Seq¨ˆncias Recorrentes
                                 ue


                                   Carlos Gustavo Moreira


                                                 IMPA

   Seq¨ˆncias recorrentes s˜o seq¨ˆncias x0 , x1 , x2 , . . . em que cada termo ´ determinado por
      ue                   a     ue                                             e
uma dada fun¸˜o dos termos anteriores. Dado um inteiro positivo k, uma seq¨ˆncia recorrente
            ca                                                            ue
de ordem k ´ uma seq¨ˆncia em que cada termo ´ determinado como uma fun¸˜o dos k termos
           e        ue                       e                         ca
anteriores:
                       xn+k = f (xn+k−1 , xn+k−2 , . . . , xn+1 , xn ),   ∀ n ∈ N.

   Com essa generalidade, o estudo geral de seq¨ˆncias recorrentes se confunde em larga me-
                                               ue
dida com a teoria dos Sistemas Dinˆmicos, e o comportamento de tais seq¨ˆncias pode ser
                                  a                                    ue
bastante ca´tico e de descri¸˜o muito dif´
           o                ca           ıcil, mesmo qualitativamente. Um caso particular
muito importante ocorre quando a fun¸˜o f ´ linear: existem constantes c1 , c2 , . . . , cn com
                                    ca    e

                      xn+k = c1 xn+k−1 + c2 xn+k−2 + · · · + ck xn ,      ∀ n ∈ N.

Tais seq¨ˆncias s˜o conhecidas como seq¨ˆncias recorrentes lineares, e generalizam simultanea-
        ue       a                     ue
mente as progress˜es geom´tricas, aritm´ticas e os polinˆmios. Estas seq¨ˆncias ser˜o o objeto
                 o       e             e                o               ue         a
principal dessas notas. N˜o obstante, algumas recorrˆncias n˜o-lineares ser˜o consideradas,
                         a                          e       a              a
como a recorrˆncia xn+1 = x2 − 2, que tem grande interesse do ponto de vista de sistemas
             e             n

dinˆmicos e por suas aplica¸˜es ` teoria dos n´meros.
   a                       co a               u

   Essas notas, adaptadas do texto de um mini-curso dado pelo autor na II Bienal da SBM, s˜o
                                                                                          a
inspiradas no excelente livreto ”Seq¨ˆncias Recorrentes”, de A. Markuchevitch, publicado na
                                    ue
cole¸˜o ”Inicia¸˜o na matem´tica”, da editora MIR, no qual o autor aprendeu bastante sobre o
    ca         ca          a
tema no in´ de sua forma¸˜o matem´tica. A se¸˜o 4, onde ´ deduzida a f´rmula para o termo
          ıcio          ca       a          ca          e             o
geral de uma seq¨ˆncia recorrente linear, ´ adaptada do artigo ”Equa¸˜es de recorrˆncia”, de
                ue                        e                         co            e
H´ctor Soza Pollman, publicado no n´ mero 9 da revista Eureka! (de fato, o artigo original
 e                                 u


                                                     1
submetido ` revista enunciava esta f´rmula sem demonstra¸˜o, a qual foi inclu´ no artigo
          a                         o                   ca                   ıda
pelo autor destas notas, que ´ um dos editores da Eureka!).
                             e




1 — Seq¨ˆncias recorrentes lineares:
       ue

   Uma seq¨ˆncia (xn )n∈N ´ uma seq¨ˆncia recorrente linear de ordem k (onde k ´ um inteiro
          ue              e        ue                                          e
positivo) se existem constantes (digamos reais ou complexas) c1 , c2 , . . . , ck tais que
                        k
              xn+k =         cj xn+k−j = c1 xn+k−1 + c2 xn+k−2 + · · · + ck xn ,    ∀ n ∈ N.
                       j=1


   Tais seq¨ˆncias s˜o determinadas pelos seus k primeiros termos x0 , x1 , . . . , xk−1 .
           ue       a

   Os exemplos mais simples (e fundamentais, como veremos a seguir) de seq¨ˆncias recorrentes
                                                                          ue
lineares s˜o as progress˜es geom´tricas: se xn = a · q n ent˜o xn+1 = qxn , ∀ n ∈ N, donde (xn )
          a             o       e                           a
´ uma seq¨ˆncia recorrente linear de ordem 1.
e        ue

   Se (xn ) ´ uma progress˜o aritm´tica, existe uma constante r tal que xn+1 − xn = r, ∀ n ∈ N,
            e             a       e
donde xn+2 − xn+1 = xn+1 − xn , ∀ n ∈ N, e logo xn+2 = 2xn+1 − xn , ∀ n ∈ N, ou seja, (xn ) ´
                                                                                            e
uma seq¨ˆncia recorrente linear de ordem 2.
       ue

   Se xn = P (n) onde P ´ um polinˆmio de grau k, ent˜o (xn) satisfaz a recorrˆncia linear de
                        e         o                  a                        e
ordem k + 1 dada por
                                          k
                                                        k+1
                             xn+k+1 =          (−1)j        xn+k−j ,     ∀ n ∈ N.              (*)
                                         j=0
                                                        j+1

   Isso ´ evidente se k = 0 (isto ´, se P ´ constante), pois nesse caso (*) se reduz a xn+1 = xn ,
        e                         e       e
∀ n ∈ N, e o caso geral pode ser provado por indu¸˜o: se P ´ um polinˆmio de grau k ≥ 1
                                                 ca        e         o
ent˜o Q(x) = P (x + 1) − P (x) ´ um polinˆmio de grau k − 1, donde yn = xn+1 − xn = Q(n)
   a                           e         o
                                  k−1
                                                 k
satisfaz a recorrˆncia yn+k =
                 e                      (−1)j   j+1
                                                       yn+k−1−j , ∀ n ∈ N, donde
                                  j=0

                                    k−1
                                                    k
               xn+k+1 − xn+k =            (−1)j        (xn+k−j − xn+k−j−1 ),        ∀ n ∈ N,
                                    j=0
                                                   j+1


                                                          2
e logo
                    k                                                  k
                              j k    k                                              k+1
         xn+k+1   =     (−1) (     +   )xn+k−j =                            (−1)j       xn+k−j , ∀ n ∈ N.
                    j=0
                               j+1   j                                j=0
                                                                                    j+1

   Um outro exemplo ´ dado por seq¨ˆncias do tipo xn = (an + b) · q n , onde a, b e q s˜o
                    e             ue                                                   a
constantes.       Temos que xn+1 − qxn                   =       (a(n + 1) + b)q n+1 − q(an + b) · q n               =
= q n+1 (a(n + 1) + b − (an + b)) = aq n+1 ´ uma progress˜o geom´trica de raz˜o q, e logo
                                           e             a      e            a
xn+2 − qxn+1 = q(xn+1 − qxn ), donde xn+2 = 2qxn+1 − q 2 xn , ∀ n ∈ N, e portanto (xn ) ´ uma
                                                                                        e
seq¨ˆncia recorrente linear de ordem 2.
   ue

   Vamos agora considerar a famosa e popular seq¨ˆncia de Fibonacci, dada por u0 = 0, u1 = 1
                                                ue
e un+2 = un+1 + un , ∀ n ∈ N. Seus primeiros termos s˜o u0 = 0, u1 = 1, u2 = 1, u3 = 2, u4 = 3,
                                                     a
u5 = 5, u6 = 8, u7 = 13, u8 = 21, . . . . Mostraremos na pr´xima se¸˜o como achar uma f´rmula
                                                           o       ca                  o
expl´
    ıcita para seu termo geral un em fun¸˜o de n, o que ser´ generalizado para seq¨ˆncias
                                        ca                 a                      ue
recorrentes lineares quaisquer, e veremos algumas de suas propriedades aritm´ticas.
                                                                            e

   Antes por´m, concluiremos esta se¸˜o com alguns fatos gerais sobre seq¨ˆncias recorrentes
            e                       ca                                   ue
lineares, que ser˜o uteis nas se¸˜es subsequentes.
                 a ´            co

   O conjunto das seq¨ˆncias que satisfazem uma dada recorrˆncia linear
                     ue                                    e
                                                   k
                                         xn+k =         cj xn+k−j ,    ∀n∈N
                                                  j=1


´ um espa¸o vetorial , isto ´, dadas duas seq¨ˆncias (yn ) e (zn ) que satisfazem esta recorrˆncia
e        c                  e                ue                                              e
                     k                             k
(ou seja, yn+k =          cj yn+k−j e zn+k =            cj zn+k−j , ∀ n ∈ N) e uma constante a, a seq¨ˆncia
                                                                                                     ue
                    j=1                           j=1
                                                                                        k
(wn ) dada por wn = yn + azn satisfaz a mesma recorrˆncia: wn+k =
                                                    e                                        cj wn+k−j , ∀ n ∈ N.
                                                                                       j=1
   ´
   E bastante usual, dada uma seq¨ˆncia (xn ), estudar a seq¨ˆncia obtida pela soma de seus
                                 ue                         ue
n primeiros termos sn =                 xk . Se (xn ) ´ uma seq¨ˆncia recorrente linear, (sn) tamb´m ´.
                                                      e        ue                                 e e
                                  k≤n
                                                                                                 k
De fato, sn+1 − sn =                xk −          xk = xn+1 , ∀ n ∈ N. Se xn+k =                      cj xn+k−j , temos
                            k≤n+1           k≤n                                                 j=1




                                                             3
k
sn+k+1 − sn+k =            cj (sn+k+1−j − sn+k−j ), ∀ n ∈ N, donde
                     j=1

                                            k−1                                     k+1
                 sn+k+1 = (1 + c1 )sn+k +         (cj+1 − cj )sn+k−j − ck sn =            di sn+k+1−i
                                            j=1                                     i=1


onde d1 = 1 + c1 , di = ci − ci−1 para 2 ≤ i ≤ k e dk+1 = −ck , ∀ n ∈ N, e portanto (sn ) ´ uma
                                                                                          e
seq¨ˆncia recorrente linear de ordem k + 1.
   ue




2 — A seq¨ˆncia de Fibonacci:
         ue

     A seq¨ˆncia de Fibonacci ´ definida por u0 = 0, u1 = 1 e un+2 = un+1 + un , ∀ n ∈ N.
          ue                  e
Queremos achar uma f´rmula expl´
                    o          ıcita para un em fun¸˜o de n. Para isso usaremos uma
                                                   ca
id´ia que ser´ bastante util tamb´m no caso geral: procuraremos progress˜es geom´tricas que
  e          a          ´        e                                      o       e
satisfazem a mesma recorrˆncia que (un ): se xn = a · q n com a e q n˜o nulos satisfaz xn+2 =
                         e                                           a
xn+1 + xn, ∀ n ∈ N, teremos a · qn+2 = a · q n+1 + a · q n = a · q n (q + 1), donde q 2 = q + 1. Temos
                                                                                                              √
                                                                                                            1+ 5
assim dois valores poss´                       ızes da equa¸˜o q 2 − q − 1 = 0, que s˜o
                       ıveis para q: as duas ra´           ca                        a                        2
      √                                          √      n                         √    n
    1− 5                                       1+ 5                            1− 5
e     2
         .   Assim, seq¨ˆncias da forma a
                       ue                        2
                                                            e da forma b         2
                                                                                         satisfazem a recorrˆncia
                                                                                                            e
                                                              √     n           √   n
                                                            1+ 5             1− 5
acima, bem como seq¨ˆncias da forma yn = a
                   ue                                         2
                                                                        +b     2
                                                                                      , pela observa¸˜o da se¸˜o
                                                                                                    ca        ca
anterior.

     Basta agora encontrar valores de a e b tais que y0 = 0 e y1 = 1 para que tenhamos yn = un
para todo n (de fato, ter´
                         ıamos y0 = u0 , y1 = u1 e, por indu¸˜o se k ≥ 2 e yn = Un para todo
                                                            ca
n < k, temos yk = yk−1 + yk−2 = uk−1 + uk−2 = uk ). Para isso, devemos ter:
                               
                               
                               a + b = 0
                                             √                √
                                       a   1+ 5
                                                     +b      1− 5
                                                                        =1
                                              2                2

                    1             1
e portanto a =     √
                     5
                          e b = − √5 . Mostramos assim que
                                            √       n           √        n
                                1        1+ 5                1− 5
                           un = √                       −                    ,   ∀ n ∈ N.
                                 5         2                   2



                                                        4
´
E curioso que na f´rmula do termo geral de uma seq¨ˆncia de n´ meros inteiros definida de
                  o                               ue         u
modo t˜o simples quanto (un ) apare¸am n´meros irracionais.
      a                            c    u

   Provaremos a seguir uma identidade util sobre n´meros de Fibonacci:
                                      ´           u


Proposi¸˜o:
       ca        um+n = um un−1 + um+1 un , ∀ m, n ∈ N, n ≥ 1.


