Teatro do Oprimido no
Design de Interação
Frederick van Amstel @usabilidoido
DADIN - UTFPR
www.usabilidoido.com.br
Design de Interação herdou a preocupação com a estética
formal e funcional do Design de Produto e Gráfico.
Existe, porém, um novo tipo específico de estética no design de
interação que tem relação com o tempo (Löwgren, 2009).
É uma estética que, como o teatro, depende de uma
performance emergente (Van Amstel, 2015).
Os designers de interação criam roteiros com algumas ações
possíveis e outras impossíveis (Laurel, 2014).
Porém, nesse tipo de performance, o ator não é obrigado a
seguir o roteiro.
Os atores também podem criar seus próprios roteiros e,
consequentemente, estéticas da interação.
Por traz de toda estética, há uma
ética implícita, ou seja, um modo
de viver em sociedade.
Animojis permitem expressar emoções para outras pessoas
sem mostrar o rosto.
Esse tipo de interação já existia há séculos, por exemplo,
no carnaval de Veneza.
O gosto por certas interações
reflete a moral do grupo social.
O uso de certos emojis está correlacionado com identidades de
gênero e racial (Barbieri e Camacho-Collados, 2018).
A moral escondida atrás do
gosto faz a ética parecer uma
questão meramente individual.
Escolhas individualizadas geram exclusões coletivas de pessoas
negras, asiáticas, LGBT e outros grupos oprimidos.
A estética da interação pode,
portanto, esconder, reafirmar
e manter opressões entre
grupos sociais.
Grupos social
privilegiado
(opressores)
Grupos social
desprivilegiado
(oprimidos)
subestimação
diminuição
exclusão
negação
reação
crítica
resistência
conscientização
Relação de opressão
baseado em Paulo Freire (1969)
Quando uma pessoa sente que interage de maneira
“feia”, é porque ela faz parte de um grupo
desprivilegiado e/ou porque seus colegas fazem
parte de um grupo privilegiado.
Exemplo: a interação “feia" com uma balança eletrônica
que despertou a fúria de usuários do Youtube.
A estética da interação pode
ser considerada, neste caso,
uma estética do opressor.
A estética do opressor persuade os oprimidos a fazerem o que
ele não querem fazer através de dark patterns.
A estética do opressor faz os oprimidos se sentirem
desconfortáveis com a imposição de padrões de beleza.
A estética do opressor faz os oprimidos se sentirem culpados
pela relação de opressão…
…porque a opressão é só uma questão de opinião.
A estética do opressor tenta evitar que o oprimido pense sobre
a relação de opressão.
Usuarismo é uma opressão que
reduz pessoas a meros usuários,
sem história, sem corpo, sem voz
e sem direitos, mas com muitas
necessidades que podem ser
supridas pela tecnologia.
cidadão > usuário de serviço público
eleitor > usuário de redes sociais
trabalhador > usuário de plataforma
estudante > usuário de serviço educacional
paciente > usuário de serviço de saúde
deficiente > usuário de tecnologia assistiva
imigrante > usuário de aplicativo de tradução
mulher > usuário de aplicativo menstrual
gay > usuário de sistema de namoro
negro > usuário de transporte público
pobre > usuário de tecnologias de baixo custo
“Usuários […] representa um grupo
oprimido […] que se encontram
alienados dos meios, técnicas, condições
e saberes necessários para a produção,
para si, de suas próprias existências.”
Rodrigo Gonzatto (2018)
Usuário é tratado ora como parte de um sistema, ora como
parte de um ser humano, mas raramente como um corpo inteiro.
O corpo inteiro é normalmente incluído como objeto e não como
sujeito do processo de design (Gonzatto e Van Amstel, 2017).
A estética do oprimido é uma proposta que reconhece qualquer
corpo humano como sujeito criador de arte (Boal, 2009).
A beleza na estética do oprimido surge da verdade que ela
exprime, incluindo suas contradições (CTO).
“No teatro, tudo é
verdade. Até a mentira.”
