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Livros essenciais da
literatura brasileira
Paulo Eduardo Souza
Num. 31
1EMA
Porque ler literatura?
A literatura informa aquilo que todos nós não
vemos porque esquecemos, a saber, a própria
realidade. Esquecemos da realidade porque
admitimos como natural. Naturalizamo-la. A
realidade é informada pela literatura, como se
fosse completa novidade. A realidade é
redescoberta, recriada pela arte. Como se fosse a
primeira vez que a encontrássemos. Descobrir a
realidade, desvendá-la do véu de alienação com
que a encobrimos, acordar-nos para o presente
concreto – eis uma das funções da arte literária.
Livros
Graciliano Ramos - Vidas Secas
Graça Aranha – Canaã
Gregório de Matos – Obra Poética
João do Rio – A Alma Encantadora das Ruas
Adélia Prado – Bagagem
Aluísio Azevedo – O Cortiço
Augusto dos Anjos – Eu
Basílio da Gama – O Uruguai
Bernardo Élis – O Tronco
Dyonélio Machado – Os Ratos
Vidas Secas – Graciliano Ramos
• Vidas Secas é um romance de Graciliano Ramos, escrito
entre 1937 e 1938, publicado originalmente em 1938. O livro,
narrado em terceira pessoa, aborda uma família de retirantes
do sertão brasileiro, sendo a sua vida sub-humana condicionada
diante de problemas sociais como a seca, a pobreza, e a fome, e,
consecutivamente, no caleidoscópio de sentimentos e emoções que
essa sua condição lhe obriga a viver, ao procurar meios de
sobrevivência, criando, assim, uma ligação ainda muito forte com a
situação social do Brasil hoje.
• Durante o processo editorial do livro, Graciliano mostrou-se
inteiramente cuidadoso com sua criação, frequentando a gráfica e
depois disso responsável pela elaboração do livro
Vidas Secas
• diversas vezes, examinando meticulosamente o material quando esse
entrava no prelo, para ter a certeza que a revisão não interferiria em seu
texto. Após sua publicação no Brasil em 1938, o livro circulou em território
estrangeiro durante um bom tempo, sendo primeiramente lançado
na Polônia e depois na Argentina, seguida por Republica
Theca, Rússia, Itália, Portugal, França, Espanha e em outros. No
Brasil, encontra-se em sua centésima sexta edição.
• Por conta da consciência social que existe no conteúdo do livro, moldada
através de uma estrutura dramática, o enredo tem sido analisado pelos
críticos por meio da relação do homem com os meios naturais e sociais.
De acordo com alguns especialistas, em Vidas Secas Graciliano contornou
alguns estilos literários de sua época, o que lhe proporcionou pontos
positivos no livro. Graciliano, por exemplo, foi cauteloso nas tradicionais
ingerências do narrador opiniático e evitou o protesto ou o panfletarismo
(que poderia usar, como outros autores da época, para criticar os aspectos
sociais de seu país), o que certos críticos caracterizam como um "estilo
seco, reduzido ao mínimo de palavras".
Canaã – Graça Aranha
• Canaã é um livro de Graça Aranha publicado no Brasil pela
primeira vez em 1902. O romance aborda a imigração
alemã no estado do Espírito Santo, por intermédio do conflito
entre dois personagens principais, Milkau e Lentz, que
representam diferentes linhas filosóficas.
• Temas como opressão feminina, imperialismo
germânico, militarismo, corrupção dos administradores
públicos, ostracismo, conflito de adaptação à nova terra são
tratados nesse romance.
Imagem do livro Canaã
Obra Poética – Gregório de Matos
• Apelidado de "Boca do Inferno", Gregório de Matos Guerra nasceu em
1636, provavelmente na Bahia. Estudou com os jesuítas no Brasil e, em
1650, seguiu para a metrópole. Formou-se em direito em Coimbra no ano de 1661.
Casou-se, foi magistrado e viveu até 1681 em Portugal, quando, já viúvo, foi
obrigado a voltar à pátria.
Na colônia, levou uma vida boêmia: em tavernas e em cantorias, improvisou
versos espicaçando "os principais da Bahia". Casou-se novamente, teve filhos e
obteve, não obstante os ataques às autoridades, proteção de bispos e
governadores. Mas seus desafetos conseguiram forçar sua extradição para
Angola, de onde voltou em 1695, um ano antes de morrer, para residir no Recife.
