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Disciplina: O TEA na perspectiva das neurociências
Autores: M.e Carla Morales
Revisão de Conteúdos: Esp. Murillo Hochuli Castex
Revisão Ortográfica: Juliano de Paula Neitzki
Ano: 2018
Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral ou de suas
páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe da Assessoria de
Marketing da Faculdade São Braz (FSB). O não cumprimento destas solicitações poderá acarretar em
cobrança de direitos autorais.
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Carla Morales
O TEA na perspectiva das
neurociências
1ª Edição
2018
Curitiba, PR
Editora São Braz
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FICHA CATALOGRÁFICA
MORALES, Carla.
O TEA na perspectiva das neurociências / Carla Morales. – Curitiba, 2018.
54 p.
Coordenação Técnica: Marcelo Alvino da Silva.
Revisão de Conteúdos: Murillo Hochuli Castex.
Revisão Ortográfica: Juliano de Paula Neitzki.
Material didático da disciplina de O TEA na perspectiva das neurociências –
Faculdade São Braz (FSB), 2018.
ISBN 978-85-5475-322-1
4
PALAVRA DA INSTITUIÇÃO
Caro(a) aluno(a),
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Nossa faculdade está localizada em Curitiba, na Rua Cláudio Chatagnier,
nº 112, no Bairro Bacacheri, criada e credenciada pela Portaria nº 299 de 27 de
dezembro 2012, oferece cursos de Graduação, Pós-Graduação e Extensão
Universitária.
A Faculdade assume o compromisso com seus alunos, professores e
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desenvolvimento do País e de formar não somente bons profissionais, mas
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Nossos cursos são desenvolvidos por uma equipe multidisciplinar
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de dúvidas via telefone, atendimento via internet, emprego de redes sociais e
grupos de estudos o que proporciona excelente integração entre professores e
estudantes.
Bons estudos e conte sempre conosco!
Faculdade São Braz
5
Apresentação da disciplina
Ao longo dos anos, a neurociência tem contribuído significativamente para
a compreensão dos processos mentais, incluindo a cognição. O ato de aprender
ainda é um mistério e várias são as tentativas para saber como o aprendizado
pode se tornar cada vez mais significativo, em um contexto em que se pode
afirmar que o cérebro humano ainda é uma caixa de Pandora, sendo
desvendado aos poucos. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) traz para a
neurociência aspectos desafiadores, ainda a serem desvendados por meio do
estudo de como funciona o cérebro das pessoas com autismo. No intuito de
aprofundar a temática, esta disciplina se propõe a demonstrar como a
neurociência se relaciona à educação e como esses processos ajudam a
desvendar as questões ligadas à aprendizagem. Nesse sentido, será promovido
o diálogo para entender como as pessoas com TEA se desenvolvem
cognitivamente, afetivamente, emocionalmente e relacionalmente e como a
Teoria da mente pode colaborar para o entendimento desses processos.
6
Aula 1 – Sistema Nervoso Central
Apresentação da aula 1
Antes de abordar os processos que envolvem a aprendizagem, é
necessário o entendimento de que os seres humanos são dotados de um
sistema capaz de captar e decodificar as informações, gerando respostas
orgânicas, motoras e de percepção. O Sistema Nervoso Central é responsável
pela captação das sensações advindas do meio externo, ajudando também a
controlar as funções internas do nosso organismo e, como o próprio nome diz,
centralizando as informações, decodificando-as e gerando respostas específicas
para cada estímulo sofrido. Nesse sentido, o seu funcionamento é crucial para
que os indivíduos possam se relacionar com o ambiente e também no
desempenho das funções orgânicas, como o controle da batida do coração ou o
controle dos processos homeostáticos, que garantem o correto funcionamento
dos sistemas e órgãos humanos. Dessa maneira, entender a sua estrutura e
função ajudará a desvendar os processos de recepção de informações,
interpretação e elaboração de respostas, para que se possa entender a
magnitude dos processos mentais, bem como aprofundar um pouco mais o
conteúdo a respeito dos processos cognitivos, afetivo, emocional e relacional de
pessoas com TEA.
1.1 Estrutura do Sistema Nervoso Central
O Sistema Nervoso Central (SNC) é composto pela medula espinhal,
protegida pela coluna vertebral e pelo encéfalo – que se encontra protegido pela
caixa craniana.
Esse conjunto de estruturas é responsável pelas informações que nos
chegam e sua decodificação. Um dos grandes desafios da área da neurociência
é justamente o de desvendar os processos presentes no encéfalo, que é
diretamente responsável por sentimentos, ações, aprendizagem e memória.
Evolutivamente, o Sistema Nervoso Central encontrou formas de se desenvolver
proporcionalmente aos desafios encontrados pela humanidade, fazendo do
cérebro uma região muito especial. É esse sistema que garante a ação
7
comportamental da parte motora (como comer e andar) e da parte cognitiva
(como aprender e memorizar).
Anatomia do Sistema Nervoso Central
Fonte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_nervoso_central#/media/File:Central_nervous_sys
tem.svg
A parte denominada de encéfalo compreende o cérebro (formado pelo
telencéfalo e diencéfalo), o cerebelo e o tronco encefálico.
O cerebelo é responsável pela capacidade de equilíbrio e coordenação
motora e o tronco encefálico controla os batimentos cardíacos, a respiração, o
sono e a temperatura do nosso corpo.
Em termos comportamentais, o sistema nervoso atua junto às percepções
advindas do meio externo para a elaboração das respostas. Para Ferrari et al.
(2001), o comportamento é fruto de bases filogenéticas, que são aqueles
aspectos comportamentais que permitiram à espécie humana sobreviver, bem
como a base ontogenética, que são os elementos advindos da interação da
espécie humana com o meio externo. Esses comportamentos, principalmente
aqueles da base ontogenética, fazem com que o sistema nervoso acabe se
modificando em estrutura e função:
A interação sistema nervoso-ambiente resulta na organização de
comportamentos simples ou complexos, que modificam tanto o
ambiente como o próprio sistema nervoso (FERRARI et al., 2001, p.
187).
8
1.2 Encéfalo
Para Refletir
Você já parou para pensar em como bilhões de células
nervosas, por meio de suas sinapses, conseguem
estabelecer as bases do comportamento humano como o
pensamento e a linguagem, conseguindo interagir com o
ambiente na busca pela melhor resposta?
O encéfalo se origina da porção anterior do tubo neural na quarta semana,
apresentando três regiões: prosencéfalo, mesencéfalo e rombencéfalo. Na
quinta semana, o prosencéfalo se subdivide em telencéfalo e diencéfalo e o
rombencéfalo se subdivide em metencéfalo (ponte e cerebelo) e mielencéfalo
(bulbo). O encéfalo é constituído em seis partes: bulbo, ponte, cerebelo, cérebro
(telencéfalo), mesencéfalo e diencéfalo.
