de um texto dramáti-                         ta: todo mundo de fora pode e deve apoiar a co-
                     co Derivação: por extensão de sentido – corpo de                       munidade em sua escalada, mas sem querer levá-
                     regras e diligências estabelecidas para realizar uma                   la no “colo” nem pretender construir ou contratar
                     pesquisa; método.                                                      guindaste para içá-la lá em cima. Isso, pelo motivo
                                                                                            de que, em relação à própria escalada do proces-
                 Metodologia e agentes de desenvolvimento local                             so, quem de fato tem de encontrar as posições para
              são temas que se entrelaçam. Aliás, como todos de-                            cravar os “grampos” e dar os sucessivos passos é
              vem ter observado, as proposições enfatizadas nas                             a própria comunidade. No futebol, por exemplo,
              aulas até aqui ministradas são fios de uma mesma                               quem joga e de fato ganha jogo são os jogadores:
              rede, dissecada unicamente para fins pedagógicos.                              se não jogarem e ganharem, nenhum treinador e
              Sem dúvida trata-se de um mesmo assunto, todavia                              respectiva equipe técnica, por melhores que sejam,
              de caráter inesgotável.                                                       jamais jogarão e ganharão no lugar deles.
                 Ávila (2003, p. 28-29) sugere a seguinte parábola
                                                                                     Aos agentes do DL cabe oferecer subsídios para
              intitulada Alpinismo da comunidade para interpre-
                                                                                  a escalada comunitária, visto que conceitualmen-
              tar o sentido da metodologia do desenvolvimento
                                                                                  te o DL visa ao desabrochar da comunidade para
              local. Peço licença para citá-la na íntegra.
                                                                                  a qualidade de sujeito das questões que lhes dizem
                     O alpinista, quando quer realizar uma grande e               respeito, o que seria invalidado se o agente “içasse o
                     importante escalada, se prepara muito bem, ou                guindaste” da referida comunidade.
                     seja, cuida de seu estado de saúde, testa sua resis-            Ávila (2001, p. 66) advoga a ideia de que o ver-
                     tência física (ao esforço da subida, à rarefação do          dadeiro agente no DL é aquele que “efetivamente
                     ar, ao estresse prolongado etc.), estuda e testa seu         age simultaneamente agenciando”,32 ou seja, que se
                     equipamento, pesquisa e analisa as circunstâncias
                                                                                  envolve intermediando pessoas, realidades, proble-
                     meteorológicas, procura prever o que deverá fazer
                                                                                  mas, oportunidades, potencialidades e condições de
                     em cada momento da operação, e assim por diante:
                                                                                  fora para dentro da comunidade, cumprindo o seu
                     normalmente isso é trabalhado por boa equipe téc-
                     nico-científica de apoiamento. No entanto, quan-              papel de mediador social para que ela mesma, pau-
                     do seu processo de subida começa a distanciá-lo              latinamente, conquiste a função de agenciadora do
                     do solo de partida, seus colegas de apoio logístico,         próprio desenvolvimento.
                     ao perderem as oportunidades de auxiliá-lo fisi-                 Como visto em aulas anteriores, o DL é um tipo
                     camente, passam a orientá-lo a distância e apenas            de desenvolvimento endógeno (de dentro para
                     por rádio ou equipamento similar. Desse momento              fora), que tem como objetivo-fim que a comuni-
                     em diante, e embora todos continuem querendo e               dade/localidade assuma as “rédeas” de sua história.
                     precisando ajudá-lo, ele mesmo e mais ninguém no             Dessa forma a metodologia do DL não poderia ser
                     seu lugar irá cravar os grampos, no paredão, para
                                                                                  outra senão a comunidade tomar para si o papel de
                     dar cada um de todos os próximos passos: os outros
                                                                                  “alpinista comunitário”, podendo sim contar com o
                     continuarão a lhe dar dicas e conselhos, mas só ele
                                                                                  apoio do agente, contudo ela mesma terá que desen-
                     os poderá cravar e dar os passos. Em se tratando de
                     alpinista experimentado, cuidará para cair somente
                                                                                  volver, ou seja, deixar de se envolver,
                     até o patamar anterior, caso fracasse a fixação dos                     (...) tirar o que envolve ou cobre; desembrulhar;
                     grampos – não lhe permitindo o passo seguinte –,                       (...) crescer, tornar(-se) maior, mais forte; cami-
                     e aproveitará a experiência ao retomar com mais
                     segurança a sequência da escalada. Do contrário, se
                                                                                  32
                     esborrachará lá embaixo, no mínimo arriscando a                   Servir de agente ou intermediário de.


                                                                            151


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                     nhar para um estágio mais avançado; expandir(-se)                  Esse seria o (...) caminho a ser seguido pelo agente,
                     no(s) plano(s) intelectual, moral, psicológico, espi-              o que sugere a conveniência das ciências políticas
                     ritual; desenrolar(-se), prosseguir; aumentar a sua                nos programas de desenvolvimento local, como
                     área de atuação; evoluir (...) (Houaiss, 2001).                    instrumento de interlocução e sinergia entre a aca-
                                                                                        demia e organizações sociais que carregam, em seus
                Com todo o arcabouço teórico oferecido até o                            programas e ações transformadoras, potencial para
             presente momento, você, acadêmico, deve estar se                           o desenvolvimento endógeno (Ávila, 2006, p. 137).
             perguntando:
                • Como posso contribuir como agente do DL?                            A relevância da questão aqui apresentada não
                • Como “contaminar” minha família, meus ami-                       está no mérito dos movimentos sociais
                   gos, a comunidade da qual faço parte, com a                          (...) o que de fato se questiona é se os movimen-
                   lógica do DL?                                                        tos sociais ora conhecidos – assim como os aplica-
                • Como reverter o quadro de uma comunidade                              tivos derivados não só das ciências políticas como
                   em situação de intervencionismo, assistencia-                        de todas as demais – “propugnam”, orientam ou
                   lismo e filantropismo?                                                embasam REFORMAS PARA AS COMUNIDA-
                • Por onde começar minha intervenção de agen-                           DES (DpL), NAS COMUNIDADES (DnL) ou SÃO
                   te de DL?                                                            DE REFORMAS DE DENTRO-PARA-FORA DAS
                                                                                        PRÓPRIAS COMUNIDADES, isto é, DE CADA
                • Em dada comunidade, quais iniciativas devem
                                                                                        COMUNIDADE COM SUAS PECULIARIDADES
                   ser tomadas para que as ações evoluam de de-
                                                                                        ESPECÍFICAS (DL)? (idem, todos os destaques
                   senvolvimento NO local (DnL) ou desenvol-                            gráficos originais)
                   vimento PARA o local (DpL) para o desenvolvi-
                   mento local (DL)?                                                  A mesma inquisição se aplica às políticas e res-
                Esses e outros questionamentos certamente                          pectivos planos/ programas/projetos governamen-
             ocupam sua mente nesse momento, o que é extrema-                      tais, entidades não governamentais (ONGs), enti-
             mente saudável. Em desenvolvimento local denomi-                      dades religiosas, filantrópicas e outras que atuem ou
             namos esse fenômeno de “ruminar” os conhecimen-                       invistam em causas sociais de qualquer tipo.
             tos aos quais têm sido expostos, o que é de extrema                      Com relação às ideias propostas pelo autor, é im-
             relevância, não apenas na universidade, mas durante                   portante destacar que as políticas sociais não dei-
             a sua vida profissional. Nas palavras de Ávila (2008, p.               xam de ser importantes só porque se configuram
             87) fato imanente à “caminhada processual do DL”.                     como investimentos em DnL (desenvolvimento NO
                Em Realimentando discussão sobre teoria de de-                     local) ou DpL (desenvolvimento PARA o local), e
             senvolvimento local, Ávila (2006) apresenta algumas                   não em DL (Desenvolvimento Local), “são e sem-
             dúvidas suscitadas em sala de aula pelos mestrandos                   pre continuarão sendo necessários, desde que não
             do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Lo-                        transmutados em assistencialismos demagógicos de
             cal da Universidade Católica Dom Bosco – UCDB/                        colonização ou barganhas socioculturais e político-
             MS relacionadas com a questão supracitada, subli-                     econômicas” (idem).
             nhando incertezas semelhantes quanto sua atuação                         Infere-se que as habilidades, as competências e a
             como agente do DL.                                                    criatividade de cada profissional delimitarão o tra-
                Nessa direção, os mestrandos acima menciona-                       jeto e a distância que ele percorrerá e propiciarão
             dos indicam haver ao menos dois caminhos possí-                       condições para que ele mesmo construa seu próprio
             veis: “atuar de acordo com os interesses dos grupos                   caminho.
             que acreditam no desenvolvimento sem reformas                            Não há receitas, “achismos”, imediatismos, solu-
             sociais ou atuar nos movimentos sociais que pro-                      ções simplistas para a questão da pobreza, da inér-
             pugnam reformas”.                                                     cia ou da apatia das comunidades/localidades, nem

                                                                             152


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AULA 6 — Agentes do Desenvolvimento Local e Dimensões Metodológicas

              mesmo para a questão social – objeto do Serviço                     constituintes do chamado “capital intangível”. Em
              Social – como bem demonstra a história da huma-                     que pese a dimensão intangível da sociedade, gera-
              nidade. Para melhor compreender essa proposição                     dora de regras objetivas da racionalidade, deve-se
              é imprescindível a leitura dos textos recomendados                  lembrar ainda, que as normas reguladoras não se
              no portal, com ênfase em “Paciência, capitalismo,                   originam apenas do lugar. Existem aquelas oriun-
                                                                                  das de áreas distantes, antecedendo e apoiando a
              socialismo e desenvolvimento local” (Ávila, 2008).
                                                                                  ordem material da sociedade. Daí a importância
                     Cabe ao intelectual, portanto, como detentor do sa-          do pesquisador em dosar em que medida a cons-
                     ber sistematizado, não só interpretar as referências         ciência e a identidade espacial do lugar está sendo
                     de ações passadas e as condições materiais da reali-         construída de dentro para fora, ou ao contrário (Le
                     dade presente, mas também as condições imateriais            Bourlegat, 2000, p. 19).



                 *   ANOTAÇÕES




                                                                            153


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização



                                                                                                         AULA
        Unidade Didática – Desenvolvimento Local




                                                                                                                7
                           e Territorialização




                                                                                 ____________________
                                                                                 SOLIDARIEDADE E EDUCAÇÃO

                                                             Conteúdo
                                                             • Conceito de sine qua non para o DL

                                                             Competências e habilidades
                                                             • Conceituar solidariedade. Compreender a relevância da solidariedade e educação para o desenvolvi-
                                                               mento local. Conceber o papel do assistente social como educador/mediador para o DL.


                                                             Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                             Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.


                                                             Duração
                                                             2 h/a – via satélite com o professor interativo
                                                             2 h/a – presenciais com o professor local
                                                             6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




                           Chegamos ao último aspecto constitutivo do de-                                                ral que se manifesta ou testemunha a alguém, em
                        senvolvimento local na óptica proposta pelos auto-                                               quaisquer circunstâncias (boas ou más) (...) (Hou-
                        res em voga: a solidariedade e a educação. Falemos                                               aiss, 2001).33
                        primeiramente da solidariedade.
                                                                                                                  Comumente utilizamos esse vocábulo para ma-
                                     O senso comum entende por solidariedade:
                                                                                                               nifestar uma disposição emocional benévola, for-
                                                   (...) sentimento de simpatia, ternura ou piedade            tuita, longânime em relação a alguém, isso decorre
                                                   pelos pobres, pelos desprotegidos, pelos que so-
                                                   frem, pelos injustiçados; (...) manifestação desse
                                                   sentimento, com o intuito de confortar, consolar,           31
                                                                                                                    HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J.
                                                   oferecer ajuda; (...) cooperação ou assistência mo-              J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.




                                                                                                         154


Modulo 01.indd 154                                                                                                                                                                       2/6/2009 12:15:57
AULA 7 — Solidariedade e Educação

              de duas vertentes histórico-intelectuais: o estoicis-
              mo34 e o cristianismo primitivo.                                                       !    SAIBA MAIS:

                Na Roma Antiga, solidariedade servia para desig-                                        Etimologicamente, medula significa miolo e
              nar a aliança entre devedores de uma soma, sendo                                       indica tudo o que está dentro. A medula espi-
              cada um responsável pelo todo.                                                         nhal é assim denominada por estar dentro do
                 No fim do século 18 e durante o 19, a França pas-                                    canal espinhal ou vertebral (...) Importância: A
              sa a implementar políticas públicas a fim de asse-                                      medula espinhal recebe impulsos sensoriais de
              gurar a subsistência da população, visto que, ao fim                                    receptores e envia impulsos motores a efetua-
              da Revolução Francesa, esse país apresentava-se em                                     dores tanto somáticos quanto iscerais.
              crise.                                                                                    Medula espinhal. Disponível em: <www.geo-
                                                                                                     cities.com/epamjr/neuro/medula.html>. Aces-
                 Assim, a noção do dever em prestar assistência foi
                                                                                                     so em: 8 mar. 2009.
              categorizada como solidariedade. A partir de então
              se passa a conceber e/ou relacionar essa expressão à
              caridade e filantropia.                                                                 !    SAIBA MAIS:
                 Sociologicamente, solidariedade corresponde às
                                                                                                        (...) Por meio dessa rede de nervos, a medula
              normas de reciprocidade estabelecidas para deter-
                                                                                                     se conecta com as várias partes do corpo, rece-
              minado fim cujo propósito vai além da compaixão
                                                                                                     bendo mensagens de vários pontos e enviando-
              e generosidade.
                                                                                                     as para o cérebro e recebendo mensagens do
                 Seria oportuno ressaltar que não se pretende aqui                                   cérebro e transmitindo-as para as várias partes
              fazer apologia contrária a essa sensibilidade a qual                                   do corpo.
              deve ser fomentada, uma vez que “não podemos                                              Medula espinhal. Disponível em: <www.co-
              deixar de ser humanos”. Porém, o que se pretende                                       legiosaofrancisco.com.br/alfa/corpo-humano-
              demonstrar aqui é que aos profissionais de Serviço                                      sistema-nervoso/medula-espinhal.php>. Aces-
              Social solidariedade transpõe sentimentos, obriga-                                     so em: 8 mar. 2009.
              ção moral ou dogmas.

                                                                                                      As citações acima demonstram a inquestionável
              SOLIDARIEDADE: A MEDULA ESPINHAL MOTRIZ
                                                                                                   relevância do elemento solidariedade para a efetiva
              DO DESENVOLVIMENTO LOCAL
                                                                                                   consolidação do desenvolvimento do tipo endóge-
                Para Ávila (2003, p. 34, 35), solidariedade é condi-                               no em dada comunidade/localidade. Pierson (1968
              ção essencial para o desenvolvimento local, é a me-                                  apud Ávila, 2001, p. 38) reforça que
              dula espinhal motriz, ou seja, é o que dá movimento
              ao DL ou o que o move.                                                                     (...) a solidariedade é vista como condição do gru-
                                                                                                         po, que resulta de compartilhar de atitudes e senti-
                                                                                                         mentos, de modo a constituir o grupo em apreço,
                                                                                                         unidade sólida, capaz de resistir às forças exteriores
                                                                                                         e mesmo de tornar-se ainda mais firme em face de
                                                                                                         oposição vinda de fora.
              34
                   Rubrica: filosofia – 1. doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264
                   a.C.) e desenvolvida por várias gerações de filósofos. Essa doutrina
                                                                                                      Para Émile Durkheim (1996; 1999), um dos
                   se caracteriza por uma ética em que a imperturbalidade, a estirpação
                   das paixões e a aceitação resignada do destino são as marcas funda-             principais representantes dessa temática, podem-se
                   mentais do homem sábio, o único apto a experimentar a verdadeira                identificar na sociedade dois tipos de solidariedade.
                   felicidade. (O estoicismo exerceu profunda influência na ética cristã.);
                   2. Derivação: por extensão de sentido – rigidez de princípios morais;
                   3. Derivação: por extensão de sentido – resignação diante do sofri-                   Solidariedade mecânica – uma solidariedade por se-
                   mento, da adversidade, do infortúnio.                                                 melhança em que (...) os indivíduos diferem pouco

                                                                                             155


Modulo 01.indd 155                                                                                                                                           2/6/2009 12:15:57
Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                     uns dos outros. Membros de uma mesma coletivi-                  do-se em conta ações afetivas que proporcionam a
                     dade se assemelham porque têm os mesmos sen-                    mobilização e cooperação que somadas a idealis-
                     timentos, os mesmos valores, reconhecem os mes-                 mos altruístas e a sentimentos, interesses e finalida-
                     mos objetos sagrados. A sociedade tem coerência                 des comuns dão ao grupo um sentimento de união,
                     porque os indivíduos ainda não se diferenciaram
                                                                                     agregando-lhe relevância social, que “(...) transcen-
                     (Aron, 2000, p. 458).
                                                                                     dem as imputadas aos esforços e dispêndios indivi-
                     Solidariedade orgânica – a forma oposta, a orgâni-              duais implicados” (Ávila, 2003 p. 35). Ainda, segun-
                     ca, é aquela em que o consenso, isto é, a unidade               do o autor,
                     coerente da coletividade resulta de uma diferencia-
                     ção, ou se exprime por seu intermédio. Os indiví-                    (...) a solidariedade ao ativar a adesão das pessoas
                     duos não se assemelham, são diferentes. E, de certo                  de determinado grupo a se unirem e agirem em
                     modo, são diferentes porque o consenso se realiza                    função de certos referenciais comuns (problemas,
                     (Aron, 2000, p. 458).                                                necessidades ou aspirações) ultrapassa as fronteiras
                                                                                          da coesão gregária e se desemboca na coesão comu-
                Essas duas formas de solidariedade evoluem em                             nitária, caracterizando-se como coesão-solidária
             razão inversa: enquanto uma progride, a outra se                             (Ávila, 2003, p. 35 – grifos do autor).
             retrai, mas cada uma delas, a seu modo, cumpre a
             função de assegurar a coesão social nas sociedades                        Assim, podemos compreender que solidarieda-
             simples e complexas. Ávila (2003) destaca ainda a                       de e coesão são elementos que agregam valores ao
             necessidade de se diferenciar “solidariedade” de “coe-                  desenvolvimento local, estabelecendo um caminho
             são”, pois apesar de as duas apresentarem-se como                       para que, de forma autônoma, consciente e assumi-
             forças que asseguram o movimento da sociedade,                          da cada um dos componentes do grupo esteja liga-
             segundo esse autor a solidariedade.                                     do ao mesmo em um estado de autovinculação.

                     (...) representa o estado de ânimo (impressões, cren-
                                                                                     EDUCAÇÃO: SISTEMA
                     ças e convicções) que gera volitivos, afetivos e efeti-
                                                                                     RESPIRATÓRIO-CIRCULATÓRIO
                     vos laços de mobilização e cooperação (nos âmbitos
                                                                                     DO DESENVOLVIMENTO LOCAL
                     de uma pessoa para com outra, de um grupo para
                     com outro, dos membros de um grupo para com                        Quanto ao sistema respiratório-circulatório do
                     todo o grupo ou de membros para com membros                     desenvolvimento local, Ávila (2003) analisa que
                     do mesmo grupo) (...) (Ávila, 2003, p. 34).                     a educação é o sistema circulatório do desenvolvi-
                                                                                     mento local. Assim como “(...) as funções realizadas
                 Em relação à “coesão”, no entendimento desse
                                                                                     pela circulação do sangue são indispensáveis para o
             autor, “(...) se caracteriza pela real concretização do
                                                                                     equilíbrio de nosso corpo e vitais para a manuten-
             estado de mobilização e cooperação de um grupo
                                                                                     ção da vida”, também a educação exerce uma função
             de pessoas, pequeno ou grande” (Ávila, 2003, p. 34)
                                                                                     essencial para o desenvolvimento local.
             e pode se apresentar de duas formas distintas: coesão
                                                                                        Levando-se em consideração o conceito de coesão
             gregária e coesão solidária.
                                                                                     solidária anteriormente analisado, pode-se compreen-
                 Para esse autor, a coesão gregária é aquela que se
                                                                                     der que ela é uma forma que pode e deve ser continua-
             efetiva por meio dos “impulsos instintivos” ou de
                                                                                     mente educável (Ávila, 2003). Mas, qual é a forma en-
             sentimentos ligados à “(...) autopreservação e/ou
                                                                                     contrada para que esse processo se realize? O mesmo
             conservação de todo o grupo ou de parte dele” (Ávi-
                                                                                     autor responde à pergunta da seguinte maneira:
             la, 2003, p. 35).
                 Como coesão solidária o autor considera que é o                          Trata-se de educabilidade no sentido de que a co-
             resultado de formas diferenciadas de ação que são                            munidade se informe, atualize e impregne, inin-
             executadas buscando um determinado fim, levan-                                terruptamente, do hábito cultural da incessante

                                                                               156


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AULA 7 — Solidariedade e Educação

                                                                                           conquista de seu verdadeiro desenvolvimento (Ávi-
                     !   SAIBA MAIS:                                                       la, 2003, p. 35-36).
                    De forma geral, podemos dizer que o sistema
                                                                                         Pode-se então inferir que a formação e a educação
                 circulatório é composto por sangue, coração e
                                                                                      comunitária local são dois fenômenos que estão in-
                 vasos sanguíneos. É através do sistema circula-
                                                                                      trinsecamente ligados, interagindo constantemente
                 tório que ocorre a distribuição de nutrientes e
                                                                                      e buscando por meio dessa interação maneiras e ca-
                 oxigênio para todas as células de nosso corpo,
                                                                                      minhos para ambas se complementarem.
                 a remoção de toxinas dos tecidos, o transporte
                 de hormônios e a defesa imunológica de nosso                              Numa visão bem sintética de entrelaçamento en-
                 organismo. Sabendo que a circulação sanguínea                             tre formação e educação, diria que a primeira se
                 remove as toxinas dos tecidos, leva oxigênio e                            situa no patamar básico de busca, decifração, dis-
                 nutrientes para as células, transporta hormô-                             cernimento e incorporação de sentidos e valores
                 nios e realiza a defesa de nosso corpo, fica mais                          de determinada realidade e a segunda, a educação,
                 fácil entender o papel do coração e dos vasos                             dá o passo avante de a pessoa, no caso o educando,
                 sanguíneos. O coração funciona como uma                                   traduzir de fato esses sentidos e valores em rumos
                 bomba, dando pressão ao sangue para que este                              e procedimentos alternativos para o seu desenvol-
                                                                                           vimento físico, intelectual, moral e social. Portanto,
                 circule por todo nosso corpo através dos vasos
                                                                                           formação e educação se complementam como fe-
                 sanguíneos. Quanto mais próximo do coração,
                                                                                           nômenos, vez que educação supõe formação como
                 mais pressão tem o sangue, contudo, à medi-
                                                                                           fundamento e formação precisa de educação para
                 da que os vasos sanguíneos vão se ramificando,
                                                                                           se concretizar na dinâmica existencial-individual e
                 sua pressão vai diminuindo. Após circular por
                                                                                           coletiva das pessoas (Ávila, 2000a, p. 63).
                 todo o corpo e realizar as trocas necessárias ao
                 equilíbrio do organismo, o sangue retorna ao                            Educação e formação podem ser compreendidas
                 coração e aos pulmões, onde fará novas trocas                        ainda como dois fenômenos que caminham lado a
                 (desta vez de gás carbônico por oxigênio) para,                      lado, marcados por duas frentes: a da educação co-
                 então, refazer seu percurso.                                         munitária abrangente e a da educação escolar. Tais
                    Toda a Biologia.com. Sistema circulatório.                        frentes inserem-se no contexto do DL e podem, se-
                 Disponível em: <www.todabiologia.com/ana-                            gundo Beatty (1965, p. 12), ser analisadas da seguin-
                 tomia/sistema_circulatorio.htm>. Acesso em: 8                        te maneira:
                 mar. 2009.                                                             1. No que diz respeito à primeira frente, o autor
                                                                                           anteriormente citado compreende que:

                                                                                           (...) a educação comunitária tem em vista ajudar os
                         pesquisa e discussão de novas formas (...) para se                homens a alcançarem o progresso social e econômi-
                         unir, cooperar e agir em direção à consecução de                  co que lhes permitirá ocupar o seu lugar no mundo
                         seus próprios rumos de desenvolvimento e concer-                  moderno (...) O melhoramento de comunidades
                         nentes meios de viabilização. E é justamente quan-                depende de uma autoajuda que pode incluir o de-
                         to a essa tarefa, a de permanentemente se educar                  senvolvimento de uma participação maior e me-
                         para o autodesenvolvimento, que toda e qualquer                   lhor das pessoas nos assuntos comunitários locais,
                         comunidade-localidade mais precisa da ajuda dos                   uma revitalização das formas existentes de governo
                         agentes de desenvolvimento local. (...) reiterando –              local, ou a introdução de alguma forma efetiva de
                         enquanto autênticos (...) mediadores (...) de forma-              administração local nas comunidades que não a
                         ção e encaminhamento comunitário, isto é, fazendo                 possuam. (...) O objetivo final do moderno traba-
                         com que a comunidade aprenda a caminhar por si                    lho de educação comunitária é o desenvolvimento
                         mesma – e aqui está o sentido educacional – para a                de uma comunidade organizada e democrática que

                                                                                157


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                     se tenha libertado de muitas restrições e costumes              Apesar das diferentes correntes que permeiam as
                     tradicionais e esteja intelectualmente preparada             discussões sobre solidariedade, entende-se aqui que
                     para um crescimento contínuo.                                os indivíduos podem se educar para tornarem tam-
                2. Referindo-se a outra frente, Demo (1979, p. 12)                bém os atos de mobilização e cooperação cada vez
                   considera que em alguns casos existe certo grau                mais lógicos, viáveis, agradáveis, eficientes e signifi-
                   de dificuldade em se distinguir educação comu-                  cativos.
                   nitária de educação permanente, principalmen-                    Os dados aqui apresentados sugerem a ideia de
                   te se for concebida como                                       que a educação de pessoas e de grupos comunitários
                                                                                  para a solidariedade e sua respectiva coesão constitui
                     (...) processo de superação gradativa das limitações         aspecto fundamental no contexto do desenvolvi-
                     do homem pela exploração contínua de suas virtu-
                                                                                  mento local.
                     alidades intrínsecas; como processo de atualização
                                                                                     Para Ávila (2000b, p. 74), “(...) não bastam co-
                     permanente das potencialidades do homem e pro-
                     cesso de maximização da humanidade do homem.
                                                                                  nhecimentos intelectuais e vibrações emocionais
                                                                                  para se lançar à práxis do desenvolvimento local ge-
                Nesse contexto, a educação comunitária é neces-                   nuinamente concebido”, uma vez que, para o autor,
             sária e esperada no DL, principalmente por ser um                    hoje levar desenvolvimento a comunidades tornou-
             veículo viável para se atingir a comunidade em sua                   se relativamente fácil, tendo em vista que os interes-
             totalidade. Porém, não se pode deixar de ressaltar                   ses político-administrativos e/ou econômicos são
             que justamente por sua abrangência, sua dinâmica                     respaldados em disponibilidade financeira. A ideia
             e seus efeitos, embora fundamentais, se tornam ge-                   que o autor defende é que os agentes envolvidos de-
             nericamente capilarizados (Ávila, 2003).                             vem
                No entanto, não se pode deixar de analisar que é
             exatamente no processo de apropriação comunitá-                           trabalhar para que as próprias comunidades co-
                                                                                       nheçam o que são e o que têm e, com base nisso e
             ria, que perpassa pela conscientização e pelo exer-
                                                                                       em sua capacidade metabolizadora de fatores ex-
             cício de práticas de “(...) interação curricular entre
                                                                                       ternos, se desenvolvam “de dentro para fora” (isto
             escola e realidade, convergentes para o desenvolvi-
                                                                                       é, assumam as rédeas de seus destinos comuns) (...)
             mento local, que a educação escolar pode e deve pres-
                                                                                       para que paulatina e processualmente conquistem
             tar inestimáveis contribuições” (Ávila, 2003, p. 37).
                                                                                       a capacidade da permanente construção do auto-
                O autor faz essa análise levando em consideração                       desenvolvimento (Ávila, 2000, p. 74).
             a preparação do capital humano que, em primeiro
             lugar, atingirá as crianças e os adolescentes em seu                    O referido autor defende ainda que as funções de
             espaço escolar, abrangendo seguidamente os profes-                   todos os agentes externos envolvidos no processo
             sores e atingindo toda a escola. Nesse caminho, se-                  de desenvolvimento local, tais como economistas,
             guirá envolvendo as famílias dos alunos até alcançar                 engenheiros, químicos, psicólogos, advogados, pro-
             as demais famílias, assim como toda a comunidade.                    fessores etc. se
                Em ação contínua, seguirá preparando as “(...) ge-
                                                                                       (...) configurarão fundamental e estrategicamente
             rações que se sucederão no processo de implemen-                          como de cunho formativo-educacional (...), pois o
             tação e aperfeiçoamento do autodesenvolvimento                            eixo conceitual essencial do desenvolvimento local
             de suas comunidades-localidades” (Ávila, 2003, p.                         será a referência comum de todos (...) que se envol-
             37). O terceiro passo será o entendimento de que                          verem no respectivo processo tanto para vivenciá-
             esse caminho é o melhor para que se tenha acesso a                        lo quanto para colaborar por sua impregnação ou
             uma melhoria da qualidade-quantidade do próprio                           ativação capilarizada no âmbito comunitário (Ávi-
             ensino e também da relação ensino-aprendizagem.                           la, 2000, p. 74).

