aciliano Ram
. MARTINS
llamos
VIVENTES DAS
ALAGOAS
A fixação de costumes, ti-
pos e aspectos da vida serta-
neja é mna co11sümte das
crô1iicas de Graciliano Ra-
mos, desde snas prü11eiras
colaborações cm pequenos
;jornais provincianos, como
o "Paraíba do Sul" e "O
lndio " . Bsse apegar-se à
terra e sua paisagem huma-
na, que rnuif:l tarcle apontaria
ao escritor o caminho ela
obra maior, lhe daria mesmo
110 gênero iuicial os elemen-
tos para nma realização ple-
na. É o qne nos afirma a
série de Cl'ônicas intitulada
''Quadros e Costumes do
Nordeste", que forma o cor.:-
po principal dêste volume e
lhe empresta um snbtítu1o
esclarecedor.
Escritas 110 período com-
preendido entre abril de
1941 e agôsto de 1944, sai-
ram elas publicadas pela
Tevista "Cultura Política".
Assim, foi rrnma fase de
i·estriçõcs à criação litcrár:___j 2763
,
',
t•.
1.
OBRAS DE GRACILIANO RAMOS
CAETl:'.:S (romance) - Rio, 1983
2.• cd. Rio, 1947
3.• ed. Rio, 1962
4.• ed. Rio, 1963
6.• ed. Rio, 1966
6.• ed. S. Paulo, 1961
7.• cd. S. Paulo, 1966
S. BERNARDO (romance) - Rio,
1984
2.• ed. Rio, 1988
3.• ed. Rio, 1947
4.• ed. Rio, 1962
6.• ed. Rio, 1963
6.• cd. Rio, 1966
7.• ed. S. Paulo, 1961
8.• cd. S. Paulo, 1964
edlçllo portuguêsn - t..iabon, 1959
edição nlcmu - Munique, 1960
2.• ediçl[o nlcmlt - Munique, 1960
3.• ediçl[o nlornll - Munique, 1961
4.• edição ~ Munique, 1964
&.• edição - MuniQuc, 1965
cdlçíio nlemíi - Frnnc!orte, 1961
ecllção rdemil - Berlim, 196$
ediçilo tinlnndesn - HelsinQui, 1961
edição húngnrn - Dudnpeste, 1962
ANG'OS'rIA (romnnce) - Rio, 1936
2.• cd. Rio, 19'1
3.• ed. Rio, 1947
4.• ed. Rio, 1949
6.• ed. Rio, 1962
6.• od. Rio, 1963
7.• ed. Rio, 1966
8.• ed. S. Paulo, l 961
9.• ed. S. Paulo, 1964
ediçüo uruguain - Montevídéo, 1945
edição noa·te-americana Nova
Iorque, 1946
edição itnlinna - Milão, 1965
ediçüo port uguêsn - Lisboa, 1962
VIDAS seCAS (romance) Rio,
1938
2.• cd. Hio, 1947
3.• od. Rio, 1052
4.0
c<I. Rio, 1068
5.• cd. Itio, 1965
6.• ccl. S. Pnulo, JOGl
7.• ccl. S. Pnulo, 1962
8.• cd. S. l?oulo, 1963
9.• cd. S. Paulo, 1964
10." cd. S. Pnulo, 1.964
li.• cd. S. Pn11Jo, 10G4
J2.• od. S. Pllulo, 1065
13.• cd. S. Pnulo, 1966
14." cd. S. Paulo, 19GG
15.• od. S. Paulo, 1966
cdiçno 01·gootinn - Buenos Aires,
1947
edição polonesa - Varsóvia, 1960
edição argentina - Bueno• Aires.
1958
edição tcheca - Praga, 1959
edição italiana - Milão, 1961
edição russa - Moscou, 1961
edição portlguêsa - I.lsboa, 106i
edição nor te-ame1·icona (Prêmio do
'illiam Fnulkner Foundation)
Texas, 1963
edição cubana - Havana, 19G4
edição francesa - Paris, 1964
edição alemã - Berlím, 1965
edição rumena - Ilucarcst, 1966
,
INFANCIA (memórias) - ili<>, 1945
2.• ed. Rio, 1952
3.• ed. Rio, 1953
4.• ecl. Rio, 1955
5.• ed. S. Paulo, 1961
edição nrgen~ina - Buenos Ah·ea.
1948
edição francesa - l'nria, 19SG
lNSONIA (contos) - Rio, 1917
2.• ed. Rio, 1962
3.• ed. Rio, 1953
4.ª ed. Rio, 1965
5.• ed. S. Paulo, l 961
6.• ed. S. Pnulo, 1966
edição portugul!sn - Lisboa, 1~63
MEMORIAS DO CARCERE
(obra póstuma) - Rio, 1953
2.• ed. Rio, 1964
a.• ed. Rio, 1954
4.• ed. S. P aulo, 1961
6.• ed. S. Paulo, 1965
VIAGElf (Tcheco-Eslováquia - URSS)
(obra póstuma) - Rio, 1954
• 2.• ed. Rio, 1955
8.ª ed. S. Paulo, 1961
LINHAS TORTAS (c1·ôníc11s)
(obra. p&stuma) - S. Paulo, 1962.
VlVENTES DAS ALAGOAS
(Qundros e Costumes <lo Nordeste)
- Crônicas (obra 1>6stumn ) -- S.
Paulo, 19G2.
2.• ed. S. Paulo, 1967
ALEXANDRE E OUTROS HEnóIS
- Literntum pnra ü1flnclA o jca.
vcntude (obk•o. p6stumA) - S. Pnulo,
1962
2.• ed. S. P:sulo, 1964
3.• ed. S. Paulo, 1966.
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1
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VlVENTES DAS ALAGOAS
1
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GnACTUANO RAMOS
VIVEN'l'H~S DAS ALAGOAS
2.ª JDIÇÃO
CAPA DE
CLóVIS GRACIANO
LlVnAHIA MARTINS EDITôHA
EDIHCZO MÁRIO DE J1VDRADE
l:WA HOCTii, 274 - S. PAULO
J'
' GRACILIAN O RAMOS
(Quadros e costumes elo Nordeste)
(obrri pústumn )
..
1
1
: 1
MAHTINS
VIVENTES DAS ALAGOAS
'
CARNAVAL 1910
E
RAM três dias,bem desagradáveis. Sujeitos pre-
cavidos fechavam-se, olhavam suspeitosos a
rua, mas isto não os livrava de pesares: se se
distraíam, inundavam-os jatos d'água suja. Iam
mudar a roupa, furiosos. Avizinhavam-se depois
das janelás, atentos aos moleques armado.s de bisna-
gas enormes de bambu. Além dêsses inimigos, havia
os indivíduos que traziam, em mochilas, pacotes de
alvaiade, zarcão, ocre, tintas de tôdas as côres, com
que se pintavam os transeuntes.
Um doutor verboso declamava discursos irados
nas esquinas, i·eferia-se aos selvagens, aos tupinam-
bás. Ninguém lhe dava importância - e a zanga
esfriava. Bem, agora, molha.do, não valia a pena
recolher-se. O jeito que tinha era entrar na funçã.o,
tornar-se também selvagem, vingar-se, pTovocar
outras indignações e arTastar para a folia os amigos
cautelosos.
Animavam-se todos e perdiam a compostura,
acabavam achando aquilo intei·essante. Alguns viam ~
perfeitamente que estavam fazendo maluqueira e
desregravam-se com moderação, quase a pedirdes-
culpas encabuladas à cidadezinha pacata. H omens
graves, pais de família, tis11ados, bebendo aos gritos.
Mau exemplo, doidice. Na quarta-feira retomariam
a sisudez necess{n·ia.
(
' J
8 - GHACILIANO RAMOS
Cadeiras nas calçadas. Meninas sérias e bicudas
reprovando os excessos, sacudindo com espanto e
enjôo as cabeças, onde se arrumavam papelotes. Não
se contaminavam, estavam livres da pintura, dos
banhos, de atracações perigosas: comportavam-se
direito, como se aguardassem a passagem da pro-
cissão. Rapazes ousados, atiravam nelas esgnichos
d'água de cheiro e eram mal recebidos. l!Iuxôxos.
Que assanhamento ! Nada de confiança. Brincadeira
com môça findava na igreja ~u r endia pancada. Os
desejos não se escondiam sob nuvens de confetc, não
se amarravam com serpentinas, não se excitavam
com éter.
Ainda se desconhecia o automóvel. A gente es-
cassa pezunhava nas barrocas do calçamento ruim,
equilibrava-se i1as pedras pontudas.
As n egras se ha·viam tingido com papel verme-
lho molhado. E andavam tesas para não desmanchar
os enfeites do pixaim, branco de fiapos.
De longe em longe desfilavam parafusos, tipos
envôltos em numerosas anáguas que se iam encur-
tando. As de cima, perto do pescoço, eram camisas
de crianças. Êsses espantalhos andavam inchados
por dentro e por fora, pacholas, cobert-0s de renda
engomada.
Papangús vagabundÔs enrolavam-se em sacos
de estôpa, sujos, as caras escondidas em fronhas, as
mãos calçadas em meia.s.
Bobos de máscaras honíveis se esfo1·çavam por
aterrorizar os meninos. Gingavam, falavam rouco
e fanhoso:
' 1 - Você me conhece~
1 Se não conseguiam disfarçar-se, recebiam vaia
e ficavam arreliados.
VIVENTES DAS ALAGOAS - 9
O índio, de penacho e tanga, era personagem
obriO'atória e silenciosa.
º . - 1 t do poeira causandoPassava o corclao, evan an ' ·t
eutusiasmo Um frevo decente em redor ela por a-
b'tndeira. .Repetimn-se cantigas d~ ddez a1~osf:ge:
' - ito bem ensaia as. .L-l.S -
nenhuma alteraçao, :rm'. r . homem da, maromba
rns marchavam na chsc1p ma' o . li ,·1 .
conduzia o bando, importm~tc; papai .ve ~~r~~~ :>~:
vaidoso a cabeleira de algodao o as long~s . "t
... 1 morcêgo na frente, fazia. p1rne as,espanacor ; o '
..·t ndo as asas de· g·mi.rda.-chuva.ag1 .a. . e' e . . •
~1r, arados solitários produziam hllarid.ade
.LU çLSC . e, . • • • • • • )COllVenien-
ilhéria.'s antigas e ditos grosseiros,,11. . .·
com p . l formavam ::is cr1,t-icris, motivotes Outros, reumc os, . ( ' ·' , . t ci
1 . . e "la1·n1·'s Alusões a notaveis .acon e -eo rece10s " · C•• • • l , -· ·
mentas elo lugar comentár io::; a falos mclmciho::;~s e
' . t 1 s sem graça nen uma.pa1-ticula.res, mexen cos o o ' . . i . nbs
Criavam-se inimjgos. E às vêr.os se liqmcnvam co "
vcll1as. f d
Um cidadão espia.va o morcêgo e o vara ·uso, e
lon ·e Dois on três embuçados musct1losos ent;:a~am-
g . . batiam-no a cacête. Berros, suphca.s,
lhe em casa, ·· e t N' 'm sabia
sangue, ~.pitos, snmiailn-dsc ua ~~1~~ bo~~ge~~tar opi-
donde vrnham as pau a as , . ,· ~
No ano seguinte as criticas senam meno..,niões.
ofen;;;ivas.
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NATAL
A
. LOUMA piedade, vinho verde e castanhas nas
casas dos portuguêses, a árvore, um pinheiro,
coberta de presentes, com gêlo de algodão nas
fôlhas, P apai Noel, barbudo, saco ao ombro, devas-
tando os armazéns de brinquedos e levando aos me-
ninos surprêsas velhas - aí temos o Natal na cidade.
Depois disso, lidos os telegramas amáveis e redigidas
as necessárias respostas, voltamos às nossas ocupa-
ções e a vida continua, uormal.
No interior tudo é difel'ente. Nem francês de
barbas, nem árvore com frutos e1uolados em papel
ele 5êda, poucas mesas fartas, ausência de piedade.
O Natal festa profana, alcança duas outras : Ano-
bom e Reis. Começa a 23 de dezembro e termina
a 6 de janeiro, representa uma solução de continui-
dade nas aperreações do sertanejo.
Em S. J oão, no fim de junho, menos importante
e menos durável, dão-se tiros, quejmam-se buscapés,
acendem-se fogueiras, fazem-se adivinhações de vá-
rias espécies. Conservam-se aí reminiscências do
culto do fogo, talvez, e das consultas ao oráculo.
O Natal, uma grande feira, tem muito do car-
naval e dos torneios artísticos. Há desafios de vio-
leiros e diveitimentos populares em que figuram dois
grupos rivais: as cavalhadas, a chegança, os bandos,
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12 - e n A e I L r J i': o RAM os
o reizado, o pastoril, o fandango. As cerimônias
religiosas, com luz forte, nuvens de incenso as ima-
gens vistosas r10s altares floridos, cantos, 'que são
também um torneio artístico, realizam-se ao cair da
noite. Ao cabo duma hora, satisfeita essa precisão
da natureza humana, fecha-se a igreja, e a massa
barulhenta invade o largo próximo. Se J1á leiliio -
misto aJtar de sacrifício e mercado - o reverendo
preside. Sôbre a mesa de toalha branca expõem-se
as oferendas limpas, e entre elas avultam os frutos
da terra, primícias ou não'; embaixo da mesa anu-
mam-se as vítimas, em gera) bacorinhos e aves. Se.
não há leilão, o padre fiscaliza de longe os fiéis aglo-
merados e afasta-se cauteloso: a sua prese11ça torna-
se inútil.
_ A dev~ção do camponês, intensa, de ordin[trio
nH? ~e exprime em reuniões públicas, como nas socie-
dades .nrbmws: fom formas familiares, reza benditos
e ladamhas dian~e ~o oratório doméstico, pede favo-
res a Santo Antomo, que, se se mostra indiferente
é puuido - lembrança possível das intimidades qu~
houve entre os homens e os lares. Nas missões po-
, 'rem, apertnm-se enxames em. .redor dos confessio-
nários, casmneritos naturais se legalizam surgem
numerosos~atjzados. E, ao e11cerra.r-sc o an~, a gente
daspovoaço?.s e elas fa~enda.s assiste às novenas, q11e
excitam a v1sta, o ou_v1do e o ol~ato, permitem que,
durante algumas noites, as exigências sociais do
~1atuto, longos meses recalcadas, semanifestem quase
livremente.
Amigos, parei1tes e vizinhos juntam-se e.m ma-
gotes pelas ruas, andam segurando-se uns aos outros
receosos de. que. um membro se desgarre, admirar~
as tei1das 1.lurm11adas, as lanternas de papel, os
VIVENTES DAS ALAGOAS - 13
onpacctes dos mateus, as exposiçõ~s de miudezas
~ os foguetes. Nas lojas, abertas ate a madruga~a,
bá grilos, discussões, risos, compras, furtos de obJe-
'boa pequenos. Cachaça e vinho ~~anca nas barracas
de bebida, bozó e caipira nas .de Jogo. Destravam:se
lB línguas, aparecem rixas. Carteando o l?a~a.ra .e
o sete-e-meio, em lugares reservados, .profiss1on_a1s
<.lu batota esfolam pexotes. Um ca~deeiro. de acetile-
ne ehia, um realejo ofega, os cavalmbos giram carre-
µ;uclos de marmanjos que se agarram, ~ormam cachos.
Mulheres se acocoram nas calçadas, inte_rrompem o
trâ.nsito. Estiram-se conversas nas esqumas, arras-
tnm-se negócios intermináveis, que se desmancham,
recomeçam, falham de nôvo, tornam a r~começar,
niastigados numa terminologia confusa. Cada um~
<las partes quer enganar e teme ser enganada. Da~
as voltas lentas, recuos e avanços, uma_h:ta em ~uo
os adversários usam contradições, repehçoes~ ...elo?10s
e ameaças. Triunfa quem tiver mais pac1encia.e
lábia. O tempo gasto nada vale, e por uma ~uanha
insignificante perdem-se long·as horas. Existe um
código especial, admitem-se trapaças na cont~, ~o
preço, na medida, e em ve~d~s e.tr?cas de a:mma1s
a fraude valoriza o si1jeito hab1l, di~c1pulo.de ciganos,
e constitui uma vergonha para o p_obre diabo ~ue se
deixa embromar. Ju.stificam-se, poIB, ~ desconfianç.a,
a lentidão, as idas e vinda.s, o encollumento, as son-
dagens. "
Contrastando com. as negaças do mundo_econo-
:mico, há nas relações sentimentais .uma rapidez de
processos notável. Numeroso~ ca:_ais afas~am-se da
zona povoada e efetuam combma_çoes a meia v_oz, em
diálogos curtos, vivos, sem rodeios, sem ~e~a;foras.
.Apesar de ser bastante reduzido o vocabulario, tudo
14 - e R Ae I L I A N o R A M o s
se expõe claramente: a palavra enérgica da literatu-
ra realista é largada no momento justo, produz efeito
com o auxílio de gestos expressivos e carícias rudes.
Nenhum sinal da alarmada pudicícia, dos rubores
que ainda podemos notar nas camadas mais altas da
sociedade sertaneja. Mas aí há uma tradição, a vir-
tude é coisa útil, respeitável, e não convém estragá-
la assim de chôfre. Todos se conhecem, a parentela
se julga com odireito depedir explicaçõesminuciosas
e exagerar insignificância~, os mexericos fervilham.
E uma alusão, no púlpito, domingo, depois da missa,
ocasiona desgostos sérios à cristã. Essa gente, porém,
não se mistura à cambada mesqu:inha e suarenta que
joga bozó, bebe cachaça, trepa nos cavalinhos e se
comprime em torno das barracas, papagueando, tro-
cando beliscões. Aqui as instâncias do coração wfo
acham obstáculos. A fase preparatória é i·ápicla. O
agente, fungando, ronca em minutos uma declaração
de amor. O elemento conquistável, de olhos·baixos,
responde com interjeições e movimentos de cabeça.
Se está de acôrdo, bem, tudo se arranjará depressa ;
se não está, salta fora e encosta-se à parede.
Perto do lugar onde os noivos acidentais revelam
as ânsias que têm na. alma, d·ois poetas se csgoelarn,
repenicando as primas. Cantam a valentia do can-
gaccfro, atacam a fôrça volante, fazem a apologia do
heroísmo anônimo, e nas emboladas cada um se exalta
cômica.mente e insulta o parceiro. Nessa poesia não
se encontra referência aos pudores caboclos explo-
rados em contos regionais de sentido fraco e obser-
vação nula, uniformes, piegas, encharcados na ga-
rapa do romantismo. É possível que os autores das
honradashistórias, colaboração edificante de revistas
populares, procedam com relativa honestidade.
VIVENTES DAS ALAGOAS - 15
. . t ,· , sabem que o matuto, su-uitos vrvem no m enor, d . 'd't
, . - 11..ras isto verda e ine i arsticioso e me10 pagao. .lu . '. O t
.' - · para literatura. u raoorriqueira talvez nao sirva 't
d l vrosa e exigente, anda nos escn -Os,
vorda e, pata nsnu'te-se O literato cambembe não
Pe1~a11ece ra · ·a d
. ' nt1'dos e escora-se numa autor1 a e.aonfla nos seus se . ·1
1t1sbí certo. H á costumes que, por isto ou por ªt~u: o,
soc~nsideram indecentes. Que fa7:e:~. Apresen .ª- º:~
oxplicá-los, tentar corrigi-los~ D1f1_c11. ~et~hormco
acrvá-los em segrêdo. É como se nao ex1s isse .
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CARNAVAL
A
CIDADE tem uns c:inco mil habitantes. Contando
bem, talvez achássemos seis mil, número que
os naturais, bafrristas em excesso, duplicam.
Há um cinema silencioso, onde as fitas se quebram
wnl'ante longas horas, sem risco para os freqüenta-
<1orns, atentos aos dramas em série, e há um sema-
11úl'io, adstringente, espüihoso, que divulga boatos
<~oehi<'lrnüos irns esciniuas, na farmácia e na bar-
bem·ia, em rcclol' dos tabuleiros de gamão. orrudo se
J·cnliia às c1arus, 110 cinema 011 na rua, e as casas
<1
Hhío fiscafümcfos rigorosamente. Qualquer derra-
pngem medíocre, sorriso considerado impróprio,
Hllspiro ou afoiteza de opinião, determina comen-
túl'ios, zangas, crfücas acerbas, equívocos.
1T1az trinta anos que S. Revdma. profere no
píllpito, com ligeiras .variantes, o mesmo sermão,
ntnqne feroz no mundo, à carne e ao diabo, férteis
0111 ter1tações não especificadas. Prudente, S.
Hovdma. impugna o exterior do mal. Acusou as
primeiras mullicres que vestiram calças e montaram
n cava1o ele fronte, esca:nchadas, como os homens,
rnns êste indício de perdição vulgarizou-se ràpida-
mcnte, os silhões e o costnme de cavalgar de banda
cairam em desprestígio - e o vigáTio passou a. de-
m.mciar outras manha.s dos ininugos da alma. Agre-
diu tlS suias c.:mtas das rnôças e os braços descobel'-
18 - G n Ae I L I A N o R AM o s
tos. Ante a resistência foi inexorável: esbafol'iu-se
e enrouqueceu depois da missa, usou argumentos
rijos e, no batismo, afastou da pia as madrinhas
não inteiramente agasalhadas. Recusou desculpas,
triunfou . Idoso e de óculos, enxerga sem dificul-
dade os colos expostos. E julga qne alguns centí-
metros de pele nua ocasionam i:>rejuízo sério à
cristã.
Na campanha ma.is enérgica do reverendo, con-
tra o carnaval, um alia<)o considerável rendeu-se, o
hebdomadário noticioso e austero, que entrou na
:folia para não desgostar os assinantes. O vigário
compreendeu que perdia teneno e contemporizou:
admitiu a festa pagã, limitando-se a condenar exa-
gêros, que nunca existiram.
O lugar é morigerado. Os homens nascem opor-
tuuamente, casam oportunamente, morrem oportuna-
mente. E entre essas ocorrências compo1·tam-se
direito, mais ou menos direito, e examinam as vidas
alheias, achando sempre nelas motivo para desa-
grado, oque muitoinflui na purificaçãodo ambiente.
Efetua-se o carnaval, com decência, com ordem.
Famílias reunem-se na praça em magotes limpos de
mistu1·as perniciosas. Notam-se várias categorias.
A senhora do prefeito e a senhora do médico presi-
dem : sentam-se à porta do bar e oferncem cadeiras
à representação feminina dos engenheiros da estrada
de feno. Será verdade que, depois de tantos estudos,
a estrada de ferro vai chegar1 Juntam-se ao grnpo
a gente do promotor e a do juiz. Conversas, amabi-
lidades, escolha rigorosa de palavras, para que as
engenheiras, hóspedas, nã.o formem conceito mau da
terra. Provàvelmente não formam.
Tudo no largo está bonito e animado. Andam
ali negociantes, funcionários, artífices, indivíduos
VIVENTES DAS ALAGOAS - 19
ue não pertencem a nenhuma corpol'~ção, outr~s
~ue se ingerem subrepticiamente cm dtve~~ªd PÜ
lhól'ias velhas se repetem, provocam bil~r1 a e.
scrivão da coletoria tem um~ gra~a ! ,i ap~nas o
!ICl'ivão da coletoria, no serviço mnguem da ~ada
Eore"le mas de domingo a terça-feira gorda ca1 na
' p ·sso tem prer-arra e nã.o há quem o ven.ça. or l
rogativas : é geralmente aceito. .
. Desfilam cordões, aproximam-se bandeiras. e~1
onmprimentos, e as cantigas do ano pas~ado aperf~1-
onram-se. Abrem-se garra~~s de cerveJ~t. E~ core-
~os enfeitados com bandeirmhas, duas charangas
tocam em desafio, capricham nos sambas e :ias m~r­
ohns. A iluminação pública melhorou: as lampa as
mortiças cochilam, mas estão numerosas. Se se ap~-
d' te como às vê~es acontece, haveriagnHsem e i·epen , ·
uma confusão.
A f 'ta alarmada suspende a conversa,
pre e1 , .' . dançam
ollrn os rapazes do comercio, que gm~a~ e . .
misturando-se aos cordões, algm1s caixeiros ~~aJ an­
lM tipos viciados, com certeza, mulheres duv:- os~.s.
' d.riam as engenhefras se as luzes se extmgAms-
o~~~ ~elizmente a usina elétrica se esforça ; v~-se,
através das grades, o maquinista mexendo ze oso
:naqueles ferrinhos. ..
- Parece que o motor aguenta. .
A .dade não tem razão para se envergonhar.
la:rgoc~rai-se enchendo. Na vizinhança creseem os
rmnores dum frevo honesto. .
Antigamente não era assim. MarmanJos, de saco
l'I tiracolo armados de enormes bisnagas, molhavam
4:11 ' • Ih h' dos de ocre e verme-GD pessoas, Jogavam- es pun a
nino. t · ·1· do ·Agora estamos civilizados, bastan e ci~1 iza, :'3·
t ' ·s Meia duz1ao:noe1·ta.ram-se todos os au omove1 .
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20 - CRACILIANO RA .MOS
dêles, arrast~ndo serpentinas, buzinando pelas ruas,
tra?spo_r~a risos, a alegria indispensável. Não é só
n~e1a cluzrn. Passam três ou quatro desconhecidos:
vieram carros de outros municípios, sinal de que
temos um carnaval excelente, o melhor destas
redondezas. ·
- D esperdício de gasolina.
Os negociantes resmungam. Papel c01·tado ras-
gado, pisado, ronpas desnecessárias. No ano' vin-
~ionro, muitos daqueles trajes coloridos estarã.o
1mprestáveis. Ora sim senhoTes. O ajnda.nte da far-
mucm ~espejou cinco lança-perfnmes 11a fi.Jba elo
telegrafista.. Onde foi êle buscar dinheiro para dar
ban:U_o d~ éter numa.si.rigaita1 Hem1 Na gaveta do
})atrao, e claro. O rnstrntor do t.iro bebo cerveja e
:iamora uma profe.ssôra do grupo escolar. Bem, bem,
esse yode consm'.111· la11ça-perfu111e e cervcj:i. Niío
rnmupuJa em botica nem compra fiado. Está corto.
_ A prefe!ta se aborrece também. Aquela agarra-
ç>ao da menrna do telegrafista com o ajudante da
~arn,1ácia é um escfmdalo. A sousa, qne vive na
1grcJn, confessando-se, comungando, perde os estri-
bos. e,d~ amostra péssima da localidade. Bom que
o :r1gano amanhã se inteire do fato: haverá no do-
mmgo um. s?rmão terrív,el. A professori11ba avança,
i~a~ com Jeito. E essa. e de fora, educada em prin-
c1p10s diferentes.
A cidade, tra.d.icionalista., acomoda-se a.os hábi-
tos .modc;·11os. Acomoda-se, pois r1ã.o. É o que diz
mmtas .vezes o pro:moto.r, homem de leitura. e poesia.
~comoda-se, d~vaga.r..Nada de choques, pcrtu.rba-
çoes. A p.refeit.a admira e teme certas liberdades,
or~ boas, ora nuns. Quer explicar-se, usa circunló-
qmos e atrapalha-se.
- A senho1·a não acha1
VIVENTES DAS ALAGOAS - 21
- Perfeitamente, co11corcla a engenheira, sem
t.liviuhar a intenção da outra.
- Pois é.
Rsse caso da filha do telegrafista, por exemplo,
do~lou. Uma sujei.tinha nascida na roça, criada na
C6, Hem emprêgo, tôla como peru nôvo, pode tomar
o freio nos dentes, desembesta.r~ Com franqueza,
nno!)Ode.
· - Sim senhora, destoa.
O fonfonar dos automóveis une-se aos roncos
(lo t1·ombone e aos gritos da flauta. A prefeita.cerra
oM onvidos, olha um rancbo ele maracatus, re!.ira do
pomm.mento a mocinha. do grupo escolar e a filha do
1:olografista : '
- Estamos long·e disso, ·graças a Deus.
,
O DR. JACARANDÁ
I
J Á tempo Carlos Pontes, meu vizinho municipal,
~ mostrou-me na rua êsse popular defensor dos
pequenos e ofereceu-me a seguinte observação.
- A n,0ssa zona produziu alguns sujeitos no-
táveis - nós dois, Fulano, Beltrano, Sicrano e o Dr.
Jnrnra.ndá, que é o mais importante de todos.
Ri-me, depois achei que o final do gracejo podia
sor tomado a sério. P or que não1
Naquela tarde horrível os quarenta graus anun-
(l[ndos pelo serviço meteorológico subiam do asfalto,
ont.ravam-nos por baixo das calças, envolviam-nos as
porna.s como bainhas ardentes. Considerei desalen-
1udo os nossos exteriores. Bambeávamos no calor,
procurávamos um pedaço de sombra, as camisas mo-
lhadas grudavam-se à pele, os medonhos paletós
escureciam nos sovacos. E os pés, lentamente arras-
·tados, pesavam demais.
Contrastando com êste abatimento, o Dr. J aca-
rnndá resplandecia., leve e retinto, como se estivesse
ongraxado de nôvo. O pixaim branco realçava na
ti·eva da nuca, valorizava o chapéu velho ; as abas
do fraque, impulsa.das por energ·ias intensas, agita-
Víl.m-se, remedando bandeiras de uma bela côr preta
amarelada, com manchas claras; os bolsos encbuma-
çavam-se, provàvelmente de símbolos escritos; e uma
t·
'
24 - G R Ae lL I A N o n A M o s
rosa triunfava na lapela, vermelha e grande. Ligeiro
como um redemoinho, o homem atravessou a. ave-
1Jida, sumiu-se na multidão suada, fatigada.
E fatigados, suados, lá nos fomos deslocai1do
vagarosos, em busca da sombra, invejando aquêle
estranho conterrâneo. Por fora o Dr. Jacarandá
vale realmente mais que nós. E também por dentro.
Rematamos meio século apagado, inútil - e êle,
rijo, seguro, viveu quase o dlplo.
Quando, em 1877, fugindo à sêca e a outros fla-
gelos, deixou Olhos-d'Agua-do-.Acioli e chegou aos
arrozais de Anadia, era molecote já taludo e mane-
java fàcilmente a enxada no eito. ~sse gênero de
trabalho, porém, não se acomodava às aspirações do
môço, qne ainda não era Jacarandá nem doutor. De
que modo adquiriu o nome e o título, o prestígio, o
fraque e a rosa flamante, nem êle próprio talve7.
saiba. Deu voltas e trambolhões, mourejou dece·rto
em ofícios vários até acbar a sua tendência e surgir,
experiente e maduro, com banca de advogado, con-
sultório modesto que uma placa. de papelão segura
em cordões indica, junto a uma bodega de frutas.
Desdenhando erudições e formalidades, êsse D. Qui-
xote escuro entrou firme. a combater injustiças, a
defender os senhores vagabundos e as senhoras mere-
trizes, c·onforme êle diz, e ameaçado por uma asso-
ciação de classe, afirmou à imprensa que não tomava
o lugar de ninguém, que não era causídico ou advo-
gado, como outros, mas a.penas adevogaclo ou cosídi-
co. O acréscimo e a redução de vogais se1·viram para
jll.'3tificá-lo. Os repórteres bateram palmas, a platéia
riu - e o Dr. J aca.randá, imperturbável nos seus
oitenta anos robustos, envernizado e florido, conti-
,
f
1
VIVENTES DAS ALAGOAS - 25
llllOU a desfazer agravos. Olha para cima, caminha
h pressa.
Muito divergünos dêle. Andamos ronceiros, e
08 nossos olhos prendem-se no chão, cravam-se 110
chtío. Estamos arriados, esb:izados. Que diabo espe-
ramos ~ Os nossos acha.ques casam-se admiràvel-
inente a achaques externos, e nesta combinação ge-
memos ou bocejamos, recusamos engulhando os
xaropes que nos receitam. O estômago é ruim, a
cu.beça é pés.simn, o espírito secou. Noções desen-
contradas 11os dão vertigens. Para onde vamos~ Os
espinhaços curvam-se, os óculos embaciados, cada vez
mais turvo..s, fixam-se na terra. Certamente houve
muitas coisas belas, mas agora tudo é feio, triste.
E falsificado. AHmentos falsificados e idéias falsi-
ficadas nos estragam as vísceras, superiores e ~nfe­
~·iores. Verdades numerosas tornaram-se mentiras.
:E vice-versa. Infelizmente os sentidos funcionam :
lemos jornais, onvimos r ádio. roderemos ainda acre-
ditar, admirar?
Bem. Ad.min:1mos o Dr. J acara.ndá, que tem
crenças inabaláveis não lê jornais nem escuta rádio.
' d . ]" t 'Se lesse ou escutasse, na.ela compree11 ena. iis a
quase tão puro como quando,,e1:n 1877~ fugiu da sen-
zala e ela sêca. Usa o vocabulano e a srntaxe daquele
tempo e crê nos feitiços, que se debe~a~ gra~~s a
Deus. A sua ocupa.ção é livrar de fe1ti9os m~~dos
criaturas miúdas postas na gaiola. Mas ha os feitiços
ºTaúdos que êle simples cosídico, não ousaria atacar.
Vive cercado de mistérios - e respeita-os, adora-os,
para que não lhe causem prejuí.zo, não m~ta~ na
colônia conecional os seus hun11ldes conshtumtes.
Bruxarias voam-lhe por cima da cabeça, rumorosas,
conduzindo passageiros e correspondência. Ignora
' '
'!
1
li:'~ 1
•,
2õ - G R A.CIL IA. NO RAMOS
que essas bruxarias se multiplicam lá fora, podem
transportar bombas, arrasar cidades. P ela sua natu-
reza de pedra correram desgraças, e não deixaram
mossa. Guarda uma inocência r esistente, uma bon-
dade que o leva para as misérias alheias. São as
armas de que dispõe. Vai-se agüentando, e isto prova
que não estamos definitivamente corrompidos.
~ .,
'
D. MARIA AlIIÁLIA
O
gabinete de S. Excia., como todos os gabinetes
de pessoas importantes, estava sempre cheio.
P edidos, choradeiras, desejos de vingança,
vaidades, calúnias, reedições vivas de cartas anôni-
mas - um inferno.
O governador aborreceu-se disso, abandonou as
audiências e começou a rodar nmn automóvel pelo
interior do Estado, ensinando agricultura e zootecnia
aos matutos e tentando endireitar os orçamentos
municipais. Em cada semana eram dois dias de fuga.
O pior é que nesses dois dias, passados aos sola-
vancos, entre atoleiTos, lávinham,mal o cano parava,
as cenas do gabinete :as mesmas lamúrias, os mesmos
enredos, as mesmas pequeninas safadezas. Sômente,
como não havia sala de espera, o governador se punha
em contacto com tôdas as misérias da terra. E as
misérias vestiam-se mal e falavam linguagem incor-
reta.
· Ora, das criaturas que aperreavam S. E xcia.,
D. Maria Amália era a mais incômoda. No gabinete,
no sertão, livre das horas d e expediente, no cinema,
assistindo a uma cerimônia oficial, respirando poeira
em vagão da Great-Western, ou escondido num dêsses
recantos indispensáveis que não é preciso mencionar,
descansando, fazendo a barba, dormindo, comendo,
·I
'.;
~ .1··
·' 1
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1......
28 - GRACILIANO RAMOS
amar1do, o governadol' era atenazado por D. Maria
Amália, pelos representantes de D. Mariu Amália
ou pela recordação de D. Maria .Amália.
Senhora terrível, sempre com um inimigo para
deit.ar abaixo e um amigo para colocar. Nunca estava
satisfeita : achava poucos os favores que os seus
amigos recebiam e julgava os iuimigos demasiada-
mente favorecidos.
D. :Maria Amália era mulhel' dum chefe político
influente. Às vêzcs prefeito, outras vêr.es deputado
ou senador, o marido de D. Ma.ria Amália tinha
grandeza. Na câmara, no senado, nas secretarias,
nas diretorias, imaginavam que êle dispunha de dois
mil votos e respcitavnm-110.
Mas no município dêle todos sabiam que os votos
eram de D. Maria. Amá.lüi, qne manejava o delegado,
o subdelegado e os inspetores de quarteirões, o admi-
nistrador da recebccloria, o coletor federal, o pro-
motor, os jurados, os conselheiros municipais e o pre-
feito. Dessas autoridades heterogêneas, urnas, ma-
lcáveis, quebravam a cabeça para adivinhar .os pen-
samentos de D. :Nfa1·ia Amália e corriam a contentá.-
la; outras de têmpera rija e carranca, resistiam,
discutian1 e obedeciam com· independência.
O governador começou a fugir daquela mulher
temerosa, que, depois da eleição, exigia empregos
para todos os eleitores, adotava, por intermédio do
marido, o negócio de vendas à vista, tanto por voto.
S. Excia. precisava dos votos, mas não possuía
a quantidade necessária de empregos. E sprernido o
orçamento, ainda :ficavam muitos candidatos afas-
fados do tesouro, desgostosos, dizendo cobras e
lagartos elo govêrno.
"I
l
VIVENTES DAS ALAGOAS - 29
Caso sério. O eleitor ca.mbernbe vota para re-
ceber um par de tamancos, um chapéu e o jantar que
o chefe político oferece à opinião pública; mas o
eleitor considerado quer modo ele vida fácil, orde-
nado certo e a educação dos filhos.
S. Excia.. compreendia perfeitamente que a
oposição engrossava. Paciência. Depois dos votos,
promessas.
Os homens acreditavam nas promessas, mas D.
Maria Amália não se deixava embromar : examinava
as coisas por miúdo, reclamava paga, toma lá, dá
cá. E o seu nariz bicudo farejava os decretos que se
ocultavam nas diretorias, nas secretarias e nas ofi-
cinas da Imprensa Oficial.
Essa figura antipática e exigente cresceu tanto
que tomou para o governador as proporções duma
calamidade. D. Maria Amália tornou-se um símbolo.
Foi a representação da nossa trapalhada econômica,
social e política.
E S. Excia.., desprezando o gabinete e percor-
rendo os municípios distantes da capital, procurava
debalde evitar as manifestações que D. Maria Amá-
lia lhe trazia de malandragem e parasitismo. Quando
a malandragem e o parasitismo, embrulhados em
boa sintaxe e enfeitados de retórica, mostravam a
cauda numa coluna de jornal ou nas declamações ex-
cessivas dum discurso, S. Excia. franzia a testa e
queixava-se de D. Maria Amália.
Um conselho municipal aprovava as contas do
prefeito que esquecia as obras públicas e gastava
mundos e fundos com pessoal.
- Administração de D. Ma.ria Amália.
Um coronel mandava o júri absolver ou condenar
criminosos.
·' J
30 - GRAC IL IANO RAMOS
- Justiça de D. :Maria Amália.
Um delegado tomava a :faca dum cabra e ia ven-
dê-la a outro.
- Polícia de D. Maria Amália.
Todos os anos, no dia 7 de setembro, o governa-
dor recebia um telegrama que nunca mudava : "Con-
gratulo-me com eminente a.migo comemoração data
independência querida pátria. Cordiais saudações."
- Política de D. Maria A.mália.
E D. Maria Amália crescia.
Hoje é uma senhora bem conservada, respeitá-
vel, com excelentes relações.
Algumas pessoas julgaram há tempo que ela ia
morrer. Tolice. Morrer tão môça, quando, corno diz
o poeta, êste mundo é um paraíso1
Resistiu a tôdas as comissões de sindicância e
está forte, gorda e bonita.
O MôÇO DA FARMÁCIA
N
A cidadezinha de cinco mil habitantes, elevados
a dez mil pelo bairrismo, o caixeiro da farmá-
cia publica experiências de boas letras no
semana.no independente e noticioso, que tira qui-
nhentos números e, por ser pouco noticioso e muito
rndependente, já rendeu sérios desgostos ao diretor.
Moléstias, remédios nauseabundos, suspensão da
fôlha, que, depois de quinze dias, três semanas, um
mês, volta a circular com mais notícias e menos inde-
pendência. Vem daí as relações do ajudante da far-
mácia com o diretor da fôlha. Há nela uma secção
literária - e foi isto que seduziu o rapaz, homem de
raras ocupações e desejos imoderados.
Vira êle em jornal grande uma linha preciosa :
• • ''As ruas fustigadas por violen~íssimo temporal.''
Folheava atento o dicionário pequeno e ficara sur-
preendido. Ora muito bem. "Fustigadas por violen-
tíssimo temporal." Que beleza ! Nunca ninguém na
cidadezinha de cinco mil habitantes, elevados a dez
., mil pelo bairrismo, havia composto frase tão sonora
i e difícil. O vocabulário da povoação era minguado,
e a sintaxe variava de indivíduo para indivíduo. A
filha do telegrafista cantava, desafinada e sentimen-
tal: ''A brisa corre de manso.'' Mas a professôra
vizinha achava que, sendo brisa uma palavra femi-
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32 - e R A e 1L I A N o R A M o s
nina, devia emendar-se a cantiga: "A brisa corre de ·
mansa."
Omôço da farmácia decidira servjr-se dos tem-
p~rais. e evitar as brisas. Redigira e publicara na
folha mdependente uma coluna verbosa, mas com
tanta,il~felici~ade que o promotor, hábil em poesia e
gramatica, afirmara nas barbearias que aquilo era
de Vítor Hugo. I ntimado a exibir prova, o bacharel
r~spondera ~ue não se lembrava da passagem pla-
giada, mas tmha certeza de que havia fnrt.o. O autor
brioso, lera todos os livros de Vítor Hugo, alcançar~ -,
a absolvição e, dono dessa cultura razoável, xingara
o promotor em becos e esquinas.
Assim teve princípio a carreira literária do aju-
dante da farmácia. Adquiriu diversos volumes en-
cheu-se de regras, estudou metrificação e leu jor~ais.
Deseja transpor os limites da cidadezinha mas
. 'por enquanto .ªm~a é um escritor municipal. Capri-
cha na orgamzaçao de contos, manda-os a revistas,
aos con__cu~·sos que se fazem na cidade grande, sonha
com prem10s de vulto, com ilustrações vivas, em tri-
cromia. Esfôrço vão. Ninguém lá fora. o enxel'o·a.
Z~nga-se, julga-se vítima de injustiça. Depois de:a-
mma. As histórias arranjadas pacientemente des-
manchadas, refeitas, são ruins. P or quê1 Não há
ali uma criatura que lhe possa dar explicações.
Aprende só - e isto é doloroso. Neccssário enorme
trabalbo par~ compreender, em seguida esquecer,
recomeçar, orientar-se de nôvo. Evidentemente as
lições vistas nos livros estavam erradas. Volta pro-
cura lições diferentes, que abandona. Avanda em
a~guns pontos, em outros permanece ignorante. Não
dispensa os temporais que fustigam as ruas.
VIVENTES DAS ALAGOAS - 33
Bem. Agora é capaz de utilizar brisas e tem-
ornis, certo de que a combinação está sofrível. A
h•olora do grupo escolar pediu-lhe discursos para
011 meninos que tinham findo o curso primário. Fêz
i.ms quatro, que foram preteridos pelos do juiz de
'diroito, um ma]nco. Está melhorando, sem dúvida.
ti <'havões do juiz de direito foram recebidos com
muito elogio, sinal de que não prestavam. Bobagens
do nrrepiar.
Provàvelmente os tem1Jorais que açoitam as ruas
tnrnbém não valem nada. Se valessem, os contos,
dfrei.tinhos na conjugação e na coucordância, teriam
Hido publicados, com ilustrações de Santa Rosa.
Continua a trabalhar, só, adiantando-se em al-
g11us1ugares, emperra.ndoem ontros. Tem um bando
de nomes na cabeça, mas emprega-os sem disccrni-
meuto e deforma-os na pronúncia. Envergonha-se
e.lo nsá-los em conversa, porque ali não os conhecem.
Uedamente o consideram pedante quando, receoso,
l11xga uma daquelas palavras longas que viu no i·o-
munce cacête. Cacête, pois não, embora lhe falte
coragem para dizer isto. Descobl'iu num rodapé lou-
vores excessivos ao romance e ficou grogue, matu·-
tnndo, como qnem decifra charada. Precisa reler
1H1uela droga, bocejar, cochilar em cima dela. Dirá
que é magnífica, está visto. Presumirão que êle
i'!nbc julgar. Ajnda não sabe, mas saberá.
Tem armar,e1rn.do noções valiosas, dando por
vuns e por peuras, vencendo c1·ises de apatia. últi-
mamente conseguiu perceber defeitos graves nuns
versos e isto o alegrou. ..t~ssevera interiormente os
seus progressos. Pensa em sujeitos animosos que
subiram sozinhos. Como se cha.mava o carvoeiro que
1'
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36 - G H A C I L I A N O l1 A M O S
É possível que ela nunca se regularize. Se a
sêca chegar, se elementos perturbadores intervierem
na vida meio conjugal, o sertanejo, neto de ciganos
e neto de selva~ens, abandona o rancho, a mulher,
os cacarecos, vai enrascar-se·noutra aventura em lu-
gar distante. Mas em a'lgnns anos de safra, com o
paiol cheio, a vazante próspera, conta na loja a fa-
mílfa consolida-se, precisa confessar-se bati~ar os
filhos como legítimos. Nessas condições'as forma1i-
dades vulgares - banhos, escla1~ecimentos na sacri~­
tia, apuros no armazém e i10 alfa.iate, muita comida,
muita bebida -- sã.o inúteis. Nada ele aparato exces-
sivo p~ra legaliiar um arranjo que já se fêz; nem
comumcações, nem c·onvites. AproveHa.-se, pois, a
santa missão, a viagem do bispo, que ve.in, com mn
séquito de vários fradeo, pregar, <l:u· penitência
crismar, diminnir os pecados da freguesia. '
Na verdade o matuto não se julga criminoso p.or
haver contraído matrimônio sumàriamente: a sua
religiã.o, ciosa de ladainhas, incenso, imagens, rosá-
rios e procissões, contemporiza em assuntos de ordem
moral, transige às vêzes com o assassínio. Não há
mal em viverem d.ois cristãos juntos, trabalha11do
criando os meninos. Durante uma semana, porém:
enquanto o bjspo está 11n cidade, há uma fúria de-
vota pela viúuhança. IDnche-se a igreja. Os ecle-
siásticos dirigem terríveis ameaças ao público : pin-
tur as medonhas do inferno excitam as imaginações
e produzem arrepios.
Ora, das culpas derrnnci.adas a mais grave é a
amigação. O roceiro, inquieto, livra-se dos castigos
expostos aceitando o casamento que lhe oferecem,
o casamento de corda, medicina. de urgência, pois
ser.ia difícil, rws poucos dias da ·visita lJontifical, ex-
VIVENTES DAS ALAGOAS - 37
Hug11ir os achaques da localidade. Alinha-se grande
11úmcro de infratores junto a um barbante estendi<lo
o, em dez minutos, numa única operação, todos se
r:mrramentam. Nessa liquidação o tabaréu impres-
folio11a-se mais, chateia-se mais que nas cerimônias
eo1mms. Em prjmeiro lugar existem a mitra do bispo
o as tonsuras enormes dos frades, sermões em abun-
clíl11cia, a crisma, o confessionário repleto, batinas,
lrnréis, seminaristas que não se distinguem dos pa-
<lres verdadeiros. Tudo isso é raro e atraente. Em
scg1mdo lugar o matuto se sacrifica para assistir à
festa : larga o serviço, aboleta-se na rua, come fora
de horas, dorme à toa, 1rns calçadas, vê e ouve coisas
inrompreensíveis. E, ao aprumar-se j unto ao cordel,
i:<cnte-se dignificado.
Outro costume em voga entre as nossas popu-
lações rurais é o rapto da mulher, ato ordinário mo-
tivado por uma recusa da :família dela, superior ao
pretendente. Às vêzes não é superior e apenas deseja
furtar-se aos incômodos tradicionais da boda. Não
se combina o lance romanesco, mas há quase uma
combinação tácita. A heroína deixa ele ser fiscalizada
ronve11ie11terne11te e uma noite roubam-na, conforme
os processos clássicos. Um grupo de cavaleiros, ami-
gos do protagonista., vai buscá-la, com armas e ga-
llrnrdia, encontra-a perto de casa, decidida à fuga.
Leva-a, trata-a, com especiais atenç.ões e deposita-a
crn lugar honesto, insuspeito. Ninguém a ofende.
Convencionou-se, todavia, que ela está poluída, e daí
em diante, até a viuvez, que lhe restitui a pureza
comprometida, 11enlrnm sujeito decente, isto é, ne-
nhum proprietário, desejaria aceitá-la.
Há negociações, regulares, estatuídas. Exe-
cutado o simnlacro de conquista, o depositário vai
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38 - GRAC I LIANO RAMOS
ei;t.ender-se com º.patriarca inimigo, que se declara
v~tim~ dum ultraJe e não quer saber de conversa: a
filha rngrata perdeu-se, é m~o cortada. Pouco a pou-
co o homem brab~ se a~ac1a : escuta objeções pon-
derosas, reage, afinal, amda carrancudo, permite 0
casamento, porque o mal está feito e não há remédio.
Submete-se ao desastre, mas conserva-se de fora es-
capa às amolações e à festa. Os gastos miúdos fi~.am
d . ' 'a cargo o noivo.
'Em seguida tudo se reorganiza. Um dia os cul-
pados chegam de supetão, exigem a bênção, que nada
custa e se coucedc, a princípio em voz baixa mais
tarde naturalmente. Tornam-se todos amigo~.
- Um pai nunca deixa de ser pai, não acham~
Efetivamente houve apenas uma violência fin-
gida, que indiví~uos di~·eitos usam com freqüência.
Os cambembes !1ao precisam dela : juntam-se por aí,
como brutos. E casam-se depois no cordão, se se
casam.
.
CIR1ACO
E
RA um caboclo reforçado, cabreiro numa fazenda
antiga, em decadência, no interior de Pernam-
buco. Isento de família, possuía apenas o nome
de batismo, Oiríaco, que se pronunciava Ciríaco, e
alguns entendidos encurtavam para Cirico.
Se tratasse de bois, Oiríaco andaria a cavalo e
usaria perneiras, gibão, guarda-peito, sapatões duros
com esporas de grandes rosetas. Ocupando-se, po-
rém, de bichos miúdos, era pedestre e exibia arreios
somenos: alpercatas, calças de algodão tinto, camisa
de algodão branco por fora das calças, bisaco a tira-
colo, chapéu inamolgável como chifre, sapecado,
negro de suor e detritos, de beiras roídas, traste
insignificante que um vaqueiro desdenharfa.
Dispunha de vocabulário escasso e falava aos
arrancos, misturando assuntos, deixando as frases
incompletas, entre silêncios.
-Hoje de manhã, no caminho das Sete Lagoas,
encontrei uma tubida. Sim senhor.
Remexia o aió, procurando fumo e palha, tirava
da cintura a faca de ponta:
- Quando mal me precatava, o diabo da sem-
vergonha me deu um coice. Torci o corpo.
- A tubicla deu um coice, Oiríaco~
- Não, é outra história. A vaca laranja, ali no
canto da cêrca, ontem. A tubida foi hoje de manhã.
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Nessn linguagem capenga, feita de avanços,
recuos e perífrases, narrava sucessos longos, que os
ouvintes percebiam de modos diferentes. Mas de
ordinário não gostava de falar: preferia atiçar as
conversas dos outros com apartes, vagos comentários
de aprovaçiio mastigada : ·
- An~ an J Está bem. P ofa é.
A voz grossa e abafada escorria lenta, um sor-
l'iso ilumirrnva o rosto moreno, coberto de rugas e
pêlos de alvura respeitável. ótimo sujeito. Nunca
o vi zangar-se.
Meio selvagem, dormia ao relento, no chão. Só
se recolhia no mau tempo, quando as nuvens r olavam
baixas, crescia o r onco dos trovões, o relâmpago cla-
reava os morros distantes, quase invisíveis na sombra
repentina, ftnica elevação naqueles descampados.
Entrava rcsmunga11do, apreensivo, estendi.a na snla
um couro de boi e arriava em cima dêle os ossos ve·-
lhos, que iam comr.çando a emperrar. Desentocavri-se
logo que ::tR roisas melhoravam lá fora. O céu de
nôvo se alargava e subia, o sol brabo t.irava ela cam-
pina gris~Jha as manchas frescas de verdura. E
Cirfoco estava contente.
O meu quarto na casa arruinada ficava à es-
querda., jm1to llo quintalzi..nho onde resistiam, sob os
gnJhos dmna baraúna enorme, garranchos escuros,
flôrcs murchns, craveiros e panelas de losna. Era um
quarto excelente, porque tinha rebôco, ordinário e
rachado, mas h1xo excessivo comparado ao resto da
habitação, taipa negra r evesJ•ida de pucumã.. A por-
ta, escancarada, mostrava alguns esteios do copiar,
o chiqueiro das cabras, um carro de bois, os montes
afaRtíl.dos e, no fim elo pátio branco, onde jumentos
zurravam dia e noite. dois pés de juá. Os móveis
•
VIVENTES DAS ALAGOAS - 41
· t1 que me utilizava eram mesquinhos : u~a rê~e
nonrclida, um caixão de 1ivros, uma cadeira meio
·d.e1mrticulada, com emendas e vários pregos, a mesa
poqHc1m e manca, de tábuas quase sôltas.
Chateava-me horrivelmente ali, tentava curvar
ttF! juntas duras, arrastava a doença teimosa, pezu-
JJlu:mdo no chão sem ladrilho, cheio de barrocas, º?de
f.ôll1as sêcas, trazidas pelo vento morno, sacud1~m
pontas de cigarros. Bocejava, monologav-~, da i~ede
pnra a mesa. E, tendo-me imposto .uma dieta r1g~­
rosa, sem poesia nem rom~nce,.ench~a:me ele grama-
tica, parafusava no clássico, ha ad1vmh~ndo ~mas
línguas estrp,n~eiras e cobria de notas mt~itas folhas
de papel. Distraía-me observando as teias de ~ra­
nha, o chiqueiro das cabras, os montes, ': cam~ma,
ns árvores, o carro de bois e os jumentos. A tar dinha
as catingueiras escureciam de cbôfre, o barulho da
miunça vencia os outros rumôres.
Ciríaco andava pelos arredores, apanhando gra-
vetos, raízes demacambira, estacas p·odres, que em-
pilhava defronte da casa. Varr~ ~om um molho a.e
vassourinha alguns metros ~o patio coberto .de sei-
xos miúdos, acocorava-se, tirava fogo do bmg~ e,
quando as labaredas espirr~vam da lenha,. estira-
va-se na poeira, como os viventes desprovidos de
fala, e ro11cava um sono pesado, sem sonhos, na paz
do Senhor.
Essa boa criatura me visitava muitas vêzes.
Aproximava-se devagar, arrumaya-se 1!-11111 cant~,
dizia casos embrulhados. Em segmda fazia uma peI-
gunta e amoitava-se, punba-se a escutar, a assuntar,
concordando :
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42 - G R AC l L 1 A N O R A M O S
Entrou-me um dia assim no quarto ao lusco-
fusco e interrompeu-me o estudo com um diset rso
armado pouco mais ou menos dêste jeito :
- Você lê muito, estraga a saúde lendo. Deve
sabor demais, deve saber tudo. Saber é bom, saber
valemais que dinheiro. Como éisso lápor cima~ Que
~que os livros dizem~
Ciríaco desejava notícias sôbre a origem do
mundo. E eu, ra1Jazola. ingê11uo, admirando seme-
lhante curiosidade num tipo bronco, estusiasmei-me,
venerei a espécie humana, joguei para Ciríaco,
usando as precauções que a ignorâ.ncia me sugeria,
a nebulosa e Laplace.
- Entende~ ..
- Está bom.
Evitei as expressões técnicas flTU que me engan-
chava, resumi a formação e solidifiquei o globo ràpi-
damcntc. Busquei em redor qualquer coisa que $er-
vissc de sol, e o que achei foi o candeeiro de fôlha
colocado na ponta da mesa, sujo, com uma luzinha
trêmula, uma protuberância fuliginosa.
- I sso é o sol. Não é sol, não é nada, mas su-
ponha. Um sol bem ruim. O outro é muito maior,
()Stá claro, um bichão. Queima a terra. brincando e
vem a sêca. Terrível. O sol tem muitos podêres.
- 1fafor que Deus~
- Sei lá ! Parece que os dofa são fortes. Agora
só tratamos de um. O candeeiro. Um candeeiro enor-
me, redondo, quente como o diabo, uma fornalha do
inferno. Por aqui deve andar a terra girando, ·ban-
cando carrapcta. Na vizinhança há outras, grandes
e pequenas, um pelotão delas, com luas, tudo se me-
xendo. E o sol no meio, importante.
VIVENTES DAS ALAGOAS - 43
Em falta dum objeto que representa.sse a terra,
peguei o meu chapéu de couro e o cbap?n ele Ciríaco.
Juntei-os, movi-os em torno do candeeiro.
- Aí na banda clara temos o dia. No outro
lado é noite. Bonito hem~
- Vá dizendo.
Êsse planeta, muito mais volumoso que o sol,
11ã.o era propriamente esférico. Os pólos ~ormavam
dois bicos. O equador, feito pelns abns, salientava-se
em demasia.
A exposição durou cerca de meia hora. Ciríaco
balançava a cabeça e grunhia as duas sílabas gutu-
rais de aprovação, no sorriso permanente :
- Anl an!
Excedi-me, expliquei negócios que at.é então
havia ignorado. Falei muito sôbl'e o~ ~1ov11nentos.
Conhecia uns dois ou três, mas arranJCI outros. Ao
findar, sentia-me otimista, satisfeito com a popula-
ção rural do mett país.
- Compreendeu ~
Ciríaco esfregou as mãos calosas e largou uma
risada grossa :
- Compreendi. Você quer-me empulbar. Pen-
sa que eu acredito nessas besteiras.
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HABITAÇÃO
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QUI vai, com pormenores .inútejs do realismo, a
descrição duma casa sertane,ja, vista bá algum
tempo nos cafundós do P ernambuco.
Baixa; de taipa, eheia de cscondei·ijos, lúgubre.
Oteto, chato, acaçapado, quase sem declive, é negro;
é negro o chão sem ladrilho, de terra batida, esbura-
cado e sujo; negras as paredes sem rcbôco, com o
barro que as reveste a rachar-se, clejxando ver aqui
e ali o frágil madeiramento que serve de carcassa.
Três portas de frente e duas janelas. As portas
têm altura suficiente para que possa entrar uma
pessoa de média estatura sem curvar-se. As janelas,
aberturas pequenas, quase quadradas, estão situadas
lá em cima, perto da telha. Para atingi-las, trepa-se
~L gente a um caixão. Têm dobradiças de couro e
trancam-se com pedaços de pau roliços, envernizados
pelo uso, que se introduzem em buracos abertos nos
}Jatentes, presos a cordéis amarrados em pregos. As
portas fecham-se interiormente com taramelas.
Em frente há um alpendre, o copiar, sustentado
por esteios baixos, grossos, r esistentes ao caruncho.
Limita-o uma. plataforma que se e1'gue meio metro
acima do solo, ele terra sôlta e ped1·a. É ali que dor-
mem hóspedes sem importância, na desag1·adável
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46 - G R A C I LI A t O R A if O S
companhia dos bodes e das cabras, que lá vão fazer
idílios.
Na sala principal há três r.êdes armadas em paus
recurvos que saem do esqueleto elas paredes. A um
canto, um enorme tra.ste de pernas descomunais, que
atravessam urna tábua de dez cenbetros de espes-
sura, magnífico para rasgar a roupa de quem nêle
se senta. Aqui e ali, em tornos de madeira, penduram-
se chapéus de couro, gibões,, perneira.s e peitorais.
Alguns sacos e surrões de milho e feijão substituem
as cadeiras. Enormes cordas de laçar, cabrestos de
cabelo, encerados, cangalhas, alpercatas, sapatões de
montar, com grossas esporas de rosetas incrívei.s, es-
palham-se desordenadamente.
Sôbre uma tosca mesa, lavrada a enxó, um ora-
tório envolto numa coberta vermelha, de florões. Há
dentro dêle uma litografia de Nossa Senhora, des-
botada, em caixilho sem vidro, um crucifixo, alguns
santos de barro e de gêsso, enfeites de papel, uma
lamparina e uma vela benta. Na mesa, urna gaveta,
e aí um museu - rolos de cêra, novelos de barbante,
agulhas pa1·a sacos, pedaços de sola, um tabaqueiro,
um couro de fazer rapé, um rqartelo, uma torquês,
sovelas, chifres de veado, pontiagudos, pacotes de
orações, sementes, bolas· de sêbo, látegos, chocalhos,
pregos, fivelas, um macête e um Lunário Perpétuo.
A direita de quem enha há um cubículo cheio de
algodão.
A esquerda, um salão mal-assombrado, onde se
mistnram montanhas de quejjo, cestos, caçuás, selas
de campo, cavaletes, pedras de amolar, sa.mburás, ro-
los de fumo, cuias, cabaços, gamelas, arame farpado,
facões, espingardas de pederneira, machados, foices
o enxacfas.
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VIVENTES DAS ALAGOAS - 47
Da sala principal segue para os fundos um cor-
1•edor estreito e sombrio, prêto de pucumã e teias de
aranha. Dão para êle dois quartos fronteiros. Um,
dns meninas, nunca se abre. O outro, dos donos da
casa, deixa ver, através da porta meio aberta, algu-
mas arcas, onde se aferrolha o tesouro da família,
ouma cama baixa, sem colchão, com o lastro de cour o
<le boi, em cabelo, gasto pelo atrito de algumas gera-
ções que ali se fizeram, viveram e morreram.
O corredor desemboca na sala de jantar. Há
ali uma pequena mesa, que raramente se forra, tôda
escalavrada, cheia de altos e baixos, pelo hábito de
picar-se fumo em cima dela, à :faca de ponta. La-
deiam-ná dois bancos. Perto, uma velha máquina de
costura em cima dum caixão vazio. Um pote sôbre
nma forquilha plantada no chão. Nas pontas das
varas que saem das paredes, cm1c1eeiros de fôlha,
pendurados pela asa, de torcidas de algodão, negras,
fumegantes e fedorentas.
Com a sala de jantar confinam a cozinha de um
lado, elo outro o quarto das criadas, duas pretas, que
nasceram escravas e ali continuam, porque não sa-
bem que fazer da liberdade. Uma delas de luxo ; dor-
me em cama ele varas, a isidora, erguida sôbre quatro
estacas pregadas no chão. A outra dorme na esteira.
Possuem caixas de pinho, onde guardam a roupa, e
combucos cheios de bugigangas - espelhos, voltas de
contas, alfinetes, frasquinhos de perfume, anéis,
brincos, pulseiras, rosários.
A cozinha é pequena. Urna grossa camada de
fuligem dá-lhe um nôvo teto. Um jirau substitui a
dispensa. Amontoam-se nêle mochilas de sal, résteais
de cebola, espigas de :milho, botijões de manteiga.
:Mantas de carne, lingüiças, panos de toucinho pen-
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48 - G R A e I L I A N o n AM o s
duram-se a uma corda que vai duma parede a outra.
O fogo é feito no chão, entre pedras dispostas em
trempe. A um canto, mn monte de cinza e carvões
apagados. Todos os dias uma preta de cócoras, varre
aquilo, a vassourinha. Frigideiras, caldeirões, pa-
nelas, marmitas de f ôlba, ralos, canecos, abanos,
:formam o sistema planetário dum tacho velho, ra-
chado, coberto de nódoas verdes. Em~ima dum pilão,
deitado um gato ronca. J·unto ao lume há quase sem-
pre uma velhota acendendo o cachimbo de canudo de
taquari com uma brasa espetada a um garfo. Encos-
tada à trernpre, uma banda de casca de côco presa
num pau, a quenga. Na parede, o caritó, pequena
cava em forma. de concha, onde se guardam objetos
miúdos - pedras de sal, poutas de cigarros de pa-
lha, de11tes de aJho, cordões, retalhos de pano, agu-
lhas, peles de furno que se oferecem a Santa Clai·a,
a trôco de pequeninos milagres caseiros.
Uma janela bajxa, onde se senta um rapagão
indolente, dá para o quintal, nu, com um barreiro
cheio de água turva, coberto pela sombra escassa
chuna árvore mor ta.
J'unto ao quintal o jardim, povoado de algodoei-
ros, verduras, vasos de alecrim e,losna, urtigas e
flôres, tudo protegido pela ramagem duma baraúna
velha.
Do lado opôsto, três currais de cêrcas eternas,
mour ões gigantescos .
Um pouco afastado, o chiqueiro das cabras.
Em frente, nm grande pátio, bl'anco, limitado
por árvores sempre verdes que escondem montes dis-
tantes.
No terreiro, no pátio, na calçada, confraternizam
galinhas, bacorinhos, carneiros, cabritos, alguns ca-
VIVENTES DAS ALAGOAS - 49
chol'l'OS com extravagantes coleiras feitas de rodelas
do sabugo queimado eilfia.dos em pedaços de imbira.
Uma habitação horrível, como v.êem. Contudo
viveu ali sem se queixar, uma família decente, reli-
giosa e pastoril, <.lo111estiCada no regime patriarcal.
Desapareceu tudo. Provàvelmente aquilo está
]1oje reduzido a tapera.
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TEATRO I
N
A pequena capital, de gostos simples e desejos
modestos, havia, poucas escadas e ignoravam-
se completa.mente os elevadores. ~rrês andares
representavam quase montanha entre as casas aca-
çapadas. Ninguém pensava em andar nos ares, natu-
ralmente. Santos Dumo:i1t ensaiava os seus primeiros
vôos baixos ,em P aris, com muitas quedas, e não se
dava crédito aos telegramas que os anunciavam.
Desconhecia-se gasolina. : os automóveis ainda
não tinham aparecido. A cidade se desenvolvia em
sentido horizontal, mas desenvolvia-se moderamente,
sem pressa. Um bondinho puxado por burros atra-
vessava de longe em longe a rua do Comércio, quase
vazio. Como rodava devagar e encrencava regular-
mente nas subidas, as pessoas de horário certo na
repartição e na loja procediam com segurança eco-
nomizando o tostão da passagem.
Um grande silêncio, quebrado raramente pelo
pregã.o dos vendedores ambulantes, pelo rumor das
carroças e dum cabriolá pertencente ao governador.
Quando êsse cabriolé, único, passava diante do liceu,
as aulas se interrompiam, a mcninada soltava os li-
vros, corria para as janelas, gritando, admirando.
À tardinha as calçadas estreitas se enchiam de
ca.deira.s, os vizinhos palesti·avarn algumas horas
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52 - e nA e J LI A N o R A M o s
como se estivessem num salã.o, indiferentes aos di-
l'eitos do transeunte raro, que descia degraus e pezu-
nhava eutre barrocas e pontas de pedra. Finda a
conversa, recolhiam-se os móveis, fechavam-se as
portas e a cfrladezinha repousava., ordeira e deserta,
à luz de lâmpadas miúdas, que esmoreciam, desper-
tavam, esmoreciam de nôvo e embasbacavam o sujei-
to do interior, habituado ao lampião de querosene
e à fuligem. ~
No casarão da usina elétrica fervilbavam enor-
mes baratas voadoras. E, como não havia esgotos,
o cheiro das sarjetas era horrível.
Nesse meio, onde as gerações se sucediam inva-
riáveis, o governador saía às vêzes do carrinho,
andava a pé como os viventes ordinários, mas não
andava só. Acompanhavam-no pessoas dedicadas,
que lhe seguravam o guarda-chuva, conduziam em-
brulhos, retiravam do caminho as cascas de banana.
Acatavam as opiniões dêle e achavam muita graça
nas ancclotns que êle contava. Êsses cavalheiros
exerciam cargos notáveis : eram senadores, deputa-
dos, secretários, ou parentes de secretários, depu-
tados e senadores.
Dentre êles o mais digno de confiança tomava
conta do govêrno por alguns meses no fim do qua-
driênio, por deferência à constitui9ão. Lavradas as
atas, apurados os votos, espancados ou mortos alguns
matutos, o cbefe permanente declamava a p1·omessa
legal no congresso e voltava ao seu pôsto, reaquecido
pela manifestação unâ.nime dos eleitores, que nada
exigiam e nada recebiam.
Sempre escolbido, S. Excia. ·determinou exibir
gratidão : realizar uma obra que o perpetuasse. Re-
fletiu, fêz estudos e procurou conselhos. As rodovias
foram repelidas, porque no Estado existiam poucos
VIVENTES DAS ALAGOAS - 53
veículos, além dos carros ele bois. Excluiram-se tam-
bém as pontes e quaisquer construções de alicerces
profundos e duvidosos. As escolas eram consideradas
prejudiciais. Havia algumas, é certo, para dar em-
prêgo às filhas dos prefeitos, mas estas não forne-
ciam aos alunos conhecimentos.
Tudo ponderado, S. Excia. resolveu edifica·r um
teatro. Era o que necessitava a capital. Davam-se
ali representações de amadores, apareciam, com mo-
déstia, companhias cambembes, cinemas vagabundos,
mágicos e hipnotizadores. Espetáculos verdadeiros
não se conheciam.
O projeto foi bem recebido, cresceu. Mas para
executá-lo faltava numerário. P ouco se podia espe-
rar do orçamento minguado, tão minguado que os
tipos mais volumosos ganhavam, aparentemente, uma
insignificância. Impossível aumentar a receita, pois
os amigos não pagavamimpostos e os inimigos, espre-
midos, estavam sêcos. Assiro, os ngentes políticos
arrancavam dos proprietúrios numerosos presentes
para o governa.dor no aniversário dêle. Nada de ban-
quetes e discursos: valores. Essa contribuição setor-
nara meio oficial, e a propriedade miúda, gemendo
e chorando, se desfalcava com demonstrações de jú-
bilo em telegramas laudatórios. Seria imprudência
onerá-la ainda mais.
Decidiu-se, portanto, para levantar o teatro,
arranjar na Europa um empréstimo, que no decor-
rer dos anos subiu extraordinàriamcnte. O dinheiro
obtido produziu vários benefícios, especialmente à
personagem encarregada das negociações. Êsse fun-
cionário viajou bastante: percorreu alguns países,
fixou-se na França, mudou-se para lugar mais se-
guro e aí findou os seus dias tranqüilo, gordo, euro-
peu, tão esquecido da língua materna que já nem
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5~ - G R A C I L I A N O R A M O S
compreendia a vasta correspondência que o chama-
va. Não houve meio de repatriá-lo, apresentá-lo aos
correligionários saudosos.
A quantia que chegou ao Brasil deu pa1'a muita
coisa, e a parte visível dela converteu-se enfim no
teatro anunciado longamente na imprensa. Esbura-
cou-se oterreno, as paredes ergueram-se, mas quando
os trabalhos iam a meia altura, verificou-se que o
local era impróprio, desmanchou-se tudo e i·einiciou-
se a constrnçã.o alguns metros ~iante. Venciclos di-
versos conti·atempos, o prédio se inaugurou, vistoso,
com louvores gerais, e logo na estréia adquiriu foma.
Uma companhia italiana cantou lá o R1
igoletto, Aida,,
Barbe·iro de Sevilha,. Alcançou aplausos calorosos e
morreu quase tôda de febre amarela. Indivíduos
impertinentes xingaram o govêrno, fato que provo-
cou estranheza. Ora essa! O govêrno tinha culpa~
Pouco depois surgiu no Estado uma. desordem.
Gritaram-se discursos nos comícios, os jornais opo-
sicionistas tomaram fôlego, vieram reclamações P.ara
o Rio, a polícia desmoralizou-se e aderiu - a.final S.