Apesar da notoriedade que o poeta tem hoje no Brasil e em Portugal, sua fama
contemporânea foi localizada. A obra permaneceu inédita até 1829, quando
Januário da Cunha Barbosa publicou pela primeira vez seus versos numa antologia.
Somente em 1881 foi publicada a primeira coletânea satírica. O restante da obra
saiu entre 1923 a 1933, em edição desprovida de crítica.
Eu – Augusto dos Anjos
• Se há um adjetivo que define com unanimidade tanto o poeta Augusto dos Anjos
quanto sua obra única, Eu (postumamente, com o acréscimo de mais poemas, passou a
chamar-se Eu e Outras Poesias), este adjetivo é "original". Augusto de Carvalho
Rodrigues dos Anjos nasceu na Paraíba, em abril de 1884. Aprendeu as primeiras letras
com seu pai, que era bacharel. Na época em que cursou os estudos secundários, no
Liceu Paraibano, já era tido como irritadiço e doentio. Formado em direito, jamais
advogou. Durante a curta vida, foi professor de português e de geografia. Pessimista e
desiludido com a vida e a sociedade, Augusto dos Anjos via sujeira e podridão em tudo
e em todos, atitude que se reflete fortemente em suas poesias. Vitimado pela
pneumonia, poucos meses depois de ter assumido a direção de um grupo escolar em
Leopoldina, Minas Gerais, morreu em novembro de 1914, com apenas 30 anos de
idade.
Publicado em 1912, Eu é uma fantástica coleção de poesias simbolistas, todas
excepcionalmente expressivas, escritas com linguagem áspera, paradoxal, dramática, e
utilizando palavras de vocabulário científico e médico, carregadas de uma virulência
nunca antes vista em toda a literatura de língua portuguesa. Outra característica de
seus escritos é a forte sonoridade, cujo sentido muitas vezes independe do significado
semântico. Entretanto, o atributo mais marcante de seus textos é o sentimento da
angústia da carne, vista como inelutavelmente pútrida —visão essa que desemboca
numa constante descida em direção à decomposição, à morte e ao Nada.
A Alma Encantadora das Ruas –
João do Rio
• A herança que João Paulo Alberto Coelho Barreto, o João do
Rio (1881-1921), deixou para a literatura brasileira está na
maneira como usou a crônica urbana e a reportagem para
registrar o Rio de Janeiro de seu tempo. No seu segundo
livro, A Alma Encantadora das Ruas (1908), o escritor
mostrou-se o mais perfeito retratista das transformações
pelas quais a então capital do país passava. A Paris-modelo
estava muito distante da realidade pintada por João do Rio: a
belle époque carioca tinha menos virtudes do que queriam os
propagandistas. Jornalista que atuou em diversas editorias, do
noticiário policial à cobertura dos eventos sociais, o autor
reunia em si a experiência e o talento necessários para
distinguir-se na história literária.
Bagagem - Adélia Prado
• Nascida em Divinópolis, Minas Gerais, em 1935, a poeta e educadora
Adélia Prado lançou seu primeiro livro, Bagagem, já na maturidade, em
1976. Foi indicada a um editor por Carlos Drummond de Andrade, que viu
nela um "fenômeno poético". Tornou-se conhecida e admirada
rapidamente. Tanto que, apenas um ano depois, voltava à cena com seu
segundo livro, O Coração Disparado (1977), ao qual se seguiram muitas
outras publicações.
Para a crítica Nelly Moraes Coelho, há três grandes influências na obra de
Adélia: Drummond, Guimarães Rosa com seu Grande Sertão: Veredas e a
Bíblia. O primeiro fornece a noção do efêmero, característica de sua
obra, mas mesclada à eternidade bíblica. O resultado é uma nova
concepção de mundo, que seria pressentida apenas pelos poetas. Outros
temas de Drummond aparecem evidentemente parafraseados em
Bagagem. Aqui, a poeta recusa o mal-estar da cidade pequena e as
freqüentes angústias na relação do eu-lírico com o mundo.
