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Professora: Leandra Postay
Ano: 9°
NARRATIVA
Os textos narrativos
sempre fizeram parte da
humanidade:
mesmo antes da invenção da
escrita, as pessoas possuíam
o hábito de contar, oralmente,
histórias umas às outras.
As primeiras narrativas ocidentais de que
temos notícias são as NARRATIVAS ÉPICAS.
O autor grego Homero se consagrou através
das obras Ilíada e Odisseia, duas narrativas
épicas escritas aproximadamente no século VIII
a.C. As duas obras possuem grande
importância, e muitos se referem a Homero
como o pai da literatura.
As narrativas épicas, no entanto,
representam um gênero à parte, pois possuem
diversas particularidades, como o fato de serem
escritas em versos.
Novelas, romances, contos, crônicas,
fábulas, lendas, apólogos e parábolas são
exemplos de textos narrativos.
Elementos da narrativa
• Tempo
• Espaço
• Narrador
• Personagens
• Enredo
• Clímax
• Desfecho
Novela: é um tipo de narrativa menos longa que o Romance,
possui apenas um núcleo, ou em outras palavras, a narrativa
acompanha a trajetória de apenas uma personagem. Em
comparação ao Romance, se utiliza de menos recursos
narrativos e em comparação ao Conto tem maior extensão e
uma quantidade maior de personagens.
Romance: em geral é um tipo de texto que possui um núcleo
principal, mas não possui apenas um núcleo. Outras tramas vão
se desenrolando ao longo do tempo em que a trama principal
acontece. O Romance se subdivide em diversos outros
tipos: romance policial, romance romântico etc. É um texto
longo, tanto na quantidade de acontecimentos narrados quanto
no tempo em que se desenrola o enredo.
Conto: é uma narrativa curta. O tempo em que se passa é
reduzido e contém poucas personagens. É o relato de uma
situação que pode acontecer na vida das personagens. Pode ter
um caráter real ou fantástico da mesma forma que o tempo pode
ser cronológico ou psicológico.
Crônica: por vezes é confundida com o conto. A diferença
básica entre os dois é que a crônica narra fatos do dia a dia,
relata o cotidiano das pessoas. A crônica também se utiliza
da ironia e às vezes até do sarcasmo. Não necessariamente
precisa se passar em um intervalo de tempo. Quando o tempo é
utilizado, é um tempo curto, de minutos ou horas, normalmente.
BLEFES
Crônica de Luís Fernando Veríssimo
Ninguém conhece a alma humana melhor do que um jogador de
pôquer. A sua e a do próximo.
Numa mesa de pôquer o homem chega ao pior e ao melhor de si
mesmo, e vai da euforia ao ódio numa rodada. Mas sempre como se nada
estivesse acontecendo. Os americanos falam do poker face, a cara de
quem consegue apostar tendo um Royal Straight Flush ou nada na mão
com a mesma impassividade, embora a lava esteja turbilhonando dentro.
Porque sabe que está rodeado de fingidos, o jogador de pôquer deve tentar
distinguir quem tem jogo de quem não tem e está blefando por um tremor
na pálpebra, por um tique na orelha. Ou ultrapassando a fachada e
mergulhando na alma do outro. Não se trata de adivinhar o caráter. Não é
uma questão de caráter. O blefe é um lance tão legítimo quanto qualquer
outro no pôquer. Os puros são até melhores blefadores, pois só quem não
tem culpa pode sustentar um poker face perfeito sob o escrutínio hostil da
mesa. Há quem diga que ganhar com um blefe supõe ganhar com boas
cartas e que é no blefe que o pôquer deixa de ser um jogo de azar, e
portanto de acaso, e se torna um jogo de talento.
Já fora do pôquer o blefe perde sua respeitabilidade. É apenas
sinônimo de engodo, geralmente aplicado a pessoas que não eram o
que pareciam ou fingiam ser. A história dos presidentes do Brasil
desde Jânio tem sido uma sucessão de blefes. Jango também foi um
blefe, na medida em que aparentava ter um poder que não tinha. O
golpe de 64 foi um blefe para quem acreditou nele. Um blefe
involuntário. Sarney não foi um blefe completo porque ninguém
esperava que ele fosse muito diferente. Collor foi um blefe deliberado
que manteve a versão política do poker face, que é uma cara-de-pau
sustentada mesmo sob a ameaça do ridículo.