Augusto Boal
Para que a estética da
interação seja uma estética do
oprimido, é preciso reconhecer e
incluir os oprimidos na
produção de interações.
UX para Minas Pretas capacita e criar oportunidades para
mulheres negras na profissão de design.
Pedagogias Críticas permitem formar designers com consciência
crítica, algo extremamente necessário (ENADE 2018).
A Caminhada dos Privilégios Digitais é uma maneira de
conscientizar estudantes de seus privilégios.
Design para a Inovação Social é uma maneira de estudantes
compartilharem seus privilégios (Rafaela Eleutério, 2019).
Design Livre é uma filosofia que combate o usuarismo,
legitimando o projeto feito pelo uso.
Manifesto Design Dissenso (2019) é uma reflexão crítica dos
estudantes de Design da UTFPR sobre a profissão.
Teatro do Oprimido
• Desenvolvido no Teatro Arena entre os anos 1960
e 1970
• Ao invés de representar peças clássicas que nada
tinham a ver com o contexto brasileiro, a proposta
era representar dramas cotidianos que a população
oprimida vivia
• A ditadura brasileira perseguiu, prendeu e torturou
Augusto Boal, seu principal criador
• Boal foi exilado em 1971 e retornou ao Brasil em
1984 para fundar o Centro de Teatro do Oprimido
Meu Caro Amigo (1976) é uma carta musica enviada por Chico
Buarque a Augusto Boal durante o exílio.
O Teatro do Oprimido se tornou um conjunto de técnicas para
organizar ações sociais concretas e continuadas.
Teatro do Oprimido Tecnológico desenvolve perspectivas críticas
sobre o uso da tecnologia no cotidiano.
Anunciante
Feed com notícias
emocionantes
Usuário frustrado
Teatro Projetual é uma nova técnica de Teatro do Oprimido que
usa o corpo inteiro para projetar tecnologias libertárias.
Escrotiã é um projeto de Design Prospectivo sobre igualdade de
gênero na moda (Maceira et al 2019).
“Se tentar alcançar essa sociedade é
uma utopia, não importa: avançar em
sua direção não é utópico, é opção
ética. Se as utopias não se alcançam
nunca porque sempre haverá outra
mais distante, não importa:
caminhemos na sua direção.”
Augusto Boal (2009)
Referências bibliográficas
AMSTEL, Frederick Marinus Constant. Expansive design: Designing with contradictions.
University of Twente, 2015.
BARBIERI, Francesco; CAMACHO-COLLADOS, Jose. How gender and skin tone modifiers
affect emoji semantics in twitter. In: Proceedings of the Seventh Joint Conference on
Lexical and Computational Semantics; 2018 Jun 5-6; New Orleans, LA, 2018.
BOAL, Augusto. A estética do oprimido. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.
BOURDIEU, Pierre. A distinção. São Paulo: Edusp, 2007.
FREIRE, P. Pedagogy of the Oppressed (London: Penguin). 1969.
GONZATTO, Rodrigo Freese et al. Usuários e produção da existência: contribuições de
Álvaro Vieira Pinto e Paulo Freire à interação humano-computador. 2018.
GONZATTO, Rodrigo Freese; VAN AMSTEL, Frederick. Designing oppressive and
libertarian interactions with the conscious body. In: Proceedings of the XVI Brazilian
Symposium on Human Factors in Computing Systems. ACM, 2017. p. 22.
LAUREL, Brenda. Computers as theatre. Addison-Wesley, 2014.
LÖWGREN, Jonas. Toward an articulation of interaction esthetics. New Review of
Hypermedia and Multimedia, v. 15, n. 2, p. 129-146, 2009.
Obrigado!
Frederick van Amstel @usabilidoido
DADIN - UTFPR
www.usabilidoido.com.br

Teatro do Oprimido no Design de Interação

  • 1.
    Teatro do Oprimidono Design de Interação Frederick van Amstel @usabilidoido DADIN - UTFPR www.usabilidoido.com.br
  • 2.