Prova: Sejam ym = um+n e zm = um un−1 + um+1 un . Temos que (yn ) e (zn ) satisfazem a
recorrˆncia xn+2 = xn+1 +xn , ∀ n ∈ N. Por outro lado, y0 = un , y1 = un+1 , z0 = 0·un−1 +1·un =
      e
un = y0 e z1 = 1 · un−1 + 1 · un = un+1 = y1 , e portanto, como antes, zn = yn , ∀ n ∈ N.


   Podemos usar este fato para provar o seguinte interessante fato aritm´tico sobre a seq¨ˆncia
                                                                        e                ue
(un ), que pode ser generalizado para as chamadas seq¨ˆncias de Lucas, as quais s˜o uteis para
                                                     ue                          a ´
certos testes de primalidade:


Teorema:      mdc(um , un ) = umdc(m,n) , ∀ m, n ∈ N.


Prova: Observemos primeiro que mdc(un , un+1 ) = 1, ∀ n ∈ N. Isso vale para n = 0 pois u1 = 1
e, por indu¸˜o, mdc(un+1 , un+2 ) = mdc(un+1 , un+1 + un ) = mdc(un+1 , un ) = 1. Al´m disso, se
           ca                                                                       e
m = 0, mdc(um , un ) = mdc(0, un ) = un = umdc(m,n) , ∀ n ∈ N, e se m = 1, mdc(um , un ) =
mdc(1, un ) = 1 = u1 = umdc(m,n) , ∀ n ∈ N. Vamos ent˜o provar o fato acima por indu¸˜o
                                                     a                              ca
em m. Suponha que a afirma¸˜o do enunciado seja v´lida para todo m < k (onde k ≥ 2
                         ca                     a
´ um inteiro dado) e para todo n ∈ N. Queremos provar que ela vale para m = k e para
e
todo n ∈ N, isto ´, que mdc(uk , un ) = umdc(k,n) para todo n ∈ N. Note que, se n < k,
                 e
mdc(uk , un ) = mdc(un , uk ) = umdc(n,k) = umdc(k,n) , por hip´tese de indu¸˜o. J´ se n ≥ k,
                                                               o            ca    a
un = u(n−k)+k = un−k uk−1 + un−k+1 uk , e logo mdc(uk , un ) = mdc(uk , un−k uk−1 + un−k+1 uk ) =
mdc(uk , un−k uk−1 ) = mdc(uk , un−k ) (pois mdc(uk , uk−1 ) = 1) = umdc(k,n−k) = umdc(k,n) .




                                                  5
Corol´rio: Se m ≥ 1 e m ´ um divisor de n ent˜o um divide un . Al´m disso, se m ≥ 3 vale a
     a                  e                    a                   e
rec´
   ıproca: se um divide un ent˜o m divide n.
                              a




3 — A recorrˆncia xn+1 = x2 − 2
            e             n


   Consideremos as seq¨ˆncias (xn )n∈N de n´ meros reais que satisfazem a recorrˆncia xn+1 =
                      ue                   u                                    e
x2 − 2, ∀ n ∈ N. Suponha que x0 = α + α−1 para um certo α (real ou complexo). Ent˜o
 n                                                                               a
                                                  n            n
podemos provar por indu¸˜o que xn = α2 + α−2 , ∀ n ∈ N. De fato, se vale a f´rmula para
                       ca                                                   o
xn , teremos

                              n          n                   n+1            n+1          n+1         n+1
        xn+1 = x2 − 2 = (α2 + α−2 )2 − 2 = α2
                n                                                  + 2 + α−2      − 2 = α2     + α−2       .
                                                      √
                                  −1              x0 +       x2 −4
Se |x0 | > 2, temos x0 = α + α         para α =          2
                                                              0
                                                                     ∈ R.

   Se |x0 | ≤ 2, vale a mesma f´rmula para α, mas nesse caso α ´ um n´ mero complexo de
                               o                               e     u
                                                                                                  n iθ         n iθ
m´tulo 1, e pode ser escrito como α = eiθ = cos θ + i sen θ. Nesse caso, xn = e2
 o                                                                                                       + e−2        =
(cos(2n θ) + i sen(2n θ)) + (cos(2nθ) − sen(2n θ)) = 2 cos(2n θ).

   Podemos ver isso de outra forma: se |x0 | ≤ 2, escrevemos x = 2 cos θ, com θ ∈ [0, π].
Podemos mostrar ent˜o por indu¸˜o que xn = 2 cos(2n θ), para todo n ∈ N. De fato, xn+1 =
                   a          ca
x2 −2 = 4 cos2 (2n θ)−2 = 2(2 cos2 (2n θ)−1) = 2 cos(2n+1 θ), pois cos(2x) = 2 cos2 x−1, ∀ x ∈ R.
 n

Podemos usar esta express˜o para obter diversos tipos de comportamento poss´ para uma
                         a                                                 ıvel
tal seq¨ˆncia (xn ). Se x0 = 2 cos θ e θ/π ´ racional e tem representa¸˜o bin´ria peri´dica de
       ue                                  e                          ca     a        o
   ıodo m ent˜o (xn ) = (2 cos(2n θ)) ´ peri´dica de per´
per´         a                        e     o           ıodo m. Por outro lado, podemos ter
x0 = 2 cos θ onde θ/π tem representa¸˜o bin´ria como
                                    ca     a

                           0, 0100011011000001010011100101110111...

em que todas as seq¨ˆncias finitas de zeros e uns aparecem em algum lugar (isso acontece para
                   ue
a “maioria” dos valores de θ).

   Nesse caso, a seq¨ˆncia (xn ) = (2 cos(2n θ)) ´ densa em [−2, 2], isto ´, qualquer ponto de
                    ue                           e                        e
[−2, 2] pode ser apromado por elementos de (xn ), com erro arbitrariamente pequeno.

                                                         6
No caso em que x0 ´ um inteiro, a seq¨ˆncia (xn ) pode ter propriedades aritm´ticas muito
                      e                   ue                                     e
                                                         √ 2n          √ 2n
interessantes. Em particular, se x0 = 4 (e logo xn = (2 + 3) + (2 − 3) , ∀ n ∈ N) vale o
famoso crit´rio de Lucas-Lehmer para testar a primalidade de n´meros de Mersenne: se n ≥ 3
           e                                                  u
ent˜o 2n − 1 ´ primo se e somente se 2n − 1 ´ um divisor de xn−2 (por exemplo, 23 − 1 = 7 ´
   a         e                              e                                             e
primo e ´ um divisor de x3−1 = x1 = x2 − 2 = 42 − 2 = 14).
        e                            0




Exerc´
     ıcio: Seja x0 ≥ 3 um inteiro ´
                                  ımpar.


   i) Prove que se p ´ um n´ mero primo ent˜o existe no m´ximo um valor de n ∈ N tal que p
                     e     u               a             a
      divide xn .

  ii) Prove que se p ´ um fator primo de xn ent˜o p > n.
                     e                         a

      Sugest˜o: Considere a seq¨ˆncia xn (mod p).
            a                  ue

      Esse exerc´ pode ser generalizado para outras recorrˆncias. Nesse caso particular da
                ıcio                                      e
      recorrˆncia xn+1 = x2 −2 ´ poss´ mostrar um resltado mais forte: se p ´ um fator primo
            e             n    e     ıvel                                   e
      de xn ent˜o p ≥ 2n+2 − 1 (note que quando p = 2q − 1 ´ primo, com q ≥ 3 e n = q − 2,
               a                                           e
      vale a igualdade p = 2n+2 − 1 e p|xn , pelo crit´rio de Lucas-Lehmer enunciado acima).
                                                      e




4 - F´rmulas gerais para seq¨ˆncias recorrentes lineares:
     o                      ue


   Considere a equa¸˜o
                   ca

                        ak xn+k + ak−1 xn+k−1 + · · · + a0 xn = 0,   n≥0                       (2)

em que a0 , . . . , ak s˜o constantes, e os valores de xi s˜o conhecidos para i = 0, . . . , k − 1.
                        a                                  a
Supondo que a equa¸˜o (2) admite uma solu¸˜o do tipo: xn = λn, em que λ ´ um parˆmetro,
                  ca                     ca                             e       a
e substituindo em (2) temos

                             ak λn+k + ak−1 λn+k−1 + · · · + a0 λn = 0.

                                                 7
Dividindo por λn , obtemos a equa¸˜o caracter´stica associada a equa¸˜o (2)
                                 ca          ı                      ca

                                      a1 λk + ak−1 λk−1 + · · · + a0 λ0 = 0.

Vamos mostrar que se esta equa¸˜o tem as ra´
                              ca           ızes complexas λ1 , . . . , λr com multiplicidades
α1 , α2 , . . . , αr ∈ N, respectivamente, ent˜o as solu¸˜es de (2) s˜o exatamente as seq¨ˆncias
                                              a         co           a                   ue
(xn ) da forma xn = Q1 (n)λn + Q2 (n)λn + · · · + Qr (n)λn , onde Q1 , . . . , Qr s˜o polinˆmios com
                           1          2                  r                         a       o
grau(Qi ) < αi , 1 ≤ i ≤ r (em particular, se λi ´ uma raiz simples ent˜o Qi ´ constante).
                                                 e                     a     e

   Seja P (x) = ak xk + ak−1 xk−1 + · · · + a0 um polinˆmio.
                                                       o

   Defini¸˜o: Dizemos que uma seq¨ˆncia (xn )n∈N satisfaz a propriedade Rec(P (x)) se
        ca                      ue
ak xn+k + ak−1 xn+k−1 + · · · + a0 xn = 0, ∀ n ∈ N. N˜o ´ dif´ verificar os seguintes fatos:
                                                     a e ıcil


   i) Se (xn ) e (yn ) satisfazem Rec(P (x)) e c ∈ C ent˜o (zn ) = xn + cyn satisfaz Rec(P (x)).
                                                        a

  ii) Se Q(x) = br xr + br−1 xr−1 + · · · + b0 e (xn ) satisfaz Rec(P (x)) ent˜o (xn ) satisfaz
                                                                              a
                                             r
      Rec(P (x)Q(x)) (isso segue de               bj (ak xn+j+k +ak−1 xn+j+k−1 +· · ·+a0 xn+j ) = 0, ∀ n ∈ N)
                                            j=0

 iii) (xn ) satisfaz Rec(P (x)) se e s´ se (yn ) = (xn /λn) satisfaz Rec(P (λx)) (substitua xn+j =
                                      o
                       k
      λn+j yn+j em          aj xn+j = 0).
                      j=0

                 n
  iv) Se sn =         xk ent˜o (xn ) satisfaz Rec(P (x)) se e s´ se (sn ) satisfaz Rec((x − 1)P (x))
                            a                                  o
                k=0
                                                                  n
      (escreva xn+j+1 = sn+j+1 − sn+j e substitua em                   aj xn+j+1 = 0).
                                                                 j=0


   Por iii), para ver que, para todo polinˆmio Q(x) de grau menor que m, xn = Q(n)λn
                                          o
satisfaz Rec((x − λ)m ), basta ver que (yn ) = (Q(n)) satisfaz Rec((x − 1)m ), o que faremos por
indu¸˜o. Isso ´ claro que m = 1, e em geral, se zn = yn+1 − yn = Q(n + 1) − Q(n), como
    ca        e
˜
Q(x) = Q(x + 1) − Q(x) tem grau menor que m − 1, (zn ) satisfaz Rec((x − 1)m−1 ) (por hip´tese
                                                                                         o
de indu¸˜o), e logo, por (iv), (Yn ) satisfaz Rec((x − 1)m ). Essa observa¸˜o, combinada com ii)
       ca                                                                 ca
e i), mostra que se P (x) = (x − λ1 )α1 (x − λ2 )α2 (x − λ2 )α2 . . . (x − λr )αr , e grau(Qi ) < αi para
                            r
1 ≤ i ≤ r ent˜o xn =
             a                   Qi (n)λn satisfaz Rec(P (x)).
                                        i
                           i=1




                                                          8
Para ver que se (xn ) satisfaz Rec(P (x)) ent˜o xn ´ da forma acima, usaremos indu¸˜o
                                                a     e                              ca
novamente.

   Supomos λ1 = 0 e tomamos yn = xn /λn , zn = yn+1 − yn , para n ≥ 0.
                                      1

   Por iii) e iv), zn satisfaz Rec(P (λ1 x)/(x − 1)) e, portanto por hip´tese de indu¸˜o, zn =
                                                                        o            ca
˜        ˜                          ˜                            ˜                               ˜
Q1 (x) + Q2 (x)(λ2 /λ1 )n + · · · + Qr (x)(λr /λ1 )n , onde grau(Qi ) < αi para 2 ≤ i ≤ r e grau(Q1 ) <
α1 − 1.