E chegamos à socialdemocracia brasileira no poder, que pode
até estar agradando a muita gente, mas é outro blefe em relação às
expectativas que criou e ao que podia ter sido. Ou talvez esse blefe
tenha uma história antiga, e a gente é que não tinha notado.
Fábula: é semelhante a um conto em sua extensão e estrutura
narrativa. O diferencial se dá, principalmente, no objetivo do texto,
que é o de dar algum ensinamento, uma moral. Outra diferença é
que as personagens são animais, mas com características de
comportamento e socialização semelhantes às dos seres humanos.
Lenda: é uma história fictícia a respeito de personagens ou lugares
reais, sendo assim, a realidade dos fatos e a fantasia estão
diretamente ligadas. A lenda é sustentada por meio da oralidade,
torna-se conhecida e só depois é registrada através da escrita. O
autor, portanto é o tempo, o povo e a cultura. Normalmente, fala de
personagens conhecidas, santas ou revolucionárias.
Apólogo: é semelhante à fábula, mas pode se utilizar das mais
diversas e alegóricas personagens: animadas ou inanimadas, reais
ou fantásticas, humanas ou não. Ilustra também uma lição de
sabedoria.
“Você é um Rato,” ela disse, “e eu sou por
natureza inimiga dos Ratos. Cada Rato
que pego, evidentemente, me serve de
jantar, essa é a lei”.
“Mas, a senhora veja bem, eu
definitivamente, não sou um Rato!”,
tentou se explicar o infeliz Morcego. “Veja
minhas asas. Você já viu um Rato que é
capaz de voar? Claro que sou apenas um
tipo de pássaro, de uma variedade,
podemos afirmar, um tanto exótica. Por
favor me deixe ir embora!”.
O MORCEGO E A DONINHA
FÁBULAS DE ESOPO
Um Morcego desajeitado caiu acidentalmente no ninho de uma
Doninha, que, com um bote certeiro, o capturou.
Atemorizado, o Morcego pediu que esta lhe poupasse a vida, mas
a Doninha não queria lhe dar ouvidos.
A Doninha, olhando melhor para sua vítima, concordou
que ele não era um Rato e o deixou ir embora. Mas,
alguns dias depois, o mesmo atrapalhado Morcego,
cegamente, caiu outra vez no ninho de outra Doninha.
Ocorre que essa Doninha era inimiga declarada de
todos os pássaros, e logo que o tinha em suas garras,
preparou-se para abocanhá-lo.
“Você é um pássaro,” ela disse, “por isso mesmo o
comerei!”.
“O que?”, exclamou o Morcego, “Eu, um pássaro! Isso
é quase um insulto. Todos os pássaros possuem
penas! Cadê minhas penas, você é capaz de vê-las?
Claro que não sou nada além de um simples Rato.
Tenho até um lema que é: abaixo todos os Gatos!”.
E o Morcego teve sua vida poupada pela segunda vez.
UM APÓLOGO
Machado de Assis
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda
enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que
está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me
der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha.
Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o
ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa
ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você
ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um
pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante,
puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e
mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel
subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o
trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da
baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma
baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela.
Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da
linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam
andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas,
entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para
dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não
repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui
entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era
logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não
está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava
resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de
costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo
o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda
nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a
ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum
ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava
de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando,
acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da
baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar
com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da
costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e
não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para
ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha
de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém.
Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me
disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha
ordinária!
Parábola: é a versão da fábula com personagens humanas. O
objetivo é o mesmo, o de ensinar algo. Para isso são utilizadas
situações do dia a dia das pessoas.