                                                                            158


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AULA 7 — Solidariedade e Educação

                Para tal, os profissionais envolvidos devem atuar                  (...) reagentes de elevação da “adrenalina” de todos
              como formadores-educadores-comunitários e não                       os integrantes da comunidade, pois é por aí que
              simplesmente como meros executores técnicos.                        as conquistas são socializadas e de fato assumidas
                 Ávila (2000) propõe ainda a existência de uma                    como bens comuns. São, ainda, eficientes meios
                                                                                  estratégicos de construção da autoestima comu-
              metodologia de trabalho dos agentes externos a
                                                                                  nitária, em razão de que agem como fenômenos
              qual deve implicar estratégias como a da “prática re-
                                                                                  estimuladores de engajamento, colaboração e par-
              flexiva” de Donald A. Schon (1995) a qual compre-
                                                                                  tilha nos campos das ideias e ações (Ávila, 2000,
              ende “(...) a reflexão para a ação, a reflexão na ação,
                                                                                  p. 75).
              a reflexão sobre a ação e a reflexão sobre a reflexão”
              (Ávila, 2000, p. 74).                                             Os argumentos aqui apresentados permitem assi-
                 Embora essa estratégia tenha sido concebida e site-         nalar o caráter essencial da solidariedade e da educa-
              matizada com vistas à formação de professores para a           ção para a efetivação do DL em dada comunidade/
              educação escolar, Ávila (2000) a considera pertinente          localidade e, ainda, a inestimável importância e in-
              ao trabalho dos agentes externos do desenvolvimento            fluência do profissional de Serviço Social no proces-
              local, uma vez que eles se configuram também como               so de autodesenvolvimento dessa comunidade.
              autênticos educadores comunitários.                               Toda a fundamentação teórica oferecida até esta
                 E, finalmente, o autor em questão considera que              aula, caro(a) acadêmico(a), representa apenas uma
              todas as conquistas comunitárias precisam ser “ex-             diretriz cuja finalidade é contribuir com a sua for-
              plicitadas, comemoradas e difundidas” a fim de que              mação acadêmica para torná-lo um educador/me-
              funcionem como                                                 diador para o desenvolvimento local!



                 *   ANOTAÇÕES




                                                                       159


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização



                                                                                              AULA

                                                                       ____________________          8
        Unidade Didática – Desenvolvimento Local




                                                                CULTURA DO DESENVOLVIMENTO
                           e Territorialização




                                                               E DESENVOLVIMENTO DA CULTURA

                                                   Conteúdo
                                                   • Cultura: noções sociológica e antropológica
                                                   • Cultura: material e imaterial
                                                   • Cultura × desenvolvimento

                                                   Competências e habilidades
                                                   • Compreender a relação existente entre a Cultura da Pobreza e a Pobreza da Cultura. Desenvolvimen-
                                                     to Local e Territorialização × Serviço Social.


                                                   Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal
                                                   Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade.


                                                   Duração
                                                   2 h/a – via satélite com o professor interativo
                                                   2 h/a – presenciais com o professor local
                                                   6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo




                                                        “Caminhante, não há caminho.                 e elementares, no entanto essenciais para a compre-
                                                        O caminho se faz ao caminhar.”               ensão da relação existente entre cultura e desenvolvi-
                                                                        Antonio Machado              mento. Para isso, o autor elegeu nuanças conceituais
                                                                                                     no tratamento do termo cultura pelos ângulos so-
                          Inicialmente gostaríamos de lembrá-lo de que na                            ciológico e antropológico e, num segundo momen-
                        Aula 3 delimitamos o conceito da palavra cultura                             to, propôs-se
                        uma vez que esse conceito, na história da humani-                                 a levantar questões, no âmbito das noções enfo-
                        dade, passou por transformações em função da exi-                                 cadas, sobre a importância do presente, entendido
                        gência que cada época lhe impôs.                                                  como momento de concreta vivência na sucessão
                          O que se pretende agora é, com base no estudo de                                evolutivo-cultural de qualquer povo configurado
                        Ávila (2003), enfocar primeiramente noções gerais                                 como tal ou, em menor escala, de determinada co-


                                                                                             160


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AULA 8 — Cultura do Desenvolvimento e Desenvolvimento da Cultura

                       letividade humana com certa regularidade de inte-                No campo da antropologia, Ávila adverte que
                       ração entre seus membros (Ávila, 2003, p. 2).                 “(...) o papel e a importância do presente na evolu-
                                                                                     ção cultural são bem mais explícitos que no socio-
                Em relação às noções a respeito de cultura do
                                                                                     lógico, (...) inclusive merecendo posição destacada”
              ponto de vista sociológico, Johnson (1997 apud
                                                                                     (Ávila, 2003, p. 4).
              Ávila, 2003, p. 3) aponta que:
                                                                                       Ao analisar a obra de Laraia (2002), intitulada
                       Cultura é o conjunto acumulado de símbolos,                   Cultura: um conceito antropológico, Ávila destaca
                       ideias e produtos materiais associados a um siste-            que a segunda parte da obra citada “(...) procura
                       ma social, seja ele uma sociedade inteira ou uma              demonstrar como a cultura influencia o comporta-
                       família. Juntamente com ESTRUTURA SOCIAL,                     mento social e diversifica enormemente a humani-
                       POPULAÇÃO e ECOLOGIA, constitui um dos                        dade apesar de sua comprovada unidade biológica”
                       principais elementos de todos os sistemas sociais e
                                                                                        Laraia (2002 apud Ávila, 2003, p. 6) ressalta a ne-
                       é conceito fundamental na definição da perspectiva
                                                                                     cessidade de entendimento do processo evolutivo-
                       sociológica (destaques do autor).
                                                                                     cultural o qual se desenvolve de maneira dinâmica,
                 Para Ávila, há no conceito de Johnson dois aspec-                   ou seja, está sempre em mudança. Segundo o autor:
              tos relevantes em relação à cultura: o primeiro é que a
                                                                                          Entender esta dinâmica é importante para atenuar
              cultura material é produzida por meio da vida social
                                                                                          o choque entre as gerações e evitar comportamen-
              coletiva, ou seja, envolve tudo o que é feito, modela-
                                                                                          tos preconceituosos. Da mesma forma que é fun-
              do ou transformado pelo homem; e o segundo é que
                                                                                          damental para a humanidade a compreensão das
              a cultura não material inclui os símbolos e as ideias
                                                                                          diferenças entre povos de culturas diferentes, é ne-
              (atitudes, crenças, valores e normas) que modelam e                         cessário saber entender as diferenças que ocorrem
              informam a vida de seres humanos em relações recí-                          dentro do mesmo sistema. Este é o único procedi-
              procas e os sistemas sociais dos quais participam.                          mento que prepara o homem para enfrentar sere-
                     Ávila (2003, p. 3) considera ainda que                               namente este constante e admirável mundo novo
                                                                                          do porvir.
                       (...) há duas expressões que merecem destaque em
                       relação à conceituação geral acima, com efeitos ex-              A partir do levantamento das características
                       tensivos também às duas subconceituações (cultura             conceituais de cultura, Laraia (2002) aponta duas
                       material e cultura não material). São as de que “cul-         consequências lógicas que surgem: a primeira é que
                       tura é o conjunto acumulado (...)” e também “(...)            existe uma intrínseca relação entre cultura e com-
                       é conceito fundamental na definição da perspectiva             portamento humano; e a segunda é que não existe
                       sociológica” (grifos do autor).
                                                                                     motivo para dúvidas de que
                  Portanto, para o autor, “(...) o que parece estra-
                                                                                          (...) os comportamentos são operações reais que se
              nho nessas óticas é que, em relação a ambas, o ati-                         concretizam em horizontes de sucessivos presentes,
              vo e efetivo papel da cultura na dinâmica e perma-                          ou vivenciais momentos temporais de operaciona-
              nente construção do presente cultural não mereceu                           lização, impulsionados e impregnados pela cultura
              clara explicitação na acima transcrita significação                          até então acumulada e em evidência explícita ou
              conceitual de cultura” (Ávila, 2003, p. 3). Esse es-                        subliminar nos momentos em que são concebidos
              tranhamento justifica-se já que o autor considera o                          e operacionalizados (Ávila, 2003, p. 7).
              presente como “momento de dinamização cultural”
                                                                                       Para Ávila, esses sucessivos presentes
              que constitui o fator decisivo da evolução cultural
              humana e da geração de “conjuntos acumulados”                               pela aprendizagem cultural (via processos de “so-
              ou que possam ser acumulados até as dimensões do                            cialização” ou “endoculturação” da experiência
              futuro da sociedade ou família.                                             acumulada) que se modifica por contínua reação

                                                                               161


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

                     interativo-comportamental com os fatores mesoló-                   Se essa afirmação for verdadeira, como se criou a
                     gicos na dinâmica existencial interna e externa ao               cultura do subdesenvolvimento?
                     indivíduo e à respectiva coletividade, não só tornam
                     o todo do homem-coletivo “(...) capaz de romper as                    (...) o subdesenvolvimento humano começou, mui-
                     barreiras das diferenças ambientais e transformar                     to provavelmente, no momento em que o primeiro
                     toda a terra em seu habitat” como também possi-                       indivíduo da espécie afiou a também primeira lan-
                     bilitam ao homem-indivíduo, mas sempre como                           ça e confeccionou um rústico arco que a impulsio-
                     unidade básica societária e cultural de multiformes                   nasse, reduzida à forma de flecha, para facilitar e
                     conjuntos de homens-coletivos, por uma parte, limi-                   tornar mais eficiente a sua árdua e arriscada tare-
                     tar (...) ou, por outra, estimular sua “(...) ação cria-              fa de subsistência, bem como sua incansável sede
                     tiva (...)” – para progredir ou se desenvolver –, com                 de dominação, aperfeiçoando-a e evoluindo-a até
                     reflexo imediato na coletividade de sua convivência,                   a mais moderna ogiva nuclear (...) (Ávila, 2003, p.
                     pelo menos aquela vinculada por língua comum e                        11, apud Ávila, 2000, p. 45).
                     laços de convivência local (Ávila, 2003, p. 7).                     O autor avalia que tanto em sociedades conside-
                Ao concluir os enfoques nocionais (sociológico e                      radas civilizadas quanto nas mais primitivas, ricos
             antropológico) sobre cultura e o papel do presente,                      e pobres “compartilhavam espaços territoriais co-
             Ávila (2003) tem a intenção de ressaltar a importân-                     muns”, por essa razão Ávila (2003, p. 11) acredita
             cia do processo de formação para o DL, assunto já                        ter sido o planeta dividido em dois blocos assimétri-
             abordado na Aula 7. Embora para o referido autor a                       cos: o dos países desenvolvidos – seleto, poderoso e
             formação não signifique de per se cultura                                 hegemonicamente dominador e o dos países/áreas
                                                                                      subdesenvolvidos, imenso, carente, atrasado e sem-
                     porque essencialmente caracterizada (...) como                   pre confinado ao círculo vicioso da indefinida de-
                     performance comportamentalmente operacional                      pendência e subserviência ao hegemônico bloco dos
                     para determinadas finalidades coletivamente acei-                 desenvolvidos.
                     tas dos ser e agir humanos: por um lado, é impreg-                  Decorre que atualmente não se considera mais os
                     nadamente determinada pelo caudal cultural, que
                                                                                      países mais ou menos desenvolvidos e sim os hemis-
                     liga o passado ao presente bem como impulsiona o
                                                                                      férios, e a pobreza não se limita à material, antes,
                     presente a se projetar para o futuro; por outro, cons-
                                                                                      rompeu as fronteiras religiosas, culturais, linguísti-
                     titui-se mecanismo de geração evolutivo-cultural,
                                                                                      cas, sociais etc.
                     e o desenvolvimento local se insere neste contexto,
                     interferindo criativamente no processo presente de                    Em termos de simbologia cultural, a maneira de se
                     prospecção e alicerçamento do futuro de qualquer                      saber, por exemplo, se uma pessoa com aparên-
                     povo ou coletividade, tendo em vista que sua dinâ-                    cia normal é ou não “subdesenvolvida” (hoje e de
                     mica cultural se encontra em permanente curso de                      acordo com os parâmetros conceituais já univer-
                     construção, redimensionamento e acumulação; em                        salizados) começa, via de regra, pela pergunta so-
                     suma, todo o arcabouço teórico sobre desenvolvi-                      bre sua procedência, quando não pela própria cor
                     mento local (...) implica a acima mencionada fecun-                   da pele ou sotaque linguístico. No caso da América
                     didade relacional entre FORMAÇÃO e CULTURA                            Latina e da África, basta que essa pessoa se identi-
                     (...) (Ávila, 2003, p. 10-11 – grifos do autor).                      fique como latino-americana ou africana para que
                                                                                           se apresente como subdesenvolvida. Em se tratando
                Com argúcia, o estudo de Ávila (2003) evidencia
                                                                                           de Ásia, e deixando de lado o Extremo Oriente –
             que a cultura não é estática, pelo contrário, encon-                          mas incluindo a China –, as expressões simbólicas
             tra-se em constante movimento dada sua imanente                               de procedência-subdesenvolvida se desdobram nas
             caracterização de aprendizagem adquirida e trans-                             seguintes mais representativas: chinês, indiano e
             mitida. Dessa forma, é plausível a hipótese de que é                          árabe, esta cobrindo praticamente todo o Oriente
             possível criar cultura para um determinado fim.                                Médio. Nesse contexto, até os termos latino e hispâ-

                                                                                162


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AULA 8 — Cultura do Desenvolvimento e Desenvolvimento da Cultura

                     nico, cada um em sua abrangência, já indicam certa            autoestima, autoconfiança, automobilização” e, não
                     posição de inferioridade no contexto das relações             somente, o empoderamento individual no sentido
                     entre povos latinos e anglo-saxônicos, em geral, até          laico, mas também o rumo à instrumentalização
                     mesmo em dimensão de hemisfério norte (Ávila,                 técnico-científica da própria comunidade/localida-
                     2003, p. 12).                                                 de a fim de que ela, paulatinamente, “evolua para a
                 O autor advoga que a cultura da pobreza, do                       condição de sujeito do seu próprio desenvolvimen-
              desenvolvimento e do subdesenvolvimento foram                        to” – conceito proposto na Aula 1 – a partir de suas
              criadas e alimentadas com um propósito definido.                      especificidade/potencialidade – estudadas na Aula
                                                                                   5; com o aproveitamento de sua história e atentan-
                 Com relação à “invenção das categorias – a do de-
                                                                                   do para o palco no qual ela se apresenta – abordado
              senvolvimento e a do subdesenvolvimento”
                                                                                   na Aula 2; seu modo de ser e agir – visto na Aula 3;
                     (...) convém registrar que tal invenção ocorreu já            potencializando aquilo que ela tem de melhor – ex-
                     em pleno século XX, com precisão de data e ano, de            planado na Aula 4.
                     acordo com Esteva (2000, p. 59): “(...) 20 de janeiro            Diante de tudo o que estudamos até o momento,
                     de 1949. Naquele mesmo dia, quando toma posse                 conceber o agir do profissional de Serviço Social a
                     o presidente Truman, uma nova era se abria para o             partir do território, quer na política pública, quer
                     mundo – a era do desenvolvimento”, ao pronunciar              na entidade privada, suscita uma revisão histórica e
                     a seguinte passagem de seu discurso: “É preciso que
                                                                                   ainda uma revisão do cotidiano e do universo cul-
                     nos dediquemos a um programa ousado e moderno
                                                                                   tural das pessoas que constituem-no.
                     que torne nossos avanços científicos e nosso pro-
                     gresso industrial disponíveis para o crescimento e
                     para o progresso das áreas subdesenvolvidas”, lem-              !   SAIBA MAIS!
                     brando que (id., p. 60) Truman não foi o primeiro
                     a usar a palavra. Wilfred Benson, antigo membro                    O subdesenvolvimento começou, assim, a 20
                     do Secretariado da Organização Mundial de Traba-                de janeiro de 1949. Naquele dia, dois bilhões de
                     lho, foi que provavelmente a inventou quando, em                pessoas passaram a ser subdesenvolvidas. Em
                     1942, ao escrever suas bases econômicas para a paz,             um sentido muito real, daquele momento em
                     referiu-se às “áreas subdesenvolvidas”. Na época,               diante, deixaram de ser o que eram antes, em
                     porém, a expressão não encontrou eco, nem com o                 toda a sua diversidade, e foram transformados
                     público nem com os “experts”. Dois anos mais tar-               magicamente em uma imagem inversa da reali-
                     de, Rosenstein-Rodan ainda falava de “áreas econo-              dade alheia: uma imagem que os diminui e os
                     micamente atrasadas”. Arthur Lewis, também em                   envia para o fim da fila; uma imagem que sim-
                     1944, referiu-se à distância que existia entre países           plesmente define sua identidade, uma identida-
                     pobres e países ricos. Durante toda essa década, a              de que é, na realidade, a maioria heterogênea e
                     expressão apareceu ocasionalmente em livros téc-                diferente, nos termos de uma minoria homoge-
                     nicos, ou em documentos das Nações Unidas. Só
                                                                                     neizante e limitada (Ávila, 2003, p. 14).
                     se tornou realmente importante, no entanto, quan-
                     do Truman a introduziu como um símbolo de sua
                     própria política externa (Ávila, 2003, p. 12-13).
                                                                                      É de fundamental importância que todos os as-
                 Ávila (2003, p. 20-21) afiança que o desenvolvi-                   sistentes sociais no exercício de sua função e no
              mento sociocultural é considerado ponto de partida                   planejamento de suas ações considerem as questões
              e de chegada para o desenvolvimento local, daí por-                  culturais intrínsecas neste território, palco de vida
              que requer a “permanente educação comunitário-                       de seus usuários.
              local”, como discutimos na Aula 6, buscando con-                       Nessa perspectiva, Yasbek (1999) “(...) utiliza-se
              solidar a “autoconscientização, autossensibilização,                 do exemplo de uma política pública específica para

                                                                             163


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

             enfatizar (...) que, na sua aproximação com o indi-
             víduo que dela faz uso, se exige conhecer elementos
             históricos presentes no cotidiano desse indivíduo”.
                O desenvolvimento humano e social é objetivo
             das políticas sociais, portanto, conhecer e respeitar
             os laços primários daqueles que dela fazem uso é in-
             dispensável, uma vez que a história fomenta a uni-
             dade familiar e alimenta a identidade do grupo.
                Dessa forma o reconhecimento e o respeito à
             cultura desses grupos agirão como facilitadores no
             protagonismo das famílias que acessam os serviços
             oferecidos por essas políticas. Cabe salientar que tal
             advertência não é sublinhada somente às políticas
             públicas, mas também às instituições privadas por
             meio dos serviços que oferecem.
                Trata-se, assim, de uma nova cultura de política
             aproveitando a potencialidade endógena de cada fa-             REFERÊNCIAS
             mília, de cada comunidade/localidade, de cada região,
                                                                            Básica
             visando promover o empoderamento do cidadão.
                                                                            ALBERTIN, L. A.; ALBERTIN, R. M. M. Aspectos
                Yasbek (1999) pondera que, na sociedade con-                e contribuições do uso da tecnologia de informação.
             temporânea, tratar da questão social isoladamen-               São Paulo: Atlas, 2006.
             te de seu contexto histórico-social e ambiental é
                                                                            ÁVILA, V. F. Educação escolar e desenvolvimento
             algo absolutamente destituído de sentido e racio-
                                                                            local: realidade e abstrações no currículo. Brasília:
             nalidade.                                                      Plano Editora, 2003.
                Destaca-se ao assistente social que territorializar         CHIANCA, T.; MARINO, E.; SCHIESARI,
             suas ações significa considerar que as famílias que             L. Desenvolvendo a cultura de avaliação em
             dela fazem uso não estão destituídas dos territórios,          organizações da sociedade civil. São Paulo: Instituto
             lugar em que nascem, vivem, trabalham se relacio-              Fonte, 2001.
             nam e morrem!
                Com arrimo nas ideias expostas e propostas nessa            Complementar
             Unidade Didática, é inconcebível ao profissional de
                                                                            HUBERMANN, L. A história da riqueza do homem.
             Serviço Social abordar o indivíduo, concebendo-o               21. ed. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de
             isoladamente do seu contexto familiar-comunitário,             Janeiro: LTC, 1986.
             ou ainda, planejar e executar projetos sem conside-
                                                                            FRANCISCO, E. M. V. (Org.). Trabalho, território,
             rar a trama da reciprocidade!                                  cultura – novos prismas para os debates das políticas
                                                                            públicas. São Paulo: Cortez, 2007.
                                                                            ROCHE, C. Avaliação de impacto dos trabalhos de
                !    IMPORTANTE                                             ONGs. São Paulo: Cortez, 2002.
                                                                            SANTOS, J. L. O que é cultura. São Paulo:
                  “Sonho com o dia em que a justiça correrá
                                                                            Brasiliense, 1986.
                como água e a retidão como um caudaloso rio.”
                                                                            VALENTE, A. L. Educação e diversidade cultural.
                                          Martin Luther King
                                                                            São Paulo: Moderna, 2003.

                                                                      164


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AULA 8 — Cultura do Desenvolvimento e Desenvolvimento da Cultura

              Utilizada pelo professor                                     ______. 1930 – o poder simbólico. 7. ed. Rio de
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              educacional em desenvolvimento local: relato de              de participação no Jardim Sayonara – Campo
              estudo em grupo e análise de conceitos. Campo                Grande-MS – em ótica de Desenvolvimento
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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização

             Internacional de Desenvolvimento Local, Campo                  LARAIA, R. B. Cultura um conceito antropológico.
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             desenvolvimento social. Trad. Sandra Trabucco                  MENEGAZZO, M. A. Manifestações culturais em
             Valenzuela, Silvana Cobucci Leite. São Paulo:                  Campo Grande, apontamentos para uma história.
             Cortez; Brasília: UNESCO, 2001. p. 105.                        In: Campo Grande 100 anos de construção. Campo
             KOGA, D. Medidas de cidades: entre territórios de              Grande: Matriz, 1999.
             vida e territórios vividos. São Paulo: Cortez, 2003.           MESQUITA, Z. Do território à consciência territorial.
             299 p.                                                         In: MESQUITA, Z; BRANDÃO, C. R. (orgs.).

                                                                      166


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AULA 8 — Cultura do Desenvolvimento e Desenvolvimento da Cultura

              Territórios do cotidiano: uma introdução a novos              SANTOS, M. Metamorfoses do espaço habitado. São
              olhares e experiências. Porto Alegre/Santa Cruz do            Paulo: Hucitec, 1996. p. 25-29.
              Sul: Universidade/UFRGS/UNISC, 1995, p. 76-92.                ______; SILVEIRA, M. L. O Brasil: território e
              MILANI, C. Teorias do capital social e                        sociedade no início do século XXI. 2. ed. Rio de
              desenvolvimento local: lições a partir da experiência         Janeiro: Record, 2001.
              de Pintadas (Bahia, Brasil). Disponível em: <http://          ______; SOUZA, M. A; SILVEIRA, M. L. Território,
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                                                                            ANPUR, 1994.
              MORAES, J. L. A. Capital social e desenvolvimento
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              Sul: EDUNISC, 2003.
                                                                            DLIS/RITS, 2001.
              PUTNAM, R. Comunidade e democracia: a experiência
              da Itália moderna. Rio de Janeiro: FGV, 1996.                 SIMÕES, M. C. M.; LIMA, V. R. Solidariedade:
                                                                            condição essencial para o Desenvolvimento
              ______. Comunidade e democracia: a experiência
              da Itália moderna. 5. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.          Local. (Artigo produzido na disciplina Teoria do
                                                                            Desenvolvimento Local do programa de Mestrado
              RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. Trad.
              Maria Cecília França. São Paulo: Ática, 1993.                 em Desenvolvimento Local UCDB/2006.) Campo
                                                                            Grande, 2006.
              ROSENDAHL, Z. Território e territorialidade:
              uma perspectiva geográfica para o estudo da                    TUAN, Yi-Fu. Geografia humanística. In:
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              nov. 2006.                                                    TODA A BIOLOGIA.COM. Sistema circulatório.
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              SANTOS, J. L. O que é cultura. 14. ed. São Paulo:             YASBEK, M. C. Classes subalternas e assistência social.
              Brasiliense, 1994.                                            3. ed. São Paulo: Cortez, 1999. 184 p.