Excia. notou que tinha havido uma reviravolta na
opinião pública. Lamentou a inconstância dos ho-
mens, retirou-se e, numa obscuridade conveniente,
desfrutou velhice próspera e finou-se na paz do
Senhor. P ercebera na verdade vencimentos bem
mesquinhos, mas como não pagava aluguel de casa,
impôsto, luz, não comprava móveis, roupa de cama,
pratos, colheres, e o pessoal doméstico era consti-
tuído por elementos da fôrça pública, efetuara algu-
mas economias e estava rico.
Nunca se liquidou o empréstimo, naturalmente.
TEATRO II
N
A cidadezinha elo interior, ing~nua e presur:-
çosa há uma sociedade beneficente, um gre-
mi.o literário e uma banda de música. A socie-
dade beneficente distribui esmolas com moderação
e enterra os mortos; o grêmio literário funciona,
emperra, fica as vêzes um ano inteiro sem d.ar sii:al
de vida, toí·na a animar-se na posse da diretoria_,
encrenca de nôvo; a filarmônica ensaia dobrados a
noite e é indispensável nas :festas grandes e nas 1·e-
cepções dos políticos notáveis da capital.
H avia uma escola dramática. Extinguiu-se de-
pois do cinema: os amadores, ve~d? a tela, percebe-
ram que não faziam nada com Jeito e largaram o
palc.o, envergonhados.
Provàvelmente o rádio matará a filarmônica, os
hospitais suprimirão a sociedade beneficente~ os. li-
vros, que se multiplicam, inutilizarão o grêmio,h!e-
rário. Há alguns anos, porém, sem livros e sem radio,
sem ho::.-1pitais e sem cinema, cada um tinha o direito
de fundar qualquer coisa. No grêmio recomenda.va-
se a linguagem sublime; na música, muito barulho ;
na caridade, alguns xaropes e entêrro.
Isso vai-se modificando pouco a pouco. Mas o
teatro desapareceu de cb.ôfre, receoso das :fitas'.
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50 - GRACIL IANO RA MOS
Possuíamos um teatro ua roça, vagabundo, mas
enfim teatro. Vale a. pena mencioná-lo, pelo menos
para evidenciar a nossa modéstia e a 11ossa carência
<.le imaginação.
O drama começava às sete horas, acabava às duas
da madrugada, e se havia comédia, a f unção prolon-
gava-se até perto das quatro, pois a caracterização
das personagens, com muitas tintas, e a mudança dos
cenários, com muitos pregos, eram difíceis. Gritos
nos camarins, pancadas de martelo na caixa, atena-
zavam a platéia que lia o jornal, sob candeeiros de
querosene, discutia política, ft1xicava ou dormia nos
intervalos. O palco se armava em cima de barricas,
num armazém ; o pano de bôca exibi.a um índio com
arco e flechas ou uma figura mitológica feminina,
Vênus on Diana; as cadeiras eram remetidas pelos
espectadores, na cabeça dum moleque. Aprcsenta-
vam-se móveis decentes ; sofás, poltronas e mal'q11e-
sões. Aí Rc ucornodnvam corno se estivessem em fa-
mília, aguru:clavam com paciência o dese11rola1· da
peça, que tinha cinco atos e às vêzes um p1·ólogo.
Neste víamos uma floresta, onde vál'ios ladrões,
em noite de trovoada, conversavam, jogavam, entra-
vam, safam e no fim de meia hora apunhalavam a
traição um viajante portador de considerável rique-
za, suficiente para a felicidade completa da compa-
nhia tôda. O chefe, porém, homem tenebroso, de 1011-
gas barbas negras, guardava o produto do roubo,
desfluüa-se dossequazes e ia vivermuito longe, lloues-
to e considerado. Em geral essa parte não se repre-
sentava : subentendia-se, explicava-se nos diálogos.
E, tendo visto em outras execuções as bar1Jas com-
pridas, os punhais(~ os bastidores pintados de verde,
VIVENTES DAS ALAGOAS - 57
imaginávamos sem esfôrço o infoio do Brado da
Oonsc,iência ou da R egene1·ação dum Bandido.
No primeiro ato o maioral da quadrilha achava-
se transformado em comendador ou barão, comer-
eiante, industrial, banqueiro, viúvo, proprietário
duma filha inocente demais, ou solteiro, noivo da
filha dtm1 i11divíduo semelhante a êle, barão ou co-
mendador. O futuro sôgro estava. ligado ao futuro
genro : dívidas, crimes antigos, trapalhadas incon-
:fessáveis. Chantagem. A pobre da I rene seria sacri-
ficada. Era penoso, e o público soluçava, limpava
os óculos, achando natural que a sociedade se cons-
tituísse de barões em cima e salteadores em baixo.
Ji'àcilmente os salteadores entravam na classe dos
barões. No meio havia um môço de boa índole, guar-
da-livros ou poeta, que possuía enorme seriedade e
quebrava as fôrças de I rene. Não bebia, não jogava,
não fumava, não conhecia mulheres, e o único defeito
que tinha era falar bonito. "Plebeu, sim, senhor
barão. Filho da plebe que derrocou a Bastilha, que
levantou para o céu da glória a luz redentora de 89
e 93. '' I sto se declamava no quinto ato e produzia
grande efeito. O rapaz havia descoberto as safadezas
do barão e do outro, aplicava a chantagem. O pri-
meiro dava um tiro nos miolos, ouvindo o grito da
consciência, ou regenerava-se de repente, o segundo
fugia, Irene entregava-se ao poeta, chorosa e rica,
tôda a gente se manifestava num imenso aplauso,
achando excessiva a luz redentora de 89 e 93, desco-
nhecida e, portanto, valiosa. Números diferentes
seriam recebi.dos com o mesmo entusiasmo. 'Tüdo
acabava de maneira edificante: premiava-se a vir-
tude, castigava-se o vício, o guarda-livros tornava-
se comendador ou barão.
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58 - e l Ae I L I AN o R AMo s
Na comédia moviam-se figuras análogas, um
pouco mais ridículas. A protagonista, mocinha espe-
vitada e frenética, dizia inconveniências ao pai ou
tio, velho e bôbo. Um proprietário idoso, contrafação
do homem das barbas, atirava-se a ela, e mudavam-se
em demasiada toleima as qualidades ruins, os crimes
e as patifarias que no drama o caracterizavam. O
galã tomava a forma dum estudante cheio de lábias.
A frase retumbante sôbre a luz redentora de 89 con-
vertia-se, com bgeiras modificações, no diagnóstico
estapafúrdio que, há duzentos anos, o Semicúpio, de
Antônio José, fazia da moléstia,de D. Tibúrcio.
:Essa comédia, :não obstante as inevitáveis cor-
r uptelas, seguia a tradição. Não lhe faltava o alcO'vi-
teiro manhoso, também existente no drama, Fígaro
naturalmente reduzido, incapazes de usar os troca-
dilhos que o sertão não compreenderia. De cópia
em cópia deturpava-se o espírito. E utilizavam-se
as pilhérias tô1as e grosseiras, convenientes ao indi-
víduo comum do interior.
BAGUNÇA
A
cidade amanheceu calma e tudo indicava que
assimpermaneceriamuitos anos. As lojas abri-
ram-se na hora certa, os meninos marcharam
para a escola, os pais de família buscaram meios de
aumentar a. receita, as môças leram os programas do
cinema e a13 notas sociais, os funcionários assinaram
o ponto na repartição.
Um jornal firmou que as coisas iam bem, outro
arriscou timidamente que talvez elas pudessem me-
lhorar um pouco. Nenhmna novidade. Os matutinos
requentaram notícias, os vespertinos copiaram os
matutinos.
Ao meio-dia chegou, num telegrama curto do
P residente da República, a il1formação de que tudo
se achava em ordem. Os boatos relabvos a distín-bios
no Sul, não mereciam importância, e as classes arma-
das se mantinham vigilantes, cm defesa da auto-
ridade.
O governa.dor enviou o telegrama à imprensa
oficial, depois telefonou mandando suspender a, pu-
blicação dêle. Entrou no automóvel, deu uma volta
lenta pelas ruas, observando os grupos. Evidente-
mente o público estava satisfeito : não valia a pena
agitá-lo anunciando bagunças. Regressou a.o palácio,
folheou alguns papéis e telefonou à imprensa oficial
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eo •' GR ACILI AN O lA M O S
ordenando a publicação do telegrama. Às duas horas
reuniu os secretários, o comandante da polícia e ami-
gos de confiança.
- O negócio está piorando.
- Onde~
- No Rio Grande do Sul, em Minas, na P a-
raíba. Creio que em P ernambuco já começou.
- Estamos :fritos, murmurou alguém. Se P er-
nambuco fôr abaixo, tomam isto sem um tiro.
Mas o comandante da polícia exibia disposjções
belicosas : num instante organizod planos, guarneceu
as fronteiras e dinamitou as pontes sem dificu1clade.
.À tardinha zoaram cochichos e a torcida mani-
festou-se. No dia seguinte houve alarma. Cidadãos
pacíficos mostraram-se moderadamente revolucioná-
rios. Outros apoiaram o govêrno, resolutos. Sempre
se haviam conservado longe dêle, mas na hora do
perigo estavam decididos e queriam sacrificar-se.
Essa firmeza durou uma semana, comiutercadências.
A sala de jantar do palácio abriu-se. E a noite
inteira ali fervilhavam sujeitos do i11terior, que pi-
savam nas pontas dos pés, segredavam nos vãos das
janelas, escutavam as opiniões dos políticos sentados
em redor da mesa enorme. Nunca se tinha visto de-
mocracia tão perfeita. Os deputados estiravam o
beiço com desânimo. Nen4um desejo de luta. H a-
via, porém, um otimismo renitente.
- Govêrno é govêrno.
Embor a defendendo-se pouco, era natural que
se agüentasse. A multidão crescia, aumentou demais
quando apareceram os fugitivos do H.ecife. Chegou
primeiro um delega.do de polícia, magro, fúnebre, de
fala doce, óculos pretos e modos de 1rnstor protes-
tante. Depois vieram muitos, narraram casos. E os
VIVENTES DAS ALAGOAS - 61
volnntários perderam o ânimo. Continuaram a andar
Cm tôrno da mesa, a reunü-se em magotes perto das
jnncllls, mas retiravam-se logo, escorregando no soa-
lhomnito encerado. O comandante da polícia esque-
c•rn os planos de resistência e entrou a falar em
Jw:::pitais de sangue, aflito.
Uma noite alguns cavalheiros ponderosos tive-
ram uma longa entrevista com o governador. Igno-
ram-se os têrmos da convel'Sa. P rovàvelmente se
referiram a D. P edro II e hs desgraças que ameaça-
vam o Estado. .Às onze horas S. E xcia. embarcou.
E ao amanhecer tôda a cidade .se cobriu de ban-
deiras vermelhas. Declamaram-se discursos inflama-
dos em nieet,ings, um orador furioso aconselhou o
povo a quei111a.r jornais. P oi a.pupado, deixou a tri-
lmna, veio outro, que recomendou prudência.
As repartições feriaram, os estabelecimentos
comerciais fecharam-se, a guarda-C'ivil, hesitante,
não sabia a quem obedecer.
Tinha-se evitado o bar ulho, graças a Deus. Es-
palhou-se nas ruas uma alegria sincera. Alguns ata-
ques ao govêrno caído, ataques ligeiros : realmente
estavam agradecidos a êle por se ter ido embora antes
da briga.
No outro dia começru:am a entrar nos quartéis
as tropas rebeldes, pouco numerosas - e os cida-
dãos que se haviam apressado a chamá-las inquie-
taram-se. O palácio fôra abandonado muito cedo.
Se o :Presidente da República endurecesse e triun-
fasse, viriam complicações, desgostos.
F elizmente a invasão engrossou, em poucas horas
todo o Estado era urna vasta caserna. Explicava-se
que êle não se tivesse defendido. E pal'a que cle:fesa~
Na verdade os freqüentadores do café sorriam, certos
.
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62 - G RAC 1L 1A N O R A MO S
de que sempre tinham vivido na oposição, e até pes-
soas que uma semana antes cochichavam na sala de
jantar do palácio surgiram fardadas, com energia e
galões.
Vários se acautelavam, pensando no Rio, e, bas-
tante dignos para renegar de chôfre convicções anti-
gas, limitavam-se a introduzfr no bôlso um lencinho
encarnado. Via-se dêle uma ponta discreta, que, em
conformidade com as notícias, mergulhava ou rea-
parecia. Depois da vitória foram êsses osmais afoitos
e intransigentes. Não mereceram,demasiada atenção.
A maioria' animava-se de verdade, oferecia
moedas de prata para a liquidação da dívida externa,
esperava que altos fornos se construíssem de repente,
corresse o petróleo e a população subisse a duzentos
milhões.Êsses desejos encurtaram-se, mas ainda fica-
ram extensos, e moços verbosos, falando muito na
realidade brasileira, procuraram em países distantes
receitas convenientes aos males nacionais. Os polí-
ticos maduros, educados na poesia e na retórica, arr~­
piavam-se ouvindo.sujeitos imberbes que se agarra-
vam à economia e à sociologia, citavam livros desco-
nhecidos.
- Que materialismo !
D. MARIA
A
mãe de dona Maria perdeu muito cedo o ma-
rido, pequeno proprietário sertanejo, e esfor-
çou-se desesperadamente para cultivar a fa-
zenda , impedir que os vizinhos lhe abrissem as cêrcas
emetessem animais na roça. Defendeu-se como pôde,
conservou-se viúva e, cabeluda, musculosa, quase
transformada em homem, deu uma rija educação
masculina à filha única.
D. Maria exercitou-se rrn. equitação e no tiro ao
alvo, combinou as letras necessárias para redigir
bilhetes curtos, confiou muito na cabeça e nos braços,
desenvolveu os pulmões gritando ordens rigorosas à
cabroeira que se derreava no eito, arrastando a en-
xada de três libras. Chegando à fase das vigílias e
das olheiras, casou, como era preciso ; ligou-se a um
sêr tranqüilo, pouco exigente, de i·aça branca, está
visto, condição indispensável para não se estragar a
família..
To1·nou-se órfã de mãe, chorou, deitou luto, con-
solou-se. E, depois da missa do sétimo dia, afligiu
o tabelião e os oficiais de justiça, importunou o juiz,
conseguiu reduzir as custas, tomou conta da herança
e entrou a dirigir os negócios em conformidade com
as instruções maternas.
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64 - CilAC I LIANO R A M O S
Tudo andon bem. A lavoura prosperou, cons-
truíram-se vál'ias casas, levantou-se uma capela -
e surgiu na fazenda uma povoação qne a digna mu-
lher governou, apesar de não lhe permitirem as leis
certos atos. As leis foram cumpridas. D. Maria
usava, nas tnmsações em que a sua firma era insu-
ficiente, um pseudônimo. A princípio omarido, vaga
criatura resjgnada e silenciosa, tinha alguns prés-
timos conjugais. Despojou-se dêles. E afinal, enco-
lhi.do, assinDvn. papéis de longe em longe. R.ecebia
mesada, escondia-se d[ls v.i sita~, encharcava-se de
aguardente i1a venda estabelecida a um canto da casa
grandee rcnl.i'.tava trabalhos somenos :lavava cavalos,
ia. buscar o jornal na agência do correio, transmitia
rec:ados.
Aos quarenta anos, D. Maria, sacudida pelos
ventos, qncimacla pelo sol, era uma bela mulher ele
car11c::> enxutas e olhos vivos, risonha, de.scmbal'aç:ada,
franca, possuidora ele opiniões e hábitos esquisitos,
muito diferentes das opiniões e dos hábitos das pro-
pl'ictárias comuns. Aparecia nas feiras da cidade
com vastas roupas de ramagens vistosas, sapatos de
homem, chale côr de sangue, enorme cigarro <le fumo
picado, forte. R.odeava-a. um magote ele protegidos,
que ela abomrva nas lojas, recomendava ao prefeito,
ao chefe polfüco e ao clelegâdo. Nã.o podia votar, mas
dispunha de alguns eleitores que atornavam capaz
de obter sentenças favoráveis no juri.
Tinha religião moderada e prática. I a à. igreja
pelo Natal e evitava as confissões, mas estava em
harmonia com o vigário. Naturalmente. :Estava em
harmonia com tôcfas as autoridades. Mandava Pezar
novenas na capela do povoado, dedicava a S. Sebas-
VIVENTES DAS ALAGOAS - 65
tilto e a outros sa.11tos valiosas festas que reuniam os
habitantes dos arredores. Jogavam bozó e sete-e-
moio, rodavam nos cavalinhos, dançavam, bebiam,
compravam fitas e espelhos nos baús de miudezas.
Desenvolvia-se o comércio do lugar. E a natalidade
n1m1011tava. Aumentava. fora das normas e da con-
veniência, mas D. :Maria não se incomodava com
ptoccitos. Necessário o crescimento da população.
NCC'essários trabalhadores na roça e fregueses na
venda.
Essa criatura enérgica exprimia-se em lingua-
gem bastante livrn e adotava um código moral pró-
prio. Não esta-va isenta de preconceitos, mas os
preconceitos eram individuais. Os pecados orcliná-
l'ios não tü;ham para ela nenhuma significação.
Considerava culpados os indivíduos que de qualquer
modo lhe causavam pl'ejuízo : devedores velhacos,
serviçais preguiçosos, ladrões ele galinhas. Aos ou-
t ros viventes manifestava indulgêncüt. E era. ma-
drinha de todos os meninos que nasciam pelas re-
dondezas. As pessoas sisudas encolhiam os ombros
e toleravam certas derrapagens dela.
- Fraquezas de D. Maria.
Disparate, pois não consta que D. Maria se hou-
vesse, em situações difíceis, revelado fraca. Real-
mente não podiam acusá-la: progresso na fazenda,
crédito no armazém, os impostos pagos.
- Somos palmatória do mundo~
Só lamentavam que a extraordinária muiher
:falassetã.o claramente, semnenhum respeito àsidéias
alheias.
- Fraqueza.s.
Pouco antes de 1930 Lampião chegou ao muni-
cípio e estêve uma semana rondando a ciclade, pro-
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60 - CRACILIANO RAMOS
curando meio de assaltá-la. Aboletou-se na terra de
D. Maria, passou algum tempo divertindo-se e man-
dando espiões examinar a defesa da rua. Descon-
tente com as observações, retirou-se e foi pedir a
benção do Padre Cícero.
Sábado, como de costume, D. Maria apeou-se na
feira, de chale vermelho e cigarro, cercada por nume-
rosos protegidos. E sujeitos de ôlho arregalado se
aproximaram dela.
- Como é, D. Maria? A ~enbora viu Lampião~
- Claro. Hospedou-se em minha casa.
- Em sua casa, D. Maria? Que desgraça!
- Qual é a desgraça? Bom homem. Tudo cor-
reu direito. Hospedei os mais importantes. O pes-
soal miúdo acomodou-se nos ranchos dos moruclorcs.
Matei gado, preparei muita comida. Bons tipos. Pa-
garam tudo ccrtinho. Beberam a cerveja e a cachaça
que havia, caíram num furdunço louco e dançaram
como uns condenados.
- Dançaram~
- :É. Convidamos as môças da vizinhança. Na-
turalmente não pudemos dar pares a cento e vinte
caboclos. Vieram umas.trinta..
- Que horror, D. Maria.! Coitadas! Como fica-
ram essas môças?
D. Maria abriu a bôca num espanto verdadeiro.
Em seguida largou uma risada:
- O senhor tem perguntas! Parece criança.
Como haviam de ficar~ Imagine. 'Tolice, nenhuma
delas se julga diminuida. Os cabras estavam sujos,
VIVENTES DAS ALAGOAS - 67
mas despejaram frascos de perfume na cabeça e na
rnupa.. E distribuil'am voltas de ouro, cortes de
sêda, notas de cem mil-réis. As meninas gostaram.
Vão achar casamento.
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LIBóRIO
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STA faç.anha pode ser atribuída a Liból'io, perso-
nagem curiosa que pl'ovàvelmcnte uunca exis-
tiu. E que, sem ter existi.elo, viajou muitos anos
pelo Nardeste, realizando falca.h'nas com engenho,
<le sorte que as vítimas ficavam sempre cm situação
1•iclícula.
No sertão bál'bar o, onde se perdoa :facilmente
o assassino, as ofensas à propriedade são punidas
«orn rigor excessivo, pois a fazem.la é escassa e a
população cresce demais. Contudo us rnalanclragens
clês8e herói. produto d[l fir-('ào popular e cabocla,
Jirovocam simpatia e riso. l=>orquc revelam inteli-
gência e malícia, a reduzida inteligência. e a malícia
grossa existentes 110 roceiro. E mostram que a pe-
(:únia subtraída se achava nas mãos de indivíduos
incapazes, dignos ele ser depenados.
Admitamos qne o caso se tenlia dado com essa
figura de sonho.
Libório chegou a certo lugarejo onde ninguém
o conhecia. Ou ant.es onde o conbecjam como sujeito
morigera.do, trabalhador e de espírito curto. Cigano
por natureza, vagabundo calejado, adotava caracte-
1·es diferentes e acomodava-se a vários ofícios. Dessa
vez era agricultor - e honesto.
De saco no ombro e chiqneirador, tangendo o
comboio, parou diante dos armazéns, propondo um
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70 - G H A e 1 L 1 A N o n A M o s
negócio mastigado, cheio de curvas e mal-entendi-
dos. Ao concluir a transação, depois de regateios e
embelecos infinitos, havia. percorrido tôdas as ruas
estacionado em todos os balcões, feito confidências ~
todos os caixeiros. Cercado por um rancho de bas-
baques, descarregou os animais, questionou sôbrc o
pê~o e o preço da me:r;cadoria, recebeu a paga, que
fo1 contar vagarosamente na calçada. Sentou-se di-
vidiu as cédulas, as pratas e os níqueis em lotes; 'res-
mungou, mexeu os dedos. Amarrou tudo no lenço
vermelho e meteu o lenço na capanga.
Em seguida pediu um conselho. ·Não levava
pelos caminhos aquela fortuna, que os arredores fer-
vilhavam de malfeitores. Queria que lhe apontassem
um cristão decente para guardá-la. Ouviu diversas
opiniões e escolheu o vigário :
- Boa idéia.. Vou conversar com êle, que é
pessoa de Deus.
Retirou-se, entrou na igreja, passou meia hora
no confessionário, narrando pecados.
Dois meses depois a casa do reverendo se encheu
de curiosos atraídos por gritos medonhos. Parecia
que estavam matando gente ali.
- Canalha! bandido! vociferava num deses-
pêro a santa criatura.
- Vossemecê ~ala dêsse modo porque tem po-
dêres, governa a freguesia, replicava Libório calmo.
E eu baixo a cabeça, que sou pequeno. Mas desafôro
não adianta. Escondeu o dinheiro no bôlso da batina
e me ofereceu l)apel selado. Não aceitei. Havia de
aceitar letra dum homem que tem parte com Deus~
O eclesiástico soprava, inchava, batia os queixos.
Entonteceu, embatucou, foi-se avermelhando e aca.-
'1
VIVENTES DAS ALAGOAS - 71
bon roxo de indignação. Aquêle descaramento assom-
brava-o. Quando se desengasgou, explodiu:
- O senhor está doido.
- Estou 110 meu juízo perfeito, murmurou o
!!mm-vergonha. Vossemecê é que não tem memória.
Estava rezandonasacristia. Não se lembra~ Escutou
n minha história, combinou tudo muito certinho e
me abençoou. Foi ou não foi~
Os olhos do padre arregalavam-se, corriam os
circunstantes, procurando o cabo :
- Para que serve a polícia~
- Só me :faltava essa infelicidade, suspirou Li-
h6rio com desalento. Bonita justiça. Tiram-me o
cobre e mandam-me para cadeia. Além de queda,
coice. Vida ruim.
Formaram-se dois grupos : um cobria o matuto
de injúrias ; o outro, favorável a êle, não se animava
a apoiá-lo abertamente. No meio da balbúrdia cho~
viam perguntas. E Libório se desembaraçava, sem
se exaltar:
- Ora testemunha! Ia lá procurar testemunha
para. 'lrm trato dêsse, com um vivente que anda perto
do céu~ Testemunha não tenho. Mas é como se ti-
vesse. Todo o mundo sabe que estou em cima da
verdade. 'Tive mêdo dos ladrões e fiz tolice. Pensei
que me benzia e quebrei as ventas.
Esta segurança e o modo lorpa do safado abala-
vam os intrusos. Não se capacitavam de que seme~
lhante palerma tivesse fabricado a enorme patifaria.
As caras revelavam grande confusão, havia dúvida
e constrangimento na sala.
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72 - e n A e 1 L I A N o nA M o s
Nesse ponto um sujeito sabido teve a idéia de
cngabelur o malandro. Oferecendo-lhe uma vanta-
gem repentina, era possível que êle, na surprêsa,
metesse o rabo na ratoeira, caísse em contradição.
E atirou-lhe de chôfre:
- Seu Libório, o senhor está enganado. Quem
recebeu o dinheiro fui eu: P ode ir buscá-lo quando
quiser.
- Sem dúvida, respondeu Libório. Eu vou.
Estando na sua má.o, está bem guardado. Nunca
desconfiei de vossemecê não. Agora quero receber
o qnc entreguei a seu vigário~ Dê cá o meu conto de
r6is, seu vigário, tenha paciência. Faça como o seu
mnigo, que deve e confessa diante do povo, não esfola.
os pobres.
DESAFIO
N
o interior da Paraíba viveram há mais de meio
século dois cantadores famosos, ouvidos com
admiraçã.o e respeito em cidades e vilas : Iná-
ci.o da Catingueira, prêto, e Romano, branco, de boa
fümília, cheio de fumaças. O negro, isento de leitu-
ras, repenti~ta por graça de Deus, exprimia-se com
Aimplicidacle, na língua comum do lugar. O branco
oxibia conhecimentos: anelara uns meses na escola
o, em razão da palmatória e elos cascudos, saíra
arrumando algarismos, decifrando por alto o misté-
rio dos jornais e das cartas. P ossuía um vocabulário
de que não alcançava direito a significação e lhe
prejuclicava certamente o estro, mas isto o elevava
uo conceito público. Nos torneios consideráveis reu-
1üa palavras esquisitas, de pronúncia difícil, e atra-
palha:va o adversário. Processo desleal.
Muitas vêzes ovioleiro esgrime versos decorados,
11111 certo número de frases vagas aplicáveis à situa-
ções diversas e destinadas a cansar o antagonista. Se
êste não é pexote, defende-se : tem o seu repertório
de habilidades e utiliza-o com prudência. Recorrendo
àmemória, negaceia.m longo tempo, simulando inspi-
ração. De fato improvisam as respostas necessárias.
Livres d.elas, voltam a pisar terreno conhecido. A
monotonia. das rimas - as agudas quase sempre em
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!
74. - GRACILIANO RAMOS
a;r, as graves em cindo - facilita o exercíc~o. E o
assunto varia pouco. Um dos homens elogia-se em
excesso e i11su1ta o outro : depois, enquanto suporta
injúrias e ouve as fanfarronices do parceiro, COJ?-
bina ofensas novas e novas bazófias. Cada um, pois,
tem de reserva abundante matéria. Se, porém, o ar-
tista matuto larga êsse jôgo e usa elementos impre-
vistos, é quase certo conseguir vitória.
Foi o que sucedeu num debate r,e~lizado, c?m
torcida e aparato entre Romano e Inac10 da Catm-
gueira, luta que s~ guard01;. em letra de fô;m~ e pro-
vocou entusiasmo no sertão. Nessa pendenc1a o su-
jeito vitorioso era bem inferior ao ven~ido - ...e a
inferioridade salvou-o. Realmente merecia desprezo,
coisa que às vêzes origina êxitos absurdos. Vê-se um
indivíduo abrir caminho por não ter escrúpulo e os
antros se amoitarem indecisos, examinando a cons-
ciência.
Romano, segundo o costume, iniciou a ~a~t~ga
exp·ondo os seus títulos e qualidades, h.er~~itarios,
pois descendia de poetas enormes, a ~oesia d~le e~t~­
va na massa do sangue. Aludiu a trnrnfos, a glona
que o cercava, e afirmou que era doidice pret~nder
um infeliz pé-rapado, filho de escravos, expenmen-
tar-lhe a fôrça.
Inácio respondeu que lhe faltavam aquêles luxos
todos e detestava pã.bulagens: tinha pouco, si.m se-
nhor, mas o que havia bastava para uns floreios na
viola.
Foram-se esquentando e vieram as ameaças. Ro-
mano combatia brutalmente. I nácio, desviava-se
dos golpes, ligeiro, e pregava-lhe de ,quand? e~
quando um espinho em lugar muit? sens1vel. .Fmgia
humildade, tratava-o, numa cortesia zombeteira, por
VIVENTES DAS ALAGOAS - 75
1neu, branco, oferecia-lhe conselhos. Para que sober-
ba, aquela grandeza1 Lorota não dava. camisa. a
ninguém. O mundo estava cheio de quedas, desas-
ti·es, e tanto ·se arriscava o pau como o machado.
Correu uma hora. As primas se esganiçavam,
os boTdões zumbiam - e o martelo continuava, sem
vantagem para nenhum dos contendores.
Por fim, esgotados os recursos ·ordinários, Ro-
mano atirou ao negro a rasteira definitiva : a sabe-
doria obtida vagarosamente, inútil em geral, mas
preciosa em momentos de apêrto. Numa brochura
roída soletrara pedaços de mitologia, extraíra daí
um catálogo regular de deuses e compusera com isto
nlguma.s estrofes malucas. Netuno, Júpiter, Miner-
va, Plutão, Vulcano, Mercúrio, Vênus, etc., junta-
vam-se numa versalhada sem pé nem cabeça que
arrancava imensos aplausos dos circunstantes. Ro-
mano impava de orgulho e julgava-se irresistível.
Lançou, pois, numa quadra vários nomes de figuras
eternas - Apolo, Cupido, Juno - e completou a
sextilha com um desafio arrasador:
b iác,io, desata agora,
O nó que .Romano deit..
Inácio da. Catingueira foi admirável. Entregou
os pontos e considerou-se derrotado, num grito de
bom senso que o auditório i·ecebeu como sinal de
fraqueza :
Seu, Romano, dêsse jeito
JJJu não posso ar.01npanhá-lo.
Se desse iwn nó e1n 1nartelo,
Eu ú·ia desatá-lo.
li.1.as conio f01: e1n ciénc-ia,
Cante sozinho: eu. ?'l'M calo.
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7fi - e nA e I L I A N o RAM os
A ironia resvalou na casca espêssa do brar1co,
sem deixar mossa, e as maniiestações populares con-
firmaram o talento dêle com excessivo louvor. O
grande homem revelou-se generoso: encerrou a dis-
cussão com palavras de condescendência e estímulo
ao adversário caído.
Nas cantigas de violeiros, como em outras can-
tigas, na Paraíba e em tôda a parte, saem-se bem as
pessoas que dizem a última palavra.. Natural. Quem
não fala muito, aos berros, é incapaz.
Os descendentes de Inácio da Catingueira can-
tam em voz baixa, para um número pequeno de
criaturas.
. 1
FUNCIONÁRIO INDEPENDENTE
N
AQUELE ano remoto do princípio do século che-
gou ~ ci~a.de~i~1h~ de cinco :Uilbab1:tantes um
func10nario imm1go do governo. Sim senhor,
um funcionário inimigo do govêrno, que era o chefe
político, deputado estad11al, proprietário, senhor de
muitos haveres, coronel.
Nunca' se tinha visto semelhante coisa: um ser-
ventuário vagabundo, sem eira nem beira, dispensá-
vel, transferido de Caixa-Prego, declarar guerra a
tão firme e antiga instituição. Explicaram-lhe que
aq_uilo não esta.va direito. Loucura pretender jogar
cristas com o govêrno, que possuía vários engenhos
e terra larga, mandava na vontade dos homens, mar-
cava dia santo, deixava D. Carlotinha sêca e triste
suspirando, só, na rêde estreita, ia para o hotel en~
tender-se com môças aflitas, trazidas à fôrça pelos
oficiais de justiça, intermediários em casos de senti-
mento.
Expuseram tudo muito bem. Mas o empregado
nôvo tinha. idéias esquisitas e propensão decidida
para o martírio: era uma d.essas a.berrações que gos-
tam de sofrer, Ieva1· pancada, e11sangüe11ta.r-se.
Evidentemente seria preferível ficar junto da
autoridade, elevá-la, jurar que não existia 110 mundo
outra igual. Opinião defensável. Em horas de zanga
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78 - e R A e I L I A N o R AM o s
o deputado e chefe político andava pelas esquinas,
feroz, batendo o pé, gritando, espumando, ofende11do
os amigos, uns patifes que o comprometiam horrivel-
mente. Findas, porém, essas explosões, era ótima
criatura: ria, estudava os jornais, discutia sintaxe
com os meninos, abria o mapa nos balcões, procuran-
do a Rússia e a Coréia, torcendo pelo Japão.
Nos momentos de cólera os amigos se afastavam
dêle, olhavam-se receosos e desentendidos. Chegada
a calma, voltavam aliviados, entravam nas conversas
de pronome e infinito, que éntretinbam os meninos,
procuravam 110 atlas o J apão, a Coréia e a Rússia.
E a instrução pública se desenvolvia fora da escola,
realmente uma lástima. A prof.essôra, atrasada, cor-
rigia a cantiga " .A brisa corre de manso", porque a
brisa, :fêmea, devia correr '' de mansa.'' No princípio
do século era assim que ela corria no interior, e êsse
modo de correr influi grandemente na literatura
que hoje temos.
O funcionário mencionado era por desgráça um
literato. Os literatos da roça fazem de ordinário so-
netos, acrósticos, discursos, dramas, 011de se juntam
palavras bonitas e inofensivas, pedaços da revolução
francesa, Tiradentes e I racema. Êsse, um tipo som-
brio, buscava nas pessoas e nas coisas o lado mau.
Não percebeu no chefe político o riso bonachão e as
palestras amáveis : notou que êle se desembaraçava
dos adversários a faca ebala, enteTrava caboclos vivos
e desencaminhava pessoínhas da classe ba:L"':.a. En-
cheu-se de :furores, entrou firme na moral e tentou
vingar D. Carlotinha irnma denúncia descabelada
que se estampou em quatro colunas na primeira
página do jornal de oposição na capital, natural-
mente sem assinatura.
VIVENTES DAS ALAGOAS - 79
Foi um escândalo. E abriu-se na cidadezinha
rigorosa devassa para deitar aquêle negócio em pra-
tos limpos. Necessário descobrir o autor da enorme
Rafadeza. De outro modo a administração do muni-
cípio ficaria prejudicada. Houve delações, estudou-
se com paciência a linguagem de todos os indivíduos
capazes de exprimir-se no papel. As suspeitas fervi-
lharam em tôrno de cinco ou seis. Subornou-se pois
' 'o diretor da fôlha, viu-se o original, examinou-se a
letra. E, obtidas as provas, o acusado fêz ao acusador
uma visita aparatosa que o deixou de pulga atrás da
orelha. Convidou-o em seguida para almoçar - e o
jornalista diletante reconheceu-se definitivamente
perdido.Pediu transferência, cstêve a ponto de aban-
donar o cargo e mudar-se. Não lhe deram tempo.
Segunda:feira de carnaval a população da cida-
flezinha se animava, pintada a zarcão e a tisna, mo-
Jhada pelas bisnagas de bambu que os garotos mane-
,iava.m. Papanguns desenxabidos falavam rouco e
fanhoso, circulavam sujeitos vestidos em numerosas
faias brancas. lVfocinhas não-me-toques se peneira-
va:n.nas calçadas. P apai velho, sacudindo o cajado,
cx1brn as barbas de espanador, e o morcêgo agitou
as asas de guarda-chuva. O homem da iluminação
pública andou pelas ruas, de escada no ombro, acen-
dendo os lampiões. E na sede da :filarmônica, aberta
para o baile, os bicos de acetilene chiaram.
Nessa altura três mascarados robustos chegaram
à porta do funcionário independente, entra1·am sem
eerimônia, quebraram-lhe diversas costelas e deram-
1be muitas chicotadas. A vítima esperneou, debateu-
se, afirmou que não tinha escrito nada, pegou-se com
todos os santos e enfim soprou desesperadamente um
apito. Os soldados correram em alvorôço, afivelando
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80 - CTIAC l LIAN O HAlvfOS
os cintos, mus não acharam o lugar on<le se dava o
desastre.
No dia seguinte o funcionário estava de cama
'pubo, roxo, a cabeça partida, um ôlho cego as arti-
culações emperradas. Ficou assim duas ~emanas,
tomou cabacinho, desapareceu. E o comandante do
destacamento foi promovido.
O município, subiu, prosperou demais. Hoje
tem luz elétrica e automóvel. As cabrochas das pon-
tas de 1·ua engendraram filhos brancos. D. Carlo-
tinha e11gordou, emagrecéu, juntou-se ao marido
numa catacumba vistosa, onde larga placa de már-
more expõe datas, feitos, virtudes.
UNI ANTEPASSADO
O
velhinho apeou, entregou o cavalo a um mo-
leque, subiu os degraus do copiar, avizinhou-
se do banco onde me distraía olhando, na pre-
guiça e no calor, as cêrcas do cunal, a serra distante,
ns árvores torradas, os xique-xiqucs e os mandacarus
<1ue manchavi:tm de salpicos verdes a campina ama-
rela.
- É você o meu bisneto~
Ergui-me, atentei no corpo musculoso e aprumado,
w1 bôca enérgica, no rosto liso e vermelho, rosto de
eria.nça.
- Talvez seja. Cheguei ontem e não conheço
11inguém por êstes arredores. Tenho um bisavô no
outro fado elo rio. 'Talvez seja o senhor. Não sei.
- Sou eu mesmo. Vim fazer-lhe uma visita.
- Ora essa ! Não devia ter vindo.
Homem tão idoso, pegando noventa anos, deixar
o travesseiro e os cochilos para visitar um clescen-
tle11t.e quase ignorado, que já ia perdendo o paren-
tesco. :Manifestei-lhe a surprêsa com modo.s de gente
ela, cidade :
- Sinto muito. Um incômodo. I a apresentar-
mc ao senhor, hoje ou amanhã. Cheguei ontem.
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82 - e R A e I L I AN o R A M o s
Interrompeu-me, examinou serio, estirando o
beiço, os meus reduzidos muques, opeito cavado, os
ombros que se encolhiam :
- Doente~
Balancei a cabeça, esmorecido, bambo. E, mm1
gesto vago, mostrando.o organismo chinfrim :
- Um bando de cacos.
- É o que se ganha na rua.
Bateu à porta, chamou, entroÚ-pisando com fôr-
ça, as rosetas das esporas tinindo, foi abençoar a filha
e os netos - minha avó ~ meus tios. Cumprida a
obrigaçfw, voltou ao copiar. E, enquanto lhe prepa-
ravam o café, levei-o ao quarto que me haviam dado,
omelhor de todos, com rebôco, junto ao quinta.lzinho
onde rcccndiam craveiras e panelas de losna. Ofe-
reci-lhe a cadeira única, sentei-me na rêde, procurei
nas teias de aranha, no pátio branco varrido pelos
redemoinhos, no chiqueiro das cabras, nos xique-xi-
ques e nos mandacarus objeto que pudesse interes-
sá-lo. As aranhas, as cabras, os espinhos, 0 calor e
a poeira nada me sugeriam. Contrafeito, remexi o
interior, em vão. Nenhu.m assunto por dentro, ne-
nhum assunto por fora.
Mas o constrangimento durou pouco. O ancião
dirigiu a conversa,loquaz, amaciando a palavra rude.
Era um vivente alegre, simpático, sem tremura e sem
calvície. As mãos caíejadas agitavam-se firmes, ten-
cionavam amparar-me a fraqueza e a doença ; urna
admirável cabeleira de teatro enfeitava aquela es-
tranha velhice, pura, limpa, isenta de pigarro, de
bronquite ; o riso franco exibia dentes claros, perfei-
tos, capazes de trincar ossos.
Começou esquadrinhando os livros que se arru-
mavam em cima ·dum caixão. Abriu um volume.
VIVENTES DAS ALAGOAS - 83
- O senhor lê sem óculos~
- Nahu·almente, nunca precisei disso.
Encostou a página de letra miúda aos olhos
muito azuis, afastou-a, aproximou-a:
- Quelques61 Que diabo é Quelques ~
P ronunciava cuelques. Soltou a brochura:
- Bem. Deve ser língua de gringo. Não en-
tendo.
- Melhor. Se entendesse, não tinha tão boa
vista. A leitura. arrasa uma pessoa.
- Talvez arrase. Para que tanto papel~ En-
fim. Não sei não, os tempos estão mudados.
Não aprovou nem desaprovou a literatura ex-
posta no caixão e na mesinha, estreita e coxa, prosa
mais abundante que a que havia absorvido em quase
nm século.
Pôs-se a falar sôbre D. Pedro II e a família
hnperial, como se se referisse a criaturas embarcaclal'.l
vara o estrangeiro na véspera. Conhecia poucos fa-
tos, obtidos por via oral, mas estavam bem guardados.
- Que memória !
- Não é vantagem. Queria que eu andasse com
besteiras, tresvariando'? Sua bisavó moneu na ca-
duquice. Miolo fraco. E ainda estava bem môça, a
pobre. É ca.lête. P ois, como ia explicando, a princesa
Isabel agarrou o conselheiro e disse assim . ..
- Parece que o senhor foi testemunha.
- Foi o que se deu. Todo o mundo sabe.
Com certeza ohomem se lembrava de casos anti-
gos e esquecido os acontecimentos novos. Engano.
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84 - GRAC I L I A N O R A MOS
Experimentei-o e notei que o espírito do antepassado
funcionava direito, sem falhas. Realmente o voca-
bulário dêle tinha algumas centenas de palavras. O
meu ia muito além, mas a significação dum dêsses
instrumentos fugia às vêzes e era-me indispensável
consultar o dicionário. Se eu possuísse cabeça igual
àquela, o meu trabalho seria fácil. Lamentava-me
cm silêncio - e o velho discorria sôbre os negócios
da fazenda. Interrompeu-se, observou as barrocas
do chão e a.s paredes negras :
- Você aqui está. rqal acomodado. Vá lá para
casa.
- Impossível. Não faço uma clesconskforação
a minha avó. Estou bem.
-- Vá passar alguns dias comigo.
- Perfeitamente.
Desejava apresentar-me a mulher e o filho.
- Que idade tem ela~
- Vinte e cinco ano$, coita.ela. Vive cheia ele
macacoas e não há remédio que sirva. O pequeno
tem seis incompletos.
- Ora. vejam que fim de mundo ! exclamcL Fiz
dcr.oHo anos e tenho um tio-avô com menos de seis.
Incrív~l. ·
- É o último,' a.firmou o patriarca. A mulher,
acbacacla., entregou os pontos, e daqui em diante não
produz.
U~1 HO!vIEM DE LETRAS
O
primeiro romancista que vi foi Domingos
. . Barbosa, sujeito miúdo e sério, residente nos
carros de segunda classe da Great-TVestern.
So não residia nêles, passava nêlcs grande parte da
'dcln, ai concebia e pr ovàve1me11te rascunhava as
h1tõ1tórias que se encerravam em folhetos magros, ven-
tll<los a dez tostões nas cidadezinhas do interior.
Desembarcava em uma delas, conversava com
n11gente do correio e o tabelião, ficava algumas horas
ornrccenclo os seus produtos às autoridades e aos co-
nw1·cümtes, sem falar em p1·eço, contentando-se ape-
llnR com um óbulo, expressão que lhe augurava boa
pnp:a, superior à dos poetas, autores ele folhetos mais
r1c1lp;ados, impressos em papel ordinário, em geral
c1xpostos nas feiras.
Visitada a freguesia importante, baixava à gente
MM1mdária, percorria as pontas ele rua, digno e apres-
Mrlo, econômico de palavras, valorizando-se no si-
M11cio, impondo-se à admiração das velhas e elas
cn•ittnças com a apresentaçào modesta : " Domingos
]inrbosa, homem de letras.'' ftsses vi.ventes ingênuos
Aolctravam-lhe o nome na capa da brochura, como
tinham soletrado os nomes de Joaquim J'Ianuel d.e
Macedo, Escrich e J osé de Alencar em brochuras
mais encorpadas. E viam o ser espantoso, u:rn roman-
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80 - GRACILIANO RAMOS
cista ·vivo, t1ma glória em carne e osso, que relacio-
navam com as outras glórias, guardadas no fundo
das arcas, junto a pacotes de cânfora, por ca11sa das
traças.
Obtidos êsses pequenos êxitos - as células do
funcionalismo e do comércio, a.s interjeições e os
níqueis do hairro pobre - o artista recolhia-se ao
hotel, mt1dava a camisa, jantava, cochila:va. e, con1 a
maleta de viagern aliviada., ia ar rumar-se no trem.da
Great W estér11,, .saltar e111 outra cidacle, levar à clier1-
tela o esca.sso for11eci1ne11to de so:nl.10.
Na literat11ra Domi11gos Barbosa se revelava
pouco inais 011 n1e11os con10 i10 exterior : botir1as cam-
badas e de elástico, ro11pa negra coberta d.e nódoas,
c}1apé11 duro,ta.mbén1 enocloado, g11arda-chu.va, barba
crescicla e caspa. Ave de arribação, r1ão podia arran-
jar direito as suas histórias, lavá-las, esfregá-las,
vesti-las convenientemente, c9rtar-lhes as l1nhas, os
cabelos e os calos. E talvez julgasse inúteis limpezas
excessivas. É possível até q11e i1ão tivesse conheci-
mento dessas exigências. Cr iatura sim1)les e direita,
organizava os seus livros com o favor de Deus, evi-
tando a.s embi;:oma~.ões dos escritores con111ns, lorotas "
que só ser·vem para estirar e encarecer ·O trabalho. ·;
Realm·e11te, se êle conseg11ia narrar um caso e1n tri11ta
página.se rendê-lo por dez tostões, porq11e haveria de
espicl1á-lo em treze11tas páginas e explorar o con1-
pra.dor~ Domingos Barbosa, novelista conscie11cioso,
só dizia. a.s coisa.s absolu.tamente necessárias.
Na verdade seria incapaz de se cleter em p'orn1e-
nores e engendrar 11m negócio longo. Em co11seqi.iê11- ·..
eia desprezava habilidades e enchimentos. A s11a
arte era t1n1a arte inf11sa, surgida como revelação ele
cl1ôfre. Nada havia feito para alcançá-la - e isto a
.
'
VIVENTES DAS ALAGOAS - 87
tornava preciosa. U m dom. Exatamente como se
lhe ti,1esse vindo ordem para profetizar. Sentira-se
chama.do a uma grande missão - tinha de levar aos
homens a mensagem, corno se diz hoje.
E xaminanclo-se, percebia honesta.ment.e que,
afastadas as complicações e os artifícios, não lhe so-
bra.va ml1ito para trans1nit.ir. Recheava, pois, as suas
narrativas de exemplos comoventes, bons conselhos,
ruáximas, excele11te moral exposta, sem vaidade, na
sintaxe dos noticiários.
Nem sempre se manifestava com bastar1te cla·-
reza. Às vêzes deixava },')t:tssagens obsc11ras e incom-
pletas, q11e depois elucidava ealongava e1ncon·versas.
, Se Domirigos Barbosa construísse romances de tre-
zentas }Já.ginas, tivesse posição e amigos, os críticos
se er1carregaria,m das interpretações e dos enxertos.
Como lhe faltava t11clo isso, forjttva êle mesmo comer1-
tários e j11stificaçõcs. Foi assim q11e O B1·ado da
Co1isciência e A Heróica Ala.goa·na, obras meio es-
critas e meio orais, entra.raro nos espíritos.
AB personagens dêsse n1eu conterrâneo esqt1e-
ciclo não era,m a deplorável inistura de virtudes e
vícios que utilizamos: eram tipos absol11tamente bon.c:;
ou absol11tamente ruins. Os justos recebiam prêmio,
os malandros findavam no castigo eno remorso, como
de·ve acontecer. O prêmio tinha o apelido de galar-
dão, sem o q11al os heróis não se julgariam devida-
n1ente r ecompensados, e aplicavam-se aos maus xin- ·
gações terríveis. U11s réprobos. A tern11ra dessa
ge11te se exi'bia em amplexos e ósc11los, e com1)aravam-
se os peitos e os cabelos (las mulheres a subst~t11tivos
csq11isitos : o alabastro, o jaspe, o ébano, a a.sa elo
corvo.
D omingos Barbosa nunca tinha visto nada disso,
mas aprendera o vocabi1lário nos jornais da capital,
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88 - GRACI LIA J10 RA?>iO S
e1n disc11rsos, es11ecialme11te 11as co1n1)osições de Pe-
c~r~ Lear1dl'o, vetera110 da. ficção, caído e111 clespres-
t1g10 l)Ol' cal1sa de a.lgt1mas le·via11dttcles. Mant1fat11-
rando t1111:.i ccT1a éle í111peto, Lear1dro i10 entusiasn10
q11e o fato exigia, perdera os estribos~ escrevera :''A
m111ber abraçot1-se ao cacláver 1011co do filho.'' P ro-
curanclo em vão clefencler-se, gemendo, lastimando-
se, o infeliz ganhara a. alct1nl1a de cadáver lo1,f,Co de
que nu11ca se livrDra, e, 11um ime11so desgôsto, pas;ara
o _resto da 1
ida a.gi.ie11tan'do remoqt1es. J?orgue os
leitores da roç.a, i10 comêço do séc11lo, ti11ha1n rigores
que é1t11n.lmc11te, gra.ça.s a Det1s, i1ií.o existem.
Do1ni11gos J3arbosa se co11sideru:va superior a
Leand.l'o, q11e ti11l1a siclo t11T1 mestre, e fortalecia-se
co111 esta ce1·ter.a, acl1ava nela razão para. t1·abalhEtr
<.lesenrolver a su~t técnica e a.s st1as q11aliclades'.
Sen1 ~ COJ1fro11to, certan1e11te mltclarja de profissão,
desa~11111f1do. 1'vfas co1uo ·via alg11é111 abaixo dêle, pros-
se?111u. E11q11?11to a11dot1 na terra, oferece1i ao pú-
blico no·velas s.1s11clas, de proveito.
Deve esta.r 1uorto há n111itos ar1os. O Brctdo di.i
Con,sc·iê11,c·ici ~. 11 Ileró,ica A lci,qoa11,a esgotaram-se,
perdera.In-~e. .I~ Domingos Barbosa 11ão figt1ra entre
os romancistas elo :n1e11 Estado.
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U:t-.1 GRA~1ÁTICO
E
11: Patos, i1? ~stado da P araílJa., s11rgi11 l1á temp.o
u1n gra.n1a.t1co. Ignoramos a data do a.p~trec1-
mento e o nome do b.omem se perdeu. Ali por
• volta ele 1930 obte·ve i1otoried~tde, f oi disc11tido com
j11terêsse e algazarra i1as redações e nos cafés.
Não era llm tratadista maç11do e compacto, dês-
Mf'R q11e va.lorizan1 n1inúcias e gastam centenas de pá-
ginas adivinhando textos relhos : eTa u1n vtilgariza-
clor ai11ável e conciso, a111igo de a.firn1a.ções c11rtas,
iH011tas de fel e vinugre. Se êle tivesse lido n1uitos
cn.rtapácios, arruinado os olhos e o espírito verru-
n1a11do os r.lássicos, catalogando êrros e acertos, seria
jntransigente, áspero, brigaria co111 011tros ind.ivíduos
r1no, a1)oiados nas mesmas autoriclacles antigas e
rart1nchosas, ma11ejasse1n opiniões contrárias. E
í111col1raçar-se-ia na aspereza e 11a i11tra11sigência -
por lhe faltar co11vicção e recea.r cair em heresia.
Nada disso. A ciê11cia dêle era.rest1mida e tran-
lJiii.la, corajosa por necessiclade, livre tle va.cilações,
ciorr10 ein gera.1 a. elos sertanejos nordestinos.
Ql1anclo a.lgué1n, naquela região cl11ra de espinho,
deseja const.i·t1ir t1ma casa, pega lápis e papel, traça
1
eirme as paredes, as portas, as janelas, o copiar, as
sal~s e as camarinhas. Escolhe o material e dirige
os carpinteiros e os ped.r eil'os, qt1e exect1tan1, sem
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90 - GRACILl.ANO RAMOS .. . ,.
regras complica~as, uma espécie ele habitação. Não
se consulta arquiteto. Realmente não existe arqui-
tet? no lugar..Se existisse, porém, seria desprezado,
p~1s q~em ~a1 morar na casa é o prop1'ietário - e
11ao ha razao pa.ra submetê-la ao gôsto de pessoas
~stranhas. As parecles ficam baixas, as portas e as
Janelas peq~enas,_os quarto.s ~scl1ros. F oi assim que
sempre se fez e nao se mod1f1ca a tradição.
O juiz de direito, i10 juri, em falta dt11n rá})11l<i
confia a. defesa do i-féu miserárel ao boticário. O bo~
ti.cário se julgaria desprestigiaclo se rect1sasse 0 con-
v~te alegando o exercício ·ordi11ário de ocupações
diferentes.
. O ~hefe político recel)e t1111a descompost11r~t no
J01:na~. '11
ranca-se e passa dias cornpondo a resi:>o.sta,
eD:erg1~a. e 1011ga, q11e é p11blicada 11a r11atéria paga.
~1nguen1 a compreenderá direito. P oderiam ter sielo
invocaclos os ser1
iços do proi11otor 011 elo tabelião.
Mas êstes não realizariam a encon1enda razoàvel-
mente: diriam coi&"l.s do ofício dêles esqueceI'iarn
outras, e.~ nosso articulista bisonho pretende vin-
gar-se :it1l1zai:do armas pró1)rias, furando o almaço
com raiva e força, dando mtrrros na mesa.
... Ê sse taba.ré11 di~etante da gramática, parente dos
tres.exe1r11Jlos Jl1ei1c1onados, i1otou algt1ns lJroblema.s
de 11r1guagen1 e clecidiu resol,,ê-los. Em ,,ez, porén1
de buscar a con1panhia dos se11s sen1ell1autes e exa.~. . . -rn1nar· aqu1s1çoes anteriores, fecho11-se e refleti11
co~o nobres figttrt.:is a.ntigas q·ue ac}1aram a verdad~
no isolamento e na meditação.
Qt1ando regressou ao convívio dos homens trazia
vários cadernos rascunhados em el11ro labor,'frutos
que amadureceram i111n1folheto de qt1arenta página.s,
oi1de as letras, falhadas e graúdas, es1norecem no
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VIVEN'fES ])AS ALAGOAS - 91
papel amarelo. Nada aí se discute, n ada se explica.
Exatamente como se o a11tor, redigindo t1m largo de-
creto, eliminasse as considerações e entra.sse logo a
articular. De fato a pequena brochura é uma série
de mandamentos - arrolaas expressões que se devem
t1sar, cond.ena as q11e não devem ser usa.das;
Em geral o gramático ele Patos desaprova o que
se refere à fec11ndação e a certas necessidades fisio-
lógicas, julgadas por êle incorretas. O seu processo
én11ito surr1ário. Divide a fôlha po1• t1m traço vertical
- e o que fica à esq·uercla está errado, o q11e vem à
direita está certo. Às vêzes nfio existe palavra conve-
niente para, tradu.zir o ato inconvenie11te. R ecomen-
da-se então un1 ci1·c11nlóq11io. Deitar ao mundo uma
criat11ra em dua_s sílabas é feito. Indispensável e11-
faixar o recérr1-nascido em loc11ção 1'espeitosa.
Êsse e11te pudib11i1do chega.a.sugerir a s11pressão
de vocábulos capazes de insin11ar-nos idéias desones-
tas. ''B urar.o'', por exemplo. Se aceitássemos o con-
selho, restring·iriamos bastante o dicionário. Mas
teríamós decê11cia, limpeza, a aprovação de alguns
críticos lite1·ários que, nestes últimos tempos, vivem
desco})ri11do olJscenidades na prosa vulgar de roman-
ces inofensivos.
- Safadezas. Eu, nos me11s li1ros, jogo tôdas
a.s pa.tifarias, mas por meios indiretos. Nunca llSei
palav"rões de cana.lha, graças a De11s.
_;. Faz m11ito bem, doi1tor.
E ssas d11ns falas são de escritores modernos e
temr>erantes, é claro, não do s11jeito da Paraíba,
casto por dentro e por fora. 'l'ipo admirável. Foram
provàvelmente os intt1itos morais q11e lhe deram
aqueJa segurança, a certeza de estar i11dicando aos
outros o bon1 cami11ho.
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92 - e R A e I L 1A N o R A ?vi o s
No seu modesto re1Jositório de ensiuamentos <lig-
nos não achamos eva.sivas ne1n dí1vidas. Para falar
verdade, êle se mostra indeciso nl1n1po11to, mas livra-
se da dificuldade com prudência. Det1 u1na topada
na crase, e1nperrou. E assim se ma11ifesta sôbre o
desgraçado fenômeno:
- íJ.'errível. 001110 os se11hores não poderian1
ente11d.er isso, ·vão deita.ndo acento en1 cin1::1 de qual-
quer a. É o q11e devem fa.ter. ..t.lgt1ma.s vêzes hão de
étcerta.r.
Lição des1Jrovida ele origina.lidade. P ersonag·o11s
n:rt1ito mais importantes q11e o gramático da P araíba
adotam êsse princípio.
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DR. PELADO
e
HAJ.íAVA-SE R.aimu11clo P elado, residia em Viço-
sa interior de Alagoas, professava a 1nedici11a
' . he a poesict. Era l11n gra11de mi.:1lato r1son o e
for11ido, de bela côr ·vermelha, i11ãos rijas, cler1tes for-
tes e olhos vivos.
Tinha estnclt1(,io nl1n1seminário elargara a batina
en1 véspera da ordenação, n1as l1l111ca foi possível
localizar (.tireito êsse estabclecime11to. O.s estuclos
eram indispensáveis à p11blicidacle literária do ho-
men1, publicidacle q11e, feita por via oral, nas esqui11as
e nos balcões, a.presentava falhas, repetições e incon-
gr11ências. Essa história de ter viviclo perto do altar
não encerrava originalidade, pois 110 comêço elo
sécttlo, ql1ando R aimundo P elado floresceu, rábt1la~,
palhaços e atôres de com1Janhias vagabundas a t1t1-
liza.va.n1.
Não era aí que se revelu:va a in1aginação do poeta.
Existiam n.a vida dêle n1t1itos casos interessantes :
viagens co1nplicadas ao Rio, à Bahia., ao Recife. Ti-
nha visto oin1perador e 011tras fig11ras enormes, ti11ha
tido 11ma disc11ssão notável coin certo cl1efe éle polícia.
ele capital graúda. S. JY[. era 1)essoit 1nt1ito si1npátiea..
E o chefe de polícia ficara a.bsolutamente arrasa.do,
fato c111e provocava o espanto dos ca.ixeiros e dos fre-
gueses, nas lojas. . . . .
Descendo dessas altt1ras, .Pelado inetr1f1cava
1·edondilbas i1os bordões e 11as prjn1as da viola. É
possível c11ie soubesse ler, mas, se si:t})ia, esta pren{1a
-,
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94 - CHAC ILl ANO RA?10S
nu11ca lhe serviu. O seu estro se n1anifestava na lin-
guagc1n falada, ou antes na lingt1agem cantada, que
P elado era cantador, inimigo de Pacífico P acato
Cordeiro 11anso, nat11ral de Quebrangulo e qt1ase
•
IJar11as1ano.
Cordeiro 11anso i1ensava pouco e de·vagar. Re-
digia com dificuldade t1mas coisinhas n1eio ce1·tas e
horríveis, pt1lJlica.das e1n f olhetos n1agros, q11e Rai-
m1111do xingava em excesso, pois desdenha·va a letra
de fô:rma e co11fit:tVlt i1a ir1e1nória d.os homens.
Co11fiar1ça imerecida. N er1l111111 literato deso-
cupado se lembrol1 de colecio11ar e guardar a lé1rga,
prodt1ção, bern razoável, do m11lato de Viçosa. E a
safra do adversário, chi11frirn, talvez air1da hoje
exista, copiarla e err1endada.
R eu1u1011te era no sonho que vivia o grande mu-
lato. Quando o chefe de polícia c1uis saber o ofício
dêle, P elado respondeu :
- Cantar.
- Ca,ntar~ Alguém se emprega. em cantar~
- Sem dúvida. É n1elhor que chorar.
Certamente não houve pergt111ta, não houve res-
posta, llão hot1ve chefe de polícia, mas é como se ti-
vesse havido. I sso explica a nat11reza do homem.
Vivia no sonho. E não l)Odia viver de so11l10.
Se f ôsse t t1l)erculoso e n1iúdo, possuísse olhos
ft111dos, s11stentar-se-ia alg11m tempo co1n gemidos e
solt1ços. Ir1feliz1nente era corpulento de1nais - e
r1fto ti.i1ha jeito 11a.ra solt1ç.ar e gerr1er. ()<1J1ta.va, mas
é1S s11as ca11tigas, ag11c.1as, fttré1vam a. carne tle Pací-
fico Pitcato Cordeiro :J:Ia11so, poeta do1nesticado no
alfabeto.
E como s11stenta'i1
a m111her e filhos, r obt1stos,
Rai111t1ndo P elado às vêzes se a11sentava da poesia,
VIVENTES DAS ALAGOAS - 95
entrava na vida ordinária e curava as doe11ças do
, .
prox1mo.
Na con1posição de versos, como na de receitas,
o que ten1os dêle são notícias conservadas pela tradi-
ção e certan1ente an1pliadas. Arrumam-se aí a inteli-
gê11cia e a malícia d11n1a geração matuta, exatan1en te
o que st1cede com algt1ns gênios q11e ho11re no R.io
en1 fins do sécl1lo p~tssado. Não fizeram nada., não
escrevera111 i1adit, rnas cleixaram alg11n·1as anedotas
insôssas, c111e se contavam i1os cafés da província,
originando gargall1ada.s, cn1 1910, e ainda se re1Jetem.
Eln 111omentos ele ai:>uro l~airn1111do Pelado aban-
don1:rva a aic1ade, e, à frente de uma, cargit ele ren1é-
dios, ser'irido por arrieiro st1bmisso, entrava no ser-
tão n11m cav·alo esq11ipaclor, importante, de botas
altl:tS, colal'inho e gravata., roupa de cassineta, um
Chernoviz i10 bôlso da carona. Abria êsse volu-
me e11corpado em horas conve11ientes, espiava as
gra'i'tlras e a letra miúda, estirava o beiço, e11r11gava
a testa - e recebia a consideração dos mat11tos.
A sua fama se alargava por m11itas rilJeiras. E
na casa onde se hospedava ofereciam-lhe o n1elhor
qua.r to, matava1n para êle a galinha mais gorda. Fa-
zia-se a11u11ciar nos arredores e IJassava uma semana
a combater padecimentos com xaropes em garrafada.s
enõr111es, que inspirava.m r espeito à clientela e se
ve11dia111.bem.
Reclt1ziclos os r11a1es vizinhos, os set1s negócios
n1elhorac1os, ia i)ercorrer ot1tra zon<:1, aliviar novas
r11acacoas e encher as algibeiras tttilizando as gra:vt1-
ras do Cher11ovíz e as garrafadas.
Regressava ao cabo do seis meses, largava a
ciência e dedicava-se inteiramente à sua oci1pação
i1att11·al, a poesia.
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96 - e R A e I L I A N o R A 111 o s
Nun1a dessas viage11s dirigil1-se a t1n1a farienda,
oncle acbo11 moclos lúg11bres no dono da casa, oll1os
ÚJnidos e rosto comprido. A fazendeira esta;va ban1-
ba, e desde a véspera t1m médico a11tla·va a est11dá-la.
-- An ! excla111011 o ·viajante alarn1ado. Qt1e es-
J3écio c1c médico~
Q11<111clo o 011tro apa.receu,.logo sere11011 :13ercel:le11
i1êle 11n1 simr.>les ra.izeiro, i:r1ca.paz de ass11star alguén1.
O JJroprietário dava gra.ças Al)eus, que lhe :r.na.ndava
clois dot1tôl'es trat<o1r a m11ll1er.
- Perfeita.mente, decic.liu Pelac1o, dorninando
a sittlitção. Varnos fazer t1ma conferência. O colega
já diag·nosticol11
Oot1tro rião e11tendet1 e n111do11 ele co11versa. J an-
tararr1 e foran1 ver a doente.
- E xan1ir1e, colega, clisse o c11rancleiro número
l1!Tl.
- Não, senl1or, respo11deu P elado, exan1ine
vossemecê, que chegou antes. E11faJo clepois.
O st1jeito arregaço11as mangas, colocot1 a m11lher
en1 diversas J)osições, a.lisol1-a, n1ach11co11-a, descon-
j1111tot1-a, ficot1 1111s mi11utos co1n o 011vido colado ao
peito dela, l)rocl1rando batiza.r a doer1ça.. Ti11}1a
011vido :falar en1 tro1nb0se - e êste nome pareceu-lhe
a<lec:it1a.do..Erg·11eu-se, desarregaço11 as ina11gas, fran-
ziu a ca.ra e opj.i1011 :
- El1 JJenso r111e ela te111 llm trornlJ0110.
Pelado e11costou a orelha ao corpo da pacie11te.
E, i11cleciso:
- Não sei J1ão. Se é tron1bone, deve estar tocart-
<:1o muito longe, porc111e I1ão 011ço 11acla.
•
TRANSAÇÃO DE CIGANO
U
~r I)t1r1g11ista n1; t1:firr11011 l1á ~e1npo ~!11~ a soci,e-
dade se co1111)oe de rnala11c.1:ros e otar1os. N ao
seria possível achar 11m tercejro gr11po; a.té n~s
i11d.ivíd11os ruais ir1ex1Jressivos 11á, ltttentes, a.s qu?.11-
dacles q11e deterrninam u.tn.a cltlS c111as categorias.
I11útil q11erern1os destr11ir a ~rd.etrt nat;u:al. O ma-
la11clro ·veio a.o n1unclo para esfolar, o otar10 deve s~r
esfolaclo - e qt1er estcjan1os (}C acôrclo q11er nao
estejamos, a ~peração dolorosa tem de realizar-se,
porque isto é a vontacle de Det1s. . ._
Os sertanejos aceitam em g·eral a opnnao do
pung'lústa. E resígnam-se, coçam a cabeça, ?'lurmu-
rando con1 fatalismo duas frases que se repetiram em
de1na.sia e se transfor1r1ararn em 13rovérbios :
- Quen1 é do chão não se trepa. Quem 11asceu
para ·vi11tén1 11ão chega a tostá.o. . _ .
Co11formam-se. E na st1a co11d1çao az1nhavr~da
e n1odesta (le vi11té11s, adn1iram e ve11erarn os tosto~s.
Os verdadeiros, é claro, os legais, pois os falsos nao
merecem 11e11l1u.ma.cor1sidert1.ção.
Entre os vá1·ios tipos de mala_ndros s11st~r1.tados
pelo rnatt1to fig11ran1 os qt1e se decl1ca1n a negocios de
ani1nais. ..
Em pri111eiro lugar vêm os laclr.õ~~, 01·ganiza.dos
numa vasta 111aço11aria qtle se ra111lf1ca por todo o
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98 - GTIACILIAN O RAiifOS
Nardeste, con1 hábitos e ling11agem especiais, regras
complicadas, l1ma hierarquia de numerosos graus,
em cima a personagem que vende 1011ge o bicho fur-
tado, intermediários de colarinho 011 sem colarinho,
em baixo o caboclo de alpercatas. Os graúdos fogem
às perseguições, os de somenos valia morrem na em-
boscada, como é de j11stiça. Ordinàriamente o jú1·i
~ibsolvc o assassi110 e condena o ladrão, mas às vêzes
se atrapa.ll1a no julgamento. E corno se co11sidera
a pcn~t in11ito fraca, liq11ida-se, por segura.nça,
o ir1divíd.110 pernicioso, o ag·ente i11ferio1·.
Alér.n dessas criat11ras temívejs, há os negocia11-
tes de cavalos. Atacadistas ou retalhistas, solitários
OtL a.grui:>ados, profissio11ais ou dileta11tes, nôma<lc~s
011 sedentários. Inspirarn a11tipatia ao a.gricultor, 11rn
receio que se disfarça por dois motivos: adotam
ocupação lícita e são 11ábeis, ardilosos, capazes de
dar lições !1. rato. Na.s s11as t ransações mais claras
11ámanl1a encoberta. 'l'êm partes com o diabo, deitam
poeira nos ollios dt1m cristão, mostram o que não
existe e esco11dem as coisas evidentes.
Os de mais respeito são os ciganos, q11e já não
são ciganos e talvez i1em tenham nenhum sangue
dêles, mas vivem à toa, abqletam-se no cam1Jo ou en1
po11tas de ru,t, em barracas, liga.m-se a diversas mu-
ll1ercs e usam 111na algara.via a.rrastada, para ga11har
impo1·tâ11cia. O sertanejo evita-os, nega-ll1es 11rr1 ca-
neco d'ág11a en1 tempo de sêca e, ir1variàvelmente,
er1sina-ll1es o ca.n1i11ho e1·raclo.
Iíá os trocadol'es. Andam nas fazendas e nas
povoações do interior, b11scando 1·oceiros inexperien-
tes, e se os ·descobren1, oferecem logo, em conversas
al)11ndantes e repisadas, cheias de exclamações, algu-
ma IJCquer1i11a bêsta ele cangalha.
VIVEN'fES DAS ALAGOAS - 99
o melhor lJichinho do m11ndo, ligeiro con10
gato, uma beleza, direitinho môça n11a. . _
Desafiam a réplica, entram em long~s d1scussoes
obscuras, em que gestos e risadas substitt~e~ aspa-
lavras. Não se apressam. Vencen1 as.obJeço~s c.om
an1alJilidades ouinjí1rias, conforrne a~ cir~11n.stancias,
fatigain os adversários, acabam 1mp1ngindo-lhes
quartaus esparavon~dos, rec~bendo .011tros ..menos
rl'lins e alg11m dinheiro, que nao a,dn1iten1 barg~nha
sem isto, l)Ois a, volta é que faz? a11,zol. Recebem de~
mil-réis, cinco mil-réis, mas enf1n1 recebem qu~1q1::r
la.mb11gem. Un1 dêsses vivente~ sagazes chegou a fe11 a
um dia montado i1um sendeiro manco. Vend~t:-o,
efet110u'1n11it;1s operações. À 11oite havia i·ea~q111r1do
0 mesmo sendeiro. Tornou a casa iuo?'ta~o nele, co~
gêneros para a semana e duzentos n11l-reis en1 nota._,
prata e níq11el i1a capanga. ,
~ Defeito~ O defeito do meu ca.valo esta na
vista.
o parceiro j11lga que o defeito está pat~nte e
enga.na-se. O mala.ndro falott direito: o cavalo e cego.
A vítima do en1buste oculta a derrota como se ocul-
tasse doença feia. . .
Um código interessante regula essas pat1far1as
_ jôgo em que a patota dá prestígi~ a quen1 sa.b:
11tilizá-la. O pexote que se deixa en1br.omar _en~be-se
de vergonha ecobre-se de ridículo. Afinal nao e van-
tagem il11di-lo. Caso digno dc.in~e~·~sse é ~ngabela.r
um sujeito sabido, como na h1stor1a seguin~e. .
O chefe dos ciganos atravesso11 a porte11·a, dei-
xou 0 bando aí, api~oximou-se da casa-gra11de, co:i-
cluzindo um bur1·0 idoso pelo cabresto, varret1 o chao
com a aba do chapél1 diante do ser1hor· cl~ enge~ho.
