O Jardim e a Praça
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João Alexandre Barbosa (Presi<knte)
Celso Lafer
José E. Mindlin
Oswaldo Paulo forattini
Dj;,hna Mirabclli Redonrlo
O Jardim e a Praça
O Privado e o Público
na Vida oocial e liislórica
Nelson 8aldanha
• ,I
e son SaldanhaCopyrighl © 1993 by N I
Dados lmernadooaisde Catai(Câmara Brasil . dogação na Publicação (CIP)
eU'8 o Lavro,SP, Brasil)
Saldanha,Nelson, 1933_
O lanlim e a Praça. 0 Pri
NclsooSaldanha. _Sôo j,.~ ~~e oPúblico"'' Vida Social eHisl . .
• t o:L.u~loradaUujvc:n;·dade - OC!Q.j
ISBN: 85·314-QI6J·l
1
de S•uPaulo, 1993.
I. Antropolo•· 1-1 .P 'bl" c" .,osofica I Tilulo.
u •co""Vida Social e Histórica . 11. Titulo: O Privado e o
93-1454 .
---~----------~COD-128
Índic:espara til .I An ca ogo SJ•tcmatico·
· tropologia filosefica 128 ·
~N ~Q)jg_1Q5103
Universidade Federal de PernambuCO
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Titulo: O JARDIM EA PRAÇA
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Para
João Alexandre Ba ·Ili /d 1 JOSa
ua o Coutinho
':;aldemar Lopes
Zdenlfh Knurún
-~- Brasil
'11 a4o
-r 06
SUMÁRIO
Nota do autor . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1. Abordagem e proposição geral do tema 13
2. Sobre os espaços na história 17
3. Ainda sobre os espaços na história . 21
4. A casa como tema histórico . 27
5. Vida pública e vida privada . 31
6. Dos jardins à ordem pública 35
7. Privatismo e publicismo 47
8. Platão e o intelectual moderno 51
9. Outra vez privatismo e publicismo . 57
10. Algumas digressões históricas 63
11. Outras digressões, com alusão ao direito e ao contra-
.:: tualismo 71
12. Sobre as utopias 83
13. A burguesia, o liberalismo e o problema do equilíbrio ' 89
14. Alusão à experiência brasileira 103
15. O ho.inem: Constantes e dualidades 109
16. Fundo, planta e pedra . 115
NOTA DO AUTOR
No número 11 (janeiro/junho de 1983) da revista Ciência &
'Trópico, da Fundação Joaquim Nabuco, publiquei um breve
artigo contendo reflexões que, devidamente acrescentadas, re-
sultaram em um opúsculo editado em 1986, com o título de O
Jardim e a Praça, por Sérgio Fabris, em Porto Alegre. Posterior-
mente, à base de notas tomadas em ocasiões diferentes, inclusive
por conta de temas e de fontes referentes a outros trabalhos,
repensei e reescrevi inteiramente o texto, ampliando-o bastante,
sobretudo em algumas partes.
Tratando ele um assunto cuja análise em detalhe seria
interminável, o presente livro, que é uma espécie de longa
anotação, se cinge conscientemente a certos tópicos, mais próxi-
mos elo nücleo ele idéias que norteou o esquema inicial. Alguns
amigos viram no texto uma introdução ao urbanismo; outros
uma revisão elos "ismos" contemporâneos. Entretanto o autor o
considera, apesar de seu feitio um tanto assimétrico e aparente-
mente descontínuo, um esboço ele antropologia filosófica. Ou, se
se prefere, de uma teoria não dogmática do homem e da história.
_...
.. 1. ABORDAGEM E PROPOSIÇÃO GERAL DO TEMA
A estrutura de nossa e."Ístência aparece em
um primeira aspecto coma wna snma de cnntm.í-
dos que se entrecruzam, c se umoldum uns ciOS
outros; em um segundo aspecto, aparece como
uma soma de mundos, todos os quais abarcam
o mesmo conteúdo uíla./, mas cada um com sua
forma espedj"ica. Assim a religião, a arte, a
nwral, o conhecimento.
GEOilG SI~I~!EL
Começo aludindo a imagens mais ou menos consagradas. O
jardim se concebe, geralmente, como um trecho de espaço anexo
à casa, quase sempre à frente dela, mas em certos casos - como
nos chamados jardins ele inverno- dentro dela. O jardim é uma
parte do esp aço que circunda a casa (a casa ou outro tipo ele
edificação), uma parte específica pela posição e pelas caracterís-
ticas. A praça é pensada como um espaço amplo, que se abre, na
estrutura interna das cidades, como uma confluência de ruas, ou
de qualquer sorte uma interr upção nos blocos edificados. Um
espaço onde em geral se encontram árvores, bancos, eventual-
mente monumentos, em alguns casos pequenos lagos artificiais.
11 O ,J,IRDIM E A PRAÇA
Tenho de partir dessas alusões, por certo prosaicas edema-
siado genéricas, sem desatender ao fato de que há jardins de
diversos tipos, e praças de diferentes formas, inclusive variáveis
pela origem e pela função. Mas as duas imagens são aqui toma-
das como símbolos (evitarei dizer"meros" símbolos), de modo que
as diferenças dadas nos casos reais não deverão dificultar a
exposição.
De certa forma vale dizer que o jardim é, e ao mesmo tempo
não é, uma parte da casa. Não se inclui no âmbito edificado da
residência, mas integra seu espírito, inclui-se no conjunto (pe-
queno ou grande) que ela domina. O jardim faz parte daquilo que
Gaston Bachelard, naquele livro admirável que é a Poética do
Espaço, chama o "universo da casa", ao qual inclusive atribui
uma ordem própria. Por sua vez a praça integra organicamente
o conjunto formado pela cidade, mas ao mesmo tempo "está" nele
como um espaço - quase uma clareira- surgido pelo distancia-
mento entre determinadas porções construídas. A praça "nega"
a continuidade das edificações, mas ao mesmo tempo ela é, em
certo sentido, a essência da cidade.
Como disse, as alusões iniciais se referem a imagens. Refe-
rem-se a estampas, às quais se prendem tradicionalmente nossa
imaginação e nossas associações de idéias. As artes plásticas e
a literatura se encarregaram, através ele séculos, aliás de milê-
nios, de consolidar as respectivas figuras. A noção de jardim
carrega consigo exemplificações que provêm de alu sões literárias
antiquíssimas, e de citações pictóricas igualmente remotas: ele
é fechado, não muito extenso, arborizado, ocupado com plantas
ornamentais. O jardim é o lugar das flores, e pertence a casas
particulares ou de qualquer maneira a construções específicas:
palácios, hospitais, conventos, universidades. Têm sido excepcio-
nais os casos de jardins públicos, nos quais se podem enquadrar
alguns suntuosos jardins da história antiga, bem como exemplos
modernos como o das Tuilleries. O problema, nestes casos, é em
certa medida uma questão de linguagem. Às vezes chamam-se
ou chamavam-se jardins a certos logradouros públicos, que em
verdade são "parques" ou coisa parecida. Isto aconteceu inclusi-
ve nos séculos XVII e XVIII: Francis Bacon escreveu um .r:nsaio
altamente lírico sobre jardins (Of Gardens), considerando-os
mais acolhedores do que as praças e falando das sebes encurva-
Emcontrap
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ABORDAGEM E PROPOSTÇ;O GER1!L DO TEiH 15
das que devem demarcá-los. No mesmo sentido valeria aludir ao
jardim do Luxemburgo, em Paris, celebrado inclusive em sentido
erótico pelos franceses elo século passado.
Em contrapartida a idéia de praça vai indicar aqui o espaço
público, com específico desligamento em relação à moradia pri-
vada. As praças, nas cidades construídas em todos os quadrantes
c em todos os âmbitos culturais, se ligam a finalidades mais
"genéricas": ligam-se ao espaço comum - no sentido "comunitá-
rio" do termo -, ao âmbito político, à finalidade econômica, à
dimensão religiosa ou militar da vida social. Poderia lembrar as
praças sagr adas dos aztecas ou os terraços votivos dos incas; a
ágora grega, arqui-exemplar, e sua continuação o forum romano
-ambos mistura de mercado e local de encontros, inclusive para
meetings políticos. A óbvia extensão espacial da praça não é
apenas extensão espacial: ela corresponde a um significado so-
cial, correlato do próprio espírito da cidade onde se insere.
Podemos deste modo dizer que a distinção entre as duas
dimensões pode dflr-se no sentido quantitativo e no qualitativo.
Sob ·o primeiro aspecto temos um problema de extensão espacial:
no caso da casa (e do jardim) um espaço menor, com coisas
ajuntadas, âmbito elo viver e sobretudo do viver noturno das
pessoas; no da praça, um espaço maior, que revela a cidade e
tende a confundir-se com ela. Sob o segundo aspecto, ocorre um
problema de caracterização e de conteúdo. E então temos o
espaço privado com um sentido de reduto, portanto algo "irredu-
tivelmente" preso ao existir mais íntimo do ser humano; ou
temos o espaço público como obra do viver social e do estender-se
dns relações que perfazem este viver, e qu e se desdobram em
termos de produção econômica, ordem política, criação cultural.
Este segundo é o espaço mais amplo e mais problemático do
humano, no qual se acha o pensar em geral, com heranças
históricas e "ismos" modernos, um espaço dentro de cujas ocor-
rências se inventaram a geografia e a história.
Aliás Aristóteles, expondo as idéias de Hipódamo de Mileto,
relatara que o famoso arquiteto projetara uma cidade com três
partes distintas: uma sagrada, ligada aos cultos; outra pública,
ligada aos militares; e outra privada, ligada sobretucl0 aos agri-
cultores. Obviamente alguns conteúdos da utopia de Platão
provieram deste esquema, mas isto é outra história.
2. SOBRE OS ESPAÇOS NA HISTÓRIA
Evidente que o tema da contraposição e das relações entre
a vida pública, simbolizada aqui pela praça, e a vida privada,
simbolizada pelo jardim, nos levaria a divagações c derivações as
mais diversas. É um tema fascinante, e um modo de disciplinar a
reflexão sobre ele consistirá em dar-lhe um tratamento histórico.
Ele é necessariamente histórico. Seria inclusive válido, sem em-
bargo de parecer uma idéia "fácil", tentar entender a história como
história dos espaços, história das relações entre culturas e espaços,
c do modo como os homens vêm utilizando o espaço.
Poderia inclusive mencionar alguns estudos que abordam o
assunto. Entre eles o de Paul Claval, relativamente recente,
Espaço e Poder1
, no qual se colocam alguns temas centrais,
inclusive o das conexões entre o poder e a administração dos
espaços, mas sem situar devidamente- a nosso ver, ao menos-
certas questões prévias, dentre as quais o próprio fato da distin-
ção vital entre os planos em que se "desdobra" o espaço social.
Ou ainda o livro muito importante de Jürgen Habcrmas sobre o
chamado "espaço público"2, um pesado e complexo ensaio de
1. E spaço e Pocl.er, lrad. W. Dulr~, l1io de Janeiro, Zahar, 1!)70.
2. Strukl.urwnndcl der Offcnt.lichkcil, lrad. francesa L'l!:.~pnce public- Archéologie rlR.lapublicité
18 O J ARDIM E A PRAÇA
análise das relações entre a esfera pública c as características
da sociedade moderna.
Parece desde logo evidente que o "organizar-se", desde as
primeiras experiências grupais do ser humano, foi sempre, em
parte ao menos, um problema de distinguir lugares, valorizando
uns e abandonando ou evitando outros, e de construir espaços,
demarcando porções do território e amontoando pedras com fim
simbólico ou utilitário. Os horizontes sempre foram espaços, os
céus também, e o próximo se insere em algum ponto do espaço.
Amor e ódio se situam como formas de estar diante do próximo,
e as armas sempre se classificaram conforme seu alcance em
termos de espaço. Os laços de pArentesco, tão caros a certos
antropólogos como estruturas reveladoras, se compreendem
como linhas que interligam pessoas e grupos, aproximando/afas-
tando, como que em termos de espaço.
Demarcar.o tempo e demarcar o espaço foram certamente
necessidades primordiais para todos os grupos humanos desde
os inícios. O tempo teve (como ainda tem) ele ser tomado como
um outro espaço, e de ser assim cortado em pedaços: até certo
ponto serviram para isso as repetitividades fornecidas pela prÓ·
pria natureza, nas estações do ano e em outros tipos de ciclos
biológicos. Os maias, em uma imagem bastante curiosa, imagi·
naram a figura mítica dos "carregadores" do tempo, incumbidos
de levá-lo e transportá-lo em seu interminável percurso.
Deste modo espaço e tempo, considerados na crítica kantia·
na da razão como categorias a priori do entendimento, funciona-
ram desde as primeiras sociedades como pontos de referência do
viver concreto. Ou, por outra, como dimensões objetivas do mun-
do circundante e também ela existimcia social. Dimensões no
sentido de planos, onde se intercalam níveis, o que significa a
possibilidade do desdobramento e das hierarquias. O espaço e o
tempo foram ocupados, desde os começos, com interdições e
obrigações, com o fazer e o não fazer, dias fastos e dias nefastos
entre os romanos, interdições e tabus entre diversos povos. O
convívio social, unitário e genérico sob certo prisma, sob outro se
apresenta diferenciado, recortado por dentro pelas diferenças de
ocupação, pelas castas ou pelas classes, por concentrações demo-
conw re dimension conslilutiuede la sociélé bow gcoise- Paris, Payol, 1D78.
morfológicas, po!'
lembrar a distinç.ã
variações do "tiptJ
Incsn1o pelas estr"
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- :oando pedras com fim
SODRE OS ESPAÇOS Ni EIISTÓ/1/i 19
morfológicas, por estruturas e relações específicas. Compete
lembrar a distinção famosa, devida a Toennies, entre as comu·
nidades, com relações sociais diretas e espontâneas, e associe·
daeles, com relações complexas e indiretas. Lembrar também que ···-;
todo o século XIX se ocupou um pouco com estes temas: o elas
varinções do "tipo social", criadas pela divisão do trabalho (ou
mesmo pelas estradas no entender de Demoulins), o da estrati-
ficação, o dos padrões c formas da vida religiosa, bem como da
econômica, da jurídica, ela familiar.
Ao falar em planos da vida e do "espaço social", vale anotar
que esta última expressão não vai empregada, aqui, na acepção
que foi tematizada por uma certa sociologia, respeitável mas
demasiado fisicalisla, durante determinada época. Aqui tenta-
mos empregar umn configuração mais existencial e mais ligada
aos dados histórico-culturais.
E ao aludir aos planos do viver, também indicamos com isto
uma alternativa elementar, aquela que se dá entre o viver
"geral", isto é o viver de todos (ou com todos, na medida em que
t::~l in1Rgem pode caracterizar-se), e o viver consigo mesmo: o
viver pessoal, que é o privado e que consiste no plano da convi-
vência mais íntima, mais direta, correlata do existir individual.
Neste plano se situa a posição da família, apesar de uma ce:~a
ambigüidnde do fenômeno. Refiro-me ao fato de que a fam1ha
sempre se entendeu como concentração do existir privado, dire·
tamente ligado aos afetos mais pessoais e aos componentes
domésticos (de domus, casa); e de que entretanto as constelações
familiares parecem ter gerado em certos povos as comunidades
maiores, passando-se do clã ao Estado ou das fratrias à polis. O
tema nos levaria a mencionar o dilema de Platão ao pretender
para o homem público a ausência da família, fonte de egoísmos;
mas também a lembrar que hoje alguns juristas acham que o
"direito de família" não é bem uma parte do direito privado,
ficando em un1a região entre este e o público, ou antes- segun do
há quem pense - demonstrando a inoperância desta clássica
divisão das partes elo Direito. Ou ao menos sua crise.
Ao fAlar na "vida com a família" será interessante pisar um
pouco no terreno da crise do conceito de família, atingida pelo
lado privado e pelo lado público de sua estrutura; alcançada na
parte em que se ligava às tradições religiosas pelo processo
20 OJARVIM EA PRAÇA
histórico chamado de dessacralização da cultura. A crise da
família tem tido o que ver com uma série de coisas, que correm
por conta do racionalismo e das modernizações; com coisas posi-
tivas c coisas questionáveis. Com a queda do princípio "virgin-
dade" c com a imagem monolítica e "indissolúvel" do casamento,
mas também com a diluição das estabilidades que davam ao
existirprivado uma demarcação e uma dignidade muito valiosas.
As liberações e o relalivismo, peças importantes na experiência
histórica do homem moderno, têm tido como preço a perda dos
pontos de referência que balisavam a vida privada, em si m esma
e em suas conexões com a dimensão püblica, desde séculos, senão
milênios. Digo que também nessas conexões, porquanto as dilu-
ições, a que me refiro e que fragmentam a ordem tradicionr-tl, têm
o que ver com a reformulação das relações genéricas entre a
dimensão pública e o plano privado do viver. E ao mencionar as
coisas que se perdem, ao mencionar a ordem familiar que se
desmonta, faço alusão ao gradativo desaparecimento da casa
(voltarei ao assunto mais adiante): a "casa de moradia" e o
modelo tradicional de família não poderiam sobreviver um sem
o outro.
Quero dtar aqui, ele passagem, um texto altamente suges-
tivo c inqui0tante de Leszek Kolakowski, que se refere à impla-
cável dest:.:·uição, nas décadas mais recentes, das formas
tradicionais do viver. Destruição que inclui o fim do "espaço
humano", envolvendo o apagamento das noções ele casa de famí-
lia e ela própria origem natal, bem como a antiga c fundamental
noção de infância3
•
3. "'A ildcia Tnalcallçávcl", e111 1ncontroslnlcmaciorwis da UnB, Tirnsilin, 1080.
3. AL
organ1zaçoes ;;n.:-
culturas "cláss!~ ~
série de temas u=
torno de dados~.:.
plo a dualidade ~ê
langes em sua~
religião, com se...s
dário; a famHia ·
fogo sagrado s.:,~:::
lo, contradição _
família (e não era
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possuímos da-~
sentido geral de
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~ações; com coisas posi-
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- ·-::solúvel" do casamento,
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_ _!.:a, desde séculos, senão
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~ a crdem tradicional, têm
ões genéricas entre a
casa de moradia" c o
·am sobreviver um sem
, recentes, das formas
mdui o fim do "espaço
- "noções de casa de famí-
a antiga e fundamental
- l:'z:D, BrJ.Silia, J!JSO.
3. AINDA SOBRE OS ESPAÇOS NA HISTÓRIA
Aludimos acima ao desdobramento desses dois planos, dir--
sc-ia dois momentos, do viver (o público e o privado) dentro das
organizações grupais mais recuadas. Agora nos referiremos às
culturas "clássicas", especialmente à greco-romana. Há uma
série de temas um tanto conjecturais a considerar, inclusive em
torno de dados já registrados pelos estudos históricos: por exem-
plo a dualidade de cultos, que ocorreu tanto na Grécia quanto na
Roma antigas, o culto público e o culto privado. O tema foi, desde
1867, tratado com erudição e persuasividade por Fustel de Cou-
langes em sua sempre notável CitéAntique. A cidade tinha a sua
religião, com seus ritos e seus símbolos, suas festas, seu calen-
dário; a família tinha seu culto, com sua alusão aos mortos, seu
fogo sagrado, seus altares. Não havia, e é interessante assinalá-
lo, contradição entre os dois planos: o indivíduo integrava a
família (e não era imaginável sem isso), e ao mesmo tempo fazia
parte da cidade, cuja razão de ser eram os cidadãos . Esta com-
plementaridade, característica dos próprios conceitos então vi-
gentes, ficou como elemento essencial dentro da imagem que
possuímos da "antigüidade", constituindo um elos traços daquele
sentido geral de equilíbrio que atribuímos ao mundo clássico.
"!..:
22 O JARDIM E A PRAÇA
Há algumas questões que parecem permanentes, e que
ressurgem quando nos debruçamos sobre o panorama das cultu-
ras ditas antigas, em sua respectiva fase "antiga", isto é, em seu
período de formação, no qual se estruturam formas sociais,
formas lingüísticas, valores e imagens fundantes. Caberia por
exemplo pensar na relação entre a dualidade jardim praça e as
formas de estratificação social. Evidentemente a vivência das
praças por parte das classes altas terá sido sempre diversa da
vivência por parte das classes baixas: a construção mesma dos
"logradouros" foi sempre obra da classe dominante. Só que em
alguns contextos, determinadas praças serviram às aristocra-
cias como local de presença festiva ou cerimonial, e em outros
elas foram como que evitadas pela aristocracia e deixadas à plebe
para fesLas ou para a simples ocupação cotidiana.
Por outro lado seria o jardim, ao menos em sua expressão
mais requintada, uma criação elas classes altas ("classes" no
sentido mais amplo e flexível do termo); um prolongamento elas
intenções espaciais contidas na casa, algo como um lugar espe-
cífico de "meditação" ou de refúgio pessoal. A criação de jardins,
espaços privados, deve ter sido mais um símbolo das diferenças
sociais, e por outro lado mais um elemento de distinção entre
área pública e área privada: grades e muros, a circundarem o
jardim e simultaneamente a prendê-lo à casa, terão sido bastan-
te distintos da abertura das praças, lugares "de fora" (fora das
casas, como o explícito forum latino), e terão delineado com
nitidez as reservas de privacidade instaladas para si pelos pa-
triciaclos.
Com a referência a estes problemas, entretanto, vale inter-
calar aqui uma alusão a um fato de caráter muito genérico, um
desses acontecimentos centrais cujos contornos são certamente
conjecturais, mas cujo significado para a evolução histórica é
básico. Trata-se do advento da vida urbana, profunda alteração
ocorrida em momentos distintos dentro daquela evolução - a
variar conforme os contextos -, a partir da prévia transição do
nomadismo para a "revolução agrícola", e em correlação com o
surgimento elas primeiras instalações fortificadas. Em correla-
ção portanto com a fixação da divisão das ocupações, com a
formação das línguas, com dezenas de definições iniciais, rela-
cionadas inclusi.;·e
costume ele se da.~
espécie de crise, ou
vida, assim tambéz.
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série de crises, deE
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é:e definições iniciais, rela-
IITNDA SOBRE OS ESPAÇOS Ni IITST6RJi 23
cionadas inclusive com os começos do intrigante e fascinante
costume de se darem nomes aos lugares e às coisas.
E da mesma forma que tudo isso deve ter constituindo uma
espécie de crise, ou de ruptura, em face dos modos anteriores de
vida, assim também veio a ser o ponto-início de um largo proces-
so que modernamente veio desaguar em outra crise, ou em uma
série de crises, desatadas dentro do mundo dito ocidental (dele
sobretudo) como uma constante e como um referencial para
interrogações novas.
O que se tem hoje como crise é de certo modo a saturação
das estruturas e dos resultados da própria vida urbana, após (e
através de) longos e complicados percursos. Se por um lado foi o
predomínio da dimensão urbana que ensejou por parte de muitos
a compreensão da própria história como história da liberdade, a
partir do paralelismo entre vida urbana e vida livre (Stadtluft
macht frei, dizia-se na Idade Média), foi por outro lado verdade
que, com a dinâmica das alterações históricas, centradas nas
cidades, desencadearam-se as dificuldades e os dilemas da con-
vivência, os conflitos maiores, inclusive- acentue-se-no tocante
às relações entre vida pública e vida privada.
No ocidente intitulado moderno, que se m1c1ou com um
conjunto de r evoluções culturais e sociais (que em geral se
denomina por conta de uma delas, o "Renascimento"), veio a
consolidar-se, dentro do acervo de imagens que chegaria até
nosso século, a figura elas grandes casas senhoriais. O modelo,
em si, seria oriundo da Idade Média: tais casas sempre foram
uma espécie de miniaturas de castelos. Havia nelas, entretanto,
sobretudo a partir do Barroco, uma pretensão de imitar palácios,
com espaços para quadros e vitrais, escadarias ornamentais e
coisas deste tipo. As grandes casas, de cujo modelo alguma coisa
foi transportada para as residências rurais das Américas duran-
te a colonização, foram de algum modo também continuadoras
das sólidas abadias e dos "fortes" feudais. Foram por sua vez
substituídas pelos chalés oitocentistas, e depois, em nosso sécu-
lo, pelos ambíguos "palacetes" e pelos duvidosos "bangalôs".
A grande casa, proveniente do absolutismo e depois corres-
pondente à perduração da nobreza, revela o inegável sentido de
espaço e de projeção espacial, peculiar ao ancien régime. Casas
l
""...
24 O JARDIM E i PRJÇi
com terraços e páLios, porões, desvãos, andares superiores, pin-
turas n as paredes, colunatas e cavalariças (o pátio, la cour, afim
ao dos conventos, fazendo pendant com o jardim). Trata-se da
casa cuja figura, por vezes pouco definida e também pouco
esbelta, mas expressiva, aparece caracteristicamente na pintura
dos séculos XVII a XIX, tanto nos ambientes rurais - aquele
ambiente inconfundível dos desenhos franceses, bem como do
Moulin de Pontoise de Corot - quanto nos urbanos. No ambiente
urbRno há variáveis que vão das empertigadas fachadas de
Canaletto às casas ditas normandas. De qualquer m aneira a
presença dessas casas nos perímetros urbanos denota, durante
ccrLa fase sobretudo, a residência de senhores de terra que
possuem propriedades no campo mas mantêm um imóvel à sua
disposição na cidade.
Este tipo de edificação se acha magnificamente descrito no
Gattopardo de G. Tomasi di Lampedusa, justamente o palácio
da família Salina em Donnafugata, que possuía "sete janelas
sobre a praça" e que por dentro apresentava uma enormida de ele
quarlos, escadarias, salões e tudo o mais. Aliás o livro começa
com a descrição ele um jardim muito característico, e por sua vez
a praça de Donnafugata, mencionada no capítulo li ("vasta,
sombreada por plátanos poeirentos"), aparece como algo melan-
colicamente provinciano, algo ancorado no tempo como um espa-
ço romanesco perdido sem remissão.
Ainda a propósito das grandes residências das famílias da
nobreza, seria interessante observar que o absolutismo europeu
condicionou um emprego correlato do termo casa, na acepção de
dinastia (casa elos Áustria, casa de York, casa dos Bourbon), uma
acepção evidentemente muito antiga, herdeira de todas as lin-
guagens palacianas da história. O termo foi u sado também para
aludir às Casas do Parlamento inglês, a dos Comuns e a dos
Lordes. E com isso se teve um curioso entrelaçamento da dimen-
são pública (política) com o plano privado: o reinado de tal ou
qual casa, na pessoa de tal ou qual governante, era um dado
institucional e entretanto consagrava a eficiência do matrimônio
monárquico.
Por outro lado, àquele tipo de casa (correspondente às
m ansões da nobreza urbanizada), a ela e ao seu jardim se
contrapôs, no mundo barroco, a praça principal das cidades
(inclusive a plaza .,...
Latina), entendida
Quanto aos :a::
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AIND, SOBRE OS ESPAÇOS NA H!S1'6RIA 25
(inclusive aplaza mayor trazida pelos espanhóis para a América
Latina), entendida como centro do recinto urbano.
Quanto aos jardins dessas vastas casas, eles chegam- com
elas - ao século XX, copiados ou conservados. E em certos filmes
europeus (refiro-me inclusive ao Jardim dos Finzi Contini e à
Comilança), certos ângulos de velhos jardins de casas do fim do
século passado, ou do começo do nosso, sublinham as nostalgias
c as ironias dos diretores.
Vai aqui outra anotação. A importância de uma "vivência
ele jardim" foi sublinhada por Carl Schorske em seu belo livro
Viena Fin-de-Siecle1
, no capítulo "A Tansformação do Jardim".
Ao mencionar o romance Der Nachsommer, de Adalbert Stifter,
o historiador se detém sobre alguns elementos ela narrativa,
destacando o confronto entre a educação burguesa, ali retratada,
e a que se apresenta em Flaubert. Alude então ao encontro do
personagem principal com a herdade chamada Rosenhaus, onde
havia um jardim bastante significativo, oferecendo a impressão
ele tranqüilo domínio da natureza, ordenada segundo um plano
estético racional e pedagógico.
1. Trnd. Denise l.luLLmunn, Campinas, Siio Paulo, ~d. Unicrunp - Compnnhia das Lclrus,1988.
4. ACASA COMO TEMA HISTÓRICO
O tema da casa, ligado óbvia e indissoluvelmente à proble-
mática da privacidade e da "intimidade", demandaria por certo
uma série de digressões. Não seria desperdício verbal aventar a
idéia de uma evolução da casa como testemunho (ou correlato)
ela evolução das formas sociais e também das formas da autoi-
magem do homem: tanto se tomarmos globalmente as diferenças
sociais, incluindo nelas a divisão de posições e funções, quanto
se levarmos em conta os estágios da experiência religiosa e da
própria "arte", com seus padrões e seus estilos. O que se edificl'l
para a privacidade é evidentemente uma parte muito especial
da instalação do ser humano no mundo, uma parte que exprime
em termos concretos e particulares (contraprova do abstrato e
do genérico) o próprio ser do homem, com suas fraquezas e seus
prolongamentos. O viver social consiste e subsiste em várias
dimensões, e uma delas ocorre nas casas: as sociedades ao
emergir para certo nível histórico são cidades, e as cidades
constam de casas, colocadas em ruas. E como as ruas - como as
praças- são já outra dimensão, ::t pública, eis que o plano público
e o privado se tocam, se completam, se complementam. Aliás o
caráter de determinados atos nem sempre se prende ao fato de
o agente se encontrar em sua casa ou em logradouro público.
-·#'
28 OJIIJWJM E A PRAÇ:A
Pode-se, estando em casa, desempenhar uma tarefa com sentido
público, como se pode defender interesses privados atuando em
recinto público.
Deixamos de lado o problema grave e nebuloso de saber se
a vida pública surgiu "depois" da vida privada, ou se ambas
resultam de um desdobrar-se de formas; se primeiro foi o todo,
o conjunto, e depois o espaço pessoal.
Sobre a temática da casa anotou Gastou Bachelard, em seu
livro J1 Poética do Espaço!, a analogia entre a casa e o cosmos,
não apenas quanto à estrutura, portanto ao aspecto espacial,
mas também quanto ao problema temporal: inclusive porque a
carga de tempo que passa por uma casa se integra na própria
imagem que dela possuem seus habitantes.
Este é de fato um tema rico de sugestões. Os arquétipos e
as exemplaridades legados pelas diversas civilizações, sobretudo
pelas épocas aristocráticas cle cada uma delas (admitindo que
em cada grande ciclo cultural tenha havido uma época, geral-
mente inicial, dominada pela nobreza), ficaram como marcas por
assim dizer definitivas. Sabe-se que Édipo foi castigado inclusive
por haver violado a ordem das coisas, o equilíbrio elo mundo, e o
que certos autores enxergam no conflito entre Creonte e Antígo-
na é que a legislação daquele desrespeitava a "natural" correla-
ção entre as leis do cosmos e as normas ela coneluda humana.
Entretanto, a idéia de casa não configura apenas o lugar físico
do morar, idéia fixada a parLir da morada das grandes famílias
iniciais, mas também os conceitos específicos de "berço" e de
"teto". São conceitos vinculados aos valores feudais, ou seja,
vinculados à imagem do sangue e também à noção de "origem":
ter teto e berço, ou por outra ter eira e ter beira, foram sempre
marcas de nobreza dentro dos contextos feudais ou para-feudais.
Marcas qualificadoras, fora das quais, como algo excluído, fica-
vam os plebeus, os não-patrícios. Observemos outra coisa: como
a casa é o pouso, e ter casa sempre significou possuir um espaço
definido, as épocas aristocráticas sempre desconfiam do homem
errante. Ele é um marginal, a não ser que seja um santo.
Compreende-se então que a "burguesia", que em seus inícios
revelava certas forn1as erradias de viver, ou ao menos de vender
I. 'I'rud. brus., llio de Jnnciro, Livrariu Eldorado 'l'ijuca, s.d.
(um tanto em contlõ
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ser que seja um santo.
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... er, ou ao menos de vender
il CIISJ COMO TEMA JIJSTÓRJCO 29
(um tanto em contradição com o fundamental sentido de demar-
cação espacial ou "urbana" que lhe correspondia), fosse mal vista
pela nobreza dominante.
Sobre o problema das "primeiras formas urbanas", qu e
necessariamente acode quando se coloca o tema das origens das
instituições, nas primeiras culturas, vale registrar aqui dois
livros de orientação distinta mas ambos interessantíssimos: o de
Regis Debray, O Escriba - Gênese do Político, e o de Edgard
Morin, O Paradigma Perdido2
• O primeiro, baseado sobre certas
influências marxistas, coloca questões muito provocativas, alu-
dindo inclusive à possível disposição espacial das estruturas
iniciais, onde provavelmente o senhor habitava o Centro, com
sua grande casa, em redor da qual se achavam, como em círculos
crescentemente alargados, as famílias nobres, os homens livres,
os escravos. No segundo temos a antropologia (física e cultural)
a serviço da indagação sobre origens: para Morin diversos tipos
ele sociedades se sucederam como camadas formativas desde os
começos, mas a história propriamente dita surgiu com os Esta-
dos, que eram. organizações específicas.
Certo que não é fácil, em termos antropológicos ou arqueo-
lógicos, fundamentar ele modo positivo estas alusões; mas elas
se encaixam, com sentido bastante inteligível, em uma série de
t estemunh.os. Deve ter havido, com efeito, a presença ela casa no
m eio elas formas iniciais: a casa maior c as casas menores. E eleve
ter havido, nas monarquias primordiais, que se prolongaram nas
grandes realezas posteriores, um conteúdo de significações que
fundou muitas coisas, desde então permanentes. O que equivale
ao seguinte: temos ele reconhecer que a m aioria elas categorias
clássicas elo pensamento c da organização provém do t empo em
que os grupos humanos possuíam reis c rainhas.
2. () I~Rcriba- Gênesedo l'olitico. Tn"l. M. de Cnslro, n io dc:.Jandro, T!ctour, 1983. LcParadigme
perdu, lutwlure Jw maine, SeuiI, Paris, 1973.
5. VIDA PúBLICA EVIDA PRIVADA
As coisas que simbolizam o lado público e o lado privado da
vida podem ser arroladas segundo critérios bastante diversos.
Entretanto, sempre se pode situar o encaixe existencial de certos
objetos, conforme a correlação com aqueles lados. Deste modo
teremos em um sentido a cama e a mesa, a poesia lírica, o direito
privado, a psicologia, o médico de família, o jogo de cartas. Em
outro o comércio, a forca, a saúde pública, a burocracia, os
bancos, o direito público, o circo, a poesia épica. Ou ainda,
refazendo a estampa, a sala, o leito de morte, o banho, o punhal,
os tapetes, os cosméticos; ou então o mercado, a espada, as
estradas, os templos, a política. Poderíamos pensar na evolução,
uma possível e conjecturai evolução dos âmbitos privados ao
espaço público; e aí o trânsito elo dinheiro privado aos dinheiros
públicos (embora seja válido pensar num trajeto oposto), bem
como a evolução dos cemitérios privados aos cemitérios públicos.
E aqui teríamos o jardim como correlato do foyer, ou ela "lareira";
depois, a evolução do culto doméstico ao culto público.
Também a dimensão sexual da vida, no sentido mais amplo
do termo "sexual", se acha relacionada ao dualismo público-pri-
vado. O jardim., inclusive como boosco deleitoso (e/ou reminiscên-
cia do paraíso), sempre serviu ele cenário acolhedor e conivente.
32 O JARDIM F: i PRAÇA
Podem-se recordar os casais famosos da literatura e da arte, com
seus momentos no jardim: Romeu e Julieta, Fausto c Margarida,
.1!fário e Tosca. Talvez coubesse aventar que no jardim se ence-
nam os amores não "publicáveis", não (ainda não) passáveis à
praça. Seria o caso ele distinguir entre suicídios no jardim, mais
recolhidos, mais discretos, elos suicídios na praça, mais dramá-
ticos. Em Proust, em certa passagem do Caminho de Swann, há
uma referência ao caráter "mitológico" do Bois ele Boulogne.
Encontramos n o livro ele Paul Veyne, A Elegia Erótica
Roma.na1
, o problema elas relações entre a publicidade, represen-
tada pela literatura, que revela e divulga situações pessoais (a
poesia lírica por exemplo), e a viela privada. Para Veyne, os
autores antigos não se expunham, não revelavam facilmente sua
verdade pessoal, mesmo nos textos literários escritos na primei-
ra pessoa; na literatura moderna é que a "sinceridade" sentimen-
tal se teria tornado mais corrente e mais perceptível.
Caberia questionar, passando a um assunto afim, sobre até
que ponto o que se chama "vida sexual" constitui realmente ou
totalmente uma coisa privada.. Evidentemente a idéia provém
do caráter íntimo das atividades sexuais específicas, que sempre
se consideraram próprias para ocorrer "entre quatro paredes".
Contudo a família e os vínculos biológicos são em todas as
civilizações algo ostensivo, c mesmo os "caracteres" sexuais
externos se confirmam em todos os povos através do traje e ele
outros símbolos. O problema corresponde certamente a uma
variável histórico-cultural, havendo, é claro, ponlos extremos e
graus intermediários. Um extremo, o puritanismo vitoriano,
engendrador de hipocrisias e repressões, com as pessoas cober-
tas de pano dos pés à cabeça e com mil eufemismos na linguagem;
outro, o uso de formas obscenas na antiga cloçaria de certas
regiões européias, ou ent ão os atuais espetáculos de "sexo explí-
cito", senão mesmo o nudismo, inclusive o das praias de hoje.
Lembro-me do ensaio de Aldous Huxley "Modas em Matéria
de Amor", inserido em seu livro Do What You Wilf2, onde alguns
problemas correlat os se acham colocados.
I. A ~ll!gia E rólim Uomana. O Amor. a l'oesia. e o Ocid.enle, Siio Paulo, Brasiliense, 1085, p. 252
c ss.
2. Trad. Lnts. Salânicos e Visionários, Rio de J aneiro, Americana , 1075.
O problema a.
n1.o", termo que se-
demais ora eufe ~
inclusive com o :.:, -
Rougemont sobre -
da história elos ,....
"personalidade'". -
volução Francesa.
menos roupas, d -
que iriam oscilar a·
De fato o P-
participa da área;.....
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lar. A tradição CO-
e traje ele r ua,
me" de certos re~
repente que aque e
sentido de tudo ~-­
gcm, que é projeç.ã
a fixar n a climen.sã
3. 'l'rad. T•. W•tlnnabe. S.:..-
ti:eratura e da arte, com
&a Fausto e Margarida,
que no jardim se ence-
(ainda não) passáveis à
~icídios no jardim, mais
.:::na praça, mais dramá-
_.: Caminho de Swann, há
do Bois de Boulogne.
·eyne, A Elegia Erótica
a publicidade, represen-
__ga situações pessoais (a
~.-:ivada. Para Veyne, os
re:r-elaYam facilmente sua
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a · s:nceridade" sentimen-
" perceptível.
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.:-.onstitui realmente ou
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- "caracte1·es" sexuais
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claro, pontos extremos e
puritanismo vitoriano,
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-:;femismos na linguagem;
...:!t::ga doçaria de certas
_ L:áculos ele "sexo explí-
.e o das praias de hoje.
::xley ·')..Iodas em Matéria
t You WilF, onde alguns
Paulo, Brnsilicnsc, 198fi, p. 252
IF=~ma. !915.
VlD11PÚBLTC11 E VIDA PRIVADA 33
O problema do sexo se desdobraria aqui no tema do "erotis-
n1o", termo que sempre me pareceu um tanto ambíguo, ora amplo
demais ora eufemístico. Sobre o erotismo muito se tem escrito,
inclusive com o livro ele Georges Bataille, e com o de Denis ele
Rougemont sobre a "história do amor no Ocidente". Ou se trata
da história dos modos de amar no sentido psicológico, ou o
assunto são formas ele "expressar" o amor, inclusive em suas
projeções estéticas; e por aí deslizam as ambigüidades.
Recentemente Richard Sennett, em seu livro O Declínio do
Homem Público3
, colocando o problema da exibição pública da
"personalidade", tratou da evolução elas roupas a partir daRe-
volução Francesa: com o Termidor, as mulheres resolveram usar
menos roupas, desnudando-se mais e iniciando ciclos de moda
que iriam oscilar até nosso século.
De fato o problema das vestes, como o da vida sexual,
participa da área privada e da pública: projeta-se daquela sobre
esta e reflui desta para aquela, como em um movimento penclu-
lar. A tradição c01·rcsponde a uma distinção entre traje de casa
c traje de rua, distinção que se acentua nos contextos mais
formais, e que o professado "informalismo" de nossos dias ainda
não conseguiu extinguir de todo. Um pedaço de pano pode alterar
o "efeito" da figura humana, e nas civilizações mais conhecidas
a dignidade social sempre corrcsponde a um tanto mais ele tecido
ou de adornos sobre o personagem. Recordo uma passagem de
Anatole France em que alguém, olhando com enlevo o ar "subli-
me" de certos retratos ele intelectuais românticos, observa ele
repente que aquele ar dependia de uma escova de cabelos. O
senLiclo de tudo isso é o seguinte: somos socialmente uma ima-
gem, que é projeção do ser real através de expletivos destinados
a fixar n a dimensão pública os caracteres da individualidade.
3. 'l'rnd. L. W"t.11nnbc, São Pnnlo, Companhia das Letras, 1988, cap. 8.
..,.
"'
6. DOS JARDINS ÀORDEM PúBLICA
No meio da profusão de imagens com que representamos a
"história antiga", em especial sua parte que se entende com o
rótulo de "mundo clássico", encontra-se com certa constância a
figura dos jardins. Jardins orientais, registrados na pintura e na
literatura, quase confundindo-se com oásis e com o vago mistério
dos muros árabes. Os jardins da Pérsia; os do Egito, que Pierre
Grimal, no pequeno livro L'Art des jardins, afirma terem sido
verdadeiros asilos da vida privada. Os famosos jardins da Babi-
lônia, incluindo os da princesa Semiramis, os quais impressio-
naram aos gregos mais pelo arrojo do que pela beleza
propriamente. Sempre o espaço privilegiado, e sempre que pos·
sível fechado: o cintamento, a vedação, o acesso através de
escadarias ou passagens especiais. E sempre o sentido de con-
forto e repouso, como em um paraíso (o termo vem do persa, de
um vocábulo que designava "jardim"); o oposto do calor do deser·
to, da vastidão das areias, do "descampado".
Certos povos antigos consideraram alguns ele seus jardins
recintos sagrados. Tratava-se justamente, conforme observou
Mircea Eliade, ele jardins onde se reproduzia em miniatura a
ordem elo mundo, com suas partes e as respectivns funções.
....,.
~~ - --~~-- ------
J6 O ,JJIIIDJM E 11 l'Ri1Çt1
De qualquer sorte, ficou desses arquétipos, isto é, com eles,
a idéia de que o jardim coloca ou recoloca o homem dentro do
plano "natureza". Sempre vale mencionar o belíssimo afresco,
que decorava uma sal::~ da Casa de Lívia em Prima Porta, perto
de Roma (e que hoje se conserva no Museu Nacional das Termas),
representando um jardim cheio de pássaros, com flores e romãs.
Do mesmo modo ficou a noção de "cultivar (cada qual) o seu
jardim", noção com certo sentido intimista e talvez biográfico. O
cultivo do jardim, como atividade privada, é algo contíguo à mesa
e aos implementas pessoais, diferentemente elos cultivos agríco-
las, que são externos. O verbo coZere, de onde viria o vocábulo
cultura, é sempre evocado nas etimologias em sua acepção agrí-
cola, mas parece que a acepção privada do "cultivo" não pode
estar fora ela idéia.
Richarel Sennett, no livro O Declínio do Homem Público
(mencionado mais acima), coloca um problema interessante ao
referir a idéia, própria segundo ele dos homens elo século XVIII,
de que a "natureza" e a "cultura" corresponcleriam respectiva-
mente ao privado e ao público. O esquema é sugestivo e chega
perto da verdade, salvo o fato de que o binômio natureza-cultura
só adquiriu vigência depois elo neo-kantismo, e seria impossível
encontrar esta idéia no século XVIII. Mas de fato a "viela privada"
sempre foi vista e sentida como um refúgio, um retorno ao
orgânico, e neste sentido a família sempre foi entendida como
fenômeno natural: não só pela dimensão biológica, mas pela
significação essencialmente privada.
Jardins: a imagem clássica, empregando aqui o termo em
conexão com o mundo greco-romano, inclui vez por outra uma
alusão ilustre, que se prende ao nome de Epicuro. O epicurismo,
por sinal uma filosofia que historicamente teve menos fortuna
do que merecia (e que merece ser repensada hoje), tem entre
outros aspectos o sentido de cultivo da vida privada, com seus
prazeres mas também com a consciência dos limites deles. E o
jardim aparece aí como asilo do pensar, não só em face ela
agitação e das vanidades da vida pública mas diante das adver-
sidades políticas (todos sabem que a doutrina do Epicuro, neste
ponto, refletiu o apagamento do poder grego e da política grega):
diante do ---,.----.
polis.
paternal-fiGa:
parecia des··a..
geral.
Evider.-L.EI::"E~
zaçào como a
relações encre -
cionais, e ond~
-?tf..létipos, isto é, com eles,
loca o homem dentro elo
-~~ o belíssimo afresco,
~..a em Prima Porta, perto
~...:Xacional das Termas),
c::5a...Y"Os, com flores e romãs.
cm:h·ar (cada qual) o seu
--.i~...a e talvez biográfico. O
ada é algo contíguo à mesa
~ente dos cultivos agríco-
.:e onde viria o vocábulo
;:as em sua acepção agrí-
::::::a do "cultivo" não pode
"in:o do Homem, Público
problema interessante ao
::. i:omens elo século XVIII,
- -sponderiam respectiva-
~ema é sugestivo e chega
- ·.,...õmio natureza-cultura
-::::.smo, e seria impossível
- !......:;~e fato a "viela privada"
refúgio, um retorno ao
""""pre foi entendida como
-.::ão biológica, mas pela
~s-ando aqui o termo em
mdui vez por outra uma
de Epicuro. O epicurismo,
-~:e teve menos fortuna
_.:c-!l.Sada hoje), tem entre
-ida privada, com seus
- dos limites deles. E o
. não só em face da
mas diante das aclver-
..l::!""Ína do Epicuro, neste
~go e da política grega):
DOS JARDINS A ORDEM PÚDLTCA 37
diante elo aniquilamento dos ideais públicos, os da ágora e ela
polis.
No testamento ele Epicuro figurou com especial destaque a
doação, a Remarco, de seu jardim (e da escola que nele existia).
O jardim configurou a convivência filosófica, e nisso o epicurismo
foi herdeiro do platonismo e elo aristotelismo, mas só nisso e no
sentido pedagógico daquela convivência. De certo modo a doutri-
na de Epicuro expressou também a valorização da amizade, tema
que seria retomado por Cícero e outros pensadores elo mundo
clássico. A amizade tem sido realmente uma variável histórica,
e cabe aqui aludir a isto: ela se delineia sempre como um
componente da vida privada. É como se na vida pública as
alianças e coligações fossem tão somente articulações eventuais
ou estratégias objetivas, não penetrando no ser pessoal de cada
qual: recorde-se que Carl Schmitt, ao considerar que o elemento
definidor da política se acha na distinção entre amigo e inimigo,
prendeu o termo inimigo ao latim hostis, não a inimicus, acluzin-
do que se referia ao inimigo público n ão ao privado.
E mais, quando Platão, que condenava o tipo ele amor que
os modernos chamariam romântico, preten dia que os guardiães
de sua cidade tivessem filhos em comum, para que o vínculo
paternal-filial não estorvasse a clara visão dos filósofos, ele
parecia desvalorizar também a própria "amizade" em sentido
geral.
Evidentemente a tematização destas coisas em uma civili-
zação como a grega (e romana), onde o lado personalíssimo elas
relações entre os sexos pesava menos elo que as normas institu-
cionais, e onde o intercurso homossexual era mais ou menos
corrente, tinha de ser diversa daquela que é possível fazer hoje.
Retorno ao problema do jardim. Sem dúvida o jardim con-
centra e registra a privacidade retendo uma porção da natureza,
enquanto que a praça vem a ser um espaço aberto na natureza,
senão mesm.o contra ela. Um espaço muitas vezes tido com.o
sagrado (morada de um deus, com seu templo), quase como um
modo ele compensar a violência, ou violentação, que o origina. Na
verdade o jardim é também cultural, e o que se tem são dois
modos de ser elas relações entre o homem e o mundo. Na língua-
.18 OJAJWJM E A PRAÇA
gem de Ludwig Klages, dir-se-ia que o jardim corresponde à
alma, e a praça ao espírito.
A praça, caracterizada em todas as civilizações como espaço
"público", não tira seu significado do mero fato da convergência
de vias "públicas". Ela pode ser anterior às ruas, ao menos
logicamente (ou estruturalmente) anterior. A rua, por sua vez,
possui a mesma essência da praça, posto que todo o traçado
urbano, que na praça se concentra, é algo público. A consagração
histórica do fenômeno urbano significa no fundo a consagração
ou consolidação da vida pública. Só que o jardim também terá o
que ver com o fenômeno urbano, mas em outro plano.
Por outro lado, como o termo público, que vem de "populi-
cus"- de populus, povo-, só aparece com os romanos, é obvia-
mente por projeção e extensão que o em:greg!_lmos para designar
experiências ocorridas em sociedades pré-romanas ou em qua·
drantes culturais estranhos ao percurso histórico dos povos
"clássicos".
Caberia dizer, e aqui retomamos as metáforas, que o jardim,
sendo fechado, é lírico, e que a prllça, sendo aberta, é épica. O
jardim é côncavo, a praça é convexa. O jardim encerra a biogra-
fia, a praça a história; um é introvertido, a outra extrovertida.
Dois momentos, duas dimensões do humano e ele sua projeção
nas (ou sobre as) coisas. Dir-se-ia também que no jardim o espaço
se põe em função das plRntas, enquanto que na praça o espaço é
o principal: em função do espaço se colocam árvores e monumen-
tos.
O "ar aberto", atributo da praça, corresponde ao advento do
nível institucional da vida, à instauração de uma ordem. genérica
(e menos "pessoal") elas coisas, ou seja: uma ordem em que os
comportamentos se regulam em função de fins sociais definidos.
O que já levaria ao problema ele não ser, a liberdade, uma
descomprometida e anômica permissão total de agir, mas uma
condição social situada. A respeito da concepção grega, por
exemplo, Max Pohlenz escreveu muito sugestivamente que
a origem da ~on~eiência da lilx~rdnde se acha no domínio privado, no colllrnstc em
<Jlle o "senhor" c sna família se vêem em l'ace elo ser·vidor, CJlle é pal'l.e de seus ueus o
CJ<re não tom direito n dispor de si mesmo. A etnpn seguinte foi a reunião de servidores
ni'io-livres em nma categoria especiol, em l'uce clu qual os ltomcJrs CJUC 11gem por si
mente um ~e!:la
óbvia condição
tais. Espaço;; d
!"estre~ P a!"ece
daí. passando
:eor:a pla~nica
::!.OS.
o jardim corresponde à
~civilizações como espaço
ro fa;;o da convergência
:.enor às ruas, ao nienos
~or. A rua, por sua vez,
,;_o que todo o traçado
= público. A consagração
!::l'l fundo a consagração
·o jardim também terá o
- outro plano.
:; que vem de "populi-
~-romanas ou em qua-
histórico dos povos
sponde ao advento do
de uma ordem genérica
U!:la ordem em que os
c.e ;.n,s sociais definidos.
ser a liberdade, uma
:c:a: de agir, mas uma
concepção grega, por
~-~----f.ri'1H1o, no conLt-rtstc em
• que é pal'l.c de scns ben~ c
foi a reunião de servidores
os homens CJII C ngcm por si
DOS JARDINS ;i ORDEM PÚBLICA 39
mesmos serão os "l ivres", sendo que com isso Lomnm plena consciência do que
rept·cscnta para eles o privilégio de intervir nos negócios da comunidade'.
Ao aludir ao "ar aberto", que nos levaria a identificar com
a praça a própria cidade, temos de ligar o assunto às diferencia-
ções que, pelo curso dos séculos, atravessam a distinção genérica
entre o lado "grupal" e o lado "pessoal" da multi milenar expe-
riência do ser humano. Dentro da politicidade do homem, vemos
que o animal propriamente "político" (ou social), isto é, o habi-
tante específico da polis não era a mulher - senão em certos casos
-, era especificamente o homem masculino. A casa era o reino da
mulher grega, que a governava, como foi o caso da matrona
latina. Daí que nos últimos Lempos da Antiguidade pagã a
filosofia aparecesse como consolação (consolatio): ela "fazia com-
panhia" ao homem que perdeu a polis c ficou em casa, que saiu
da praça e se recolheu ao jardim, diminuído em sua dimensão
pública embora podendo enriquecer-se epicuristicamente em
sua maturação privada.
Detenhamo-nos sobre este ponto. As imagens provenientes
ela história "antiga" - na verdade a história elas primeiras
culturas, Antecessoras da "ocidental" - nos sugerem repetida-
mente um tema central, o da correlação entre a política, com sua
óbvia condição urbana, e a sacralidade dos espaços fundamen-
tais. Espaços demarcados desde os primórdios como pontos de
referência, e associados, desde cedo, aos parâmetros celestes.
Segundo Mircea Eliade, as cidades no Oriente antigo eram
traçadas e edificadas conforme modelos cósmicos que funciona-
vam como arquétipos: as cidades babilônicas, por exemplo, ti-
nham como modelos determinados constelações, e entre os
hebreus se falava em uma Jerusalém celeste, copiada pela ter-
restre2 Parece inclusive que a noção de uma "cidade ideal" vem
daí, passando depois por Platão e por Agostinho, e a própria
teoria platônica das idéias tem que ver com a velha concepção
que imagina em um "lugar celesle" uma série de modelos eter-
nos.
l. 'l'rnrlu~imo.s parafraoli~.;<JHH.:ntc segundo n vcr~õo francc~o <lc ~J. Coffinct., J~a T..i lX!rlá Grccque,
Pnris, Pnyol. 1050, p. 18.
2. r.e Afytlw de l'elcrnel relour, Paris, Gallimard, 197S, Cfl]l. I.
...,.,..
40
A exemplaridade assumida pelas imagens provindas da
Grécia antiga parece entretanto ter sido a máxima. Isto apesar
de que às vezes se exagera nas referências às coisas gregas
(assunto ao qual já fez menção o professor Moses Finlay no livro
Uso e Abuso da História).
Assim, a exemplaridade que envolve a figura das cidades
gregas se tornou por sua vez extrema, inclusive com o eco da obra
sempre viva de Fustel de Coulanges, La Cité antique (de modo
nenhum superada pela "resposta" de Gustave Glotz em seu La
Citégreque).
Em texto interessantíssimo, Jean·Pierre Vernant assinalou
que nas cidades gregas se teria tido pela primeira vez o destaque
de um determinado plano da vida social como objeto de reflexão.
Ele se refere ao próprio emergir de um pensamento político, que
teria vindo, no caso, completar a existência de um específico
domínio político dentro da vida social gcraP. Ocorre entretanto,
e é o mesmo autor que o mostra, que a formação de um modo
realmente urbano de viver- com seus espaços peculiares e seus
padrões de comportamento- importou em uma crise do sagrado.
Esta crise, acrescentamos nós, nos leva ao tema da diferença
entre o sagrado rural, talvez primevo, o das grandes pedras e elas
grandes águas, e o sagrado urbano; a "crise" equivaleria ao
gradativo predomínio deste, mais ligado ao poder urbano, ao
mesmo tempo que mais instável. A historicidade inerente ao
meio urbano predispõe (agregamos ainda) ao próprio conceito de
crise, que historicamente pressupõe o hedonismo latente na vida
urbana- coisa que Ibn Kaldum já perceber a-, bem como certas
tendências, já presentes no mundo "antigo" e ostensivos no
ocidente contemporâneo: a tendência à racionalização (com suas
ambigüidades), a tendência ao individualismo e à massificação.
Assim as crises, que se prolongam na modernidade, vêm a ser
crises (como já dissemos) da articulação entre vida pública e viela
privada.
É possível que em outros povos "antigos", que não os gregos
e os romanos, a relação entre viela pública e vida privada não
tenha tido recortes tão claros nem conotações axiológicas tão
perceptíveis, mas em todos os povos deve ter existido a diferença
3. Mito e Pe11-Salllmlo Clilrc o.s Gregos, Süo Paulo, Difusão Européin do LivrcYUSP, 1973, cap. l11.
viver.
ao estágio ~cie»
como "des,.·el<lll....:::;'----'""1
por conta de :;.m r
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da pala-.."Ta·ar:
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..cidade". na ........___
po!iL:ca._ o~ n ....--.._......_
e efi~ier:.:.e :.::-.c-=-'----""1
- imagens provindas da
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--~e a figura das cidades
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~ GastaYe Glotz em seu La
-?ie!'Te Yernant assinalou
.:.3 primeira vez o destaque
- como objeto de reflexão.
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-.:: .a. foYIDaçào de um modo
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antigo" e ostensivos no
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=alismo e à massificação.
~odernidade, vêm a ser
- e::.rre vida pública e vida
~ -.;os", que não os gregos
lica e vida privada não
~n;.ações axiológicas tão
3-e ü:r existido a diferença
DOSJ1 RDTNS À ORDEM PÚBLICA 41
entre as duas dimensões do viver. O que se destaca, contudo,
como algo que entre os gregos teria surgido com nitidez maior, é
a origem de uma qualificação política da dimensão pública. A
política como ação, no sentido de Hannah Arenclt, ação casada
ao próprio questionamento das estruturas da ordem (portanto
ao uso hermenêutica da palavra e da discussão); algo substan-
cialmente, irredutivelmente distinto da dimensão privada do
viver.
Retomemos a referência à politicidade atribuída ao "ho-
mem", e à condição diminuidora (os romanos falariam em capitis
deminutio) que foi a do cidadão grego privado da praça e devol-
vido, após a invasão macedônica, Rsua casa e seu jardim.
Ocorre pensar, e seria talvez um truísmo fazê-lo em termos
de "sociologia do conhecimento", na correlação entre as concep-
ções da verdade e os padrões sociais do viver. E como não
considero inteiramente destituído de senso o esquema da "lei"
elos três estados, de Comte (inspirada em Condorcet), poderia
aludir a uma verdade teológica, outra metafísica e outra socio-
lógica: esta sucessão de fases se apresenta exemplarmente no
caso do Ocidente, mas também é reconhecível, sobretudo quanto
às duas primeiras formas, no espírito "antigo". Todos sabem que
ao estágio inicial c01·respondeu, no caso grego, a idéia ela verdade
como "desvelamento" (aletheia), como uma fAce que se descobre
por conta de um fator especial, qual seja R nçi:io de um sacerdote
invocando um oráculo, ou uma "revelação" excepcional; e que
depois, com os progressos do modo urbano de vida, veio a preva-
lecer o sentido ]Rico da verdade, com a valorização do diálogo e
da palavra-argumento, desenvolvida precisamente dentro do
espaço público. Num estágio teria predominado, por assim dizer,
um sentido a um tempo privado e religioso, no outro um sentido
público e político.
Será truístico, portanto, dizer que o emergir ela noção de
"coisa pública" implicou o mundo clássico a valorização da vida
pública. A casa se alarga e dá (liLeralmente) lugar à cidade:
"cidade", na cultura clássica, significando a própria sociedade
política. Os romanos, que tiveram para tudo isto uma profunda
e eficiente sensibilidade, completaram aquela noção com a de
• .t
42 O .!tHJJIM E 11 PRAÇA
ordem, pública, correiaLa da idéia do direito, o jus que é também
função da cidade.
