Preconceitos na Interação
Humano-Computador
Frederick van Amstel @usabilidoido
www.usabilidoido.com.br
DADIN - UTFPR
Pré-conceito PreconceitoConceito
"Competência é
um conhecimento
adquirido na
prática".
"Mulheres não são
tão competentes
quanto homens
para fazer X".
"Este homem
parece ser
competente".
(baseado em Piccolo, 2011)
Preconceito é um conceito
falacioso que justifica relações
de opressão na sociedade.
OPRESSORES
grupo social
historicamente
privilegiado
OPRIMIDOS
grupo social
historicamente
desprivilegiado
desumanização
preconceito
re-humanização
re-conceitualização
Opressão
(baseado em Freire, 1974)
USUÁRIOS
pessoas que não sabem
como computadores
funcionam
Pode o computador oprimir?
(baseado na literatura hegemônica de IHC)
COMPUTADORES
sistemas mal projetados
que não explicam seu
funcionamento
OPRESSORES
grupo social
historicamente
privilegiado
OPRIMIDOS
grupo social
historicamente
desprivilegiado
prescrição
controle
vigilância
subversão
crítica
criptografia
Opressão através do computador
(baseado em Gonzatto e Van Amstel, 2017)
Uma análise histórica crítica
identificou seis preconceitos que
aparecem na Interação Humano
Computador (IHC).
Origem social
Sentidos implícitos Efeitos pragmáticos
(Van Amstel, 2017)
1.Desumanização do computador
Conceito: computador é uma pessoa negra que faz cálculos e
trabalha em condições desumanas.
Cena de Estrelas Além do Tempo (2016)
Pré-conceito: a máquina de computar não é humana.
Preconceito: precisamos traduzir o computador para humanos.
2.Distinção entre grupos tecnológicos
Programadores são menos humanos do que outros grupos sociais
por terem dificuldades de lidar com pessoas, porém, são mais do
que humanos por conseguirem lidar com o computador.
3.Naturalização da divisão do computar
Uns
programam
Outros
usam...
4. Individualização de problemas sociais
Desenvolvedor
preguiçoso!
Usuária burra!
Qualquer problema de IHC é visto como
específico do indivíduo, sem uma relação com
os grupos humanos ao quais as pessoas
envolvidas fazem parte.
5.Normalização estatística do indivíduo
A interface é projetada para o usuário médio através de
estatísticas ou em uma série de personas através de
estereótipos culturais.
6. Redução do conhecimento ao que é
computável
A metáfora desktop representa conhecimentos do ambiente de
trabalho de escritório estadunidense que são computáveis.
Conhecimentos de outras origens culturais são excluídos.
Tais preconceitos justificam
machismo, racismo, capacitismo,
classismo, homofobia em IHC.
Assistentes de voz femininas: computador desumanizado, homens
programando mulheres, individualização do problema social, etc.
Além dessas relações de opressão,
existe uma relação específica que
concerne IHC.
PRODUTORES
grupo social que detém o
privilégio de definir o
funcionamento do
computador
USUÁRIOS
grupo social que tem a
necessidade de usar o
computador para realizar
uma atividade
proteção
simplificação
explicação
abuso
gambiarra
subversão
Usuarismo baseado em Gonzatto (2018)
Usuarismo subestima a amanualidade (Vieira Pinto, 2005)
de grupos sociais afetados por outras opressões.
Orientação
sexual
Raça
Classe
AmanualidadeGênero
Interseccionalidade
Quando uma pessoa sente que interage de maneira
feia, é porque ela faz parte de um grupo
desprivilegiado e/ou porque seus colegas fazem
parte de um grupo privilegiado.
Exemplo: a interação feia com uma balança eletrônica que
despertou a fúria de usuários do Youtube.
A estética do opressor nas interfaces faz os oprimidos se
sentirem culpados pela interação feia (Boal, 2009)
Usuarismo é uma opressão que
reduz pessoas a meros usuários,
sem história, sem corpo, sem voz e
sem direitos, mas com muitas
necessidades que podem ser
supridas pela tecnologia.
cidadão > usuário de serviço público
eleitor > usuário de redes sociais
trabalhador > usuário de plataforma
estudante > usuário de serviço educacional
paciente > usuário de serviço de saúde
deficiente > usuário de tecnologia assistiva
imigrante > usuário de aplicativo de tradução
mulher > usuário de aplicativo menstrual
gay > usuário de sistema de namoro
negro > usuário de transporte público
pobre > usuário de tecnologias de baixo custo
Substituir o termo usuário por
humano, pessoa ou utente não
acaba com a opressão
magicamente.