Êste n1andou buscar uma égi1a do ca1nbito, obJ eto
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dt1n1 arr~111jo rne~o a1)alavrltclo a11tes. Cada t1111 elos
conte11dores elog1011 o sei1 animal e examinot1 c11ida-
cl.osa1nente o do outro. So1naram as falhas visíveis
f1zera1n acr.éscimos ~' certos de q11e possuítt111 d11a~
desgra.ças ·vivas, reaJ1za.ra1n él per111uta.con1 os einbe-
lecos da praxe. Des1JecliraJ11-se. O vag·alJ11ndo re11r1iu-
se ª?s co111.p~t1tl1eiros, Sllit1 ela. pro1>rieclacle, ton1011 0
c~m1n.ho. Ao passar t1r11 riacho, a ég11a mudo11 de
cor: d1ssolveu na ág·ua a tinta q11e a enfeitava.e exilJitl
as pelad11ras. da sar11a. P ot1co1 adia.nte ca.nsou. 1111_
~el1d?',~1 ca1m11hê:_r, }Jt1xada por todos os lados, act1ou.
E de1xo11 i1~s ma.os cl1~1n .11on1er11 o ral:>o postiço. O
chefe elos c1g·,tnos a.br1t1 a bôca, refletit1 e deciditl :
- Va1nos voltar.
. R eg:r cssa1·am, q11asc arrasta11do a égua ca.mbi-
te1ra. Ve11do-os, o c:oronel grito11 tlo alpendre da.
casa.-g·ru11cle :
.,., - , ~~e é Já issoº? Arrepe11clirt1cr1to? O qtie se
fez esta. feito. Negócio é r1eg·ócio. · ·
- .sen1 dú,ricl1:1, ganj ão, Tespo11cleu o cigano
~escobr1nclo-se, c11rva11clo-se 1111111a }J1·of11nda re''erên-
c1a.. , ~uen; f a.l.011 e:11 arrependin1e11to ~ Negócio é
i1egoc10. ]Jll r esolvi 1a,i·gar esta vida. E ve11ho en-
trega.r o bar1clo a ·17ossa se11l1oria.
•
A DECAD:fl:NCIA DE UM SENI-IOR
DE ENGENHO
E
RA. se:nl101· ele e11ge11l10, assold.aclava calJroeira,,
<lispu1111a de cr édito e se cleixavt1. esfolar regt1-
larn1e11te pelo.s for11ecedores, porqt1e ti11l1a aln1a
simples e acreditc.i.va den1ais i1a i:>ulavra all1eia. E1n
co11sec1i.lência a pro1Jrieclacle c11coll1et1, mas ai1Jda
fico11 terra.lJastantc 1Ja.ra co11ser·var-sc a tracliç5.o da
:fa.111ília, con1 ho11ra integral, e11c111aJ1to o IJa.trinrca
vivet1 llOS ca,11a:viais e 11a cid.adc. Qr1a11clo entro11 i10
sertão, veio o desmoroname11to. ..t. Divina Providên-
cia teve co1n paixão dêle :fecho11-lhe os olhos antes q11e
a clesgraça completa se realizasse.
F oi no con1êço do séct1lo. J onq11i1n P ereira, dono
do I11gá., e por isso cha111~1do P ereira elo Ingá, dedi-
ca·va-se à IJOlítica, desi11teres.sn.clo e lJOr teirnosia.
Co11fio11 i1as pron1essas c1u111 bacl1arel, de11t1tado vis-
coso que tra11sigiu co1.u o go·vêrno e se ju11tou à ca-
deu·a, fixo11 residê1Jcia no Rio, la1·ga11do os amigos
n1unicipais e111 situ.ação dif ícil.
P ereira do Ingá fig11rava entre os amigos 1nais
notáveis. P errnancceti na fiélelic1ade 1Jorq11e set1 r)ai
eSCll avô tinl1am sido fiéis ao pai e ao avô do bacharel,
11amonarc1t1ia. P et1·ificado nessa posição her·editária,
te·ve capangas }Jresos e capangas assassinados na to-
caia, gemet1 soJJ o impôsto - e r epeli11, digno, várias
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102 - e nA e1L I A No R A lvf os
tentativas de conciliação con1 o l'.lartido dominante.
Debalde lhe mostraram ql1e a firmeza era sacrifício
in11til, pois o chefe se acomodava perfeitamente na
capital, i11diferente aos eleitores repo11sando i10
A d )
acor o que lhe garantia os votos necessários para
manter-se na oposição. .
. - Não ~e trata disso, replicava J oaqi.1im P e-
reira elo Inga, estremecenclo como se 11ma broca de
dentist~ lhe tocas~e i1ervp exposto. O q11e b.á é qi.le
m~ meti. n11m car11111ho e vou andando, vou ar1d.anclo,
ate bater com a calJeça na parede e faz.er um calom.bo
na testa. Não n1e viro. Qua11to ao procedimento do
dolitor, isso é l~ co_m êle. Cada q,t1al como Det1s o fêz,
q11e a g·ente nao e ra.paclt1ra, para. sair t11do io-11al.
Enfim são coisas da. república.
0
Nesse desa.lJafo meio inten1rlestivo e11cerrava a
pendc11ga, deixanclo os circu11sta11tes co11fusos. E era
c?nv~~iente a n111dança de asst1nto. Se alg11m fun-
c1ollil;r10, por dever de ofício, tomava o pião na tinha,
P ereira se exaltava.. P orque se haviam operado no
lugar. numerosas transformações depois de 89 e êle
abominava as tra.nsfol'mações. Torcera o nari7. à
propag·anda : os objetos e a~ idéias não se tornariam
melhores qu~ os existentes, pois isto era impossível.
Nem o made1ran1ento da casa-grande iria fortalecer-
se nem a paga dos mora.dores se atenl1aria. Na ver-
d~tde receava exigências do pessoal miúdo e CL1pim
nos caibros. ·
_Or~, i10 regime nôvo, a casa, 011de algun1as gc-.
raçoes tinham vivido e morrido, apresento11 sintomas
de desagregação. Embora isto não IJudesse r azoàvel-
n:1e;ite ser atribuído à repúl>lica, os te·mores s11pers-
t1c1oso.s de P ereira se confirmaram eneg·receran1
ina.is. E, te11do o cân1bio ·vindo abaixo, ~s n1ercatlorias
l1
•
•
VIVENTES DAS AJJAGO.AS - 103
sim11laram valor desmedido, o sa1á.rio no eito subiu a
duas patacas. Tudo se desconchavou. P rodutos con-
siderados inúteis s11rgiran1 com etiquêta e preço :ma-
mona, carôço de algodão, o mulato claro feito pro-
motor, na democracia. Nessa trapalhada, Pereira
i·esm11ngava, sufocando a indignação, estragando o
respeito ql1e a a11toriclade e o saber lhe impunham:
- Al1 negro ! Ah chicote ! Não foi para. isso
qt1e a pri11cesa derrubo11 as senzalas.
O i1obre ft1ror passava despercebido, como se
fôsse expresso emlí11g11it estranha. J~m compensação
Pereira nã.o entendia muitas das palavras que agora
circt1lava1n, fórmulas qt1e se transformavam em cba-
·vões relativamente inse11satos.
- Ah negro!
Assim resu1nia por fim, rangendo os dentes, o
seu imenso desgôsto.
A princípio depositara alguma esperança em
Antônio Conselheiro. Desiludido, alimentara-se de
recordações, achando que em redor tudo se cleslocava
com demasiada pressa. Que razão tinl1a aquela infe-
liz cambada para assanhar-se tanto6/
Pereira conservava religiosamente a sua velha
solJrecasaca, a.sisudez, o 01·gulho, as barl)as enormes,
preciosas, semelhantes às doimperador. De fato não
eram preciosas, mas o dono as c11ltiva·va, falava com
tristeza do tempo em q11e 11m homern dava ao credor
algt1ns cabelos - e~ isto oq11ivalia a exte11sos compro-
missos cheios de :formalidades, na lei e i10 sêlo. Pe-
reira não gostava de assinar letras, miserável i11ven-
ção de j11deus gananciosos e desconfiados. Não gos-
tava de a.ssinar coisa nenhuma., porq11e a sua palavra
tinha mais importância que ~s garatujas e porque os
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104 - G R A eILI A N o n A}..f o s
set1s declos emperrados segura.varo a ct1sto a ca11eta,
rasgavam e borravam·o p~t1)el.
Entendia-se com os a.migos distantes por meio
de recados. Nas eleições, gastava ci11co n1int1tos dese-
nhando o i1on1e em grossas ct1rvas que oc11pavam três
linhas. Desprezava a l1abilidade dos tabeliães, gente
inferior e ma.liciosa. E conservava as filhas pruclen-
temento analfabetas, para não inandarem bilhetes aos
namorados. #
Êsse vive11te rijo e imóvel, tão rijo e tão i1nóvel
con10 os esteios da casa-g·rande, que principia.van1 a
bichar, teve um fin1 lasti1nável. Precisot1 rnexer-se,
desejot1 transpla11tar-se, 111as estava sêco e não criot1
raízes. Acabou mal, como se verá., talvez, depois.
E os sct1s descend.entes a.cabaram ta.mbén1 no car un-
cho e na miséria.
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"ESTi. ABER1"A A SESSÃO DO JúRI:"
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Dr. França, juiz de direito ntima cidadezinha
serta11eja, andara em meio século, tinha grá-
vidade nnensa, verbo escasso, bigodes, colari-
nhos, sapatos e idéias ele pontas muito finas. Vestia-
se ordinàriamente de prêto, exigia qt1e todos na
jt1stiça procedessem da mesn1a forma - e chegou a
mandar retirar-se do tribl1nal t1m jt1rado incon-
vc11iente, de roupa clara, ordenar-lhe que voltasse
razoável e fúnebre, para não prejudicar a decê11cia
do veredicto.
Não via, não sorria.. Quando parava numa es-
quina, as cavaqt1eiras dos vadios gelavam. Ao afas-
tar-se, mexia as pe1·nas matemàtica.mente, os passos
mediam setenta centímetros, exatos, apesar de bar-
rocas e degra11s. A espinha i1ão se curvava.., err1bora
descesse la.deiras, as mãos e os b1·aços executav~trn os
movimentos indispensáveis, as duas rugas horizon-
tais da testa não se aprofundavam nen1 se desfazian1.
Na sua.bibliotecadigna e sábia., volt1mes boj11dos,
tra.taclos n1ajestosos, severos na encade1·nação negra
sen1elhante à d.o proprietário, empertigavan1-se - e
11011ht1m ot1sava deitar-se, inclinar-se, q11ebrar o ali-
nhamento rigoroso.
Dr. França levantava-se às sete horas e recolhia-
se à i11eia-noite, fizesse frio ou calo1.., almoçava ao
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106 - G R A C l L 1A 11 O R A ~·l O S
meio-dia e jantava às cinco, ouvia missa aos do1nin-
gos, comungava de seis em seis meses, pagava o alu-
guel da casa i10 dia. 30 ou no dia 31, entendia-se com
a mulher, parcimonioso, na ling11agem llsada nas
sentenças, lingt1agem arrevesada e ar caica das orde-
nações. Nt1nca j t1lgo11 oport11no modificar êsses
hábitos sal11tare.s.
Não amot1 nem odiou. Contt1do exalto11 a vir-
t11cle, cma11a.ção das existências çalmas, e cor1clenot1
o crin1e, infeliz conseqiiê11cia da paixão.
Se ate11tásserr1os nas palavras emitidas por via.
oral, po~erítimos a.fir111ar, qt1e o Dr. FrtLnça 11ão pen-
sava.. Vistos os auto.s, etc., perceberíamos e11tretanto
que êle pensa.va c'o1n alg11n1a freqi.iê11cia. Apenas o
pensru.nento de Dr. ],rança i1ão seg11i<1 a marcha dos
pensame11tos con111ns. Operava, se não i1os engana-
mos, dêste moclo: '' considera11do isto, considera11do
isso, considera11do aquilo, considera11do ainda mais
isto, co11sidera.ndo porém aquilo, concl110.'' Tudo se
forn111lava cn1 obediência às reg1·as - e era impos~
' sível c1l1alql1er desvio.
•
Dr. Fran~.a possuía um espírito, se1n clúvida
espírito recljgido com circunlóquios, dividido em ca~
pítulos, títt11os, artigos e parágrafos. E o q11e se dis-
ta11ciava dêsses parág:rafos; artigos, títulos e capí-
t11los llã.o o comovia, porql1e D1 Fra11ça estava livre
dos torrr1entos ela irnaginação.
* * *
P ó-de-Jtiolaml:)o, oficial de justiça, era uma.
criatttra arrasada.
Ti1:11am-lhe pô.sto no batis1110 011tra desig11ação,
ql1e se J11ntara ao nome de família e en1prestara a.o
homem ltm i:iot1co de valia.. ~fas com o co1·rer do ten1-
VIVEN'fES DAS ALAGOAS - 107
po isso foi esmorecendo. O pequeno f uncionário
adoeceu, arriou, a.marelou - e no fim da vida na.sce-
ram-lhenas patas copiosas pcr cbas ql1e se estenderam
e avultaram, abriram s11lcos na pele, corromperam a
ca.rne, Sllplu·aram, sangraram, impossibilitaram o
uso do calçado. E11trapara1n-se as duas chagas, dos
dedos aos tornozelos. P é-de-Molambo.
, Se o velho tivesse guarclado silêncio, a alct1nha
escorregaria nêle sem deixar mossa. Ofendeu-se,
respondeu con1 desaforos e, em conseqüência, as pi-
lhérias tomaran1 feição agressiva, saíram do bilhar,
da f~~rmácitt e da barbearia, desceram à rl1a, trans-
mitiram-se à. molecoreba.
- Pé-de-1'Iolambo !
A condição econômica do oficial da justiça era
rt1im, os filhos pesavam-ll1e domai~ no orçamento,
as camisas esfiapavam-se, a co1nida minguava - e
isto o reduzia muito no co11ceito público.
- Pé-de-~1olambo 1
O latido contrafeito se esganiçava por detrás de
uma janela. O desgraçado examinava os arredores,
tentava inutilmen te localizar a inj(1ria, xingava com
desespêro os ascendentes de llm s11jeito invisível e
desconhecido.
- Pé-de-:Niola.mbo !
Outras vozes se erg11iam. A vítima atu1·dida
virava-se para a direita, pa.ra a esquerda, não achava
110 vocabt1lário ca11alha expressões suficienteme11te
obscena,s i:iar~t desa.frontar-se. Foi decli11ando e i:ier-
deu os íuti.n1os vestígios de con1postura. Afi11al já
não tinha1n a precaução ele oc11ltar-se pa.ra molestá-
la : os ga.rotos beri-a.van1-lbe o insulto e safavam-se,
iam gozar de longe a za.nga excessiva.
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108 - G n Ae I L IA N o R A M o s
- Pé-de-~1olan1bo !
Os olhos biliosos enchiam-se de raiva e lágrimas,
o rosto e11xofrado coloria-se de inanchas ver1uelhas,
a bôca mole e desguarnecida espumava, o corpo
alquebrado inchava como um peru, ameaçava re-
bentar as costuras da ro11pa suja e esgarçada, arras-
tava, barnbo e trôpego, os dois chumaços escl1ros
e sang11inolentos. Tremores agitavam aql1ela rl1ína,
sacl1diam as bambir1elas do pescoço magro, os cabelos
grisalhos ql1e enfeitavam a pobr~ velhice desrnora-
lizacla.
* * *
Um dia, à porta, da prefeitura, Pé-de-~Iolambo,
no exercício das suas funções, repinica11do a si11êta,
esbaforia-se llllm pregão fanhoso:
- Está aberta a sessão do júri.
A. sala se povoava. Agentes da.lei perfilavam-se,
arnmdos. O ré11 sucumbia no tamborete. Dr. França
fiscalizava o pro111otor, o advogado, o escrivão, os
j11ízes de fato.
Está aberta a sessão do j11ri, gemia o oficial
de j11stiça na calçada, n1overdo a sinêta. Ql1ando
se n1anifestava pela tercei1·a vez, o' desastre se det1.
- Está aberta a sessão ...
- P&-de-Molambo ! grito11 perto llm moleql1e
sem-vergor.1ha.
Pé-de-~1olambo despil1-se de responsabilidades,
retirou do a11úncio o nome da ir1st.ituição admirável,
substitt1íu-o pelo de unia pessoa ausente, do sexo íe-
n1inino, q11e :foi rudemente insultada:
- A sessão da ...
U1na I>raga horri'irel estragou a cerimônia.
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UM HOMEM NOTÁVEL
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ESIDIA no i11terior ~ tir1ha, ~t1~s ql1alid~des. q11e
ll1e adoçaram a vida, e exim1rarn de inql11eta.-
ções : era branco e analfabeto.
Se não fôsse brai1co, nivelar-se-ia à canalha d~t
roça, inais ou menos cabocla, mais Oll menos preta,
sentir-se-ia r>eque110, disposto à obediência. Se não. . , . . ,
fôsse analfabeto consum1r-se-1a em exerc1c1os inu-, .
teis à lavo11ra do algodão e da rnamona, leria roman-
ces e telegran1as da Euroi:>a, alargaria pelo mundo,
à toa, pensamentos improdl1ti·vos.
:W1as como dispunha de olhos azuis, pele clara e
cabelos de gringo, viu com desprêzo as figuras cha-
tas, encarapinhadas, fôscas e oblíq11as dos arredores,
convence11-se de c1ue possl1ia requisitos para clomi-
ná-las e arrogo11-se direitos m11ito Sl1periores aos
delas. E como não esbanjava tempo nas cogitações
distar1tes que os livros s11gerem, observou solícito as
coisas próximas e necessárias, as ql1e se podiam
j1111tar e levar ao mercado.
En1 conseqüência prospero11. Passados alguns
a11os na. pla.ntação, largou a faze11da. e esta.belece11 lo.
ja na. cidade, 011de os 11egócios lhe correrain l.:>em.
Cresceu, enferrujol1 a cara, enclurece11 a voz, roncoll
alto aos indivíd11os comuns que se avizir1havam do
·balcão. Não precisando c11rvar-se a l11na. banca, es- ,
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110 - CitACILIANO RA1vfOS
tragar n vista. em ciJna ele papéis, chegot1 à velhice
sem ll.Sar óct1los, o espinhaço dil:eto como 11m ft1so.
Evidenteme11te ft1giu de obl'igações no sêlo, o
q11e o ísentot1 da chicana. E impossibilitado de
vender a crédito, por não confiar na arte dos guar-
da-livros, sed11zit1 os fregueses que se esq11iva,rarr1
dos 011tros negocia11tes, torciam ca1ninho para evitar
o ca.pital e os j11ros tocaiados em carteiras per,rersas,
r.m bojttclo.s vol11mes de escriturfl,ção.
Constr11it1 11ma ca.sEt vistosa, com frontaria ele
az11lejos, e11cb.e11-a de móveis complicados e gozo11
a existêrtcia. comenclo e bebendo ert1 excesso.
8<1tisfeita.s a.s 11ecessidades fu11damer1tais, ad-
q11irit1 011tras do ordem rrtais elevltda - e vestit1-sc
n.as mell1ores alfaiatarias da capital, lim1)ot1 as
t1r1has, expôs no deelo ltm b1·ilhar1te caro e graúdo,
seguro11 o relógio com e11orme cadeia de 011ro, q11e
Sltía. do bôlso esquerdo do colête e ia merg11lhar no
bôlso direito, exibindo na casimira negra t1n1a c11rva
amru.·ela de grande efeito.
Êsse ap11ro lhe trouxe I!'lodificações interiores :
misturou a rou1:>a, o a.nel e a cadeia às qualidades
q11e lhe tinha.m rendido a fortuna - e sentiu-se
limpo, areado, faisca11te.
.L~S exigências de comt1nicação levaram-no a
escolher algu11s amigos, con·vidá-los para longos jan-
tares, abrir-lhes a al1na, nEirrar-lhes o preço dos
ob;jetos valiosos q11e lhe adorna·van1 a residê11cia e
a pessoa.
Certos b.á.bitos sociais e eco11ômicos o1Jrigaram-
no a ligar-se a tl.IIla secretária diplomada pela. escol~t
normal. Caso11-se com ela e, conseqüentemente,
arra.njo11 apticlão J?ara s11bscrever-se, clesenb.a11do as
·vrvENTES DAS ALA.COAS - 111
letras em cinco n1inutos com labor, rasgando a fôlha,
quebrando a pena.. Ficou por aí, e nunca percebeu o
valor dos símbolos que lhe representavam o nome.
Na verdade submeteu-se ao casamento por causa
dêles. P recisava re1acio11ar-se com o banco, não
queria dei"l{a.r o numerário mofar no cofre estéril.
À fa.lta de miseráveis rabiscos nun1 cheq11e, prejt1í-
zo ele tantos por cento.
, Havia também a perseguição da.s ca.rtas. Q·uan-
do ma1 se precatava, em conversa com visitantes ot1
:fregu.eses, erg11endo à lt1z o dedo e o brill1ante, fa-
zendo tili11tar a corrente de ot1ro, recebia l1m enve-
lope e murcl1ava. Abria-o, chatea(lo, proc11rava ern
todos os bolsos os óct1los inexistentes, fingia exami-
11ar a a11tipática literat11ra, aproxin1ando-a, afas-
tan(lo-a, clesviando-se dos incliscretos, porq1.1e recea-·
va c111e ela estivesse ele calJeça para baixo. Afugen-
tava o portaclor :
- Está bc1n. Depois respo11clo.
liias r1ão elav~i a resposta nt1nca, para não reve-
lar a estranhos a sua insuficiência, e ficava a ma-
tutar 110 que pretendiam dizer-lhe de longe, numa
forma de expressão antinatural e estúpida. Sem se
ter familiarizaclo con1 ela, manejava centenas de
contos en1 be11s de raiz, merca.dorias e papel moeda,
o q11e não sucedia. ao jl1iz, a.o pro1notor e aos escri-
irães, ti1)os i11feriores.
Caso11. - e tôdas as difict1ldades se s11miran1.
Para be1:r1 clizer, tor11011-se pro1)rietário dos conheci-
mentos ela n1ulher. Oo11sidero11-o.s coisas dêle, como
o ])rilhante, a cadeia., o relógio, os i11óveis, os semo-
ventes e os in1óveis.
....:t1111entot1 o vocab1Jlário e co1neçou a 11tilizar
frases desconheciclus, co111 basta.i1te impr·opriedade.
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112 - enAeI LI A N o R A Nf o s
Êsse passatempo de11-ibe sa.tisfação. Lirre do des-
gôsto q11e os bilhetes e as cartas lhe proporciona-
vam, a cader~1eta elo ban~o a engordar no cofre, jul-
go~-se perfeitan1ente feliz e assinou jornais, que à
noite escutou, :f11ma11do o charuto, a pálpebra cer-
rada, gru:ve, erguendo a n1ão esperta, a a1Jrovar, a
desa1Jrovar. O seu j11lgamento e1·a decisivo e enér-
~i~?· Pr~s11mi11-se dono da prosa dos jornais e das
ideias existentes nela.. E manifesto11-se com r11mor
e aparato. '
.. . ~êz discu~·sos, <l~rr~.n1ou-se e1n afirmaç;ões de-
fi~1t1vas, explico11 m1sterios, não cleixo11 e1n polê-
micas nenhl1m. ponto obscuro. Os homens res:pei-
taram-no, elog1::tram-ll1e a inteligêr1cia..
- Como diabo conseg11i11 êle tanto c1inheiro
sem saber l er~
Com certeza l)Ossuía miolos adm.U·áveis. .A
condição c1e analfabeto elevou-o.
:
RECORDAÇÕES DE UMA
INDÚSTRIA N10RTA
E
RA. 11ma vez un1 sertanejo que se chamava
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G·o11veia e se n1a.ntinl1a co1nprando l)eles de
bode na caati11ga, vende11do-as em IJovoações do
i11terior, em· dias de feira. Negócio difícil. Os
armazenistas fixan1 pêso mínimo para a mercado-
ria aproveitável: o que fica aba.ixo é refugo. Em
co11seqiiência. os mat11tos se defendem derramando
chl1mbo miúdo nas orelhas mt1rchas das peles, ta-
pa11do os buracos depois com cêra.
O nosso pequeno comprador aperfeiçoou-se
nesse truque, imaginou outros, conhecell todos os
segredos do ofício, adquiriu tanta habilidade que
r)oderia, segundo afirmavam os tabaréus, esfolar
uma ca.bra viva sem ql1e ela I)ercebesse qt1e estava
sendo esfolada.
O êxito vertiginoso do homein justificou a
malícia cabocla. Sa,iu da capoeira, estabeleceu-se
11a cidade, passou a infligir a criadores e i11terme-
diários ltS regras a ql1e se havia sujeitado e1t1
tempos d11ros. Cresceu ràpidamente, engrossou de-
mais. E co1no, i10 dizer dos roceiros, a, água corre
pa1·a os rios e claí para o mar, tornou-se rio, foi de-
sag11ar na capital, o·ncle se espraiou em excesso e
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114 - GRACILIANO RAMOS
No comércio de exportação, Got1veia fêz dive1·-
sas viagens à E11ropa, hosp eclo11-se em hotéis ele
ltixo, fingill extasiar-se na ópera e conseguiu arra-
nhar duas ou três Jíngu.;;1s necessárias a.o délJito e ao
crédito.
.A f ortu11a repc11tina lhe proporcionot1 inimigos
fortes. Os colegas apertaram-no, a polítiC<.'1. interveio
na briga, interêsses p(1blicos relacionaran1-se con1
melindres de famfiia. Go11veia desacatot1 um cida-
clão poderoso e :fugit1, largand~ be11s aos credores,
qt1e tiveran1 prejl.1ízo de mais de noventa por cento.
.Absolt1t~tmente pelado, foi pla.ntar-se no sertão,
pelado t ambérn, rio 111gar mais triste do m11ndo,
êrmo que só dava cascalho e espinl10, e planejou
aí uma indústria at1daz, qt1ase impossível por lhe
faltar capital e ter o nome estragaclo na liq11idação
horrível. O conhecimento das lí11gt1as e o do1ní11io
q11e exercilt sôbre as vontades <-1lheias forneceram-
lhe os recursos indispensáveis. Associot1-se a. un1
carc~tmi.tr10 e a l11n gring·o, com êsses dois testa.s-c1e-
f erro orga11izou a ra~ão socia.1, in1portol1 rnaq11inis-
n10, cha.n1ou téc11icos e ir1icio11 a fabricação nt1m
an1biente de clara desconfiança! Na ·verdade o
produto dêle, nacional e ca.mbembe, se distanciavê.1
do que vinha nos porões dos transatlânticos, bem
empacotado, bem rot11lado, com larga fama e11tre
os consumidores, r esistente e n2c1,de in Englarid.
Mas isso foi no princí1Jio. Endireitou-se, levantol1
a cabeça e ·.e1n po11cos anos entro11 viole11tame11te no
n1ercado, oferecendo-se por lJI'eço baixo, alarn1a11do
o intr11so considerável, trctde 1·1iarlr,.. O ca,rrascal,
fértil e1n seixos, n1andacaru, .xique-xique, tra11sfor-
mol1-se em jardi1n e pomar, con1 água farta chegada
en1 tl1bos do rio próxi1110. E nl1n1a cachoeira notá-
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VIVENTES DAS ALAGOAS - 115
vel, mencio11acla ~e111pre corn respeito, ad1niraçao..,e
iii6rcia, t11rbinas f ora1n acordar al~t1ns citvalos ua
miinacla qt1e lá d.orrnia o sono dos sec11lo.s.
A 1netade nórdica da firma, tôda escrita em
consoantes, permancce11 longe,. i1a ci~liz~ç~o, em-
bolsando os lucros, ás1::iera, fecha.da, inv1s:vel. ~
parte mericlional, composta de vog~is e maleavcl,
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arrastada para o local da exploraçao, onde ?0111 eia
a toi·ttira~;a, a manejava despõtican;iente e, s1m:1la11-
do escorar-se na moleza e nos arrepios. d~la, estirava
pelos arredores 11n1a at1toridad.e sem 111n1tes..
Arame farpado cercava a fábrica e.a ~11:9- ope-
i·ária. E os age11tes do govêrno, func1011c1.r1os da
prefeitura, soldados de polícia, detinhar:i-se nas can-
celas, porque lá clentro n_ão er an:i- precisos. Est3:va
t11do em orclem, ordem ate excessiva, a.s casas ~br11:1-
do-se e f ecbando-se no hor~rio, os cl~·v.eres c~DJ ug~is
observados com rigor, o cmema e~1b1ndo f1!as pie-
dosas, a.s escolas arrurnand~ na,s .cr1a.nças .11oç~es c?n-
·venie11tes. Apito ele manha, apito ?'º cair da noite,
ii1strumentos e 11essoas c1n roda viva, .t~cl? melho-
i·ando a procura superior à oferta. D ef1n1tiva111e11te
escor1:açada a i11ercadoria trade ·niarlíi.
Nesse ponto sl1rgiram a.1guns st1jeitos louros, de
chapéu alto e fala emperracla,: met~~a1;11-se num auto-
móvel, mergulharam no sertao, d1r1g1ran1-se ~ Go1~­
veia e 1::iretenclera.m, com salamaleques e ra~ocs va-
rias, apoclerar-se da fábrica. ~ão se comb1~aran:·
G·oliveia respondel1 em quatro 1111g11as - na d~le, na
dos visita11tes, i1as dos sócios - q11e a transaçao ~ra
inex.eq11ível. Os tipos louros a.cendera1n os cachilll-
lJos e disseram :
- Ya. Bene. All right. Pois não.
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116 - GRACILIANO RAlvfOS
Em seg11ida voltaran1 à carga, ofereceram soma
exorbitante. Nada obtendo, acomodaram-se no auto-
móvel, sunriram-se e i·egressaram ao cabo de uma se-
mana, agregados a cavalheiros sutis que se interes-
savam no arranjo por patriotismo. Receberam fria-
mente a recusa do carcamano silencioso e do gri11go
invisível e abstrato. E.despediram-se:
- Good-bye. Â rivederci.
}.lfa.s i1ão se revirah.1. Algum te111po depois Gou-
veia recebeu 11m tiro ele emlJosca.da no coração. Fêz-
se o entêrro, cleclan1o·u-se o discurso fúnebre, expe-
diram-se os telegramas necessários, p·ublico11-se a
notícia nos jornais, rezo11-se a missa do sétimo dia,
realizo11-se o inventário e prenderam-se dois cabras
de so1nenos valia. Um te11tou fugir· e morrel1. O
011tro :foi indultado e pe11etrou no funciona.lismo.
Um profundo esquecimento cobri11 Gouveia, a1no1·-
talhou a indústria aparecida com audácia no seTtão,
entre imb11ranas, catingueiras, rabos-de-raposa e
coroas-de-frade. Certa companhia estrangcjra apos-
sou-se das máq11inas, rebentou-as, jogou-as no 1·io. E
os cavalos, despertos por Gou·veia, adormeceram de
nôvo na cachoeira magnífica., celebrada en1 prosa,
imortalizada e1n yerso, apontada com orgulho, sinal
da nossa grandeza.
..
UM PROFETA
E
M Sa.ntana do I 13a11ema, no Estado de .L-.lagoas,
há un1 ser extraordir1ário. 1t um homem tri-
g11eiro, baixo, forte, ele oll1os e cabelos preto~,
nariz levemente rec11rvaclo. Parece ter algumas go-
tas de sc1ngue jude11. Conversei co1n êle meia hora.
Tomei-o a princípio por 11m ind]víduo corn11m, mas
com1Jreendi logo o meu êrro e agt1cei, com atenção,
os ol1vidos e os olhos. Como êle me confessou, pouca
gente o entende.
- Dizem q11e sou maluco, declarou-me, mas é
engano. O que eu sou é profeta.
Sim senhores profeta, 1·aridade nestes tempos
' ' d .que atravessamos. Um cidadão de vaida e imensa,
que pretende, como outros, a~tigos e mode;·n.c:s,
conserta.r tudo, porq11e ti1do esta errado, na op1n1ao
dêle. E na 1ni11ha também. I gnoro os meios que
êle tenciona emp1·egar para corrigir tôdas as iniqli:i-
dades q11e 13t1l11lam neste mt1ndo imperfeito. O qt1e
sei é que se ente11d.e com 1?el'S()Da[~e11s celestes de alta
categoria: fala com a Virgem cliària111e11te e uma
vez por semana com Deus Padre .rl1
odo Podero.so.
Êsses encontros, porém, 11ão se real1za1n de maneira
uniforn1e. Nossa Senhor}:t exterioriza-se, como·cos-
tl1mava fazer há séc11los, de ro11pa azul e nin1bo; o
Padre Eterno aparece, invariàvelmente, por via
s11bjetiva. A 1ilãe de De11s palestra.hun1anizada e
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118 - e R A e ILI A No R A j•,.f os
familiar; da presença elo Ente St1premo o nosso pro-
feta recebe apenas intt1ições l11minosas, que o ind11-
zem a rebelar-se contra as religiões oficiais, a afir-
mar que longe dêle não há salv:~,ção possível, a pregar
o reino do céu, a declamar enfim uma série conside-
rável de novidades.
Comi:>reendi q11e o vide11te nota1ra no meu físico
alg11ma coisa que denu11ciava em n1im um possí1rel
adepto da nova doutrina. Lisonjeado, fiz-lhe várias
perg11ntas, e êle, paternal e solícito, mi11istro11-n1e
ensiname11tos preciosos. Não se eonsidera filho de
Deus : sabe perfeitan1ente qt1e a st1a origen1 é ordi-
nária. 1.VIas, por graça especial elo .r..lém, recebeu o
dom de profetizar e os atribt1tos de llIB Salvador de
segunda classe. P oss11i tôcla a ciência, não a ciência
humana, que é lacunosa e contingente, mas a ciência
di1rina, qt1e... não é lacunosa nem eontinge11te, pen-
so eu. Desconheço as dt1as, infelizmente, e limito-
me a registrar as idéias do homem.
Diz êle que o papa é um ignora.nte, que todos
nós somos ignorantes, que quem desejar aprender
qualq11er coisa deve ir a Santana do I pa11ema. E u
realmente a11rendi po11co, pois a minha compreensão
é fraca e o automóvel esta1rq, à porta, n1as a,qui deixo
a ad·vertência, útil àqueles q11e pretendereiu salva.i~ a
alma e instruir-se.
Presente1ne11te o profeta nutre ·d11as a.mbições :
c1errubar a igreja. local, ou a1)roveitá-la de1Jois ele
expurgada, ca.so lhe seja possível iluminar o vigá-
rio, que está em trevas, e co11verter o chefe do E stado,
grande pecador também.
I nfelizmente, em vinte anos de cavação espiri-
tual o r1osso profeta não conseguit1 fazer un1 prosé-
lito, e isto porq11e entre as massas existe uma crimi-
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VIVENTES DAS ALAGOAS - 119
11osa indiferença pa.ra os assuntos celestes. Vivemos,
efetivamente muito afast:'l.dos do bom caminho.
O resul~do de semelhante procedimento foi o
Ente Su1Jremo encolher-se, 1·essentido, e negai· .aos
homens a.lguns fenôn1e11os i11teressantes q11e. ant1ga-
111ente lhes for11ecia a granel e de graça.  TeJam. Os
milagres tornaram-se raríssimo~. As almas do ou~ro
n111ndo vivem bisonhas, esco11d1das, parece que tem
inêdo de gente. Até os lobiso1nens, vt1lgares outrora,
ficara1n inteira1ne11te invisíveis.
Orn.. n11n1 plai1êta sen1 mila.gres, sem ::tlmas do
011tro m11ndo e sem lobisomen.s, 11m I>rofeta, por
m11ito qt1e tra.balhe, 11ão a.lcança. gra:i;ide coisa. _É
em vão q11e êlé busca o martírio e od.c1a os ql1~ ,nao
acredita111 nêle. Ningt1ém 11oje é capaz de od1a-lo,
e as at1toridades qt1e o deve1'iarn condenar, se a tra-
dição se não tivesse partido, Tiem:se qu.a11d~ o ·vêe~1.
O meu profeta nasceu tarde. Nao chegara, prova-
velinente, a func1ador ele religião.
Mas se chegar. . . Ah 1 Se chegar, creio que
nii1guén1, com j t1stiça, 111c negará ~ título de, ~van­
gelista. Tenhan1 paciê11cia. I sto e uma es1Jec1e ,de
evangelho. Não está. feito de acôrdo con1 os cla.s-
sicos, é certo, n1a.s se eu fôsse imitar os outr?s, os
senhores rne chan1ariam catui·ra e n1e a.tacariam a
sintaxe. É un1 evangelho. Um evarlgelho va.gabun-
do, um evangelho de jornal, um evangelho para ser
lido em boteql1ins. Mas evangelho.
J11lgo q11e não h:i perigo. Et1 e o meu. profeta
desa.parecere1r1os logo. J:Ias se por acaso em 39~0
êle tivesse estát11as nos altares, tôd~1 a gente acharia
o met1 e·vangelho mt1ito direito.
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INÁCIO DA CATINGUEIRA E ROIYIANO
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r, há dias, numa revista a cantoria 011 ' 'martelo''
que, há perto de seter1ta anos, Inácio da Catin-
g11eira teve con1 Rornano, em Patos, na, Paraí-
ba. I11ácio d.a Cating·ue:ir::1, l11n negro, er1:1 a.penas
Ináeio; Romano, pessoa ele família, possui.a um
non1e mais comprido - era F rancisco l~omano de
Teixeira, irmão de Veríssimo Romano, cangaceiro
e poeta, pai de J osué Romano, ta1nbém cantador,
enfim, 11m Romano bem classificado, cl1eio de sufi-
ciência, até com alguns discípulos.
Nessa antiga pendência, de qu.e se espalharam
pelo Nordeste n1uita.s versões, I nácio tratava o outro
por ''meu branco'', declarava-se inferior a êle. Com
imensa bazófia, Ron1ano concordava, achava.que era
assil11 mesmo, e de quando em quando introduzia no
' 'martelo'' uma pala·vra difícil com o intuito evi-
dente de atrapalhar o adversário. O prêto defen-
dia-se a seu modo, torcia o corpo, inclinava-se mo-
desto: '' Se11 Romano, eu só garanto é que ciência e11
não te11ho.''
Essa. ironia, essa cleliciosa malícia negra, não
fêz mossa i1a casca de Francisco Romano, que rece-
beu as alfinetadas como se elas fôssem elogios e no
fi1n da c~tntiga esmagou o i11imigo com t1n1a razoá-
vel q11antidade (le b11rrices, tt1do sem nexo, à-toa :
''Latona, Cibele e Isis, Vulcano, Netuno... '' Jogou
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122 - G R A C I 1. I A N O R A ~1 O S
o disparate em cima do ot1tro e pedit1 a resposta, que
não poclia vii·, nat11ralmente, porque Inácio era anal-
falJcto, nunca ouvil'a falar em semelhantes horrores
e fêz o que devia fazer - amunhecou, entrego11 os
pontos, assim : '' Se11 Ro1nano, dêsse jeito e11 não
posso acornpanl1á-lo. Se desse um 11ó em ''martelo'',
viria etl desatá-lo. ].{as con10 foi em ciência, ca.ntc
só, que eu já me calo.''
Com o entusit1smo dos 011vjntes, Roma.no, ven-
cerlo1·, oferecet1 l11nas IJala.vras d.e consolação ao
r)obrc do i1egro, palavras idiotas que servira1n para
er1terrá-lo.
:[sto aco11tece·u J1á sete11ta anos. E desde er1tã.o,
o 11crói ele P<:.ttos se m11ltiplico11 en1 d.esce11dentes que
nos têm impir1giclo com ab11ndância variantes de Ci-
bele, I sis, Lato11a, Vt1lcano, etc.
JYI11ita gente aceita isso. N a11seada, mas aceita,
pal'a mostrar sabedoria, q11ando todos deviam g1·itar
honestan1ente q11e, tratando-se de ''n1artelo'', Net11-
no e lifinerva não têm cabimento.
I nácio da Catingueira, que hon1e1n ! Foi uma
das fjguras n1ais i11teressa.11tes da literatura brasi-
leira, apesar de não saber ler. Como os seus olhos
lJridados de i1cgro viam as coisa.s ! É certo q11e .te-
mos outros sabidos demais. JYias há uma sabedoria
ala.mbicada que nos tor11a ridíc11los.
O ano r)ussado vi o livro dum st1jeito notá.vel
que declaravEt, com medonhos solecismos, ter siclo
l1n1 óti1no estt1dar1te de gra,:n1ática. Não podia ha-
ver coisa rnais extraordinária.. O cic.ladão a a.firn1ar,
n11mt'. li11gu.ag·em erraclíssima, q11e sabia escrever.
I rnaginei Gl.S c::1r<1s dos outros leitores. Não ·vi
nenl111n1a. Como, po1·ém, ni11gué1n protesto11, j11lgo
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VIVENTES DAS ALAGOAS - 123
c1t1e todos, gramáticos e literatos, engoliram o que
o hon1em disse, exatamente con10 aconteceu em Pa-
tos, há setenta anos.
Que peda11tisn10 e que r,niséria ! Ali bocados
de mitologia, aqui um português arrevesado, preten-
•
cioso e manco.
Não de,remos, co11tudo, perder as e.spera11ças.
Inácio da Catingueira, êss<~ ho11esto conterrâneo do
sr. José .rmérico e do sr. Li11s do Rêgo, êsse i:ipo
direito, ser1sato, extr::ivagância ·viva n11m país de
insensé1to.s, deixot1 descenclentes. Graças a Deus
isto é ver·dade. Será IJreciso mer1cioná-los~ Talvez
não seja, talvez os parentes dêle se ofenda111, porql1e
er1fim, I11ácio era prêto e, se não me e11ga110, solteiro.
Certan1ente m11itos preferem (lesccnder dos Ro-
manos, qt1e sempre foram o,s do11os intelectllais do
Brasil.
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O FATOR ECONôMIC0 NO CANGAÇO
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ca11ga.ço, de qt1e tanto se tô1n ocupado os
jorni~is 1>or causa da morte ele um dos set1s
n1ais notáveis cornponentes, é um fenômeno
})l'Óprio da zona d.e indústria pastoril, no Nardeste.
Sem d11vida, lá existem malfeitores em tôda parte,
mas os que operam na mata, 111gar de agricultura e
repo11so, não são cangaceiros: ordinàriamente são
cabras de confiança de proprietários qt1e, para con-
servar os seus bens e a11111entá-los, precisa1n orga-
nizar defesa armada. Um anacronismo, certamente.
O Nardeste, porén1, é atrasado em demasia, a pro-
priedade aí se mantém pela fôrça, às vêzes cresce
pela fôrça. Êsses pequenos exércitos de potentados
matutos, reprod11ção dos troços q11e defencliam os
castelos dos se11hores :feudais, são sedentários, não
podiam deixar de ser sedentários n11ma região agrí-
cola, e é isto precisamente o que mais os distingue
dos cangaceiros, nômadas em virt11de do regime de
prod11ção na caatinga.
Aí não há o deserto, mas há muito de Lleserto.
Na ca1npina ime11sa., onde se achatam coli11as baixas,
a vegeta.ção espinhosa definha; os i·ios se infiltram
na areia ou formam poços na pedra; aqui e ali sur-
gem bebedouros de água lamacenta; a terra é dura,
torrada, pedi·egosa, varrida consta.nte1nente pelos
redemoinhos.
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126 - G n A e I L I A N o R A Mo s
Nesse meio agressivo os homens e os rebanhos
se dizimam quando há carência de pastagem. Na
verdade a pastage1n de ordinário não finda l)elo
consumo, finda pela estiagem. R arefeita, espalha-
da na planície enorme, ol)riga os ani1nais a percor-
1·er distâncias co11sideráveis para alimenta.r-se. E
os 1)astôres são meio vagabundos. As Sl1as moradas
não oferecem muito miiis cor11odidade q11e as ter1das.
Ê certo que não se tra11sportam, ma.s, simples cons-
tr11ções elo tltipa, sem i·ebôco, sem l~tdrilho, acaça-
padas, a1·rttnjam-se eco11ornic~1n1e11te e em po11cos
dia..s. A g·er1te qt1e nelas vive tern há.bitos patriar-
cais, pelo 111enos em alg11ns lugares ainda se conser-
vam hábitos patriarcais. A residência do cl1efe se
assemell1a às dos mori:tdores próxin1os, q11ase todos
pessoas da mesma família e c111ase todos vaq11eiros.
Notemos q11e a terra aí não está dividida e qt1e
a propriedade consta de casas, algu1n aç11cle, ct1rráis
e gado. Senclo a forragem escassa, a distribt1ição
da terra e as cêrcas tornariam impossível êt 11nica
produção existente.
Un1 fazendeiro rico possui, em geral várias
faze11das, vál'ios cascos de fazenda, como lá se diz,
e q11a11do err1 llTI1Et co1neça·a falta.r ág11a 011 pla.nta,
ml1da-sc para outra. Impossí1rel, portanto, u1r1
amor excessivo à. terra; in1possíveis as violências
praticadas pelos senho1·es de e11ge11J10 <.la rnata con-
tra vizinhos fracos, r)ara tornar-lhes um sítio.
Como a riq11eza é principalmente constit11i<.l.a
po1· animais, o rnaio1~ crime ql1e lá se co11l1ece é o
f urto de gado. A vida humana.., exposta à sêca, à
forr1e, à cobra e à tropa volante, tem valor red11zic.l.o
- e por isso o júri absolve regularmente o assassino.
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VIVENTES DAS ALAGOAS - 127
O lad1·ão de cavalos é que não acha perdão. Em re-
gra não o submet em a julgamento : matam-no. Vi
há muitos anos um serta11ejo que, en1 companhia de
dois filhos bem armados, ti.Ilha viajado l1mas qua-
renta leg11as a pé, Tastejando um dêsses criminosos.
A alg11ém que estranhou semelhante gasto de ener-
gia e tempo, desproporcionado ao valor d11m sen-
deiro, responde11 não ligar in1portância ao prejuízo,
r11as ao desafôro do ladrão, q11e nlerecia llma sl1rra
com n1reta de espingarda. Passados alg11ns dias,
:rea.pa.rece11 cor1d11zindo o animal. Coino, porém, r1ã.o
se l1avia efett1ado ne11h111na prisão, suponl10 q11e a
s11rra de vareta se realizou e a ·vítin1a dela suc111nbi11.'
Êsse rigor explici:i-se n11ma terra de vaq11eiros,
onde o cavalo é o único meio do transporte, absolu.-
tamente inclispensável nas retiradas.
'Tratando-se de ca11gacciros, o procedimento é
diverso : não podendo castigá-los, porque são fortes,
os prop1~ietários às vêzes transigem com êles, coisa
que nenht1m p oderia decentemente fazer com um
ladrão de cavalos. E ssas transações não são deson-
rosa.s, pois os salteadores inspira.m mêdo, respeito,
uma certa adiniração que as cantigas dos violeiros
cultiva.m. O ladrão de cavalos é o inimigo peque110,
que se pode su1)rin1ir . O cangaceiro é o ini1nigo po-
c.leroso, que é i1ecessário agraclar. P aga-se-lhe, por-
tanto, um razoável trib11to e rnanda-se-lhe por inter-
mediário de confia11ça alg11rn ê:..viso útil que o livre
da polícia.
ReaJmente o ba11dido nem sempre <-1.meaça a
propriedade : em alguns casos pode tornar-se t1m
s11stentác11lo dela. Até o comêço dêste século os
chefes de bandos eram em geral pessoas de conside-
ração, homens de boa :fan1ília, perseg11idos por adver-
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128 - e R Ae 1L I A N o R AM o s
sários políticos qt1e êles j11rava.m eliminar. Para
isso necessitavam o apoio de indivíduos que se con-
servavam na legalida.de. Alia.nça.va11tajosa às d11as
lJartes : ganhavam os ba.ndoleiros, q11e obtinham
quartéis e asilos i1a caatinga, e ganhava111 os proprie-
tários, que se fortalecia1n, engrossaram o prestígio
com êsse negócio temeroso. Como os salteadores de
bota. e gra,vata organizavam peqt1e11os ·band.os com-
postos de sujeitos necessitados da- classe baixa, co11-
cluiremos qt1e o cangaço era um fenô111eno social,
agra·vado por motivos de ordem ecor1ômica.
Parece que ::1s coisas se modificaram. Iíoje os
band.oleiros são de ordinário criat11ras nascidas na
canalha, libertas dos patrões qt1e as orientavam, ora
no trabalho do campo, ora nas ltrtas cor1tTa as fôrças
do govêrno. Comparaclos aos antigos, pouco J1ume-
rosos, constitt1em n111ltielão, e tornaram-se m11ito
mais cruéis. É difícil agarrá-los, mas se os agarram;
tratam-nos ele maneira bár·bara, como aco11tecet1 ulti-
mamente na caçada a Lampião, tuna fera mutilada
com ferocidade. Enquanto não os pegam, as perse-
guições alcançam mat11tos inofe11sivos, ql1e, por vin-
gança ou desespêro, avoluma111 os bandos. Assim,
talvez acertemos supo11do ql1e a.tua.ln1ente o cangaço
é um fato de natt1reza econômica, a111pliado por mo-
tivos de ordem social.
O Dr . Alfreclo de 1!Iaia., i11dustrial e político
alagoano, fêz-me h.á dias urr1a. elecla1·ação interessan-
te: afirmou-me q.11e o lJandoleiro Corisco, notável em
dec<:ipítações, é filho do Coronel Emilia110 Ferna.ndes,
neto do Coronel ~fauoel ]1
ernandes da Costa, cidadão
absolutame11te respeitável no município de Viçosa,
em Alagoas. Se .Alf1·edo de ~1aia i1ão está engan4do,
temos aí um caso allmirável: um l1omem ela classe
1
VIVENTES DAS ALAGOAS - 129
domina.nte degradado entre bandoleiros se1n que
para isto haja.m contribuído as perseguições ~ as
inj11stiças comuns i10 Nordeste. É estranho q11e esse
môço de fan1ília te11ha dura11te longos anos servido
sob as orde11s de Virg11lino '.Ferreira, um mulato,
aln1ocrere, analfabeto.
Conheci há tempo o Coronel 1!Ianoel F ernandes
da Costa ·vell10 sist1do, de barbas irr1ponentes, se11hor
' o .de er1ger1ho acredit~ido, urn esteio. que o preJ11-
dicou foi 1;1 religião, ou antes a falta de religião: ti-
nha era u1n terrível fa.na,tis1110, t1ma extren1a vene-
racão ao Padre Cícero do J'uàzeiro. Vestia-se de
co;.onel do exército, fardava os filhos de oficiais do
exército, a cabroeira do engenho oc11pava os postos
subalternos e compl111ha a soldl:1desca. Engalanado,
armado, acompar1hado, rnontado nu1n cavalo fogoso,
o Coronel 11anoel Fernandes encaminhava-se uma
vez por ano ao J t1àzeiro, ao so1n de instr11me11tos em
que músicos, também fardados, sopravam dobrados
marciais. Gastot1 nisso a fortuna. Como Juàzeiro
fica a umas ce111 légt1as de Viçosa, ou mais, as des-
pesas eran1 graúdas - e o Coronel ~fanoel F erna.n-
des a.rruinou-se. E aí está o neto, rapaz de coragem,
com estudos en1 colégios, seguindo as lições de
Lampião e decepa.ndo cabeças.
Na evolução do cangaço notamos, pois, três
fases: a pri11cípio rnanda·vam os grandes, os con-
dottieri que se entendiam bem com os prop1·ietários
e às vêzes se p1111ba1n a serviço dêles ; depois a massa
a11ô11ima da capa11gada crescet1 e livremente esco-
lheu mandões entre os seus membros; afinal vemos
i11(livíd11os que vêm de cima rebaixarem-se, mistu-
rarem-se à multiclão criminosa e dela en1ergirem de
l'epente, dirigindo os companheiros, con10 Co1·isco.
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130 - e R A e I L 1A N o R A !Y1 o s
E ssa den1ocratização do cangaço foi provàvel-
mente determinada pelo awnento da popt1lação
numa te1·ra demasiado pobre, q11e en1 alg1111s luga-
r es cheg·a a ter perto de cinqi.ienta habitantes por
quilômetr o quadra.do. A gente mal pode lá virer.
I sto nos inostra porq11e, não existinclo no resto elo
país bandos de salteadores, o q11e é lisonjeiro, tên1
êles st1rgido e cresciclo asst1stadoramer1te no Nor-
deste. '
Na zo11a áricla há n1atutos c1ue, seg11ndo ap~­
recem 011 r1ão aparecem ~1s chttvas, ora se d.edicam
a misteres p~icíficos, ora adere111 aos gr11pos de lJan-
doleiros, 011de se tornam, por necessidade, cri1ni-
11osos medíocres. Ern 1926, penetra11do e1n Alagoas,
Lampião demoro11-se uma sen1a.na no i1111nicípio de
Palmeira dos I ndios, fronteira do se1'tão. P er11oi-
to11 em casa d111n fazendeiro e, camar ada, para i1ão
comprometê-lo com a polícia, q11ebro11 duas cadeiras
e matou 11ma novilha. Ao r etir ar-se, o proprietário
deu-lhe por guia um vaqueiro q11e teve a má sort~
de passar naqt1ele momento diante da casa. Metido
no bando, êsse pobre diabo encontrou nêle algL1ns
conhecidos ela "1
izinhança, qt1e lhe p ec.liram notícias
de arnigos e pa.re11tes, mandaram recados e dinheiro
para as famílias, ali residentes.
U1n bando de car1gaceiros é coisa qllO sc1nprc
se renova. O de Lampião tin}1a r1esse tempo co11to
e vinte homer1s, n1as ia largando pelos camin11os ele-
r.ner1tos cansé1dos e angaria11do novos adeptos. Ao
chegar a Mossoró, r10 Rio Grande do Norte, contava
cerca de d11zentos. Aí houve tiroteio forte, ele que
resultou a morte de Ja.raraca, e a companhia se dis-
solveu, para reorganizar-se meses depois.
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".
VIVENTES DAS ALAGOAS - 131
E ssas terríveis q11adrilhas, qt1e ultimamente se
têm multiplicado, não ence1'r am, pois, todos os
salteadores q11e a.fligem o Nordeste : é preciso con-
siderá-las como escolas n,mbt1lantes, onde, em época
de sêca, se vão exer citar. os sertanejos famintos. A
edl1cação r eaJn1ente não os expõe a grande perigo.
E1n primeiro l11gar é c.lifícil urna povoação atacada
oferecer r esistêr1cia ; clepois tts lutas contra as fô1'ças
do govêrno são raras, porqt1c de ordi11ário os oficiais
de polícia., den1asiado prt1dentes, evita1n choqt1es de-
sagi0aclá.veis; afinal, como só os chefes, co111 fotogra-
fias e i1or11es nos jornais, sã.o ele fato proct1rados, a
tropa., a 111ultidão rnn.l pa.ga e se1n glória., pode, con1
a ,rindá das trovoadas, desertar imp11ne1nente e vol-
tar às suas oc11pações de orc.1em, até '}Ue chegue de
nô1ro a necessidade de bandear-se.
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LAMPIÃO
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AJ'>IPIÃO nascel1 há ml1itos anos, em todos os
Estado.s d.o N'ordeste. Não :falo, está. cla.ro, i10
indivíduo :Lar11pião, q.11e não poderia. n~tscer en1
m11itos 111gares e é pot1co :i11tcress<1nte. Pela des-
crição p11blicada verr1os per:Eeitarr1er1te que o saJtea-
dor cafuso é um !1er6i de arribação basta11te
cl1infrim. Zaro]J10, corcuncla, chan1boq11eiro, dá iln-
- ,
pressao n1a.
Refiro-n1e ao la1npio11isn10, e 11as linhas que se
seguem é conveniente que o leitor não veja alusões
a 11m homem só.
Lampião nascet1, pois, há. muito anos, mas está
môço e de boa saúde. Não é 1rerdade qt1e seja doente
elos olhos : tem, pelo contrári o, excelente 11ista.
É analfabeto. Não foi, porém, a ignorâ.ncia que
o le1-'ou a abraçar a profissão que exerce.
No comêço da vida .sofreu n11merosas injusti-
ças e suportou muito empur1·ão. Arrastou a enx:ada,
de sol a. sol, gariliando dez tostões por dia, e . o
ins1)etor de q11arteirão, qua11do se aborrecia dêle,
~irnar1·ava-o e entregava-o a 11ma tropa.de cachimbos,
que o co11dt1zia para a cadeia da vila. A.í êle a.giien-
tava uma surra de vergall10 ele t.>oi e clormia com o
I)é no tronco.
As injustiças e os maus tratos foram grandes,
mas não clesenca.n1i11haram La.1n13ião. Êle é resigna-
-.
134 - e R A e 1L 1A N o R A r-,,1o s
do, sabe qt1e a vontade do coronel tem fôrça de lei e
pensa que apanhar do govêrno não é desfeita.
O q11e transformou Lampiã.o em bêsta-fera foi
a necessidade ele viver. Enq11t.tnto possuía um boca-
d? de farinl1a e rapad11ra, tra.ball1011. lVIas q11ando
v111 o alastrado 1nor rer e em redor elos bebeclo11ros se-
cos o ga~o ma~tiga11do ossos, q11anelo já não 11avia no
mato raiz de 1mbt1 ou ca1·oço ele m11c11nã pôs o cba-
, d 'pet1 e co~ro, o patuá coJ)1 orações da cabra pTeta,
tomo11 o rifle e ganho11 a capoeira. Lá está como bi-
cJ10 montado.
Co11he?idos <lêle, 7elhos, s11lJira1n para o i cre ;
outros, mais moços d.esceram IJara São P a11lo. :IDle
não: foi ao Juàzeiro, confesso11-se ao Padre Cícero
pedi11 a be11ção a Nossa Senhora e en.trou a n1ata1· ~
r?t1bar. É :iatural. q11e proc11re o soldado qi1e lhe
pisava uo JJe, na feira, o delega.tlo q11e 1}1e dava pa.n-
cada, o pr?n1otor que o denuncio11, o pro1Jrietário
q11e lhe deixava a f amília em jej11m.
Às ''.êzes lltiliza 011tras vítin1as. I sto se dá por-
que p1·ec1sa conservar sempre vivo o sentimento de
terror q11e se inspira e que é a mais eficaz das suas
armas. <
Quein1a as faze11das. E ama, apressado um ban-
~o de mt1lhere.'3. Horrível. 1:1as certas violê~cias, qt1e
indignarn criatt1r·as civilizadas, não impressionam
quem vive perto da natureza. Algt1mas an1antes de
Lampião se envergonba.rr1, realn1ente, e finam-se de
cabeçit baixa : ot1tras, porém, ficarr1 até satisfeitas
com a preferência e com os ar1éis ele rr1içar1ga que
recebem.
L ampião é cruel. Natt1ralmente. Se êle não se
pou1)a, como pouparia os i11imigos que lhe caem en-
tre as garras~ Marchas infinitas, sern destino, fo-
VIVENTES DAS ALAGOAS - 135
ine, sêde, sono curto nas brenhas, longe dos compa-
nheiros, porqt1e a traição vigia... E de vez em q11an-
do a necessidaele de sapeca.I' tlDl amigo que deita o
pé adia.nte da mão...
Não poclemos razoà.velmente esperar qt1e êle
i:>roceda como os que têm ordenado, os q11e depositam
dinheiro 110 banco, os qt10 escrevem em j or11ais e os
q,11e fazem discl1rsos. Qi1a11elo a polícia o apanhar,
êle estará meticlo i111n1a toca, ferido, con1endo t1m~i
cascavel a.inda viva.
Como somos d.iferentes clêle 1 l>erden1os a co-
rage1n e per<iemos a co11fiança q11e tír1ha,mos en1 nós.
'11
re111en1os diante elos 1>rofessôres, diante dos cl1efes
e dia11te dos jornais ; e se professôres, chefes e jor-
11a.is adoecen1 do fígado, não dormi1nos. Tufa.reames
1)<1sso e depois fica1nos err1 posição de sentido. Sa-
bemos regula.rme11te: temos o f rancês para os ro-
mances, 11rnas l)alavras inglêsas para o ci11ema,
outras coisas e1nprestadas.
Apesar de tudo, muita,s vêzcs sentimos vergonha
da nossa cleca.dência. Efetivamente 1ralen1os pouco.
O que nos consola é a idéia de que no interior
existem baneliclos como Lampião. Quando clescobrir-
mos o Brasil, .êles serão a.proveitados.
E já agora nos trazem, em momentos de otimis-
mo, a esperança ele que não i1os conservaremos sem-
pre inúteis.
Afinal somos da 1nesn1a raça. Ot1 das n1esmas
ra.ças.
É possível, pois, q11e haja em nós, esco11didos, a1-
g1111s vestígios ela energia de J...Jampião. 'r·alvez a
e11ergia. esteja apenas ador1necida, abafada pela ver-
minose e pelos adjetivos idiotas qt1e nos e11sinaram
na escola.
,
. .
PROFESSôRES 1~1PROVISADOS
e
ONHECI t1m st1jeito qt1e dispu11ha de vasto pa-
lavrcaclo e ensinava. gra111á.tica. Ensina·va por
u111 processo er1genhoso. Re1111ida a classe pu-
11l1a os óc11los, alJria um livro, percorria a p~ígina de
alto a báixo corn o índice, gargarejara 111nas coisas
qt1e ni11gué111 compreendia e terminava :
- Isso não tem importância. Vamos para dian-
te. Tragam-me o adjetivo arnanhã.
No outro dia cena igual : os mesmos óculos, o
mesmo lirro a.berto, o mesmo gesto com o fura-bolos
amarelo de cigarro, omesmo gargarejo, a mesma con-
clusão:
- Adjeti''º é isso qt1e vocês sal)em. Não interes-
sa. P ara a frente 1 Deco1·e1n o pronon1e.
A propósito de análise dissertava. co111 vigor sô-
bre a dinastia dos Sugs : falavam-ll1e ein concordân-
cia e êle ex.plicava metafísica. Ao ealJo de algt1ns anos
excet11ando g1·a.n1ática, os al11nos sal)ian1 tt1do. llou-
''e entre êles con1 o correr do tem·po, agric11ltores, jor-
nalistas, padres, ~tdvogados, f11:niJeiros e poetas. Sem-
1)re ignorara.r11 a discipli11a.q11e o homem professava.
Est~t história pode ser exagêro ou 111e11tira. 1fa.s
ningué1n a desmancha, st1stento-a - e ela permaneee.
Ifá 111t1itas verdades assim, inco11ct1ssas i)or falta de
qt1em as desn1antele.
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138 - G R A C I L I A N O R r'. r.1 O S •
Ome11 conto será aceito sem difict1ldacle, porque,
se não é rigorosa.mente verdadeir o, é pelo menos ve-
rossímil. Realmente êsse professor que, para livrar-
se d11m obstác11lo, mist11ra alhos com bt1galhos, rnete
os pés pelas mãos, deixá os ra1Jazes em jej111n, r1ão
é dag11i i1em dali: é de quase tôdas as cidades do inte-
rior. l1:úsico de sete instrun1entos, criat11ra fatiga.da,
depois ele exercer dez ofícios sem se fixar en1 i1e-
nh11m, esbarra co1n un1 dileµi.a temeroso - qt1ei1nar
os iniolos ou alJrir 11n1a escola.
Se estira a ca11ela, o prej11ízo é pec1ue110 : se se
a.garra à seg·1111cla hipótese, rem a lume, i1assados
meses, um jornalzi11ho cl1eio de so11etos.
Não pretende consertar nada. O qt1e Det1s
Nosso Ser1l1or fêz, ou alguém por êle, deve estar cer-
to. Limito-me a. expor t1m fato. E pa,ra que me
acredite1n, confesso, com vergonha., (1t1e so11 s11speit.o.
P or i11otivo de ordem econômica, resolvi rim dia,
a.exemplo de tôda gente, mi11istrar aos outros alg11ns
conhecimentos proveitosos a mim. Não n1e arrisquei
a preparar oleiros ou sapa.teiros pois ninguém toma-
ria a sério sapa,to ot1 pa11ela que eu fizesse. P1·ocurei
matéria exótica, <le verificação difícil. I1nagi11ando,
sem grande esfôrço que na I tália existia ttma língua,
pedi catálogos ao Gar11ier e dispus-1ne r esolutamente
a estropear o italiano co111 a ajuda. de Del1s. A11t1n-
ciei : ''Italiano rá1)ido e barato a cinco n1il-1·éis por
calJeça., mensalme11te. Aproveitem. I.1ições em todos
os dia.s úteis e in'l1teis. Tempo é dinl1eiro co1110 diz
o gringo.''
- I sto deve .ser fácil, pensei. É só arrt1mar no
fim das palavras one ou i1ie. De estrangeiro cá na
terr~i ni11gt1ém entende. E se aparecer por aí llm car-
ca1nano, adoeço e perco a fala.
• •
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1 •
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VIVENTES DAS ALAGOAS - 139
P ois, senhores, não me dei mal. Matricularam-
se cêrca de trinta idiotas : comecei a trabalhar com
cnero-ia e confia11ça. Ainda estaria trabalhando, se
dois
0
alunos, finda a lJrimcira quinzena, não entras-
sem em concorrê11cia comigo, deslealn1ente, funda.ndo
escolas que it.alia11izaran1 tôda a localidade.
Creio que os professôres sertanejos são co1n.dife-
renças pol1co ser1síveis, ir1divíd11os como e:1. Ens11;am
antes de aprenderer11. ''11
alvez fôsse ina1s razoavel
aprender· parlt ensiri:1.r. 1ifas poderei e11 censl11:á-los~
Não decerto. Todos precisamos viver. E deseJamos,
' - pi1at11ralme11te aparentar o q11e nao somos. or q11e
é que e~to11 a. redigir estas niq11ices~ Por que m 'as
J)ediram~ Or~i essa.! Nã.o seria melhor declarar
francamente e b.011estamente qt1e não sei escrever~
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VIRGULINO
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Á clias surg·i11 i:>or êl.Í run. telegrama a a.i1l111ciar
q11e or11e11 vizin1.1oVirgt1]ir10 Ferreira,La1ni:>ião
tinha encerrado a st1a carreira, gasto pel<:i t l.I-
berculose, deitado 11uma ca1na.,110 interior ele Sergipe.
11as a i1otícia nã.o se confir111ou - e a polícia do
Nardeste co11ti1111ará a perseguir o ba11dido, 1Jrovà-
vel111e11te o agarra.r<i de s11rprêsa e n1ostrarii 11os jor-
11ais a calJeça clêle se1Jarada elo corpo. Seria, de fato
be111 triste q11e a 11u11içã.o clu111 i11c,livídt10 tã.o J1ocivo
fôsse realizada por i1111a d.oença. Ficam, lJois, sem
efeito os ligeiros con1entéírios i11oportnnos e apres-
saclos, q11e li.1straran1 o ca1icircl.
Não é a l)l'Ín1eira vez Cttie Lan11)ião tem 111orrido.
E sempre q11e isto se dá as 11otas co1n q11e se estira. o
acontecin1e11to clet11rpam a fi.gnra elo 1Jr11to e mani-
festan1 a ingên11a certe7.a ele qlLC tt1c1o vai mell1orar
no .sertão. O zaroll10 se 1·omantizu, e11feita-se co111 a.l-
g111nas qt1aliclacles q11e .se atl'il:>11ía.x.n a.os ca11gaceiros
a.ntigos, tor11êt.-se ge11eroso, clesma11cl1a ir1j11stiças,
castiga 011 recornpens:..1, ei1fir11 i11Jarece inteiramente
r.nodificêtclo.
Es1)erar11os e dcseja111os longos anos essa i11orte
- e ao terl'l'.lOs co11heci1ne11to clela, solta111os 11111 st1s-
piro de a.lívio a.q11e se j1"111ta l11r1a espécie de gra.tidã.o.
Teria sido i11elho1·, se1r1 cli'1vidél., qlle o i11aJfeitor 11ou-
·vesse a.cahado 11as llnlias da políeia. Não aca.bou as-
~~~=~::lll~~,~ • - "-~·•·"'!'""'*-":..:._.~~~·r:'):=-•"""c·,_.-•~•··~~.-.-------- i;;;;;;=.____:·_:•_ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _,_ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _.......-..i
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142 - G R AC ILI A r-,1O R A lvf O S
sim, desgraçadamente, mas de qualquer fol'ma o Nor-
deste se livro11 dum pesadelo.
Repousa.mos alg11m tempo nesse engano, até que
Lampião ressurge e prossegue nas st1as façanhas.
I nútil agredi-lo ou emprestar-lhe vi1·tudes que êle
não entencle, adulá-lo, fazê-lo combater os gra11des,
_proteger os pequenos, casar dor1zelas comprometidas.
Lan1pião não se corrigirá por isso :permanecerá mat1
de todo, ir1se11sível ~ balas, ao ela.mor :público e aos
elog·ios, llrna (las raras coisas cornpleta,s q11e existem
ne.ste país.
T11do aqui é meio têrn10, pouco 1nais 011 menos,
sornos t11na gente ele tra11sigências, c1va11ço.s e recuos.
fioje aqui, an1anhã ali - depois ele 1.1ma11hã11en1 sabe-
mos 011de haveremos de ficar, como h.averen1os de
estar. AlJastardamo-nos ta11to q11e já ne1n compreen-
demos êsse patife de caráter e inadvertidan1entc ll1e
penduramos na alma sentimentos cava:lheirescos que
foram utilizados como a.tributos de out1·os malfeito-
res.
Deixemos isso, a.presentemos o bancloleiro nor-
destino como é reahnente, uma bêsta-fera. Há pou-
co mais de llnl ano, em' cor1dições bem desa.gradáveis,
travei conheci~ento com 11m discípulo dêle, l1rn su-
jeito imensamente forte, alo11rado, vermell1aço, de
ôlho ma11. Êsse personagernme declarOll q11e tôda.s as
vêzes qu.e llraticava llm homicíclio abria ~i carótida
da víti1n1:i e bebia l1n1 pouco de sang11e. Anda por
aí espall1ada. a 1011ga série das barba,ridades corr1eti-
<.ln.s i)elo terrível salteador, mas ess.~ co11fissão rol11n-
tária durr1 companheiro dêle surp1·eende11-rne.
I sso prej11dica basta11te o velho culto do herói,
do homern qtte lisonjeamos para c1t1e êle r1ão 11os faça
mal.
'
__.. ,
VIVENTES DAS ALAGOAS - 143
L a1n1Jião se conservará ruim. E não morrerá tão
cedo. A vida no Nordeste se torno11 de1!1asiado ás-
pera, em vão esperare~os o,.. desaparecrmento das
mo11str11osidades resumidas nele.
Finaram-se os patriarcas sertanejos que .'estiam
algodão e cot1ro cr11, moravam em casas negras sem
r ebôco, tinham necessidades red11zida~ e soletrav~m
n1al. No i:>átio da. fazer1c1a l1r1s cangaceiros b?nachoes
preguiçava1r1. E nos arredores grupos esquivos ron-
da,varn, esco11dendo-se elos volantes. De longe e~ lon-
ge 111n en1issário chegava à proprieda.de e recerJ1a do
senhor l1rna contribt1ição módica.
'Tt1do ao·ora mt1dol1. O seTtão po,roou-se e con-
ti11l1a po1)re~ o tralJalho é precário e rudimenta~, 3:s
sêcas fazem estragos ime11sos. Os ba11dos de cr1n11-
11osos, qt1e no l)l'i11cípio do séc11lo se co~1)_i1nham ele
oito ou dez pessoas, crescera1n e 1nult1pl1caram-se,
já.a.lg11ns chega,ram a te1· duze11tos.home11s. ~luta ~e
agravou, as rela~ões,en~re faze~1d~1ros eba.ndidos nao
poderian1 ser hoJe face1s e runave1s como eram.