A região mais desenvolvida do cérebro (telencéfalo), o córtex, é
organizada em regiões com funções distintas. O córtex cerebral é a camada
externa do cérebro e sua aparência é rugosa, devido aos sulcos e giros
existentes. Graças a isso, a área cortical é bem ampla, comportando um número
expressivo de células neurais. O córtex possui divisões e estas possuem
funções distintas. Suas diferenças se devem basicamente à composição das
camadas celulares, bem como sua espessura e do número de fibras nervosas
que saem ou chegam dessas regiões (AVERSI-FERREIRA et al., 2004).
1.2.1 Estrutura anatômica do encéfalo
O encéfalo é a maior porção do cérebro, sendo dividido em dois
hemisférios; o direito e o esquerdo. Fazendo a interligação entre eles, está o
corpo caloso.
9
Partes componentes do encéfalo
Fonte: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=297213
Para Refletir
Você já parou para pensar em como a quantidade de
informações que nos chegam diariamente afetam o nosso
cérebro? Já parou para pensar na formação do neocórtex e
a sua relação com a aprendizagem?
1.2.2 Fisiologia do encéfalo
Você já parou para pensar qual seria a finalidade do encéfalo ser dividido
em dois hemisférios? Cada hemisfério vai cuidar de determinadas funções. O
hemisfério esquerdo será responsável pela linguagem e pelo raciocínio e o
hemisfério direito tem funções visuais e espaciais.
Tudo o que fazemos e percebemos passa necessariamente pela
decodificação no cérebro. Se um indivíduo resolve pegar determinado objeto,
por exemplo, o lobo frontal dará essa capacidade; por outro lado, se tem a
percepção do tamanho que esse objeto possui, será graças ao lobo parietal.
Assim, cada lobo que compõe o córtex cerebral será responsável por
determinadas funções.
10
 Lobo occipital – é responsável pela percepção visual;
 Lobo temporal – reconhecimento das percepções auditivas;
 Lobo parietal – está envolvido na integralização das percepções
sensoriais advindas da pele, dos músculos e das articulações,
além de percepções envolvidas com a dor, o tato, calor e
reconhecimento de objetos;
 Lobo frontal – está envolvido com a parte motora de precisão.
Controla a motricidade voluntária (córtex motor). Regula tanto as
ações mecânicas como decisórias para pegar determinado objeto,
por exemplo. Também está relacionado às questões da linguagem
e do pensamento.
As regiões do cérebro não se desenvolvem no mesmo ritmo. Isso porque,
na medida em que somos estimulados, o nosso cérebro irá se desenvolver.
Imagine uma criança, ela ainda não possui o seu aparato cognitivo desenvolvido,
mas o seu córtex cerebral está em franco desenvolvimento, porque as conexões
que ela faz com o meio através da visão, por exemplo, são estimuladas.
1.3 Neurônio – a célula do Sistema Nervoso
As células que compõem o Sistema Nervoso são os neurônios e a glia.
Sempre se ouviu falar da importância do neurônio como célula principal, mas,
com o desenvolvimento da neurociência, as células gliais ganham um notório
destaque. Estudos sugerem que as células gliais são responsáveis pela
formação de novos neurônios e também estão intimamente ligadas ao processo
de sinapse.
1.3.1 Estrutura de um neurônio
Basicamente, um neurônio é formado por: dendritos, corpo celular, axônio
e terminações nervosas.
11
Estrutura básica de um neurônio
Fonte: a autora
Cada um desses componentes executa uma determinada função:
 Dendritos – são estruturas que recebem os impulsos de outras
células nervosas e estímulos do meio ambiente;
 Corpo Celular – contém o núcleo e outras organelas como
Retículo Endoplasmático, lisossomos, citoesqueleto. Elas mantêm
o neurônio funcionando;
 Axônio – é um prolongamento do neurônio e tem por função a
condução dos impulsos nervosos;
 Terminações sinápticas – é a porção final do axônio e faz contato
com outras células através do botão sináptico.
1.3.2 Tipos de neurônios
O Sistema Nervoso é um dos sistemas com a maior diversidade celular
existente, isso faz dele um sistema complexo, tanto anatomicamente como
fisiologicamente. Nesse sentido, os tipos de neurônios são:
 Unipolar – não possui dendrito, tem corpo celular e axônio.
Presente em órgãos dos sentidos, músculo liso;
 Bipolar – possuem um axônio e um dendrito e também estão
ligados aos órgãos dos sentidos;
 Multipolares – um axônio é uma ramificação de dendritos
presentes no Sistema Nervoso Central.
12
Só essas diferenciações anatômicas e sua localização nos tecidos e
sistemas garantem uma versatilidade de funcionamento do Sistema Nervoso. As
células neuroglias podem ser classificadas como:
 Microglia – as células microgliais são responsáveis por
defenderem o Sistema Nervoso Central durante processos
infecciosos, lesões ou doenças degenerativas do sistema nervoso;
 Macroglia – compreendem um conjunto de células como os
astrócitos, os oligodendrócitos e os ependimócitos.
1.4 Transmissão do impulso nervoso – recepção, codificação e resposta
Em linhas gerais, o impulso nervoso é uma condução elétrica que percorre
o neurônio até os botões sinápticos, onde ocorrerá a sinapse. Se estamos
falando de condução elétrica, estamos falando de cargas positivas e negativas,
além disso, o potássio (K) e o sódio (Na) estão presentes nesse processo. Em
um neurônio em repouso, as cargas negativas estão para dentro da membrana
plasmática e as cargas positivas se encontram do lado de fora dela. Nessa
configuração, o sódio (Na+
) se concentra mais do lado de fora, sendo bombeado
para fora e o potássio (K+
) é bombeado para o lado de dentro. Esse
bombeamento é feito por meio da bomba sódio/potássio. Junto a isso, existe
uma proteína carreadora, a ATPase, que irá hidrolisar a molécula de ATP. Isso
proporcionará a geração de energia para o transporte do sódio e do potássio.
Enquanto três íons de sódio saem, dois íons de potássio entram, porém, devido
à membrana ser mais permeável ao potássio, este acaba entrando em maior
quantidade. Por isso, as cargas positivas ficam do lado de fora da membrana.
Em determinado momento, a alta quantidade das cargas eletrônicas positivas
vai fazer com que o potássio não saia. Nesse momento, o neurônio alcança o
seu potencial de repouso (-70 milivolts).