Se todo uso da tecnologia
envolve algum tipo de projeto,
IHC pode apoiar os projetos
dos próprios usuários.
(Gonzatto, 2018)
(Pelanda, 2019)
Design Participativo (Ehn, 1988) combate o usuarismo
apoiando projetos dos usuários.
Apesar de se inspirar em Paulo Freire (1974), o Design
Participativo não foi além do usuarismo e do classismo.
Para lutar contra todas as opressões, é necessário uma
pedagogia crítica (Van Amstel & Gonzatto, 2020).
Esse assunto está sendo discutido extensamente na Rede
Design & Opressão www.designeopressao.org (2020).
Referências bibliográficas
BOAL, Augusto. A estética do oprimido. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.
EHN, Pelle. Work-oriented design of computer artifacts. 1988. Tese de Doutorado.
Arbetslivscentrum.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1987. _. Pedagogia da
autonomia, 1974.
GONZATTO, Rodrigo Freese; VAN AMSTEL, Frederick MC. Designing oppressive and
libertarian interactions with the conscious body. In: Proceedings of the XVI Brazilian
Symposium on Human Factors in Computing Systems. 2017. p. 1-10.
GONZATTO, Rodrigo Freese et al. Usuários e produção da existência: contribuições de
Álvaro Vieira Pinto e Paulo Freire à interação humano-computador. 2018.
PELANDA, Mateus Filipe de Lima, Infradesign: reconhecendo a dimensão projetual do
trabalho invisível em projetos de interação (Monografia de Bacharelado em Design).
DADIN, UTFPR, 2019.
PICCOLO, Gustavo Martins. Educação infantil: análise da manifestação social do
preconceito na atividade principal de jogos. Educação & Sociedade, v. 32, n. 114, p.
205-221, 2011.
VAN AMSTEL, Frederick M.C. Preconceitos da interface humano-computador. Workshop
CAPA - Culturas, Alteridades e Participações em IHC. In: 16o. Simpósio Brasileiro de
Fatores Humanos em Sistemas Computacionais. Joinville, 2017.
VAN AMSTEL, Frederick MC; GONZATTO, Rodrigo Freese. The anthropophagic studio:
towards a critical pedagogy for interaction design. Digital Creativity, p. 1-25, 2020.
VIEIRA PINTO, Álvaro. O conceito de tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, v. 1, p. 794,
2005.
Obrigado!
Frederick van Amstel @usabilidoido
www.usabilidoido.com.br
DADIN - UTFPR

Preconceitos na Interação Humano-Computador

  • 1.
    Preconceitos na Interação Humano-Computador Frederickvan Amstel @usabilidoido www.usabilidoido.com.br DADIN - UTFPR
  • 2.
    Pré-conceito PreconceitoConceito "Competência é umconhecimento adquirido na prática". "Mulheres não são tão competentes quanto homens para fazer X". "Este homem parece ser competente". (baseado em Piccolo, 2011)
  • 3.
    Preconceito é umconceito falacioso que justifica relações de opressão na sociedade.
  • 4.
  • 5.
    USUÁRIOS pessoas que nãosabem como computadores funcionam Pode o computador oprimir? (baseado na literatura hegemônica de IHC) COMPUTADORES sistemas mal projetados que não explicam seu funcionamento
  • 6.
  • 7.
    Uma análise históricacrítica identificou seis preconceitos que aparecem na Interação Humano Computador (IHC). Origem social Sentidos implícitos Efeitos pragmáticos (Van Amstel, 2017)
  • 8.
    1.Desumanização do computador Conceito:computador é uma pessoa negra que faz cálculos e trabalha em condições desumanas. Cena de Estrelas Além do Tempo (2016) Pré-conceito: a máquina de computar não é humana. Preconceito: precisamos traduzir o computador para humanos.
  • 9.
    2.Distinção entre grupostecnológicos Programadores são menos humanos do que outros grupos sociais por terem dificuldades de lidar com pessoas, porém, são mais do que humanos por conseguirem lidar com o computador.
  • 10.
    3.Naturalização da divisãodo computar Uns programam Outros usam...
  • 11.
    4. Individualização deproblemas sociais Desenvolvedor preguiçoso! Usuária burra! Qualquer problema de IHC é visto como específico do indivíduo, sem uma relação com os grupos humanos ao quais as pessoas envolvidas fazem parte.
  • 12.
    5.Normalização estatística doindivíduo A interface é projetada para o usuário médio através de estatísticas ou em uma série de personas através de estereótipos culturais.
  • 13.
    6. Redução doconhecimento ao que é computável A metáfora desktop representa conhecimentos do ambiente de trabalho de escritório estadunidense que são computáveis. Conhecimentos de outras origens culturais são excluídos.