J esuíno BrilJ1ante é11ma figt1ra le11dária ~ re1no-
ta, o próprio Antônio Silvino envelheceu muito.
Resta-nos L ampião, q11e viverá longos anos e
provàvelmente vai ficar pior. De qt1ando em ql1a11do
11oticia-se a morte dêlc com espalhafato. Como ~e
se i1oticia.sse a morte da sêca e da, miséria. Ingenui-
dade.
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I
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1
CABEÇAS
U.i.NDO, 11á a.1gt11n ten1po, o te11ente Bezerra
de11 cabo de La.n1pião e se dirigi11 trit1ufante
a l'Iaceió, condt1zi11do t1m~1 bela coleção de
cabeças, os sertanejos de Sar1tana do Ipanema re-
ceberam-no com festas - e o herói fôz t1rn discurso.
Os jornais não p11blicaram essa oração noticiada
nos te.legramas : sabemos, porém, qt1e o bra.:vo oficial
cleclarot1 o ca.ngaço defir1itiva1nentc n1orto, j11ízo im-
IJ1·11dente q11e não devia ser transmitido.
T emos aí un1 sinal da trapa111ada, da confusão
reinante, confusão que a i1nprensa agravêl. de manei-
ra insensa.ta.
Um jornalista 1ne11 a1nigo foi há dias e11trevis-
tar certa môça q11e de um mome11to pttra 011tro se
l1a·via torna.elo i1otável, em conscqi.iê11cia de t1111 con-
c111·so de beleza, creio et1. Palestrot1com ela meia hora
e, feitas vá.rias perg11ntas bastante indiscretas, pe-
dit1-lhe q11e se ma11ifestasse a respeito de literatt1ra.
Pegada de SL1rprêsa., a mulherzinha falot1 sen1 e11tu-
sia,smo da Escrciva Isaura, mas ·vi11 nt11na revista. a
sua resposta au111entada com i1ma lista de i·on1ances
desconhecidos, q11e na.t11ralme11te comprot1 depois e
le·u, cochila11c1o e boceja11do, pa.1·a. se ~trmar contra
i1ôvo a.ssalto.
Dêsse n1odo se orgar1iza1n n1uitas reputações.
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146 - G nA e I L l A No n A lvf o s
Lo11ge de n1i1n a idéia de cerisurar o meu a1nigo
jornaljsta e a popt1lação de Sa.ntana do I panema,
que aclamou o tenente. O repórter não tinha lnotivo
para julgar a môça elo conct1rso ignorante de letras,
embora fôsse mais razoável interrogá-la sôbre pó de
arroz, cre1ne, 'roi1ge e outros ingredientes necessários
à beleza.
Também não p odemos co11siderar o tener1to :Be-
zerra incapaz de in1provisar disc11rsos dece11tcs. Jí:
•possível até qt1e êle seja lim ~timo orltdor : tem bo::1
:f.igt1ra, ·voz agradável, e sorri ir1ostranclo t1rn dente de
011ro q.ue ll1e enfeita a bôca.. Oon1 essits qualidacles
êle pode te1·-se exercitaclo em deitar falações }Jlttrió-
tic~ts aos camarê1dê1S rias horas q11e lhe cleixa.ram os
tral:>a.ll1os da caserna. É lícito, }JOré1r1, recea.rmos
qt1e o vaJer1te oficial i1ão se tenh1:t especia.liza.clo nis-
so e qt1e a s11a are11g·a J1aja fa.lhado. P elas 11otícic1s
aql1i rcccl:>idas, sa])emos que o te11ente Bezerra n1a-
11eja con1 proficiência a metral11adora e é perito na
arte <le cortar cabeças, i1a verdade bem difíceis. Em
Alago~ts, como em outros lugares, há u1na quantidade
regular de homens loqtla.zes q11e falam horas sen1
dizer nada, mas nenhum dêles se avent11ra a mergu-
lhar no sertão e arma,r emboscada com o allxílio de
coiteiros, negócio 1)erig·o_so; r1enhum aspirou. à ho11-
ra ele clec~tpitar o próximo. PoT que e11tão o brioso
a.g·ente da ordem gasta ener·gia nt1rna cor1cor1·êr1cia
llesleal, qt1anclo melhor seria declicar-se inteiramen-
te à s11a profissã.o~ 'l1
alvez o tenente Bezer.ra ainda.
p1·ecise cortar mt1itas C[tbeça.s, qt1e sc~rã.o rneclidas cui-
dadosan1er1te, como ::is onze da prirr1eira série. O sc·u
prestígio crescerá., o tener1te Bezerra, q11e já é gran-
de, ficará eno1·me.
VIVENTES D:.S ALAGOAS - 147
O discurso é qt1e destoa : enxergaT?os 1:êle.,u::ia
, . d ·ust1'ficação como nos conceitos l1te1a11oses1:>cc1e e J 1
da môça. .
Na opinião de alguns leitores ex1gen~s, o ~0~1-
Cl11·so de beleza era uma tolice. Mas lhoeJr?ren~;~i~
. t d f. conversaT com a IDll
arranJa u ?: .1nge que ela se torno11 interessante,
me11te nos insinua · . as bem feitas,
não i1penas por ter bonitos olhosde pe·rnL . do R êgo.
h os romances o sr · rns .
n1as por co:i ec~r ' blico a 11ma parte n1t1ito ·Jt 11n1a, satisfaça.o ao pu ' · ·
recl11zida do pí1lJlico. . ,
Por outro lado existem pessoa,s den:;iasiado sbensi-
. d f i·ografi·:i de ca ecas· es"i·remece1n ven o a. o ' ·e. 3
·veis q11e · , 't mn ex-
"1 .• d corpos EsstS pessoas 11eccss1 a.ln 11 .'.
J.Ora os · , .. é barbaridade.
1. - Cortar cabeças ne1n semi:>rc ,
1) icaçao. , . d·scurso e bar-
Cortá-las no i11terior da Afr1ca, e sem i ' h d
1 t . mas na Europa, a mac a. o
lJH,rida.d~, na~~ra ~el~ ~~rbarjdaclc. O discurso ?ºs
e c?m.d1sc~r:sÁ1~~~a.~ha.. Claro que ainda prec1sa.-
a.proximda • a ouco pa.ra o'hegar lá, 111as vamos
lllos an ar u111 p . D us
progredindo, não somos bárbaros, graças a e .
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CORISCO
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i1otícia da. morte dêsse tipo qt1ase pa.ssou des-
pe:rcelJida.: st1rgi11 i1a }Jrimeira :página, em tele-
gr~Lma, e11colheu.-se de11ois nas outras fôlhas,
:roi. 111ing11a11clo e en1 po11co tempo desa11arece11. Ha-
vin.coisa in1portante 110 jor11al, a gt1erra da Euro1Ja ;
11ü.o11os interessa.va 11m ca11ga.ceiro nordestino, lJalea-
<lo e decaJ)Íta.do e111 conseqiiêr1cia.de nun1erosas estre-
11olias.
Lan1pião teve um i1ecrológico razoável, mas
l1a1111>iã.oera clJefe abalizado, gozava de enorme pres-
i·ígio e perdeu a cabeça antes da, gt1erra.
Corisco, figura secundária, não criou Teputação
- e finou-se qt1aseinédito. F oi 11n 1 peq11eno mo11stro.
f)o11tudo, se a.s circt1nstâncias o ajt1dassem, êle seria
l1oje t1ma criattira normal e necessária. Branco e
lou.ro, com }Jai :rernecliado e avô rico, senhor de vários
c11genhos, devia acal1ar nat11ralmente, joganclo ga-
mão r1t1n1a 1>eqt1e11a cidacle do Nordeste, à porta da
:f'nrn1áeia, chateado por filJ10.s brancos e lot1ros.
Não se a.cornocloi.1 a. isso. Na. escola prin1ál'ia fêz
bagllnças, inclispôs-se com 011tros alunos n1ais ricos
qt1e êle e, não podendo cl1eíiá-los, passol1-se lJara o
gl'llJ)O ela i)o11ta da, rt1a e exil)ÍU autoridade. Não
upre11deu coisa.nenl1t1ma. Re1neticlo para t1m colégio
ela capital, foi inacessível, violento e brt1to.
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150 - G R A C I L I A N O R A l1 O S
Preguiça11do, se111 esfôrço, faria os exames, e11-
t1·aria na fact1ldade e seria pro1notor. Aías Corisco
não desejava ser promotor 110 município 011de o avô,
o coronel Fernandes, senhor de engenhos exibira as
suas lor1gas barbas pTestigiosas.
A t1si11a tinha comido o ei1genho. E, c11tre Sll-
jeitar-se ao gri11go, que manc1ava na usina, e o·becle-
cer ao negro c1evoto do Padre Cícero, Corisco i:>refe-
ri11 êste. Largou a família, os i·estos de granc1eza im-
prestável, amarrou a cartt11::heira à ci11t11ra e étndou
muitos anos, da Bahia ao Ceará, pratica11do l.1orro-
res.
Foi 111n desclassifica.do, t11n inclivícl110 q,11e prir1-
cipiando na orclem, na fa.1níli<1, n::1 religião, vi11 de re-
pente isso t11do falhar. De nacla lhe servira.m os
olJ1os az11is, a pele lJranca, as barba.s do a.vô, 1011gas
e res1Jeitáveis, e as do pai, menores, 111as ai11cla assin1
dignas de respeito.
Corisco não possui barbas 11em virtude. · Se ti-
vesse permanecido em cima, acataria llm cer to núme-
ro de coisas sérias, tomaria en1 considera.ção os do-
mingos, as festas ele guarda, a honra das do11zelas.
Fora da socieda.de, metido no mato como 11m lJicho,
sem cale11dário, e sem mt1lher,·desprezo11i1oções rijas
e antigas. S11bmeteu-se à lei ela necessidacle. P assOll
anos embrenl1ado na cà~itinga, s11jo, farr1i11to, seflcn-
to, com llm rifle a tiracolo, defendendo-se e ataca.rido,
per:feita1ne11te bicho.
Está morto, graça,s a Deus. O Noreleste livro11-se
dessa figu.ra sinistra. Um bra.nco deg·e11era,do. Há
por lá m11itos brancos deg·enerados pela. n1iséria.. Te-
mos indi'víd11os qt1e estão muito eru cirr1a, outros que
estão r11uito em}Ja.ixo. Corisco estava no meio. E des-
ceu, obrigara.m-no a descer. Que aco11tecerá depois ~
.. ~ . ,,.. ..., ....... - -··- --; e -~
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DOIS C.>.NGAÇOS
Frn:r..:r.ANDO · há dias que as violências pr~ti-
A cadas pela.s fôrças volantes co~tran;atutos in-
defesos leva.1n ao ca11gaço muitos deles, avan-
cei qlte as perseg11ições e as injustiç~s eram apenas
11n1a das ca·usas do mal, talvez a mais fraca. R.eal-
n1e11te, injustiças e perscg11ições há en1 tôd~ a parte,
sem que os ofendidos se resolvam a orga11izar ban-
dos como os qt1e infestam o Nordeste.
•
Terão as pessoas dos outros 111gares i:ienos ~1gor
que os sertanejos~ P~uco prov_ável. Se nao re~lizam
essas ações que arrepiam os leitores dos telegiamas,
é qtie podem manifestar o seu des:ontcnta:nento de
maneiras diversas, e as monstruosidades sao d~sne­
cessárias. É possível até q11e não precisem manifes-
tar desconte11tamento, caso algt~Irl:ª v~ntagem n~u­
tralize as perseguições e as lDJUSt1ç~s: colheita
regtilar, salário mediano, a ce1~teza _enfim de poder
existir, embora n1al. I sso no interior do Nordeste
é in1possível.
Com a devastação das n1atas, o deserto cresce;
os rios correm dt1rante alg1ins meses, q11a.ndo c~egam
as trovoadas; a célebre fecundidade da ~erra e lima
frase feita, dessas que e1nbalaram, e ainda emlJa-
Jan1 o otimismo nacional, teimoso e cego. Na ver-
clad~ a terra, excetuando-se a faixa do litoral, é bem
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152 - G I{ A C l L 1A N O R A rvf O S
ruim, alimenta mal a gente 11un1erosa qt1e l<í se
aperta.
Só o Estado de Alagoas, pobre e pequeno, com
orçamento de uma dúzia de mil contos, tem mais de
um milhão de habitantes, o qt1e lhe dá qua.se ci11q'iie11-
ta i11divídt1os por qt1ilômetro qt1ae1rado. Se no resto
do país existisse igual densidade teríamos no B1'asil
i1rna população como a da China.
Nesse meio exausto e repleto o ca11gaço é 11oje
muito diferer1te do qua era i10 fim do séct1lo ]::>assado
ot1 já no pri11cípio dêste séct1lo.
Compare111-se os mi11g11a.dos grt1pos dos b<:1r1do-
leiros antigos às g1'andes massas q11e se têm pôsto
em armas l1ltin1ame11te en1 certa.s regiões fia.geladas.
Casin1iro Honório con1l)atia só, os dois ir1nãos
Morais i1ão ti11ham con1panbeiros, J es11íno Brilha11-
te dispunha duma deze11a de hon1e11S - e os ba11didos
que atacarar111rlossoró, i10 Rio Grande do Norte, em
1926, eram cerca de duzentos. .
Entre aquêles e êstes notaremos uma diferença
de qualida.de. Casimi1·0 Honório, pessoa ele conside-
ração, proprietário, ti1lha iinenso org11lho ; os dois
Morais eram filhos do P adre 1'1orais, de Pal1neira
dos índios; J esuíno Brtlhante ligara-se a un1a boa
família ceare11ce, donde saiu o Capitão J osé Leite
Brasil, que se encrencot1 em 1935 po1· cat1sa dessa
história de revolução.
Os cangaceiros atuais são de ordinário criatu-
rtts vindas de ba.ixo, rebotalho social. Os métodos an-
tigos divergiam dos presentemente adotados. Em ge-
ral os n1alfeitores oculta·van1 a.s st1as truculências ot1
apresentavam-nas como fatos necessá.rios e jt1stos:
enfeitados, ro111antizados pela imaginação popular,
dedica,ra1n-se a obras d.e i·eivindicação e de vinga.nça,
e1·a.m llns heróis, quase uns apóstolos, 11a opi11ião dos
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VIVENTES DAS ALAGDAS - 153
n1atutos. Distribt1íruu pt1nhados de moedas 1·oubada~,
queimavam regt1larmente ~s cêrcas? assolavan; as. fa~
zen·das dos a.n1igos do governo, coisas agradave1s à
gente miúda, cobiçosa po1· necessidade e natural-
1ne11te oposicionisL.'1.. ,
Antônio Silvino atribt1ía-se t1ma at1toridade es-
r>ecial em negócios de família, exercia uma _cu~iosa
·n1agistratura : prodigalizava consell1os, enclire1tava
relações abaladas, forjava casamentos difíceis e com
o dinheiro dos negocia.ntes da.s vilas postas a saq11e
a.rr<.1njava dotes pa.ra as raparigas pobres a.varia.da.s.
Tltdo isso rn11dol1, talvez por serem agora os f~t­
tos, i1u1nerosos e próximos, observados fora daquela
penl1rnl:Jra que favorecia as deforn1ações e os exa-
geros.
.Antônio Germano e A.l11aro J1imbura raspa,ram
r.01n faca de I>onta. as canelas das st1as vítimas e as-
sin1 obtinham a chave do baú ou do cofre ; davam
nos pacie11tes un1 banho de ql1e1·osene e riscavam um
fósforo na rot1pa molhada. A primeira parte dêsse
programa foi realizada em vá.rios municípios de Ala-
goas, nas pessoas de algt1ns senhores de en!?enho
a.va.rentos; a segt1nda, a do querosene, experrmen-
tot1-a Olín1pio Coelho elo Amaral Nogt1eira, peque110
))l'oprietário q11ei1nado vivo em Bom Conselho, Per-
11ambuco.
Lampião era, religioso, não por ten11Jeramento:
por hábito e por influência do Padre Cícero do Jt1à-
zeíro. E, religioso, entrando numa igreja, de povoa-
ção con<.111istacla, tirava uma nota de q11inhe11tos mi!-
réis <la capa11ga e introd11zia-a na 1·acbadura da ca1-
XEl das almas, a pt1nhal.
Isso não o i1npedia. de violai· m11lberes na pre-
Scnça. elos Jnaridos an1ar1·ados.
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154. - G R A C I LI A N O R A M O S
Lampião era llm monstro, tor11ou-se 11m mons-
tro, sín1bolo de tô(las as monstrt1osidades possíveis.
~esta, po:ém1 sabei· se os 011tros, os antigos, não
:praticavamaçoes cornoas dêle ese i1ão11avii:t qualq11er
mterêsse e1n escondê-las. 1'alvez houvesse. Casimiro
Honório, os !!forais, Jesuíno Brilhante e Antônio Sil-
vi110 tinha.rr1 alg11rna coisa qt1e pe1·der, terra ot1 fa..
zenda, pelo 1nenos u1n nome, valor tradicional. Não
po.d~am most!ar-se de repe11te demoljdores de insti-
t~1çoes respeitadas: precisa.va~:n 1nantê-la.s, a1Jesa.r de
i·eprobos, eram de aJg11ma forma. elementos de ordem
a~igos da propriedade, de todos os atrilJutos da pro~
pr1ed.ade..O q11e êles co.mbatiam era., não a proprie-
dade em s1,.mas a propriedade elos se11s inimigos. Daí
talvez surgirem conser·vadores, poetizados e a11n1en-
tados na literat11ra branca do Nordestc.
Os bandoleiros de }10,je nasceram i111n1 i111indo sô-
co e populoso,i10 ~leio duma deva.stação. Nada podem
pe;der!. nada os liga ao passado e prov~tvelmenté não
d~ixarao descendêncii:t :s11n1ir-se-iio i111n1a·volta de ca.-
m1n~o, sob uma chuva de balas, serão decapita.dos,
m11t1lados. "
. À falta de bens, arriscan1 as s11as vid~s in11teis.
E se essas vidas são inúteis, qt1e podem êles pot1par
fora delas~
O prop1·ietá:r~o am~açado pela polícia, foragido;
embre~hado, se11t1a apoio onde andava, ampa,ra.vam-
no amigos seguros, companheiros de classe receosos
de perder o prestígio e chegar à situação dêles. Não
lhes faltavan1 os intermecliários ;necessários na com-
pra de víveres, armas e munições, os avisos q11e os
livravam das ciladas.
O cangaceiro ele hoje, infí1)itar11ente dista11te do
coro11el, não conta con1 êlc, ne11l1un1a rar.ão tern pa.ra
J
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VlVEN'fES DAS ALAGOAS - 155
0011fiar 11êle. E se o 11tiliza a.lgt1mas ·vêzes, é porque
o a.terroriza, an1ea.ça o q11e êle ina.is preza. Não se
conte11ta com incênclios e matança de gado : invade
a, casa. do fa.zendeiro, rouba-lhe a mulher e as filhas,
lovn-as para a ca1)oeira e entrega-as meses depois,
estragadas, mcdi::t11te resgate.
ÍD verdade que também estraga n1ôças da. camada
uaixa., mas essas não se aviltam por isso :recebem com
satisfação frascos de perfume, cordões de ouro, cor-
tes de sêda - e ca.sam-se naturalmente, como se
nc11b11m dano tivessem sofrido.
..i:..s môças brar1c~ts é qt1e fican1 irreparàvelmente
prejl1dicadas, inutilizam-se pa.ra sempre.
O cangaceiro tipo l..Jampião aniq11ila o i11imigo:
clcvasta-lhe os bens e, se não o rr1ata, faz coisa pioi'
- cast1·a-o. Às vêzes castra-o literalmente, o q11e é
ltorrível; e se 1J1e deso11ra as filhas, eastra.-o de ma-
neira pior: mata-lhe a descendência, pois nenhum
sertanejo de fanu1ia vai ligar-se a t1ma }Jessoa ultra-
jada.
Não afirn10 que o bandido proceda assim cor1s-
cientem€!nte. J: verdade, porérn, é ctt1e êle molesta,
não apena.s o adversário, mas o meio social em qt1e
êste vive, as instit11ições q11e o amparam,
Salva-se a. religião, t1ns restos da religião, :pa-
tc11te no ato de meter cédulas no cofre das almas, a
po11ta de p1111l1al. O resto desaparece11. E a família,
essa coisa sa.grada, é o que mais se ataca.
Concll10 daí que o cangaço no Nordeste se apre-
se11ta sob dois a.spectos, ot1 a11tes q11e podemos obser-
·var lá dois cangaços : i1n1 de origem social, outro,
)na.is sério, c1~iaclo por dificuldades econômicas.
Por isso a.firmei q11e as persegt1ições e as injus-
tiças apenas contribuíam para o 1nal-estar geral. De-
terminaram o aparecime11to de homens como Casi-
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151' - e ~ A e I L l A N o R A 1'·1o s
rniro Honório, J esuíno Brilba.nte os ~{orais e
A11tônio Silvino. . '
Alguns dêsses rea.lizaram sozinhos as suas fa-
çanhas, Ol1tros necessitaram instrun1entos pa1·a de-
fender-se e foram b11scá-los na classe baixa.
Os i11str11n1e11tos libertaram-se, entraram a mo-
ver-se J)Or conta própria, adotaram processos dife-
rentes dos que t1sa.vam os êlI1tigos patrões, Tor11a-
1·~n:-se chefes, co1no Lampião, engrossaram as s11as
:f1le1ras.
. ,]~oi a miséria ql1e eng·rossot1 as s11as fileiras, .a
m1ser1a ca11sad~t i:>elo at1mento de pop11lação nltrna
terra pobre e ca11sada.
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O JôGO DO BICHO, FATOR ECONÔMICO
D
E tôdas as instit11ições brasileiras o jôgo do bi-
cho é com certeza a mais interessante, a que
melhor descobre a alma popula.r. É verdade
qtte poss11ímos outras capazes de provocar ent11sias-
111os vivos e até a paixão das massas : o carnaval, o
futebol, as lutas políticas, por exemplo; mas são coi-
sas q11e, en1bora aqt1i tenham feição particular, exis-
tcn1 e1n tôda a i)arte. Ncnhuma delas produz lima
excitação permanente, tôda.s se manifestam com
intermitências ma.is 011 menos longas.
O jôgo do bicho é constante e pt1ramente nacio-
nal. Aqui surgiu, criou raízes, e em nenhum outro
país se daria tão bem. Deriva da nossa desorganiza-
ção econômica e da confiança ql1e depositamos em
fôrças misteriosas. T odos nós, consciente ou incons-
cientemente, esperamos mila.gres, acreditamos na
Divi11a Providência, em podêres sobrenaturais, que
às ·vêzes fican1no alto, inatingíveis e obscuros, 011tras
vêzes se põem em contato corri os homens, familia-
rizam-se, revela.m-se de maneira ba.stante ordinária.
As relações entre o hon1em e a divindade, que a
princípio se manifestarn sob a forrna de troca, depois
como tra.nsações de cornpra e venda, aqui se modifi-
caram. Em tôda a parte o crent e oferece a Det1s ou
aos santos i1m objeto para receber um favor, ou ofe-
1·ece-lhes dinheiro, inas entre nós êste respeitáve.I
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costtun~ se tor11ol1 urna esriécie d.e jôo·o. Daí para se
tornar JÔgo verd .d · d" t" ·' 0
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, · ·· . . a. e1r.o .ª is aric1a nao era gi-a11de.
A n~ssa gente st1pe;:·st1c1osa, qr1e l.tdn1ite a.realização
dos sonhos e, espec1.almente no interior, faz promes-
sas a Santo Antô1110 a propósito de casa.i11ento e a
Santa Clara a propósito de chuva, encontrou meio
de transformar a graça pedida em dinheiro. Pode-
mos acompanhar a evolução do negócio do seguinte
modo: oferecemos um pbjeto para receber um bem
qualquer ; oferecemos dinheiro para i·ece}Jer 0 mes-
mo ~e1:1 ; oferecemos di11l1eiro para receber dinl1eiro.
Nao quere~o.s felicidade, p:1z, <1t1t1Jquer estttdo
de al1na r1ecessar10. aos místicos ; desejainos coisas
co::icretas.. O mendigo que pede para o transeunte
sa.ud_e e '?-d8: long·~ ~uitas vêzes indica os ineios
que Julga indispensave1s para se obter isso.
I mpossibilitados de adq11irir l1ma felicidade
c?mpleta, ~11scamos pedaços de felicidadé. E em
vista da s1tt1~ção precária em q11e vivemos êsses
frag~ent?s .sa~ .de ordinêírio representadds por
~uant1a.s i"ns1gn1f1ca;r:it~s: Sabernos qt1.e a posse de-
la_s nada 1.es~lve ,def1m~varnente, que a nossa vida
~a~ se end1re1tara con1 taq po11co e, consl1midas essas
1nfrmas lJarcelas de riqueza, a necessidade voltará
~. tere~os de apelar para 11m nôvo golpe de sorte.
fas n,a~ podemos pensar no futuro quélndo o pre-
~.~11te e,incerteza e .c?nfusão, res1)iraremos com alí-
1 io .se ct~ l1ossas d1f1culdades irremecliáveis forem
procTast1nadas por lirn 1nês, t1m~i serr1a11a, 11m di~i.
Espera1:e1nos q11e tu.do. se arra.i1je depois.
~01 en9t1anto prec1sa1nos co1n 11rgência uma de-
ter1n!na~a. impo1·tâ:r1cia para o al11gtLel dêl. casa, im-
port~11c.1a correspo1;1dente ao dinheiro que possuímos
mult1p~cado por 'i11nte. O brasileiro achou o modo
de Teal1zar a ml1ltiplicação, pelo menos de passar
.. -... .
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VIVENTES DAS ALACO.iS - 159
algun1as horas na ilusão de que ela se realize e lhe
dê recursos para satisfazer às exigências imediatas.
É verdade que a ilusão ordinàriamente fall1a,
ma.s pode reno1rar-se no dia seguinte, caso o home1n
i1ão se acl1e absol11ta1nênte desprovido de pecúnia.
Êle poderia arriscar-se a q11alquer outro jôgo.
Isto, porém, não lhe traria grande satisfação. Com-
prando bilhetes de loteria, a espera seria m11ito pro-
longa.da ; na roleta ou r10 bacará seria curta demais.
] ;le não q11er fica.r mt1ito tempo sonhando com l1ma
sorte grancle q11e ll1e transforme a vida, nem encos-
ta.r-se ao pano verde pa.ra. receber emoções fortes e
rápidas. Contenta-se con1 sortes miúdas, ql1e lhe
podem chegar diàriamente, a hora certa, não se cle-
cidem no giro d11ma bola ou n11m virar de carta.
Além disso a. loteria, a roleta, o bacará, ficam
fora das possibilidacles da n1aior parte da pop11la-
ção, ao passo ql1e o jôgo do bicho está ao alca11ce de
, . .
tôda a gente e poss11i o q11e e 1Jrec1so para conquis-
tar c'I. simpatia das mass~is.
E1n primeiro lugar promete muito e não oferece
nenh1trna gara.ntia, o q11e está em conforn1idade com
os há.bitos dum país onde se organizam companhias
sem capital e os profetas são bem recebidos, ainda
qt1e sejan1 os mais extraordinários salvadores. Ape-
sar ele tL1do os jogadores felizes são pagos com rigo-
1·osa pontualitlade, e isto é ad.:rnirável, porc1l1e entre
l16s n1111c<.t11enlrnm programa se realiza, as ol)rigações
são reg11larmente postas ele lado. Os pa11elzinhos
riscados i1 lápis por un1 sujeito desconhecido trans-
forma.m-se em valores.
Em segt1ndo lugar é proibido, razão suficiente
para viver e prosperar. H á negócios que não têm
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160 - GRACILIANO RA~fOS
011tro i11otivo ele êxito. O nosso i11stinto ele rebeldia
suste11ta~os, :faz q11e lJrotestemos contra alg·11111 :f1111-
cio11ário demasiado co11sciencioso que r>retenda en-
xergá-los.
Aliás com relação ao jôgo do bicho talvez seja
conveniente a a11toridade s11por q11e êle não existe e
deixá-lo em i::iaz. Muitos cavalheiros fica.riam em
ap11ros se, marcba11do para a repartição corr1 o in-
t11ito severo de co1nbater l!ssa pr[tg·a nacional, pensas-
sem que s11as res.peitáveis se11l1oras elal:>ora1n listas
co1nplica(lé1S, os rapazes no carr1i.nbo da escoléi arris:..
can1 níq11eis ni1 deze11a, o ordenaelo da. criada foi es-
tabelecido co1n a red11ção da importâ11cia presumível
que ela retira nus compras e dá ao rapaz do talão, o
for11ecedor não está satisfeito corri os pagamentos e
espera minorar as suas dívida.s com a proble1nática
fração de riqueza que tôelas as manhãs lhe oferece1n
i10 balcão. ·
Deixemos en1 paz o bicl1eiro. Essa fré1çã.o de
riqt1eza representa.. a c1uanti~t que (teixo11 de ser paga
no salá.rio do trabalhador, a. conta qt1e o bacharel se
esquece11 de saldar 11a venda. Para que privar o ope-
rário e o vendeiro da última possibilidade q11e lhes
resta1
O jôgo do lJicl10 significa t1n1a tentativa mt1ito
louvável para corrigir o desarranjo em que vivemos.
Uma tentativa oferecida a pessoas st1persticiosas
que acreditam em sonhos e ainda não podet11 acre-
ditar en1 011trá coisa, ruas a:fi11al talvez sej~i incon-
i'e11iente s11prirni-l,t, pelo inenos por enq11anto.
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UM . DESASTRE
•
, E tado pobre. E111 po11co mais
AL1d1..GOA~ t~ ~~ito~1il q11ilômetros q11adr·ados a:·-e v1r1 milhão de habita11tes. Para
rurna-se q11ase um · . ha' c·barco inos-
. - rr11n1a . na pral<.l e '
be111 d1ze1! 11ao se a t' .e há seixo, cardo, fome. En-
qL1ito, sezao ; na caa ingta a mata con1 algodão e
d onas aper a-se ' ' , ·1tre as lias z , - se conseg11e terra fac1 -
ca.na-de-açú~a~, i:1~s ~1 11~ e i1ara lá elas cancelas o
inente, o salar10 e ~.1xt? ,· vale o mosq11ito e o cardo
despotismo elo propr1e a110 e:
j11ntos. 1- _ desânimo, gor-
lfm tôda a parte o a1r1are ao . t , .d
.!J " d "ra indecisos en 1 e a vi ªd11ra fôfa: home:ns cor e ce ' ..
8
de mulheres
e a morte ; raparigas.velhas, i.1ns cd.C~e ernas finas
i1a adolescê11cia; meD:1nos ramemloessosg,rávidas de lom-
b·t barrigas enor , -
con10 cam i os, . f lta de água no sertao,
briga.s. E muita porcaria.: a d 1 a
l 't ·al o solo empapa o, am . .
excesso no 1 º7".' lle tê111 restos de energia em1-
Nessa penur1a, os q d ·s esperando
lb os pontos car ea1 '
gram ; ot1tros o ·ª~ f endeiro 0
negociante e
t1m 1nilagre. Ern cima, o az '
o ))11rocra,ta. _ . . · itos ociosos
E scorados i1os balcoes das vilas, suJe f"1·ça têm
b · l · . s das lagoas nem o ·
conversam ; os eira:e1ro , ·astadas beiços pálidos,
para conversar. Pernasba~bas co~o neste diá.logo
meia dúzia de palavras a. ' .
q11e P edr o Lima inventou :
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162 - e R A e Ir. J A No RA tvl os
- Seu compadre, se esta miséria continuar nós
acabamos pedindo esmola. '
- A q11em'
A pop11lação cresce 'demais. Se a dos outros Es-
tados f ôsse tão densa, o país seria urna nova Chi11a.
1'Iai~ de novecentas mil soml.>ras. I nsignificante pro-
duçao para tanta gente. Na roça uma família inteira
se esconde nas camarinhas, nl1a, enquanto a mãe vai
à cacimba, lavar ro11pa. Um indivíd110 mendiga pa-
ra casar.
- Como é q11e você s11stenta mull1er e filhos
c1·iat11ra~ '
- Deus dá o jeito.
Ali por volta de 1930 só um m11nicípio arreca-
dav~ mais de cem contos. Hoje as rendas parecem ter
s11b1do 11m pouco. JY.fa.s terão ''rcalrne11te'' st1biclo~
Não deverr1os falar em tais coisas a estrtt11hos.
Em vez de penalizá-los, humilhando-nos, exibimos
a sala. de visitas, arranjada com decência. Apesar de
t11do, o alagoa110 tem momentos de vaidade e abomi-
n~ consiclerações desagracláveis. Possuímos glórias:
T avares B astos, S:inimbu, heróis no Paraguai, co-
lo~zadores do An1azo!1as. E proclamamos a llepú-
bl1ca. Para,a.lgt1mit coisa a emigração haver ia de ser-•
Vll',
I r1felizmente precisamos rent111ciar por enqt1an-
to a essas lembranças consoladoras e expor os nossos
rnl.tles. Vieran1 rr1ales grandes, além elos ordinários.
CJ1t1va incessa11te, inu11daç.ão, dilúvio. O Senhor re-
solvet1 afogar os nossos pecados. Os rios engrossa-
ram, ~ubmergiram campos, mataram plantas, bichos
e cristãos; riachinhos incha.ran1, convertera.m-se em
t orrentes, devoraram lnorros n11mit erosão faminta e
l
••
VIVENTES DAS ALAG01.S - 163
raivosa. Aluíram pontes, ruíram casas, sumiram-se
povoacões. I mpossibilitou-se o trânsito nos caminhos
alagados ; descansaram as locomotivas ; nos lugares
onde rodavam trens e bondes vogam canoas. Fecha-
rarn-se os estalJelecimentos comerciais : a indústria
emperro11; trub1:;1lha.dores esq,u.ecera.n1 a.s Slla.s profis-
sões e tentaram, nervosos, defender ruínas que se
dissolvem. De espaço a espaço um desmoroname11to
- e os r estos das cidades emergen1 como se fôssem
constr11ídos em palafitas. A a.gric11ltura foi varrida :
canaviais e arrozais desceram na corre11teza ou se-
pultaran1-se no lôdo.
· Se as notícias calamitosas se referissem a uma
cheia do Yang-tse-Kiang, acharíamos enorme a ca-
tástrofe distante, alargada pelas agências telegráfi-
cas. Estamos, porém, diante de l1ma tragédia casei-
ra, narrada econô1nica1nente por Nelson ] 1
lôres. E,
j11lgando-11os favorecidos pela Proviclê11ciit, busca-
mos atenuar nossas aflições.
Contudo êsses horrores próximos, que dia, a dia
o conhecimento de pormenores engra11dece, não
podem ser desfeitos com sorrisos apenas. Há 11ma
desgraça. Ev·identemente o govêrno local não tem
rneio de combatê-la. É indispensável o socorro da
Uniã.o. E é indispensável o aµxílio do l'larticular,
bondade que não faltaria se uma e1·upção do Aconcá~
gua houvesse destruído algumas aldeias.,, .
Certo não se trata de consertai· a.s maquinas das
l1sinas. Elas se desenferrujará.o naturalmente - e
o açúcar terá bom preço. A campanha iniciada aqui
tende a minorar o sofrimento do homem qi1e nunca
ent1·011 n11m banco e só conheceu durezas, o ·vaqueiro
do sertão mudado em brejo, o pescador da lagoa tor-
11n.da mar.  Testir os nl1s, curar os doentes, erguer o
c:1sebre da vi{1vá, ampa1·ar o ól'fão, er1fin1 scn1ear r1a-
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164 - G R A C I L I A 1 O R A M O S
q11ela região ir1feliz uns pedaços de obras çle miseri-
córdia. Quar1do tis ágt1as baixarem, a maleita se
dese11volverá jt1nto ELOS n1ang11es crescidos, })andos
exat1st.os andarão trêmt1los. I.::>ensamos nessa gente
mais ou me11os i11útil. JYias qt1e po(le1·ia. i1ão ser inú-
til. E IJOderá talvez i1ão ser ir1útil.
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ESTADO OE ALAGOAS
RELATORIO
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. GOVERNADOR DO E~T~DO DE A~AGOlS
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Imprensa Oltlclal- MACEIÓ
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1929
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PRE]'EI·TUR1~ Th'IUNIOIPAL DE
P ALliIEIRA DOS fNDIOS
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RELATóRIO
ao Govêrno do Estado de Alagoas
Exmo. Sr. Governador:
•
Trago a V. Excia. um resumo dos trabalhos realizados
pela Prefeitura de Palmeira dos fndios em 1928.
Não foram 1nuitos, que os nossos recursos são exíguos.
Assim minguados, ent1·etanto, quase insensíveis ao observa-
dor afastado, que desconheça as condições em que o lVIu-
nicípio se achava, muito me custaram.
. C011EÇOS
O PRINCIPAL, o que sem demora iniciei, o de que
depe11dia.m todos os outros, segundo creio, foi estabelecer
alguma orde1n na administração.
Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores
de impostos, o comandante do destacamento, os soldados,
outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Muni-
cípio tinha a sua administração particular, com prefeitos
coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais,
êsses, resolviam questões de polícia e advogavam.
Pa.ra que semelha11te anomalia desaparecesse lutei com
tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e
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1611 - G R A C 1L J A N O R A ?1 O S
fora dela - dentro, uma resistência 1nole, suave, de algo-
dão em rama; fora, uma campanha. sôrna, obliqua, car-
regada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos
de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós ;
outros me davam três méses para levar um tiro.
Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano pas-
sado i·estam poucos : saíram os que faziam política e os
que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem
onde não são necessários, cutnprem as suas obrigações e,
sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a êles.
Não sei se a administração do Município é boa ou ruim.
Talvez pudesse ser pior.
RECEITA E DESPESA
A receita, orçada em 50 :000$000, subiu, ap€sar de o
ano ter sido péssimo, a 71 :649$290, que não foram sempre
bem aplicados por dois motivos : porque não me gabo de
empregar dinheiro com inteligência e porque fiz despesas
que 11ão faria se elas não estivessem determinadas no orça-
mento.
PODER LEGISLATIVO
Dispendi com o poder ]egislativo 1 :616$484 - paga-
mento a dois secretários, um que trabalha, outro aposen-
tado, teleg·ramas, papel, selos.
ILUlVIINAÇÃO
A iluminação da cidade custou 8 :921$800. Se é muito,
a culpa não é minha: é de quem fêz o contrato com a em-
prêsa fol'nec-edora de luz.
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•
•
VIVENTES DAS ALAGOAS - 169
OBRAS PúBLICAS .
Gastei com obras públicas 2 :908$350, que serviram
pal'a construir um muro ;no edifício da Prefeitura, aumen-
'Lnr e pintar o açougue público, arranjar outro açougue para
gado miúdo, r eparar as ruas esburacadas, desviar as águas
que, en1 épocas de trovoadas, inundavam a cidade, melho-
rar o curral do matadouro e comprar ferramentas. Adqui-
r j picaretas, pás, enxadas, martelos, marrões, marretas,
carros para atêrro, aço para brocas, alavancas, etc. Mon-
tei uma pequena oficina para consertar os utensílios estra-
gados.
EVENTUAIS
Houve 1 :069$700 de despesas eventúaiS:feítTu- é co11-
sôrto de n1edidas, 1nateriais para aferiçã.o, placas.
724$000 foram-se para uniformizar as medidas per-
tencentes ao Município. Os litros aqui t inham mil e qua-
trocentas gramas. Em algumas aldeias subiam, em outras
desciam. Os negociantes de cal usavam caixões de quero-
sene e caixões de sabão, a que .arrancavam tábuas, para
enganar o comprador. Fui descaradamente roubado em
compTas de cal para as trabalhos públicos.
CEMITÉRIO
No cemitério enterrei 189$000 ~ pagamento ao co-
veiro e conservação.
ESCOLA DE MúSICA
A Filarmônica 16 de Setembro consumiu 1 :990$660
- ordenado de um mestre, aluguel de casa, material, luz.
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170 - e nA eILI J No n A lv1 os
FUNCIONARIOS DA JUSTIÇA E DA POL1CIA
Os escrivães do júri, do cívil e da polícia, o delegado
e os oficiais de justiça levaram 1 :843$314.
ADl1INISTRAÇÃ0
A administração municipal absoTveu 11 :457$497, ~
vencimentos do prefeito, de dois secretários (um efetivo
' ,
outro aposentado), de dois fiscais, de um servente; impres-
são ele recibos, publicações, assinatura de jornais, livros,
objetos necessários à secretaria, telegramas.
Relativamente à quantia orçada, os telegramas custa-
ram pouco. De ordinário vai para êles dinheiro conside-
rável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos
inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame,
proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as
datas históricas ao govêrno do E stado, que não precisa
disso ; todos os acontecimentos políticos são badalados.
Porque se derrubou a Bastilha. - un1 telegrama; porque se
deitou uma pedra 11a rua - um telegrama; porque o depu-
tado F. esticou a canela - um telegrama. Dispêndio inútil.
Tôda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o depu-
tado morreu, que nós choramos 'e que em 1556 D. Pedro
Sardinha foi comido pelos caetés.
ARRECADAÇÃO
As ·despesas co1n a cobrança dos impostos montaram
a ,5 :602$244. Foram altas porque os devedores são cabe-
çudos. Eu disse ao Conselho, em relatório, que aqui os
contribuintes pagam ao l1unicípio se querem, quando que-
rem e como querem.
Chamei um advogado e tenho seis agentes encarrega-
dos da arrecadação, muito penosa. O J}-f unicípio é pobre e
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VIVENTES DAS ALAGOAS - 171
demasiado grande para a população que tem, reduzida por
causa das sêcas continuadas.
LIMPEZ1 PúBLICA - ESTRADAS
•
No orçamento lin1peza pública e estradas incluiram-se
numa só rubrica. Consumiram 25 :111$152.
Cuidei bastante da limpeza pública. As ruas estão
varridas; retirei da cidade o lixo acumulado pelas gerações
que por aqui i)assaram; h1cinerei monturos imensos, que a
Prefeitura não tinha suficientes recursos para remover.
Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido i10
cisco preciosamente guardado em fundos de quintais ; la-
múrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algu-
mas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações,
ameaças, guh1chos, berros e coices dos faze11deiros que
criavam bichos nas praças.
PôSTO DE HIGIE NE
Em falta de verba especial, inseri entre os dispêndios
r ealizados com a limpeza pública os relativos à pr ofilaxia
do Município.
Co11tratei com o Dr . Leorne l1enescal, chefe ào Ser-
viço de Sa11eamento Rural, a instalação de um pôsto de
11igiene, que, sob a direção do Dr. Hebreliano vVander1ey,
te1n sido ele grande utilidade à nossa gente.
VIAÇÃO
Consertei as estradas de Quebrangulo, da Porcina, de
Olhos d'Agu.a aos limites de Limoeiro, J1a direção de Cana
Brava.
}"oram reparos sem gra11de ilnportância e que apenas
menciono para que esta exposição não fique incompleta.
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172 - GRAéILIANô ltAMôS
Faltam-nos recursos pára longos tratos de rodovias e quais-
q~er modificações em caminhos estreitos, íngreme;, percor.
ridos por animais e veículos de tração animal, depressa desa..
parecem. É necessário que se esteja. sempre a renová-las
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pois as enxurradas levam num dia o trabalho de meses e os
carros de bois escangalham o que as chuvas deixam.
Os empreendime11tos mais sérios a que me aventurei
foram a estrada de· Palmeira de Fora e o terrapleno da
Lagoa.
I
ESTRADA DE PALMEIRA DE FORA
1'em oito nletros de largura e, para que não ficasse
estreita em uns pontos, larga em outros, uma parte dela
foi aberta em pedra.
Fiz cortes profundos, aterros consideráveis, valetas e
passagens transversais para as águas que descem dos
montes.
Cêrca de vinte homens trabalha1·am nela quase cinco
meses.
Parece-me que é uma
5 :049$400.
estl'ada razoável.
'
Custou
'f . 1 1. enc1ono pro ongá- a à fi'ontêira de Santana do
Ipanema, não nas condições em que está, que as Tendas
do Município me não permitiriam obra de tal vulto.
OU'rRA ESTRADA
Como, a fim de não inutilizar-se em pouco tempo, a
estrada de Palmeira de Fora se destina exclusivamente a
pedestres e a automóveis., abri outra paralela ao trânsito
de animais.
•
......._________________ - - . - - - -- - - - - - -- -- - - - -
'!VENTES DAS ALAGOAS - 173
TERRAPLENO DA LAGOA
O espaço que separa a cidade do bairro da Lagoa era
uma coelheira imensa, um vasto acampamento de tatus,
qualquer coisa dêste gênero.
Buraco por tôda a parte. O atêrro que lá existiu, feito
na administração do prefeito Francisco Cavalcante, quase
que havia desaparecido.
Em um dos lados do caminho abria-se uma larga fen-
da com profundidade que variava de três para cinco me-
tros. A água das chuvas, impetuosa em virtude da incli-
nação do terreno, transformava-se ali em verdadeira
torrente, o que aumentava a cavidade e ocasionava sério
perigo aos transeuntes. Além disso outras aberturas se
iam formando, os invernos cavavam galerias subterrâneas,
e aquilo era inacessível a veículo de qualquer espécie.
Empree11di aterrar e empedrar o caminho, mas reco-
nheci que o solo não fendido era inconsistente: debaixo de
uma tênue camada de terra de aluvião, que uma estacada
sustentava, encontrei lixo. Retirei o lixo, para preparar.
o terreno e para evitar fôsse um monturo banhado por
água que logo entrava em um l'iacho de serventia pública.
Quase todos os trabalhadores adoeceram.
Estou fazendo dois muros de alvenaria, extensos, espês-
sos e altos, para suportar o atêrro. Dei à estrada nove
metros de largura. Os trabalhos vão adiantados.
Durante meses mataram-me o bicho do ouvido com
reclamações de tôda a ordem contra o abandono em que
se deixava a melhor entrada para a cidade. Chegaram lá
pedreiros - outras reclamações surgiram, porque as obras
irão custar um horror de contos de réis, dizem.
Custarão alguns, provàvelmente. Não tanto quanto as
pirâmides do Egito, contudo. O que a Prefeitura arrecada
basta para que nos não resignemos às modestas tarefas de
varrer as ruas e matar cachorros.
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Até agora as despesas com os serviços da Lag·oa sobem
a 14 :418$627. /
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Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais
útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos
incompetente do que eu ; em todo 'o caso, transformando-o
em pedra, cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que
se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam,
coitados.
(Os gastos com a estrada de Pal'°eira de Fora e com
o terrapleno estão, naturalmente, incluídos nos 25 :111$152
já mencionados.)
DINHEIRO EXISTENTE
Deduzindo-se da receita a despesa e acrescentando-se
105$858 que a administração passada n1e deixou, verifi-
ca-se un1 saldo de 11 :044$947.
40$897 estão em caixa e 11 :004$050 depositados no
Banco Popular e Agrícola de Palmeira. O Conselho auto-
rizou-me a fazer o depósito.
Devo dizer que não pertenço ao banco nem tenho lá
interêsse de nenhuma espécie. A Prefeitura ganhou: li-
vrou-se de um tesoureiro, que apenas serviria para assinar
as fôlhas e embolsar o ordenado, pois no interior os tesou-
r eiros não faze1n outra coisa, e leve 615$050 de juros.
Os 40$897 estão em poder do secretário, que guarda o
dinheiro até que êle seja colocado naquele estabelecimento
de crédito.
LEIS lVIUNICIPAIS
Em janeiro do ano passado não achei no Município
nada que se parecesse com lei, fora as que havia na tradi-
ção 01·al, anacrônicas, do tempo das candeias de azeite.
j
/
VIVENTES DAS ALAGOAS - 175
Constava a existência de um código municipal, coisa
inatingível e obscura. f>rocurei, rebusquei, esquadrinhei,
estive quas-e a reco1·rer aos espiritismo, convenci-me de que
o código era uma espécie de lobisomem.
Afinal, em fevereiro, o secr~tário descobriu-o entre
papéis do Império. Era un1 delgado volume impresso em
1865, encardido e dilacerado, de fôlhas sôltas, com apa-
rência de primeiro liv1·0 de leitura do Abílio Borges. Um
furo. Encontrei no folheto algumas leis, aliás bem redigi-
das, e muito sebo.
Com elas e com outras que nos dá a Divina Provi-
dência consegui aguentar-me, até que o Conselho, e1n agôsto,
votou o código atual.
'
CONCLUSÃO
Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estra-
das que se abriram só há curvas onde as retas foram intei-
ramente impossíveis.
Evitei emaranhar-me em teias de aranha.
Certos indivíduos, não sei porque, imaginam que de-
vem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante
para dizer aos contribuintes que não paguem impostos.
Não me entendi com êsses.
Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e
escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver
a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa
para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela
se servem como assunto invariável ; há quem não compreen-
da que um ato administrativo seja isent o de lucro pessoal;
há até quem pretenda embaraçar-me em coisa tão simples
como mandar quebrar as pédras dos caminhos.
Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1 :325$500
de multal'l.
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176 - GRACILIANO RAt.·10S
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Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos
dispara.tes. Todos os meus erros, porém, foram erros da
inteligência, que é fraca.
Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter
semelhante nome.
Não me fizeram falta.
Há descontentamento. Se a minha estada na Prefei-
tura por êstes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez
eu não obtivesse dez votos. Paz .e prosperidade."
Palmeira dos índios, 10 de janeiro de 1929
GRACILIANO RAMOS
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VIVENTES DAS ALAGOAS - 177
PREFEITURA MUNICIPAL DE
P AL1íEIRA DOS íNDIOS
BALANÇO (Exercício de 1928)
Licenças para estabeleci-
me11tos ..... .... . ... .
Décima Urbana ........ .
Carnes verdes ......... .
Pesos e medidas ....... .
Oficina e artistas ....... .
Cêrcas e alicerces . ..... .
Vendedores ambulantes ..
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Fei1·as ..... . ..... . .... .
Veículos • • • • • • • t • • • • • •
Depósitos de inflamáveis
Bazares e botequins em
festas ............... .
Construção e reconstrução
Serviço doméstico ...... .
Torcedores de cana ..... .
Vendedores de leite .... .
Vendedores de doce .....~
Terras do Estado ...... .
Bilhares ............. .
Aluguel de medidas .... .
Cemitério ........... . .
Taxa sa.nitária ... .. . .. .
Biqueiras .. . . ... ...... .
Cartas de éhauffeurs ... .
Divertimentos públicos .. .
Placas para veículos ... .
Casas de farinha ....... .
Compradores de madeira
Receita
9:265$000
4:914$040
18:742$000
4:250$000
210$000
204$000
410$000
16:780$100
380$000
450$000
399$000
210$000
180$000
10$000
20$000
40$000
6:191$100
100$000
3:101$800
340$000
282$000
316$600
150$000
150$000
120$000
625$000
500$000
Despesa
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118 - G R A C l L l A. N O R A lv! OS
Restituições . • • • • • • • • • •
Eventuais • • • • • • • • • • • • •
l1ultas • • • • • • • • • • • • • • ••.
Receita
68$100
615$050
1:82õ$500
Poder legislativo
Administração mu~Í~i~~j · : : : : ~ · · · · · · · · ·
Arrecadação das i·endas ...... . . .
Iluminação pública .............. .
Obras públicas . < • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •
Limpeza pública e. ~~t~~~~~· · · · · · · · · · · · · ·
Cernitério . . · · · · · · · · · · · · ·
• • • • • •
Gratificações · · · · · · · · · · · · · · · · · · ·
• • • • • •
Filarmônica "16 de S~t~~b··,:··········
Ev t
. ro ...
en ua1s · · · · · ·• • • • • • • • • • • • • • •
Saldo · · · · · · · · · · · ·
1:616$484
11 :457$497
5:602$244
8:921$800
2:908$350
25:111$152
189$000
1:843$314
1:990.$660
1:069$700
• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 10:939$089
º77-11~:6;:;4:;:;-9$;;;2:::::-9:::-0__7_1_:6-49~$:..:_2_::.=90
Saldo • • • • • • • • • • • • •
Saldo do exercfcio an-
terior • • • • • • • • • • •
10:939$089
105$858
N B 11:044$947
o an~o Popular e Ag'rícola de
Palmeira • • • • • • • •
Em caixa .. · · · · · · · · · · · · · ·
• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •
Palmeira, 3 de janeiro de 1929.
11:004$050
40$897
11 :044$947
. MARÇAL JOSÉ OLIVEIR.i
Se·cretário
Visto. - P alme1·1·a 8 d .· ' e Janeiro, 1929.
GRACILIANO RAMOS.
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flE~UBLICA DOS !E:STAOOg; UNIDOS DO BRASIL
ESTADO DE ALAGOAS
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RELATO RIO
...,
Ao Si·. Governatloi· Alvaro Paes
--PELO--
PRE~EITO D~ MijNltIPIO DE PALMEiHA DOS iNDIOS
•
GRACILIANO RAMOS
Imprensa Oftlclal - MACEIO'
1930
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Vl''ENTES DAS ALAG01.S - 181
Prefeitura Municipal de Palmeira dos índios. - Rela-
tório ao Governador de Alagoas. - Sr. Governador. -
Esta exposição é talvez desnecessária. O balanço que re-
1neto a V. Excia. mostra bem de que modo foi gasto em
1929 o dinheiro da Prefei~ura 1íunicipal de Palmeira doE?
índios. E~ nas contas reg ularmente publicadas há porme-
nores abundantes, minudências que excitaram o espanto
benévolo da imprensa.
Isto é, pois, uma reprodução de fatos que já narrei,
com algarismo e prova de g·uarda-livros, em numerosos ba-
lancetes e nas relações que os acompanharam.
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RECEITA - 96 :924$985
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No orçamento do ano passado houve supressão de
várias taxas que existiam em 1928. A receita, entretanto,
calculada em 68 :850$000, atingiu 96 :924$985.
E não e1npreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto:
extingui favores largamente concedidos a pessoas que não
precisavam dêles e pus termo às extorsões que afligiam os
matutos de pequeno valor, ordinàriame11te i·aspados, escor-
chados, esbrug·ados pelos exatores.
Não me resolveria, é claro, a pôr em prática no se-
gundo ano de administração a eqüidade que torna o impôs-
to suportável. Adotei-a logo no comêço. A receita em 1928
cresceu bastante. E se não chegou à soma agora alcan-
çada, é que me foram indispensáveis alguns meses para
corrigir irregularidades muito sérias, prejudiciais à arreca-
dação.
DESPESA - 105 :465$613
Utilizei parte das sobras existentes no primeiro ba-
lanço.
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18.2 - e R Ae I L 1A N o R A!II o s
ADMINISTRAÇÃO -- 22:667$748
Figuram 7 :034$558 despendidos con1 a cobrança da~
rendas, 3 :518$000 com a fiscalização e 2 :400$000 pa .
um f . , . gos a
. .uncionar10 aposentado. Tenho seis cobradores, dois
fiscais e um secretário.
Todos são mal remunerados.
GRATIFICAÇõES - 1 :560$000
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E stão reduzidas.
CEMITÉRIO - 243$000
. P ensei em construir um nôvo cemitério, pois 0 que
temos dentro em pouco será insuficiente, mas o.s trabalhos
ª. que me aventurei, necessários aos vivos, não me permj..
tirain a execução de uma obra, embora útil, prorrogável.
Os morto~ esperarão mais algum tempo. São os muníci-
pes que nao reclamam.
ILUMINAÇÃO - 7 :800$000
A Prefeitur a foi intrujada ql:lando em 1920 ·
f' . ' , aqui se
11 mou um c?n.trato p,ira.o fornecimento de luz. Apesar
de ser o.negocio referente à claridade, julgo que assina.
i·am aquilo às escuras. É um bl1,,ff. Pagamos até a luz
que a lua nos dâ.
HIGIENE - 8 :454$190
O estado sanitário é bom. O pôsto de higiene, insta-
Ia~o em 1928, presta serviços. consideráveis à população.
Caes, porcos e outros bichos incômodos não tornaram a
aparecer nas ruas. A cidade está limpa.
•
VIVEN'fES JJ AS ALAGOAS - 183
INSTRUÇÃO - 2 :886$180
Instituíram-se escolas em três aldeias: Serra da Man-
dioca, Anum e Canafístula. O Conselho n1andou subven-
cionar uma sociedade aqui f undad,a, por operários, sociedade
que se dedica à educação de adultos.
Presumo que êsses estabelecimentos são de eficiência
contestável. As aspirantes a professôras revelaram, com
admirável unaní1nidade, uma lastimosa ignorância. Esco-
lhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regu-
larn1ente, como as outras.
Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa.
Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e
alma11aques, discutir política e decorar sonetos, passatem-
pos acessíveis a quase todos os roceiros.
Ul1A DíVIDA ANTIGA - 5 :210$000
E ntregaram-me, quando entrei em exercício, 105$858
para saldar várias contas, entre elas uma de 5 :210$000,
relativa a mais de um semestre que deixaram de pagar à
-emprêsa fornecedora de luz.
VIAÇÃO E OBRAS PúBLICAS - 56 :644$495
Os gastos com viação e obras públicas foram exces-
sivos. Lamento, entretanto, não me haver sido possível
gastar mais. Infelizmente a nossa pobre2a é grande. E
ainda que elevemos a receita ao dôbro da importância que
ela ordi11àriamente alcançava, e economizemos com avare-
za, muito nos falta realizar. E stá visto que me não preo-
cupei com tôdas as obras exigida.s. Escolhi as mais
urge11tes.
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184 - e R A e l LI A N o R A rvr o s
Fiz repar os nas propriedades do Município, ren1endei
as ruas e cuidei especialmente de viação.
P ossuímos uma teia de aranha de veredas muito pito-
r escas, que se torcem em curvas caprichosas, sobem montes
e descem vales de maneira incrível. O caminho que vai a
Quebrangulo, por exemplo, original produto de engenharia
tupi, tem lugares que só podem ser transitados por auto-
móvel Ji'ord e por lagartixa. Sempre me pareceu lamen-
tável desperdício consertar semelhante porcaria.
'
ESTRADA PALlVIEIRA A SANTANA
Abandonei as trilhas dos caetés e procurei saber o
preço duma estrada que fô.sse ter a Santana do Ipanema.
Os peritos responderam que ela custaria aí uns seiscentos
mil-réis ou sessenta contos. Decidi optar pela despes!:.
avultada.
Os seiscentos n1il-réis ficarian1 perdidos entre os,
barrancos que enfeitam um can1inho atribuído ao defunto
Delmiro Gouveia e que o E stado pagou com liberalidade:
os sessenta contos, caso eu os pttdesse arrancar ao povo,
não serviriam talvez ao contribuinte, que, aper tado pelos
cobradores, diz sen1pTe não ter encomendado obras públi-
cas, mas a alguén1 haveriam de se1~vir. Comecei os trabalhos
em janeiro. Estão p1·ontos vinte e cinco quilômetros.
Gastei 26 :817$930.
TERRAPLENO DA LAGOA
~ste absurdo, êste sonho de louco, na opinião de três
ou quatro sujeitos que sabem tudo, foi concluído há meses.
Aquilo, que era uma furna lôbrega, tem agora, ter-
minado o atêrro, um declive suave. Fiz uma galeria para
o escoamento das águas. O pântano que ali havia, cheio
VIVENTES DAS ALAGOAS - 185
de lixo, excelente para a cultura de mosquitos, desapa-
r eceu. Deitei sôbre as muralhas duas balaustradas de
cimento armado. Não há perigo de se despenhar um auw-
móvel lá de cima.
O plano que os técnicos indígenas consideravam impra-
ticável era muito mais modesto.
Os gastos en1 1929 montaram a 24 :391$925.
SALDO - 2 :504$319
Adicionando-se à receita o saldo existente no balanço
pa.ssado e subtraindo-se a despesa, temos 2 :504~319.
2 :365$969 estão em caixa e 138$350 depositados no
Banco Popular e Agr!cola de Palmeira..
PRODUÇ.~O
Dos admi11istradores que n1e precederam uns dedica-
ram-se a obras urbanas; outtros, inimigos de inovações,
não se dedicaram a nada.
Nenhum, creio eu, chegou a trabalhar nos s ubúrbios.
E ncontrei em decadência regiões outrora próspe1·as;
terras aráveis entregues a animais, que nelas viviam quase
em estado selvagem. A população minguada, ou emigrava
para o sul do País ou se fixava nos muni.cípios vizinhos,
:nos povoados que nasciam perto das fronteiras e que eram
para nós umas sanguessugas. Vegetavam em lastimável
aba11dono alguns agregados humanos.
E o palmei1·ense afirmava, convicto, que isto .era a
})l'incesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa
muito 11ua, muito maclraça, muito suja e muito escavacada.
Favoreci a .agricultura livrando-a dos bichos criados
à toa; ataquei as patifarias dos pequeninos sen~ores fe.u-
dais, exploradores da canalha; suprimi, nas questoes rurais,
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18(3 - G n Ae I L 1 A No n A ?11 os
a presença de certos intermediários, que estrag·avam tudo ;
facilitei o transporte; estimulei as relações ent1·e o produ-
tor e o consumidor.
Estabeleci feiras em cinco aldeias: 1 :156$750 foram-
se em reparos nas ruas de Pafmeira de Fora.
Canafistula era um chiqueiro. Encontrei lá o ano pas-
sado mais ele cem porcos misturados com gente. Nunca
vi tanto porco.
Desapareceram. E a povoaçã9 está quase limpa. Tem
mercado semanal, estrada de rodagen1 e uma escola.
l1IUDEZAS
Não pretendo levar ao público a idéia de que os meus
empreendimentos tenhan1 vulto. Sei perfeitamente que são
miuçalha.s. Mas afinal existe1n. E, comparados a outros
ainda menores, clemonstra1n que aqui pelo i11terior podem
tentar-se coisas un1 pouco diferentes dessas invisíveis sem
grande esfôrço de imaginação ou microcóspio.
Quando iniciei a rodovia de Santana, a opinião de
alguns munícipes era ele que ela i1ão prestava porque esta-
va boa demais. Con10 se êles não a inerecessen1. E argu-
mentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia
caro, não poderia .ser executado pelo Município.
Agora inudaram de con.versa. Os impostos cresceram,
dizen1. Ou as obras públicas de Palmeira dos índios são
pagas pelo E stado. Chegarei a convencer-me de que não
fui eu que as realizei.
BONS COl1PANI-IEIROS
Já estou convencido. Não fui eu, primeiramente por-
que o dinheiro dispendiclo era do povo, em segundo lugar
porque tornaram fácil a minha tarefa uns pobres hon1ens
que .se esfalfam para 11ão perder salários miseráveis.
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.....
V!VEN1'ES DAS /LAGOAS - 187
Quase tudo foi f~ito por êles. Eu apenas teria tido
o ·mérito de escolhê-los e vigiá-los, se nisto houvesse mérito.
MULTAS
•
Arrecadei mais de dois contos ele réis de multas. Isto
prova que as coisas não vão ben1.
E 11ão se esmerilharam contravenções. Pequeninas
irregularidades passam despercebidas. As infrações que
})roduziram soma considerável para um orçamento exíguo
referem-se a prejuízos individuais e foram denunciadas
pelas pessoas ofendidas, de ordinário gente miúda, habi~
tuada a sofrer a opressão dos que vão trepando.
E sforcei-me por não cometer injustiças. Isto não obs-
tante, .atiraram as multas contra mim como arma política.
Com inabilidade infantil, ele resto. Se eu deixas.se em paz
o proprietário que abre as cêrcas de um desgraçado agri-
cultor e· lhe tr ansforma em pasto a lavoura, devia e11for-
car-me.
Sei bem que antigamente os ag·entes municipais eram
zarolhos. Quando um infeliz se cansava de mendigar o que
lhe pertencia, tomava uma resolução heróica: encomenda-
va-se a Deus e ia à capital. E os prefeitos achavam razoà-
vel que os contraventores fôssem punidos pelo Sr. Secre-
tário do Interior, por intermédio da .polícia.
REJ:l.,0Rl1:ADORES
O esfôrço empregado para dar ao Município o neces-
sário é vivamente combatido por alguns pregoeiros de mé-
todos administrativos originais. Em conformidade com êles,
deveríamos proceder sempre com a máxima condescendên-
cia, não onerar os camaradas, ser rigorosos apenas com os
pobres-diabos sem proteção, diminuir a receita, r eduzir a
despesa aos vencimentos dos funcionários, que ninguém
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188 - G H A Cl L l A N O R A ~f O S
vive sem comer, deixar êsse luxo de obras públicas à Fede-
1·ação, ao Estado ou, em falta dêstes, à Divina Providência.
Belo programa. Não se faria nada, para não descon-
tentar os amigos : os amigos que pagam, os que adminis-
tram, os que hão de administrar: Seria ótimo. E existiria
por preço baixo uma Prefeitura bode expiatória, magnífico
assunto para comérage de lugar pequeno.
POBRE POVO SOF~EDOR
É uma interessante classe de contribuintes, módica em
número, mas bastante forte. Perte11cem a ela i1egociantes,
proprietários, industriais, agiotas que esfola.m o próximo
com juros de judeu.
Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer
escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente
e resmung·ão.
Como ninguém ignora que se i1ão obtém de graça as
coisas exig·idas, cada um dos membros desta respeitável
classe acha que os impostos devem ser pagos pelos out1·os.
PROJETOS
Tenho vários, de execuçãp duvidosa. Poderei concor-
rer para o aumento da produção e, conseqüentemente, da
arrecadação. J1as umas semanas de chuva ou de estiagem
arruínam as searas, desmantelam tudo -· e os projetos
morrem.
Iniciarei, se houver recursos., trabalhos urba.nos.
Há pouco tempo, com a iluminação que temos, pérfida,
dissimulavam-se nas ruas sérias an1eaças à integridade das
canelas imprudentes que por ali transitassem em noites de
escuro.
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VIVENTES DAS ALAGOAS - 189
Já un1a rapariga aqui morreu afog·ada .no enxurro.
Un1a senhora e uma criança, arrastadas por um dos rios
que se formavam no centro da cidade, andaram rolando
de cachoeira em cachoeira e danificaram na viagem bra-.,
ços, pernas, costelas e outros órgãos apreciáveis.
Julgo que, por enquanto, semelhantes perigos estão
conjurados, mas dois meses de preguiça durante o inverno
bastarão para que êles se renovem.
Empedrarei, se puder, algumas ruas.
Tenho também a. idéia de iniciar a construção de açu-
des na zona serta.neja.
lifas para, que semear pron1essas que não sei se darão
frutos? Relatarei com pormenores os planos a que me re-
feri quando êles estiverem executados, se isto acontecer.
Ficarei, porém, satisfeito se levar ao fim as obras que
encetei. É uma pretensão moderada, realizável. Se não
realizar, o prejuízo não será grande.
O lYiunicípio, que esperou dois anos, espera mais um.
Mete na Prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de
n1im cobras e lagartos.
Paz e prosperidade.
Palmeira do.s Índios, 11 de janeiro de 1930.
GRACILIANO RA:&10S.
. .
Carnaval 1910 • • • 7
Natal . • • 11
' Carnaval 17• • • •
o Dr. Jacaran<lá • • • • • • 23
D. iilaria Arnália • • • • 27
() iifôço da farn1ácia • 31
Casan1entos • • • • 35
e· ,111aco • • 39
I-Iabitação • 45
1"eatro 1 • • • 51
Teatro II . • • 55•
'
Bagunça . • 59' •
'1 D. Maria • 63' • • •
'
:! Lib6rio • • • • • • 69
Desafio • • • • 73
i1 ' Funcionário I11<lependente • • • • 77
• U1n Antepassado • • • • • 81
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~ Um I-lo1nen1 de Leh·as 85• • • •
Um Gramático • • • • • • • • 89
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) Dr. Pelado • • • • • • 93'• -e .,.,,
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1'ransação de Cigano 97• • •
A Decadência De Un1 Senhor De Engenho • • • 101
"Está i.berta a Sessão do Júri" ' •
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• • 108
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Urn I-Iomern Notável 100' •.
Recordações De Un1a Indústria !viorta • • • •
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Um Profeta '
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Inácio da Catingueira e Ro1nano • ' •
O Fator Econômico No Cangaço • • ' •••
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Lan1pião .
Professôres
Virgulino
Cabeças
Corisco
Dois Cangaços
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O Jôgo Do Bicho, Fator Econô1nico
Um Desastre
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Relatório Ao Governador Do Estado de Alagoas
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t:STE LIVRO FOI COMPOSTO E
1111PRESSO NA GRAFIC/I. URUP:es,
ItUA PIRES DO RIO, 338 - FONE
02-8807 - S.10 P AULO - BRASIL
EM 1967
,NO ao• PA P'UNDAÇÃO DA
LIVRARIA MARTrNS EDl'l'ôRA S. A.
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q11c 11m órgão oficial di.v11l-
gou, entre an1e11iclades e des-
co11111ro111issos, êsses qt1aclros
incisivos da i1ossa realiclade,
ql1C 11111 crítico já comparot1
n cluras ce11as talhadas en1
111acleira. Mas i1ão a11tecipe-
n1os o qt1e espera. o leitor ao
·11assar clestas páginas, vá-
1·ias 110 set1 i11terêsse, i10 se11
<·oloriclo ele ti11tas fortes,
n1a::; iguaJ111e11te a11i111aclas
de 11ma de11stt beleza agres-
te. 1.dia11ten1os sôn1ente q11e
i1estc livl'o se encor1tra 11n1
cbU.o clefi11i(lo, co1n 1nna gen-
te, 11111 sentir, e q11e êle i1ão
se irnobiliza en1 certa época,
clicga a.os i1ossos clias co111 ~t
1uarca da. per111a11ê11cia.
''Vive11tes das Ala.goas'' é
o títt1lo r1atrtra.l clêste vo-
lnn1e, c1t1e a.lén1 ela série
''Qt1adros e Cost11mes do
Norcleste'' re{111e ot1tras crô-
11icas de Graciliano R.an1os,
evidente111e11te com a n1es1r1a
temática., i1a I11aioria das vê-
zes trabalhos rr1ais r·ece11tes.