Adaptado de http://www.infoescola.com/redacao/tipos-de-textos-narrativos/
O MONGE MORDIDO
Parábola
Um monge e seus discípulos iam por uma
estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um
escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge
correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou
o bichinho na mão. Quando o trazia para fora, o
bichinho o picou e, devido à dor, o homem deixou-o cair
novamente no rio. Foi então à margem, tomou um ramo
de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela margem,
entrou no rio, colheu o escorpião e o salvou. Voltou o
monge e juntou-se aos discípulos na estrada. Eles
haviam assistido à cena e o receberam perplexos e
penalizados.
— Mestre, deve estar muito doente! Por que foi
salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse!
Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua
ajuda, picou a mão que o salvara! Não merecia sua
compaixão!
O monge ouviu tranquilamente os comentários e
respondeu:
— Ele agiu conforme sua natureza, e eu de
acordo com a minha.
Um texto narrativo é marcado pela FICÇÃO e pela
VEROSSIMILHANÇA:
ve·ros·sí·mil
(latim verisimilis, -e)
1. Que tem aparência de verdade.
2. Semelhante à verdade. = PLAUSÍVEL, PROVÁVEL
Fonte: http://www.priberam.pt/dlpo/Veross%C3%ADmil
ve·ros·si·mi·lhan·ça
(.verossímil + h + -
ança, por analogia com semelhança)
substantivo feminino
Qualidade de verossimilhante
Um texto deve ser verossímil em seu próprio contexto, não
em relação à realidade. Assim, é verossímil que em uma narrativa
de ficção científica robôs tentem dominar a Terra, mas não é
verossímil que o mesmo aconteça no conto da Branca de Neve,
por exemplo.
Vitor e seu irmão
Um conto de Luis Fernando Verissimo
Não era prevenção. A professora tinha o cuidado de tratar todos os
seus alunos da mesma maneira. Pelo menos, se esforçava para isto. Mas, com
o Vitor, ela sempre estava com um pé atrás. O Vitinho era um caso à parte.
- Qual é a população do Brasil?
Um aluno levantou a mão e ler a resposta que estava no livro.
- Cento e vinte milhões.
O Vitor levantou a mão. A professora sentiu um vazio na barriga. Lá
vinha ele.
- O que é, Vitinho?
- Cento e vinte e um milhões.
- Por que, Vitinho?
- Minha mãe teve um filho esta semana.
Uma risadinha correu pela sala, mas o Vitor ficou sério. Estava sempre
sério.
- Quantos filhos a sua mãe teve, Vitor?
- Até agora?
- Não, desta vez.
- Um. Mas dos grandes.
Outra risadinha, como marola na superfície de um lago.
- Então não são cento e vinte e um milhões. São cento de vinte
milhões e um.
E a professora escreveu o número no quadro negro. Depois apontou
para o um no fim do número e disse:
- Este aqui é o seu irmãozinho, Vitor.
Depois, antes mesmo do Vitor falar, ela se deu conta de como aquele
um parecia solitário, no fim de tantos zeros.
- Coitadinho do meu ermão.
- Irmão, Vitor. E é claro que este número não é exato. Tem gente
nascendo e morrendo a todo momento....
- Lá no hospital tava cheio de crianças. Será que já contaram?
- Não sei, Vitor, eu...
- Bota mais uns dois ou três pra acompanhá meu ermão, tia.
Ela teve que rir junto como os outros.
- Você, hein, Vitinho? Com você eu tenho que ficar sempre com um pé
atrás.
- Cuidado pra não caí pra frente, tia.
- Chega, Vitor!
Outro caso era o da Alicinha, que se espantava com tudo. Era só a
professora dizer, por exemplo, que a capital do Brasil era Brasília que a
Alicinha arregalava os olhos e exclamava:
- Brasília?!
- É, Alice. Por quê?
- Nada.
Depois ficava com aquela cara de que só ela era certa no mundo de
loucos, onde se viu a capital do Brasil ser Brasília, mas era melhor deixar pra
lá.
Um dia, a professora disse que o Brasil tinha 8.000 km de costa
marinha e ficou esperando a reação da Alicinha.
Nada.
- O Brasil é banhado pelo oceano Atlântico.