Ainda uma anotação histórica. A v1gencia da dicÇ~tomia
direito público-direito privado varia conforme os contextos his·
tóricos. Certos autores têm observado que na Idade Média euro-
péia, vale dizer durante os séculos em que prevaleceu o
feudalismo, aquela dicotomia praticamente inexistiu. Teria ha-
vido então um predomínio das estruturas privadas - laços pes-
soais, fidelidades pessoais -, ou então uma espécie de misto ou
meio termo, em que o poder do "senhor" feudal, com sua família
e seu entourage privado, era ao mesmo tempo um poder genérico
e institucional. O crescimento elo pensar secularizado, com o
racionalismo e o iluminismo (que inclusive delineou com nitidez
a diferença entre política antiga e política moderna), consolidou
dentro do liberalismo uma visão renovada da antiga dicotomia,
vindo a Revolução Francesa a configurar em seus resultados
legislativos uma cluplicidade de planos: no plano do direito
público as constituições, no do direito privado as codificações.
Enquanto isso, o senLimento de "modernidade", que surgiu
nos intelectuais do Ocidente a partir do século XVII mais ou
menos, e que incluía a consciência ele "posterioridade" em relação
aos "antigos", ressoaria na querela elo tempo de Perrault e
também, muito depois, na famosa conferência de Benjamin
Constant sobre a liberdade dos antigos e a dos modernos. A
partir de certos dados, e ele certas motivações, reforçou-se a idéia
de uma diferença muito grande entre o homem moderno e o
antigo. A Cité Antique, de Fustel ele Coulanges, trazia em certos
tópicos a noção de que aos antigos faltava de fato a plena
dimensão ela individualidade, noção aparentemente estranha,
mas não tanto: o grande historiador se referia ao caráter peculiar
da "liber dade greg::t", que era mais uma adesão do cidadão à sua
polis do que uma contraposição em face dela. De qualquer sorte
Fustel ressaltou o império das instituições sobre o arbítrio pri-
v::tdo, inclusive no plano da família e do "amor", onde não parece
ter havido a larga parte ele opção c fruição que a culLura contem-
poriinea confere aos indivíduos. Como se sabe, o problema de ter
ou não havido em plenitude a consciência da individualidade (e
da subjetividade), entre os antigos, foi já debatido por diversos
autores mais recen•
xistência ele um -.:_
nos estenderemos s.
O problema ci_
gregos e rom.ano.s ~­
Primeira: entre os:'
punha, pois, a não-
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sabe, o problema ele ter
<ia individualidade (e
.. • debatido por diversos
DOS JARDINS À ORDEM PÚJJL!Ct 43
autores mais recentes, inclusive com extensão ao tema da ine-
xistência de um "direito subjetivo" entre os romanos; mas não
nos estenderemos sobre isso.
O problema ela limitação ela idéia ele subjetividade entre os
gregos e romanos nos levaria entretanto a duas ponderações.
Primeira: entre os povos elo Oriente antigo o problema sequer se
punha, pois, a não ser em pequena medida, as individualidades
não conseguiam con trapôr -se ao peso elas instituições. No caso
da polis e das civitas é que as questões emergem (passem estas
generalizações, merecedoras de ressalvas, como modo de esque-
matizar o tema). Segunda: o que a m entalidade liberal contem-
porânea enxergou mais no panorama antigo, de modo a
considerar minoritária a presença do indivíduo - e de sua liber-
dade pessoal - foi o vulto do Estado: tanto na polis grega,
aligeirada por sua correlação com as esbeltas colunas do Parte-
non e pelas alusões dos filósofos, como no imperium romano,
pesado e duro como os bronzes das estátuas dos Césares. O
Estado e a família primavam sobre o indivíduo, e este valia
m enos por si do que como elo ele uma cadeia, dentro da família,
ou como um componente condicionado, dentro do Estado.
Mas pRsscmos outra vez ao tema ela casa. A crise da casa, nas
cidades do século XX, tem sido correlata de várias outras crises, como
a da privacidade, a elo liberalismo, a elafamília, a das "humanidades"
e outras mais. Talvez, crise de coisas que hoje parecem "conservado-
ras", mas que sempre tiveram o que ver com uma certa imagem ela
viela c com importantes realizações históricas.
De fato as casas se extinguem, ou, quando isto n ão ocorre
literalmente, perdem seu velho sentido ele "morada". Refiro-me à
substituição da residência em casas pela residência em apartamen-
tos, a princípio preferidos por mais práticos e mais baratos, depois
por m ais seguros, e afinal impostos a quase todos pelos enormes
aumentos de população, nas décadas mais recentes. Outrora, nas
cidades, cada coisa tinha seu lugar, sem muitas mudanças, e em
cada bairro tinham seu lugar a igreja, a escola, a casa de Beltrano.
O mundo de hoje, invadido pelas comunicações que segundo Um-
bcrto Eco dividem os homens em "apocalípticos e integrados"", é
•J. tJ!fKX!IÍpliros c Tnleyrados, Siio Paulo, Pcrspcclivn, IDR7.
. -.
·14 O ,JJTWIIlf E A PR.1lÇA
um mundo em permanente alteração, em que nada é duradouro.
Além de se extinguirem as casas, e com elas o espírito ele
estabilidade que parece ter havido em tempos anteriores, dá-se
que as pessoas já não gostam de ficar em casa: correm cada
"fim-de-semana" pnra fora e para longe delas, auxiliadas pelos
automóveis (Hesse já dissera que para o homem do novecentos
o auto é o "objeto-rei") e impelidas por uma compulsão. Alguém
já aventou a idéia ele associar este instabilismo espacial de hoje
a um novo nomadismo, uma volta ao viver nômade e errático de
outras eras.
Do mesmo modo que temos o paradoxo do jardim coletivi-
zado, e até massificado, com as "áreas de lazer" elas vilas popu·
lares e com os playgrounds dos edifícios tipo classe média, temos
também o problema da praça demasiado cheir~, com excesso de
pessoas em todas as ruas e logradouros, rompendo com a dispo-
nibilidade de espaço c de "ar livre", que sempre foi própria da
praça pública.
É a agonia dos velhos esquemas e de certas imagens tradi-
cionais. O ideal do "homem", moldado pelo humanismo greco-ro-
mnno e pelas adições ocidentais, e que com a burguesia dos
séculos XVIII c XIX se havia desdobrado no conceito de "cidadão"
(citoyen, Staatsbürger)r,, entrou também em um processo ele
corrosão. Aquele conceito, que no fundo era correlato do ideal
contratualista (segundo o qual as vontades individuais se arti-
culam com a vontade "geral"t tendia a fazer de todo ser humano
um homem público, Alçando ao nível global da sociedade política
a existência pessoal ele cada um. Este ideal entrou em crise por
conta dos problemas sociais vindos do século XIX, e com ele as
formas de vida histórica que o haviam acomprmhado.
Certo, Lodos sabem que por cima da imagem da crise pode
colocar-se uma placa aludindo ao futuro, que poderá ou deverá
ser melhor; como da visão do declínio disso ou daquilo se pode
concluir que o que entra em declínio são coisas a serem substi-
tuídas; ocorre porém que não se enxerga quase nada p~ra além
da crise e do declínio, e este alcança justamente coisas que
vinham integrando a própria iml'lgem do homem e do "humano".
5. I lcrtwutll llcllet·, l?scrilos Po/(ticos, trad. csp. S. de Arlechc, Madrid, 1liunza Editorial, 1!)85,
pp. 2•11 c ss.
tínuo e fragmentário.
conflitos e fundamen·
que uns tantos apo~
saudando o que al
gência"0
, é sempre a...=:
dente ele elementos
Falei do hum3L.4
dora (os que chama::J.
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pológica da evolução
se sobre os está~::.:
implicações da disr!:-."
se relaciona com pr-
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esta chega a destrcir
pois "priva os homem:
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liberalismo de cer~ ::
clnssico, que em noss
Strauss e que remon~
com a apolog·ia elo cil;.
Trata também d
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lichkeit8, que já refe.-
7.
8. 'l'rad. francesa, J:t:spact!
e:=: que na da é duradouro.
e ~ elas o espírito de
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~ de_as, auxiliadas pelos
... o b:;mem do novecentos
mr.a compulsão. Alguém
--.:-..abilismo espacial de hoje
~er nômade e errático de
~oxo do jardim coletivi-
de lazer" das vilas popu-
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~-"-~~ cheia, com excesso de
::. rompendo com a dispo-
:::-.:I.e sempr e foi própria da
~e de cen a s imagens tradi-
pelo humanismo greco-ro-
e ..e com a burguesia dos
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em um processo de
--=:::.....n era correlato do ideal
da imagem da crise pode
- r que poderá ou deverá
di5so ou daquilo se pode
- coisas a serem substi-
,.......~.--.- quase nada para além
- JUStamente coisas que
~ homem e do "humano".
Madrid, Alinnza Ediloríal, 1085,
DOS JARDINS ,i ORDliM PÚJJDTCII 45
Coisas vindas de um longo e profundo processo histórico, descon-
tínuo e fragmentário mas expressivo e inteligível, e que inclui
conflitos e fundamentações, mitos e imagens, dados e teorias. O
que uns tantos apontam como melhor, festejando a crise e até
saudando o que alguns chegam a chamar de "derrota da inteli-
gência"6, é sempre algo vago, algo indefinido e no fundo depen-
dente de elementos hermenêuticas que se acham dentro do
próprio processo histórico hoje entrado em crise.
Falei do humano, pouco acima. Em 1958, a grande pensa-
dora (os que chamam as poetisas de poetas deverão escrever "o
grande pensador") H annah Arendt publicava seu notável livro
The Human Condition, baseado em uma visão histórico-antro-
pológica da evolução ela própria experiência humana7
. Detendo-
se sobre os est::lgios dessa evolução, Arcndt analisa ali as
implicações da disLinção entre vida pública e vida privada, que
se relaciona com problemas histórico-sociais muito relevantes.
E ao aludir ao problema da sociedade de massas, observa que
esta chega a destruir a ambas as esferas, a pública e a privada,
pois "priva os homens de seu lugar no mundo e também do seu
lnr privado": a complementação ideal entre as duas dimensões,
a privada em conexão com o trabalho e a pública em conexão com
a ação, depende de certas estruturas que, se não mantidas,
tendem a elimim1.r o equilíbrio das coisas.
E videntem ente tudo isso soa a liberalismo. Mas não ao
liberalismo ele certos "liberais" de hoje, dispostos a aplaudir
ditaduras e a apoiar regimes militares, e sim ao liber alismo
clássico, que em nosso século inclui também o nome sério de Leo
Strauss e que remonta às fórmulas pedagógicas do iluminismo,
com a apologia do cives latino e da praça popular.
Trata também do tema - o da coisa pública - o denso e difícil
livro de Jürgen Habermas, de 1962, Strukturwandel der Offent-
lichheit8, que já referimos. Partindo da distinção grega entre
coisas comuns e coisas privadas, Habermas menciona a ágora e
(l, AlninFinkiolkraaL, l.n!Ji'fitilet/(• In pm8rP, Pnris, Gnllimard, 1<)87.
7. A Condição Humana, Hio de .T:t11eiro, Edusrv'ForellHe, 1981.
S. Trad. franccen, l."l.:spa('(' public, op. cit.
. ~-..
QJ,RDIM E i PRtlÇA
com ela a noção de "ação em comum", observando por outro lado
a "força normativa" existente no modelo helênico da esfera
pública, sobretudo na forma em que este modelo veio a manter-se
a partir do renascimento. Para Habermas, o conceito feudal de
senhor (seigneur) teria sido neutro em relação às categorias
"público" e "privado"; e com a burguesia, realmente, é que se
teria tido o retorno da noção de esfera pública: a burguesia,
sempre interessada na circulação das mercadorias e também na
das informações, teria redimensionado essa noção, vinculando-a
a uma série de componentes novos, inclusive a "opinião pública".
Parece contudo haver um certo exagero nos termos em que o
problema é colocado por Habermas. O conceito medieval de
seigneurie, que de fato não se identificava com o poder elo Estado,
não era propriamente neutro em face elo binômio privacidade/pu-
blicidade; era referente a um. tipo ele estrutura onde vínculos
basicamente privados se ampliavam até alcançRr sentido públi-
co, e em que vigências culturais muito amplas- como as imagens
do Sacro Império e da Madre Igreja - vinham por seu turno
penetrar certos atos privados. Mas voltemos-
a ágora: praça do:::::.~
vital, tornado his~­
atividacle política :: -
e povos sem ágo-a
Naquele espaço cen
ca: cenário, atores. -
as queixas e as d
da dimensão púb:.ic.a;
se a condição do h
na ágora a sua pU:S
diversos espaços ;-......
sas lnlclals, menc!
respondente ao ides::
ideais ocidentais.
Macedônia, no fim
grega, e com ela a
arengas: acabou-se
homem público po:-
do domínio maced-
es::e:r=.::rl.e:o veio a manter-se
.:±it:::'E:n::!a.S- o conceito feudal de
E:::::l re!ação às categorias
--~~~ realmente, é que se
es:!er:a pública: a burguesia,
C::.fl'Ca.dorias e também na
I"----' essa ~oção, vinculando-a
~i-·e a ""opinião pública".
rom o poder do Estado,
_:nõmio privacidade/pu-
e::u·urura onde vínculos
:;ué a!~çar sentido públi-
- 2:n;Jlas - como as imagens
- .P..:.n.ham por seu turno
7.PRIVATISMO EPUBLICISMO
Mas voltemos às imagens clássicas e mencionemos de novo
a ágora: praça do mercado, eixo social da polis, espaço centrRl e
vital, tornado historicamente símbolo da presença do "povo" na
atividade política. Os gregos diziam que havia povos com ágora
e povos sem ágora, uns com liberdade e outros sem liberdade.
Naquele espaço central se situavam os elementos da vida públi-
ca: cenário, atores, ação. Nele estavam os debates e as facções,
as queixas e as decisões, e sobretudo a palavra como componente
da dimensão pública: ao fazer-se pública a palavra, publicizava-
se a condição do homem. A polis, quase literalmente, teria tido
na ágora a sua pulsação. O espaço público, realizado a partir de
diversos espaços particulares convergentes (inclusive o das ca-
sas iniciais, mencionadas por Fustcl), antecipava o modelo cor-
respondente ao ideal contratualista, antecipando também outros
ideais ocidentais.
Entretanto, como se sabe, a derrocada dos gregos diante da
Macedônia, no fim do século IV a.C., esvaziou a vida política
grega, e com ela a democracia da ágora com seu s temas e suas
arengas: acabou-se a importancia dos discursos políticos e do
homem público por excelência, o político. Ao submergir dentro
do domínio macedônico, a polis deixava de ser a medida das
-
• '!-
18 O JA /1/J/M E 1 PIIAÇA
crenças gregas (e aqui o termo pode entender-se no sentido
orteguiano da distinção entre idéias e crenças). Restava o cos-
mos, inacessível aos golpes dos hoplitas e abrigo maior da razão;
e restava a vida privada. Quase uma antecipação da frase de
Kant sobre o céu estrelado e a lei moral.
Na verdade o afundamento da experiência política atenien-
se - que aparece implícita ao falar-se padronizadamente da
"grega" - ocorreu aos poucos, no meio de coalisões militares e
confrontos internos, inclusive o confronto entre lideranças inte-
lectuais. O ideal clássico de liberdade perdeu-se no tempo de
Demóstenes, quando a autonomia das cidades helênicas se tor-
nou inviáveF. A "política", que um historiador autorizado como
Finlay considera uma invenção dos gregos, ou talvez dos gregos
e dos etruscos separadamente2
, terá sido engulida naquela fase,
dentro de coordenadas desfavoráveis. Em troca, surgia (talvez
ressurgisse) a vida individual.
Ressurgia ou cobrava novo destaque. Aqui entra um tema
histórico-clouLrinário específico, o da evolução elo pensamento
antigo sobre a liberdade humana. Ou aludindo-se, um tanto
tardiamente, ao fato ele que nos próprios escravos a alma é livre,
ou discutindo-se a condição do indivíduo diante dos "liames
sociais" - como parece ter ocorrido em torno de Sócrates e ele
Diógenes-, chegou-se ao problema da dimensão pessoal, senão
mesmo "interior", da liberdade, pensada em gerações anteriores
como condição externa do homem, ou antes: de determinados
homens.
Se, como anotamos acima, o que restou depois de certos
fracassos foram o cosmos e a vida privada, entende-se- e isso se
encontra fácil nos compêndios - que as duas grandes filosofias
do período final da cultura helênica Gá paralela ao alargamento
da presença de Roma) tenham sido o estoicismo e o epicurismo.
Na fase pós-aristotélica o pensamento grego se concentrou sobre
certos temas, em particular o reexame do problema do conheci-
mento e a construção do "ideal do sábio". Vieram também as
cosmologias e filosofias da natureza (há uma ampla filosofia da
n atureza na obra de Epicuro), e as pequenas escolas preocupadas
I. :vi. G. L.llammond, i llistoi)'O{Greece, to 322 BC, Oxford, 195!J, cap. VI, final.
2. M. I. l-'inlay, A Polltioo110 Mundo Antigo, Rio de Janeiro, Zahnr, J985, p. G9.
com rever proble
do mundo. Isto é, :~
A historio
estoicismo e o epi
idéia sempre tr
logos e suas leis
identificação com- -
sempre se destacou.
como "refúgio do
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perdeu-se no tempo de
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em ~erações anteriores
- ....::.!es: de determinados
entende-se - e isso se
...as grandes filosofias
:m.Ie:a ao alargamento
- . cap. VI, final.
19.:i:;, p.69.
I'RIVA1'ISMO E PUBLTCJSMO 49
com rever problemas. Daí a figura do sábio solitário vivendo fora
do mundo. Isto é, fora da cidade e de suas ilusões.
A historiografia sempre ressaltou, no meio dessas imagens, o
estoicismo e o epicurismo como escolas maiores. Do primeiro, a
idéia sempre transmitida é uma visão global do mundo, com seu
logos e suas leis imanentes, completada com a do sábio cuja
identificação com tais leis otorna imune ao sofrimento.Do segundo
sempre se destacou a referência à valorização do viver privado,
como "refúgio do sábio" diante da inutilidade do esforço cívico ao
estilo antigo. Aos pósteros, sempre impressionados com o legado
político da Grécia e também com a carga de idéias gerais que o
acompanhou, sempre pareceu mais importante o pathos estóico,
mas na verdade havia igualmente muito de helênico no realismo
epicurista, que valorizava em cada ato uma quota de prazer vital.
De qualquer modo pode-se dizer que, ao mesmo tempo em
que a polis, medida do existir para o homem grego, perdia sua
soberania e sua força normativa, o pensamento ético partia para
um relativismo muito flexível, que se acentuou com as escolas
éticas c com os "probabilistas". Em relação a Platão, o contraste
era duplo: por um lado os relativismos se opunham ao modelo
absoluto em que se baseava a teoria das idéias - Platão super·
valorizara o saber rigoroso, a episteme -; por outro, a estima em
que se tinha agora a vida privada era antagônica ao ideal da
"República" (Politéia), em que os pensadores-governantes prati-
camente renunciavam à vida privada.
No sistema de Platão este cancelamento da vida privada
(para os pensadores-governantes) decorria, como conclusão pe·
dagógica e administrativa, de um racionalismo absoluto, quase
levado a um ponLo anti natural, em que a total dedicação àquilo
que depois se chamaria o "bem comum" reduzia o viver do sábio
a uma existência muito mais oficial e pública do que espontânea
e privada. Talvez se possa pensar que os relativismos pós-aris-
totélicos terão sido um dos primeiros passos no sentido de uma
separação entre vida intelectual e vida política, tão juntas na
tradição oriental (China e Egito por exemplo). Entre vida inte·
lectual e vida política as relações seriam sempre problemáticas
dali em diante, nas diversas etapas da cultura ocidental, osci-
lando entre for mas de fusão, com o intelectual a serviço do poder
ou coisa parecida, e formas de contraposição.
....
"
- - --
8. PLATÃO EOINTELECTUAL MODERNO
Vale estender-se um pouco mais sobre o tema do intelec-
tual, em relação à política. Platão representou, como foi dito
acima, a pretensão à absoluta racionalidade política, esta por
sua vez correlata de uma justiça entendida como razão. Como
razão e como ordem, coisas vinculadas ao estável senão ao
imutável: como ordem natural, a ordem racional das coisas
equivaleria à base do verdadeiro e do justo. Com isso se
varreriam as incômodas oscilações da "opinião", inerentes
aliás à democracia, em favor do saber seguro e infalível da
ciência; a episteme em vez da doxa. Superava-se todo compro-
metimento subjetivo. Um igualitarismo de oportunidades, ins·
Laurado a partir de verificações pedagógicas, era a
contrapartida, na "República" (Politeia), do desigualitarismo
funcional e inabalável do sistema, que consagrava em parte a
estrutura social existente na sociedade grega- embora corri-
gindo-a a modo de evitar o poder do dinheiro e o das armas,
ambos substituídos pelo do intelecto.
Na base estava, claro, o ideal helênico e principalmente ate-
niense, segundo o qual a realizaçãointegral de cada homem estaria
em participar da política (ou seja, da vida dapolis e de seu governo);
só que no autor do Timeu a coisa chega a pontos extremos, enten·
...1'
. .....
52 OJJIIWIM E A PRAÇA
dendo-se como necessário para a devoção à sabedoria e ao gover-.
no o abandono dos laços privados e dos interesses particulares,
próprios das almas insuficientemente educadas.
Como acentuou oportunamente Ernest Barker, Platão viu
na casa o abrigo dos exclusivismos c dos sentimentos egoístas;
além disso viu na família uma espécie de rival do Estado, fonte
de um pernicioso divisionismo dentro da vida da cidade1
• É fácil
ver, nestas concepções, um como que voltar-se do espírito helê-
nico contra si mesmo, pois a vida de família (e das casas) tinha
sido a própria origem da ordem social grega, e o racionalismo -
que Platão leva e eleva ao grau m áximo- foi também umproduto
cultural tipicamente grego. É provável, de resto, que ao tempo
da República ainda estivessem relativamente nítidas na memó-
ria dos povos gregos as imagens da época em que o panorama
político e social se achava dominado por grandes famílias, que
exerciam seu poder em uma estrutura de tipo feudal e que se
transformaram, com a democracia (tão criticada pelo filósofo),
em núcleos de sentido oligárquico. Também em Rousseau - cujo
papel histórico-doutrinário me parece em diversos aspectos aná-
logo ao de Platão- o repúdio das vontades "particulares" corre
paralelo à busca de uma ordem pública definitiva, uma ordem
que se vinculava à "vontade geral" e que arrastava Jean-Jacques
para perto do que Talmon denominou "democracia totalitária".
Mas voltemos a Platão. Em sua visão utópica, que confir-
mou e ao mesmo tempo contrariou as imagens centrais da men-
talidade grega, aparece bastante claro um traço comum ao
intelectual e ao político, consistente no fato de que ambos corres-
pondero a formas de vida cuja essência (ou cuja plenitude) parece
incompatível com o que se chamaria a "normalidade" da existên-
cia, entendida em sentido privado. Entendamo-nos. Ao olhar
retrospectivo, as primeiras formas de organização urbana - as
do tempo de Menfis, de Cnossos ou de Lagash- apresentam em
seu centro uma certa junção entre o saber e o poder, que parece
ter sido perdida e que de vez em quando as utopias (dos intelec-
tuais) sonham resgatar. Ali, em principados e cortes de dois mil
L Erncst 13arker, Greeh Polilical 1'heo1)'.l'lato and its Predecessors, Londres, 1977, cnp. X. Cf.
tambérn a scgundn pHrlc do livro de Janine Chante ur, Platon, le desir et la.cité, Paris, Sircy,
1980.
origens um sentido
viver. Assim ima,;
monarcas, respon_~
junto com mulher :
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PLATÃO E O INTELECTUAL MODERNO 53
anos ou mais antes de Cristo, se instalou o poder político, com
sua armação de hierarquias, correlatas da ordem religiosa; ins-
talou-se também a organização do conhecimento, que no início
deve ter sido menos crítico, e que também assumiu desde as
origens um sentido específico em face dos afazeres "normais" do
viver. Assim imaginamos os sacerdotes e os magos, tal como os
monarcas responsáveis por decisões que não se tomam à mesa
' . '
junto com mulher e filhos: rostos antiquíssimos, entre a~~lqUlS-
simas pedras palacianas, insones diante de problemas m1htares,
pragas misteriosas ou latentes conspirações. Assim o sábio da
República platônica, exercendo o governo longe do povo e da
família - longe da praça e do jardim-, solitário em relação às
vidas realmente "pessoais" dos homens comuns. Solitário intelec-
tualmente dado o nível demasiado "alto" do pensar que cultiva,
' -e que o qualifica, e politicamente, dado o caráter das decisoes que
tem de tomar e que não competem ao homem comum.
Convenhamos em que o intelectual é realmente um clérigo,
e sua condição específica não configura uma "profissão" determi-
n ada, m esmo quando o intelectual exerça esta ou aquela profis-
são. O político t ambém não representa uma "profissão" em sentido
próprio (a não ser na acepção de professio, testemunho, correlata
de BeTU{ e com significação peculiar). A condição do político, nos
países capitalistas, atravessa outras condições profissionais mas
não se identifica com elas, ou não deve idenLificar-se.
Se por um lado as diversas profissões, que são afaze~es
socialmente caracterizados, possuem concretamente um sentido
público, elas em geral permitem ao "profissional" um tipo_normal
de vida privada: horários, convívio de família, ocupaçoes pes-
soais. Mas na vida política plena, bem como na vida intelectual,
a necessidade de dedicação ou de concentração dificulta o cum-
primento dos afazeres privados. O que nos faz lembrar as obser-
vações de Bernard Shaw, no primeiro ato de Homem e
Super-Homem, ao afirmar que o verdadeiro artista, dedicado que
esteja por inteiro à sua arte, termina por descurar dos laços de
família e até do amor pessoal ("feneçam mil mulheres, se o
sacrifício permite representar melhor o Hamlet ou pintar um
quadro m ais belo"). Só que no caso já entraria a que~t~o do
egoísmo, não dentro da família mas fora dela; e do narc1s1smo,
posto entre devoção pública e ocupação privada, ou antes fora de
54 O JARDIM E A l'RiÇ!l
ambas, como em um limbo. Aliás Francis Bacon, em seu ensaio
"Of Marriage anel Single Life", já havia dito que os grandes atos
e as grandes obras sempre cabem aos homens descasados e sem
filhos, embora os que têm mulher e família sejam em princípio
melhores súditos2
•
E aqui uma anotação sobre o intelectual moderno. No caso,
onde os exemplos se acham obviamente mais próximos pa~a nós
ele hoje, parece aguçar-se aquele conflito latente, que se arma
entre a condição elo intelectual, ou elo político, c o viver elos
homens "não especiais" que exercem as profissões especiais.
Aquilo que os românticos (sem aludirem ao depois chamado fator
econômico) designavam como "burguês", constituía na verdade
uma alusão ao prosaísmo elo homem privaclamente ajustado
(horários, afetos, obrigações), em contraste com o comportamen-
to do escritor (aliás parece vir desta visão romântica um certo
conceito que equivocadamente encara o intelectual como "eles-
programado" e boêmio).
Nietzsche, em carta de março de 1887 a sua irmã Elizabeth,
falou da hipótese de casar-se, ou de ter-se casado. Dizia: "Se eu
me casasse agora, isto seria apenas uma asneira, que me faria
perder uma independência que conquistei a preço de meu san-
gue.(...) Antes viver miserável, doente e temido em algum canto
do que arregimentado e situado dentro da mediocridade moder-
":3na .
Ou então o conhecido trecho ele Fernando Pessoa, no poema
"Lisbon Revisited" de 1923:
Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável?
Uma elas primeiras expressões, vinda aliás do pensamento
social romântico, da saturação do existir moderno em termos de
espaços e relações, terá sido a obra maior de Toennies, onde se
descreve a sociedade como modo de agrupaçào mais amplo porém
artificial, fundado sobre a "vontade reflexa", e a comunidade
como modo mais concreto, mais estreito, fundado sobre a "von-
tade essencial". Desta se passaria àquela, como tendência evo-
lucional genérica. Seria um trânsito do privado ao público?
2. The Moral anel !Tislorical Worhs ofLordBacon, Londres, George 13cll, 1890, pág. 19.
3. F. Nietzsche, Lettres Choisies, Librairic S!.ock, Paris, 1931, p. 213.
Mas voltando
niclacle (no sentido
temos que nos séc::
categorias histó~ca,
rias predominantes'
civilizações, incl -·
"militar" e "político
Pode-se obse_
no sacerdote ocorri:'
poder político. E!:l
existência privada
to, senão mesmo--
em relação aos afaz
da sociedade e de:;~
sões. No caso elo ::L.li..!
mente um aias-
latentemente o he ~
épica antiga e na-:::::.
exernplaridade,se~
dos e constranged~- ~
dote teve-se semp_
sagrado; e o sagra
mundo antigo. ::Ias
a vida entregue à pa
código de n ormas. c_.
o princípio, vigen:.e
a ser exigente cons:,.
fechamento para o_..,.
conceitos, e não à e
corresponcle basi~
ra. Corresponde -
capitalista. O idea:
---5 Bacon , em seu ensaio
«E~ que os grandes atos
- -:::ens descasados e sem
~moderno. No caso. '
~ mE.s próximos para nós
y.::..:!ico, e o viver dos
z: profissões especiais.
aodepois chamado fator
constituía na verdade
p~vadamente ajustado
~.e com o comportamen-
:são romântica um certo
~:electual como "eles-
_-:~ - a sua irmã Elizabeth
'-~ ::asado. Dizia: "Se eu
- a.:::.~eira, que me faria
~ e: a preço de meu san-
e ;.enlldo em algum canto
da mediocridade moder-
_,__.ndo Pessoa, no poema
re &ributável?
~ a:iás do pensamento
...:: moderno em termos de
de Toennies, onde se
~o mais amplo porém
t:xa. , e a comunidade
fm:dado sobre a "vou-
como tendência evo-
pivado ao público?
PLATÃO E O INTELECTUAL MODERNO 55
Mas voltando ao tema do intelectual moderno, e da moder-
nidade (no sentido amplo do termo) como gestadora de crises,
temos que nos séculos ditos burgueses entram em crise certas
categorias históricas, entre elas o militar e o sacerdote. Catego-
rias predominantes nas épocas aristocráticas da história das
civilizações, inclusive registrando-se que, em certos contextos,
"militar" e "político" se identificavam.
Pode-se observar que tanto no militar (o "guerreiro") quanto
no sacerdote ocorreu sempre, ele algum modo, a participação no
poder político. Em ambos ocorreu sempre a ausência ele uma
existência privada em sentido pleno. Em ambos um afastamen-
to, senão mesmo uma posição de real ou pretensa superioriclacle
em relação aos afazeres comuns, ligados à manutenção material
da sociedade e definidos depois - ou desdobrados - como profis-
sões. No caso do militar, cuja atuação mais específica é social-
mente um afastamento (estar "em campanha"), teve-se
latentemente o herói, o vencedor armado, cantado sobretudo na
épica antiga e na medieval; o herói com seu distanciamento e sua
exemplaridade, sem as contingências nem os compromissos miú-
dos e constrangedores do cotidiano doméstico. No caso elo sacer-
dote teve-se sempre a respeitabilidade do homem ligado ao
sagrado; e o sagrado sempre esteve nas fundações, dentro do
mundo antigo. Mas a ambos sempre se atribuiu algo ele sacrifício:
a vida entregue à pátria, ou dada à religião. E também um severo
código de normas, cujo cumprimento dá direito à reverência (daí
o princípio, vigente nas aristocracias, segundo o qual o primeiro
a ser exigente consigo mesmo é o mais nobre: noblesse oblige). O
fechamento para o mundo, para o sexo- no caso do religioso e ao
menos em certas religiões-, enfim para a normalidade privada.
A queda do prestígio do sacerdote e do militar, nos séculos
mais recentes - refiro-me à vigência histórica de determinados
conceitos, e não à eventual ocorrência de gover nos militares -,
corresponde basicamente ao processo de secularização da cultu-
ra. Corresponde também ao desenvolvimento da mentalidade
capitalista. O ideal do progresso, com suas utopias e seu peda-
gogismo, lançou as linhas de uma sociedade onde a ciência
conduzisse as crenças, e o domínio do dinheiro (uma realidade
antiplatônica) entronizou o pragmatismo, complementado pelo
tecnicismo, pelo cientificismo e pela especialização. O ideal do
....- .
56 OJAIWJM E i PRAÇA
progresso e o cientificismo levaram no século XIX ao evolucionis-
mo, espécie de dogmatização linear de uma série de evidências.
O evolucionismo condenou como coisas arcaicas o padre e o
soldado, inviáveis, dentro da tipologia spenceriana, na sociedade
industrial e liberal. Ao mesmo tempo consolidava-se nas socie-
dades do Ocidente a presença das profissões "liberais", como
vocações e como forma de ganhar dinheiro, dentro de uma estra·
tificação social menos rígida - a de classes - e sem as conotações
próprias da condição do soldado e do padre, ou por outra: do
guerreiro e do santo. As profissões ditas liberais, diferenciadas
entre si dentro das especializações (Fachwissenschaften) do sa·
bermoderno e de suas projeções práticas, situaram-se aos poucos
em um conjunto social formado a partir de vidas privadas (voca-
ção c "carreira" individual), dentro daquilo que desde Hegel se
ficou chamando sistema das necessidades.
9. o-_
Retomo agora
acima, ao epicur::~
gar a frase "de
privada, os rom
singelo ao Impér.o
ritoriais e pela a<ift
tanto, que o esq:...
tiveram em seus
trias. Além do m
propriamente cor::
unificadores e ur·
Nem semp::-e
dados, sempre rein
mento" histórico
público, e o predc
que se desdobra a
daquela civilização 1
e irreversível.
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~::.as arcaicas o padre e o
--'" .spenceriana, na sociedade
o::;nsolidava-se nas socie-
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~s - e sem as conotações
e ~;:; padre, ou por outra: do
:.as ::iberais, diferenciadas
- F::.ohwissenschaften) do sa-
=::;u:as, situaram-se aos poucos
~ de vidas privadas (voca-
&qu!!o que desde Hegel se
des .
9. OUTRA VEZ PRIVATISMO EPUBLICISMO
Retomo agora o tema do privatismo, com a alusão, feita
acima, ao epicurismo. Antes passamos pela tentação de empre-
gar a frase "de Péricles a Epicuro"; vem agora outra, a de
comparar o caso grego com o romano, em termos de oposição.
Enquanto os helenos teriam passado da dimensão pública à vida
privada, os romanos teriam ido desta para aquela: do arado
singelo ao Império monumental, passando pelas expansões ter-
ritoriais e pela adoção de instituições específicas. É claro, entre-
tanto, que o esquema seria falacioso, pois também os gregos
t iveram em seus inícios os grupos familiares, inclusive as fra-
trias. Além do mais a existência histórica de Roma começa
propriamente com a realeza e com a ordem implantada pelos reis
unificadores e urbanizadores.
Nem sempre se pode transformar a referência a certos
dados, sempre reinterpretáveis, em uma seriação, ou um "movi-
mento" histórico. O marco privado evolui junto com o domínio
público, e o predomínio de um ou de outro, dentro das fases em
que se desdobra a história deste ou daquele povo, desta ou
daquela civilização, não chega a configurar uma "linha" definida
e irreversível.
. ~
58 Q.JARDIJ1 li A PRAÇ1
Nem sempre, por outro lado, o limite entre a esfera pública e
a esfera privada é bastante firme. O termo latino fornm, que
designa algo historicamente correlato à ágora grega e que se
associa para nós à idéia de um espaço público, designou primeiro
o terreno fechado em torno de uma casa, e somente depois é que
passou a denominar a área de fora das casas, nomeadamente a
praça do mercado1
•
Por sinal, ficou constando de um registro de Plínio que o
termo hortus, no tempo das Doze Tábuas, era utilizado para
aludir às propriedades rurais, passando depois, como se sabe, a
significar "jardim", justamente por conta do conteúdo central da
palavra hortus: um terreno fechado2
Na variedade de formas espaciais existentes na experiência
social romana, cabe aliás destacar o caso das uillae, que repre-
sentou uma outra experiência no tocante aos espaços e às formas.
De certa maneira a uilla, edificação ou conjunto de edificações
que servia de centro a uma empresa rural ou a uma propriedade
"de lRzer" (algo ao modo das "granjas" de hoje), constituía uma
esLruLura intermediária entre o público e o privado. Nem foi por
acaso que de certas grandes uillae partiu em alguns lugares a
o:rgRnização do feudalismo. Residência de campo, podendo ser de
tipo propriamente "rústico" ou de Lipo mais urbano, com freqüên-
cia a uilla incluía um pátio central, misto de praça e de cour;
preservou-se nela o sentido romano da vida agrária, que para
Roma ficou representando as origens, e ao mesmo tempo o
sentido do luxo, Lendo havido uillae imperiais que chegaram a
ser verdadeiros palácios. Dentro do forum romano, perto do Arco
de Tito, tive uma vez a emoção de ver os restos de uma uilla
construída no século XVI por um cardeal, imitando em seus par-
ques com larAnjeiras o arranjo das villae do tempo de Horácio.
Estou mencionando o tempo de Horácio para citar o conhe-
cido estudo de Gastou Boissier sobre a casa ele campo do poeta,
que lhe foi presenteada por Mecenas e que ficava perto de Tívoli,
no vale de Licenza3
.
L F. Marlin, Les Moto lalins, Ed.llachclle, Paris, W76, pp. 86 c 87.
2. Picrre Cri mal, J.a CiuilisalioJL romaine, Paris, A•·lhaud, 1000, p. 207.
3. G. Boissier, "La Maison de campngne d'IIorace", "''P· I das NouuellesprOIILcnadesarchéologi-
ques. Ilomcccl Virgile, Paris, llachcttc, 1886.
Além desta
se constituíram er:::
feudal na época de
este sentido misto
das signorie itali -
primórdios: e em à.:=-
va-se o gosto dos:
da uilla laurentina
o Jovem, que elog:i
sentido as uillae r.e.:
varAm, nos séculos -
de dark ages - , o ess
mundo clássico. E
paredões pintado:: e
e se perpetuou o m
filhos, modo de com
conjunto de elem ~·
ao ntcnos, até o ·-
ocidental do hab::a!"
resultado do esv
antigo, com asa~
da democracia em
vivemos t ambém
tempo de Ortega.
tipo. Os regimes ;::
qualidades intr -
"informação" e dos
além de conotare:::::::.
to de persuasão p~
escrito - além dos::-
bee e tantos mais-
tem seus pessimi:::·
ses têm trazido fo_
'1. André Bcreoff, Mam:.cl -
HJ85; ilain f.'inkiclkr.
- ;.e e!ltre a esfera pública e
~o latino forum, que
• ágora grega e que se
~-O::co, designou primeiro
e somente depois é que
-- ::asas, nomeadamente a
registro de Plínio que 0
- ih-nas. era utilizado para
depois, como se sabe, a
- do conteúdo central da
~ exis:entes na experiência
!:aS 6as villae, que repre-
-- acs espaços e às formas.
~ con;unto de edificações
ou a uma propriedade
de:: hoje), constituía uma
E o privado. Nem foi por
~.J em alguns lugares a
dr campo, podendo ser de
=ais urbano, com freqüên-
C:SL.O de praça e de cour·
- • .. , • J
v1aa agrana, que para
~ e ao mesmo tempo 0
~r:ais que chegaram a
- - r"mano, perto do Arco
~s :restos de uma villa
im.:tando em seus par-
dn ~mpo de Horácio.
OUTRt V/!:7. PR/VATJSMO E PUBLJC!SMO 59
Além desta característica econômico-social das villae, que
se constituíram em núcleos de produção e de aglutinação pré-
feudal na época de declínio do mundo antigo, há nelas também
este sentido misto, meio público meio privado, meio prefiguração
das signorie italianas, meio repetição das grandes casas dos
primórdios: e em algumas delas, as de maior extensão, conser-
va-se o gosto dos jardins (é Grimal quem o anota), como no caso
da villa laurentina, propriedade de um romano amigo de Plínio,
o Jovem, que elogiava nela a "presença da natureza". Neste
sentido as villae terão sido um elemento estabilizador. Preser-
varam, nos séculos iniciais elo medievo- chamados pelos ingleses
de darh ages-, o essencial do acervo ele hábitos e de conceitos do
mundo clássico. E creio que foi no recesso das villae, com seus
paredões pintados e seus utensílios domésticos, que se refugiou
e se perpetuou o modo de vida privado romano: modo de educar
filhos, modo ele comer e de dormir, hierarquia familiar etc. Um
conjunto ele elementos que veio perdurando, fragmentariamente
ao menos, até o início de nosso século, dentro ela concepção
ocidental do habitar e do viver privado.
De novo sobre o epicurismo. Ele não foi "somente" um
resultado do esvaziamento da vida pública grega, dominada pela
vasta onda macedônica: foi um fenômeno elo declínio do mundo
antigo, com a saturação da vida urbana e com a transformação
da democracia em utilitarismo e em latente massificação. Hoje
vivemos também (os que somos, como diriam certos autores do
tempo de Ortega, "hombres de las postrimerías"), coisas deste
tipo. Os regimes políticos dependem às vezes menos de suas
qualidades intrínsecas do que da viabilidade das técnicas de
"informação" e dos programas econômicos que os acompanham,
além de conotarem estruturas militares, que formam um apara-
to de persuasão paradoxal mas evidente. Vários escritores têm
escrito- além dos pensadores já clássicos como Spengler, Toyn-
bee e tantos mais - sobre o declínio da civilização. Cada geração
tem seus pessimistas, e recentemente alguns escritores france-
ses têm trazido fortes achegas à retórica do pessimismo4
• Este
1. inrlr(: llcrcoiT, Manuel d 'Tnslnlclion Ciuique fiOIJr Temps in/.!OUl'ernablrs, Paris, 13. CrnsHCt,
1ml5; ilain Fil>kiclkrnut, Ln T)1i(a ile de /a J!I!IIS<Íe, cil.
....d'
60 OJARDifl.f B A PIIAÇA
pessimismo não é infundado, e dentro dele se lem colocado um
tema específico, o da decadência do homem público5•
Seria então o caso de se falar, talvez, em um possível retorno
do (ou ao) epicurismo. Aliás, no começo do século, na geração de
Loti e Pierre Louys, um certo tipo de literatura orientalizante
cultivou um característico tom hedonista e de certo modo epicu-
rista, como no romance de Louys Aphrodite, em que o capítulo I
do Livro 11 se passa sensualmente nos jardins de la déesse. O
gênero não teve maior continuação, e na verdade não represen-
tava um pensamento fortemente fundado. A possível volta ao
epicurismo a que me refiro seria antes uma forma de descrença
nas estruturas "maiores" hoje vigentes, ou na possibilidade de
se realizarem nelas os valores humanos essenciais; uma tendên-
cia implícita e minoritária ao recolhimento, em face das estru-
turas tecnocráticas, da massificação e das falsificações
autoritaristas: algo comparável a um dos aspectos da posição que
Umberto Eco chamou "apocalíptica". Um dos lados do tema se
acha nos debates sobre politizaçi'io e despolitização: alguns teó-
ricos da direita, nos anos 20 e 30 - Carl Schmitt entre eles - I
pretenderam que o liberalismo seria uma atitude despolitizante,
sendo a verdadeira política a do confronto, com suas categorias
básicas expressadas nos termos "amigo" e "inimigo". Por sua vez
Hcrman Heller, que era um socialista moderado, encontrava no
burguês contemporâneo um tipo despolitizado, desligado de pre-
ocupações decisórias e preocupado com sua "condição privada de
possuiclor"6
. No caso, um tipo que na República de Platão jamais
poderia ter o poder. Entretanto trata-se de uma meia verdade,
já que o mundo histórico dos últimos séculos vem sendo (não só
econômica mas também culturalmente) um mundo burguês, com
liberalismos e anti-liberalismos, bismarquismos e outros ismos.
De qualquer sorte o tema de um possível retorno ao epicurismo
parece relevante: há muito o que resgatar, hoje, dentro ela di-
mensão privada da vida, asfixiada pelos enormes travejamentos
da dimensão pública, e desvirtuada por uma série de distorções.
5. R ScnncLL, O Declínio do llomem. Público, cit.
G. II. llellcr, Escritos Políticos, op. cit., p. 24G.
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OUTRA VEZ l'RIVA'I'JSMO E PUBUCISMO 61
Outra observação. De alguma forma o problema da distin-
ção entre o plano público e o plano privado pode ser comparado
ao de uma alternativa, nem sempre bastante explícita mas
presente no pensamento contemporâneo através de alusões ine-
quívocas: a alternativa entre a "vida social" e a "vida simples",
aquela entendida no sentido da sofisticação dos elementos e das
condutas, esta no da fuga às complicações ou às "frivolidades".
De um lado as regras de convívio e os critérios de gosto, elabora-
dos pela própria civilização (no sentido clássico e qualitativo do
termo), regras e critérios que não se podem ignorar e que se
testam em formas específicas do viver social: gestos, deveres,
linguagem. De outro o fato de que a adesão excessiva a estas
coisas pode (ou costuma) gerar certo grau de "artificialidade",
senão mesmo de "inautenticidade" dentro do existir. Com refe-
rência a este último termo vale recordar aliás a defesa, por parte
de Martin Heidegger - este um dos ângulos menos acadêmicos
de seu pensamento - , da vida despojada, que renuncia aos
exageros da tecnologia e às alienações que acarretam.
Certamente que entre um extremo e outro se encaixam
vários graus. Estes se instalam a alguma distância da rejeição
total da técnica (e da própria evolução social), e também a
alguma distância da padronização e da "informação", ambas
envolventes e ambas tirânicas. E com elas, do consumismo e de
outros caracteres da sociedade atual.
Pois do mesmo modo cabe salvar a privacidade salvando
também a dimensão pública, ambas estimáveis mas passíveis de
extremos, entre os quais cabe situar graus, e situar-se neles.
10. ALGUMAS DIGRESSÕES HISTÓRICAS
Mencionei, no início, o fato de que sob certo aspecto o
advento da praça corresponde, mais do que ocorre com o jardim,
a uma eliminação da natureza. Ou antes a um corte, mna abertura
nos espaços naturais, feita na verdade pelo próprio fenômeno ela
cidade, que se instaura como um outro tipo de espaço dentro dos
espaços físicos disponíveis no vale ou na montanha. O jardim refor-
mula a natureza, operando uma redução ou uma seleção quanto às
espécies vegetais e ao seu arranjo, em convívio com canteiros, muros,
colunas, estátuas (sempre me lembro do poema de Baudelaire que
começa com "Je n'ai pas oublié, voisine de la ville", e que menciona,
na casa a que alude, o arvoredo onde escondiam seus membros nus
mna Pomona e uma Vênus); o jardim a reformula, defendendo-a
como ao próprio sentido de privacidade que nele se recolhe. A praça,
parâmetro das ousadas coordenadas urbanas, se recorta como um
outro espaço, não natural, onde o que há de árvores e de flores é
expletivo e complementar, embora às vezes pareça esteticamente
essencial.
Par~ce também, mas isto vai como anotação de passagem, que
a evoluçao em ambos os casos - o da praça e do jardim - veio
representando uma gradativa diminuição do papel (ou da presença)
da natureza: e aqui o termo natureza é usado no seu sentido mais
,r.....
O JARDIM E A PRAÇA
concreto, incluindo animais e arbustos, embora sem excluir a
relação com um signjficado mais profundo. E parece que este gradual
cancelamento da natureza, em seus componentes mais concretos, se
faz mais perceptível, senão mais ostensivo, no caso da praça. Ou seja,
nas representações da dimensão pública, inclusive nas ligadas ao
poder: edificações, ornamentação, linguagem de símbolos.
Nas representações antigas, os símbolos da ordem pública
envolviam indefectivelmente elementos da natureza, em seus
três "reinos": havia altares e tronos com pés de leão, colunas com
base em forma de lótus, capitéis com cabeça de touro ou com
folhas - as clássicas folhas de acanto -, as figuras dos deuses
eram concebidas e representadas com raios, conchas, frutos e
animais. Os reis eram assimilados em seu poder às entidades da
natureza; nas tumbas e nos palácios se retratavam cenas festi-
vas com ramagens e aves (vejam-se inclusive as descrições da
pintura cLrusca no texto de viagens de D. H. Lawrence Etrnscan
Places). Na Idade Média a pintura religiosa não desdenhou de
colocar coisas deste tipo junlo à figura dos santos - nem se
entenderia São Francisco de Assis sem seus pássaros-, e tam-
bém nas cortes do Renascimento sempre havia animais, ao
menos ao que nos mostram certos quadros onde aparecem cava-
los monumentais e cães solenes ou pachorrentos, compondo,
junto com anões e bufões, a imagem elo entourage monárquico. A
própria monarquia absoluta, que abriu largos espaços no âmbito
das capitais nacionais, se fazia retratar, em momentos ele priva-
cidade, com elementos da naLureza.
Seria o caso de dizer-se que o mundo "moderno" (dito tam-
bém burguês), ao passar à fase chamada contemporânea, apres-
sou a eliminação dos ingredientes naturais. Ocorre lembrar o
contraste, expressado por Vico, entre o "poético" das fases ini-
ciais da história ele cada "nação" (hoje diríamos cultura, ou
civilização), e o prosaico das fases posteriores. Até o Romantis-
mo, com a restauração e o nacionalismo, ainda perduraram
componentes naturais. Mas durante o século XIX o que pareceu
predominar foi a gravidade cinzenta, correlata das grandes
máquinas e das securas vitorianas, e sem embargo do que de
positivo houve, inclusive na arte (não cabe aderir ao modismo de
detratar o oitocentos sem mais aquela). Gravidade cinzenta que
foi uma espécie de acompanhamento do ideal formal da Repúbli-
econômicas, assumia a
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__ea:. formal da Repúbli-
ALGUMAS DIGRESSÕES HISTÓRICAS 65
ca e da pretendida impessoalização do poder. O poder, embora
vigente em toda a plenitude sob vigorosas formas políticas e
econômicas, assumia a partir do liberalismo um sentido de coisa
abstrata, e a isso vinham corresponder representações mais
"despojadas". As imagens do poder perdem então em cores e em ..,; '
ornatos: na mesma medida em que os prédios públicos abando-
nam os capitéis coríntios e os portais ainda meio barrocos do
edifício do Reichstag, os trajes se tornam mais monótonos, e os
retratos mais convencionais. Com o século XX viria o estilo dito
"funcional", terrivelmente desgracioso, e com ele o completo
cancelamento de figuras naturais (salvo em alguns painéis so-
breviventes): veio o tempo em que a caça e a invasão das máqui-
nas começou a eliminar as espécies animais, e em que se
incrementou o ritmo da destruição das reservas ecológicas.
Introduzo agora uma alusão ao problema do Classicismo e
do Romantismo: momentos do espírito moderno, a um tempo
irrepetíveis e paradigmáticos. No primeiro, a cristalização do
geometrismo racionalista, vindo sobretudo da época de Descar-
tes; no segundo a réuanche do sentimento, no sentido de ver no
homem mais do que o puro ser "pensante". O cotejo é convencio-
nal, mas segue válido; inclusive passa pelo teste histórico se
pensamos no Classicismo como próprio da burguesia das revolu-
ções (o espírito de secularização na política) e no Romantismo
como algo ligado às crises sociais subseqüentes (clamores igua-
litaristas, ressentimentos ela nobreza contra a revolução, sensa-
ção ele perda em sentido difuso).
Dir-se-ia, e isto vai com certas ressalvas, que de certo modo
o Classicismo abriu espaços públicos: construção de grandes
áreas dentro das grandes cidades (Sombart estudou o papel
destas na expansão do capitalismo), clarificação ela linguagem
nas artes e na política. E que o Romantismo constituiu um
refluxo: um ele seus lados, porque ele teve vários, consistiu em
um movimento de retorno ao passado feudal, ao ruralismo (um
ruralismo nostálgico) e ao par ticular, portanto ao privado. Con-
tra, portanto, o publicismo-estatismo revolucionário e contra o
urbanismo "paleo industrial" elos séculos XVIII e XIX. Certamen-
te que as coisas dentro ela história não são tão nítidas: nos
refolhos ela onda romântica persistiu o liberalismo com a apre-
-.....
66 O JARDIM E A PRAÇA
goação da liberdade, ao lado do conservadorismo e do monarquis-
mo; mas sempre temos de reforçar certos traços para fazer o
quadro mais inteligível.
Lewis Mumford destacou, entre as marcas da influência do
espírito romântico, amante do luar e das ruínas- também das
ravinas-, a tendência a retornar ao gótico, na arquitetura, parte
de uma genérica tendência a voltar ao passado1
. Na Alemanha
cultivaram-se as estampas antigas, Bilder aus der Vergange-
nheit, e por toda a Europa se procurou imitar os "jardins ingle-
ses", caracterizados pela informalidade, pela espontaneidade e
pela irregu laridade. Algo como uma reação contra o espirit de
geométrie, contra a França imperial já derrotada mas ainda
representante das linearidades "claras e distintas".
A propósito de sociedade moderna e de época "burguesa",
vale porém repensar certas coisas. Nos casos grego e romano
(antigüidade), a estrutura social incluía o componente escravo
como algo natural. Em Roma, onde talvez tenha sido mais
caracterizada a existência de "classes", os conflitos só surgem
depois, e sem deflagrar ismos doutrinários. Não se teorizou (ou
quase não) sobre a dimensão econômica da sociedade nem sobre
o conceito de revolução, este entretanto mencionado por Aristó-
teles na Política.Nas sociedades ocidentais modernas a presença
do componente burguês, vinculado ao processo ele secularização
cultural, tenderia historicamente a um peculiar equilíbrio entre
o lado público e o lado privado da vida, mas o fator "sistema
capitalista" leva constantemente o pensamento a dar conta da
dimensão econômica, forçando a criação de ideologias que são
"ismos" econômicos t anto quanto teorias políticas ou filosofias
sociais. Deste modo o socialismo, que sempre carregou uma parte
de utopia, tende modernamente a fazer pesar o lado público no
qual parecem mais urgentes os clamores igualitaristas, e pare-
cem mais relevantes os projetos gerais de reconstrução. Enquan-
to nas utopias de outros tempos a condição do indivíduo
enquant o particular apareceu mais nitidamente como objeto de
reflexão, nas programações socialistas contemporâneas ela pa-
rece importar menos.
l. A Cultura das Ciwdes. t.rad. Ncil Silva, Belo Horizonte, Itatiaia, 19Gl. passim..
vida privada, cor::._
sempre tem con~
em política . Yioia
observou que o r..._·~...."'-'-.:.,
tudo um assunt.o
capitalistas, seci;)
"modernizantes,..
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formado durante o-
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inclinar-se sobre a -
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Scient.ifica, 1987.
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-:;.as contemporãneas ela pa-
,l:.atiaia, 1961, passim.
ALGUMAS DIGJIESSÕES HTSTÓRICAS 67
O que se menciona como nós "revolucionário" no tocante à
vida privada, como costumes sexuais e estrutura familiar, nem
sempre tem conexão simétrica com as atitudes revolucionárias
em política. Viola Klein, em seu livro sobre o caráter feminino, ..,.
observou que o chamado movimento feminista vem sendo sobre- ""
tudo um assunto das classes altas. Por vezes é nas sociedades
capitalistas, senão mesmo sob governos ditatoriais (ditaduras
"moclernizantes"), que ocorrem as transformações mais sérias na
área do viver cotidiano.
Vale ressaltar, a estas alturas, que a dimensãopública, dentro
ela história social moderna, apresenta duas conotações bastante
distintas. Por uma parte, ela corresponde ao racionalismo, trans·
formado durante o século XVII e sobretudo oXVIII em uma espécie
de militãncia histórica, que atuou como enciclopedismo e se desdo-
brou em crítica revolucionária, condicionando uma visão mais
aberta dos espaços urbanos e da relação entre saber e poder, poder
e governo, governo e obediência. Por outra parte, entretanto, ela
corresponde a uma conversão do populicus em estatismo, um
estatismo latente em Rousseau e no jacobinismo. Este estatismo,
que estava na monarquia absoluta, reponta na própria revolução
feita contra o absolutismo, e passa incólume através do não-esta-
tismo pleiteado pelos liberais clássicos, desembocando, nas propos-
tas sócio-políticas do século XX, na permanente ameaça
totalitária2
• Anoção depúblico, com generosa raiz empopulus, pode
inclinar-se sobre a acepção lateral ele "coletivo", oposto ao privado,
e pode conduzir à precariedade ela própria dimensão individual do
viver, inclusive das liberdades individuais.
Contudo, sem o espaço público não teria sido possível a
estruturação das repúblicas contemporâneas, nem elas democra-
cias, nem elo parlamentarismo. Não se t eria tido a vigência
ambígua mas indeclinável da opinião pública, nem possivelmen-
te a racionalização dos ordenament os jurídicos. Com a moderna
opinião pública- cujas origens Pascal havia detectado - desen-
volveu-se a imprensa e renovou-se a linguagem política, com a
racionalização elo direito unificaram-se os procedimentos e as
garantias; mas a estatização e a tecnologia foram crescendo,
2. l)omenico Fisichclla, Tota.lilal'ismo - Un Regime <Ü!l Noslro Tempo,Homa, Nuova Jt,alia
Scientific.a, 1987.
68 O JilRDIM E 11 PR1ÇA
permitindo, no século XX, as ditaduras mais caracterizadas, bem
como a massificação e a tecnocracia.
Em certa passagem de seu Comunidade e Sociedade, um
dos livros mais notáveis da segunda metade do século passado,
FerdinandT oennies registrou uma impressionante dualidade de
aspectos na estruturação do império romano:
[...]dois desenvolvimentos; de urna parte a cultura, a mobilização, a universa-
lização, tudo terminando pela sistcmoti7.açiio c codificação do direito; de outra parte
o desaparecimento da viJa c dos costumes no interior daquela brilhante culhn·a do
Estado, da g1·andc administmção pacíl'ica, c da jurisdiçiio rápida e segura3
.
Tentaríamos acrescentar a esta citação o seguinte: opróprio
fenômeno, ocorrido em várias culturas mas exemplarmente no
Ocidente, da passagem do direito "costumeiro" ao direito legis-
lado, confirma ao que parece primado da dimensão pública sobre
a privada. Os étimos latinos o ilustram: o verbo habeo, com
particípio passado em habitum, teve a mesma raiz que habitare e
habitudo, ele onde se percebe o parentesco entre o morar, ou seja o
estar na casa (habitatio) e o hábito, que se desdobra em costume.
Em alemão temos uma correspondência análoga ocorrente entre
wohnen (morar), gewohnen( habituar-se), e Gewohnheit, costume
(Gewohnheitsrecht, direito costumeiro). A passagem ao direito
legal terá constituído um triunfo da praça, do populicus, sobre o
âmbito privado, sobre o direito da casa e do foyer primitivo.
Talvez se possa então dizer, trazendo agora o enfoque para
a história moderna, que a observação de Tocqueville, segundo a
qual a Revolução Francesa não desmontou nem desmentiu a
organização administrativa do ancien régime, adotando-a e dan-
do-lhe continuidade, corresponde ao fato de que ao espírito
moderno (ou seja, pós-feudal), que tanto esteve presente no
tempo de Colbert como no de Napoleão, veio sendo correlato um
certo sentimento do domínio público. E talvez caiba registrar que
em nosso século, nas últimas décadas, vem-se dando uma espécie
de saturação deste domínio: saturação dos próprios espaços
físicos pelo excesso de gente, que se verifica por toda a parte com
a chamada explosão demográfica, e saturação do sentido de coisa
pública pelo acúmulo de reivindicações sociais e pela descarac-
3. Sociétéet Communcwté, trad. J. Lcif, Paris, PUP, HJ41, Livro !li, item XIX, p. 201.
ALGC •
terizante onipresença c 1
André Piettre: "as SOC2'!
burocracia". De fato a·
que reordenou o direi;.o ~
é sempre o contrapo~:;c
relações entre dimensãa.
suas distorções as ~
'ànde e Sociedade, um
=~arle do século passado,
1---~~~ ,...;~"onante dualidade de
a mobilização, a universa-
--=;::~-vdo a:.reito; de ouLrn parte
=nela brilhante cultlll'a do
- r.2pida c scgur a3_
~"-----"""~'"'~ n seguinte: o próprio
a:..: ~ exemplarmente no
~--rro'' ao direito legis-
Cme::lSão pública sobre
--= c ·:-erbo habeo, com
_:::.:~~a raiz que habitare e
Bll!'e o morar, ou seja o
se desdobra em costume.