                 *   ANOTAÇÕES




                                                                      167


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Unidade Didática — Desenvolvimento Local e Territorialização




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Servico social 2009_6_4

  • 1.
    Educação sem fronteiras SERVIÇO SOCIAL Autores Carmen Ferreira Barbosa Edilene Maria de Oliveira Araújo Edilene Xavier Rocha Garcia Eloísa Castro Berro Maria Massae Sakate Silvia Regina da Silva Costa 6 www.interativa.uniderp.br www.unianhanguera.edu.br Anhanguera Publicações Valinhos/SP, 2009 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 1 6/5/09 10:07:38 AM
  • 2.
    © 2009 AnhangueraPublicações Proibida a reprodução final ou parcial por qualquer meio de Ficha Catalográfica realizada pela Bibliotecária impressão, em forma idêntica, resumida ou modificada em língua Alessandra Karyne C. de Souza Neves – CRB 8/6640 portuguesa ou qualquer outro idioma. Impresso no Brasil 2009 S514 Serviço social / Carmen Ferreira Barbosa ...[et al.]. - Valinhos : Anhanguera Publicações, 2009. 240 p. - (Educação sem fronteiras ; 6) ISBN: 978-85-62280-55-9 1. Serviço social – Planejamento. 2. Serviço social – Administração. 3. Serviço social – Integração da assistência. I. Barbosa, Carmen Ferreira. II. Título. III. Série. ANHANGUERA EDUCACIONAL S.A. CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DE CAMPO GRANDE/MS CDD: 360 Presidente Prof. Antonio Carbonari Netto Diretor Acadêmico Prof. José Luis Poli Diretor Administrativo Adm. Marcos Lima Verde Guimarães Júnior ANHANGUERA PUBLICAÇÕES CAMPUS I Diretor Chanceler Prof. Diógenes da Silva Júnior Profa. Dra. Ana Maria Costa de Sousa Reitor Gerente Acadêmico Prof. Dr. Guilherme Marback Neto Prof. Adauto Damásio Vice-Reitor Gerente Administrativo Profa. Heloísa Helena Gianotti Pereira Prof. Cássio Alvarenga Netto Pró-Reitores Pró-Reitor Administrativo: Adm. Marcos Lima Verde Guimarães Júnior Pró-Reitora de Graduação: Profa. Heloisa Helena Gianotti Pereira Pró-Reitor de Extensão, Cultura e Desporto: Prof. Ivo Arcângelo Vendrúsculo Busato ANHANGUERA EDUCACIONAL S.A. UNIDERP INTERATIVA Diretor Prof. Dr. Ednilson Aparecido Guioti Coodernação Prof. Wilson Buzinaro COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA Profa. Terezinha Pereira Braz / Profa. Aparecida Lucinei Lopes Taveira Rizzo / Profa. Maria Massae Sakate / Profa. Adriana Amaral Flores Salles / Profa. Lúcia Helena Paula Canto (revisora) PROJETO DOS CURSOS Administração: Prof. Wilson Correa da Silva / Profa. Mônica Ferreira Satolani Ciências Contábeis: Prof. Ruberlei Bulgarelli Enfermagem: Profa. Cátia Cristina Valadão Martins / Profa. Roberta Machado Pereira Letras: Profa. Márcia Cristina Rocha Figliolini Pedagogia: Profa. Vivina Dias Sol Queiroz Serviço Social: Profa. Maria de Fátima Bregolato Rubira de Assis / Profa. Ana Lúcia Américo Antonio Tecnologia em Gestão e Marketing de Pequenas e Médias Empresas: Profa. Fabiana Annibal Faria de Oliveira Biazetto Tecnologia em Gestão e Serviço de Saúde: Profa. Irma Marcario Tecnologia em Logística: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias Tecnologia em Marketing: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias Tecnologia em Recursos Humanos: Prof. Jefferson Levy Espindola Dias 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 2 6/5/09 10:07:39 AM
  • 3.
    Nossa Missão, NossosValores _______________________________ A Anhanguera Educacional completa 15 anos em 2009. Desde sua fundação, buscou a ino- vação e o aprimoramento acadêmico em todas as suas ações e programas. É uma Instituição de Ensino Superior comprometida com a qualidade dos cursos que oferece e privilegia a preparação dos alunos para a realização de seus projetos de vida e sucesso no mercado de trabalho. A missão da Anhanguera Educacional é traduzida na capacitação dos alunos e estará sempre preocupada com o ensino superior voltado às necessidades do mercado de trabalho, à adminis- tração de recursos e ao atendimento aos alunos. Para manter esse compromisso com a melhor relação qualidade/custo, adotaram-se inovadores e modernos sistemas de gestão nas instituições de ensino. As unidades no Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul preservam a missão e difundem os valores da Anhanguera. Atuando também no Ensino a Distância, a Anhanguera Educacional orgulha-se de poder es- tar presente, por meio do exemplar trabalho educacional da Uniderp Interativa, nos seus pólos espalhados por todo o Brasil. Boa aprendizagem e bons estudos! Prof. Antonio Carbonari Netto Presidente — Anhanguera Educacional 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 3 6/5/09 10:07:39 AM
  • 4.
    . 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 4 6/5/09 10:07:40 AM
  • 5.
    AULA 1 —A Base do Pensamento Econômico Apresentação ____________________ A Universidade Anhanguera/UNIDERP, ao longo de sua existência, prima pela excelência no desenvolvimento de seu sólido projeto institucional, concebido a partir de princípios modernos, arrojados, pluralistas, democráticos. Consolidada sobre patamares de qualidade, a Universidade conquistou credibilidade de par- ceiros e congêneres no país e no exterior. Em 2007, sua entidade mantenedora (CESUP) passou para o comando do Grupo Anhanguera Educacional, reconhecido pelo compromisso com a qualidade do ensino, pela forma moderna de gestão acadêmico-administrativa e pelos propósi- tos responsáveis em promover, cada vez mais, a inclusão e a ascensão social. Reconhecida pela ousadia de estar sempre na vanguarda, a Universidade impôs a si mais um desafio: o de implantar o sistema de ensino a distância. Com o propósito de levar oportunida- des de acesso ao ensino superior a comunidades distantes, implantou o Centro de Educação a Distância. Trata-se de uma proposta inovadora e bem-sucedida, que, em pouco tempo, saiu das frontei- ras do Estado do Mato Grosso do Sul e se expandiu para outras regiões do país, possibilitando o acesso ao ensino superior de uma enorme demanda populacional excluída. O Centro de Educação a Distância atua por meio de duas unidades operacionais: a Uniderp Interativa e a Faculdade Interativa Anhanguera(FIAN). Com os modelos alternativos ofereci- dos e respectivos pólos de apoio presencial de cada uma das unidades operacionais, localizados em diversas regiões do país e exterior, oferece cursos de graduação, pós-graduação e educação continuada, possibilitando, dessa forma, o atendimento de jovens e adultos com metodologias dinâmicas e inovadoras. Com muita determinação, o Grupo Anhanguera tem dado continuidade ao crescimento da Instituição e realizado inúmeras benfeitorias na estrutura organizacional e acadêmica, com re- flexos positivos nas práticas pedagógicas. Um exemplo é a implantação do Programa do Livro- Texto – PLT, que atende às necessidades didático-pedagógicas dos cursos de graduação, viabiliza a compra, pelos alunos, de livros a preços bem mais acessíveis do que os praticados no mercado e estimula-os a formar a própria biblioteca, promovendo, assim, a melhoria na qualidade de sua aprendizagem. É nesse ambiente de efervescente produção intelectual, de construção artístico-cultural, de formação de cidadãos competentes e críticos, que você, acadêmico(a), realizará os seus estudos, preparando-se para o exercício da profissão escolhida e uma vida mais plena na sociedade. Prof. Guilherme Marback Neto 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 5 6/5/09 10:07:40 AM
  • 6.
  • 7.
    Autores ____________________ CARMEN FERREIRA BARBOSA Graduação: Serviço Social – Faculdades Unidas Católica de Mato Grosso – FUCMT – 1984 Especialização: Saúde da Família – Universidade Federal de MS – UFMS – 2003 Especialização: Metodologia de Ensino Superior – FUCMAT – 1992 Mestrado: Serviço Social – Universidade Estadual Paulista/UNESP e Universidade Católica Dom Bosco/UCDB – 2002 EDILENE MARIA DE OLIVEIRA ARAÚJO Graduação:Serviço Social – Faculdades Unidas Católica de Mato Grosso – FUCMT – 1986 Pós-graduação Latu sensu: Gestão de Iniciativas Sociais – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ – 2002 Pós-graduação Lato Sensu: Formação de Formadores de em Educação de Jovens e Adultos – Universidade Nacional de Brasília – UNB – 2003 Pós-graduação Lato Sensu: Administração em Marketing e Comércio Exterior – UCDB – 1998 EDILENE XAVIER ROCHA GARCIA Graduação: Serviço Social – Faculdades Unidas Católica de Mato Grosso – FUCMT – 1988 Especialização: Gestão de Políticas Sócias – UNIDERP – 2003 Mestrado: Desenvolvimento Local – Universidade Unidas Católicas – UCDB MS – 2007 ELOÍSA CASTRO BERRO Graduação: Serviço Social – Faculdades Integradas de Marília – 1984 Especialização: Planejamento e Serviço Social – Faculdades Unidas Católica de Mato Grosso – FUCMT – 1998 Especialização: Metodologia de Ação do Serviço Social - Faculdades Unidas Católica de Mato Grosso – FUCMT – 1983 Mestrado: Serviço Social - Universidade Estadual Paulista/UNESP e Universidade Católica Dom Bosco/UCDB – 2002 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 7 6/5/09 10:07:40 AM
  • 8.
    MARIA MASSAE SAKATE Graduação: Matemática – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS, Campo Grande, MS – 1992 Especialização: Informática na Educação – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS, Campo Grande, MS – 1998 Mestrado: Educação – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS, Campo Grande, MS – 2003 SILVIA REGINA DA SILVA COSTA Graduação: Serviço Social – Universidade Católica Dom Bosco – UCDB – 2001 Especialização em Violência Doméstica Contra Criança e Adolescentes – Universidade de São Paulo – USP – 2004 Especialização: Políticas Sociais com Ênfase no Território e na Família – Universidade Católica Dom Bosco – UCDB – 2007 Mestrado em Educação – Universidade Estadual Paulista – UNESP – 2008 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 8 6/5/09 10:07:40 AM
  • 9.
    Sumário ____________________ MÓDULO – PLANEJAMENTO E ADMINISTRAÇÃO UNIDADE DIDÁTICA – ESTÁGIO SUPERVISIONADO III AULA 1 O estágio supervisionado III - o estágio como atividade integradora entre o saber e a ação ......... 3 AULA 2 A Intervenção em Serviço Social ........................................................................................................ 7 UNIDADE DIDÁTICA – PLANEJAMENTO DE INTERVENÇÕES SOCIAIS AULA 1 Planejamento em Serviço Social – conceitos e definições ................................................................ 14 AULA 2 A Administração no Serviço Social – contextualizações básicas ...................................................... 18 AULA 3 Gestão Social – aspectos importantes ................................................................................................ 23 AULA 4 Políticas, Planos, Programas e Projetos – Definições ........................................................................ 29 AULA 5 Papel do Gestor Social ........................................................................................................................ 32 AULA 6 O que é um projeto social? Implicações diretas na realidade atual .................................................. 36 AULA 7 Roteiro básico de um projeto social ................................................................................................... 40 AULA 8 Fases metodológicas e a instrumentalização do planejamento social .............................................. 47 AULA 9 Avaliação e monitoramento de projetos sociais ................................................................................ 54 AULA 10 O Sistema Único da Assistência Social (SUAS) e o planejamento na administração pública......... 60 UNIDADE DIDÁTICA – TRATAMENTO DE INFORMAÇÕES E OS INDICADORES SOCIAIS AULA 1 Noções de estatística descritiva – obtenção e organização de dados ................................................ 68 AULA 2 Representações dos dados por meio da tabela................................................................................... 76 AULA 3 Representações gráficas dos dados ..................................................................................................... 82 AULA 4 Aspectos conceituais: o que são indicadores e índices ...................................................................... 86 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 9 6/5/09 10:07:40 AM
  • 10.
    AULA 5 Sistema de indicadores: requisitos para a sua construção e produção ............................................. 90 AULA 6 Fontes de indicadores sociais .............................................................................................................. 94 AULA 7 Desenvolvimento humano ................................................................................................................. 100 AULA 8 Objetivos do Desenvolvimento do Milênio - ODM.......................................................................... 106 SEMINÁRIO INTEGRADO: PLANEJAMENTO E ADMINISTRAÇÃO .............................................. 115 MÓDULO – DESENVOLVIMENTO LOCAL E INTEGRAÇÃO DA ASSISTÊNCIA UNIDADE DIDÁTICA – DESENVOLVIMENTO LOCAL E TERRITORIALIZAÇÃO AULA 1 Desenvolvimento local: reflexões e conceitos .................................................................................... 119 AULA 2 Espaço, lugar e território .................................................................................................................... 125 AULA 3 Cultura e identidade ........................................................................................................................... 132 AULA 4 Capital social ....................................................................................................................................... 138 AULA 5 Potencialidade e comunidade ............................................................................................................. 146 AULA 6 Agentes do desenvolvimento local e dimensões metodológicas ....................................................... 150 AULA 7 Solidariedade e educação .................................................................................................................... 154 AULA 8 Cultura do desenvolvimento e desenvolvimento da cultura ............................................................ 160 UNIDADE DIDÁTICA – REDE SOCIOASSISTENCIAL AULA 1 O significado de redes no contexto do trabalho socioassistencial ................................................... 171 AULA 2 A filantropia no Brasil ......................................................................................................................... 175 AULA 3 Terceiro setor e suas diversas concepções .......................................................................................... 182 AULA 4 Movimentos sociais, ONGs e redes solidárias ................................................................................... 186 AULA 5 Marco legal das entidades que compõem a rede socioassistencial ................................................... 190 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 10 6/5/09 10:07:41 AM
  • 11.
    AULA 6 O Sistema Único de Assistência Social e a nova forma de gestão da assistência social: caráter público, protagonismo e avaliação do processo................................................................................ 197 AULA 7 Oficina 1: PEAS/2006 – Pesquisa das Entidades de Assistência Social Privadas sem Fins Lucrativos ................................................................................................................................... 208 AULA 8 Oficina 2: PEAS/2006 – Pesquisa das Entidades de Assistência Social Privadas sem Fins Lucrativos .................................................................................................................................... 215 SEMINÁRIO INTEGRADO: DESENVOLVIMENTO LOCAL E INTEGRAÇÃO DA ASSISTÊNCIA .................................................................................................................................... 227 00_Abertura_SSocial_6Sem.indd 11 6/5/09 10:07:41 AM
  • 12.
    Módulo DESENVOLVIMENTO LOCAL E INTEGRAÇÃO DA ASSISTÊNCIA Profa. Ma. Carmen Ferreira Barbosa Profa. Ma. Edilene Xavier Rocha Garcia 117 Modulo 01.indd 117 2/6/2009 12:15:53
  • 13.
    Unidade Didática —Estágio Supervisionado III Apresentação Olá acadêmico(a)! É com enorme satisfação que me dirijo a você! Estamos iniciando mais uma Unidade Didática “Desenvolvimento Local e Territorialização”, um impor- tante aporte teórico cujo objetivo é fundamentar o seu exercício profissional. A Unidade Didática está dividida em oito aulas: a aula 1 – Desenvolvimento Local – Reflexões e Conceitos traz o conceito do DL, bem como o conceito de Desenvolvimento para o Local (D. para L.) e no Local (D. no L.), visando diferenciá-los; a aula 2 inicia a abordagem dos Aspectos Constitutivos do Desenvolvimento Lo- cal – Espaço, Lugar, Território; nas aulas 3 a 7, na continuação da explanação sobre os Aspectos Constitutivos do Desenvolvimento Local, seguem respectivamente Cultura e Identidade, Capital Social, Potencialidade e Comunidade e Agentes do D. L. Ainda na aula 7 discorre-se a respeito das Dimensões Metodológicas para o Desenvolvimento Local. Na última aula desta Unidade, a de número 8, discute-se a Cultura do Desenvolvi- mento e o Desenvolvimento da Cultura e a importância e aplicação de todos os conceitos aqui estudados para o profissional de Serviço Social. A ênfase desta Unidade é destacar um novo paradigma de desenvolvimento, uma nova cultura política diante do modo de produção que se nos apresenta: o capitalismo. É indispensável que você, acadêmico(a), realize o autoestudo, o que engloba a leitura do livro-texto e dos textos do Portal bem como o seu esforço no exercício de cada uma das atividades propostas nas aulas. Quero lembrá-lo(a) que o que diferencia esta modalidade de ensino das demais é a sua participação ativa! Professora Ma. Edilene Xavier Rocha Garcia 118 Modulo 01.indd 118 2/6/2009 12:15:53
  • 14.
    AULA ____________________ 1 Unidade Didática – Desenvolvimento Local DESENVOLVIMENTO LOCAL: REFLEXÕES & CONCEITOS e Territorialização Conteúdo • Desenvolvimento local • Desenvolvimento para o local • Desenvolvimento no local • Mudança de paradigmas Competências e habilidades • Diferenciar conceitos de desenvolvimento local do conceito de desenvolvimento no local e do desen- volvimento para o local. • Subsidiar por meio desses conceitos o trabalho com as comunidades. Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com o professor interativo 2 h/a – presenciais com o professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo Inicialmente, quero partilhar com vocês o hábi- Segundo Houaiss11 (2001) to de buscar o significado das palavras para tentar é o produto da faculdade de conceber; (...) Deriva- captar a totalidade e profundidade da mensagem ção: por extensão de sentido, faculdade intelectiva e proposta pelos autores, para apreender, com mais cognoscitiva do ser humano; mente, espírito, pen- exatidão, a ideia propagada. samento. Ex.: isso não entra no meu c. (...) com- Investir em qualquer atividade, principalmente nos preensão que alguém tem de uma palavra; noção, estudos e conhecimento, requer a incessante busca do concepção, ideia. Ex.: seu c. de moral é antiquado. sentido real transmitido pelo autor. Dessa forma, toda leitura, do livro didático ou dos textos do Portal, mere- É preciso o aporte teórico oferecido por diversos cem a imprescindível companhia do dicionário! autores para auxiliar na construção do conceito do Para tanto, vamos comentar um pouco sobre o 11 HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J. significado da palavra “conceito”. J. (org) [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 119 Modulo 01.indd 119 2/6/2009 12:15:53
  • 15.
    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização desenvolvimento local – DL, de caráter endógeno, e manifestações da pobreza”. O autor afiança Yunus13 sua aplicação no Serviço Social. Segundo Vicente ao afirmar que não se pode solucionar o problema Fideles de Ávila (2001, p. 17),12 da pobreza com o mesmo “marco teórico” que per- mitiu ou ajudou na sua criação. os conceitos constituem as ferramentas do nosso O desenvolvimento econômico e tecnológico trabalho. Habilitam-nos a investigar, discrimi- não alcançou o desenvolvimento social e humano nar, comparar, classificar, e relacionar. São espe- cialmente significativos para as ciências sociais que havia proposto, ou seja, que por seu intermé- porque a linguagem, da qual todos derivam, é ela dio solucionaria o problema da pobreza em todo o mesma, um dos fenômenos, que, como técnicos mundo. A história demonstra que não foi esse o re- desta ciência, estudamos e procuramos compre- sultado alcançado, assim surge internacionalmente ender. um novo conceito de desenvolvimento, o desenvol- vimento local endógeno, que se estende pelo desen- Assim, para analisar o DL devemos antes refletir volvimento econômico e meio ambiental, e que tem sobre cada palavra que o compõe, ou seja, compre- no desenvolvimento sociocultural o princípio e o ender o significado de desenvolvimento e de local. fim das suas ações. O que se entende por desenvolvimento? Cresci- Esse novo arquétipo de desenvolvimento propõe mento e desenvolvimento são sinônimos? a autoconsciência, a autossensibilização, a autoesti- Cidades desenvolvidas são aquelas que dispõem ma e a automobilização da comunidade-localidade de estradas intermunicipais e interestaduais, fá- envolvida para torná-la protagonista de seu próprio bricas, instalações telefônicas, rede de energia desenvolvimento. elétrica, shopping center, rede de esgoto, asfalto, Pode-se, então, compreender que o desenvolvi- emprego para seus moradores etc.? Ou será que mento local de caráter endógeno considera, respeita “desenvolvimento” é deixar de envolver-e com o e aproveita os modos de ser e de agir de cada comu- outro? nidade-localidade. O que se objetiva com essas indagações é fomen- tar a reflexão, o pensamento, o autoquestionamento. Como que procurando detectar a “semente” lá no âmago do contexto descritivo de uma “laranja” in- Não é necessário “acertar” as respostas. Essa cons- teira, já que esta existe em função daquela, (...) me trução será conjunta e gradual a partir de discussões convenço cada dia mais de que o “núcleo concei- e atividades correspondentes. tual” do desenvolvimento local consiste essencial- Citaremos alguns autores para embasar a discus- mente no efetivo desabrochamento das capacida- são. Martins (2002) recomenda mudança de para- des, competências e habilidades de uma “comuni- digmas quanto à concepção de desenvolvimento, dade definida” (portanto com interesses comuns com uma proposta humanista, holística e ecológica. e situada em determinado território ou local com Referenda Mahbub UL Haq (2002, p. 53) que apon- identidade social e histórica), no sentido de ela ta para “alguns pecados dos planejadores desen- mesma se tornar paulatinamente apta a agenciar volvimentistas, concluindo que o desenvolvimento 13 deve ser uma ação de enfrentamento real às piores Muhammad Yunus, Nobel da Paz, 2006. Junto com seu banco, o Gra- meen, é conhecido como “o banqueiro dos pobres” e considerado o grande mentor do microcrédito destinado aos desfavorecidos de Ban- gladesh. Professor de economia, Yunus começou a combater a pobre- za após uma mortífera fome que assolou seu país. Em 1976, fundou 12 Doutor em Políticas e Programação do Desenvolvimento (enfoque um pequeno banco que se propunha a oferecer acesso ao crédito aos em Educação e Emprego), atualmente, docente dos Programas de mais pobres. O conceito do banco Grameen (que significa povoado) Mestrado em Educação (área de concentração: Educação Escolar e foi exportado para mais de 40 países. Seu sistema de “microcréditos” Formação de Professores) e em Desenvolvimento Local (área de con- permite aos muito pobres ter acesso a pequenas quantidades de di- centração: Territorialidade e Dinâmicas Socioambientais) da Univer- nheiro. O banco Grameen conta com 6,5 milhões de clientes em Ban- sidade Católica Dom Bosco (UCDB), de Campo Grande (MS). gladesh, 96% deles mulheres. 120 Modulo 01.indd 120 2/6/2009 12:15:53
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    AULA 1 —Desenvolvimento Local: Reflexões & Conceitos e gerenciar (diagnosticar, tomar decisões, planejar, o maior desafio para que o desenvolvimento local agir, avaliar, controlar etc.) o aproveitamento dos aconteça, considerando que, diferentemente da Eu- potenciais próprios, assim como a “metabolização” ropa, estamos diante de realidades locais nas quais comunitária de insumos e investimentos públicos persistem algumas ausências importantes: da cida- e privados externos, visando à processual busca de dania, da identificação sociocultural e territorial e soluções para os problemas, necessidades e aspi- do sentido de vizinhança. Assim, o caráter necessa- rações, de toda ordem e natureza, que mais dire- riamente participativo e democrático do DL é o seu ta e cotidianamente lhe dizem respeito (...) (Ávila, “calcanhar de aquiles” (...) (Martins, 2002, p. 52). 2000, p. 68). Para este autor, então, DL “é o resultado da ação José Carpio Martín,14 em entrevista à revista In- conjunta articulada” do conjunto dos diversos ato- terações (2000, p. 79), assinala que DL é um tipo de res (ou agentes) sociais, culturais, políticos e eco- desenvolvimento que se coloca entre a lógica do nômicos, públicos e privados, existentes no espaço mercado global e a lógica da sociedade, entre um local (município) “na construção de um projeto desenvolvimento convencional e um desenvolvi- estratégico que orienta suas ações a longo prazo”. mento na escala humana, que se posiciona entre a Por essa perspectiva, a promoção do DL depende conflituosa comodidade das pessoas e a inovação. principalmente da capacidade de organização dos Lembrando aqui que a inovação não é responsabi- atores locais, para que haja gestão de seus recursos lidade apenas das instituições governamentais (dos e da capacidade de enfrentar/confrontar os fatores governos locais), mas também de empresas priva- externos. das, universidades e da sociedade civil organizada, Evidencia-se, assim, que o DL reporta-se à ques- que deve refletir sobre novos conceitos e valorizar tão das relações sociais de confiança e solidariedade, as ciências sociais e a importância da participação de viver em comunidade, do sentimento de perten- popular. Essa é responsabilidade de todos nós. ça. Implica em existir para pessoas próximas, com Assim, iniciativas globais dão lugar às ideias lo- características ou coisas comuns, e não apenas estar cais (criatividade), por meio do saber popular. junto a, mas também compartilhar, bem como re- cuperar a sabedoria coletiva, a inteligência social. ! PARA PENSAR! “Em momentos de crise, somente a imaginação ! ATENÇÃO! é mais importante que o conhecimento.” O DL contribui com a emergência de novas Albert Einstein formas de produzir e compartilhar as riquezas, de reavivar a participação cidadã, de fazer cres- Tais referências permitem inferir que o desenvol- cer a democracia, para que cada pessoa tenha ao mesmo tempo de que viver e razões para viver vimento local ou endógeno (Sherbrooke, 2001, p. 28). seria aquele balizado por iniciativas, necessidades e recursos locais, tal como uma comunidade que O desenvolvimento que compõe o DL se encon- de fato se conduz a caminho do desenvolvimento, tra na postura que atribui e assegura à comunida- ou da promoção do seu bem-estar (...) entende-se que criar condições para que a comunidade efeti- de o papel de agente. Isso pressupõe rever a ques- vamente exerça este protagonismo se afigura como tão da participação. Há que se identificar, resgatar e potencializar valores positivos de uma localidade, 14 fomentando laços de cooperação, reciprocidade e Geógrafo espanhol. Departamento de Geografía Humana de la Uni- versidad Complutense de Madrid. solidariedade para promover o desenvolvimento 121 Modulo 01.indd 121 2/6/2009 12:15:53