- Atlântico?!
- É, Alice.
- Desde quando?
- Desde sempre, Alice.
- Eu, hein?
“Eu, hein” era mortal. “Eu, hein” era de matar, mas a professora
precisava se controlar. Entre o Vitinho e a Alicinha ainda acabaria louca.

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  • 3. Os textos narrativos sempre fizeram parte da humanidade: mesmo antes da invenção da escrita, as pessoas possuíam o hábito de contar, oralmente, histórias umas às outras.
  • 4. As primeiras narrativas ocidentais de que temos notícias são as NARRATIVAS ÉPICAS. O autor grego Homero se consagrou através das obras Ilíada e Odisseia, duas narrativas épicas escritas aproximadamente no século VIII a.C. As duas obras possuem grande importância, e muitos se referem a Homero como o pai da literatura.
  • 5. As narrativas épicas, no entanto, representam um gênero à parte, pois possuem diversas particularidades, como o fato de serem escritas em versos. Novelas, romances, contos, crônicas, fábulas, lendas, apólogos e parábolas são exemplos de textos narrativos.
  • 6. Elementos da narrativa • Tempo • Espaço • Narrador • Personagens • Enredo • Clímax • Desfecho
  • 7. Novela: é um tipo de narrativa menos longa que o Romance, possui apenas um núcleo, ou em outras palavras, a narrativa acompanha a trajetória de apenas uma personagem. Em comparação ao Romance, se utiliza de menos recursos narrativos e em comparação ao Conto tem maior extensão e uma quantidade maior de personagens. Romance: em geral é um tipo de texto que possui um núcleo principal, mas não possui apenas um núcleo. Outras tramas vão se desenrolando ao longo do tempo em que a trama principal acontece. O Romance se subdivide em diversos outros tipos: romance policial, romance romântico etc. É um texto longo, tanto na quantidade de acontecimentos narrados quanto no tempo em que se desenrola o enredo.
  • 8.
  • 9. Conto: é uma narrativa curta. O tempo em que se passa é reduzido e contém poucas personagens. É o relato de uma situação que pode acontecer na vida das personagens. Pode ter um caráter real ou fantástico da mesma forma que o tempo pode ser cronológico ou psicológico. Crônica: por vezes é confundida com o conto. A diferença básica entre os dois é que a crônica narra fatos do dia a dia, relata o cotidiano das pessoas. A crônica também se utiliza da ironia e às vezes até do sarcasmo. Não necessariamente precisa se passar em um intervalo de tempo. Quando o tempo é utilizado, é um tempo curto, de minutos ou horas, normalmente.
  • 10. BLEFES Crônica de Luís Fernando Veríssimo Ninguém conhece a alma humana melhor do que um jogador de pôquer. A sua e a do próximo. Numa mesa de pôquer o homem chega ao pior e ao melhor de si mesmo, e vai da euforia ao ódio numa rodada. Mas sempre como se nada estivesse acontecendo. Os americanos falam do poker face, a cara de quem consegue apostar tendo um Royal Straight Flush ou nada na mão com a mesma impassividade, embora a lava esteja turbilhonando dentro. Porque sabe que está rodeado de fingidos, o jogador de pôquer deve tentar distinguir quem tem jogo de quem não tem e está blefando por um tremor na pálpebra, por um tique na orelha. Ou ultrapassando a fachada e mergulhando na alma do outro. Não se trata de adivinhar o caráter. Não é uma questão de caráter. O blefe é um lance tão legítimo quanto qualquer outro no pôquer. Os puros são até melhores blefadores, pois só quem não tem culpa pode sustentar um poker face perfeito sob o escrutínio hostil da mesa. Há quem diga que ganhar com um blefe supõe ganhar com boas cartas e que é no blefe que o pôquer deixa de ser um jogo de azar, e portanto de acaso, e se torna um jogo de talento.