Ao contrário do potencial de repouso, a célula do neurônio poderá
desencadear o seu potencial de ação. A ocorrência de estímulos (mecânicos,
químicos ou elétricos) faz com que os canais de sódio/potássio permitam a
entrada de sódio dentro da célula; criando um cenário carregado menos
positivamente. A isso se denomina despolarização de um neurônio, responsável
13
por gerar um fluxo de corrente elétrica que poderá provocar uma onda de
despolarização ao longo do neurônio, causando o impulso nervoso. Nisso, a
membrana passa de -70 milivolts para +35 milivolts, provocando uma inversão
de carga: as cargas negativas estarão para fora da membrana e as cargas
positivas estarão para dentro da membrana. Essa despolarização percorre todo
o axônio e a cada trecho em que isso ocorre, imediatamente resulta na
repolarização, ou seja, a célula volta ao seu potencial de repouso. Os canais de
sódio se fecham e os canais de potássio se abrem, ocorrendo uma redução dos
íons positivos dentro do neurônio.
1.4.1 Sinapses
O impulso nervoso passa de um neurônio para o outro. O neurônio que
envia o impulso é denominado de neurônio pré-sináptico e o neurônio que
recebe é chamado de neurônio pós-sináptico. Entre esses dois neurônios está
a fenda sináptica. Os neurônios pré-sinápticos possuem em suas terminações,
além de muitas mitocôndrias, que irão auxiliar na questão energética, as
vesículas contendo os neurotransmissores. Essas substâncias são lançadas na
fenda e são captadas por receptores do neurônio pós-sináptico. Essa ligação faz
com que os canais de sódio de abram e o impulso nervoso aconteça. A sinapse
que não necessita de neurotransmissores, cujo potencial de ação é transmitido
de célula a célula, recebe o nome de sinapse elétrica. Já as sinapses que
dependem de substâncias químicas utilizam os neurotransmissores para fazer
com que o impulso nervoso chegue a outra célula, sendo denominadas de
sinapses químicas.
1.4.2 Recepção de informações, interpretação e elaboração de respostas
O cérebro humano se organiza anatomicamente e fisiologicamente para
conseguir processar os estímulos advindos do meio externo e também na
manutenção da homeostase orgânica. Basicamente, o cérebro capta as
informações advindas do ambiente e do corpo, as decodifica e retorna com a
resposta necessária. No caso do meio externo, esse estímulo pode ser dado pela
ação visual, ao olhar uma paisagem. O ato de perceber o ambiente fará com que
14
as partes do cérebro responsáveis pela captação dos estímulos visuais sejam
estimuladas a dar uma resposta. O mesmo acontece com relação ao
funcionamento interno do organismo, que funciona pela regulação de ações
como a secreção dos hormônios, visando a homeostase orgânica. Somado a
isso, está o desenvolvimento constante das bases cognitivas, fazendo com que
o cérebro tenha seu desenvolvimento garantido até o fim da vida.
Vocabulário
Homeostase diz respeito à condição de estabilidade da qual
o organismo necessita para realizar suas funções
adequadamente para o equilíbrio do corpo.
1.5 Aprendizagem e sistema nervoso
Quando falamos em Sistema Nervoso, é importante deixar claro qual é a
sua função. Ele capta do meio externo as informações que nos chegam e as
traduz em ações que podem gerar respostas externas, como levantar um braço
para pegar um copo, ou internas, como excretar determinada substância que irá
regular o funcionamento de um órgão qualquer. Ele comanda as ações do nosso
corpo; no campo da cognição, o cérebro desempenha função central em relação
à questão da aprendizagem. Aqui, é bom lembrar que as conexões cerebrais,
realizadas por milhares de neurônios, formam um intrincado conjunto neural,
complexo e em rede, de passagem de impulso elétrico que irá culminar em
informações.
1.5.1 Mielinização, plasticidade neural e motivação
Quando se fala em condução elétrica, é necessário entender que a
velocidade é um fator importante, gerando um tempo de ação-resposta muito
rápido. Isso é muito importante. Imagine que você sofresse um corte na mão, é
claro que a sensação de dor é imediata, arde, dói. Isso porque os tecidos
lesionados pelo corte possuem terminações nervosas indicando que o corpo
sofreu uma injúria e uma das respostas a ação do corte é a dor. Caso contrário,
15
poderíamos cortar a mão e nem sentir dor, o que seria pior, pois perderíamos
sangue sem notar.
No corpo humano existem regiões em que os impulsos elétricos serão
mais lentos e outras nas quais o impulso elétrico será mais rápido. A diferença é
que alguns neurônios possuem uma bainha, denominada de bainha de mielina
e outros neurônios não a possuem. A mielina é uma substância lipoproteica e,
quando presente, aumenta a propagação dos impulsos nervosos, estando
intimamente ligada ao processo de aprendizagem. Estudos indicam que algumas
regiões do cérebro possuem um número maior de neurônios com mielina do que
outras regiões, dependendo do que aquela região cerebral é capaz de executar.
Portanto, o processo de mielinização é importante, pois permite um aumento da
velocidade dos impulsos nervosos que, por sua vez, estão relacionados à
dinâmica cerebral.
Outro ponto importante refere-se à plasticidade neural. Por plasticidade,
entendemos que seja a capacidade de adaptação frente aos desafios. Quanto
maior sua adaptação, maior será a plasticidade e quanto menor for a adaptação,
menor será a plasticidade. Portanto, a plasticidade neural se refere à quando as
conexões neurais formadas poderão usar meios alternativos frente a um
determinado desafio, para continuar o seu processo na transmissão dos
impulsos nervosos. Para Mendes e Melo (2011), a plasticidade pode ocorrer
durante a fase de desenvolvimento, nos processos que envolvam a
aprendizagem e em processos lesionais. A plasticidade neural encaixa-se bem
para explicar os diversos níveis de reorganização que o cérebro possui durante
o crescimento de uma pessoa. Na medida em que novas capacidades
intelectuais e comportamentais vão sendo adquiridas, os neurônios se
reorganizam para atender a essa nova demanda. Com o avanço da idade, a
plasticidade neural vai diminuindo, logo, a aprendizagem já se torna mais
desafiante, pois dependerá de um esforço a mais das pessoas para aprenderem.
16
Importante
Por isso que aspectos como a prática regular de exercícios
físicos devem ser estimulados na infância, assim como outros
hábitos saudáveis. Para que isso aconteça, uma gama de
atitudes comportamentais deverá ser criada e cultivada. O
comportamento humano depende sobremaneira das condições
externas, aquelas que o meio pode ofertar, sejam elas
realizadas por meio das relações sociais e da interação com o
ambiente. Vários estudiosos do campo da cognição afirmam
que o homem é fruto da sua interação com o meio e que
também é capaz de influenciar o meio em que vive, ou seja,
essa relação estabelece mútuas mudanças, comportamentais
no ser humano e de cenário no meio externo.