!':!. pa.:;sagem ao direito
«b populicus, sobre o
f.J>--er primitivo_
~-ora o enfoque para
Tocque·ille, segundo a
- • !:...e:n desmentiu a
e., ado:ando-a e dan -
de que ao espírito
~e,·e presente no
_ H'!!do correlato um
<Caiba registrar que
dando uma espécie
;: próprios espaços
pertoda a parte com
- do sentido de coisa
~........_.·""- e pela descarac·
..:zm XIX. p. 201.
ALGUMAS DIGRESSÕES HISTÓRICAS 69
terizante onipresença do Estado. Lembro-me sempre da frase de
André Piettre: "as sociedades nascem na religião e morrem na
burocracia". De fato a burocracia, fruto do próprio racionalismo
que reordenou o direito e fez as epistemologias contemporâneas,
é sempre o contraponto da massificação, que desequilibra as
relações entre dimensão pública e recint o privado, afetando em
suas distorções as estruturas e os convívios.
11. OUTRAS DIGRESSÕES, COM ALUSÃO AO DIREITO
EAO CONTRATUALISMO
Insisto sobre o problema do espaço, c dos espaços. No
pensamento de Kant, como se sabe, o tempo e o espaço são
categorias a priori do entendimento: são algo que se acha "den-
tro" do ser humano. Cabe compreender esta idéia no sentido de
que para a teoria do conhecimento eles são condições dadas na
própria estrutura do entendimento. Entretanto, no plano da
experiência concreta do viver dos homens, o tempo parece mais
redutível ao plano interior do que o espaço. "Sente-se" o tempo
como algo tanto exterior quanto interior, algo que nos atravessa
(e que nos penetra), pois estamos no tempo mas ele nos ocupa
por dentro; enquanto que o espaço - que o grande intuidor que
foi Descartes chamou étendue - sempre o imaginamos como
exterior ao eu, senão mesmo como a própria exterioridade, com
a qual identificamos inclusive a mensurável materialidade do
corpo humano. A corporeidade é, de imediato, espacialidade.
Sobre a demarcação do espaço, ou seja, dos espaços: a
"exterioridade" do espaço sempre enseja uma visão objetiva. O
espaço se entende como objeto, e sempre em relação com planos
e n íveis. Daí a constante relação da demarcação dos espaços, nas
72 O JARDIM R A PRAÇA
sociedades humanas, com a visão hierárquica dos homens e das
coisas. Foucault tocou no problema dos espaços em Les Mots et
les Choses e em Surueiller et Punir, estudando neste a implacável
organização do espaço que em certa época foi vigente em escolas,
hospitais, quartéis e prisões, mesmo após o iluminismo.
A propósito das conexões entre espaço e hierarquia, e com
o que a sociologia acadêmica denominou durante decênios "dis-
tância social", cabe fazer algumas anotações.
Desde os contextos mais antigos, as instituições sociais têm
condicionado a feitura de construções (edificações) específicas,
destinadas a conter (ou a simbolizar e abrigar), em seus insubs-
tituíveis espaços, as diversas funções que correspondem à domi-
nação social. Assim os templos, os tribunais, os teatros, as
escolas. Nos templos a ostensiva distribuição das partes, na
horizontal e na vertical, separando o recesso, ou seja o interior
- com o lado misterioso do sagrado - das diversas secções
acessíveis ao público. Nos tribunais a representação das várias
funções nas várias porções de espaço: o lugar do juiz, ou dos juízes,
o dos advogados, o dos réus se for o caso, o do público para quando
prevista a sua presença. Nos teatros o palco, que é um espaço
distinto inclusive por sua significação de cena imaginária, coloca-se
abaixo ou acima dos lugares de onde será visto (outro problema, o
da diversidade de níveis nestes lugares, conforme a visibilidade,
inclusive frisas e camarotes). Nas escolas antigas, o estrado para
a figura do mestre, as cadeiras padronizadas para os alunos, o
espaço de recreação - coisas hoje contestadas mas tendendo a ser
substituídas por alguma outra forma de ordenação espacial.
Estas demarcações espaciais correspondem à representa-
ção do poder: o poder tem qualquer coisa de cênico, como perce-
beu e mostrou Georges Balandier'.E não cabe pensar, qual fazem
aligeiradamente certas pessoas desconhecedoras da história,
que a fixação de níveis deste tipo é própria da sociedade "bur-
guesa", e de seu "aparato" estatal. Na verdade todos os contextos
anteriores à época dita burguesa tiveram este caráter, com o
recurso às proporções espaciais para a imponência do poder e
para a persuasão das mentes.
1. O l'oâer em Cena, trad. Luiz Mourn, 13rasílin, UnB, I!)82.
sempre constituiu
vida das pessoas. C<l
das pessoas, dado
ções mais estreitas~
mento, desdobrar
indivíduo, inclusi-.;·e
soalidade" se enco!:
O que se den:::-
do que propriame:~·
empregar o termo
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:!da.de todos os contextos
..,.. este caráter, com o
r=ponência do poder e
OUTRAS DIGRESSÕES... 7:3
Quando se menciona a dimensão privada do viver, está-se
colocando o tema da família (e das estruturas de parentesco), que
sempre constituiu, em qualquer sociedade, o marco básico da
vida das pessoas. Com isso se coloca, por extensão, o tema do ser
das pessoas, dado em sua existência concreta e em suas conota-
ções mais estreitas. Dispensável porém será, ao menos no mo-
mento, desdobrar daí o problema da distinção entre pessoa e
indivíduo, inclusive porque no caso a individualidade e a "pes-
soalidade" se encontram em um mesmo plano.
O que se denomina indivíduo, em sentido :mtes psicológico
do que propriamente ético (neste seria realmente mais cabível
empregar o termo pessoa) e o que se denomina coletividade são
coisas que possuem diferentes estruturas. Na estrutura daquilo
que se conceitua como indivíduo, ou como individualidade, acha~
se um conjunto de elementos do viver, que se desenvolvem, quer
corporal quer animicamente (esta palavra vai no sentido de
Jung), a partir de experiências que se ligam ao "mundo circun-
dante", ou seja a um contexto caracterizado. Este contexto cor-
responde por sua vez, e isto explica e complica, à noção corrente
ele "sociedade", ou por outra, à coletividade tomada em uma
acepção global, específica e provida de conteúdos peculiares. A
coletividade terá então de ser entendida como oposta aos indiví-
duos, mas também composta por eles, sendo o "social" evidente-
mente uma condição e um resultado em relação ao núcleo pessoal
do viver, este de resto não totalmente isolável.
Habitualmente pensa-se, ou afirma-se, que os indivíduos
t "f " 1estão dentro do social, como se este se encon rasse ora cos
indivíduos. Sempre o uso das alusões espaciais. Pois bem: a
partir da correlação entre os binômios pessoa/privado e socieda-
de (ou coletividacle)/público, a utilização da metáfora se revela
imperfeita: opúblico se concebe em geral como algo que está fora,
ou para fora, e o privado como algo que se acha dentro ou para
dentro, mas este não se acha propriamente dentro daquele. Mais:
a ambas as noções é cabível atribuir um dentro e um fora, o que
complica o lance.
Contudo, a permanecermos com esta metáfora, valerá ob-
viamente perguntar: o "privado" e o ''público" correspondem ao
dentro e ao fora de quê? Talvez ela casa: a experiência das
origens, ao menos em alguns contextos, avaliza a metáfora. A
71 O JARDIM E A PRAÇA
vida desenvolvida à volta da casa e da família prolongou-se
gradativamente, passando em certos casos "dos clãs aos impé·
rios" (na expressão adotada por Moret e Davy), ou passando ao
menos pelas dimensões da aldeia e da cidade. As grandes civili-
zações da antigüidade mais antiga foram basicamente cidades.
Ao advir a cidade, o homem redimensiona sua visão do mundo,
seu sentido de espaço, sua auto-imagem dentro da convivência
grupal. A casa entretanto prossegue, revalorizando·se como in-
terioridade, como recinto do existir mais "direto", que evoluirá
dentro do que lhe está fora, isto é, do espaço urbano e da ordem
pública. Evoluirá paralelamente a esta ordem, sofrendo trans·
formações históricas paralelas, mas sem se confundir com ela. A
casa (o "lar" segundo o étimo clássico convertido em imagem
convencional), não é entretanto uma realidade meramente "in-
dividual", mas de certo modo também grupal, e deste modo
possui um fora c um dentro, um sistema de conexões com a ordem
pública e uma estrutura interna, onde vigoram padrões variá-
veis mas sempre específicos.
Evidentemente a evolução de ambas as esferas, a pública e
a privada, depende de padrões culturais e de condições econômi·
cas. Trata-se de um quadro antropológico, onde se tem o ser
humano construindo seus mundos- arte, produção, crenças - e
pra ticando seus ritos pessoais, domésticos e cotidianos. E aqui
se tem também o problema da propriedade, que igualmente
evolui por dentro de ambas as esferas . Estar sentado debaixo de
um arbusto em seu próprio jardim, ou parar sob uma árvore no
meio de uma praça, são duas coisas distintas também sob esse
prisma: achar-se em território privado, de propriedade de al-
guém, ou em esp aço público, coisa de todos (da comuna, como se
dizia no tempo das cidades livres italianas).
Anotemos algo sobre o privado e o público em Direito.
Observamos, acima, que o privatismo-localismo do costume foi
suplantado, em diversos contextos históricos, pelo publicismo-
generalismo da lei. É comum, por outro lado, afirmar-se que nas
épocas em que prevalece o feudalismo, como a Idade Média, n ão
se definem reciprocamente a esfera pública e a privada; ou então,
aquela não se realiza plenamente (daí a alusão à inexistência de
Estado no medievo). E ntretanto a coisa não é t ão simples. Pois
se diz também que nos s
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é cio simples. Pois
OUTRAS DiGRESSÕES... 75
se diz também que nos séculos feudais o conceito de pacto, ou de
contrato, foi altamente relevante; entretanto a noção de contra-
to, no sentido moderno e contemporâneo tem muito o que ver com
o liberalismo, no qual o espaço público- que Habermas vinculou
ao espírito burguês- se articula com a própria reformulação das
liberdades individuais, em um sentido que na Idade Média seria
impensável. No esquema famoso de Sumner Maine, from status
to contract, configurava-se a inelutável evolução das sociedades,
passando de contextos em que o grupo é tudo e o indivíduo função
dele, para situações em que a vontade individual - livre e
contratante - emerge como resultado histórico tido por definiti-
vo. O tema voltará um pouco adiante.
Hegel, que via no lado prático ela realidade humana sobre-
tudo a ética e a política, percebeu de pronto, no liberalismo, uma
tendência oposta ao Estado. Daí sua ênfase sobre o aspecto
público da organização das existências, e daí sua recusa do
contratualismo rousseauniano, segundo ele demasiado privati-
zante, bem como do "moralismo" kantiano, de índole subjetiva e
individual. Já nos escritos teológicos juvenis, havia Hegel anali-
sado o contraste entre religião pública e religião privada, che-
gando a considerar "infelizes" as épocas em que a vida privada
se torna predomin:=mte, sendo ao contrário felizes aquelas em
que o povo como um todo "exerce a virtude pública"2
•
Não sei se posso atrever-me a dizer que Hegel foi mau leitor
de Rousseau, mas o certo é que neste o contrato foi só uma
referência conceitual, dominando em seu pensamento a imagem
clássica da unidade cívica urdida em torno da moral pública.
Rousseau foi na verdade um fascinado pelas virtudes antigas, as
romanas por exemplo. De qualquer modo as alusões feitas são
bastantes para que reconheçamos em Hegel um certo platonismo
(o Estado, a Ética, a Moral pública), ou um anti-epicurismo
implícito.
Mas retornemos à noção de pacto. Se a Idade Média foi
época de pactos, isto é, acordos de vontades em sentido ainda
pré-liberal, foi também, segundo se costuma afirmar, época de
"cartas" (como a Magna Carta Inglesa de 1215 ou a Bula de Ouro
2. c r.lorhcrlo 13obbio, "Direilo Privado c Dir eito Pt'oblic;o cmllcuel", Clll ~nsaios /':.WYllhidos, São
Pnulo, Ed. Ca.rdim, 1988.
..,.
""
7(] O.JARDIM E A !'RAÇA
da Hungria de 1222), e não propriamente de constituições, estas
surgidas das revoluções modernas como obra do lado publicizan-
te do espírito burguês. Na verdade não parece tão óbvio, como
pretendeu Hegel, que a "burguesia" tenha tido apenas tendências
privatizantes; aliás Habermas, conforme já mencionamos, situou
em conexão com o papel histórico do burguês a estruturação de
um específico espaço público, ou de uma peculiar "publicidade".
O que ocorre é que o espírito moderno, burguês-leigo-racional,
reformulou a seu modo um problema que em cada grande contex-
to histórico se reelabora: o das relações entre dimensão pública e
dimensão privada.
O Estado Moderno, com seu sentido de concentração e ao
mesmo tempo sua formalização normativa, passou a ser um
Estado "constitucional" na proporção em que esta formalização
se tornou essencial para sua existência. E isto foi obra do libera-
lismo, que pretendeu redimensionar a posição do indivíduo dian-
te do Estado, convertendo àquele em "cidadão" e a este em
sistema de funções, tornadas transparentes justamente pela
formalização normativa.
Pactos e contratos, que costumam ser ligados à idéia das
vontades privadas, podem dar-se também, historicamente, entre
povos, como entre impérios, como entre monarcas. A Idade
Média - não deixando sem registro o abuso que consiste em
usar-se esta expressão como designadora de algo muito uniforme
-terá sido em grande medida um período de lealdades pessoais,
onde pactos e alianças se mantinham sem o Estado por perto.
Entretanto o mundo moderno, com o capitalismo e como laicismo
"burguês", manteve em larga escala a utilização dos contratos,
só que reformulanclo seu alcance e metendo-os dentro de uma
sistemática jurídica inteiramente nova, como não podia deixar
ele ser.
Não se pode forçar as generalizações, nem pensar em dife-
renças muito extremadas entre duas épocas sucessivas, pois
quase sempre o que ocorre são transições, são variações de
ênfase, são combinações diferentes. Entretanto é certo que em
dados períodos as alterações se aprofundam, e elementos que
existiam em determinado contexto se apresentam, no contexto
seguinte, bastante transformados. Deste modo será válido falar
ela influência elo processo de secularização geral que, ao esten-
as estruturas do pensa!"
as do existir privado. :::
ela o capitalismo; im~­
noção de ordem púbu
entronizaram a p raça
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-:: será válido falar
- ge..-lli que, ao esten-
OUTRAS DIGRESSÕES... 77
der-se dentro do Ocidente a partir dos fins do medievo, modificou
as estruturas do pensar, as do poder, as da economia e também
as do existir privado. Com ele a burguesia se consolidou, e com
ela o capitalismo; implícita ou explicitamente se consagrou a
noção de ordem pública. As revoluções "burguesas" (liberais)
entronizaram a praça como lugar e fonte, ou símbolo, de decisões
históricas. O iluminismo, que Kant em ensaio famoso vinculou
à divisa sapere aude, estabeleceu o princípio segundo o qual o
conhecimento deve ser público: contra o saber oculto e esotérico
que tin ha sido em parte o da Idade Média. No fundo uma atitude
utópica, no sentido da absoluta difusão das "luzes", e consoante
com o ideal pedagogista do século XVIII, que pretendia que o
progresso - destino inexorável dos povos levasse todos os
homens à plena posse da ciência.
Detenhamo-nos por um pouco sobre a imagem, sempre
discutível, do trânsito do medieval ao moderno. Esta imagem,
oriunda do humanismo e de seus prolongamentos-inclusive com
os termos empregados por Cellarius -, veio sendo mantida até
nosso século apesar do desgaste da expressão "moderno", e com
ela vieram mantendo-se velhos clichês, alguns verdadeiros ou-
tros nem tanto.
Certos estudiosos têm, como já dissemos, difundido a idéia
ele que na Idade Média teria prevalecido o aspecto privado das
relações e das estruturas. Garcia-Pelayo chegou a adiantar que
nos séculos feudais a única coisa realmente "pública" teria sido
a Igreja. Entretanto, como as imagens referentes a determinado
contexto são mais isso ou mais aquilo em comparação com as de
algum outro, o que ocorre é que a presença do Estado nos séculos
finais da história romana, repetida de certo modo a partir do
absolutismo "moderno" n as grandes nações européias, faz com
que se veja o longo trecho medieval (confuso e variado mas com
alguns traços constantes) como um tempo onde houve "menos"
presença de estruturas estatais, e mesmo de espaços públicos no
sentido moderno. Além disso a configuração do privatismo me-
dieval se corrobora com o localismo ou "particularismo", que foi
naqueles séculos o complemento dos vínculos pessoais e da
marca da terr a sobre os valores sociais. Não é por acaso que o
trânsito ao "moderno" envolveu entre outras coisas o advento de
um novo sentido de vida urbana, aderido ao crescente papel da
78 O JARDIM/:: 1l PRtÇJ
burguesia c do dinheiro. Talvez se possa realmente encontrar,
na urbanística moderna, um sentido de espaço bastante distinto
do que existiu nas cidades medievais; e é interessante aludir
aqui ao famoso ensaio de Werner Sombart sobre a relação entre
o capitalismo e o espírito do luxo, no qual se acham estudadas
as características das grandes urbes que foram, dos séculos XVI
e XVII em diante, centros de prazer e de poder: cidades com
largas áreas e com um novo padrão de mentalidade.
A tentação das divisões triádicas, que sempre atuou sobre
os diversos autores que trataram da história "geral", se refletiu
em diversos esquemas: no de Vico (história divina, heróica e
humana), no de Comte (épocas teológica, metafísica e positiva),
no de Morgan (selvageria-barbárie-civilização) e também no de
Engels e Marx, que falavam de escravismo, feudalismo e capita-
lismo, resolvidos na solução socialista. Entretanto a diferença
entre o mundo medieval e o mundo moderno tem dois aspectos.
Por um lado eles são, no caso do Ocidente, uma continuidade,
são etapas de uma mesma cultura; por outro eles representam
dois padrões de vida histórica muito distintos, e neste sentido o
fosso entre feudalismo e capitalismo- ou sociedade moderna, ou
burguesa - é mais profundo do que o que pode existir entre
capitalismo e socialismo. Estes dois são no fundo resultantes do
processo geral de secularização, que tanto afeta a esfera cultur'al
como a econômica, enquanto o mundo feudal foi anterior àquele
processo.
Retornando ao tema do advento do sentido de espaço públi-
co no mundo contemporâneo (aceitando-se a convenção cronoló-
gica que o instala a partir do trânsito do século XVIII ao XIX),
temos isto: o desdobramento da coisa "Estado" em diversas
formas institucionais e sob diversos ismos políticos, com osten-
sivo crescimento do lado público do viver (inclusive sua presença
dentro da linguagem), e entretanto a persistência do padrão
privado como conjunto de elementos vindos da antigüidade clás-
sica: matrimônio, mulher, crianças, cama, mesa, aniversários,
laços domésticos. A dualidade, que nem sempre representa atri-
to, prossegue através do oitocentos e desemboca em nosso século.
Neste, entram em crise a vida da família e os valores domésticos
tradicionais, enquanto os regimes autoritários reforçam as pa-
redes do Estado, cujo intervencionismo se torna geral. A figura
nazismo, assumido in.::...
1950 seu livro sobre G
e em 1958 seus con -
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do século XVIII ao XIX),
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~e:nboca em nosso século.
-- e os 'alores domésticos
--~ios reforçam aspa-
:s;e torna geral. A figura
OUTRAS DIGRESSÕES... 79
do espaço público terá tido, no século XX, sua "esquerda" e sua
"direita": assim a Praça Vermelha em Moscou com suas monu-
mentalidades, assim o tema do Lebensraum (espaço vital) no
nazismo, assumido inclusive por Carl Schmitt, que publicou em
1950 seu livro sobre o "Nomos da Terra" (Der Nomos der Erde)
e em 1958 seus concisos "Diálogos sobre os novos Espaços"
(Gespraeche über den neuen Raum).
Quanto à idéia iluminista, mencionada linhas acima, se-
gundo a qual o saber tende a (ou deve) tornar-se algo público,
vale acentuar algumas de suas correlações históricas. Ela se
situa dentro da luta entre a concepção hermetizante e esotérica
elo saber, o saber como uma revelação a que poucos têm acesso,
e a concepção "aberta", latentemente racionalista (e cientificis-
ta). Esta luta, que na Grécia antiga ocorreu ao tempo ela sofística,
no século V a.C., com o cultivo elo debate e com o relativismo
epistemológico, reaparece no Renascimento onde certos restos
de ocultismo coexistem com os começos ela metodologia científi-
co-natural moderna. Aliás Marguerite Yourcenar acenou com
alguns lances do tema em passagens de seu romance histórico A
Obra em Negro. No fundo, a concepção que aqui chamamos
aberta - à falta ele melhor termo - vai desdobrar-se, do século
XIX para o XX, em um largo processo de ampliação de informa-
ções, ele debates e ele formas de expressão, processo que corres-
ponderá à democratização dos produtos culturais e também à
difusão das "comunicações". Embora que por outro lado as com-
plicações da ciência possam estar levando a um outro modo de
"fechamento", com o saber privativo de poucos - refiro-me às
ciências naturais, sobretudo.
Sobre a democratização elos produtos culturais, Karl Man-
nheim escreveu em 1933 um sugestivo ensaio, com o título de
Demokratisierung des Geistes, que o tradutor espanhol preferiu
verter para Democratización de la Cultura, evitando a tradução
ele Geist por "espírito", mais correta mas no contexto inviável:
trata-se, no estudo de Mannheim, da influência da democracia,
como fenômeno histórico abrangente, sobre expressões culturais.
Pois naquele ensaio3 o autor tenta estudar a cultura democráti-
ca, que veio crescendo com a própria presença histórica da
3. Inserido em Ensa)·os de Sociologia de la Cullura, lrnd. M. Snlirez, Mnclricl, 1guillar, J057.
80 O JARDIM E A 11/lAÇA
democracia política, em confronto com a cultura aristocrática.
Ao atribuir à mentalidade democrática um pendor mais otimista
e ao mesmo tempo mais aberto às mudanças sociais, Mannheim
coloca observações que revelam o relativismo que se acha dentro
daquela mentalidade, e que a nosso ver tem relação com um certo
sentido de posteríorídade histórica (em relação aos padrões aris-
tocráticos, especialmente), e também com o fundamental proces-
so de secularização.
Este relativismo, próprio da Grécia antiga nos últimos
tempos, tem muito a ver com a proliferação de ismos trazidos
pelo pensamento leigo moderno, e se apresenta por assim dizer
como lâmina de dois gumes: de um lado a validade dos criticis-
mos está ligada a ele, mas de outro há o acúmulo de sutilezas e
a crescente sensação de crise.
Quanto ao problema do "papel social da ciência", latente na
idéia de uma publicização do saber, ele chegou em nosso século
a impasses dramáticos, com o problema - entre outros - dos
possíveis princípios éticos do trabalho do cientista, com freqüên-
cia servindo ao poder e a discutíveis propósitos políticos.
Mas voltemos aos contratos e ao contratualismo, menciona-
dos algo acima. Os civilistas do século XIX, montados sobre
fontes romanas mas em sintonia com o espírito de seu tempo,
pensaram nas vontades individuais como conteúdo específico do
contrato, e neste como expressão perfeita delas: complemento,
de certo modo, de idéia rousseauniana da lei como expressão
(perfeita) da volonté générale. Pois n ão faltou ao século XIX um
modo de acoplar esta idéia com a genérica e onipresente idéia de
evolução. Quase todos os grandes pensadores daquele século
acreditaram em alguma forma de evolução: evolução da selvage-
ria à civilização, das sociedades monocelulares à complexidade
moderna ou qualquer fórmula comparável. O liberalismo adota-
va o "princípio" da evolução como sucedâneo ou prosseguiment o
da lei do progresso. E em Sumner Maine, que já citamos e cuja
vivência na Índia reforçou suas crenças evolucionistas, encon-
tramos a célebre expressão from status to contract, onde a noção
de contrato era tomada em sentido amplo, envolvendo o aspecto
jurídico e as implicações sociais: do status, condição das pessoas
dentro daqueles grupos em que a ordem coletiva (e dentro dela
tocante aos compor.: -
gime social do contra:._
vam plenas. A alusão
os períodos primit!...-;:;.~
cabiam na imagem os -
no sentido da pré-de-
dos comportamentos - r
acentua este dado dos _
visão mais estática d
sentido, a interpreta·-
cultura democrática Sê
Quanto ao conta
antiga e aportada aos
mo, a referência aos ~
a legit imidade do
antes de tudo, um lega
de uma vontade "gerai
para terem sentido e
viver. Esta quase peti -
do argumento, e pe
deve descartar-se - a
"refutava" em termos
cem anos como cnse ......
cos, é algo mais do
paradigma dogmático111
sarnento jurídico, dian·
zação" do próprio co-
codificador vindo do ~
i'c==~t!"~mo, menciona-
li~. montados sobre
~:ir:ito de seu tempo,
amr.eúdo específico do
delas: complemento,
le! como expressão
"' o ao século XIX um
~-~ou prosseguimento
que iá citamos e cuja
~lucionistas, encon-
~~-act, onde a noção
en··olvendo o aspecto
ro::dição das pessoas
e&:::.Ya (e dentro dela
OUTRAS DIGRESSÕES... 81
o esquema de relações familiares) tudo definia e pré-definia no
tocante aos comportamentos, passava-se historicamente ao re-
gime social do contrato, em que as liberdades pessoais se torna-
vam plenas. A alu são ao status abrangia, neste tipo de pensar,
os períodos primitivos e as sociedades antigas, mas também
cabiam na imagem os séculos de cultura aristocrática, ao menos
no sentido da pré-determinação familiar das posições sociais e
dos comportamentos (Mannheim, no ensaio que citei mais acima,
acentua este dado dos contextos aristocráticos, o da tendência à
visão mais estática do que dinâmica das estruturas). Neste
sentido, a interpretação cabível seria mais ou menos esta: a
cultura democrática se considera mais dinâmica em relação aos
estágios "pré-democráticos", e neste dinamismo cabem, como
preço, as instabilidades e as crises latentes.
Quanto ao contatualismo, velha teoria surgida na Grécia
antiga e apartada aos conceitos e preceitos do moderno liberalis-
mo, a referência aos consentimentos individuais como base para
a legitimidade do poder, c portanto para a obediência, é nele,
antes de tudo, um legado teórico. Por mais relevante que a teoria
tenha sido em certo tempo, e por mais simpática que seja como
configuração doutrinária, permanece nela uma certa ambigüida-
de: as anuências individuais fundamentam a própria existência
de uma vontade "geral", que é já de nível social, mas dependem,
para terem sentido (e eficácia), de um plano meta-individual do
viver. Esta quase petição-de-princípio se acha no próprio interior
do argumento, e permanece mesmo quando se descarta- como
deve descartar-se - a interpretação empírica do contato, que o
"refutava" em termos antropológicos.
De qualquer sorte a chamada crise do contrato, ou crise da
"soberania" do contrato, que vem sendo denunciada há quase
cem anos como crise do individualismo e do voluntarismo jurídi-
cos, é algo mais do que isso. Trata-se da crise do chamado
paradigma dogmático4, o do próprio modelo privatísLico do pen-
samento jurídico, diante do crescimento do Estado e da "publici-
zação" do próprio conceito de Direito. Crise, também, do ideal
codificador vindo do iluminismo e maturado durante o século
4. Cf. Zuleta Pucciro, Paradigma fiDRmritico y ciencin del derecho, 8d. J1.,v. du DerechoPriuoclo,
Madrid, 1981.
fi.'._....
82 OJAJWIM Jo: A PRAÇA
XIX: estaríamos dentro, segundo certos autores, de uma fase de
"decodificação" dos ordenamentos.
Esta alusão ao Direito requer, entretanto, algumas anota-
ções mais. Citei, no começo, o importante estudo de Jürgen
Habermas sobre o espaço público, onde a noção genérica de
esfera pública se considera, em sua concentrada versão burgue-
sa, como categoria histórica específica5. O Livro apareceu em
alemão em 1962. Em 1979, o próprio Habermas coordenou a
edição de um volume coletivo, referido à comemoração do livro
de Jaspers sobre a "situação espiritual do tempo"; volume no
qual se incluiu um estudo de Jürgen Seifert intitulado "Casa ou
Forum", dirigido a analisar a diferença entre duas concepções de
constituição: a constituição como casa, isto é, como sistema
fechado de valores, totalidade imodificável, ou como forum, isto
é, texto aberto, projeto democraticamente passível de ser refeito
com o concurso de todosn. Em 1980, tocando em temática análo-
ga, Peter Haberle estudou a função da dimensão pública n o
Estado democrático, afetando também o sentido do ordenamento
constitucional: a publicidade seria por excelência o princípio
jurídico-constitucional da democracia7
•
Não podemos ir atrás do assunto em todas as suas correla-
ções, mas será sugestivo citar de novo o breve e incitante livro
de Georgcs Balandier O Poder em Cena. Logo no capítulo primei-
ro ele nos fala das cidades, que apresentam "múltiplas cenas
construídas pelos regimes sucessivos" - e neste caso o grande
exemplo para ele é Roma -, c também, especificamente, do
espaço público que abriga os símbolos do poder, quase como o
palco de um drama, que se desenrola em termos inconfundíveis.
5. L'l!:space public, 1rchéologie de lapubliciléele., cit.
6. J. Scifcrt, "llaus oder Forum-Wcrtsystem odcroffcnc Vcrfassung", em Slrichworle zu.rGeistige
Situation dcs Zeit, vol. I (Frankfurt, Suhrkamp, 1979).
7. Die Ver{assungdes l'luralismus, Konígstcin, ii.henacunt, 1980, item Gdo cap. TT.
Entretanto, há
expressões sempre
e os urbanos, e onde
privada aparece oo:n
quase sempre, o pú
implacável planiE
Alguns autore:::
contraposto dentro
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Só que o ot·
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especificamente, do
poder, quase como o
~~ em StrichworteZtl r Geistige
item 6 do cnp. li.
12. SOBRE AS UTOPIAS
Entretanto, há um gênero lítero-político-filosófico em cujas
expressões sem pre ocorre o problema dos espaços, os geográficos
e os urbanos, e onde a opção entre dimensão pública e dimensão
privada aparece com freqüência. Trata-se das utopias. Nelas,
quase sempre, o público prima sobre o privado, por conta da
implacável planificação que Lende a pesar sobre os indivíduos.
Alguns autores, como por exemplo Gerhard Ritter, têm
contraposto dentro da cultura política moderna a linha "maquia-
vélica" e a linha "utópica". Esta contraposiçã o se revela questio-
n ável, posto que sempre há nas utopias um autoritarismo que
não contrasta muito com o absolutismo implícito do "Príncipe"
de Maquiavel; mas há algumas diferenças que possibilitam o
cotejo. Inclusive o problema do otimismo e do pessimismo: há
quem pense que as utopias são sempre um sinal de otimismo -
e isto é verdade em princípio :-, enquanto que Maquiavel teria
sido um pessimista. Aliás já foi dito, não me recordo por quem,
que os grandes pensadores políticos são sempre ser pessimis tas,
descrentes da "bondade natural" do homem; e isto também é
verdade ao menos em parte.
Só que o otimismo das utopias é r elativo: com freqüência
seus autores descrêem do espontâneo arranjo de soluções entr e
....,.
84 OJARDIM E A PRAÇA
os homens e apelam para o Estado (ou para um governo absoluto)
com o fim de organizar definitivamente as coisas. Geralmente as
utopias são uma construção a-histórica; suas descrições não
incluem a alusão às "origens", e se mantêm num presente do
indicativo mais ou menos abstrato. Vejam-se por exemplo as .
explanações do Genovês na Cidade do Sol de Tommaso Campa-
nella (talvez a mais utópica das utopias e a meu ver a mais
infantil e mais absurda); vejam-se as de Rafael Hitlodeu na
Utopia de Morus.
Deixemos de lado certas classificações (Ernst Bloch por exem-
plo falava em utopias da ordem e utopias da liberdade) e tentemos
manter uma visão unitária. Há em geral um tempo utópico que não
é histórico, nem sequer empírico: algo como wna dimensão isenta de
mutações. Reflexo, na verdade, do ilustre modelo platônico, onde as
reHlidades concretas se entendem - refiro-me à Politeia, que a
traduçãohabitual chama"República"-como expressãoempobrecida
de um paradigma, isto é, de um ideal. Por outro lado as utopias são
uma imagem anti-sociológica das coisas, quase como se repudiassem
auant la lettre a visão sociológica que ainda estava por vir (falo das
utopias dos séculos XVI, XVII e XVIII). Configuram sociedades onde
nada muda, onde não há "processos sociais".
Nas utopias clássicas o poder público é totalitário e é padro-
nizador. Campanella pretendeu regulamentar comidas e vestuá-
rio bem como casamento e vida sexual. Também Morus pensou
n~a padronização do sexo e da procriação, chegando a exageros
ingênuos, ou mesmo grotescos (extremo oposto da desordem e da
procriação irracional, que ocorre nos países subdesenvolvidos).
O modelo de Esparta, tomado como algo positivo por Platão,
perpetuou-se através dele nas utopias clássicas. Nas utopias do
século XX, em especial o Braue New World de Huxley e o 1984 ele
Orwell atua com sentido negativo um outro modelo, o das
ditadu;as das décadas trinta c quarenta: a de Stalin, a ele Hitler,
a de Mussolini. Sem a mediação histórica do iluminismo e do
liberalismo, dos estudos antropológicos e do relativismo, não se
teria chegado a uma visão crítica do modelo utópico, nem ao seu
uso para fins de advertência: advertência contra a padronização
e o esmagamento do ser humano pelo poder sem limites.
Esta advertência, como se sabe, tem sido feita em outros
moldes e por outras formas de expressão, em nosso século. A
redução do indivíduo
mente predatória de
modo um tanto ób"-io
também ao inaudito
tais, mesmo nos re.,
primeiro aspecto g"..ra..
como as reflexões ex
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pc:!er sem limites.
;:c:--: sido feita em outros
,.,_::âo em nosso século. A
SOBRE AS UTOPIAS 85
redução do indivíduo humano a um número, e à condição vaga-
mente predatória de "consumidor", tem sido relacionada de
modo um tanto óbvio ao novo mal do século, a massificação, e
também ao inaudito crescimento do volume das decisões esta-
tais, mesmo nos regimes não "autoritaristas". Em torno do
primeiro aspecto giraram as patéticas obras de Chaplin, bem
como as reflexões exemplares de Ortega. Estas tiveram várias
continuações, no tocante à análise do esvaziamento da vida e da
rede de complicações que exaurem nas pessoas a possibilidade
de fruir com plenitude as dimensões da existência. Citaria de
passagem o livro de Hem·i Lefebvre, La Vie quotidienne dans le
monde moderne1
, que estuda a "sociedade burocrática de consu-
mo", o de William White Junior, The Organization Man2, que
focaliza os efeitos do excesso de sistematismo e de organização,
e o clássico A Multidão Solitária de David Riesman, escrito em
colaboração com Nathan Glazer e Reuel Denney3
• Sem falar nas
ondas de Toffler, detalhadas e discutíveis, nem nos recentes
estudos sobre o "pós-moderno".
Retalhamos aqui dois pedaços da realidade moderna para
apontar-lhes a contradição. O crescimento do volume das deci-
sões estatais> que controla aspectos os mais variados da vida dos
grupos e das pessoas, é menos um aumento da "politicidade" da
vida destes grupos do que um sintoma das necessidades de um
governismo tremendamente concentrador. E le, entretanto, coli-
de com as tendências à proteção (inclusive constitucional) da
vida privada, esta todavia ameaçada, por outro lado, pela inva-
são das comunicações e pela destruição do velho conceito de
residência como válida e efetiva privacidade. Há sempre uma
engrenagem meio perversa increment ando nos homens a neces-
sidade de saber coisas sobre a vida dos outros, sobretudo a das
"celebridades" (inclusive as que o são por poucos dias)1
•
O tema da padronização das vidas, que há de ter ocorrido
em todos os t empos- inclusive por conta do que Gabriel Tarde
I. Co!. ldécs, Gallirnard, NB,l•', lUGS.
2. N. York, Doubleday AnchorIJooh, W56.
3. SiioPanlo, PerspectivA, 197 1.
-1. Sobre o problema, Celso Lafcr, Jl Reconstrução dos Direitos IIu.man.os, um Diálogo com o
I'ensa.mento de lla.nnah Arenf"i.t, Silo Pnulo, Companhia das Letras, lUSS, cap. Vl!l.
,_.. _....
86 OJAIWIM E A PR;IÇA
(hoje tão pouco citado) chamou lei de imitação-, e que aparece
como algo valioso nas utopias clássicas, ou na maioria delas,
parece assumir um aspecto ostensivo no século XX, justo porque
resulta da massificação e do burocratismo-con sumismo (deca-
dência do Ocidente?); e também porque contradiz o quinhão de
consciência histórica que vem aumentando no homem, ou pelo
menos em alguns homens. Sabemos da grande variedade de
formas correspondente aos diversos contextos em que vei<;> ocor-
rendo a experiência cultural, mas temos de nos ater a uns poucos
e obrigatórios figurinos no tocante ao pensar, ao vesLir e ao agir.
Seria o caso de entender, com cético desespero ou mórbida
satisfação, que ocorre um retorno aos moldes primitivos (ou pelo
menos "arcaicos") de vida, com a absorção de ca da um pelo todo.
Jean Baudrillard caracterizou como um "confuso amontoado do
social" a realidade das massas, como força de inércia6•
O esquema simplificador, que sempre tenta as mentes (mes-
mo as que se dedicam ou deveriam dedicar-se ao trabalho de
pensar), ocorre no caso de certos marxistas como uma visão
linear da história, redutora e maniqueísLa, da qual tem resulta-
do a acusação, sem rnais, de conservadores, aos pensadores que
vêem de modo negativo a ascensão das massas ou que de algum
modo consideram os tempos correntes (isto é, o século XX da
primeira guerra em diante, mais ou menos) como tempos ele
crise: Max Weber, Alfred Weber, Mannheim, Jaspers, Ortega,
Huizinga. O assunto, por outro viés, foi colocado por Umberto
Eco em seu Apocalípticos e Integrados, distinguindo entre os que
dissentem, e falam de decadência, e os que n ão dissentem, e se
integram tranqüilamente à nova cultura de massas. Seria inter-
minável e impertinente arrolar aqui as obras tematizando e que
vêm teorizando a crise, desde Comte e outros do oitocentos até
Spengler e os que se lhe seguiram, com a contrapartida dos
otimistas (socialistas ou capitalistas) que enxergam na confusão
de hoje o desenlace de um prefixado script histórico ou então
saídas (issues!) muito pragmáticas para a prosperidade social.
Bem assim mencionar os graves proble~as éticos tratados por
um Bloch ou por um Gehlen - para citar autores de posições
5. À l'ombre des majorilés si/endeuses, ou: la {indu social, lrad. bras., São Pnulo, IJrasiliense,
1985.
diferentes - , probl -
camente, ao conturba
A estas alturas
entre os diversos co::.
me ao fato de que o _
a-histórico e negado::.-
d'iniquités), segue
e de que entretanto o
tendência geral é o ·
outro sentido eaté
imediatismo é capit
apesar disso ele se ::.
quase todos os qua
veis e no uso gera: do
sempre é agradávei. l
de é que a humanidad
suas conquistas em -
fonte dessas coisas ~
as pós-renascentistas
talidacle que sobrepõe
pensamento utópicc "
praça, e isto deve ter
existe nas utopias. n
misto de narrativa m:
algo mórbido, e isto ">
ereto-existente, ao q~e
precariedades a utopia
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a apagar diferenciaçõ.:;.s:
(ou "fabuladora") se -
que alimentam o totà.:::
=::.:tação -, e que aparece
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- connadiz o quinhão de
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~. ao vestir e ao agir.
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- de cada um pelo todo.
...amfuso amontoado do
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'=-dicar-se ao trabalho de
::::-:ris~as como uma visão
--::~ da qual tem resulta-
- es aos pensadores que
- assas ou que de algum
....s:o é, o século XX da
~os como tempos de
-l-.eim. Jaspers, Ortega,
- - -relocado por Umberto
.......,~-guindo entre os que
;.;e não dissentem, e se
~e !n.assas. Seria inter-
!"'a.S tematizando e que
..::.-"''S do oitocentos até
=cc:. a contrapartida dos
- e~ergam na confusão
p- histórico ou então
2 prosperidade social.
....-.a:; éticos tratados por
~ autores de posições
ClrSi. brn3., São Pau lo, Drasiliense,
SOBRE iS UTOPIAS 87
diferentes -, problemas situados na "era da técnica" ou na
"sociedade afluente", e de qualquer sorte chegando já, dramati-
camente, ao conturbado limiar do ano 2000.
A estas alturas vale registrar um outro paradoxo, vigent e
entre os diversos contrastes das décadas mais recentes. Refiro-
me ao fato de que o ideal revolucionário, que em si mesmo é
a-histórico e negador do passado (o passado histórico como amas
d'iniquités), segue animando muitos setores em muitas nações;
e de que entretanto o que nossa época vem consagrando como
tendência geral é o imediatismo, como negação do passdo em
outro sentido e até como negação do futuro. Dir-se-á que este
imediatismo é capitalista e irmão do pragmatismo ianque; mas
apesar disso ele se acha instalado como um dado genérico em
quase todos os quadrantes. O imediatismo se acha tanto no
consumismo como no culto da velocidade e na paixão pelas
novidades da tecnologia; acha-se na destruição das coisas está-
veis e no uso geral do descartável. Poucos se recordam, e nem
sempre é agradável lembrar isto, que nos períodos de estabilida-
de é que a humanidade consolidou seus arquétipos e estruturou
suas conquistas em todas as áreas (mesmo que a semente e a
fonte dessas coisas tenham provindo, em alguns casos, de sacu-
didelas revolucionárias).
Com isto retornamos ao tema das utopias. Talvez se possa,
efetivamente, afirmar que elas surgem (sobretudo as antigas e
as pós-renascentistas) como expressão do triunfo de uma m en-
talidade que sobrepõe o público ao privado. É como se o próprio
pensamento utópico se formulasse a partir da experiência da
praça, e isto deve ter relação com uma certa artificialidade que
existe nas utopias. Elas nos lembram museus de cera, ou um
misto de narrativa mítica com burocratismo sublimado. Há nelas
algo mórbido, e isto vem do distanciamento em relação ao con-
creto-existente, ao que está no viver privado e empírico, de cuj as
precariedades a utopia busca limpar-se. Seu componente padro·
nizador, encaixado e enquadrado em esquemas genéricos, tende
a apagar diferenciações e espontaneidades. Sua dimensão mítica
(ou "fabuladora") se revela em termos laten temente dogmáticos,
que alimentam o totalitarismo e impõem a aceitação de fins e de
88 OJARDIM E A PRAÇA
normas elaborados não apenas de cima para baixo, mas também
de fora para dentro.
O não-privatismo das grandes utopias, traçadas como uma
espécie de macroarquitetura do social, aparece em certos enfo-
ques como correlato de uma "tendência" evolutiva. Assim August
Bebel, pensador socialista do século passado, dizia, em seu livro
sobre o futuro da mulher, que a vida social no futuro será
crescentemente pública, alterando inclusive a posição das mu-
lheres: a viela doméstica se reduzirá ao mínimo, cedendo lugar a
largos espaços para leituras, debates e atividades sociais6
•
Ao "publicismo" abstrato elas utopias corresponde o fato ele
serem em princípio a-(ou anti) históricas, sendo em certo sentido
conservadoras. Nelas se congela uma dada forma de ordem como
sendo ideal e imutável. Mas se trata de um conservadorismo
abstrato, que não se confunde com o conservadorismo romântico
nem com os tradicionalismos pós-românticos: nestes se valorizam,
precisamente, o lastro histórico e o cerne privado da vida elas
comunidades. No conservadorismo propriamente dito, que não
abjura da evolução mas tenta conjugá-la com a preservação do
estável, há uma peculiar permanência da dimensão privada, vin-
culada historicamente a algum traço residual do feudalismo, e de
qualquer sorte não redutível ao racionalismo dito burguês, analí-
tico em vez de sintético e universalizante em vez de particularista.
Ficou dito, acima, que as utopias têm algo de narrativa
mítica. Isto se aplica inclusive aos relatos messiânicos, inclusive
os que falam de terras da fartura, com rios de leite e de mel. Elas
têm realmente um lado religioso, e dele decorre o hierático
dogmatismo que se encontra descrito nas utopias literárias: em
Campanella, por exemplo, o poder supremo do "Metafísico" equi-
valia à existência de verdades indiscutíveis e de preceitos gerais
inquestionáveis. Verdades sagradas: algo genérico, infenso às
r efrações da vida privada, das dúvidas, do diálogo e da "opinião".
Podemos ver como pólo oposto o conceito variável ou pelo menos
"relativo" de verdade, advindo da dessacralização, expresso
como empirismo no iluminismo inglês e como criticismo na
filosofia de Kant.
G. Vomall i11 lhe Past_ Preselll Glui Future, trnd. A. Walther, 3• ed., Londres W. Rccves, s. ri., p.
221.
predomínios, é en
duas dimensões de ~
concreto e imerua o
projeção de planos
equilibradora, os d.
deveriam ser comp:
tir dos grupos h
mana. Mesmo porq
equilíbrio. Na medi
se entende como
vo reportar-se aos
clássica e do "Ociden.
nítida e persuasr·...-
Média Cristã (e ta=
to.
=....s -~opias literárias: em
~ do ·~retafísico" equi-
...se de preceitos gerais
senérico, infenso às
diálogo e da "opinião".
- ~..-!á,·el ou pelo menos
~alização, expresso
- t: como criticismo na
el.Londres W. Rccves, s. d., p.
13. ABURGUESIA, OLIBERALISMO E
0 PROBLEMA DO EQUILÍBRIO
O que se depreende de tudo isso, no meio de oscilações e de
predomínios, é entretanto a permanência da distinção entre
duas dimensões do viver: a que circunda o indivíduo como algo
concreto e imediato, e a que se estende ao seu redor como
projeção de planos mais amplos e mais complexos. Em uma visão
equilibradora, os dois modos (para usar um termo spinoziano)
deveriam ser complementares, sendo ambos necessários ao exis-
tir dos grupos humanos e ao desenvolvimento da condição hu-
mana. Mesmo porque as formas de vida são sempre formas de
equilíbrio. Na medida em que a distinção entre público e privado
se entende como uma constante histórica, será sempre ilustrati-
vo reportar-se aos momentos mais exemplares da antigüidade
clássica e do "Ocidente", nos quais aquela constante se apresenta
nítida e persuasiva: nas cidades gregas e romanas, na Idade
Média Cristã (e também entre árabes e persas), no Renascimen-
to.
No Renascimento, entre as coisas que se retomaram do
acervo cultural greco-latino, ressurgiu por exemplo o tema da
comparação entre a vida social e a vida solit ária. Sêneca havia,
...#'
"". --
!)0 O JARDIM E 11 PRAÇII
em varias de suas Cartas a Lucillius, tratado do assunto em
termos de elogio da solidão e de desestima ou desprezo da
multidão e mesmo dos grupos mais restritos. E Pierre Charron,
em seu livro de ensaios chamado De la sagesse (publicado em
1601), comparou as duas formas de vida, a solitária e a social,
advertindo contra as "más companhias", e distinguindo entre os
contatos moderados, que são úteis, e os excessos que dizia platô-
nicos, consistentes em ter tudo em comum1•
O Lema da oposição entre vida social e vida solitária é
paralelo, digamos assim, ao da complementaridade entre vida
pública e vida privada. A vida privada, que também tem uma
estrutura, se desenrola em espaços específicos, onde o humano
se concentra em conexão mais direta com o eu individual e onde
o eu se cultiva através de conexões culturais concretas e pes-
soais. Coloca-se nesta esfera o fenômeno milenar do residir,
obviamente ligado à casa- a casa e seus espaços, a propósito dos
quais citamos mais acima o conhecido livro de Bachelard. Na
esfera oposta, a do viver público, paira a existência grave e oficial
das chamadas instituições; as instituições ordenam o conviver,
assumem o lado "genérico" da experiência humana e dão ao
"social" o seu perfil peculiar. A filosofia de Heidegger, que subli-
nhou o tema da "vida autêntica", contemplou também o conceito
de morar (wohnen) como componente fundamental do estar no
mundo. O viver privado possui obviamente algo de centro e de
refúgio, essencial referência posta entre o indivíduo e a "realida-
de" - cósmica, social, pública. Mas a vida histórica evidentemen-
te não ocorreria sem a existência ela esfera pública, embora seja
certo que ela também inclui o viver privado: na esfera pública se
acham as definições sociais fundamentais, com o poder e seus
símbolos, as hierarquias, as edificações, as distâncias rituais, e
isto desde Ur e Ugarit até Atenas e Esparta, Roma e Cartago,
França e Inglaterra. O lado público, na medida em que recorta
o "social", define e abriga os chamados papéis, que o homem
desempenha e que inclui seus ídolos (no sentido baconiano),
destacando-se os idola fori, as representações inerentes a cada
contexto social (ou profissional).
1. Séncqnc, Lcllres à Lucillius, trad. F. c P. Richarei, cd. hilingiic, Paris, Carnicr, s.d., passim; P.
Cluwron, De la Sabidurla, lrad. Elza Fabcrnig, D. iires, Losadn, 19~8, caps. L c LI.
O liberalismo e
críticas ele todas as~~
com o relativismo 'i
Denunciada por ?I
lismo, repudiada po!"-
valores criativos, a :..
gem central do vas~.o
a permitir o aclven'L..:.
de Marx e o de Nietz3
dito, o de Kant, corr.
detestado pelos naz~
que apesar de tudo
a idéia de Estado-de-
os diferentes ismGS
Hobbes, em torno
Não cabe confuncEr
referiu-o como pos~
muiLo tempo), com
simples ideal econ
seja dito de passag
servem a muitos r
imperialismos bem
Foi por assim
de liberal vigente!l '
ordem pública e o~
forma recusar a e.sf
todo comando exte..-
de Stirner quantc
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- ::: que o homem
A 13URGUESJA, O LIBERALISMO... 91
O liberalismo e a burguesia, sobre os quais têm caído
críticas de todas as procedências, tiveram o que ver, entretanto,
com o relativismo que nos permite hoje repensar tudo isso.
Denunciada por Marx que a confundiu sem mais com o capita-
lismo, repudiada por Nietzsche que nela enxergou a negação dos
valores criativos, a burguesia constituiu na verdade o persona-
gem central do vasto processo de secularização cultural que veio
a permitir o advento de todos os criticismos modernos, não só o
de Marx e o de Nietzsche mas também o criticismo propriamente
dito, o de Kant, com suas conotações específicas. O liberalismo,
detestado pelos nazistas como despolitizante e pelos socialistas
que apesar de tudo aproveitam dele o esquema constitucional e
a idéia de Estado-de-Direito, ensejcu a abertura relativista para
os diferentes ismos que se acotovelam, desde os tempos de
Hobbes em torno das indagações basilares da teoria política.
Não cabe confundir o liberalismo propriamente, o que está den-
tro da valorização da liberdade desde os huguenotes (Ortega
referiu-o como posição demasiado elegante para manter-se por
muito tempo), com suas "implicações" capitalistas ou com o
simples ideal econômico da livre concorrência. Nem tão pouco,
seja dito de passagem, com as alegações "neo liberais" que hoje
servem a muitos para aderir a regimes autoritários ou aceitar
imperialismos bem armados.
Foi por assim dizer implícita a busca, dentro da mentalida-
de liberal vigente nos dois últimos séculos, de um equilíbrio entre
ordem pública e ordem privada. Ao anarquismo coube de certa
forma recusar a esfera pública, com a rejeição a todo governo,
todo comando externo ao indivíduo: tanto no exacerbado egoísmo
de Stirner quanto no exagerado antiestatismo do entretanto
liberal Spencer. Aos socialismos coube enfatizar o lado público
das coisas, ao dar destaque aos problemas econômico-sociais
(vimos como Bebel anunciava o advento de uma época en: ~ue o
viver público seria dominante). Interrompida a tra)etona do
liberalismo iluminista, pelas coisas advindas da Revolução
Francesa e pelos tumultos sociais do século XIX, ficou faltando à
experiência histórica do Ocidente contemporâneo ret omar a ten-
tativa de equilibrar nos seres humanos a carga privada e a carga
pública - cargas e encargos.
....11'
92 O JARDIM E A PRAÇA
Mais sobre o liberalismo. Na medida em que a tendência do
esquema político liberal foi no sentido de eliminar os "corpos" e
as "ordens" postas entre o cidadão e o Estado, ele sublinhou o
confronto entre o perfil privado e o perfil público dos homens.
Com o tempo, deslocadas as linhas clássicas, ressurgiram corpos
de outra espécie - basicamente grupos econômicos - , e se des-
montou o desenho que o liberalismo havia traçado. Em artigo de
revista publicado em 1970, Rolf-Dieter Herrmann tentou articu-
lar o problema do chamado domínio público com o tema da
estrutura sociopolítica das democracias ocidentais contemporâ-
neas, acentuando o desaparecimento do confronto entre o indi-
víduo e o Estado ("a silhueta do homem privado ousadamente
levantada em face do Estado"), que teria ocorrido nos tempos da
Revolução Francesa2
• Para Hermann, a alteração histórica en-
volve, no caso, uma revisão da própria experiência do poder, e
também da noção do que seja público: para ele, o marxismo teria
ensejado uma excessiva ampliação do "público", dissolvendo a
própria diferença entre o social e o estatal, e também repudiando
o ideal liberal de discussão.
Realmente caberia reexaminar o papel social ou antes his-
tórico dos grupos e dos "grêmios", mediadores entre o ponto de
referência da vida privada, o indivíduo, e o amplo horizonte ela
vida pública, composto pela ordem política geral (estatal e mes-
mo internacional). Os grupos, que reuiennent au galop logo que
podem, invadem a sociedade e dão no "organizacionismo", que
William White estudou e que m encionamos acima. A reflexão
sobre o assunto nos encaminharia, entretanto, a rever os chama·
dos processos de socialização, nos quais interfere a presença dos
grupos - e grande parte da sociologia norte-americana neste
século surgiu como "sociologia dos grupos" -, e nos quais o
indivíduo, como ponto de referência, se comunica com esta coisa
meio abstrata que é a genérica "sociedade". Por outro lado o
assunto nos conduziria de novo ao tema elas grandes massas
urbanas, que vimos mencionando, com o agravante dos pavoro-
sos aumentos de população por toda a parte; e ao tema da crise
das formas seculares de vida, crise da qual surgem expressões
as mais variadas.
2. "Vie publique- Vie privéc", con Diogéne, Paris, n. G!.l, jan.-mar., 1.970.
•
, BCJ
Como entendemos 7:-
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3. Cf. L. llcynolds e N. Wilson, &
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I~L--~.J::-. Por outro lado o
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:::ra'"ante dos pavoro-
e ao tema da crise
A BURGUESIA, O LllJERJLISMO... 93
Como entendemos burguesia não no apertado sentido de
classe responsável pelo capitalismo e pelas estruuras de domi-
nação que ensejou e enseja, mas no de tipo histórico que- sem
deixar de ser "classe" - protagonizou no Ocidente (como de certo
modo no mundo antigo) o processo de secularização da cultura,
podemos estimar na presença histórica da burguesia uma busca,
correlata daquela que estava ínsita no credo liberal, de equilí-
brios muito peculiares. Por exemplo o equilíbrio entre Estado
nacional e cosmopolitismo (estudado por Meinecke em obra
clássica), o equilíbrio entre racionalidade e sentimento, que
aparece sob versões diferentes em Rousseau e em Goethe, ou
ainda o equilíbrio entre praça e jardim: entre a dimensão pública
e a dimensão privada.
Não se pode negligenciar com um piparote o sentido assu-
mido pelo trabalho intelectual dentro dos contextos dominados
pelo sapere aude de origem iluminista e de base burguesa -
dentro do sentido em que entendemos acima o conceito de bur-
guesia. A própria noção de "trabalho intelectual" só seria possí-
vel dentro de conotações laico-racionais do tipo das que surgiram
nos séculos ditos modernos, ou na Grécia a partir da geração de
Sócrates. Sabe-se que o nobre, ao desdenhar o trabalho, desde-
nhava inclusive o trabalho intelectual: na Idade Média os cléri-
gos é que, em geral, se dedicavam a copiar manuscritos e a
repassar informações, tanto que a eles se deve em grande parte
a permanência dos textos antigos3
• Sabe-,se também que o aris-
tocrata grego, mesmo que apreciasse poemas de Arquíloco ou
obras de Fídias, não se "rebaixaria" a escrever versos ou a
cinzelar pedras, e Nielzsche registrou isso em um passo famoso
de seu fragmento sobre o Estado grego. A perda, na modernida-
de, da hierática atitude do nobre diante do mundo, foi compen-
sada de algum modo com a possibilidade de se compreender
historicamente as atitudes, coisa que por parte do nobre hierátíco
teria sido impossível. Com isso aludimos ao relativismo, que veio
crescendo por dentro do pensar moderno, laico-racional e críti-
co-comparativo, um relativismo que se opunha aos dogmatismos
também hieráticos e que se expressaria depois, já sobretudo no
começo do século XX, nas tipologias: psicológicas, sociológicas,
3. Cf. 1•. n cynnld• ,, N . Wilson, Scribes and Scholors, :t' e<.l., Oxforc.l, 1!)8•1, jJUSSi lll.
94 O JARDIM E A PRAÇA
teórico-políticas. Aquele "saber classificatório", que Foucault
divisou nos começos da modernidade e que era ainda um uso
descritivo da razão, evolui com o relativismo até o pensar tipo-
lógico, que representa um uso moderador da faculdade de julgar.
Dentro da alusão à cultura burguesa - incluindo nela as
roupas do século XIX e as ambigüidades bovaristas -, vai aqui
uma nota sobre o problema da educação. Sempre ocorreu na
história uma opção, expressa sob várias formas, entre a educação
privada e a pública, aquela representada principalmente pela
família e esta pela "escola", mormente a escola pública. Em um
breve e notável ensaio, incluído em um volume coletivo sobre
problemas de população, André Mnurois aludiu de modo muito
convincente (a não ser para os que detestam a priori a noção de
"elite") e muito oportuno o problema do humanismo, que segundo
ele só se mantém através da continuidade das gerações e dentro
da estrutura da família, ligada à comunidade. Os séculos onde
se cultivou o humanismo clássico for;:~m épocas de cidades peque-
nas, onde havia espaço para o convívio e tempo para a leitura1
•
Descontado destas frases um possível saudosismo, permanece
válida a sensação de perda que Maurois quis expressar; pois
também cabe pôr de lado o preconceito anti-elite e perceber que
a grandeza criadora foi mais forte e mais fecunda nos tempos
onde não havia superpopulações e onde as estabilidades sociais
permitiam uma maior maturação das coisas.