Aluísio Azevedo – O Cortiço
• Caricaturista, jornalista, diplomata e romancista, Aluísio Tancredo Gonçalves de
Azevedo era filho de vice-cônsul português. Nasceu em São Luís do Maranhão em
1857 e faleceu em Buenos Aires, em 1913. Durante a mocidade, estudou e
trabalhou, como caixeiro e guarda-livros, em sua cidade natal, período em que já
revelava interesse por desenho e pintura, cujas técnicas empregaria na
caracterização dos personagens de seus romances. Mudou-se para o Rio de
Janeiro em 1876, juntando-se ao irmão mais velho, o comediógrafo Arthur de
Azevedo (1855-1908).
Com a morte do pai, em 1878, Aluísio Azevedo voltou a São Luís e começou a
carreira de escritor, com a publicação do romance romântico Uma Lágrima de
Mulher (1879). Abolicionista, anticlerical e crítico da sociedade
maranhense, ajudou a fundar o jornal O Pensador. Em 1881, lançou o romance O
Mulato, que foi mal recebido na sociedade local por tratar com linguagem franca
do preconceito racial. Em contrapartida, causou alvoroço na corte, o que fez com
que Aluísio voltasse ao Rio, decidido a ganhar a vida como escritor. Foi nos
folhetins dos jornais da época que passou a publicar seus romances, como Casa de
Pensão (1884) e este O Cortiço (1890).
Basílio da Gama – O Uruguai
• Em 1759, o Marquês de Pombal decretou a expulsão dos jesuítas das terras
brasileiras. Os religiosos que habitavam as Sete Missões do Uruguai resistiram e
entraram em guerra contra os portugueses. O episódio, que terminou com a
vitória de Portugal, virou tema do épico O Uraguai (1769), a maior obra do mineiro
—então residente em Lisboa —Basílio da Gama (1741-1795).
Constituído de cinco cantos feitos em versos decassílabos brancos (sem rimas), o
poema distancia-se do Arcadismo vigente no tema, mas aproxima-se do
tratamento que a escola dá à linguagem. Apesar de épica, a obra rompe com a
forma clássica camoniana e abandona as referências mitológicas comuns aos
antigos. O fantástico aparece somente nas mãos dos indígenas, que dividem o
papel de heróis com os portugueses no relato. Trata-se de uma antecipação do
indianismo romântico, porém com motivações diferentes —em vez de buscar a
consolidação de um mito nacional, Basílio utiliza o nativo para desmerecer os
jesuítas, retratados de forma caricata. O enviesamento do autor se deve à relação
de subserviência que mantinha com o Marquês de Pombal, responsável por livrá-
lo de uma condenação ao degredo em Angola.
Bernardo Élis – O Tronco
• Nome de maior projeção no grupo dos modernistas de
Goiás, Bernardo Élis começou a sua carreira pela poesia.
Tornou-se referência do regionalismo tradicional com os
contos de Ermos e Gerais (1944) e, sobretudo, com seu
primeiro romance, O Tronco (1956). Este segundo livro enfoca
a disputa pelo poder numa vila do extremo norte de Goiás, o
Duro, último reduto da família Melo. Conhecidos pelo
despotismo com que governam a região que fundaram, os
Melos são combatidos por toda parte. O idealista Vicente
Lemes, parente dos Melos e nomeado coletor por influência
deles, luta para restabelecer a paz. Mas a intervenção da
Força
Bernardo Élis – O Tronco
• Estadual precipita uma luta bárbara que, sem assegurar o
cumprimento das leis, prejudicará ambas as partes. O
romance é extraído de uma história real, de fatos ocorridos
em Goiás, nos idos de 1917 e 1918
Dyonélio Machado – Os Ratos
Publicado em 1935, Os Ratos rendeu ao gaúcho Dyonélio
Machado (1895-1985) o primeiro lugar no prêmio Machado
de Assis, da Academia Brasileira de Letras. O escritor dividiu o
galardão com Erico Verissimo, Marques Rebelo e João
Alphonsus de Guimaraens. Em uma década marcada por
grandes romances dedicados aos dramas das camadas sociais
menos favorecidas, Dyonélio transformou Naziazeno
Barbosa, atormentado protagonista desse seu romance, em
uma das figuras mais marcantes da galeria de personagens
desvalidos que povoam a literatura brasileira.
Os Ratos
• Os Ratos é um romance breve, composto de 28 capítulos
curtos que se passam num único dia. Sem cair no
naturalismo fácil que explora a degradação e a violência
das cidades, Machado consegue um perfeito equilíbrio
entre investigação psicológica e descrição social. O autor
mostra sensibilidade para retratar um quadro humano
próximo ao desespero e para enxertar em sua narrativa
elementos que plasmam a febre paranóide e obsessiva
de Naziazeno, funcionário público que precisa de 53 mil-
réis para pagar a conta do leite e sai pela Porto Alegre do
começo do século 20 para cavar o dinheiro.