   Para terminar a prova, vamos mostrar que se existem polinˆmios P1 , P2 , . . . , Pk tais que
                                                            o
                            n                  n
yn+1 − yn = P1 (n) + P2 (n)β2 + · · · + Pk (n)βk (onde 1, β2 , . . . , βk s˜o complexos distintos e
                                                                           a
                            ˜        ˜      n           ˜      n        ˜            ˜ a
Pi = 0, ∀ i ≥ 2) ent˜o yn = P1 (n) + P2 (n)β2 + · · · + Pk (n)βk , onde P1 , . . . , Pk s˜o polinˆmios
                    a                                                                            o
                   ˜                    ˜
com grau Pi = grau Pi para i ≥ 2 e grau P1 = grau P1 + 1, por indu¸˜o na soma dos graus dos
                                                                  ca
polinˆmios Pi , onde convencionamos que o grau do polinˆmio nulo ´ −1.
     o                                                 o         e

   (no nosso caso temos βi = λi /λ1 , e como xn = λn yn o resultado segue imediatamente).
                                                   1

   Para provar essa afirma¸˜o observamos inicialmente que, se a soma dos grau de Pi ´ −1,
                         ca                                                        e
ent˜o yn+1 − yn = 0, ∀ n, e logo, yn ´ constante. Em geral, consideramos 2 casos:
   a                                 e

                                                                                             cm nm+1
  a) P1 (x) = cm xm + cm−1 xm−1 + · · · + c0 , cm = 0. Nesse caso definimos yn = yn −
                                                                           ˜                  m+1
                                                                                                     ,    e
                                        n                  n
      temos yn+1 − yn = Q1 (n) + P2 (n)β1 + · · · + Pk (n)βk , com grau(Q) < m. Por hip´tese de
            ˜      ˜                                                                   o
      indu¸˜o, yn (e logo yn ) ´ da forma desejada.
          ca ˜                 e

                                                                                             ds ns λn
  b) P2 (x) = ds xs + ds−1 xs−1 + · · · + d0 , ds = 0. Nesse caso, definimos yn = yn −
                                                                            ˜                 λ2 −1
                                                                                                    2
                                                                                                      ,   e
                                      n          n                  n
      temos yn+1 − yn = P1 (n) + Q(n)β2 + P3 (n)β3 + · · · + Pk (n)βk , com grau(Q) < s. Por
            ˜      ˜
      hip´tese de indu¸˜o, yn (e logo yn ) ´ da forma desejada.
         o            ca ˜                 e


   Vimos na primeira parte da demonstra¸˜o acima que (xn ) satisfaz Rec(P (x)), onde P (x) =
                                       ca
(x − λ1 )α1 (x − λ2 )α2 . . . (x − λr )αr sempre que xn = Q1 (n)λn + Q2 (n)λn + · · · + Qr (n)λn ,
                                                                 1          2                  r

onde Q1 , Q2 , . . . , Qr s˜o polinˆmios com grau(Qj ) < αj , ∀ j ≤ r. Vamos apresentar um ar-
                           a       o
gumento alternativo, motivado por conversas do autor com Bruno Fernandes Cerqueira Leite,
para mostrar que todas as seq¨ˆncias que satisfazem as recorrˆncia s˜o dessa forma.
                             ue                              e      a



                                                  9
Cada polinˆmio Qi (n) tem αi coeficientes (dos monˆmios cujos graus s˜o 0, 1, 2, . . . , αi − 1).
                o                                      o                  a
Como o espa¸o vetorial das seq¨ˆncias que satisfazem Rec(P (x)) tem dimens˜o grau(P (x)) =
           c                  ue                                          a
 r
      αi , basta ver que h´ unicidade na representa¸˜o de uma seq¨ˆncia na forma cima. Para isso,
                          a                        ca            ue
i=1
devemos mostrar que, se λ1 , λ2 , . . . , λr s˜o n´meros complexos distintos e Q1 , Q2 , . . . , Qr s˜o
                                              a u                                                    a
polinˆmios tais que Q1 (n)λn + Q2 (n)λn + · · · + Qr (n)λn = 0, ∀ n ∈ N, ent˜o Qj ≡ 0, ∀ j ≤ r.
     o                     1          2                  r                  a

      Vamos supor por absurdo que n˜o seja assim. Supomos sem perda de generalidade que,
                                   a
para certos s e t com 1 ≤ s ≤ t ≤ r, |λ1 | = |λi | > |λj |, ∀ i ≤ t, j > t, e grau(Q1 ) = grau(Qi ) >
grau(Qj ), se i ≤ s < j ≤ t. Se os polinˆmios Qj n˜o s˜o todos nulos, temos Q1 n˜o nulo. Seja
                                        o         a a                           a
                                                        Qj (n)λn
                                                               j
d o grau de Q1 . Se |λj | < |λ1 | ent˜o lim
                                     a                     d n        = 0, e se |λi | = |λ1 | e grau(Q) < d, tamb´m
                                                                                                                 e
                                                  n→∞ n λ1
               Q(n)λn
temos lim       nd λn
                      i
                          = 0. Portanto,        se Q1 (n)λn +
                                                            1         Q2 (n)λn + · · · + Qr (n)λn = 0, ∀ n ∈ N e o
                                                                             2                  r
         n→∞        1

coeficiente de nd em Qi ´ ai para i ≤ s, dividindo por nd λn e tomando o limite, temos
                       e                                  1

                                                                                    n
                                                                        λi
                                       lim        a1 +           ai                     = 0,
                                      n→∞
                                                         2≤i≤s
                                                                        λ1

donde
                                            n                                       k
                                     1                                     λi
                          0 = lim                 a1 +           ai
                              n→∞    n   k=1             2≤i≤s
                                                                           λ1
                                                   n                            k
                                          1                           λi
                           = lim     a1 +                   ai
                              n→∞         n       k=1 2≤i≤s
                                                                      λ1
                                                          n                  k
                                                     1                λi
                           = a1 +           ai · lim
                                                 n→∞ n                λ1
                                    2≤i≤s                 k=1
                                                          1 (λi /λ1 )n+1 − (λi /λ1 )
                           = a1 +           ai · lim        ·                                   = a1 ,
                                    2≤i≤s
                                                 n→∞      n      (λi /λ1 ) − 1

pois, para 2 ≤ i ≤ s, λi /λ1 = 1 ´ um complexo de m´dulo 1, donde
                                 e                 o

                                    (λi /λ1 )n+1 − (λi /λ1 )          2
                                                             ≤                 ,
                                         (λi /λ1 ) − 1         |(λi /λ1 ) − 1|

e logo
                                         1         (λi /λ1 )n+1 − (λi /λ1 )
                                     lim                                                 = 0.
                                    n→∞ n               (λi /λ1 ) − 1
Entretanto, isso ´ um absurdo, pois grau(Q1 ) = d, e logo a1 = 0.
                 e


                                                              10
Exemplo: xn = sen(nα) satisfaz uma recorrˆncia linear. De fato,
                                         e

   xn+1 = sen(nα + α) = sen(nα) cos α + cos(nα) sen α ⇒

   xn+2 = sen(nα + 2α) = sen(nα) cos 2α + cos(nα) sen 2α ⇒
               sen 2α                                sen 2α
   ⇒ xn+2 −           x
                sen α n+1
                                = (cos 2α −           sen α
                                                               cos α)xn , ou seja,

   xn+2 = 2 cos α · xn+1 − xn . Note que xn n˜o parece ser da forma geral descrita nesta se¸˜o,
                                             a                                             ca
mas de fato

           einα − e−inα  1         1          1                    1
    xn =                = (eiα )n − (e−iα )n = (cos α + i sen α)n − (cos α − i sen α)n
                2i       2i        2i         2i                   2i

( observe que cos α + i sen α e cos α − i sen α s˜o as ra´ de x2 − 2 cos α · x + 1).
                                                 a       ızes


Observa¸˜o: Se (xn ) safisfaz Rec((x − 1)P (x)), onde P (x) = an xk + ak−1 xk−1 + · · · + a0 , ent˜o,
       ca                                                                                        a
se definirmos yn = ak xn+k + ak−1 xn+k−1 + · · · + a0 xn , teremos yn+1 = yn , ∀ n ∈ N, ou seja, yn
´ constante. Assim, ak xn+k + · · · + a0 xn ´ um invariante da seq¨ˆncia xn , o que ´ um fato util
e                                           e                     ue                e         ´
para muitos problemas envolvendo recorrˆncia (veja, por exemplo, os Problemas 2 e 3 abaixo).
                                       e

   Vamos agora ver um problema resolvido em que se usam estimativas assint´ticas de seq¨ˆncias
                                                                          o            ue
recorrentes para provar um resultado de teoria dos n´meros:
                                                    u


Problema 1. (Problema 69 da Revista Eureka! no . 14) Sejam a e b inteiros positivos
tais que an − 1 divide bn − 1 para todo inteiro positivo n.

   Prove que existe k ∈ N tal que b = ak .


Solu¸˜o de Zoroastro Azambuja Neto (Rio de Janeiro-RJ):
    ca

   Suponha por absurdo que b n˜o seja uma potˆncia de a.
                              a              e
                                                                                                                  bn −1
   Ent˜o existe k ∈ N tal que ak < b < ak+1 . Consideremos a seq¨ˆncia xn =
      a                                                         ue                                                an −1
                                                                                                                          ∈ N,
                                                              ∞
                      1          1        1                        1
∀ n ≥ 1. Como       an −1
                            =   an
                                     +   a2n
                                               + ··· =            ajn
                                                                      ,   temos
                                                           j=1

              ∞                                        n                  n              n
                    bn      1                    b                b                  b                bn          1
       xn =          jn
                        − n   =                            +                  + ...          +                − n   .
              j=1
                    a    a −1                    a                a2                ak           akn (an − 1)  a −1


                                                                       11
bn            (b/ak+1 )n          1
Note que como    akn (an −1)
                               =      1−a−n
                                                  e   an −1
                                                                   tendem a 0 quando n cresce, se definimos

                                          n                                              n        k                n
                                     b                b                           b                       b
                        yn =                  +                + ··· +                       =                         ,
                                     a                a2                         ak              j=1
                                                                                                          aj

temos que
                                                                    bn          1
                                          xn − yn =             kn (an − 1)
                                                                            − n
                                                               a             a −1
tende a 0 quando n tende a infinito. Por outro lado, como yn ´ uma soma de k progress˜es
                                                            e                       o
geom´tricas de raz˜es b/aj , 1
    e             o                               ≤        j        ≤       k, yn satisfaz a equa¸˜o de recorrˆncia
                                                                                                 ca           e
c0 yn+k + c1 yn+k−1 + · · · + ck yn = 0, ∀ n ≥ 0, onde
                                                                                             b             b                       b
         c0 xk + c1 xk−1 + · · · + ck−1 x + ck = ak(k+1)/2 x −                                        x−               ... x−
                                                                                             a             a2                     ak
Note que todos os ci s˜o inteiros. Note tamb´m que
                      a                     e

 c0 xn+k + c1 xn+k−1 + · · · + ck xn = c0 (xn+k − yn+k ) + c1 (xn+k−1 − yn+k−1 ) + · · · + ck (xn − yn )

tende a 0 quando n tende a infinito, pois xn+j − yn+j tende a 0 para todo j com 0 ≤ j ≤ k (e k
est´ fixo). Como os ci e os xn s˜o todos inteiros, isso mostra que c0 xn+k +c1 xn+k−1 +· · ·+ck xn = 0
   a                           a
para todo n grande.