  • 14.
    Tais preconceitos justificam machismo,racismo, capacitismo, classismo, homofobia em IHC.
  • 15.
    Assistentes de vozfemininas: computador desumanizado, homens programando mulheres, individualização do problema social, etc.
  • 16.
    Além dessas relaçõesde opressão, existe uma relação específica que concerne IHC.
  • 17.
    PRODUTORES grupo social quedetém o privilégio de definir o funcionamento do computador USUÁRIOS grupo social que tem a necessidade de usar o computador para realizar uma atividade proteção simplificação explicação abuso gambiarra subversão Usuarismo baseado em Gonzatto (2018)
  • 18.
    Usuarismo subestima aamanualidade (Vieira Pinto, 2005) de grupos sociais afetados por outras opressões. Orientação sexual Raça Classe AmanualidadeGênero Interseccionalidade
  • 19.
    Quando uma pessoasente que interage de maneira feia, é porque ela faz parte de um grupo desprivilegiado e/ou porque seus colegas fazem parte de um grupo privilegiado.
  • 20.
    Exemplo: a interaçãofeia com uma balança eletrônica que despertou a fúria de usuários do Youtube.
  • 21.
    A estética doopressor nas interfaces faz os oprimidos se sentirem culpados pela interação feia (Boal, 2009)
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    Usuarismo é umaopressão que reduz pessoas a meros usuários, sem história, sem corpo, sem voz e sem direitos, mas com muitas necessidades que podem ser supridas pela tecnologia.
  • 23.
    cidadão > usuáriode serviço público eleitor > usuário de redes sociais trabalhador > usuário de plataforma estudante > usuário de serviço educacional paciente > usuário de serviço de saúde deficiente > usuário de tecnologia assistiva imigrante > usuário de aplicativo de tradução mulher > usuário de aplicativo menstrual gay > usuário de sistema de namoro negro > usuário de transporte público pobre > usuário de tecnologias de baixo custo
  • 24.
    Substituir o termousuário por humano, pessoa ou utente não acaba com a opressão magicamente.
  • 25.
    Se todo usoda tecnologia envolve algum tipo de projeto, IHC pode apoiar os projetos dos próprios usuários. (Gonzatto, 2018) (Pelanda, 2019)
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    Design Participativo (Ehn,1988) combate o usuarismo apoiando projetos dos usuários.
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    Apesar de seinspirar em Paulo Freire (1974), o Design Participativo não foi além do usuarismo e do classismo.
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    Para lutar contratodas as opressões, é necessário uma pedagogia crítica (Van Amstel & Gonzatto, 2020).
  • 29.
    Esse assunto estásendo discutido extensamente na Rede Design & Opressão www.designeopressao.org (2020).
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    Referências bibliográficas BOAL, Augusto.A estética do oprimido. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. EHN, Pelle. Work-oriented design of computer artifacts. 1988. Tese de Doutorado. Arbetslivscentrum. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1987. _. Pedagogia da autonomia, 1974. GONZATTO, Rodrigo Freese; VAN AMSTEL, Frederick MC. Designing oppressive and libertarian interactions with the conscious body. In: Proceedings of the XVI Brazilian Symposium on Human Factors in Computing Systems. 2017. p. 1-10. GONZATTO, Rodrigo Freese et al. Usuários e produção da existência: contribuições de Álvaro Vieira Pinto e Paulo Freire à interação humano-computador. 2018. PELANDA, Mateus Filipe de Lima, Infradesign: reconhecendo a dimensão projetual do trabalho invisível em projetos de interação (Monografia de Bacharelado em Design). DADIN, UTFPR, 2019. PICCOLO, Gustavo Martins. Educação infantil: análise da manifestação social do preconceito na atividade principal de jogos. Educação & Sociedade, v. 32, n. 114, p. 205-221, 2011. VAN AMSTEL, Frederick M.C. Preconceitos da interface humano-computador. Workshop CAPA - Culturas, Alteridades e Participações em IHC. In: 16o. Simpósio Brasileiro de Fatores Humanos em Sistemas Computacionais. Joinville, 2017. VAN AMSTEL, Frederick MC; GONZATTO, Rodrigo Freese. The anthropophagic studio: towards a critical pedagogy for interaction design. Digital Creativity, p. 1-25, 2020. VIEIRA PINTO, Álvaro. O conceito de tecnologia. Rio de Janeiro: Contraponto, v. 1, p. 794, 2005.
  • 31.
    Obrigado! Frederick van Amstel@usabilidoido www.usabilidoido.com.br DADIN - UTFPR