Mas tratemos de novo do tema da tendência do espírito
burguês (na medida em que isto existiu ou vem existindo) ao
equilíbrio entre os lados privado e público do viver. Vale repetir
que o conceito de burguesia aqui conotado não é o mesmo que
aparece na literatura socialista hoje largamente esparsa e em
grande medida criada por cissiparidade em relação aos textos
anteriores, sem maior repensamento crítico. Valeria também
fazer constar que não nos referimos, ao falar em equilíbrio,
àquela idéia - típica nos "clássicos" e peculiar em Aclam Smith
- segundo a qual os interesses elo indivíduo e os ela coletividade
se equivalem (ou se complementam), na medida em que a divisão
1. IC:n, As l'ressõesdn.l'opulaçiio,org. por F. Osborn, trad.J .•f. Farias, l{io dcJanbiro, Zahar, 19G5.
do trabalho atende a
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- s,RiodeJaneiro, ~ahar, 19G5.
A BURGUESIA, O LIBERALISMO... 95
do trabalho atende a todos. Esta idéia contudo revela, mesmo
tendo algo de ilusório, aquela tendência básica a que aludimos.
Um dos equívocos mais insistentes em torno da idéia de
burguesia vem sendo o de considerá-la como uma classe social
que "sucedeu" à nobreza como grupo dominante, e que vem assim
dominando o operariado, que por sua vez lhe sucederá. Trata-se
de um eco elas visões triáclicas que sempre fascinaram os ho-
mens, e dos específicos triadismos que o século XIX formulou
para esquematizar a evolução. E este equívoco se articula com
vários outros. Marx entretanto tratou de pelo menos três modos
diferentes o problema de como enumerar e caracterizar as clas-
ses, e a sociologia posterior situ ou o fenômeno "classe" como um
dos modos de dar-se a estratificação social.
Historicamente, a burguesia não "sucedeu" à nobreza (aris-
tocracia) como "classe dominante": até porque esta nunca foi
classe no sentido restrito do t ermo. Não houve "dominação" da
nobreza sobre a burguesia, e sim sobre a plebe - tanto na
antigüidade quanto na Europa ocidental - , o que é outra coisa.
O chamado mundo burguês, cujo início correspondeu ao declínio
elo feudalismo e cuja ascensão foi paralela à do capitalismo, vem
sendo o mundo ela cultura urbana e clessacralizacla. Somente o
economicismo que se instaurou na vida contemporânea (na vida
e na m entalidade), permitiria pensar-se no capitalismo como
centro e causa geral ele fenômenos como "burguesia", "laicização"
e outros. Vem daí a acepção ele burguês como sinônimo ele
capitalista. De sorte que noções como burguesia e capital foram
criação elo próprio "mundo burguês", ou seja, o mundo elo racio-
nalismo moderno. Do mesmo modo as versões modernas ela
dialética, e os conceitos ele revolução e de proletariado.
Hegel tratou da famüia e ela viela privada nos §§ 158 e
seguintes da Filosofia do Direito (de Berlin, ou seja: as Grundli-
nien de 1821). O fato de t er o filósofo mencionado a família como
"substancialidade imediata do espírito" n ão o impediu de, no
concernente ao Estado (§§ 258 e segs.), repelir todo privatismo,
inclusive criticando na teoria política de Rousseau a presença do
componente contratual, a seu ver privatizante. De qualquer
sorte H egel herdou ele Rousseau a questão ela dualidade existen-
te entre o indivíduo (o "burguês") e o cidadão, correspondente ao
dilema entre pertencer à dimensão privada e à pública. O pen-
"'-
!)(i OJARDIM EA PRAÇA
sarnento de Hegel vai aqui referido porque, de certa maneira, a
dialética das relações entre o espírito objetivo e o espírito subje-
tivo, dentro do sistema hegeliano, poderia comparar-se a uma
teoria da dimensão pública e da dimensão privada, pois o Direito
e o Estado são, para Hegel, manifestações da Idéia objetiva. Mas
não nos estendamos sobre isto: vale remeter, de passagem, a
uma nota muito interessante do livro de Gérard Lebrun, O
Avesso da Dialética5•
Com freqüência se exagera ao acentuar certos aspectos da
época moderna e dos séculos ditos burgueses. É como se o mundo
medieval tivesse sido carente de "espaços", de "racionalidade" e
de outras coisas. Há entretanto alguns traços que caracterizam
o advento da racionalidade pós-renascentista, coligada à secula-
rização e a uma idéia peculiar de Estado: acaba-se inclusive o
sistema oficial de privilégios, e com ele a educação aristocrática,
islo é, a educação dos aristocratas. Mencionamos acima o am-
biente burguês-comercial, que foi o de Viena em meados (ou na
segunda metade) do século XIX e que vem referido no capítulo VI
do livro Viena Fin-de-Siecle de Carl Schorske (aliás intitulado,
sintomaticamente, A Transformação do Jardim): um ambiente
mais prosaico e menos hierático- ou menos vertical- do que os
contextos aristocráticos, mas povoado de vivências novas, inclu-
sive de novos espaços.
De qualquer sorte os modos nobre e burguês, tornados,
através dos processos históricos, modelos genéricos (que no caso
do nobre tem sentido quase arquetípico), podem encontrar-se,
fragmentariamente ou em forma de detalhes, expressados em
diversos pontos da vida contemporânea, através de valores,
padr ões e atitudes que não se reduzem ao conceito de classe.
A noção paradigmática e arquetípica de nobre continua em
vigência dentro das formas de estimação e de linguagem, desig-
nando atitudes e qualidades: caráter nobre, gesto nobre, inten-
ção nobre. A noção se acha penetrada por conotações como
"desinteresse", "altaneria", "retidão", "altivez" e outras. Entre-
tanto há, na configuração da idéia do nobre - ou do aristocrata,
que aqui usamos como sinônimo - um aspecto que Ortega fixou
5. 'l'rad. 11. J . Ribeiro, São Paulo, Companhi" da~ Lctrns, ID88, p. 311. Sobre Hegel, v. também
,José Guilherme Mcrquior, O ArgumentoLiberal, Hiodc J nnciro, Nova Fronteira, Hl83,passím.
e que, ao menos em_
Ortega, o n obre é se
nos revelam o contra_,
o nobre atribui (ou
quando, referindo-se
gostava de piadas c.:.
Hamlet, no monólo-g-
nobre", enfrentar am
a esta por uma atiru
(a velha hybris greg::.
Este desdém d:; ~
da, embora se tra:e
romanos mais aust.e.::
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Eco, logo no prefác~o
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de certas nobrezas .i
o sentiram os româ!:-
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brio, próprio do laic•,
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referido no capítulo VI
~ke aliás intitulado,
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podem encontrar-se,
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por conotações como
vez' e outras. Entre-
:::re - ou do aristocrata,
-" que Ortega fixou
• p. i i. Sobro llc{;'cl, v. t.nmhém
~ .1 Fronteira, 1983, JXIBSÍm.
•
ll BURGUESIA, O LTDERALTSMO... 97
e que, ao menos em parte, talvez corresponda à realidade. Para
Ortega, o nobre é sempre "duro, sombrio, caçador". Estes traços
nos revelam o contraste com a "frivolidade" e a flexibilidade que
o nobre atribui (ou atribuía) ao plebeu. Recordemos Hamlet,
quando, referindo-se a Polonius, dizia ser este um velho tolo, que
gostava de piadas chulas e de gigas grotescas. Aliás o próprio
Hamlet, no monólogo famoso, refletia sobre o que seria "mais
nobre", enfrentar o mundo e vencer a adversidade ou sobrepor-se
a esta por uma atitude indiferente, que não permitisse mistura
(a velha hybris grega!) com coisas inferiores.
Este desdém do nobre pelas garrulices "plebéias" nos recor-
da, embora se trate de outro plano, o desdém com que certos
romanos mais austeros aludiam ao amor dos gregos pelas dan-
ças, pelas festas e pela alegria: greculus histrio6
•
De todos os modos parece comum, em certas épocas, o
conflito entre atitudes (ou entre Weltanschaungen) gerar posi-
ções como o do nobre "sombrio". Assim encontramos em Umberto
Eco, logo no prefácio de Apocalípticos e Integrados, junto com a
alusão ao contraste entre a cultura de massa e o crítico apoca-
líptico, a referência à atitude deste, que "opõe, à banaHdade
imperante, a recusa e o silêncio". Silêncio que terá sido, por parte
de certas nobrezas destronadas, a resposta à adversidade, como
o sentiram os românticos desde a primeira hora e como expres-
sou Vigny no verso famoso:
Seulle silence est grand, tout le reste est faiblesse.
Mas retornemos outra vez ao tema da tendência ao equilí-
brio, próprio do laicismo a cujo processo histórico corresponde no
Ocidente a presença do burguês. Este equilíbrio por vezes apa-
rece como algo demasiado prosaico, algo insípido, e disso se terão
apercebido aqueles que no começo do século passado acusaram
os burgueses de carentes de espírito. E a isso corresponde tam-
bém, de certo modo, o fato de a economia burguesa ter criado a
contabilidade empresarial e as técnicas orçamentárias: o modo
6. D.ll. Lawrence, uus pti.ginus sobre sua vingCln oos sítios arqueológicos de Ccrvctcrl, observou
quo os romanos tcrio m sido urna espécie de "prussiAnos"da nntigüidade, aos quais desagradava
(como aos historiadores tipo Mommscn) a vida "vício.n" dos etruscos:D. II. Laummcc a11dituly,
Pcnguin Books, 1972, parte 3, "J,;trnsctln Placcs"
• 4
!18 O JARDIM e A PIIAÇA
de viver dito burguês seria no caso um constante evitar riscos, e
como a .vida é feita de riscos ela perde em substância com os
excessos de cautela.
Uma via)ante, Karen Blixen, refletindo sobre os africanos,
observou certa vez que a compreensão do trágico só existe nas
autênticas aristocracias e no verdadeiro proletariado: o trágico
aparece, para este e para aquelas, como parte da vida e até como
parte de Deus, enquanto que para a burguesia o trágico é algo
des~gradável, algo a ser evitado. Encontrei isto citado em um
livro de Guillermo Floris Margadane. Se afastarmos da obser-
vação o equívoco esquema "nobreza-burguesia-proletariado", po-
deremos aceitar o registro como basicamente válido e
surpreendentemente interessante. Na verdade, o que ocorre é
que a secularização da cultura veio a apagar nas sociedades o
patlws aristocrático-religioso, que é requisito do trágico (e que o
foi concretamente no caso dos gregos), trazendo crescentemente
o predomínio das formas menos "heróicas" de vida- isso pionei-
ramente Vico percebeu - e entronizando a padronização cultural,
jurídico-política e econômico-social. Padronização que acarreta-
ria o pragmatismo, o utilitarismo e o imediatismo do mundo de
hoje.
Feitas ou admitidas estas ressalvas, mantemos todavia o
mérito da valorização do equilíbrio, existente no "espírito" bur-
guês na medida em que tal espírito é uma realidade histórica.
Muitos autores, que sem mais aquela combatem a burguesia,
confundem o seu conceito com o dos freqüentadores de café-con-
certo do século XIX, ou o dos que iam ao jardim do Luxembugo
procurar grisettes e lorettes8• Estes segmentos da sociedade con-
temporânea participam entretanto do modo laico-burguês de
vida do mesmo modo que o trabalho científico, cujo mérito nin-
guém nega, ou os progressos da higiene, dos quais se beneficiam
os próprios detratores da burguesia.
É certo, entretanto, que opadrão burguês de pensar, mesmo
se o entendemos em sentido positivo, corresponde sempre a algo
"não extremado". Assim o teríamos mais em Montesquieu do que
7. lntmducciónalallistoria UniuersaldelDerccho, Xalapa, México, Ed. Uni v. Vcracruzana, 107•1,
p. 4G5.
8. Cf. Cuide eles Plaisirs de l'aris, l"ouvcllc Eclition, Paris, s.J., pp. 210 c ss.
A
em Rousseau, coma
que em Platão, e de
Agostinho. Não se~~
radicais e criadoras
montaram esquemas
estes esquemas n~
combinar-se com form
subseqüentes, dota
maior adaptabilidade
observar que o pleito
de coadunar-se com a
sentido do "público
lução Francesa se :
clássica divisão rom -
do-se este sobre o :~
sobre o Direito Nat..
vez à tendência do ..
pressaria inclusiYe
sempre alegado "ind!
através dos modelos
estéticos no tocante
sentidodo espaço pú'
inclusive ao processo
o advento da democ:-
administração racio~
Ainda dentro do
demasiado amena p
os autoritaristas de ·
que viria eclodir sob~
a planificação. Den:!"C
capitalista, privatiz
keynesiana que tento.u
e o capitalismo, bu.s
planos, adotados na::-
discutir e refazer a.s
•<a~ ~ evitar riscos, e
e= s-o.~bstância com os
~~~~~ente e
~ - de o que ocorre é
.;ar nas sociedades o
- do :rágico (e que o
;a~ão que acarreta-
~._:c......-5'!Ilo do mundo de
:em a burguesia,
:;::-es de café-con-
~ Jo Luxembugo
da sociedade con-
aico-burguês de
Ll:ü" "cracruznna~ 1074,
11 BURGUESIA. O Lll3ERALTSMO... 99
em Rousseau, como em outro contexto mais em Aristóteles do
que em Platão, e de certo modo mais em Tomás do que em
Agostinho. Não se negará a necessidade de ocorrerem posições
radicais e criadoras como as de Platão e de Rousseau, que
montaram esquemas fundamentais; mas aquela criatividade e
estes esquemas necessitaram, para frutificar historicamente, de
combinar-se com formulações complementares ou paralelas, ou
subseqüentes, dotadas de mais flexibilidade pedagógica e de
maior adaptabilidade ao real.
Quanto ao problema da limitação do Estado, formulado
dentro do racionalismo "burguês" pelos liberais clássicos, ocorre
observar que o pleito em favor da restrição do Estado não deixou
de coadunar-se com a permanência, aliás redimensionada, do
sentido do "público". Como se sabe, a obra legislativa da Revo-
lução Francesa se fundou sobre uma espécie de retomada da
clássica divisão romana do Direito em público e privado, basean-
do-se este sobre o legado romano e aquele, ao menos em parte,
sobre o Direito Natural. Neste caso poderíamos aludir mais uma
vez à tendência do "espírito" burguês ao equilíbrio. Ela se ex-
pressaria inclusive no fato de que, enquanto por um lado o
sempre alegado "individualismo" moderno veio realizando-se
através dos modelos domésticos, inclusive com certos requisitos
estéticos no tocante aos interiores e aos trajes, por outro lado o
sentidodo espaço público se desenvolveu exemplarmente, ligado
inclusive ao processo de reformulação das práticas políticas, com
o advento da democracia, das técnicas eleitorais, dos ismos e da
administração racional contemporânea.
Ainda dentro do tema dos "limites do Estado" (expressão
demasiado amenrt para o anarquismo radical e inaceitável para
os autoritaristas de todos os matizes), vale referir uma questão
que viria eclodir sobretudo nas décadas 30 e 40 de nosso século:
a planificação. Dentro da própria área de influência da economia
capitalista, privatizantc, e em parte sob O< impacto da doutrina
keynesiana que tentou abolir a incompatibilidade entre o Estado
e o capitalismo, buscou-se um modo de adaptar a idéia dos
planos, adotados na União Soviética desde os anos 20. Buscou-se
discutir e refazer as lindes entre o chamado setor público e o
setor dito privado: alguns autores em matéria de finanças públi-
•.1"
100 OJAJWI/11 E 11 PRIIÇA
cas chegariam a negar a separação tradicionalmente existente
entre os dois.
No debate sobre planificação, onde entrariam entre outras
figuras Jaspers, Von Mises, Laski, Hayek, destacou-se pela
profundidade de suas análises Karl Mannheim, grande pensador
(um dos criadores da "sociologia do conhecimento") ao qual certos
professores desavisados e imbuídos de marxismo mal digerido
vêm atribuindo, com azedo tom acusatório, posições "conserva-
doras". Segundo Mannheim, o crescimento das cidades no Oci-
dente moderno incrementou caracteristicamente uma vasta rede
de "negócios carentes de intimidade": negócios em cuja estrutura
prevalecem formas totalmente objetivas, com o advenlo de con-
tratos impessoais, senão anônimos, e com o indivíduo solto
diante (ou dentro) desta vaga coisa que é o "público". O inverso,
portanto, do que havia sucedido no medievo. Daí a preocupação
de Mannheim com as implicações do problema da planificação
em termos de psicologia social, no sentido das alterações sofridas
pela personalidade humana dentro das sociedades planificadas.
Daí seu interesse pelo estudo das relações entre economia e
educação, desenvolvido com base na idéia de que em cada grande
tipo de sociedade predomina um padrão de personalidade, bem
como um modo de afirmação pessoal. Reordenar a sociedade,
planejar e estabelecer coordenadas significará portanto algo
bastante complexo9
•
Aexacerbação do lado público das coisas, no mundo de hoje,
se exemplificará inclusive com o grande porte das organizações
econômicas internacionais, que destruíram as demarcações na-
cionais, realizando em grau ostensivamente extremo- embora
sob formas diferenciadas - o que talvez estivesse latente nos
grandes "impérios" do passado.
Entretanto um dos temas que me parecem mais centrais,
dentro do enovelado de assuntos que perfazem a fisionomia do
"mundo contemporâneo", é ainda o da perda das estabilidades.
É certo, como foi dito mais acima, que as transformações histó-
ricas não poderiam dar-se se as estruturas fossem inquebráveis,
9. Cf. "/ Sociedade Planejada e o Proble1na da Personalidade flumaua", em Ensayos sobre
Sociologiay Psicologia Social, México, FCE, I003.
autoimagem do
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s.sem inquebráveis,
Huu:.ana'', em Ensuyos sobre
A BURGUESIA. OLTBERilJSMO. .. 101
e que toda estabilidade deve ter limites, inclusive os limites que
lhe atribuem a consciência ética e o pensar crítico, que são
obviamente variáveis no tempo e no espaço. Mas é que um dos
aspectos mais dignos de registro, dentro do que se chama de crise
do mundo moderno (ou do "contemporâneo"), é a condição da
autoimagem do homem, formada através de séculos ou de milê-
nios, dentro do quadro de instabilidades hoje existente. A maio-
ria das representações fundamentais, algumas mesmo
arquetípicas, que vieram perfazendo aquela autoimagem, foi
elaborada em épocas em que (ao menos segundo nos parece,
vistas de hoje) predominaram certos traços estáveis: a casa, a
família, as relações de paternidade, a diferença entre velho e
moço, enfim uma série de imagens, valores e preceitos.
Ainda até duzentos anos atrás, mais valores e mais precei-
tos vieram agregando-se. O passar do tempo certamente afeta
as formas de vida, através dos contextos culturais e das organi-
zações de poder; mas uma relat iva continuidade pareceu vir
acumulando-se, feita ele denominadores comuns vindos das mo-
narquias antigas e da Europa cristã. Coisas contrastantes vie·
ram coabitando dentro dessa continuidade, confirmando a
autoimagem do homem. Garantia-a, a esta, a noção latina ele
Humanitas e questionava-a, explorando-a, a legião de arqueólo·
gos e filólogos que a erudição ocidental produ ziu . Valores novos,
fabricados pelo mundo pós-renascentista, e preceitos novos se
agregaram ao conjunto. Mas depois de certo tempo os questiona-
mentos se tornaram maiores, o niilismo tomou corpo, e entroni·
zou-se a noção de crise. Decadência elo Ocidente, saturação elo
espírito secular, crise da burguesia e elo capitalismo ou o que
seja, para quase todos há algo de podre no reino dos seres
humanos.
Voltando aos séculos pós-renascentistas, valerá anotar isto.
Entre os séculos XV e XVII, quando certas formas do mundo
antigo parecem repetir-se - sem entretanto abolição total das
criações m edievais-, e quando se consolidam dentro de vigências
estáveis certos usos, inclusive os que definem paradigmatica-
mente o lado privado e o lado público da vida, é que se iniciam
as grandes movimentações que alterarão os mapas e os usos:
n avegações, alterações culturais, colonialismo econômico. Toda
uma nova Voelkerwanderung, com suas conseqüências no plano
,. .
102 O JARDIM E A PRAÇA
militar, no político, no social, no ético. A partir daí começam a
periclitar as estabilidades. Deve ter sido assim em outras épocas,
como com o surgimento do império macedônio ou com o fim do
mundo romano; só que é este outro desatar-se de resultantes o
que chega até nossos dias, e nos alcança.
Enquanto o ser humano, ao que parece na maioria dos
contextos passados e até mais ou menos o século XIX, se reconhe-
ceu a si mesmo dentro de certos parâmetros (aos quais não teria
talvez trazido grande alteração o advento do "antropocentrismo"
pós-medieval), o século XX introduz nas imagens a dissimetria e
o desequihbrio. O homem mesmo era um parâmetro, inclusive
no sentido das proporções físicas, diante das casas (paredes,
tetos e portas), diante do casaria e das árvores; mas em nosso
século chegaria o colossalismo dos edifícios, com a brutal subs-
tituição dos estilos pelos tamanhos, com os espigões, com a
desmedida. Há nisso por certo uma conexão com o excessivo
crescimento das populações (tema estranhamente mantido como
tabu), com a massificação, com os regimes autoritários, com a
sociedade industrial e pós-industrial, e provavelmente com a
perda de substância por parte da dimensão privada do existir.
Tecnologia, burocratização, violência, ruas sempre cheias. Henri
Lefebvre falou inclusive no cibernântropo, ao tomar posição
"contra os tecnocratas", relacionando-o com a destruição do
humano e com entronização do "consumo de massa". Parecerá
talvez uma cantilena nostálgica, ou uma laudatio temporis acti
colocar tintas tão sombrias nestas alusões, mas realmente a
questão existe e a generalizada sensação de mal-estar não é
infundada.
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14. ALUSÃO ÀEXPERIÊNCIA BRASILEIRA
Observemos agora algo sobre como as coisas se vêm passan-.
do no Brasil. O panorama histórico nos revela, entre gravuras
oitocentistas e folhagens tropicais, o perfil patriarcal da vida
privada, que pareceu-, ao menos- predominar sobre as longín-
quasausteridades da ordem pública. Cita-se então, por parte de
diversos autores, a fan1osa frase do viajante: "neste país nenhum
homem é república". A frase, por debaixo da qual perp assa um
grifado normativo, indicaria que o país deveria ter tido mais
líderes com "espírito público" (ou com dimensão maior), para que
o viver nacional se tivesse estruturado como projeto. Seja permi-
tido repetir aqui o persuasivo conceito ortegueano, talvez old
fashioned mas não desaplicável, segundo o qual uma nação é
sempre um projeto vital.
O reparo do encasacado turista do século XIX pode certa-
mente ser completado com registros mais recentes. Por exemplo
algumas páginas sutis e perenes de Sérgio Buarque de Holanda
em seu Raízes do Brasil, ou certas par tes do livro de Nestor
Duarte, A Ordem Privada e a Organização Política Nacional,
que inclusive analisam as relações entre vida rural e vida urbana
na história social brasileira. Há também alguns relevantes tópi-
cos em Gilberto Freyre, referentes ao desdém do brasileiro colo-
101 O .JiRDIM E J1 PRJIÇ1l
nial pelos espaços públicos, pelo que não fosse o específico recinto
da casa de moradia e suas adjacências imediatas: inclusive no
plano da higiene, vez que o lixo - inclusive algumas formas
terríveis de lixo - era jogado à rua (ou ao rio) sem nenhuma
cerimônia e sem nenhum respeito ao que fosse público, comunal,
de todos. No capítulo II de Sobrados e Mocambos, o grande
escritor caracterizou entretanto o lento trifundo da praça, no
sentido ela viela urbana, sobre o engenho ou sobre a viela ele
engenho. O triunfo da praça, isto é, da vida urbana, foi correla-
iivamente o da rua, isto é, da viela em espaço público: a rua teria
inexistido dentro do engenho, isto é, dentro da área específica de
dominação da família patriarcaL A este fenômeno, próprio do
século XIX, teria porém corresponcliclo, segundo Gilberto Freyre,
a existência (em contrapartida) de um viver mais de casa do que
de rua no sentido da concentração ele elementos culturais pecu-
liares.
O tema é vasto, e com ele navegaríamos por águas antropo-
lógicas, sócio-históricas, histórico-políticas. Imaginamos a figu-
ra dos heróis fundamentais ele outros contextos, inclusive os
fundadores de cidades- ou ele comunidades nacionais- e encai-
xamos sobre o modelo nossos figurantes históricos, a ver se
resulta algo no sentido clássico de transcender a privacidade. O
combate contra a concepção elo "herói na história", empreendido
por certos entusiastas elo coletivismo, despercebeo fato de que o
herói, n este sentido "fundante" (como Numa, como Meroveu,
como Bolívar), se identifica justamente com os traços mais gené-
ricos e mais "públicos" ela comunidade. E por isso mesmo não
exclui o lado social, grupal, do processo histórico; antes existe
com ele.
Pois encaixamos sobre esses modelos clássicos, carregados
de exemplaridade, os nossos Bonifácios e os nossos Canecas: eles
são certamente admiráveis, mas não convencem de todo como
criadores de um ethos político, porque o palco é vasto demais (um
país enorme e heterogêneo) e porque o movimento cênico é
excessivamente desigual em ritmos e em direções.
De certa forma o problema do privatismo brasileiro, que se
prende ao "personalismo" ainda hoje perceptível, deverá ser
entendido em conexão com fenômenos idênticos, correntes em
lhismo político, pa:'"
sa e descontínua p
como tal.
Por outro lado.
Brasil, uma vida p1i?_
se ocorrido a verte::::-
mos vivido a order::
menos no sentido de
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colonização e no p.:>""
Há de qualque
privatismo (o giga!"
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exemplo este para.d.
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semana, assassma·
violento), e que en_
Não o tem em ge:- ·
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tamento com a m.J.::
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especiais).
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se - , com a perm~-6
ria social: ainda ho:;
largas partes do •
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ma se liga inclus;~:
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que os adotam, is· ft
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o e::.--pecífico recinto
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.:~ào da praça, no
~ sobre a vida de
I::..:!is de casa do que
~s culturais pecu-
- po:r águas antropo-
~aginamos a figu-
-~s~cos, carregados
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~r=D::!Il de todo como
êvasto demais (um
~ento cemco e
rti"--el, deverá ser
s correntes em
ALUS,iO À EXPERIÊNCIA JJRASTDEJJIA 105
toda a América Latina: latifúndios, famílias dinásticas, caudi-
lhismo político, partidos formados por coalisões pessoais, escas-
sa e descontínua presença do povo e do sentido da coisa pública
como tal.
Por outro lado, vale notar que o fato de não termos tido, no
Brasil, uma vida pública com plenitude não significou que tives-
se ocorrido a vertente oposta. Ou seja, não quer dizer que tenha-
mos vivido a ordem privada em seu sentido fundamental, ao
menos no sentido do modelo clássico. E ambas as coisas, que são
duas carências, elevem ter decorrido ele distorções dadas na
colonização e no povoamento.
Há de qualquer sorte, em torno ela tendência nacional ao
privatismo (o gigantismo de Brasília c ela burocracia nacional é
outra coisa), algumas outras observações a fazer. Vejamos por
exemplo este paradoxo: um povo em que sempre foi uma cons-
tante a violência privada, sob diversas formas (crimes de fim-de-
semana, assassinatos, rixas, facilidade do uso ele armas, trânsito
violento), e que entretanto não tem o hábito da violência pública.
Não o tem em geral, sem embargo de revoluções e de sedições
aqui e ali ocorrentes na história; não o tem no sentido do enfren-
tamento com a milícia nem no da própria disposição revolucio-
náriR (que de resto implica radicalismos e disciplinações muito
especiais).
Podemos evidentemente relacionar o predomínio elo sentido
privado, no país- que, quem sabe, tenderá doravante a alterar-
se-, com a permanência das estruturas feudais em nossa histó-
ria social: ainda hoje essas estruturas continuam presentes em
largas partes do território nacional. Elas não só impedem a
reforma agrária, como se alongam pelos perímetros urbanos,
manipulam eleições no interior e geram impunidades. O proble-
ma se liga inclusive ao hábito muito brasileiro de confundir
instituições com pessoas. Hábito comparável, de certa forma, ao
difundido equívoco de se julgar regimes ou credos pelas pessoas
que os adotam, isto é, pelo viver privado delas: descrer do fat o
de alguém ser comunista por vestir-se bem, elo regime represen-
tativo pela incompetência de alguns deputados, refutar a reli-
gião cristã mencionando padres relapsos. Acrescente-se a isso o
despreparo ou a clesinformação de certos setores, gerando visões
completamente esdrúxulas elas coisas. Como no caso das pessoas
]{)(j O JAIWJM I!: A l'HAÇr1
que pensam que democracia e socialismo significam uma iguali-
tarização absoluta no plano privado, quando o problema da
igualdade tem outro sentido (alguns parecem crer que a "demo-
cratização" consiste em andarem todos de calçajeans e sandálias
de borracha, de preferência os homens com barba para ninguém
resultar diferente).
Foi com as estruturas ainda feudais e com o sentido perso-
nalista das coisas que, no Brasil, esbarrou o ideal iluminista do
cidadão, oriundo da conversão do "súdito" em contribuinte e em
eleitor. Um ideal cujo alcance estaria em ver em cada indivíduo
sua dimensão pública. Um ideal, aliás, basicamente leigo e
urbano; e ao anotar isto passamos a outra reflexão.
A distinção entre vida urbana e vida rural, configurada há
milênios, vigorou na antigüidade e na Idade Média. As primeiras
civilizações foram (ou giraram em torno de) cidades, e o urbano
em sentido específico correspondeu a um padrão qualitativo de
vida ("urbanidade" e "modos urbanos"), sendo o viver no campo,
ao n1enos em certos casos, considerado algo negativo ("rusticida-
de", "vilão"), isto apesar do perpétuo fascínio do bosque e dos
prados sobre a mente humana, e até da imagem do camponês
como gente pura e ainda não corrompida. A partir do surgimento
elas grandes cidades, as pessoas se educam para viver de modo
"urbano" (por ou para viver na cidade). Mas no Brasil aquela
distinção milenar vem sendo desfeita, sobretudo em certas áreas
-o Nordeste inclusive-, onde o empobrecimento e as migrações
carreiam para as cidades levas de pessoas que não têm condições
ele viver adequadamente em um perímetro urbano. O problema
não é propriamente ele classe, nem ele pobreza material apenas,
pois numa cidade como o Rio os sambistas do começo do século
já tinham comportamento urbano (como os fadistas de Lisboa ao
tempo de Eça ou os tocadores ele tango em Buenos Aires antes
mesmo de Gardel).
Não sei até que ponto terão sido estudadas e compreendidas
as razões pelas quais teria faltado ao Brasil, desde cedo, o
sentido daRes pública, seja em que medida isto de fato ocorreu.
Em outros países latinoamericanos a imprensa e a Universidade
surgiram bastante cedo; entre nós (que entretanto tivemos ve-
reanças municipais durante a colônia) estas duas coisas tarda-
ram escandalosame •
além do muito m arc-
clero, que teria sido
gerou uma deforma -
ladas de uma orden:
de si, na colônia, um.a
"nobreza" sempre :o:
(o adjetivo é de Síb""!~
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Europa medieval - .
histórico-social.
Estas carências
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com os sindicatos o~
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leiro. Sem jardins ::::--:!!
influências aclequaG.::.
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duas coisas tarda-
&
AJ.US1lO1i EXPli!UÊNCJA JJRASJLR!RA 107
ram escandalosamente. Talvez tenhamos tido, além disso, e
além do muito marcado feudalismo, um excessivo predomínio do
clero, que teria sido normal em outro contexto e que entre nós
gerou uma deformação das hierarquias eclesiásticas, desarticu-
ladas de uma ordem política correlata. O clero não tinha junto
de si, na colônia, uma aristocracia verdadeira, originária. Nossa
"nobreza" sempre foi uma casta de senhores rurais truculentos
(o adjetivo é de Sílvio Romero), cujo poder, se no sentido formal
teve semelhanças com o de toda outra nobreza - inclusive a da
Europa medieval-, era totalmente distinto quanto ao significado
histórico-social.
Estas carências e estas deformações convergem para difi-
cultar a estruturação daquilo que foi modelar na antiga Roma:
a correlação entre um povo com presença contínua na vida
política e uma elite (inclusive a do Senatus) séria e levada a sério.
Retomando por um instante a referência ao fato de haver
faltado aos brasileiros o hábito (e por assim dizer o sentido
institucional) da violência pública, vale reiterar que o sentido da
possibilidade concreta da luta tem com freqüência faltado. Em
um p·aís cuja população vem crescendo em proporções desequili·
bradaras, a consciência de povo não se tem desenvolvido corre-
lativamente. Com o Estado Novo o "povo" foi um lance de retórica
política, inclusive ecoando nas canções "patrióticas" dos anos 40;
nos dezoito anos de duração da constituição de 1946, a pouca
densidade dos debates tornou como que desnecessária a pressão
popular. Com o golpe de 1964, o povo foi um conceito sobre o qual
se fizeram diversas colagens, com slogans oficiais recobrindo a
repressão e a desinformação. E de 1980 para cá a reabertura dos
debates vem en sejando vários equívocos, inclusive com a confu-
são entre as linhas ideológicas (o Pl' dividido, o PC dividido) e
com os sindicatos oscilando entre ascender à representação par-
lamentar e manter a atividade pedestre: de todos os modos a
idéia de revolução ora está com a extrema esquerda ora dá lugar
ao conceito de "ocupar espaços", enquanto a extrema direita
continua pensando no putch como sempre.
Um privatismo sem jardins: dir·se-ia ser este o caso brasi-
leiro. Sem jardins pelo fenômeno da pobreza ou por falta de
influências adequadas. Os jardins dos subúrbios das cidades do
108 OJ;RDIM 1.; 11 1'/liÇA
Centro-Sul se devem claramente a influências européias, en-
quanto no Nordeste as cidades menores apresentam rudes e
singelas moradias quase sem flores, como certas casas de pro-
víncia da parte mais pobre de Portugal. -
Somos diversos "países" - vá o recurso à ambigüidade
semântica -, somos um território exageradamente extenso, e
como referência espacial isto ajuda pouco a aglutinar comunida-
des com senso político homogêneo. Não podemos, e é erro em que
certos autores vêm incidindo, entender as estruturas sócio-polí-
ticas nacionais sem levar em conta os dados do passado; nem
podemos prender-nos totalmente a eles. Por isto é realmente
difícil o trabalho de repensar o problema político (sócio-político)
do país. E é urgente fazê-lo, obviamente, para que se formulem
esquemas onde uma ordem pública complexa e flexível caiba a
todos os "países" existentes no Brasil, sem destroncar-se do
passado e configurando um projeto nacional adequado em termos
de valores e de instituições.
15. oHo_
Regressando a;ora
mos de novo no tema d~
evolução das relações
verdadeiro objeto da
mana, se compõe de aJ.,
e é com est a ressalva
paradoxo veiculado por
naturaleza sino que -:a::i
é: obviamente "antropcl
escrever isto recordo a
Revoluciones: quando •
elaborada, ela passa a _
teve de ser transforma
veio retomando de de
.._,__~""""'- européias, en-
~":"e.sentarn rudes e
CJE:r..as casas de pro-
-.::~ à ambigüidade
____....;;a,:rrente extenso, e
~..-::inar comunida-
....s e e erro em que
=::-*"'..!ttU-a s sócio-polí-
~ do passado; nem
- 2~ é realmente
--- sócio-político)
:a ~:1e se formulem
e .:":exú-el caiba a
2estroncar-se do
~ado em termos
15. 0 HOMEM: CONSTANTES EDUALIDADES
Regressando agora às perspectivas mais gen éricas, pense-
mos de novo no tema do homem: o homem e sua auto-imagem. A
evolução das relações entre esta e aquele constitui a nosso ver o
verdadeiro objeto da chamada antropologia filosófica.
O que ohomem tem feito e tem sido, e o que pensa e imagina
com respeito ao seu fazer e ao seu ser, eis o problem a do qual um
dos tópicos estivemos abordando sob diferentes ângulos. O que
consideramos como "natureza" humana, ou como realidade hu-
mana, se compõe de algumas constantes que são algo h istórico -
e é com esta ressalva ou esta paráfrase que podemos aceitar o
paradoxo veicula do por Ortega ao dizer que "el h ombre no tiene
natur aleza sino que tiene historia". Constantes históricas, isto
é: obviamente "antropológicas", algo que se constata sempre ou
quase sempre em todas as comunidades humanas, dentro de
quadrantes e de época as mais diversas.
Fora disso seria o humano uma simples abstração, e ao
escrever isto recordo a advertência do autor de El Ocaso de las
Revoluciones: quando uma idéia se separa do contexto onde foi
elaborada, ela passa a ser uma abstração. A figura do homem
teve de ser transformada em abstração, dado que cada época a
veio r etomando de dentro (e por cima) dos contextos anteriores.
------------~-----~---------·__j
110 O JARDIM E A PRAÇA
Mas ela sempre constituiu correlativamente uma imagem sen-
sível (se não me engano Jung escreveu que as representações
fundamentais são simultaneamente idéias gerais e imagens
sensíveis), sobretudo se se tem em conta o seu "forro": a noção
de humano. A consciência que os homens possuem de fazer parte
de uma espécie, com caracteres tais e com tal ou qual situação
no mundo, é fruto (mas ao mesmo tempo condição) deste perpe-
tuar-se da imagem do homem, que veio das mais velhas culturas
e vem atravessando épocas e contextos. As alterações históricas
se inscrevem sobre - ou dentro de - um conjunto de traços, nos
quais se delineiam constâncias e inconstâncias. Nesses traços se
entrevê o ser-do-homem, e aquelas alterações são correlato de
uma série de paradoxos e antinomias que terminam por ser
constitutivos do humano. Assim o homem se apresenta sempre
colocado entre isto e aquilo: entre o passado e o futuro, entre
projetos e lembranças, entre ir e voltar, entre tempo e espaço,
nascer e morrer, pequeneza e grandeza, bem como entre paz e
guerra, masculino e feminino, uno e múltiplo, renovação e ruína.
Do mesmo modo entre a casa e o mundo, entre côncavo e convexo,
entre o jardim e a praça. "Colocado", mas por si mesmo, visto que
todas estas são coisas que ele mesmo p1·oduz. Deste modo o
homem se reconhece em seus próprios dualismos, em seus para·
doxos e suas contradições; ele toma estas coisas como demarca-
ções necessárias à compreensão de si mesmo.
Menciono estas dualidades constitutivas, integrantes do ser
do homem (do ser c do estar), para destacar esta bipartição- de
que este texto vem tratando - entre o viver privado e o viver
público. O viver "consigo mesmo" (ou com os seus, como se diz),
e o viver com o grupo, ou no grupo, aliás os grupos: obviamente
o homem é o criador da vida social c os homens são obra dela
(saiamos assim, por um pouco, da pergunta circular).
Para a experiência clássica, isto é, a dos "antigos" e de até
umas tantas gerações, o equihbrio entre esfera pública e esfera
privada se dava mais ou menos deste modo: da famHia partici-
pavam tanto a mulher como o homem, mas somente os homens
participavam do "povo" e da vida pública. Poderia pensar-se, pelo
fato de a mulher "governar" a casa, na expressão romana, sendo
a vida militar e administrativa coisa de homens, que o lado
privado é mais feminino (e o público, masculino), mas a verdade
é que a família não e
que em contextos ou
(tem sido moda citar
lhia os chefes, bem
onde as mulheres f ->7
refiro ao que ficou cc
co-romano e també::::J.
presença o elemento
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-sãü romana, sendo
c;::ens, que o lado
---~ . mas a verdade
O IIOMEM: CONSTANTES E DUIILIDIIDES 111
é que a família não existiria sem o pater. Sabe-se evidentemente
que em contextos outros as mulheres tiveram presença política
(tem sido moela citar tribos onde o conselho das mulheres esco-
lhia os chefes, bem como o caso de certos grupos germânicos,
onde as mulheres faziam parte do conselho de guerra), mas me
refiro ao que ficou como imagem clássica dentro elo legado gre-
co-romano e também posterior. O fato é que com sua dupla
presença o elemento masculino teria tido a incumbência do
equilíbrio - mesmo que isso em certos casos tenha sido só
aparência, e as mulheres tenham exercido influência informal
em certas ocasiões.
Os igualitarismos contemporâneos, trazendo consigo o "fe-
minismo" - em alguns casos ligado ao próprio socialismo -,
ensejaram a participação das mulheres no povo e na vida públi-
ca. Só que, de certo modo, a troco da crise da família.
Mas voltemos aos dualismos. Casa e "mundo" são em ver-
dade espaços, são lugares onde se esLá, são planos do comprome-
timento do homem consigo mesmo e com seus símbolos. Planos
da ação e da linguagem, embora o termo ação caiba melhor, como
bem viu Hannah Arendt, ao plano público. A linguagem de cada
um nasce na casa, mas a linguagem da casa nasce de uma
situação social: eis uma circularidade que pode ser dialética e
pode ser hermen êutica.
Insistamos na alusão ao mundo clássico. Em Roma a expe-
riência dos parques públicos, apesar de certa ambigüidade (eram
jardins, mas alguns eram propriedade privada do imperador)
ensejou a consagração de um modelo de."lazer" que se perpetua-
ria: o dos passeios ao longo de vastos jardins, vastas áreas com
edificações características1
• O conceito de donws como casa par-
ticular, questionado por certos autores, prevaleceu precisamente
em contraste com o sentido público das áreas abertas ao passeio
(certos historiadores citam o gosto de Horácio em deambular
pela Via Sacra?.
Portanto as estampas provindas da antigüidade assinalam
dois componentes característicos: o irredutivelmente privado e
o necessariamente público.
1. l.éon Homo, Nome Império,/~ ~t l'urlmnisme rlons l'nntiquité, Paris, AlLiu :1ichcl, 1071, p. 400.
2. Lc.:-ou 1Tomo, op. cit., passim.
112 OJARDJM E A PRAÇ1l
Referimos, acima, a possível correlação entre o dualismo
dimensão pública/dimensão privada e a diferença, aliás sempre
meio imprecisa, entre o "objetivo" e o "subjetivo". Não é uma
correlação plena, mas os dois dualismos parecem corresponder-
se em parte. Toda a extensa região da subjetividade, indefinível
em suas lindes mas inteligível como alusão, com seu conteúdo de
imagens e de sentimentos, símbolos e representações, pode ser
creditada ao lado "privado", se o tomarmos como recinto funda-
mental das relações que criam a consciência. Há porém que
dar-se um desconto, pois essas relações se ligam ao âmbito
extra-casa, e porque neste âmbito vigoram também símbolos e
representações. Para citar ainda uma vez Platão, aquela corre-
lação foi uma das coisas que percebeu o autor do Timeu. Ele quis
cancelar as oscilações da subjetividade (e da opinião, doxa),
eliminando, para os sábios ao menos, a vida privada. Com isso
resguardava a ciência e a política, resguardando a objetividade
e a coisa pública.
Tudo isso leva a lembrar que, para aludir à "condição" do
homem não basta mencionar o seu estar no mundo (o sempre
citado i'n-der-Welt sein, de Heidegger). É preciso dizer de seus
enraizamentos e de suas constantes universais; da ligação dos
homens a contextos e a urdiduras institucionais: família ou clã,
Igreja ou Guilda, partido ou clube, empresa ou o que for. As
referências que se têm como "valores sociais" c01·respondem sem
dúvida à imagem que o homem tem, em cada época ou contexto,
de si m esmo e da sociedade. Isto é mais ou menos evidente, mas
há que ser sublinhado. Dir-se-á que aquela imagem depende
muito do poder, e portanto corre por conta dos homens que
dominam, mas aqui se trata de representações muito genéricas:
"o homem" abrange tais e tais homens, tais e tais situações, tais
e tais estimações sobre dominação e formação de imagens.
Há valores sociais cuja variabilidade histórica tem que ver
com as alterações ocorridas no espaço público, e também com o
sentido das relações entre a vida pessoal e as instituições. Há
períodos históricos em que uma estrutura político-social comple-
xa, mas flexível, propicia uma vida institucional estável: foi o
que ocorreu em Roma nas melhores fases do Império.
o
Podemos lemo-
igualdade se comp"!'EI
contextos históricos
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.::mal estável: foi o
O 110MEM: CONSTANTES E D UALIDADES 113
Podemos lembrar que valores como justiça, liberdade e
igualdade se compreendem mais adequadamente olhando-se os
contextos históricos, do que apenas revolvendo suas dobras con-
ceituais. Em alguns momentos, o êxito de certas teorizações se
acha ligado à visão histórico-real das coisas, explícita ou implí-
cita: assim quando Locke, refutando Filmer, teve o cuidado de
distinguir entre o poder paterno e o poder político, parecia ter já
na cabeça a concepção racional-burguesa do espaço público, e a
noção laico-moderna da especificidade da ação política.
Tais problemas se referem ao tema do ser social do homem.
O tema veio desde a frase famosa de Aristoteles sobre o "animal
político" e chegou à noção hegeliana de sociedade burguesa, de
onde Marx tiraria sua afirmação - aliás inteiramente válida -
segundo a qual o homem é um conjunto de relações sociais. Na
verdade o problema se encontra posto entre a tentação de regis-
trar as variáveis históricas e a certeza de um núcleo invariável.
O que significa que oscila entre as projeções metafísicas e o
material empírico.
Entretanto, a propósito da condição "social" dos seres hu-
manos, cabe reconhecer que certos aspectos permanecem inde-
cisos. Em El Hombre y la Gente, Ortega conseguiu, com sua
maneira cheia de ziguezagues e iluminações, demonstrar quão
vago permanece, inclusive nos compêndios, o conceito de "socie-
dade". Preferiu ele falar de coisas mais concretas como nação,
lei, estado, a falar de la gente, algo meio intraduzível em portu-
guês (como "people" em inglês ou como "Leute" em alemão),
embora possamos empregar a expressão em certos casos: a gente
diz, toda a gente sabe. Pois Ortega, como aliás ocorreu com
Gabriel Mareei em Les Hommes contre l'humain, distingue entre
o homem e o humano, achando porém que o humano, em la gente,
isto é, nas coletividades (algumas consagradas como nação,
classe, Volhsgeist), existe sem o homem. Pois o homem, para ele,
será sempre o possuidor de uma alma, e de uma concretude vital
definida. Por certo exagerava, mas nos leva a uma advertência
válida: não devemos abandonar o problema, pois ele existe (as
sociologias realmente deformam certos conceitos), nem restrin-
gir o humano ao que está nesta ou naquela dimensão. O "huma-
no" está também nos entes coletivos, e com ele o "homem" - pois
Ortega exagerava -, posto que o homem cria esses entes; como
IH O JARDIM R A PUAÇA
está no indivíduo, cada indivíduo. Está no comício ena imprensa,
nas modas e nas vigências (esta aliás uma expressão orteguia-
na), bem como no homem que almoça em casa, na mulher que
ouve rádio e no menino que apanhou resfriado.
Ficou dito, acima, que toda forma de vida é um processo de
equilíbrio. Pois será pertinente observar, na larga sucessão das
épocas históricas, uma sucessão de buscas de equilíbrio. Nas
crenças, que mesmo consagrando dominações combinam terras
e céus; nos ritos, nas estruturas, nas formas de enumerar e nas
de julgar, temos sempre o homem n ecessitando encontrar pontos
de apoio, pautas, coordenadas. Equihbrio e desequilíbrio são -
quase diria dialeticamente - componentes do viver humano,
momentos do seu ser: como, no romance famoso de Chesterton,
a esfera e a cruz.
Parece que começa a ficar fora de moda, salvo entre espe-
cialistas, aludir à história antiga; mas pensemos por um pouco
na enorme.imaginação dos antigos (babilônios, persas, gregos),
dividindo a noite, medindo o tempo, repartindo o orbe conhecido,
povoando os céus com cavalos e outros animais, e equilibrando
estas figuras todas em uma vasta hermenêutica simbológica.
Neste rico imaginário, que veio até nós dentro de diversos lega-
elos históricos, o equilíbrio das figuras ocorre a troco de deforma-
ções que confirmam o modelo: desequilíbrios que integram e
animam o jogo maior. Com estas alusões podemos dizer então
que o homem, medida das coisas em algum sentido, vem sendo
medido ora pela regra geral ora pelas exceções, ora por um ora
por outro dos componentes dos dualismos que o compõem; mas
ele deve ser medido pelo conjunLo do que tem inventado, e do que
tem sofrido. Tanto o jardim como a praça, tanto a vida interior
quanto os espaços externos são medida do humano.
Aliás as dialéticas modernas têm também um sentido de
equilíbrio: a síntese é sempre uma medida, uma convergência, de
onde se parte para outras negações mas como via para novas
convergências. Valorizar este aspecto, mesmo sem aderir intei-
ramente ao hegelianismo (no qual cabe valorizar sobretudo a
noção de aufheben), será evitar as tendências maniqueístas
latentes em certas doutrinas, e impedir que conveniências par-
tidário-ideológicas trunquem o processo em determinado pont o.
fazem, ou._
com indica -
Deste modo
estampas -
fixem os a à.
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o seguinte: •..
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-=-~ado ponto.
16. FUNDO, PLANTA EPEDRA
Pensar no "ser humano" não deve ser apenas pensar em sua
figura específica, mas também nos complementos e implementes
que, com o passar do tempo, se incorporaram a ela. Eles repre-
sentam coisas que os homens, em grupo ou individualmente,
fazem, ou coisas em que crêem: pensamos a figura do homem
com indicações referentes ao tempo, às paixões, ao trabalho.
Deste modo pensamo-la com armas e vestes, barcos e casas.
Pensamo-la sobre paisagens ou entre paredes, com ou sem árvo-
res, com ou sem instrumentos, inclusive estes instrumentos do
viver que são os "móveis" da casa.
Mas deixemos de lado por um momento os estereótipos das
estampas - o intelectual com livros, o militar com a espada - , e
fixemos a alusão à paisagem, que aqui vai entendida em sentido
amplo, como o fundo sobre o qual se desenha a imagem: claro ou
escuro, rio ou mar, parede urbana ou bosque rural. Quero dizer
o seguinte: há em cada época uma correlação entre a concepção
dominante a respeito do homem (e do mundo) e a estética de sua
figura, que se representa em ligação com determinado tipo de
paisagem. No caso egípcio todos recordam a combinação entre as
figuras de perfil e as colunas hieráticas, com base em forma de
lótus. Nos relevos assírios, a presença ele árvores perto dos heróis
. "'
116 OJ,RDIME A PRAÇ;
(Gilgamesh por exemplo), nivelando a solidariedade da natureza
à imponência do poder. Encontramos plumas e estrelas na figura
das divindades, tanto no caso de Marduk como no dos deuses
aztecas. Encontramos a terra na representação dos ritos de
fecundidade , e na Índia estátuas que Octávio Paz achou seme-
lhantes a árvores1
• Na literatura latina diversos autores têm
estudado a variação dos "lugares" utilizados pelos poetas, desde
a paisagem épica e o locus horridus de certas tragédias ao locus
amoenus e à paisagem idílica da poesia bucólica2
•
Em Bizãncio o fundo dos quadros religiosos foi freqüente-
mente dourado, e este uso passou aos ícones russos. Os pintores
do Renascimento colocaram em certos quadros paisagens com-
plet as - embora nem sempre muito verossímeis - , em outros
apenas pedaços destinados a completar o espaço da tela: as
figuras, roliças e com vestes cheias de dobras, se encaixavam
organicamente sobre o fundo. No século XVIII, Watteau e Fra-
gon~ard inventaram arvoredos elegantes, coerentes com esbel-
tas mulheres e vagos pares perdidos nas margens dos quadros.
Mas o romantismo revigorou as figuras, com cores fortes: alguns
pintores apelaram para o exótico (Delacroix por exemplo), colo-
cando nos quadros leões e palmeiras. Seria a percepção da
expansão do Ocidente- a França com suas colônias-, ou talvez
a antevisão do pluralismo étnico e geográfico que viria com o
século XX. O impressionismo, que diluiu as paisagens no reti-
cente c no indeciso, fez o m esmo com as figuras. O art nouveau,
enchendo as figuras femininas de flores c de ornatos (penso em
Mucha), foi também uma arte de portões de ferro e de escadarias
vertiginosas, sempre com curvas e exotismos: a idéia era conci-
liar a fantasia e o real, as grades das estações ferroviárias e os
florões dos terraços. E por aí segue. Mas, para fazer prevalecer
o tom pessimista, vale aludir às figuras estáticas de De Chirico,
imóveis sobre espaços desolados: não seria difícil relacioná-las à
lonely crowd de Riesman ou às alusões de Chaplin à desumani-
zação do mundo industrial. Isto é sempre meio vago, porém
válido e inteligível.
1. Conjunções e Disjunçóes, São Paulo, Perspectiva, l97!J.
2. Cf. por exemplo Hossana Mugcllcsi, l'aesaggi Latini, Plorençn, Snnsoni, l!J75.
Vago porér:.
bém concluir ::::1
te o curso de n
e o
combinação re-~
fundamentais -.
(ou o cimento ~
folhas que pree..
ligível. Dentro .....
As folhas con• ·
espaços (e res:.a
nuídas como o-r::
tal como nas e.s-
jardins, tal co=.
fc: freqüente-
"' Js pintores
- - em outros
da tela: as
1975.
FUNDO, PLANTA E PEDRA 117
Vago porém válido, como forma de interpretar, seria tam -
bém concluir mencionando o esvaziamento da paisagem, duran-
te o curso de nosso século. Falei, em certa parte deste ensaio, do
desaparecimento dos "reinos" animal e vegetal das representa-
ções da coisa pública, após a implantação das repúblicas contem-
porâneas: pois o esvaziamento da paisagem, nas cidades
modernas ("florestas de cimento" etc.), será um correlato do
fenômeno. Vale interrogar se o mal estar do homem neste século
terá ou não relação com isto: o homem desenraizado de seus
velhos contactos com a madeira e com o couro, compelido a viajar
em veículos feitos de matéria estranha e com vestes de plástico,
entre computadores e robôs. Em torno, a ideologia do êxito e o
espírito de concorrência anestesiam as mentes, para que a an-
gústia não se espalhe e as engrenagens não parem.
Penso entretanto em um trinômio milenar: a pedra, a folha
e o fundo - isto é, o céu remoto ou o espaço implícito. Esta
combinação reúne, sobre um fundo que não interfere, dois dados
fundam entais que são a cultura e a natureza. Ou seja, a pedra
(ou o cimento, a cal, o ângulo pintado), posta pelo homem, e as
folhas que preexistem: a combinação varia, mas é sempre inte-
ligível. Dentro da floresta, ou no vale encurvado, surge a cidade.
As folhas convivem com os muros, ou tentando refazer seus
espaços (e restaurar a floresta primitiva), ou adaptadas e dimi-
nuídas como ornamento. Assim foi sempre o convívio nas praças,
tal como nas estradas - as grandes vias do passado -, ou nos
jardins, tal como nos canteiros e nos nichos votivos. As folhas
preexistem. A não ser no caso das ruínas, e daí o vago constran-
gimento que elas causam: as folhas vêm depois, como no soneto
L'oubli, de Heredia, que assim conclui
L1 !erre m~tcrnelle (...)
fail à chaquc priule111ps (...)
au chapitenu brisC vcrdir une autrc acanthe.
A intimidade do homem com a folha e com a pedra, isto é,
com as plantas e com os minerais, foi sempre a base da formação
de uma série de conhecimentos e de valores, em termos de
relacionamento com a natureza e consigo mesmo, inclusive ao
ensejar a multiplicação de formas. As formas configuram símbo-
• oi(
-- -· ....,...
118 Q,JJIRDlM E 11 PRAÇII
los e orientam a articulação do espírito com a vida e com a
realidade. Orientam, isto é, explicitam e tornam inteligível. No
convívio com vegetais e minerais os homens criaram a medicina
e inventaram as armas, vestiram-se e plantaram. Fizeram colu-
nas e tetos, mediram a terra, atribuíram sacralidade aos bos-
ques, levantaram altares, discutiram sobre os deuses, sobre a
vida e a morte, o tempo e o espaço, o poder e as guerras.
Fixemo-nos na imagem do beiral de telhado, junto ao qual
oscilam folhas coniventes: a obra humana se "acrescenta" ao
dado natural. Violenta-o, se abre clareiras e monta cidades;
dentro destas, entretanto, recolhe de novo a natureza, reduzida,
em forma de jardim. Fixemo-nos também (de novo) na estrutura
das representaçõs da figura humana e de sua sobreposição ao
complemento, tal como aparece nas imagens antigas e nos retra-
tos modernos (uso estes termos reportando-me ao texto de Spen-
gler, incluído na Decadência, sobre "o nu e o retrato"). O
complemento, fundo da imagem ou do retrato, se estende, como
espaço aberto (onde pode ocorrer o referimento à transcendên-
cia), ou se fecha, como recinto cerrado. A figura se acha solta
sobre o mundo ou ancorada em sua privacidade. Acha-se posta
contra uma série de casas ou sentada em uma poltrona: dimen-
são pública ou dimensão privada. No Ocidente, depois do essor
das Universidades e da imagem do Doutor Fausto em seu entu-
lhado gabinete, começou a fixar-se a moda de se retratarem os
intelectuais contra um fundo de livros, de preferência arrumados
em respeitáveis estantes.
A figura humana vem sendo portanto representada em
conexão com complementos plásticos que expressam sua relação
com a imagem do mundo vigente em cada contexto. Isto inclui o
velho sábio oriental identificado com árvores e com rios, e tam-
bém o busto clássico correlato de colunas de pedra, o Fausto
entre reto~tas e pergaminhos, o empertigado estadista do oito-
centos, adepto da ordem, ou então o escritor de nossos dias que
se faz retratar descabelado e "informal".
Permanece todavia, implícita embora, a velha e inegligen-
ciável idéia do homem'como microcosmos, que esteve em tantas
r eferências antigas e reapareceu em Pascal, reapareceu em
Lotze e em tantos mais. Ela permanece como um dado que requer
sempre versões doutrinárias novas. E como o pensamento de
pendormetafísicc-
toda cosmologia
daqueles que se ~
uma visão essen=.
empírica. Com :S.S
tivos, de que fal
recheada de binô
plexo, variável. e
consciência filos:)..:
tivismo e à acei: -
acabam revelanc
o pluralismo das -
prctação do hom
corrente, e que ni
teoria hermenêu ·
to), teria sido o es:
lidade de divers:.
co, que é histórico~
de alguns reducio
não todos - às s.
a uma teorização
magem do home~
contradições fec
mento e a pers
as essências e as
autoridade podes
- a nda e com a
~ in.t.eligível. No
_:a._.-am a m edicina
....::::.. Fizeram colu-
.L.idade aos bos-
3 :!euses, sobre a
-E .suerras.
~" ;unto ao qual
se '"acrescenta" ao
e !ronta cidades;
- ::?.L~za, reduzida,
,.. ~o na estrutura
sobreposição ao
~- -gas e nos retra-
a: ~exto de Spen-
e o retrato"). O
Ee est.ende, como
- à transcendên·
::1ra se acha solta
· Acha-se posta
poh:rona: dimen-
depois do essor
,.... ~:o em seu entu-
3-e retratarem os
-~~cia arrumados
re~resentada em
:res.5am sua relação
-.o. Isto inclui o
-e cem rios, e tam-
:;:-e pedra, o Fausto
estadista do oito-
-.: ::::.ossos dias que
1relha e inegligen·
es:e·e em tantas
reapareceu em
~dado que r equer
pensamento de
-
FUNDO, PLANTA E PEDRA 119
pendor metafísico tende sempre aos dualismos, os dualismos que
toda cosmologia filosófica atribui ao "mundo" são correlatos
daqueles que se podem atribuir ao "homem" quer por conta de
uma visão essencialista quer à base de uma reflexão histórica e
empírica. Com isso reiteramos a alusão aos dualismos constitu-
tivos, de que falamos acima e que integram a imagem do homem,
recheada de binômios e atravessada de paradoxos.