   Agora, como
                                                               n
                                                      b                       bn            1
                          xn = yn +                                +                    − n   ,
                                                  ak+1                 a(k+1)n (an − 1)  a −1
temos
                                                                            k                         n+k−j
                                                                                             b
              c0 xn+k + c1 xn+k−1 + · · · + ck xn =                             cj                             + zn+k−j       ,
                                                                        j=0
                                                                                         ak+1
onde
                                                          bm            1
                                          zm =      (k+1)m (am − 1)
                                                                    − m   .
                                                   a                 a −1
Note que
                                k                         n+k−j                                            n
                                              b                                      b                b
                                     ck                             =P                       ·                 ,
                               j=0
                                           ak+1                                 ak+1             ak+1
onde

                                                                                                 b                 b                    b
    P (x) = c0 xk + c1 xk−1 + · · · + ck−1 x + ck = ak(k+1)/2 x −                                         x−               ... x −          ,
                                                                                                 a                 a2                  ak

                                                                       12
b                                                                               b  n
donde P      ak+1
                     = 0. Por outro lado, para todo j com 0 ≤ j ≤ k, zn+k−j                  ak+1
                                                                                                      =
     (b/ak+1 )k−j                1
=     an+k−j −1
                    −   (ak−j −a−n )(b/ak )n
                                             ,   que tende a 0 quando n tende a infinito, donde
           k
                                    b  n                  b
wn =           cj xn+k−j          ak+1
                                            tende a P   ak+1
                                                               = 0, o que ´ um absurdo, pois, como vi-
                                                                          e
         j=0
mos antes, wn ´ igual a 0 para todo n grande.
              e


    Veremos a seguir dois problemas resolvidos que envolvem seq¨ˆncias recorrentes, que foram
                                                               ue
propostos na OBM e na IMO, respectivamente:


Problema 2. (Problema 5 da 13a Olimp´
                                    ıada Brasileira de Matem´tica - N´
                                                            a        ıvel Sˆnior
                                                                           e
- 1991) Seja Q0 o quadrado de v´rtices P0 = (1, 0), P1 = (1, 1), P2 = (0, 1) e P3 = (0, 0). Seja
                               e
A0 o interior desse quadrado. Para cada n ∈ N, Pn+4 ´ o ponto m´dio do segento Pn Pn+1 , Qn ´
                                                    e          e                            e
o quadril´tero de v´rtices Pn , Pn+1 , Pn+2 e Pn+3 e An ´ o interior de Qn . Encontre a interse¸˜o
         a         e                                    e                                      ca
de todos os An .


Solu¸˜o 1:
    ca
                  Pn + Pn+1
    Temos Pn+4 =            . Portanto, Pn+1 + 2Pn+2 + 2Pn+3 + 2Pn+4 = Pn + 2Pn+1 + 2Pn+2 +
                      2
2Pn+3 , logo Pn + 2Pn+1 + 2Pn+2 + 2Pn+3 = P0 + 2P1 + 2P2 + 2P3 = (3, 4), para todo n ∈ N
(note que 2x4 − x − 1 = (x − 1)(2x3 + 2x2 + 2x + 1)), donde, como An ´ sempre convexo,
                                                                     e

                               3 4        Pn + 2Pn+1 + 2Pn+2 + 2Pn+3
                                ,       =                            =
                               7 7                    7
                                          3 1       2         4 Pn+2 + Pn+3
                                        =     Pn + Pn+1 +
                                          7 3       3         7       2

sempre pertence ao interior de An . Se mostrarmos que o diˆmetro (maior distˆncia entre 2
                                                            a               a
                                                                             3 4
pontos) de An tende a 0, teremos mostrado que a interse¸˜o de todos os An ´
                                                       ca                 e   ,     .
                                                                             7 7
    Para isso, note que o diˆmetro de ABCD ´ diam(ABCD) = max AB, AC, AD, BC, BD, CD ,
                            a              e
e
                              Pn + Pn+1          Pn+1 + Pn+2          Pn+2 + Pn+3
                    Pn+4 =              , Pn+5 =             , Pn+6 =
                                  2                   2                    2
                                        Pn+3 + Pn+4   2Pn+3 + Pn + Pn+1
                                 Pn+7 =             =
                                             2                 4


                                                        13
e
                                   Pn+4 + Pn+5   Pn + 2Pn+1 + Pn+2
                          Pn+8 =               =                   ·
                                        2                4
Assim,
                                                     Pn+3 − Pn+1  1
                  Pn+5 Pn+6 = |Pn+6 − Pn+5 | =                   = Pn+1 Pn+3 ,
                                                          2       2

                                           2Pn+3 + Pn − Pn+1 − 2Pn+2
                 Pn+5 Pn+7 = |Pn+7 − Pn+5 | =                         ≤
                                                        4
                   1                1               Pn+2 Pn+3 Pn Pn+1
                  ≤ |Pn+3 − Pn+2 | + |Pn − Pn+1 | =          +        ,
                   2                4                  4         2

                                             Pn − Pn+2     Pn Pn+2
                Pn+5 Pn+8 = |Pn+8 − Pn+5 | =            =          ,
                                                 4            4
                                             Pn + Pn+1 − 2Pn+2
                Pn+6 Pn+7 = |Pn+7 − Pn+6 | =                     ≤
                                                     4
                   |Pn − Pn+2 | |Pn+1 − Pn+2 |   1            1
                ≤              +               = Pn Pn+2 + Pn+1 Pn+2 ,
                        4              4         4            4
                                             Pn + 2Pn+1 − Pn+2 − 2Pn+3
                Pn+6 Pn+8 = |Pn+8 − Pn+6 | =                           ≤
                                                         4
                   1                 1              1              1
                ≤ |Pn+1 − Pn+3 | + |Pn − Pn+2 | = Pn+1 Pn+3 + Pn Pn+2 ,
                   2                 4              2              4
e
                                          Pn+2 + Pn+1 − 2Pn+3
               Pn+7 Pn+8 = |Pn+8 − Pn+7 | =                     ≤
                                                   4
                  |Pn+2 − Pn+3 | |Pn+1 − Pn+3 |  1            1
                ≤               +               = Pn+2 Pn+3 + Pn+1 Pn+3 .
                        4              4         4            4
                                               3
    Portanto, diam(Pn+5 Pn+6 Pn+7 Pn+8 ) ≤       diam(Pn Pn+1 Pn+2 Pn+3 ), donde
                                               4
                                                     k                       √          k
                                                 3                                  3
              diam(P5k P5k+1 P5k+2 P5k+3 ) ≤             diam(P0 P1 P2 P3 ) = 2 ·           ,
                                                 4                                  4
que tende a 0, o que implica o nosso resultado.


Solu¸˜o 2:
    ca

   Podemos escrever Pn = Q0 + Q1 αn + Q2 β n + Q3 γ n , onde 1, α, β e γ s˜o as ra´
                                                                          a       ızes
         x+1
de x4 −                                       ızes de 2x3 + 2x2 + 2x + 1 = 0 (pois
                 = 0, ou seja, α, β e γ s˜o ra´
                                         a
           2

                                                  14
(x − 1)(2x3 + 2x2 + 2x + 1) = 2x4 − x − 1).           Temos P (x) = 2x3 + 2x2 + 2x + 1 =
                                                                        1      1
= 2(x − α)(x − β)(x − γ). Como P (0) = 1,            P (−1) = −1 e P −      =    podemos
                                                                        2      4
                        1
supor que −1 < α < − , logo βγ = −1/2α < 1 e β + γ = −1 − α ∈ (−1, 0), donde
                        2
                              2                       1
(β + γ) − 4βγ = 1 + 2α + α2 + < 0 pois α < 0 ⇒ α + ≤ −2 e |α| < 1 ⇒ α2 < 1. Assim,
       2
                              α                       α         √
       2
(β − γ) < 0, donde β e γ s˜o complexos conjugados, e |β| = |γ| = βγ < 1. Portanto, Pn
                          a
tende a Q0 quando n cresce, e logo a interse¸˜o de todos os An deve ser Q0 .
                                            ca

   Para calcular Q0 , observe que:
                             
                             Q + Q + Q + Q = P
                              0
                             
                                   1     2     3     0
                             
                             
                             
                             
                             Q0 + Q1 α + Q2 β + Q3 γ = P1
                               
                               Q0 + Q1 α2 + Q2 β 2 + Q3 γ 2 = P2
                               
                               
                               
                               
                               
                               
                               Q + Q α3 + Q β 3 + Q γ 3 = P
                                 1    1       2        3        3


⇒ 7Q0 + Q1 (1 + 2α + 2α2 + 2α3 ) + Q2 (1 + 2β + 2β 2 + 2β 3 ) + Q3 (1 + 2γ + 2γ 2 + 2γ 3 )
= P0 + 2P1 + 2P2 + 2P3 ⇒ 7Q0 = P0 + 2P1 + 2P2 + 2P3 (pois α, β e γ s˜o ra´
                                                                    a    ızes de
                           P0 + 2P1 + 2P2 + 2P3   3 4
2x3 + 2x2 + 2x + 1) ⇒ Q0 =                      =  ,  .
                                     7            7 7

Problema 3. (Problema 3 da 41a Olimp´
                                    ıada Internacional de Matem´tica, realizada
                                                               a
em 2000, na Cor´ia do Sul) Seja n ≥ 2 um inteiro. Existem n pulgas numa reta horizontal,
               e
nem todas no mesmo ponto. Para um dado n´ mero real positivo λ, define-se um salto da
                                        u
seguinte maneira:


   • Escolhem-se duas pulgas quaisquer nos pontos A e B, com o ponto A ` esquerda do ponto
                                                                       a
     B;

                                                                                  BC
   • A pulga que est´ em A salta at´ o ponto C da reta, ` direita de B, tal que
                    a              e                    a                         AB
                                                                                       = λ.


   Determine todos os valores de λ para os quais, dado qualquer ponto M na reta e quaisquer
posi¸˜es iniciais das n pulgas, existe uma sucess˜o finita de saltos que levam todas as pulgas
    co                                           a
para pontos ` direita de M .
            a

                                                15
Solu¸˜o:
    ca
                                     1
   A resposta ´: para ℓ ≥
              e                    (n−1)
                                         .

   Devemos demonstrar duas coisas:

                           1
  a) que, para ℓ ≥       (n−1)
                               ,    existe uma seq¨ˆncia infinita de movimentos que vai levando as
                                                  ue
      pulgas cada vez mais para a direita, ultrapassando qualquer ponto prefixado M ;

                        1
  b) que, para ℓ <    (n−1)
                              e para qualquer posi¸˜o inicial das pulgas, existe um ponto M tal que
                                                  ca
      as pulgas em um n´mero finito de movimentos jamais alcan¸am ou ultrapassam M .
                       u                                     c


   Come¸aremos pelo item b). Sejam x1 , x2 , . . . , xn as posi¸˜es iniciais das pulgas, com x1 ≤
       c                                                       co
x2 ≤ · · · ≤ xn , de tal forma que xn ´ a posi¸˜o da pulga mais ` direita. Seja
                                      e       ca                a

                                   1
                    P =                       · (xn − ℓ · x1 − ℓ · x2 − · · · − ℓ · xn−1 ).
                              1 − (n − 1)ℓ

O ponto P claramente est´ ` direita de todas as pulgas.
                        aa

   Afirmamos que, se ap´s alguns movimentos as novas posi¸˜es s˜o x′1 , . . . , x′n e definimos
                      o                                 co    a

                                 1
                  P′ =                       · (x′n − ℓ · x′1 − ℓ · · · x′1 − · · · − ℓ · x′n−1 ),
                            1 − (n − 1)ℓ

ent˜o P ′ ≤ P , o que conclui a demonstra¸˜o, pois isso mostra que as pulgas nunca passar˜o do
   a                                     ca                                              a
ponto P .

   Para provar esta afirma¸˜o, basta considerar o que ocorre ap´s um movimento.
                         ca                                   o

   Se a pulga que estava em xi pula sobre a pulga que estava em xn ent˜o x′n − xn = ℓ · (xn − xi )
                                                                      a
e x′n − ℓ · xn = xn − ℓ · xi e P ′ = P .

   Vamos ver que qualquer outro caso ´ ainda mais favor´vel. Suponhamos que a pulga que
                                     e                 a
estava em xi pula sobre a pulga que estava em xj . Se a pulga que pulou continua atr´s de xn ,
                                                                                    a
temos x′n = xn e x′1 + · · · + x′n−1 > x1 + · · · + xn−1 , donde P ′ < P . Se ela passa de xn , teremos
x′n = xj + ℓ(xj − xi ) ⇒ x′n − ℓxn < x′n − ℓxj = xj − ℓxi < xn − ℓxi , donde novamente temos
P′ < P.



                                                      16
Vamos agora ao item a): Seja P = xn − ℓ(x1 + x2 + · · · + xn−1 ) se, em cada movimento,
a pulga mais ` esquerda pula sobre a pulga mais ` direita, temos x′n = xn + ℓ(xn − x1 ) ⇒
             a                                  a
x′n − ℓxn = xn − ℓx1 . Assim, se as novas posi¸˜es s˜o x′1 = x2 , . . . , x′n−1 = xn e x′n , e P ′ =
                                              co    a
x′n − ℓ(x′1 + x′2 + · · · + x′n−1 ), temos P ′ = P , donde P ´ uma constante. Podemos supor sem
                                                             e
                                                                                      x1 +···+xn−1
perda de generalidade que P ´ positivo (escolhendo a origem, por exemplo, em
                            e                                                             n−1
                                                                                                   ;   note
                              x1 +···+xn−1
que ent˜o teremos sempre
       a                          n−1
                                             ≥ 0). Temos ent˜o
                                                            a

            n−1
      1                                1
                  (xn − xj ) = xn −       (x1 + · · · + xn−1 ) ≥ xn − ℓ(x1 + · · · + xn−1 ) = P ⇒
     n−1    j=1
                                      n−1

                                 n−1
                        1                                                           P
             xn − x1 ≥                 (xn − xj ) ≥ P ⇒ x′n − xn = ℓ(xn − x1 ) ≥       ,
                       n−1       j=1
                                                                                   n−1
                                                          P
donde o ponto mais ` direita caminha pelo menos
                   a                                     n−1
                                                               para a direita a cada passo, logo tende
a infinito. Como o ponto mais a direita ap´s n − 1 passos ser´ o ponto mais ` esquerda, todos
                                         o                  a              a
os pontos tendem a infinito (para a direita).