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Livros essenciais da literatura brasileira

  • 1. Livros essenciais da literatura brasileira Paulo Eduardo Souza Num. 31 1EMA
  • 2. Porque ler literatura? A literatura informa aquilo que todos nós não vemos porque esquecemos, a saber, a própria realidade. Esquecemos da realidade porque admitimos como natural. Naturalizamo-la. A realidade é informada pela literatura, como se fosse completa novidade. A realidade é redescoberta, recriada pela arte. Como se fosse a primeira vez que a encontrássemos. Descobrir a realidade, desvendá-la do véu de alienação com que a encobrimos, acordar-nos para o presente concreto – eis uma das funções da arte literária.
  • 3. Livros Graciliano Ramos - Vidas Secas Graça Aranha – Canaã Gregório de Matos – Obra Poética João do Rio – A Alma Encantadora das Ruas Adélia Prado – Bagagem Aluísio Azevedo – O Cortiço Augusto dos Anjos – Eu Basílio da Gama – O Uruguai Bernardo Élis – O Tronco Dyonélio Machado – Os Ratos
  • 4. Vidas Secas – Graciliano Ramos • Vidas Secas é um romance de Graciliano Ramos, escrito entre 1937 e 1938, publicado originalmente em 1938. O livro, narrado em terceira pessoa, aborda uma família de retirantes do sertão brasileiro, sendo a sua vida sub-humana condicionada diante de problemas sociais como a seca, a pobreza, e a fome, e, consecutivamente, no caleidoscópio de sentimentos e emoções que essa sua condição lhe obriga a viver, ao procurar meios de sobrevivência, criando, assim, uma ligação ainda muito forte com a situação social do Brasil hoje. • Durante o processo editorial do livro, Graciliano mostrou-se inteiramente cuidadoso com sua criação, frequentando a gráfica e depois disso responsável pela elaboração do livro
  • 5. Vidas Secas • diversas vezes, examinando meticulosamente o material quando esse entrava no prelo, para ter a certeza que a revisão não interferiria em seu texto. Após sua publicação no Brasil em 1938, o livro circulou em território estrangeiro durante um bom tempo, sendo primeiramente lançado na Polônia e depois na Argentina, seguida por Republica Theca, Rússia, Itália, Portugal, França, Espanha e em outros. No Brasil, encontra-se em sua centésima sexta edição. • Por conta da consciência social que existe no conteúdo do livro, moldada através de uma estrutura dramática, o enredo tem sido analisado pelos críticos por meio da relação do homem com os meios naturais e sociais. De acordo com alguns especialistas, em Vidas Secas Graciliano contornou alguns estilos literários de sua época, o que lhe proporcionou pontos positivos no livro. Graciliano, por exemplo, foi cauteloso nas tradicionais ingerências do narrador opiniático e evitou o protesto ou o panfletarismo (que poderia usar, como outros autores da época, para criticar os aspectos sociais de seu país), o que certos críticos caracterizam como um "estilo seco, reduzido ao mínimo de palavras".
  • 6. Canaã – Graça Aranha • Canaã é um livro de Graça Aranha publicado no Brasil pela primeira vez em 1902. O romance aborda a imigração alemã no estado do Espírito Santo, por intermédio do conflito entre dois personagens principais, Milkau e Lentz, que representam diferentes linhas filosóficas. • Temas como opressão feminina, imperialismo germânico, militarismo, corrupção dos administradores públicos, ostracismo, conflito de adaptação à nova terra são tratados nesse romance.
  • 8. Obra Poética – Gregório de Matos • Apelidado de "Boca do Inferno", Gregório de Matos Guerra nasceu em 1636, provavelmente na Bahia. Estudou com os jesuítas no Brasil e, em 1650, seguiu para a metrópole. Formou-se em direito em Coimbra no ano de 1661. Casou-se, foi magistrado e viveu até 1681 em Portugal, quando, já viúvo, foi obrigado a voltar à pátria. Na colônia, levou uma vida boêmia: em tavernas e em cantorias, improvisou versos espicaçando "os principais da Bahia". Casou-se novamente, teve filhos e obteve, não obstante os ataques às autoridades, proteção de bispos e governadores. Mas seus desafetos conseguiram forçar sua extradição para Angola, de onde voltou em 1695, um ano antes de morrer, para residir no Recife. Apesar da notoriedade que o poeta tem hoje no Brasil e em Portugal, sua fama contemporânea foi localizada. A obra permaneceu inédita até 1829, quando Januário da Cunha Barbosa publicou pela primeira vez seus versos numa antologia. Somente em 1881 foi publicada a primeira coletânea satírica. O restante da obra saiu entre 1923 a 1933, em edição desprovida de crítica.