O humano é certamente algo unitário, visto no tempo como
constante e constatado dentro dos quadrantes do mundo através
de uns tantos "denominadores comuns". E ntretanto ele é com-
plexo, variável e formado de ant agonismos. À medida que a
consciência filosófica se convence disso, ela deve tender ao rela-
tivismo e à aceitação das diversidades, que diferem do uno mas
acabam revelando-o: daí que seja perfeitamente legítimo admitir
o pluralismo das interpretações, podendo-se acolher cada inter-
pretação do homem (e de sua história) naquilo que enriquecer
coerentemente a compreensão de seu ser. Parece-nos inclusive
que uma das tarefas da filosofia, neste segundo tomo do século
corrente, e que não foi entretanto cumprida (embora a chamada
teoria hermenêutica tenha fornecido alguns elementos para tan-
to), teria sido o esforço no sentido de entender a própria possibi-
lidade de diversificação das interpretações como correlato da
diversificação real do humano, refratado entre suas finitudes e
fragmentado entre pendores opostos.
A reconciliação do "homem moderno" com o homem genéri-
co, que é histórico sendo trans-histórico, dependerá da superação
de alguns reducionismos, e da recondução de certos dualismos-
não todos - às sínteses positivas que lhes correspondem. As
sínteses não fundem: reúnem, mantendo distinções. A diferença
en tre as fissuras destrutivas e as contradições fecundas caberá
a uma teorização que não seja unilateral e que ilumine a autoi-
magem do homem de modo ao mesmo tempo crítico e criador. As
contradições fecundas são as que cabem dentro do ser do homem
como complementaridades, e ao compreendê-las veremos que
algumas dualidades se tocam e se completam, conforme o mo-
mento e a perspectiva : assim se tocam os começos e os fins, as
causas e os efeitos, as teses e as antíteses, o sagrado e o profano,
as essências e as existên cias. A liberdade pode ser disciplina, a
autoridade pode ser o diálogo, o poder pode ser justiça; o público
120 O JiRDJM E A PRAÇA
e o privado se complementam. Deste modo é correto pretender
que no jardim exista algo de praça, e que a praça tenha algo de·
jardim.
A
OJardim e a Praça não é um estudo urbanístico como pode sugerir
seu título. Trata-se de um ensaio de antropologia filosófica sobre a
dimensão do público e do privado, em que o jardim e a praça
funcionam como as metáforas centrais, organizadoras do texto. O
autor, Nelson Saldanha, empreende uma viagem através do tempo
e da história, transitando com desenvoltura ora pela Antiguidade
ássica, ora pela Idade Média, ou ainda pelo mundo contemporâ·
neo. As referências sociológicas, lite.rárias1 filosóficas e até mesmo
cinematográficas ajudam a conduzir o leitor por esta reflexão pouco
comum, cujo estilo fluido e envolvente é- ;nas palavras do próprio
autor - "por vezes disciplinado pelo tratamento histórico".
ISBN 85~31 4~0 163- 1
9 7 88531 401633

Saldanha o jardim e a praça

  • 3.
    O Jardim ea Praça •
  • 4.
    Reitor Vice-reitor Presideme DiretorEditorial Editor-assLçtente Comissão Editorial Roberto LealLobo c Silva FiU1o Ruy Laurcnti EDITORA DA UNIVERSIDADE DE s.o PAULO Joao Alcxanuru Barbosa PJinjo Martins Filho Manuel da Costa Pinto João Alexandre Barbosa (Presi<knte) Celso Lafer José E. Mindlin Oswaldo Paulo forattini Dj;,hna Mirabclli Redonrlo
  • 5.
    O Jardim ea Praça O Privado e o Público na Vida oocial e liislórica Nelson 8aldanha
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    • ,I e sonSaldanhaCopyrighl © 1993 by N I Dados lmernadooaisde Catai(Câmara Brasil . dogação na Publicação (CIP) eU'8 o Lavro,SP, Brasil) Saldanha,Nelson, 1933_ O lanlim e a Praça. 0 Pri NclsooSaldanha. _Sôo j,.~ ~~e oPúblico"'' Vida Social eHisl . . • t o:L.u~loradaUujvc:n;·dade - OC!Q.j ISBN: 85·314-QI6J·l 1 de S•uPaulo, 1993. I. Antropolo•· 1-1 .P 'bl" c" .,osofica I Tilulo. u •co""Vida Social e Histórica . 11. Titulo: O Privado e o 93-1454 . ---~----------~COD-128 Índic:espara til .I An ca ogo SJ•tcmatico· · tropologia filosefica 128 · ~N ~Q)jg_1Q5103 Universidade Federal de PernambuCO BlBUOTECA CENTRAL I CIDADE UNIVERSITÁRIA CEP 50.67()..901 - Recife - Pernambuco - Srasi Reg. n° 2036 •2610112000 Titulo: O JARDIM EA PRAÇA Direitosreservados à Edusp - Editora da Univ .Av Prof L · ers•dadede São Paulo . . uc•ano Gu lbe6' andar- Ed d a rto, Travessa J, 374 . a AntigaReito . c·d 05508-900 - São Paulo - SP na - . ' ade Universitária Tel. (011) 813-8837I 818 415-6Brasll Fax (011) 211--6988- I 818-4160 Printed in Brazil 1993 Foi feito 0 depósito legal f_x:..2.0 3GOO
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    ....~ . Para João AlexandreBa ·Ili /d 1 JOSa ua o Coutinho ':;aldemar Lopes Zdenlfh Knurún -~- Brasil '11 a4o -r 06
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    SUMÁRIO Nota do autor. . . . . . . . . . . . . . . . . 11 1. Abordagem e proposição geral do tema 13 2. Sobre os espaços na história 17 3. Ainda sobre os espaços na história . 21 4. A casa como tema histórico . 27 5. Vida pública e vida privada . 31 6. Dos jardins à ordem pública 35 7. Privatismo e publicismo 47 8. Platão e o intelectual moderno 51 9. Outra vez privatismo e publicismo . 57 10. Algumas digressões históricas 63 11. Outras digressões, com alusão ao direito e ao contra- .:: tualismo 71 12. Sobre as utopias 83 13. A burguesia, o liberalismo e o problema do equilíbrio ' 89 14. Alusão à experiência brasileira 103 15. O ho.inem: Constantes e dualidades 109 16. Fundo, planta e pedra . 115
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    NOTA DO AUTOR Nonúmero 11 (janeiro/junho de 1983) da revista Ciência & 'Trópico, da Fundação Joaquim Nabuco, publiquei um breve artigo contendo reflexões que, devidamente acrescentadas, re- sultaram em um opúsculo editado em 1986, com o título de O Jardim e a Praça, por Sérgio Fabris, em Porto Alegre. Posterior- mente, à base de notas tomadas em ocasiões diferentes, inclusive por conta de temas e de fontes referentes a outros trabalhos, repensei e reescrevi inteiramente o texto, ampliando-o bastante, sobretudo em algumas partes. Tratando ele um assunto cuja análise em detalhe seria interminável, o presente livro, que é uma espécie de longa anotação, se cinge conscientemente a certos tópicos, mais próxi- mos elo nücleo ele idéias que norteou o esquema inicial. Alguns amigos viram no texto uma introdução ao urbanismo; outros uma revisão elos "ismos" contemporâneos. Entretanto o autor o considera, apesar de seu feitio um tanto assimétrico e aparente- mente descontínuo, um esboço ele antropologia filosófica. Ou, se se prefere, de uma teoria não dogmática do homem e da história.
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    _... .. 1. ABORDAGEME PROPOSIÇÃO GERAL DO TEMA A estrutura de nossa e."Ístência aparece em um primeira aspecto coma wna snma de cnntm.í- dos que se entrecruzam, c se umoldum uns ciOS outros; em um segundo aspecto, aparece como uma soma de mundos, todos os quais abarcam o mesmo conteúdo uíla./, mas cada um com sua forma espedj"ica. Assim a religião, a arte, a nwral, o conhecimento. GEOilG SI~I~!EL Começo aludindo a imagens mais ou menos consagradas. O jardim se concebe, geralmente, como um trecho de espaço anexo à casa, quase sempre à frente dela, mas em certos casos - como nos chamados jardins ele inverno- dentro dela. O jardim é uma parte do esp aço que circunda a casa (a casa ou outro tipo ele edificação), uma parte específica pela posição e pelas caracterís- ticas. A praça é pensada como um espaço amplo, que se abre, na estrutura interna das cidades, como uma confluência de ruas, ou de qualquer sorte uma interr upção nos blocos edificados. Um espaço onde em geral se encontram árvores, bancos, eventual- mente monumentos, em alguns casos pequenos lagos artificiais.
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    11 O ,J,IRDIME A PRAÇA Tenho de partir dessas alusões, por certo prosaicas edema- siado genéricas, sem desatender ao fato de que há jardins de diversos tipos, e praças de diferentes formas, inclusive variáveis pela origem e pela função. Mas as duas imagens são aqui toma- das como símbolos (evitarei dizer"meros" símbolos), de modo que as diferenças dadas nos casos reais não deverão dificultar a exposição. De certa forma vale dizer que o jardim é, e ao mesmo tempo não é, uma parte da casa. Não se inclui no âmbito edificado da residência, mas integra seu espírito, inclui-se no conjunto (pe- queno ou grande) que ela domina. O jardim faz parte daquilo que Gaston Bachelard, naquele livro admirável que é a Poética do Espaço, chama o "universo da casa", ao qual inclusive atribui uma ordem própria. Por sua vez a praça integra organicamente o conjunto formado pela cidade, mas ao mesmo tempo "está" nele como um espaço - quase uma clareira- surgido pelo distancia- mento entre determinadas porções construídas. A praça "nega" a continuidade das edificações, mas ao mesmo tempo ela é, em certo sentido, a essência da cidade. Como disse, as alusões iniciais se referem a imagens. Refe- rem-se a estampas, às quais se prendem tradicionalmente nossa imaginação e nossas associações de idéias. As artes plásticas e a literatura se encarregaram, através ele séculos, aliás de milê- nios, de consolidar as respectivas figuras. A noção de jardim carrega consigo exemplificações que provêm de alu sões literárias antiquíssimas, e de citações pictóricas igualmente remotas: ele é fechado, não muito extenso, arborizado, ocupado com plantas ornamentais. O jardim é o lugar das flores, e pertence a casas particulares ou de qualquer maneira a construções específicas: palácios, hospitais, conventos, universidades. Têm sido excepcio- nais os casos de jardins públicos, nos quais se podem enquadrar alguns suntuosos jardins da história antiga, bem como exemplos modernos como o das Tuilleries. O problema, nestes casos, é em certa medida uma questão de linguagem. Às vezes chamam-se ou chamavam-se jardins a certos logradouros públicos, que em verdade são "parques" ou coisa parecida. Isto aconteceu inclusi- ve nos séculos XVII e XVIII: Francis Bacon escreveu um .r:nsaio altamente lírico sobre jardins (Of Gardens), considerando-os mais acolhedores do que as praças e falando das sebes encurva- Emcontrap público, com es vada. As praças,nas e em todos os ãm "genéricas": ligaiL-, rio" do termo -, a dimensão religiosz. praças sagradas ~ - ágora grega, arq-....- - umbos mistura dE meetings polític~.>s. npcnas extensão e, cial, correlato do Podemos de;;te dimensões pode...:~: Sob oprimeiro a;;:- no caso da casa ~ ajuntadas, âmbi:.o pessoas; no da pr- tende a confundir-~ espaço privado ccc tivclmente" preso temos o espaço pli~­ d<'~s relações que termos de produção Este segundo é o relatara que o fa= partes distintas: '" ligada aos militare~ cultores. Obviame provieram deste e.:
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    2. SOBRE OSESPAÇOS NA HISTÓRIA Evidente que o tema da contraposição e das relações entre a vida pública, simbolizada aqui pela praça, e a vida privada, simbolizada pelo jardim, nos levaria a divagações c derivações as mais diversas. É um tema fascinante, e um modo de disciplinar a reflexão sobre ele consistirá em dar-lhe um tratamento histórico. Ele é necessariamente histórico. Seria inclusive válido, sem em- bargo de parecer uma idéia "fácil", tentar entender a história como história dos espaços, história das relações entre culturas e espaços, c do modo como os homens vêm utilizando o espaço. Poderia inclusive mencionar alguns estudos que abordam o assunto. Entre eles o de Paul Claval, relativamente recente, Espaço e Poder1 , no qual se colocam alguns temas centrais, inclusive o das conexões entre o poder e a administração dos espaços, mas sem situar devidamente- a nosso ver, ao menos- certas questões prévias, dentre as quais o próprio fato da distin- ção vital entre os planos em que se "desdobra" o espaço social. Ou ainda o livro muito importante de Jürgen Habcrmas sobre o chamado "espaço público"2, um pesado e complexo ensaio de 1. E spaço e Pocl.er, lrad. W. Dulr~, l1io de Janeiro, Zahar, 1!)70. 2. Strukl.urwnndcl der Offcnt.lichkcil, lrad. francesa L'l!:.~pnce public- Archéologie rlR.lapublicité
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    18 O JARDIM E A PRAÇA análise das relações entre a esfera pública c as características da sociedade moderna. Parece desde logo evidente que o "organizar-se", desde as primeiras experiências grupais do ser humano, foi sempre, em parte ao menos, um problema de distinguir lugares, valorizando uns e abandonando ou evitando outros, e de construir espaços, demarcando porções do território e amontoando pedras com fim simbólico ou utilitário. Os horizontes sempre foram espaços, os céus também, e o próximo se insere em algum ponto do espaço. Amor e ódio se situam como formas de estar diante do próximo, e as armas sempre se classificaram conforme seu alcance em termos de espaço. Os laços de pArentesco, tão caros a certos antropólogos como estruturas reveladoras, se compreendem como linhas que interligam pessoas e grupos, aproximando/afas- tando, como que em termos de espaço. Demarcar.o tempo e demarcar o espaço foram certamente necessidades primordiais para todos os grupos humanos desde os inícios. O tempo teve (como ainda tem) ele ser tomado como um outro espaço, e de ser assim cortado em pedaços: até certo ponto serviram para isso as repetitividades fornecidas pela prÓ· pria natureza, nas estações do ano e em outros tipos de ciclos biológicos. Os maias, em uma imagem bastante curiosa, imagi· naram a figura mítica dos "carregadores" do tempo, incumbidos de levá-lo e transportá-lo em seu interminável percurso. Deste modo espaço e tempo, considerados na crítica kantia· na da razão como categorias a priori do entendimento, funciona- ram desde as primeiras sociedades como pontos de referência do viver concreto. Ou, por outra, como dimensões objetivas do mun- do circundante e também ela existimcia social. Dimensões no sentido de planos, onde se intercalam níveis, o que significa a possibilidade do desdobramento e das hierarquias. O espaço e o tempo foram ocupados, desde os começos, com interdições e obrigações, com o fazer e o não fazer, dias fastos e dias nefastos entre os romanos, interdições e tabus entre diversos povos. O convívio social, unitário e genérico sob certo prisma, sob outro se apresenta diferenciado, recortado por dentro pelas diferenças de ocupação, pelas castas ou pelas classes, por concentrações demo- conw re dimension conslilutiuede la sociélé bow gcoise- Paris, Payol, 1D78. morfológicas, po!' lembrar a distinç.ã variações do "tiptJ Incsn1o pelas estr" ficação, o dos pa econômica, da j.lri Ao falar em que esta última que foi iematizad=. clemnsiado fis:~L=w.... mos empregar .,..,..,_ aos dados histv!":. E ao alucb' "geral", isto é o,;: tal imagem pode viver pessoal, q'.le vência m ais ínt~ Nest e plan o se.: ambigüidade do sempre se enten tamente ligado ,._ domésticos ~àe ~ há quem pense - di..-isão das part Ao falar na par;:e em que ::oe
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    '"'c:-ganizar-se", desde as h~ano,foi sempre, em ~ :ugares, valorizando _.., e de construir espaços, - :oando pedras com fim SODRE OS ESPAÇOS Ni EIISTÓ/1/i 19 morfológicas, por estruturas e relações específicas. Compete lembrar a distinção famosa, devida a Toennies, entre as comu· nidades, com relações sociais diretas e espontâneas, e associe· daeles, com relações complexas e indiretas. Lembrar também que ···-; todo o século XIX se ocupou um pouco com estes temas: o elas varinções do "tipo social", criadas pela divisão do trabalho (ou mesmo pelas estradas no entender de Demoulins), o da estrati- ficação, o dos padrões c formas da vida religiosa, bem como da econômica, da jurídica, ela familiar. Ao falar em planos da vida e do "espaço social", vale anotar que esta última expressão não vai empregada, aqui, na acepção que foi tematizada por uma certa sociologia, respeitável mas demasiado fisicalisla, durante determinada época. Aqui tenta- mos empregar umn configuração mais existencial e mais ligada aos dados histórico-culturais. E ao aludir aos planos do viver, também indicamos com isto uma alternativa elementar, aquela que se dá entre o viver "geral", isto é o viver de todos (ou com todos, na medida em que t::~l in1Rgem pode caracterizar-se), e o viver consigo mesmo: o viver pessoal, que é o privado e que consiste no plano da convi- vência mais íntima, mais direta, correlata do existir individual. Neste plano se situa a posição da família, apesar de uma ce:~a ambigüidnde do fenômeno. Refiro-me ao fato de que a fam1ha sempre se entendeu como concentração do existir privado, dire· tamente ligado aos afetos mais pessoais e aos componentes domésticos (de domus, casa); e de que entretanto as constelações familiares parecem ter gerado em certos povos as comunidades maiores, passando-se do clã ao Estado ou das fratrias à polis. O tema nos levaria a mencionar o dilema de Platão ao pretender para o homem público a ausência da família, fonte de egoísmos; mas também a lembrar que hoje alguns juristas acham que o "direito de família" não é bem uma parte do direito privado, ficando em un1a região entre este e o público, ou antes- segun do há quem pense - demonstrando a inoperância desta clássica divisão das partes elo Direito. Ou ao menos sua crise. Ao fAlar na "vida com a família" será interessante pisar um pouco no terreno da crise do conceito de família, atingida pelo lado privado e pelo lado público de sua estrutura; alcançada na parte em que se ligava às tradições religiosas pelo processo
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    20 OJARVIM EAPRAÇA histórico chamado de dessacralização da cultura. A crise da família tem tido o que ver com uma série de coisas, que correm por conta do racionalismo e das modernizações; com coisas posi- tivas c coisas questionáveis. Com a queda do princípio "virgin- dade" c com a imagem monolítica e "indissolúvel" do casamento, mas também com a diluição das estabilidades que davam ao existirprivado uma demarcação e uma dignidade muito valiosas. As liberações e o relalivismo, peças importantes na experiência histórica do homem moderno, têm tido como preço a perda dos pontos de referência que balisavam a vida privada, em si m esma e em suas conexões com a dimensão püblica, desde séculos, senão milênios. Digo que também nessas conexões, porquanto as dilu- ições, a que me refiro e que fragmentam a ordem tradicionr-tl, têm o que ver com a reformulação das relações genéricas entre a dimensão pública e o plano privado do viver. E ao mencionar as coisas que se perdem, ao mencionar a ordem familiar que se desmonta, faço alusão ao gradativo desaparecimento da casa (voltarei ao assunto mais adiante): a "casa de moradia" e o modelo tradicional de família não poderiam sobreviver um sem o outro. Quero dtar aqui, ele passagem, um texto altamente suges- tivo c inqui0tante de Leszek Kolakowski, que se refere à impla- cável dest:.:·uição, nas décadas mais recentes, das formas tradicionais do viver. Destruição que inclui o fim do "espaço humano", envolvendo o apagamento das noções ele casa de famí- lia e ela própria origem natal, bem como a antiga c fundamental noção de infância3 • 3. "'A ildcia Tnalcallçávcl", e111 1ncontroslnlcmaciorwis da UnB, Tirnsilin, 1080. 3. AL organ1zaçoes ;;n.:- culturas "cláss!~ ~ série de temas u= torno de dados~.:. plo a dualidade ~ê langes em sua~ religião, com se...s dário; a famHia · fogo sagrado s.:,~::: lo, contradição _ família (e não era parte da cidade, plementaridade. gentes, ficou cc::::.._ possuímos da-~ sentido geral de
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    cr1se da ~ações; comcoisas posi- ::::Eda do princípio "virgin- - ·-::solúvel" do casamento, ::1dades que davam ao d::gnidade muito valiosas. ~da p:rivada, em si mesma _ _!.:a, desde séculos, senão -:e:r:ões. porquanto as dilu- ~ a crdem tradicional, têm ões genéricas entre a casa de moradia" c o ·am sobreviver um sem , recentes, das formas mdui o fim do "espaço - "noções de casa de famí- a antiga e fundamental - l:'z:D, BrJ.Silia, J!JSO. 3. AINDA SOBRE OS ESPAÇOS NA HISTÓRIA Aludimos acima ao desdobramento desses dois planos, dir-- sc-ia dois momentos, do viver (o público e o privado) dentro das organizações grupais mais recuadas. Agora nos referiremos às culturas "clássicas", especialmente à greco-romana. Há uma série de temas um tanto conjecturais a considerar, inclusive em torno de dados já registrados pelos estudos históricos: por exem- plo a dualidade de cultos, que ocorreu tanto na Grécia quanto na Roma antigas, o culto público e o culto privado. O tema foi, desde 1867, tratado com erudição e persuasividade por Fustel de Cou- langes em sua sempre notável CitéAntique. A cidade tinha a sua religião, com seus ritos e seus símbolos, suas festas, seu calen- dário; a família tinha seu culto, com sua alusão aos mortos, seu fogo sagrado, seus altares. Não havia, e é interessante assinalá- lo, contradição entre os dois planos: o indivíduo integrava a família (e não era imaginável sem isso), e ao mesmo tempo fazia parte da cidade, cuja razão de ser eram os cidadãos . Esta com- plementaridade, característica dos próprios conceitos então vi- gentes, ficou como elemento essencial dentro da imagem que possuímos da "antigüidade", constituindo um elos traços daquele sentido geral de equilíbrio que atribuímos ao mundo clássico.
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    "!..: 22 O JARDIME A PRAÇA Há algumas questões que parecem permanentes, e que ressurgem quando nos debruçamos sobre o panorama das cultu- ras ditas antigas, em sua respectiva fase "antiga", isto é, em seu período de formação, no qual se estruturam formas sociais, formas lingüísticas, valores e imagens fundantes. Caberia por exemplo pensar na relação entre a dualidade jardim praça e as formas de estratificação social. Evidentemente a vivência das praças por parte das classes altas terá sido sempre diversa da vivência por parte das classes baixas: a construção mesma dos "logradouros" foi sempre obra da classe dominante. Só que em alguns contextos, determinadas praças serviram às aristocra- cias como local de presença festiva ou cerimonial, e em outros elas foram como que evitadas pela aristocracia e deixadas à plebe para fesLas ou para a simples ocupação cotidiana. Por outro lado seria o jardim, ao menos em sua expressão mais requintada, uma criação elas classes altas ("classes" no sentido mais amplo e flexível do termo); um prolongamento elas intenções espaciais contidas na casa, algo como um lugar espe- cífico de "meditação" ou de refúgio pessoal. A criação de jardins, espaços privados, deve ter sido mais um símbolo das diferenças sociais, e por outro lado mais um elemento de distinção entre área pública e área privada: grades e muros, a circundarem o jardim e simultaneamente a prendê-lo à casa, terão sido bastan- te distintos da abertura das praças, lugares "de fora" (fora das casas, como o explícito forum latino), e terão delineado com nitidez as reservas de privacidade instaladas para si pelos pa- triciaclos. Com a referência a estes problemas, entretanto, vale inter- calar aqui uma alusão a um fato de caráter muito genérico, um desses acontecimentos centrais cujos contornos são certamente conjecturais, mas cujo significado para a evolução histórica é básico. Trata-se do advento da vida urbana, profunda alteração ocorrida em momentos distintos dentro daquela evolução - a variar conforme os contextos -, a partir da prévia transição do nomadismo para a "revolução agrícola", e em correlação com o surgimento elas primeiras instalações fortificadas. Em correla- ção portanto com a fixação da divisão das ocupações, com a formação das línguas, com dezenas de definições iniciais, rela- cionadas inclusi.;·e costume ele se da.~ espécie de crise, ou vida, assim tambéz. so que modernam.: série de crises, deE sobretudo) como interrogações novas... O que se tem elas estruturas e .! .. através ele) longvs c predomínio da d i....- a compreensão da partir elo parale:!..- macht frei, dizia-se que, com a dinãm: cidades, desencad vivência, os confJ.i· - conjunto de rev;:;.. denomina por con~ consolidar-se, den com espaços para coisas deste tipo. As foi transportada y.u te a colonização !a: das sólidas abad..as substituídas pe:as
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    ""... 24 O JARDIME i PRJÇi com terraços e páLios, porões, desvãos, andares superiores, pin- turas n as paredes, colunatas e cavalariças (o pátio, la cour, afim ao dos conventos, fazendo pendant com o jardim). Trata-se da casa cuja figura, por vezes pouco definida e também pouco esbelta, mas expressiva, aparece caracteristicamente na pintura dos séculos XVII a XIX, tanto nos ambientes rurais - aquele ambiente inconfundível dos desenhos franceses, bem como do Moulin de Pontoise de Corot - quanto nos urbanos. No ambiente urbRno há variáveis que vão das empertigadas fachadas de Canaletto às casas ditas normandas. De qualquer m aneira a presença dessas casas nos perímetros urbanos denota, durante ccrLa fase sobretudo, a residência de senhores de terra que possuem propriedades no campo mas mantêm um imóvel à sua disposição na cidade. Este tipo de edificação se acha magnificamente descrito no Gattopardo de G. Tomasi di Lampedusa, justamente o palácio da família Salina em Donnafugata, que possuía "sete janelas sobre a praça" e que por dentro apresentava uma enormida de ele quarlos, escadarias, salões e tudo o mais. Aliás o livro começa com a descrição ele um jardim muito característico, e por sua vez a praça de Donnafugata, mencionada no capítulo li ("vasta, sombreada por plátanos poeirentos"), aparece como algo melan- colicamente provinciano, algo ancorado no tempo como um espa- ço romanesco perdido sem remissão. Ainda a propósito das grandes residências das famílias da nobreza, seria interessante observar que o absolutismo europeu condicionou um emprego correlato do termo casa, na acepção de dinastia (casa elos Áustria, casa de York, casa dos Bourbon), uma acepção evidentemente muito antiga, herdeira de todas as lin- guagens palacianas da história. O termo foi u sado também para aludir às Casas do Parlamento inglês, a dos Comuns e a dos Lordes. E com isso se teve um curioso entrelaçamento da dimen- são pública (política) com o plano privado: o reinado de tal ou qual casa, na pessoa de tal ou qual governante, era um dado institucional e entretanto consagrava a eficiência do matrimônio monárquico. Por outro lado, àquele tipo de casa (correspondente às m ansões da nobreza urbanizada), a ela e ao seu jardim se contrapôs, no mundo barroco, a praça principal das cidades (inclusive a plaza .,... Latina), entendida Quanto aos :a:: elas - ao século :x=': europeus (refiro-r:::.e Comilança), certo;; século passado, ou e as ironias dos ~ Vai aqui out!"a de jardim" foi sub Viena Fin-de-Siec Ao mencionar o rc o historiador se - - destacan do o confr- e a que se aprese~:: personagem princi havia um jardim de tr::tnqüilo do estético raciona: e _ 1. 'l'rad. Denise Botun-.
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    4. ACASA COMOTEMA HISTÓRICO O tema da casa, ligado óbvia e indissoluvelmente à proble- mática da privacidade e da "intimidade", demandaria por certo uma série de digressões. Não seria desperdício verbal aventar a idéia de uma evolução da casa como testemunho (ou correlato) ela evolução das formas sociais e também das formas da autoi- magem do homem: tanto se tomarmos globalmente as diferenças sociais, incluindo nelas a divisão de posições e funções, quanto se levarmos em conta os estágios da experiência religiosa e da própria "arte", com seus padrões e seus estilos. O que se edificl'l para a privacidade é evidentemente uma parte muito especial da instalação do ser humano no mundo, uma parte que exprime em termos concretos e particulares (contraprova do abstrato e do genérico) o próprio ser do homem, com suas fraquezas e seus prolongamentos. O viver social consiste e subsiste em várias dimensões, e uma delas ocorre nas casas: as sociedades ao emergir para certo nível histórico são cidades, e as cidades constam de casas, colocadas em ruas. E como as ruas - como as praças- são já outra dimensão, ::t pública, eis que o plano público e o privado se tocam, se completam, se complementam. Aliás o caráter de determinados atos nem sempre se prende ao fato de o agente se encontrar em sua casa ou em logradouro público. -·#'
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    28 OJIIJWJM EA PRAÇ:A Pode-se, estando em casa, desempenhar uma tarefa com sentido público, como se pode defender interesses privados atuando em recinto público. Deixamos de lado o problema grave e nebuloso de saber se a vida pública surgiu "depois" da vida privada, ou se ambas resultam de um desdobrar-se de formas; se primeiro foi o todo, o conjunto, e depois o espaço pessoal. Sobre a temática da casa anotou Gastou Bachelard, em seu livro J1 Poética do Espaço!, a analogia entre a casa e o cosmos, não apenas quanto à estrutura, portanto ao aspecto espacial, mas também quanto ao problema temporal: inclusive porque a carga de tempo que passa por uma casa se integra na própria imagem que dela possuem seus habitantes. Este é de fato um tema rico de sugestões. Os arquétipos e as exemplaridades legados pelas diversas civilizações, sobretudo pelas épocas aristocráticas cle cada uma delas (admitindo que em cada grande ciclo cultural tenha havido uma época, geral- mente inicial, dominada pela nobreza), ficaram como marcas por assim dizer definitivas. Sabe-se que Édipo foi castigado inclusive por haver violado a ordem das coisas, o equilíbrio elo mundo, e o que certos autores enxergam no conflito entre Creonte e Antígo- na é que a legislação daquele desrespeitava a "natural" correla- ção entre as leis do cosmos e as normas ela coneluda humana. Entretanto, a idéia de casa não configura apenas o lugar físico do morar, idéia fixada a parLir da morada das grandes famílias iniciais, mas também os conceitos específicos de "berço" e de "teto". São conceitos vinculados aos valores feudais, ou seja, vinculados à imagem do sangue e também à noção de "origem": ter teto e berço, ou por outra ter eira e ter beira, foram sempre marcas de nobreza dentro dos contextos feudais ou para-feudais. Marcas qualificadoras, fora das quais, como algo excluído, fica- vam os plebeus, os não-patrícios. Observemos outra coisa: como a casa é o pouso, e ter casa sempre significou possuir um espaço definido, as épocas aristocráticas sempre desconfiam do homem errante. Ele é um marginal, a não ser que seja um santo. Compreende-se então que a "burguesia", que em seus inícios revelava certas forn1as erradias de viver, ou ao menos de vender I. 'I'rud. brus., llio de Jnnciro, Livrariu Eldorado 'l'ijuca, s.d. (um tanto em contlõ cação espacial ou-. pela nobreza dom· Sobre o prob:.. necessariamente ao· instituições, nas p:- livros de orientação Regis Debray, O E Morin, O Paradig~ influências marxis: _ dindo inclusive à ;- iniciais, onde pro-..·a sua grande casa, em crescentemente al os escravos. No see a serviço da indag de sociedades se S' con1eços, n1as a hi"'• dos, que eran1 org - Certo que nãc e lógicos, fundamer.- - se encaixam, com - testemunhos. Deve· ter havido, nas mon. grandes realezas ::--;::, fundou muitas cal"'~ ao seguinte: temos clássicas do pensa= que os grupos hum- 2. O l!:scríb<l - Gênesedo
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    -::bar uma tarefacom sentido Gaston Bachelard, em seu ~ entre a casa e o cosmos, um.to ao aspecto espacial, :e,....,por al: inclusive porque a casa se integra na própria sugestões. Os arquétipos e as civilizações, sobretudo t=ma delas (admitindo que haido uma época, geral- z:.>.ficaram como marcas por Edipo foi castigado inclusive ' o equilíbrio do mundo, e o --~entre Creonte e Antígo- ~:~ava a "natural" correla- ::zn:as da conduda humana. :ig"".n-a apenas o lugar físico :rada das grandes famílias E.Epecíficos de "berço" e de :; valores feudais, ou seja, .-:.::lbém à noção de "origem": e ::er beira, foram sempre "feudais ou para-feudais. ""• como algo excluído, fica- ~ervemos outra coisa: como - .,...,.ficou possuir um espaço e desconfiam do homem ser que seja um santo. -~-ia·', que em seus inícios ... er, ou ao menos de vender il CIISJ COMO TEMA JIJSTÓRJCO 29 (um tanto em contradição com o fundamental sentido de demar- cação espacial ou "urbana" que lhe correspondia), fosse mal vista pela nobreza dominante. Sobre o problema das "primeiras formas urbanas", qu e necessariamente acode quando se coloca o tema das origens das instituições, nas primeiras culturas, vale registrar aqui dois livros de orientação distinta mas ambos interessantíssimos: o de Regis Debray, O Escriba - Gênese do Político, e o de Edgard Morin, O Paradigma Perdido2 • O primeiro, baseado sobre certas influências marxistas, coloca questões muito provocativas, alu- dindo inclusive à possível disposição espacial das estruturas iniciais, onde provavelmente o senhor habitava o Centro, com sua grande casa, em redor da qual se achavam, como em círculos crescentemente alargados, as famílias nobres, os homens livres, os escravos. No segundo temos a antropologia (física e cultural) a serviço da indagação sobre origens: para Morin diversos tipos ele sociedades se sucederam como camadas formativas desde os começos, mas a história propriamente dita surgiu com os Esta- dos, que eram. organizações específicas. Certo que não é fácil, em termos antropológicos ou arqueo- lógicos, fundamentar ele modo positivo estas alusões; mas elas se encaixam, com sentido bastante inteligível, em uma série de t estemunh.os. Deve ter havido, com efeito, a presença ela casa no m eio elas formas iniciais: a casa maior c as casas menores. E eleve ter havido, nas monarquias primordiais, que se prolongaram nas grandes realezas posteriores, um conteúdo de significações que fundou muitas coisas, desde então permanentes. O que equivale ao seguinte: temos ele reconhecer que a m aioria elas categorias clássicas elo pensamento c da organização provém do t empo em que os grupos humanos possuíam reis c rainhas. 2. () I~Rcriba- Gênesedo l'olitico. Tn"l. M. de Cnslro, n io dc:.Jandro, T!ctour, 1983. LcParadigme perdu, lutwlure Jw maine, SeuiI, Paris, 1973.
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    5. VIDA PúBLICAEVIDA PRIVADA As coisas que simbolizam o lado público e o lado privado da vida podem ser arroladas segundo critérios bastante diversos. Entretanto, sempre se pode situar o encaixe existencial de certos objetos, conforme a correlação com aqueles lados. Deste modo teremos em um sentido a cama e a mesa, a poesia lírica, o direito privado, a psicologia, o médico de família, o jogo de cartas. Em outro o comércio, a forca, a saúde pública, a burocracia, os bancos, o direito público, o circo, a poesia épica. Ou ainda, refazendo a estampa, a sala, o leito de morte, o banho, o punhal, os tapetes, os cosméticos; ou então o mercado, a espada, as estradas, os templos, a política. Poderíamos pensar na evolução, uma possível e conjecturai evolução dos âmbitos privados ao espaço público; e aí o trânsito elo dinheiro privado aos dinheiros públicos (embora seja válido pensar num trajeto oposto), bem como a evolução dos cemitérios privados aos cemitérios públicos. E aqui teríamos o jardim como correlato do foyer, ou ela "lareira"; depois, a evolução do culto doméstico ao culto público. Também a dimensão sexual da vida, no sentido mais amplo do termo "sexual", se acha relacionada ao dualismo público-pri- vado. O jardim., inclusive como boosco deleitoso (e/ou reminiscên- cia do paraíso), sempre serviu ele cenário acolhedor e conivente.
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    32 O JARDIMF: i PRAÇA Podem-se recordar os casais famosos da literatura e da arte, com seus momentos no jardim: Romeu e Julieta, Fausto c Margarida, .1!fário e Tosca. Talvez coubesse aventar que no jardim se ence- nam os amores não "publicáveis", não (ainda não) passáveis à praça. Seria o caso ele distinguir entre suicídios no jardim, mais recolhidos, mais discretos, elos suicídios na praça, mais dramá- ticos. Em Proust, em certa passagem do Caminho de Swann, há uma referência ao caráter "mitológico" do Bois ele Boulogne. Encontramos n o livro ele Paul Veyne, A Elegia Erótica Roma.na1 , o problema elas relações entre a publicidade, represen- tada pela literatura, que revela e divulga situações pessoais (a poesia lírica por exemplo), e a viela privada. Para Veyne, os autores antigos não se expunham, não revelavam facilmente sua verdade pessoal, mesmo nos textos literários escritos na primei- ra pessoa; na literatura moderna é que a "sinceridade" sentimen- tal se teria tornado mais corrente e mais perceptível. Caberia questionar, passando a um assunto afim, sobre até que ponto o que se chama "vida sexual" constitui realmente ou totalmente uma coisa privada.. Evidentemente a idéia provém do caráter íntimo das atividades sexuais específicas, que sempre se consideraram próprias para ocorrer "entre quatro paredes". Contudo a família e os vínculos biológicos são em todas as civilizações algo ostensivo, c mesmo os "caracteres" sexuais externos se confirmam em todos os povos através do traje e ele outros símbolos. O problema corresponde certamente a uma variável histórico-cultural, havendo, é claro, ponlos extremos e graus intermediários. Um extremo, o puritanismo vitoriano, engendrador de hipocrisias e repressões, com as pessoas cober- tas de pano dos pés à cabeça e com mil eufemismos na linguagem; outro, o uso de formas obscenas na antiga cloçaria de certas regiões européias, ou ent ão os atuais espetáculos de "sexo explí- cito", senão mesmo o nudismo, inclusive o das praias de hoje. Lembro-me do ensaio de Aldous Huxley "Modas em Matéria de Amor", inserido em seu livro Do What You Wilf2, onde alguns problemas correlat os se acham colocados. I. A ~ll!gia E rólim Uomana. O Amor. a l'oesia. e o Ocid.enle, Siio Paulo, Brasiliense, 1085, p. 252 c ss. 2. Trad. Lnts. Salânicos e Visionários, Rio de J aneiro, Americana , 1075. O problema a. n1.o", termo que se- demais ora eufe ~ inclusive com o :.:, - Rougemont sobre - da história elos ,.... "personalidade'". - volução Francesa. menos roupas, d - que iriam oscilar a· De fato o P- participa da área;..... esta e reflui des:a lar. A tradição CO- e traje ele r ua, me" de certos re~ repente que aque e sentido de tudo ~-­ gcm, que é projeç.ã a fixar n a climen.sã 3. 'l'rad. T•. W•tlnnabe. S.:..-
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    ti:eratura e daarte, com &a Fausto e Margarida, que no jardim se ence- (ainda não) passáveis à ~icídios no jardim, mais .:::na praça, mais dramá- _.: Caminho de Swann, há do Bois de Boulogne. ·eyne, A Elegia Erótica a publicidade, represen- __ga situações pessoais (a ~.-:ivada. Para Veyne, os re:r-elaYam facilmente sua Ei"á.-ios escritos na primei- a · s:nceridade" sentimen- " perceptível. t.Ssunto afim, sobre até .:-.onstitui realmente ou :::emente a idéia provém .-específicas, que sempre ·er:.tre quatro paredes". • •g:cos são em todas as - "caracte1·es" sexuais " através do traje e de -nde certamente a uma claro, pontos extremos e puritanismo vitoriano, -. com as pessoas cober- -:;femismos na linguagem; ...:!t::ga doçaria de certas _ L:áculos ele "sexo explí- .e o das praias de hoje. ::xley ·')..Iodas em Matéria t You WilF, onde alguns Paulo, Brnsilicnsc, 198fi, p. 252 IF=~ma. !915. VlD11PÚBLTC11 E VIDA PRIVADA 33 O problema do sexo se desdobraria aqui no tema do "erotis- n1o", termo que sempre me pareceu um tanto ambíguo, ora amplo demais ora eufemístico. Sobre o erotismo muito se tem escrito, inclusive com o livro ele Georges Bataille, e com o de Denis ele Rougemont sobre a "história do amor no Ocidente". Ou se trata da história dos modos de amar no sentido psicológico, ou o assunto são formas ele "expressar" o amor, inclusive em suas projeções estéticas; e por aí deslizam as ambigüidades. Recentemente Richard Sennett, em seu livro O Declínio do Homem Público3 , colocando o problema da exibição pública da "personalidade", tratou da evolução elas roupas a partir daRe- volução Francesa: com o Termidor, as mulheres resolveram usar menos roupas, desnudando-se mais e iniciando ciclos de moda que iriam oscilar até nosso século. De fato o problema das vestes, como o da vida sexual, participa da área privada e da pública: projeta-se daquela sobre esta e reflui desta para aquela, como em um movimento penclu- lar. A tradição c01·rcsponde a uma distinção entre traje de casa c traje de rua, distinção que se acentua nos contextos mais formais, e que o professado "informalismo" de nossos dias ainda não conseguiu extinguir de todo. Um pedaço de pano pode alterar o "efeito" da figura humana, e nas civilizações mais conhecidas a dignidade social sempre corrcsponde a um tanto mais ele tecido ou de adornos sobre o personagem. Recordo uma passagem de Anatole France em que alguém, olhando com enlevo o ar "subli- me" de certos retratos ele intelectuais românticos, observa ele repente que aquele ar dependia de uma escova de cabelos. O senLiclo de tudo isso é o seguinte: somos socialmente uma ima- gem, que é projeção do ser real através de expletivos destinados a fixar n a dimensão pública os caracteres da individualidade. 3. 'l'rnd. L. W"t.11nnbc, São Pnnlo, Companhia das Letras, 1988, cap. 8. ..,. "'
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    6. DOS JARDINSÀORDEM PúBLICA No meio da profusão de imagens com que representamos a "história antiga", em especial sua parte que se entende com o rótulo de "mundo clássico", encontra-se com certa constância a figura dos jardins. Jardins orientais, registrados na pintura e na literatura, quase confundindo-se com oásis e com o vago mistério dos muros árabes. Os jardins da Pérsia; os do Egito, que Pierre Grimal, no pequeno livro L'Art des jardins, afirma terem sido verdadeiros asilos da vida privada. Os famosos jardins da Babi- lônia, incluindo os da princesa Semiramis, os quais impressio- naram aos gregos mais pelo arrojo do que pela beleza propriamente. Sempre o espaço privilegiado, e sempre que pos· sível fechado: o cintamento, a vedação, o acesso através de escadarias ou passagens especiais. E sempre o sentido de con- forto e repouso, como em um paraíso (o termo vem do persa, de um vocábulo que designava "jardim"); o oposto do calor do deser· to, da vastidão das areias, do "descampado". Certos povos antigos consideraram alguns ele seus jardins recintos sagrados. Tratava-se justamente, conforme observou Mircea Eliade, ele jardins onde se reproduzia em miniatura a ordem elo mundo, com suas partes e as respectivns funções. ....,.
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    ~~ - --~~-------- J6 O ,JJIIIDJM E 11 l'Ri1Çt1 De qualquer sorte, ficou desses arquétipos, isto é, com eles, a idéia de que o jardim coloca ou recoloca o homem dentro do plano "natureza". Sempre vale mencionar o belíssimo afresco, que decorava uma sal::~ da Casa de Lívia em Prima Porta, perto de Roma (e que hoje se conserva no Museu Nacional das Termas), representando um jardim cheio de pássaros, com flores e romãs. Do mesmo modo ficou a noção de "cultivar (cada qual) o seu jardim", noção com certo sentido intimista e talvez biográfico. O cultivo do jardim, como atividade privada, é algo contíguo à mesa e aos implementas pessoais, diferentemente elos cultivos agríco- las, que são externos. O verbo coZere, de onde viria o vocábulo cultura, é sempre evocado nas etimologias em sua acepção agrí- cola, mas parece que a acepção privada do "cultivo" não pode estar fora ela idéia. Richarel Sennett, no livro O Declínio do Homem Público (mencionado mais acima), coloca um problema interessante ao referir a idéia, própria segundo ele dos homens elo século XVIII, de que a "natureza" e a "cultura" corresponcleriam respectiva- mente ao privado e ao público. O esquema é sugestivo e chega perto da verdade, salvo o fato de que o binômio natureza-cultura só adquiriu vigência depois elo neo-kantismo, e seria impossível encontrar esta idéia no século XVIII. Mas de fato a "viela privada" sempre foi vista e sentida como um refúgio, um retorno ao orgânico, e neste sentido a família sempre foi entendida como fenômeno natural: não só pela dimensão biológica, mas pela significação essencialmente privada. Jardins: a imagem clássica, empregando aqui o termo em conexão com o mundo greco-romano, inclui vez por outra uma alusão ilustre, que se prende ao nome de Epicuro. O epicurismo, por sinal uma filosofia que historicamente teve menos fortuna do que merecia (e que merece ser repensada hoje), tem entre outros aspectos o sentido de cultivo da vida privada, com seus prazeres mas também com a consciência dos limites deles. E o jardim aparece aí como asilo do pensar, não só em face ela agitação e das vanidades da vida pública mas diante das adver- sidades políticas (todos sabem que a doutrina do Epicuro, neste ponto, refletiu o apagamento do poder grego e da política grega): diante do ---,.----. polis. paternal-fiGa: parecia des··a.. geral. Evider.-L.EI::"E~ zaçào como a relações encre - cionais, e ond~
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    .18 OJAJWJM EA PRAÇA gem de Ludwig Klages, dir-se-ia que o jardim corresponde à alma, e a praça ao espírito. A praça, caracterizada em todas as civilizações como espaço "público", não tira seu significado do mero fato da convergência de vias "públicas". Ela pode ser anterior às ruas, ao menos logicamente (ou estruturalmente) anterior. A rua, por sua vez, possui a mesma essência da praça, posto que todo o traçado urbano, que na praça se concentra, é algo público. A consagração histórica do fenômeno urbano significa no fundo a consagração ou consolidação da vida pública. Só que o jardim também terá o que ver com o fenômeno urbano, mas em outro plano. Por outro lado, como o termo público, que vem de "populi- cus"- de populus, povo-, só aparece com os romanos, é obvia- mente por projeção e extensão que o em:greg!_lmos para designar experiências ocorridas em sociedades pré-romanas ou em qua· drantes culturais estranhos ao percurso histórico dos povos "clássicos". Caberia dizer, e aqui retomamos as metáforas, que o jardim, sendo fechado, é lírico, e que a prllça, sendo aberta, é épica. O jardim é côncavo, a praça é convexa. O jardim encerra a biogra- fia, a praça a história; um é introvertido, a outra extrovertida. Dois momentos, duas dimensões do humano e ele sua projeção nas (ou sobre as) coisas. Dir-se-ia também que no jardim o espaço se põe em função das plRntas, enquanto que na praça o espaço é o principal: em função do espaço se colocam árvores e monumen- tos. O "ar aberto", atributo da praça, corresponde ao advento do nível institucional da vida, à instauração de uma ordem. genérica (e menos "pessoal") elas coisas, ou seja: uma ordem em que os comportamentos se regulam em função de fins sociais definidos. O que já levaria ao problema ele não ser, a liberdade, uma descomprometida e anômica permissão total de agir, mas uma condição social situada. A respeito da concepção grega, por exemplo, Max Pohlenz escreveu muito sugestivamente que a origem da ~on~eiência da lilx~rdnde se acha no domínio privado, no colllrnstc em <Jlle o "senhor" c sna família se vêem em l'ace elo ser·vidor, CJlle é pal'l.e de seus ueus o CJ<re não tom direito n dispor de si mesmo. A etnpn seguinte foi a reunião de servidores ni'io-livres em nma categoria especiol, em l'uce clu qual os ltomcJrs CJUC 11gem por si mente um ~e!:la óbvia condição tais. Espaço;; d !"estre~ P a!"ece daí. passando :eor:a pla~nica ::!.OS.
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    o jardim correspondeà ~civilizações como espaço ro fa;;o da convergência :.enor às ruas, ao nienos ~or. A rua, por sua vez, ,;_o que todo o traçado = público. A consagração !::l'l fundo a consagração ·o jardim também terá o - outro plano. :; que vem de "populi- ~-romanas ou em qua- histórico dos povos sponde ao advento do de uma ordem genérica U!:la ordem em que os c.e ;.n,s sociais definidos. ser a liberdade, uma :c:a: de agir, mas uma concepção grega, por ~-~----f.ri'1H1o, no conLt-rtstc em • que é pal'l.c de scns ben~ c foi a reunião de servidores os homens CJII C ngcm por si DOS JARDINS ;i ORDEM PÚBLICA 39 mesmos serão os "l ivres", sendo que com isso Lomnm plena consciência do que rept·cscnta para eles o privilégio de intervir nos negócios da comunidade'. Ao aludir ao "ar aberto", que nos levaria a identificar com a praça a própria cidade, temos de ligar o assunto às diferencia- ções que, pelo curso dos séculos, atravessam a distinção genérica entre o lado "grupal" e o lado "pessoal" da multi milenar expe- riência do ser humano. Dentro da politicidade do homem, vemos que o animal propriamente "político" (ou social), isto é, o habi- tante específico da polis não era a mulher - senão em certos casos -, era especificamente o homem masculino. A casa era o reino da mulher grega, que a governava, como foi o caso da matrona latina. Daí que nos últimos Lempos da Antiguidade pagã a filosofia aparecesse como consolação (consolatio): ela "fazia com- panhia" ao homem que perdeu a polis c ficou em casa, que saiu da praça e se recolheu ao jardim, diminuído em sua dimensão pública embora podendo enriquecer-se epicuristicamente em sua maturação privada. Detenhamo-nos sobre este ponto. As imagens provenientes ela história "antiga" - na verdade a história elas primeiras culturas, Antecessoras da "ocidental" - nos sugerem repetida- mente um tema central, o da correlação entre a política, com sua óbvia condição urbana, e a sacralidade dos espaços fundamen- tais. Espaços demarcados desde os primórdios como pontos de referência, e associados, desde cedo, aos parâmetros celestes. Segundo Mircea Eliade, as cidades no Oriente antigo eram traçadas e edificadas conforme modelos cósmicos que funciona- vam como arquétipos: as cidades babilônicas, por exemplo, ti- nham como modelos determinados constelações, e entre os hebreus se falava em uma Jerusalém celeste, copiada pela ter- restre2 Parece inclusive que a noção de uma "cidade ideal" vem daí, passando depois por Platão e por Agostinho, e a própria teoria platônica das idéias tem que ver com a velha concepção que imagina em um "lugar celesle" uma série de modelos eter- nos. l. 'l'rnrlu~imo.s parafraoli~.;<JHH.:ntc segundo n vcr~õo francc~o <lc ~J. Coffinct., J~a T..i lX!rlá Grccque, Pnris, Pnyol. 1050, p. 18. 2. r.e Afytlw de l'elcrnel relour, Paris, Gallimard, 197S, Cfl]l. I. ...,.,..
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    40 A exemplaridade assumidapelas imagens provindas da Grécia antiga parece entretanto ter sido a máxima. Isto apesar de que às vezes se exagera nas referências às coisas gregas (assunto ao qual já fez menção o professor Moses Finlay no livro Uso e Abuso da História). Assim, a exemplaridade que envolve a figura das cidades gregas se tornou por sua vez extrema, inclusive com o eco da obra sempre viva de Fustel de Coulanges, La Cité antique (de modo nenhum superada pela "resposta" de Gustave Glotz em seu La Citégreque). Em texto interessantíssimo, Jean·Pierre Vernant assinalou que nas cidades gregas se teria tido pela primeira vez o destaque de um determinado plano da vida social como objeto de reflexão. Ele se refere ao próprio emergir de um pensamento político, que teria vindo, no caso, completar a existência de um específico domínio político dentro da vida social gcraP. Ocorre entretanto, e é o mesmo autor que o mostra, que a formação de um modo realmente urbano de viver- com seus espaços peculiares e seus padrões de comportamento- importou em uma crise do sagrado. Esta crise, acrescentamos nós, nos leva ao tema da diferença entre o sagrado rural, talvez primevo, o das grandes pedras e elas grandes águas, e o sagrado urbano; a "crise" equivaleria ao gradativo predomínio deste, mais ligado ao poder urbano, ao mesmo tempo que mais instável. A historicidade inerente ao meio urbano predispõe (agregamos ainda) ao próprio conceito de crise, que historicamente pressupõe o hedonismo latente na vida urbana- coisa que Ibn Kaldum já perceber a-, bem como certas tendências, já presentes no mundo "antigo" e ostensivos no ocidente contemporâneo: a tendência à racionalização (com suas ambigüidades), a tendência ao individualismo e à massificação. Assim as crises, que se prolongam na modernidade, vêm a ser crises (como já dissemos) da articulação entre vida pública e viela privada. É possível que em outros povos "antigos", que não os gregos e os romanos, a relação entre viela pública e vida privada não tenha tido recortes tão claros nem conotações axiológicas tão perceptíveis, mas em todos os povos deve ter existido a diferença 3. Mito e Pe11-Salllmlo Clilrc o.s Gregos, Süo Paulo, Difusão Européin do LivrcYUSP, 1973, cap. l11. viver. ao estágio ~cie» como "des,.·el<lll....:::;'----'""1 por conta de :;.m r invocando um - depois, com cs r.- tecer o sentido da pala-.."Ta·ar: espaço público..-- p ~i:úca. -~ ea:: ..cidade". na ........___ po!iL:ca._ o~ n ....--.._......_ e efi~ier:.:.e :.::-.c-=-'----""1
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    - imagens provindasda - a má.tima. Isto apesar --~e a figura das cidades r- ~:nsi-e com o eco da obra !!.1: Ci:é antique (de modo ~ GastaYe Glotz em seu La -?ie!'Te Yernant assinalou .:.3 primeira vez o destaque - como objeto de reflexão. =pensamento político, que ~-..Encia de um específico ~?a!~. Ocorre entretanto, -.:: .a. foYIDaçào de um modo e.,-pa-;os peculiares e seus e!!! uma crise do sagrado. ...:e<:a ao tema da diferença das grandes pedras e das a ""c..>-ise" equivaleria ao - -=ado ao poder urbano, ao ~toricidade inerente ao ::.:::.:ia ao próprio conceito de 'bedor::ismo latente na vida ra - ,bem como certas antigo" e ostensivos no - !"acionalização (com suas =alismo e à massificação. ~odernidade, vêm a ser - e::.rre vida pública e vida ~ -.;os", que não os gregos lica e vida privada não ~n;.ações axiológicas tão 3-e ü:r existido a diferença DOSJ1 RDTNS À ORDEM PÚBLICA 41 entre as duas dimensões do viver. O que se destaca, contudo, como algo que entre os gregos teria surgido com nitidez maior, é a origem de uma qualificação política da dimensão pública. A política como ação, no sentido de Hannah Arenclt, ação casada ao próprio questionamento das estruturas da ordem (portanto ao uso hermenêutica da palavra e da discussão); algo substan- cialmente, irredutivelmente distinto da dimensão privada do viver. Retomemos a referência à politicidade atribuída ao "ho- mem", e à condição diminuidora (os romanos falariam em capitis deminutio) que foi a do cidadão grego privado da praça e devol- vido, após a invasão macedônica, Rsua casa e seu jardim. Ocorre pensar, e seria talvez um truísmo fazê-lo em termos de "sociologia do conhecimento", na correlação entre as concep- ções da verdade e os padrões sociais do viver. E como não considero inteiramente destituído de senso o esquema da "lei" elos três estados, de Comte (inspirada em Condorcet), poderia aludir a uma verdade teológica, outra metafísica e outra socio- lógica: esta sucessão de fases se apresenta exemplarmente no caso do Ocidente, mas também é reconhecível, sobretudo quanto às duas primeiras formas, no espírito "antigo". Todos sabem que ao estágio inicial c01·respondeu, no caso grego, a idéia ela verdade como "desvelamento" (aletheia), como uma fAce que se descobre por conta de um fator especial, qual seja R nçi:io de um sacerdote invocando um oráculo, ou uma "revelação" excepcional; e que depois, com os progressos do modo urbano de vida, veio a preva- lecer o sentido ]Rico da verdade, com a valorização do diálogo e da palavra-argumento, desenvolvida precisamente dentro do espaço público. Num estágio teria predominado, por assim dizer, um sentido a um tempo privado e religioso, no outro um sentido público e político. Será truístico, portanto, dizer que o emergir ela noção de "coisa pública" implicou o mundo clássico a valorização da vida pública. A casa se alarga e dá (liLeralmente) lugar à cidade: "cidade", na cultura clássica, significando a própria sociedade política. Os romanos, que tiveram para tudo isto uma profunda e eficiente sensibilidade, completaram aquela noção com a de
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    • .t 42 O.!tHJJIM E 11 PRAÇA ordem, pública, correiaLa da idéia do direito, o jus que é também função da cidade. Ainda uma anotação histórica. A v1gencia da dicÇ~tomia direito público-direito privado varia conforme os contextos his· tóricos. Certos autores têm observado que na Idade Média euro- péia, vale dizer durante os séculos em que prevaleceu o feudalismo, aquela dicotomia praticamente inexistiu. Teria ha- vido então um predomínio das estruturas privadas - laços pes- soais, fidelidades pessoais -, ou então uma espécie de misto ou meio termo, em que o poder do "senhor" feudal, com sua família e seu entourage privado, era ao mesmo tempo um poder genérico e institucional. O crescimento elo pensar secularizado, com o racionalismo e o iluminismo (que inclusive delineou com nitidez a diferença entre política antiga e política moderna), consolidou dentro do liberalismo uma visão renovada da antiga dicotomia, vindo a Revolução Francesa a configurar em seus resultados legislativos uma cluplicidade de planos: no plano do direito público as constituições, no do direito privado as codificações. Enquanto isso, o senLimento de "modernidade", que surgiu nos intelectuais do Ocidente a partir do século XVII mais ou menos, e que incluía a consciência ele "posterioridade" em relação aos "antigos", ressoaria na querela elo tempo de Perrault e também, muito depois, na famosa conferência de Benjamin Constant sobre a liberdade dos antigos e a dos modernos. A partir de certos dados, e ele certas motivações, reforçou-se a idéia de uma diferença muito grande entre o homem moderno e o antigo. A Cité Antique, de Fustel ele Coulanges, trazia em certos tópicos a noção de que aos antigos faltava de fato a plena dimensão ela individualidade, noção aparentemente estranha, mas não tanto: o grande historiador se referia ao caráter peculiar da "liber dade greg::t", que era mais uma adesão do cidadão à sua polis do que uma contraposição em face dela. De qualquer sorte Fustel ressaltou o império das instituições sobre o arbítrio pri- v::tdo, inclusive no plano da família e do "amor", onde não parece ter havido a larga parte ele opção c fruição que a culLura contem- poriinea confere aos indivíduos. Como se sabe, o problema de ter ou não havido em plenitude a consciência da individualidade (e da subjetividade), entre os antigos, foi já debatido por diversos autores mais recen• xistência ele um -.:_ nos estenderemos s. O problema ci_ gregos e rom.ano.s ~­ Primeira: entre os:' punha, pois, a não- não conseguiam ela polis e das ciL·i generalizações, m matizar o tema). S porânea enxergo·.r considerar minori: ~ clade pessoal - :::... aligeirada por sua ~ non e pelas alusc , pesado e duro co~ Estado e a fam.í::ia u da privacidade, a e outras mais. Tal-..·ezr ras", n1as que sem. ~ vida e com impo De fato as a; literalmente, per..l- substituição da resi por mais seguros e aumentos ele popU::! cidades, cada co~· cada bairro tinham :.. O mundo de hoje ~ berto Eco dividem
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    ée!:.o~ o jusque é também - 'rig-ência da dicotomia ~~e os contextos his- ç:xe na Idade Média euro- em que prevaleceu o -....;;õOK~e.u""-e inexistiu. Teria ha- -~ priYadas - laços pes- - ~a espécie de misto ou fe-..1dal com sua família ~po um poder genérico ~ secularizado, com o -==~'"e delineou com nitidez _-._.....L4 moderna), consolidou da antiga dicotomia, - -.2al' em seus resultados -~---~~ .co plano do direito ;:..-.n-ado as codificações. - ._ ;!enidade", que surgiu século XVII mais ou "'~.e!"ioridade" em relação do tempo de Perrault e mc!lferéncia de Benjamin --== e a dos modernos. A ·ões, reforçou-se a idéia ~ o nomem moderno e o ~an.;es, trazia em certos fZ:.a··a de fato a plena .-'"e.ctemente estranha, ~ia ao caráter peculiar a.rl:esào do cidadão à sua d1:.a. De qualquer sorte t;::::~-~- sobre o arbítrio pri- amor'', onde não parece <f'.le a cullura contem- sabe, o problema ele ter <ia individualidade (e .. • debatido por diversos DOS JARDINS À ORDEM PÚJJL!Ct 43 autores mais recentes, inclusive com extensão ao tema da ine- xistência de um "direito subjetivo" entre os romanos; mas não nos estenderemos sobre isso. O problema ela limitação ela idéia ele subjetividade entre os gregos e romanos nos levaria entretanto a duas ponderações. Primeira: entre os povos elo Oriente antigo o problema sequer se punha, pois, a não ser em pequena medida, as individualidades não conseguiam con trapôr -se ao peso elas instituições. No caso da polis e das civitas é que as questões emergem (passem estas generalizações, merecedoras de ressalvas, como modo de esque- matizar o tema). Segunda: o que a m entalidade liberal contem- porânea enxergou mais no panorama antigo, de modo a considerar minoritária a presença do indivíduo - e de sua liber- dade pessoal - foi o vulto do Estado: tanto na polis grega, aligeirada por sua correlação com as esbeltas colunas do Parte- non e pelas alusões dos filósofos, como no imperium romano, pesado e duro como os bronzes das estátuas dos Césares. O Estado e a família primavam sobre o indivíduo, e este valia m enos por si do que como elo ele uma cadeia, dentro da família, ou como um componente condicionado, dentro do Estado. Mas pRsscmos outra vez ao tema ela casa. A crise da casa, nas cidades do século XX, tem sido correlata de várias outras crises, como a da privacidade, a elo liberalismo, a elafamília, a das "humanidades" e outras mais. Talvez, crise de coisas que hoje parecem "conservado- ras", mas que sempre tiveram o que ver com uma certa imagem ela viela c com importantes realizações históricas. De fato as casas se extinguem, ou, quando isto n ão ocorre literalmente, perdem seu velho sentido ele "morada". Refiro-me à substituição da residência em casas pela residência em apartamen- tos, a princípio preferidos por mais práticos e mais baratos, depois por m ais seguros, e afinal impostos a quase todos pelos enormes aumentos de população, nas décadas mais recentes. Outrora, nas cidades, cada coisa tinha seu lugar, sem muitas mudanças, e em cada bairro tinham seu lugar a igreja, a escola, a casa de Beltrano. O mundo de hoje, invadido pelas comunicações que segundo Um- bcrto Eco dividem os homens em "apocalípticos e integrados"", é •J. tJ!fKX!IÍpliros c Tnleyrados, Siio Paulo, Pcrspcclivn, IDR7.