    Design de Interaçãoherdou a preocupação com a estética formal e funcional do Design de Produto e Gráfico.
  • 3.
    Existe, porém, umnovo tipo específico de estética no design de interação que tem relação com o tempo (Löwgren, 2009).
  • 4.
    É uma estéticaque, como o teatro, depende de uma performance emergente (Van Amstel, 2015).
  • 5.
    Os designers deinteração criam roteiros com algumas ações possíveis e outras impossíveis (Laurel, 2014).
  • 6.
    Porém, nesse tipode performance, o ator não é obrigado a seguir o roteiro.
  • 7.
    Os atores tambémpodem criar seus próprios roteiros e, consequentemente, estéticas da interação.
  • 8.
    Por traz detoda estética, há uma ética implícita, ou seja, um modo de viver em sociedade.
  • 9.
    Animojis permitem expressaremoções para outras pessoas sem mostrar o rosto.
  • 10.
    Esse tipo deinteração já existia há séculos, por exemplo, no carnaval de Veneza.
  • 11.
    O gosto porcertas interações reflete a moral do grupo social.
  • 12.
    O uso decertos emojis está correlacionado com identidades de gênero e racial (Barbieri e Camacho-Collados, 2018).
  • 13.
    A moral escondidaatrás do gosto faz a ética parecer uma questão meramente individual.
  • 14.
    Escolhas individualizadas geramexclusões coletivas de pessoas negras, asiáticas, LGBT e outros grupos oprimidos.
  • 15.
    A estética dainteração pode, portanto, esconder, reafirmar e manter opressões entre grupos sociais.
  • 16.
  • 17.
    Quando uma pessoasente que interage de maneira “feia”, é porque ela faz parte de um grupo desprivilegiado e/ou porque seus colegas fazem parte de um grupo privilegiado.
  • 18.
    Exemplo: a interação“feia" com uma balança eletrônica que despertou a fúria de usuários do Youtube.
  • 19.
    A estética dainteração pode ser considerada, neste caso, uma estética do opressor.
  • 20.
    A estética doopressor persuade os oprimidos a fazerem o que ele não querem fazer através de dark patterns.
  • 21.
    A estética doopressor faz os oprimidos se sentirem desconfortáveis com a imposição de padrões de beleza.
  • 22.
    A estética doopressor faz os oprimidos se sentirem culpados pela relação de opressão…
  • 23.
    …porque a opressãoé só uma questão de opinião.
  • 24.
    A estética doopressor tenta evitar que o oprimido pense sobre a relação de opressão.
  • 25.
    Usuarismo é umaopressão que reduz pessoas a meros usuários, sem história, sem corpo, sem voz e sem direitos, mas com muitas necessidades que podem ser supridas pela tecnologia.
  • 26.
    cidadão > usuáriode serviço público eleitor > usuário de redes sociais trabalhador > usuário de plataforma estudante > usuário de serviço educacional paciente > usuário de serviço de saúde deficiente > usuário de tecnologia assistiva imigrante > usuário de aplicativo de tradução mulher > usuário de aplicativo menstrual gay > usuário de sistema de namoro negro > usuário de transporte público pobre > usuário de tecnologias de baixo custo
  • 27.
    “Usuários […] representaum grupo oprimido […] que se encontram alienados dos meios, técnicas, condições e saberes necessários para a produção, para si, de suas próprias existências.” Rodrigo Gonzatto (2018)
  • 28.
    Usuário é tratadoora como parte de um sistema, ora como parte de um ser humano, mas raramente como um corpo inteiro.
  • 29.
    O corpo inteiroé normalmente incluído como objeto e não como sujeito do processo de design (Gonzatto e Van Amstel, 2017).
  • 30.
    A estética dooprimido é uma proposta que reconhece qualquer corpo humano como sujeito criador de arte (Boal, 2009).
  • 31.
    A beleza naestética do oprimido surge da verdade que ela exprime, incluindo suas contradições (CTO).
  • 32.