  • 17.
    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização com mudanças paradigmáticas de pensamento, e zem, mas, sobretudo, à ideia que as pessoas têm a consequentemente, de ação. respeito do que fazem. Uma vez discutido o conceito de desenvolvimento o desenvolvimento sociocultural se caracteriza, podemos “pensar” o conceito de local. Vicente Fide- pois, como ponto de partida, de norteamento e de les de Ávila argumenta que a palavra local expressa chegada do desenvolvimento local (...) visando a “um espaço, uma superfície, um território de iden- autoconscientização, autossensibilização, autoes- tidade e de solidariedade, um cenário de reconhe- tima, autoconfiança, automobilização, auto-orga- cimento cultural e de intersubjetividade e também nização cooperativa (...) para a gradativa – porém um lugar de representações e práticas cotidianas contínua – busca de rumos comunitários-locais, de (Ávila, 2001, p. 26). forma que a comunidade-localidade evolua para a É inconcebível abordar o indivíduo sem consi- condição de sujeito do seu próprio desenvolvimen- derar a trama da reciprocidade (Yasbek, 1999). Ou to, a partir de suas características, de suas potencia- seja, na sociedade contemporânea, não há possibi- lidades (...) (Ávila, 2003, p. 20 e 21). lidade para tratar questões isoladas de seu contexto histórico-social e ambiental. Por isso, é importante Gabriela Isla Martins e Cid Isidoro Demarco que as universidades adaptem sua grade curricular Martins (Martins, 2001, p. 153-178) realizaram uma à realidade, preparando a sociedade acadêmica para pesquisa na qual apontam autores que conceituam atuar holisticamente em suas comunidades, for- o DL. Vejamos. mando profissionais capacitados na elaboração de • Joyal – DL é uma estratégia pela qual os repre- projetos que não desterritorializem famílias nem as sentantes locais (públicos e privados) traba- destituam de si mesmas. lham pela valorização dos recursos humanos, É oportuno ressaltar o avanço das políticas pú- técnicos e financeiros de uma coletividade. blicas na ênfase da territorialização de suas ações, • PNUD – DL é um processo de articulação, co- compreendendo que as famílias não estão destituí- ordenação e inserção dos empreendimentos das dos seus territórios, lugar em que nascem, vi- empresariais associativos comunitários, urba- vem, trabalham e se relacionam. nos e rurais, à integração socioeconômica de Nesse contexto em que se destaca a observação reconstrução do tecido social e de geração de das tramas que se desenvolvem no território, insere- oportunidades de emprego e renda. se o DL. Torna-se, assim, um modelo de desenvol- • Gonzáles – DL é a melhoria do nível de vida vimento que, antes de tudo, ressalta as potenciali- da população a partir da combinação eficiente dades endógenas de uma comunidade, valorizando das potencialidades de cada território, de seus suas especificidades. recursos e de sua força empreendedora (...) es- Trata-se de timular a participação e o comprometimento das pessoasda comunidade. uma nova filosofia de desenvolvimento no planeta (...) capaz de agenciar e gerenciar o aproveitamento • Bryant – DL é todo desenvolvimento planeja- dos potenciais próprios, assim como a “metaboli- do surgido do meio local que utiliza recursos e zação” comunitária de insumos e investimentos iniciativas locais com o objetivo de melhorar as públicos e privados externos, visando à processual condições de vida dos habitantes e atingir me- busca de soluções para os problemas, necessidades tas coletivas da comunidade. e aspirações, de toda ordem e natureza, que mais • Albuquerque – não é resultado da busca de direta e cotidianamente lhe dizem respeito (...) equilíbrios irreais de grandes agregados estatís- (Ávila, 2000, p. 68). ticos macroeconômicos, e sim fruto dos esfor- Em análise convergente, Ávila (2003) advoga que ços e compromissos dos atores sociais em seus a cultura não se refere apenas ao que as pessoas fa- territórios e meio ambientes concretos (...) o 122 Modulo 01.indd 122 2/6/2009 12:15:53
  • 18.
    AULA 1 —Desenvolvimento Local: Reflexões & Conceitos planejamento estratégico tem se mostrado desenvolvimento PARA O local (DpL) se refere à ideia como uma metodologia participativa efetiva de desenvolvimento que, além de se situar no local de promoção do DL. como sede física, gera atividades e efeitos benéficos às comunidades e aos ecossistemas locais, mas à maneira • Vachon – é o desenvolvimento global da co- bumerangue: brota das instâncias promotoras, vai aos munidade, tendo o papel da pessoa como prin- locais-comunidades, mas volta às instâncias promo- cipal fator do progresso social e enfatizando a toras em termos de consecução mais de suas próprias valorização das microiniciativas e dos recursos finalidades institucionais (as das instâncias promoto- locais. ras, evidentemente) que do real, endógeno e perma- • Franco – deverá dinamizar cinco tipos de capi- nente desenvolvimento das comunidades-localidades tal: capital econômico (renda e riquezas), capital visadas (Ávila, 2003, p. 22). humano (educação, saúde e cultura), capital social (associação entre pessoas e empresas), CARACTERÍSTICAS DO DESENVOLVIMENTO capital empresarial (favorecendo o surgimento LOCAL de empreendedores), que num círculo virtuoso • Territorialmente localizado, com a noção de gerará mais capital econômico. território, além de ocupação do espaço, con- Ficou patente que o reconhecimento dos recursos siderando as relações existentes (característi- físicos e humanos imprime caráter endógeno ao pro- cas físicas, históricas, culturais, inclusive) que, cesso de DL, e exige o processo prévio de motivação quando são recuperadas, geram relações soli- dárias entre os agentes. dos agentes participantes. Para os autores anterior- mente citados, DL é um conjunto original de estraté- • Participativo e democrático, com foco na auto- gias que devem ser adequadas a um território e par- nomia e emancipação da localidade. ticipação ativa e solidária da população. Só assim se • Modo endógeno de desenvolvimento, com as ini- encontrarão formas viáveis, sustentáveis, contínuas e ciativas surgindo de dentro das comunidades. organizadas de utilização integrada dos recursos ma- • Desenvolvimento sustentável, combinação de teriais, naturais e humanos disponíveis, em prol da eficiência econômica com prudência ecológica obtenção de melhorias no bem-estar deles mesmos. e justiça social. • Estratégia geradora de emprego e renda como resultado de ações conjuntas de informação, DL NÃO É “Desenvolvimento NO Local – (DnL)” sensibilização, mobilização e formação. Ávila (2000, p. 69) em Pressupostos para forma- • Busca regatar valores tradicionais e culturais das ção educacional em desenvolvimento local evidencia comunidades com inovação de estratégias de que “desenvolvimento NO local (DnL)” é um tipo ação, aproveitamento dos recursos históricos, de desenvolvimento que isenta a participação ativa tradicionais e culturais de modo a envolver a da comunidade/localidade, um empreendimento comunidade com identidade comum. no qual se utilizam apenas agentes externos para a • Apoia micro e pequenas empresas com formas sua promoção, ou seja, aqueles que não pertencem à diferenciadas de ajuste produtivo no espaço comunidade. Destaca ainda que os agentes externos territorial, que, ao dispor de uma organização são os promotores do desenvolvimento e a comuni- interna mais flexível, é capaz de gerar mais em- dade apenas se envolve participando. prego e se adequar às mudanças e imprevistos. • Conta com a descentralização para oferecer po- DL NÃO É (só) “Desenvolvimento PARA O Local” der às instâncias locais para que possam viabi- (DpL) lizar decisões mais próximas/reais das necessi- Para diferenciar DL de DpL, Ávila afirma que dades da população e possibilitar a combina- 123 Modulo 01.indd 123 2/6/2009 12:15:53
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização ção participação e uso sustentável dos recursos biologia o sistema cardiorrespiratório ou o sistema disponíveis. gastrointestinal ocorre algo parecido com as ne- • Estratégia planejada, apesar não de existir uma cessidades (...) todas têm uma importância similar (...) muda o conceito de pobreza associado exclusi- fórmula a ser aplicada em todas as comunida- vamente à ausência de subsistência (...) há pessoas des é necessário estar munido de procedimen- que morrem não somente de fome senão morrem tos sucessivos organizados de forma a atingir também por carência de afeto ou por carência de os objetivos do enfoque. identidade (Elizalde, 2000, p. 52). • Favorece processos inovadores, estimula a cria- tividade a transformar os recursos disponíveis Visto que as especificidades locais devam ser con- em oportunidades para aquela localidade. sideradas, respeitadas e potencializadas, é oportuno • Movimento solidário e cooperativo de caráter advertir que não há um “desenho” pronto que possa solidário, com a existência de objetivos comuns ser aplicado, ou antes, desenvolvido, às diferentes que provoquem uma obrigação moral em cada comunidades-localidades. Muito oportunamente individuo de apoiarem-se mutuamente. Kujawiski (apud Ávila, 2000, p. 29) assinala o poeta espanhol Antonio Machado “Caminhante, não há • Conjunto de estratégias integradas e equilibra- caminho. O caminho se faz ao caminhar”. das das ações que orientam o DL na integração Para finalizar, as palavras de Ávila (2000, p. 29) poder político (federal, estadual e municipal), “se utopia, uma boa utopia”! poder local (empresas, lideranças e a popula- ção) e valores econômicos, sociais e meio am- bientais. Trata-se de um modelo mais amplo “A Utopia está lá no horizonte. que os tradicionais, e equilibrado no sentido Me aproximo dois passos, ela se afasta dois de minimizar os riscos de dependência das al- passos. terações cíclicas do mercado. Caminho dez passos e o horizonte corre dez • Processo contínuo de ações, pois a interrupção passos. ou a descontinuidade das ações provocada por Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a Utopia? um erro de planejamento poderá acarretar o Serve para isso: para que eu não deixe de descrédito da comunidade no processo. O DL caminhar.” perderá a continuidade se as pessoas perderem a (Eduardo Galeano) motivação da participação, se as estratégias não estiverem realmente integradas, se a conscienti- zação dos vários agentes participantes se desvir- tuarem, se os recursos se esgotarem, se houver * ANOTAÇÕES dependência de recursos externos, entre outros. Os dados aqui analisados demonstram claramente que o DL é um modelo de desenvolvimento que propõe identificar e respeitar as potencialidades endógenas de um grupo social (Elizalde, 2000), que deve acontecer na escala humana. A autora ainda destaca que: (...) são nove as necessidades fundamentais para o ser humano: subsistência, proteção, afeto, enten- dimento, criação, participação, ócio, identidade e liberdade (...) da mesma maneira que seria muito difícil estabelecer se é mais importante em nossa 124 Modulo 01.indd 124 2/6/2009 12:15:53
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    AULA ____________________ 2 Unidade Didática – Desenvolvimento Local ESPAÇO, LUGAR E TERRITÓRIO e Territorialização Conteúdo • Conceito de espaço • Conceito de lugar • Conceito de território • Senso comum × construção científica Competências e habilidades • Conhecer três dos aspectos construtivos do Desenvolvimento Local – Espaço, Lugar e Território e saber diferenciá-los. Sua relevância está na compreensão do conceito de territorialização a fim de subsidiar o planejamento das ações do profissional de Serviço Social. Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com o professor interativo 2 h/a – presenciais com o professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo ESPAÇO, LUGAR E TERRITÓRIO identidade, capital social, potencialidade, comuni- Na aula anterior abordamos de forma abrangente dade e agentes do DL e dimensões metodológicas. o conceito de desenvolvimento local – DL. Essa afir- Por enquanto nos deteremos em três itens, são mação é proposital, pois o seu detalhamento como eles: espaço, lugar e território. Mas... eles não são si- já o dissemos, será construído de forma conjunta e nônimos? gradual no decorrer de nossos encontros. Rápido! Busquem um dicionário e vejam o que Quero ressaltar, caros acadêmicos, que a leitura ele traz. dos textos do Portal e do livro Educação sem frontei- O meu dicionário diz assim: ras são de suma importância para que vocês com- Espaço: preendam do que trata este assunto! São 11 os aspectos que iremos abordar como es- 1. extensão ideal, sem limites, que contém todas as senciais nesse modelo de desenvolvimento: espaço, extensões finitas e todos os corpos ou objetos exis- lugar, território, solidariedade, educação, cultura, tentes possíveis; 2. medida que separa duas linhas 125 Modulo 01.indd 125 2/6/2009 12:15:53
  • 21.
    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização ou dois pontos; 3. região situada além da atmosfera demos perder esse foco, pois nossa Unidade Didáti- terrestre (...)15 ca trata de desenvolvimento local. E quanto ao lugar? Na aula anterior já mencionei a fundamental importância de se ter sempre à mão o dicionário. (...) substantivo masculino, país, cidade, região não Constantemente irei repetir essa recomendação, to- especificada, área de limites definidos ou indefini- davia, vale notar que cada ciência tem uma termino- dos, parte do espaço que ocupa ou poderia ocupar logia própria, conceitos específicos, que podem ser uma coisa, (...) área apropriada para ser ocupada superficialmente observados com o auxílio de um por pessoa ou coisa, local onde se está ou deveria bom dicionário, contudo não compreendidos em estar (...)16 sua totalidade. O que pretendo demonstrar é que Finalmente, vejamos o que Antônio Houaiss ad- não se apreende ciência social, ou qualquer outra voga sobre território: ciência a não ser estudando sistemática e assidua- mente os teóricos correspondentes. (...) substantivo masculino, grande extensão de terra, área de município, distrito, estado, país etc., Você entregaria seu filho a um centro cirúrgico área de uma jurisdição (...) JUR extensão ou base cujo instrumentador tenha se diplomado apenas geográfica do Estado, sobre a qual ele exerce a sua com um breve dicionário? soberania e que compreende todo o solo ocupado Assim também o é na sociedade. Não se pode pela nação, inclusive ilhas que lhe pertencem, rios, “pensar”, planejar, muito menos executar projetos lagos, mares interiores, águas adjacentes, golfos, ba- e serviços sociais sem aportes teóricos que justifi- ías, portos e também a faixa do mar exterior que quem e fundamentem o agir profissional. lhe banha as costas e que constitui suas águas ter- No entendimento do senso comum, território diz ritoriais, além do espaço aéreo correspondente ao respeito a um espaço qualquer, comumente delimi- próprio território (...) ECO área que um animal ou grupo de animais ocupa, e que é defendida contra tado e defendido, espaço este de sobrevivência de a invasão de outros indivíduos da mesma espécie.17 um grupo ou pessoa. Contudo Bitoun (1999, p. 194) ensina que terri- tório não pode ser entendido como simples espaço geográfico, uma vez que, (...) para os geógrafos, os municípios não são sim- plesmente instâncias federativas no arranjo insti- tucional da nação, cada um deles é um território caracterizado pela sua posição, suas paisagens, suas Corram, voltem um pouco a página do seu livro práticas culturais e políticas desenvolvidas por didático e deem uma olhada... agentes sociais locais e de outras esferas territo- riais. Vicente Fideles de Ávila afirma ser “um cenário de reconhecimento cultural, um lugar de represen- A esse respeito Santos e Silveira (2001, p. 248) ex- tações e práticas cotidianas”, não é mesmo? Não po- plicam que: As configurações territoriais são o conjunto dos sistemas naturais, herdados por uma determinada 15 HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J. sociedade, e dos sistemas de engenharia, isto é, ob- J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 16 jetos técnicos e culturais historicamente estabele- Ibid. 17 Ibid. cidos (...) sua atualidade (...) sua significação real advém das ações realizadas sobre elas. 126 Modulo 01.indd 126 2/6/2009 12:15:54
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    AULA 2 —Espaço, lugar e território Milton Santos,18 geógrafo brasileiro de reconheci- tir do espaço, é resultado de uma ação conduzida mento internacional, afirma que herdamos um con- por um ator sintagmático (ator que realiza um ceito incompleto de território, uma velha categoria programa) em qualquer nível. Ao se apropriar de denominada região, área. Ressalta ainda que não é um espaço, concreta ou abstratamente (por exem- um conceito errôneo, porém incompleto, porque o plo, pela representação), o ator “territorializa” o espaço. (...) o território, nessa perspectiva, é um território necessita ser compreendido além de espa- espaço onde se projetou um trabalho, seja ener- ço geográfico, antes como espaço relacional, aquele gia e informação, e que, por consequência, revela no qual as pessoas vivem, trabalham, estudam, cir- relações marcadas pelo poder. O espaço é a “pri- culam, se divertem e morrem. são original”, o território é a prisão que os homens constroem para si. Santos (1996, p. 25 -27) menciona que Muito tempo e talento foram dissipados recente- mente por geógrafos numa discussão semântica sem-saída. Chegou-se mesmo a inventar novas denominações. Por exemplo, alguns preferem falar A geografia, ciência que estuda a organização do da espacialidade ou até de espacialização da socie- espaço realizada pelo homem, alerta-nos quanto à dade, recusando a palavra espaço, mesmo o espaço reconceituação de território, até então sinônimo de social. No entanto, a renovação da geografia passa espaço ocupado, “chão”. Nas palavras de Raffestin pela depuração da noção de espaço e pela investiga- (1993, p. 143-144): ção de suas categorias de análise. Quando Arman- do Corrêa da Silva (1982, p. 52) enuncia que não Espaço e território não são termos equivalentes há geografia sem teoria espacial consistente, afirma (...) é essencial compreender que o espaço é an- também que essa “teoria espacial consistente” só é terior ao território. O território se forma a par- válida analiticamente se se dispuser de um “concei- to referente à natureza do espaço”. Que espaço não é nem uma coisa, nem um sistema de coisas, senão 18 Doutorado em Geografia Humana pela Universite de Strasbourg I, uma realidade relacional: coisas e relações juntas. França (1958). Livre docência pela Universidade Federal da Bahia, Eis por que sua definição não pode ser encontrada Brasil (1961) Atuação em Geografia Humana como professor emé- rito da Universidade de São Paulo, Brasil. O prof. dr. Milton Santos senão em relação a outras realidades: a natureza e (Milton de Almeida Santos ou Milton Almeida dos Santos), nasceu a sociedade, mediatizadas pelo trabalho. Não é o em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, no dia 3 de maio de espaço, portanto, como nas definições clássicas da 1926. Geógrafo e livre pensador brasileiro, homem amoroso, afá- vel, fino, discreto e combativo, dizia que a maior coragem, nos dias geografia, o resultado de uma interação entre o ho- atuais, é pensar, coragem que sempre teve. Doutor honoris causa em mem e a natureza bruta, nem sequer um amálgama vários países, ganhador do prêmio Vautrin Lud, em 1994 (o Prêmio formado pela sociedade de hoje e o meio ambiente. Nobel da Geografia), professor em diversos países (em função do exílio político causado pela ditadura de 1964), autor de cerca de 40 O espaço deve ser considerado como um conjunto livros e membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, entre ou- indissociável de que participam, de um lado, certo tros. Formou-se em Direito no ano de 1948, pela UFBA, foi professor arranjo de objetos geográficos, objetos naturais e em Ilhéus e Salvador, autor de livros, que surpreenderam os geó- grafos brasileiros e de todo o mundo, pela originalidade e audácia: objetos sociais, e, de outro, a vida que os preenche O povoamento da Bahia (1948), O futuro da geografia (1953), Zona e os anima, ou seja, a sociedade em movimento. O do cacau (1955) entre muitos outros.Passou o período entre 1964 a conteúdo (da sociedade) não é independente da 1977 ensinando na França, Estados Unidos, Canadá, Peru, Venezuela, Tanzânia; escrevendo e lutando por suas ideias. Foi o único brasileiro forma (os objetos geográficos) (...). e receber um “Prêmio Nobel”, o Vautrin Lud, que é como um Nobel de Geografia. Outras de suas magistrais obras são: Por uma outra O território não se restringe a uma entidade ju- globalização e Território e sociedade no século XXI (Record). Milton Santos, este grande brasileiro, morreu em São Paulo (SP), no dia 24 rídica. É preciso considerar um sentimento de per- de junho de 2001, aos 75 anos, vítima de câncer. tencimento e de apropriação. 127 Modulo 01.indd 127 2/6/2009 12:15:54
  • 23.
    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização Para o autor, os etologistas19 demonstraram que os animais defendiam “seus nichos ecológicos” con- tra possíveis intrusos. No seu entendimento, cien- tistas e escritores populares têm extrapolado dados do mundo animal para o mundo humano. O humanista, contudo, deve ir além da analogia e perguntar como a territorialidade humana e a liga- ção ao lugar diferem daquelas das criaturas menos carregadas com a emoção e pensamento simbóli- co. Há, por exemplo, o problema de conceituação. Todos os animais, incluindo os seres humanos, ocupam e usam espaço, mas a área como unidade A singularidade e particularidade de cada territó- limitada de espaço é também um conceito. rio é que faz dele mais do que um espaço geográfico. Em seus pertinentes argumentos, Tuan (1976, O território contribui para a criação dessas especi- p. 4) destaca que raramente o território poderá ser ficidades que fomentam o sentimento de pertença observado integralmente por um animal, exceto pe- (Castells, 1999). los pássaros “empoleirados no alto de uma árvore”; Tuan (1976, p. 4) considera que o conceito de ter- os mamíferos, os répteis não o podem fazê-lo, nem ritório difere de espaço limitado. É uma “rede de ca- mesmo o ser humano. Assim sendo, o minhos e lugares”. Um lugar deve ser visto como um centro de significância, no qual há a ligação emocio- (...) território real não é um espaço limitado, mas nal a objetos, ao espaço habitado. Nele encontram- uma rede de caminhos e lugares. As pessoas são ca- pazes de manter o território como um conceito, con- se conceitos e símbolos que constroem a identidade templar mentalmente o seu formato, incluindo aque- do lugar. A concepção dimensional do território, di- las partes que não podem correntemente perceber. A ferentemente do espaço, considera que o lugar onde necessidade de fazer isso, contudo, pode não apare- a existência humana está inscrita foi construído cer. Por exemplo, os caçadores e coletores migrado- pelo homem, pela sua ação técnica e pelo discurso res têm poucas ocasiões em que necessitam divisar que mantinha sobre ela. a fronteira do seu território. O território, para eles, é Observem que aqui abordamos outro conceito, o portanto uma área não circunscrita; é essencialmen- de lugar, espaço, lugar e território estão de tal ma- te uma rede de caminhos e lugares permeáveis com os caminhos de outros caçadores. Em comparação, neira imbricados que separá-los para fins de concei- as comunidades das fazendas tendem a ter um forte tuação se torna delicado. senso de propriedade e de espaço delimitado. Tuan (1976) propõe a ideia de que a geografia humanística busca refletir a respeito dos fenômenos Percebe-se, então, uma valorização ao que até o geográficos de um modo não tradicional, ou seja, momento não foi citado, ao subjetivo, ao passional, entrosando-se às ciências sociais, na esperança de àquilo que está na mente, todavia, às vezes não tra- dispor uma visão precisa do mundo humano. zemos à tona: a emoção! A geografia humanística procura um entendimento Qual é o papel da emoção e do pensamento na liga- do mundo humano através do estudo das relações ção ao lugar? Considerem o animal como moven- das pessoas com a natureza, do seu comportamento geográfico bem como dos seus sentimentos e ideias 19 Que ou aquele que se dedica ao estudo do comportamento social e a respeito do espaço e do lugar (Tuan, 1976, p. 1). individual dos animais. 128 Modulo 01.indd 128 2/6/2009 12:15:54
  • 24.
    AULA 2 —Espaço, lugar e território do-se ao longo de um caminho, parando de tempo É no território que a relação existente entre cul- em tempo. O animal para por uma razão, usual- tura e espaço se materializa. Nesse contexto, Casti- mente para satisfazer uma necessidade biológica lho (2004) afirma que a religiosidade influencia a importante – a necessidade de descansar, beber, estruturação dos territórios. Sobre essa temática comer ou acasalar. A localização da parada torna-se discorreremos na Aula 4. para o animal um lugar, um centro de significância Até aqui se pode dimensionar que “a ordem in- que ele pode defender contra intrusos. Este modelo de comportamento animal e sentimento de lugar terna do lugar” é o que diferencia o ambiente or- é prontamente aplicável aos seres humanos. Nós denado por humanos (Le Bourlegat, 2000, p. 13). paramos para atender a exigências biológicas; cada Ao fazer alusão a essa ordem, Cleonice Alexandre Le pausa estabelece uma localização como sendo sig- Bourlegart pretende evocar os fenômenos da cons- nificativa, transformando-a em lugar. O humanista ciência, estimando ser o propulsor de transforma- reconhece a analogia, mas novamente está dispos- ções sociais. to a perguntar como a qualidade da emoção é do pensamento humano dão ao lugar uma gama de Nesse sentido, é hoje preciso avaliar o lugar, tanto significação humana inconcebível no mundo ani- em função de sua própria ordem interna como de mal. Um caso que esclarece a peculiaridade huma- sua combinação dialética com as informações de na é a importância que as pessoas dão aos eventos origem externa. Assim, o lugar atual, cada vez mais biológicos do nascimento e da morte. Os animais integrado ao mundo globalizado, deve ser avaliado não têm nenhuma preocupação sobre isso. As loca- sob duas óticas, ou seja, de dentro para fora e de lizações pragmáticas dos animais têm valor porque fora para dentro (Santos, 1995, apud Le Bourlegat, satisfazem suas necessidades vitais correntes. Um 2000, p. 17). chimpanzé não tem preocupações sentimentais Para o autor em voga, o lugar visto de dentro “é sobre o seu passado, sobre sua terra natal, mas ele antecipa o futuro e teme a sua própria mortalidade. o plano do vivido (...) é a escala territorial passível Santuários dedicados ao nascimento e à morte são de ser percebida, vivida”, reconhecida por meio dos unicamente lugares humanos (ibid). sentidos, um encontro sensorial (do corpo físico) com as relações de afetividade. Deixa assim de ser É de interesse específico da geografia humanísti- apenas um suporte material para alçar a dimensão ca o fato de um “mero espaço se tornar um lugar”, do simbólico. Sob esta óptica, como também o momento e de que forma ocorre a “ligação emocional aos objetos físicos, as funções (...) o ser humano identifica-se com o lugar vivido dos conceitos e símbolos na criação da identidade como materialidade impregnada de valores, que do lugar” (ibid). ganha significado pelo próprio uso cotidiano, (...) Já que nos referimos ao mundo simbólico, traze- o lugar, portanto, é onde a vida se desenvolve em todas as suas dimensões. Assim, a ordem interna mos Rosendahl e Correa (2006, p. 1), que ressaltam construída no lugar, tecida pela história e pela cul- que o território “apresenta, além do caráter político, tura, produz a identidade. É através dessa identida- um nítido caráter cultural – mundo simbólico, es- de que o ser humano se comunica como o resto do pecialmente quando os agentes sociais são grupos mundo (Le Bourlegat, 2000, p. 18). étnicos, religiosos ou de outras identidades”. Caros(as) acadêmicos(as), vocês já devem ter per- Em perspicaz e pertinente análise, Le Bourlegart cebido que é impossível separar em tópicos nossa aula (2000, p. 18) evidencia que o momento criativo e abordar um item de cada vez. Como dito anterior- acontece quando os indivíduos que compõem esse mente, espaço, lugar e território estão absolutamente lugar são capazes de perceber seu mundo interior atados, não se trata de um sem citar o outro, para isso, e interpretar suas raízes culturais ali construídas, é ímpar o autoestudo para a fixação do conteúdo. nascidas a partir das relações profundas entre eles 129 Modulo 01.indd 129 2/6/2009 12:15:54