O comportamento, aliado à plasticidade neural e no estabelecimento
interno de mielinização, gera uma gama de possibilidades cognitivas, que hoje
estão sendo estudadas de formas intensas. A neurobiologia traz importantes
conhecimentos, desvendando os mecanismos cerebrais e isso aponta para um
novo patamar na compreensão de como nos constituímos e de como elaboramos
nossas formas de pensamento e ação, tudo isso permeado pela aprendizagem
constante. A maturação biológica nem sempre se encontra em consonância com
a maturidade cognitiva, pois esta última depende não somente dos fatores
biológicos, mas, sobretudo, dos fatores ambientais, na rede de socialização em
que o ser humano cresce e se desenvolve.
O Sistema Nervoso Central desempenha a função primordial que é a
coordenação dos eventos externos e internos e a sua codificação para nos
relacionarmos com o ambiente e mantermos o organismo equilibrado via
homeostase.
Resumo da aula 1
Nesta aula observou-se que o Sistema Nervoso Central coordena as
informações que chegam do meio externo pelo aparato sensorial e ajudam na
regulação do organismo, promovendo a homeostase interna. Sua estrutura e
funcionamento mostram a complexidade cerebral, bem como a estrutura do
neurônio e o seu funcionamento. Verificou-se como a transmissão acontece via
neurônio e pôde-se observar a importância que esse evento tem na transmissão
17
do conhecimento, gerando a aprendizagem. Esta, por sua vez, está ligada à
maturação do Sistema Nervoso, se munindo de estruturas como as células
nervosas mielinizadas, que ajudam no aumento do fluxo de informações, ou até
mesmo a questão da plasticidade neural, que mostra claramente que o cérebro
pode se adaptar às situações, criando novos caminhos na condução dos
impulsos nervosos, sem perder parte da sua funcionalidade.
Atividade de Aprendizagem
Qual é a vantagem para um neurônio em possuir bainha de
mielina e por que ainda assim o organismo necessita de
neurônios que não possuem a bainha de mielina?
Aula 2 – O papel da neurociência
Apresentação da aula 2
Antes de discorrer sobre os processos e subdivisões das neurociências,
é necessário entender a importância do papel desta como uma possibilidade
dentro da ciência de compreender como o cérebro funciona e de que maneira
somos afetados por esse conhecimento. Sabe-se muito sobre o funcionamento
do cérebro, mas ainda faltam lacunas importantes a serem preenchidas, como,
por exemplo, saber mais sobre os processos da cognição e de como isso pode
ser útil às questões que envolvem a aprendizagem. Hoje, uma das grandes
preocupações da educação é fazer com que os processos de ensino e
aprendizagem sejam efetivos e que de fato isso ocorra nas salas de aulas e nos
espaços informais de educação. Outra grande questão levantada por
educadores diz respeito à educação inclusiva. A neurociência tem contribuído
cada vez mais, ofertando conhecimentos que estão sendo utilizados na criação
de metodologias capazes de ajudar no processo de aprendizagem das pessoas
com deficiência.
18
A política de inclusão de alunos que apresentam necessidades
educacionais especiais na rede regular de ensino não consiste apenas
na permanência física desses alunos junto aos demais educandos,
mas representa a ousadia de rever concepções e paradigmas, bem
como desenvolver o potencial dessas pessoas, respeitando suas
diferenças e atentando suas necessidades (CRUZ et al., 2017, p. 6).
Dessa forma, não podemos negar as contribuições que a neurociência
pode ofertar para a otimização dos processos de ensino e aprendizagem.
2.1 Neurociência, cérebro e educação
O estabelecimento da relação entre a neurociência e a educação está no
cérebro. Tanto as neurociências como a educação buscam repostas para que
os processos ligados ao ensino e à aprendizagem sejam desvendados e que o
conhecimento possa ser utilizado de maneira otimizada. Para isso, o cérebro,
enquanto estrutura e função, precisa ser compreendido – e é nesse ponto que a
educação e a neurociência podem contribuir para gerar respostas que conduzam
ao porquê de conseguimos aprender; como nossas emoções são geradas e são
importantes na significação do saber; por quais caminhos nossa memória é
conduzida. Assim, fica claro que a neurociência e a educação têm muito a
contribuir em prol da aprendizagem e da emoção, ajudando a tornar o
conhecimento em um produto de significados e significantes.
Muito antes do nascimento, durante o desenvolvimento embrionário, o
aparato neural já se desenvolve, demonstrando que o cérebro advém de
processos que ocorrem initerruptamente, culminando em uma estrutura
complexa, em que milhares de neurônios e gliócitos estabelecem relações,
otimizando e decodificando as informações que gerarão respostas rumo à
homeostase do organismo e de respostas de caráter sensório-motor. Nesse
sentido, existe uma sequência ontogenética do sistema nervoso cujo processo
final se caracteriza pela mielinização, ou seja, a aquisição de uma camada
lipoproteica – essa mielinização dos neurônios faz com que os impulsos
nervosos se tornem mais rápidos, sendo relacionada à aprendizagem.
19
Desenvolvimento do aparato neural no embrião
Fonte: https://www.bancodasaude.com/cdn/press/0000000003396.jpg
Segundo Kolb e Whishaw (2002), existem regiões do córtex que possuem
mielinização precoce e outras regiões que possuem mielinização tardia. Estas
últimas regiões são responsáveis pelo controle e funções mentais mais
complexas. Outra grande contribuição no estudo do cérebro é a descoberta da
plasticidade neural, isto é, da capacidade de reorganização por meio de
conexões sinápticas, sempre que houver a necessidade do aparato neural se
adaptar às novas capacidades intelectuais e comportamentais das crianças. Isso
ajuda a entender a importância que a educação tem no processo de inclusão das
pessoas com deficiência, pois é por meio dela que se torna possível criar um
conjunto de desafios que façam com que a plasticidade neural produza caminhos
alternativos para a cognição acontecer. Disso decorre a importância de a
educação ter que conhecer os avanços da neurociência, para poder intervir de
maneira mais assertiva, com metodologias mais eficazes e que tornem o
aprendizado mais significativo para todos. Somado a isso, o comportamento
advindo das interações sociais pode ofertar à neurociência caminhos diversos
para análises múltiplas de como funciona o cérebro.
2.1.1 O cérebro e a aprendizagem
Para Refletir
De que maneira aprendemos? Como o cérebro capta as
informações e as decodifica em forma de aprendizagem?
20
Nosso cérebro possui milhares de neurônios e células da glia – células
nervosas que se comunicam, emitindo sinais elétricos e transmitindo a
informação. Por muitos anos, pensou-se que a rede neural, uma vez formada,
não se modificava. Hoje, sabe-se que as conexões neurais são criadas e se
refazem, dando ao cérebro uma capacidade adaptativa maior do que se
imaginava. Somado a essa dinâmica, os fatores sociais, emocionais, fisiológicos
e culturais ajudam a moldar os caminhos da aprendizagem.