MARTINS
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Ramos viventes das alagoas

Ramos viventes das alagoas

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    llamos VIVENTES DAS ALAGOAS A fixaçãode costumes, ti- pos e aspectos da vida serta- neja é mna co11sümte das crô1iicas de Graciliano Ra- mos, desde snas prü11eiras colaborações cm pequenos ;jornais provincianos, como o "Paraíba do Sul" e "O lndio " . Bsse apegar-se à terra e sua paisagem huma- na, que rnuif:l tarcle apontaria ao escritor o caminho ela obra maior, lhe daria mesmo 110 gênero iuicial os elemen- tos para nma realização ple- na. É o qne nos afirma a série de Cl'ônicas intitulada ''Quadros e Costumes do Nordeste", que forma o cor.:- po principal dêste volume e lhe empresta um snbtítu1o esclarecedor. Escritas 110 período com- preendido entre abril de 1941 e agôsto de 1944, sai- ram elas publicadas pela Tevista "Cultura Política". Assim, foi rrnma fase de i·estriçõcs à criação litcrár:___j 2763
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    , ', t•. 1. OBRAS DE GRACILIANORAMOS CAETl:'.:S (romance) - Rio, 1983 2.• cd. Rio, 1947 3.• ed. Rio, 1962 4.• ed. Rio, 1963 6.• ed. Rio, 1966 6.• ed. S. Paulo, 1961 7.• cd. S. Paulo, 1966 S. BERNARDO (romance) - Rio, 1984 2.• ed. Rio, 1988 3.• ed. Rio, 1947 4.• ed. Rio, 1962 6.• ed. Rio, 1963 6.• cd. Rio, 1966 7.• ed. S. Paulo, 1961 8.• cd. S. Paulo, 1964 edlçllo portuguêsn - t..iabon, 1959 edição nlcmu - Munique, 1960 2.• ediçl[o nlcmlt - Munique, 1960 3.• ediçl[o nlornll - Munique, 1961 4.• edição ~ Munique, 1964 &.• edição - MuniQuc, 1965 cdlçíio nlemíi - Frnnc!orte, 1961 ecllção rdemil - Berlim, 196$ ediçilo tinlnndesn - HelsinQui, 1961 edição húngnrn - Dudnpeste, 1962 ANG'OS'rIA (romnnce) - Rio, 1936 2.• cd. Rio, 19'1 3.• ed. Rio, 1947 4.• ed. Rio, 1949 6.• ed. Rio, 1962 6.• od. Rio, 1963 7.• ed. Rio, 1966 8.• ed. S. Paulo, l 961 9.• ed. S. Paulo, 1964 ediçüo uruguain - Montevídéo, 1945 edição noa·te-americana Nova Iorque, 1946 edição itnlinna - Milão, 1965 ediçüo port uguêsn - Lisboa, 1962 VIDAS seCAS (romance) Rio, 1938 2.• cd. Hio, 1947 3.• od. Rio, 1052 4.0 c<I. Rio, 1068 5.• cd. Itio, 1965 6.• ccl. S. Pnulo, JOGl 7.• ccl. S. Pnulo, 1962 8.• cd. S. l?oulo, 1963 9.• cd. S. Paulo, 1964 10." cd. S. Pnulo, 1.964 li.• cd. S. Pn11Jo, 10G4 J2.• od. S. Pllulo, 1065 13.• cd. S. Pnulo, 1966 14." cd. S. Paulo, 19GG 15.• od. S. Paulo, 1966 cdiçno 01·gootinn - Buenos Aires, 1947 edição polonesa - Varsóvia, 1960 edição argentina - Bueno• Aires. 1958 edição tcheca - Praga, 1959 edição italiana - Milão, 1961 edição russa - Moscou, 1961 edição portlguêsa - I.lsboa, 106i edição nor te-ame1·icona (Prêmio do 'illiam Fnulkner Foundation) Texas, 1963 edição cubana - Havana, 19G4 edição francesa - Paris, 1964 edição alemã - Berlím, 1965 edição rumena - Ilucarcst, 1966 , INFANCIA (memórias) - ili<>, 1945 2.• ed. Rio, 1952 3.• ed. Rio, 1953 4.• ecl. Rio, 1955 5.• ed. S. Paulo, 1961 edição nrgen~ina - Buenos Ah·ea. 1948 edição francesa - l'nria, 19SG lNSONIA (contos) - Rio, 1917 2.• ed. Rio, 1962 3.• ed. Rio, 1953 4.ª ed. Rio, 1965 5.• ed. S. Paulo, l 961 6.• ed. S. Pnulo, 1966 edição portugul!sn - Lisboa, 1~63 MEMORIAS DO CARCERE (obra póstuma) - Rio, 1953 2.• ed. Rio, 1964 a.• ed. Rio, 1954 4.• ed. S. P aulo, 1961 6.• ed. S. Paulo, 1965 VIAGElf (Tcheco-Eslováquia - URSS) (obra póstuma) - Rio, 1954 • 2.• ed. Rio, 1955 8.ª ed. S. Paulo, 1961 LINHAS TORTAS (c1·ôníc11s) (obra. p&stuma) - S. Paulo, 1962. VlVENTES DAS ALAGOAS (Qundros e Costumes <lo Nordeste) - Crônicas (obra 1>6stumn ) -- S. Paulo, 19G2. 2.• ed. S. Paulo, 1967 ALEXANDRE E OUTROS HEnóIS - Literntum pnra ü1flnclA o jca. vcntude (obk•o. p6stumA) - S. Pnulo, 1962 2.• ed. S. P:sulo, 1964 3.• ed. S. Paulo, 1966. ·~ 1 .. VlVENTES DAS ALAGOAS
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    1 ' 1 GnACTUANO RAMOS VIVEN'l'H~SDAS ALAGOAS 2.ª JDIÇÃO CAPA DE CLóVIS GRACIANO LlVnAHIA MARTINS EDITôHA EDIHCZO MÁRIO DE J1VDRADE l:WA HOCTii, 274 - S. PAULO J' ' GRACILIAN O RAMOS (Quadros e costumes elo Nordeste) (obrri pústumn ) .. 1 1 : 1 MAHTINS
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    ' CARNAVAL 1910 E RAM trêsdias,bem desagradáveis. Sujeitos pre- cavidos fechavam-se, olhavam suspeitosos a rua, mas isto não os livrava de pesares: se se distraíam, inundavam-os jatos d'água suja. Iam mudar a roupa, furiosos. Avizinhavam-se depois das janelás, atentos aos moleques armado.s de bisna- gas enormes de bambu. Além dêsses inimigos, havia os indivíduos que traziam, em mochilas, pacotes de alvaiade, zarcão, ocre, tintas de tôdas as côres, com que se pintavam os transeuntes. Um doutor verboso declamava discursos irados nas esquinas, i·eferia-se aos selvagens, aos tupinam- bás. Ninguém lhe dava importância - e a zanga esfriava. Bem, agora, molha.do, não valia a pena recolher-se. O jeito que tinha era entrar na funçã.o, tornar-se também selvagem, vingar-se, pTovocar outras indignações e arTastar para a folia os amigos cautelosos. Animavam-se todos e perdiam a compostura, acabavam achando aquilo intei·essante. Alguns viam ~ perfeitamente que estavam fazendo maluqueira e desregravam-se com moderação, quase a pedirdes- culpas encabuladas à cidadezinha pacata. H omens graves, pais de família, tis11ados, bebendo aos gritos. Mau exemplo, doidice. Na quarta-feira retomariam a sisudez necess{n·ia.
  • 7.
    ( ' J 8 -GHACILIANO RAMOS Cadeiras nas calçadas. Meninas sérias e bicudas reprovando os excessos, sacudindo com espanto e enjôo as cabeças, onde se arrumavam papelotes. Não se contaminavam, estavam livres da pintura, dos banhos, de atracações perigosas: comportavam-se direito, como se aguardassem a passagem da pro- cissão. Rapazes ousados, atiravam nelas esgnichos d'água de cheiro e eram mal recebidos. l!Iuxôxos. Que assanhamento ! Nada de confiança. Brincadeira com môça findava na igreja ~u r endia pancada. Os desejos não se escondiam sob nuvens de confetc, não se amarravam com serpentinas, não se excitavam com éter. Ainda se desconhecia o automóvel. A gente es- cassa pezunhava nas barrocas do calçamento ruim, equilibrava-se i1as pedras pontudas. As n egras se ha·viam tingido com papel verme- lho molhado. E andavam tesas para não desmanchar os enfeites do pixaim, branco de fiapos. De longe em longe desfilavam parafusos, tipos envôltos em numerosas anáguas que se iam encur- tando. As de cima, perto do pescoço, eram camisas de crianças. Êsses espantalhos andavam inchados por dentro e por fora, pacholas, cobert-0s de renda engomada. Papangús vagabundÔs enrolavam-se em sacos de estôpa, sujos, as caras escondidas em fronhas, as mãos calçadas em meia.s. Bobos de máscaras honíveis se esfo1·çavam por aterrorizar os meninos. Gingavam, falavam rouco e fanhoso: ' 1 - Você me conhece~ 1 Se não conseguiam disfarçar-se, recebiam vaia e ficavam arreliados. VIVENTES DAS ALAGOAS - 9 O índio, de penacho e tanga, era personagem obriO'atória e silenciosa. º . - 1 t do poeira causandoPassava o corclao, evan an ' ·t eutusiasmo Um frevo decente em redor ela por a- b'tndeira. .Repetimn-se cantigas d~ ddez a1~osf:ge: ' - ito bem ensaia as. .L-l.S - nenhuma alteraçao, :rm'. r . homem da, maromba rns marchavam na chsc1p ma' o . li ,·1 . conduzia o bando, importm~tc; papai .ve ~~r~~~ :>~: vaidoso a cabeleira de algodao o as long~s . "t ... 1 morcêgo na frente, fazia. p1rne as,espanacor ; o ' ..·t ndo as asas de· g·mi.rda.-chuva.ag1 .a. . e' e . . • ~1r, arados solitários produziam hllarid.ade .LU çLSC . e, . • • • • • • )COllVenien- ilhéria.'s antigas e ditos grosseiros,,11. . .· com p . l formavam ::is cr1,t-icris, motivotes Outros, reumc os, . ( ' ·' , . t ci 1 . . e "la1·n1·'s Alusões a notaveis .acon e -eo rece10s " · C•• • • l , -· · mentas elo lugar comentár io::; a falos mclmciho::;~s e ' . t 1 s sem graça nen uma.pa1-ticula.res, mexen cos o o ' . . i . nbs Criavam-se inimjgos. E às vêr.os se liqmcnvam co " vcll1as. f d Um cidadão espia.va o morcêgo e o vara ·uso, e lon ·e Dois on três embuçados musct1losos ent;:a~am- g . . batiam-no a cacête. Berros, suphca.s, lhe em casa, ·· e t N' 'm sabia sangue, ~.pitos, snmiailn-dsc ua ~~1~~ bo~~ge~~tar opi- donde vrnham as pau a as , . ,· ~ No ano seguinte as criticas senam meno..,niões. ofen;;;ivas. .' .
  • 8.
    r, r, 1: 1': 1 1 1 1 1 1. I.': 1 1 1! J 1: 1 i1 11 1 ( 1 NATAL A . LOUMA piedade, vinho verde e castanhas nas casas dos portuguêses, a árvore, um pinheiro, coberta de presentes, com gêlo de algodão nas fôlhas, P apai Noel, barbudo, saco ao ombro, devas- tando os armazéns de brinquedos e levando aos me- ninos surprêsas velhas - aí temos o Natal na cidade. Depois disso, lidos os telegramas amáveis e redigidas as necessárias respostas, voltamos às nossas ocupa- ções e a vida continua, uormal. No interior tudo é difel'ente. Nem francês de barbas, nem árvore com frutos e1uolados em papel ele 5êda, poucas mesas fartas, ausência de piedade. O Natal festa profana, alcança duas outras : Ano- bom e Reis. Começa a 23 de dezembro e termina a 6 de janeiro, representa uma solução de continui- dade nas aperreações do sertanejo. Em S. J oão, no fim de junho, menos importante e menos durável, dão-se tiros, quejmam-se buscapés, acendem-se fogueiras, fazem-se adivinhações de vá- rias espécies. Conservam-se aí reminiscências do culto do fogo, talvez, e das consultas ao oráculo. O Natal, uma grande feira, tem muito do car- naval e dos torneios artísticos. Há desafios de vio- leiros e diveitimentos populares em que figuram dois grupos rivais: as cavalhadas, a chegança, os bandos,
  • 9.
    1 1 1 1 1 J 1 1 ll1 111 1 • 1 1 1 1 1 . 1 i 1. 1 i 1 1 1 .; '' ' ;'i i l · 1 1 1, 1· , 1 ., 1 1 1 1 ' 1:1 I! 1 r 1 1 12 - e n A e I L r J i': o RAM os o reizado, o pastoril, o fandango. As cerimônias religiosas, com luz forte, nuvens de incenso as ima- gens vistosas r10s altares floridos, cantos, 'que são também um torneio artístico, realizam-se ao cair da noite. Ao cabo duma hora, satisfeita essa precisão da natureza humana, fecha-se a igreja, e a massa barulhenta invade o largo próximo. Se J1á leiliio - misto aJtar de sacrifício e mercado - o reverendo preside. Sôbre a mesa de toalha branca expõem-se as oferendas limpas, e entre elas avultam os frutos da terra, primícias ou não'; embaixo da mesa anu- mam-se as vítimas, em gera) bacorinhos e aves. Se. não há leilão, o padre fiscaliza de longe os fiéis aglo- merados e afasta-se cauteloso: a sua prese11ça torna- se inútil. _ A dev~ção do camponês, intensa, de ordin[trio nH? ~e exprime em reuniões públicas, como nas socie- dades .nrbmws: fom formas familiares, reza benditos e ladamhas dian~e ~o oratório doméstico, pede favo- res a Santo Antomo, que, se se mostra indiferente é puuido - lembrança possível das intimidades qu~ houve entre os homens e os lares. Nas missões po- , 'rem, apertnm-se enxames em. .redor dos confessio- nários, casmneritos naturais se legalizam surgem numerosos~atjzados. E, ao e11cerra.r-sc o an~, a gente daspovoaço?.s e elas fa~enda.s assiste às novenas, q11e excitam a v1sta, o ou_v1do e o ol~ato, permitem que, durante algumas noites, as exigências sociais do ~1atuto, longos meses recalcadas, semanifestem quase livremente. Amigos, parei1tes e vizinhos juntam-se e.m ma- gotes pelas ruas, andam segurando-se uns aos outros receosos de. que. um membro se desgarre, admirar~ as tei1das 1.lurm11adas, as lanternas de papel, os VIVENTES DAS ALAGOAS - 13 onpacctes dos mateus, as exposiçõ~s de miudezas ~ os foguetes. Nas lojas, abertas ate a madruga~a, bá grilos, discussões, risos, compras, furtos de obJe- 'boa pequenos. Cachaça e vinho ~~anca nas barracas de bebida, bozó e caipira nas .de Jogo. Destravam:se lB línguas, aparecem rixas. Carteando o l?a~a.ra .e o sete-e-meio, em lugares reservados, .profiss1on_a1s <.lu batota esfolam pexotes. Um ca~deeiro. de acetile- ne ehia, um realejo ofega, os cavalmbos giram carre- µ;uclos de marmanjos que se agarram, ~ormam cachos. Mulheres se acocoram nas calçadas, inte_rrompem o trâ.nsito. Estiram-se conversas nas esqumas, arras- tnm-se negócios intermináveis, que se desmancham, recomeçam, falham de nôvo, tornam a r~começar, niastigados numa terminologia confusa. Cada um~ <las partes quer enganar e teme ser enganada. Da~ as voltas lentas, recuos e avanços, uma_h:ta em ~uo os adversários usam contradições, repehçoes~ ...elo?10s e ameaças. Triunfa quem tiver mais pac1encia.e lábia. O tempo gasto nada vale, e por uma ~uanha insignificante perdem-se long·as horas. Existe um código especial, admitem-se trapaças na cont~, ~o preço, na medida, e em ve~d~s e.tr?cas de a:mma1s a fraude valoriza o si1jeito hab1l, di~c1pulo.de ciganos, e constitui uma vergonha para o p_obre diabo ~ue se deixa embromar. Ju.stificam-se, poIB, ~ desconfianç.a, a lentidão, as idas e vinda.s, o encollumento, as son- dagens. " Contrastando com. as negaças do mundo_econo- :mico, há nas relações sentimentais .uma rapidez de processos notável. Numeroso~ ca:_ais afas~am-se da zona povoada e efetuam combma_çoes a meia v_oz, em diálogos curtos, vivos, sem rodeios, sem ~e~a;foras. .Apesar de ser bastante reduzido o vocabulario, tudo
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    14 - eR Ae I L I A N o R A M o s se expõe claramente: a palavra enérgica da literatu- ra realista é largada no momento justo, produz efeito com o auxílio de gestos expressivos e carícias rudes. Nenhum sinal da alarmada pudicícia, dos rubores que ainda podemos notar nas camadas mais altas da sociedade sertaneja. Mas aí há uma tradição, a vir- tude é coisa útil, respeitável, e não convém estragá- la assim de chôfre. Todos se conhecem, a parentela se julga com odireito depedir explicaçõesminuciosas e exagerar insignificância~, os mexericos fervilham. E uma alusão, no púlpito, domingo, depois da missa, ocasiona desgostos sérios à cristã. Essa gente, porém, não se mistura à cambada mesqu:inha e suarenta que joga bozó, bebe cachaça, trepa nos cavalinhos e se comprime em torno das barracas, papagueando, tro- cando beliscões. Aqui as instâncias do coração wfo acham obstáculos. A fase preparatória é i·ápicla. O agente, fungando, ronca em minutos uma declaração de amor. O elemento conquistável, de olhos·baixos, responde com interjeições e movimentos de cabeça. Se está de acôrdo, bem, tudo se arranjará depressa ; se não está, salta fora e encosta-se à parede. Perto do lugar onde os noivos acidentais revelam as ânsias que têm na. alma, d·ois poetas se csgoelarn, repenicando as primas. Cantam a valentia do can- gaccfro, atacam a fôrça volante, fazem a apologia do heroísmo anônimo, e nas emboladas cada um se exalta cômica.mente e insulta o parceiro. Nessa poesia não se encontra referência aos pudores caboclos explo- rados em contos regionais de sentido fraco e obser- vação nula, uniformes, piegas, encharcados na ga- rapa do romantismo. É possível que os autores das honradashistórias, colaboração edificante de revistas populares, procedam com relativa honestidade. VIVENTES DAS ALAGOAS - 15 . . t ,· , sabem que o matuto, su-uitos vrvem no m enor, d . 'd't , . - 11..ras isto verda e ine i arsticioso e me10 pagao. .lu . '. O t .' - · para literatura. u raoorriqueira talvez nao sirva 't d l vrosa e exigente, anda nos escn -Os, vorda e, pata nsnu'te-se O literato cambembe não Pe1~a11ece ra · ·a d . ' nt1'dos e escora-se numa autor1 a e.aonfla nos seus se . ·1 1t1sbí certo. H á costumes que, por isto ou por ªt~u: o, soc~nsideram indecentes. Que fa7:e:~. Apresen .ª- º:~ oxplicá-los, tentar corrigi-los~ D1f1_c11. ~et~hormco acrvá-los em segrêdo. É como se nao ex1s isse .
  • 11.
    ; i :1 11, 1 ·, d1 1' ;11 ; ! I' 1 1' 1 1 1I' 1 1 1 1 1; 1 11 1 11' ' 1 { "1 í 1' ;,i 1 1, 1 " Ir 1' l1/ ~:" 11, 1 : 1 ,, 1 1i 1 1 1 CARNAVAL A CIDADE tem uns c:inco mil habitantes. Contando bem, talvez achássemos seis mil, número que os naturais, bafrristas em excesso, duplicam. Há um cinema silencioso, onde as fitas se quebram wnl'ante longas horas, sem risco para os freqüenta- <1orns, atentos aos dramas em série, e há um sema- 11úl'io, adstringente, espüihoso, que divulga boatos <~oehi<'lrnüos irns esciniuas, na farmácia e na bar- bem·ia, em rcclol' dos tabuleiros de gamão. orrudo se J·cnliia às c1arus, 110 cinema 011 na rua, e as casas <1 Hhío fiscafümcfos rigorosamente. Qualquer derra- pngem medíocre, sorriso considerado impróprio, Hllspiro ou afoiteza de opinião, determina comen- túl'ios, zangas, crfücas acerbas, equívocos. 1T1az trinta anos que S. Revdma. profere no píllpito, com ligeiras .variantes, o mesmo sermão, ntnqne feroz no mundo, à carne e ao diabo, férteis 0111 ter1tações não especificadas. Prudente, S. Hovdma. impugna o exterior do mal. Acusou as primeiras mullicres que vestiram calças e montaram n cava1o ele fronte, esca:nchadas, como os homens, rnns êste indício de perdição vulgarizou-se ràpida- mcnte, os silhões e o costnme de cavalgar de banda cairam em desprestígio - e o vigáTio passou a. de- m.mciar outras manha.s dos ininugos da alma. Agre- diu tlS suias c.:mtas das rnôças e os braços descobel'-
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    18 - Gn Ae I L I A N o R AM o s tos. Ante a resistência foi inexorável: esbafol'iu-se e enrouqueceu depois da missa, usou argumentos rijos e, no batismo, afastou da pia as madrinhas não inteiramente agasalhadas. Recusou desculpas, triunfou . Idoso e de óculos, enxerga sem dificul- dade os colos expostos. E julga qne alguns centí- metros de pele nua ocasionam i:>rejuízo sério à cristã. Na campanha ma.is enérgica do reverendo, con- tra o carnaval, um alia<)o considerável rendeu-se, o hebdomadário noticioso e austero, que entrou na :folia para não desgostar os assinantes. O vigário compreendeu que perdia teneno e contemporizou: admitiu a festa pagã, limitando-se a condenar exa- gêros, que nunca existiram. O lugar é morigerado. Os homens nascem opor- tuuamente, casam oportunamente, morrem oportuna- mente. E entre essas ocorrências compo1·tam-se direito, mais ou menos direito, e examinam as vidas alheias, achando sempre nelas motivo para desa- grado, oque muitoinflui na purificaçãodo ambiente. Efetua-se o carnaval, com decência, com ordem. Famílias reunem-se na praça em magotes limpos de mistu1·as perniciosas. Notam-se várias categorias. A senhora do prefeito e a senhora do médico presi- dem : sentam-se à porta do bar e oferncem cadeiras à representação feminina dos engenheiros da estrada de feno. Será verdade que, depois de tantos estudos, a estrada de ferro vai chegar1 Juntam-se ao grnpo a gente do promotor e a do juiz. Conversas, amabi- lidades, escolha rigorosa de palavras, para que as engenheiras, hóspedas, nã.o formem conceito mau da terra. Provàvelmente não formam. Tudo no largo está bonito e animado. Andam ali negociantes, funcionários, artífices, indivíduos VIVENTES DAS ALAGOAS - 19 ue não pertencem a nenhuma corpol'~ção, outr~s ~ue se ingerem subrepticiamente cm dtve~~ªd PÜ lhól'ias velhas se repetem, provocam bil~r1 a e. scrivão da coletoria tem um~ gra~a ! ,i ap~nas o !ICl'ivão da coletoria, no serviço mnguem da ~ada Eore"le mas de domingo a terça-feira gorda ca1 na ' p ·sso tem prer-arra e nã.o há quem o ven.ça. or l rogativas : é geralmente aceito. . . Desfilam cordões, aproximam-se bandeiras. e~1 onmprimentos, e as cantigas do ano pas~ado aperf~1- onram-se. Abrem-se garra~~s de cerveJ~t. E~ core- ~os enfeitados com bandeirmhas, duas charangas tocam em desafio, capricham nos sambas e :ias m~r­ ohns. A iluminação pública melhorou: as lampa as mortiças cochilam, mas estão numerosas. Se se ap~- d' te como às vê~es acontece, haveriagnHsem e i·epen , · uma confusão. A f 'ta alarmada suspende a conversa, pre e1 , .' . dançam ollrn os rapazes do comercio, que gm~a~ e . . misturando-se aos cordões, algm1s caixeiros ~~aJ an­ lM tipos viciados, com certeza, mulheres duv:- os~.s. ' d.riam as engenhefras se as luzes se extmgAms- o~~~ ~elizmente a usina elétrica se esforça ; v~-se, através das grades, o maquinista mexendo ze oso :naqueles ferrinhos. .. - Parece que o motor aguenta. . A .dade não tem razão para se envergonhar. la:rgoc~rai-se enchendo. Na vizinhança creseem os rmnores dum frevo honesto. . Antigamente não era assim. MarmanJos, de saco l'I tiracolo armados de enormes bisnagas, molhavam 4:11 ' • Ih h' dos de ocre e verme-GD pessoas, Jogavam- es pun a nino. t · ·1· do ·Agora estamos civilizados, bastan e ci~1 iza, :'3· t ' ·s Meia duz1ao:noe1·ta.ram-se todos os au omove1 .
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    1 1 1 1 1 1 ,//;I• '1 1 i' 1 i·1 1 1·' 1 1 1 ' " 1 1· 1:; !! I',. 1 I'! 1 1! l 1 1 1 í l 1 1i ! 11 1! 1 1 1, 1 1 20 - CRACILIANO RA .MOS dêles, arrast~ndo serpentinas, buzinando pelas ruas, tra?spo_r~a risos, a alegria indispensável. Não é só n~e1a cluzrn. Passam três ou quatro desconhecidos: vieram carros de outros municípios, sinal de que temos um carnaval excelente, o melhor destas redondezas. · - D esperdício de gasolina. Os negociantes resmungam. Papel c01·tado ras- gado, pisado, ronpas desnecessárias. No ano' vin- ~ionro, muitos daqueles trajes coloridos estarã.o 1mprestáveis. Ora sim senhoTes. O ajnda.nte da far- mucm ~espejou cinco lança-perfnmes 11a fi.Jba elo telegrafista.. Onde foi êle buscar dinheiro para dar ban:U_o d~ éter numa.si.rigaita1 Hem1 Na gaveta do })atrao, e claro. O rnstrntor do t.iro bebo cerveja e :iamora uma profe.ssôra do grupo escolar. Bem, bem, esse yode consm'.111· la11ça-perfu111e e cervcj:i. Niío rnmupuJa em botica nem compra fiado. Está corto. _ A prefe!ta se aborrece também. Aquela agarra- ç>ao da menrna do telegrafista com o ajudante da ~arn,1ácia é um escfmdalo. A sousa, qne vive na 1grcJn, confessando-se, comungando, perde os estri- bos. e,d~ amostra péssima da localidade. Bom que o :r1gano amanhã se inteire do fato: haverá no do- mmgo um. s?rmão terrív,el. A professori11ba avança, i~a~ com Jeito. E essa. e de fora, educada em prin- c1p10s diferentes. A cidade, tra.d.icionalista., acomoda-se a.os hábi- tos .modc;·11os. Acomoda-se, pois r1ã.o. É o que diz mmtas .vezes o pro:moto.r, homem de leitura. e poesia. ~comoda-se, d~vaga.r..Nada de choques, pcrtu.rba- çoes. A p.refeit.a admira e teme certas liberdades, or~ boas, ora nuns. Quer explicar-se, usa circunló- qmos e atrapalha-se. - A senho1·a não acha1 VIVENTES DAS ALAGOAS - 21 - Perfeitamente, co11corcla a engenheira, sem t.liviuhar a intenção da outra. - Pois é. Rsse caso da filha do telegrafista, por exemplo, do~lou. Uma sujei.tinha nascida na roça, criada na C6, Hem emprêgo, tôla como peru nôvo, pode tomar o freio nos dentes, desembesta.r~ Com franqueza, nno!)Ode. · - Sim senhora, destoa. O fonfonar dos automóveis une-se aos roncos (lo t1·ombone e aos gritos da flauta. A prefeita.cerra oM onvidos, olha um rancbo ele maracatus, re!.ira do pomm.mento a mocinha. do grupo escolar e a filha do 1:olografista : ' - Estamos long·e disso, ·graças a Deus.
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    , O DR. JACARANDÁ I JÁ tempo Carlos Pontes, meu vizinho municipal, ~ mostrou-me na rua êsse popular defensor dos pequenos e ofereceu-me a seguinte observação. - A n,0ssa zona produziu alguns sujeitos no- táveis - nós dois, Fulano, Beltrano, Sicrano e o Dr. Jnrnra.ndá, que é o mais importante de todos. Ri-me, depois achei que o final do gracejo podia sor tomado a sério. P or que não1 Naquela tarde horrível os quarenta graus anun- (l[ndos pelo serviço meteorológico subiam do asfalto, ont.ravam-nos por baixo das calças, envolviam-nos as porna.s como bainhas ardentes. Considerei desalen- 1udo os nossos exteriores. Bambeávamos no calor, procurávamos um pedaço de sombra, as camisas mo- lhadas grudavam-se à pele, os medonhos paletós escureciam nos sovacos. E os pés, lentamente arras- ·tados, pesavam demais. Contrastando com êste abatimento, o Dr. J aca- rnndá resplandecia., leve e retinto, como se estivesse ongraxado de nôvo. O pixaim branco realçava na ti·eva da nuca, valorizava o chapéu velho ; as abas do fraque, impulsa.das por energ·ias intensas, agita- Víl.m-se, remedando bandeiras de uma bela côr preta amarelada, com manchas claras; os bolsos encbuma- çavam-se, provàvelmente de símbolos escritos; e uma
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    t· ' 24 - GR Ae lL I A N o n A M o s rosa triunfava na lapela, vermelha e grande. Ligeiro como um redemoinho, o homem atravessou a. ave- 1Jida, sumiu-se na multidão suada, fatigada. E fatigados, suados, lá nos fomos deslocai1do vagarosos, em busca da sombra, invejando aquêle estranho conterrâneo. Por fora o Dr. Jacarandá vale realmente mais que nós. E também por dentro. Rematamos meio século apagado, inútil - e êle, rijo, seguro, viveu quase o dlplo. Quando, em 1877, fugindo à sêca e a outros fla- gelos, deixou Olhos-d'Agua-do-.Acioli e chegou aos arrozais de Anadia, era molecote já taludo e mane- java fàcilmente a enxada no eito. ~sse gênero de trabalho, porém, não se acomodava às aspirações do môço, qne ainda não era Jacarandá nem doutor. De que modo adquiriu o nome e o título, o prestígio, o fraque e a rosa flamante, nem êle próprio talve7. saiba. Deu voltas e trambolhões, mourejou dece·rto em ofícios vários até acbar a sua tendência e surgir, experiente e maduro, com banca de advogado, con- sultório modesto que uma placa. de papelão segura em cordões indica, junto a uma bodega de frutas. Desdenhando erudições e formalidades, êsse D. Qui- xote escuro entrou firme. a combater injustiças, a defender os senhores vagabundos e as senhoras mere- trizes, c·onforme êle diz, e ameaçado por uma asso- ciação de classe, afirmou à imprensa que não tomava o lugar de ninguém, que não era causídico ou advo- gado, como outros, mas a.penas adevogaclo ou cosídi- co. O acréscimo e a redução de vogais se1·viram para jll.'3tificá-lo. Os repórteres bateram palmas, a platéia riu - e o Dr. J aca.randá, imperturbável nos seus oitenta anos robustos, envernizado e florido, conti- , f 1 VIVENTES DAS ALAGOAS - 25 llllOU a desfazer agravos. Olha para cima, caminha h pressa. Muito divergünos dêle. Andamos ronceiros, e 08 nossos olhos prendem-se no chão, cravam-se 110 chtío. Estamos arriados, esb:izados. Que diabo espe- ramos ~ Os nossos acha.ques casam-se admiràvel- inente a achaques externos, e nesta combinação ge- memos ou bocejamos, recusamos engulhando os xaropes que nos receitam. O estômago é ruim, a cu.beça é pés.simn, o espírito secou. Noções desen- contradas 11os dão vertigens. Para onde vamos~ Os espinhaços curvam-se, os óculos embaciados, cada vez mais turvo..s, fixam-se na terra. Certamente houve muitas coisas belas, mas agora tudo é feio, triste. E falsificado. AHmentos falsificados e idéias falsi- ficadas nos estragam as vísceras, superiores e ~nfe­ ~·iores. Verdades numerosas tornaram-se mentiras. :E vice-versa. Infelizmente os sentidos funcionam : lemos jornais, onvimos r ádio. roderemos ainda acre- ditar, admirar? Bem. Ad.min:1mos o Dr. J acara.ndá, que tem crenças inabaláveis não lê jornais nem escuta rádio. ' d . ]" t 'Se lesse ou escutasse, na.ela compree11 ena. iis a quase tão puro como quando,,e1:n 1877~ fugiu da sen- zala e ela sêca. Usa o vocabulano e a srntaxe daquele tempo e crê nos feitiços, que se debe~a~ gra~~s a Deus. A sua ocupa.ção é livrar de fe1ti9os m~~dos criaturas miúdas postas na gaiola. Mas ha os feitiços ºTaúdos que êle simples cosídico, não ousaria atacar. Vive cercado de mistérios - e respeita-os, adora-os, para que não lhe causem prejuí.zo, não m~ta~ na colônia conecional os seus hun11ldes conshtumtes. Bruxarias voam-lhe por cima da cabeça, rumorosas, conduzindo passageiros e correspondência. Ignora
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    ' ' '! 1 li:'~ 1 •, 2õ- G R A.CIL IA. NO RAMOS que essas bruxarias se multiplicam lá fora, podem transportar bombas, arrasar cidades. P ela sua natu- reza de pedra correram desgraças, e não deixaram mossa. Guarda uma inocência r esistente, uma bon- dade que o leva para as misérias alheias. São as armas de que dispõe. Vai-se agüentando, e isto prova que não estamos definitivamente corrompidos. ~ ., ' D. MARIA AlIIÁLIA O gabinete de S. Excia., como todos os gabinetes de pessoas importantes, estava sempre cheio. P edidos, choradeiras, desejos de vingança, vaidades, calúnias, reedições vivas de cartas anôni- mas - um inferno. O governador aborreceu-se disso, abandonou as audiências e começou a rodar nmn automóvel pelo interior do Estado, ensinando agricultura e zootecnia aos matutos e tentando endireitar os orçamentos municipais. Em cada semana eram dois dias de fuga. O pior é que nesses dois dias, passados aos sola- vancos, entre atoleiTos, lávinham,mal o cano parava, as cenas do gabinete :as mesmas lamúrias, os mesmos enredos, as mesmas pequeninas safadezas. Sômente, como não havia sala de espera, o governador se punha em contacto com tôdas as misérias da terra. E as misérias vestiam-se mal e falavam linguagem incor- reta. · Ora, das criaturas que aperreavam S. E xcia., D. Maria Amália era a mais incômoda. No gabinete, no sertão, livre das horas d e expediente, no cinema, assistindo a uma cerimônia oficial, respirando poeira em vagão da Great-Western, ou escondido num dêsses recantos indispensáveis que não é preciso mencionar, descansando, fazendo a barba, dormindo, comendo,
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    ·I '.; ~ .1·· ·' 1 1 1...... 28- GRACILIANO RAMOS amar1do, o governadol' era atenazado por D. Maria Amália, pelos representantes de D. Mariu Amália ou pela recordação de D. Maria .Amália. Senhora terrível, sempre com um inimigo para deit.ar abaixo e um amigo para colocar. Nunca estava satisfeita : achava poucos os favores que os seus amigos recebiam e julgava os iuimigos demasiada- mente favorecidos. D. :Maria Amália era mulhel' dum chefe político influente. Às vêzcs prefeito, outras vêr.es deputado ou senador, o marido de D. Ma.ria Amália tinha grandeza. Na câmara, no senado, nas secretarias, nas diretorias, imaginavam que êle dispunha de dois mil votos e respcitavnm-110. Mas no município dêle todos sabiam que os votos eram de D. Maria. Amá.lüi, qne manejava o delegado, o subdelegado e os inspetores de quarteirões, o admi- nistrador da recebccloria, o coletor federal, o pro- motor, os jurados, os conselheiros municipais e o pre- feito. Dessas autoridades heterogêneas, urnas, ma- lcáveis, quebravam a cabeça para adivinhar .os pen- samentos de D. :Nfa1·ia Amália e corriam a contentá.- la; outras de têmpera rija e carranca, resistiam, discutian1 e obedeciam com· independência. O governador começou a fugir daquela mulher temerosa, que, depois da eleição, exigia empregos para todos os eleitores, adotava, por intermédio do marido, o negócio de vendas à vista, tanto por voto. S. Excia. precisava dos votos, mas não possuía a quantidade necessária de empregos. E sprernido o orçamento, ainda :ficavam muitos candidatos afas- fados do tesouro, desgostosos, dizendo cobras e lagartos elo govêrno. "I l VIVENTES DAS ALAGOAS - 29 Caso sério. O eleitor ca.mbernbe vota para re- ceber um par de tamancos, um chapéu e o jantar que o chefe político oferece à opinião pública; mas o eleitor considerado quer modo ele vida fácil, orde- nado certo e a educação dos filhos. S. Excia.. compreendia perfeitamente que a oposição engrossava. Paciência. Depois dos votos, promessas. Os homens acreditavam nas promessas, mas D. Maria Amália não se deixava embromar : examinava as coisas por miúdo, reclamava paga, toma lá, dá cá. E o seu nariz bicudo farejava os decretos que se ocultavam nas diretorias, nas secretarias e nas ofi- cinas da Imprensa Oficial. Essa figura antipática e exigente cresceu tanto que tomou para o governador as proporções duma calamidade. D. Maria Amália tornou-se um símbolo. Foi a representação da nossa trapalhada econômica, social e política. E S. Excia.., desprezando o gabinete e percor- rendo os municípios distantes da capital, procurava debalde evitar as manifestações que D. Maria Amá- lia lhe trazia de malandragem e parasitismo. Quando a malandragem e o parasitismo, embrulhados em boa sintaxe e enfeitados de retórica, mostravam a cauda numa coluna de jornal ou nas declamações ex- cessivas dum discurso, S. Excia. franzia a testa e queixava-se de D. Maria Amália. Um conselho municipal aprovava as contas do prefeito que esquecia as obras públicas e gastava mundos e fundos com pessoal. - Administração de D. Ma.ria Amália. Um coronel mandava o júri absolver ou condenar criminosos.
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    ·' J 30 -GRAC IL IANO RAMOS - Justiça de D. :Maria Amália. Um delegado tomava a :faca dum cabra e ia ven- dê-la a outro. - Polícia de D. Maria Amália. Todos os anos, no dia 7 de setembro, o governa- dor recebia um telegrama que nunca mudava : "Con- gratulo-me com eminente a.migo comemoração data independência querida pátria. Cordiais saudações." - Política de D. Maria A.mália. E D. Maria Amália crescia. Hoje é uma senhora bem conservada, respeitá- vel, com excelentes relações. Algumas pessoas julgaram há tempo que ela ia morrer. Tolice. Morrer tão môça, quando, corno diz o poeta, êste mundo é um paraíso1 Resistiu a tôdas as comissões de sindicância e está forte, gorda e bonita. O MôÇO DA FARMÁCIA N A cidadezinha de cinco mil habitantes, elevados a dez mil pelo bairrismo, o caixeiro da farmá- cia publica experiências de boas letras no semana.no independente e noticioso, que tira qui- nhentos números e, por ser pouco noticioso e muito rndependente, já rendeu sérios desgostos ao diretor. Moléstias, remédios nauseabundos, suspensão da fôlha, que, depois de quinze dias, três semanas, um mês, volta a circular com mais notícias e menos inde- pendência. Vem daí as relações do ajudante da far- mácia com o diretor da fôlha. Há nela uma secção literária - e foi isto que seduziu o rapaz, homem de raras ocupações e desejos imoderados. Vira êle em jornal grande uma linha preciosa : • • ''As ruas fustigadas por violen~íssimo temporal.'' Folheava atento o dicionário pequeno e ficara sur- preendido. Ora muito bem. "Fustigadas por violen- tíssimo temporal." Que beleza ! Nunca ninguém na cidadezinha de cinco mil habitantes, elevados a dez ., mil pelo bairrismo, havia composto frase tão sonora i e difícil. O vocabulário da povoação era minguado, e a sintaxe variava de indivíduo para indivíduo. A filha do telegrafista cantava, desafinada e sentimen- tal: ''A brisa corre de manso.'' Mas a professôra vizinha achava que, sendo brisa uma palavra femi-
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    'I' '• ',, '' 1,r:.,.,, ' ,j ' 1 32 -e R A e 1L I A N o R A M o s nina, devia emendar-se a cantiga: "A brisa corre de · mansa." Omôço da farmácia decidira servjr-se dos tem- p~rais. e evitar as brisas. Redigira e publicara na folha mdependente uma coluna verbosa, mas com tanta,il~felici~ade que o promotor, hábil em poesia e gramatica, afirmara nas barbearias que aquilo era de Vítor Hugo. I ntimado a exibir prova, o bacharel r~spondera ~ue não se lembrava da passagem pla- giada, mas tmha certeza de que havia fnrt.o. O autor brioso, lera todos os livros de Vítor Hugo, alcançar~ -, a absolvição e, dono dessa cultura razoável, xingara o promotor em becos e esquinas. Assim teve princípio a carreira literária do aju- dante da farmácia. Adquiriu diversos volumes en- cheu-se de regras, estudou metrificação e leu jor~ais. Deseja transpor os limites da cidadezinha mas . 'por enquanto .ªm~a é um escritor municipal. Capri- cha na orgamzaçao de contos, manda-os a revistas, aos con__cu~·sos que se fazem na cidade grande, sonha com prem10s de vulto, com ilustrações vivas, em tri- cromia. Esfôrço vão. Ninguém lá fora. o enxel'o·a. Z~nga-se, julga-se vítima de injustiça. Depois de:a- mma. As histórias arranjadas pacientemente des- manchadas, refeitas, são ruins. P or quê1 Não há ali uma criatura que lhe possa dar explicações. Aprende só - e isto é doloroso. Neccssário enorme trabalbo par~ compreender, em seguida esquecer, recomeçar, orientar-se de nôvo. Evidentemente as lições vistas nos livros estavam erradas. Volta pro- cura lições diferentes, que abandona. Avanda em a~guns pontos, em outros permanece ignorante. Não dispensa os temporais que fustigam as ruas. VIVENTES DAS ALAGOAS - 33 Bem. Agora é capaz de utilizar brisas e tem- ornis, certo de que a combinação está sofrível. A h•olora do grupo escolar pediu-lhe discursos para 011 meninos que tinham findo o curso primário. Fêz i.ms quatro, que foram preteridos pelos do juiz de 'diroito, um ma]nco. Está melhorando, sem dúvida. ti <'havões do juiz de direito foram recebidos com muito elogio, sinal de que não prestavam. Bobagens do nrrepiar. Provàvelmente os tem1Jorais que açoitam as ruas tnrnbém não valem nada. Se valessem, os contos, dfrei.tinhos na conjugação e na coucordância, teriam Hido publicados, com ilustrações de Santa Rosa. Continua a trabalhar, só, adiantando-se em al- g11us1ugares, emperra.ndoem ontros. Tem um bando de nomes na cabeça, mas emprega-os sem disccrni- meuto e deforma-os na pronúncia. Envergonha-se e.lo nsá-los em conversa, porque ali não os conhecem. Uedamente o consideram pedante quando, receoso, l11xga uma daquelas palavras longas que viu no i·o- munce cacête. Cacête, pois não, embora lhe falte coragem para dizer isto. Descobl'iu num rodapé lou- vores excessivos ao romance e ficou grogue, matu·- tnndo, como qnem decifra charada. Precisa reler 1H1uela droga, bocejar, cochilar em cima dela. Dirá que é magnífica, está visto. Presumirão que êle i'!nbc julgar. Ajnda não sabe, mas saberá. Tem armar,e1rn.do noções valiosas, dando por vuns e por peuras, vencendo c1·ises de apatia. últi- mamente conseguiu perceber defeitos graves nuns versos e isto o alegrou. ..t~ssevera interiormente os seus progressos. Pensa em sujeitos animosos que subiram sozinhos. Como se cha.mava o carvoeiro que
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    1' 1 j ''l.1•1 i 1 !:·I i! ' 1 '! ~ I. ,,. .' '1 1 ,:j. 1 ''1 · 1.!. .· ·~ .I.,·i. 36 - G H A C I L I A N O l1 A M O S É possível que ela nunca se regularize. Se a sêca chegar, se elementos perturbadores intervierem na vida meio conjugal, o sertanejo, neto de ciganos e neto de selva~ens, abandona o rancho, a mulher, os cacarecos, vai enrascar-se·noutra aventura em lu- gar distante. Mas em a'lgnns anos de safra, com o paiol cheio, a vazante próspera, conta na loja a fa- mílfa consolida-se, precisa confessar-se bati~ar os filhos como legítimos. Nessas condições'as forma1i- dades vulgares - banhos, escla1~ecimentos na sacri~­ tia, apuros no armazém e i10 alfa.iate, muita comida, muita bebida -- sã.o inúteis. Nada ele aparato exces- sivo p~ra legaliiar um arranjo que já se fêz; nem comumcações, nem c·onvites. AproveHa.-se, pois, a santa missão, a viagem do bispo, que ve.in, com mn séquito de vários fradeo, pregar, <l:u· penitência crismar, diminnir os pecados da freguesia. ' Na verdade o matuto não se julga criminoso p.or haver contraído matrimônio sumàriamente: a sua religiã.o, ciosa de ladainhas, incenso, imagens, rosá- rios e procissões, contemporiza em assuntos de ordem moral, transige às vêzes com o assassínio. Não há mal em viverem d.ois cristãos juntos, trabalha11do criando os meninos. Durante uma semana, porém: enquanto o bjspo está 11n cidade, há uma fúria de- vota pela viúuhança. IDnche-se a igreja. Os ecle- siásticos dirigem terríveis ameaças ao público : pin- tur as medonhas do inferno excitam as imaginações e produzem arrepios. Ora, das culpas derrnnci.adas a mais grave é a amigação. O roceiro, inquieto, livra-se dos castigos expostos aceitando o casamento que lhe oferecem, o casamento de corda, medicina. de urgência, pois ser.ia difícil, rws poucos dias da ·visita lJontifical, ex- VIVENTES DAS ALAGOAS - 37 Hug11ir os achaques da localidade. Alinha-se grande 11úmcro de infratores junto a um barbante estendi<lo o, em dez minutos, numa única operação, todos se r:mrramentam. Nessa liquidação o tabaréu impres- folio11a-se mais, chateia-se mais que nas cerimônias eo1mms. Em prjmeiro lugar existem a mitra do bispo o as tonsuras enormes dos frades, sermões em abun- clíl11cia, a crisma, o confessionário repleto, batinas, lrnréis, seminaristas que não se distinguem dos pa- <lres verdadeiros. Tudo isso é raro e atraente. Em scg1mdo lugar o matuto se sacrifica para assistir à festa : larga o serviço, aboleta-se na rua, come fora de horas, dorme à toa, 1rns calçadas, vê e ouve coisas inrompreensíveis. E, ao aprumar-se j unto ao cordel, i:<cnte-se dignificado. Outro costume em voga entre as nossas popu- lações rurais é o rapto da mulher, ato ordinário mo- tivado por uma recusa da :família dela, superior ao pretendente. Às vêzes não é superior e apenas deseja furtar-se aos incômodos tradicionais da boda. Não se combina o lance romanesco, mas há quase uma combinação tácita. A heroína deixa ele ser fiscalizada ronve11ie11terne11te e uma noite roubam-na, conforme os processos clássicos. Um grupo de cavaleiros, ami- gos do protagonista., vai buscá-la, com armas e ga- llrnrdia, encontra-a perto de casa, decidida à fuga. Leva-a, trata-a, com especiais atenç.ões e deposita-a crn lugar honesto, insuspeito. Ninguém a ofende. Convencionou-se, todavia, que ela está poluída, e daí em diante, até a viuvez, que lhe restitui a pureza comprometida, 11enlrnm sujeito decente, isto é, ne- nhum proprietário, desejaria aceitá-la. Há negociações, regulares, estatuídas. Exe- cutado o simnlacro de conquista, o depositário vai
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    1 1 1 1 • ! " .,; j 1,' 1· ' ,1 : >il 'l'.:! !: i li;; . 1 1 1 1 38 - GRAC I LIANO RAMOS ei;t.ender-se com º.patriarca inimigo, que se declara v~tim~ dum ultraJe e não quer saber de conversa: a filha rngrata perdeu-se, é m~o cortada. Pouco a pou- co o homem brab~ se a~ac1a : escuta objeções pon- derosas, reage, afinal, amda carrancudo, permite 0 casamento, porque o mal está feito e não há remédio. Submete-se ao desastre, mas conserva-se de fora es- capa às amolações e à festa. Os gastos miúdos fi~.am d . ' 'a cargo o noivo. 'Em seguida tudo se reorganiza. Um dia os cul- pados chegam de supetão, exigem a bênção, que nada custa e se coucedc, a princípio em voz baixa mais tarde naturalmente. Tornam-se todos amigo~. - Um pai nunca deixa de ser pai, não acham~ Efetivamente houve apenas uma violência fin- gida, que indiví~uos di~·eitos usam com freqüência. Os cambembes !1ao precisam dela : juntam-se por aí, como brutos. E casam-se depois no cordão, se se casam. . CIR1ACO E RA um caboclo reforçado, cabreiro numa fazenda antiga, em decadência, no interior de Pernam- buco. Isento de família, possuía apenas o nome de batismo, Oiríaco, que se pronunciava Ciríaco, e alguns entendidos encurtavam para Cirico. Se tratasse de bois, Oiríaco andaria a cavalo e usaria perneiras, gibão, guarda-peito, sapatões duros com esporas de grandes rosetas. Ocupando-se, po- rém, de bichos miúdos, era pedestre e exibia arreios somenos: alpercatas, calças de algodão tinto, camisa de algodão branco por fora das calças, bisaco a tira- colo, chapéu inamolgável como chifre, sapecado, negro de suor e detritos, de beiras roídas, traste insignificante que um vaqueiro desdenharfa. Dispunha de vocabulário escasso e falava aos arrancos, misturando assuntos, deixando as frases incompletas, entre silêncios. -Hoje de manhã, no caminho das Sete Lagoas, encontrei uma tubida. Sim senhor. Remexia o aió, procurando fumo e palha, tirava da cintura a faca de ponta: - Quando mal me precatava, o diabo da sem- vergonha me deu um coice. Torci o corpo. - A tubicla deu um coice, Oiríaco~ - Não, é outra história. A vaca laranja, ali no canto da cêrca, ontem. A tubida foi hoje de manhã.
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    i 1 )' ·I1 r1· 1 11 1 ' "! 1 ,f i I!. jt'li!, 1:'... '':: 1 ~ ; i '1 1 i .o(O G IL>i C 1 L l A N O R A M O S Nessn linguagem capenga, feita de avanços, recuos e perífrases, narrava sucessos longos, que os ouvintes percebiam de modos diferentes. Mas de ordinário não gostava de falar: preferia atiçar as conversas dos outros com apartes, vagos comentários de aprovaçiio mastigada : · - An~ an J Está bem. P ofa é. A voz grossa e abafada escorria lenta, um sor- l'iso ilumirrnva o rosto moreno, coberto de rugas e pêlos de alvura respeitável. ótimo sujeito. Nunca o vi zangar-se. Meio selvagem, dormia ao relento, no chão. Só se recolhia no mau tempo, quando as nuvens r olavam baixas, crescia o r onco dos trovões, o relâmpago cla- reava os morros distantes, quase invisíveis na sombra repentina, ftnica elevação naqueles descampados. Entrava rcsmunga11do, apreensivo, estendi.a na snla um couro de boi e arriava em cima dêle os ossos ve·- lhos, que iam comr.çando a emperrar. Desentocavri-se logo que ::tR roisas melhoravam lá fora. O céu de nôvo se alargava e subia, o sol brabo t.irava ela cam- pina gris~Jha as manchas frescas de verdura. E Cirfoco estava contente. O meu quarto na casa arruinada ficava à es- querda., jm1to llo quintalzi..nho onde resistiam, sob os gnJhos dmna baraúna enorme, garranchos escuros, flôrcs murchns, craveiros e panelas de losna. Era um quarto excelente, porque tinha rebôco, ordinário e rachado, mas h1xo excessivo comparado ao resto da habitação, taipa negra r evesJ•ida de pucumã.. A por- ta, escancarada, mostrava alguns esteios do copiar, o chiqueiro das cabras, um carro de bois, os montes afaRtíl.dos e, no fim elo pátio branco, onde jumentos zurravam dia e noite. dois pés de juá. Os móveis • VIVENTES DAS ALAGOAS - 41 · t1 que me utilizava eram mesquinhos : u~a rê~e nonrclida, um caixão de 1ivros, uma cadeira meio ·d.e1mrticulada, com emendas e vários pregos, a mesa poqHc1m e manca, de tábuas quase sôltas. Chateava-me horrivelmente ali, tentava curvar ttF! juntas duras, arrastava a doença teimosa, pezu- JJlu:mdo no chão sem ladrilho, cheio de barrocas, º?de f.ôll1as sêcas, trazidas pelo vento morno, sacud1~m pontas de cigarros. Bocejava, monologav-~, da i~ede pnra a mesa. E, tendo-me imposto .uma dieta r1g~­ rosa, sem poesia nem rom~nce,.ench~a:me ele grama- tica, parafusava no clássico, ha ad1vmh~ndo ~mas línguas estrp,n~eiras e cobria de notas mt~itas folhas de papel. Distraía-me observando as teias de ~ra­ nha, o chiqueiro das cabras, os montes, ': cam~ma, ns árvores, o carro de bois e os jumentos. A tar dinha as catingueiras escureciam de cbôfre, o barulho da miunça vencia os outros rumôres. Ciríaco andava pelos arredores, apanhando gra- vetos, raízes demacambira, estacas p·odres, que em- pilhava defronte da casa. Varr~ ~om um molho a.e vassourinha alguns metros ~o patio coberto .de sei- xos miúdos, acocorava-se, tirava fogo do bmg~ e, quando as labaredas espirr~vam da lenha,. estira- va-se na poeira, como os viventes desprovidos de fala, e ro11cava um sono pesado, sem sonhos, na paz do Senhor. Essa boa criatura me visitava muitas vêzes. Aproximava-se devagar, arrumaya-se 1!-11111 cant~, dizia casos embrulhados. Em segmda fazia uma peI- gunta e amoitava-se, punba-se a escutar, a assuntar, concordando : - .A11 ! an !
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    !· 1 ! ' ,. •I ... ',. I" 11 '·1~ .1 jt i' 42 - G R AC l L 1 A N O R A M O S Entrou-me um dia assim no quarto ao lusco- fusco e interrompeu-me o estudo com um diset rso armado pouco mais ou menos dêste jeito : - Você lê muito, estraga a saúde lendo. Deve sabor demais, deve saber tudo. Saber é bom, saber valemais que dinheiro. Como éisso lápor cima~ Que ~que os livros dizem~ Ciríaco desejava notícias sôbre a origem do mundo. E eu, ra1Jazola. ingê11uo, admirando seme- lhante curiosidade num tipo bronco, estusiasmei-me, venerei a espécie humana, joguei para Ciríaco, usando as precauções que a ignorâ.ncia me sugeria, a nebulosa e Laplace. - Entende~ .. - Está bom. Evitei as expressões técnicas flTU que me engan- chava, resumi a formação e solidifiquei o globo ràpi- damcntc. Busquei em redor qualquer coisa que $er- vissc de sol, e o que achei foi o candeeiro de fôlha colocado na ponta da mesa, sujo, com uma luzinha trêmula, uma protuberância fuliginosa. - I sso é o sol. Não é sol, não é nada, mas su- ponha. Um sol bem ruim. O outro é muito maior, ()Stá claro, um bichão. Queima a terra. brincando e vem a sêca. Terrível. O sol tem muitos podêres. - 1fafor que Deus~ - Sei lá ! Parece que os dofa são fortes. Agora só tratamos de um. O candeeiro. Um candeeiro enor- me, redondo, quente como o diabo, uma fornalha do inferno. Por aqui deve andar a terra girando, ·ban- cando carrapcta. Na vizinhança há outras, grandes e pequenas, um pelotão delas, com luas, tudo se me- xendo. E o sol no meio, importante. VIVENTES DAS ALAGOAS - 43 Em falta dum objeto que representa.sse a terra, peguei o meu chapéu de couro e o cbap?n ele Ciríaco. Juntei-os, movi-os em torno do candeeiro. - Aí na banda clara temos o dia. No outro lado é noite. Bonito hem~ - Vá dizendo. Êsse planeta, muito mais volumoso que o sol, 11ã.o era propriamente esférico. Os pólos ~ormavam dois bicos. O equador, feito pelns abns, salientava-se em demasia. A exposição durou cerca de meia hora. Ciríaco balançava a cabeça e grunhia as duas sílabas gutu- rais de aprovação, no sorriso permanente : - Anl an! Excedi-me, expliquei negócios que at.é então havia ignorado. Falei muito sôbl'e o~ ~1ov11nentos. Conhecia uns dois ou três, mas arranJCI outros. Ao findar, sentia-me otimista, satisfeito com a popula- ção rural do mett país. - Compreendeu ~ Ciríaco esfregou as mãos calosas e largou uma risada grossa : - Compreendi. Você quer-me empulbar. Pen- sa que eu acredito nessas besteiras.
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    I' ! 1 . 1 ' 1 f i .1I' 1 ! 1 1 1 1:'1 1: 1 ;, jl: 1:. A: !. 1 :' 1 1 ~ '-{. HABITAÇÃO A QUI vai, com pormenores .inútejs do realismo, a descrição duma casa sertane,ja, vista bá algum tempo nos cafundós do P ernambuco. Baixa; de taipa, eheia de cscondei·ijos, lúgubre. Oteto, chato, acaçapado, quase sem declive, é negro; é negro o chão sem ladrilho, de terra batida, esbura- cado e sujo; negras as paredes sem rcbôco, com o barro que as reveste a rachar-se, clejxando ver aqui e ali o frágil madeiramento que serve de carcassa. Três portas de frente e duas janelas. As portas têm altura suficiente para que possa entrar uma pessoa de média estatura sem curvar-se. As janelas, aberturas pequenas, quase quadradas, estão situadas lá em cima, perto da telha. Para atingi-las, trepa-se ~L gente a um caixão. Têm dobradiças de couro e trancam-se com pedaços de pau roliços, envernizados pelo uso, que se introduzem em buracos abertos nos }Jatentes, presos a cordéis amarrados em pregos. As portas fecham-se interiormente com taramelas. Em frente há um alpendre, o copiar, sustentado por esteios baixos, grossos, r esistentes ao caruncho. Limita-o uma. plataforma que se e1'gue meio metro acima do solo, ele terra sôlta e ped1·a. É ali que dor- mem hóspedes sem importância, na desag1·adável •' '
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    li 46 - GR A C I LI A t O R A if O S companhia dos bodes e das cabras, que lá vão fazer idílios. Na sala principal há três r.êdes armadas em paus recurvos que saem do esqueleto elas paredes. A um canto, um enorme tra.ste de pernas descomunais, que atravessam urna tábua de dez cenbetros de espes- sura, magnífico para rasgar a roupa de quem nêle se senta. Aqui e ali, em tornos de madeira, penduram- se chapéus de couro, gibões,, perneira.s e peitorais. Alguns sacos e surrões de milho e feijão substituem as cadeiras. Enormes cordas de laçar, cabrestos de cabelo, encerados, cangalhas, alpercatas, sapatões de montar, com grossas esporas de rosetas incrívei.s, es- palham-se desordenadamente. Sôbre uma tosca mesa, lavrada a enxó, um ora- tório envolto numa coberta vermelha, de florões. Há dentro dêle uma litografia de Nossa Senhora, des- botada, em caixilho sem vidro, um crucifixo, alguns santos de barro e de gêsso, enfeites de papel, uma lamparina e uma vela benta. Na mesa, urna gaveta, e aí um museu - rolos de cêra, novelos de barbante, agulhas pa1·a sacos, pedaços de sola, um tabaqueiro, um couro de fazer rapé, um rqartelo, uma torquês, sovelas, chifres de veado, pontiagudos, pacotes de orações, sementes, bolas· de sêbo, látegos, chocalhos, pregos, fivelas, um macête e um Lunário Perpétuo. A direita de quem enha há um cubículo cheio de algodão. A esquerda, um salão mal-assombrado, onde se mistnram montanhas de quejjo, cestos, caçuás, selas de campo, cavaletes, pedras de amolar, sa.mburás, ro- los de fumo, cuias, cabaços, gamelas, arame farpado, facões, espingardas de pederneira, machados, foices o enxacfas. ' t VIVENTES DAS ALAGOAS - 47 Da sala principal segue para os fundos um cor- 1•edor estreito e sombrio, prêto de pucumã e teias de aranha. Dão para êle dois quartos fronteiros. Um, dns meninas, nunca se abre. O outro, dos donos da casa, deixa ver, através da porta meio aberta, algu- mas arcas, onde se aferrolha o tesouro da família, ouma cama baixa, sem colchão, com o lastro de cour o <le boi, em cabelo, gasto pelo atrito de algumas gera- ções que ali se fizeram, viveram e morreram. O corredor desemboca na sala de jantar. Há ali uma pequena mesa, que raramente se forra, tôda escalavrada, cheia de altos e baixos, pelo hábito de picar-se fumo em cima dela, à :faca de ponta. La- deiam-ná dois bancos. Perto, uma velha máquina de costura em cima dum caixão vazio. Um pote sôbre nma forquilha plantada no chão. Nas pontas das varas que saem das paredes, cm1c1eeiros de fôlha, pendurados pela asa, de torcidas de algodão, negras, fumegantes e fedorentas. Com a sala de jantar confinam a cozinha de um lado, elo outro o quarto das criadas, duas pretas, que nasceram escravas e ali continuam, porque não sa- bem que fazer da liberdade. Uma delas de luxo ; dor- me em cama ele varas, a isidora, erguida sôbre quatro estacas pregadas no chão. A outra dorme na esteira. Possuem caixas de pinho, onde guardam a roupa, e combucos cheios de bugigangas - espelhos, voltas de contas, alfinetes, frasquinhos de perfume, anéis, brincos, pulseiras, rosários. A cozinha é pequena. Urna grossa camada de fuligem dá-lhe um nôvo teto. Um jirau substitui a dispensa. Amontoam-se nêle mochilas de sal, résteais de cebola, espigas de :milho, botijões de manteiga. :Mantas de carne, lingüiças, panos de toucinho pen-
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    li 1 : ! ' 1' i' 1 1! ! : 1 '; 1 1 : 1 '" :! 1 ::1 ·1 1 1·1 i .,. 1' ~I ~, 1·1 .. ~ ., •I [l :I• 1 48 - G R A e I L I A N o n AM o s duram-se a uma corda que vai duma parede a outra. O fogo é feito no chão, entre pedras dispostas em trempe. A um canto, mn monte de cinza e carvões apagados. Todos os dias uma preta de cócoras, varre aquilo, a vassourinha. Frigideiras, caldeirões, pa- nelas, marmitas de f ôlba, ralos, canecos, abanos, :formam o sistema planetário dum tacho velho, ra- chado, coberto de nódoas verdes. Em~ima dum pilão, deitado um gato ronca. J·unto ao lume há quase sem- pre uma velhota acendendo o cachimbo de canudo de taquari com uma brasa espetada a um garfo. Encos- tada à trernpre, uma banda de casca de côco presa num pau, a quenga. Na parede, o caritó, pequena cava em forma. de concha, onde se guardam objetos miúdos - pedras de sal, poutas de cigarros de pa- lha, de11tes de aJho, cordões, retalhos de pano, agu- lhas, peles de furno que se oferecem a Santa Clai·a, a trôco de pequeninos milagres caseiros. Uma janela bajxa, onde se senta um rapagão indolente, dá para o quintal, nu, com um barreiro cheio de água turva, coberto pela sombra escassa chuna árvore mor ta. J'unto ao quintal o jardim, povoado de algodoei- ros, verduras, vasos de alecrim e,losna, urtigas e flôres, tudo protegido pela ramagem duma baraúna velha. Do lado opôsto, três currais de cêrcas eternas, mour ões gigantescos . Um pouco afastado, o chiqueiro das cabras. Em frente, nm grande pátio, bl'anco, limitado por árvores sempre verdes que escondem montes dis- tantes. No terreiro, no pátio, na calçada, confraternizam galinhas, bacorinhos, carneiros, cabritos, alguns ca- VIVENTES DAS ALAGOAS - 49 chol'l'OS com extravagantes coleiras feitas de rodelas do sabugo queimado eilfia.dos em pedaços de imbira. Uma habitação horrível, como v.êem. Contudo viveu ali sem se queixar, uma família decente, reli- giosa e pastoril, <.lo111estiCada no regime patriarcal. Desapareceu tudo. Provàvelmente aquilo está ]1oje reduzido a tapera.
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    :. 1 ! : i ~1 ; i i '., TEATRO I N A pequena capital, de gostos simples e desejos modestos, havia, poucas escadas e ignoravam- se completa.mente os elevadores. ~rrês andares representavam quase montanha entre as casas aca- çapadas. Ninguém pensava em andar nos ares, natu- ralmente. Santos Dumo:i1t ensaiava os seus primeiros vôos baixos ,em P aris, com muitas quedas, e não se dava crédito aos telegramas que os anunciavam. Desconhecia-se gasolina. : os automóveis ainda não tinham aparecido. A cidade se desenvolvia em sentido horizontal, mas desenvolvia-se moderamente, sem pressa. Um bondinho puxado por burros atra- vessava de longe em longe a rua do Comércio, quase vazio. Como rodava devagar e encrencava regular- mente nas subidas, as pessoas de horário certo na repartição e na loja procediam com segurança eco- nomizando o tostão da passagem. Um grande silêncio, quebrado raramente pelo pregã.o dos vendedores ambulantes, pelo rumor das carroças e dum cabriolá pertencente ao governador. Quando êsse cabriolé, único, passava diante do liceu, as aulas se interrompiam, a mcninada soltava os li- vros, corria para as janelas, gritando, admirando. À tardinha as calçadas estreitas se enchiam de ca.deira.s, os vizinhos palesti·avarn algumas horas
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    1 ' i 1 '1 i' 52 - e nA e J LI A N o R A M o s como se estivessem num salã.o, indiferentes aos di- l'eitos do transeunte raro, que descia degraus e pezu- nhava eutre barrocas e pontas de pedra. Finda a conversa, recolhiam-se os móveis, fechavam-se as portas e a cfrladezinha repousava., ordeira e deserta, à luz de lâmpadas miúdas, que esmoreciam, desper- tavam, esmoreciam de nôvo e embasbacavam o sujei- to do interior, habituado ao lampião de querosene e à fuligem. ~ No casarão da usina elétrica fervilbavam enor- mes baratas voadoras. E, como não havia esgotos, o cheiro das sarjetas era horrível. Nesse meio, onde as gerações se sucediam inva- riáveis, o governador saía às vêzes do carrinho, andava a pé como os viventes ordinários, mas não andava só. Acompanhavam-no pessoas dedicadas, que lhe seguravam o guarda-chuva, conduziam em- brulhos, retiravam do caminho as cascas de banana. Acatavam as opiniões dêle e achavam muita graça nas ancclotns que êle contava. Êsses cavalheiros exerciam cargos notáveis : eram senadores, deputa- dos, secretários, ou parentes de secretários, depu- tados e senadores. Dentre êles o mais digno de confiança tomava conta do govêrno por alguns meses no fim do qua- driênio, por deferência à constitui9ão. Lavradas as atas, apurados os votos, espancados ou mortos alguns matutos, o cbefe permanente declamava a p1·omessa legal no congresso e voltava ao seu pôsto, reaquecido pela manifestação unâ.nime dos eleitores, que nada exigiam e nada recebiam. Sempre escolbido, S. Excia. ·determinou exibir gratidão : realizar uma obra que o perpetuasse. Re- fletiu, fêz estudos e procurou conselhos. As rodovias foram repelidas, porque no Estado existiam poucos VIVENTES DAS ALAGOAS - 53 veículos, além dos carros ele bois. Excluiram-se tam- bém as pontes e quaisquer construções de alicerces profundos e duvidosos. As escolas eram consideradas prejudiciais. Havia algumas, é certo, para dar em- prêgo às filhas dos prefeitos, mas estas não forne- ciam aos alunos conhecimentos. Tudo ponderado, S. Excia. resolveu edifica·r um teatro. Era o que necessitava a capital. Davam-se ali representações de amadores, apareciam, com mo- déstia, companhias cambembes, cinemas vagabundos, mágicos e hipnotizadores. Espetáculos verdadeiros não se conheciam. O projeto foi bem recebido, cresceu. Mas para executá-lo faltava numerário. P ouco se podia espe- rar do orçamento minguado, tão minguado que os tipos mais volumosos ganhavam, aparentemente, uma insignificância. Impossível aumentar a receita, pois os amigos não pagavamimpostos e os inimigos, espre- midos, estavam sêcos. Assiro, os ngentes políticos arrancavam dos proprietúrios numerosos presentes para o governa.dor no aniversário dêle. Nada de ban- quetes e discursos: valores. Essa contribuição setor- nara meio oficial, e a propriedade miúda, gemendo e chorando, se desfalcava com demonstrações de jú- bilo em telegramas laudatórios. Seria imprudência onerá-la ainda mais. Decidiu-se, portanto, para levantar o teatro, arranjar na Europa um empréstimo, que no decor- rer dos anos subiu extraordinàriamcnte. O dinheiro obtido produziu vários benefícios, especialmente à personagem encarregada das negociações. Êsse fun- cionário viajou bastante: percorreu alguns países, fixou-se na França, mudou-se para lugar mais se- guro e aí findou os seus dias tranqüilo, gordo, euro- peu, tão esquecido da língua materna que já nem
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    '.1 l 1 t 1i'1' 1 1. i. 1-. i . 5~ -G R A C I L I A N O R A M O S compreendia a vasta correspondência que o chama- va. Não houve meio de repatriá-lo, apresentá-lo aos correligionários saudosos. A quantia que chegou ao Brasil deu pa1'a muita coisa, e a parte visível dela converteu-se enfim no teatro anunciado longamente na imprensa. Esbura- cou-se oterreno, as paredes ergueram-se, mas quando os trabalhos iam a meia altura, verificou-se que o local era impróprio, desmanchou-se tudo e i·einiciou- se a constrnçã.o alguns metros ~iante. Venciclos di- versos conti·atempos, o prédio se inaugurou, vistoso, com louvores gerais, e logo na estréia adquiriu foma. Uma companhia italiana cantou lá o R1 igoletto, Aida,, Barbe·iro de Sevilha,. Alcançou aplausos calorosos e morreu quase tôda de febre amarela. Indivíduos impertinentes xingaram o govêrno, fato que provo- cou estranheza. Ora essa! O govêrno tinha culpa~ Pouco depois surgiu no Estado uma. desordem. Gritaram-se discursos nos comícios, os jornais opo- sicionistas tomaram fôlego, vieram reclamações P.ara o Rio, a polícia desmoralizou-se e aderiu - a.final S. Excia. notou que tinha havido uma reviravolta na opinião pública. Lamentou a inconstância dos ho- mens, retirou-se e, numa obscuridade conveniente, desfrutou velhice próspera e finou-se na paz do Senhor. P ercebera na verdade vencimentos bem mesquinhos, mas como não pagava aluguel de casa, impôsto, luz, não comprava móveis, roupa de cama, pratos, colheres, e o pessoal doméstico era consti- tuído por elementos da fôrça pública, efetuara algu- mas economias e estava rico. Nunca se liquidou o empréstimo, naturalmente. TEATRO II N A cidadezinha elo interior, ing~nua e presur:- çosa há uma sociedade beneficente, um gre- mi.o literário e uma banda de música. A socie- dade beneficente distribui esmolas com moderação e enterra os mortos; o grêmio literário funciona, emperra, fica as vêzes um ano inteiro sem d.ar sii:al de vida, toí·na a animar-se na posse da diretoria_, encrenca de nôvo; a filarmônica ensaia dobrados a noite e é indispensável nas :festas grandes e nas 1·e- cepções dos políticos notáveis da capital. H avia uma escola dramática. Extinguiu-se de- pois do cinema: os amadores, ve~d? a tela, percebe- ram que não faziam nada com Jeito e largaram o palc.o, envergonhados. Provàvelmente o rádio matará a filarmônica, os hospitais suprimirão a sociedade beneficente~ os. li- vros, que se multiplicam, inutilizarão o grêmio,h!e- rário. Há alguns anos, porém, sem livros e sem radio, sem ho::.-1pitais e sem cinema, cada um tinha o direito de fundar qualquer coisa. No grêmio recomenda.va- se a linguagem sublime; na música, muito barulho ; na caridade, alguns xaropes e entêrro. Isso vai-se modificando pouco a pouco. Mas o teatro desapareceu de cb.ôfre, receoso das :fitas'.