Nota: Na estrat´gia descrita na solu¸˜o do item a), o ponto mais ` esquerda se torna sempre
               e                    ca                           a
o mais ` direita, donde podemos definir xn+1 = x′n = xn + ℓ(xn − x1 ), e teriamos simplesmente
       a
x′j = xj+1 , ∀ j. Reduzimos ent˜o a an´lise dessa estrat´gia ao estudo da recorrˆncia linear
                               a      a                 e                       e
                                   o            ıstico ´ P (x) = xn+1 − (1 + ℓ)xn + ℓ, do
xn+1 = (1 + ℓ)xn − ℓx1 , cujo polinˆmio caracter´      e
                                 P (x)
qual 1 ´ raiz, donde, como
       e                         x−1
                                         = xn − ℓ(xn−1 + xn−2 + · · · + x + 1), a express˜o ym =
                                                                                         a
xm − ℓ(xm−1 + xm−2 + · · · + xm−n+1 + xm−n ) ´ um invariante da recorrˆncia, isto ´, ym+1 = ym
                                             e                        e           e
∀ m, donde ym ´ constante. Da´ vem nossa f´rmula para P .
              e              ı            o


   Conclu´
         ımos com o problema a seguir, que ´ uma interessante aplica¸˜o de seq¨ˆncias recor-
                                           e                        ca        ue
rentes ` trigonometria.
       a


   Problema 4.         Prove que os ˆngulos agudos de um triˆngulo retˆngulo de lados 3, 4 e 5
                                    a                       a         a
s˜o irracionais quando expressos em graus (i.e., s˜o m´ ltiplos irracionais de π).
 a                                                a   u




                                                    17
Solu¸˜o:
    ca
                                   (2+i)n −(2−i)n
     Considere a seq¨ˆncia xn =
                    ue                   2i
                                                  .   Temos x0 = 0, x1 = 1 e, como 2 + i e 2 − i s˜o
                                                                                                  a
ra´ da equa¸˜o x2 − 4x + 5 = 0, (xn ) satisfaz a recorrˆncia xn+2 = 4xn+1 − 5xn . Da´ segue
  ızes     ca                                          e                            ı
que xn+2 ´ congruente a −xn+1 m´dulo 5 para todo n ≥ 1, donde xn ´ congruente a (−1)n+1
         e                     o                                 e
para todo n ≥ 1, e logo xn n˜o ´ m´ ltiplo de 5 para nenhum n ≥ 1. Em particular, xn = 0,
                            a e u
                                (2+i)n
para todo n ≥ 1. Assim, 1 =     (2−i)n
                                         = ( 2+i )n = ( 3 + 4 i)n , para todo n ≥ 1. Se θ = cos−1 (3/5),
                                             2−i        5   5
3
5
    + 4 i = eiθ , donde ( 3 + 4 i)n = einθ = 1, para todo n ≥ 1, o que implica que θ/π ´ irracional
      5                   5   5
                                                                                       e
                           ıamos e2iqθ = e2ipπ = 1).
(de fato, se θ/π = p/q, ter´


Nota: Para uma vers˜o mais geral deste problema, veja o Problema 88 proposto na Eureka! 17,
                   a
p. 60 por Carlos Gustavo Moreira e Jos´ Paulo Carneiro, e a solu¸˜o de seus autores publicada
                                      e                         ca
na Eureka! 20, pp. 52-53.