É a partir dessa relação entre cérebro e aprendizagem que surge o
conhecimento e que a memória se alimenta, conservando esses conhecimentos
já postos e ofertando a oportunidade de novos conhecimentos se somarem a
esses, por meio do uso das competências e habilidades que são adquiridas ao
longo da vida.
A cada novo episódio na busca pelo conhecimento, as estruturas neurais
ganham novas configurações, tais como o brotamento de espículas dendríticas
e outras modificações estruturais, possibilitando uma reorganização do encéfalo.
Quanto maiores forem os estímulos, maiores serão as chances de ocorrer a
aprendizagem; por isso, a educação possui um papel fundamental, assim como
a neurociência permite conhecer mais sobre os mecanismos morfofisionômicos
do cérebro.
No entanto, a aprendizagem não depende somente desses fatores. Os
fatores emocionais, sociais e culturais colaboram para a efetividade dos
processos de aprendizagem. As experiências que os seres humanos carregam
e as oportunidades que lhe são dadas ofertam um campo profícuo ao cérebro,
desafiando-o e ajudando a criar novas conexões neurais, aumentando o fluxo de
informações para que se retenham aquelas que são significativas, a fim de
transformar-lhes em habilidades que serão usadas no dia a dia. Outro aspecto
ligado à aprendizagem é que ela está relacionada à memória. Os seres humanos
têm um tipo de memória chamada de memória de longa duração, esta pode ser
explícita – quando é evocada de maneira consciente ou implícita – quando
acontece de forma involuntária. A memória explícita pode ser ainda subdividida
em: memória episódica, se referindo àquelas situações que envolvem fatos,
pessoas, lugares e semântica – quando envolve o significado dos conceitos.
21
Para entender um pouco melhor, pode-se imaginar a seguinte situação: em
um dia de sol, você se encontra na praia, olhando o mar e com os pés sendo
molhados pela água do mar. Todas as sensações que você capta por meio
dos olhos, da audição, do tato, são sentidas de uma só vez, por meio do córtex
de associação; essa informação é transferida para o hipocampo, que permitirá
fixar essas imagens e as relacionar com outras informações. Feito isso, essa
imagem é transferida de volta ao córtex de associação, onde ocorrerá o
armazenamento definitivo. Cada vez que essa imagem é evocada, ou parte
dela, a memória estará lá, pronta para reavivar e dar sentido ao que se vê
novamente. É importante salientar que a memória não traz a informação
original, mas uma informação editada, apoiando-se na original. Portanto, é
possível estar diante do mesmo cenário, mas vamos senti-lo de modo
diferente.
Memória e sensações
Fonte: http://www.filcatholic.org/wp-content/uploads/2018/04/beach.jpg
2.1.2 Desenvolvimento cognitivo, do pensamento e de inteligências
Dentro da neurociência, os desenvolvimentos da cognição, do
pensamento e das inteligências ajudam a desvendar os processos cerebrais que
estão ligados ao conhecimento e à aprendizagem.
22
O desenvolvimento cognitivo requer a composição de quatro elementos:
a percepção, a memória, o raciocínio e a atenção.
 Percepção: o ato de perceber envolve o aparato sensorial. O
olhar, o tato e o olfato são veículos de mediação entre o sujeito e
o objeto. Aquele que percebe, percebe algo ou alguém. Na
percepção, ocorrem três situações: a seleção, isto é, o objeto é
sentido, a organização, o cérebro organiza as informações
recebidas pelo aparato sensorial, formando uma unidade e, por
último, a interpretação, em que o cérebro irá decodificar essa
informação e “responder” por meio da utilização da memória o que
está sendo percebido.
 Memória: a memória é responsável pela retenção de informações
e nos permite diferenciar, por meio de sensações, as coisas. Pode-
se dizer que existem dois tipos de memória: uma memória de curto
prazo e uma memória de longo prazo. Os processos da memória
requerem três ações: codificação, retenção e recuperação.
Quando nos deparamos com algo, isso é captado por meio da
memória sensorial e essa imagem é codificada. Logo em seguida,
o cérebro ativa a memória de curto prazo, ou seja, ela recebe as
informações já codificadas e pode utilizar, descartar ou organizar
as informações. É na memória de longo prazo que as informações
já organizadas ficarão retidas e poderão ser acessadas quando for
necessário.
 Raciocínio: o raciocínio é a parte lógica do pensamento. A partir
da informação dada pelo ambiente ou meio interno, o nosso
cérebro vai decodificar essas informações, vai evocar a memória
e vai utilizar-se de elementos lógicos para dar as respostas mais
adequadas. O raciocínio segue uma sequência de padrões
mentais que vão levar a um tipo de conclusão.
 Atenção: podemos conceituar atenção como um estado de
percepção pormenorizada sobre algo, alguém ou algum assunto.
Ela requer um foco, ou seja, um direcionamento centrado. A
atenção é obtida pelo esforço e direcionamento, disciplinando o
23
cérebro a focar em determinadas situações para que a percepção
sobre o que chama a atenção seja total e não se perca. Podemos
motivar a atenção, fazendo com que o nosso cérebro entenda que
naquele momento o foco dará a resolução do problema.
2.1.3 Contribuições das neurociências na compreensão do
desenvolvimento e aprendizagem humanos
Quando se fala em desenvolvimento humano, se está preconizando que
os processos biológicos que acontecem possuem uma sequência de
acontecimentos que culminam com a maturação. A maturação não pressupõe o
término de algum processo, mas indica a sua otimização, podendo ser
comparada ao clímax em ecologia, quando se trata do ápice em um ecossistema
em termos de função.
2.1.4 Neurociência e desenvolvimento humano
A neurociência tem se valido do desenvolvimento humano para conseguir
entender como o cérebro se desenvolve e em que medida ele é essencial na
construção dos estados mentais que ajudam esse desenvolvimento a acontecer.
Um dos grandes acontecimentos da neurociência foi a
descoberta dos neurônios, a unidade funcional do sistema
nervoso.
Por meio dessa descoberta, foi possível desencadear uma série de
estudos de como a informação passa de um neurônio para o outro e de como
isso era decodificado pelo cérebro para gerar uma resposta.
O desenvolvimento humano depende tanto de fatores hereditários como
ambientais. Uma determinada habilidade pode ser intrínseca e ser estimulada
por fatores ambientais, mas uma coisa é certa: as conexões neurais promovem
parte das condutas humanas.
A construção da intersubjetividade, a consciência de si e dos outros, o
conhecimento social, a capacidade de entender as intenções alheias,
24
entre tantas outras capacidades, só se constituem na interação e pela
interação com os outros (MOURÃO-JÚNIOR et al., 2017 p. 20).