  • 9. Eu – Augusto dos Anjos • Se há um adjetivo que define com unanimidade tanto o poeta Augusto dos Anjos quanto sua obra única, Eu (postumamente, com o acréscimo de mais poemas, passou a chamar-se Eu e Outras Poesias), este adjetivo é "original". Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu na Paraíba, em abril de 1884. Aprendeu as primeiras letras com seu pai, que era bacharel. Na época em que cursou os estudos secundários, no Liceu Paraibano, já era tido como irritadiço e doentio. Formado em direito, jamais advogou. Durante a curta vida, foi professor de português e de geografia. Pessimista e desiludido com a vida e a sociedade, Augusto dos Anjos via sujeira e podridão em tudo e em todos, atitude que se reflete fortemente em suas poesias. Vitimado pela pneumonia, poucos meses depois de ter assumido a direção de um grupo escolar em Leopoldina, Minas Gerais, morreu em novembro de 1914, com apenas 30 anos de idade. Publicado em 1912, Eu é uma fantástica coleção de poesias simbolistas, todas excepcionalmente expressivas, escritas com linguagem áspera, paradoxal, dramática, e utilizando palavras de vocabulário científico e médico, carregadas de uma virulência nunca antes vista em toda a literatura de língua portuguesa. Outra característica de seus escritos é a forte sonoridade, cujo sentido muitas vezes independe do significado semântico. Entretanto, o atributo mais marcante de seus textos é o sentimento da angústia da carne, vista como inelutavelmente pútrida —visão essa que desemboca numa constante descida em direção à decomposição, à morte e ao Nada.
  • 10. A Alma Encantadora das Ruas – João do Rio • A herança que João Paulo Alberto Coelho Barreto, o João do Rio (1881-1921), deixou para a literatura brasileira está na maneira como usou a crônica urbana e a reportagem para registrar o Rio de Janeiro de seu tempo. No seu segundo livro, A Alma Encantadora das Ruas (1908), o escritor mostrou-se o mais perfeito retratista das transformações pelas quais a então capital do país passava. A Paris-modelo estava muito distante da realidade pintada por João do Rio: a belle époque carioca tinha menos virtudes do que queriam os propagandistas. Jornalista que atuou em diversas editorias, do noticiário policial à cobertura dos eventos sociais, o autor reunia em si a experiência e o talento necessários para distinguir-se na história literária.
  • 11. Bagagem - Adélia Prado • Nascida em Divinópolis, Minas Gerais, em 1935, a poeta e educadora Adélia Prado lançou seu primeiro livro, Bagagem, já na maturidade, em 1976. Foi indicada a um editor por Carlos Drummond de Andrade, que viu nela um "fenômeno poético". Tornou-se conhecida e admirada rapidamente. Tanto que, apenas um ano depois, voltava à cena com seu segundo livro, O Coração Disparado (1977), ao qual se seguiram muitas outras publicações. Para a crítica Nelly Moraes Coelho, há três grandes influências na obra de Adélia: Drummond, Guimarães Rosa com seu Grande Sertão: Veredas e a Bíblia. O primeiro fornece a noção do efêmero, característica de sua obra, mas mesclada à eternidade bíblica. O resultado é uma nova concepção de mundo, que seria pressentida apenas pelos poetas. Outros temas de Drummond aparecem evidentemente parafraseados em Bagagem. Aqui, a poeta recusa o mal-estar da cidade pequena e as freqüentes angústias na relação do eu-lírico com o mundo.