                                                      18

Sequencias recorrentes

  • 1.
    Seq¨ˆncias Recorrentes ue Carlos Gustavo Moreira IMPA Seq¨ˆncias recorrentes s˜o seq¨ˆncias x0 , x1 , x2 , . . . em que cada termo ´ determinado por ue a ue e uma dada fun¸˜o dos termos anteriores. Dado um inteiro positivo k, uma seq¨ˆncia recorrente ca ue de ordem k ´ uma seq¨ˆncia em que cada termo ´ determinado como uma fun¸˜o dos k termos e ue e ca anteriores: xn+k = f (xn+k−1 , xn+k−2 , . . . , xn+1 , xn ), ∀ n ∈ N. Com essa generalidade, o estudo geral de seq¨ˆncias recorrentes se confunde em larga me- ue dida com a teoria dos Sistemas Dinˆmicos, e o comportamento de tais seq¨ˆncias pode ser a ue bastante ca´tico e de descri¸˜o muito dif´ o ca ıcil, mesmo qualitativamente. Um caso particular muito importante ocorre quando a fun¸˜o f ´ linear: existem constantes c1 , c2 , . . . , cn com ca e xn+k = c1 xn+k−1 + c2 xn+k−2 + · · · + ck xn , ∀ n ∈ N. Tais seq¨ˆncias s˜o conhecidas como seq¨ˆncias recorrentes lineares, e generalizam simultanea- ue a ue mente as progress˜es geom´tricas, aritm´ticas e os polinˆmios. Estas seq¨ˆncias ser˜o o objeto o e e o ue a principal dessas notas. N˜o obstante, algumas recorrˆncias n˜o-lineares ser˜o consideradas, a e a a como a recorrˆncia xn+1 = x2 − 2, que tem grande interesse do ponto de vista de sistemas e n dinˆmicos e por suas aplica¸˜es ` teoria dos n´meros. a co a u Essas notas, adaptadas do texto de um mini-curso dado pelo autor na II Bienal da SBM, s˜o a inspiradas no excelente livreto ”Seq¨ˆncias Recorrentes”, de A. Markuchevitch, publicado na ue cole¸˜o ”Inicia¸˜o na matem´tica”, da editora MIR, no qual o autor aprendeu bastante sobre o ca ca a tema no in´ de sua forma¸˜o matem´tica. A se¸˜o 4, onde ´ deduzida a f´rmula para o termo ıcio ca a ca e o geral de uma seq¨ˆncia recorrente linear, ´ adaptada do artigo ”Equa¸˜es de recorrˆncia”, de ue e co e H´ctor Soza Pollman, publicado no n´ mero 9 da revista Eureka! (de fato, o artigo original e u 1
  • 2.
    submetido ` revistaenunciava esta f´rmula sem demonstra¸˜o, a qual foi inclu´ no artigo a o ca ıda pelo autor destas notas, que ´ um dos editores da Eureka!). e 1 — Seq¨ˆncias recorrentes lineares: ue Uma seq¨ˆncia (xn )n∈N ´ uma seq¨ˆncia recorrente linear de ordem k (onde k ´ um inteiro ue e ue e positivo) se existem constantes (digamos reais ou complexas) c1 , c2 , . . . , ck tais que k xn+k = cj xn+k−j = c1 xn+k−1 + c2 xn+k−2 + · · · + ck xn , ∀ n ∈ N. j=1 Tais seq¨ˆncias s˜o determinadas pelos seus k primeiros termos x0 , x1 , . . . , xk−1 . ue a Os exemplos mais simples (e fundamentais, como veremos a seguir) de seq¨ˆncias recorrentes ue lineares s˜o as progress˜es geom´tricas: se xn = a · q n ent˜o xn+1 = qxn , ∀ n ∈ N, donde (xn ) a o e a ´ uma seq¨ˆncia recorrente linear de ordem 1. e ue Se (xn ) ´ uma progress˜o aritm´tica, existe uma constante r tal que xn+1 − xn = r, ∀ n ∈ N, e a e donde xn+2 − xn+1 = xn+1 − xn , ∀ n ∈ N, e logo xn+2 = 2xn+1 − xn , ∀ n ∈ N, ou seja, (xn ) ´ e uma seq¨ˆncia recorrente linear de ordem 2. ue Se xn = P (n) onde P ´ um polinˆmio de grau k, ent˜o (xn) satisfaz a recorrˆncia linear de e o a e ordem k + 1 dada por k k+1 xn+k+1 = (−1)j xn+k−j , ∀ n ∈ N. (*) j=0 j+1 Isso ´ evidente se k = 0 (isto ´, se P ´ constante), pois nesse caso (*) se reduz a xn+1 = xn , e e e ∀ n ∈ N, e o caso geral pode ser provado por indu¸˜o: se P ´ um polinˆmio de grau k ≥ 1 ca e o ent˜o Q(x) = P (x + 1) − P (x) ´ um polinˆmio de grau k − 1, donde yn = xn+1 − xn = Q(n) a e o k−1 k satisfaz a recorrˆncia yn+k = e (−1)j j+1 yn+k−1−j , ∀ n ∈ N, donde j=0 k−1 k xn+k+1 − xn+k = (−1)j (xn+k−j − xn+k−j−1 ), ∀ n ∈ N, j=0 j+1 2
  • 3.
    e logo k k j k k k+1 xn+k+1 = (−1) ( + )xn+k−j = (−1)j xn+k−j , ∀ n ∈ N. j=0 j+1 j j=0 j+1 Um outro exemplo ´ dado por seq¨ˆncias do tipo xn = (an + b) · q n , onde a, b e q s˜o e ue a constantes. Temos que xn+1 − qxn = (a(n + 1) + b)q n+1 − q(an + b) · q n = = q n+1 (a(n + 1) + b − (an + b)) = aq n+1 ´ uma progress˜o geom´trica de raz˜o q, e logo e a e a xn+2 − qxn+1 = q(xn+1 − qxn ), donde xn+2 = 2qxn+1 − q 2 xn , ∀ n ∈ N, e portanto (xn ) ´ uma e seq¨ˆncia recorrente linear de ordem 2. ue Vamos agora considerar a famosa e popular seq¨ˆncia de Fibonacci, dada por u0 = 0, u1 = 1 ue e un+2 = un+1 + un , ∀ n ∈ N. Seus primeiros termos s˜o u0 = 0, u1 = 1, u2 = 1, u3 = 2, u4 = 3, a u5 = 5, u6 = 8, u7 = 13, u8 = 21, . . . . Mostraremos na pr´xima se¸˜o como achar uma f´rmula o ca o expl´ ıcita para seu termo geral un em fun¸˜o de n, o que ser´ generalizado para seq¨ˆncias ca a ue recorrentes lineares quaisquer, e veremos algumas de suas propriedades aritm´ticas. e Antes por´m, concluiremos esta se¸˜o com alguns fatos gerais sobre seq¨ˆncias recorrentes e ca ue lineares, que ser˜o uteis nas se¸˜es subsequentes. a ´ co O conjunto das seq¨ˆncias que satisfazem uma dada recorrˆncia linear ue e k xn+k = cj xn+k−j , ∀n∈N j=1 ´ um espa¸o vetorial , isto ´, dadas duas seq¨ˆncias (yn ) e (zn ) que satisfazem esta recorrˆncia e c e ue e k k (ou seja, yn+k = cj yn+k−j e zn+k = cj zn+k−j , ∀ n ∈ N) e uma constante a, a seq¨ˆncia ue j=1 j=1 k (wn ) dada por wn = yn + azn satisfaz a mesma recorrˆncia: wn+k = e cj wn+k−j , ∀ n ∈ N. j=1 ´ E bastante usual, dada uma seq¨ˆncia (xn ), estudar a seq¨ˆncia obtida pela soma de seus ue ue n primeiros termos sn = xk . Se (xn ) ´ uma seq¨ˆncia recorrente linear, (sn) tamb´m ´. e ue e e k≤n k De fato, sn+1 − sn = xk − xk = xn+1 , ∀ n ∈ N. Se xn+k = cj xn+k−j , temos k≤n+1 k≤n j=1 3
  • 4.
    k sn+k+1 − sn+k= cj (sn+k+1−j − sn+k−j ), ∀ n ∈ N, donde j=1 k−1 k+1 sn+k+1 = (1 + c1 )sn+k + (cj+1 − cj )sn+k−j − ck sn = di sn+k+1−i j=1 i=1 onde d1 = 1 + c1 , di = ci − ci−1 para 2 ≤ i ≤ k e dk+1 = −ck , ∀ n ∈ N, e portanto (sn ) ´ uma e seq¨ˆncia recorrente linear de ordem k + 1. ue 2 — A seq¨ˆncia de Fibonacci: ue A seq¨ˆncia de Fibonacci ´ definida por u0 = 0, u1 = 1 e un+2 = un+1 + un , ∀ n ∈ N. ue e Queremos achar uma f´rmula expl´ o ıcita para un em fun¸˜o de n. Para isso usaremos uma ca id´ia que ser´ bastante util tamb´m no caso geral: procuraremos progress˜es geom´tricas que e a ´ e o e satisfazem a mesma recorrˆncia que (un ): se xn = a · q n com a e q n˜o nulos satisfaz xn+2 = e a xn+1 + xn, ∀ n ∈ N, teremos a · qn+2 = a · q n+1 + a · q n = a · q n (q + 1), donde q 2 = q + 1. Temos √ 1+ 5 assim dois valores poss´ ızes da equa¸˜o q 2 − q − 1 = 0, que s˜o ıveis para q: as duas ra´ ca a 2 √ √ n √ n 1− 5 1+ 5 1− 5 e 2 . Assim, seq¨ˆncias da forma a ue 2 e da forma b 2 satisfazem a recorrˆncia e √ n √ n 1+ 5 1− 5 acima, bem como seq¨ˆncias da forma yn = a ue 2 +b 2 , pela observa¸˜o da se¸˜o ca ca anterior. Basta agora encontrar valores de a e b tais que y0 = 0 e y1 = 1 para que tenhamos yn = un para todo n (de fato, ter´ ıamos y0 = u0 , y1 = u1 e, por indu¸˜o se k ≥ 2 e yn = Un para todo ca n < k, temos yk = yk−1 + yk−2 = uk−1 + uk−2 = uk ). Para isso, devemos ter:   a + b = 0  √ √ a 1+ 5 +b 1− 5 =1 2 2 1 1 e portanto a = √ 5 e b = − √5 . Mostramos assim que √ n √ n 1 1+ 5 1− 5 un = √ − , ∀ n ∈ N. 5 2 2 4
  • 5.
    ´ E curioso quena f´rmula do termo geral de uma seq¨ˆncia de n´ meros inteiros definida de o ue u modo t˜o simples quanto (un ) apare¸am n´meros irracionais. a c u Provaremos a seguir uma identidade util sobre n´meros de Fibonacci: ´ u Proposi¸˜o: ca um+n = um un−1 + um+1 un , ∀ m, n ∈ N, n ≥ 1. Prova: Sejam ym = um+n e zm = um un−1 + um+1 un . Temos que (yn ) e (zn ) satisfazem a recorrˆncia xn+2 = xn+1 +xn , ∀ n ∈ N. Por outro lado, y0 = un , y1 = un+1 , z0 = 0·un−1 +1·un = e un = y0 e z1 = 1 · un−1 + 1 · un = un+1 = y1 , e portanto, como antes, zn = yn , ∀ n ∈ N. Podemos usar este fato para provar o seguinte interessante fato aritm´tico sobre a seq¨ˆncia e ue (un ), que pode ser generalizado para as chamadas seq¨ˆncias de Lucas, as quais s˜o uteis para ue a ´ certos testes de primalidade: Teorema: mdc(um , un ) = umdc(m,n) , ∀ m, n ∈ N. Prova: Observemos primeiro que mdc(un , un+1 ) = 1, ∀ n ∈ N. Isso vale para n = 0 pois u1 = 1 e, por indu¸˜o, mdc(un+1 , un+2 ) = mdc(un+1 , un+1 + un ) = mdc(un+1 , un ) = 1. Al´m disso, se ca e m = 0, mdc(um , un ) = mdc(0, un ) = un = umdc(m,n) , ∀ n ∈ N, e se m = 1, mdc(um , un ) = mdc(1, un ) = 1 = u1 = umdc(m,n) , ∀ n ∈ N. Vamos ent˜o provar o fato acima por indu¸˜o a ca em m. Suponha que a afirma¸˜o do enunciado seja v´lida para todo m < k (onde k ≥ 2 ca a ´ um inteiro dado) e para todo n ∈ N. Queremos provar que ela vale para m = k e para e todo n ∈ N, isto ´, que mdc(uk , un ) = umdc(k,n) para todo n ∈ N. Note que, se n < k, e mdc(uk , un ) = mdc(un , uk ) = umdc(n,k) = umdc(k,n) , por hip´tese de indu¸˜o. J´ se n ≥ k, o ca a un = u(n−k)+k = un−k uk−1 + un−k+1 uk , e logo mdc(uk , un ) = mdc(uk , un−k uk−1 + un−k+1 uk ) = mdc(uk , un−k uk−1 ) = mdc(uk , un−k ) (pois mdc(uk , uk−1 ) = 1) = umdc(k,n−k) = umdc(k,n) . 5
  • 6.
    Corol´rio: Se m≥ 1 e m ´ um divisor de n ent˜o um divide un . Al´m disso, se m ≥ 3 vale a a e a e rec´ ıproca: se um divide un ent˜o m divide n. a 3 — A recorrˆncia xn+1 = x2 − 2 e n Consideremos as seq¨ˆncias (xn )n∈N de n´ meros reais que satisfazem a recorrˆncia xn+1 = ue u e x2 − 2, ∀ n ∈ N. Suponha que x0 = α + α−1 para um certo α (real ou complexo). Ent˜o n a n n podemos provar por indu¸˜o que xn = α2 + α−2 , ∀ n ∈ N. De fato, se vale a f´rmula para ca o xn , teremos n n n+1 n+1 n+1 n+1 xn+1 = x2 − 2 = (α2 + α−2 )2 − 2 = α2 n + 2 + α−2 − 2 = α2 + α−2 . √ −1 x0 + x2 −4 Se |x0 | > 2, temos x0 = α + α para α = 2 0 ∈ R. Se |x0 | ≤ 2, vale a mesma f´rmula para α, mas nesse caso α ´ um n´ mero complexo de o e u n iθ n iθ m´tulo 1, e pode ser escrito como α = eiθ = cos θ + i sen θ. Nesse caso, xn = e2 o + e−2 = (cos(2n θ) + i sen(2n θ)) + (cos(2nθ) − sen(2n θ)) = 2 cos(2n θ). Podemos ver isso de outra forma: se |x0 | ≤ 2, escrevemos x = 2 cos θ, com θ ∈ [0, π]. Podemos mostrar ent˜o por indu¸˜o que xn = 2 cos(2n θ), para todo n ∈ N. De fato, xn+1 = a ca x2 −2 = 4 cos2 (2n θ)−2 = 2(2 cos2 (2n θ)−1) = 2 cos(2n+1 θ), pois cos(2x) = 2 cos2 x−1, ∀ x ∈ R. n Podemos usar esta express˜o para obter diversos tipos de comportamento poss´ para uma a ıvel tal seq¨ˆncia (xn ). Se x0 = 2 cos θ e θ/π ´ racional e tem representa¸˜o bin´ria peri´dica de ue e ca a o ıodo m ent˜o (xn ) = (2 cos(2n θ)) ´ peri´dica de per´ per´ a e o ıodo m. Por outro lado, podemos ter x0 = 2 cos θ onde θ/π tem representa¸˜o bin´ria como ca a 0, 0100011011000001010011100101110111... em que todas as seq¨ˆncias finitas de zeros e uns aparecem em algum lugar (isso acontece para ue a “maioria” dos valores de θ). Nesse caso, a seq¨ˆncia (xn ) = (2 cos(2n θ)) ´ densa em [−2, 2], isto ´, qualquer ponto de ue e e [−2, 2] pode ser apromado por elementos de (xn ), com erro arbitrariamente pequeno. 6