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    1 1 ' '1 [.[ : ! 50- GRACIL IANO RA MOS Possuíamos um teatro ua roça, vagabundo, mas enfim teatro. Vale a. pena mencioná-lo, pelo menos para evidenciar a nossa modéstia e a 11ossa carência <.le imaginação. O drama começava às sete horas, acabava às duas da madrugada, e se havia comédia, a f unção prolon- gava-se até perto das quatro, pois a caracterização das personagens, com muitas tintas, e a mudança dos cenários, com muitos pregos, eram difíceis. Gritos nos camarins, pancadas de martelo na caixa, atena- zavam a platéia que lia o jornal, sob candeeiros de querosene, discutia política, ft1xicava ou dormia nos intervalos. O palco se armava em cima de barricas, num armazém ; o pano de bôca exibi.a um índio com arco e flechas ou uma figura mitológica feminina, Vênus on Diana; as cadeiras eram remetidas pelos espectadores, na cabeça dum moleque. Aprcsenta- vam-se móveis decentes ; sofás, poltronas e mal'q11e- sões. Aí Rc ucornodnvam corno se estivessem em fa- mília, aguru:clavam com paciência o dese11rola1· da peça, que tinha cinco atos e às vêzes um p1·ólogo. Neste víamos uma floresta, onde vál'ios ladrões, em noite de trovoada, conversavam, jogavam, entra- vam, safam e no fim de meia hora apunhalavam a traição um viajante portador de considerável rique- za, suficiente para a felicidade completa da compa- nhia tôda. O chefe, porém, homem tenebroso, de 1011- gas barbas negras, guardava o produto do roubo, desfluüa-se dossequazes e ia vivermuito longe, lloues- to e considerado. Em geral essa parte não se repre- sentava : subentendia-se, explicava-se nos diálogos. E, tendo visto em outras execuções as bar1Jas com- pridas, os punhais(~ os bastidores pintados de verde, VIVENTES DAS ALAGOAS - 57 imaginávamos sem esfôrço o infoio do Brado da Oonsc,iência ou da R egene1·ação dum Bandido. No primeiro ato o maioral da quadrilha achava- se transformado em comendador ou barão, comer- eiante, industrial, banqueiro, viúvo, proprietário duma filha inocente demais, ou solteiro, noivo da filha dtm1 i11divíduo semelhante a êle, barão ou co- mendador. O futuro sôgro estava. ligado ao futuro genro : dívidas, crimes antigos, trapalhadas incon- :fessáveis. Chantagem. A pobre da I rene seria sacri- ficada. Era penoso, e o público soluçava, limpava os óculos, achando natural que a sociedade se cons- tituísse de barões em cima e salteadores em baixo. Ji'àcilmente os salteadores entravam na classe dos barões. No meio havia um môço de boa índole, guar- da-livros ou poeta, que possuía enorme seriedade e quebrava as fôrças de I rene. Não bebia, não jogava, não fumava, não conhecia mulheres, e o único defeito que tinha era falar bonito. "Plebeu, sim, senhor barão. Filho da plebe que derrocou a Bastilha, que levantou para o céu da glória a luz redentora de 89 e 93. '' I sto se declamava no quinto ato e produzia grande efeito. O rapaz havia descoberto as safadezas do barão e do outro, aplicava a chantagem. O pri- meiro dava um tiro nos miolos, ouvindo o grito da consciência, ou regenerava-se de repente, o segundo fugia, Irene entregava-se ao poeta, chorosa e rica, tôda a gente se manifestava num imenso aplauso, achando excessiva a luz redentora de 89 e 93, desco- nhecida e, portanto, valiosa. Números diferentes seriam recebi.dos com o mesmo entusiasmo. 'Tüdo acabava de maneira edificante: premiava-se a vir- tude, castigava-se o vício, o guarda-livros tornava- se comendador ou barão.
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    r1 1 1 f 1 58 -e l Ae I L I AN o R AMo s Na comédia moviam-se figuras análogas, um pouco mais ridículas. A protagonista, mocinha espe- vitada e frenética, dizia inconveniências ao pai ou tio, velho e bôbo. Um proprietário idoso, contrafação do homem das barbas, atirava-se a ela, e mudavam-se em demasiada toleima as qualidades ruins, os crimes e as patifarias que no drama o caracterizavam. O galã tomava a forma dum estudante cheio de lábias. A frase retumbante sôbre a luz redentora de 89 con- vertia-se, com bgeiras modificações, no diagnóstico estapafúrdio que, há duzentos anos, o Semicúpio, de Antônio José, fazia da moléstia,de D. Tibúrcio. :Essa comédia, :não obstante as inevitáveis cor- r uptelas, seguia a tradição. Não lhe faltava o alcO'vi- teiro manhoso, também existente no drama, Fígaro naturalmente reduzido, incapazes de usar os troca- dilhos que o sertão não compreenderia. De cópia em cópia deturpava-se o espírito. E utilizavam-se as pilhérias tô1as e grosseiras, convenientes ao indi- víduo comum do interior. BAGUNÇA A cidade amanheceu calma e tudo indicava que assimpermaneceriamuitos anos. As lojas abri- ram-se na hora certa, os meninos marcharam para a escola, os pais de família buscaram meios de aumentar a. receita, as môças leram os programas do cinema e a13 notas sociais, os funcionários assinaram o ponto na repartição. Um jornal firmou que as coisas iam bem, outro arriscou timidamente que talvez elas pudessem me- lhorar um pouco. Nenhmna novidade. Os matutinos requentaram notícias, os vespertinos copiaram os matutinos. Ao meio-dia chegou, num telegrama curto do P residente da República, a il1formação de que tudo se achava em ordem. Os boatos relabvos a distín-bios no Sul, não mereciam importância, e as classes arma- das se mantinham vigilantes, cm defesa da auto- ridade. O governa.dor enviou o telegrama à imprensa oficial, depois telefonou mandando suspender a, pu- blicação dêle. Entrou no automóvel, deu uma volta lenta pelas ruas, observando os grupos. Evidente- mente o público estava satisfeito : não valia a pena agitá-lo anunciando bagunças. Regressou a.o palácio, folheou alguns papéis e telefonou à imprensa oficial
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    11 ·1 !J ·1 1 i 1 1 1 eo •'GR ACILI AN O lA M O S ordenando a publicação do telegrama. Às duas horas reuniu os secretários, o comandante da polícia e ami- gos de confiança. - O negócio está piorando. - Onde~ - No Rio Grande do Sul, em Minas, na P a- raíba. Creio que em P ernambuco já começou. - Estamos :fritos, murmurou alguém. Se P er- nambuco fôr abaixo, tomam isto sem um tiro. Mas o comandante da polícia exibia disposjções belicosas : num instante organizod planos, guarneceu as fronteiras e dinamitou as pontes sem dificu1clade. .À tardinha zoaram cochichos e a torcida mani- festou-se. No dia seguinte houve alarma. Cidadãos pacíficos mostraram-se moderadamente revolucioná- rios. Outros apoiaram o govêrno, resolutos. Sempre se haviam conservado longe dêle, mas na hora do perigo estavam decididos e queriam sacrificar-se. Essa firmeza durou uma semana, comiutercadências. A sala de jantar do palácio abriu-se. E a noite inteira ali fervilhavam sujeitos do i11terior, que pi- savam nas pontas dos pés, segredavam nos vãos das janelas, escutavam as opiniões dos políticos sentados em redor da mesa enorme. Nunca se tinha visto de- mocracia tão perfeita. Os deputados estiravam o beiço com desânimo. Nen4um desejo de luta. H a- via, porém, um otimismo renitente. - Govêrno é govêrno. Embor a defendendo-se pouco, era natural que se agüentasse. A multidão crescia, aumentou demais quando apareceram os fugitivos do H.ecife. Chegou primeiro um delega.do de polícia, magro, fúnebre, de fala doce, óculos pretos e modos de 1rnstor protes- tante. Depois vieram muitos, narraram casos. E os VIVENTES DAS ALAGOAS - 61 volnntários perderam o ânimo. Continuaram a andar Cm tôrno da mesa, a reunü-se em magotes perto das jnncllls, mas retiravam-se logo, escorregando no soa- lhomnito encerado. O comandante da polícia esque- c•rn os planos de resistência e entrou a falar em Jw:::pitais de sangue, aflito. Uma noite alguns cavalheiros ponderosos tive- ram uma longa entrevista com o governador. Igno- ram-se os têrmos da convel'Sa. P rovàvelmente se referiram a D. P edro II e hs desgraças que ameaça- vam o Estado. .Às onze horas S. E xcia. embarcou. E ao amanhecer tôda a cidade .se cobriu de ban- deiras vermelhas. Declamaram-se discursos inflama- dos em nieet,ings, um orador furioso aconselhou o povo a quei111a.r jornais. P oi a.pupado, deixou a tri- lmna, veio outro, que recomendou prudência. As repartições feriaram, os estabelecimentos comerciais fecharam-se, a guarda-C'ivil, hesitante, não sabia a quem obedecer. Tinha-se evitado o bar ulho, graças a Deus. Es- palhou-se nas ruas uma alegria sincera. Alguns ata- ques ao govêrno caído, ataques ligeiros : realmente estavam agradecidos a êle por se ter ido embora antes da briga. No outro dia começru:am a entrar nos quartéis as tropas rebeldes, pouco numerosas - e os cida- dãos que se haviam apressado a chamá-las inquie- taram-se. O palácio fôra abandonado muito cedo. Se o :Presidente da República endurecesse e triun- fasse, viriam complicações, desgostos. F elizmente a invasão engrossou, em poucas horas todo o Estado era urna vasta caserna. Explicava-se que êle não se tivesse defendido. E pal'a que cle:fesa~ Na verdade os freqüentadores do café sorriam, certos
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    . . 1 . i 62- G RAC 1L 1A N O R A MO S de que sempre tinham vivido na oposição, e até pes- soas que uma semana antes cochichavam na sala de jantar do palácio surgiram fardadas, com energia e galões. Vários se acautelavam, pensando no Rio, e, bas- tante dignos para renegar de chôfre convicções anti- gas, limitavam-se a introduzfr no bôlso um lencinho encarnado. Via-se dêle uma ponta discreta, que, em conformidade com as notícias, mergulhava ou rea- parecia. Depois da vitória foram êsses osmais afoitos e intransigentes. Não mereceram,demasiada atenção. A maioria' animava-se de verdade, oferecia moedas de prata para a liquidação da dívida externa, esperava que altos fornos se construíssem de repente, corresse o petróleo e a população subisse a duzentos milhões.Êsses desejos encurtaram-se, mas ainda fica- ram extensos, e moços verbosos, falando muito na realidade brasileira, procuraram em países distantes receitas convenientes aos males nacionais. Os polí- ticos maduros, educados na poesia e na retórica, arr~­ piavam-se ouvindo.sujeitos imberbes que se agarra- vam à economia e à sociologia, citavam livros desco- nhecidos. - Que materialismo ! D. MARIA A mãe de dona Maria perdeu muito cedo o ma- rido, pequeno proprietário sertanejo, e esfor- çou-se desesperadamente para cultivar a fa- zenda , impedir que os vizinhos lhe abrissem as cêrcas emetessem animais na roça. Defendeu-se como pôde, conservou-se viúva e, cabeluda, musculosa, quase transformada em homem, deu uma rija educação masculina à filha única. D. Maria exercitou-se rrn. equitação e no tiro ao alvo, combinou as letras necessárias para redigir bilhetes curtos, confiou muito na cabeça e nos braços, desenvolveu os pulmões gritando ordens rigorosas à cabroeira que se derreava no eito, arrastando a en- xada de três libras. Chegando à fase das vigílias e das olheiras, casou, como era preciso ; ligou-se a um sêr tranqüilo, pouco exigente, de i·aça branca, está visto, condição indispensável para não se estragar a família.. To1·nou-se órfã de mãe, chorou, deitou luto, con- solou-se. E, depois da missa do sétimo dia, afligiu o tabelião e os oficiais de justiça, importunou o juiz, conseguiu reduzir as custas, tomou conta da herança e entrou a dirigir os negócios em conformidade com as instruções maternas.
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    1 11 1, 11 i !: 'l '! 64 - CilACI LIANO R A M O S Tudo andon bem. A lavoura prosperou, cons- truíram-se vál'ias casas, levantou-se uma capela - e surgiu na fazenda uma povoação qne a digna mu- lher governou, apesar de não lhe permitirem as leis certos atos. As leis foram cumpridas. D. Maria usava, nas tnmsações em que a sua firma era insu- ficiente, um pseudônimo. A princípio omarido, vaga criatura resjgnada e silenciosa, tinha alguns prés- timos conjugais. Despojou-se dêles. E afinal, enco- lhi.do, assinDvn. papéis de longe em longe. R.ecebia mesada, escondia-se d[ls v.i sita~, encharcava-se de aguardente i1a venda estabelecida a um canto da casa grandee rcnl.i'.tava trabalhos somenos :lavava cavalos, ia. buscar o jornal na agência do correio, transmitia rec:ados. Aos quarenta anos, D. Maria, sacudida pelos ventos, qncimacla pelo sol, era uma bela mulher ele car11c::> enxutas e olhos vivos, risonha, de.scmbal'aç:ada, franca, possuidora ele opiniões e hábitos esquisitos, muito diferentes das opiniões e dos hábitos das pro- pl'ictárias comuns. Aparecia nas feiras da cidade com vastas roupas de ramagens vistosas, sapatos de homem, chale côr de sangue, enorme cigarro <le fumo picado, forte. R.odeava-a. um magote ele protegidos, que ela abomrva nas lojas, recomendava ao prefeito, ao chefe polfüco e ao clelegâdo. Nã.o podia votar, mas dispunha de alguns eleitores que atornavam capaz de obter sentenças favoráveis no juri. Tinha religião moderada e prática. I a à. igreja pelo Natal e evitava as confissões, mas estava em harmonia com o vigário. Naturalmente. :Estava em harmonia com tôcfas as autoridades. Mandava Pezar novenas na capela do povoado, dedicava a S. Sebas- VIVENTES DAS ALAGOAS - 65 tilto e a outros sa.11tos valiosas festas que reuniam os habitantes dos arredores. Jogavam bozó e sete-e- moio, rodavam nos cavalinhos, dançavam, bebiam, compravam fitas e espelhos nos baús de miudezas. Desenvolvia-se o comércio do lugar. E a natalidade n1m1011tava. Aumentava. fora das normas e da con- veniência, mas D. :Maria não se incomodava com ptoccitos. Necessário o crescimento da população. NCC'essários trabalhadores na roça e fregueses na venda. Essa criatura enérgica exprimia-se em lingua- gem bastante livrn e adotava um código moral pró- prio. Não esta-va isenta de preconceitos, mas os preconceitos eram individuais. Os pecados orcliná- l'ios não tü;ham para ela nenhuma significação. Considerava culpados os indivíduos que de qualquer modo lhe causavam pl'ejuízo : devedores velhacos, serviçais preguiçosos, ladrões ele galinhas. Aos ou- t ros viventes manifestava indulgêncüt. E era. ma- drinha de todos os meninos que nasciam pelas re- dondezas. As pessoas sisudas encolhiam os ombros e toleravam certas derrapagens dela. - Fraquezas de D. Maria. Disparate, pois não consta que D. Maria se hou- vesse, em situações difíceis, revelado fraca. Real- mente não podiam acusá-la: progresso na fazenda, crédito no armazém, os impostos pagos. - Somos palmatória do mundo~ Só lamentavam que a extraordinária muiher :falassetã.o claramente, semnenhum respeito àsidéias alheias. - Fraqueza.s. Pouco antes de 1930 Lampião chegou ao muni- cípio e estêve uma semana rondando a ciclade, pro-
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    1 1 1 '! 1 1 1 : 1 1 1' 60 - CRACILIANO RAMOS curando meio de assaltá-la. Aboletou-se na terra de D. Maria, passou algum tempo divertindo-se e man- dando espiões examinar a defesa da rua. Descon- tente com as observações, retirou-se e foi pedir a benção do Padre Cícero. Sábado, como de costume, D. Maria apeou-se na feira, de chale vermelho e cigarro, cercada por nume- rosos protegidos. E sujeitos de ôlho arregalado se aproximaram dela. - Como é, D. Maria? A ~enbora viu Lampião~ - Claro. Hospedou-se em minha casa. - Em sua casa, D. Maria? Que desgraça! - Qual é a desgraça? Bom homem. Tudo cor- reu direito. Hospedei os mais importantes. O pes- soal miúdo acomodou-se nos ranchos dos moruclorcs. Matei gado, preparei muita comida. Bons tipos. Pa- garam tudo ccrtinho. Beberam a cerveja e a cachaça que havia, caíram num furdunço louco e dançaram como uns condenados. - Dançaram~ - :É. Convidamos as môças da vizinhança. Na- turalmente não pudemos dar pares a cento e vinte caboclos. Vieram umas.trinta.. - Que horror, D. Maria.! Coitadas! Como fica- ram essas môças? D. Maria abriu a bôca num espanto verdadeiro. Em seguida largou uma risada: - O senhor tem perguntas! Parece criança. Como haviam de ficar~ Imagine. 'Tolice, nenhuma delas se julga diminuida. Os cabras estavam sujos, VIVENTES DAS ALAGOAS - 67 mas despejaram frascos de perfume na cabeça e na rnupa.. E distribuil'am voltas de ouro, cortes de sêda, notas de cem mil-réis. As meninas gostaram. Vão achar casamento.
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    :1., 1~I"· 11 , '; ·'1 .j ',, .j l!1 •I J ' LIBóRIO E STAfaç.anha pode ser atribuída a Liból'io, perso- nagem curiosa que pl'ovàvelmcnte uunca exis- tiu. E que, sem ter existi.elo, viajou muitos anos pelo Nardeste, realizando falca.h'nas com engenho, <le sorte que as vítimas ficavam sempre cm situação 1•iclícula. No sertão bál'bar o, onde se perdoa :facilmente o assassino, as ofensas à propriedade são punidas «orn rigor excessivo, pois a fazem.la é escassa e a população cresce demais. Contudo us rnalanclragens clês8e herói. produto d[l fir-('ào popular e cabocla, Jirovocam simpatia e riso. l=>orquc revelam inteli- gência e malícia, a reduzida inteligência. e a malícia grossa existentes 110 roceiro. E mostram que a pe- (:únia subtraída se achava nas mãos de indivíduos incapazes, dignos ele ser depenados. Admitamos qne o caso se tenlia dado com essa figura de sonho. Libório chegou a certo lugarejo onde ninguém o conhecia. Ou ant.es onde o conbecjam como sujeito morigera.do, trabalhador e de espírito curto. Cigano por natureza, vagabundo calejado, adotava caracte- 1·es diferentes e acomodava-se a vários ofícios. Dessa vez era agricultor - e honesto. De saco no ombro e chiqneirador, tangendo o comboio, parou diante dos armazéns, propondo um
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    1 1 • 1 ' ' i 1 I· 70- G H A e 1 L 1 A N o n A M o s negócio mastigado, cheio de curvas e mal-entendi- dos. Ao concluir a transação, depois de regateios e embelecos infinitos, havia. percorrido tôdas as ruas estacionado em todos os balcões, feito confidências ~ todos os caixeiros. Cercado por um rancho de bas- baques, descarregou os animais, questionou sôbrc o pê~o e o preço da me:r;cadoria, recebeu a paga, que fo1 contar vagarosamente na calçada. Sentou-se di- vidiu as cédulas, as pratas e os níqueis em lotes; 'res- mungou, mexeu os dedos. Amarrou tudo no lenço vermelho e meteu o lenço na capanga. Em seguida pediu um conselho. ·Não levava pelos caminhos aquela fortuna, que os arredores fer- vilhavam de malfeitores. Queria que lhe apontassem um cristão decente para guardá-la. Ouviu diversas opiniões e escolheu o vigário : - Boa idéia.. Vou conversar com êle, que é pessoa de Deus. Retirou-se, entrou na igreja, passou meia hora no confessionário, narrando pecados. Dois meses depois a casa do reverendo se encheu de curiosos atraídos por gritos medonhos. Parecia que estavam matando gente ali. - Canalha! bandido! vociferava num deses- pêro a santa criatura. - Vossemecê ~ala dêsse modo porque tem po- dêres, governa a freguesia, replicava Libório calmo. E eu baixo a cabeça, que sou pequeno. Mas desafôro não adianta. Escondeu o dinheiro no bôlso da batina e me ofereceu l)apel selado. Não aceitei. Havia de aceitar letra dum homem que tem parte com Deus~ O eclesiástico soprava, inchava, batia os queixos. Entonteceu, embatucou, foi-se avermelhando e aca.- '1 VIVENTES DAS ALAGOAS - 71 bon roxo de indignação. Aquêle descaramento assom- brava-o. Quando se desengasgou, explodiu: - O senhor está doido. - Estou 110 meu juízo perfeito, murmurou o !!mm-vergonha. Vossemecê é que não tem memória. Estava rezandonasacristia. Não se lembra~ Escutou n minha história, combinou tudo muito certinho e me abençoou. Foi ou não foi~ Os olhos do padre arregalavam-se, corriam os circunstantes, procurando o cabo : - Para que serve a polícia~ - Só me :faltava essa infelicidade, suspirou Li- h6rio com desalento. Bonita justiça. Tiram-me o cobre e mandam-me para cadeia. Além de queda, coice. Vida ruim. Formaram-se dois grupos : um cobria o matuto de injúrias ; o outro, favorável a êle, não se animava a apoiá-lo abertamente. No meio da balbúrdia cho~ viam perguntas. E Libório se desembaraçava, sem se exaltar: - Ora testemunha! Ia lá procurar testemunha para. 'lrm trato dêsse, com um vivente que anda perto do céu~ Testemunha não tenho. Mas é como se ti- vesse. Todo o mundo sabe que estou em cima da verdade. 'Tive mêdo dos ladrões e fiz tolice. Pensei que me benzia e quebrei as ventas. Esta segurança e o modo lorpa do safado abala- vam os intrusos. Não se capacitavam de que seme~ lhante palerma tivesse fabricado a enorme patifaria. As caras revelavam grande confusão, havia dúvida e constrangimento na sala.
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    ·'; 1 1 i :1 . 1!1 'I1.,, 1 'I ... 1 1 1· 1 ! : 72 - e n A e 1 L I A N o nA M o s Nesse ponto um sujeito sabido teve a idéia de cngabelur o malandro. Oferecendo-lhe uma vanta- gem repentina, era possível que êle, na surprêsa, metesse o rabo na ratoeira, caísse em contradição. E atirou-lhe de chôfre: - Seu Libório, o senhor está enganado. Quem recebeu o dinheiro fui eu: P ode ir buscá-lo quando quiser. - Sem dúvida, respondeu Libório. Eu vou. Estando na sua má.o, está bem guardado. Nunca desconfiei de vossemecê não. Agora quero receber o qnc entreguei a seu vigário~ Dê cá o meu conto de r6is, seu vigário, tenha paciência. Faça como o seu mnigo, que deve e confessa diante do povo, não esfola. os pobres. DESAFIO N o interior da Paraíba viveram há mais de meio século dois cantadores famosos, ouvidos com admiraçã.o e respeito em cidades e vilas : Iná- ci.o da Catingueira, prêto, e Romano, branco, de boa fümília, cheio de fumaças. O negro, isento de leitu- ras, repenti~ta por graça de Deus, exprimia-se com Aimplicidacle, na língua comum do lugar. O branco oxibia conhecimentos: anelara uns meses na escola o, em razão da palmatória e elos cascudos, saíra arrumando algarismos, decifrando por alto o misté- rio dos jornais e das cartas. P ossuía um vocabulário de que não alcançava direito a significação e lhe prejuclicava certamente o estro, mas isto o elevava uo conceito público. Nos torneios consideráveis reu- 1üa palavras esquisitas, de pronúncia difícil, e atra- palha:va o adversário. Processo desleal. Muitas vêzes ovioleiro esgrime versos decorados, 11111 certo número de frases vagas aplicáveis à situa- ções diversas e destinadas a cansar o antagonista. Se êste não é pexote, defende-se : tem o seu repertório de habilidades e utiliza-o com prudência. Recorrendo àmemória, negaceia.m longo tempo, simulando inspi- ração. De fato improvisam as respostas necessárias. Livres d.elas, voltam a pisar terreno conhecido. A monotonia. das rimas - as agudas quase sempre em
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    l'1 t "1, 1 'I .'1 1 ! 74. - GRACILIANO RAMOS a;r, as graves em cindo - facilita o exercíc~o. E o assunto varia pouco. Um dos homens elogia-se em excesso e i11su1ta o outro : depois, enquanto suporta injúrias e ouve as fanfarronices do parceiro, COJ?- bina ofensas novas e novas bazófias. Cada um, pois, tem de reserva abundante matéria. Se, porém, o ar- tista matuto larga êsse jôgo e usa elementos impre- vistos, é quase certo conseguir vitória. Foi o que sucedeu num debate r,e~lizado, c?m torcida e aparato entre Romano e Inac10 da Catm- gueira, luta que s~ guard01;. em letra de fô;m~ e pro- vocou entusiasmo no sertão. Nessa pendenc1a o su- jeito vitorioso era bem inferior ao ven~ido - ...e a inferioridade salvou-o. Realmente merecia desprezo, coisa que às vêzes origina êxitos absurdos. Vê-se um indivíduo abrir caminho por não ter escrúpulo e os antros se amoitarem indecisos, examinando a cons- ciência. Romano, segundo o costume, iniciou a ~a~t~ga exp·ondo os seus títulos e qualidades, h.er~~itarios, pois descendia de poetas enormes, a ~oesia d~le e~t~­ va na massa do sangue. Aludiu a trnrnfos, a glona que o cercava, e afirmou que era doidice pret~nder um infeliz pé-rapado, filho de escravos, expenmen- tar-lhe a fôrça. Inácio respondeu que lhe faltavam aquêles luxos todos e detestava pã.bulagens: tinha pouco, si.m se- nhor, mas o que havia bastava para uns floreios na viola. Foram-se esquentando e vieram as ameaças. Ro- mano combatia brutalmente. I nácio, desviava-se dos golpes, ligeiro, e pregava-lhe de ,quand? e~ quando um espinho em lugar muit? sens1vel. .Fmgia humildade, tratava-o, numa cortesia zombeteira, por VIVENTES DAS ALAGOAS - 75 1neu, branco, oferecia-lhe conselhos. Para que sober- ba, aquela grandeza1 Lorota não dava. camisa. a ninguém. O mundo estava cheio de quedas, desas- ti·es, e tanto ·se arriscava o pau como o machado. Correu uma hora. As primas se esganiçavam, os boTdões zumbiam - e o martelo continuava, sem vantagem para nenhum dos contendores. Por fim, esgotados os recursos ·ordinários, Ro- mano atirou ao negro a rasteira definitiva : a sabe- doria obtida vagarosamente, inútil em geral, mas preciosa em momentos de apêrto. Numa brochura roída soletrara pedaços de mitologia, extraíra daí um catálogo regular de deuses e compusera com isto nlguma.s estrofes malucas. Netuno, Júpiter, Miner- va, Plutão, Vulcano, Mercúrio, Vênus, etc., junta- vam-se numa versalhada sem pé nem cabeça que arrancava imensos aplausos dos circunstantes. Ro- mano impava de orgulho e julgava-se irresistível. Lançou, pois, numa quadra vários nomes de figuras eternas - Apolo, Cupido, Juno - e completou a sextilha com um desafio arrasador: b iác,io, desata agora, O nó que .Romano deit.. Inácio da. Catingueira foi admirável. Entregou os pontos e considerou-se derrotado, num grito de bom senso que o auditório i·ecebeu como sinal de fraqueza : Seu, Romano, dêsse jeito JJJu não posso ar.01npanhá-lo. Se desse iwn nó e1n 1nartelo, Eu ú·ia desatá-lo. li.1.as conio f01: e1n ciénc-ia, Cante sozinho: eu. ?'l'M calo.
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    :1,, 1, 'i 'i '! 11 1 1 ! ' 1 1 •• • 1 " 1 ·1 i,1 ' 1 7fi - e nA e I L I A N o RAM os A ironia resvalou na casca espêssa do brar1co, sem deixar mossa, e as maniiestações populares con- firmaram o talento dêle com excessivo louvor. O grande homem revelou-se generoso: encerrou a dis- cussão com palavras de condescendência e estímulo ao adversário caído. Nas cantigas de violeiros, como em outras can- tigas, na Paraíba e em tôda a parte, saem-se bem as pessoas que dizem a última palavra.. Natural. Quem não fala muito, aos berros, é incapaz. Os descendentes de Inácio da Catingueira can- tam em voz baixa, para um número pequeno de criaturas. . 1 FUNCIONÁRIO INDEPENDENTE N AQUELE ano remoto do princípio do século che- gou ~ ci~a.de~i~1h~ de cinco :Uilbab1:tantes um func10nario imm1go do governo. Sim senhor, um funcionário inimigo do govêrno, que era o chefe político, deputado estad11al, proprietário, senhor de muitos haveres, coronel. Nunca' se tinha visto semelhante coisa: um ser- ventuário vagabundo, sem eira nem beira, dispensá- vel, transferido de Caixa-Prego, declarar guerra a tão firme e antiga instituição. Explicaram-lhe que aq_uilo não esta.va direito. Loucura pretender jogar cristas com o govêrno, que possuía vários engenhos e terra larga, mandava na vontade dos homens, mar- cava dia santo, deixava D. Carlotinha sêca e triste suspirando, só, na rêde estreita, ia para o hotel en~ tender-se com môças aflitas, trazidas à fôrça pelos oficiais de justiça, intermediários em casos de senti- mento. Expuseram tudo muito bem. Mas o empregado nôvo tinha. idéias esquisitas e propensão decidida para o martírio: era uma d.essas a.berrações que gos- tam de sofrer, Ieva1· pancada, e11sangüe11ta.r-se. Evidentemente seria preferível ficar junto da autoridade, elevá-la, jurar que não existia 110 mundo outra igual. Opinião defensável. Em horas de zanga
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    1 ]li 1 '1 .11 1 1 11 1 '· 'II •' :1 1 1 1 ! 1. : 1 1 . ! i1 'I .1 'I l·i ! . l 1 J l 1 ·1 78 - e R A e I L I A N o R AM o s o deputado e chefe político andava pelas esquinas, feroz, batendo o pé, gritando, espumando, ofende11do os amigos, uns patifes que o comprometiam horrivel- mente. Findas, porém, essas explosões, era ótima criatura: ria, estudava os jornais, discutia sintaxe com os meninos, abria o mapa nos balcões, procuran- do a Rússia e a Coréia, torcendo pelo Japão. Nos momentos de cólera os amigos se afastavam dêle, olhavam-se receosos e desentendidos. Chegada a calma, voltavam aliviados, entravam nas conversas de pronome e infinito, que éntretinbam os meninos, procuravam 110 atlas o J apão, a Coréia e a Rússia. E a instrução pública se desenvolvia fora da escola, realmente uma lástima. A prof.essôra, atrasada, cor- rigia a cantiga " .A brisa corre de manso", porque a brisa, :fêmea, devia correr '' de mansa.'' No princípio do século era assim que ela corria no interior, e êsse modo de correr influi grandemente na literatura que hoje temos. O funcionário mencionado era por desgráça um literato. Os literatos da roça fazem de ordinário so- netos, acrósticos, discursos, dramas, 011de se juntam palavras bonitas e inofensivas, pedaços da revolução francesa, Tiradentes e I racema. Êsse, um tipo som- brio, buscava nas pessoas e nas coisas o lado mau. Não percebeu no chefe político o riso bonachão e as palestras amáveis : notou que êle se desembaraçava dos adversários a faca ebala, enteTrava caboclos vivos e desencaminhava pessoínhas da classe ba:L"':.a. En- cheu-se de :furores, entrou firme na moral e tentou vingar D. Carlotinha irnma denúncia descabelada que se estampou em quatro colunas na primeira página do jornal de oposição na capital, natural- mente sem assinatura. VIVENTES DAS ALAGOAS - 79 Foi um escândalo. E abriu-se na cidadezinha rigorosa devassa para deitar aquêle negócio em pra- tos limpos. Necessário descobrir o autor da enorme Rafadeza. De outro modo a administração do muni- cípio ficaria prejudicada. Houve delações, estudou- se com paciência a linguagem de todos os indivíduos capazes de exprimir-se no papel. As suspeitas fervi- lharam em tôrno de cinco ou seis. Subornou-se pois ' 'o diretor da fôlha, viu-se o original, examinou-se a letra. E, obtidas as provas, o acusado fêz ao acusador uma visita aparatosa que o deixou de pulga atrás da orelha. Convidou-o em seguida para almoçar - e o jornalista diletante reconheceu-se definitivamente perdido.Pediu transferência, cstêve a ponto de aban- donar o cargo e mudar-se. Não lhe deram tempo. Segunda:feira de carnaval a população da cida- flezinha se animava, pintada a zarcão e a tisna, mo- Jhada pelas bisnagas de bambu que os garotos mane- ,iava.m. Papanguns desenxabidos falavam rouco e fanhoso, circulavam sujeitos vestidos em numerosas faias brancas. lVfocinhas não-me-toques se peneira- va:n.nas calçadas. P apai velho, sacudindo o cajado, cx1brn as barbas de espanador, e o morcêgo agitou as asas de guarda-chuva. O homem da iluminação pública andou pelas ruas, de escada no ombro, acen- dendo os lampiões. E na sede da :filarmônica, aberta para o baile, os bicos de acetilene chiaram. Nessa altura três mascarados robustos chegaram à porta do funcionário independente, entra1·am sem eerimônia, quebraram-lhe diversas costelas e deram- 1be muitas chicotadas. A vítima esperneou, debateu- se, afirmou que não tinha escrito nada, pegou-se com todos os santos e enfim soprou desesperadamente um apito. Os soldados correram em alvorôço, afivelando
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    1 1 1 !J .. 1' li. 1: '' t' 1 ; ;I i 1 ~ ..~., ' ' .,. ''. . ' ' • " 1 1 ' i !;' 1 ' .... 1 '1 1 ! :!. 80 - CTIAC l LIAN O HAlvfOS os cintos, mus não acharam o lugar on<le se dava o desastre. No dia seguinte o funcionário estava de cama 'pubo, roxo, a cabeça partida, um ôlho cego as arti- culações emperradas. Ficou assim duas ~emanas, tomou cabacinho, desapareceu. E o comandante do destacamento foi promovido. O município, subiu, prosperou demais. Hoje tem luz elétrica e automóvel. As cabrochas das pon- tas de 1·ua engendraram filhos brancos. D. Carlo- tinha e11gordou, emagrecéu, juntou-se ao marido numa catacumba vistosa, onde larga placa de már- more expõe datas, feitos, virtudes. UNI ANTEPASSADO O velhinho apeou, entregou o cavalo a um mo- leque, subiu os degraus do copiar, avizinhou- se do banco onde me distraía olhando, na pre- guiça e no calor, as cêrcas do cunal, a serra distante, ns árvores torradas, os xique-xiqucs e os mandacarus <1ue manchavi:tm de salpicos verdes a campina ama- rela. - É você o meu bisneto~ Ergui-me, atentei no corpo musculoso e aprumado, w1 bôca enérgica, no rosto liso e vermelho, rosto de eria.nça. - Talvez seja. Cheguei ontem e não conheço 11inguém por êstes arredores. Tenho um bisavô no outro fado elo rio. 'Talvez seja o senhor. Não sei. - Sou eu mesmo. Vim fazer-lhe uma visita. - Ora essa ! Não devia ter vindo. Homem tão idoso, pegando noventa anos, deixar o travesseiro e os cochilos para visitar um clescen- tle11t.e quase ignorado, que já ia perdendo o paren- tesco. :Manifestei-lhe a surprêsa com modo.s de gente ela, cidade : - Sinto muito. Um incômodo. I a apresentar- mc ao senhor, hoje ou amanhã. Cheguei ontem.
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    ' 1 • • ••1 1.: T: ' 1 t , I' ·1 ';;.,:... 1. ' 1 1, 1. 1 1 ' 1 1 82 - e R A e I L I AN o R A M o s Interrompeu-me, examinou serio, estirando o beiço, os meus reduzidos muques, opeito cavado, os ombros que se encolhiam : - Doente~ Balancei a cabeça, esmorecido, bambo. E, mm1 gesto vago, mostrando.o organismo chinfrim : - Um bando de cacos. - É o que se ganha na rua. Bateu à porta, chamou, entroÚ-pisando com fôr- ça, as rosetas das esporas tinindo, foi abençoar a filha e os netos - minha avó ~ meus tios. Cumprida a obrigaçfw, voltou ao copiar. E, enquanto lhe prepa- ravam o café, levei-o ao quarto que me haviam dado, omelhor de todos, com rebôco, junto ao quinta.lzinho onde rcccndiam craveiras e panelas de losna. Ofe- reci-lhe a cadeira única, sentei-me na rêde, procurei nas teias de aranha, no pátio branco varrido pelos redemoinhos, no chiqueiro das cabras, nos xique-xi- ques e nos mandacarus objeto que pudesse interes- sá-lo. As aranhas, as cabras, os espinhos, 0 calor e a poeira nada me sugeriam. Contrafeito, remexi o interior, em vão. Nenhu.m assunto por dentro, ne- nhum assunto por fora. Mas o constrangimento durou pouco. O ancião dirigiu a conversa,loquaz, amaciando a palavra rude. Era um vivente alegre, simpático, sem tremura e sem calvície. As mãos caíejadas agitavam-se firmes, ten- cionavam amparar-me a fraqueza e a doença ; urna admirável cabeleira de teatro enfeitava aquela es- tranha velhice, pura, limpa, isenta de pigarro, de bronquite ; o riso franco exibia dentes claros, perfei- tos, capazes de trincar ossos. Começou esquadrinhando os livros que se arru- mavam em cima ·dum caixão. Abriu um volume. VIVENTES DAS ALAGOAS - 83 - O senhor lê sem óculos~ - Nahu·almente, nunca precisei disso. Encostou a página de letra miúda aos olhos muito azuis, afastou-a, aproximou-a: - Quelques61 Que diabo é Quelques ~ P ronunciava cuelques. Soltou a brochura: - Bem. Deve ser língua de gringo. Não en- tendo. - Melhor. Se entendesse, não tinha tão boa vista. A leitura. arrasa uma pessoa. - Talvez arrase. Para que tanto papel~ En- fim. Não sei não, os tempos estão mudados. Não aprovou nem desaprovou a literatura ex- posta no caixão e na mesinha, estreita e coxa, prosa mais abundante que a que havia absorvido em quase nm século. Pôs-se a falar sôbre D. Pedro II e a família hnperial, como se se referisse a criaturas embarcaclal'.l vara o estrangeiro na véspera. Conhecia poucos fa- tos, obtidos por via oral, mas estavam bem guardados. - Que memória ! - Não é vantagem. Queria que eu andasse com besteiras, tresvariando'? Sua bisavó moneu na ca- duquice. Miolo fraco. E ainda estava bem môça, a pobre. É ca.lête. P ois, como ia explicando, a princesa Isabel agarrou o conselheiro e disse assim . .. - Parece que o senhor foi testemunha. - Foi o que se deu. Todo o mundo sabe. Com certeza ohomem se lembrava de casos anti- gos e esquecido os acontecimentos novos. Engano.
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    '! 1~1:ri1f1 1 1I ·· 1 : :;ji: 1 1 1 li· i·1 1 1 1!1 1· ''1 1 1 • i 11 !·1 1 : 1 1" . 11 '' ''' ; 1 1 1 .1 1 1 ! p ...1 1 1 1 'i 1 1: ;1 1 1 ! ; ' 1 i, 1 ! ; 1 84 - GRAC I L I A N O R A MOS Experimentei-o e notei que o espírito do antepassado funcionava direito, sem falhas. Realmente o voca- bulário dêle tinha algumas centenas de palavras. O meu ia muito além, mas a significação dum dêsses instrumentos fugia às vêzes e era-me indispensável consultar o dicionário. Se eu possuísse cabeça igual àquela, o meu trabalho seria fácil. Lamentava-me cm silêncio - e o velho discorria sôbre os negócios da fazenda. Interrompeu-se, observou as barrocas do chão e a.s paredes negras : - Você aqui está. rqal acomodado. Vá lá para casa. - Impossível. Não faço uma clesconskforação a minha avó. Estou bem. -- Vá passar alguns dias comigo. - Perfeitamente. Desejava apresentar-me a mulher e o filho. - Que idade tem ela~ - Vinte e cinco ano$, coita.ela. Vive cheia ele macacoas e não há remédio que sirva. O pequeno tem seis incompletos. - Ora. vejam que fim de mundo ! exclamcL Fiz dcr.oHo anos e tenho um tio-avô com menos de seis. Incrív~l. · - É o último,' a.firmou o patriarca. A mulher, acbacacla., entregou os pontos, e daqui em diante não produz. U~1 HO!vIEM DE LETRAS O primeiro romancista que vi foi Domingos . . Barbosa, sujeito miúdo e sério, residente nos carros de segunda classe da Great-TVestern. So não residia nêles, passava nêlcs grande parte da 'dcln, ai concebia e pr ovàve1me11te rascunhava as h1tõ1tórias que se encerravam em folhetos magros, ven- tll<los a dez tostões nas cidadezinhas do interior. Desembarcava em uma delas, conversava com n11gente do correio e o tabelião, ficava algumas horas ornrccenclo os seus produtos às autoridades e aos co- nw1·cümtes, sem falar em p1·eço, contentando-se ape- llnR com um óbulo, expressão que lhe augurava boa pnp:a, superior à dos poetas, autores ele folhetos mais r1c1lp;ados, impressos em papel ordinário, em geral c1xpostos nas feiras. Visitada a freguesia importante, baixava à gente MM1mdária, percorria as pontas ele rua, digno e apres- Mrlo, econômico de palavras, valorizando-se no si- M11cio, impondo-se à admiração das velhas e elas cn•ittnças com a apresentaçào modesta : " Domingos ]inrbosa, homem de letras.'' ftsses vi.ventes ingênuos Aolctravam-lhe o nome na capa da brochura, como tinham soletrado os nomes de Joaquim J'Ianuel d.e Macedo, Escrich e J osé de Alencar em brochuras mais encorpadas. E viam o ser espantoso, u:rn roman-
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    ' ' 1 ' . 11 1 1 1 1 ' 1 ' ' ' ' . . 1: ." ' 1 1 '.1 ' . ' '1 : ; 1 ' 1 : ' 1 1 1 1 ' '1 1 ' 1 1 1 80 - GRACILIANO RAMOS cista ·vivo, t1ma glória em carne e osso, que relacio- navam com as outras glórias, guardadas no fundo das arcas, junto a pacotes de cânfora, por ca11sa das traças. Obtidos êsses pequenos êxitos - as células do funcionalismo e do comércio, a.s interjeições e os níqueis do hairro pobre - o artista recolhia-se ao hotel, mt1dava a camisa, jantava, cochila:va. e, con1 a maleta de viagern aliviada., ia ar rumar-se no trem.da Great W estér11,, .saltar e111 outra cidacle, levar à clier1- tela o esca.sso for11eci1ne11to de so:nl.10. Na literat11ra Domi11gos Barbosa se revelava pouco inais 011 n1e11os con10 i10 exterior : botir1as cam- badas e de elástico, ro11pa negra coberta d.e nódoas, c}1apé11 duro,ta.mbén1 enocloado, g11arda-chu.va, barba crescicla e caspa. Ave de arribação, r1ão podia arran- jar direito as suas histórias, lavá-las, esfregá-las, vesti-las convenientemente, c9rtar-lhes as l1nhas, os cabelos e os calos. E talvez julgasse inúteis limpezas excessivas. É possível até q11e i1ão tivesse conheci- mento dessas exigências. Cr iatura sim1)les e direita, organizava os seus livros com o favor de Deus, evi- tando a.s embi;:oma~.ões dos escritores con111ns, lorotas " que só ser·vem para estirar e encarecer ·O trabalho. ·; Realm·e11te, se êle conseg11ia narrar um caso e1n tri11ta página.se rendê-lo por dez tostões, porq11e haveria de espicl1á-lo em treze11tas páginas e explorar o con1- pra.dor~ Domingos Barbosa, novelista conscie11cioso, só dizia. a.s coisa.s absolu.tamente necessárias. Na verdade seria incapaz de se cleter em p'orn1e- nores e engendrar 11m negócio longo. Em co11seqi.iê11- ·.. eia desprezava habilidades e enchimentos. A s11a arte era t1n1a arte inf11sa, surgida como revelação ele cl1ôfre. Nada havia feito para alcançá-la - e isto a . ' VIVENTES DAS ALAGOAS - 87 tornava preciosa. U m dom. Exatamente como se lhe ti,1esse vindo ordem para profetizar. Sentira-se chama.do a uma grande missão - tinha de levar aos homens a mensagem, corno se diz hoje. E xaminanclo-se, percebia honesta.ment.e que, afastadas as complicações e os artifícios, não lhe so- bra.va ml1ito para trans1nit.ir. Recheava, pois, as suas narrativas de exemplos comoventes, bons conselhos, ruáximas, excele11te moral exposta, sem vaidade, na sintaxe dos noticiários. Nem sempre se manifestava com bastar1te cla·- reza. Às vêzes deixava },')t:tssagens obsc11ras e incom- pletas, q11e depois elucidava ealongava e1ncon·versas. , Se Domirigos Barbosa construísse romances de tre- zentas }Já.ginas, tivesse posição e amigos, os críticos se er1carregaria,m das interpretações e dos enxertos. Como lhe faltava t11clo isso, forjttva êle mesmo comer1- tários e j11stificaçõcs. Foi assim q11e O B1·ado da Co1isciência e A Heróica Ala.goa·na, obras meio es- critas e meio orais, entra.raro nos espíritos. AB personagens dêsse n1eu conterrâneo esqt1e- ciclo não era,m a deplorável inistura de virtudes e vícios que utilizamos: eram tipos absol11tamente bon.c:; ou absol11tamente ruins. Os justos recebiam prêmio, os malandros findavam no castigo eno remorso, como de·ve acontecer. O prêmio tinha o apelido de galar- dão, sem o q11al os heróis não se julgariam devida- n1ente r ecompensados, e aplicavam-se aos maus xin- · gações terríveis. U11s réprobos. A tern11ra dessa ge11te se exi'bia em amplexos e ósc11los, e com1)aravam- se os peitos e os cabelos (las mulheres a subst~t11tivos csq11isitos : o alabastro, o jaspe, o ébano, a a.sa elo corvo. D omingos Barbosa nunca tinha visto nada disso, mas aprendera o vocabi1lário nos jornais da capital,
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    f í1 l '' 1 'j ., ' · 1 ' "'' 1." 1 ' 1.. 11 "1 ' "! ' .. " "' ' ' " ' ' '1 1 '' 1 1 ! ' ' 1 '' ' li1 ' ' 1 ' 1 1· :i· ' " 1 : :1 ' 1 "'" ':i !1 " 1 1 '1 1 1 1 1 1 1 1 '' • 1 '1 1 ' ' ' 1. ' 1 ' ' ' 1 ' '' "1 1 ' "' ' 88 - GRACI LIA J10 RA?>iO S e1n disc11rsos, es11ecialme11te 11as co1n1)osições de Pe- c~r~ Lear1dl'o, vetera110 da. ficção, caído e111 clespres- t1g10 l)Ol' cal1sa de a.lgt1mas le·via11dttcles. Mant1fat11- rando t1111:.i ccT1a éle í111peto, Lear1dro i10 entusiasn10 q11e o fato exigia, perdera os estribos~ escrevera :''A m111ber abraçot1-se ao cacláver 1011co do filho.'' P ro- curanclo em vão clefencler-se, gemendo, lastimando- se, o infeliz ganhara a. alct1nl1a de cadáver lo1,f,Co de que nu11ca se livrDra, e, 11um ime11so desgôsto, pas;ara o _resto da 1 ida a.gi.ie11tan'do remoqt1es. J?orgue os leitores da roç.a, i10 comêço do séc11lo, ti11ha1n rigores que é1t11n.lmc11te, gra.ça.s a Det1s, i1ií.o existem. Do1ni11gos J3arbosa se co11sideru:va superior a Leand.l'o, q11e ti11l1a siclo t11T1 mestre, e fortalecia-se co111 esta ce1·ter.a, acl1ava nela razão para. t1·abalhEtr <.lesenrolver a su~t técnica e a.s st1as q11aliclades'. Sen1 ~ COJ1fro11to, certan1e11te mltclarja de profissão, desa~11111f1do. 1'vfas co1uo ·via alg11é111 abaixo dêle, pros- se?111u. E11q11?11to a11dot1 na terra, oferece1i ao pú- blico no·velas s.1s11clas, de proveito. Deve esta.r 1uorto há n111itos ar1os. O Brctdo di.i Con,sc·iê11,c·ici ~. 11 Ileró,ica A lci,qoa11,a esgotaram-se, perdera.In-~e. .I~ Domingos Barbosa 11ão figt1ra entre os romancistas elo :n1e11 Estado. --...- ;...-_...._ - l • • U:t-.1 GRA~1ÁTICO E 11: Patos, i1? ~stado da P araílJa., s11rgi11 l1á temp.o u1n gra.n1a.t1co. Ignoramos a data do a.p~trec1- mento e o nome do b.omem se perdeu. Ali por • volta ele 1930 obte·ve i1otoried~tde, f oi disc11tido com j11terêsse e algazarra i1as redações e nos cafés. Não era llm tratadista maç11do e compacto, dês- Mf'R q11e va.lorizan1 n1inúcias e gastam centenas de pá- ginas adivinhando textos relhos : eTa u1n vtilgariza- clor ai11ável e conciso, a111igo de a.firn1a.ções c11rtas, iH011tas de fel e vinugre. Se êle tivesse lido n1uitos cn.rtapácios, arruinado os olhos e o espírito verru- n1a11do os r.lássicos, catalogando êrros e acertos, seria jntransigente, áspero, brigaria co111 011tros ind.ivíduos r1no, a1)oiados nas mesmas autoriclacles antigas e rart1nchosas, ma11ejasse1n opiniões contrárias. E í111col1raçar-se-ia na aspereza e 11a i11tra11sigência - por lhe faltar co11vicção e recea.r cair em heresia. Nada disso. A ciê11cia dêle era.rest1mida e tran- lJiii.la, corajosa por necessiclade, livre tle va.cilações, ciorr10 ein gera.1 a. elos sertanejos nordestinos. Ql1anclo a.lgué1n, naquela região cl11ra de espinho, deseja const.i·t1ir t1ma casa, pega lápis e papel, traça 1 eirme as paredes, as portas, as janelas, o copiar, as sal~s e as camarinhas. Escolhe o material e dirige os carpinteiros e os ped.r eil'os, qt1e exect1tan1, sem ' ..
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    1 I· 1 .1 1 1 l 1 1 1 1 90 -GRACILl.ANO RAMOS .. . ,. regras complica~as, uma espécie ele habitação. Não se consulta arquiteto. Realmente não existe arqui- tet? no lugar..Se existisse, porém, seria desprezado, p~1s q~em ~a1 morar na casa é o prop1'ietário - e 11ao ha razao pa.ra submetê-la ao gôsto de pessoas ~stranhas. As parecles ficam baixas, as portas e as Janelas peq~enas,_os quarto.s ~scl1ros. F oi assim que sempre se fez e nao se mod1f1ca a tradição. O juiz de direito, i10 juri, em falta dt11n rá})11l<i confia a. defesa do i-féu miserárel ao boticário. O bo~ ti.cário se julgaria desprestigiaclo se rect1sasse 0 con- v~te alegando o exercício ·ordi11ário de ocupações diferentes. . O ~hefe político recel)e t1111a descompost11r~t no J01:na~. '11 ranca-se e passa dias cornpondo a resi:>o.sta, eD:erg1~a. e 1011ga, q11e é p11blicada 11a r11atéria paga. ~1nguen1 a compreenderá direito. P oderiam ter sielo invocaclos os ser1 iços do proi11otor 011 elo tabelião. Mas êstes não realizariam a encon1enda razoàvel- mente: diriam coi&"l.s do ofício dêles esqueceI'iarn outras, e.~ nosso articulista bisonho pretende vin- gar-se :it1l1zai:do armas pró1)rias, furando o almaço com raiva e força, dando mtrrros na mesa. ... Ê sse taba.ré11 di~etante da gramática, parente dos tres.exe1r11Jlos Jl1ei1c1onados, i1otou algt1ns lJroblema.s de 11r1guagen1 e clecidiu resol,,ê-los. Em ,,ez, porén1 de buscar a con1panhia dos se11s sen1ell1autes e exa.~. . . -rn1nar· aqu1s1çoes anteriores, fecho11-se e refleti11 co~o nobres figttrt.:is a.ntigas q·ue ac}1aram a verdad~ no isolamento e na meditação. Qt1ando regressou ao convívio dos homens trazia vários cadernos rascunhados em el11ro labor,'frutos que amadureceram i111n1folheto de qt1arenta página.s, oi1de as letras, falhadas e graúdas, es1norecem no ' ' VIVEN'fES ])AS ALAGOAS - 91 papel amarelo. Nada aí se discute, n ada se explica. Exatamente como se o a11tor, redigindo t1m largo de- creto, eliminasse as considerações e entra.sse logo a articular. De fato a pequena brochura é uma série de mandamentos - arrolaas expressões que se devem t1sar, cond.ena as q11e não devem ser usa.das; Em geral o gramático ele Patos desaprova o que se refere à fec11ndação e a certas necessidades fisio- lógicas, julgadas por êle incorretas. O seu processo én11ito surr1ário. Divide a fôlha po1• t1m traço vertical - e o que fica à esq·uercla está errado, o q11e vem à direita está certo. Às vêzes nfio existe palavra conve- niente para, tradu.zir o ato inconvenie11te. R ecomen- da-se então un1 ci1·c11nlóq11io. Deitar ao mundo uma criat11ra em dua_s sílabas é feito. Indispensável e11- faixar o recérr1-nascido em loc11ção 1'espeitosa. Êsse e11te pudib11i1do chega.a.sugerir a s11pressão de vocábulos capazes de insin11ar-nos idéias desones- tas. ''B urar.o'', por exemplo. Se aceitássemos o con- selho, restring·iriamos bastante o dicionário. Mas teríamós decê11cia, limpeza, a aprovação de alguns críticos lite1·ários que, nestes últimos tempos, vivem desco})ri11do olJscenidades na prosa vulgar de roman- ces inofensivos. - Safadezas. Eu, nos me11s li1ros, jogo tôdas a.s pa.tifarias, mas por meios indiretos. Nunca llSei palav"rões de cana.lha, graças a De11s. _;. Faz m11ito bem, doi1tor. E ssas d11ns falas são de escritores modernos e temr>erantes, é claro, não do s11jeito da Paraíba, casto por dentro e por fora. 'l'ipo admirável. Foram provàvelmente os intt1itos morais q11e lhe deram aqueJa segurança, a certeza de estar i11dicando aos outros o bon1 cami11ho. •.
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    1 . f ' 1 !~1 • •o" ' 1 1 • 1 1 ' ' ' • 1 ; .' 1 ' ·i ' ••.! • 1 • ''1 ' ' '1 1: ~ ; "il 1 1 '1 92 - e R A e I L 1A N o R A ?vi o s No seu modesto re1Jositório de ensiuamentos <lig- nos não achamos eva.sivas ne1n dí1vidas. Para falar verdade, êle se mostra indeciso nl1n1po11to, mas livra- se da dificuldade com prudência. Det1 u1na topada na crase, e1nperrou. E assim se ma11ifesta sôbre o desgraçado fenômeno: - íJ.'errível. 001110 os se11hores não poderian1 ente11d.er isso, ·vão deita.ndo acento en1 cin1::1 de qual- quer a. É o q11e devem fa.ter. ..t.lgt1ma.s vêzes hão de étcerta.r. Lição des1Jrovida ele origina.lidade. P ersonag·o11s n:rt1ito mais importantes q11e o gramático da P araíba adotam êsse princípio. • . 1 ' DR. PELADO e HAJ.íAVA-SE R.aimu11clo P elado, residia em Viço- sa interior de Alagoas, professava a 1nedici11a ' . he a poesict. Era l11n gra11de mi.:1lato r1son o e for11ido, de bela côr ·vermelha, i11ãos rijas, cler1tes for- tes e olhos vivos. Tinha estnclt1(,io nl1n1seminário elargara a batina en1 véspera da ordenação, n1as l1l111ca foi possível localizar (.tireito êsse estabclecime11to. O.s estuclos eram indispensáveis à p11blicidacle literária do ho- men1, publicidacle q11e, feita por via oral, nas esqui11as e nos balcões, a.presentava falhas, repetições e incon- gr11ências. Essa história de ter viviclo perto do altar não encerrava originalidade, pois 110 comêço elo sécttlo, ql1ando R aimundo P elado floresceu, rábt1la~, palhaços e atôres de com1Janhias vagabundas a t1t1- liza.va.n1. Não era aí que se revelu:va a in1aginação do poeta. Existiam n.a vida dêle n1t1itos casos interessantes : viagens co1nplicadas ao Rio, à Bahia., ao Recife. Ti- nha visto oin1perador e 011tras fig11ras enormes, ti11ha tido 11ma disc11ssão notável coin certo cl1efe éle polícia. ele capital graúda. S. JY[. era 1)essoit 1nt1ito si1npátiea.. E o chefe de polícia ficara a.bsolutamente arrasa.do, fato c111e provocava o espanto dos ca.ixeiros e dos fre- gueses, nas lojas. . . . . Descendo dessas altt1ras, .Pelado inetr1f1cava 1·edondilbas i1os bordões e 11as prjn1as da viola. É possível c11ie soubesse ler, mas, se si:t})ia, esta pren{1a -,
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    ;j "r , 1 1 1 .'1 • 1 1 1 ' 94 - CHAC ILl ANO RA?10S nu11ca lhe serviu. O seu estro se n1anifestava na lin- guagc1n falada, ou antes na lingt1agem cantada, que P elado era cantador, inimigo de Pacífico P acato Cordeiro 11anso, nat11ral de Quebrangulo e qt1ase • IJar11as1ano. Cordeiro 11anso i1ensava pouco e de·vagar. Re- digia com dificuldade t1mas coisinhas n1eio ce1·tas e horríveis, pt1lJlica.das e1n f olhetos n1agros, q11e Rai- m1111do xingava em excesso, pois desdenha·va a letra de fô:rma e co11fit:tVlt i1a ir1e1nória d.os homens. Co11fiar1ça imerecida. N er1l111111 literato deso- cupado se lembrol1 de colecio11ar e guardar a lé1rga, prodt1ção, bern razoável, do m11lato de Viçosa. E a safra do adversário, chi11frirn, talvez air1da hoje exista, copiarla e err1endada. R eu1u1011te era no sonho que vivia o grande mu- lato. Quando o chefe de polícia c1uis saber o ofício dêle, P elado respondeu : - Cantar. - Ca,ntar~ Alguém se emprega. em cantar~ - Sem dúvida. É n1elhor que chorar. Certamente não houve pergt111ta, não houve res- posta, llão hot1ve chefe de polícia, mas é como se ti- vesse havido. I sso explica a nat11reza do homem. Vivia no sonho. E não l)Odia viver de so11l10. Se f ôsse t t1l)erculoso e n1iúdo, possuísse olhos ft111dos, s11stentar-se-ia alg11m tempo co1n gemidos e solt1ços. Ir1feliz1nente era corpulento de1nais - e r1fto ti.i1ha jeito 11a.ra solt1ç.ar e gerr1er. ()<1J1ta.va, mas é1S s11as ca11tigas, ag11c.1as, fttré1vam a. carne tle Pací- fico Pitcato Cordeiro :J:Ia11so, poeta do1nesticado no alfabeto. E como s11stenta'i1 a m111her e filhos, r obt1stos, Rai111t1ndo P elado às vêzes se a11sentava da poesia, VIVENTES DAS ALAGOAS - 95 entrava na vida ordinária e curava as doe11ças do , . prox1mo. Na con1posição de versos, como na de receitas, o que ten1os dêle são notícias conservadas pela tradi- ção e certan1ente an1pliadas. Arrumam-se aí a inteli- gê11cia e a malícia d11n1a geração matuta, exatan1en te o que st1cede com algt1ns gênios q11e ho11re no R.io en1 fins do sécl1lo p~tssado. Não fizeram nada., não escrevera111 i1adit, rnas cleixaram alg11n·1as anedotas insôssas, c111e se contavam i1os cafés da província, originando gargall1ada.s, cn1 1910, e ainda se re1Jetem. Eln 111omentos ele ai:>uro l~airn1111do Pelado aban- don1:rva a aic1ade, e, à frente de uma, cargit ele ren1é- dios, ser'irido por arrieiro st1bmisso, entrava no ser- tão n11m cav·alo esq11ipaclor, importante, de botas altl:tS, colal'inho e gravata., roupa de cassineta, um Chernoviz i10 bôlso da carona. Abria êsse volu- me e11corpado em horas conve11ientes, espiava as gra'i'tlras e a letra miúda, estirava o beiço, e11r11gava a testa - e recebia a consideração dos mat11tos. A sua fama se alargava por m11itas rilJeiras. E na casa onde se hospedava ofereciam-lhe o n1elhor qua.r to, matava1n para êle a galinha mais gorda. Fa- zia-se a11u11ciar nos arredores e IJassava uma semana a combater padecimentos com xaropes em garrafada.s enõr111es, que inspirava.m r espeito à clientela e se ve11dia111.bem. Reclt1ziclos os r11a1es vizinhos, os set1s negócios n1elhorac1os, ia i)ercorrer ot1tra zon<:1, aliviar novas r11acacoas e encher as algibeiras tttilizando as gra:vt1- ras do Cher11ovíz e as garrafadas. Regressava ao cabo do seis meses, largava a ciência e dedicava-se inteiramente à sua oci1pação i1att11·al, a poesia.
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    . •'· • • 1 • 1' 1 ' '; 1 1 1 1 ., ' '' 1 ' ' ' ; '1 1 1 [ 1 1 ! .1 1 ; : i 1 1 96 - e R A e I L I A N o R A 111 o s Nun1a dessas viage11s dirigil1-se a t1n1a farienda, oncle acbo11 moclos lúg11bres no dono da casa, oll1os ÚJnidos e rosto comprido. A fazendeira esta;va ban1- ba, e desde a véspera t1m médico a11tla·va a est11dá-la. -- An ! excla111011 o ·viajante alarn1ado. Qt1e es- J3écio c1c médico~ Q11<111clo o 011tro apa.receu,.logo sere11011 :13ercel:le11 i1êle 11n1 simr.>les ra.izeiro, i:r1ca.paz de ass11star alguén1. O JJroprietário dava gra.ças Al)eus, que lhe :r.na.ndava clois dot1tôl'es trat<o1r a m11ll1er. - Perfeita.mente, decic.liu Pelac1o, dorninando a sittlitção. Varnos fazer t1ma conferência. O colega já diag·nosticol11 Oot1tro rião e11tendet1 e n111do11 ele co11versa. J an- tararr1 e foran1 ver a doente. - E xan1ir1e, colega, clisse o c11rancleiro número l1!Tl. - Não, senl1or, respo11deu P elado, exan1ine vossemecê, que chegou antes. E11faJo clepois. O st1jeito arregaço11as mangas, colocot1 a m11lher en1 diversas J)osições, a.lisol1-a, n1ach11co11-a, descon- j1111tot1-a, ficot1 1111s mi11utos co1n o 011vido colado ao peito dela, l)rocl1rando batiza.r a doer1ça.. Ti11}1a 011vido :falar en1 tro1nb0se - e êste nome pareceu-lhe a<lec:it1a.do..Erg·11eu-se, desarregaço11 as ina11gas, fran- ziu a ca.ra e opj.i1011 : - El1 JJenso r111e ela te111 llm trornlJ0110. Pelado e11costou a orelha ao corpo da pacie11te. E, i11cleciso: - Não sei J1ão. Se é tron1bone, deve estar tocart- <:1o muito longe, porc111e I1ão 011ço 11acla. • TRANSAÇÃO DE CIGANO U ~r I)t1r1g11ista n1; t1:firr11011 l1á ~e1npo ~!11~ a soci,e- dade se co1111)oe de rnala11c.1:ros e otar1os. N ao seria possível achar 11m tercejro gr11po; a.té n~s i11d.ivíd11os ruais ir1ex1Jressivos 11á, ltttentes, a.s qu?.11- dacles q11e deterrninam u.tn.a cltlS c111as categorias. I11útil q11erern1os destr11ir a ~rd.etrt nat;u:al. O ma- la11clro ·veio a.o n1unclo para esfolar, o otar10 deve s~r esfolaclo - e qt1er estcjan1os (}C acôrclo q11er nao estejamos, a ~peração dolorosa tem de realizar-se, porque isto é a vontacle de Det1s. . ._ Os sertanejos aceitam em g·eral a opnnao do pung'lústa. E resígnam-se, coçam a cabeça, ?'lurmu- rando con1 fatalismo duas frases que se repetiram em de1na.sia e se transfor1r1ararn em 13rovérbios : - Quen1 é do chão não se trepa. Quem 11asceu para ·vi11tén1 11ão chega a tostá.o. . _ . Co11formam-se. E na st1a co11d1çao az1nhavr~da e n1odesta (le vi11té11s, adn1iram e ve11erarn os tosto~s. Os verdadeiros, é claro, os legais, pois os falsos nao merecem 11e11l1u.ma.cor1sidert1.ção. Entre os vá1·ios tipos de mala_ndros s11st~r1.tados pelo rnatt1to fig11ran1 os qt1e se decl1ca1n a negocios de ani1nais. .. Em pri111eiro lugar vêm os laclr.õ~~, 01·ganiza.dos numa vasta 111aço11aria qtle se ra111lf1ca por todo o . -
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    1 1 11 1 • i: 1 •1 ., ' '''. I' '1 • 1. ' 1 : 1 ' :!' ' 1 1 ' 1 : 1 ' '' 1• '1 .' 1 ' 1 1 1 • 1 '' 't.:•. ' ~.,. l. ' ' 1 ' 'ji '' 1 ' '' '1 '.. • " ' l : : ' '.. ; 1 ' ~ '· ; 1 ' " 98 - GTIACILIAN O RAiifOS Nardeste, con1 hábitos e ling11agem especiais, regras complicadas, l1ma hierarquia de numerosos graus, em cima a personagem que vende 1011ge o bicho fur- tado, intermediários de colarinho 011 sem colarinho, em baixo o caboclo de alpercatas. Os graúdos fogem às perseguições, os de somenos valia morrem na em- boscada, como é de j11stiça. Ordinàriamente o jú1·i ~ibsolvc o assassi110 e condena o ladrão, mas às vêzes se atrapa.ll1a no julgamento. E corno se co11sidera a pcn~t in11ito fraca, liq11ida-se, por segura.nça, o ir1divíd.110 pernicioso, o ag·ente i11ferio1·. Alér.n dessas criat11ras temívejs, há os negocia11- tes de cavalos. Atacadistas ou retalhistas, solitários OtL a.grui:>ados, profissio11ais ou dileta11tes, nôma<lc~s 011 sedentários. Inspirarn a11tipatia ao a.gricultor, 11rn receio que se disfarça por dois motivos: adotam ocupação lícita e são 11ábeis, ardilosos, capazes de dar lições !1. rato. Na.s s11as t ransações mais claras 11ámanl1a encoberta. 'l'êm partes com o diabo, deitam poeira nos ollios dt1m cristão, mostram o que não existe e esco11dem as coisas evidentes. Os de mais respeito são os ciganos, q11e já não são ciganos e talvez i1em tenham nenhum sangue dêles, mas vivem à toa, abqletam-se no cam1Jo ou en1 po11tas de ru,t, em barracas, liga.m-se a diversas mu- ll1ercs e usam 111na algara.via a.rrastada, para ga11har impo1·tâ11cia. O sertanejo evita-os, nega-ll1es 11rr1 ca- neco d'ág11a en1 tempo de sêca e, ir1variàvelmente, er1sina-ll1es o ca.n1i11ho e1·raclo. Iíá os trocadol'es. Andam nas fazendas e nas povoações do interior, b11scando 1·oceiros inexperien- tes, e se os ·descobren1, oferecem logo, em conversas al)11ndantes e repisadas, cheias de exclamações, algu- ma IJCquer1i11a bêsta ele cangalha. VIVEN'fES DAS ALAGOAS - 99 o melhor lJichinho do m11ndo, ligeiro con10 gato, uma beleza, direitinho môça n11a. . _ Desafiam a réplica, entram em long~s d1scussoes obscuras, em que gestos e risadas substitt~e~ aspa- lavras. Não se apressam. Vencen1 as.obJeço~s c.om an1alJilidades ouinjí1rias, conforrne a~ cir~11n.stancias, fatigain os adversários, acabam 1mp1ngindo-lhes quartaus esparavon~dos, rec~bendo .011tros ..menos rl'lins e alg11m dinheiro, que nao a,dn1iten1 barg~nha sem isto, l)Ois a, volta é que faz? a11,zol. Recebem de~ mil-réis, cinco mil-réis, mas enf1n1 recebem qu~1q1::r la.mb11gem. Un1 dêsses vivente~ sagazes chegou a fe11 a um dia montado i1um sendeiro manco. Vend~t:-o, efet110u'1n11it;1s operações. À 11oite havia i·ea~q111r1do 0 mesmo sendeiro. Tornou a casa iuo?'ta~o nele, co~ gêneros para a semana e duzentos n11l-reis en1 nota._, prata e níq11el i1a capanga. , ~ Defeito~ O defeito do meu ca.valo esta na vista. o parceiro j11lga que o defeito está pat~nte e enga.na-se. O mala.ndro falott direito: o cavalo e cego. A vítima do en1buste oculta a derrota como se ocul- tasse doença feia. . . Um código interessante regula essas pat1far1as _ jôgo em que a patota dá prestígi~ a quen1 sa.b: 11tilizá-la. O pexote que se deixa en1br.omar _en~be-se de vergonha ecobre-se de ridículo. Afinal nao e van- tagem il11di-lo. Caso digno dc.in~e~·~sse é ~ngabela.r um sujeito sabido, como na h1stor1a seguin~e. . O chefe dos ciganos atravesso11 a porte11·a, dei- xou 0 bando aí, api~oximou-se da casa-gra11de, co:i- cluzindo um bur1·0 idoso pelo cabresto, varret1 o chao com a aba do chapél1 diante do ser1hor· cl~ enge~ho. Êste n1andou buscar uma égi1a do ca1nbito, obJ eto
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    1 • • 11.' i'1 ' !1 I·.• 1 • 1 ' 1 ; 1 . ' I' ., ( ' 1 ' 1 , ' 1 • ! ' '1 l i ' '1 : r; t'I. 1 - 1.1 ' 1 : '• '; t .1 • 1 1 1 l ! l 1 : " 1 i li1 1 1 100 - G R A e l LI ,:'. j1 o HA .r-.r os dt1n1 arr~111jo rne~o a1)alavrltclo a11tes. Cada t1111 elos conte11dores elog1011 o sei1 animal e examinot1 c11ida- cl.osa1nente o do outro. So1naram as falhas visíveis f1zera1n acr.éscimos ~' certos de q11e possuítt111 d11a~ desgra.ças ·vivas, reaJ1za.ra1n él per111uta.con1 os einbe- lecos da praxe. Des1JecliraJ11-se. O vag·alJ11ndo re11r1iu- se ª?s co111.p~t1tl1eiros, Sllit1 ela. pro1>rieclacle, ton1011 0 c~m1n.ho. Ao passar t1r11 riacho, a ég11a mudo11 de cor: d1ssolveu na ág·ua a tinta q11e a enfeitava.e exilJitl as pelad11ras. da sar11a. P ot1co1 adia.nte ca.nsou. 1111_ ~el1d?',~1 ca1m11hê:_r, }Jt1xada por todos os lados, act1ou. E de1xo11 i1~s ma.os cl1~1n .11on1er11 o ral:>o postiço. O chefe elos c1g·,tnos a.br1t1 a bôca, refletit1 e deciditl : - Va1nos voltar. . R eg:r cssa1·am, q11asc arrasta11do a égua ca.mbi- te1ra. Ve11do-os, o c:oronel grito11 tlo alpendre da. casa.-g·ru11cle : .,., - , ~~e é Já issoº? Arrepe11clirt1cr1to? O qtie se fez esta. feito. Negócio é r1eg·ócio. · · - .sen1 dú,ricl1:1, ganj ão, Tespo11cleu o cigano ~escobr1nclo-se, c11rva11clo-se 1111111a }J1·of11nda re''erên- c1a.. , ~uen; f a.l.011 e:11 arrependin1e11to ~ Negócio é i1egoc10. ]Jll r esolvi 1a,i·gar esta vida. E ve11ho en- trega.r o bar1clo a ·17ossa se11l1oria. • A DECAD:fl:NCIA DE UM SENI-IOR DE ENGENHO E RA. se:nl101· ele e11ge11l10, assold.aclava calJroeira,, <lispu1111a de cr édito e se cleixavt1. esfolar regt1- larn1e11te pelo.s for11ecedores, porqt1e ti11l1a aln1a simples e acreditc.i.va den1ais i1a i:>ulavra all1eia. E1n co11sec1i.lência a pro1Jrieclacle c11coll1et1, mas ai1Jda fico11 terra.lJastantc 1Ja.ra co11ser·var-sc a tracliç5.o da :fa.111ília, con1 ho11ra integral, e11c111aJ1to o IJa.trinrca vivet1 llOS ca,11a:viais e 11a cid.adc. Qr1a11clo entro11 i10 sertão, veio o desmoroname11to. ..t. Divina Providên- cia teve co1n paixão dêle :fecho11-lhe os olhos antes q11e a clesgraça completa se realizasse. F oi no con1êço do séct1lo. J onq11i1n P ereira, dono do I11gá., e por isso cha111~1do P ereira elo Ingá, dedi- ca·va-se à IJOlítica, desi11teres.sn.clo e lJOr teirnosia. Co11fio11 i1as pron1essas c1u111 bacl1arel, de11t1tado vis- coso que tra11sigiu co1.u o go·vêrno e se ju11tou à ca- deu·a, fixo11 residê1Jcia no Rio, la1·ga11do os amigos n1unicipais e111 situ.ação dif ícil. P ereira do Ingá fig11rava entre os amigos 1nais notáveis. P errnancceti na fiélelic1ade 1Jorq11e set1 r)ai eSCll avô tinl1am sido fiéis ao pai e ao avô do bacharel, 11amonarc1t1ia. P et1·ificado nessa posição her·editária, te·ve capangas }Jresos e capangas assassinados na to- caia, gemet1 soJJ o impôsto - e r epeli11, digno, várias .- '
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    ' 1i1 1 ! '1' 1 ~ 1 'I '1 ' ' ' ..' 1 • 1 ' ' '' ' 1 ' ' 1 ' 1 : . 1 1.! ' ' 1 -.j 1 1 ' , ' ~ . '" ''·' 1 : : 1 1 ' 'l 1; !: 1:1' .t 1 11 '1 ' • i ' ' 1 . 1. ' 1• ' 1!' ' 1: 102 - e nA e1L I A No R A lvf os tentativas de conciliação con1 o l'.lartido dominante. Debalde lhe mostraram ql1e a firmeza era sacrifício in11til, pois o chefe se acomodava perfeitamente na capital, i11diferente aos eleitores repo11sando i10 A d ) acor o que lhe garantia os votos necessários para manter-se na oposição. . . - Não ~e trata disso, replicava J oaqi.1im P e- reira elo Inga, estremecenclo como se 11ma broca de dentist~ lhe tocas~e i1ervp exposto. O q11e b.á é qi.le m~ meti. n11m car11111ho e vou andando, vou ar1d.anclo, ate bater com a calJeça na parede e faz.er um calom.bo na testa. Não n1e viro. Qua11to ao procedimento do dolitor, isso é l~ co_m êle. Cada q,t1al como Det1s o fêz, q11e a g·ente nao e ra.paclt1ra, para. sair t11do io-11al. Enfim são coisas da. república. 0 Nesse desa.lJafo meio inten1rlestivo e11cerrava a pendc11ga, deixanclo os circu11sta11tes co11fusos. E era c?nv~~iente a n111dança de asst1nto. Se alg11m fun- c1ollil;r10, por dever de ofício, tomava o pião na tinha, P ereira se exaltava.. P orque se haviam operado no lugar. numerosas transformações depois de 89 e êle abominava as tra.nsfol'mações. Torcera o nari7. à propag·anda : os objetos e a~ idéias não se tornariam melhores qu~ os existentes, pois isto era impossível. Nem o made1ran1ento da casa-grande iria fortalecer- se nem a paga dos mora.dores se atenl1aria. Na ver- d~tde receava exigências do pessoal miúdo e CL1pim nos caibros. · _Or~, i10 regime nôvo, a casa, 011de algun1as gc-. raçoes tinham vivido e morrido, apresento11 sintomas de desagregação. Embora isto não IJudesse r azoàvel- n:1e;ite ser atribuído à repúl>lica, os te·mores s11pers- t1c1oso.s de P ereira se confirmaram eneg·receran1 ina.is. E, te11do o cân1bio ·vindo abaixo, ~s n1ercatlorias l1 • • VIVENTES DAS AJJAGO.AS - 103 sim11laram valor desmedido, o sa1á.rio no eito subiu a duas patacas. Tudo se desconchavou. P rodutos con- siderados inúteis s11rgiran1 com etiquêta e preço :ma- mona, carôço de algodão, o mulato claro feito pro- motor, na democracia. Nessa trapalhada, Pereira i·esm11ngava, sufocando a indignação, estragando o respeito ql1e a a11toriclade e o saber lhe impunham: - Al1 negro ! Ah chicote ! Não foi para. isso qt1e a pri11cesa derrubo11 as senzalas. O i1obre ft1ror passava despercebido, como se fôsse expresso emlí11g11it estranha. J~m compensação Pereira nã.o entendia muitas das palavras que agora circt1lava1n, fórmulas qt1e se transformavam em cba- ·vões relativamente inse11satos. - Ah negro! Assim resu1nia por fim, rangendo os dentes, o seu imenso desgôsto. A princípio depositara alguma esperança em Antônio Conselheiro. Desiludido, alimentara-se de recordações, achando que em redor tudo se cleslocava com demasiada pressa. Que razão tinl1a aquela infe- liz cambada para assanhar-se tanto6/ Pereira conservava religiosamente a sua velha solJrecasaca, a.sisudez, o 01·gulho, as barl)as enormes, preciosas, semelhantes às doimperador. De fato não eram preciosas, mas o dono as c11ltiva·va, falava com tristeza do tempo em q11e 11m homern dava ao credor algt1ns cabelos - e~ isto oq11ivalia a exte11sos compro- missos cheios de :formalidades, na lei e i10 sêlo. Pe- reira não gostava de assinar letras, miserável i11ven- ção de j11deus gananciosos e desconfiados. Não gos- tava de a.ssinar coisa nenhuma., porq11e a sua palavra tinha mais importância que ~s garatujas e porque os ' .