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    . -. ·14 O,JJTWIIlf E A PR.1lÇA um mundo em permanente alteração, em que nada é duradouro. Além de se extinguirem as casas, e com elas o espírito ele estabilidade que parece ter havido em tempos anteriores, dá-se que as pessoas já não gostam de ficar em casa: correm cada "fim-de-semana" pnra fora e para longe delas, auxiliadas pelos automóveis (Hesse já dissera que para o homem do novecentos o auto é o "objeto-rei") e impelidas por uma compulsão. Alguém já aventou a idéia ele associar este instabilismo espacial de hoje a um novo nomadismo, uma volta ao viver nômade e errático de outras eras. Do mesmo modo que temos o paradoxo do jardim coletivi- zado, e até massificado, com as "áreas de lazer" elas vilas popu· lares e com os playgrounds dos edifícios tipo classe média, temos também o problema da praça demasiado cheir~, com excesso de pessoas em todas as ruas e logradouros, rompendo com a dispo- nibilidade de espaço c de "ar livre", que sempre foi própria da praça pública. É a agonia dos velhos esquemas e de certas imagens tradi- cionais. O ideal do "homem", moldado pelo humanismo greco-ro- mnno e pelas adições ocidentais, e que com a burguesia dos séculos XVIII c XIX se havia desdobrado no conceito de "cidadão" (citoyen, Staatsbürger)r,, entrou também em um processo ele corrosão. Aquele conceito, que no fundo era correlato do ideal contratualista (segundo o qual as vontades individuais se arti- culam com a vontade "geral"t tendia a fazer de todo ser humano um homem público, Alçando ao nível global da sociedade política a existência pessoal ele cada um. Este ideal entrou em crise por conta dos problemas sociais vindos do século XIX, e com ele as formas de vida histórica que o haviam acomprmhado. Certo, Lodos sabem que por cima da imagem da crise pode colocar-se uma placa aludindo ao futuro, que poderá ou deverá ser melhor; como da visão do declínio disso ou daquilo se pode concluir que o que entra em declínio são coisas a serem substi- tuídas; ocorre porém que não se enxerga quase nada p~ra além da crise e do declínio, e este alcança justamente coisas que vinham integrando a própria iml'lgem do homem e do "humano". 5. I lcrtwutll llcllet·, l?scrilos Po/(ticos, trad. csp. S. de Arlechc, Madrid, 1liunza Editorial, 1!)85, pp. 2•11 c ss. tínuo e fragmentário. conflitos e fundamen· que uns tantos apo~ saudando o que al gência"0 , é sempre a...=: dente ele elementos Falei do hum3L.4 dora (os que chama::J. grande pensador" The Human Condi.- pológica da evolução se sobre os está~::.: implicações da disr!:-." se relaciona com pr- E ao aludir ao probl esta chega a destrcir pois "priva os homem: lar privado": a comp. a privada em conexão a ação, depende de tendem a eliminar o liberalismo de cer~ :: clnssico, que em noss Strauss e que remon~ com a apolog·ia elo cil;. Trata também d livro de Jürgen Ha lichkeit8, que já refe.- 7. 8. 'l'rad. francesa, J:t:spact!
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    e:=: que nada é duradouro. e ~ elas o espírito de --....::..= em casa: correm cada ~ de_as, auxiliadas pelos ... o b:;mem do novecentos mr.a compulsão. Alguém --.:-..abilismo espacial de hoje ~er nômade e errático de ~oxo do jardim coletivi- de lazer" das vilas popu- 11-....,;;__:s - ipo classe média, temos ~-"-~~ cheia, com excesso de ::. rompendo com a dispo- :::-.:I.e sempr e foi própria da ~e de cen a s imagens tradi- pelo humanismo greco-ro- e ..e com a burguesia dos - r-.9 conceito de "cidadão" em um processo de --=:::.....n era correlato do ideal da imagem da crise pode - r que poderá ou deverá di5so ou daquilo se pode - coisas a serem substi- ,.......~.--.- quase nada para além - JUStamente coisas que ~ homem e do "humano". Madrid, Alinnza Ediloríal, 1085, DOS JARDINS ,i ORDliM PÚJJDTCII 45 Coisas vindas de um longo e profundo processo histórico, descon- tínuo e fragmentário mas expressivo e inteligível, e que inclui conflitos e fundamentações, mitos e imagens, dados e teorias. O que uns tantos apontam como melhor, festejando a crise e até saudando o que alguns chegam a chamar de "derrota da inteli- gência"6, é sempre algo vago, algo indefinido e no fundo depen- dente de elementos hermenêuticas que se acham dentro do próprio processo histórico hoje entrado em crise. Falei do humano, pouco acima. Em 1958, a grande pensa- dora (os que chamam as poetisas de poetas deverão escrever "o grande pensador") H annah Arendt publicava seu notável livro The Human Condition, baseado em uma visão histórico-antro- pológica da evolução ela própria experiência humana7 . Detendo- se sobre os est::lgios dessa evolução, Arcndt analisa ali as implicações da disLinção entre vida pública e vida privada, que se relaciona com problemas histórico-sociais muito relevantes. E ao aludir ao problema da sociedade de massas, observa que esta chega a destruir a ambas as esferas, a pública e a privada, pois "priva os homens de seu lugar no mundo e também do seu lnr privado": a complementação ideal entre as duas dimensões, a privada em conexão com o trabalho e a pública em conexão com a ação, depende de certas estruturas que, se não mantidas, tendem a elimim1.r o equilíbrio das coisas. E videntem ente tudo isso soa a liberalismo. Mas não ao liberalismo ele certos "liberais" de hoje, dispostos a aplaudir ditaduras e a apoiar regimes militares, e sim ao liber alismo clássico, que em nosso século inclui também o nome sério de Leo Strauss e que remonta às fórmulas pedagógicas do iluminismo, com a apologia do cives latino e da praça popular. Trata também do tema - o da coisa pública - o denso e difícil livro de Jürgen Habermas, de 1962, Strukturwandel der Offent- lichheit8, que já referimos. Partindo da distinção grega entre coisas comuns e coisas privadas, Habermas menciona a ágora e (l, AlninFinkiolkraaL, l.n!Ji'fitilet/(• In pm8rP, Pnris, Gnllimard, 1<)87. 7. A Condição Humana, Hio de .T:t11eiro, Edusrv'ForellHe, 1981. S. Trad. franccen, l."l.:spa('(' public, op. cit.
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    . ~-.. QJ,RDIM Ei PRtlÇA com ela a noção de "ação em comum", observando por outro lado a "força normativa" existente no modelo helênico da esfera pública, sobretudo na forma em que este modelo veio a manter-se a partir do renascimento. Para Habermas, o conceito feudal de senhor (seigneur) teria sido neutro em relação às categorias "público" e "privado"; e com a burguesia, realmente, é que se teria tido o retorno da noção de esfera pública: a burguesia, sempre interessada na circulação das mercadorias e também na das informações, teria redimensionado essa noção, vinculando-a a uma série de componentes novos, inclusive a "opinião pública". Parece contudo haver um certo exagero nos termos em que o problema é colocado por Habermas. O conceito medieval de seigneurie, que de fato não se identificava com o poder elo Estado, não era propriamente neutro em face elo binômio privacidade/pu- blicidade; era referente a um. tipo ele estrutura onde vínculos basicamente privados se ampliavam até alcançRr sentido públi- co, e em que vigências culturais muito amplas- como as imagens do Sacro Império e da Madre Igreja - vinham por seu turno penetrar certos atos privados. Mas voltemos- a ágora: praça do:::::.~ vital, tornado his~­ atividacle política :: - e povos sem ágo-a Naquele espaço cen ca: cenário, atores. - as queixas e as d da dimensão púb:.ic.a; se a condição do h na ágora a sua pU:S diversos espaços ;-...... sas lnlclals, menc! respondente ao ides:: ideais ocidentais. Macedônia, no fim grega, e com ela a arengas: acabou-se homem público po:- do domínio maced-
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    es::e:r=.::rl.e:o veio amanter-se .:±it:::'E:n::!a.S- o conceito feudal de E:::::l re!ação às categorias --~~~ realmente, é que se es:!er:a pública: a burguesia, C::.fl'Ca.dorias e também na I"----' essa ~oção, vinculando-a ~i-·e a ""opinião pública". rom o poder do Estado, _:nõmio privacidade/pu- e::u·urura onde vínculos :;ué a!~çar sentido públi- - 2:n;Jlas - como as imagens - .P..:.n.ham por seu turno 7.PRIVATISMO EPUBLICISMO Mas voltemos às imagens clássicas e mencionemos de novo a ágora: praça do mercado, eixo social da polis, espaço centrRl e vital, tornado historicamente símbolo da presença do "povo" na atividade política. Os gregos diziam que havia povos com ágora e povos sem ágora, uns com liberdade e outros sem liberdade. Naquele espaço central se situavam os elementos da vida públi- ca: cenário, atores, ação. Nele estavam os debates e as facções, as queixas e as decisões, e sobretudo a palavra como componente da dimensão pública: ao fazer-se pública a palavra, publicizava- se a condição do homem. A polis, quase literalmente, teria tido na ágora a sua pulsação. O espaço público, realizado a partir de diversos espaços particulares convergentes (inclusive o das ca- sas iniciais, mencionadas por Fustcl), antecipava o modelo cor- respondente ao ideal contratualista, antecipando também outros ideais ocidentais. Entretanto, como se sabe, a derrocada dos gregos diante da Macedônia, no fim do século IV a.C., esvaziou a vida política grega, e com ela a democracia da ágora com seu s temas e suas arengas: acabou-se a importancia dos discursos políticos e do homem público por excelência, o político. Ao submergir dentro do domínio macedônico, a polis deixava de ser a medida das
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    - • '!- 18 OJA /1/J/M E 1 PIIAÇA crenças gregas (e aqui o termo pode entender-se no sentido orteguiano da distinção entre idéias e crenças). Restava o cos- mos, inacessível aos golpes dos hoplitas e abrigo maior da razão; e restava a vida privada. Quase uma antecipação da frase de Kant sobre o céu estrelado e a lei moral. Na verdade o afundamento da experiência política atenien- se - que aparece implícita ao falar-se padronizadamente da "grega" - ocorreu aos poucos, no meio de coalisões militares e confrontos internos, inclusive o confronto entre lideranças inte- lectuais. O ideal clássico de liberdade perdeu-se no tempo de Demóstenes, quando a autonomia das cidades helênicas se tor- nou inviáveF. A "política", que um historiador autorizado como Finlay considera uma invenção dos gregos, ou talvez dos gregos e dos etruscos separadamente2 , terá sido engulida naquela fase, dentro de coordenadas desfavoráveis. Em troca, surgia (talvez ressurgisse) a vida individual. Ressurgia ou cobrava novo destaque. Aqui entra um tema histórico-clouLrinário específico, o da evolução elo pensamento antigo sobre a liberdade humana. Ou aludindo-se, um tanto tardiamente, ao fato ele que nos próprios escravos a alma é livre, ou discutindo-se a condição do indivíduo diante dos "liames sociais" - como parece ter ocorrido em torno de Sócrates e ele Diógenes-, chegou-se ao problema da dimensão pessoal, senão mesmo "interior", da liberdade, pensada em gerações anteriores como condição externa do homem, ou antes: de determinados homens. Se, como anotamos acima, o que restou depois de certos fracassos foram o cosmos e a vida privada, entende-se- e isso se encontra fácil nos compêndios - que as duas grandes filosofias do período final da cultura helênica Gá paralela ao alargamento da presença de Roma) tenham sido o estoicismo e o epicurismo. Na fase pós-aristotélica o pensamento grego se concentrou sobre certos temas, em particular o reexame do problema do conheci- mento e a construção do "ideal do sábio". Vieram também as cosmologias e filosofias da natureza (há uma ampla filosofia da n atureza na obra de Epicuro), e as pequenas escolas preocupadas I. :vi. G. L.llammond, i llistoi)'O{Greece, to 322 BC, Oxford, 195!J, cap. VI, final. 2. M. I. l-'inlay, A Polltioo110 Mundo Antigo, Rio de Janeiro, Zahnr, J985, p. G9. com rever proble do mundo. Isto é, :~ A historio estoicismo e o epi idéia sempre tr logos e suas leis identificação com- - sempre se destacou. como "refúgio do estilo antigo. Aos • político da Grécia e acompanhou, se!!lk"- mas na verdade h.,. epicurista, que Yal De qualquer que a polis, mediJa soberania e sua fo éticas e com os "p. era duplo: por um absoluto em que se valorizara o saber _ que se tinha agor-..l "República" (Poli;..- camente renuncia· - No sistema ~e clagógica e aclm>n :::: levado a um pont.o que depois se ch a uma existência !!!- e privada. Talvez:· totélicos terão sid"' separação entre '-: tradição oriental lectual e vida poE~· dali em diante, nas lando entre formas ou coisa parecida. e
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    :: ,:, ab!'igomaior da razão; -- a=.Lecipação da frase de cir coalisões militares e :::::=o ~tre lideranças inte- perdeu-se no tempo de ad.arls helênicas se tor- em ~erações anteriores - ....::.!es: de determinados entende-se - e isso se ...as grandes filosofias :m.Ie:a ao alargamento - . cap. VI, final. 19.:i:;, p.69. I'RIVA1'ISMO E PUBLTCJSMO 49 com rever problemas. Daí a figura do sábio solitário vivendo fora do mundo. Isto é, fora da cidade e de suas ilusões. A historiografia sempre ressaltou, no meio dessas imagens, o estoicismo e o epicurismo como escolas maiores. Do primeiro, a idéia sempre transmitida é uma visão global do mundo, com seu logos e suas leis imanentes, completada com a do sábio cuja identificação com tais leis otorna imune ao sofrimento.Do segundo sempre se destacou a referência à valorização do viver privado, como "refúgio do sábio" diante da inutilidade do esforço cívico ao estilo antigo. Aos pósteros, sempre impressionados com o legado político da Grécia e também com a carga de idéias gerais que o acompanhou, sempre pareceu mais importante o pathos estóico, mas na verdade havia igualmente muito de helênico no realismo epicurista, que valorizava em cada ato uma quota de prazer vital. De qualquer modo pode-se dizer que, ao mesmo tempo em que a polis, medida do existir para o homem grego, perdia sua soberania e sua força normativa, o pensamento ético partia para um relativismo muito flexível, que se acentuou com as escolas éticas c com os "probabilistas". Em relação a Platão, o contraste era duplo: por um lado os relativismos se opunham ao modelo absoluto em que se baseava a teoria das idéias - Platão super· valorizara o saber rigoroso, a episteme -; por outro, a estima em que se tinha agora a vida privada era antagônica ao ideal da "República" (Politéia), em que os pensadores-governantes prati- camente renunciavam à vida privada. No sistema de Platão este cancelamento da vida privada (para os pensadores-governantes) decorria, como conclusão pe· dagógica e administrativa, de um racionalismo absoluto, quase levado a um ponLo anti natural, em que a total dedicação àquilo que depois se chamaria o "bem comum" reduzia o viver do sábio a uma existência muito mais oficial e pública do que espontânea e privada. Talvez se possa pensar que os relativismos pós-aris- totélicos terão sido um dos primeiros passos no sentido de uma separação entre vida intelectual e vida política, tão juntas na tradição oriental (China e Egito por exemplo). Entre vida inte· lectual e vida política as relações seriam sempre problemáticas dali em diante, nas diversas etapas da cultura ocidental, osci- lando entre for mas de fusão, com o intelectual a serviço do poder ou coisa parecida, e formas de contraposição. .... "
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    - - -- 8.PLATÃO EOINTELECTUAL MODERNO Vale estender-se um pouco mais sobre o tema do intelec- tual, em relação à política. Platão representou, como foi dito acima, a pretensão à absoluta racionalidade política, esta por sua vez correlata de uma justiça entendida como razão. Como razão e como ordem, coisas vinculadas ao estável senão ao imutável: como ordem natural, a ordem racional das coisas equivaleria à base do verdadeiro e do justo. Com isso se varreriam as incômodas oscilações da "opinião", inerentes aliás à democracia, em favor do saber seguro e infalível da ciência; a episteme em vez da doxa. Superava-se todo compro- metimento subjetivo. Um igualitarismo de oportunidades, ins· Laurado a partir de verificações pedagógicas, era a contrapartida, na "República" (Politeia), do desigualitarismo funcional e inabalável do sistema, que consagrava em parte a estrutura social existente na sociedade grega- embora corri- gindo-a a modo de evitar o poder do dinheiro e o das armas, ambos substituídos pelo do intelecto. Na base estava, claro, o ideal helênico e principalmente ate- niense, segundo o qual a realizaçãointegral de cada homem estaria em participar da política (ou seja, da vida dapolis e de seu governo); só que no autor do Timeu a coisa chega a pontos extremos, enten· ...1'
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    . ..... 52 OJJIIWIME A PRAÇA dendo-se como necessário para a devoção à sabedoria e ao gover-. no o abandono dos laços privados e dos interesses particulares, próprios das almas insuficientemente educadas. Como acentuou oportunamente Ernest Barker, Platão viu na casa o abrigo dos exclusivismos c dos sentimentos egoístas; além disso viu na família uma espécie de rival do Estado, fonte de um pernicioso divisionismo dentro da vida da cidade1 • É fácil ver, nestas concepções, um como que voltar-se do espírito helê- nico contra si mesmo, pois a vida de família (e das casas) tinha sido a própria origem da ordem social grega, e o racionalismo - que Platão leva e eleva ao grau m áximo- foi também umproduto cultural tipicamente grego. É provável, de resto, que ao tempo da República ainda estivessem relativamente nítidas na memó- ria dos povos gregos as imagens da época em que o panorama político e social se achava dominado por grandes famílias, que exerciam seu poder em uma estrutura de tipo feudal e que se transformaram, com a democracia (tão criticada pelo filósofo), em núcleos de sentido oligárquico. Também em Rousseau - cujo papel histórico-doutrinário me parece em diversos aspectos aná- logo ao de Platão- o repúdio das vontades "particulares" corre paralelo à busca de uma ordem pública definitiva, uma ordem que se vinculava à "vontade geral" e que arrastava Jean-Jacques para perto do que Talmon denominou "democracia totalitária". Mas voltemos a Platão. Em sua visão utópica, que confir- mou e ao mesmo tempo contrariou as imagens centrais da men- talidade grega, aparece bastante claro um traço comum ao intelectual e ao político, consistente no fato de que ambos corres- pondero a formas de vida cuja essência (ou cuja plenitude) parece incompatível com o que se chamaria a "normalidade" da existên- cia, entendida em sentido privado. Entendamo-nos. Ao olhar retrospectivo, as primeiras formas de organização urbana - as do tempo de Menfis, de Cnossos ou de Lagash- apresentam em seu centro uma certa junção entre o saber e o poder, que parece ter sido perdida e que de vez em quando as utopias (dos intelec- tuais) sonham resgatar. Ali, em principados e cortes de dois mil L Erncst 13arker, Greeh Polilical 1'heo1)'.l'lato and its Predecessors, Londres, 1977, cnp. X. Cf. tambérn a scgundn pHrlc do livro de Janine Chante ur, Platon, le desir et la.cité, Paris, Sircy, 1980. origens um sentido viver. Assim ima,; monarcas, respon_~ junto com mulher : simas pedras pal pragas misteriosas República platôni família - longe da vidas realmente ~p tualmente, dado o e que o qualifica, e. tem de tomar e q'-4e e sua condição es_ nada, mesmo quan são. O político tam próprio (a não ser:::.::: de Beruf e com si países capitalistas não se identifica co:::. Se por um :a socialmente cara~e: público, elas em ger.- de vida privada: h soais. Mas na vida. a necessidade de d primento dos afazer vações de Bern~ Super-Homem, ao esteja por inteiro à- família e até do sacrifício permite quadro mais belo").. egoísmo, não dentro posto entre devoção
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    ~o à sabedoriae ao gover-. - e àos interesses particulares, -· educadas. - E:rn.est Barker, Platão viu e dos sentimentos egoístas; • · ·e de rival do Estado, fonte da ,.ida da cidade1 • É fácil .;:,._,......_.:1..1 grega, e o racionalismo - fo....;.li~IU - foi também um produto · ·e!, de resto, que ao tempo · amente nítidas na memó- ::.:2. epoca em que o panorama ~ por grandes famílias, que de t ipo feudal e que se ~o criticada pelo filósofo), Também em Rousseau- cujo :::ee:::n diversos aspectos aná- -=:ades "particulares" corre ~o-....;.;,..(..-u definitiva, uma ordem ve arrastava Jean-Jacques -.iemocracia totalitária". -..são utópica, que confir- - -.....agens centrais da meu- cLaro ULn traço comum ao :::::-;. fa:o de que ambos corres- (ou cuja plenitude) parece ·no!"Illalidade" da existên· =:E crrganização urbana - as ., !..agash- apresentam em ~a! er e o poder, que parece ~as utopias (dos intelec- ~~'""dos e cortes de dois mil PLATÃO E O INTELECTUAL MODERNO 53 anos ou mais antes de Cristo, se instalou o poder político, com sua armação de hierarquias, correlatas da ordem religiosa; ins- talou-se também a organização do conhecimento, que no início deve ter sido menos crítico, e que também assumiu desde as origens um sentido específico em face dos afazeres "normais" do viver. Assim imaginamos os sacerdotes e os magos, tal como os monarcas responsáveis por decisões que não se tomam à mesa ' . ' junto com mulher e filhos: rostos antiquíssimos, entre a~~lqUlS- simas pedras palacianas, insones diante de problemas m1htares, pragas misteriosas ou latentes conspirações. Assim o sábio da República platônica, exercendo o governo longe do povo e da família - longe da praça e do jardim-, solitário em relação às vidas realmente "pessoais" dos homens comuns. Solitário intelec- tualmente dado o nível demasiado "alto" do pensar que cultiva, ' -e que o qualifica, e politicamente, dado o caráter das decisoes que tem de tomar e que não competem ao homem comum. Convenhamos em que o intelectual é realmente um clérigo, e sua condição específica não configura uma "profissão" determi- n ada, m esmo quando o intelectual exerça esta ou aquela profis- são. O político t ambém não representa uma "profissão" em sentido próprio (a não ser na acepção de professio, testemunho, correlata de BeTU{ e com significação peculiar). A condição do político, nos países capitalistas, atravessa outras condições profissionais mas não se identifica com elas, ou não deve idenLificar-se. Se por um lado as diversas profissões, que são afaze~es socialmente caracterizados, possuem concretamente um sentido público, elas em geral permitem ao "profissional" um tipo_normal de vida privada: horários, convívio de família, ocupaçoes pes- soais. Mas na vida política plena, bem como na vida intelectual, a necessidade de dedicação ou de concentração dificulta o cum- primento dos afazeres privados. O que nos faz lembrar as obser- vações de Bernard Shaw, no primeiro ato de Homem e Super-Homem, ao afirmar que o verdadeiro artista, dedicado que esteja por inteiro à sua arte, termina por descurar dos laços de família e até do amor pessoal ("feneçam mil mulheres, se o sacrifício permite representar melhor o Hamlet ou pintar um quadro m ais belo"). Só que no caso já entraria a que~t~o do egoísmo, não dentro da família mas fora dela; e do narc1s1smo, posto entre devoção pública e ocupação privada, ou antes fora de
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    54 O JARDIME A l'RiÇ!l ambas, como em um limbo. Aliás Francis Bacon, em seu ensaio "Of Marriage anel Single Life", já havia dito que os grandes atos e as grandes obras sempre cabem aos homens descasados e sem filhos, embora os que têm mulher e família sejam em princípio melhores súditos2 • E aqui uma anotação sobre o intelectual moderno. No caso, onde os exemplos se acham obviamente mais próximos pa~a nós ele hoje, parece aguçar-se aquele conflito latente, que se arma entre a condição elo intelectual, ou elo político, c o viver elos homens "não especiais" que exercem as profissões especiais. Aquilo que os românticos (sem aludirem ao depois chamado fator econômico) designavam como "burguês", constituía na verdade uma alusão ao prosaísmo elo homem privaclamente ajustado (horários, afetos, obrigações), em contraste com o comportamen- to do escritor (aliás parece vir desta visão romântica um certo conceito que equivocadamente encara o intelectual como "eles- programado" e boêmio). Nietzsche, em carta de março de 1887 a sua irmã Elizabeth, falou da hipótese de casar-se, ou de ter-se casado. Dizia: "Se eu me casasse agora, isto seria apenas uma asneira, que me faria perder uma independência que conquistei a preço de meu san- gue.(...) Antes viver miserável, doente e temido em algum canto do que arregimentado e situado dentro da mediocridade moder- ":3na . Ou então o conhecido trecho ele Fernando Pessoa, no poema "Lisbon Revisited" de 1923: Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável? Uma elas primeiras expressões, vinda aliás do pensamento social romântico, da saturação do existir moderno em termos de espaços e relações, terá sido a obra maior de Toennies, onde se descreve a sociedade como modo de agrupaçào mais amplo porém artificial, fundado sobre a "vontade reflexa", e a comunidade como modo mais concreto, mais estreito, fundado sobre a "von- tade essencial". Desta se passaria àquela, como tendência evo- lucional genérica. Seria um trânsito do privado ao público? 2. The Moral anel !Tislorical Worhs ofLordBacon, Londres, George 13cll, 1890, pág. 19. 3. F. Nietzsche, Lettres Choisies, Librairic S!.ock, Paris, 1931, p. 213. Mas voltando niclacle (no sentido temos que nos séc:: categorias histó~ca, rias predominantes' civilizações, incl -· "militar" e "político Pode-se obse_ no sacerdote ocorri:' poder político. E!:l existência privada to, senão mesmo-- em relação aos afaz da sociedade e de:;~ sões. No caso elo ::L.li..! mente um aias- latentemente o he ~ épica antiga e na-:::::. exernplaridade,se~ dos e constranged~- ~ dote teve-se semp_ sagrado; e o sagra mundo antigo. ::Ias a vida entregue à pa código de n ormas. c_. o princípio, vigen:.e a ser exigente cons:,. fechamento para o_..,. conceitos, e não à e corresponcle basi~ ra. Corresponde - capitalista. O idea:
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    ---5 Bacon ,em seu ensaio «E~ que os grandes atos - -:::ens descasados e sem ~moderno. No caso. ' ~ mE.s próximos para nós y.::..:!ico, e o viver dos z: profissões especiais. aodepois chamado fator constituía na verdade p~vadamente ajustado ~.e com o comportamen- :são romântica um certo ~:electual como "eles- _-:~ - a sua irmã Elizabeth '-~ ::asado. Dizia: "Se eu - a.:::.~eira, que me faria ~ e: a preço de meu san- e ;.enlldo em algum canto da mediocridade moder- _,__.ndo Pessoa, no poema re &ributável? ~ a:iás do pensamento ...:: moderno em termos de de Toennies, onde se ~o mais amplo porém t:xa. , e a comunidade fm:dado sobre a "vou- como tendência evo- pivado ao público? PLATÃO E O INTELECTUAL MODERNO 55 Mas voltando ao tema do intelectual moderno, e da moder- nidade (no sentido amplo do termo) como gestadora de crises, temos que nos séculos ditos burgueses entram em crise certas categorias históricas, entre elas o militar e o sacerdote. Catego- rias predominantes nas épocas aristocráticas da história das civilizações, inclusive registrando-se que, em certos contextos, "militar" e "político" se identificavam. Pode-se observar que tanto no militar (o "guerreiro") quanto no sacerdote ocorreu sempre, ele algum modo, a participação no poder político. Em ambos ocorreu sempre a ausência ele uma existência privada em sentido pleno. Em ambos um afastamen- to, senão mesmo uma posição de real ou pretensa superioriclacle em relação aos afazeres comuns, ligados à manutenção material da sociedade e definidos depois - ou desdobrados - como profis- sões. No caso do militar, cuja atuação mais específica é social- mente um afastamento (estar "em campanha"), teve-se latentemente o herói, o vencedor armado, cantado sobretudo na épica antiga e na medieval; o herói com seu distanciamento e sua exemplaridade, sem as contingências nem os compromissos miú- dos e constrangedores do cotidiano doméstico. No caso elo sacer- dote teve-se sempre a respeitabilidade do homem ligado ao sagrado; e o sagrado sempre esteve nas fundações, dentro do mundo antigo. Mas a ambos sempre se atribuiu algo ele sacrifício: a vida entregue à pátria, ou dada à religião. E também um severo código de normas, cujo cumprimento dá direito à reverência (daí o princípio, vigente nas aristocracias, segundo o qual o primeiro a ser exigente consigo mesmo é o mais nobre: noblesse oblige). O fechamento para o mundo, para o sexo- no caso do religioso e ao menos em certas religiões-, enfim para a normalidade privada. A queda do prestígio do sacerdote e do militar, nos séculos mais recentes - refiro-me à vigência histórica de determinados conceitos, e não à eventual ocorrência de gover nos militares -, corresponde basicamente ao processo de secularização da cultu- ra. Corresponde também ao desenvolvimento da mentalidade capitalista. O ideal do progresso, com suas utopias e seu peda- gogismo, lançou as linhas de uma sociedade onde a ciência conduzisse as crenças, e o domínio do dinheiro (uma realidade antiplatônica) entronizou o pragmatismo, complementado pelo tecnicismo, pelo cientificismo e pela especialização. O ideal do ....- .
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    56 OJAIWJM Ei PRAÇA progresso e o cientificismo levaram no século XIX ao evolucionis- mo, espécie de dogmatização linear de uma série de evidências. O evolucionismo condenou como coisas arcaicas o padre e o soldado, inviáveis, dentro da tipologia spenceriana, na sociedade industrial e liberal. Ao mesmo tempo consolidava-se nas socie- dades do Ocidente a presença das profissões "liberais", como vocações e como forma de ganhar dinheiro, dentro de uma estra· tificação social menos rígida - a de classes - e sem as conotações próprias da condição do soldado e do padre, ou por outra: do guerreiro e do santo. As profissões ditas liberais, diferenciadas entre si dentro das especializações (Fachwissenschaften) do sa· bermoderno e de suas projeções práticas, situaram-se aos poucos em um conjunto social formado a partir de vidas privadas (voca- ção c "carreira" individual), dentro daquilo que desde Hegel se ficou chamando sistema das necessidades. 9. o-_ Retomo agora acima, ao epicur::~ gar a frase "de privada, os rom singelo ao Impér.o ritoriais e pela a<ift tanto, que o esq:... tiveram em seus trias. Além do m propriamente cor:: unificadores e ur· Nem semp::-e dados, sempre rein mento" histórico público, e o predc que se desdobra a daquela civilização 1 e irreversível.
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    - z:.: séculoXIX ao evolucionis- ~ :nna série de evidências. ~::.as arcaicas o padre e o --'" .spenceriana, na sociedade o::;nsolidava-se nas socie- - p!"1J.5ssões "liberais", como -=:_riro, dentro de uma estra- ~s - e sem as conotações e ~;:; padre, ou por outra: do :.as ::iberais, diferenciadas - F::.ohwissenschaften) do sa- =::;u:as, situaram-se aos poucos ~ de vidas privadas (voca- &qu!!o que desde Hegel se des . 9. OUTRA VEZ PRIVATISMO EPUBLICISMO Retomo agora o tema do privatismo, com a alusão, feita acima, ao epicurismo. Antes passamos pela tentação de empre- gar a frase "de Péricles a Epicuro"; vem agora outra, a de comparar o caso grego com o romano, em termos de oposição. Enquanto os helenos teriam passado da dimensão pública à vida privada, os romanos teriam ido desta para aquela: do arado singelo ao Império monumental, passando pelas expansões ter- ritoriais e pela adoção de instituições específicas. É claro, entre- tanto, que o esquema seria falacioso, pois também os gregos t iveram em seus inícios os grupos familiares, inclusive as fra- trias. Além do mais a existência histórica de Roma começa propriamente com a realeza e com a ordem implantada pelos reis unificadores e urbanizadores. Nem sempre se pode transformar a referência a certos dados, sempre reinterpretáveis, em uma seriação, ou um "movi- mento" histórico. O marco privado evolui junto com o domínio público, e o predomínio de um ou de outro, dentro das fases em que se desdobra a história deste ou daquele povo, desta ou daquela civilização, não chega a configurar uma "linha" definida e irreversível.
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    . ~ 58 Q.JARDIJ1li A PRAÇ1 Nem sempre, por outro lado, o limite entre a esfera pública e a esfera privada é bastante firme. O termo latino fornm, que designa algo historicamente correlato à ágora grega e que se associa para nós à idéia de um espaço público, designou primeiro o terreno fechado em torno de uma casa, e somente depois é que passou a denominar a área de fora das casas, nomeadamente a praça do mercado1 • Por sinal, ficou constando de um registro de Plínio que o termo hortus, no tempo das Doze Tábuas, era utilizado para aludir às propriedades rurais, passando depois, como se sabe, a significar "jardim", justamente por conta do conteúdo central da palavra hortus: um terreno fechado2 Na variedade de formas espaciais existentes na experiência social romana, cabe aliás destacar o caso das uillae, que repre- sentou uma outra experiência no tocante aos espaços e às formas. De certa maneira a uilla, edificação ou conjunto de edificações que servia de centro a uma empresa rural ou a uma propriedade "de lRzer" (algo ao modo das "granjas" de hoje), constituía uma esLruLura intermediária entre o público e o privado. Nem foi por acaso que de certas grandes uillae partiu em alguns lugares a o:rgRnização do feudalismo. Residência de campo, podendo ser de tipo propriamente "rústico" ou de Lipo mais urbano, com freqüên- cia a uilla incluía um pátio central, misto de praça e de cour; preservou-se nela o sentido romano da vida agrária, que para Roma ficou representando as origens, e ao mesmo tempo o sentido do luxo, Lendo havido uillae imperiais que chegaram a ser verdadeiros palácios. Dentro do forum romano, perto do Arco de Tito, tive uma vez a emoção de ver os restos de uma uilla construída no século XVI por um cardeal, imitando em seus par- ques com larAnjeiras o arranjo das villae do tempo de Horácio. Estou mencionando o tempo de Horácio para citar o conhe- cido estudo de Gastou Boissier sobre a casa ele campo do poeta, que lhe foi presenteada por Mecenas e que ficava perto de Tívoli, no vale de Licenza3 . L F. Marlin, Les Moto lalins, Ed.llachclle, Paris, W76, pp. 86 c 87. 2. Picrre Cri mal, J.a CiuilisalioJL romaine, Paris, A•·lhaud, 1000, p. 207. 3. G. Boissier, "La Maison de campngne d'IIorace", "''P· I das NouuellesprOIILcnadesarchéologi- ques. Ilomcccl Virgile, Paris, llachcttc, 1886. Além desta se constituíram er::: feudal na época de este sentido misto das signorie itali - primórdios: e em à.:=- va-se o gosto dos: da uilla laurentina o Jovem, que elog:i sentido as uillae r.e.: varAm, nos séculos - de dark ages - , o ess mundo clássico. E paredões pintado:: e e se perpetuou o m filhos, modo de com conjunto de elem ~· ao ntcnos, até o ·- ocidental do hab::a!" resultado do esv antigo, com asa~ da democracia em vivemos t ambém tempo de Ortega. tipo. Os regimes ;:: qualidades intr - "informação" e dos além de conotare:::::::. to de persuasão p~ escrito - além dos::- bee e tantos mais- tem seus pessimi:::· ses têm trazido fo_ '1. André Bcreoff, Mam:.cl - HJ85; ilain f.'inkiclkr.
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    - ;.e e!ltrea esfera pública e ~o latino forum, que • ágora grega e que se ~-O::co, designou primeiro e somente depois é que -- ::asas, nomeadamente a registro de Plínio que 0 - ih-nas. era utilizado para depois, como se sabe, a - do conteúdo central da ~ exis:entes na experiência !:aS 6as villae, que repre- -- acs espaços e às formas. ~ con;unto de edificações ou a uma propriedade de:: hoje), constituía uma E o privado. Nem foi por ~.J em alguns lugares a dr campo, podendo ser de =ais urbano, com freqüên- C:SL.O de praça e de cour· - • .. , • J v1aa agrana, que para ~ e ao mesmo tempo 0 ~r:ais que chegaram a - - r"mano, perto do Arco ~s :restos de uma villa im.:tando em seus par- dn ~mpo de Horácio. OUTRt V/!:7. PR/VATJSMO E PUBLJC!SMO 59 Além desta característica econômico-social das villae, que se constituíram em núcleos de produção e de aglutinação pré- feudal na época de declínio do mundo antigo, há nelas também este sentido misto, meio público meio privado, meio prefiguração das signorie italianas, meio repetição das grandes casas dos primórdios: e em algumas delas, as de maior extensão, conser- va-se o gosto dos jardins (é Grimal quem o anota), como no caso da villa laurentina, propriedade de um romano amigo de Plínio, o Jovem, que elogiava nela a "presença da natureza". Neste sentido as villae terão sido um elemento estabilizador. Preser- varam, nos séculos iniciais elo medievo- chamados pelos ingleses de darh ages-, o essencial do acervo ele hábitos e de conceitos do mundo clássico. E creio que foi no recesso das villae, com seus paredões pintados e seus utensílios domésticos, que se refugiou e se perpetuou o modo de vida privado romano: modo de educar filhos, modo ele comer e de dormir, hierarquia familiar etc. Um conjunto ele elementos que veio perdurando, fragmentariamente ao menos, até o início de nosso século, dentro ela concepção ocidental do habitar e do viver privado. De novo sobre o epicurismo. Ele não foi "somente" um resultado do esvaziamento da vida pública grega, dominada pela vasta onda macedônica: foi um fenômeno elo declínio do mundo antigo, com a saturação da vida urbana e com a transformação da democracia em utilitarismo e em latente massificação. Hoje vivemos também (os que somos, como diriam certos autores do tempo de Ortega, "hombres de las postrimerías"), coisas deste tipo. Os regimes políticos dependem às vezes menos de suas qualidades intrínsecas do que da viabilidade das técnicas de "informação" e dos programas econômicos que os acompanham, além de conotarem estruturas militares, que formam um apara- to de persuasão paradoxal mas evidente. Vários escritores têm escrito- além dos pensadores já clássicos como Spengler, Toyn- bee e tantos mais - sobre o declínio da civilização. Cada geração tem seus pessimistas, e recentemente alguns escritores france- ses têm trazido fortes achegas à retórica do pessimismo4 • Este 1. inrlr(: llcrcoiT, Manuel d 'Tnslnlclion Ciuique fiOIJr Temps in/.!OUl'ernablrs, Paris, 13. CrnsHCt, 1ml5; ilain Fil>kiclkrnut, Ln T)1i(a ile de /a J!I!IIS<Íe, cil. ....d'
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    60 OJARDifl.f BA PIIAÇA pessimismo não é infundado, e dentro dele se lem colocado um tema específico, o da decadência do homem público5• Seria então o caso de se falar, talvez, em um possível retorno do (ou ao) epicurismo. Aliás, no começo do século, na geração de Loti e Pierre Louys, um certo tipo de literatura orientalizante cultivou um característico tom hedonista e de certo modo epicu- rista, como no romance de Louys Aphrodite, em que o capítulo I do Livro 11 se passa sensualmente nos jardins de la déesse. O gênero não teve maior continuação, e na verdade não represen- tava um pensamento fortemente fundado. A possível volta ao epicurismo a que me refiro seria antes uma forma de descrença nas estruturas "maiores" hoje vigentes, ou na possibilidade de se realizarem nelas os valores humanos essenciais; uma tendên- cia implícita e minoritária ao recolhimento, em face das estru- turas tecnocráticas, da massificação e das falsificações autoritaristas: algo comparável a um dos aspectos da posição que Umberto Eco chamou "apocalíptica". Um dos lados do tema se acha nos debates sobre politizaçi'io e despolitização: alguns teó- ricos da direita, nos anos 20 e 30 - Carl Schmitt entre eles - I pretenderam que o liberalismo seria uma atitude despolitizante, sendo a verdadeira política a do confronto, com suas categorias básicas expressadas nos termos "amigo" e "inimigo". Por sua vez Hcrman Heller, que era um socialista moderado, encontrava no burguês contemporâneo um tipo despolitizado, desligado de pre- ocupações decisórias e preocupado com sua "condição privada de possuiclor"6 . No caso, um tipo que na República de Platão jamais poderia ter o poder. Entretanto trata-se de uma meia verdade, já que o mundo histórico dos últimos séculos vem sendo (não só econômica mas também culturalmente) um mundo burguês, com liberalismos e anti-liberalismos, bismarquismos e outros ismos. De qualquer sorte o tema de um possível retorno ao epicurismo parece relevante: há muito o que resgatar, hoje, dentro ela di- mensão privada da vida, asfixiada pelos enormes travejamentos da dimensão pública, e desvirtuada por uma série de distorções. 5. R ScnncLL, O Declínio do llomem. Público, cit. G. II. llellcr, Escritos Políticos, op. cit., p. 24G. ção entre o plano ao de uma alten:. presente no pens .,..... quívocas: a alte aquela entendida !l condutas, esta no · De um lado as re dos pela própria c: termo), regras e testam em fornaas linguagem. De ou coisas pode (ou co.s senão mesmo de -~ rência a este últimn ele Martin Heideg5 de seu pensanaen~ exageros da tecno! = Certamente q: vários graus. Estes total da técnica e alguma distância , envolventes e am~ outros caracteres dz Pois do mesm- extremos, entre os~
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    se ;;em colocadoum !E~o çúblico5• c=, um possível retorno s&clo na geração de :ara orientalizante e de reno modo epicu- ar: que o capítulo I ~..s àe la déesse. O ~i.e não represen- A possível volta ao f..::L-=.a de descrença ca possibilidade de _.ria·s: uma tendên- ,.....___J• ~ :"'ace das estru- e das falsificações ..---'";.os da posição que ~ lados do tema se 'trZaçào: alguns teó- ~~ entre eles - ':ie despolitizante, • encontrava no desligado de pre- ~r;ào privada de ~de Platão jamais ~;;meia verdade, ~en sendo (não só ===u!o burguês, com -~.....,"e outros ismos. ~'i> ao epicurismo ..e-, dentro da di- ~.5 travejamentos sirie de distorções. OUTRA VEZ l'RIVA'I'JSMO E PUBUCISMO 61 Outra observação. De alguma forma o problema da distin- ção entre o plano público e o plano privado pode ser comparado ao de uma alternativa, nem sempre bastante explícita mas presente no pensamento contemporâneo através de alusões ine- quívocas: a alternativa entre a "vida social" e a "vida simples", aquela entendida no sentido da sofisticação dos elementos e das condutas, esta no da fuga às complicações ou às "frivolidades". De um lado as regras de convívio e os critérios de gosto, elabora- dos pela própria civilização (no sentido clássico e qualitativo do termo), regras e critérios que não se podem ignorar e que se testam em formas específicas do viver social: gestos, deveres, linguagem. De outro o fato de que a adesão excessiva a estas coisas pode (ou costuma) gerar certo grau de "artificialidade", senão mesmo de "inautenticidade" dentro do existir. Com refe- rência a este último termo vale recordar aliás a defesa, por parte de Martin Heidegger - este um dos ângulos menos acadêmicos de seu pensamento - , da vida despojada, que renuncia aos exageros da tecnologia e às alienações que acarretam. Certamente que entre um extremo e outro se encaixam vários graus. Estes se instalam a alguma distância da rejeição total da técnica (e da própria evolução social), e também a alguma distância da padronização e da "informação", ambas envolventes e ambas tirânicas. E com elas, do consumismo e de outros caracteres da sociedade atual. Pois do mesmo modo cabe salvar a privacidade salvando também a dimensão pública, ambas estimáveis mas passíveis de extremos, entre os quais cabe situar graus, e situar-se neles.
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    10. ALGUMAS DIGRESSÕESHISTÓRICAS Mencionei, no início, o fato de que sob certo aspecto o advento da praça corresponde, mais do que ocorre com o jardim, a uma eliminação da natureza. Ou antes a um corte, mna abertura nos espaços naturais, feita na verdade pelo próprio fenômeno ela cidade, que se instaura como um outro tipo de espaço dentro dos espaços físicos disponíveis no vale ou na montanha. O jardim refor- mula a natureza, operando uma redução ou uma seleção quanto às espécies vegetais e ao seu arranjo, em convívio com canteiros, muros, colunas, estátuas (sempre me lembro do poema de Baudelaire que começa com "Je n'ai pas oublié, voisine de la ville", e que menciona, na casa a que alude, o arvoredo onde escondiam seus membros nus mna Pomona e uma Vênus); o jardim a reformula, defendendo-a como ao próprio sentido de privacidade que nele se recolhe. A praça, parâmetro das ousadas coordenadas urbanas, se recorta como um outro espaço, não natural, onde o que há de árvores e de flores é expletivo e complementar, embora às vezes pareça esteticamente essencial. Par~ce também, mas isto vai como anotação de passagem, que a evoluçao em ambos os casos - o da praça e do jardim - veio representando uma gradativa diminuição do papel (ou da presença) da natureza: e aqui o termo natureza é usado no seu sentido mais
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    ,r..... O JARDIM EA PRAÇA concreto, incluindo animais e arbustos, embora sem excluir a relação com um signjficado mais profundo. E parece que este gradual cancelamento da natureza, em seus componentes mais concretos, se faz mais perceptível, senão mais ostensivo, no caso da praça. Ou seja, nas representações da dimensão pública, inclusive nas ligadas ao poder: edificações, ornamentação, linguagem de símbolos. Nas representações antigas, os símbolos da ordem pública envolviam indefectivelmente elementos da natureza, em seus três "reinos": havia altares e tronos com pés de leão, colunas com base em forma de lótus, capitéis com cabeça de touro ou com folhas - as clássicas folhas de acanto -, as figuras dos deuses eram concebidas e representadas com raios, conchas, frutos e animais. Os reis eram assimilados em seu poder às entidades da natureza; nas tumbas e nos palácios se retratavam cenas festi- vas com ramagens e aves (vejam-se inclusive as descrições da pintura cLrusca no texto de viagens de D. H. Lawrence Etrnscan Places). Na Idade Média a pintura religiosa não desdenhou de colocar coisas deste tipo junlo à figura dos santos - nem se entenderia São Francisco de Assis sem seus pássaros-, e tam- bém nas cortes do Renascimento sempre havia animais, ao menos ao que nos mostram certos quadros onde aparecem cava- los monumentais e cães solenes ou pachorrentos, compondo, junto com anões e bufões, a imagem elo entourage monárquico. A própria monarquia absoluta, que abriu largos espaços no âmbito das capitais nacionais, se fazia retratar, em momentos ele priva- cidade, com elementos da naLureza. Seria o caso de dizer-se que o mundo "moderno" (dito tam- bém burguês), ao passar à fase chamada contemporânea, apres- sou a eliminação dos ingredientes naturais. Ocorre lembrar o contraste, expressado por Vico, entre o "poético" das fases ini- ciais da história ele cada "nação" (hoje diríamos cultura, ou civilização), e o prosaico das fases posteriores. Até o Romantis- mo, com a restauração e o nacionalismo, ainda perduraram componentes naturais. Mas durante o século XIX o que pareceu predominar foi a gravidade cinzenta, correlata das grandes máquinas e das securas vitorianas, e sem embargo do que de positivo houve, inclusive na arte (não cabe aderir ao modismo de detratar o oitocentos sem mais aquela). Gravidade cinzenta que foi uma espécie de acompanhamento do ideal formal da Repúbli- econômicas, assumia a abstrata, e a isso ,_- "despojadas". As ima, ornatos: na mesma med nam os capitéis cor...r: edifício elo Reichstag c.: retratos mais conver:..:i nas começou a e.l.i.i,;~---. incrementou o ritmo da do Romantismo: mo irrepetíveis e pru·adig geometrismo racio ~ ·~ tes; no segundo a ret homem mais elo que o nal, mas segue váli.::o; pensamos no Classic!.S ções (o espírito de sec: como algo ligado às c:- litaristas, ressentimo::-· ção de perda em sen~d Dir-se-ia, e isto -..a: o Classicismo abriu áreas dentro das gr destas na expansão d nas artes e na poli · refluxo: um ele seus l um movimento ele re· ruralismo nostálgico) EC tra, portanto, o pubr - urbanismo "paleo ind - te que as coisas den· refolhos da onda ro •
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    -..... 66 O JARDIME A PRAÇA goação da liberdade, ao lado do conservadorismo e do monarquis- mo; mas sempre temos de reforçar certos traços para fazer o quadro mais inteligível. Lewis Mumford destacou, entre as marcas da influência do espírito romântico, amante do luar e das ruínas- também das ravinas-, a tendência a retornar ao gótico, na arquitetura, parte de uma genérica tendência a voltar ao passado1 . Na Alemanha cultivaram-se as estampas antigas, Bilder aus der Vergange- nheit, e por toda a Europa se procurou imitar os "jardins ingle- ses", caracterizados pela informalidade, pela espontaneidade e pela irregu laridade. Algo como uma reação contra o espirit de geométrie, contra a França imperial já derrotada mas ainda representante das linearidades "claras e distintas". A propósito de sociedade moderna e de época "burguesa", vale porém repensar certas coisas. Nos casos grego e romano (antigüidade), a estrutura social incluía o componente escravo como algo natural. Em Roma, onde talvez tenha sido mais caracterizada a existência de "classes", os conflitos só surgem depois, e sem deflagrar ismos doutrinários. Não se teorizou (ou quase não) sobre a dimensão econômica da sociedade nem sobre o conceito de revolução, este entretanto mencionado por Aristó- teles na Política.Nas sociedades ocidentais modernas a presença do componente burguês, vinculado ao processo ele secularização cultural, tenderia historicamente a um peculiar equilíbrio entre o lado público e o lado privado da vida, mas o fator "sistema capitalista" leva constantemente o pensamento a dar conta da dimensão econômica, forçando a criação de ideologias que são "ismos" econômicos t anto quanto teorias políticas ou filosofias sociais. Deste modo o socialismo, que sempre carregou uma parte de utopia, tende modernamente a fazer pesar o lado público no qual parecem mais urgentes os clamores igualitaristas, e pare- cem mais relevantes os projetos gerais de reconstrução. Enquan- to nas utopias de outros tempos a condição do indivíduo enquant o particular apareceu mais nitidamente como objeto de reflexão, nas programações socialistas contemporâneas ela pa- rece importar menos. l. A Cultura das Ciwdes. t.rad. Ncil Silva, Belo Horizonte, Itatiaia, 19Gl. passim.. vida privada, cor::._ sempre tem con~ em política . Yioia observou que o r..._·~...."'-'-.:., tudo um assunt.o capitalistas, seci;) "modernizantes,.. área elo viver co:!· formado durante o- de militância hist.o~ inclinar-se sobre a - e pode conduzir à !-'- viver, inclusive das Contudo, se::::: estruturação das :!'f' cias, nem do par: ambígua m as ind te a racionalização opinião pública - ~~ volveu-se a impre~ racionalização do _ garantias; m as a ~ 2. Domcnico Fisichella. 11 Scient.ifica, 1987.
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    adorismo e domonarquis- o::ertos traços para fazer o ~as marcas da influência do ê das ruínas - também das :;::::co, na arquitetura, parte a~ p assado1 • Na Alemanha Bilder aus der Vergange- ".l :mitar os "jardins ingle- • de, pela espontaneidade e reação contra o espirit de ....:... ~á derrotada mas ainda n:.a e de época "burguesa", _.os casos grego e romano -~a o componente escravo ~ talvez tenha sido mais 3€5 •• os conflitos só surgem :::..á...~os. Não se teorizou (ou - ·ra da sociedade nem sobre ~'"o m encionado por Aristó- • !!tais modernas a presença · processo de secularização ".!!r: peculiar equihbrio entre r!da, mas o fator "sistema -~o de ideologias que são ~as políticas ou filosofias ~e""""pre carregou uma parte er pesar o lado público no ~!"es igualitaristas, e pare- --5 de reconstrução. Enquan- a condição do indivíduo ~idamente como objeto de -:;.as contemporãneas ela pa- ,l:.atiaia, 1961, passim. ALGUMAS DIGJIESSÕES HTSTÓRICAS 67 O que se menciona como nós "revolucionário" no tocante à vida privada, como costumes sexuais e estrutura familiar, nem sempre tem conexão simétrica com as atitudes revolucionárias em política. Viola Klein, em seu livro sobre o caráter feminino, ..,. observou que o chamado movimento feminista vem sendo sobre- "" tudo um assunto das classes altas. Por vezes é nas sociedades capitalistas, senão mesmo sob governos ditatoriais (ditaduras "moclernizantes"), que ocorrem as transformações mais sérias na área do viver cotidiano. Vale ressaltar, a estas alturas, que a dimensãopública, dentro ela história social moderna, apresenta duas conotações bastante distintas. Por uma parte, ela corresponde ao racionalismo, trans· formado durante o século XVII e sobretudo oXVIII em uma espécie de militãncia histórica, que atuou como enciclopedismo e se desdo- brou em crítica revolucionária, condicionando uma visão mais aberta dos espaços urbanos e da relação entre saber e poder, poder e governo, governo e obediência. Por outra parte, entretanto, ela corresponde a uma conversão do populicus em estatismo, um estatismo latente em Rousseau e no jacobinismo. Este estatismo, que estava na monarquia absoluta, reponta na própria revolução feita contra o absolutismo, e passa incólume através do não-esta- tismo pleiteado pelos liberais clássicos, desembocando, nas propos- tas sócio-políticas do século XX, na permanente ameaça totalitária2 • Anoção depúblico, com generosa raiz empopulus, pode inclinar-se sobre a acepção lateral ele "coletivo", oposto ao privado, e pode conduzir à precariedade ela própria dimensão individual do viver, inclusive das liberdades individuais. Contudo, sem o espaço público não teria sido possível a estruturação das repúblicas contemporâneas, nem elas democra- cias, nem elo parlamentarismo. Não se t eria tido a vigência ambígua mas indeclinável da opinião pública, nem possivelmen- te a racionalização dos ordenament os jurídicos. Com a moderna opinião pública- cujas origens Pascal havia detectado - desen- volveu-se a imprensa e renovou-se a linguagem política, com a racionalização elo direito unificaram-se os procedimentos e as garantias; mas a estatização e a tecnologia foram crescendo, 2. l)omenico Fisichclla, Tota.lilal'ismo - Un Regime <Ü!l Noslro Tempo,Homa, Nuova Jt,alia Scientific.a, 1987.
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    68 O JilRDIME 11 PR1ÇA permitindo, no século XX, as ditaduras mais caracterizadas, bem como a massificação e a tecnocracia. Em certa passagem de seu Comunidade e Sociedade, um dos livros mais notáveis da segunda metade do século passado, FerdinandT oennies registrou uma impressionante dualidade de aspectos na estruturação do império romano: [...]dois desenvolvimentos; de urna parte a cultura, a mobilização, a universa- lização, tudo terminando pela sistcmoti7.açiio c codificação do direito; de outra parte o desaparecimento da viJa c dos costumes no interior daquela brilhante culhn·a do Estado, da g1·andc administmção pacíl'ica, c da jurisdiçiio rápida e segura3 . Tentaríamos acrescentar a esta citação o seguinte: opróprio fenômeno, ocorrido em várias culturas mas exemplarmente no Ocidente, da passagem do direito "costumeiro" ao direito legis- lado, confirma ao que parece primado da dimensão pública sobre a privada. Os étimos latinos o ilustram: o verbo habeo, com particípio passado em habitum, teve a mesma raiz que habitare e habitudo, ele onde se percebe o parentesco entre o morar, ou seja o estar na casa (habitatio) e o hábito, que se desdobra em costume. Em alemão temos uma correspondência análoga ocorrente entre wohnen (morar), gewohnen( habituar-se), e Gewohnheit, costume (Gewohnheitsrecht, direito costumeiro). A passagem ao direito legal terá constituído um triunfo da praça, do populicus, sobre o âmbito privado, sobre o direito da casa e do foyer primitivo. Talvez se possa então dizer, trazendo agora o enfoque para a história moderna, que a observação de Tocqueville, segundo a qual a Revolução Francesa não desmontou nem desmentiu a organização administrativa do ancien régime, adotando-a e dan- do-lhe continuidade, corresponde ao fato de que ao espírito moderno (ou seja, pós-feudal), que tanto esteve presente no tempo de Colbert como no de Napoleão, veio sendo correlato um certo sentimento do domínio público. E talvez caiba registrar que em nosso século, nas últimas décadas, vem-se dando uma espécie de saturação deste domínio: saturação dos próprios espaços físicos pelo excesso de gente, que se verifica por toda a parte com a chamada explosão demográfica, e saturação do sentido de coisa pública pelo acúmulo de reivindicações sociais e pela descarac- 3. Sociétéet Communcwté, trad. J. Lcif, Paris, PUP, HJ41, Livro !li, item XIX, p. 201. ALGC • terizante onipresença c 1 André Piettre: "as SOC2'! burocracia". De fato a· que reordenou o direi;.o ~ é sempre o contrapo~:;c relações entre dimensãa. suas distorções as ~
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    'ànde e Sociedade,um =~arle do século passado, 1---~~~ ,...;~"onante dualidade de a mobilização, a universa- --=;::~-vdo a:.reito; de ouLrn parte =nela brilhante cultlll'a do - r.2pida c scgur a3_ ~"-----"""~'"'~ n seguinte: o próprio a:..: ~ exemplarmente no ~--rro'' ao direito legis- Cme::lSão pública sobre --= c ·:-erbo habeo, com _:::.:~~a raiz que habitare e Bll!'e o morar, ou seja o se desdobra em costume. !':!. pa.:;sagem ao direito «b populicus, sobre o f.J>--er primitivo_ ~-ora o enfoque para Tocque·ille, segundo a - • !:...e:n desmentiu a e., ado:ando-a e dan - de que ao espírito ~e,·e presente no _ H'!!do correlato um <Caiba registrar que dando uma espécie ;: próprios espaços pertoda a parte com - do sentido de coisa ~........_.·""- e pela descarac· ..:zm XIX. p. 201. ALGUMAS DIGRESSÕES HISTÓRICAS 69 terizante onipresença do Estado. Lembro-me sempre da frase de André Piettre: "as sociedades nascem na religião e morrem na burocracia". De fato a burocracia, fruto do próprio racionalismo que reordenou o direito e fez as epistemologias contemporâneas, é sempre o contraponto da massificação, que desequilibra as relações entre dimensão pública e recint o privado, afetando em suas distorções as estruturas e os convívios.