  • 7.
    No caso emque x0 ´ um inteiro, a seq¨ˆncia (xn ) pode ter propriedades aritm´ticas muito e ue e √ 2n √ 2n interessantes. Em particular, se x0 = 4 (e logo xn = (2 + 3) + (2 − 3) , ∀ n ∈ N) vale o famoso crit´rio de Lucas-Lehmer para testar a primalidade de n´meros de Mersenne: se n ≥ 3 e u ent˜o 2n − 1 ´ primo se e somente se 2n − 1 ´ um divisor de xn−2 (por exemplo, 23 − 1 = 7 ´ a e e e primo e ´ um divisor de x3−1 = x1 = x2 − 2 = 42 − 2 = 14). e 0 Exerc´ ıcio: Seja x0 ≥ 3 um inteiro ´ ımpar. i) Prove que se p ´ um n´ mero primo ent˜o existe no m´ximo um valor de n ∈ N tal que p e u a a divide xn . ii) Prove que se p ´ um fator primo de xn ent˜o p > n. e a Sugest˜o: Considere a seq¨ˆncia xn (mod p). a ue Esse exerc´ pode ser generalizado para outras recorrˆncias. Nesse caso particular da ıcio e recorrˆncia xn+1 = x2 −2 ´ poss´ mostrar um resltado mais forte: se p ´ um fator primo e n e ıvel e de xn ent˜o p ≥ 2n+2 − 1 (note que quando p = 2q − 1 ´ primo, com q ≥ 3 e n = q − 2, a e vale a igualdade p = 2n+2 − 1 e p|xn , pelo crit´rio de Lucas-Lehmer enunciado acima). e 4 - F´rmulas gerais para seq¨ˆncias recorrentes lineares: o ue Considere a equa¸˜o ca ak xn+k + ak−1 xn+k−1 + · · · + a0 xn = 0, n≥0 (2) em que a0 , . . . , ak s˜o constantes, e os valores de xi s˜o conhecidos para i = 0, . . . , k − 1. a a Supondo que a equa¸˜o (2) admite uma solu¸˜o do tipo: xn = λn, em que λ ´ um parˆmetro, ca ca e a e substituindo em (2) temos ak λn+k + ak−1 λn+k−1 + · · · + a0 λn = 0. 7
  • 8.
    Dividindo por λn, obtemos a equa¸˜o caracter´stica associada a equa¸˜o (2) ca ı ca a1 λk + ak−1 λk−1 + · · · + a0 λ0 = 0. Vamos mostrar que se esta equa¸˜o tem as ra´ ca ızes complexas λ1 , . . . , λr com multiplicidades α1 , α2 , . . . , αr ∈ N, respectivamente, ent˜o as solu¸˜es de (2) s˜o exatamente as seq¨ˆncias a co a ue (xn ) da forma xn = Q1 (n)λn + Q2 (n)λn + · · · + Qr (n)λn , onde Q1 , . . . , Qr s˜o polinˆmios com 1 2 r a o grau(Qi ) < αi , 1 ≤ i ≤ r (em particular, se λi ´ uma raiz simples ent˜o Qi ´ constante). e a e Seja P (x) = ak xk + ak−1 xk−1 + · · · + a0 um polinˆmio. o Defini¸˜o: Dizemos que uma seq¨ˆncia (xn )n∈N satisfaz a propriedade Rec(P (x)) se ca ue ak xn+k + ak−1 xn+k−1 + · · · + a0 xn = 0, ∀ n ∈ N. N˜o ´ dif´ verificar os seguintes fatos: a e ıcil i) Se (xn ) e (yn ) satisfazem Rec(P (x)) e c ∈ C ent˜o (zn ) = xn + cyn satisfaz Rec(P (x)). a ii) Se Q(x) = br xr + br−1 xr−1 + · · · + b0 e (xn ) satisfaz Rec(P (x)) ent˜o (xn ) satisfaz a r Rec(P (x)Q(x)) (isso segue de bj (ak xn+j+k +ak−1 xn+j+k−1 +· · ·+a0 xn+j ) = 0, ∀ n ∈ N) j=0 iii) (xn ) satisfaz Rec(P (x)) se e s´ se (yn ) = (xn /λn) satisfaz Rec(P (λx)) (substitua xn+j = o k λn+j yn+j em aj xn+j = 0). j=0 n iv) Se sn = xk ent˜o (xn ) satisfaz Rec(P (x)) se e s´ se (sn ) satisfaz Rec((x − 1)P (x)) a o k=0 n (escreva xn+j+1 = sn+j+1 − sn+j e substitua em aj xn+j+1 = 0). j=0 Por iii), para ver que, para todo polinˆmio Q(x) de grau menor que m, xn = Q(n)λn o satisfaz Rec((x − λ)m ), basta ver que (yn ) = (Q(n)) satisfaz Rec((x − 1)m ), o que faremos por indu¸˜o. Isso ´ claro que m = 1, e em geral, se zn = yn+1 − yn = Q(n + 1) − Q(n), como ca e ˜ Q(x) = Q(x + 1) − Q(x) tem grau menor que m − 1, (zn ) satisfaz Rec((x − 1)m−1 ) (por hip´tese o de indu¸˜o), e logo, por (iv), (Yn ) satisfaz Rec((x − 1)m ). Essa observa¸˜o, combinada com ii) ca ca e i), mostra que se P (x) = (x − λ1 )α1 (x − λ2 )α2 (x − λ2 )α2 . . . (x − λr )αr , e grau(Qi ) < αi para r 1 ≤ i ≤ r ent˜o xn = a Qi (n)λn satisfaz Rec(P (x)). i i=1 8
  • 9.
    Para ver quese (xn ) satisfaz Rec(P (x)) ent˜o xn ´ da forma acima, usaremos indu¸˜o a e ca novamente. Supomos λ1 = 0 e tomamos yn = xn /λn , zn = yn+1 − yn , para n ≥ 0. 1 Por iii) e iv), zn satisfaz Rec(P (λ1 x)/(x − 1)) e, portanto por hip´tese de indu¸˜o, zn = o ca ˜ ˜ ˜ ˜ ˜ Q1 (x) + Q2 (x)(λ2 /λ1 )n + · · · + Qr (x)(λr /λ1 )n , onde grau(Qi ) < αi para 2 ≤ i ≤ r e grau(Q1 ) < α1 − 1. Para terminar a prova, vamos mostrar que se existem polinˆmios P1 , P2 , . . . , Pk tais que o n n yn+1 − yn = P1 (n) + P2 (n)β2 + · · · + Pk (n)βk (onde 1, β2 , . . . , βk s˜o complexos distintos e a ˜ ˜ n ˜ n ˜ ˜ a Pi = 0, ∀ i ≥ 2) ent˜o yn = P1 (n) + P2 (n)β2 + · · · + Pk (n)βk , onde P1 , . . . , Pk s˜o polinˆmios a o ˜ ˜ com grau Pi = grau Pi para i ≥ 2 e grau P1 = grau P1 + 1, por indu¸˜o na soma dos graus dos ca polinˆmios Pi , onde convencionamos que o grau do polinˆmio nulo ´ −1. o o e (no nosso caso temos βi = λi /λ1 , e como xn = λn yn o resultado segue imediatamente). 1 Para provar essa afirma¸˜o observamos inicialmente que, se a soma dos grau de Pi ´ −1, ca e ent˜o yn+1 − yn = 0, ∀ n, e logo, yn ´ constante. Em geral, consideramos 2 casos: a e cm nm+1 a) P1 (x) = cm xm + cm−1 xm−1 + · · · + c0 , cm = 0. Nesse caso definimos yn = yn − ˜ m+1 , e n n temos yn+1 − yn = Q1 (n) + P2 (n)β1 + · · · + Pk (n)βk , com grau(Q) < m. Por hip´tese de ˜ ˜ o indu¸˜o, yn (e logo yn ) ´ da forma desejada. ca ˜ e ds ns λn b) P2 (x) = ds xs + ds−1 xs−1 + · · · + d0 , ds = 0. Nesse caso, definimos yn = yn − ˜ λ2 −1 2 , e n n n temos yn+1 − yn = P1 (n) + Q(n)β2 + P3 (n)β3 + · · · + Pk (n)βk , com grau(Q) < s. Por ˜ ˜ hip´tese de indu¸˜o, yn (e logo yn ) ´ da forma desejada. o ca ˜ e Vimos na primeira parte da demonstra¸˜o acima que (xn ) satisfaz Rec(P (x)), onde P (x) = ca (x − λ1 )α1 (x − λ2 )α2 . . . (x − λr )αr sempre que xn = Q1 (n)λn + Q2 (n)λn + · · · + Qr (n)λn , 1 2 r onde Q1 , Q2 , . . . , Qr s˜o polinˆmios com grau(Qj ) < αj , ∀ j ≤ r. Vamos apresentar um ar- a o gumento alternativo, motivado por conversas do autor com Bruno Fernandes Cerqueira Leite, para mostrar que todas as seq¨ˆncias que satisfazem as recorrˆncia s˜o dessa forma. ue e a 9
  • 10.
    Cada polinˆmio Qi(n) tem αi coeficientes (dos monˆmios cujos graus s˜o 0, 1, 2, . . . , αi − 1). o o a Como o espa¸o vetorial das seq¨ˆncias que satisfazem Rec(P (x)) tem dimens˜o grau(P (x)) = c ue a r αi , basta ver que h´ unicidade na representa¸˜o de uma seq¨ˆncia na forma cima. Para isso, a ca ue i=1 devemos mostrar que, se λ1 , λ2 , . . . , λr s˜o n´meros complexos distintos e Q1 , Q2 , . . . , Qr s˜o a u a polinˆmios tais que Q1 (n)λn + Q2 (n)λn + · · · + Qr (n)λn = 0, ∀ n ∈ N, ent˜o Qj ≡ 0, ∀ j ≤ r. o 1 2 r a Vamos supor por absurdo que n˜o seja assim. Supomos sem perda de generalidade que, a para certos s e t com 1 ≤ s ≤ t ≤ r, |λ1 | = |λi | > |λj |, ∀ i ≤ t, j > t, e grau(Q1 ) = grau(Qi ) > grau(Qj ), se i ≤ s < j ≤ t. Se os polinˆmios Qj n˜o s˜o todos nulos, temos Q1 n˜o nulo. Seja o a a a Qj (n)λn j d o grau de Q1 . Se |λj | < |λ1 | ent˜o lim a d n = 0, e se |λi | = |λ1 | e grau(Q) < d, tamb´m e n→∞ n λ1 Q(n)λn temos lim nd λn i = 0. Portanto, se Q1 (n)λn + 1 Q2 (n)λn + · · · + Qr (n)λn = 0, ∀ n ∈ N e o 2 r n→∞ 1 coeficiente de nd em Qi ´ ai para i ≤ s, dividindo por nd λn e tomando o limite, temos e 1 n λi lim a1 + ai = 0, n→∞ 2≤i≤s λ1 donde n k 1 λi 0 = lim a1 + ai n→∞ n k=1 2≤i≤s λ1 n k 1 λi = lim a1 + ai n→∞ n k=1 2≤i≤s λ1 n k 1 λi = a1 + ai · lim n→∞ n λ1 2≤i≤s k=1 1 (λi /λ1 )n+1 − (λi /λ1 ) = a1 + ai · lim · = a1 , 2≤i≤s n→∞ n (λi /λ1 ) − 1 pois, para 2 ≤ i ≤ s, λi /λ1 = 1 ´ um complexo de m´dulo 1, donde e o (λi /λ1 )n+1 − (λi /λ1 ) 2 ≤ , (λi /λ1 ) − 1 |(λi /λ1 ) − 1| e logo 1 (λi /λ1 )n+1 − (λi /λ1 ) lim = 0. n→∞ n (λi /λ1 ) − 1 Entretanto, isso ´ um absurdo, pois grau(Q1 ) = d, e logo a1 = 0. e 10
  • 11.
    Exemplo: xn =sen(nα) satisfaz uma recorrˆncia linear. De fato, e xn+1 = sen(nα + α) = sen(nα) cos α + cos(nα) sen α ⇒ xn+2 = sen(nα + 2α) = sen(nα) cos 2α + cos(nα) sen 2α ⇒ sen 2α sen 2α ⇒ xn+2 − x sen α n+1 = (cos 2α − sen α cos α)xn , ou seja, xn+2 = 2 cos α · xn+1 − xn . Note que xn n˜o parece ser da forma geral descrita nesta se¸˜o, a ca mas de fato einα − e−inα 1 1 1 1 xn = = (eiα )n − (e−iα )n = (cos α + i sen α)n − (cos α − i sen α)n 2i 2i 2i 2i 2i ( observe que cos α + i sen α e cos α − i sen α s˜o as ra´ de x2 − 2 cos α · x + 1). a ızes Observa¸˜o: Se (xn ) safisfaz Rec((x − 1)P (x)), onde P (x) = an xk + ak−1 xk−1 + · · · + a0 , ent˜o, ca a se definirmos yn = ak xn+k + ak−1 xn+k−1 + · · · + a0 xn , teremos yn+1 = yn , ∀ n ∈ N, ou seja, yn ´ constante. Assim, ak xn+k + · · · + a0 xn ´ um invariante da seq¨ˆncia xn , o que ´ um fato util e e ue e ´ para muitos problemas envolvendo recorrˆncia (veja, por exemplo, os Problemas 2 e 3 abaixo). e Vamos agora ver um problema resolvido em que se usam estimativas assint´ticas de seq¨ˆncias o ue recorrentes para provar um resultado de teoria dos n´meros: u Problema 1. (Problema 69 da Revista Eureka! no . 14) Sejam a e b inteiros positivos tais que an − 1 divide bn − 1 para todo inteiro positivo n. Prove que existe k ∈ N tal que b = ak . Solu¸˜o de Zoroastro Azambuja Neto (Rio de Janeiro-RJ): ca Suponha por absurdo que b n˜o seja uma potˆncia de a. a e bn −1 Ent˜o existe k ∈ N tal que ak < b < ak+1 . Consideremos a seq¨ˆncia xn = a ue an −1 ∈ N, ∞ 1 1 1 1 ∀ n ≥ 1. Como an −1 = an + a2n + ··· = ajn , temos j=1 ∞ n n n bn 1 b b b bn 1 xn = jn − n = + + ... + − n . j=1 a a −1 a a2 ak akn (an − 1) a −1 11
  • 12.