  • 25.
    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização mesmos e o meio. Maiores detalhamentos a esse na organização do território administrativo do respeito serão feitos na Aula 4. Estado nacional. • Território dos bens coletivos – no meio terri- torial manifestam-se como formas materiais (físicas e construídas) e imateriais (patrimônio coletivo) que espelham a formação socioespa- cial e a cultura local. • Território de herança e memória cultural – pelo qual se constrói sentimento de pertença e a diferenciação do outro (com limites). • Manifesta-se em várias escalas de organização – família, bairro, município, região, federação de estado, Estado nacional. Em seu texto, complementa a autora, visto de fora, o lugar Território como espaço do trabalho ou de outras ações específicas (...) aparece como uma unidade de interação com outros lugares conectados em rede, e também com O território de trabalho ou de outras ações es- a globalidade. Em outros termos, o lugar, como um pecíficas da vida humana é um constructo social e dos elementos do circuito espacial, é parcela do es- tem como substrato físico uma estrutura em rede paço (ibid). (reticulada). • Território unidimensional – nele se manifesta TIPOS DE TERRITÓRIO apenas uma das dimensões da vida coletiva, Cleonice Alexandre Le Bourlegat (2006, p. 6-7) pois é construído para atender interesses espe- aponta e conceitua os tipos de território existentes, cíficos: econômico, religioso, cultural, científi- demonstrados a seguir: co, serviços sociais, entre outros. • Território de fixos e fluxos – o substrato físico de referência abriga uma estrutura descontínua Território de reprodução da vida de fixos e fluxos (uma rede de lugares), sendo O território de reprodução da vida, ou seja, do mantido por um modelo de circuito entre os cotidiano vivido é um constructo social que tem fixos cuja articulação entre os integrantes ra- como substrato um espaço físico contíguo modifi- ramente é corpórea (exceto em alguns casos cado pelo uso social e coletivo. como o turismo e eventos coletivos programa- • Território multidimensional – nele se manifes- dos pelos integrantes da rede), predominando tam todas as dimensões da vida coletiva (hu- relações secundárias. mana, social, econômica, cultural, política). • Território organizacional – de estrutura hori- • Território do encontro e articulação corpóreo zontal ou vertical, regido por normas próprias – o substrato físico de referência é contíguo e da organização, com limites flexíveis e nem nele predominam relações pessoais e emocio- sempre duradouros, não se inserem obriga- nais do tipo primária, geradora de vínculos de toriamente nas estruturas de organização do identidade coletiva. Estado. E no caso de estruturas hierarquizadas, • Território institucional – constitui campo de nem sempre as forças de regulação emergem forças sociais locais com regras de vivência do local (nó da rede), podendo aparecer como próprias (espaço político), geralmente inserido força de submissão a um nó central externo. 130 Modulo 01.indd 130 2/6/2009 12:15:54
  • 26.
    AULA 2 —Espaço, lugar e território • Território de bens da organização – geralmente priori pelo Estado para o atendimento de um obedecem a um modelo padronizado que es- objetivo específico predeterminado, a efeti- pelha o padrão de identidade da organização. vação de seu uso ocorre segundo um siste- • Manifesta-se em várias escalas de organização – ma de regras internas do Estado nacional e local, regional, nacional, internacional, global. seu federalismo intraestatal viabilizadas por meio de ações planejadas e monitoradas pelo Território institucional fruto de estratégia Estado. política de Estado • Território uni e multidimensional – o uso pre- • Território institucional – não é constructo so- visto pode ser unidimensional quando a ação cial, já que surge como território instituído na estratégica atende uma dimensão específica, forma de lei para atender a uma forma de uso como: definição de territórios de trabalho (ex., proposto pelo Estado, formulado por meio de divisão territorial de trabalho definido por re- estratégias políticas. Ex., políticas territoriais gionalização), promoção e regulamentação do para: assentamento de famílias no campo (re- uso e ocupação do solo (ex., política de zone- forma agrária), criação de unidades de con- amento para conservação da natureza, distri- servação do patrimônio natural e cultural; de- buição da população, implantação de infra- senvolvimento de segmentos específicos (agri- estrutura etc.), integridade do território (uso cultores familiares, setores estratégicos) ou de da faixa de fronteira). Mas a política pode ter ocupação funcional de espaços do território como fim a criação de territórios multidimen- nacional (regionalização, zoneamento, faixa de sionais, de reprodução da vida (definição de fronteira etc.). assentamentos agrários). • Território de idealização estatal – sua forma- conteúdo emerge de um espaço idealizado pelo Estado e que, portanto, cumpre uma intencio- ! IMPORTANTE nalidade estratégica, cujo uso efetivo será aten- É na história da sociedade, na prática social, dido pelos atores que se engajarem nessa ação que se encontra a fonte dos nossos problemas e de coordenação política. a chave de suas soluções. • Território de organização do Estado – como Marilda Iamamoto território (forma-conteúdo) configurado a * ANOTAÇÕES 131 Modulo 01.indd 131 2/6/2009 12:15:54
  • 27.
    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização AULA Unidade Didática – Desenvolvimento Local ____________________ 3 e Territorialização CULTURA E IDENTIDADE Conteúdo • Relevância • Aplicação para o DL Competências e habilidades • Compreender a cultura e a identidade como aspectos construtivos do DL e valorizá-los no processo do fortalecimento social e comunitário. Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com o professor interativo 2 h/a – presenciais com o professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo CULTURA E IDENTIDADE mumente utilizado para definir atenção regular a algo específico. A cultura popular local por ser oriunda das relações Segundo Kashimoto (2002, p. 35), cultura é profundas entre a comunidade do lugar e o seu meio (natural e social), simboliza o homem e seu entorno, (...) um conjunto de atividades e crenças que uma implicando um tipo de consciência e de materialida- comunidade adota para enfrentar os problemas de social que evidencia o grau de afeição ou apego a impostos pelo meio ambiente, noção que será com- um lugar; esse é um fator de extrema importância plementada pela definição segundo a qual a cultura para o desenvolvimento local, posto que permite a é o conjunto de soluções originais que um grupo configuração da identidade do lugar e de sua popu- de seres humanos inventa, a fim de se adaptar a seu lação (Kashimoto, Marinho e Russeff, 2002, p. 35). meio ambiente natural e social. Inicialmente, é preciso delimitar o conceito de Por sua vez, a história da humanidade demons- cultura, haja visto que o conceito de cultura é co- tra que a palavra cultura passou por transformações 132 Modulo 01.indd 132 2/6/2009 12:15:54
  • 28.
    AULA 3 —Cultura e Identidade em função da exigência que cada época lhe impôs. metáfora,23 quando seu sentido figurado se fixa pelo Cuche enfatiza que a gênese de cada vocábulo tra- “vocabulário do Iluminismo”. A partir daí, a palavra duz a história, bem como a necessidade cultural de cultura desenvolve sentido próprio, libertando-se de cada povo. Pondera ainda que seus complementos, passando a ser entendida como a soma dos saberes acumulados e transmitidos pela (...) se o século XVIII pode ser considerado como o humanidade, cujo sentido se assemelha à palavra período de formação do sentido moderno da pala- vra, em 1700, no entanto, “cultura” já é uma palavra “civilização”, pois as “duas pertencem ao mesmo antiga no vocabulário francês. Vinda do latim cul- campo semântico (...) e possuem iguais concepções tura significa o cuidado dispensado ao campo ou fundamentais” (Cuche, 2002, p. 9-21). ao gado, ela aparece nos fins do século XIII para de- Para Hermet (2002, p. 16) a cultura “(...) é a ma- signar uma parcela da terra cultivada (...) No come- triz, em permanente evolução, dos sentimentos e ço do século XVI, ela não significa mais um estado das maneiras de perceber as coisas que caracterizam (da coisa cultivada), mas uma ação, ou seja, o fato todas as comunidades em um momento dado”. de cultivar a terra. Somente no meio do século XVI se forma o sentido figurado e “cultura” pode desig- Assim, percebe-se que o significado de cultura nar então a cultura de uma faculdade, isto é, o fato evolui ao longo dos séculos, e passa a caracterizar, de trabalhar para desenvolvê-la. Mas este sentido de forma muito particular, cada comunidade, con- figurado será pouco conhecido até a metade do sé- siderando-se suas crenças, costumes e valores como culo XVII, obtendo pouco conhecimento acadêmi- fatores preponderantes para a formação do modo co e não figurado na maior parte dos dicionários da como as pessoas, em suas comunidades, compre- época. (...) No século XVIII, “cultura” é sempre em- endem suas próprias relações interpessoais com os pregada no singular, o que reflete o universalismo e outros e como isso influencia seu viver. o humanismo dos filósofos: a cultura é própria do Homem (com maiúscula) além de toda distinção de povos ou de classes. “Cultura” se inscreve então ! IMPORTANTE! plenamente na ideologia do Iluminismo: a palavra é associada às ideias de progresso, de educação, de Cultura são sistemas que servem para adap- razão, que estão no centro do pensamento da épo- tar as comunidades humanas aos seus emba- ca. (...) Está muito próxima de uma palavra que vai samentos biológicos. Esse modo de vida inclui ter um grande sucesso no vocabulário francês do tecnologia, organização social, econômica, século XVIII: “civilização” (Cuche, 2002, p. 17-21). política, prática religiosa, e assim por diante (Laraia, 2001). Utilizando o ponto de vista de Cuche (2002), pro- ponho uma reflexão: Existem povos inculturados?20 Quem seriam eles? Aqueles que não são civilizados? Lembra Kliksberg (2001, p. 122) que “a cultura E quais são os povos civilizados? incide claramente sobre o estilo de vida dos diver- Na abordagem do referido autor, até o início sos grupos sociais” e “é um fator decisivo de coesão do século XVIII, dentro da semântica,21 a evolu- social”, já que traz o sentido de crescer, cultivar e ção da palavra cultura acontece pela metonímia22 e desenvolver-se mutuamente. Destarte, cultura pode ser conceituada lembran- 20 Caráter do que é inculto; ausência de cultura, de erudição. do as palavras de Tylor (1871, apud Cuche 2002, p. 21 Ciência que estuda a evolução do significado das palavras e de outros símbolos que servem à comunicação humana; semiologia. 35), como um “(...) conjunto complexo que inclui 22 Figura de retórica que consiste no uso de uma palavra fora do seu con- texto semântico normal, por ter uma significação que tenha relação 23 objetiva, de contigüidade, material ou conceitual, com o conteúdo ou o Designação de um objeto ou qualidade mediante uma palavra que referente ocasionalmente pensado. [Não se trata de relação comparati- designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma re- va, como no caso da metáfora.] Ex.: respeite os meus cabelos brancos por lação de semelhança (ex., ele tem uma vontade de ferro, para designar “a minha velhice”; adora Portinari por “a obra de Portinari”. uma vontade forte, como o ferro). 133 Modulo 01.indd 133 2/6/2009 12:15:55
  • 29.
    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização conhecimento, crenças, a arte, a moral, o direito, existir cultura sem identidade, a identidade, no en- os costumes e as outras capacidades ou hábitos tanto, pode manipular e modificar toda cultura de adquiridos pelo homem enquanto membro da so- uma comunidade. ciedade”. A questão da identidade cultural surgiu nos anos Depreende-se, assim, que cultura é a soma de toda 1970, pela consagração das diferentes tendências vida social humana, qualificada por sua magnitude ideológicas e é definida por Cuche (2002, p. 177) grupal. Aos valores, às crenças e aos costumes per- como sendo o passados de pai para filho, são acrescentadas novas (...) instrumento que permite pensar a articulação ideias, resultantes da evolução tecnológica, da re- do psicológico e do social em um indivíduo (...) flexão filosófica do viver inerente a cada indivíduo, cuja (...) identidade social se caracteriza pelo con- cuja consciência crítica permite o desenvolvimento junto de suas vinculações em um sistema social, e o progredir em todos os sentidos, beneficiando a permitindo que “um indivíduo se localize em um sociedade e/ou a comunidade onde se vive e que sistema social e seja localizado socialmente”. traz a ideia da identidade cultural. Por sua vez, Santos (1994) assinala que o estudo Cuche lembra-nos, ainda, de que a identidade so- da cultura de um povo contribui no combate a pre- cial também diz respeito aos grupos, identificando- conceitos, oferecendo uma plataforma firme para o os e diferenciando-os. Dessa forma, pode ser enten- respeito e a dignidade nas relações humanas com dida como uma forma de hierarquização das distin- pretensões de entender a própria história, de inter- ções, que se originam nas diferenças culturais. pretar a particularidade dos costumes e crenças e, Barreto (2000) apresenta o conceito de identida- ainda, o desenvolvimento dos povos no contexto de como sentimento de pertencer a uma comunida- das condições materiais em que se desenvolvem. de onde as pessoas não se conhecem, mas compar- A partir do século 20, o conceito de cultura mo- tilham a mesma história e tradição. A manutenção dificou-se. Constatou-se que as sociedades não são da identidade étnica, local ou regional é fator im- todas iguais. A cultura se inscreve na história como portante na segurança de se saber pertencente a um diversidade de culturas, particulares e distintas, que lugar, a um povo, a um grupo. diferenciam as sociedades entre si. Se assumirmos O realce da palavra identidade, como aqui se colo- essa visão natural, poderemos sugerir que as dife- ca, tem por fundamento a cultura e sua ligação com renças entre as sociedades correspondem a diferen- a socialização do indivíduo dentro de sua comuni- ças naturais. dade. Em conformidade com as relevantes ideias A cultura será aqui considerada como conjunto de Cuche (2002, p. 179) “(...) toda identidade cul- de ações que podem conduzir ao fortalecimento da tural é vista como consubstancial com uma cultura autoestima da comunidade (Kashimoto, 2002). particular”. Portanto, o conhecimento adquirido e Enfatiza-se que as comunidades convivem, em seu acumulado pelo indivíduo, em particular, dentro de território, diversificadas social e geograficamente. O seu grupo social, torna-se uma propriedade essen- ponto principal é procurar conhecer suas particu- cial da identidade cultural. laridades, seus modos de vida, sua cultura, para que Para Houaiss,24 é “estado do que não muda, do façam sentido as suas práticas, os seus costumes, as que fica sempre igual; consciência da própria per- concepções e as transformações pelas quais passam, sonalidade; conjunto de características e circuns- buscando o fortalecimento de sua identidade. O que vem a ser identidade? Apesar de intimamente ligadas, as duas significa- 24 HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J. ções, cultura e identidade, não se confundem. Pode J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 134 Modulo 01.indd 134 2/6/2009 12:15:55
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    AULA 3 —Cultura e Identidade tâncias que distinguem uma pessoa ou uma coisa e concentradas na aplicação das características mais graças às quais é possível individualizá-la”. adequadas à afirmação de sua identidade; à preser- Caro(a) acadêmico(a), reflita a respeito da sua vação da unidade de seu movimento, à construção de linhas defensivas para suas fronteiras e à manu- identidade. Quem é você? Qual a sua identidade? tenção dos outros a distância... Os fundamentalis- Por que é importante este quesito em sua vida e tas lutam amparados por Deus – no caso de uma para o desenvolvimento local de uma comunidade/ religião teísta – ou pelos sinais de alguma forma de localidade? transcendência (Castells, 2006, p. 29). Castells (2006, p. 22) entende por identidade “a fonte de significado e experiência de um povo”. As- Como sublinha Geertz (1989), a religião é uma severa que há necessidade de distinção entre iden- manifestação cultural, carrega símbolos historica- tidade e aquilo que os sociólogos denominam “pa- mente enraizados, formula conceitos a respeito da péis”. Genericamente identidade organiza significa- existência humana, traduz o caráter e a visão de dos como papéis e funções. mundo de um povo. No entendimento de Yasbek (1999) é por meio A religião une a sociedade, sustenta valores, man- das relações que se constrói identidade. tém a moral, impõe ordem ao comportamento pú- blico, mistifica o poder, racionaliza as desigualda- Não temos conhecimento de um povo que não des, justifica a injustiça (Geertz, 2001, p. 25). tenha nomes, idiomas ou culturas em que algu- ma forma de distinção entre o eu e o outro, nós Isso ocorre visto que a religião se faz valer de uma e eles, não seja estabelecida... O autoconhecimento crença sobrenatural que cria atmosfera distinta, – invariavelmente uma construção, não importa o modo de vida, uma filosofia religiosa. quanto possa parecer uma descoberta – nunca está É por meio da paisagem cultural, carregada de totalmente dissociado da necessidade de ser conhe- seus geossímbolos, que um determinado grupo ins- cido, de modos específicos, pelos outros (Calhoun creve sua cultura no espaço. Também a religião pos- apud Castells, 2006, p. 22). sui seus símbolos, ou seja, marcas que identificam e No esteio dos estudos de Castells (2006), é im- delimitam seu território religioso. portante salientar que a identidade é construída São espaços qualitativamente fortes, constituídos sociologicamente. Em outras palavras, sua matéria- por fixos e fluxos, possuindo funções e formas es- prima é fornecida pela história, geografia, pela me- paciais que constituem os meios por intermédio mória coletiva, pelas instituições religiosas. Todo dos quais o território realiza efetivamente os papéis esse aparato social é metabolizado e enraizado, ofe- a ele atribuídos pelo agente social que o criou e o recendo conteúdo simbólico para a construção da controla (Rosendahl e Correa, 2006, p. 2). identidade de um povo. Por esse motivo, identidade nunca poderá ser situada fora do seu contexto his- Assim entendido, o território religioso abrange tórico! a comunidade de fiéis, não se limitando apenas ao espaço onde está localizado. Castells destaca três processos fundamentais para a construção da identidade: o fundamentalismo reli- Na abordagem da geografia cultural, a territoria- gioso; a identidade étnica e a identidade territorial. lidade religiosa é o conjunto de práticas desenvol- vidas por instituições ou grupos religiosos visando controlar um determinado território. É fortalecida O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO por meio de experiências religiosas individuais ou Os fundamentalistas são seletivos. Podem muito coletivas que o grupo mantém no lugar sagrado e bem julgar estarem abraçando todo o passado em nos itinerários que constituem seu território (Ro- sua forma mais pura, porém suas energias estarão sendahl e Correa, 2006). 135 Modulo 01.indd 135 2/6/2009 12:15:55
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização Na concepção de Castilho (2004), todo homem que dá margem a interpretações alternativas (...) é religioso à medida que busca significado e orien- O provável argumento dos autores comunitaristas, tação para o mundo em que vive. Sob essa ótica, é coerente com minha própria observação intercul- uma expressão inevitável na análise cultural do ter- tural, é que as pessoas resistem ao processo de in- dividualização e atomização tendendo a agrupar-se ritório. Valores religiosos motivam trabalhos sociais em organizações comunitárias que, ao longo do em comunidades locais (Castells, 1999). tempo, geram um sentimento de pertença e, em úl- Para Haesbaert (1997), a identidade territorial é tima análise, em muitos casos, uma identidade cul- criada pela relação existente entre território e terri- tural, comunal. Apresento a hipótese de que, para torialidade, por meio de elementos como a identi- que isso aconteça, faz-se necessário um processo de dade cultural e a identidade religiosa. mobilização social, isto é, as pessoas precisam par- Esse conjunto de fatores impõe que o profissional ticipar de movimentos urbanos (não exatamente de Serviço Social reconheça e respeite a religiosidade revolucionários), pelos quais são revelados e defen- da comunidade/localidade em que estiver inserido. didos dos interesses em comum, e a vida é, de al- gum modo, compartilhada, e um novo significado pode ser produzido (Castells, 2006, p. 79). A IDENTIDADE ÉTNICA Para Mesquita (1995), a territorialidade é vista Ao longo da história da humanidade, a etnia sem- como projeção da identidade do indivíduo, e pre foi uma fonte de significado e reconhecimento. Trata-se de uma das estruturas mais primárias de (...) a territorialidade que comumente vivenciamos distinção e reconhecimento social, como também assume, tenhamos ou não consciência disso, feições de discriminação, em muitas sociedades contem- de uma territorialidade familiar, quando no terri- porâneas, dos Estados Unidos à África subsaariana. tório atualizamos, pela nossa identidade com ele, Ela foi, e é, a base para o surgimento de revoltas na antigos sentimentos de emulação,25 competição ou luta por justiça social (Castells, 2006, p. 71). solidariedade vividos no território familiar. Pode assumir também uma feição sintetizada como ter- Adverte ainda Castells (2006) que a etnia não de- ritorialidade senhorial quando se atualizam e ex- verá jamais ser desprezada no estudo da identidade, pressam raízes de posse (...) fundamentando não pois vem sendo incorporada a princípios como cul- só o sentimento de pertença territorial, como ainda tura, nação, questão de gênero e religião quando o condutas direcionadas a um uso político do territó- assunto é autodefinição cultural. rio. Esta territorialidade senhorial frequentemente vale-se de (...) uma identidade contrastiva em que os outros são os diferentes que não pertencem ao IDENTIDADE TERRITORIAL: A COMUNIDADE nosso território, mesmo que este “nosso” não con- LOCAL figure uma propriedade coletiva, mas apenas de al- O crescimento das cidades, sua nova organização guns (...) (Mesquita, 1995, p. 86). em rede, produz um dos mais antigos debates socio- lógicos, o desaparecimento das comunidades. Estu- Assim, territorialidade funciona como um es- diosos denunciam que essa nova ordenação urbana pelho, onde os homens idealizam seu ambiente, e é fruto da relação entre espaço e cultura. veem suas imagens refletidas, o que os ajuda a to- mar consciência daquilo que eles partilham. As pessoas se socializam e interagem em seu am- Para tanto, é preciso existir políticas de coopera- biente local, seja ele a vila, a cidade, o subúrbio, for- ção, como uma forma de articulação entre o Estado mando redes sociais entre seus vizinhos. Por outro e a sociedade. As políticas públicas sociais devem lado, identidades locais entram em interseção com outras fontes de significados e reconhecimento so- cial, seguindo um padrão altamente diversificado 25 Competição, disputa. 136 Modulo 01.indd 136 2/6/2009 12:15:55
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    AULA 3 —Cultura e Identidade privilegiar a interação entre a cultura e o desen- tado para que haja o aproveitamento da cultura e o volvimento das potencialidades endógenas de cada fomento da identidade, oferecendo meios para que região, como forma de promover a manutenção da essa comunidade/localidade seja protagonista de cultura local, ao mesmo tempo, que essa cultura sua própria história. possa se metabolizar em ferramenta de autonomia e desenvolvimento local. Mais do que ao pesquisador, importa à comuni- Não apenas as políticas sociais públicas, mas dade reconhecer essa autoidentificação cultural e também os profissionais que executam essas polí- assumir esse eficaz instrumento com o objetivo de ticas devem ser sensíveis à realidade, promovendo se tornar protagonista do seu próprio processo de a criação de um canal entre a comunidade e o Es- desenvolvimento local (Kashimoto, 2002). * ANOTAÇÕES 137 Modulo 01.indd 137 2/6/2009 12:15:55
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização AULA Unidade Didática – Desenvolvimento Local ____________________ 4 e Territorialização CAPITAL SOCIAL Conteúdo • Capital social × status quo Competências e habilidades • Compreender o conceito de Capital Social e suas aplicações no DL. Sua relevância está na apreensão, por parte do futuro profissional do Serviço Social, deste importante elemento na análise e interven- ção da questão social. Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com o professor interativo 2 h/a – presenciais com o professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo CAPITAL SOCIAL de produzir renda; bens disponíveis; patrimônio, Inicialmente, é necessário compreendermos o sig- riqueza (...) Derivação: por metáfora. Ex.: sua saú- nificado da palavra capital e o sentido que se preten- de é seu maior capital. de aplicar ao contexto do desenvolvimento local. Em sua obra, Maria Celina D’Araujo (2003, p. O dicionário eletrônico Houaiss26 traz para o ver- 8-9) esclarece que capital é bete capital: (...) uma palavra forte e, como conceito, é um dos (...) adjetivo de dois gêneros: de relevo; principal, mais importantes e mais controversos nas ciências fundamental. Ex.: de importância capital (...) Ru- sociais. Karl Marx, no século XIX, definiu-o como brica: economia, termo jurídico: todo bem econô- o produto da mais-valia (trabalho não-pago) (...) mico aplicável à produção (...) toda riqueza capaz em comum com a economia clássica (...) é o pro- duto do trabalho utilizado para a produção de 26 HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J. outros bens. Modernamente, na área econômica J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 e empresarial, capital pode vir acompanhado de 138 Modulo 01.indd 138 2/6/2009 12:15:55