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    • ' !1 : . ~ 1 'i• 11 1 1 1 .' ' ( .1 1 , ! 1,: ·'• 1i. 1 ; 1 1 1 1 ' ' 1 1 ' ' 104 - G R A eILI A N o n A}..f o s set1s declos emperrados segura.varo a ct1sto a ca11eta, rasgavam e borravam·o p~t1)el. Entendia-se com os a.migos distantes por meio de recados. Nas eleições, gastava ci11co n1int1tos dese- nhando o i1on1e em grossas ct1rvas que oc11pavam três linhas. Desprezava a l1abilidade dos tabeliães, gente inferior e ma.liciosa. E conservava as filhas pruclen- temento analfabetas, para não inandarem bilhetes aos namorados. # Êsse vive11te rijo e imóvel, tão rijo e tão i1nóvel con10 os esteios da casa-g·rande, que principia.van1 a bichar, teve um fin1 lasti1nável. Precisot1 rnexer-se, desejot1 transpla11tar-se, 111as estava sêco e não criot1 raízes. Acabou mal, como se verá., talvez, depois. E os sct1s descend.entes a.cabaram ta.mbén1 no car un- cho e na miséria. • • ,. J i' i ' "ESTi. ABER1"A A SESSÃO DO JúRI:" O Dr. França, juiz de direito ntima cidadezinha serta11eja, andara em meio século, tinha grá- vidade nnensa, verbo escasso, bigodes, colari- nhos, sapatos e idéias ele pontas muito finas. Vestia- se ordinàriamente de prêto, exigia qt1e todos na jt1stiça procedessem da mesn1a forma - e chegou a mandar retirar-se do tribl1nal t1m jt1rado incon- vc11iente, de roupa clara, ordenar-lhe que voltasse razoável e fúnebre, para não prejudicar a decê11cia do veredicto. Não via, não sorria.. Quando parava numa es- quina, as cavaqt1eiras dos vadios gelavam. Ao afas- tar-se, mexia as pe1·nas matemàtica.mente, os passos mediam setenta centímetros, exatos, apesar de bar- rocas e degra11s. A espinha i1ão se curvava.., err1bora descesse la.deiras, as mãos e os b1·aços executav~trn os movimentos indispensáveis, as duas rugas horizon- tais da testa não se aprofundavam nen1 se desfazian1. Na sua.bibliotecadigna e sábia., volt1mes boj11dos, tra.taclos n1ajestosos, severos na encade1·nação negra sen1elhante à d.o proprietário, empertigavan1-se - e 11011ht1m ot1sava deitar-se, inclinar-se, q11ebrar o ali- nhamento rigoroso. Dr. França levantava-se às sete horas e recolhia- se à i11eia-noite, fizesse frio ou calo1.., almoçava ao
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    • '1· ''' 11 .' "• 1 ' ' 1 ' i.'i ,I 1 ; . '' ' 1 ' 1': '. 1 ' 1 ' ' . ' l ' 1 .' il.I 1·11,~·: fl J'i 1i 1~ '1' l, .':• 106 - G R A C l L 1A 11 O R A ~·l O S meio-dia e jantava às cinco, ouvia missa aos do1nin- gos, comungava de seis em seis meses, pagava o alu- guel da casa i10 dia. 30 ou no dia 31, entendia-se com a mulher, parcimonioso, na ling11agem llsada nas sentenças, lingt1agem arrevesada e ar caica das orde- nações. Nt1nca j t1lgo11 oport11no modificar êsses hábitos sal11tare.s. Não amot1 nem odiou. Contt1do exalto11 a vir- t11cle, cma11a.ção das existências çalmas, e cor1clenot1 o crin1e, infeliz conseqiiê11cia da paixão. Se ate11tásserr1os nas palavras emitidas por via. oral, po~erítimos a.fir111ar, qt1e o Dr. FrtLnça 11ão pen- sava.. Vistos os auto.s, etc., perceberíamos e11tretanto que êle pensa.va c'o1n alg11n1a freqi.iê11cia. Apenas o pensru.nento de Dr. ],rança i1ão seg11i<1 a marcha dos pensame11tos con111ns. Operava, se não i1os engana- mos, dêste moclo: '' considera11do isto, considera11do isso, considera11do aquilo, considera11do ainda mais isto, co11sidera.ndo porém aquilo, concl110.'' Tudo se forn111lava cn1 obediência às reg1·as - e era impos~ ' sível c1l1alql1er desvio. • Dr. Fran~.a possuía um espírito, se1n clúvida espírito recljgido com circunlóquios, dividido em ca~ pítulos, títt11os, artigos e parágrafos. E o q11e se dis- ta11ciava dêsses parág:rafos; artigos, títulos e capí- t11los llã.o o comovia, porql1e D1 Fra11ça estava livre dos torrr1entos ela irnaginação. * * * P ó-de-Jtiolaml:)o, oficial de justiça, era uma. criatttra arrasada. Ti1:11am-lhe pô.sto no batis1110 011tra desig11ação, ql1e se J11ntara ao nome de família e en1prestara a.o homem ltm i:iot1co de valia.. ~fas com o co1·rer do ten1- VIVEN'fES DAS ALAGOAS - 107 po isso foi esmorecendo. O pequeno f uncionário adoeceu, arriou, a.marelou - e no fim da vida na.sce- ram-lhenas patas copiosas pcr cbas ql1e se estenderam e avultaram, abriram s11lcos na pele, corromperam a ca.rne, Sllplu·aram, sangraram, impossibilitaram o uso do calçado. E11trapara1n-se as duas chagas, dos dedos aos tornozelos. P é-de-Molambo. , Se o velho tivesse guarclado silêncio, a alct1nha escorregaria nêle sem deixar mossa. Ofendeu-se, respondeu con1 desaforos e, em conseqüência, as pi- lhérias tomaran1 feição agressiva, saíram do bilhar, da f~~rmácitt e da barbearia, desceram à rl1a, trans- mitiram-se à. molecoreba. - Pé-de-1'Iolambo ! A condição econômica do oficial da justiça era rt1im, os filhos pesavam-ll1e domai~ no orçamento, as camisas esfiapavam-se, a co1nida minguava - e isto o reduzia muito no co11ceito público. - Pé-de-~1olambo 1 O latido contrafeito se esganiçava por detrás de uma janela. O desgraçado examinava os arredores, tentava inutilmen te localizar a inj(1ria, xingava com desespêro os ascendentes de llm s11jeito invisível e desconhecido. - Pé-de-:Niola.mbo ! Outras vozes se erg11iam. A vítima atu1·dida virava-se para a direita, pa.ra a esquerda, não achava 110 vocabt1lário ca11alha expressões suficienteme11te obscena,s i:iar~t desa.frontar-se. Foi decli11ando e i:ier- deu os íuti.n1os vestígios de con1postura. Afi11al já não tinha1n a precaução ele oc11ltar-se pa.ra molestá- la : os ga.rotos beri-a.van1-lbe o insulto e safavam-se, iam gozar de longe a za.nga excessiva. . .
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    r ri .. • 1 ' ,. ••[ .1, ' ..• J•• .. .. 1.' ~ ;; ' ll .......- • 108 - G n Ae I L IA N o R A M o s - Pé-de-~1olan1bo ! Os olhos biliosos enchiam-se de raiva e lágrimas, o rosto e11xofrado coloria-se de inanchas ver1uelhas, a bôca mole e desguarnecida espumava, o corpo alquebrado inchava como um peru, ameaçava re- bentar as costuras da ro11pa suja e esgarçada, arras- tava, barnbo e trôpego, os dois chumaços escl1ros e sang11inolentos. Tremores agitavam aql1ela rl1ína, sacl1diam as bambir1elas do pescoço magro, os cabelos grisalhos ql1e enfeitavam a pobr~ velhice desrnora- lizacla. * * * Um dia, à porta, da prefeitura, Pé-de-~Iolambo, no exercício das suas funções, repinica11do a si11êta, esbaforia-se llllm pregão fanhoso: - Está aberta a sessão do júri. A. sala se povoava. Agentes da.lei perfilavam-se, arnmdos. O ré11 sucumbia no tamborete. Dr. França fiscalizava o pro111otor, o advogado, o escrivão, os j11ízes de fato. Está aberta a sessão do j11ri, gemia o oficial de j11stiça na calçada, n1overdo a sinêta. Ql1ando se n1anifestava pela tercei1·a vez, o' desastre se det1. - Está aberta a sessão ... - P&-de-Molambo ! grito11 perto llm moleql1e sem-vergor.1ha. Pé-de-~1olambo despil1-se de responsabilidades, retirou do a11úncio o nome da ir1st.ituição admirável, substitt1íu-o pelo de unia pessoa ausente, do sexo íe- n1inino, q11e :foi rudemente insultada: - A sessão da ... U1na I>raga horri'irel estragou a cerimônia. • • i UM HOMEM NOTÁVEL R ESIDIA no i11terior ~ tir1ha, ~t1~s ql1alid~des. q11e ll1e adoçaram a vida, e exim1rarn de inql11eta.- ções : era branco e analfabeto. Se não fôsse brai1co, nivelar-se-ia à canalha d~t roça, inais ou menos cabocla, mais Oll menos preta, sentir-se-ia r>eque110, disposto à obediência. Se não. . , . . , fôsse analfabeto consum1r-se-1a em exerc1c1os inu-, . teis à lavo11ra do algodão e da rnamona, leria roman- ces e telegran1as da Euroi:>a, alargaria pelo mundo, à toa, pensamentos improdl1ti·vos. :W1as como dispunha de olhos azuis, pele clara e cabelos de gringo, viu com desprêzo as figuras cha- tas, encarapinhadas, fôscas e oblíq11as dos arredores, convence11-se de c1ue possl1ia requisitos para clomi- ná-las e arrogo11-se direitos m11ito Sl1periores aos delas. E como não esbanjava tempo nas cogitações distar1tes que os livros s11gerem, observou solícito as coisas próximas e necessárias, as ql1e se podiam j1111tar e levar ao mercado. En1 conseqüência prospero11. Passados alguns a11os na. pla.ntação, largou a faze11da. e esta.belece11 lo. ja na. cidade, 011de os 11egócios lhe correrain l.:>em. Cresceu, enferrujol1 a cara, enclurece11 a voz, roncoll alto aos indivíd11os comuns que se avizir1havam do ·balcão. Não precisando c11rvar-se a l11na. banca, es- ,
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    .~·•.• ' 1 ' : 1 "·1"' l 1 ~ 1 j 1 ' 1 • 1• 1. ' 1 :, ""1 1 I•.. ''1 1 !:I11 "·'",.:. ':l 1 ' 110 - CitACILIANO RA1vfOS tragar n vista. em ciJna ele papéis, chegot1 à velhice sem ll.Sar óct1los, o espinhaço dil:eto como 11m ft1so. Evidenteme11te ft1giu de obl'igações no sêlo, o q11e o ísentot1 da chicana. E impossibilitado de vender a crédito, por não confiar na arte dos guar- da-livros, sed11zit1 os fregueses que se esq11iva,rarr1 dos 011tros negocia11tes, torciam ca1ninho para evitar o ca.pital e os j11ros tocaiados em carteiras per,rersas, r.m bojttclo.s vol11mes de escriturfl,ção. Constr11it1 11ma ca.sEt vistosa, com frontaria ele az11lejos, e11cb.e11-a de móveis complicados e gozo11 a existêrtcia. comenclo e bebendo ert1 excesso. 8<1tisfeita.s a.s 11ecessidades fu11damer1tais, ad- q11irit1 011tras do ordem rrtais elevltda - e vestit1-sc n.as mell1ores alfaiatarias da capital, lim1)ot1 as t1r1has, expôs no deelo ltm b1·ilhar1te caro e graúdo, seguro11 o relógio com e11orme cadeia de 011ro, q11e Sltía. do bôlso esquerdo do colête e ia merg11lhar no bôlso direito, exibindo na casimira negra t1n1a c11rva amru.·ela de grande efeito. Êsse ap11ro lhe trouxe I!'lodificações interiores : misturou a rou1:>a, o a.nel e a cadeia às qualidades q11e lhe tinha.m rendido a fortuna - e sentiu-se limpo, areado, faisca11te. .L~S exigências de comt1nicação levaram-no a escolher algu11s amigos, con·vidá-los para longos jan- tares, abrir-lhes a al1na, nEirrar-lhes o preço dos ob;jetos valiosos q11e lhe adorna·van1 a residê11cia e a pessoa. Certos b.á.bitos sociais e eco11ômicos o1Jrigaram- no a ligar-se a tl.IIla secretária diplomada pela. escol~t normal. Caso11-se com ela e, conseqüentemente, arra.njo11 apticlão J?ara s11bscrever-se, clesenb.a11do as ·vrvENTES DAS ALA.COAS - 111 letras em cinco n1inutos com labor, rasgando a fôlha, quebrando a pena.. Ficou por aí, e nunca percebeu o valor dos símbolos que lhe representavam o nome. Na verdade submeteu-se ao casamento por causa dêles. P recisava re1acio11ar-se com o banco, não queria dei"l{a.r o numerário mofar no cofre estéril. À fa.lta de miseráveis rabiscos nun1 cheq11e, prejt1í- zo ele tantos por cento. , Havia também a perseguição da.s ca.rtas. Q·uan- do ma1 se precatava, em conversa com visitantes ot1 :fregu.eses, erg11endo à lt1z o dedo e o brill1ante, fa- zendo tili11tar a corrente de ot1ro, recebia l1m enve- lope e murcl1ava. Abria-o, chatea(lo, proc11rava ern todos os bolsos os óct1los inexistentes, fingia exami- 11ar a a11tipática literat11ra, aproxin1ando-a, afas- tan(lo-a, clesviando-se dos incliscretos, porq1.1e recea-· va c111e ela estivesse ele calJeça para baixo. Afugen- tava o portaclor : - Está bc1n. Depois respo11clo. liias r1ão elav~i a resposta nt1nca, para não reve- lar a estranhos a sua insuficiência, e ficava a ma- tutar 110 que pretendiam dizer-lhe de longe, numa forma de expressão antinatural e estúpida. Sem se ter familiarizaclo con1 ela, manejava centenas de contos en1 be11s de raiz, merca.dorias e papel moeda, o q11e não sucedia. ao jl1iz, a.o pro1notor e aos escri- irães, ti1)os i11feriores. Caso11. - e tôdas as difict1ldades se s11miran1. Para be1:r1 clizer, tor11011-se pro1)rietário dos conheci- mentos ela n1ulher. Oo11sidero11-o.s coisas dêle, como o ])rilhante, a cadeia., o relógio, os i11óveis, os semo- ventes e os in1óveis. ....:t1111entot1 o vocab1Jlário e co1neçou a 11tilizar frases desconheciclus, co111 basta.i1te impr·opriedade. '
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    1; 1 ",1 1 ; 1'• •• 1 l . 1• • !'1 J • •, • '' ., ' .i ' ! 112 - enAeI LI A N o R A Nf o s Êsse passatempo de11-ibe sa.tisfação. Lirre do des- gôsto q11e os bilhetes e as cartas lhe proporciona- vam, a cader~1eta elo ban~o a engordar no cofre, jul- go~-se perfeitan1ente feliz e assinou jornais, que à noite escutou, :f11ma11do o charuto, a pálpebra cer- rada, gru:ve, erguendo a n1ão esperta, a a1Jrovar, a desa1Jrovar. O seu j11lgamento e1·a decisivo e enér- ~i~?· Pr~s11mi11-se dono da prosa dos jornais e das ideias existentes nela.. E manifesto11-se com r11mor e aparato. ' .. . ~êz discu~·sos, <l~rr~.n1ou-se e1n afirmaç;ões de- fi~1t1vas, explico11 m1sterios, não cleixo11 e1n polê- micas nenhl1m. ponto obscuro. Os homens res:pei- taram-no, elog1::tram-ll1e a inteligêr1cia.. - Como diabo conseg11i11 êle tanto c1inheiro sem saber l er~ Com certeza l)Ossuía miolos adm.U·áveis. .A condição c1e analfabeto elevou-o. : RECORDAÇÕES DE UMA INDÚSTRIA N10RTA E RA. 11ma vez un1 sertanejo que se chamava I G·o11veia e se n1a.ntinl1a co1nprando l)eles de bode na caati11ga, vende11do-as em IJovoações do i11terior, em· dias de feira. Negócio difícil. Os armazenistas fixan1 pêso mínimo para a mercado- ria aproveitável: o que fica aba.ixo é refugo. Em co11seqiiência. os mat11tos se defendem derramando chl1mbo miúdo nas orelhas mt1rchas das peles, ta- pa11do os buracos depois com cêra. O nosso pequeno comprador aperfeiçoou-se nesse truque, imaginou outros, conhecell todos os segredos do ofício, adquiriu tanta habilidade que r)oderia, segundo afirmavam os tabaréus, esfolar uma ca.bra viva sem ql1e ela I)ercebesse qt1e estava sendo esfolada. O êxito vertiginoso do homein justificou a malícia cabocla. Sa,iu da capoeira, estabeleceu-se 11a cidade, passou a infligir a criadores e i11terme- diários ltS regras a ql1e se havia sujeitado e1t1 tempos d11ros. Cresceu ràpidamente, engrossou de- mais. E co1no, i10 dizer dos roceiros, a, água corre pa1·a os rios e claí para o mar, tornou-se rio, foi de- sag11ar na capital, o·ncle se espraiou em excesso e • v1rol1 n1a1'.
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    1 1 1 1 J 1,,.., r :..! lj1. "".: ' 1 : 1• •1 ' 1 i' j: i·• 1. . ' • ' 1 1 • 1 I;'i·· !1 1 ' l 1 !I': , 1 "1 1t ' 1!1 ·,1i :1 ·j1 1! . ' '- .. 114 - GRACILIANO RAMOS No comércio de exportação, Got1veia fêz dive1·- sas viagens à E11ropa, hosp eclo11-se em hotéis ele ltixo, fingill extasiar-se na ópera e conseguiu arra- nhar duas ou três Jíngu.;;1s necessárias a.o délJito e ao crédito. .A f ortu11a repc11tina lhe proporcionot1 inimigos fortes. Os colegas apertaram-no, a polítiC<.'1. interveio na briga, interêsses p(1blicos relacionaran1-se con1 melindres de famfiia. Go11veia desacatot1 um cida- clão poderoso e :fugit1, largand~ be11s aos credores, qt1e tiveran1 prejl.1ízo de mais de noventa por cento. .Absolt1t~tmente pelado, foi pla.ntar-se no sertão, pelado t ambérn, rio 111gar mais triste do m11ndo, êrmo que só dava cascalho e espinl10, e planejou aí uma indústria at1daz, qt1ase impossível por lhe faltar capital e ter o nome estragaclo na liq11idação horrível. O conhecimento das lí11gt1as e o do1ní11io q11e exercilt sôbre as vontades <-1lheias forneceram- lhe os recursos indispensáveis. Associot1-se a. un1 carc~tmi.tr10 e a l11n gring·o, com êsses dois testa.s-c1e- f erro orga11izou a ra~ão socia.1, in1portol1 rnaq11inis- n10, cha.n1ou téc11icos e ir1icio11 a fabricação nt1m an1biente de clara desconfiança! Na ·verdade o produto dêle, nacional e ca.mbembe, se distanciavê.1 do que vinha nos porões dos transatlânticos, bem empacotado, bem rot11lado, com larga fama e11tre os consumidores, r esistente e n2c1,de in Englarid. Mas isso foi no princí1Jio. Endireitou-se, levantol1 a cabeça e ·.e1n po11cos anos entro11 viole11tame11te no n1ercado, oferecendo-se por lJI'eço baixo, alarn1a11do o intr11so considerável, trctde 1·1iarlr,.. O ca,rrascal, fértil e1n seixos, n1andacaru, .xique-xique, tra11sfor- mol1-se em jardi1n e pomar, con1 água farta chegada en1 tl1bos do rio próxi1110. E nl1n1a cachoeira notá- " ' • VIVENTES DAS ALAGOAS - 115 vel, mencio11acla ~e111pre corn respeito, ad1niraçao..,e iii6rcia, t11rbinas f ora1n acordar al~t1ns citvalos ua miinacla qt1e lá d.orrnia o sono dos sec11lo.s. A 1netade nórdica da firma, tôda escrita em consoantes, permancce11 longe,. i1a ci~liz~ç~o, em- bolsando os lucros, ás1::iera, fecha.da, inv1s:vel. ~ parte mericlional, composta de vog~is e maleavcl, 1 f?1 arrastada para o local da exploraçao, onde ?0111 eia a toi·ttira~;a, a manejava despõtican;iente e, s1m:1la11- do escorar-se na moleza e nos arrepios. d~la, estirava pelos arredores 11n1a at1toridad.e sem 111n1tes.. Arame farpado cercava a fábrica e.a ~11:9- ope- i·ária. E os age11tes do govêrno, func1011c1.r1os da prefeitura, soldados de polícia, detinhar:i-se nas can- celas, porque lá clentro n_ão er an:i- precisos. Est3:va t11do em orclem, ordem ate excessiva, a.s casas ~br11:1- do-se e f ecbando-se no hor~rio, os cl~·v.eres c~DJ ug~is observados com rigor, o cmema e~1b1ndo f1!as pie- dosas, a.s escolas arrurnand~ na,s .cr1a.nças .11oç~es c?n- ·venie11tes. Apito ele manha, apito ?'º cair da noite, ii1strumentos e 11essoas c1n roda viva, .t~cl? melho- i·ando a procura superior à oferta. D ef1n1tiva111e11te escor1:açada a i11ercadoria trade ·niarlíi. Nesse ponto sl1rgiram a.1guns st1jeitos louros, de chapéu alto e fala emperracla,: met~~a1;11-se num auto- móvel, mergulharam no sertao, d1r1g1ran1-se ~ Go1~­ veia e 1::iretenclera.m, com salamaleques e ra~ocs va- rias, apoclerar-se da fábrica. ~ão se comb1~aran:· G·oliveia respondel1 em quatro 1111g11as - na d~le, na dos visita11tes, i1as dos sócios - q11e a transaçao ~ra inex.eq11ível. Os tipos louros a.cendera1n os cachilll- lJos e disseram : - Ya. Bene. All right. Pois não. ..
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    1 ,, ,, 1 iii j i l. 'I • '1 ' ; '.' . • l « 116 - GRACILIANO RAlvfOS Em seg11ida voltaran1 à carga, ofereceram soma exorbitante. Nada obtendo, acomodaram-se no auto- móvel, sunriram-se e i·egressaram ao cabo de uma se- mana, agregados a cavalheiros sutis que se interes- savam no arranjo por patriotismo. Receberam fria- mente a recusa do carcamano silencioso e do gri11go invisível e abstrato. E.despediram-se: - Good-bye. Â rivederci. }.lfa.s i1ão se revirah.1. Algum te111po depois Gou- veia recebeu 11m tiro ele emlJosca.da no coração. Fêz- se o entêrro, cleclan1o·u-se o discurso fúnebre, expe- diram-se os telegramas necessários, p·ublico11-se a notícia nos jornais, rezo11-se a missa do sétimo dia, realizo11-se o inventário e prenderam-se dois cabras de so1nenos valia. Um te11tou fugir· e morrel1. O 011tro :foi indultado e pe11etrou no funciona.lismo. Um profundo esquecimento cobri11 Gouveia, a1no1·- talhou a indústria aparecida com audácia no seTtão, entre imb11ranas, catingueiras, rabos-de-raposa e coroas-de-frade. Certa companhia estrangcjra apos- sou-se das máq11inas, rebentou-as, jogou-as no 1·io. E os cavalos, despertos por Gou·veia, adormeceram de nôvo na cachoeira magnífica., celebrada en1 prosa, imortalizada e1n yerso, apontada com orgulho, sinal da nossa grandeza. .. UM PROFETA E M Sa.ntana do I 13a11ema, no Estado de .L-.lagoas, há un1 ser extraordir1ário. 1t um homem tri- g11eiro, baixo, forte, ele oll1os e cabelos preto~, nariz levemente rec11rvaclo. Parece ter algumas go- tas de sc1ngue jude11. Conversei co1n êle meia hora. Tomei-o a princípio por 11m ind]víduo corn11m, mas com1Jreendi logo o meu êrro e agt1cei, com atenção, os ol1vidos e os olhos. Como êle me confessou, pouca gente o entende. - Dizem q11e sou maluco, declarou-me, mas é engano. O que eu sou é profeta. Sim senhores profeta, 1·aridade nestes tempos ' ' d .que atravessamos. Um cidadão de vaida e imensa, que pretende, como outros, a~tigos e mode;·n.c:s, conserta.r tudo, porq11e ti1do esta errado, na op1n1ao dêle. E na 1ni11ha também. I gnoro os meios que êle tenciona emp1·egar para corrigir tôdas as iniqli:i- dades q11e 13t1l11lam neste mt1ndo imperfeito. O qt1e sei é que se ente11d.e com 1?el'S()Da[~e11s celestes de alta categoria: fala com a Virgem cliària111e11te e uma vez por semana com Deus Padre .rl1 odo Podero.so. Êsses encontros, porém, 11ão se real1za1n de maneira uniforn1e. Nossa Senhor}:t exterioriza-se, como·cos- tl1mava fazer há séc11los, de ro11pa azul e nin1bo; o Padre Eterno aparece, invariàvelmente, por via s11bjetiva. A 1ilãe de De11s palestra.hun1anizada e -.
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    1 1.•,,,, 't ' 1 1 1i '! 1 ' 1 1 '~ 1 '. ' . ''. ' " ''1 ; ' 1 ''i . :! :' . 1~ • j '' ' ''. ' ' ' '. . '' ·' 1 ' 1 1 ' 'l 1 ' ' ' 1 1 '•' ' '1 ; ' 1 ' ' J !1 ;1 . ' ( ":. i i' ! ., . '..,.'11 1 ' 'i ';1 1: 1:1 118 - e R A e ILI A No R A j•,.f os familiar; da presença elo Ente St1premo o nosso pro- feta recebe apenas intt1ições l11minosas, que o ind11- zem a rebelar-se contra as religiões oficiais, a afir- mar que longe dêle não há salv:~,ção possível, a pregar o reino do céu, a declamar enfim uma série conside- rável de novidades. Comi:>reendi q11e o vide11te nota1ra no meu físico alg11ma coisa que denu11ciava em n1im um possí1rel adepto da nova doutrina. Lisonjeado, fiz-lhe várias perg11ntas, e êle, paternal e solícito, mi11istro11-n1e ensiname11tos preciosos. Não se eonsidera filho de Deus : sabe perfeitan1ente qt1e a st1a origen1 é ordi- nária. 1.VIas, por graça especial elo .r..lém, recebeu o dom de profetizar e os atribt1tos de llIB Salvador de segunda classe. P oss11i tôcla a ciência, não a ciência humana, que é lacunosa e contingente, mas a ciência di1rina, qt1e... não é lacunosa nem eontinge11te, pen- so eu. Desconheço as dt1as, infelizmente, e limito- me a registrar as idéias do homem. Diz êle que o papa é um ignora.nte, que todos nós somos ignorantes, que quem desejar aprender qualq11er coisa deve ir a Santana do I pa11ema. E u realmente a11rendi po11co, pois a minha compreensão é fraca e o automóvel esta1rq, à porta, n1as a,qui deixo a ad·vertência, útil àqueles q11e pretendereiu salva.i~ a alma e instruir-se. Presente1ne11te o profeta nutre ·d11as a.mbições : c1errubar a igreja. local, ou a1)roveitá-la de1Jois ele expurgada, ca.so lhe seja possível iluminar o vigá- rio, que está em trevas, e co11verter o chefe do E stado, grande pecador também. I nfelizmente, em vinte anos de cavação espiri- tual o r1osso profeta não conseguit1 fazer un1 prosé- lito, e isto porq11e entre as massas existe uma crimi- l 1 ' 1 VIVENTES DAS ALAGOAS - 119 11osa indiferença pa.ra os assuntos celestes. Vivemos, efetivamente muito afast:'l.dos do bom caminho. O resul~do de semelhante procedimento foi o Ente Su1Jremo encolher-se, 1·essentido, e negai· .aos homens a.lguns fenôn1e11os i11teressantes q11e. ant1ga- 111ente lhes for11ecia a granel e de graça. TeJam. Os milagres tornaram-se raríssimo~. As almas do ou~ro n111ndo vivem bisonhas, esco11d1das, parece que tem inêdo de gente. Até os lobiso1nens, vt1lgares outrora, ficara1n inteira1ne11te invisíveis. Orn.. n11n1 plai1êta sen1 mila.gres, sem ::tlmas do 011tro m11ndo e sem lobisomen.s, 11m I>rofeta, por m11ito qt1e tra.balhe, 11ão a.lcança. gra:i;ide coisa. _É em vão q11e êlé busca o martírio e od.c1a os ql1~ ,nao acredita111 nêle. Ningt1ém 11oje é capaz de od1a-lo, e as at1toridades qt1e o deve1'iarn condenar, se a tra- dição se não tivesse partido, Tiem:se qu.a11d~ o ·vêe~1. O meu profeta nasceu tarde. Nao chegara, prova- velinente, a func1ador ele religião. Mas se chegar. . . Ah 1 Se chegar, creio que nii1guén1, com j t1stiça, 111c negará ~ título de, ~van­ gelista. Tenhan1 paciê11cia. I sto e uma es1Jec1e ,de evangelho. Não está. feito de acôrdo con1 os cla.s- sicos, é certo, n1a.s se eu fôsse imitar os outr?s, os senhores rne chan1ariam catui·ra e n1e a.tacariam a sintaxe. É un1 evangelho. Um evarlgelho va.gabun- do, um evangelho de jornal, um evangelho para ser lido em boteql1ins. Mas evangelho. J11lgo q11e não h:i perigo. Et1 e o meu. profeta desa.parecere1r1os logo. J:Ias se por acaso em 39~0 êle tivesse estát11as nos altares, tôd~1 a gente acharia o met1 e·vangelho mt1ito direito. • 1 1
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    , f •, 1 1.. i ,1 INÁCIO DA CATINGUEIRA E ROIYIANO L r, há dias, numa revista a cantoria 011 ' 'martelo'' que, há perto de seter1ta anos, Inácio da Catin- g11eira teve con1 Rornano, em Patos, na, Paraí- ba. I11ácio d.a Cating·ue:ir::1, l11n negro, er1:1 a.penas Ináeio; Romano, pessoa ele família, possui.a um non1e mais comprido - era F rancisco l~omano de Teixeira, irmão de Veríssimo Romano, cangaceiro e poeta, pai de J osué Romano, ta1nbém cantador, enfim, 11m Romano bem classificado, cl1eio de sufi- ciência, até com alguns discípulos. Nessa antiga pendência, de qu.e se espalharam pelo Nordeste n1uita.s versões, I nácio tratava o outro por ''meu branco'', declarava-se inferior a êle. Com imensa bazófia, Ron1ano concordava, achava.que era assil11 mesmo, e de quando em quando introduzia no ' 'martelo'' uma pala·vra difícil com o intuito evi- dente de atrapalhar o adversário. O prêto defen- dia-se a seu modo, torcia o corpo, inclinava-se mo- desto: '' Se11 Romano, eu só garanto é que ciência e11 não te11ho.'' Essa. ironia, essa cleliciosa malícia negra, não fêz mossa i1a casca de Francisco Romano, que rece- beu as alfinetadas como se elas fôssem elogios e no fi1n da c~tntiga esmagou o i11imigo com t1n1a razoá- vel q11antidade (le b11rrices, tt1do sem nexo, à-toa : ''Latona, Cibele e Isis, Vulcano, Netuno... '' Jogou
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    1 1 1 1 " 1 '1 1 1 !·• lr , ' ,.'1 '',, 't: •'•• " ' 122 - G R A C I 1. I A N O R A ~1 O S o disparate em cima do ot1tro e pedit1 a resposta, que não poclia vii·, nat11ralmente, porque Inácio era anal- falJcto, nunca ouvil'a falar em semelhantes horrores e fêz o que devia fazer - amunhecou, entrego11 os pontos, assim : '' Se11 Ro1nano, dêsse jeito e11 não posso acornpanl1á-lo. Se desse um 11ó em ''martelo'', viria etl desatá-lo. ].{as con10 foi em ciência, ca.ntc só, que eu já me calo.'' Com o entusit1smo dos 011vjntes, Roma.no, ven- cerlo1·, oferecet1 l11nas IJala.vras d.e consolação ao r)obrc do i1egro, palavras idiotas que servira1n para er1terrá-lo. :[sto aco11tece·u J1á sete11ta anos. E desde er1tã.o, o 11crói ele P<:.ttos se m11ltiplico11 en1 d.esce11dentes que nos têm impir1giclo com ab11ndância variantes de Ci- bele, I sis, Lato11a, Vt1lcano, etc. JYI11ita gente aceita isso. N a11seada, mas aceita, pal'a mostrar sabedoria, q11ando todos deviam g1·itar honestan1ente q11e, tratando-se de ''n1artelo'', Net11- no e lifinerva não têm cabimento. I nácio da Catingueira, que hon1e1n ! Foi uma das fjguras n1ais i11teressa.11tes da literatura brasi- leira, apesar de não saber ler. Como os seus olhos lJridados de i1cgro viam as coisa.s ! É certo q11e .te- mos outros sabidos demais. JYias há uma sabedoria ala.mbicada que nos tor11a ridíc11los. O ano r)ussado vi o livro dum st1jeito notá.vel que declaravEt, com medonhos solecismos, ter siclo l1n1 óti1no estt1dar1te de gra,:n1ática. Não podia ha- ver coisa rnais extraordinária.. O cic.ladão a a.firn1ar, n11mt'. li11gu.ag·em erraclíssima, q11e sabia escrever. I rnaginei Gl.S c::1r<1s dos outros leitores. Não ·vi nenl111n1a. Como, po1·ém, ni11gué1n protesto11, j11lgo • ' .t l j i 1 ' ( '1 " '1 " 't VIVENTES DAS ALAGOAS - 123 c1t1e todos, gramáticos e literatos, engoliram o que o hon1em disse, exatamente con10 aconteceu em Pa- tos, há setenta anos. Que peda11tisn10 e que r,niséria ! Ali bocados de mitologia, aqui um português arrevesado, preten- • cioso e manco. Não de,remos, co11tudo, perder as e.spera11ças. Inácio da Catingueira, êss<~ ho11esto conterrâneo do sr. José .rmérico e do sr. Li11s do Rêgo, êsse i:ipo direito, ser1sato, extr::ivagância ·viva n11m país de insensé1to.s, deixot1 descenclentes. Graças a Deus isto é ver·dade. Será IJreciso mer1cioná-los~ Talvez não seja, talvez os parentes dêle se ofenda111, porql1e er1fim, I11ácio era prêto e, se não me e11ga110, solteiro. Certan1ente m11itos preferem (lesccnder dos Ro- manos, qt1e sempre foram o,s do11os intelectllais do Brasil.
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    '1 . J 1 1 ., ' ·j !I 'I •• l •• ... ' !J ,, ' i , OFATOR ECONôMIC0 NO CANGAÇO O ca11ga.ço, de qt1e tanto se tô1n ocupado os jorni~is 1>or causa da morte ele um dos set1s n1ais notáveis cornponentes, é um fenômeno })l'Óprio da zona d.e indústria pastoril, no Nardeste. Sem d11vida, lá existem malfeitores em tôda parte, mas os que operam na mata, 111gar de agricultura e repo11so, não são cangaceiros: ordinàriamente são cabras de confiança de proprietários qt1e, para con- servar os seus bens e a11111entá-los, precisa1n orga- nizar defesa armada. Um anacronismo, certamente. O Nardeste, porén1, é atrasado em demasia, a pro- priedade aí se mantém pela fôrça, às vêzes cresce pela fôrça. Êsses pequenos exércitos de potentados matutos, reprod11ção dos troços q11e defencliam os castelos dos se11hores :feudais, são sedentários, não podiam deixar de ser sedentários n11ma região agrí- cola, e é isto precisamente o que mais os distingue dos cangaceiros, nômadas em virt11de do regime de prod11ção na caatinga. Aí não há o deserto, mas há muito de Lleserto. Na ca1npina ime11sa., onde se achatam coli11as baixas, a vegeta.ção espinhosa definha; os i·ios se infiltram na areia ou formam poços na pedra; aqui e ali sur- gem bebedouros de água lamacenta; a terra é dura, torrada, pedi·egosa, varrida consta.nte1nente pelos redemoinhos.
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    '! "I' ! ! ' 1 ' 1' '' 1' '.' 1 1 ... ...., 126 - G n A e I L I A N o R A Mo s Nesse meio agressivo os homens e os rebanhos se dizimam quando há carência de pastagem. Na verdade a pastage1n de ordinário não finda l)elo consumo, finda pela estiagem. R arefeita, espalha- da na planície enorme, ol)riga os ani1nais a percor- 1·er distâncias co11sideráveis para alimenta.r-se. E os 1)astôres são meio vagabundos. As Sl1as moradas não oferecem muito miiis cor11odidade q11e as ter1das. Ê certo que não se tra11sportam, ma.s, simples cons- tr11ções elo tltipa, sem i·ebôco, sem l~tdrilho, acaça- padas, a1·rttnjam-se eco11ornic~1n1e11te e em po11cos dia..s. A g·er1te qt1e nelas vive tern há.bitos patriar- cais, pelo 111enos em alg11ns lugares ainda se conser- vam hábitos patriarcais. A residência do cl1efe se assemell1a às dos mori:tdores próxin1os, q11ase todos pessoas da mesma família e c111ase todos vaq11eiros. Notemos q11e a terra aí não está dividida e qt1e a propriedade consta de casas, algu1n aç11cle, ct1rráis e gado. Senclo a forragem escassa, a distribt1ição da terra e as cêrcas tornariam impossível êt 11nica produção existente. Un1 fazendeiro rico possui, em geral várias faze11das, vál'ios cascos de fazenda, como lá se diz, e q11a11do err1 llTI1Et co1neça·a falta.r ág11a 011 pla.nta, ml1da-sc para outra. Impossí1rel, portanto, u1r1 amor excessivo à. terra; in1possíveis as violências praticadas pelos senho1·es de e11ge11J10 <.la rnata con- tra vizinhos fracos, r)ara tornar-lhes um sítio. Como a riq11eza é principalmente constit11i<.l.a po1· animais, o rnaio1~ crime ql1e lá se co11l1ece é o f urto de gado. A vida humana.., exposta à sêca, à forr1e, à cobra e à tropa volante, tem valor red11zic.l.o - e por isso o júri absolve regularmente o assassino. • ' ) VIVENTES DAS ALAGOAS - 127 O lad1·ão de cavalos é que não acha perdão. Em re- gra não o submet em a julgamento : matam-no. Vi há muitos anos um serta11ejo que, en1 companhia de dois filhos bem armados, ti.Ilha viajado l1mas qua- renta leg11as a pé, Tastejando um dêsses criminosos. A alg11ém que estranhou semelhante gasto de ener- gia e tempo, desproporcionado ao valor d11m sen- deiro, responde11 não ligar in1portância ao prejuízo, r11as ao desafôro do ladrão, q11e nlerecia llma sl1rra com n1reta de espingarda. Passados alg11ns dias, :rea.pa.rece11 cor1d11zindo o animal. Coino, porém, r1ã.o se l1avia efett1ado ne11h111na prisão, suponl10 q11e a s11rra de vareta se realizou e a ·vítin1a dela suc111nbi11.' Êsse rigor explici:i-se n11ma terra de vaq11eiros, onde o cavalo é o único meio do transporte, absolu.- tamente inclispensável nas retiradas. 'Tratando-se de ca11gacciros, o procedimento é diverso : não podendo castigá-los, porque são fortes, os prop1~ietários às vêzes transigem com êles, coisa que nenht1m p oderia decentemente fazer com um ladrão de cavalos. E ssas transações não são deson- rosa.s, pois os salteadores inspira.m mêdo, respeito, uma certa adiniração que as cantigas dos violeiros cultiva.m. O ladrão de cavalos é o inimigo peque110, que se pode su1)rin1ir . O cangaceiro é o ini1nigo po- c.leroso, que é i1ecessário agraclar. P aga-se-lhe, por- tanto, um razoável trib11to e rnanda-se-lhe por inter- mediário de confia11ça alg11rn ê:..viso útil que o livre da polícia. ReaJmente o ba11dido nem sempre <-1.meaça a propriedade : em alguns casos pode tornar-se t1m s11stentác11lo dela. Até o comêço dêste século os chefes de bandos eram em geral pessoas de conside- ração, homens de boa :fan1ília, perseg11idos por adver-
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    . l l • t ; ' 'i 1 1 1: • l' 1 :1... 1;'. • ~ .,., , •1 • 128 - e R Ae 1L I A N o R AM o s sários políticos qt1e êles j11rava.m eliminar. Para isso necessitavam o apoio de indivíduos que se con- servavam na legalida.de. Alia.nça.va11tajosa às d11as lJartes : ganhavam os ba.ndoleiros, q11e obtinham quartéis e asilos i1a caatinga, e ganhava111 os proprie- tários, que se fortalecia1n, engrossaram o prestígio com êsse negócio temeroso. Como os salteadores de bota. e gra,vata organizavam peqt1e11os ·band.os com- postos de sujeitos necessitados da- classe baixa, co11- cluiremos qt1e o cangaço era um fenô111eno social, agra·vado por motivos de ordem ecor1ômica. Parece que ::1s coisas se modificaram. Iíoje os band.oleiros são de ordinário criat11ras nascidas na canalha, libertas dos patrões qt1e as orientavam, ora no trabalho do campo, ora nas ltrtas cor1tTa as fôrças do govêrno. Comparaclos aos antigos, pouco J1ume- rosos, constitt1em n111ltielão, e tornaram-se m11ito mais cruéis. É difícil agarrá-los, mas se os agarram; tratam-nos ele maneira bár·bara, como aco11tecet1 ulti- mamente na caçada a Lampião, tuna fera mutilada com ferocidade. Enquanto não os pegam, as perse- guições alcançam mat11tos inofe11sivos, ql1e, por vin- gança ou desespêro, avoluma111 os bandos. Assim, talvez acertemos supo11do ql1e a.tua.ln1ente o cangaço é um fato de natt1reza econômica, a111pliado por mo- tivos de ordem social. O Dr . Alfreclo de 1!Iaia., i11dustrial e político alagoano, fêz-me h.á dias urr1a. elecla1·ação interessan- te: afirmou-me q.11e o lJandoleiro Corisco, notável em dec<:ipítações, é filho do Coronel Emilia110 Ferna.ndes, neto do Coronel ~fauoel ]1 ernandes da Costa, cidadão absolutame11te respeitável no município de Viçosa, em Alagoas. Se .Alf1·edo de ~1aia i1ão está engan4do, temos aí um caso allmirável: um l1omem ela classe 1 VIVENTES DAS ALAGOAS - 129 domina.nte degradado entre bandoleiros se1n que para isto haja.m contribuído as perseguições ~ as inj11stiças comuns i10 Nordeste. É estranho q11e esse môço de fan1ília te11ha dura11te longos anos servido sob as orde11s de Virg11lino '.Ferreira, um mulato, aln1ocrere, analfabeto. Conheci há tempo o Coronel 1!Ianoel F ernandes da Costa ·vell10 sist1do, de barbas irr1ponentes, se11hor ' o .de er1ger1ho acredit~ido, urn esteio. que o preJ11- dicou foi 1;1 religião, ou antes a falta de religião: ti- nha era u1n terrível fa.na,tis1110, t1ma extren1a vene- racão ao Padre Cícero do J'uàzeiro. Vestia-se de co;.onel do exército, fardava os filhos de oficiais do exército, a cabroeira do engenho oc11pava os postos subalternos e compl111ha a soldl:1desca. Engalanado, armado, acompar1hado, rnontado nu1n cavalo fogoso, o Coronel 11anoel Fernandes encaminhava-se uma vez por ano ao J t1àzeiro, ao so1n de instr11me11tos em que músicos, também fardados, sopravam dobrados marciais. Gastot1 nisso a fortuna. Como Juàzeiro fica a umas ce111 légt1as de Viçosa, ou mais, as des- pesas eran1 graúdas - e o Coronel ~fanoel F erna.n- des a.rruinou-se. E aí está o neto, rapaz de coragem, com estudos en1 colégios, seguindo as lições de Lampião e decepa.ndo cabeças. Na evolução do cangaço notamos, pois, três fases: a pri11cípio rnanda·vam os grandes, os con- dottieri que se entendiam bem com os prop1·ietários e às vêzes se p1111ba1n a serviço dêles ; depois a massa a11ô11ima da capa11gada crescet1 e livremente esco- lheu mandões entre os seus membros; afinal vemos i11(livíd11os que vêm de cima rebaixarem-se, mistu- rarem-se à multiclão criminosa e dela en1ergirem de l'epente, dirigindo os companheiros, con10 Co1·isco. -'
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    1 ..1 '1 1 ... :1• . 1 ' "1 130 -e R A e I L 1A N o R A !Y1 o s E ssa den1ocratização do cangaço foi provàvel- mente determinada pelo awnento da popt1lação numa te1·ra demasiado pobre, q11e en1 alg1111s luga- r es cheg·a a ter perto de cinqi.ienta habitantes por quilômetr o quadra.do. A gente mal pode lá virer. I sto nos inostra porq11e, não existinclo no resto elo país bandos de salteadores, o q11e é lisonjeiro, tên1 êles st1rgido e cresciclo asst1stadoramer1te no Nor- deste. ' Na zo11a áricla há n1atutos c1ue, seg11ndo ap~­ recem 011 r1ão aparecem ~1s chttvas, ora se d.edicam a misteres p~icíficos, ora adere111 aos gr11pos de lJan- doleiros, 011de se tornam, por necessidade, cri1ni- 11osos medíocres. Ern 1926, penetra11do e1n Alagoas, Lampião demoro11-se uma sen1a.na no i1111nicípio de Palmeira dos I ndios, fronteira do se1'tão. P er11oi- to11 em casa d111n fazendeiro e, camar ada, para i1ão comprometê-lo com a polícia, q11ebro11 duas cadeiras e matou 11ma novilha. Ao r etir ar-se, o proprietário deu-lhe por guia um vaqueiro q11e teve a má sort~ de passar naqt1ele momento diante da casa. Metido no bando, êsse pobre diabo encontrou nêle algL1ns conhecidos ela "1 izinhança, qt1e lhe p ec.liram notícias de arnigos e pa.re11tes, mandaram recados e dinheiro para as famílias, ali residentes. U1n bando de car1gaceiros é coisa qllO sc1nprc se renova. O de Lampião tin}1a r1esse tempo co11to e vinte homer1s, n1as ia largando pelos camin11os ele- r.ner1tos cansé1dos e angaria11do novos adeptos. Ao chegar a Mossoró, r10 Rio Grande do Norte, contava cerca de d11zentos. Aí houve tiroteio forte, ele que resultou a morte de Ja.raraca, e a companhia se dis- solveu, para reorganizar-se meses depois. ' " ". VIVENTES DAS ALAGOAS - 131 E ssas terríveis q11adrilhas, qt1e ultimamente se têm multiplicado, não ence1'r am, pois, todos os salteadores q11e a.fligem o Nordeste : é preciso con- siderá-las como escolas n,mbt1lantes, onde, em época de sêca, se vão exer citar. os sertanejos famintos. A edl1cação r eaJn1ente não os expõe a grande perigo. E1n primeiro l11gar é c.lifícil urna povoação atacada oferecer r esistêr1cia ; clepois tts lutas contra as fô1'ças do govêrno são raras, porqt1c de ordi11ário os oficiais de polícia., den1asiado prt1dentes, evita1n choqt1es de- sagi0aclá.veis; afinal, como só os chefes, co111 fotogra- fias e i1or11es nos jornais, sã.o ele fato proct1rados, a tropa., a 111ultidão rnn.l pa.ga e se1n glória., pode, con1 a ,rindá das trovoadas, desertar imp11ne1nente e vol- tar às suas oc11pações de orc.1em, até '}Ue chegue de nô1ro a necessidade de bandear-se. . '
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    ~· " 11 ~I 1 ' '' ' l , LAMPIÃO L AJ'>IPIÃO nascel1 háml1itos anos, em todos os Estado.s d.o N'ordeste. Não :falo, está. cla.ro, i10 indivíduo :Lar11pião, q.11e não poderia. n~tscer en1 m11itos 111gares e é pot1co :i11tcress<1nte. Pela des- crição p11blicada verr1os per:Eeitarr1er1te que o saJtea- dor cafuso é um !1er6i de arribação basta11te cl1infrim. Zaro]J10, corcuncla, chan1boq11eiro, dá iln- - , pressao n1a. Refiro-n1e ao la1npio11isn10, e 11as linhas que se seguem é conveniente que o leitor não veja alusões a 11m homem só. Lampião nascet1, pois, há. muito anos, mas está môço e de boa saúde. Não é 1rerdade qt1e seja doente elos olhos : tem, pelo contrári o, excelente 11ista. É analfabeto. Não foi, porém, a ignorâ.ncia que o le1-'ou a abraçar a profissão que exerce. No comêço da vida .sofreu n11merosas injusti- ças e suportou muito empur1·ão. Arrastou a enx:ada, de sol a. sol, gariliando dez tostões por dia, e . o ins1)etor de q11arteirão, qua11do se aborrecia dêle, ~irnar1·ava-o e entregava-o a 11ma tropa.de cachimbos, que o co11dt1zia para a cadeia da vila. A.í êle a.giien- tava uma surra de vergall10 ele t.>oi e clormia com o I)é no tronco. As injustiças e os maus tratos foram grandes, mas não clesenca.n1i11haram La.1n13ião. Êle é resigna- -.
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    134 - eR A e 1L 1A N o R A r-,,1o s do, sabe qt1e a vontade do coronel tem fôrça de lei e pensa que apanhar do govêrno não é desfeita. O q11e transformou Lampiã.o em bêsta-fera foi a necessidade ele viver. Enq11t.tnto possuía um boca- d? de farinl1a e rapad11ra, tra.ball1011. lVIas q11ando v111 o alastrado 1nor rer e em redor elos bebeclo11ros se- cos o ga~o ma~tiga11do ossos, q11anelo já não 11avia no mato raiz de 1mbt1 ou ca1·oço ele m11c11nã pôs o cba- , d 'pet1 e co~ro, o patuá coJ)1 orações da cabra pTeta, tomo11 o rifle e ganho11 a capoeira. Lá está como bi- cJ10 montado. Co11he?idos <lêle, 7elhos, s11lJira1n para o i cre ; outros, mais moços d.esceram IJara São P a11lo. :IDle não: foi ao Juàzeiro, confesso11-se ao Padre Cícero pedi11 a be11ção a Nossa Senhora e en.trou a n1ata1· ~ r?t1bar. É :iatural. q11e proc11re o soldado qi1e lhe pisava uo JJe, na feira, o delega.tlo q11e 1}1e dava pa.n- cada, o pr?n1otor que o denuncio11, o pro1Jrietário q11e lhe deixava a f amília em jej11m. Às ''.êzes lltiliza 011tras vítin1as. I sto se dá por- que p1·ec1sa conservar sempre vivo o sentimento de terror q11e se inspira e que é a mais eficaz das suas armas. < Quein1a as faze11das. E ama, apressado um ban- ~o de mt1lhere.'3. Horrível. 1:1as certas violê~cias, qt1e indignarn criatt1r·as civilizadas, não impressionam quem vive perto da natureza. Algt1mas an1antes de Lampião se envergonba.rr1, realn1ente, e finam-se de cabeçit baixa : ot1tras, porém, ficarr1 até satisfeitas com a preferência e com os ar1éis ele rr1içar1ga que recebem. L ampião é cruel. Natt1ralmente. Se êle não se pou1)a, como pouparia os i11imigos que lhe caem en- tre as garras~ Marchas infinitas, sern destino, fo- VIVENTES DAS ALAGOAS - 135 ine, sêde, sono curto nas brenhas, longe dos compa- nheiros, porqt1e a traição vigia... E de vez em q11an- do a necessidaele de sapeca.I' tlDl amigo que deita o pé adia.nte da mão... Não poclemos razoà.velmente esperar qt1e êle i:>roceda como os que têm ordenado, os q11e depositam dinheiro 110 banco, os qt10 escrevem em j or11ais e os q,11e fazem discl1rsos. Qi1a11elo a polícia o apanhar, êle estará meticlo i111n1a toca, ferido, con1endo t1m~i cascavel a.inda viva. Como somos d.iferentes clêle 1 l>erden1os a co- rage1n e per<iemos a co11fiança q11e tír1ha,mos en1 nós. '11 re111en1os diante elos 1>rofessôres, diante dos cl1efes e dia11te dos jornais ; e se professôres, chefes e jor- 11a.is adoecen1 do fígado, não dormi1nos. Tufa.reames 1)<1sso e depois fica1nos err1 posição de sentido. Sa- bemos regula.rme11te: temos o f rancês para os ro- mances, 11rnas l)alavras inglêsas para o ci11ema, outras coisas e1nprestadas. Apesar de tudo, muita,s vêzcs sentimos vergonha da nossa cleca.dência. Efetivamente 1ralen1os pouco. O que nos consola é a idéia de que no interior existem baneliclos como Lampião. Quando clescobrir- mos o Brasil, .êles serão a.proveitados. E já agora nos trazem, em momentos de otimis- mo, a esperança ele que não i1os conservaremos sem- pre inúteis. Afinal somos da 1nesn1a raça. Ot1 das n1esmas ra.ças. É possível, pois, q11e haja em nós, esco11didos, a1- g1111s vestígios ela energia de J...Jampião. 'r·alvez a e11ergia. esteja apenas ador1necida, abafada pela ver- minose e pelos adjetivos idiotas qt1e nos e11sinaram na escola.
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    , . . PROFESSôRES 1~1PROVISADOS e ONHECIt1m st1jeito qt1e dispu11ha de vasto pa- lavrcaclo e ensinava. gra111á.tica. Ensina·va por u111 processo er1genhoso. Re1111ida a classe pu- 11l1a os óc11los, alJria um livro, percorria a p~ígina de alto a báixo corn o índice, gargarejara 111nas coisas qt1e ni11gué111 compreendia e terminava : - Isso não tem importância. Vamos para dian- te. Tragam-me o adjetivo arnanhã. No outro dia cena igual : os mesmos óculos, o mesmo lirro a.berto, o mesmo gesto com o fura-bolos amarelo de cigarro, omesmo gargarejo, a mesma con- clusão: - Adjeti''º é isso qt1e vocês sal)em. Não interes- sa. P ara a frente 1 Deco1·e1n o pronon1e. A propósito de análise dissertava. co111 vigor sô- bre a dinastia dos Sugs : falavam-ll1e ein concordân- cia e êle ex.plicava metafísica. Ao ealJo de algt1ns anos excet11ando g1·a.n1ática, os al11nos sal)ian1 tt1do. llou- ''e entre êles con1 o correr do tem·po, agric11ltores, jor- nalistas, padres, ~tdvogados, f11:niJeiros e poetas. Sem- 1)re ignorara.r11 a discipli11a.q11e o homem professava. Est~t história pode ser exagêro ou 111e11tira. 1fa.s ningué1n a desmancha, st1stento-a - e ela permaneee. Ifá 111t1itas verdades assim, inco11ct1ssas i)or falta de qt1em as desn1antele.
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    I' '. • H• .' 138 - GR A C I L I A N O R r'. r.1 O S • Ome11 conto será aceito sem difict1ldacle, porque, se não é rigorosa.mente verdadeir o, é pelo menos ve- rossímil. Realmente êsse professor que, para livrar- se d11m obstác11lo, mist11ra alhos com bt1galhos, rnete os pés pelas mãos, deixá os ra1Jazes em jej111n, r1ão é dag11i i1em dali: é de quase tôdas as cidades do inte- rior. l1:úsico de sete instrun1entos, criat11ra fatiga.da, depois ele exercer dez ofícios sem se fixar en1 i1e- nh11m, esbarra co1n un1 dileµi.a temeroso - qt1ei1nar os iniolos ou alJrir 11n1a escola. Se estira a ca11ela, o prej11ízo é pec1ue110 : se se a.garra à seg·1111cla hipótese, rem a lume, i1assados meses, um jornalzi11ho cl1eio de so11etos. Não pretende consertar nada. O qt1e Det1s Nosso Ser1l1or fêz, ou alguém por êle, deve estar cer- to. Limito-me a. expor t1m fato. E pa,ra que me acredite1n, confesso, com vergonha., (1t1e so11 s11speit.o. P or i11otivo de ordem econômica, resolvi rim dia, a.exemplo de tôda gente, mi11istrar aos outros alg11ns conhecimentos proveitosos a mim. Não n1e arrisquei a preparar oleiros ou sapa.teiros pois ninguém toma- ria a sério sapa,to ot1 pa11ela que eu fizesse. P1·ocurei matéria exótica, <le verificação difícil. I1nagi11ando, sem grande esfôrço que na I tália existia ttma língua, pedi catálogos ao Gar11ier e dispus-1ne r esolutamente a estropear o italiano co111 a ajuda. de Del1s. A11t1n- ciei : ''Italiano rá1)ido e barato a cinco n1il-1·éis por calJeça., mensalme11te. Aproveitem. I.1ições em todos os dia.s úteis e in'l1teis. Tempo é dinl1eiro co1110 diz o gringo.'' - I sto deve .ser fácil, pensei. É só arrt1mar no fim das palavras one ou i1ie. De estrangeiro cá na terr~i ni11gt1ém entende. E se aparecer por aí llm car- ca1nano, adoeço e perco a fala. • • . 1 • 1 • " . • f VIVENTES DAS ALAGOAS - 139 P ois, senhores, não me dei mal. Matricularam- se cêrca de trinta idiotas : comecei a trabalhar com cnero-ia e confia11ça. Ainda estaria trabalhando, se dois 0 alunos, finda a lJrimcira quinzena, não entras- sem em concorrê11cia comigo, deslealn1ente, funda.ndo escolas que it.alia11izaran1 tôda a localidade. Creio que os professôres sertanejos são co1n.dife- renças pol1co ser1síveis, ir1divíd11os como e:1. Ens11;am antes de aprenderer11. ''11 alvez fôsse ina1s razoavel aprender· parlt ensiri:1.r. 1ifas poderei e11 censl11:á-los~ Não decerto. Todos precisamos viver. E deseJamos, ' - pi1at11ralme11te aparentar o q11e nao somos. or q11e é que e~to11 a. redigir estas niq11ices~ Por que m 'as J)ediram~ Or~i essa.! Nã.o seria melhor declarar francamente e b.011estamente qt1e não sei escrever~ • •
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    •,. L 1, r, "• ; ,, ' ' VIRGULINO H Á clias surg·i11i:>or êl.Í run. telegrama a a.i1l111ciar q11e or11e11 vizin1.1oVirgt1]ir10 Ferreira,La1ni:>ião tinha encerrado a st1a carreira, gasto pel<:i t l.I- berculose, deitado 11uma ca1na.,110 interior ele Sergipe. 11as a i1otícia nã.o se confir111ou - e a polícia do Nardeste co11ti1111ará a perseguir o ba11dido, 1Jrovà- vel111e11te o agarra.r<i de s11rprêsa e n1ostrarii 11os jor- 11ais a calJeça clêle se1Jarada elo corpo. Seria, de fato be111 triste q11e a 11u11içã.o clu111 i11c,livídt10 tã.o J1ocivo fôsse realizada por i1111a d.oença. Ficam, lJois, sem efeito os ligeiros con1entéírios i11oportnnos e apres- saclos, q11e li.1straran1 o ca1icircl. Não é a l)l'Ín1eira vez Cttie Lan11)ião tem 111orrido. E sempre q11e isto se dá as 11otas co1n q11e se estira. o acontecin1e11to clet11rpam a fi.gnra elo 1Jr11to e mani- festan1 a ingên11a certe7.a ele qlLC tt1c1o vai mell1orar no .sertão. O zaroll10 se 1·omantizu, e11feita-se co111 a.l- g111nas qt1aliclacles q11e .se atl'il:>11ía.x.n a.os ca11gaceiros a.ntigos, tor11êt.-se ge11eroso, clesma11cl1a ir1j11stiças, castiga 011 recornpens:..1, ei1fir11 i11Jarece inteiramente r.nodificêtclo. Es1)erar11os e dcseja111os longos anos essa i11orte - e ao terl'l'.lOs co11heci1ne11to clela, solta111os 11111 st1s- piro de a.lívio a.q11e se j1"111ta l11r1a espécie de gra.tidã.o. Teria sido i11elho1·, se1r1 cli'1vidél., qlle o i11aJfeitor 11ou- ·vesse a.cahado 11as llnlias da políeia. Não aca.bou as- ~~~=~::lll~~,~ • - "-~·•·"'!'""'*-":..:._.~~~·r:'):=-•"""c·,_.-•~•··~~.-.-------- i;;;;;;=.____:·_:•_ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _,_ _ _ _ _ _ _ __ _ _ _ _.......-..i
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    1 . .e ! . 1• 11 1 1 1 1 1 ' " 142 -G R AC ILI A r-,1O R A lvf O S sim, desgraçadamente, mas de qualquer fol'ma o Nor- deste se livro11 dum pesadelo. Repousa.mos alg11m tempo nesse engano, até que Lampião ressurge e prossegue nas st1as façanhas. I nútil agredi-lo ou emprestar-lhe vi1·tudes que êle não entencle, adulá-lo, fazê-lo combater os gra11des, _proteger os pequenos, casar dor1zelas comprometidas. Lan1pião não se corrigirá por isso :permanecerá mat1 de todo, ir1se11sível ~ balas, ao ela.mor :público e aos elog·ios, llrna (las raras coisas cornpleta,s q11e existem ne.ste país. T11do aqui é meio têrn10, pouco 1nais 011 menos, sornos t11na gente ele tra11sigências, c1va11ço.s e recuos. fioje aqui, an1anhã ali - depois ele 1.1ma11hã11en1 sabe- mos 011de haveremos de ficar, como h.averen1os de estar. AlJastardamo-nos ta11to q11e já ne1n compreen- demos êsse patife de caráter e inadvertidan1entc ll1e penduramos na alma sentimentos cava:lheirescos que foram utilizados como a.tributos de out1·os malfeito- res. Deixemos isso, a.presentemos o bancloleiro nor- destino como é reahnente, uma bêsta-fera. Há pou- co mais de llnl ano, em' cor1dições bem desa.gradáveis, travei conheci~ento com 11m discípulo dêle, l1rn su- jeito imensamente forte, alo11rado, vermell1aço, de ôlho ma11. Êsse personagernme declarOll q11e tôda.s as vêzes qu.e llraticava llm homicíclio abria ~i carótida da víti1n1:i e bebia l1n1 pouco de sang11e. Anda por aí espall1ada. a 1011ga série das barba,ridades corr1eti- <.ln.s i)elo terrível salteador, mas ess.~ co11fissão rol11n- tária durr1 companheiro dêle surp1·eende11-rne. I sso prej11dica basta11te o velho culto do herói, do homern qtte lisonjeamos para c1t1e êle r1ão 11os faça mal. ' __.. , VIVENTES DAS ALAGOAS - 143 L a1n1Jião se conservará ruim. E não morrerá tão cedo. A vida no Nordeste se torno11 de1!1asiado ás- pera, em vão esperare~os o,.. desaparecrmento das mo11str11osidades resumidas nele. Finaram-se os patriarcas sertanejos que .'estiam algodão e cot1ro cr11, moravam em casas negras sem r ebôco, tinham necessidades red11zida~ e soletrav~m n1al. No i:>átio da. fazer1c1a l1r1s cangaceiros b?nachoes preguiçava1r1. E nos arredores grupos esquivos ron- da,varn, esco11dendo-se elos volantes. De longe e~ lon- ge 111n en1issário chegava à proprieda.de e recerJ1a do senhor l1rna contribt1ição módica. 'Tt1do ao·ora mt1dol1. O seTtão po,roou-se e con- ti11l1a po1)re~ o tralJalho é precário e rudimenta~, 3:s sêcas fazem estragos ime11sos. Os ba11dos de cr1n11- 11osos, qt1e no l)l'i11cípio do séc11lo se co~1)_i1nham ele oito ou dez pessoas, crescera1n e 1nult1pl1caram-se, já.a.lg11ns chega,ram a te1· duze11tos.home11s. ~luta ~e agravou, as rela~ões,en~re faze~1d~1ros eba.ndidos nao poderian1 ser hoJe face1s e runave1s como eram. J esuíno BrilJ1ante é11ma figt1ra le11dária ~ re1no- ta, o próprio Antônio Silvino envelheceu muito. Resta-nos L ampião, q11e viverá longos anos e provàvelmente vai ficar pior. De qt1ando em ql1a11do 11oticia-se a morte dêlc com espalhafato. Como ~e se i1oticia.sse a morte da sêca e da, miséria. Ingenui- dade.