    bn (b/ak+1 )n 1 Note que como akn (an −1) = 1−a−n e an −1 tendem a 0 quando n cresce, se definimos n n k n b b b b yn = + + ··· + = , a a2 ak j=1 aj temos que bn 1 xn − yn = kn (an − 1) − n a a −1 tende a 0 quando n tende a infinito. Por outro lado, como yn ´ uma soma de k progress˜es e o geom´tricas de raz˜es b/aj , 1 e o ≤ j ≤ k, yn satisfaz a equa¸˜o de recorrˆncia ca e c0 yn+k + c1 yn+k−1 + · · · + ck yn = 0, ∀ n ≥ 0, onde b b b c0 xk + c1 xk−1 + · · · + ck−1 x + ck = ak(k+1)/2 x − x− ... x− a a2 ak Note que todos os ci s˜o inteiros. Note tamb´m que a e c0 xn+k + c1 xn+k−1 + · · · + ck xn = c0 (xn+k − yn+k ) + c1 (xn+k−1 − yn+k−1 ) + · · · + ck (xn − yn ) tende a 0 quando n tende a infinito, pois xn+j − yn+j tende a 0 para todo j com 0 ≤ j ≤ k (e k est´ fixo). Como os ci e os xn s˜o todos inteiros, isso mostra que c0 xn+k +c1 xn+k−1 +· · ·+ck xn = 0 a a para todo n grande. Agora, como n b bn 1 xn = yn + + − n , ak+1 a(k+1)n (an − 1) a −1 temos k n+k−j b c0 xn+k + c1 xn+k−1 + · · · + ck xn = cj + zn+k−j , j=0 ak+1 onde bm 1 zm = (k+1)m (am − 1) − m . a a −1 Note que k n+k−j n b b b ck =P · , j=0 ak+1 ak+1 ak+1 onde b b b P (x) = c0 xk + c1 xk−1 + · · · + ck−1 x + ck = ak(k+1)/2 x − x− ... x − , a a2 ak 12
  • 13.
    b b n donde P ak+1 = 0. Por outro lado, para todo j com 0 ≤ j ≤ k, zn+k−j ak+1 = (b/ak+1 )k−j 1 = an+k−j −1 − (ak−j −a−n )(b/ak )n , que tende a 0 quando n tende a infinito, donde k b n b wn = cj xn+k−j ak+1 tende a P ak+1 = 0, o que ´ um absurdo, pois, como vi- e j=0 mos antes, wn ´ igual a 0 para todo n grande. e Veremos a seguir dois problemas resolvidos que envolvem seq¨ˆncias recorrentes, que foram ue propostos na OBM e na IMO, respectivamente: Problema 2. (Problema 5 da 13a Olimp´ ıada Brasileira de Matem´tica - N´ a ıvel Sˆnior e - 1991) Seja Q0 o quadrado de v´rtices P0 = (1, 0), P1 = (1, 1), P2 = (0, 1) e P3 = (0, 0). Seja e A0 o interior desse quadrado. Para cada n ∈ N, Pn+4 ´ o ponto m´dio do segento Pn Pn+1 , Qn ´ e e e o quadril´tero de v´rtices Pn , Pn+1 , Pn+2 e Pn+3 e An ´ o interior de Qn . Encontre a interse¸˜o a e e ca de todos os An . Solu¸˜o 1: ca Pn + Pn+1 Temos Pn+4 = . Portanto, Pn+1 + 2Pn+2 + 2Pn+3 + 2Pn+4 = Pn + 2Pn+1 + 2Pn+2 + 2 2Pn+3 , logo Pn + 2Pn+1 + 2Pn+2 + 2Pn+3 = P0 + 2P1 + 2P2 + 2P3 = (3, 4), para todo n ∈ N (note que 2x4 − x − 1 = (x − 1)(2x3 + 2x2 + 2x + 1)), donde, como An ´ sempre convexo, e 3 4 Pn + 2Pn+1 + 2Pn+2 + 2Pn+3 , = = 7 7 7 3 1 2 4 Pn+2 + Pn+3 = Pn + Pn+1 + 7 3 3 7 2 sempre pertence ao interior de An . Se mostrarmos que o diˆmetro (maior distˆncia entre 2 a a 3 4 pontos) de An tende a 0, teremos mostrado que a interse¸˜o de todos os An ´ ca e , . 7 7 Para isso, note que o diˆmetro de ABCD ´ diam(ABCD) = max AB, AC, AD, BC, BD, CD , a e e Pn + Pn+1 Pn+1 + Pn+2 Pn+2 + Pn+3 Pn+4 = , Pn+5 = , Pn+6 = 2 2 2 Pn+3 + Pn+4 2Pn+3 + Pn + Pn+1 Pn+7 = = 2 4 13
  • 14.
    e Pn+4 + Pn+5 Pn + 2Pn+1 + Pn+2 Pn+8 = = · 2 4 Assim, Pn+3 − Pn+1 1 Pn+5 Pn+6 = |Pn+6 − Pn+5 | = = Pn+1 Pn+3 , 2 2 2Pn+3 + Pn − Pn+1 − 2Pn+2 Pn+5 Pn+7 = |Pn+7 − Pn+5 | = ≤ 4 1 1 Pn+2 Pn+3 Pn Pn+1 ≤ |Pn+3 − Pn+2 | + |Pn − Pn+1 | = + , 2 4 4 2 Pn − Pn+2 Pn Pn+2 Pn+5 Pn+8 = |Pn+8 − Pn+5 | = = , 4 4 Pn + Pn+1 − 2Pn+2 Pn+6 Pn+7 = |Pn+7 − Pn+6 | = ≤ 4 |Pn − Pn+2 | |Pn+1 − Pn+2 | 1 1 ≤ + = Pn Pn+2 + Pn+1 Pn+2 , 4 4 4 4 Pn + 2Pn+1 − Pn+2 − 2Pn+3 Pn+6 Pn+8 = |Pn+8 − Pn+6 | = ≤ 4 1 1 1 1 ≤ |Pn+1 − Pn+3 | + |Pn − Pn+2 | = Pn+1 Pn+3 + Pn Pn+2 , 2 4 2 4 e Pn+2 + Pn+1 − 2Pn+3 Pn+7 Pn+8 = |Pn+8 − Pn+7 | = ≤ 4 |Pn+2 − Pn+3 | |Pn+1 − Pn+3 | 1 1 ≤ + = Pn+2 Pn+3 + Pn+1 Pn+3 . 4 4 4 4 3 Portanto, diam(Pn+5 Pn+6 Pn+7 Pn+8 ) ≤ diam(Pn Pn+1 Pn+2 Pn+3 ), donde 4 k √ k 3 3 diam(P5k P5k+1 P5k+2 P5k+3 ) ≤ diam(P0 P1 P2 P3 ) = 2 · , 4 4 que tende a 0, o que implica o nosso resultado. Solu¸˜o 2: ca Podemos escrever Pn = Q0 + Q1 αn + Q2 β n + Q3 γ n , onde 1, α, β e γ s˜o as ra´ a ızes x+1 de x4 − ızes de 2x3 + 2x2 + 2x + 1 = 0 (pois = 0, ou seja, α, β e γ s˜o ra´ a 2 14
  • 15.
    (x − 1)(2x3+ 2x2 + 2x + 1) = 2x4 − x − 1). Temos P (x) = 2x3 + 2x2 + 2x + 1 = 1 1 = 2(x − α)(x − β)(x − γ). Como P (0) = 1, P (−1) = −1 e P − = podemos 2 4 1 supor que −1 < α < − , logo βγ = −1/2α < 1 e β + γ = −1 − α ∈ (−1, 0), donde 2 2 1 (β + γ) − 4βγ = 1 + 2α + α2 + < 0 pois α < 0 ⇒ α + ≤ −2 e |α| < 1 ⇒ α2 < 1. Assim, 2 α α √ 2 (β − γ) < 0, donde β e γ s˜o complexos conjugados, e |β| = |γ| = βγ < 1. Portanto, Pn a tende a Q0 quando n cresce, e logo a interse¸˜o de todos os An deve ser Q0 . ca Para calcular Q0 , observe que:  Q + Q + Q + Q = P  0   1 2 3 0     Q0 + Q1 α + Q2 β + Q3 γ = P1  Q0 + Q1 α2 + Q2 β 2 + Q3 γ 2 = P2       Q + Q α3 + Q β 3 + Q γ 3 = P 1 1 2 3 3 ⇒ 7Q0 + Q1 (1 + 2α + 2α2 + 2α3 ) + Q2 (1 + 2β + 2β 2 + 2β 3 ) + Q3 (1 + 2γ + 2γ 2 + 2γ 3 ) = P0 + 2P1 + 2P2 + 2P3 ⇒ 7Q0 = P0 + 2P1 + 2P2 + 2P3 (pois α, β e γ s˜o ra´ a ızes de P0 + 2P1 + 2P2 + 2P3 3 4 2x3 + 2x2 + 2x + 1) ⇒ Q0 = = , . 7 7 7 Problema 3. (Problema 3 da 41a Olimp´ ıada Internacional de Matem´tica, realizada a em 2000, na Cor´ia do Sul) Seja n ≥ 2 um inteiro. Existem n pulgas numa reta horizontal, e nem todas no mesmo ponto. Para um dado n´ mero real positivo λ, define-se um salto da u seguinte maneira: • Escolhem-se duas pulgas quaisquer nos pontos A e B, com o ponto A ` esquerda do ponto a B; BC • A pulga que est´ em A salta at´ o ponto C da reta, ` direita de B, tal que a e a AB = λ. Determine todos os valores de λ para os quais, dado qualquer ponto M na reta e quaisquer posi¸˜es iniciais das n pulgas, existe uma sucess˜o finita de saltos que levam todas as pulgas co a para pontos ` direita de M . a 15
  • 16.
    Solu¸˜o: ca 1 A resposta ´: para ℓ ≥ e (n−1) . Devemos demonstrar duas coisas: 1 a) que, para ℓ ≥ (n−1) , existe uma seq¨ˆncia infinita de movimentos que vai levando as ue pulgas cada vez mais para a direita, ultrapassando qualquer ponto prefixado M ; 1 b) que, para ℓ < (n−1) e para qualquer posi¸˜o inicial das pulgas, existe um ponto M tal que ca as pulgas em um n´mero finito de movimentos jamais alcan¸am ou ultrapassam M . u c Come¸aremos pelo item b). Sejam x1 , x2 , . . . , xn as posi¸˜es iniciais das pulgas, com x1 ≤ c co x2 ≤ · · · ≤ xn , de tal forma que xn ´ a posi¸˜o da pulga mais ` direita. Seja e ca a 1 P = · (xn − ℓ · x1 − ℓ · x2 − · · · − ℓ · xn−1 ). 1 − (n − 1)ℓ O ponto P claramente est´ ` direita de todas as pulgas. aa Afirmamos que, se ap´s alguns movimentos as novas posi¸˜es s˜o x′1 , . . . , x′n e definimos o co a 1 P′ = · (x′n − ℓ · x′1 − ℓ · · · x′1 − · · · − ℓ · x′n−1 ), 1 − (n − 1)ℓ ent˜o P ′ ≤ P , o que conclui a demonstra¸˜o, pois isso mostra que as pulgas nunca passar˜o do a ca a ponto P . Para provar esta afirma¸˜o, basta considerar o que ocorre ap´s um movimento. ca o Se a pulga que estava em xi pula sobre a pulga que estava em xn ent˜o x′n − xn = ℓ · (xn − xi ) a e x′n − ℓ · xn = xn − ℓ · xi e P ′ = P . Vamos ver que qualquer outro caso ´ ainda mais favor´vel. Suponhamos que a pulga que e a estava em xi pula sobre a pulga que estava em xj . Se a pulga que pulou continua atr´s de xn , a temos x′n = xn e x′1 + · · · + x′n−1 > x1 + · · · + xn−1 , donde P ′ < P . Se ela passa de xn , teremos x′n = xj + ℓ(xj − xi ) ⇒ x′n − ℓxn < x′n − ℓxj = xj − ℓxi < xn − ℓxi , donde novamente temos P′ < P. 16
  • 17.
    Vamos agora aoitem a): Seja P = xn − ℓ(x1 + x2 + · · · + xn−1 ) se, em cada movimento, a pulga mais ` esquerda pula sobre a pulga mais ` direita, temos x′n = xn + ℓ(xn − x1 ) ⇒ a a x′n − ℓxn = xn − ℓx1 . Assim, se as novas posi¸˜es s˜o x′1 = x2 , . . . , x′n−1 = xn e x′n , e P ′ = co a x′n − ℓ(x′1 + x′2 + · · · + x′n−1 ), temos P ′ = P , donde P ´ uma constante. Podemos supor sem e x1 +···+xn−1 perda de generalidade que P ´ positivo (escolhendo a origem, por exemplo, em e n−1 ; note x1 +···+xn−1 que ent˜o teremos sempre a n−1 ≥ 0). Temos ent˜o a n−1 1 1 (xn − xj ) = xn − (x1 + · · · + xn−1 ) ≥ xn − ℓ(x1 + · · · + xn−1 ) = P ⇒ n−1 j=1 n−1 n−1 1 P xn − x1 ≥ (xn − xj ) ≥ P ⇒ x′n − xn = ℓ(xn − x1 ) ≥ , n−1 j=1 n−1 P donde o ponto mais ` direita caminha pelo menos a n−1 para a direita a cada passo, logo tende a infinito. Como o ponto mais a direita ap´s n − 1 passos ser´ o ponto mais ` esquerda, todos o a a os pontos tendem a infinito (para a direita). Nota: Na estrat´gia descrita na solu¸˜o do item a), o ponto mais ` esquerda se torna sempre e ca a o mais ` direita, donde podemos definir xn+1 = x′n = xn + ℓ(xn − x1 ), e teriamos simplesmente a x′j = xj+1 , ∀ j. Reduzimos ent˜o a an´lise dessa estrat´gia ao estudo da recorrˆncia linear a a e e o ıstico ´ P (x) = xn+1 − (1 + ℓ)xn + ℓ, do xn+1 = (1 + ℓ)xn − ℓx1 , cujo polinˆmio caracter´ e P (x) qual 1 ´ raiz, donde, como e x−1 = xn − ℓ(xn−1 + xn−2 + · · · + x + 1), a express˜o ym = a xm − ℓ(xm−1 + xm−2 + · · · + xm−n+1 + xm−n ) ´ um invariante da recorrˆncia, isto ´, ym+1 = ym e e e ∀ m, donde ym ´ constante. Da´ vem nossa f´rmula para P . e ı o Conclu´ ımos com o problema a seguir, que ´ uma interessante aplica¸˜o de seq¨ˆncias recor- e ca ue rentes ` trigonometria. a Problema 4. Prove que os ˆngulos agudos de um triˆngulo retˆngulo de lados 3, 4 e 5 a a a s˜o irracionais quando expressos em graus (i.e., s˜o m´ ltiplos irracionais de π). a a u 17
  • 18.
    Solu¸˜o: ca (2+i)n −(2−i)n Considere a seq¨ˆncia xn = ue 2i . Temos x0 = 0, x1 = 1 e, como 2 + i e 2 − i s˜o a ra´ da equa¸˜o x2 − 4x + 5 = 0, (xn ) satisfaz a recorrˆncia xn+2 = 4xn+1 − 5xn . Da´ segue ızes ca e ı que xn+2 ´ congruente a −xn+1 m´dulo 5 para todo n ≥ 1, donde xn ´ congruente a (−1)n+1 e o e para todo n ≥ 1, e logo xn n˜o ´ m´ ltiplo de 5 para nenhum n ≥ 1. Em particular, xn = 0, a e u (2+i)n para todo n ≥ 1. Assim, 1 = (2−i)n = ( 2+i )n = ( 3 + 4 i)n , para todo n ≥ 1. Se θ = cos−1 (3/5), 2−i 5 5 3 5 + 4 i = eiθ , donde ( 3 + 4 i)n = einθ = 1, para todo n ≥ 1, o que implica que θ/π ´ irracional 5 5 5 e ıamos e2iqθ = e2ipπ = 1). (de fato, se θ/π = p/q, ter´ Nota: Para uma vers˜o mais geral deste problema, veja o Problema 88 proposto na Eureka! 17, a p. 60 por Carlos Gustavo Moreira e Jos´ Paulo Carneiro, e a solu¸˜o de seus autores publicada e ca na Eureka! 20, pp. 52-53. 18