Uma das formas encontradas pelo cérebro para continuar a absorver o
ambiente é a sua capacidade de plasticidade, isto é, de estabelecer mudanças
funcionais e estruturais, modificando a intensidade das conexões celulares e
permitindo que sempre haja o aprendizado. Isso é mais notório na infância do
que na idade adulta, porém, é um processo que acompanha todas as fases de
desenvolvimento e permite que a aprendizagem sempre aconteça.
O desenvolvimento humano é marcado por mudanças biológicas, como o
crescimento, a maturação sexual e por mudanças socioculturais que vão moldar
uma gama de comportamentos e os estados mentais que serão utilizados por si
e para inferir aos outros a opinião sobre seus estados mentais.
Em ambos os casos, todas as formas de desenvolvimento irão depender
de uma série de habilidades e competências que serão adquiridas ao longo do
tempo, refinando as fases do desenvolvimento e fazendo com que as operações
mentais se tornem cada vez mais complexas para ler e escrever as
subjetividades que marcam a realidade do mundo.
Por outro lado, na medida em que os estados mentais tornam-se mais
complexos, tornam-se mais ricas as formas de interação, agindo sobre o
desenvolvimento cerebral, em uma mão dupla de acionamento.
Pesquise
Quer saber como a cognição se relaciona com o
desenvolvimento humano? Leia o artigo Neurociência
Cognitiva e Desenvolvimento Humano, que apresenta uma
discussão conceitual a respeito da temática. Disponível em:
https://periodicos.fclar.unesp.br/tes/article/view/9552/6316.
2.1.5 Neurociência cognitiva
Anatomicamente, se atribui ao córtex pré-frontal o desenvolvimento das
funções cognitivas, ocupando 29% do espaço total do córtex. Isso corrobora com
25
a ideia de que as funções cognitivas são importantes e promovem uma ação no
cérebro na construção de estados metais cada vez mais refinados.
A neurociência cognitiva vai tentar entender como as funções cerebrais
vão se transformar em percepção, memória, linguagem e consciência, se
relacionando diretamente com a teoria da mente.
Dentro da história de vida, o encéfalo humano é recente; ele tem
aproximadamente 100.000 anos de existência, mas a sua capacidade cognitiva
é excepcional. Nossa história de vida e como ela se desenvolveu permitiu que a
estrutura cognitiva acompanhasse o ritmo da nossa jornada, trazendo gratas
surpresas em relação ao desenvolvimento e capacidade, chegando hoje a
patamares muito bons. Só essa caminhada já prova que o cérebro está em
consonância com o ambiente, sendo influenciado por ele e capacitado a
reorganizar-se para se adaptar às mais diversas transformações. As ações
cerebrais são utilizadas para a execução das tarefas básicas como a locomoção,
por meio do aparato motor, e também para a execução de tarefas mais
complexas, como o pensamento, a fala e a criatividade. Os comportamentos
moldam essas ações.
Para entender como o desenvolvimento humano é importante, deve-se
considerar duas fases distintas da vida humana: uma, a de recém-nascido e a
outra um pouco mais adulta. Na primeira fase, não falamos, não andamos, não
seguramos objetos. Como então tudo isso se transforma e passamos a falar, a
andar, a segurar objetos e a pensar de maneira subjetiva? O que acontece?
Duas hipóteses são possíveis: uma é a de que o aparato neural já formado
dependerá inteiramente do ambiente para se desenvolver e o outro é que o
aparato neural ainda em formação, na medida que a pessoa se desenvolve,
também se desenvolverá, ou seja, a maturação ocorre aos poucos. Essa
segunda hipótese é a mais plausível para explicar o desenvolvimento humano.
Uma pessoa que contribuiu muito nessa área foi Piaget. Para Piaget, o
desenvolvimento cognitivo passa por quatro fases:
 Fase sensório-motor: nessa fase, a criança explora o ambiente
por meio do aparato motor e sensorial para construir esquemas
mentais. Essa fase vai de 0 a dois anos.
26
 Fase Pré-operacional: nessa fase, a linguagem simbólica é
largamente utilizada e a criança vive no seu mundo; ela
desconhece o outro e não é capaz de predizer qualquer sensação.
Essa fase vai de 2 a 7 anos.
 Fase Operacional: aqui, o pensamento está mais organizado, a
cognição é realizada por etapas mais lógicas de pensamento para
a resolução de problemas. Nessa fase a criança trabalha com o
concreto; ela não é capaz de formular hipóteses. Essa fase vai de
7 aos 11 anos.
 Fase das operações formais: nessa fase, a criança já é capaz de
formular hipóteses, pois seu aparato dedutivo-hipotético está
desenvolvido. As representações abstratas são utilizadas na
resolução dos problemas.
Dessa forma, Piaget contribuiu para explicar como o desenvolvimento
cognitivo acontece. Sob essa perspectiva, o comportamento humano e a função
cerebral estão relacionados e moldam-se coevolutivamente:
A existência animal depende não somente do meio, mas também do
conhecimento do meio. Todo progresso do conhecimento beneficia a
ação; todo progresso da ação beneficia o conhecimento (MORIN,
1999, p. 63).
Saiba Mais
Jean Piaget (1896-1930) foi um biólogo e
pesquisador suíço, reconhecido por dedicar-se
ao entendimento dos processos de aquisição do
conhecimento humano. Dentre suas principais
contribuições, destacam-se obras acerca dos
mecanismos de funcionamento da inteligência e
a respeito das diferentes fases do desenvolvimento infantil.
2.1.6 Contribuição da neurociência para a formação dos professores
Uma das questões que permeiam o mundo acadêmico é como fazer com
que os alunos aprendam. Nesse contexto, uma coisa é certa: o conhecimento só
27
é aprendido se tiver significado; ele deve despertar a atenção e deve ser também
fruto das diferentes vivências. Outra questão é: de que maneira a neurociência
pode contribuir para a formação de professores, uma vez que a aprendizagem
está atrelada ao ensinar. Pode-se afirmar que a aprendizagem está atrelada ao
ensino que coloca para pensar, isto é, que provoca a autonomia dos alunos e é
capaz de ajudar no desenvolvimento cognitivo. Atualmente, as metodologias
ativas têm sido aplicadas com algum resultado positivo, já que os alunos são
instigados e, por essa razão, devem usar seu aparato cognitivo na busca das
soluções. Outra possibilidade é a utilização prévia dos conhecimentos. Todas as
pessoas sabem de antemão alguma coisa, seja estudando, lendo ou recebendo
informação de uma outra pessoa sobre determinado assunto. A quantidade de
informações geradas e recebidas pelo cérebro faz com que as conexões neurais
sejam mantidas em estado informacional o tempo todo. Não paramos um minuto
sequer de pensar, de codificar informação. Mas o que ensinar? Como tornar o
assunto relevante diante de tanta informação que nos chega? A neurociência
pode contribuir porque ela é capaz de decifrar os processos neurais
responsáveis pela formação do conhecimento.