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    AULA 4 —Capital Social vários adjetivos: capital aberto, capital constante dieu27 reformulou-o, excluindo a ociosidade, o que ou variável, capital de giro, capital de risco, capi- o tornou um atributo individual e coletivo de dis- tal fechado, capital financeiro, capital fixo, capital tinção, apoiado pelo capital econômico, capital cul- intensivo, capital social das empresas. A palavra é tural e o capital relacional ou social (Hermet, 2002, a matriz econômica e ideológica de uma época da p. 101). humanidade, a do capitalismo, que permanecerá al- guns séculos. Remete-nos a mercado, propriedade Para Bourdieu (2002), não há um conceito único privada, trabalho assalariado, recursos econômicos sobre capital social. Ele acredita que este vem sendo e miséria (grifo nosso). utilizado com frequência nas ciências humanas no sentido de compreender a “gênese e natureza da po- Contudo, a autora observa que a palavra capital breza em uma economia” e aplicá-lo na formulação tem sido empregada além dos limites econômico- de políticas públicas. empresariais e relembra ainda que a partir de 1990, O referido autor verifica que o capital social se para fins de avaliação de projetos de desenvolvi- desenvolve sob certas circunstâncias e se deprecia mento, o Banco Mundial passou a distinguir quatro sob outras. Tem no sistema educacional o setor em formas de capital: que se deva investir para a construção do capital so- (...) capital natural, isto é, os recursos naturais de cial, com mais democracia – empoderamento dos que é dotado um país; capital financeiro, aque- pobres. le produzido pela sociedade e que se expressa em Conforme foi demonstrado por Milani (2002) infraestrutura, bens de capital, capital financeiro, em sua pesquisa, Bourdieu compreende então o ca- imobiliário, entre outros; capital humano, defini- pital social como um conjunto de recursos reais ou do pelos graus de saúde educação e nutrição de potenciais resultantes do fato de pertencer, há muito um povo; e, finalmente, capital social, que expressa, tempo e de modo mais ou menos institucionaliza- basicamente, a capacidade de uma sociedade esta- belecer laço de confiança interpessoal e redes de co- do, a redes de relações de conhecimento e reconhe- operação com vistas à produção de bens coletivos. cimento mútuos. Segundo o Banco Mundial capital social refere-se O referido sociólogo parte do princípio de que o às instituições, relações e normas sociais que dão capital e suas diversas expressões (econômico, his- qualidade às relações interpessoais em uma dada tórico, simbólico, cultural, social) podem ser pro- sociedade (D’Araujo, 2003, p. 9-10). jetados a diferentes aspectos da sociedade capitalis- ta e a outros modos de produção, desde que sejam Vários são os autores que versam sobre esse tema; considerados social e historicamente limitados às Eduardo Loebel (2006, p. 2), em uma pesquisa ex- ploratória sobre as noções de capital social e seus circunstâncias que os produzem, promovendo be- usos no combate à pobreza no Brasil, verifica que: nefícios individuais e para a classe social a qual per- tençam. (...) a ideia em si não é nova, autores clássicos como Adam Smith, Karl Marx, Émile Durkheim, Thors- tein Veblen, Max Weber, entre outros, escreveram 27 Pierre Félix Bourdieu (1930-2002). Importante sociólogo francês cuja sobre a importância dos fatores sociais e culturais discussão sociológica centralizou-se na tarefa de desvendar os meca- no desenvolvimento e nas trocas econômicas. nismos da reprodução social que legitimam as diversas formas de dominação. Para empreender essa tarefa, Bourdieu desenvolve con- A sentença capital social foi sugerida por Veblen ceitos específicos, retirando os fatores econômicos do epicentro das análises da sociedade a partir de um conceito concebido por ele como (1899) para designar o conjunto de atributos espe- violência simbólica, no qual advoga acerca da não arbitrariedade da cíficos da classe ociosa, que usava o capital social, produção simbólica na vida social, advertindo para seu caráter efeti- vamente legitimador das forças dominantes, que expressam por meio juntamente com o monetário, para viver elegante- delas seus gostos de classe e estilos de vida, gerando o que ele pretende mente do trabalho alheio. Posteriormente, Bour- ser uma distinção social. 139 Modulo 01.indd 139 2/6/2009 12:15:55
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização Em sua experiência de desenvolvimento local no sença e à qualidade das relações sociais para a pro- município de Pintadas (Bahia), Carlos Milani bus- moção do desenvolvimento, explicitando as rela- cou significados (práticas e expressões) do capital ções sociais institucionalizadas por meio de normas social no projeto de desenvolvimento local a fim de ou de redes sociais, pois representam acúmulos de verificar empiricamente as possíveis relações entre práticas sociais culturalmente coligadas na história tais significados e o projeto de transformação social, das relações de grupos, comunidades ou classes so- investigando acerca da importância desse conceito ciais (Correa, 2003). para compreender as estruturas de poder local e Em seus argumentos, Coleman (1990, apud Kli- para analisar o desenvolvimento local em sua com- ksberg, 2001, p. 117) entende que capital social exis- plexidade. te tanto no plano individual, porque está relaciona- Coleman (1988 apud Hermet, 2002, p. 102) “in- do ao grau de interação do indivíduo e sua rede de terpreta o capital social como um recurso inscrito contatos sociais, como no coletivo, quando explicita no modo de organização econômica e social de uma normas que beneficiam toda a comunidade, produ- população, ou melhor, como um ‘bem coletivo’ (...)” zindo um bem público, como a questão da seguran- do qual não se pode apropriar individualmente. O ça da população. autor manifesta a ideia de que o capital social en- Seria oportuno evidenciar que para Newton contra-se imbricado nas normas vigentes das rela- (1997, apud Kliksberg, 2001, p. 117), o capital social ções sociais, por essa razão é capaz de fortalecer esse é visto como um fato natural subjetivo, associado vínculo e ainda gerar laços de confiança entre si. a “(...) valores e atitudes que influenciam como as Vale salientar que capital social não é sinônimo pessoas se relacionam entre si. Inclui confiança, de “capital humano, baseado em capacidades, em normas de reciprocidade, atitudes e valores (...)” conhecimentos ou em criatividade puramente indi- que ajudam a transformar conflitos em cooperação viduais” (Hermet, 2002, p. 102). e ajuda mútua. Por meio das ações coletivas e o uso Para Coleman (1990), capital social são os recur- comunitário de recursos, o capital social estimula a sos sociais – a crença na estrutura social, as relações solidariedade e supera as falhas de mercado. de amizade e confiança, entre outros – apontado-o Tem, portanto, profunda ligação com a união das como facilitador de certas ações que podem ser úteis sociedades, comunidades ou grupos sociais. Essa união ou não para a comunidade. de valores, crenças, comportamentos e conhecimento O grande valor desse conceito, para Coleman possibilita a geração de benefícios que podem ser vis- (1990), está na possibilidade de identificar certos tos como estratégias de desenvolvimento, atingindo aspectos funcionais da estrutura social que propor- toda a comunidade, o Estado e o setor privado, no qual cionam aos atores sociais recursos para a realização a cultura ocupa um papel fundamental. de seus interesses. Segundo o percuciente parecer de Kliksberg Dias Júnior (2001), em sua dissertação de mes- (2001), a cultura é o elemento do capital social que trado, enfatiza que, para Coleman (1990), o capital incide sobre o estilo de vida dos diversos grupos so- social possibilita, por meio dos esforços somados das ciais e sua potencialização e afirmação podem de- comunidades, ganhos sociais importantes para as sencadear enormes potenciais de energia criativa, pessoas e para a sociedade, pois esta poderá munir- sendo fator primordial na coesão social, a alavanca se de possibilidades que, em conjunto com outros principal do desenvolvimento, desde que se criem tipos de capital e com o auxílio do Estado, poderão condições adequadas para tal, sua importância já foi transformar positivamente sua realidade social. abordada na aula anterior. A locução capital social designa uma ampliação A interação das empresas, da comunidade, dos do vocábulo capital que empresta significado à pre- intermediários comerciais e financeiros exige o de- 140 Modulo 01.indd 140 2/6/2009 12:15:55
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    AULA 4 —Capital Social senvolvimento de uma nova institucionalidade de- D’Araujo (2003, p. 11), razão pela qual conhecer sua mocrática, moderna, representativa e transparente pesquisa é ímpar para a compreensão e apreensão que possibilite a participação da população nas de- do conceito de capital social. cisões que envolvem o capital social de determinada Putnam (1996), intrigado pelos determinantes região, sendo necessários mecanismos diferenciados que levam alguns governos democráticos a lograr de gestão que possam articular o governo e as insti- êxito e outros não, desenvolve na Itália, a partir de tuições locais com a comunidade (Correa, 2003). 1970, uma pesquisa, com duas décadas de duração, Esse tipo de gestão depende dos mecanismos de- cuja finalidade é acompanhar as reformas político- mocráticos que possam gerar oportunidades para o administrativas pelas quais passara aquele país. envolvimento de pessoas na vida social, econômica Nessas duas décadas investiga a reforma institu- e política de uma determinada região, como a or- cional, suas consequências positivas e negativas, as ganização popular, os diálogos entre as pessoas e os variáveis que facilitaram ou dificultaram o processo, espaços de participação (Correa, 2003). bem como o processo em si do ideário ao concreto, É preciso haver políticas de cooperação, como passando pela resistência da situação, frustração dos uma forma de articulação entre o Estado e a socie- ideólogos, participação da sociedade e sua avaliação dade, para o desenvolvimento de um trabalho asso- quanto às vantagens e desvantagens da referida re- ciativo na sociedade civil. forma. Seu objetivo é teórico e o método utilizado Bandeira (1999, apud Correa, 2003) atesta que foi o empírico. qualquer proposta de política pública que vise à O ano de 1970 na Itália foi marcado pela tenta- ampliação do capital social regional, por meio de tiva de maior democratização do Estado em todo o práticas participativas, terá que manter o apoio ins- mundo e a grande questão era desvendar se a refor- titucional, a credibilidade e a sustentação política ma institucional pela qual passava o país provocaria da proposta. Por isso, é necessário que haja novos uma alteração no comportamento político. modelos de atuação governamental, de formulação A experiência de elaboração constitucional em e gestão de políticas públicas para o desenvolvimen- todo o mundo mostrava-se nem sempre suficiente to regional endógeno. para promover a ruptura dos paradigmas ineren- Para Abu-El-Haj (1999), o sucesso de qualquer tes à prática política, conforme assinala Deschanel ação coletiva depende da capacidade de mobiliza- (apud Putnam, 1996, p. 33) com a expressão: “vinho ção dos recursos de poder que consiste na formação velho em garrafas novas”. de grupos políticos compostos por várias comuni- Assim sendo, tomando por base os acontecimen- dades, os quais teriam poderes para desencadear tos históricos, Putnam (1996) decide investigar em- uma ação social que modificasse as forças políticas piricamente se o êxito de um governo democrático e, consequentemente, a intervenção pública. depende de uma comunidade cívica28 a qual é carac- Discorrer sobre capital social sem mencionar e re- terizada pela participação nos negócios públicos, o comendar Robert Putnam é absolutamente inócuo, que implica direitos e deveres iguais a todos – igual- não que o conceito não fora anteriormente aborda- dade política. do, como acabamos de demonstrar; contudo, esse Tal comunidade se mantém unida por relações autor ganhou notoriedade por meio de sua obra horizontais de reciprocidade e cooperação e não Comunidade e democracia: a experiência da Itália por relações verticais de autoridade e dependência. moderna, publicada pela primeira vez em 1993. Logo, a obra em questão se tornou um clássico 28 Civismo: dedicação e fidelidade ao interesse público; patriotismo, ci- das ciências sociais e de áreas como estatística, me- vilismo. Cívico: patriótico, referente ao cidadão como elemento inte- todologia, economia, entre outras, como assevera grante do Estado, que tem deveres para com o Estado. 141 Modulo 01.indd 141 2/6/2009 12:15:55
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização Os cidadãos de uma comunidade cívica são pres- ausência facilita a instalação da corrupção e, no tativos, respeitosos e confiantes, ainda que suas opi- caso estudado, foi decisiva para o estabelecimento niões sejam divergentes. Existe o conflito, porém ele da Máfia italiana. se estabelece num ambiente de confiança, solidarie- Mesmo um governo austero torna-se enfraque- dade e tolerância. cido pelo contexto social menos cívico. Provavel- Em sua trajetória de pesquisador, o autor em mente é essa a explicação razoável da ineficácia do questão obtém dados suficientes para a verificação Estado italiano no combate à Máfia, nos últimos 50 de que a participação política em regiões menos cí- anos. Em regiões mais cívicas, o governo pode ser vicas é induzida pelo clientelismo e não por ques- mais brando por poder contar com a cooperação e tões públicas. a autodisciplina de seus cidadãos. Por exemplo, verificou-se que em regiões cujos De 1975 a 1989 foi realizada uma sondagem na- cidadãos usam o voto preferencial e não o referen- cional quanto à satisfação com a qualidade de vida do, não pertencem a associações cívicas, não têm dos indivíduos. Não foi surpresa ao pesquisador ve- o hábito da leitura de jornais e ainda, mantêm um rificar que em regiões mais cívicas a coisa pública relacionamento mais estreito com os seus represen- era mais bem administrada e apresentava maior efi- tantes políticos, instituiu-se uma política cliente- cácia, consequentemente, os indivíduos eram mais lista personalizada. Pelo viés proposto por Putnam satisfeitos e mais felizes do que em regiões menos (1996), o voto preferencial incide onde não há co- cívicas. munidade cívica. Nas regiões mais cívicas, o autor encontrou uma extraordinária rede de solidariedade social, ! SAIBA MAIS: uma população de espírito público e uma das áre- as mais desenvolvidas tecnologicamente na face • Voto preferencial: é aquele no qual os elei- da terra. tores, se quiserem, podem indicar sua pre- Nessas regiões constatou-se a presença das mais ferência por um determinado candidato contemporâneas arquiteturas da península, con- integrante da chapa que escolheram. trariando o pensamento do sociólogo alemão Fer- • Referendo: um direito concedido ao cida- dinand Tönnies que afirmava que a modernidade dão de se manifestar, por meio do voto, não indicava necessariamente espírito cívico, nas sobre questões de interesse nacional. palavras de Putnam “era inimiga da civilidade” (Putnam, 2006, p. 127). Além das questões concentradas no compor- Putnam, com diligência, segue suas investigações tamento do cidadão comum, é possível analisar a no sentido de descobrir como as regiões cívicas vie- existência, ou não, de uma comunidade cívica a ram a tornar-se o que são, em outras palavras, onde partir do caráter das elites políticas. As atitudes da e por que se deu início a esse processo. elite e das massas são os dois lados de uma mesma É impossível analisar as causas de as regiões cívi- moeda, que se combinam num equilíbrio que se re- cas terem o modelo atual, sem antes nos remeter- força mutuamente. mos a mil anos atrás quando os italianos emergiam Apesar de sua politização, os cidadãos das regi- do obscurantismo da Idade Média. ões menos cívicas demonstraram um sentimento • Século 11: desestabilização do sistema imperial de exploração, impotência e alienação. Sentimento de governo – bizantino no sul e germânico no comum até mesmo entre os mais instruídos. norte. Honestidade, confiança e observância da lei são • Surge no sul um reino poderoso alicerçado em características da comunidade cívica, porém a sua tradições bizantinas e árabes. 142 Modulo 01.indd 142 2/6/2009 12:15:55
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    AULA 4 —Capital Social • No norte, as tentativas de restauração do impé- Com a Revolução Industrial, emerge a necessida- rio naufragaram, prevalecendo o princípio da de de criação de novas formas de solidariedade so- autonomia local. cial e econômica. Devido à turbulência e à incerteza Nas regiões norte e central da Itália surgia uma que marcavam a época, muitos buscavam amparo e forma de governo autônomo sem precedentes, cuja conforto na camaradagem organizada, começando principal característica era a capacidade de seus ci- a surgir novas associações em substituição às que dadãos estabelecerem as leis que governariam suas anteriormente haviam sido abolidas. vidas. Não há registros históricos sobre a vida social A autoridade eclesiástica é superada pelas asso- italiana no início do século 19, mas é provável que ciações leigas. O regime medieval assolara as cidades tenham surgido tendências semelhantes durante o de ambas as regiões, sul e norte, porém a solução Renascimento, despertando os italianos para a ação encontrada nas cidades da região norte baseava-se política que culminou na unificação política da Itá- mais na colaboração horizontal, ao contrário das lia. Os argumentos para essa unificação baseavam- relações verticais de dependência e autoridade ob- se principalmente no “princípio de associação”. servadas nas cidades sulistas. Desenvolveram-se na Itália pós-unificada as so- Enquanto no sul a riqueza era proveniente da ciedades de mútua assistência – uma versão daquilo terra, no norte era resultante das finanças e do co- que no século 20 conheceríamos como Estado pre- mércio. Iniciam-se as atividades bancárias e de co- videnciário. mércio exterior fundamentadas essencialmente nas Surgiram as cooperativas cujo princípio con- relações contratuais de confiança. servador era o de autoajuda. Tinham por objetivo As normas e os sistemas de participação cívica melhorar as condições de seus membros e buscar proporcionaram às repúblicas comunais do nor- mudanças na ordem econômica vigente. Propaga- te da Itália revolucionárias formas de instituições ram-se por todos os setores da economia assumin- políticas e econômicas. Seus vínculos horizontais do a forma de cooperativas agrícolas, cooperativas de relacionamento – colaboração e solidariedade de trabalhadores, cooperativas de crédito, coopera- – constituíram uma terra fértil ao desenvolvimen- tivas de bancos rurais, cooperativas de produtores e to político e econômico, fortalecendo ainda mais a cooperativas de consumidores. comunidade cívica. Estudiosos das organizações das classes trabalha- Esse século fora marcado também pelo sectaris- doras concluíram que tal variedade atribuiu à Itá- mo, pela fome, pela Peste Negra, pela Guerra dos lia um lugar único no mundo da cooperação. Essas Cem Anos que, somados, começaram por minar o formas de solidariedade social organizada, porém espírito da comunidade cívica e do governo repu- voluntária, expandiram-se rapidamente nas últimas blicano. duas décadas do século 19. Mesmo diante de um retrocesso social e eco- A combinação desconfiança e pobreza corrobora- nômico provocado pela depredação estrangeira e ram com o insucesso da solidariedade horizontal nas pelas epidemias, o ideal vita civile manteve-se vivo regiões do sul. Isso não significa afirmar que os sulistas nas regiões cujas tradições eram republicanas co- eram desprovidos de habilidade política, ao contrário, munais. esta era fundamental à sobrevivência nessa região. No sul, um contraste duradouro foi observado. Verifica-se apenas que esse lado da península re- O legado medieval contribuiu para que o governo fugiou-se nos vínculos verticais do clientelismo. Era permanecesse feudal e autocrático; as instituições um povo marcado pela submissão a qual propiciou políticas autoritárias eram reforçadas pelos víncu- o surgimento e instalação de outra forma de poder los sociais verticais. – o crime organizado. 143 Modulo 01.indd 143 2/6/2009 12:15:56
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização Ainda que historiadores, antropólogos e crimino- xas: as regras de reciprocidade e os sistemas de parti- logistas discordem quanto as suas origens históricas, cipação cívica. todos concordam que as tradições clientelistas e as As duas décadas de reformas institucionais anali- deficiências estruturais administrativas e judiciais do sadas por Putnam (1996) são suficientes para detec- Estado contribuíram com o advento da Máfia, que tar o impacto no comportamento político, porém encontrou descanso no solo fértil da desconfiança. Na insuficientes para aferir as mudanças culturais e na ineficiência do Estado, a máfia encontrou espaço para estrutura social. É ilusão acreditar em uma mudan- oferecer proteção contra o banditismo. Sua atividade ça estrutural sob iniciativa externa. Se a democracia mais específica consistia em produzir e vender algo in- é almejada, há que se incitar o capital social e, para dispensável nas transações econômicas: a confiança. tanto, devem-se investir esforços na endogeinização As diferenças entre as regiões norte e sul já ha- das estruturas locais. viam sido confirmadas historicamente, segundo A pesquisa de Robert Putnam torna evidente o Putnam (1996), bem como as tradições cívicas, diagrama abaixo: porém o pesquisador dirige-se para a investigação quanto à durabilidade dessas tradições. BOM DESEMPENHO INSTITUCIONAL Ao autor fica claro que teria sido possível prever o ⇑ êxito ou o fracasso do governo regional na Itália nos COMUNIDADE CÍVICA anos 1980, fundamentando-se no grau de participa- ⇑ ção cívica existente há um século. CONSCIÊNCIA DE SEUS DEVERES DE CIDADÃO Para Putnam (1996), no último século as tradi- ⇑ ções regionais de participação cívica favorecem a ex- COMPROMISSO COM A IGUALDADE POLÍTICA plicação da diferença no nível de desenvolvimento, ⇑ ou seja, talvez o desenvolvimento econômico possa ser explicado por meio do civismo e não o inverso. RECIPROCIDADE Mas por que algumas instituições formais supe- ⇑ ram a lógica da ação coletiva e outras não? COOPERAÇÃO Essa incógnita deverá ser compreendida a partir ⇑ do contexto social em que ela ocorre. “A cooperação CONFIANÇA voluntária é mais fácil numa comunidade que te- ⇑ nha herdado um bom estoque de capital social sob a VIRTUDE CÍVICA forma de regras de reciprocidade e sistemas de par- ticipação” (Putnam, 2006, p. 177). Capital social é entendido aqui como confiança, normas e sistemas ! SAIBA MAIS: que visem elevar a eficiência de uma sociedade. “Capital social é produtivo, possibilitando a Assim sendo, o capital social funciona como uma realização de certos objetivos que seriam inal- espécie de garantia, da mesma forma que o capital cançáveis se ele não existisse.” (Putnam, 1996) convencional e facilita a cooperação espontânea. Assim, as relações sociais já existentes em um grupo servirão como respaldo para o bom funcionamento A investigação de Putnam (1996) e de seus cola- do mesmo. A confiança pessoal se transforma em boradores revela que nas duas décadas seguintes à confiança social. criação dos governos regionais, as regiões tradicio- Em contextos modernos e complexos, observa-se nalmente cívicas cresceram mais rapidamente que que a confiança social advém de duas fontes cone- aquelas de estrutura hierárquica. 144 Modulo 01.indd 144 2/6/2009 12:15:56
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    AULA 4 —Capital Social De duas regiões igualmente desenvolvidas, em buindo com a transformação dessa comunidade em 1970, sob o ponto de vista econômico, aquela cujo sujeito de seu próprio desenvolvimento, investida sistema de participação cívica era mais desenvolvi- de direitos, mas também de responsabilidades. do cresceu consideravelmente mais rápido nos anos subsequentes. Portanto, esse estudo sugere a existência de: ! SAIBA MAIS: • Uma forte correlação entre associações cívicas Quando interrogado se havia deixado de ser e instituições públicas eficazes. sociólogo para ser político, respondeu: “Por que a política? Penso que uma das razões importan- ⇑ Associações ⇒ Instituição ⇑ cívicas pública eficaz tes de se querer entender o mundo é ter interesse político pelo mundo. O que não quer dizer uma ⇓ Associações ⇒ Instituição ⇓ tomada de posição política sobre o mundo. (...) cívicas pública eficaz Contudo, penso que ter um interesse político é algo absolutamente fundamental para um inte- • Uma correlação positiva entre o capital social lectual...” e o bom desempenho governamental e econô- Pierrre Bourdieu mico. ⇑ Capital ⇔ Economia forte social Estado forte Infere-se disso que a economia não pode ser usa- * ANOTAÇÕES da para prognosticar o civismo, e sim este certa- mente prognosticará a economia, mais até do que a própria economia. Os dados aqui apresentados incitam ao debate so- bre os territórios além das fronteiras das regiões sul e norte da Itália, o denominado Terceiro Mundo. Sem dúvida, o Brasil exibe ainda um conjunto de graves problemas sociais que afetam amplos setores da sociedade. Apesar de ser um país com tantos recursos natu- rais, com capacidade técnica e uma larga experiência no campo social, continua apresentando deprimen- tes diagnósticos de pobreza e essa é uma situação que convoca toda a sociedade a se movimentar ética e politicamente. Pode-se buscar fundamentação teórico-metodo- lógica na obra de Putnam para os transtornos so- ciais aqui apresentados? Aos futuros profissionais do Serviço Social fica o desafio de aplicar os conhecimentos aqui apresenta- dos, a fim de fomentar o capital social positivo nas comunidades com as quais irão trabalhar, contri- 145 Modulo 01.indd 145 2/6/2009 12:15:56
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização AULA 5 Unidade Didática – Desenvolvimento Local ____________________ e Territorialização POTENCIALIDADE E COMUNIDADE Conteúdo • Conceito de Potencialidade • Conceito de comunidade • Relevância e aplicação para o DL Competências e habilidades • Oferecer subsídios para compreender sua importância. Identificar e promover as peculiaridades/ potencialidades de cada comunidade/localidade. Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com o professor interativo 2 h/a – presenciais com o professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo POTENCIALIDADE E COMUNIDADE dade social e histórica), no sentido de ela mesma Inicialmente é necessário compreendermos o – mediante ativa colaboração de agentes externos e que é comunidade e potencialidade e sua aplicação internos – incrementar a cultura da solidariedade em no contexto do DL. seu meio e se tornar paulatinamente apta a agenciar (discernindo e assumindo entre rumos alternativos de Recordemos o que Ávila (2003 apud Coelho, 2009 reorientação do seu presente e de sua evolução para p. 9-10) versa a respeito do DL. o futuro aqueles que se lhe apresentem mais consen- (...) o “núcleo conceitual” do desenvolvimento local tâneos) e gerenciar (diagnosticar, tomar decisões, consiste no efetivo desabrochamento – a partir do agir, avaliar, controlar etc.) o aproveitamento dos rompimento de amarras que prendam as pessoas em potenciais próprio – ou cabedais de potencialidades seus status quo de vida – das capacidades, compe- peculiares à localidade –, assim como a “metaboli- tências e habilidades de uma “comunidade defini- zação” comunitária de insumos e investimentos da” (portanto com interesses comuns e situada em públicos e privados externos, visando à processual (...) espaço territorialmente delimitado, com identi- busca de soluções para os problemas, necessidades 146 Modulo 01.indd 146 2/6/2009 12:15:56