  • 12. Aluísio Azevedo – O Cortiço • Caricaturista, jornalista, diplomata e romancista, Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo era filho de vice-cônsul português. Nasceu em São Luís do Maranhão em 1857 e faleceu em Buenos Aires, em 1913. Durante a mocidade, estudou e trabalhou, como caixeiro e guarda-livros, em sua cidade natal, período em que já revelava interesse por desenho e pintura, cujas técnicas empregaria na caracterização dos personagens de seus romances. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1876, juntando-se ao irmão mais velho, o comediógrafo Arthur de Azevedo (1855-1908). Com a morte do pai, em 1878, Aluísio Azevedo voltou a São Luís e começou a carreira de escritor, com a publicação do romance romântico Uma Lágrima de Mulher (1879). Abolicionista, anticlerical e crítico da sociedade maranhense, ajudou a fundar o jornal O Pensador. Em 1881, lançou o romance O Mulato, que foi mal recebido na sociedade local por tratar com linguagem franca do preconceito racial. Em contrapartida, causou alvoroço na corte, o que fez com que Aluísio voltasse ao Rio, decidido a ganhar a vida como escritor. Foi nos folhetins dos jornais da época que passou a publicar seus romances, como Casa de Pensão (1884) e este O Cortiço (1890).
  • 13. Basílio da Gama – O Uruguai • Em 1759, o Marquês de Pombal decretou a expulsão dos jesuítas das terras brasileiras. Os religiosos que habitavam as Sete Missões do Uruguai resistiram e entraram em guerra contra os portugueses. O episódio, que terminou com a vitória de Portugal, virou tema do épico O Uraguai (1769), a maior obra do mineiro —então residente em Lisboa —Basílio da Gama (1741-1795). Constituído de cinco cantos feitos em versos decassílabos brancos (sem rimas), o poema distancia-se do Arcadismo vigente no tema, mas aproxima-se do tratamento que a escola dá à linguagem. Apesar de épica, a obra rompe com a forma clássica camoniana e abandona as referências mitológicas comuns aos antigos. O fantástico aparece somente nas mãos dos indígenas, que dividem o papel de heróis com os portugueses no relato. Trata-se de uma antecipação do indianismo romântico, porém com motivações diferentes —em vez de buscar a consolidação de um mito nacional, Basílio utiliza o nativo para desmerecer os jesuítas, retratados de forma caricata. O enviesamento do autor se deve à relação de subserviência que mantinha com o Marquês de Pombal, responsável por livrá- lo de uma condenação ao degredo em Angola.
  • 14. Bernardo Élis – O Tronco • Nome de maior projeção no grupo dos modernistas de Goiás, Bernardo Élis começou a sua carreira pela poesia. Tornou-se referência do regionalismo tradicional com os contos de Ermos e Gerais (1944) e, sobretudo, com seu primeiro romance, O Tronco (1956). Este segundo livro enfoca a disputa pelo poder numa vila do extremo norte de Goiás, o Duro, último reduto da família Melo. Conhecidos pelo despotismo com que governam a região que fundaram, os Melos são combatidos por toda parte. O idealista Vicente Lemes, parente dos Melos e nomeado coletor por influência deles, luta para restabelecer a paz. Mas a intervenção da Força
  • 15. Bernardo Élis – O Tronco • Estadual precipita uma luta bárbara que, sem assegurar o cumprimento das leis, prejudicará ambas as partes. O romance é extraído de uma história real, de fatos ocorridos em Goiás, nos idos de 1917 e 1918
  • 16. Dyonélio Machado – Os Ratos Publicado em 1935, Os Ratos rendeu ao gaúcho Dyonélio Machado (1895-1985) o primeiro lugar no prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. O escritor dividiu o galardão com Erico Verissimo, Marques Rebelo e João Alphonsus de Guimaraens. Em uma década marcada por grandes romances dedicados aos dramas das camadas sociais menos favorecidas, Dyonélio transformou Naziazeno Barbosa, atormentado protagonista desse seu romance, em uma das figuras mais marcantes da galeria de personagens desvalidos que povoam a literatura brasileira.
  • 17. Os Ratos • Os Ratos é um romance breve, composto de 28 capítulos curtos que se passam num único dia. Sem cair no naturalismo fácil que explora a degradação e a violência das cidades, Machado consegue um perfeito equilíbrio entre investigação psicológica e descrição social. O autor mostra sensibilidade para retratar um quadro humano próximo ao desespero e para enxertar em sua narrativa elementos que plasmam a febre paranóide e obsessiva de Naziazeno, funcionário público que precisa de 53 mil- réis para pagar a conta do leite e sai pela Porto Alegre do começo do século 20 para cavar o dinheiro.