  • 11. Já fora do pôquer o blefe perde sua respeitabilidade. É apenas sinônimo de engodo, geralmente aplicado a pessoas que não eram o que pareciam ou fingiam ser. A história dos presidentes do Brasil desde Jânio tem sido uma sucessão de blefes. Jango também foi um blefe, na medida em que aparentava ter um poder que não tinha. O golpe de 64 foi um blefe para quem acreditou nele. Um blefe involuntário. Sarney não foi um blefe completo porque ninguém esperava que ele fosse muito diferente. Collor foi um blefe deliberado que manteve a versão política do poker face, que é uma cara-de-pau sustentada mesmo sob a ameaça do ridículo. E chegamos à socialdemocracia brasileira no poder, que pode até estar agradando a muita gente, mas é outro blefe em relação às expectativas que criou e ao que podia ter sido. Ou talvez esse blefe tenha uma história antiga, e a gente é que não tinha notado.
  • 12. Fábula: é semelhante a um conto em sua extensão e estrutura narrativa. O diferencial se dá, principalmente, no objetivo do texto, que é o de dar algum ensinamento, uma moral. Outra diferença é que as personagens são animais, mas com características de comportamento e socialização semelhantes às dos seres humanos. Lenda: é uma história fictícia a respeito de personagens ou lugares reais, sendo assim, a realidade dos fatos e a fantasia estão diretamente ligadas. A lenda é sustentada por meio da oralidade, torna-se conhecida e só depois é registrada através da escrita. O autor, portanto é o tempo, o povo e a cultura. Normalmente, fala de personagens conhecidas, santas ou revolucionárias. Apólogo: é semelhante à fábula, mas pode se utilizar das mais diversas e alegóricas personagens: animadas ou inanimadas, reais ou fantásticas, humanas ou não. Ilustra também uma lição de sabedoria.
  • 13. “Você é um Rato,” ela disse, “e eu sou por natureza inimiga dos Ratos. Cada Rato que pego, evidentemente, me serve de jantar, essa é a lei”. “Mas, a senhora veja bem, eu definitivamente, não sou um Rato!”, tentou se explicar o infeliz Morcego. “Veja minhas asas. Você já viu um Rato que é capaz de voar? Claro que sou apenas um tipo de pássaro, de uma variedade, podemos afirmar, um tanto exótica. Por favor me deixe ir embora!”. O MORCEGO E A DONINHA FÁBULAS DE ESOPO Um Morcego desajeitado caiu acidentalmente no ninho de uma Doninha, que, com um bote certeiro, o capturou. Atemorizado, o Morcego pediu que esta lhe poupasse a vida, mas a Doninha não queria lhe dar ouvidos.
  • 14. A Doninha, olhando melhor para sua vítima, concordou que ele não era um Rato e o deixou ir embora. Mas, alguns dias depois, o mesmo atrapalhado Morcego, cegamente, caiu outra vez no ninho de outra Doninha. Ocorre que essa Doninha era inimiga declarada de todos os pássaros, e logo que o tinha em suas garras, preparou-se para abocanhá-lo. “Você é um pássaro,” ela disse, “por isso mesmo o comerei!”. “O que?”, exclamou o Morcego, “Eu, um pássaro! Isso é quase um insulto. Todos os pássaros possuem penas! Cadê minhas penas, você é capaz de vê-las? Claro que não sou nada além de um simples Rato. Tenho até um lema que é: abaixo todos os Gatos!”. E o Morcego teve sua vida poupada pela segunda vez.
  • 15. UM APÓLOGO Machado de Assis Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha: — Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo? — Deixe-me, senhora. — Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça. — Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros. — Mas você é orgulhosa. — Decerto que sou. — Mas por quê? — É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
  • 16. — Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu? — Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados... — Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando... — Também os batedores vão adiante do imperador. — Você é imperador? — Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto... Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
  • 17. — Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima... A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile. Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe: — Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá. Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
  • 18. — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
  • 19. Parábola: é a versão da fábula com personagens humanas. O objetivo é o mesmo, o de ensinar algo. Para isso são utilizadas situações do dia a dia das pessoas. Adaptado de http://www.infoescola.com/redacao/tipos-de-textos-narrativos/
  • 20. O MONGE MORDIDO Parábola Um monge e seus discípulos iam por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora, o bichinho o picou e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio. Foi então à margem, tomou um ramo de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela margem, entrou no rio, colheu o escorpião e o salvou. Voltou o monge e juntou-se aos discípulos na estrada. Eles haviam assistido à cena e o receberam perplexos e penalizados. — Mestre, deve estar muito doente! Por que foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua ajuda, picou a mão que o salvara! Não merecia sua compaixão! O monge ouviu tranquilamente os comentários e respondeu: — Ele agiu conforme sua natureza, e eu de acordo com a minha.