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    11. OUTRAS DIGRESSÕES,COM ALUSÃO AO DIREITO EAO CONTRATUALISMO Insisto sobre o problema do espaço, c dos espaços. No pensamento de Kant, como se sabe, o tempo e o espaço são categorias a priori do entendimento: são algo que se acha "den- tro" do ser humano. Cabe compreender esta idéia no sentido de que para a teoria do conhecimento eles são condições dadas na própria estrutura do entendimento. Entretanto, no plano da experiência concreta do viver dos homens, o tempo parece mais redutível ao plano interior do que o espaço. "Sente-se" o tempo como algo tanto exterior quanto interior, algo que nos atravessa (e que nos penetra), pois estamos no tempo mas ele nos ocupa por dentro; enquanto que o espaço - que o grande intuidor que foi Descartes chamou étendue - sempre o imaginamos como exterior ao eu, senão mesmo como a própria exterioridade, com a qual identificamos inclusive a mensurável materialidade do corpo humano. A corporeidade é, de imediato, espacialidade. Sobre a demarcação do espaço, ou seja, dos espaços: a "exterioridade" do espaço sempre enseja uma visão objetiva. O espaço se entende como objeto, e sempre em relação com planos e n íveis. Daí a constante relação da demarcação dos espaços, nas
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    72 O JARDIMR A PRAÇA sociedades humanas, com a visão hierárquica dos homens e das coisas. Foucault tocou no problema dos espaços em Les Mots et les Choses e em Surueiller et Punir, estudando neste a implacável organização do espaço que em certa época foi vigente em escolas, hospitais, quartéis e prisões, mesmo após o iluminismo. A propósito das conexões entre espaço e hierarquia, e com o que a sociologia acadêmica denominou durante decênios "dis- tância social", cabe fazer algumas anotações. Desde os contextos mais antigos, as instituições sociais têm condicionado a feitura de construções (edificações) específicas, destinadas a conter (ou a simbolizar e abrigar), em seus insubs- tituíveis espaços, as diversas funções que correspondem à domi- nação social. Assim os templos, os tribunais, os teatros, as escolas. Nos templos a ostensiva distribuição das partes, na horizontal e na vertical, separando o recesso, ou seja o interior - com o lado misterioso do sagrado - das diversas secções acessíveis ao público. Nos tribunais a representação das várias funções nas várias porções de espaço: o lugar do juiz, ou dos juízes, o dos advogados, o dos réus se for o caso, o do público para quando prevista a sua presença. Nos teatros o palco, que é um espaço distinto inclusive por sua significação de cena imaginária, coloca-se abaixo ou acima dos lugares de onde será visto (outro problema, o da diversidade de níveis nestes lugares, conforme a visibilidade, inclusive frisas e camarotes). Nas escolas antigas, o estrado para a figura do mestre, as cadeiras padronizadas para os alunos, o espaço de recreação - coisas hoje contestadas mas tendendo a ser substituídas por alguma outra forma de ordenação espacial. Estas demarcações espaciais correspondem à representa- ção do poder: o poder tem qualquer coisa de cênico, como perce- beu e mostrou Georges Balandier'.E não cabe pensar, qual fazem aligeiradamente certas pessoas desconhecedoras da história, que a fixação de níveis deste tipo é própria da sociedade "bur- guesa", e de seu "aparato" estatal. Na verdade todos os contextos anteriores à época dita burguesa tiveram este caráter, com o recurso às proporções espaciais para a imponência do poder e para a persuasão das mentes. 1. O l'oâer em Cena, trad. Luiz Mourn, 13rasílin, UnB, I!)82. sempre constituiu vida das pessoas. C<l das pessoas, dado ções mais estreitas~ mento, desdobrar indivíduo, inclusi-.;·e soalidade" se enco!: O que se den:::- do que propriame:~· empregar o termo coisas que possue:::::. que se conceitua ~ se um conjunto de.::. corporal quer Jung), a partir de de "sociedade", ou acepção global, es coletividade terá er-_• estão dentro do s indivíduos. Sercpre partir da correlaçã de (ou coletividade imperfeita: opúb::._ origens, ao menos Espaço = poder
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    71 O JARDIME A PRAÇA vida desenvolvida à volta da casa e da família prolongou-se gradativamente, passando em certos casos "dos clãs aos impé· rios" (na expressão adotada por Moret e Davy), ou passando ao menos pelas dimensões da aldeia e da cidade. As grandes civili- zações da antigüidade mais antiga foram basicamente cidades. Ao advir a cidade, o homem redimensiona sua visão do mundo, seu sentido de espaço, sua auto-imagem dentro da convivência grupal. A casa entretanto prossegue, revalorizando·se como in- terioridade, como recinto do existir mais "direto", que evoluirá dentro do que lhe está fora, isto é, do espaço urbano e da ordem pública. Evoluirá paralelamente a esta ordem, sofrendo trans· formações históricas paralelas, mas sem se confundir com ela. A casa (o "lar" segundo o étimo clássico convertido em imagem convencional), não é entretanto uma realidade meramente "in- dividual", mas de certo modo também grupal, e deste modo possui um fora c um dentro, um sistema de conexões com a ordem pública e uma estrutura interna, onde vigoram padrões variá- veis mas sempre específicos. Evidentemente a evolução de ambas as esferas, a pública e a privada, depende de padrões culturais e de condições econômi· cas. Trata-se de um quadro antropológico, onde se tem o ser humano construindo seus mundos- arte, produção, crenças - e pra ticando seus ritos pessoais, domésticos e cotidianos. E aqui se tem também o problema da propriedade, que igualmente evolui por dentro de ambas as esferas . Estar sentado debaixo de um arbusto em seu próprio jardim, ou parar sob uma árvore no meio de uma praça, são duas coisas distintas também sob esse prisma: achar-se em território privado, de propriedade de al- guém, ou em esp aço público, coisa de todos (da comuna, como se dizia no tempo das cidades livres italianas). Anotemos algo sobre o privado e o público em Direito. Observamos, acima, que o privatismo-localismo do costume foi suplantado, em diversos contextos históricos, pelo publicismo- generalismo da lei. É comum, por outro lado, afirmar-se que nas épocas em que prevalece o feudalismo, como a Idade Média, n ão se definem reciprocamente a esfera pública e a privada; ou então, aquela não se realiza plenamente (daí a alusão à inexistência de Estado no medievo). E ntretanto a coisa não é t ão simples. Pois se diz também que nos s contrato, foi altamente. Lo, no sentidom oderno e o liberalismo, no qual c e, ao espírito burguês - se liberdades individuais. impensável. No esquerr_ to contract, configurava- passando ele conte},.rtos dele, para situações e- contratante - emerge :: vo. O tema voltará 1l.!n Hegel, que via no tudo a ética e a políti::a. tendência oposta ao J:" público da organizaç.:.~ contratualismo r ousse.:: zante, bem como do ··!::. indiviclual. Já nos esc:-:.- sado o contraste en:..>-t gando a considerar ·rr.i se torna predomin B!lte que o povo com.o um :. Não sei se posso.:: ele Rousseau, mas o referência conceituU:, clássica ela unidade c Rousseau foi n a verda- romanas por exemplo. bastantes para que - (o Estado, a É tica. a implícito. Mas retornemo.s época de pactos, is~= e: pré-liberal, foi tamhe= "cartas" (como a =-.la~ 2.
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    7(] O.JARDIM EA !'RAÇA da Hungria de 1222), e não propriamente de constituições, estas surgidas das revoluções modernas como obra do lado publicizan- te do espírito burguês. Na verdade não parece tão óbvio, como pretendeu Hegel, que a "burguesia" tenha tido apenas tendências privatizantes; aliás Habermas, conforme já mencionamos, situou em conexão com o papel histórico do burguês a estruturação de um específico espaço público, ou de uma peculiar "publicidade". O que ocorre é que o espírito moderno, burguês-leigo-racional, reformulou a seu modo um problema que em cada grande contex- to histórico se reelabora: o das relações entre dimensão pública e dimensão privada. O Estado Moderno, com seu sentido de concentração e ao mesmo tempo sua formalização normativa, passou a ser um Estado "constitucional" na proporção em que esta formalização se tornou essencial para sua existência. E isto foi obra do libera- lismo, que pretendeu redimensionar a posição do indivíduo dian- te do Estado, convertendo àquele em "cidadão" e a este em sistema de funções, tornadas transparentes justamente pela formalização normativa. Pactos e contratos, que costumam ser ligados à idéia das vontades privadas, podem dar-se também, historicamente, entre povos, como entre impérios, como entre monarcas. A Idade Média - não deixando sem registro o abuso que consiste em usar-se esta expressão como designadora de algo muito uniforme -terá sido em grande medida um período de lealdades pessoais, onde pactos e alianças se mantinham sem o Estado por perto. Entretanto o mundo moderno, com o capitalismo e como laicismo "burguês", manteve em larga escala a utilização dos contratos, só que reformulanclo seu alcance e metendo-os dentro de uma sistemática jurídica inteiramente nova, como não podia deixar ele ser. Não se pode forçar as generalizações, nem pensar em dife- renças muito extremadas entre duas épocas sucessivas, pois quase sempre o que ocorre são transições, são variações de ênfase, são combinações diferentes. Entretanto é certo que em dados períodos as alterações se aprofundam, e elementos que existiam em determinado contexto se apresentam, no contexto seguinte, bastante transformados. Deste modo será válido falar ela influência elo processo de secularização geral que, ao esten- as estruturas do pensa!" as do existir privado. ::: ela o capitalismo; im~­ noção de ordem púbu entronizaram a p raça históricas. O iluminis à divisa sapere aude. conhecimento eleve ser que tinha sido em par...ê utópica, no sentido da com o ideal pedago~.s­ progrcsso - destino · homens à plena posse Detenhamo-nos • discutível, do tr ânsl::- oriunda do humanism os termos empregados nosso século apesar .:o ela vieram mantendo-s...: tros nem tanto. Certos estudiosos de que na Idade 1.Iéd:;..:r relações e das estruru:: nos séculos feudais a ,·- a Igreja. Entret anto - contexto são mais isso algun'l outro, o que oc;::_ finais da história ro naqueles séculos o ... marca da terra sobre - trânsit o ao "moderno" - um novo sentido de L •
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    78 O JARDIM/::1l PRtÇJ burguesia c do dinheiro. Talvez se possa realmente encontrar, na urbanística moderna, um sentido de espaço bastante distinto do que existiu nas cidades medievais; e é interessante aludir aqui ao famoso ensaio de Werner Sombart sobre a relação entre o capitalismo e o espírito do luxo, no qual se acham estudadas as características das grandes urbes que foram, dos séculos XVI e XVII em diante, centros de prazer e de poder: cidades com largas áreas e com um novo padrão de mentalidade. A tentação das divisões triádicas, que sempre atuou sobre os diversos autores que trataram da história "geral", se refletiu em diversos esquemas: no de Vico (história divina, heróica e humana), no de Comte (épocas teológica, metafísica e positiva), no de Morgan (selvageria-barbárie-civilização) e também no de Engels e Marx, que falavam de escravismo, feudalismo e capita- lismo, resolvidos na solução socialista. Entretanto a diferença entre o mundo medieval e o mundo moderno tem dois aspectos. Por um lado eles são, no caso do Ocidente, uma continuidade, são etapas de uma mesma cultura; por outro eles representam dois padrões de vida histórica muito distintos, e neste sentido o fosso entre feudalismo e capitalismo- ou sociedade moderna, ou burguesa - é mais profundo do que o que pode existir entre capitalismo e socialismo. Estes dois são no fundo resultantes do processo geral de secularização, que tanto afeta a esfera cultur'al como a econômica, enquanto o mundo feudal foi anterior àquele processo. Retornando ao tema do advento do sentido de espaço públi- co no mundo contemporâneo (aceitando-se a convenção cronoló- gica que o instala a partir do trânsito do século XVIII ao XIX), temos isto: o desdobramento da coisa "Estado" em diversas formas institucionais e sob diversos ismos políticos, com osten- sivo crescimento do lado público do viver (inclusive sua presença dentro da linguagem), e entretanto a persistência do padrão privado como conjunto de elementos vindos da antigüidade clás- sica: matrimônio, mulher, crianças, cama, mesa, aniversários, laços domésticos. A dualidade, que nem sempre representa atri- to, prossegue através do oitocentos e desemboca em nosso século. Neste, entram em crise a vida da família e os valores domésticos tradicionais, enquanto os regimes autoritários reforçam as pa- redes do Estado, cujo intervencionismo se torna geral. A figura nazismo, assumido in.::... 1950 seu livro sobre G e em 1958 seus con - (Gespraeche über der. Quanto à idéia ;] gundo a qual o saber vale acentuar algum::.s situa dentro da luta en. e a concepção "aber..a• ta). Esta luta, que na~ no século V a.C., core epistemológico, reapa:! de ocultismo coexiste::n co-natural moderna. . alguns lances do temz Obra em Negro. :o : aberta - à falta de m XIX para o XX, em um ções, de debates e de f ponderá à democrar difusão das "comunica .. plicações da ciência "fechamento", com o - ciências naturais, sob_ Sobre a democra nheim escreveu em 1 Demohratisierung àes verter para Democrafi_ de Geist por "espíri:o• trata-se, no estudo de~ como fenômeno históri Pois naquele ensaio· o
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    80 O JARDIME A 11/lAÇA democracia política, em confronto com a cultura aristocrática. Ao atribuir à mentalidade democrática um pendor mais otimista e ao mesmo tempo mais aberto às mudanças sociais, Mannheim coloca observações que revelam o relativismo que se acha dentro daquela mentalidade, e que a nosso ver tem relação com um certo sentido de posteríorídade histórica (em relação aos padrões aris- tocráticos, especialmente), e também com o fundamental proces- so de secularização. Este relativismo, próprio da Grécia antiga nos últimos tempos, tem muito a ver com a proliferação de ismos trazidos pelo pensamento leigo moderno, e se apresenta por assim dizer como lâmina de dois gumes: de um lado a validade dos criticis- mos está ligada a ele, mas de outro há o acúmulo de sutilezas e a crescente sensação de crise. Quanto ao problema do "papel social da ciência", latente na idéia de uma publicização do saber, ele chegou em nosso século a impasses dramáticos, com o problema - entre outros - dos possíveis princípios éticos do trabalho do cientista, com freqüên- cia servindo ao poder e a discutíveis propósitos políticos. Mas voltemos aos contratos e ao contratualismo, menciona- dos algo acima. Os civilistas do século XIX, montados sobre fontes romanas mas em sintonia com o espírito de seu tempo, pensaram nas vontades individuais como conteúdo específico do contrato, e neste como expressão perfeita delas: complemento, de certo modo, de idéia rousseauniana da lei como expressão (perfeita) da volonté générale. Pois n ão faltou ao século XIX um modo de acoplar esta idéia com a genérica e onipresente idéia de evolução. Quase todos os grandes pensadores daquele século acreditaram em alguma forma de evolução: evolução da selvage- ria à civilização, das sociedades monocelulares à complexidade moderna ou qualquer fórmula comparável. O liberalismo adota- va o "princípio" da evolução como sucedâneo ou prosseguiment o da lei do progresso. E em Sumner Maine, que já citamos e cuja vivência na Índia reforçou suas crenças evolucionistas, encon- tramos a célebre expressão from status to contract, onde a noção de contrato era tomada em sentido amplo, envolvendo o aspecto jurídico e as implicações sociais: do status, condição das pessoas dentro daqueles grupos em que a ordem coletiva (e dentro dela tocante aos compor.: - gime social do contra:._ vam plenas. A alusão os períodos primit!...-;:;.~ cabiam na imagem os - no sentido da pré-de- dos comportamentos - r acentua este dado dos _ visão mais estática d sentido, a interpreta·- cultura democrática Sê Quanto ao conta antiga e aportada aos mo, a referência aos ~ a legit imidade do antes de tudo, um lega de uma vontade "gerai para terem sentido e viver. Esta quase peti - do argumento, e pe deve descartar-se - a "refutava" em termos cem anos como cnse ...... cos, é algo mais do paradigma dogmático111 sarnento jurídico, dian· zação" do próprio co- codificador vindo do ~
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    i'c==~t!"~mo, menciona- li~. montadossobre ~:ir:ito de seu tempo, amr.eúdo específico do delas: complemento, le! como expressão "' o ao século XIX um ~-~ou prosseguimento que iá citamos e cuja ~lucionistas, encon- ~~-act, onde a noção en··olvendo o aspecto ro::dição das pessoas e&:::.Ya (e dentro dela OUTRAS DIGRESSÕES... 81 o esquema de relações familiares) tudo definia e pré-definia no tocante aos comportamentos, passava-se historicamente ao re- gime social do contrato, em que as liberdades pessoais se torna- vam plenas. A alu são ao status abrangia, neste tipo de pensar, os períodos primitivos e as sociedades antigas, mas também cabiam na imagem os séculos de cultura aristocrática, ao menos no sentido da pré-determinação familiar das posições sociais e dos comportamentos (Mannheim, no ensaio que citei mais acima, acentua este dado dos contextos aristocráticos, o da tendência à visão mais estática do que dinâmica das estruturas). Neste sentido, a interpretação cabível seria mais ou menos esta: a cultura democrática se considera mais dinâmica em relação aos estágios "pré-democráticos", e neste dinamismo cabem, como preço, as instabilidades e as crises latentes. Quanto ao contatualismo, velha teoria surgida na Grécia antiga e apartada aos conceitos e preceitos do moderno liberalis- mo, a referência aos consentimentos individuais como base para a legitimidade do poder, c portanto para a obediência, é nele, antes de tudo, um legado teórico. Por mais relevante que a teoria tenha sido em certo tempo, e por mais simpática que seja como configuração doutrinária, permanece nela uma certa ambigüida- de: as anuências individuais fundamentam a própria existência de uma vontade "geral", que é já de nível social, mas dependem, para terem sentido (e eficácia), de um plano meta-individual do viver. Esta quase petição-de-princípio se acha no próprio interior do argumento, e permanece mesmo quando se descarta- como deve descartar-se - a interpretação empírica do contato, que o "refutava" em termos antropológicos. De qualquer sorte a chamada crise do contrato, ou crise da "soberania" do contrato, que vem sendo denunciada há quase cem anos como crise do individualismo e do voluntarismo jurídi- cos, é algo mais do que isso. Trata-se da crise do chamado paradigma dogmático4, o do próprio modelo privatísLico do pen- samento jurídico, diante do crescimento do Estado e da "publici- zação" do próprio conceito de Direito. Crise, também, do ideal codificador vindo do iluminismo e maturado durante o século 4. Cf. Zuleta Pucciro, Paradigma fiDRmritico y ciencin del derecho, 8d. J1.,v. du DerechoPriuoclo, Madrid, 1981.
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    fi.'._.... 82 OJAJWIM Jo:A PRAÇA XIX: estaríamos dentro, segundo certos autores, de uma fase de "decodificação" dos ordenamentos. Esta alusão ao Direito requer, entretanto, algumas anota- ções mais. Citei, no começo, o importante estudo de Jürgen Habermas sobre o espaço público, onde a noção genérica de esfera pública se considera, em sua concentrada versão burgue- sa, como categoria histórica específica5. O Livro apareceu em alemão em 1962. Em 1979, o próprio Habermas coordenou a edição de um volume coletivo, referido à comemoração do livro de Jaspers sobre a "situação espiritual do tempo"; volume no qual se incluiu um estudo de Jürgen Seifert intitulado "Casa ou Forum", dirigido a analisar a diferença entre duas concepções de constituição: a constituição como casa, isto é, como sistema fechado de valores, totalidade imodificável, ou como forum, isto é, texto aberto, projeto democraticamente passível de ser refeito com o concurso de todosn. Em 1980, tocando em temática análo- ga, Peter Haberle estudou a função da dimensão pública n o Estado democrático, afetando também o sentido do ordenamento constitucional: a publicidade seria por excelência o princípio jurídico-constitucional da democracia7 • Não podemos ir atrás do assunto em todas as suas correla- ções, mas será sugestivo citar de novo o breve e incitante livro de Georgcs Balandier O Poder em Cena. Logo no capítulo primei- ro ele nos fala das cidades, que apresentam "múltiplas cenas construídas pelos regimes sucessivos" - e neste caso o grande exemplo para ele é Roma -, c também, especificamente, do espaço público que abriga os símbolos do poder, quase como o palco de um drama, que se desenrola em termos inconfundíveis. 5. L'l!:space public, 1rchéologie de lapubliciléele., cit. 6. J. Scifcrt, "llaus oder Forum-Wcrtsystem odcroffcnc Vcrfassung", em Slrichworle zu.rGeistige Situation dcs Zeit, vol. I (Frankfurt, Suhrkamp, 1979). 7. Die Ver{assungdes l'luralismus, Konígstcin, ii.henacunt, 1980, item Gdo cap. TT. Entretanto, há expressões sempre e os urbanos, e onde privada aparece oo:n quase sempre, o pú implacável planiE Alguns autore::: contraposto dentro vélica" e a linha "1.4~.: nável, posto que se. não contrasta mu::- de Maquiavel; mas cotejo. Inclusive o quem pense que as ~ e isto é verdade e.r:r. sido um pessimista - que os grandes pe~ descrentes da 'bon- verdade ao menos :e- Só que o ot· seus autores des
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    84 OJARDIM EA PRAÇA os homens e apelam para o Estado (ou para um governo absoluto) com o fim de organizar definitivamente as coisas. Geralmente as utopias são uma construção a-histórica; suas descrições não incluem a alusão às "origens", e se mantêm num presente do indicativo mais ou menos abstrato. Vejam-se por exemplo as . explanações do Genovês na Cidade do Sol de Tommaso Campa- nella (talvez a mais utópica das utopias e a meu ver a mais infantil e mais absurda); vejam-se as de Rafael Hitlodeu na Utopia de Morus. Deixemos de lado certas classificações (Ernst Bloch por exem- plo falava em utopias da ordem e utopias da liberdade) e tentemos manter uma visão unitária. Há em geral um tempo utópico que não é histórico, nem sequer empírico: algo como wna dimensão isenta de mutações. Reflexo, na verdade, do ilustre modelo platônico, onde as reHlidades concretas se entendem - refiro-me à Politeia, que a traduçãohabitual chama"República"-como expressãoempobrecida de um paradigma, isto é, de um ideal. Por outro lado as utopias são uma imagem anti-sociológica das coisas, quase como se repudiassem auant la lettre a visão sociológica que ainda estava por vir (falo das utopias dos séculos XVI, XVII e XVIII). Configuram sociedades onde nada muda, onde não há "processos sociais". Nas utopias clássicas o poder público é totalitário e é padro- nizador. Campanella pretendeu regulamentar comidas e vestuá- rio bem como casamento e vida sexual. Também Morus pensou n~a padronização do sexo e da procriação, chegando a exageros ingênuos, ou mesmo grotescos (extremo oposto da desordem e da procriação irracional, que ocorre nos países subdesenvolvidos). O modelo de Esparta, tomado como algo positivo por Platão, perpetuou-se através dele nas utopias clássicas. Nas utopias do século XX, em especial o Braue New World de Huxley e o 1984 ele Orwell atua com sentido negativo um outro modelo, o das ditadu;as das décadas trinta c quarenta: a de Stalin, a ele Hitler, a de Mussolini. Sem a mediação histórica do iluminismo e do liberalismo, dos estudos antropológicos e do relativismo, não se teria chegado a uma visão crítica do modelo utópico, nem ao seu uso para fins de advertência: advertência contra a padronização e o esmagamento do ser humano pelo poder sem limites. Esta advertência, como se sabe, tem sido feita em outros moldes e por outras formas de expressão, em nosso século. A redução do indivíduo mente predatória de modo um tanto ób"-io também ao inaudito tais, mesmo nos re., primeiro aspecto g"..ra.. como as reflexões ex continuações, no t rede de complicações de fruir com plenitu- passagem o livro de H monde moderne1 , qui: mo", o de William · focaliza os efeitos do - e o clássico A Mut;; - colaboração com Na~~ ondas de Toffler, de- estudos sobre o "pós- apontar-lhes a con-:ra sões estatais, que co~ grupos e das pessoas vida destes grupos do governismo tremen '- de com as tendências vida privada, esta ~ são das comunicações residência como -.;-á:id engrenagem meio pe sidade de saber coisas "celebridades" (inclu.s_ O tema da pad-::. em t odos os tempos - 1. Col. Jdt)""• Gallimard, :-:R:" 2. N. York, Doubled.ay Ano ~p 3. São Paulo, Perspectiva. 19õ~ 4. Sobre o problema, Cels-" l'ensam.enlo de llannah .l
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    ~a -:nn governoabsoluto) -.as coisas. Geralmente as ~; suas descrições não ~têm num presente do -::>::J-se por exemplo as .::J! de T ommaso Campa- - ii"' e a meu ver a mais - .:e Rafael Hitlodeu na - - (E..'"Il.St Bloch por exem- --=c da :iberdade) e tentemos '=::!::! rempo utópico que não '.l!:la dimensão isenta de :::::..ooelo platônico, onde as ~me à Politeia, que a - ~expressão empobrecida . ..::rolado as utopias são ::.>.secomose repudiassem ~ "., es-;..ava por vir (falo das u=:.5g-.rram sociedades onde é ~talitário e é padro- ~wrr comidas e vestuá- :-<e:rrbém Morus pensou ___;:;~ chegando a exageros C?Q-51:0 da desordem e da -.::;subdesenvolvidos). .;:.:go positivo por Platão, - 1-...a.5.sicas. Nas utopias do :: de H uxley e o 1984 de ~ outro modelo, o das .. --a de Stalin, a de Hitler "ca do iluminismo e d~ -e ào relativismo, não se e!o utópico, nem ao seu - contra a padronização pc:!er sem limites. ;:c:--: sido feita em outros ,.,_::âo em nosso século. A SOBRE AS UTOPIAS 85 redução do indivíduo humano a um número, e à condição vaga- mente predatória de "consumidor", tem sido relacionada de modo um tanto óbvio ao novo mal do século, a massificação, e também ao inaudito crescimento do volume das decisões esta- tais, mesmo nos regimes não "autoritaristas". Em torno do primeiro aspecto giraram as patéticas obras de Chaplin, bem como as reflexões exemplares de Ortega. Estas tiveram várias continuações, no tocante à análise do esvaziamento da vida e da rede de complicações que exaurem nas pessoas a possibilidade de fruir com plenitude as dimensões da existência. Citaria de passagem o livro de Hem·i Lefebvre, La Vie quotidienne dans le monde moderne1 , que estuda a "sociedade burocrática de consu- mo", o de William White Junior, The Organization Man2, que focaliza os efeitos do excesso de sistematismo e de organização, e o clássico A Multidão Solitária de David Riesman, escrito em colaboração com Nathan Glazer e Reuel Denney3 • Sem falar nas ondas de Toffler, detalhadas e discutíveis, nem nos recentes estudos sobre o "pós-moderno". Retalhamos aqui dois pedaços da realidade moderna para apontar-lhes a contradição. O crescimento do volume das deci- sões estatais> que controla aspectos os mais variados da vida dos grupos e das pessoas, é menos um aumento da "politicidade" da vida destes grupos do que um sintoma das necessidades de um governismo tremendamente concentrador. E le, entretanto, coli- de com as tendências à proteção (inclusive constitucional) da vida privada, esta todavia ameaçada, por outro lado, pela inva- são das comunicações e pela destruição do velho conceito de residência como válida e efetiva privacidade. Há sempre uma engrenagem meio perversa increment ando nos homens a neces- sidade de saber coisas sobre a vida dos outros, sobretudo a das "celebridades" (inclusive as que o são por poucos dias)1 • O tema da padronização das vidas, que há de ter ocorrido em todos os t empos- inclusive por conta do que Gabriel Tarde I. Co!. ldécs, Gallirnard, NB,l•', lUGS. 2. N. York, Doubleday AnchorIJooh, W56. 3. SiioPanlo, PerspectivA, 197 1. -1. Sobre o problema, Celso Lafcr, Jl Reconstrução dos Direitos IIu.man.os, um Diálogo com o I'ensa.mento de lla.nnah Arenf"i.t, Silo Pnulo, Companhia das Letras, lUSS, cap. Vl!l.
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    ,_.. _.... 86 OJAIWIME A PR;IÇA (hoje tão pouco citado) chamou lei de imitação-, e que aparece como algo valioso nas utopias clássicas, ou na maioria delas, parece assumir um aspecto ostensivo no século XX, justo porque resulta da massificação e do burocratismo-con sumismo (deca- dência do Ocidente?); e também porque contradiz o quinhão de consciência histórica que vem aumentando no homem, ou pelo menos em alguns homens. Sabemos da grande variedade de formas correspondente aos diversos contextos em que vei<;> ocor- rendo a experiência cultural, mas temos de nos ater a uns poucos e obrigatórios figurinos no tocante ao pensar, ao vesLir e ao agir. Seria o caso de entender, com cético desespero ou mórbida satisfação, que ocorre um retorno aos moldes primitivos (ou pelo menos "arcaicos") de vida, com a absorção de ca da um pelo todo. Jean Baudrillard caracterizou como um "confuso amontoado do social" a realidade das massas, como força de inércia6• O esquema simplificador, que sempre tenta as mentes (mes- mo as que se dedicam ou deveriam dedicar-se ao trabalho de pensar), ocorre no caso de certos marxistas como uma visão linear da história, redutora e maniqueísLa, da qual tem resulta- do a acusação, sem rnais, de conservadores, aos pensadores que vêem de modo negativo a ascensão das massas ou que de algum modo consideram os tempos correntes (isto é, o século XX da primeira guerra em diante, mais ou menos) como tempos ele crise: Max Weber, Alfred Weber, Mannheim, Jaspers, Ortega, Huizinga. O assunto, por outro viés, foi colocado por Umberto Eco em seu Apocalípticos e Integrados, distinguindo entre os que dissentem, e falam de decadência, e os que n ão dissentem, e se integram tranqüilamente à nova cultura de massas. Seria inter- minável e impertinente arrolar aqui as obras tematizando e que vêm teorizando a crise, desde Comte e outros do oitocentos até Spengler e os que se lhe seguiram, com a contrapartida dos otimistas (socialistas ou capitalistas) que enxergam na confusão de hoje o desenlace de um prefixado script histórico ou então saídas (issues!) muito pragmáticas para a prosperidade social. Bem assim mencionar os graves proble~as éticos tratados por um Bloch ou por um Gehlen - para citar autores de posições 5. À l'ombre des majorilés si/endeuses, ou: la {indu social, lrad. bras., São Pnulo, IJrasiliense, 1985. diferentes - , probl - camente, ao conturba A estas alturas entre os diversos co::. me ao fato de que o _ a-histórico e negado::.- d'iniquités), segue e de que entretanto o tendência geral é o · outro sentido eaté imediatismo é capit apesar disso ele se ::. quase todos os qua veis e no uso gera: do sempre é agradávei. l de é que a humanidad suas conquistas em - fonte dessas coisas ~ as pós-renascentistas talidacle que sobrepõe pensamento utópicc " praça, e isto deve ter existe nas utopias. n misto de narrativa m: algo mórbido, e isto "> ereto-existente, ao q~e precariedades a utopia nizador, encaixado e - a apagar diferenciaçõ.:;.s: (ou "fabuladora") se - que alimentam o totà.:::
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    88 OJARDIM EA PRAÇA normas elaborados não apenas de cima para baixo, mas também de fora para dentro. O não-privatismo das grandes utopias, traçadas como uma espécie de macroarquitetura do social, aparece em certos enfo- ques como correlato de uma "tendência" evolutiva. Assim August Bebel, pensador socialista do século passado, dizia, em seu livro sobre o futuro da mulher, que a vida social no futuro será crescentemente pública, alterando inclusive a posição das mu- lheres: a viela doméstica se reduzirá ao mínimo, cedendo lugar a largos espaços para leituras, debates e atividades sociais6 • Ao "publicismo" abstrato elas utopias corresponde o fato ele serem em princípio a-(ou anti) históricas, sendo em certo sentido conservadoras. Nelas se congela uma dada forma de ordem como sendo ideal e imutável. Mas se trata de um conservadorismo abstrato, que não se confunde com o conservadorismo romântico nem com os tradicionalismos pós-românticos: nestes se valorizam, precisamente, o lastro histórico e o cerne privado da vida elas comunidades. No conservadorismo propriamente dito, que não abjura da evolução mas tenta conjugá-la com a preservação do estável, há uma peculiar permanência da dimensão privada, vin- culada historicamente a algum traço residual do feudalismo, e de qualquer sorte não redutível ao racionalismo dito burguês, analí- tico em vez de sintético e universalizante em vez de particularista. Ficou dito, acima, que as utopias têm algo de narrativa mítica. Isto se aplica inclusive aos relatos messiânicos, inclusive os que falam de terras da fartura, com rios de leite e de mel. Elas têm realmente um lado religioso, e dele decorre o hierático dogmatismo que se encontra descrito nas utopias literárias: em Campanella, por exemplo, o poder supremo do "Metafísico" equi- valia à existência de verdades indiscutíveis e de preceitos gerais inquestionáveis. Verdades sagradas: algo genérico, infenso às r efrações da vida privada, das dúvidas, do diálogo e da "opinião". Podemos ver como pólo oposto o conceito variável ou pelo menos "relativo" de verdade, advindo da dessacralização, expresso como empirismo no iluminismo inglês e como criticismo na filosofia de Kant. G. Vomall i11 lhe Past_ Preselll Glui Future, trnd. A. Walther, 3• ed., Londres W. Rccves, s. ri., p. 221. predomínios, é en duas dimensões de ~ concreto e imerua o projeção de planos equilibradora, os d. deveriam ser comp: tir dos grupos h mana. Mesmo porq equilíbrio. Na medi se entende como vo reportar-se aos clássica e do "Ociden. nítida e persuasr·...- Média Cristã (e ta= to.
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    =....s -~opias literárias:em ~ do ·~retafísico" equi- ...se de preceitos gerais senérico, infenso às diálogo e da "opinião". - ~..-!á,·el ou pelo menos ~alização, expresso - t: como criticismo na el.Londres W. Rccves, s. d., p. 13. ABURGUESIA, OLIBERALISMO E 0 PROBLEMA DO EQUILÍBRIO O que se depreende de tudo isso, no meio de oscilações e de predomínios, é entretanto a permanência da distinção entre duas dimensões do viver: a que circunda o indivíduo como algo concreto e imediato, e a que se estende ao seu redor como projeção de planos mais amplos e mais complexos. Em uma visão equilibradora, os dois modos (para usar um termo spinoziano) deveriam ser complementares, sendo ambos necessários ao exis- tir dos grupos humanos e ao desenvolvimento da condição hu- mana. Mesmo porque as formas de vida são sempre formas de equilíbrio. Na medida em que a distinção entre público e privado se entende como uma constante histórica, será sempre ilustrati- vo reportar-se aos momentos mais exemplares da antigüidade clássica e do "Ocidente", nos quais aquela constante se apresenta nítida e persuasiva: nas cidades gregas e romanas, na Idade Média Cristã (e também entre árabes e persas), no Renascimen- to. No Renascimento, entre as coisas que se retomaram do acervo cultural greco-latino, ressurgiu por exemplo o tema da comparação entre a vida social e a vida solit ária. Sêneca havia, ...#'
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    "". -- !)0 OJARDIM E 11 PRAÇII em varias de suas Cartas a Lucillius, tratado do assunto em termos de elogio da solidão e de desestima ou desprezo da multidão e mesmo dos grupos mais restritos. E Pierre Charron, em seu livro de ensaios chamado De la sagesse (publicado em 1601), comparou as duas formas de vida, a solitária e a social, advertindo contra as "más companhias", e distinguindo entre os contatos moderados, que são úteis, e os excessos que dizia platô- nicos, consistentes em ter tudo em comum1• O Lema da oposição entre vida social e vida solitária é paralelo, digamos assim, ao da complementaridade entre vida pública e vida privada. A vida privada, que também tem uma estrutura, se desenrola em espaços específicos, onde o humano se concentra em conexão mais direta com o eu individual e onde o eu se cultiva através de conexões culturais concretas e pes- soais. Coloca-se nesta esfera o fenômeno milenar do residir, obviamente ligado à casa- a casa e seus espaços, a propósito dos quais citamos mais acima o conhecido livro de Bachelard. Na esfera oposta, a do viver público, paira a existência grave e oficial das chamadas instituições; as instituições ordenam o conviver, assumem o lado "genérico" da experiência humana e dão ao "social" o seu perfil peculiar. A filosofia de Heidegger, que subli- nhou o tema da "vida autêntica", contemplou também o conceito de morar (wohnen) como componente fundamental do estar no mundo. O viver privado possui obviamente algo de centro e de refúgio, essencial referência posta entre o indivíduo e a "realida- de" - cósmica, social, pública. Mas a vida histórica evidentemen- te não ocorreria sem a existência ela esfera pública, embora seja certo que ela também inclui o viver privado: na esfera pública se acham as definições sociais fundamentais, com o poder e seus símbolos, as hierarquias, as edificações, as distâncias rituais, e isto desde Ur e Ugarit até Atenas e Esparta, Roma e Cartago, França e Inglaterra. O lado público, na medida em que recorta o "social", define e abriga os chamados papéis, que o homem desempenha e que inclui seus ídolos (no sentido baconiano), destacando-se os idola fori, as representações inerentes a cada contexto social (ou profissional). 1. Séncqnc, Lcllres à Lucillius, trad. F. c P. Richarei, cd. hilingiic, Paris, Carnicr, s.d., passim; P. Cluwron, De la Sabidurla, lrad. Elza Fabcrnig, D. iires, Losadn, 19~8, caps. L c LI. O liberalismo e críticas ele todas as~~ com o relativismo 'i Denunciada por ?I lismo, repudiada po!"- valores criativos, a :.. gem central do vas~.o a permitir o aclven'L..:. de Marx e o de Nietz3 dito, o de Kant, corr. detestado pelos naz~ que apesar de tudo a idéia de Estado-de- os diferentes ismGS Hobbes, em torno Não cabe confuncEr referiu-o como pos~ muiLo tempo), com simples ideal econ seja dito de passag servem a muitos r imperialismos bem Foi por assim de liberal vigente!l ' ordem pública e o~ forma recusar a e.sf todo comando exte..- de Stirner quantc liberal Spencer. _'-a:: das coisas, ao d~ (vimos como Bebe~ viver público seria liberalismo iluu~""""' Francesa e pelos :-· experiência histór! tativa de equilibra- pública - cargas e e
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    ~o do assuntoem ~a ou desprezo da =5 E Pierre Charron, ::gesse (publicado em - s.::::tária e a social, ~-::!nguindo entre os ~s que dizia platô- e tida solitária é :a-idade entre vida s, onde o humano ea 1,-,dividual e onde ~concretas e pes- Z::::..:.:enar do residir, ~---s a propósito dos :-:::!'0 C.e Bachelard. Na .;..o......;:;.o::r""~""-'c:a grave e oficial C!'denam o conviver, h~ana e dão ao ~degger, que subli- ~ambém o conceito ,___.,-~en~ do estar no al,;;-o de centro e de ---=-.:~-Eàuo e a "realida- -rica evidentemen- ~::.:ca, embora seja !:l:. =.s:"era pública se _ =. o poder e seus ~...ãncias rituais, e Roma e Cartago, _,..___...... em que recorta - ::: que o homem A 13URGUESJA, O LIBERALISMO... 91 O liberalismo e a burguesia, sobre os quais têm caído críticas de todas as procedências, tiveram o que ver, entretanto, com o relativismo que nos permite hoje repensar tudo isso. Denunciada por Marx que a confundiu sem mais com o capita- lismo, repudiada por Nietzsche que nela enxergou a negação dos valores criativos, a burguesia constituiu na verdade o persona- gem central do vasto processo de secularização cultural que veio a permitir o advento de todos os criticismos modernos, não só o de Marx e o de Nietzsche mas também o criticismo propriamente dito, o de Kant, com suas conotações específicas. O liberalismo, detestado pelos nazistas como despolitizante e pelos socialistas que apesar de tudo aproveitam dele o esquema constitucional e a idéia de Estado-de-Direito, ensejcu a abertura relativista para os diferentes ismos que se acotovelam, desde os tempos de Hobbes em torno das indagações basilares da teoria política. Não cabe confundir o liberalismo propriamente, o que está den- tro da valorização da liberdade desde os huguenotes (Ortega referiu-o como posição demasiado elegante para manter-se por muito tempo), com suas "implicações" capitalistas ou com o simples ideal econômico da livre concorrência. Nem tão pouco, seja dito de passagem, com as alegações "neo liberais" que hoje servem a muitos para aderir a regimes autoritários ou aceitar imperialismos bem armados. Foi por assim dizer implícita a busca, dentro da mentalida- de liberal vigente nos dois últimos séculos, de um equilíbrio entre ordem pública e ordem privada. Ao anarquismo coube de certa forma recusar a esfera pública, com a rejeição a todo governo, todo comando externo ao indivíduo: tanto no exacerbado egoísmo de Stirner quanto no exagerado antiestatismo do entretanto liberal Spencer. Aos socialismos coube enfatizar o lado público das coisas, ao dar destaque aos problemas econômico-sociais (vimos como Bebel anunciava o advento de uma época en: ~ue o viver público seria dominante). Interrompida a tra)etona do liberalismo iluminista, pelas coisas advindas da Revolução Francesa e pelos tumultos sociais do século XIX, ficou faltando à experiência histórica do Ocidente contemporâneo ret omar a ten- tativa de equilibrar nos seres humanos a carga privada e a carga pública - cargas e encargos. ....11'
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    92 O JARDIME A PRAÇA Mais sobre o liberalismo. Na medida em que a tendência do esquema político liberal foi no sentido de eliminar os "corpos" e as "ordens" postas entre o cidadão e o Estado, ele sublinhou o confronto entre o perfil privado e o perfil público dos homens. Com o tempo, deslocadas as linhas clássicas, ressurgiram corpos de outra espécie - basicamente grupos econômicos - , e se des- montou o desenho que o liberalismo havia traçado. Em artigo de revista publicado em 1970, Rolf-Dieter Herrmann tentou articu- lar o problema do chamado domínio público com o tema da estrutura sociopolítica das democracias ocidentais contemporâ- neas, acentuando o desaparecimento do confronto entre o indi- víduo e o Estado ("a silhueta do homem privado ousadamente levantada em face do Estado"), que teria ocorrido nos tempos da Revolução Francesa2 • Para Hermann, a alteração histórica en- volve, no caso, uma revisão da própria experiência do poder, e também da noção do que seja público: para ele, o marxismo teria ensejado uma excessiva ampliação do "público", dissolvendo a própria diferença entre o social e o estatal, e também repudiando o ideal liberal de discussão. Realmente caberia reexaminar o papel social ou antes his- tórico dos grupos e dos "grêmios", mediadores entre o ponto de referência da vida privada, o indivíduo, e o amplo horizonte ela vida pública, composto pela ordem política geral (estatal e mes- mo internacional). Os grupos, que reuiennent au galop logo que podem, invadem a sociedade e dão no "organizacionismo", que William White estudou e que m encionamos acima. A reflexão sobre o assunto nos encaminharia, entretanto, a rever os chama· dos processos de socialização, nos quais interfere a presença dos grupos - e grande parte da sociologia norte-americana neste século surgiu como "sociologia dos grupos" -, e nos quais o indivíduo, como ponto de referência, se comunica com esta coisa meio abstrata que é a genérica "sociedade". Por outro lado o assunto nos conduziria de novo ao tema elas grandes massas urbanas, que vimos mencionando, com o agravante dos pavoro- sos aumentos de população por toda a parte; e ao tema da crise das formas seculares de vida, crise da qual surgem expressões as mais variadas. 2. "Vie publique- Vie privéc", con Diogéne, Paris, n. G!.l, jan.-mar., 1.970. • , BCJ Como entendemos 7:- classe responsável pelo c- nação que ensejou e ense; deixar de ser "classe" - modo no mundo antigo o podemos estimar na pres correlata daquela que es- brios muito peculiares. nacional e cosmopolitis- clássica), o equilíbrio e aparece sob versões dii:. ainda o equilíbrio entre: . e a dimensão privada. Não se pode neglig mido pelo trabalho intel pelo sapere aude de on= dentro do sentido em que gucsia. A própria noção :le vel dentro de conot ações: nos séculos ditos mode:r.: Sócrates. Sabe-se que o..., nhava inclusive o trabaLlt gos é que, em geral, se repassar informações, · - - a permanência dos te~~ tocrata grego, mesmo que obras de Fídias, não se cinzelar pedras, e Nietzs ele seu fragmento sobre a de, da hierática atitude d sada de algum modo con: historicamente as atitudêE teria sido impossível. Com crescendo por dentro de co-comparativo, um rela::. também hieráticos e que : começo do século XX, nas 3. Cf. L. llcynolds e N. Wilson, &
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    e::.::I: que atendência do .;; eliminar os "corpos" e -_-;.ado, ele sublinhou o m p-:iblico dos homens. a;::..::....:;:z.::' :-essurgiram corpos - e:r~õmicos -, e se des- - uaçado. Em artigo de .Her.rriann tentou articu- :;::::bilco com o tema da ,.• -. e nos quais o ~~a com esta coisa I~L--~.J::-. Por outro lado o ~ ~andes massas :::ra'"ante dos pavoro- e ao tema da crise A BURGUESIA, O LllJERJLISMO... 93 Como entendemos burguesia não no apertado sentido de classe responsável pelo capitalismo e pelas estruuras de domi- nação que ensejou e enseja, mas no de tipo histórico que- sem deixar de ser "classe" - protagonizou no Ocidente (como de certo modo no mundo antigo) o processo de secularização da cultura, podemos estimar na presença histórica da burguesia uma busca, correlata daquela que estava ínsita no credo liberal, de equilí- brios muito peculiares. Por exemplo o equilíbrio entre Estado nacional e cosmopolitismo (estudado por Meinecke em obra clássica), o equilíbrio entre racionalidade e sentimento, que aparece sob versões diferentes em Rousseau e em Goethe, ou ainda o equilíbrio entre praça e jardim: entre a dimensão pública e a dimensão privada. Não se pode negligenciar com um piparote o sentido assu- mido pelo trabalho intelectual dentro dos contextos dominados pelo sapere aude de origem iluminista e de base burguesa - dentro do sentido em que entendemos acima o conceito de bur- guesia. A própria noção de "trabalho intelectual" só seria possí- vel dentro de conotações laico-racionais do tipo das que surgiram nos séculos ditos modernos, ou na Grécia a partir da geração de Sócrates. Sabe-se que o nobre, ao desdenhar o trabalho, desde- nhava inclusive o trabalho intelectual: na Idade Média os cléri- gos é que, em geral, se dedicavam a copiar manuscritos e a repassar informações, tanto que a eles se deve em grande parte a permanência dos textos antigos3 • Sabe-,se também que o aris- tocrata grego, mesmo que apreciasse poemas de Arquíloco ou obras de Fídias, não se "rebaixaria" a escrever versos ou a cinzelar pedras, e Nielzsche registrou isso em um passo famoso de seu fragmento sobre o Estado grego. A perda, na modernida- de, da hierática atitude do nobre diante do mundo, foi compen- sada de algum modo com a possibilidade de se compreender historicamente as atitudes, coisa que por parte do nobre hierátíco teria sido impossível. Com isso aludimos ao relativismo, que veio crescendo por dentro do pensar moderno, laico-racional e críti- co-comparativo, um relativismo que se opunha aos dogmatismos também hieráticos e que se expressaria depois, já sobretudo no começo do século XX, nas tipologias: psicológicas, sociológicas, 3. Cf. 1•. n cynnld• ,, N . Wilson, Scribes and Scholors, :t' e<.l., Oxforc.l, 1!)8•1, jJUSSi lll.