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    , I "1 1 1 CABEÇAS U.i.NDO, 11á a.1gt11nten1po, o te11ente Bezerra de11 cabo de La.n1pião e se dirigi11 trit1ufante a l'Iaceió, condt1zi11do t1m~1 bela coleção de cabeças, os sertanejos de Sar1tana do Ipanema re- ceberam-no com festas - e o herói fôz t1rn discurso. Os jornais não p11blicaram essa oração noticiada nos te.legramas : sabemos, porém, qt1e o bra.:vo oficial cleclarot1 o ca.ngaço defir1itiva1nentc n1orto, j11ízo im- IJ1·11dente q11e não devia ser transmitido. T emos aí un1 sinal da trapa111ada, da confusão reinante, confusão que a i1nprensa agravêl. de manei- ra insensa.ta. Um jornalista 1ne11 a1nigo foi há dias e11trevis- tar certa môça q11e de um mome11to pttra 011tro se l1a·via torna.elo i1otável, em conscqi.iê11cia de t1111 con- c111·so de beleza, creio et1. Palestrot1com ela meia hora e, feitas vá.rias perg11ntas bastante indiscretas, pe- dit1-lhe q11e se ma11ifestasse a respeito de literatt1ra. Pegada de SL1rprêsa., a mulherzinha falot1 sen1 e11tu- sia,smo da Escrciva Isaura, mas ·vi11 nt11na revista. a sua resposta au111entada com i1ma lista de i·on1ances desconhecidos, q11e na.t11ralme11te comprot1 depois e le·u, cochila11c1o e boceja11do, pa.1·a. se ~trmar contra i1ôvo a.ssalto. Dêsse n1odo se orgar1iza1n n1uitas reputações.
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    1 1 ~: 11 . ~t • • 1 ! 1 1 j. 1: '• ... "' '1 i1, • ;1, 1 !1 • .'I.' ! ' • • 146 - G nA e I L l A No n A lvf o s Lo11ge de n1i1n a idéia de cerisurar o meu a1nigo jornaljsta e a popt1lação de Sa.ntana do I panema, que aclamou o tenente. O repórter não tinha lnotivo para julgar a môça elo conct1rso ignorante de letras, embora fôsse mais razoável interrogá-la sôbre pó de arroz, cre1ne, 'roi1ge e outros ingredientes necessários à beleza. Também não p odemos co11siderar o tener1to :Be- zerra incapaz de in1provisar disc11rsos dece11tcs. Jí: •possível até qt1e êle seja lim ~timo orltdor : tem bo::1 :f.igt1ra, ·voz agradável, e sorri ir1ostranclo t1rn dente de 011ro q.ue ll1e enfeita a bôca.. Oon1 essits qualidacles êle pode te1·-se exercitaclo em deitar falações }Jlttrió- tic~ts aos camarê1dê1S rias horas q11e lhe cleixa.ram os tral:>a.ll1os da caserna. É lícito, }JOré1r1, recea.rmos qt1e o vaJer1te oficial i1ão se tenh1:t especia.liza.clo nis- so e qt1e a s11a are11g·a J1aja fa.lhado. P elas 11otícic1s aql1i rcccl:>idas, sa])emos que o te11ente Bezerra n1a- 11eja con1 proficiência a metral11adora e é perito na arte <le cortar cabeças, i1a verdade bem difíceis. Em Alago~ts, como em outros lugares, há u1na quantidade regular de homens loqtla.zes q11e falam horas sen1 dizer nada, mas nenhum dêles se avent11ra a mergu- lhar no sertão e arma,r emboscada com o allxílio de coiteiros, negócio 1)erig·o_so; r1enhum aspirou. à ho11- ra ele clec~tpitar o próximo. PoT que e11tão o brioso a.g·ente da ordem gasta ener·gia nt1rna cor1cor1·êr1cia llesleal, qt1anclo melhor seria declicar-se inteiramen- te à s11a profissã.o~ 'l1 alvez o tenente Bezer.ra ainda. p1·ecise cortar mt1itas C[tbeça.s, qt1e sc~rã.o rneclidas cui- dadosan1er1te, como ::is onze da prirr1eira série. O sc·u prestígio crescerá., o tener1te Bezerra, q11e já é gran- de, ficará eno1·me. VIVENTES D:.S ALAGOAS - 147 O discurso é qt1e destoa : enxergaT?os 1:êle.,u::ia , . d ·ust1'ficação como nos conceitos l1te1a11oses1:>cc1e e J 1 da môça. . Na opinião de alguns leitores ex1gen~s, o ~0~1- Cl11·so de beleza era uma tolice. Mas lhoeJr?ren~;~i~ . t d f. conversaT com a IDll arranJa u ?: .1nge que ela se torno11 interessante, me11te nos insinua · . as bem feitas, não i1penas por ter bonitos olhosde pe·rnL . do R êgo. h os romances o sr · rns . n1as por co:i ec~r ' blico a 11ma parte n1t1ito ·Jt 11n1a, satisfaça.o ao pu ' · · recl11zida do pí1lJlico. . , Por outro lado existem pessoa,s den:;iasiado sbensi- . d f i·ografi·:i de ca ecas· es"i·remece1n ven o a. o ' ·e. 3 ·veis q11e · , 't mn ex- "1 .• d corpos EsstS pessoas 11eccss1 a.ln 11 .'. J.Ora os · , .. é barbaridade. 1. - Cortar cabeças ne1n semi:>rc , 1) icaçao. , . d·scurso e bar- Cortá-las no i11terior da Afr1ca, e sem i ' h d 1 t . mas na Europa, a mac a. o lJH,rida.d~, na~~ra ~el~ ~~rbarjdaclc. O discurso ?ºs e c?m.d1sc~r:sÁ1~~~a.~ha.. Claro que ainda prec1sa.- a.proximda • a ouco pa.ra o'hegar lá, 111as vamos lllos an ar u111 p . D us progredindo, não somos bárbaros, graças a e .
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    . I· "1" >! ,' "' ' iI' i 1 ' 1 ! 1· ' '' : ' l• !1 1• 1 • ' ......- ' J ·1 1· 1 ' .;,,_______.·- CORISCO A i1otícia da. morte dêsse tipo qt1ase pa.ssou des- pe:rcelJida.: st1rgi11 i1a }Jrimeira :página, em tele- gr~Lma, e11colheu.-se de11ois nas outras fôlhas, :roi. 111ing11a11clo e en1 po11co tempo desa11arece11. Ha- vin.coisa in1portante 110 jor11al, a gt1erra da Euro1Ja ; 11ü.o11os interessa.va 11m ca11ga.ceiro nordestino, lJalea- <lo e decaJ)Íta.do e111 conseqiiêr1cia.de nun1erosas estre- 11olias. Lan1pião teve um i1ecrológico razoável, mas l1a1111>iã.oera clJefe abalizado, gozava de enorme pres- i·ígio e perdeu a cabeça antes da, gt1erra. Corisco, figura secundária, não criou Teputação - e finou-se qt1aseinédito. F oi 11n 1 peq11eno mo11stro. f)o11tudo, se a.s circt1nstâncias o ajt1dassem, êle seria l1oje t1ma criattira normal e necessária. Branco e lou.ro, com }Jai :rernecliado e avô rico, senhor de vários c11genhos, devia acal1ar nat11ralmente, joganclo ga- mão r1t1n1a 1>eqt1e11a cidacle do Nordeste, à porta da :f'nrn1áeia, chateado por filJ10.s brancos e lot1ros. Não se a.cornocloi.1 a. isso. Na. escola prin1ál'ia fêz bagllnças, inclispôs-se com 011tros alunos n1ais ricos qt1e êle e, não podendo cl1eíiá-los, passol1-se lJara o gl'llJ)O ela i)o11ta da, rt1a e exil)ÍU autoridade. Não upre11deu coisa.nenl1t1ma. Re1neticlo para t1m colégio ela capital, foi inacessível, violento e brt1to.
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    '. ' . '' '' 1 .1 ' 1 150 - G R A C I L I A N O R A l1 O S Preguiça11do, se111 esfôrço, faria os exames, e11- t1·aria na fact1ldade e seria pro1notor. Aías Corisco não desejava ser promotor 110 município 011de o avô, o coronel Fernandes, senhor de engenhos exibira as suas lor1gas barbas pTestigiosas. A t1si11a tinha comido o ei1genho. E, c11tre Sll- jeitar-se ao gri11go, que manc1ava na usina, e o·becle- cer ao negro c1evoto do Padre Cícero, Corisco i:>refe- ri11 êste. Largou a família, os i·estos de granc1eza im- prestável, amarrou a cartt11::heira à ci11t11ra e étndou muitos anos, da Bahia ao Ceará, pratica11do l.1orro- res. Foi 111n desclassifica.do, t11n inclivícl110 q,11e prir1- cipiando na orclem, na fa.1níli<1, n::1 religião, vi11 de re- pente isso t11do falhar. De nacla lhe servira.m os olJ1os az11is, a pele lJranca, as barba.s do a.vô, 1011gas e res1Jeitáveis, e as do pai, menores, 111as ai11cla assin1 dignas de respeito. Corisco não possui barbas 11em virtude. · Se ti- vesse permanecido em cima, acataria llm cer to núme- ro de coisas sérias, tomaria en1 considera.ção os do- mingos, as festas ele guarda, a honra das do11zelas. Fora da socieda.de, metido no mato como 11m lJicho, sem cale11dário, e sem mt1lher,·desprezo11i1oções rijas e antigas. S11bmeteu-se à lei ela necessidacle. P assOll anos embrenl1ado na cà~itinga, s11jo, farr1i11to, seflcn- to, com llm rifle a tiracolo, defendendo-se e ataca.rido, per:feita1ne11te bicho. Está morto, graça,s a Deus. O Noreleste livro11-se dessa figu.ra sinistra. Um bra.nco deg·e11era,do. Há por lá m11itos brancos deg·enerados pela. n1iséria.. Te- mos indi'víd11os qt1e estão muito eru cirr1a, outros que estão r11uito em}Ja.ixo. Corisco estava no meio. E des- ceu, obrigara.m-no a descer. Que aco11tecerá depois ~ .. ~ . ,,.. ..., ....... - -··- --; e -~ - -- DOIS C.>.NGAÇOS Frn:r..:r.ANDO · há dias que as violências pr~ti- A cadas pela.s fôrças volantes co~tran;atutos in- defesos leva.1n ao ca11gaço muitos deles, avan- cei qlte as perseg11ições e as injustiç~s eram apenas 11n1a das ca·usas do mal, talvez a mais fraca. R.eal- n1e11te, injustiças e perscg11ições há en1 tôd~ a parte, sem que os ofendidos se resolvam a orga11izar ban- dos como os qt1e infestam o Nordeste. • Terão as pessoas dos outros 111gares i:ienos ~1gor que os sertanejos~ P~uco prov_ável. Se nao re~lizam essas ações que arrepiam os leitores dos telegiamas, é qtie podem manifestar o seu des:ontcnta:nento de maneiras diversas, e as monstruosidades sao d~sne­ cessárias. É possível até q11e não precisem manifes- tar desconte11tamento, caso algt~Irl:ª v~ntagem n~u­ tralize as perseguições e as lDJUSt1ç~s: colheita regtilar, salário mediano, a ce1~teza _enfim de poder existir, embora n1al. I sso no interior do Nordeste é in1possível. Com a devastação das n1atas, o deserto cresce; os rios correm dt1rante alg1ins meses, q11a.ndo c~egam as trovoadas; a célebre fecundidade da ~erra e lima frase feita, dessas que e1nbalaram, e ainda emlJa- Jan1 o otimismo nacional, teimoso e cego. Na ver- clad~ a terra, excetuando-se a faixa do litoral, é bem . .
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    } 1 1 1 ' , I.' I• 1 111 " ' ' 1 1 ..l1, 1 ~ 1 1 1 ' •1 1 ' 1 ! 1 1 ' ' 152 - G I{ A C l L 1A N O R A rvf O S ruim, alimenta mal a gente 11un1erosa qt1e l<í se aperta. Só o Estado de Alagoas, pobre e pequeno, com orçamento de uma dúzia de mil contos, tem mais de um milhão de habitantes, o qt1e lhe dá qua.se ci11q'iie11- ta i11divídt1os por qt1ilômetro qt1ae1rado. Se no resto do país existisse igual densidade teríamos no B1'asil i1rna população como a da China. Nesse meio exausto e repleto o ca11gaço é 11oje muito diferer1te do qua era i10 fim do séct1lo ]::>assado ot1 já no pri11cípio dêste séct1lo. Compare111-se os mi11g11a.dos grt1pos dos b<:1r1do- leiros antigos às g1'andes massas q11e se têm pôsto em armas l1ltin1ame11te en1 certa.s regiões fia.geladas. Casin1iro Honório con1l)atia só, os dois ir1nãos Morais i1ão ti11ham con1panbeiros, J es11íno Brilha11- te dispunha duma deze11a de hon1e11S - e os ba11didos que atacarar111rlossoró, i10 Rio Grande do Norte, em 1926, eram cerca de duzentos. . Entre aquêles e êstes notaremos uma diferença de qualida.de. Casimi1·0 Honório, pessoa ele conside- ração, proprietário, ti1lha iinenso org11lho ; os dois Morais eram filhos do P adre 1'1orais, de Pal1neira dos índios; J esuíno Brtlhante ligara-se a un1a boa família ceare11ce, donde saiu o Capitão J osé Leite Brasil, que se encrencot1 em 1935 po1· cat1sa dessa história de revolução. Os cangaceiros atuais são de ordinário criatu- rtts vindas de ba.ixo, rebotalho social. Os métodos an- tigos divergiam dos presentemente adotados. Em ge- ral os n1alfeitores oculta·van1 a.s st1as truculências ot1 apresentavam-nas como fatos necessá.rios e jt1stos: enfeitados, ro111antizados pela imaginação popular, dedica,ra1n-se a obras d.e i·eivindicação e de vinga.nça, e1·a.m llns heróis, quase uns apóstolos, 11a opi11ião dos ' . . '.. ' VIVENTES DAS ALAGDAS - 153 n1atutos. Distribt1íruu pt1nhados de moedas 1·oubada~, queimavam regt1larmente ~s cêrcas? assolavan; as. fa~ zen·das dos a.n1igos do governo, coisas agradave1s à gente miúda, cobiçosa po1· necessidade e natural- 1ne11te oposicionisL.'1.. , Antônio Silvino atribt1ía-se t1ma at1toridade es- r>ecial em negócios de família, exercia uma _cu~iosa ·n1agistratura : prodigalizava consell1os, enclire1tava relações abaladas, forjava casamentos difíceis e com o dinheiro dos negocia.ntes da.s vilas postas a saq11e a.rr<.1njava dotes pa.ra as raparigas pobres a.varia.da.s. Tltdo isso rn11dol1, talvez por serem agora os f~t­ tos, i1u1nerosos e próximos, observados fora daquela penl1rnl:Jra que favorecia as deforn1ações e os exa- geros. .Antônio Germano e A.l11aro J1imbura raspa,ram r.01n faca de I>onta. as canelas das st1as vítimas e as- sin1 obtinham a chave do baú ou do cofre ; davam nos pacie11tes un1 banho de ql1e1·osene e riscavam um fósforo na rot1pa molhada. A primeira parte dêsse programa foi realizada em vá.rios municípios de Ala- goas, nas pessoas de algt1ns senhores de en!?enho a.va.rentos; a segt1nda, a do querosene, experrmen- tot1-a Olín1pio Coelho elo Amaral Nogt1eira, peque110 ))l'oprietário q11ei1nado vivo em Bom Conselho, Per- 11ambuco. Lampião era, religioso, não por ten11Jeramento: por hábito e por influência do Padre Cícero do Jt1à- zeíro. E, religioso, entrando numa igreja, de povoa- ção con<.111istacla, tirava uma nota de q11inhe11tos mi!- réis <la capa11ga e introd11zia-a na 1·acbadura da ca1- XEl das almas, a pt1nhal. Isso não o i1npedia. de violai· m11lberes na pre- Scnça. elos Jnaridos an1ar1·ados.
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    ' !1 ''' '. ' 1 1 "'1 1' 1 : ' '' .'.1 •.,.: • 1 ' 1 ·1' .1 ~ ''. ' 154. - G R A C I LI A N O R A M O S Lampião era llm monstro, tor11ou-se 11m mons- tro, sín1bolo de tô(las as monstrt1osidades possíveis. ~esta, po:ém1 sabei· se os 011tros, os antigos, não :praticavamaçoes cornoas dêle ese i1ão11avii:t qualq11er mterêsse e1n escondê-las. 1'alvez houvesse. Casimiro Honório, os !!forais, Jesuíno Brilhante e Antônio Sil- vi110 tinha.rr1 alg11rna coisa qt1e pe1·der, terra ot1 fa.. zenda, pelo 1nenos u1n nome, valor tradicional. Não po.d~am most!ar-se de repe11te demoljdores de insti- t~1çoes respeitadas: precisa.va~:n 1nantê-la.s, a1Jesa.r de i·eprobos, eram de aJg11ma forma. elementos de ordem a~igos da propriedade, de todos os atrilJutos da pro~ pr1ed.ade..O q11e êles co.mbatiam era., não a proprie- dade em s1,.mas a propriedade elos se11s inimigos. Daí talvez surgirem conser·vadores, poetizados e a11n1en- tados na literat11ra branca do Nordestc. Os bandoleiros de }10,je nasceram i111n1 i111indo sô- co e populoso,i10 ~leio duma deva.stação. Nada podem pe;der!. nada os liga ao passado e prov~tvelmenté não d~ixarao descendêncii:t :s11n1ir-se-iio i111n1a·volta de ca.- m1n~o, sob uma chuva de balas, serão decapita.dos, m11t1lados. " . À falta de bens, arriscan1 as s11as vid~s in11teis. E se essas vidas são inúteis, qt1e podem êles pot1par fora delas~ O prop1·ietá:r~o am~açado pela polícia, foragido; embre~hado, se11t1a apoio onde andava, ampa,ra.vam- no amigos seguros, companheiros de classe receosos de perder o prestígio e chegar à situação dêles. Não lhes faltavan1 os intermecliários ;necessários na com- pra de víveres, armas e munições, os avisos q11e os livravam das ciladas. O cangaceiro ele hoje, infí1)itar11ente dista11te do coro11el, não conta con1 êlc, ne11l1un1a rar.ão tern pa.ra J , '·.' ' ' '.. '1 • VlVEN'fES DAS ALAGOAS - 155 0011fiar 11êle. E se o 11tiliza a.lgt1mas ·vêzes, é porque o a.terroriza, an1ea.ça o q11e êle ina.is preza. Não se conte11ta com incênclios e matança de gado : invade a, casa. do fa.zendeiro, rouba-lhe a mulher e as filhas, lovn-as para a ca1)oeira e entrega-as meses depois, estragadas, mcdi::t11te resgate. ÍD verdade que também estraga n1ôças da. camada uaixa., mas essas não se aviltam por isso :recebem com satisfação frascos de perfume, cordões de ouro, cor- tes de sêda - e ca.sam-se naturalmente, como se nc11b11m dano tivessem sofrido. ..i:..s môças brar1c~ts é qt1e fican1 irreparàvelmente prejl1dicadas, inutilizam-se pa.ra sempre. O cangaceiro tipo l..Jampião aniq11ila o i11imigo: clcvasta-lhe os bens e, se não o rr1ata, faz coisa pioi' - cast1·a-o. Às vêzes castra-o literalmente, o q11e é ltorrível; e se 1J1e deso11ra as filhas, eastra.-o de ma- neira pior: mata-lhe a descendência, pois nenhum sertanejo de fanu1ia vai ligar-se a t1ma }Jessoa ultra- jada. Não afirn10 que o bandido proceda assim cor1s- cientem€!nte. J: verdade, porérn, é ctt1e êle molesta, não apena.s o adversário, mas o meio social em qt1e êste vive, as instit11ições q11e o amparam, Salva-se a. religião, t1ns restos da religião, :pa- tc11te no ato de meter cédulas no cofre das almas, a po11ta de p1111l1al. O resto desaparece11. E a família, essa coisa sa.grada, é o que mais se ataca. Concll10 daí que o cangaço no Nordeste se apre- se11ta sob dois a.spectos, ot1 a11tes q11e podemos obser- ·var lá dois cangaços : i1n1 de origem social, outro, )na.is sério, c1~iaclo por dificuldades econômicas. Por isso a.firmei q11e as persegt1ições e as injus- tiças apenas contribuíam para o 1nal-estar geral. De- terminaram o aparecime11to de homens como Casi-
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    1 .. 1' .1 1. • 1 ' ' 1 'I :1: I'1 1 11 ,, 1 1 • 1 11 1 1 1 ; 11 ... "• li 1 ' 151' - e ~ A e I L l A N o R A 1'·1o s rniro Honório, J esuíno Brilba.nte os ~{orais e A11tônio Silvino. . ' Alguns dêsses rea.lizaram sozinhos as suas fa- çanhas, Ol1tros necessitaram instrun1entos pa1·a de- fender-se e foram b11scá-los na classe baixa. Os i11str11n1e11tos libertaram-se, entraram a mo- ver-se J)Or conta própria, adotaram processos dife- rentes dos que t1sa.vam os êlI1tigos patrões, Tor11a- 1·~n:-se chefes, co1no Lampião, engrossaram as s11as :f1le1ras. . ,]~oi a miséria ql1e eng·rossot1 as s11as fileiras, .a m1ser1a ca11sad~t i:>elo at1mento de pop11lação nltrna terra pobre e ca11sada. • • l O JôGO DO BICHO, FATOR ECONÔMICO D E tôdas as instit11ições brasileiras o jôgo do bi- cho é com certeza a mais interessante, a que melhor descobre a alma popula.r. É verdade qtte poss11ímos outras capazes de provocar ent11sias- 111os vivos e até a paixão das massas : o carnaval, o futebol, as lutas políticas, por exemplo; mas são coi- sas q11e, en1bora aqt1i tenham feição particular, exis- tcn1 e1n tôda a i)arte. Ncnhuma delas produz lima excitação permanente, tôda.s se manifestam com intermitências ma.is 011 menos longas. O jôgo do bicho é constante e pt1ramente nacio- nal. Aqui surgiu, criou raízes, e em nenhum outro país se daria tão bem. Deriva da nossa desorganiza- ção econômica e da confiança ql1e depositamos em fôrças misteriosas. T odos nós, consciente ou incons- cientemente, esperamos mila.gres, acreditamos na Divi11a Providência, em podêres sobrenaturais, que às ·vêzes fican1no alto, inatingíveis e obscuros, 011tras vêzes se põem em contato corri os homens, familia- rizam-se, revela.m-se de maneira ba.stante ordinária. As relações entre o hon1em e a divindade, que a princípio se manifestarn sob a forrna de troca, depois como tra.nsações de cornpra e venda, aqui se modifi- caram. Em tôda a parte o crent e oferece a Det1s ou aos santos i1m objeto para receber um favor, ou ofe- 1·ece-lhes dinheiro, inas entre nós êste respeitáve.I
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    1 I'' ' 1I • .1 f. ,, 1 ,,.1 ,. • 1 1: • ' . 1 ' 1 1 11 1 .. is8 - e RA e I L l A N o R A }.:1 o s costtun~ se tor11ol1 urna esriécie d.e jôo·o. Daí para se tornar JÔgo verd .d · d" t" ·' 0 - , · ·· . . a. e1r.o .ª is aric1a nao era gi-a11de. A n~ssa gente st1pe;:·st1c1osa, qr1e l.tdn1ite a.realização dos sonhos e, espec1.almente no interior, faz promes- sas a Santo Antô1110 a propósito de casa.i11ento e a Santa Clara a propósito de chuva, encontrou meio de transformar a graça pedida em dinheiro. Pode- mos acompanhar a evolução do negócio do seguinte modo: oferecemos um pbjeto para receber um bem qualquer ; oferecemos dinheiro para i·ece}Jer 0 mes- mo ~e1:1 ; oferecemos di11l1eiro para receber dinl1eiro. Nao quere~o.s felicidade, p:1z, <1t1t1Jquer estttdo de al1na r1ecessar10. aos místicos ; desejainos coisas co::icretas.. O mendigo que pede para o transeunte sa.ud_e e '?-d8: long·~ ~uitas vêzes indica os ineios que Julga indispensave1s para se obter isso. I mpossibilitados de adq11irir l1ma felicidade c?mpleta, ~11scamos pedaços de felicidadé. E em vista da s1tt1~ção precária em q11e vivemos êsses frag~ent?s .sa~ .de ordinêírio representadds por ~uant1a.s i"ns1gn1f1ca;r:it~s: Sabernos qt1.e a posse de- la_s nada 1.es~lve ,def1m~varnente, que a nossa vida ~a~ se end1re1tara con1 taq po11co e, consl1midas essas 1nfrmas lJarcelas de riqueza, a necessidade voltará ~. tere~os de apelar para 11m nôvo golpe de sorte. fas n,a~ podemos pensar no futuro quélndo o pre- ~.~11te e,incerteza e .c?nfusão, res1)iraremos com alí- 1 io .se ct~ l1ossas d1f1culdades irremecliáveis forem procTast1nadas por lirn 1nês, t1m~i serr1a11a, 11m di~i. Espera1:e1nos q11e tu.do. se arra.i1je depois. ~01 en9t1anto prec1sa1nos co1n 11rgência uma de- ter1n!na~a. impo1·tâ:r1cia para o al11gtLel dêl. casa, im- port~11c.1a correspo1;1dente ao dinheiro que possuímos mult1p~cado por 'i11nte. O brasileiro achou o modo de Teal1zar a ml1ltiplicação, pelo menos de passar .. -... . • .-, ' VIVENTES DAS ALACO.iS - 159 algun1as horas na ilusão de que ela se realize e lhe dê recursos para satisfazer às exigências imediatas. É verdade que a ilusão ordinàriamente fall1a, ma.s pode reno1rar-se no dia seguinte, caso o home1n i1ão se acl1e absol11ta1nênte desprovido de pecúnia. Êle poderia arriscar-se a q11alquer outro jôgo. Isto, porém, não lhe traria grande satisfação. Com- prando bilhetes de loteria, a espera seria m11ito pro- longa.da ; na roleta ou r10 bacará seria curta demais. ] ;le não q11er fica.r mt1ito tempo sonhando com l1ma sorte grancle q11e ll1e transforme a vida, nem encos- ta.r-se ao pano verde pa.ra. receber emoções fortes e rápidas. Contenta-se con1 sortes miúdas, ql1e lhe podem chegar diàriamente, a hora certa, não se cle- cidem no giro d11ma bola ou n11m virar de carta. Além disso a. loteria, a roleta, o bacará, ficam fora das possibilidacles da n1aior parte da pop11la- ção, ao passo ql1e o jôgo do bicho está ao alca11ce de , . . tôda a gente e poss11i o q11e e 1Jrec1so para conquis- tar c'I. simpatia das mass~is. E1n primeiro lugar promete muito e não oferece nenh1trna gara.ntia, o q11e está em conforn1idade com os há.bitos dum país onde se organizam companhias sem capital e os profetas são bem recebidos, ainda qt1e sejan1 os mais extraordinários salvadores. Ape- sar ele tL1do os jogadores felizes são pagos com rigo- 1·osa pontualitlade, e isto é ad.:rnirável, porc1l1e entre l16s n1111c<.t11enlrnm programa se realiza, as ol)rigações são reg11larmente postas ele lado. Os pa11elzinhos riscados i1 lápis por un1 sujeito desconhecido trans- forma.m-se em valores. Em segt1ndo lugar é proibido, razão suficiente para viver e prosperar. H á negócios que não têm " '
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    • " . , r1 1 I, J' 1 160 -GRACILIANO RA~fOS 011tro i11otivo ele êxito. O nosso i11stinto ele rebeldia suste11ta~os, :faz q11e lJrotestemos contra alg·11111 :f1111- cio11ário demasiado co11sciencioso que r>retenda en- xergá-los. Aliás com relação ao jôgo do bicho talvez seja conveniente a a11toridade s11por q11e êle não existe e deixá-lo em i::iaz. Muitos cavalheiros fica.riam em ap11ros se, marcba11do para a repartição corr1 o in- t11ito severo de co1nbater l!ssa pr[tg·a nacional, pensas- sem que s11as res.peitáveis se11l1oras elal:>ora1n listas co1nplica(lé1S, os rapazes no carr1i.nbo da escoléi arris:.. can1 níq11eis ni1 deze11a, o ordenaelo da. criada foi es- tabelecido co1n a red11ção da importâ11cia presumível que ela retira nus compras e dá ao rapaz do talão, o for11ecedor não está satisfeito corri os pagamentos e espera minorar as suas dívida.s com a proble1nática fração de riqueza que tôelas as manhãs lhe oferece1n i10 balcão. · Deixemos en1 paz o bicl1eiro. Essa fré1çã.o de riqt1eza representa.. a c1uanti~t que (teixo11 de ser paga no salá.rio do trabalhador, a. conta qt1e o bacharel se esquece11 de saldar 11a venda. Para que privar o ope- rário e o vendeiro da última possibilidade q11e lhes resta1 O jôgo do lJicl10 significa t1n1a tentativa mt1ito louvável para corrigir o desarranjo em que vivemos. Uma tentativa oferecida a pessoas st1persticiosas que acreditam em sonhos e ainda não podet11 acre- ditar en1 011trá coisa, ruas a:fi11al talvez sej~i incon- i'e11iente s11prirni-l,t, pelo inenos por enq11anto. ' ' UM . DESASTRE • , E tado pobre. E111 po11co mais AL1d1..GOA~ t~ ~~ito~1il q11ilômetros q11adr·ados a:·-e v1r1 milhão de habita11tes. Para rurna-se q11ase um · . ha' c·barco inos- . - rr11n1a . na pral<.l e ' be111 d1ze1! 11ao se a t' .e há seixo, cardo, fome. En- qL1ito, sezao ; na caa ingta a mata con1 algodão e d onas aper a-se ' ' , ·1tre as lias z , - se conseg11e terra fac1 - ca.na-de-açú~a~, i:1~s ~1 11~ e i1ara lá elas cancelas o inente, o salar10 e ~.1xt? ,· vale o mosq11ito e o cardo despotismo elo propr1e a110 e: j11ntos. 1- _ desânimo, gor- lfm tôda a parte o a1r1are ao . t , .d .!J " d "ra indecisos en 1 e a vi ªd11ra fôfa: home:ns cor e ce ' .. 8 de mulheres e a morte ; raparigas.velhas, i.1ns cd.C~e ernas finas i1a adolescê11cia; meD:1nos ramemloessosg,rávidas de lom- b·t barrigas enor , - con10 cam i os, . f lta de água no sertao, briga.s. E muita porcaria.: a d 1 a l 't ·al o solo empapa o, am . . excesso no 1 º7".' lle tê111 restos de energia em1- Nessa penur1a, os q d ·s esperando lb os pontos car ea1 ' gram ; ot1tros o ·ª~ f endeiro 0 negociante e t1m 1nilagre. Ern cima, o az ' o ))11rocra,ta. _ . . · itos ociosos E scorados i1os balcoes das vilas, suJe f"1·ça têm b · l · . s das lagoas nem o · conversam ; os eira:e1ro , ·astadas beiços pálidos, para conversar. Pernasba~bas co~o neste diá.logo meia dúzia de palavras a. ' . q11e P edr o Lima inventou : .· '
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    • 1 t "1 :H . 1 '•1 • "1 ,1 1 ., 1 .. 1 162 - e R A e Ir. J A No RA tvl os - Seu compadre, se esta miséria continuar nós acabamos pedindo esmola. ' - A q11em' A pop11lação cresce 'demais. Se a dos outros Es- tados f ôsse tão densa, o país seria urna nova Chi11a. 1'Iai~ de novecentas mil soml.>ras. I nsignificante pro- duçao para tanta gente. Na roça uma família inteira se esconde nas camarinhas, nl1a, enquanto a mãe vai à cacimba, lavar ro11pa. Um indivíd110 mendiga pa- ra casar. - Como é q11e você s11stenta mull1er e filhos c1·iat11ra~ ' - Deus dá o jeito. Ali por volta de 1930 só um m11nicípio arreca- dav~ mais de cem contos. Hoje as rendas parecem ter s11b1do 11m pouco. JY.fa.s terão ''rcalrne11te'' st1biclo~ Não deverr1os falar em tais coisas a estrtt11hos. Em vez de penalizá-los, humilhando-nos, exibimos a sala. de visitas, arranjada com decência. Apesar de t11do, o alagoa110 tem momentos de vaidade e abomi- n~ consiclerações desagracláveis. Possuímos glórias: T avares B astos, S:inimbu, heróis no Paraguai, co- lo~zadores do An1azo!1as. E proclamamos a llepú- bl1ca. Para,a.lgt1mit coisa a emigração haver ia de ser-• Vll', I r1felizmente precisamos rent111ciar por enqt1an- to a essas lembranças consoladoras e expor os nossos rnl.tles. Vieran1 rr1ales grandes, além elos ordinários. CJ1t1va incessa11te, inu11daç.ão, dilúvio. O Senhor re- solvet1 afogar os nossos pecados. Os rios engrossa- ram, ~ubmergiram campos, mataram plantas, bichos e cristãos; riachinhos incha.ran1, convertera.m-se em t orrentes, devoraram lnorros n11mit erosão faminta e l •• VIVENTES DAS ALAG01.S - 163 raivosa. Aluíram pontes, ruíram casas, sumiram-se povoacões. I mpossibilitou-se o trânsito nos caminhos alagados ; descansaram as locomotivas ; nos lugares onde rodavam trens e bondes vogam canoas. Fecha- rarn-se os estalJelecimentos comerciais : a indústria emperro11; trub1:;1lha.dores esq,u.ecera.n1 a.s Slla.s profis- sões e tentaram, nervosos, defender ruínas que se dissolvem. De espaço a espaço um desmoroname11to - e os r estos das cidades emergen1 como se fôssem constr11ídos em palafitas. A a.gric11ltura foi varrida : canaviais e arrozais desceram na corre11teza ou se- pultaran1-se no lôdo. · Se as notícias calamitosas se referissem a uma cheia do Yang-tse-Kiang, acharíamos enorme a ca- tástrofe distante, alargada pelas agências telegráfi- cas. Estamos, porém, diante de l1ma tragédia casei- ra, narrada econô1nica1nente por Nelson ] 1 lôres. E, j11lgando-11os favorecidos pela Proviclê11ciit, busca- mos atenuar nossas aflições. Contudo êsses horrores próximos, que dia, a dia o conhecimento de pormenores engra11dece, não podem ser desfeitos com sorrisos apenas. Há 11ma desgraça. Ev·identemente o govêrno local não tem rneio de combatê-la. É indispensável o socorro da Uniã.o. E é indispensável o aµxílio do l'larticular, bondade que não faltaria se uma e1·upção do Aconcá~ gua houvesse destruído algumas aldeias.,, . Certo não se trata de consertai· a.s maquinas das l1sinas. Elas se desenferrujará.o naturalmente - e o açúcar terá bom preço. A campanha iniciada aqui tende a minorar o sofrimento do homem qi1e nunca ent1·011 n11m banco e só conheceu durezas, o ·vaqueiro do sertão mudado em brejo, o pescador da lagoa tor- 11n.da mar. Testir os nl1s, curar os doentes, erguer o c:1sebre da vi{1vá, ampa1·ar o ól'fão, er1fin1 scn1ear r1a-
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    .1 rr1r;' 1 i 1 '1: 1 • • • • i • i : ~ 1 1 1 . 1 • 1 1 . 1 • r : 1 . 1 1 1 . i 1 .. 1 1 •• ' ' . • 1 ' 1 • 164 - G R A C I L I A 1 O R A M O S q11ela região ir1feliz uns pedaços de obras çle miseri- córdia. Quar1do tis ágt1as baixarem, a maleita se dese11volverá jt1nto ELOS n1ang11es crescidos, })andos exat1st.os andarão trêmt1los. I.::>ensamos nessa gente mais ou me11os i11útil. JYias qt1e po(le1·ia. i1ão ser inú- til. E IJOderá talvez i1ão ser ir1útil. , JL:..---~------------- ESTADO OE ALAGOAS RELATORIO -AO - .. . GOVERNADOR DO E~T~DO DE A~AGOlS .; .. . Imprensa Oltlclal- MACEIÓ ----- 1929 .. . ·-· ,_.._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _---lJl"I'
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    1 1 r·, N 1 . ;. '.•li • li' 1 . 11,• :11 ' •' 1. l1 '1 ' I' 1 ' • 1 1 : ' ' 1 1 ! 1 ..1 . ' '' • 1 1 1 • ' 1 '.~ ' ' .J·! l 1 i 1 1 , ' PRE]'EI·TUR1~ Th'IUNIOIPAL DE P ALliIEIRA DOS fNDIOS • • RELATóRIO ao Govêrno do Estado de Alagoas Exmo. Sr. Governador: • Trago a V. Excia. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos fndios em 1928. Não foram 1nuitos, que os nossos recursos são exíguos. Assim minguados, ent1·etanto, quase insensíveis ao observa- dor afastado, que desconheça as condições em que o lVIu- nicípio se achava, muito me custaram. . C011EÇOS O PRINCIPAL, o que sem demora iniciei, o de que depe11dia.m todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma orde1n na administração. Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o comandante do destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Muni- cípio tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, êsses, resolviam questões de polícia e advogavam. Pa.ra que semelha11te anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e . .
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    . '.• ' ' 11 i· ' ' ! !1 '' ' '1 '. . 1 ' 1 • 1 ;I· !1 1 ' 1 : . j • • 1 1 1 ' 1 ' i. 1 1611 - G R A C 1L J A N O R A ?1 O S fora dela - dentro, uma resistência 1nole, suave, de algo- dão em rama; fora, uma campanha. sôrna, obliqua, car- regada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós ; outros me davam três méses para levar um tiro. Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano pas- sado i·estam poucos : saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cutnprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a êles. Não sei se a administração do Município é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior. RECEITA E DESPESA A receita, orçada em 50 :000$000, subiu, ap€sar de o ano ter sido péssimo, a 71 :649$290, que não foram sempre bem aplicados por dois motivos : porque não me gabo de empregar dinheiro com inteligência e porque fiz despesas que 11ão faria se elas não estivessem determinadas no orça- mento. PODER LEGISLATIVO Dispendi com o poder ]egislativo 1 :616$484 - paga- mento a dois secretários, um que trabalha, outro aposen- tado, teleg·ramas, papel, selos. ILUlVIINAÇÃO A iluminação da cidade custou 8 :921$800. Se é muito, a culpa não é minha: é de quem fêz o contrato com a em- prêsa fol'nec-edora de luz. .. ' .~:· • • VIVENTES DAS ALAGOAS - 169 OBRAS PúBLICAS . Gastei com obras públicas 2 :908$350, que serviram pal'a construir um muro ;no edifício da Prefeitura, aumen- 'Lnr e pintar o açougue público, arranjar outro açougue para gado miúdo, r eparar as ruas esburacadas, desviar as águas que, en1 épocas de trovoadas, inundavam a cidade, melho- rar o curral do matadouro e comprar ferramentas. Adqui- r j picaretas, pás, enxadas, martelos, marrões, marretas, carros para atêrro, aço para brocas, alavancas, etc. Mon- tei uma pequena oficina para consertar os utensílios estra- gados. EVENTUAIS Houve 1 :069$700 de despesas eventúaiS:feítTu- é co11- sôrto de n1edidas, 1nateriais para aferiçã.o, placas. 724$000 foram-se para uniformizar as medidas per- tencentes ao Município. Os litros aqui t inham mil e qua- trocentas gramas. Em algumas aldeias subiam, em outras desciam. Os negociantes de cal usavam caixões de quero- sene e caixões de sabão, a que .arrancavam tábuas, para enganar o comprador. Fui descaradamente roubado em compTas de cal para as trabalhos públicos. CEMITÉRIO No cemitério enterrei 189$000 ~ pagamento ao co- veiro e conservação. ESCOLA DE MúSICA A Filarmônica 16 de Setembro consumiu 1 :990$660 - ordenado de um mestre, aluguel de casa, material, luz. . .
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    >• •1 • !' !! .. ,t • 1 11 1 ' 1 !j l·1 'li ,, 1: 1• ' 1 : .'1 : '• 1 ·: 1 1 1 1 1 1 .•1 • 1 1! • • j 1 • 1 ' • 1 • '' 1 ..1 170 - e nA eILI J No n A lv1 os FUNCIONARIOS DA JUSTIÇA E DA POL1CIA Os escrivães do júri, do cívil e da polícia, o delegado e os oficiais de justiça levaram 1 :843$314. ADl1INISTRAÇÃ0 A administração municipal absoTveu 11 :457$497, ~ vencimentos do prefeito, de dois secretários (um efetivo ' , outro aposentado), de dois fiscais, de um servente; impres- são ele recibos, publicações, assinatura de jornais, livros, objetos necessários à secretaria, telegramas. Relativamente à quantia orçada, os telegramas custa- ram pouco. De ordinário vai para êles dinheiro conside- rável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao govêrno do E stado, que não precisa disso ; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha. - un1 telegrama; porque se deitou uma pedra 11a rua - um telegrama; porque o depu- tado F. esticou a canela - um telegrama. Dispêndio inútil. Tôda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o depu- tado morreu, que nós choramos 'e que em 1556 D. Pedro Sardinha foi comido pelos caetés. ARRECADAÇÃO As ·despesas co1n a cobrança dos impostos montaram a ,5 :602$244. Foram altas porque os devedores são cabe- çudos. Eu disse ao Conselho, em relatório, que aqui os contribuintes pagam ao l1unicípio se querem, quando que- rem e como querem. Chamei um advogado e tenho seis agentes encarrega- dos da arrecadação, muito penosa. O J}-f unicípio é pobre e ' J • , ' VIVENTES DAS ALAGOAS - 171 demasiado grande para a população que tem, reduzida por causa das sêcas continuadas. LIMPEZ1 PúBLICA - ESTRADAS • No orçamento lin1peza pública e estradas incluiram-se numa só rubrica. Consumiram 25 :111$152. Cuidei bastante da limpeza pública. As ruas estão varridas; retirei da cidade o lixo acumulado pelas gerações que por aqui i)assaram; h1cinerei monturos imensos, que a Prefeitura não tinha suficientes recursos para remover. Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido i10 cisco preciosamente guardado em fundos de quintais ; la- múrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algu- mas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guh1chos, berros e coices dos faze11deiros que criavam bichos nas praças. PôSTO DE HIGIE NE Em falta de verba especial, inseri entre os dispêndios r ealizados com a limpeza pública os relativos à pr ofilaxia do Município. Co11tratei com o Dr . Leorne l1enescal, chefe ào Ser- viço de Sa11eamento Rural, a instalação de um pôsto de 11igiene, que, sob a direção do Dr. Hebreliano vVander1ey, te1n sido ele grande utilidade à nossa gente. VIAÇÃO Consertei as estradas de Quebrangulo, da Porcina, de Olhos d'Agu.a aos limites de Limoeiro, J1a direção de Cana Brava. }"oram reparos sem gra11de ilnportância e que apenas menciono para que esta exposição não fique incompleta.
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    1' 1 1 1'!1 1 1g .~ 1 J !Li 1 ' 1 ''i ''11 1' ' '1 1 1 ' 1 ' ' ' '1 ' 1 1 1• 1 1 ' ; '1 1 172 - GRAéILIANô ltAMôS Faltam-nos recursos pára longos tratos de rodovias e quais- q~er modificações em caminhos estreitos, íngreme;, percor. ridos por animais e veículos de tração animal, depressa desa.. parecem. É necessário que se esteja. sempre a renová-las • < ' pois as enxurradas levam num dia o trabalho de meses e os carros de bois escangalham o que as chuvas deixam. Os empreendime11tos mais sérios a que me aventurei foram a estrada de· Palmeira de Fora e o terrapleno da Lagoa. I ESTRADA DE PALMEIRA DE FORA 1'em oito nletros de largura e, para que não ficasse estreita em uns pontos, larga em outros, uma parte dela foi aberta em pedra. Fiz cortes profundos, aterros consideráveis, valetas e passagens transversais para as águas que descem dos montes. Cêrca de vinte homens trabalha1·am nela quase cinco meses. Parece-me que é uma 5 :049$400. estl'ada razoável. ' Custou 'f . 1 1. enc1ono pro ongá- a à fi'ontêira de Santana do Ipanema, não nas condições em que está, que as Tendas do Município me não permitiriam obra de tal vulto. OU'rRA ESTRADA Como, a fim de não inutilizar-se em pouco tempo, a estrada de Palmeira de Fora se destina exclusivamente a pedestres e a automóveis., abri outra paralela ao trânsito de animais. • ......._________________ - - . - - - -- - - - - - -- -- - - - - '!VENTES DAS ALAGOAS - 173 TERRAPLENO DA LAGOA O espaço que separa a cidade do bairro da Lagoa era uma coelheira imensa, um vasto acampamento de tatus, qualquer coisa dêste gênero. Buraco por tôda a parte. O atêrro que lá existiu, feito na administração do prefeito Francisco Cavalcante, quase que havia desaparecido. Em um dos lados do caminho abria-se uma larga fen- da com profundidade que variava de três para cinco me- tros. A água das chuvas, impetuosa em virtude da incli- nação do terreno, transformava-se ali em verdadeira torrente, o que aumentava a cavidade e ocasionava sério perigo aos transeuntes. Além disso outras aberturas se iam formando, os invernos cavavam galerias subterrâneas, e aquilo era inacessível a veículo de qualquer espécie. Empree11di aterrar e empedrar o caminho, mas reco- nheci que o solo não fendido era inconsistente: debaixo de uma tênue camada de terra de aluvião, que uma estacada sustentava, encontrei lixo. Retirei o lixo, para preparar. o terreno e para evitar fôsse um monturo banhado por água que logo entrava em um l'iacho de serventia pública. Quase todos os trabalhadores adoeceram. Estou fazendo dois muros de alvenaria, extensos, espês- sos e altos, para suportar o atêrro. Dei à estrada nove metros de largura. Os trabalhos vão adiantados. Durante meses mataram-me o bicho do ouvido com reclamações de tôda a ordem contra o abandono em que se deixava a melhor entrada para a cidade. Chegaram lá pedreiros - outras reclamações surgiram, porque as obras irão custar um horror de contos de réis, dizem. Custarão alguns, provàvelmente. Não tanto quanto as pirâmides do Egito, contudo. O que a Prefeitura arrecada basta para que nos não resignemos às modestas tarefas de varrer as ruas e matar cachorros. ... . ' 1
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    '1 ' 1 1 i 1 1 'I 1 ' :1 .1 ''! . : l • l' 1, 1. ' ' ' 'l 1 l '' 1 ' '•• l l t-. ~•t ,,. 1 1 •1 . ;1 IL 1 17.( - G R A e ILI A No R A iVr os ( 1 Até agora as despesas com os serviços da Lag·oa sobem a 14 :418$627. / ' Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu ; em todo 'o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados. (Os gastos com a estrada de Pal'°eira de Fora e com o terrapleno estão, naturalmente, incluídos nos 25 :111$152 já mencionados.) DINHEIRO EXISTENTE Deduzindo-se da receita a despesa e acrescentando-se 105$858 que a administração passada n1e deixou, verifi- ca-se un1 saldo de 11 :044$947. 40$897 estão em caixa e 11 :004$050 depositados no Banco Popular e Agrícola de Palmeira. O Conselho auto- rizou-me a fazer o depósito. Devo dizer que não pertenço ao banco nem tenho lá interêsse de nenhuma espécie. A Prefeitura ganhou: li- vrou-se de um tesoureiro, que apenas serviria para assinar as fôlhas e embolsar o ordenado, pois no interior os tesou- r eiros não faze1n outra coisa, e leve 615$050 de juros. Os 40$897 estão em poder do secretário, que guarda o dinheiro até que êle seja colocado naquele estabelecimento de crédito. LEIS lVIUNICIPAIS Em janeiro do ano passado não achei no Município nada que se parecesse com lei, fora as que havia na tradi- ção 01·al, anacrônicas, do tempo das candeias de azeite. j / VIVENTES DAS ALAGOAS - 175 Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível e obscura. f>rocurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quas-e a reco1·rer aos espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem. Afinal, em fevereiro, o secr~tário descobriu-o entre papéis do Império. Era un1 delgado volume impresso em 1865, encardido e dilacerado, de fôlhas sôltas, com apa- rência de primeiro liv1·0 de leitura do Abílio Borges. Um furo. Encontrei no folheto algumas leis, aliás bem redigi- das, e muito sebo. Com elas e com outras que nos dá a Divina Provi- dência consegui aguentar-me, até que o Conselho, e1n agôsto, votou o código atual. ' CONCLUSÃO Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estra- das que se abriram só há curvas onde as retas foram intei- ramente impossíveis. Evitei emaranhar-me em teias de aranha. Certos indivíduos, não sei porque, imaginam que de- vem ser consultados; outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos. Não me entendi com êsses. Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável ; há quem não compreen- da que um ato administrativo seja isent o de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisa tão simples como mandar quebrar as pédras dos caminhos. Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1 :325$500 de multal'l. . '
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    1 ,. 1 " I~1 ,. • • . i. ' '. 1 l• • 1 •.. '..•• i i 1 : 1 1 ! 1 .. 176 - GRACILIANO RAt.·10S r Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos dispara.tes. Todos os meus erros, porém, foram erros da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há descontentamento. Se a minha estada na Prefei- tura por êstes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz .e prosperidade." Palmeira dos índios, 10 de janeiro de 1929 GRACILIANO RAMOS • ' "'.. .4 - _,t_, _ _ _ VIVENTES DAS ALAGOAS - 177 PREFEITURA MUNICIPAL DE P AL1íEIRA DOS íNDIOS BALANÇO (Exercício de 1928) Licenças para estabeleci- me11tos ..... .... . ... . Décima Urbana ........ . Carnes verdes ......... . Pesos e medidas ....... . Oficina e artistas ....... . Cêrcas e alicerces . ..... . Vendedores ambulantes .. ' Fei1·as ..... . ..... . .... . Veículos • • • • • • • t • • • • • • Depósitos de inflamáveis Bazares e botequins em festas ............... . Construção e reconstrução Serviço doméstico ...... . Torcedores de cana ..... . Vendedores de leite .... . Vendedores de doce .....~ Terras do Estado ...... . Bilhares ............. . Aluguel de medidas .... . Cemitério ........... . . Taxa sa.nitária ... .. . .. . Biqueiras .. . . ... ...... . Cartas de éhauffeurs ... . Divertimentos públicos .. . Placas para veículos ... . Casas de farinha ....... . Compradores de madeira Receita 9:265$000 4:914$040 18:742$000 4:250$000 210$000 204$000 410$000 16:780$100 380$000 450$000 399$000 210$000 180$000 10$000 20$000 40$000 6:191$100 100$000 3:101$800 340$000 282$000 316$600 150$000 150$000 120$000 625$000 500$000 Despesa
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    • 1 ' 1 i . '. 1 1 ' .. 1 l 1 i1 1. 1 '1l 1! ' !1 • 1 1 1 1 1 1 1 118 - G R A C l L l A. N O R A lv! OS Restituições . • • • • • • • • • • Eventuais • • • • • • • • • • • • • l1ultas • • • • • • • • • • • • • • ••. Receita 68$100 615$050 1:82õ$500 Poder legislativo Administração mu~Í~i~~j · : : : : ~ · · · · · · · · · Arrecadação das i·endas ...... . . . Iluminação pública .............. . Obras públicas . < • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Limpeza pública e. ~~t~~~~~· · · · · · · · · · · · · · Cernitério . . · · · · · · · · · · · · · • • • • • • Gratificações · · · · · · · · · · · · · · · · · · · • • • • • • Filarmônica "16 de S~t~~b··,:·········· Ev t . ro ... en ua1s · · · · · ·• • • • • • • • • • • • • • • Saldo · · · · · · · · · · · · 1:616$484 11 :457$497 5:602$244 8:921$800 2:908$350 25:111$152 189$000 1:843$314 1:990.$660 1:069$700 • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 10:939$089 º77-11~:6;:;4:;:;-9$;;;2:::::-9:::-0__7_1_:6-49~$:..:_2_::.=90 Saldo • • • • • • • • • • • • • Saldo do exercfcio an- terior • • • • • • • • • • • 10:939$089 105$858 N B 11:044$947 o an~o Popular e Ag'rícola de Palmeira • • • • • • • • Em caixa .. · · · · · · · · · · · · · · • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Palmeira, 3 de janeiro de 1929. 11:004$050 40$897 11 :044$947 . MARÇAL JOSÉ OLIVEIR.i Se·cretário Visto. - P alme1·1·a 8 d .· ' e Janeiro, 1929. GRACILIANO RAMOS. 'l . flE~UBLICA DOS !E:STAOOg; UNIDOS DO BRASIL ESTADO DE ALAGOAS 2 . o '· RELATO RIO ..., Ao Si·. Governatloi· Alvaro Paes --PELO-- PRE~EITO D~ MijNltIPIO DE PALMEiHA DOS iNDIOS • GRACILIANO RAMOS Imprensa Oftlclal - MACEIO' 1930
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    1 • '" 1 11 .1 • 1 ' 1 1 1 1 ,, 1 1 11 ,I '/ 1 - 11 1 1 1 1 1 11 11 1 1 ' 1 1 1 1 ' 1 1 1 1 • ' • • 1 • Vl''ENTES DAS ALAG01.S - 181 Prefeitura Municipal de Palmeira dos índios. - Rela- tório ao Governador de Alagoas. - Sr. Governador. - Esta exposição é talvez desnecessária. O balanço que re- 1neto a V. Excia. mostra bem de que modo foi gasto em 1929 o dinheiro da Prefei~ura 1íunicipal de Palmeira doE? índios. E~ nas contas reg ularmente publicadas há porme- nores abundantes, minudências que excitaram o espanto benévolo da imprensa. Isto é, pois, uma reprodução de fatos que já narrei, com algarismo e prova de g·uarda-livros, em numerosos ba- lancetes e nas relações que os acompanharam. , RECEITA - 96 :924$985 ' No orçamento do ano passado houve supressão de várias taxas que existiam em 1928. A receita, entretanto, calculada em 68 :850$000, atingiu 96 :924$985. E não e1npreguei rigores excessivos. Fiz apenas isto: extingui favores largamente concedidos a pessoas que não precisavam dêles e pus termo às extorsões que afligiam os matutos de pequeno valor, ordinàriame11te i·aspados, escor- chados, esbrug·ados pelos exatores. Não me resolveria, é claro, a pôr em prática no se- gundo ano de administração a eqüidade que torna o impôs- to suportável. Adotei-a logo no comêço. A receita em 1928 cresceu bastante. E se não chegou à soma agora alcan- çada, é que me foram indispensáveis alguns meses para corrigir irregularidades muito sérias, prejudiciais à arreca- dação. DESPESA - 105 :465$613 Utilizei parte das sobras existentes no primeiro ba- lanço.
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    l ' 1 ! ~i1 1 1; i• 1 1 ' ' 1 1 ' ili 1 ' 1 I' 1 ,1 ' 1 ' 18.2 - e R Ae I L 1A N o R A!II o s ADMINISTRAÇÃO -- 22:667$748 Figuram 7 :034$558 despendidos con1 a cobrança da~ rendas, 3 :518$000 com a fiscalização e 2 :400$000 pa . um f . , . gos a . .uncionar10 aposentado. Tenho seis cobradores, dois fiscais e um secretário. Todos são mal remunerados. GRATIFICAÇõES - 1 :560$000 ' E stão reduzidas. CEMITÉRIO - 243$000 . P ensei em construir um nôvo cemitério, pois 0 que temos dentro em pouco será insuficiente, mas o.s trabalhos ª. que me aventurei, necessários aos vivos, não me permj.. tirain a execução de uma obra, embora útil, prorrogável. Os morto~ esperarão mais algum tempo. São os muníci- pes que nao reclamam. ILUMINAÇÃO - 7 :800$000 A Prefeitur a foi intrujada ql:lando em 1920 · f' . ' , aqui se 11 mou um c?n.trato p,ira.o fornecimento de luz. Apesar de ser o.negocio referente à claridade, julgo que assina. i·am aquilo às escuras. É um bl1,,ff. Pagamos até a luz que a lua nos dâ. HIGIENE - 8 :454$190 O estado sanitário é bom. O pôsto de higiene, insta- Ia~o em 1928, presta serviços. consideráveis à população. Caes, porcos e outros bichos incômodos não tornaram a aparecer nas ruas. A cidade está limpa. • VIVEN'fES JJ AS ALAGOAS - 183 INSTRUÇÃO - 2 :886$180 Instituíram-se escolas em três aldeias: Serra da Man- dioca, Anum e Canafístula. O Conselho n1andou subven- cionar uma sociedade aqui f undad,a, por operários, sociedade que se dedica à educação de adultos. Presumo que êsses estabelecimentos são de eficiência contestável. As aspirantes a professôras revelaram, com admirável unaní1nidade, uma lastimosa ignorância. Esco- lhidas algumas delas, as escolas entraram a funcionar regu- larn1ente, como as outras. Não creio que os alunos aprendam ali grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e alma11aques, discutir política e decorar sonetos, passatem- pos acessíveis a quase todos os roceiros. Ul1A DíVIDA ANTIGA - 5 :210$000 E ntregaram-me, quando entrei em exercício, 105$858 para saldar várias contas, entre elas uma de 5 :210$000, relativa a mais de um semestre que deixaram de pagar à -emprêsa fornecedora de luz. VIAÇÃO E OBRAS PúBLICAS - 56 :644$495 Os gastos com viação e obras públicas foram exces- sivos. Lamento, entretanto, não me haver sido possível gastar mais. Infelizmente a nossa pobre2a é grande. E ainda que elevemos a receita ao dôbro da importância que ela ordi11àriamente alcançava, e economizemos com avare- za, muito nos falta realizar. E stá visto que me não preo- cupei com tôdas as obras exigida.s. Escolhi as mais urge11tes. •
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    ' : 1 1 ' ! 11:1 ,, 1 1 .' • 1 1 ' 1 1 ' 1 i 'I 1 . ' •' ' ' 1 : 1 1 1 1 . f : 1 1 1 ' 11 j 184 - e R A e l LI A N o R A rvr o s Fiz repar os nas propriedades do Município, ren1endei as ruas e cuidei especialmente de viação. P ossuímos uma teia de aranha de veredas muito pito- r escas, que se torcem em curvas caprichosas, sobem montes e descem vales de maneira incrível. O caminho que vai a Quebrangulo, por exemplo, original produto de engenharia tupi, tem lugares que só podem ser transitados por auto- móvel Ji'ord e por lagartixa. Sempre me pareceu lamen- tável desperdício consertar semelhante porcaria. ' ESTRADA PALlVIEIRA A SANTANA Abandonei as trilhas dos caetés e procurei saber o preço duma estrada que fô.sse ter a Santana do Ipanema. Os peritos responderam que ela custaria aí uns seiscentos mil-réis ou sessenta contos. Decidi optar pela despes!:. avultada. Os seiscentos n1il-réis ficarian1 perdidos entre os, barrancos que enfeitam um can1inho atribuído ao defunto Delmiro Gouveia e que o E stado pagou com liberalidade: os sessenta contos, caso eu os pttdesse arrancar ao povo, não serviriam talvez ao contribuinte, que, aper tado pelos cobradores, diz sen1pTe não ter encomendado obras públi- cas, mas a alguén1 haveriam de se1~vir. Comecei os trabalhos em janeiro. Estão p1·ontos vinte e cinco quilômetros. Gastei 26 :817$930. TERRAPLENO DA LAGOA ~ste absurdo, êste sonho de louco, na opinião de três ou quatro sujeitos que sabem tudo, foi concluído há meses. Aquilo, que era uma furna lôbrega, tem agora, ter- minado o atêrro, um declive suave. Fiz uma galeria para o escoamento das águas. O pântano que ali havia, cheio VIVENTES DAS ALAGOAS - 185 de lixo, excelente para a cultura de mosquitos, desapa- r eceu. Deitei sôbre as muralhas duas balaustradas de cimento armado. Não há perigo de se despenhar um auw- móvel lá de cima. O plano que os técnicos indígenas consideravam impra- ticável era muito mais modesto. Os gastos en1 1929 montaram a 24 :391$925. SALDO - 2 :504$319 Adicionando-se à receita o saldo existente no balanço pa.ssado e subtraindo-se a despesa, temos 2 :504~319. 2 :365$969 estão em caixa e 138$350 depositados no Banco Popular e Agr!cola de Palmeira.. PRODUÇ.~O Dos admi11istradores que n1e precederam uns dedica- ram-se a obras urbanas; outtros, inimigos de inovações, não se dedicaram a nada. Nenhum, creio eu, chegou a trabalhar nos s ubúrbios. E ncontrei em decadência regiões outrora próspe1·as; terras aráveis entregues a animais, que nelas viviam quase em estado selvagem. A população minguada, ou emigrava para o sul do País ou se fixava nos muni.cípios vizinhos, :nos povoados que nasciam perto das fronteiras e que eram para nós umas sanguessugas. Vegetavam em lastimável aba11dono alguns agregados humanos. E o palmei1·ense afirmava, convicto, que isto .era a })l'incesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa muito 11ua, muito maclraça, muito suja e muito escavacada. Favoreci a .agricultura livrando-a dos bichos criados à toa; ataquei as patifarias dos pequeninos sen~ores fe.u- dais, exploradores da canalha; suprimi, nas questoes rurais,
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    ~';" ;I,,1: 1 ". ' , 18(3 - Gn Ae I L 1 A No n A ?11 os a presença de certos intermediários, que estrag·avam tudo ; facilitei o transporte; estimulei as relações ent1·e o produ- tor e o consumidor. Estabeleci feiras em cinco aldeias: 1 :156$750 foram- se em reparos nas ruas de Pafmeira de Fora. Canafistula era um chiqueiro. Encontrei lá o ano pas- sado mais ele cem porcos misturados com gente. Nunca vi tanto porco. Desapareceram. E a povoaçã9 está quase limpa. Tem mercado semanal, estrada de rodagen1 e uma escola. l1IUDEZAS Não pretendo levar ao público a idéia de que os meus empreendimentos tenhan1 vulto. Sei perfeitamente que são miuçalha.s. Mas afinal existe1n. E, comparados a outros ainda menores, clemonstra1n que aqui pelo i11terior podem tentar-se coisas un1 pouco diferentes dessas invisíveis sem grande esfôrço de imaginação ou microcóspio. Quando iniciei a rodovia de Santana, a opinião de alguns munícipes era ele que ela i1ão prestava porque esta- va boa demais. Con10 se êles não a inerecessen1. E argu- mentavam. Se aquilo não era péssimo, com certeza sairia caro, não poderia .ser executado pelo Município. Agora inudaram de con.versa. Os impostos cresceram, dizen1. Ou as obras públicas de Palmeira dos índios são pagas pelo E stado. Chegarei a convencer-me de que não fui eu que as realizei. BONS COl1PANI-IEIROS Já estou convencido. Não fui eu, primeiramente por- que o dinheiro dispendiclo era do povo, em segundo lugar porque tornaram fácil a minha tarefa uns pobres hon1ens que .se esfalfam para 11ão perder salários miseráveis. ''. ..... V!VEN1'ES DAS /LAGOAS - 187 Quase tudo foi f~ito por êles. Eu apenas teria tido o ·mérito de escolhê-los e vigiá-los, se nisto houvesse mérito. MULTAS • Arrecadei mais de dois contos ele réis de multas. Isto prova que as coisas não vão ben1. E 11ão se esmerilharam contravenções. Pequeninas irregularidades passam despercebidas. As infrações que })roduziram soma considerável para um orçamento exíguo referem-se a prejuízos individuais e foram denunciadas pelas pessoas ofendidas, de ordinário gente miúda, habi~ tuada a sofrer a opressão dos que vão trepando. E sforcei-me por não cometer injustiças. Isto não obs- tante, .atiraram as multas contra mim como arma política. Com inabilidade infantil, ele resto. Se eu deixas.se em paz o proprietário que abre as cêrcas de um desgraçado agri- cultor e· lhe tr ansforma em pasto a lavoura, devia e11for- car-me. Sei bem que antigamente os ag·entes municipais eram zarolhos. Quando um infeliz se cansava de mendigar o que lhe pertencia, tomava uma resolução heróica: encomenda- va-se a Deus e ia à capital. E os prefeitos achavam razoà- vel que os contraventores fôssem punidos pelo Sr. Secre- tário do Interior, por intermédio da .polícia. REJ:l.,0Rl1:ADORES O esfôrço empregado para dar ao Município o neces- sário é vivamente combatido por alguns pregoeiros de mé- todos administrativos originais. Em conformidade com êles, deveríamos proceder sempre com a máxima condescendên- cia, não onerar os camaradas, ser rigorosos apenas com os pobres-diabos sem proteção, diminuir a receita, r eduzir a despesa aos vencimentos dos funcionários, que ninguém ' .- - - .• l ··--·~·- - - • -··~·.....__~- .. ·-·-·,,···~·-~-·--·--···-----------------'------------------------------'"'
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    1 '' 1 • . .. 11 ~.,_ 1 : ., ' • 1 '1 1 ·' 1 1 ' 1 : i 1 1 j. 188 - G H A Cl L l A N O R A ~f O S vive sem comer, deixar êsse luxo de obras públicas à Fede- 1·ação, ao Estado ou, em falta dêstes, à Divina Providência. Belo programa. Não se faria nada, para não descon- tentar os amigos : os amigos que pagam, os que adminis- tram, os que hão de administrar: Seria ótimo. E existiria por preço baixo uma Prefeitura bode expiatória, magnífico assunto para comérage de lugar pequeno. POBRE POVO SOF~EDOR É uma interessante classe de contribuintes, módica em número, mas bastante forte. Perte11cem a ela i1egociantes, proprietários, industriais, agiotas que esfola.m o próximo com juros de judeu. Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmung·ão. Como ninguém ignora que se i1ão obtém de graça as coisas exig·idas, cada um dos membros desta respeitável classe acha que os impostos devem ser pagos pelos out1·os. PROJETOS Tenho vários, de execuçãp duvidosa. Poderei concor- rer para o aumento da produção e, conseqüentemente, da arrecadação. J1as umas semanas de chuva ou de estiagem arruínam as searas, desmantelam tudo -· e os projetos morrem. Iniciarei, se houver recursos., trabalhos urba.nos. Há pouco tempo, com a iluminação que temos, pérfida, dissimulavam-se nas ruas sérias an1eaças à integridade das canelas imprudentes que por ali transitassem em noites de escuro. it ' VIVENTES DAS ALAGOAS - 189 Já un1a rapariga aqui morreu afog·ada .no enxurro. Un1a senhora e uma criança, arrastadas por um dos rios que se formavam no centro da cidade, andaram rolando de cachoeira em cachoeira e danificaram na viagem bra-., ços, pernas, costelas e outros órgãos apreciáveis. Julgo que, por enquanto, semelhantes perigos estão conjurados, mas dois meses de preguiça durante o inverno bastarão para que êles se renovem. Empedrarei, se puder, algumas ruas. Tenho também a. idéia de iniciar a construção de açu- des na zona serta.neja. lifas para, que semear pron1essas que não sei se darão frutos? Relatarei com pormenores os planos a que me re- feri quando êles estiverem executados, se isto acontecer. Ficarei, porém, satisfeito se levar ao fim as obras que encetei. É uma pretensão moderada, realizável. Se não realizar, o prejuízo não será grande. O lYiunicípio, que esperou dois anos, espera mais um. Mete na Prefeitura um sujeito hábil e vinga-se dizendo de n1im cobras e lagartos. Paz e prosperidade. Palmeira do.s Índios, 11 de janeiro de 1930. GRACILIANO RA:&10S. . .
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    Carnaval 1910 •• • 7 Natal . • • 11 ' Carnaval 17• • • • o Dr. Jacaran<lá • • • • • • 23 D. iilaria Arnália • • • • 27 () iifôço da farn1ácia • 31 Casan1entos • • • • 35 e· ,111aco • • 39 I-Iabitação • 45 1"eatro 1 • • • 51 Teatro II . • • 55• ' Bagunça . • 59' • '1 D. Maria • 63' • • • ' :! Lib6rio • • • • • • 69 Desafio • • • • 73 i1 ' Funcionário I11<lependente • • • • 77 • U1n Antepassado • • • • • 81 :1 ~ Um I-lo1nen1 de Leh·as 85• • • • Um Gramático • • • • • • • • 89 ll ) Dr. Pelado • • • • • • 93'• -e .,.,, 1 : ~-- .- • 1'ransação de Cigano 97• • • A Decadência De Un1 Senhor De Engenho • • • 101 "Está i.berta a Sessão do Júri" ' • fll· • • 108 ' Urn I-Iomern Notável 100' •. Recordações De Un1a Indústria !viorta • • • • ' Um Profeta ' ' • • • • Inácio da Catingueira e Ro1nano • ' • O Fator Econômico No Cangaço • • ' •••
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    1 ! Lan1pião . Professôres Virgulino Cabeças Corisco DoisCangaços • • • • O Jôgo Do Bicho, Fator Econô1nico Um Desastre • • • • Relatório Ao Governador Do Estado de Alagoas , - - - • 133 137 141 145 149 151 157 161 165 '•1 ) ' • t:STE LIVRO FOI COMPOSTO E 1111PRESSO NA GRAFIC/I. URUP:es, ItUA PIRES DO RIO, 338 - FONE 02-8807 - S.10 P AULO - BRASIL EM 1967 ,NO ao• PA P'UNDAÇÃO DA LIVRARIA MARTrNS EDl'l'ôRA S. A.
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    ' ' • 1 ' • • f • . ' • •. q11c 11mórgão oficial di.v11l- gou, entre an1e11iclades e des- co11111ro111issos, êsses qt1aclros incisivos da i1ossa realiclade, ql1C 11111 crítico já comparot1 n cluras ce11as talhadas en1 111acleira. Mas i1ão a11tecipe- n1os o qt1e espera. o leitor ao ·11assar clestas páginas, vá- 1·ias 110 set1 i11terêsse, i10 se11 <·oloriclo ele ti11tas fortes, n1a::; iguaJ111e11te a11i111aclas de 11ma de11stt beleza agres- te. 1.dia11ten1os sôn1ente q11e i1estc livl'o se encor1tra 11n1 cbU.o clefi11i(lo, co1n 1nna gen- te, 11111 sentir, e q11e êle i1ão se irnobiliza en1 certa época, clicga a.os i1ossos clias co111 ~t 1uarca da. per111a11ê11cia. ''Vive11tes das Ala.goas'' é o títt1lo r1atrtra.l clêste vo- lnn1e, c1t1e a.lén1 ela série ''Qt1adros e Cost11mes do Norcleste'' re{111e ot1tras crô- 11icas de Graciliano R.an1os, evidente111e11te com a n1es1r1a temática., i1a I11aioria das vê- zes trabalhos rr1ais r·ece11tes. MARTINS . 1 ..... l .•. •.. ·, • •... •, .' • lj