  • 21. Um texto narrativo é marcado pela FICÇÃO e pela VEROSSIMILHANÇA: ve·ros·sí·mil (latim verisimilis, -e) 1. Que tem aparência de verdade. 2. Semelhante à verdade. = PLAUSÍVEL, PROVÁVEL Fonte: http://www.priberam.pt/dlpo/Veross%C3%ADmil ve·ros·si·mi·lhan·ça (.verossímil + h + - ança, por analogia com semelhança) substantivo feminino Qualidade de verossimilhante
  • 22. Um texto deve ser verossímil em seu próprio contexto, não em relação à realidade. Assim, é verossímil que em uma narrativa de ficção científica robôs tentem dominar a Terra, mas não é verossímil que o mesmo aconteça no conto da Branca de Neve, por exemplo.
  • 23.
  • 24. Vitor e seu irmão Um conto de Luis Fernando Verissimo Não era prevenção. A professora tinha o cuidado de tratar todos os seus alunos da mesma maneira. Pelo menos, se esforçava para isto. Mas, com o Vitor, ela sempre estava com um pé atrás. O Vitinho era um caso à parte. - Qual é a população do Brasil? Um aluno levantou a mão e ler a resposta que estava no livro. - Cento e vinte milhões. O Vitor levantou a mão. A professora sentiu um vazio na barriga. Lá vinha ele. - O que é, Vitinho? - Cento e vinte e um milhões. - Por que, Vitinho? - Minha mãe teve um filho esta semana. Uma risadinha correu pela sala, mas o Vitor ficou sério. Estava sempre sério.
  • 25. - Quantos filhos a sua mãe teve, Vitor? - Até agora? - Não, desta vez. - Um. Mas dos grandes. Outra risadinha, como marola na superfície de um lago. - Então não são cento e vinte e um milhões. São cento de vinte milhões e um. E a professora escreveu o número no quadro negro. Depois apontou para o um no fim do número e disse: - Este aqui é o seu irmãozinho, Vitor. Depois, antes mesmo do Vitor falar, ela se deu conta de como aquele um parecia solitário, no fim de tantos zeros. - Coitadinho do meu ermão. - Irmão, Vitor. E é claro que este número não é exato. Tem gente nascendo e morrendo a todo momento....
  • 26. - Lá no hospital tava cheio de crianças. Será que já contaram? - Não sei, Vitor, eu... - Bota mais uns dois ou três pra acompanhá meu ermão, tia. Ela teve que rir junto como os outros. - Você, hein, Vitinho? Com você eu tenho que ficar sempre com um pé atrás. - Cuidado pra não caí pra frente, tia. - Chega, Vitor!
  • 27. Outro caso era o da Alicinha, que se espantava com tudo. Era só a professora dizer, por exemplo, que a capital do Brasil era Brasília que a Alicinha arregalava os olhos e exclamava: - Brasília?! - É, Alice. Por quê? - Nada. Depois ficava com aquela cara de que só ela era certa no mundo de loucos, onde se viu a capital do Brasil ser Brasília, mas era melhor deixar pra lá. Um dia, a professora disse que o Brasil tinha 8.000 km de costa marinha e ficou esperando a reação da Alicinha. Nada. - O Brasil é banhado pelo oceano Atlântico. - Atlântico?! - É, Alice. - Desde quando? - Desde sempre, Alice. - Eu, hein? “Eu, hein” era mortal. “Eu, hein” era de matar, mas a professora precisava se controlar. Entre o Vitinho e a Alicinha ainda acabaria louca.