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    AULA 5 —Potencialidade e Comunidade e aspirações, de toda ordem e natureza, que mais de indivíduos, inclusive de nações diferentes, liga- direta e cotidianamente lhe dizem respeito (grifos do por determinada consciência histórica e/ou por do original). interesses sociais e/ou culturais e/ou econômicos e/ou políticos comuns. Ex.: <a c. europeia do carvão Segundo Houaiss29 (2001), o termo comunidade é e do aço> <a c. cristã mundial> <a c. latino-ame- conceituado como: ricana>; (...) Rubrica: biologia, ecologia – conjunto de populações que habitam uma mesma área ao (...) substantivo feminino – estado ou qualidade das mesmo tempo; (...) Rubrica: termo jurídico – pos- coisas materiais ou das noções abstratas comuns a se ou domínio exercido ao mesmo tempo por duas diversos indivíduos; comunhão; (...) conjunto de ou mais pessoas sobre a mesma coisa que, por sua indivíduos organizados num todo ou que mani- natureza ou destinação, se encontra indivisa. Ex.: c. festam, ger. de maneira consciente, algum traço de de bens; (...) Rubrica: termo jurídico – direito ou união. Ex.: a c. dos artistas; (...) conjunto de habi- obrigação comum (...). tantes de um mesmo Estado ou qualquer grupo social cujos elementos vivam numa dada área, sob Antônio Houaiss, habitualmente auspicioso em um governo comum e irmanados por um mesmo sua definição de comunidade, oferece subsídios à legado cultural e histórico. (...) Rubrica: sociologia percepção acadêmica quanto a essa importante – população que vive num dado lugar ou região, categoria, que vai além das “comunidades pobres” ger. ligada por interesses comuns (...) Derivação: muito mencionadas aos profissionais de Serviço So- por metonímia – essa região ou esse lugar. Ex.: a c. cial, enquanto para o DL comunidade se configura do ABC paulista; (...) Derivação: por extensão de como o ajuntamento/agrupamento de pessoas que sentido – (...) qualquer agrupamento populacional; têm algo em comum. (...) Derivação: por extensão de sentido – grupo monástico ou outro qualquer grupo de religiosos, Assim sendo, cabe ao assistente social “desvelar” com hábitos de vida e ideais comuns, codificados os traços e os interesses comuns dessa comunidade/ numa regra; ordem, congregação, confraria. Ex.: a localidade, antes é claro, ser aceito por ela, e para c. dos beneditinos; (...) Derivação: por metonímia isso é preciso lançar mão de mecanismos de aproxi- – qualquer grupo de indivíduos unidos pela mesma mação da localidade em voga que em Serviço Social profissão ou que exerça uma mesma atividade. Ex.: costumeiramente denomina-se de “a benzedeira”. <a c. dos médicos> <a c. dos lexicógrafos>; (...) con- Esse termo refere-se àquela pessoa chave que, junto de indivíduos com determinada característi- ainda que velado, em caráter extraoficial, ocupa ca comum, inserido em grupo ou sociedade maior o lugar de máxima confiança e representativida- que não partilha suas características fundamentais. de nessa comunidade, e é, por esse motivo, capaz Ex.: <a c. japonesa de São Paulo> <a c. de artistas de lhe “abrir as portas” para o trabalho na mesma: de Arcozelo> <a c. Sikh da Índia>; (...) Derivação: pode ser o padre, o líder comunitário, o bombeiro por extensão de sentido – grupo de indivíduos que que lá reside, ou mesmo a benzedeira, ou qualquer partilha uma crença econômica ou social particular outra pessoa que represente as características aci- e vive em conjunto. Ex.: uma c. hippie; (...) Deriva- ma descritas. ção: por extensão de sentido – grupo de indivíduos que partilha um interesse comum. Ex.: <a c. dos Com base nos conceitos oferecidos, Ávila (2000, p. orquidófilos> <a c. dos torcedores de futebol>; De- 71-73) aponta que nas comunidades seus membros rivação: por metonímia – grupo de indivíduos liga- “se articulam e interagem através de relacionamen- dos por uma política de ação comum. Ex.: a c. dos tos primários e secundários”. Os primeiros referem- liberais; (...) Derivação: por metonímia – conjunto se a vínculos cotidianos, informais e espontâneos; neles as pessoas se avaliam e controlam esse relacio- 29 HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J. namento como, por exemplo, os vizinhos, os amigos J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. etc. Por outro lado, os relacionamentos secundários 147 Modulo 01.indd 147 2/6/2009 12:15:56
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização se fundamentam em regras formais, como leis, es- sua capacidade de realização/criação, visto que esta tatutos, regulamentos e são de controle externo aos é imanente do ser humano! indivíduos que deles fazem parte. Do que se trata então a potencialidade? Tudo O autor supracitado define comunidade stricto aquilo que o indivíduo ou o grupo pode canalizar/ sensu como aquela em que há predomínio dos “re- conduzir/produzir para um determinado fim. lacionamentos primários sobre os secundários até o Ávila (2001, p. 44) sublinha potencialidade como ponto do equilíbrio e a comunidade lato sensu estará “(...) caráter do que pode ser produzido, ou produ- se configurando a partir do ponto de desequilíbrio zir-se, mas ainda não existe (...), ou ainda, (...) fonte em favor dos relacionamentos secundários”. original da ação”. O que nos convém verificar é que não haja tal Em que pesem as ideias sustentadas por Thon- desequilíbrio. A “comunidade média ideal”, esclarece nard (apud Ávila, 2001, p. 50), é preciso observar Ávila (2001, p. 33), que potencialidade é (...) para efeito do desenvolvimento local é aque- (...) uma força capaz de dirigir o movimento, de la stricto sensu em que haja certa (não exagerada) forma a assegurar as condições necessárias ao bem preponderância dos relacionamentos primários de cada ser (finalidade imanente) e ao bem do uni- sobre os secundários ou no máximo se constate o verso (finalidade extrínseca). Este princípio, cha- equilíbrio entre essas duas categorias: a localidade mado finito porque é fonte de determinação e de demasiadamente primarizada é muito conservado- harmonia, por oposição à matéria, fonte de mu- ra e fechada, tendendo a se manter no isolamento. danças desordenadas, é a participação no mundo E a muito secundarizada já se encontra esfacelada das ideias. em termos de seus comuns sentimentos, interesses, objetivos, perfis de identidades e outros laços de co- Uma vez conceituada a palavra comunidade, com- esão espontânea, sem os quais o desenvolvimento preendeu-se que o termo não faz alusão apenas às não emergirá de dentro para fora da própria comu- comunidades pobres e sim ao ajuntamento de indi- nidade (...). víduos com características e/ou interesses comuns, Na continuidade dessa aula, verificamos que po- bem como potencialidade como caráter daquilo a tencial30 é um ser fomentado. Todavia, em conformidade com as análises de (...) substantivo masculino: conjunto de qualidades Garcia (2007, p. 14- 15), inatas de um indivíduo; potencialidade. Substan- tivo feminino: capacidade, faculdade, inteligência, (...) o Brasil exibe ainda um conjunto de graves possibilidade, talento, virtualidade; (...) indica ca- problemas sociais que afetam amplos setores da racterística ou condição do que é potencial; (...) po- sociedade. Apesar de ser um país com tantos recur- tencial refere-se a um conjunto de qualidades, ca- sos naturais, com capacidade técnica e uma larga pacidade de realização e capacidade não posta em experiência no campo social, continua apresentan- prática; filosofia: no aristotelismo, que se encontra do deprimentes diagnósticos de pobreza (...) essa em potência, em estado inacabado; que ainda não é uma situação que convoca toda a sociedade a se desenvolveu plenamente suas tendências inatas ou movimentar ética e politicamente. intrínsecas; que ainda não atingiu a plenitude de sua forma final (...). Assim sendo, o profissional de Serviço Social terá uma maior probabilidade em trabalhar com comu- Para fins didáticos, destaca-se o conceito de Aris- nidades empobrecidas ou decorrentes delas e, nesse tóteles, ou seja, aquilo que ainda não atingiu toda a viés, é ímpar evidenciar as peculiaridades de cada comunidade/localidade. Salientam-se aqui as espe- 30 Ibid. cificidades positivas e não as negativas, pois essas os 148 Modulo 01.indd 148 2/6/2009 12:15:56
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    AULA 5 —Potencialidade e Comunidade meios de comunicação de massa já o fazem, e dia- atendimento às carências materiais, mas a identifi- riamente. cação e a promoção das qualidades, capacidades e É determinante que na elaboração cotidiana de competências existentes na comunidade e no lugar seu plano de ação o profissional de Serviço Social (Rozas, 1998, apud Martins, 2002, p. 53). lembre-se de que o desenvolvimento endógeno (...) é a organização comunitária em torno de um ! SAIBA MAIS: planejamento para o desenvolvimento, por uma “(...) é muito fácil contar as sementes que perspectiva de construção social, constituindo as- tem uma maçã, mas nunca sabemos quantas sim em um instrumento fundamental, de caráter maçãs existem em cada semente.” orientador e condutor, de superação da pobreza. (Vitor Hugo em entrevista para Garcia 2007) Não se trata, contudo, de buscar tão somente o * ANOTAÇÕES 149 Modulo 01.indd 149 2/6/2009 12:15:56
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização AULA ____________________ 6 Unidade Didática – Desenvolvimento Local AGENTES DO DESENVOLVIMENTO LOCAL e Territorialização E DIMENSÕES METODOLÓGICAS Conteúdo • Agentes do DL • Metodologia para o DL Competências e habilidades • Conceituação, subsídios metodológicos e aporte teórico para o acadêmico de Serviço Social. Sua ênfase está na dimensão metodológica e na diferenciação do papel do agente do DL como mediador social e não “solucionador” social. Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com o professor interativo 2 h/a – presenciais com o professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo AGENTES DO DL E DIMENSÕES (...) que ou quem atua, opera, agencia; (...) que ou METODOLÓGICAS quem agencia negócios alheios; (...) pessoa ou algo que produz ou desencadeia ação ou efeito; (...) o Na busca pela compreensão da temática em des- que origina (alguma coisa); causa, motivo; (...) o taque indica-se, como de costume, o significado dos que impulsiona; propulsor; (...) Rubrica: medicina vocábulos mencionados no título desta aula. – força ou substância ativa capaz de produzir um Agente, segundo o dicionário eletrônico Houaiss efeito (...). (2001),31 configura-se como: Enquanto o termo metodologia é definido como: Rubrica: lógica – ramo da lógica que se ocupa dos 31 HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J. métodos das diferentes ciências 1.1 parte de uma J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. ciência que estuda os métodos aos quais ela própria 150 Modulo 01.indd 150 2/6/2009 12:15:56
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    AULA 6 —Agentes do Desenvolvimento Local e Dimensões Metodológicas recorre 1.2 Rubrica: literatura – em literatura, in- sua vida e as dos companheiros da equipe técnica. vestigação e estudo, segundo métodos específicos, A dinâmica metodológica do desenvolvimento local dos componentes e do caráter subjetivo de uma tem muito a ver com essa metodologia de alpinis- narrativa, de um poema ou de um texto dramáti- ta: todo mundo de fora pode e deve apoiar a co- co Derivação: por extensão de sentido – corpo de munidade em sua escalada, mas sem querer levá- regras e diligências estabelecidas para realizar uma la no “colo” nem pretender construir ou contratar pesquisa; método. guindaste para içá-la lá em cima. Isso, pelo motivo de que, em relação à própria escalada do proces- Metodologia e agentes de desenvolvimento local so, quem de fato tem de encontrar as posições para são temas que se entrelaçam. Aliás, como todos de- cravar os “grampos” e dar os sucessivos passos é vem ter observado, as proposições enfatizadas nas a própria comunidade. No futebol, por exemplo, aulas até aqui ministradas são fios de uma mesma quem joga e de fato ganha jogo são os jogadores: rede, dissecada unicamente para fins pedagógicos. se não jogarem e ganharem, nenhum treinador e Sem dúvida trata-se de um mesmo assunto, todavia respectiva equipe técnica, por melhores que sejam, de caráter inesgotável. jamais jogarão e ganharão no lugar deles. Ávila (2003, p. 28-29) sugere a seguinte parábola Aos agentes do DL cabe oferecer subsídios para intitulada Alpinismo da comunidade para interpre- a escalada comunitária, visto que conceitualmen- tar o sentido da metodologia do desenvolvimento te o DL visa ao desabrochar da comunidade para local. Peço licença para citá-la na íntegra. a qualidade de sujeito das questões que lhes dizem O alpinista, quando quer realizar uma grande e respeito, o que seria invalidado se o agente “içasse o importante escalada, se prepara muito bem, ou guindaste” da referida comunidade. seja, cuida de seu estado de saúde, testa sua resis- Ávila (2001, p. 66) advoga a ideia de que o ver- tência física (ao esforço da subida, à rarefação do dadeiro agente no DL é aquele que “efetivamente ar, ao estresse prolongado etc.), estuda e testa seu age simultaneamente agenciando”,32 ou seja, que se equipamento, pesquisa e analisa as circunstâncias envolve intermediando pessoas, realidades, proble- meteorológicas, procura prever o que deverá fazer mas, oportunidades, potencialidades e condições de em cada momento da operação, e assim por diante: fora para dentro da comunidade, cumprindo o seu normalmente isso é trabalhado por boa equipe téc- nico-científica de apoiamento. No entanto, quan- papel de mediador social para que ela mesma, pau- do seu processo de subida começa a distanciá-lo latinamente, conquiste a função de agenciadora do do solo de partida, seus colegas de apoio logístico, próprio desenvolvimento. ao perderem as oportunidades de auxiliá-lo fisi- Como visto em aulas anteriores, o DL é um tipo camente, passam a orientá-lo a distância e apenas de desenvolvimento endógeno (de dentro para por rádio ou equipamento similar. Desse momento fora), que tem como objetivo-fim que a comuni- em diante, e embora todos continuem querendo e dade/localidade assuma as “rédeas” de sua história. precisando ajudá-lo, ele mesmo e mais ninguém no Dessa forma a metodologia do DL não poderia ser seu lugar irá cravar os grampos, no paredão, para outra senão a comunidade tomar para si o papel de dar cada um de todos os próximos passos: os outros “alpinista comunitário”, podendo sim contar com o continuarão a lhe dar dicas e conselhos, mas só ele apoio do agente, contudo ela mesma terá que desen- os poderá cravar e dar os passos. Em se tratando de alpinista experimentado, cuidará para cair somente volver, ou seja, deixar de se envolver, até o patamar anterior, caso fracasse a fixação dos (...) tirar o que envolve ou cobre; desembrulhar; grampos – não lhe permitindo o passo seguinte –, (...) crescer, tornar(-se) maior, mais forte; cami- e aproveitará a experiência ao retomar com mais segurança a sequência da escalada. Do contrário, se 32 esborrachará lá embaixo, no mínimo arriscando a Servir de agente ou intermediário de. 151 Modulo 01.indd 151 2/6/2009 12:15:56
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização nhar para um estágio mais avançado; expandir(-se) Esse seria o (...) caminho a ser seguido pelo agente, no(s) plano(s) intelectual, moral, psicológico, espi- o que sugere a conveniência das ciências políticas ritual; desenrolar(-se), prosseguir; aumentar a sua nos programas de desenvolvimento local, como área de atuação; evoluir (...) (Houaiss, 2001). instrumento de interlocução e sinergia entre a aca- demia e organizações sociais que carregam, em seus Com todo o arcabouço teórico oferecido até o programas e ações transformadoras, potencial para presente momento, você, acadêmico, deve estar se o desenvolvimento endógeno (Ávila, 2006, p. 137). perguntando: • Como posso contribuir como agente do DL? A relevância da questão aqui apresentada não • Como “contaminar” minha família, meus ami- está no mérito dos movimentos sociais gos, a comunidade da qual faço parte, com a (...) o que de fato se questiona é se os movimen- lógica do DL? tos sociais ora conhecidos – assim como os aplica- • Como reverter o quadro de uma comunidade tivos derivados não só das ciências políticas como em situação de intervencionismo, assistencia- de todas as demais – “propugnam”, orientam ou lismo e filantropismo? embasam REFORMAS PARA AS COMUNIDA- • Por onde começar minha intervenção de agen- DES (DpL), NAS COMUNIDADES (DnL) ou SÃO te de DL? DE REFORMAS DE DENTRO-PARA-FORA DAS PRÓPRIAS COMUNIDADES, isto é, DE CADA • Em dada comunidade, quais iniciativas devem COMUNIDADE COM SUAS PECULIARIDADES ser tomadas para que as ações evoluam de de- ESPECÍFICAS (DL)? (idem, todos os destaques senvolvimento NO local (DnL) ou desenvol- gráficos originais) vimento PARA o local (DpL) para o desenvolvi- mento local (DL)? A mesma inquisição se aplica às políticas e res- Esses e outros questionamentos certamente pectivos planos/ programas/projetos governamen- ocupam sua mente nesse momento, o que é extrema- tais, entidades não governamentais (ONGs), enti- mente saudável. Em desenvolvimento local denomi- dades religiosas, filantrópicas e outras que atuem ou namos esse fenômeno de “ruminar” os conhecimen- invistam em causas sociais de qualquer tipo. tos aos quais têm sido expostos, o que é de extrema Com relação às ideias propostas pelo autor, é im- relevância, não apenas na universidade, mas durante portante destacar que as políticas sociais não dei- a sua vida profissional. Nas palavras de Ávila (2008, p. xam de ser importantes só porque se configuram 87) fato imanente à “caminhada processual do DL”. como investimentos em DnL (desenvolvimento NO Em Realimentando discussão sobre teoria de de- local) ou DpL (desenvolvimento PARA o local), e senvolvimento local, Ávila (2006) apresenta algumas não em DL (Desenvolvimento Local), “são e sem- dúvidas suscitadas em sala de aula pelos mestrandos pre continuarão sendo necessários, desde que não do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Lo- transmutados em assistencialismos demagógicos de cal da Universidade Católica Dom Bosco – UCDB/ colonização ou barganhas socioculturais e político- MS relacionadas com a questão supracitada, subli- econômicas” (idem). nhando incertezas semelhantes quanto sua atuação Infere-se que as habilidades, as competências e a como agente do DL. criatividade de cada profissional delimitarão o tra- Nessa direção, os mestrandos acima menciona- jeto e a distância que ele percorrerá e propiciarão dos indicam haver ao menos dois caminhos possí- condições para que ele mesmo construa seu próprio veis: “atuar de acordo com os interesses dos grupos caminho. que acreditam no desenvolvimento sem reformas Não há receitas, “achismos”, imediatismos, solu- sociais ou atuar nos movimentos sociais que pro- ções simplistas para a questão da pobreza, da inér- pugnam reformas”. cia ou da apatia das comunidades/localidades, nem 152 Modulo 01.indd 152 2/6/2009 12:15:57
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    AULA 6 —Agentes do Desenvolvimento Local e Dimensões Metodológicas mesmo para a questão social – objeto do Serviço constituintes do chamado “capital intangível”. Em Social – como bem demonstra a história da huma- que pese a dimensão intangível da sociedade, gera- nidade. Para melhor compreender essa proposição dora de regras objetivas da racionalidade, deve-se é imprescindível a leitura dos textos recomendados lembrar ainda, que as normas reguladoras não se no portal, com ênfase em “Paciência, capitalismo, originam apenas do lugar. Existem aquelas oriun- das de áreas distantes, antecedendo e apoiando a socialismo e desenvolvimento local” (Ávila, 2008). ordem material da sociedade. Daí a importância Cabe ao intelectual, portanto, como detentor do sa- do pesquisador em dosar em que medida a cons- ber sistematizado, não só interpretar as referências ciência e a identidade espacial do lugar está sendo de ações passadas e as condições materiais da reali- construída de dentro para fora, ou ao contrário (Le dade presente, mas também as condições imateriais Bourlegat, 2000, p. 19). * ANOTAÇÕES 153 Modulo 01.indd 153 2/6/2009 12:15:57
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização AULA Unidade Didática – Desenvolvimento Local 7 e Territorialização ____________________ SOLIDARIEDADE E EDUCAÇÃO Conteúdo • Conceito de sine qua non para o DL Competências e habilidades • Conceituar solidariedade. Compreender a relevância da solidariedade e educação para o desenvolvi- mento local. Conceber o papel do assistente social como educador/mediador para o DL. Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com o professor interativo 2 h/a – presenciais com o professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo Chegamos ao último aspecto constitutivo do de- ral que se manifesta ou testemunha a alguém, em senvolvimento local na óptica proposta pelos auto- quaisquer circunstâncias (boas ou más) (...) (Hou- res em voga: a solidariedade e a educação. Falemos aiss, 2001).33 primeiramente da solidariedade. Comumente utilizamos esse vocábulo para ma- O senso comum entende por solidariedade: nifestar uma disposição emocional benévola, for- (...) sentimento de simpatia, ternura ou piedade tuita, longânime em relação a alguém, isso decorre pelos pobres, pelos desprotegidos, pelos que so- frem, pelos injustiçados; (...) manifestação desse sentimento, com o intuito de confortar, consolar, 31 HOUAISS, A. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Barros Jr., J. oferecer ajuda; (...) cooperação ou assistência mo- J. (Org.). [CD-ROM]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 154 Modulo 01.indd 154 2/6/2009 12:15:57
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    AULA 7 —Solidariedade e Educação de duas vertentes histórico-intelectuais: o estoicis- mo34 e o cristianismo primitivo. ! SAIBA MAIS: Na Roma Antiga, solidariedade servia para desig- Etimologicamente, medula significa miolo e nar a aliança entre devedores de uma soma, sendo indica tudo o que está dentro. A medula espi- cada um responsável pelo todo. nhal é assim denominada por estar dentro do No fim do século 18 e durante o 19, a França pas- canal espinhal ou vertebral (...) Importância: A sa a implementar políticas públicas a fim de asse- medula espinhal recebe impulsos sensoriais de gurar a subsistência da população, visto que, ao fim receptores e envia impulsos motores a efetua- da Revolução Francesa, esse país apresentava-se em dores tanto somáticos quanto iscerais. crise. Medula espinhal. Disponível em: <www.geo- cities.com/epamjr/neuro/medula.html>. Aces- Assim, a noção do dever em prestar assistência foi so em: 8 mar. 2009. categorizada como solidariedade. A partir de então se passa a conceber e/ou relacionar essa expressão à caridade e filantropia. ! SAIBA MAIS: Sociologicamente, solidariedade corresponde às (...) Por meio dessa rede de nervos, a medula normas de reciprocidade estabelecidas para deter- se conecta com as várias partes do corpo, rece- minado fim cujo propósito vai além da compaixão bendo mensagens de vários pontos e enviando- e generosidade. as para o cérebro e recebendo mensagens do Seria oportuno ressaltar que não se pretende aqui cérebro e transmitindo-as para as várias partes fazer apologia contrária a essa sensibilidade a qual do corpo. deve ser fomentada, uma vez que “não podemos Medula espinhal. Disponível em: <www.co- deixar de ser humanos”. Porém, o que se pretende legiosaofrancisco.com.br/alfa/corpo-humano- demonstrar aqui é que aos profissionais de Serviço sistema-nervoso/medula-espinhal.php>. Aces- Social solidariedade transpõe sentimentos, obriga- so em: 8 mar. 2009. ção moral ou dogmas. As citações acima demonstram a inquestionável SOLIDARIEDADE: A MEDULA ESPINHAL MOTRIZ relevância do elemento solidariedade para a efetiva DO DESENVOLVIMENTO LOCAL consolidação do desenvolvimento do tipo endóge- Para Ávila (2003, p. 34, 35), solidariedade é condi- no em dada comunidade/localidade. Pierson (1968 ção essencial para o desenvolvimento local, é a me- apud Ávila, 2001, p. 38) reforça que dula espinhal motriz, ou seja, é o que dá movimento ao DL ou o que o move. (...) a solidariedade é vista como condição do gru- po, que resulta de compartilhar de atitudes e senti- mentos, de modo a constituir o grupo em apreço, unidade sólida, capaz de resistir às forças exteriores e mesmo de tornar-se ainda mais firme em face de oposição vinda de fora. 34 Rubrica: filosofia – 1. doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264 a.C.) e desenvolvida por várias gerações de filósofos. Essa doutrina Para Émile Durkheim (1996; 1999), um dos se caracteriza por uma ética em que a imperturbalidade, a estirpação das paixões e a aceitação resignada do destino são as marcas funda- principais representantes dessa temática, podem-se mentais do homem sábio, o único apto a experimentar a verdadeira identificar na sociedade dois tipos de solidariedade. felicidade. (O estoicismo exerceu profunda influência na ética cristã.); 2. Derivação: por extensão de sentido – rigidez de princípios morais; 3. Derivação: por extensão de sentido – resignação diante do sofri- Solidariedade mecânica – uma solidariedade por se- mento, da adversidade, do infortúnio. melhança em que (...) os indivíduos diferem pouco 155 Modulo 01.indd 155 2/6/2009 12:15:57
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização uns dos outros. Membros de uma mesma coletivi- do-se em conta ações afetivas que proporcionam a dade se assemelham porque têm os mesmos sen- mobilização e cooperação que somadas a idealis- timentos, os mesmos valores, reconhecem os mes- mos altruístas e a sentimentos, interesses e finalida- mos objetos sagrados. A sociedade tem coerência des comuns dão ao grupo um sentimento de união, porque os indivíduos ainda não se diferenciaram agregando-lhe relevância social, que “(...) transcen- (Aron, 2000, p. 458). dem as imputadas aos esforços e dispêndios indivi- Solidariedade orgânica – a forma oposta, a orgâni- duais implicados” (Ávila, 2003 p. 35). Ainda, segun- ca, é aquela em que o consenso, isto é, a unidade do o autor, coerente da coletividade resulta de uma diferencia- ção, ou se exprime por seu intermédio. Os indiví- (...) a solidariedade ao ativar a adesão das pessoas duos não se assemelham, são diferentes. E, de certo de determinado grupo a se unirem e agirem em modo, são diferentes porque o consenso se realiza função de certos referenciais comuns (problemas, (Aron, 2000, p. 458). necessidades ou aspirações) ultrapassa as fronteiras da coesão gregária e se desemboca na coesão comu- Essas duas formas de solidariedade evoluem em nitária, caracterizando-se como coesão-solidária razão inversa: enquanto uma progride, a outra se (Ávila, 2003, p. 35 – grifos do autor). retrai, mas cada uma delas, a seu modo, cumpre a função de assegurar a coesão social nas sociedades Assim, podemos compreender que solidarieda- simples e complexas. Ávila (2003) destaca ainda a de e coesão são elementos que agregam valores ao necessidade de se diferenciar “solidariedade” de “coe- desenvolvimento local, estabelecendo um caminho são”, pois apesar de as duas apresentarem-se como para que, de forma autônoma, consciente e assumi- forças que asseguram o movimento da sociedade, da cada um dos componentes do grupo esteja liga- segundo esse autor a solidariedade. do ao mesmo em um estado de autovinculação. (...) representa o estado de ânimo (impressões, cren- EDUCAÇÃO: SISTEMA ças e convicções) que gera volitivos, afetivos e efeti- RESPIRATÓRIO-CIRCULATÓRIO vos laços de mobilização e cooperação (nos âmbitos DO DESENVOLVIMENTO LOCAL de uma pessoa para com outra, de um grupo para com outro, dos membros de um grupo para com Quanto ao sistema respiratório-circulatório do todo o grupo ou de membros para com membros desenvolvimento local, Ávila (2003) analisa que do mesmo grupo) (...) (Ávila, 2003, p. 34). a educação é o sistema circulatório do desenvolvi- mento local. Assim como “(...) as funções realizadas Em relação à “coesão”, no entendimento desse pela circulação do sangue são indispensáveis para o autor, “(...) se caracteriza pela real concretização do equilíbrio de nosso corpo e vitais para a manuten- estado de mobilização e cooperação de um grupo ção da vida”, também a educação exerce uma função de pessoas, pequeno ou grande” (Ávila, 2003, p. 34) essencial para o desenvolvimento local. e pode se apresentar de duas formas distintas: coesão Levando-se em consideração o conceito de coesão gregária e coesão solidária. solidária anteriormente analisado, pode-se compreen- Para esse autor, a coesão gregária é aquela que se der que ela é uma forma que pode e deve ser continua- efetiva por meio dos “impulsos instintivos” ou de mente educável (Ávila, 2003). Mas, qual é a forma en- sentimentos ligados à “(...) autopreservação e/ou contrada para que esse processo se realize? O mesmo conservação de todo o grupo ou de parte dele” (Ávi- autor responde à pergunta da seguinte maneira: la, 2003, p. 35). Como coesão solidária o autor considera que é o Trata-se de educabilidade no sentido de que a co- resultado de formas diferenciadas de ação que são munidade se informe, atualize e impregne, inin- executadas buscando um determinado fim, levan- terruptamente, do hábito cultural da incessante 156 Modulo 01.indd 156 2/6/2009 12:15:57