Existem autores como Heckman e Kautz (2012) que defendem, por meio
de estudos realizados sobre educação, que os espaços escolares devem ofertar,
além dos conteúdos formais, como Ciências, História, Geografia, Língua
Portuguesa, Matemática, outros conteúdos que abordem e ajudem a
desenvolver habilidades como: criatividade, motivação e interação social. Aqui
no Brasil, isso vem de encontro com um dos princípios que regem a Base
Nacional Comum Curricular, que leva em consideração os conhecimentos
prévios dos alunos, devendo estes possuir uma carga cognitiva e motivacional
que conduza à autonomia e à criatividade.
Nesse caso, a motivação pode fazer com que as informações sejam
retidas mais facilmente pelo aluno, já que a cognição envolve a atenção,
aumentando as chances de o cérebro reter uma quantidade maior de
informações e com mais qualidade. Outro ponto importante se refere às emoções
– um conteúdo ensinado de maneira lúdica ou de outra forma e que consiga
transmitir emoção será mais rapidamente processado e retido na memória de
longa duração.
Nesse sentido, o artigo de Carvalho e Boas (2018) afirma que:
28
O entendimento de algumas bases biológicas do funcionamento do
sistema nervoso auxiliaria o professor a identificar potenciais
habilidades e déficits. Além disso, o educador poderia valer-se das
características fisiológicas do sistema nervoso para adaptar sua
própria metodologia e conteúdo à atividade de ensino (CARVALHO E
BOAS, 2018, p. 236).
Esses mesmos autores defendem a ideia de que os professores, durante
a sua formação, possam ter conhecimentos básicos sobre funções da mente que
influenciam a forma como uma pessoa aprende. Um exemplo de como isso pode
melhorar o processo de ensino é entender que o cérebro atua de maneira
associativa, ou seja, ele recruta várias partes do cérebro, cada qual responsável
pela sua área, como, por exemplo, a auditiva, a tátil e a olfativa, associando e
codificando a informação, gerando a resposta. Dentro de uma escola, um projeto
que alie as mais diferentes áreas do conhecimento, para lidar com um mesmo
assunto, estimula a capacidade neural de associações, aumentando as chances
reais de aprendizado.
Dessa maneira, a neurociência pode colaborar com a educação e ajudar
a fortalecer o processo de ensino e aprendizagem. Dentro do processo de
formação do professor, está também a questão da aprendizagem, pois, se
considerarmos o professor como mediador do conhecimento, veremos que ele
será responsável por aquilo que lhe compete, que é trazer elementos
provocadores que resultem na resolução de problemas utilizando os conteúdos
formais e o aparato cognoscente do próprio estudante. O estudante deverá se
sentir motivado, partindo do pressuposto de que o seu interesse levará ao
aprendizado. Nesse caso, as habilidades ou lhe são intrínsecas ou são
apreendidas em um “saber-fazer”, sempre na interação com a coletividade da
escola ou sala de aula.
O professor que quiser tornar as aulas mais interessantes e significativas
precisará lançar mão de alguns estudos das neurociências para entender que os
processos mentais dos alunos possuem configurações mentais e uma grande
plasticidade e que isso deve ser levado em conta na hora da elaboração de
atividades ou sugestões de atividades que venham de encontro ao interesse dos
estudantes. Esses estudantes, por sua vez, terão que considerar sua cognição
e sua motivação para conseguirem solucionar os problemas postos, utilizando,
para isso, o raciocínio, a lógica, a criatividade e a interatividade, pois o constructo
29
coletivo determinará a facilidade ou dificuldade de encontrar as melhores
soluções ou as mais cabíveis.
Para Refletir
Você já parou para refletir sobre como a formação de
professores pode ser beneficiada pela neurociência? Já
parou para pensar que o entendimento do cérebro pode
auxiliar no entendimento do que é aprender, tornando o
processo didático mais claro e assertivo?
Como se pode perceber, a neurociência pode contribuir muito com a
educação, pois, na medida em que ela consegue desvendar como o cérebro
humano é capaz de pensar e aprender, a escola pode se fazer valer desses
conhecimentos, tonando os conteúdos mais relevantes.
Resumo da aula 2
Nesta aula observou-se que a neurociência pode contribuir com a
educação, fornecendo uma série de elementos que ajudam a desvendar o
processo de aprendizagem.
Atividade de Aprendizagem
Discorra sobre a importância do conhecimento para o
desenvolvimento humano.
Aula 3 – A Teoria da Mente e a neuroplasticidade
Apresentação da aula 3
Um dos questionamentos que surge com a Teoria da Mente se refere à
consonância de pensamentos dos sujeitos. Será que o que eu sinto, vejo e a
30
forma como processo está em consonância com o que o outro sujeito pensa,
sente e processa a informação? Esse questionamento é importante porque as
situações de ensino e aprendizagem envolvem justamente essa consonância de
situação. O que eu penso e como elaboro essa forma de pensamento e exponho
as minhas ideias é claro o suficiente para que o outro entenda da mesma forma?
Procuramos elaborar uma forma de expor que o outro possa entender, mas fica
a incógnita se realmente essa consonância acontece.
Todos nós temos uma constituição interna e externa. A interna é aquilo
que carregamos, nossas subjetividades e a constituição externa é moldada pelas
relações que são estabelecidas por nós ao longo dos anos. As representações
mentais são capazes de criar e recriar a realidade, a partir do desejo, das
crenças e das intenções.
Outro aspecto importante da mente se refere à questão da
neuroplasticidade, conforme a perspectiva de que o cérebro recria “novos
caminhos” para não deixar de atender a uma demanda criada. Isso se mostrou
muito eficaz em situações em que o cérebro sofre algum tipo de injúria e tem que
se reorganizar. Essa reorganização é capaz de fazer com que as funções
mentais sejam restabelecidas, não deixando sequelas.
O cérebro possui uma enorme capacidade adaptativa, fazendo com que
os processos de ensino e aprendizagem sejam eficazes na resolução de
problemas e desafios. Aliás, são os estímulos e desafios que vão ajudar na
criação de novas conexões neurais que deem conta de responder às situações
advindas do meio externo. Portanto, o ambiente externo pode ajudar muito nas
questões mentais. Quanto maior o número de estímulos ofertados, mais chances
de o cérebro criar conexões neurais que sejam capazes de atender a demanda,
aumentando de maneira real as chances de aprendizado.