    “No teatro, tudoé verdade. Até a mentira.” Augusto Boal
  • 33.
    Para que aestética da interação seja uma estética do oprimido, é preciso reconhecer e incluir os oprimidos na produção de interações.
  • 34.
    UX para MinasPretas capacita e criar oportunidades para mulheres negras na profissão de design.
  • 35.
    Pedagogias Críticas permitemformar designers com consciência crítica, algo extremamente necessário (ENADE 2018).
  • 36.
    A Caminhada dosPrivilégios Digitais é uma maneira de conscientizar estudantes de seus privilégios.
  • 37.
    Design para aInovação Social é uma maneira de estudantes compartilharem seus privilégios (Rafaela Eleutério, 2019).
  • 38.
    Design Livre éuma filosofia que combate o usuarismo, legitimando o projeto feito pelo uso.
  • 39.
    Manifesto Design Dissenso(2019) é uma reflexão crítica dos estudantes de Design da UTFPR sobre a profissão.
  • 40.
    Teatro do Oprimido •Desenvolvido no Teatro Arena entre os anos 1960 e 1970 • Ao invés de representar peças clássicas que nada tinham a ver com o contexto brasileiro, a proposta era representar dramas cotidianos que a população oprimida vivia • A ditadura brasileira perseguiu, prendeu e torturou Augusto Boal, seu principal criador • Boal foi exilado em 1971 e retornou ao Brasil em 1984 para fundar o Centro de Teatro do Oprimido
  • 41.
    Meu Caro Amigo(1976) é uma carta musica enviada por Chico Buarque a Augusto Boal durante o exílio.
  • 42.
    O Teatro doOprimido se tornou um conjunto de técnicas para organizar ações sociais concretas e continuadas.
  • 43.
    Teatro do OprimidoTecnológico desenvolve perspectivas críticas sobre o uso da tecnologia no cotidiano. Anunciante Feed com notícias emocionantes Usuário frustrado
  • 44.
    Teatro Projetual éuma nova técnica de Teatro do Oprimido que usa o corpo inteiro para projetar tecnologias libertárias.
  • 45.
    Escrotiã é umprojeto de Design Prospectivo sobre igualdade de gênero na moda (Maceira et al 2019).
  • 46.
    “Se tentar alcançaressa sociedade é uma utopia, não importa: avançar em sua direção não é utópico, é opção ética. Se as utopias não se alcançam nunca porque sempre haverá outra mais distante, não importa: caminhemos na sua direção.” Augusto Boal (2009)
  • 47.
    Referências bibliográficas AMSTEL, FrederickMarinus Constant. Expansive design: Designing with contradictions. University of Twente, 2015. BARBIERI, Francesco; CAMACHO-COLLADOS, Jose. How gender and skin tone modifiers affect emoji semantics in twitter. In: Proceedings of the Seventh Joint Conference on Lexical and Computational Semantics; 2018 Jun 5-6; New Orleans, LA, 2018. BOAL, Augusto. A estética do oprimido. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. BOURDIEU, Pierre. A distinção. São Paulo: Edusp, 2007. FREIRE, P. Pedagogy of the Oppressed (London: Penguin). 1969. GONZATTO, Rodrigo Freese et al. Usuários e produção da existência: contribuições de Álvaro Vieira Pinto e Paulo Freire à interação humano-computador. 2018. GONZATTO, Rodrigo Freese; VAN AMSTEL, Frederick. Designing oppressive and libertarian interactions with the conscious body. In: Proceedings of the XVI Brazilian Symposium on Human Factors in Computing Systems. ACM, 2017. p. 22. LAUREL, Brenda. Computers as theatre. Addison-Wesley, 2014. LÖWGREN, Jonas. Toward an articulation of interaction esthetics. New Review of Hypermedia and Multimedia, v. 15, n. 2, p. 129-146, 2009.
  • 48.
    Obrigado! Frederick van Amstel@usabilidoido DADIN - UTFPR www.usabilidoido.com.br