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    AULA 7 —Solidariedade e Educação conquista de seu verdadeiro desenvolvimento (Ávi- ! SAIBA MAIS: la, 2003, p. 35-36). De forma geral, podemos dizer que o sistema Pode-se então inferir que a formação e a educação circulatório é composto por sangue, coração e comunitária local são dois fenômenos que estão in- vasos sanguíneos. É através do sistema circula- trinsecamente ligados, interagindo constantemente tório que ocorre a distribuição de nutrientes e e buscando por meio dessa interação maneiras e ca- oxigênio para todas as células de nosso corpo, minhos para ambas se complementarem. a remoção de toxinas dos tecidos, o transporte de hormônios e a defesa imunológica de nosso Numa visão bem sintética de entrelaçamento en- organismo. Sabendo que a circulação sanguínea tre formação e educação, diria que a primeira se remove as toxinas dos tecidos, leva oxigênio e situa no patamar básico de busca, decifração, dis- nutrientes para as células, transporta hormô- cernimento e incorporação de sentidos e valores nios e realiza a defesa de nosso corpo, fica mais de determinada realidade e a segunda, a educação, fácil entender o papel do coração e dos vasos dá o passo avante de a pessoa, no caso o educando, sanguíneos. O coração funciona como uma traduzir de fato esses sentidos e valores em rumos bomba, dando pressão ao sangue para que este e procedimentos alternativos para o seu desenvol- vimento físico, intelectual, moral e social. Portanto, circule por todo nosso corpo através dos vasos formação e educação se complementam como fe- sanguíneos. Quanto mais próximo do coração, nômenos, vez que educação supõe formação como mais pressão tem o sangue, contudo, à medi- fundamento e formação precisa de educação para da que os vasos sanguíneos vão se ramificando, se concretizar na dinâmica existencial-individual e sua pressão vai diminuindo. Após circular por coletiva das pessoas (Ávila, 2000a, p. 63). todo o corpo e realizar as trocas necessárias ao equilíbrio do organismo, o sangue retorna ao Educação e formação podem ser compreendidas coração e aos pulmões, onde fará novas trocas ainda como dois fenômenos que caminham lado a (desta vez de gás carbônico por oxigênio) para, lado, marcados por duas frentes: a da educação co- então, refazer seu percurso. munitária abrangente e a da educação escolar. Tais Toda a Biologia.com. Sistema circulatório. frentes inserem-se no contexto do DL e podem, se- Disponível em: <www.todabiologia.com/ana- gundo Beatty (1965, p. 12), ser analisadas da seguin- tomia/sistema_circulatorio.htm>. Acesso em: 8 te maneira: mar. 2009. 1. No que diz respeito à primeira frente, o autor anteriormente citado compreende que: (...) a educação comunitária tem em vista ajudar os pesquisa e discussão de novas formas (...) para se homens a alcançarem o progresso social e econômi- unir, cooperar e agir em direção à consecução de co que lhes permitirá ocupar o seu lugar no mundo seus próprios rumos de desenvolvimento e concer- moderno (...) O melhoramento de comunidades nentes meios de viabilização. E é justamente quan- depende de uma autoajuda que pode incluir o de- to a essa tarefa, a de permanentemente se educar senvolvimento de uma participação maior e me- para o autodesenvolvimento, que toda e qualquer lhor das pessoas nos assuntos comunitários locais, comunidade-localidade mais precisa da ajuda dos uma revitalização das formas existentes de governo agentes de desenvolvimento local. (...) reiterando – local, ou a introdução de alguma forma efetiva de enquanto autênticos (...) mediadores (...) de forma- administração local nas comunidades que não a ção e encaminhamento comunitário, isto é, fazendo possuam. (...) O objetivo final do moderno traba- com que a comunidade aprenda a caminhar por si lho de educação comunitária é o desenvolvimento mesma – e aqui está o sentido educacional – para a de uma comunidade organizada e democrática que 157 Modulo 01.indd 157 2/6/2009 12:15:57
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização se tenha libertado de muitas restrições e costumes Apesar das diferentes correntes que permeiam as tradicionais e esteja intelectualmente preparada discussões sobre solidariedade, entende-se aqui que para um crescimento contínuo. os indivíduos podem se educar para tornarem tam- 2. Referindo-se a outra frente, Demo (1979, p. 12) bém os atos de mobilização e cooperação cada vez considera que em alguns casos existe certo grau mais lógicos, viáveis, agradáveis, eficientes e signifi- de dificuldade em se distinguir educação comu- cativos. nitária de educação permanente, principalmen- Os dados aqui apresentados sugerem a ideia de te se for concebida como que a educação de pessoas e de grupos comunitários para a solidariedade e sua respectiva coesão constitui (...) processo de superação gradativa das limitações aspecto fundamental no contexto do desenvolvi- do homem pela exploração contínua de suas virtu- mento local. alidades intrínsecas; como processo de atualização Para Ávila (2000b, p. 74), “(...) não bastam co- permanente das potencialidades do homem e pro- cesso de maximização da humanidade do homem. nhecimentos intelectuais e vibrações emocionais para se lançar à práxis do desenvolvimento local ge- Nesse contexto, a educação comunitária é neces- nuinamente concebido”, uma vez que, para o autor, sária e esperada no DL, principalmente por ser um hoje levar desenvolvimento a comunidades tornou- veículo viável para se atingir a comunidade em sua se relativamente fácil, tendo em vista que os interes- totalidade. Porém, não se pode deixar de ressaltar ses político-administrativos e/ou econômicos são que justamente por sua abrangência, sua dinâmica respaldados em disponibilidade financeira. A ideia e seus efeitos, embora fundamentais, se tornam ge- que o autor defende é que os agentes envolvidos de- nericamente capilarizados (Ávila, 2003). vem No entanto, não se pode deixar de analisar que é exatamente no processo de apropriação comunitá- trabalhar para que as próprias comunidades co- nheçam o que são e o que têm e, com base nisso e ria, que perpassa pela conscientização e pelo exer- em sua capacidade metabolizadora de fatores ex- cício de práticas de “(...) interação curricular entre ternos, se desenvolvam “de dentro para fora” (isto escola e realidade, convergentes para o desenvolvi- é, assumam as rédeas de seus destinos comuns) (...) mento local, que a educação escolar pode e deve pres- para que paulatina e processualmente conquistem tar inestimáveis contribuições” (Ávila, 2003, p. 37). a capacidade da permanente construção do auto- O autor faz essa análise levando em consideração desenvolvimento (Ávila, 2000, p. 74). a preparação do capital humano que, em primeiro lugar, atingirá as crianças e os adolescentes em seu O referido autor defende ainda que as funções de espaço escolar, abrangendo seguidamente os profes- todos os agentes externos envolvidos no processo sores e atingindo toda a escola. Nesse caminho, se- de desenvolvimento local, tais como economistas, guirá envolvendo as famílias dos alunos até alcançar engenheiros, químicos, psicólogos, advogados, pro- as demais famílias, assim como toda a comunidade. fessores etc. se Em ação contínua, seguirá preparando as “(...) ge- (...) configurarão fundamental e estrategicamente rações que se sucederão no processo de implemen- como de cunho formativo-educacional (...), pois o tação e aperfeiçoamento do autodesenvolvimento eixo conceitual essencial do desenvolvimento local de suas comunidades-localidades” (Ávila, 2003, p. será a referência comum de todos (...) que se envol- 37). O terceiro passo será o entendimento de que verem no respectivo processo tanto para vivenciá- esse caminho é o melhor para que se tenha acesso a lo quanto para colaborar por sua impregnação ou uma melhoria da qualidade-quantidade do próprio ativação capilarizada no âmbito comunitário (Ávi- ensino e também da relação ensino-aprendizagem. la, 2000, p. 74). 158 Modulo 01.indd 158 2/6/2009 12:15:57
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    AULA 7 —Solidariedade e Educação Para tal, os profissionais envolvidos devem atuar (...) reagentes de elevação da “adrenalina” de todos como formadores-educadores-comunitários e não os integrantes da comunidade, pois é por aí que simplesmente como meros executores técnicos. as conquistas são socializadas e de fato assumidas Ávila (2000) propõe ainda a existência de uma como bens comuns. São, ainda, eficientes meios estratégicos de construção da autoestima comu- metodologia de trabalho dos agentes externos a nitária, em razão de que agem como fenômenos qual deve implicar estratégias como a da “prática re- estimuladores de engajamento, colaboração e par- flexiva” de Donald A. Schon (1995) a qual compre- tilha nos campos das ideias e ações (Ávila, 2000, ende “(...) a reflexão para a ação, a reflexão na ação, p. 75). a reflexão sobre a ação e a reflexão sobre a reflexão” (Ávila, 2000, p. 74). Os argumentos aqui apresentados permitem assi- Embora essa estratégia tenha sido concebida e site- nalar o caráter essencial da solidariedade e da educa- matizada com vistas à formação de professores para a ção para a efetivação do DL em dada comunidade/ educação escolar, Ávila (2000) a considera pertinente localidade e, ainda, a inestimável importância e in- ao trabalho dos agentes externos do desenvolvimento fluência do profissional de Serviço Social no proces- local, uma vez que eles se configuram também como so de autodesenvolvimento dessa comunidade. autênticos educadores comunitários. Toda a fundamentação teórica oferecida até esta E, finalmente, o autor em questão considera que aula, caro(a) acadêmico(a), representa apenas uma todas as conquistas comunitárias precisam ser “ex- diretriz cuja finalidade é contribuir com a sua for- plicitadas, comemoradas e difundidas” a fim de que mação acadêmica para torná-lo um educador/me- funcionem como diador para o desenvolvimento local! * ANOTAÇÕES 159 Modulo 01.indd 159 2/6/2009 12:15:57
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização AULA ____________________ 8 Unidade Didática – Desenvolvimento Local CULTURA DO DESENVOLVIMENTO e Territorialização E DESENVOLVIMENTO DA CULTURA Conteúdo • Cultura: noções sociológica e antropológica • Cultura: material e imaterial • Cultura × desenvolvimento Competências e habilidades • Compreender a relação existente entre a Cultura da Pobreza e a Pobreza da Cultura. Desenvolvimen- to Local e Territorialização × Serviço Social. Textos e atividades para autoestudo disponibilizados no Portal Verificar no Portal os textos e atividades disponibilizados na galeria da unidade. Duração 2 h/a – via satélite com o professor interativo 2 h/a – presenciais com o professor local 6 h/a – mínimo sugerido para autoestudo “Caminhante, não há caminho. e elementares, no entanto essenciais para a compre- O caminho se faz ao caminhar.” ensão da relação existente entre cultura e desenvolvi- Antonio Machado mento. Para isso, o autor elegeu nuanças conceituais no tratamento do termo cultura pelos ângulos so- Inicialmente gostaríamos de lembrá-lo de que na ciológico e antropológico e, num segundo momen- Aula 3 delimitamos o conceito da palavra cultura to, propôs-se uma vez que esse conceito, na história da humani- a levantar questões, no âmbito das noções enfo- dade, passou por transformações em função da exi- cadas, sobre a importância do presente, entendido gência que cada época lhe impôs. como momento de concreta vivência na sucessão O que se pretende agora é, com base no estudo de evolutivo-cultural de qualquer povo configurado Ávila (2003), enfocar primeiramente noções gerais como tal ou, em menor escala, de determinada co- 160 Modulo 01.indd 160 2/6/2009 12:15:57
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    AULA 8 —Cultura do Desenvolvimento e Desenvolvimento da Cultura letividade humana com certa regularidade de inte- No campo da antropologia, Ávila adverte que ração entre seus membros (Ávila, 2003, p. 2). “(...) o papel e a importância do presente na evolu- ção cultural são bem mais explícitos que no socio- Em relação às noções a respeito de cultura do lógico, (...) inclusive merecendo posição destacada” ponto de vista sociológico, Johnson (1997 apud (Ávila, 2003, p. 4). Ávila, 2003, p. 3) aponta que: Ao analisar a obra de Laraia (2002), intitulada Cultura é o conjunto acumulado de símbolos, Cultura: um conceito antropológico, Ávila destaca ideias e produtos materiais associados a um siste- que a segunda parte da obra citada “(...) procura ma social, seja ele uma sociedade inteira ou uma demonstrar como a cultura influencia o comporta- família. Juntamente com ESTRUTURA SOCIAL, mento social e diversifica enormemente a humani- POPULAÇÃO e ECOLOGIA, constitui um dos dade apesar de sua comprovada unidade biológica” principais elementos de todos os sistemas sociais e Laraia (2002 apud Ávila, 2003, p. 6) ressalta a ne- é conceito fundamental na definição da perspectiva cessidade de entendimento do processo evolutivo- sociológica (destaques do autor). cultural o qual se desenvolve de maneira dinâmica, Para Ávila, há no conceito de Johnson dois aspec- ou seja, está sempre em mudança. Segundo o autor: tos relevantes em relação à cultura: o primeiro é que a Entender esta dinâmica é importante para atenuar cultura material é produzida por meio da vida social o choque entre as gerações e evitar comportamen- coletiva, ou seja, envolve tudo o que é feito, modela- tos preconceituosos. Da mesma forma que é fun- do ou transformado pelo homem; e o segundo é que damental para a humanidade a compreensão das a cultura não material inclui os símbolos e as ideias diferenças entre povos de culturas diferentes, é ne- (atitudes, crenças, valores e normas) que modelam e cessário saber entender as diferenças que ocorrem informam a vida de seres humanos em relações recí- dentro do mesmo sistema. Este é o único procedi- procas e os sistemas sociais dos quais participam. mento que prepara o homem para enfrentar sere- Ávila (2003, p. 3) considera ainda que namente este constante e admirável mundo novo do porvir. (...) há duas expressões que merecem destaque em relação à conceituação geral acima, com efeitos ex- A partir do levantamento das características tensivos também às duas subconceituações (cultura conceituais de cultura, Laraia (2002) aponta duas material e cultura não material). São as de que “cul- consequências lógicas que surgem: a primeira é que tura é o conjunto acumulado (...)” e também “(...) existe uma intrínseca relação entre cultura e com- é conceito fundamental na definição da perspectiva portamento humano; e a segunda é que não existe sociológica” (grifos do autor). motivo para dúvidas de que Portanto, para o autor, “(...) o que parece estra- (...) os comportamentos são operações reais que se nho nessas óticas é que, em relação a ambas, o ati- concretizam em horizontes de sucessivos presentes, vo e efetivo papel da cultura na dinâmica e perma- ou vivenciais momentos temporais de operaciona- nente construção do presente cultural não mereceu lização, impulsionados e impregnados pela cultura clara explicitação na acima transcrita significação até então acumulada e em evidência explícita ou conceitual de cultura” (Ávila, 2003, p. 3). Esse es- subliminar nos momentos em que são concebidos tranhamento justifica-se já que o autor considera o e operacionalizados (Ávila, 2003, p. 7). presente como “momento de dinamização cultural” Para Ávila, esses sucessivos presentes que constitui o fator decisivo da evolução cultural humana e da geração de “conjuntos acumulados” pela aprendizagem cultural (via processos de “so- ou que possam ser acumulados até as dimensões do cialização” ou “endoculturação” da experiência futuro da sociedade ou família. acumulada) que se modifica por contínua reação 161 Modulo 01.indd 161 2/6/2009 12:15:58
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização interativo-comportamental com os fatores mesoló- Se essa afirmação for verdadeira, como se criou a gicos na dinâmica existencial interna e externa ao cultura do subdesenvolvimento? indivíduo e à respectiva coletividade, não só tornam o todo do homem-coletivo “(...) capaz de romper as (...) o subdesenvolvimento humano começou, mui- barreiras das diferenças ambientais e transformar to provavelmente, no momento em que o primeiro toda a terra em seu habitat” como também possi- indivíduo da espécie afiou a também primeira lan- bilitam ao homem-indivíduo, mas sempre como ça e confeccionou um rústico arco que a impulsio- unidade básica societária e cultural de multiformes nasse, reduzida à forma de flecha, para facilitar e conjuntos de homens-coletivos, por uma parte, limi- tornar mais eficiente a sua árdua e arriscada tare- tar (...) ou, por outra, estimular sua “(...) ação cria- fa de subsistência, bem como sua incansável sede tiva (...)” – para progredir ou se desenvolver –, com de dominação, aperfeiçoando-a e evoluindo-a até reflexo imediato na coletividade de sua convivência, a mais moderna ogiva nuclear (...) (Ávila, 2003, p. pelo menos aquela vinculada por língua comum e 11, apud Ávila, 2000, p. 45). laços de convivência local (Ávila, 2003, p. 7). O autor avalia que tanto em sociedades conside- Ao concluir os enfoques nocionais (sociológico e radas civilizadas quanto nas mais primitivas, ricos antropológico) sobre cultura e o papel do presente, e pobres “compartilhavam espaços territoriais co- Ávila (2003) tem a intenção de ressaltar a importân- muns”, por essa razão Ávila (2003, p. 11) acredita cia do processo de formação para o DL, assunto já ter sido o planeta dividido em dois blocos assimétri- abordado na Aula 7. Embora para o referido autor a cos: o dos países desenvolvidos – seleto, poderoso e formação não signifique de per se cultura hegemonicamente dominador e o dos países/áreas subdesenvolvidos, imenso, carente, atrasado e sem- porque essencialmente caracterizada (...) como pre confinado ao círculo vicioso da indefinida de- performance comportamentalmente operacional pendência e subserviência ao hegemônico bloco dos para determinadas finalidades coletivamente acei- desenvolvidos. tas dos ser e agir humanos: por um lado, é impreg- Decorre que atualmente não se considera mais os nadamente determinada pelo caudal cultural, que países mais ou menos desenvolvidos e sim os hemis- liga o passado ao presente bem como impulsiona o férios, e a pobreza não se limita à material, antes, presente a se projetar para o futuro; por outro, cons- rompeu as fronteiras religiosas, culturais, linguísti- titui-se mecanismo de geração evolutivo-cultural, cas, sociais etc. e o desenvolvimento local se insere neste contexto, interferindo criativamente no processo presente de Em termos de simbologia cultural, a maneira de se prospecção e alicerçamento do futuro de qualquer saber, por exemplo, se uma pessoa com aparên- povo ou coletividade, tendo em vista que sua dinâ- cia normal é ou não “subdesenvolvida” (hoje e de mica cultural se encontra em permanente curso de acordo com os parâmetros conceituais já univer- construção, redimensionamento e acumulação; em salizados) começa, via de regra, pela pergunta so- suma, todo o arcabouço teórico sobre desenvolvi- bre sua procedência, quando não pela própria cor mento local (...) implica a acima mencionada fecun- da pele ou sotaque linguístico. No caso da América didade relacional entre FORMAÇÃO e CULTURA Latina e da África, basta que essa pessoa se identi- (...) (Ávila, 2003, p. 10-11 – grifos do autor). fique como latino-americana ou africana para que se apresente como subdesenvolvida. Em se tratando Com argúcia, o estudo de Ávila (2003) evidencia de Ásia, e deixando de lado o Extremo Oriente – que a cultura não é estática, pelo contrário, encon- mas incluindo a China –, as expressões simbólicas tra-se em constante movimento dada sua imanente de procedência-subdesenvolvida se desdobram nas caracterização de aprendizagem adquirida e trans- seguintes mais representativas: chinês, indiano e mitida. Dessa forma, é plausível a hipótese de que é árabe, esta cobrindo praticamente todo o Oriente possível criar cultura para um determinado fim. Médio. Nesse contexto, até os termos latino e hispâ- 162 Modulo 01.indd 162 2/6/2009 12:15:58
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    AULA 8 —Cultura do Desenvolvimento e Desenvolvimento da Cultura nico, cada um em sua abrangência, já indicam certa autoestima, autoconfiança, automobilização” e, não posição de inferioridade no contexto das relações somente, o empoderamento individual no sentido entre povos latinos e anglo-saxônicos, em geral, até laico, mas também o rumo à instrumentalização mesmo em dimensão de hemisfério norte (Ávila, técnico-científica da própria comunidade/localida- 2003, p. 12). de a fim de que ela, paulatinamente, “evolua para a O autor advoga que a cultura da pobreza, do condição de sujeito do seu próprio desenvolvimen- desenvolvimento e do subdesenvolvimento foram to” – conceito proposto na Aula 1 – a partir de suas criadas e alimentadas com um propósito definido. especificidade/potencialidade – estudadas na Aula 5; com o aproveitamento de sua história e atentan- Com relação à “invenção das categorias – a do de- do para o palco no qual ela se apresenta – abordado senvolvimento e a do subdesenvolvimento” na Aula 2; seu modo de ser e agir – visto na Aula 3; (...) convém registrar que tal invenção ocorreu já potencializando aquilo que ela tem de melhor – ex- em pleno século XX, com precisão de data e ano, de planado na Aula 4. acordo com Esteva (2000, p. 59): “(...) 20 de janeiro Diante de tudo o que estudamos até o momento, de 1949. Naquele mesmo dia, quando toma posse conceber o agir do profissional de Serviço Social a o presidente Truman, uma nova era se abria para o partir do território, quer na política pública, quer mundo – a era do desenvolvimento”, ao pronunciar na entidade privada, suscita uma revisão histórica e a seguinte passagem de seu discurso: “É preciso que ainda uma revisão do cotidiano e do universo cul- nos dediquemos a um programa ousado e moderno tural das pessoas que constituem-no. que torne nossos avanços científicos e nosso pro- gresso industrial disponíveis para o crescimento e para o progresso das áreas subdesenvolvidas”, lem- ! SAIBA MAIS! brando que (id., p. 60) Truman não foi o primeiro a usar a palavra. Wilfred Benson, antigo membro O subdesenvolvimento começou, assim, a 20 do Secretariado da Organização Mundial de Traba- de janeiro de 1949. Naquele dia, dois bilhões de lho, foi que provavelmente a inventou quando, em pessoas passaram a ser subdesenvolvidas. Em 1942, ao escrever suas bases econômicas para a paz, um sentido muito real, daquele momento em referiu-se às “áreas subdesenvolvidas”. Na época, diante, deixaram de ser o que eram antes, em porém, a expressão não encontrou eco, nem com o toda a sua diversidade, e foram transformados público nem com os “experts”. Dois anos mais tar- magicamente em uma imagem inversa da reali- de, Rosenstein-Rodan ainda falava de “áreas econo- dade alheia: uma imagem que os diminui e os micamente atrasadas”. Arthur Lewis, também em envia para o fim da fila; uma imagem que sim- 1944, referiu-se à distância que existia entre países plesmente define sua identidade, uma identida- pobres e países ricos. Durante toda essa década, a de que é, na realidade, a maioria heterogênea e expressão apareceu ocasionalmente em livros téc- diferente, nos termos de uma minoria homoge- nicos, ou em documentos das Nações Unidas. Só neizante e limitada (Ávila, 2003, p. 14). se tornou realmente importante, no entanto, quan- do Truman a introduziu como um símbolo de sua própria política externa (Ávila, 2003, p. 12-13). É de fundamental importância que todos os as- Ávila (2003, p. 20-21) afiança que o desenvolvi- sistentes sociais no exercício de sua função e no mento sociocultural é considerado ponto de partida planejamento de suas ações considerem as questões e de chegada para o desenvolvimento local, daí por- culturais intrínsecas neste território, palco de vida que requer a “permanente educação comunitário- de seus usuários. local”, como discutimos na Aula 6, buscando con- Nessa perspectiva, Yasbek (1999) “(...) utiliza-se solidar a “autoconscientização, autossensibilização, do exemplo de uma política pública específica para 163 Modulo 01.indd 163 2/6/2009 12:15:58
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    Unidade Didática —Desenvolvimento Local e Territorialização enfatizar (...) que, na sua aproximação com o indi- víduo que dela faz uso, se exige conhecer elementos históricos presentes no cotidiano desse indivíduo”. O desenvolvimento humano e social é objetivo das políticas sociais, portanto, conhecer e respeitar os laços primários daqueles que dela fazem uso é in- dispensável, uma vez que a história fomenta a uni- dade familiar e alimenta a identidade do grupo. Dessa forma o reconhecimento e o respeito à cultura desses grupos agirão como facilitadores no protagonismo das famílias que acessam os serviços oferecidos por essas políticas. Cabe salientar que tal advertência não é sublinhada somente às políticas públicas, mas também às instituições privadas por meio dos serviços que oferecem. Trata-se, assim, de uma nova cultura de política aproveitando a potencialidade endógena de cada fa- REFERÊNCIAS mília, de cada comunidade/localidade, de cada região, Básica visando promover o empoderamento do cidadão. ALBERTIN, L. A.; ALBERTIN, R. M. M. Aspectos Yasbek (1999) pondera que, na sociedade con- e contribuições do uso da tecnologia de informação. temporânea, tratar da questão social isoladamen- São Paulo: Atlas, 2006. te de seu contexto histórico-social e ambiental é ÁVILA, V. F. Educação escolar e desenvolvimento algo absolutamente destituído de sentido e racio- local: realidade e abstrações no currículo. Brasília: nalidade. Plano Editora, 2003. Destaca-se ao assistente social que territorializar CHIANCA, T.; MARINO, E.; SCHIESARI, suas ações significa considerar que as famílias que L. Desenvolvendo a cultura de avaliação em dela fazem uso não estão destituídas dos territórios, organizações da sociedade civil. São Paulo: Instituto lugar em que nascem, vivem, trabalham se relacio- Fonte, 2001. nam e morrem! Com arrimo nas ideias expostas e propostas nessa Complementar Unidade Didática, é inconcebível ao profissional de HUBERMANN, L. A história da riqueza do homem. Serviço Social abordar o indivíduo, concebendo-o 21. ed. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de isoladamente do seu contexto familiar-comunitário, Janeiro: LTC, 1986. ou ainda, planejar e executar projetos sem conside- FRANCISCO, E. M. V. (Org.). Trabalho, território, rar a trama da reciprocidade! cultura – novos prismas para os debates das políticas públicas. São Paulo: Cortez, 2007. ROCHE, C. Avaliação de impacto dos trabalhos de ! IMPORTANTE ONGs. São Paulo: Cortez, 2002. SANTOS, J. L. O que é cultura. São Paulo: “Sonho com o dia em que a justiça correrá Brasiliense, 1986. como água e a retidão como um caudaloso rio.” VALENTE, A. L. Educação e diversidade cultural. Martin Luther King São Paulo: Moderna, 2003. 164 Modulo 01.indd 164 2/6/2009 12:15:58
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