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    94 O JARDIME A PRAÇA teórico-políticas. Aquele "saber classificatório", que Foucault divisou nos começos da modernidade e que era ainda um uso descritivo da razão, evolui com o relativismo até o pensar tipo- lógico, que representa um uso moderador da faculdade de julgar. Dentro da alusão à cultura burguesa - incluindo nela as roupas do século XIX e as ambigüidades bovaristas -, vai aqui uma nota sobre o problema da educação. Sempre ocorreu na história uma opção, expressa sob várias formas, entre a educação privada e a pública, aquela representada principalmente pela família e esta pela "escola", mormente a escola pública. Em um breve e notável ensaio, incluído em um volume coletivo sobre problemas de população, André Mnurois aludiu de modo muito convincente (a não ser para os que detestam a priori a noção de "elite") e muito oportuno o problema do humanismo, que segundo ele só se mantém através da continuidade das gerações e dentro da estrutura da família, ligada à comunidade. Os séculos onde se cultivou o humanismo clássico for;:~m épocas de cidades peque- nas, onde havia espaço para o convívio e tempo para a leitura1 • Descontado destas frases um possível saudosismo, permanece válida a sensação de perda que Maurois quis expressar; pois também cabe pôr de lado o preconceito anti-elite e perceber que a grandeza criadora foi mais forte e mais fecunda nos tempos onde não havia superpopulações e onde as estabilidades sociais permitiam uma maior maturação das coisas. Mas tratemos de novo do tema da tendência do espírito burguês (na medida em que isto existiu ou vem existindo) ao equilíbrio entre os lados privado e público do viver. Vale repetir que o conceito de burguesia aqui conotado não é o mesmo que aparece na literatura socialista hoje largamente esparsa e em grande medida criada por cissiparidade em relação aos textos anteriores, sem maior repensamento crítico. Valeria também fazer constar que não nos referimos, ao falar em equilíbrio, àquela idéia - típica nos "clássicos" e peculiar em Aclam Smith - segundo a qual os interesses elo indivíduo e os ela coletividade se equivalem (ou se complementam), na medida em que a divisão 1. IC:n, As l'ressõesdn.l'opulaçiio,org. por F. Osborn, trad.J .•f. Farias, l{io dcJanbiro, Zahar, 19G5. do trabalho atende a ten do algo de ilusórioc Um dos eqUÍvOC03 burguesia vem sendo "J que "sucedeu" à nobrezz. dominando o operaria.: de um eco das visões -. mens, e dos específicos para esquematizar a vários outros. Marx e~;.. diferentes o problema _ ses, e a sociologia pos-..e dos modos de dar-se a Historicamente ~ tocracia) como "classe classe no sentido res:!":· nobreza sobre a bucr5 antigüidade quanto ::::.a O chamado mundo b do feudalismo e cuja as sendo o mundo da cu! economicismo que se e na mentalidade), pe centro e causa geral de e outros. Vem daí a capitalista. De sorte q criação do próprio "rc nalismo moderno. Do dialética, e os concei:~ - Hegel tratou da seguintes da Filosofa nien de 1821). O fato.:: componente contral:P sorte Hegel herdou de te entre o indivíduo o dilema entre pertencer
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    :ório", que Foucault queera ainda um uso ...5!:10 até o pensar tipo- cia faculdade de julgar. '""'à - incluindo nela as ~ b~T·aristas -, vai aqui :; Sempre ocorreu na ~as, entre a educação principalmente pela escola pública. Em um T"o.ume coletivo sobre -:: ~udiu de modo muito ;:.a::n a priori a noção de f: manismo, que segundo das gerações e dentro :l.ade. Os séculos onde ~de cidades peque- e ·e:mpo para a leitura1 . _...:.c:sismo, permanece - ~~s expressar; pois ·-e~te e perceber que :ecunda nos tempos "' "'.sLabilidades sociais tendência do espírito :1 vem existindo) ao E.âo é o mesmo que -= ""Tõente esparsa e em IE":TT relação aos textos ..ro. Yaleria também falar em equihbrio, 2'l1:Wiar em Aclam Smith ... e os da coletividade =edida em que a divisão - s,RiodeJaneiro, ~ahar, 19G5. A BURGUESIA, O LIBERALISMO... 95 do trabalho atende a todos. Esta idéia contudo revela, mesmo tendo algo de ilusório, aquela tendência básica a que aludimos. Um dos equívocos mais insistentes em torno da idéia de burguesia vem sendo o de considerá-la como uma classe social que "sucedeu" à nobreza como grupo dominante, e que vem assim dominando o operariado, que por sua vez lhe sucederá. Trata-se de um eco elas visões triáclicas que sempre fascinaram os ho- mens, e dos específicos triadismos que o século XIX formulou para esquematizar a evolução. E este equívoco se articula com vários outros. Marx entretanto tratou de pelo menos três modos diferentes o problema de como enumerar e caracterizar as clas- ses, e a sociologia posterior situ ou o fenômeno "classe" como um dos modos de dar-se a estratificação social. Historicamente, a burguesia não "sucedeu" à nobreza (aris- tocracia) como "classe dominante": até porque esta nunca foi classe no sentido restrito do t ermo. Não houve "dominação" da nobreza sobre a burguesia, e sim sobre a plebe - tanto na antigüidade quanto na Europa ocidental - , o que é outra coisa. O chamado mundo burguês, cujo início correspondeu ao declínio elo feudalismo e cuja ascensão foi paralela à do capitalismo, vem sendo o mundo ela cultura urbana e clessacralizacla. Somente o economicismo que se instaurou na vida contemporânea (na vida e na m entalidade), permitiria pensar-se no capitalismo como centro e causa geral ele fenômenos como "burguesia", "laicização" e outros. Vem daí a acepção ele burguês como sinônimo ele capitalista. De sorte que noções como burguesia e capital foram criação elo próprio "mundo burguês", ou seja, o mundo elo racio- nalismo moderno. Do mesmo modo as versões modernas ela dialética, e os conceitos ele revolução e de proletariado. Hegel tratou da famüia e ela viela privada nos §§ 158 e seguintes da Filosofia do Direito (de Berlin, ou seja: as Grundli- nien de 1821). O fato de t er o filósofo mencionado a família como "substancialidade imediata do espírito" n ão o impediu de, no concernente ao Estado (§§ 258 e segs.), repelir todo privatismo, inclusive criticando na teoria política de Rousseau a presença do componente contratual, a seu ver privatizante. De qualquer sorte H egel herdou ele Rousseau a questão ela dualidade existen- te entre o indivíduo (o "burguês") e o cidadão, correspondente ao dilema entre pertencer à dimensão privada e à pública. O pen-
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    "'- !)(i OJARDIM EAPRAÇA sarnento de Hegel vai aqui referido porque, de certa maneira, a dialética das relações entre o espírito objetivo e o espírito subje- tivo, dentro do sistema hegeliano, poderia comparar-se a uma teoria da dimensão pública e da dimensão privada, pois o Direito e o Estado são, para Hegel, manifestações da Idéia objetiva. Mas não nos estendamos sobre isto: vale remeter, de passagem, a uma nota muito interessante do livro de Gérard Lebrun, O Avesso da Dialética5• Com freqüência se exagera ao acentuar certos aspectos da época moderna e dos séculos ditos burgueses. É como se o mundo medieval tivesse sido carente de "espaços", de "racionalidade" e de outras coisas. Há entretanto alguns traços que caracterizam o advento da racionalidade pós-renascentista, coligada à secula- rização e a uma idéia peculiar de Estado: acaba-se inclusive o sistema oficial de privilégios, e com ele a educação aristocrática, islo é, a educação dos aristocratas. Mencionamos acima o am- biente burguês-comercial, que foi o de Viena em meados (ou na segunda metade) do século XIX e que vem referido no capítulo VI do livro Viena Fin-de-Siecle de Carl Schorske (aliás intitulado, sintomaticamente, A Transformação do Jardim): um ambiente mais prosaico e menos hierático- ou menos vertical- do que os contextos aristocráticos, mas povoado de vivências novas, inclu- sive de novos espaços. De qualquer sorte os modos nobre e burguês, tornados, através dos processos históricos, modelos genéricos (que no caso do nobre tem sentido quase arquetípico), podem encontrar-se, fragmentariamente ou em forma de detalhes, expressados em diversos pontos da vida contemporânea, através de valores, padr ões e atitudes que não se reduzem ao conceito de classe. A noção paradigmática e arquetípica de nobre continua em vigência dentro das formas de estimação e de linguagem, desig- nando atitudes e qualidades: caráter nobre, gesto nobre, inten- ção nobre. A noção se acha penetrada por conotações como "desinteresse", "altaneria", "retidão", "altivez" e outras. Entre- tanto há, na configuração da idéia do nobre - ou do aristocrata, que aqui usamos como sinônimo - um aspecto que Ortega fixou 5. 'l'rad. 11. J . Ribeiro, São Paulo, Companhi" da~ Lctrns, ID88, p. 311. Sobre Hegel, v. também ,José Guilherme Mcrquior, O ArgumentoLiberal, Hiodc J nnciro, Nova Fronteira, Hl83,passím. e que, ao menos em_ Ortega, o n obre é se nos revelam o contra_, o nobre atribui (ou quando, referindo-se gostava de piadas c.:. Hamlet, no monólo-g- nobre", enfrentar am a esta por uma atiru (a velha hybris greg::. Este desdém d:; ~ da, embora se tra:e romanos mais aust.e.:: ças, pelas festas e pê ções como o do nobre Eco, logo no prefác~o alusão ao contraste ~ líptico, a referênc!a imperante, a recusa e de certas nobrezas .i o sentiram os româ!:- sou Vigny no verso: Seul le silence "' Mas r etornem«E brio, próprio do laic•, Ocidente a presença rece como algo dema.s_ apercebido aqueles q os burgueses de care,.. bém, de certo modo contabilidade empr~ 6. que os rotnanos teriam s·
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    _~.. de certamaneira, a :u.vo e o espírito subje- :::a comparar-se a uma - privada, pois o Direito da Idéia objetiva. Mas ;:er , de passagem, a de Gérard Lebrun, O certos aspectos da de "racionalidade" e ~s que caracterizam ~~.coligada à secula- acaba-se inclusive o _..__O!lamos ac1ma o am- .:::na em meados (ou na referido no capítulo VI ~ke aliás intitulado, -~tsrdim): um ambiente - vertical - do que os oe burguês, tornados, ~ =enéricos (que no caso podem encontrar-se, tai:..es, expressados em ::.:.ravés de valores, conceito de classe. de nobre continua em e de linguagem, desig- t:?e .;esto nobre, inten- por conotações como vez' e outras. Entre- :::re - ou do aristocrata, -" que Ortega fixou • p. i i. Sobro llc{;'cl, v. t.nmhém ~ .1 Fronteira, 1983, JXIBSÍm. • ll BURGUESIA, O LTDERALTSMO... 97 e que, ao menos em parte, talvez corresponda à realidade. Para Ortega, o nobre é sempre "duro, sombrio, caçador". Estes traços nos revelam o contraste com a "frivolidade" e a flexibilidade que o nobre atribui (ou atribuía) ao plebeu. Recordemos Hamlet, quando, referindo-se a Polonius, dizia ser este um velho tolo, que gostava de piadas chulas e de gigas grotescas. Aliás o próprio Hamlet, no monólogo famoso, refletia sobre o que seria "mais nobre", enfrentar o mundo e vencer a adversidade ou sobrepor-se a esta por uma atitude indiferente, que não permitisse mistura (a velha hybris grega!) com coisas inferiores. Este desdém do nobre pelas garrulices "plebéias" nos recor- da, embora se trate de outro plano, o desdém com que certos romanos mais austeros aludiam ao amor dos gregos pelas dan- ças, pelas festas e pela alegria: greculus histrio6 • De todos os modos parece comum, em certas épocas, o conflito entre atitudes (ou entre Weltanschaungen) gerar posi- ções como o do nobre "sombrio". Assim encontramos em Umberto Eco, logo no prefácio de Apocalípticos e Integrados, junto com a alusão ao contraste entre a cultura de massa e o crítico apoca- líptico, a referência à atitude deste, que "opõe, à banaHdade imperante, a recusa e o silêncio". Silêncio que terá sido, por parte de certas nobrezas destronadas, a resposta à adversidade, como o sentiram os românticos desde a primeira hora e como expres- sou Vigny no verso famoso: Seulle silence est grand, tout le reste est faiblesse. Mas retornemos outra vez ao tema da tendência ao equilí- brio, próprio do laicismo a cujo processo histórico corresponde no Ocidente a presença do burguês. Este equilíbrio por vezes apa- rece como algo demasiado prosaico, algo insípido, e disso se terão apercebido aqueles que no começo do século passado acusaram os burgueses de carentes de espírito. E a isso corresponde tam- bém, de certo modo, o fato de a economia burguesa ter criado a contabilidade empresarial e as técnicas orçamentárias: o modo 6. D.ll. Lawrence, uus pti.ginus sobre sua vingCln oos sítios arqueológicos de Ccrvctcrl, observou quo os romanos tcrio m sido urna espécie de "prussiAnos"da nntigüidade, aos quais desagradava (como aos historiadores tipo Mommscn) a vida "vício.n" dos etruscos:D. II. Laummcc a11dituly, Pcnguin Books, 1972, parte 3, "J,;trnsctln Placcs"
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    • 4 !18 OJARDIM e A PIIAÇA de viver dito burguês seria no caso um constante evitar riscos, e como a .vida é feita de riscos ela perde em substância com os excessos de cautela. Uma via)ante, Karen Blixen, refletindo sobre os africanos, observou certa vez que a compreensão do trágico só existe nas autênticas aristocracias e no verdadeiro proletariado: o trágico aparece, para este e para aquelas, como parte da vida e até como parte de Deus, enquanto que para a burguesia o trágico é algo des~gradável, algo a ser evitado. Encontrei isto citado em um livro de Guillermo Floris Margadane. Se afastarmos da obser- vação o equívoco esquema "nobreza-burguesia-proletariado", po- deremos aceitar o registro como basicamente válido e surpreendentemente interessante. Na verdade, o que ocorre é que a secularização da cultura veio a apagar nas sociedades o patlws aristocrático-religioso, que é requisito do trágico (e que o foi concretamente no caso dos gregos), trazendo crescentemente o predomínio das formas menos "heróicas" de vida- isso pionei- ramente Vico percebeu - e entronizando a padronização cultural, jurídico-política e econômico-social. Padronização que acarreta- ria o pragmatismo, o utilitarismo e o imediatismo do mundo de hoje. Feitas ou admitidas estas ressalvas, mantemos todavia o mérito da valorização do equilíbrio, existente no "espírito" bur- guês na medida em que tal espírito é uma realidade histórica. Muitos autores, que sem mais aquela combatem a burguesia, confundem o seu conceito com o dos freqüentadores de café-con- certo do século XIX, ou o dos que iam ao jardim do Luxembugo procurar grisettes e lorettes8• Estes segmentos da sociedade con- temporânea participam entretanto do modo laico-burguês de vida do mesmo modo que o trabalho científico, cujo mérito nin- guém nega, ou os progressos da higiene, dos quais se beneficiam os próprios detratores da burguesia. É certo, entretanto, que opadrão burguês de pensar, mesmo se o entendemos em sentido positivo, corresponde sempre a algo "não extremado". Assim o teríamos mais em Montesquieu do que 7. lntmducciónalallistoria UniuersaldelDerccho, Xalapa, México, Ed. Uni v. Vcracruzana, 107•1, p. 4G5. 8. Cf. Cuide eles Plaisirs de l'aris, l"ouvcllc Eclition, Paris, s.J., pp. 210 c ss. A em Rousseau, coma que em Platão, e de Agostinho. Não se~~ radicais e criadoras montaram esquemas estes esquemas n~ combinar-se com form subseqüentes, dota maior adaptabilidade observar que o pleito de coadunar-se com a sentido do "público lução Francesa se : clássica divisão rom - do-se este sobre o :~ sobre o Direito Nat.. vez à tendência do .. pressaria inclusiYe sempre alegado "ind! através dos modelos estéticos no tocante sentidodo espaço pú' inclusive ao processo o advento da democ:- administração racio~ Ainda dentro do demasiado amena p os autoritaristas de · que viria eclodir sob~ a planificação. Den:!"C capitalista, privatiz keynesiana que tento.u e o capitalismo, bu.s planos, adotados na::- discutir e refazer a.s
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    •<a~ ~ evitarriscos, e e= s-o.~bstância com os ~~~~~ente e ~ - de o que ocorre é .;ar nas sociedades o - do :rágico (e que o ;a~ão que acarreta- ~._:c......-5'!Ilo do mundo de :em a burguesia, :;::-es de café-con- ~ Jo Luxembugo da sociedade con- aico-burguês de Ll:ü" "cracruznna~ 1074, 11 BURGUESIA. O Lll3ERALTSMO... 99 em Rousseau, como em outro contexto mais em Aristóteles do que em Platão, e de certo modo mais em Tomás do que em Agostinho. Não se negará a necessidade de ocorrerem posições radicais e criadoras como as de Platão e de Rousseau, que montaram esquemas fundamentais; mas aquela criatividade e estes esquemas necessitaram, para frutificar historicamente, de combinar-se com formulações complementares ou paralelas, ou subseqüentes, dotadas de mais flexibilidade pedagógica e de maior adaptabilidade ao real. Quanto ao problema da limitação do Estado, formulado dentro do racionalismo "burguês" pelos liberais clássicos, ocorre observar que o pleito em favor da restrição do Estado não deixou de coadunar-se com a permanência, aliás redimensionada, do sentido do "público". Como se sabe, a obra legislativa da Revo- lução Francesa se fundou sobre uma espécie de retomada da clássica divisão romana do Direito em público e privado, basean- do-se este sobre o legado romano e aquele, ao menos em parte, sobre o Direito Natural. Neste caso poderíamos aludir mais uma vez à tendência do "espírito" burguês ao equilíbrio. Ela se ex- pressaria inclusive no fato de que, enquanto por um lado o sempre alegado "individualismo" moderno veio realizando-se através dos modelos domésticos, inclusive com certos requisitos estéticos no tocante aos interiores e aos trajes, por outro lado o sentidodo espaço público se desenvolveu exemplarmente, ligado inclusive ao processo de reformulação das práticas políticas, com o advento da democracia, das técnicas eleitorais, dos ismos e da administração racional contemporânea. Ainda dentro do tema dos "limites do Estado" (expressão demasiado amenrt para o anarquismo radical e inaceitável para os autoritaristas de todos os matizes), vale referir uma questão que viria eclodir sobretudo nas décadas 30 e 40 de nosso século: a planificação. Dentro da própria área de influência da economia capitalista, privatizantc, e em parte sob O< impacto da doutrina keynesiana que tentou abolir a incompatibilidade entre o Estado e o capitalismo, buscou-se um modo de adaptar a idéia dos planos, adotados na União Soviética desde os anos 20. Buscou-se discutir e refazer as lindes entre o chamado setor público e o setor dito privado: alguns autores em matéria de finanças públi- •.1"
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    100 OJAJWI/11 E11 PRIIÇA cas chegariam a negar a separação tradicionalmente existente entre os dois. No debate sobre planificação, onde entrariam entre outras figuras Jaspers, Von Mises, Laski, Hayek, destacou-se pela profundidade de suas análises Karl Mannheim, grande pensador (um dos criadores da "sociologia do conhecimento") ao qual certos professores desavisados e imbuídos de marxismo mal digerido vêm atribuindo, com azedo tom acusatório, posições "conserva- doras". Segundo Mannheim, o crescimento das cidades no Oci- dente moderno incrementou caracteristicamente uma vasta rede de "negócios carentes de intimidade": negócios em cuja estrutura prevalecem formas totalmente objetivas, com o advenlo de con- tratos impessoais, senão anônimos, e com o indivíduo solto diante (ou dentro) desta vaga coisa que é o "público". O inverso, portanto, do que havia sucedido no medievo. Daí a preocupação de Mannheim com as implicações do problema da planificação em termos de psicologia social, no sentido das alterações sofridas pela personalidade humana dentro das sociedades planificadas. Daí seu interesse pelo estudo das relações entre economia e educação, desenvolvido com base na idéia de que em cada grande tipo de sociedade predomina um padrão de personalidade, bem como um modo de afirmação pessoal. Reordenar a sociedade, planejar e estabelecer coordenadas significará portanto algo bastante complexo9 • Aexacerbação do lado público das coisas, no mundo de hoje, se exemplificará inclusive com o grande porte das organizações econômicas internacionais, que destruíram as demarcações na- cionais, realizando em grau ostensivamente extremo- embora sob formas diferenciadas - o que talvez estivesse latente nos grandes "impérios" do passado. Entretanto um dos temas que me parecem mais centrais, dentro do enovelado de assuntos que perfazem a fisionomia do "mundo contemporâneo", é ainda o da perda das estabilidades. É certo, como foi dito mais acima, que as transformações histó- ricas não poderiam dar-se se as estruturas fossem inquebráveis, 9. Cf. "/ Sociedade Planejada e o Proble1na da Personalidade flumaua", em Ensayos sobre Sociologiay Psicologia Social, México, FCE, I003. autoimagem do nios, dentro do elas tos vieram as formas de 'ida. zações de poder- acumulando-se • autoimagem do Humanitase gos e filólogos q~ea. fabricados pelo agregaram ao seja, para quase humanos. Voltandoao~ uma no·:a
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    nalmente existente ~l"Íam entreoutras -. destacou-se pela ~.grande pensador _e!::to") ao qual certos :r:rismo mal digerido posições "conserva- - das cidades no Oci- -e!:!.te uma vasta rede =:JSem cuja estrutura _:,:r. o a dvento de con- ::-=:m o indivíduo solto ..?-..ililico". O inverso, Daí a preocupação ~ da planificação 1las a:terações sofridas ..edades planificadas. - entre economia e e que em cada grande -r personalidade, bem ~enar a sociedade, ,.--::ea.....-á portanto algo "3" no mundo de hoje, :-..e das organizações a:::. as demarcações na· -;.e extremo - embora õ-=:'l;"esse latente nos -~m m ais centrais, :::Z.Ze!!! a fisionomia do - das estabilidades. -.::..-.s:ormações histó- s.sem inquebráveis, Huu:.ana'', em Ensuyos sobre A BURGUESIA. OLTBERilJSMO. .. 101 e que toda estabilidade deve ter limites, inclusive os limites que lhe atribuem a consciência ética e o pensar crítico, que são obviamente variáveis no tempo e no espaço. Mas é que um dos aspectos mais dignos de registro, dentro do que se chama de crise do mundo moderno (ou do "contemporâneo"), é a condição da autoimagem do homem, formada através de séculos ou de milê- nios, dentro do quadro de instabilidades hoje existente. A maio- ria das representações fundamentais, algumas mesmo arquetípicas, que vieram perfazendo aquela autoimagem, foi elaborada em épocas em que (ao menos segundo nos parece, vistas de hoje) predominaram certos traços estáveis: a casa, a família, as relações de paternidade, a diferença entre velho e moço, enfim uma série de imagens, valores e preceitos. Ainda até duzentos anos atrás, mais valores e mais precei- tos vieram agregando-se. O passar do tempo certamente afeta as formas de vida, através dos contextos culturais e das organi- zações de poder; mas uma relat iva continuidade pareceu vir acumulando-se, feita ele denominadores comuns vindos das mo- narquias antigas e da Europa cristã. Coisas contrastantes vie· ram coabitando dentro dessa continuidade, confirmando a autoimagem do homem. Garantia-a, a esta, a noção latina ele Humanitas e questionava-a, explorando-a, a legião de arqueólo· gos e filólogos que a erudição ocidental produ ziu . Valores novos, fabricados pelo mundo pós-renascentista, e preceitos novos se agregaram ao conjunto. Mas depois de certo tempo os questiona- mentos se tornaram maiores, o niilismo tomou corpo, e entroni· zou-se a noção de crise. Decadência elo Ocidente, saturação elo espírito secular, crise da burguesia e elo capitalismo ou o que seja, para quase todos há algo de podre no reino dos seres humanos. Voltando aos séculos pós-renascentistas, valerá anotar isto. Entre os séculos XV e XVII, quando certas formas do mundo antigo parecem repetir-se - sem entretanto abolição total das criações m edievais-, e quando se consolidam dentro de vigências estáveis certos usos, inclusive os que definem paradigmatica- mente o lado privado e o lado público da vida, é que se iniciam as grandes movimentações que alterarão os mapas e os usos: n avegações, alterações culturais, colonialismo econômico. Toda uma nova Voelkerwanderung, com suas conseqüências no plano ,. .
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    102 O JARDIME A PRAÇA militar, no político, no social, no ético. A partir daí começam a periclitar as estabilidades. Deve ter sido assim em outras épocas, como com o surgimento do império macedônio ou com o fim do mundo romano; só que é este outro desatar-se de resultantes o que chega até nossos dias, e nos alcança. Enquanto o ser humano, ao que parece na maioria dos contextos passados e até mais ou menos o século XIX, se reconhe- ceu a si mesmo dentro de certos parâmetros (aos quais não teria talvez trazido grande alteração o advento do "antropocentrismo" pós-medieval), o século XX introduz nas imagens a dissimetria e o desequihbrio. O homem mesmo era um parâmetro, inclusive no sentido das proporções físicas, diante das casas (paredes, tetos e portas), diante do casaria e das árvores; mas em nosso século chegaria o colossalismo dos edifícios, com a brutal subs- tituição dos estilos pelos tamanhos, com os espigões, com a desmedida. Há nisso por certo uma conexão com o excessivo crescimento das populações (tema estranhamente mantido como tabu), com a massificação, com os regimes autoritários, com a sociedade industrial e pós-industrial, e provavelmente com a perda de substância por parte da dimensão privada do existir. Tecnologia, burocratização, violência, ruas sempre cheias. Henri Lefebvre falou inclusive no cibernântropo, ao tomar posição "contra os tecnocratas", relacionando-o com a destruição do humano e com entronização do "consumo de massa". Parecerá talvez uma cantilena nostálgica, ou uma laudatio temporis acti colocar tintas tão sombrias nestas alusões, mas realmente a questão existe e a generalizada sensação de mal-estar não é infundada. 14. _- Observemos a ; do no Br asil. O p - oitocentistas e fo diversos autores, a: homem é repúblicc• grifado normatiYo, líderes com "espíri:.o o viver nacional se- tido repetir aqui o _ fashioned mas nãc sempre um projeto O reparo do e- mente ser complet.<!.: algumas páginas S"'~­ em seu Raízes do 3 Duarte, A Ordem que inclusive anali.s na história social b cos em Gilberto Fre_
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    ~ daí começama em outras épocas, =-;o ou com o fim do -:;e de resultantes o Ir"""'".,....., na maioria dos --;:> XIX, se reconhe- aos quais não teria - ana-opocentrismo" _;e:l.S a dissimetria e r: ~~ ãrnetro, inclusive ~ casas (paredes, ~-:-es; mas em nosso ~ ~::na brutal subs- : espigões, com a _ com o excessivo -<>::_r.e mantido como :::.oritários, com a ~xelmente com a - i=bada do existir. =-p!'e cheias. Henrí .a~ w mar posição .:::::= z destruição do _ :nassa". Parecerá .3...:io temporis acti =as realmente 14. ALUSÃO ÀEXPERIÊNCIA BRASILEIRA Observemos agora algo sobre como as coisas se vêm passan-. do no Brasil. O panorama histórico nos revela, entre gravuras oitocentistas e folhagens tropicais, o perfil patriarcal da vida privada, que pareceu-, ao menos- predominar sobre as longín- quasausteridades da ordem pública. Cita-se então, por parte de diversos autores, a fan1osa frase do viajante: "neste país nenhum homem é república". A frase, por debaixo da qual perp assa um grifado normativo, indicaria que o país deveria ter tido mais líderes com "espírito público" (ou com dimensão maior), para que o viver nacional se tivesse estruturado como projeto. Seja permi- tido repetir aqui o persuasivo conceito ortegueano, talvez old fashioned mas não desaplicável, segundo o qual uma nação é sempre um projeto vital. O reparo do encasacado turista do século XIX pode certa- mente ser completado com registros mais recentes. Por exemplo algumas páginas sutis e perenes de Sérgio Buarque de Holanda em seu Raízes do Brasil, ou certas par tes do livro de Nestor Duarte, A Ordem Privada e a Organização Política Nacional, que inclusive analisam as relações entre vida rural e vida urbana na história social brasileira. Há também alguns relevantes tópi- cos em Gilberto Freyre, referentes ao desdém do brasileiro colo-
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    101 O .JiRDIME J1 PRJIÇ1l nial pelos espaços públicos, pelo que não fosse o específico recinto da casa de moradia e suas adjacências imediatas: inclusive no plano da higiene, vez que o lixo - inclusive algumas formas terríveis de lixo - era jogado à rua (ou ao rio) sem nenhuma cerimônia e sem nenhum respeito ao que fosse público, comunal, de todos. No capítulo II de Sobrados e Mocambos, o grande escritor caracterizou entretanto o lento trifundo da praça, no sentido ela viela urbana, sobre o engenho ou sobre a viela ele engenho. O triunfo da praça, isto é, da vida urbana, foi correla- iivamente o da rua, isto é, da viela em espaço público: a rua teria inexistido dentro do engenho, isto é, dentro da área específica de dominação da família patriarcaL A este fenômeno, próprio do século XIX, teria porém corresponcliclo, segundo Gilberto Freyre, a existência (em contrapartida) de um viver mais de casa do que de rua no sentido da concentração ele elementos culturais pecu- liares. O tema é vasto, e com ele navegaríamos por águas antropo- lógicas, sócio-históricas, histórico-políticas. Imaginamos a figu- ra dos heróis fundamentais ele outros contextos, inclusive os fundadores de cidades- ou ele comunidades nacionais- e encai- xamos sobre o modelo nossos figurantes históricos, a ver se resulta algo no sentido clássico de transcender a privacidade. O combate contra a concepção elo "herói na história", empreendido por certos entusiastas elo coletivismo, despercebeo fato de que o herói, n este sentido "fundante" (como Numa, como Meroveu, como Bolívar), se identifica justamente com os traços mais gené- ricos e mais "públicos" ela comunidade. E por isso mesmo não exclui o lado social, grupal, do processo histórico; antes existe com ele. Pois encaixamos sobre esses modelos clássicos, carregados de exemplaridade, os nossos Bonifácios e os nossos Canecas: eles são certamente admiráveis, mas não convencem de todo como criadores de um ethos político, porque o palco é vasto demais (um país enorme e heterogêneo) e porque o movimento cênico é excessivamente desigual em ritmos e em direções. De certa forma o problema do privatismo brasileiro, que se prende ao "personalismo" ainda hoje perceptível, deverá ser entendido em conexão com fenômenos idênticos, correntes em lhismo político, pa:'" sa e descontínua p como tal. Por outro lado. Brasil, uma vida p1i?_ se ocorrido a verte::::- mos vivido a order:: menos no sentido de duas carências, de colonização e no p.:>"" Há de qualque privatismo (o giga!" outra coisa), al exemplo este para.d. tante a violência pri semana, assassma· violento), e que en_ Não o tem em ge:- · aqui e ali ocorrente~ tamento com a m.J.:: nária (que ele resuc especiais). Podemos evide privado, no p aís- _ se - , com a perm~-6 ria social: ainda ho:; largas partes do • reforma agrária, manipulam eleiç~ ma se liga inclus;~: instituições com pe.s difundido equívoco que os adotam, is· ft de alguém ser com· tativo pela incom gião cristã mencin~ despreparo ou a des completamente esd:-
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    o e::.--pecífico recinto a:gumasformas rie sem nenhuma - p'iblico, comunal, ':=carzbos, o grande .:~ào da praça, no ~ sobre a vida de I::..:!is de casa do que ~s culturais pecu- - po:r águas antropo- ~aginamos a figu- -~s~cos, carregados - ~.s::;s Canecas: eles ~r=D::!Il de todo como êvasto demais (um ~ento cemco e rti"--el, deverá ser s correntes em ALUS,iO À EXPERIÊNCIA JJRASTDEJJIA 105 toda a América Latina: latifúndios, famílias dinásticas, caudi- lhismo político, partidos formados por coalisões pessoais, escas- sa e descontínua presença do povo e do sentido da coisa pública como tal. Por outro lado, vale notar que o fato de não termos tido, no Brasil, uma vida pública com plenitude não significou que tives- se ocorrido a vertente oposta. Ou seja, não quer dizer que tenha- mos vivido a ordem privada em seu sentido fundamental, ao menos no sentido do modelo clássico. E ambas as coisas, que são duas carências, elevem ter decorrido ele distorções dadas na colonização e no povoamento. Há de qualquer sorte, em torno ela tendência nacional ao privatismo (o gigantismo de Brasília c ela burocracia nacional é outra coisa), algumas outras observações a fazer. Vejamos por exemplo este paradoxo: um povo em que sempre foi uma cons- tante a violência privada, sob diversas formas (crimes de fim-de- semana, assassinatos, rixas, facilidade do uso ele armas, trânsito violento), e que entretanto não tem o hábito da violência pública. Não o tem em geral, sem embargo de revoluções e de sedições aqui e ali ocorrentes na história; não o tem no sentido do enfren- tamento com a milícia nem no da própria disposição revolucio- náriR (que de resto implica radicalismos e disciplinações muito especiais). Podemos evidentemente relacionar o predomínio elo sentido privado, no país- que, quem sabe, tenderá doravante a alterar- se-, com a permanência das estruturas feudais em nossa histó- ria social: ainda hoje essas estruturas continuam presentes em largas partes do território nacional. Elas não só impedem a reforma agrária, como se alongam pelos perímetros urbanos, manipulam eleições no interior e geram impunidades. O proble- ma se liga inclusive ao hábito muito brasileiro de confundir instituições com pessoas. Hábito comparável, de certa forma, ao difundido equívoco de se julgar regimes ou credos pelas pessoas que os adotam, isto é, pelo viver privado delas: descrer do fat o de alguém ser comunista por vestir-se bem, elo regime represen- tativo pela incompetência de alguns deputados, refutar a reli- gião cristã mencionando padres relapsos. Acrescente-se a isso o despreparo ou a clesinformação de certos setores, gerando visões completamente esdrúxulas elas coisas. Como no caso das pessoas
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    ]{)(j O JAIWJMI!: A l'HAÇr1 que pensam que democracia e socialismo significam uma iguali- tarização absoluta no plano privado, quando o problema da igualdade tem outro sentido (alguns parecem crer que a "demo- cratização" consiste em andarem todos de calçajeans e sandálias de borracha, de preferência os homens com barba para ninguém resultar diferente). Foi com as estruturas ainda feudais e com o sentido perso- nalista das coisas que, no Brasil, esbarrou o ideal iluminista do cidadão, oriundo da conversão do "súdito" em contribuinte e em eleitor. Um ideal cujo alcance estaria em ver em cada indivíduo sua dimensão pública. Um ideal, aliás, basicamente leigo e urbano; e ao anotar isto passamos a outra reflexão. A distinção entre vida urbana e vida rural, configurada há milênios, vigorou na antigüidade e na Idade Média. As primeiras civilizações foram (ou giraram em torno de) cidades, e o urbano em sentido específico correspondeu a um padrão qualitativo de vida ("urbanidade" e "modos urbanos"), sendo o viver no campo, ao n1enos em certos casos, considerado algo negativo ("rusticida- de", "vilão"), isto apesar do perpétuo fascínio do bosque e dos prados sobre a mente humana, e até da imagem do camponês como gente pura e ainda não corrompida. A partir do surgimento elas grandes cidades, as pessoas se educam para viver de modo "urbano" (por ou para viver na cidade). Mas no Brasil aquela distinção milenar vem sendo desfeita, sobretudo em certas áreas -o Nordeste inclusive-, onde o empobrecimento e as migrações carreiam para as cidades levas de pessoas que não têm condições ele viver adequadamente em um perímetro urbano. O problema não é propriamente ele classe, nem ele pobreza material apenas, pois numa cidade como o Rio os sambistas do começo do século já tinham comportamento urbano (como os fadistas de Lisboa ao tempo de Eça ou os tocadores ele tango em Buenos Aires antes mesmo de Gardel). Não sei até que ponto terão sido estudadas e compreendidas as razões pelas quais teria faltado ao Brasil, desde cedo, o sentido daRes pública, seja em que medida isto de fato ocorreu. Em outros países latinoamericanos a imprensa e a Universidade surgiram bastante cedo; entre nós (que entretanto tivemos ve- reanças municipais durante a colônia) estas duas coisas tarda- ram escandalosame • além do muito m arc- clero, que teria sido gerou uma deforma - ladas de uma orden: de si, na colônia, um.a "nobreza" sempre :o: (o adjetivo é de Síb""!~ teve semelhanças co Europa medieval - . histórico-social. Estas carências cultar a estruturat;M a correlação entre • política e uma elite ' Retomando po:!' faltado aos brasile· institucional) da v·!o. - possibilidade conc!"e- • .... • 1 - um pa1s cuJa popwa br adoras, a consciêr: !ativamente. Com o E.:.:! política, inclusive ec nos dezoito anos de densidade dos cleba::.e, popular. Com o golpe se fizeram diversas ~ repressão e a clesin:"'c~ debates vem enseja!: são entre as linhas _ com os sindicatos o~ lamentar e m anter ::. idéia ele revolução ora, ao conceito de "ocu._ continua pensando n Um privatismo _ leiro. Sem jardins ::::--:!! influências aclequaG.::.
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    -=:i!cam uma iguali- !>o problema da :i' e as migrações -~ não têm condições ano. O problema " ll!aterial apenas, começo do século ~:as de Lisboa ao "' e compreendidas desde cedo, o _s:<f de fato ocorreu. e a Universidade _ ;.anto tivemos ve- duas coisas tarda- & AJ.US1lO1i EXPli!UÊNCJA JJRASJLR!RA 107 ram escandalosamente. Talvez tenhamos tido, além disso, e além do muito marcado feudalismo, um excessivo predomínio do clero, que teria sido normal em outro contexto e que entre nós gerou uma deformação das hierarquias eclesiásticas, desarticu- ladas de uma ordem política correlata. O clero não tinha junto de si, na colônia, uma aristocracia verdadeira, originária. Nossa "nobreza" sempre foi uma casta de senhores rurais truculentos (o adjetivo é de Sílvio Romero), cujo poder, se no sentido formal teve semelhanças com o de toda outra nobreza - inclusive a da Europa medieval-, era totalmente distinto quanto ao significado histórico-social. Estas carências e estas deformações convergem para difi- cultar a estruturação daquilo que foi modelar na antiga Roma: a correlação entre um povo com presença contínua na vida política e uma elite (inclusive a do Senatus) séria e levada a sério. Retomando por um instante a referência ao fato de haver faltado aos brasileiros o hábito (e por assim dizer o sentido institucional) da violência pública, vale reiterar que o sentido da possibilidade concreta da luta tem com freqüência faltado. Em um p·aís cuja população vem crescendo em proporções desequili· bradaras, a consciência de povo não se tem desenvolvido corre- lativamente. Com o Estado Novo o "povo" foi um lance de retórica política, inclusive ecoando nas canções "patrióticas" dos anos 40; nos dezoito anos de duração da constituição de 1946, a pouca densidade dos debates tornou como que desnecessária a pressão popular. Com o golpe de 1964, o povo foi um conceito sobre o qual se fizeram diversas colagens, com slogans oficiais recobrindo a repressão e a desinformação. E de 1980 para cá a reabertura dos debates vem en sejando vários equívocos, inclusive com a confu- são entre as linhas ideológicas (o Pl' dividido, o PC dividido) e com os sindicatos oscilando entre ascender à representação par- lamentar e manter a atividade pedestre: de todos os modos a idéia de revolução ora está com a extrema esquerda ora dá lugar ao conceito de "ocupar espaços", enquanto a extrema direita continua pensando no putch como sempre. Um privatismo sem jardins: dir·se-ia ser este o caso brasi- leiro. Sem jardins pelo fenômeno da pobreza ou por falta de influências adequadas. Os jardins dos subúrbios das cidades do
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    108 OJ;RDIM 1.;11 1'/liÇA Centro-Sul se devem claramente a influências européias, en- quanto no Nordeste as cidades menores apresentam rudes e singelas moradias quase sem flores, como certas casas de pro- víncia da parte mais pobre de Portugal. - Somos diversos "países" - vá o recurso à ambigüidade semântica -, somos um território exageradamente extenso, e como referência espacial isto ajuda pouco a aglutinar comunida- des com senso político homogêneo. Não podemos, e é erro em que certos autores vêm incidindo, entender as estruturas sócio-polí- ticas nacionais sem levar em conta os dados do passado; nem podemos prender-nos totalmente a eles. Por isto é realmente difícil o trabalho de repensar o problema político (sócio-político) do país. E é urgente fazê-lo, obviamente, para que se formulem esquemas onde uma ordem pública complexa e flexível caiba a todos os "países" existentes no Brasil, sem destroncar-se do passado e configurando um projeto nacional adequado em termos de valores e de instituições. 15. oHo_ Regressando a;ora mos de novo no tema d~ evolução das relações verdadeiro objeto da mana, se compõe de aJ., e é com est a ressalva paradoxo veiculado por naturaleza sino que -:a::i é: obviamente "antropcl escrever isto recordo a Revoluciones: quando • elaborada, ela passa a _ teve de ser transforma veio retomando de de
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    .._,__~""""'- européias, en- ~":"e.sentarnrudes e CJE:r..as casas de pro- -.::~ à ambigüidade ____....;;a,:rrente extenso, e ~..-::inar comunida- ....s e e erro em que =::-*"'..!ttU-a s sócio-polí- ~ do passado; nem - 2~ é realmente --- sócio-político) :a ~:1e se formulem e .:":exú-el caiba a 2estroncar-se do ~ado em termos 15. 0 HOMEM: CONSTANTES EDUALIDADES Regressando agora às perspectivas mais gen éricas, pense- mos de novo no tema do homem: o homem e sua auto-imagem. A evolução das relações entre esta e aquele constitui a nosso ver o verdadeiro objeto da chamada antropologia filosófica. O que ohomem tem feito e tem sido, e o que pensa e imagina com respeito ao seu fazer e ao seu ser, eis o problem a do qual um dos tópicos estivemos abordando sob diferentes ângulos. O que consideramos como "natureza" humana, ou como realidade hu- mana, se compõe de algumas constantes que são algo h istórico - e é com esta ressalva ou esta paráfrase que podemos aceitar o paradoxo veicula do por Ortega ao dizer que "el h ombre no tiene natur aleza sino que tiene historia". Constantes históricas, isto é: obviamente "antropológicas", algo que se constata sempre ou quase sempre em todas as comunidades humanas, dentro de quadrantes e de época as mais diversas. Fora disso seria o humano uma simples abstração, e ao escrever isto recordo a advertência do autor de El Ocaso de las Revoluciones: quando uma idéia se separa do contexto onde foi elaborada, ela passa a ser uma abstração. A figura do homem teve de ser transformada em abstração, dado que cada época a veio r etomando de dentro (e por cima) dos contextos anteriores. ------------~-----~---------·__j
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    110 O JARDIME A PRAÇA Mas ela sempre constituiu correlativamente uma imagem sen- sível (se não me engano Jung escreveu que as representações fundamentais são simultaneamente idéias gerais e imagens sensíveis), sobretudo se se tem em conta o seu "forro": a noção de humano. A consciência que os homens possuem de fazer parte de uma espécie, com caracteres tais e com tal ou qual situação no mundo, é fruto (mas ao mesmo tempo condição) deste perpe- tuar-se da imagem do homem, que veio das mais velhas culturas e vem atravessando épocas e contextos. As alterações históricas se inscrevem sobre - ou dentro de - um conjunto de traços, nos quais se delineiam constâncias e inconstâncias. Nesses traços se entrevê o ser-do-homem, e aquelas alterações são correlato de uma série de paradoxos e antinomias que terminam por ser constitutivos do humano. Assim o homem se apresenta sempre colocado entre isto e aquilo: entre o passado e o futuro, entre projetos e lembranças, entre ir e voltar, entre tempo e espaço, nascer e morrer, pequeneza e grandeza, bem como entre paz e guerra, masculino e feminino, uno e múltiplo, renovação e ruína. Do mesmo modo entre a casa e o mundo, entre côncavo e convexo, entre o jardim e a praça. "Colocado", mas por si mesmo, visto que todas estas são coisas que ele mesmo p1·oduz. Deste modo o homem se reconhece em seus próprios dualismos, em seus para· doxos e suas contradições; ele toma estas coisas como demarca- ções necessárias à compreensão de si mesmo. Menciono estas dualidades constitutivas, integrantes do ser do homem (do ser c do estar), para destacar esta bipartição- de que este texto vem tratando - entre o viver privado e o viver público. O viver "consigo mesmo" (ou com os seus, como se diz), e o viver com o grupo, ou no grupo, aliás os grupos: obviamente o homem é o criador da vida social c os homens são obra dela (saiamos assim, por um pouco, da pergunta circular). Para a experiência clássica, isto é, a dos "antigos" e de até umas tantas gerações, o equihbrio entre esfera pública e esfera privada se dava mais ou menos deste modo: da famHia partici- pavam tanto a mulher como o homem, mas somente os homens participavam do "povo" e da vida pública. Poderia pensar-se, pelo fato de a mulher "governar" a casa, na expressão romana, sendo a vida militar e administrativa coisa de homens, que o lado privado é mais feminino (e o público, masculino), mas a verdade é que a família não e que em contextos ou (tem sido moda citar lhia os chefes, bem onde as mulheres f ->7 refiro ao que ficou cc co-romano e també::::J. presença o elemento equilíbrio - mesmc aparência, e as mull:. em certas ocasiões. Os igualitaris~~~ minismo" - em alg' - ensejaram a partic! ca. Só que, de certo-=. Mas voltemos :::.~ un1 nasce na casa. situação social: eis .._ pode ser hermenêut:.:::a.. Insistamos n a i: riência dos parques p .... jardins, mas alguns ria: o dos passeios aJ edificações caracter:su ticular, questionado em contraste com os- (certos historiadores pela Via Sacra)2. I. 2. Portanto ases
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    >::::!na imagem sen- a3representações : erais e imagens seu ~forro" : a noção em de fazer parte ou qual situação ~.-õi.L;...,.a-o deste perpe- mregrantes do ser e:;ta b1partição - de privado e o viver se. .s, como se diz), grupos: obviamente _en.s são obra dela - pensar-se, pelo -sãü romana, sendo c;::ens, que o lado ---~ . mas a verdade O IIOMEM: CONSTANTES E DUIILIDIIDES 111 é que a família não existiria sem o pater. Sabe-se evidentemente que em contextos outros as mulheres tiveram presença política (tem sido moela citar tribos onde o conselho das mulheres esco- lhia os chefes, bem como o caso de certos grupos germânicos, onde as mulheres faziam parte do conselho de guerra), mas me refiro ao que ficou como imagem clássica dentro elo legado gre- co-romano e também posterior. O fato é que com sua dupla presença o elemento masculino teria tido a incumbência do equilíbrio - mesmo que isso em certos casos tenha sido só aparência, e as mulheres tenham exercido influência informal em certas ocasiões. Os igualitarismos contemporâneos, trazendo consigo o "fe- minismo" - em alguns casos ligado ao próprio socialismo -, ensejaram a participação das mulheres no povo e na vida públi- ca. Só que, de certo modo, a troco da crise da família. Mas voltemos aos dualismos. Casa e "mundo" são em ver- dade espaços, são lugares onde se esLá, são planos do comprome- timento do homem consigo mesmo e com seus símbolos. Planos da ação e da linguagem, embora o termo ação caiba melhor, como bem viu Hannah Arendt, ao plano público. A linguagem de cada um nasce na casa, mas a linguagem da casa nasce de uma situação social: eis uma circularidade que pode ser dialética e pode ser hermen êutica. Insistamos na alusão ao mundo clássico. Em Roma a expe- riência dos parques públicos, apesar de certa ambigüidade (eram jardins, mas alguns eram propriedade privada do imperador) ensejou a consagração de um modelo de."lazer" que se perpetua- ria: o dos passeios ao longo de vastos jardins, vastas áreas com edificações características1 • O conceito de donws como casa par- ticular, questionado por certos autores, prevaleceu precisamente em contraste com o sentido público das áreas abertas ao passeio (certos historiadores citam o gosto de Horácio em deambular pela Via Sacra?. Portanto as estampas provindas da antigüidade assinalam dois componentes característicos: o irredutivelmente privado e o necessariamente público. 1. l.éon Homo, Nome Império,/~ ~t l'urlmnisme rlons l'nntiquité, Paris, AlLiu :1ichcl, 1071, p. 400. 2. Lc.:-ou 1Tomo, op. cit., passim.
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    112 OJARDJM EA PRAÇ1l Referimos, acima, a possível correlação entre o dualismo dimensão pública/dimensão privada e a diferença, aliás sempre meio imprecisa, entre o "objetivo" e o "subjetivo". Não é uma correlação plena, mas os dois dualismos parecem corresponder- se em parte. Toda a extensa região da subjetividade, indefinível em suas lindes mas inteligível como alusão, com seu conteúdo de imagens e de sentimentos, símbolos e representações, pode ser creditada ao lado "privado", se o tomarmos como recinto funda- mental das relações que criam a consciência. Há porém que dar-se um desconto, pois essas relações se ligam ao âmbito extra-casa, e porque neste âmbito vigoram também símbolos e representações. Para citar ainda uma vez Platão, aquela corre- lação foi uma das coisas que percebeu o autor do Timeu. Ele quis cancelar as oscilações da subjetividade (e da opinião, doxa), eliminando, para os sábios ao menos, a vida privada. Com isso resguardava a ciência e a política, resguardando a objetividade e a coisa pública. Tudo isso leva a lembrar que, para aludir à "condição" do homem não basta mencionar o seu estar no mundo (o sempre citado i'n-der-Welt sein, de Heidegger). É preciso dizer de seus enraizamentos e de suas constantes universais; da ligação dos homens a contextos e a urdiduras institucionais: família ou clã, Igreja ou Guilda, partido ou clube, empresa ou o que for. As referências que se têm como "valores sociais" c01·respondem sem dúvida à imagem que o homem tem, em cada época ou contexto, de si m esmo e da sociedade. Isto é mais ou menos evidente, mas há que ser sublinhado. Dir-se-á que aquela imagem depende muito do poder, e portanto corre por conta dos homens que dominam, mas aqui se trata de representações muito genéricas: "o homem" abrange tais e tais homens, tais e tais situações, tais e tais estimações sobre dominação e formação de imagens. Há valores sociais cuja variabilidade histórica tem que ver com as alterações ocorridas no espaço público, e também com o sentido das relações entre a vida pessoal e as instituições. Há períodos históricos em que uma estrutura político-social comple- xa, mas flexível, propicia uma vida institucional estável: foi o que ocorreu em Roma nas melhores fases do Império. o Podemos lemo- igualdade se comp"!'EI contextos históricos ceituais. Em algun.s 1 acha ligado à visão _ cita: assim quando :.. distinguir entre o _ na cabeça a conce~ noção laico-mode~ Tais problem~ O tema veio desde a político" e chegou a onde Marx tiraria ~ segundo a qual o h.. verdade o proble:ma trar as variáveis ~s- 0 que significa q~r mat erial empírico. Entret anto, a =' manos, cabe recon}r eisos. Em E l Ho11'; vago permanece, ;.,. dade". Preferiu e:e:: lei, estado, a falar de guês (como "people embora possamos e diz, toda a gente s Gabriel Mareei em - isto é, nas coleti·-! classe, Volksgeisr =- será sempre o poss~ definida. Por certo - válida: não devemcs sociologias realmen- gir o humano ao qü.e no" está também n.os Ortega exagera-·a - _
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    o dualismo ~entações, podeser - cx:mo recinto funda- te::::z>"a. Há porém que se ligam ao âmbito ta .bém símbolos e -~ à "condição" do mundo (o sempre _:::..so dizer de seus __:!.!.3: da ligação dos ,___~: família ou clã, ou o que for. As - eorrespondem sem época ou contexto, - uos evidente, mas :::.:.a rmagem depende õ.os homens que "'j)es muito genéricas: e :a.!.s situações, tais - de imagens. e:--:õrica tem que ver _-ro, e também com o a;; instituições. Há ":!co-social comple- .::mal estável: foi o O 110MEM: CONSTANTES E D UALIDADES 113 Podemos lembrar que valores como justiça, liberdade e igualdade se compreendem mais adequadamente olhando-se os contextos históricos, do que apenas revolvendo suas dobras con- ceituais. Em alguns momentos, o êxito de certas teorizações se acha ligado à visão histórico-real das coisas, explícita ou implí- cita: assim quando Locke, refutando Filmer, teve o cuidado de distinguir entre o poder paterno e o poder político, parecia ter já na cabeça a concepção racional-burguesa do espaço público, e a noção laico-moderna da especificidade da ação política. Tais problemas se referem ao tema do ser social do homem. O tema veio desde a frase famosa de Aristoteles sobre o "animal político" e chegou à noção hegeliana de sociedade burguesa, de onde Marx tiraria sua afirmação - aliás inteiramente válida - segundo a qual o homem é um conjunto de relações sociais. Na verdade o problema se encontra posto entre a tentação de regis- trar as variáveis históricas e a certeza de um núcleo invariável. O que significa que oscila entre as projeções metafísicas e o material empírico. Entretanto, a propósito da condição "social" dos seres hu- manos, cabe reconhecer que certos aspectos permanecem inde- cisos. Em El Hombre y la Gente, Ortega conseguiu, com sua maneira cheia de ziguezagues e iluminações, demonstrar quão vago permanece, inclusive nos compêndios, o conceito de "socie- dade". Preferiu ele falar de coisas mais concretas como nação, lei, estado, a falar de la gente, algo meio intraduzível em portu- guês (como "people" em inglês ou como "Leute" em alemão), embora possamos empregar a expressão em certos casos: a gente diz, toda a gente sabe. Pois Ortega, como aliás ocorreu com Gabriel Mareei em Les Hommes contre l'humain, distingue entre o homem e o humano, achando porém que o humano, em la gente, isto é, nas coletividades (algumas consagradas como nação, classe, Volhsgeist), existe sem o homem. Pois o homem, para ele, será sempre o possuidor de uma alma, e de uma concretude vital definida. Por certo exagerava, mas nos leva a uma advertência válida: não devemos abandonar o problema, pois ele existe (as sociologias realmente deformam certos conceitos), nem restrin- gir o humano ao que está nesta ou naquela dimensão. O "huma- no" está também nos entes coletivos, e com ele o "homem" - pois Ortega exagerava -, posto que o homem cria esses entes; como
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    IH O JARDIMR A PUAÇA está no indivíduo, cada indivíduo. Está no comício ena imprensa, nas modas e nas vigências (esta aliás uma expressão orteguia- na), bem como no homem que almoça em casa, na mulher que ouve rádio e no menino que apanhou resfriado. Ficou dito, acima, que toda forma de vida é um processo de equilíbrio. Pois será pertinente observar, na larga sucessão das épocas históricas, uma sucessão de buscas de equilíbrio. Nas crenças, que mesmo consagrando dominações combinam terras e céus; nos ritos, nas estruturas, nas formas de enumerar e nas de julgar, temos sempre o homem n ecessitando encontrar pontos de apoio, pautas, coordenadas. Equihbrio e desequilíbrio são - quase diria dialeticamente - componentes do viver humano, momentos do seu ser: como, no romance famoso de Chesterton, a esfera e a cruz. Parece que começa a ficar fora de moda, salvo entre espe- cialistas, aludir à história antiga; mas pensemos por um pouco na enorme.imaginação dos antigos (babilônios, persas, gregos), dividindo a noite, medindo o tempo, repartindo o orbe conhecido, povoando os céus com cavalos e outros animais, e equilibrando estas figuras todas em uma vasta hermenêutica simbológica. Neste rico imaginário, que veio até nós dentro de diversos lega- elos históricos, o equilíbrio das figuras ocorre a troco de deforma- ções que confirmam o modelo: desequilíbrios que integram e animam o jogo maior. Com estas alusões podemos dizer então que o homem, medida das coisas em algum sentido, vem sendo medido ora pela regra geral ora pelas exceções, ora por um ora por outro dos componentes dos dualismos que o compõem; mas ele deve ser medido pelo conjunLo do que tem inventado, e do que tem sofrido. Tanto o jardim como a praça, tanto a vida interior quanto os espaços externos são medida do humano. Aliás as dialéticas modernas têm também um sentido de equilíbrio: a síntese é sempre uma medida, uma convergência, de onde se parte para outras negações mas como via para novas convergências. Valorizar este aspecto, mesmo sem aderir intei- ramente ao hegelianismo (no qual cabe valorizar sobretudo a noção de aufheben), será evitar as tendências maniqueístas latentes em certas doutrinas, e impedir que conveniências par- tidário-ideológicas trunquem o processo em determinado pont o. fazem, ou._ com indica - Deste modo estampas - fixem os a à. escuro, rio ~u o seguinte: •.. dominante_ pmsagem.. figuras de lótus. Nos re.
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    ·coe na imprensa, ~-...essãoorteguia- '=O:: na mulher que é um processo de ~ga sucessão das - c!.:- equilíbrio. Nas ~ =por um pouco ':: persas, gregos), _ =~be conhecido, ~. e equilibrando ,.,_~ca simbológica. de diversos lega- irOCO de deforma- ~ que integram e ;e::1os dizer então ..:a::.::do. vem sendo -~. ora por um ora -"e o compõem; mas ..::c•en~ado, e do que -:o a Yida interior ccn.,.-eniências par- -=-~ado ponto. 16. FUNDO, PLANTA EPEDRA Pensar no "ser humano" não deve ser apenas pensar em sua figura específica, mas também nos complementos e implementes que, com o passar do tempo, se incorporaram a ela. Eles repre- sentam coisas que os homens, em grupo ou individualmente, fazem, ou coisas em que crêem: pensamos a figura do homem com indicações referentes ao tempo, às paixões, ao trabalho. Deste modo pensamo-la com armas e vestes, barcos e casas. Pensamo-la sobre paisagens ou entre paredes, com ou sem árvo- res, com ou sem instrumentos, inclusive estes instrumentos do viver que são os "móveis" da casa. Mas deixemos de lado por um momento os estereótipos das estampas - o intelectual com livros, o militar com a espada - , e fixemos a alusão à paisagem, que aqui vai entendida em sentido amplo, como o fundo sobre o qual se desenha a imagem: claro ou escuro, rio ou mar, parede urbana ou bosque rural. Quero dizer o seguinte: há em cada época uma correlação entre a concepção dominante a respeito do homem (e do mundo) e a estética de sua figura, que se representa em ligação com determinado tipo de paisagem. No caso egípcio todos recordam a combinação entre as figuras de perfil e as colunas hieráticas, com base em forma de lótus. Nos relevos assírios, a presença ele árvores perto dos heróis
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    . "' 116 OJ,RDIMEA PRAÇ; (Gilgamesh por exemplo), nivelando a solidariedade da natureza à imponência do poder. Encontramos plumas e estrelas na figura das divindades, tanto no caso de Marduk como no dos deuses aztecas. Encontramos a terra na representação dos ritos de fecundidade , e na Índia estátuas que Octávio Paz achou seme- lhantes a árvores1 • Na literatura latina diversos autores têm estudado a variação dos "lugares" utilizados pelos poetas, desde a paisagem épica e o locus horridus de certas tragédias ao locus amoenus e à paisagem idílica da poesia bucólica2 • Em Bizãncio o fundo dos quadros religiosos foi freqüente- mente dourado, e este uso passou aos ícones russos. Os pintores do Renascimento colocaram em certos quadros paisagens com- plet as - embora nem sempre muito verossímeis - , em outros apenas pedaços destinados a completar o espaço da tela: as figuras, roliças e com vestes cheias de dobras, se encaixavam organicamente sobre o fundo. No século XVIII, Watteau e Fra- gon~ard inventaram arvoredos elegantes, coerentes com esbel- tas mulheres e vagos pares perdidos nas margens dos quadros. Mas o romantismo revigorou as figuras, com cores fortes: alguns pintores apelaram para o exótico (Delacroix por exemplo), colo- cando nos quadros leões e palmeiras. Seria a percepção da expansão do Ocidente- a França com suas colônias-, ou talvez a antevisão do pluralismo étnico e geográfico que viria com o século XX. O impressionismo, que diluiu as paisagens no reti- cente c no indeciso, fez o m esmo com as figuras. O art nouveau, enchendo as figuras femininas de flores c de ornatos (penso em Mucha), foi também uma arte de portões de ferro e de escadarias vertiginosas, sempre com curvas e exotismos: a idéia era conci- liar a fantasia e o real, as grades das estações ferroviárias e os florões dos terraços. E por aí segue. Mas, para fazer prevalecer o tom pessimista, vale aludir às figuras estáticas de De Chirico, imóveis sobre espaços desolados: não seria difícil relacioná-las à lonely crowd de Riesman ou às alusões de Chaplin à desumani- zação do mundo industrial. Isto é sempre meio vago, porém válido e inteligível. 1. Conjunções e Disjunçóes, São Paulo, Perspectiva, l97!J. 2. Cf. por exemplo Hossana Mugcllcsi, l'aesaggi Latini, Plorençn, Snnsoni, l!J75. Vago porér:. bém concluir ::::1 te o curso de n e o combinação re-~ fundamentais -. (ou o cimento ~ folhas que pree.. ligível. Dentro ..... As folhas con• · espaços (e res:.a nuídas como o-r:: tal como nas e.s- jardins, tal co=.
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    fc: freqüente- "' Jspintores - - em outros da tela: as 1975. FUNDO, PLANTA E PEDRA 117 Vago porém válido, como forma de interpretar, seria tam - bém concluir mencionando o esvaziamento da paisagem, duran- te o curso de nosso século. Falei, em certa parte deste ensaio, do desaparecimento dos "reinos" animal e vegetal das representa- ções da coisa pública, após a implantação das repúblicas contem- porâneas: pois o esvaziamento da paisagem, nas cidades modernas ("florestas de cimento" etc.), será um correlato do fenômeno. Vale interrogar se o mal estar do homem neste século terá ou não relação com isto: o homem desenraizado de seus velhos contactos com a madeira e com o couro, compelido a viajar em veículos feitos de matéria estranha e com vestes de plástico, entre computadores e robôs. Em torno, a ideologia do êxito e o espírito de concorrência anestesiam as mentes, para que a an- gústia não se espalhe e as engrenagens não parem. Penso entretanto em um trinômio milenar: a pedra, a folha e o fundo - isto é, o céu remoto ou o espaço implícito. Esta combinação reúne, sobre um fundo que não interfere, dois dados fundam entais que são a cultura e a natureza. Ou seja, a pedra (ou o cimento, a cal, o ângulo pintado), posta pelo homem, e as folhas que preexistem: a combinação varia, mas é sempre inte- ligível. Dentro da floresta, ou no vale encurvado, surge a cidade. As folhas convivem com os muros, ou tentando refazer seus espaços (e restaurar a floresta primitiva), ou adaptadas e dimi- nuídas como ornamento. Assim foi sempre o convívio nas praças, tal como nas estradas - as grandes vias do passado -, ou nos jardins, tal como nos canteiros e nos nichos votivos. As folhas preexistem. A não ser no caso das ruínas, e daí o vago constran- gimento que elas causam: as folhas vêm depois, como no soneto L'oubli, de Heredia, que assim conclui L1 !erre m~tcrnelle (...) fail à chaquc priule111ps (...) au chapitenu brisC vcrdir une autrc acanthe. A intimidade do homem com a folha e com a pedra, isto é, com as plantas e com os minerais, foi sempre a base da formação de uma série de conhecimentos e de valores, em termos de relacionamento com a natureza e consigo mesmo, inclusive ao ensejar a multiplicação de formas. As formas configuram símbo-
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    • oi( -- -·....,... 118 Q,JJIRDlM E 11 PRAÇII los e orientam a articulação do espírito com a vida e com a realidade. Orientam, isto é, explicitam e tornam inteligível. No convívio com vegetais e minerais os homens criaram a medicina e inventaram as armas, vestiram-se e plantaram. Fizeram colu- nas e tetos, mediram a terra, atribuíram sacralidade aos bos- ques, levantaram altares, discutiram sobre os deuses, sobre a vida e a morte, o tempo e o espaço, o poder e as guerras. Fixemo-nos na imagem do beiral de telhado, junto ao qual oscilam folhas coniventes: a obra humana se "acrescenta" ao dado natural. Violenta-o, se abre clareiras e monta cidades; dentro destas, entretanto, recolhe de novo a natureza, reduzida, em forma de jardim. Fixemo-nos também (de novo) na estrutura das representaçõs da figura humana e de sua sobreposição ao complemento, tal como aparece nas imagens antigas e nos retra- tos modernos (uso estes termos reportando-me ao texto de Spen- gler, incluído na Decadência, sobre "o nu e o retrato"). O complemento, fundo da imagem ou do retrato, se estende, como espaço aberto (onde pode ocorrer o referimento à transcendên- cia), ou se fecha, como recinto cerrado. A figura se acha solta sobre o mundo ou ancorada em sua privacidade. Acha-se posta contra uma série de casas ou sentada em uma poltrona: dimen- são pública ou dimensão privada. No Ocidente, depois do essor das Universidades e da imagem do Doutor Fausto em seu entu- lhado gabinete, começou a fixar-se a moda de se retratarem os intelectuais contra um fundo de livros, de preferência arrumados em respeitáveis estantes. A figura humana vem sendo portanto representada em conexão com complementos plásticos que expressam sua relação com a imagem do mundo vigente em cada contexto. Isto inclui o velho sábio oriental identificado com árvores e com rios, e tam- bém o busto clássico correlato de colunas de pedra, o Fausto entre reto~tas e pergaminhos, o empertigado estadista do oito- centos, adepto da ordem, ou então o escritor de nossos dias que se faz retratar descabelado e "informal". Permanece todavia, implícita embora, a velha e inegligen- ciável idéia do homem'como microcosmos, que esteve em tantas r eferências antigas e reapareceu em Pascal, reapareceu em Lotze e em tantos mais. Ela permanece como um dado que requer sempre versões doutrinárias novas. E como o pensamento de pendormetafísicc- toda cosmologia daqueles que se ~ uma visão essen=. empírica. Com :S.S tivos, de que fal recheada de binô plexo, variável. e consciência filos:)..: tivismo e à acei: - acabam revelanc o pluralismo das - prctação do hom corrente, e que ni teoria hermenêu · to), teria sido o es: lidade de divers:. co, que é histórico~ de alguns reducio não todos - às s. a uma teorização magem do home~ contradições fec mento e a pers as essências e as autoridade podes
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    - a ndae com a ~ in.t.eligível. No _:a._.-am a m edicina ....::::.. Fizeram colu- .L.idade aos bos- 3 :!euses, sobre a -E .suerras. ~" ;unto ao qual se '"acrescenta" ao e !ronta cidades; - ::?.L~za, reduzida, ,.. ~o na estrutura sobreposição ao ~- -gas e nos retra- a: ~exto de Spen- e o retrato"). O Ee est.ende, como - à transcendên· ::1ra se acha solta · Acha-se posta poh:rona: dimen- depois do essor ,.... ~:o em seu entu- 3-e retratarem os -~~cia arrumados re~resentada em :res.5am sua relação -.o. Isto inclui o -e cem rios, e tam- :;:-e pedra, o Fausto estadista do oito- -.: ::::.ossos dias que 1relha e inegligen· es:e·e em tantas reapareceu em ~dado que r equer pensamento de - FUNDO, PLANTA E PEDRA 119 pendor metafísico tende sempre aos dualismos, os dualismos que toda cosmologia filosófica atribui ao "mundo" são correlatos daqueles que se podem atribuir ao "homem" quer por conta de uma visão essencialista quer à base de uma reflexão histórica e empírica. Com isso reiteramos a alusão aos dualismos constitu- tivos, de que falamos acima e que integram a imagem do homem, recheada de binômios e atravessada de paradoxos. O humano é certamente algo unitário, visto no tempo como constante e constatado dentro dos quadrantes do mundo através de uns tantos "denominadores comuns". E ntretanto ele é com- plexo, variável e formado de ant agonismos. À medida que a consciência filosófica se convence disso, ela deve tender ao rela- tivismo e à aceitação das diversidades, que diferem do uno mas acabam revelando-o: daí que seja perfeitamente legítimo admitir o pluralismo das interpretações, podendo-se acolher cada inter- pretação do homem (e de sua história) naquilo que enriquecer coerentemente a compreensão de seu ser. Parece-nos inclusive que uma das tarefas da filosofia, neste segundo tomo do século corrente, e que não foi entretanto cumprida (embora a chamada teoria hermenêutica tenha fornecido alguns elementos para tan- to), teria sido o esforço no sentido de entender a própria possibi- lidade de diversificação das interpretações como correlato da diversificação real do humano, refratado entre suas finitudes e fragmentado entre pendores opostos. A reconciliação do "homem moderno" com o homem genéri- co, que é histórico sendo trans-histórico, dependerá da superação de alguns reducionismos, e da recondução de certos dualismos- não todos - às sínteses positivas que lhes correspondem. As sínteses não fundem: reúnem, mantendo distinções. A diferença en tre as fissuras destrutivas e as contradições fecundas caberá a uma teorização que não seja unilateral e que ilumine a autoi- magem do homem de modo ao mesmo tempo crítico e criador. As contradições fecundas são as que cabem dentro do ser do homem como complementaridades, e ao compreendê-las veremos que algumas dualidades se tocam e se completam, conforme o mo- mento e a perspectiva : assim se tocam os começos e os fins, as causas e os efeitos, as teses e as antíteses, o sagrado e o profano, as essências e as existên cias. A liberdade pode ser disciplina, a autoridade pode ser o diálogo, o poder pode ser justiça; o público
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    120 O JiRDJME A PRAÇA e o privado se complementam. Deste modo é correto pretender que no jardim exista algo de praça, e que a praça tenha algo de· jardim.
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    OJardim e aPraça não é um estudo urbanístico como pode sugerir seu título. Trata-se de um ensaio de antropologia filosófica sobre a dimensão do público e do privado, em que o jardim e a praça funcionam como as metáforas centrais, organizadoras do texto. O autor, Nelson Saldanha, empreende uma viagem através do tempo e da história, transitando com desenvoltura ora pela Antiguidade ássica, ora pela Idade Média, ou ainda pelo mundo contemporâ· neo. As referências sociológicas, lite.rárias1 filosóficas e até mesmo cinematográficas ajudam a conduzir o leitor por esta reflexão pouco comum, cujo estilo fluido e envolvente é- ;nas palavras do próprio autor - "por vezes disciplinado pelo tratamento histórico". ISBN 85~31 4~0 163- 1 9 7 88531 401633