3.1 Teoria da mente
Uma das características da Teoria da Mente reside no fato de que esta
procura entender como os processos mentais internos e externos ocorrem e de
que maneira é possível predizer e compreender comportamentos. Pensar em
pensar como o outro se comporta é um ato mental interessante, na medida em
que isto molda as relações existentes e faz com que as predições criem
31
representações mentais e sociais que são capazes de formar um conjunto de
juízos de valor.
Importante
Na medida em que as interações interpessoais acontecem, as
pessoas são capazes de predizer o comportamento alheio e
conseguir, por meio dos processos mentais internos, “ler” a
mente da outra pessoa, predizendo o que ela sente sobre
determinado assunto. Isso faz com que as afinidades surjam e
os grupos sociais de formem.
Nesse quesito, as representações sociais acabam tendo um papel
importante na formação das realidades, pois esta é construída pela percepção
mental sobre os itens relacionados ao cotidiano.
Com relação a isso, as crenças acabam sendo formadas por esta
representação que se faz da realidade pela leitura da mente sobre o mundo.
Todos nós carregamos um conjunto de crenças tomadas como verdade; por
exemplo, houve um tempo em que se acreditou que a Terra ocupava o centro do
Universo – o que moldou um conjunto de valores cuja centralidade das coisas
manifestava-se no homem. Quando, por sucessivos estudos, se descobriu que
o planeta Terra não é o centro do Universo, a ideia de que o homem é o centro
do universo se deslocou também, fazendo com que o comportamento humano
mudasse em relação a isso.
Outro aspecto da Teoria da Mente é a interpretação de comportamentos.
As pessoas são capazes de predizer os estados de ânimo a que as pessoas
estão sujeitas. Por exemplo, é perto do meio dia e uma pessoa visita sua casa.
Ao meio dia, você tem o costume de almoçar. Seu organismo já se prepara para
receber alimento e seu cérebro já se organiza e decodifica ações internas como
produzir mais ácido. Sua percepção olfativa também fica mais aguçada, fazendo
com que o cheiro seja decodificado pelo cérebro. Você está com fome. Nesse
momento, você imagina que a outra pessoa também esteja com fome, sofrendo
os mesmos efeitos que você, pois, no seu cotidiano, ao meio dia, as pessoas
almoçam. A crença determina muitas vezes a realidade das coisas, por meio da
predição de comportamentos que se esperam em determinada situação.
32
Estudos dirigidos por Baron-Cohen (1995) desenvolveram uma teoria
para explicar e entender como a mente lê o mundo. Para eles, quatro
mecanismos atuam:
 Detector de intencionalidade;
 Detector de direcionamento do olhar;
 Mecanismos de atenção compartilhada;
 Mecanismo da teoria da mente.
Outro aspecto é a questão da importância da coletividade no reforço da
teoria da mente – os aspectos da coletividade incluem a empatia, ou seja, você
se colocar no lugar do outro. Para isso, o senso de observação tem que ser
aguçado e os esquemas mentais devem acontecer na medida em que se olha
para a situação e o sujeito da ação, predizendo comportamentos e possíveis
soluções.
Estudos de caso podem ajudar a desenvolver aspectos da teoria da
mente, pois preconizam um conjunto de ações que seriam tomadas; por
exemplo; trazer para a sala de aula um desafio que mostre a seguinte situação:
uma pessoa precisa atravessar um rio para conseguir alimento. Ela não dispõe
de nada para a travessia do rio. Quais seriam as possibilidades de ela atravessar
o rio para obter alimento? Nesse momento, os alunos serão compelidos a
predizer uma série de comportamentos que se esperariam dessa pessoa,
comportamentos esses preditos em função das crenças que cada aluno carrega
para resolver a situação – a isso se denomina Teoria da Mente. Esse tipo de
comportamento requer a aquisição de vários requisitos básicos que as pessoas
deverão ter para conseguir resolver determinada situação.
Para Refletir
Não se pode dizer se a velocidade está alta ou baixa de um
carro se você só dispõe da informação que esse carro anda
164 metros em 10 segundos. Você tem que saber
previamente, calcular a velocidade média e transformar a
unidade de metros por segundo (m/s) para quilômetros por
hora (Km/h), que é a unidade que conhecemos.
33
3.1.2 Campos de estudo da Teoria da Mente
Os campos de estudo que se utilizam da Teoria da Mente são inúmeros;
aqui vamos nos ater a alguns deles que julgamos serem importantes para
entender como essa teoria se delineia.
Um dos campos é a filosofia, em que objetividade e subjetividade criam a
realidade das coisas e inculcam ao ser humano as sensações de medo,
angústia, serenidade ou também aqui a que chamamos de belo, feio, simpático,
antipático, ou seja, o campo das nossas inferências sobre aquilo que vemos e
julgamos, já que o nosso comportamento mental perante os outros é o de tentar
julgar, analisando, sob parâmetros nossos, outra pessoa que também detém
esse mesmo modo operante de ver as coisas. Essa cadeia cíclica de
acontecimentos permeia a vida e cria as realidades, baseadas no imaginário,
dentro de processos mentais pré-estabelecidos. Nisso a filosofia se descortina,
tentando entender, entre os mais diversos filósofos, a ideia da relação entre o
pensamento e o mundo físico.
A filosofia analisa ideias e práticas que tomamos usualmente como
garantidas quando pensamos e agimos (ideias como por exemplo
‘tempo’, ‘número’, ‘certo’ e ‘errado’, e práticas tão gerais e básicas
como o conhecimento e a linguagem) (MIGUENS, 2009, p.72).
Para a filosofia, se não houvesse uma cisão entre o ser pensante e o
objeto pensado, haveria uma realidade sem pensamento e, portanto, destituída
de valorações e crenças.
Outro campo que usa a teoria da mente e que impulsionou os estudos
sobre essa teoria é o campo que estuda a cognição animal. Premack e Woodruff
(1978) realizaram um experimento para saber se os chipanzés atribuíam estados
mentais próprios e em outros seres. Para isso, eles colocaram um filme em que
uma pessoa tentava, em vão, alcançar algumas bananas que estavam
penduradas. Eles mostraram fotos de situações em que essa mesma pessoa
tentava encontrar uma maneira para solucionar a alcançar as bananas.
Intuitivamente, o chipanzé escolheu a foto que intencionalmente mostrava uma
solução para a pessoa. Isso demonstrou que, ao se deparar com uma
determinada situação, o chipanzé se valeu de processos mentais para inferir
uma solução que ele “achava” que o outro iria tomar, baseado em suas próprias
34
decisões. Esse estudo provocou em outros cientistas a curiosidade de saber se
esse processo ocorria entre os seres humanos, contribuindo assim para a
criação da teoria de mente.
Outra vertente que tenta explicar a natureza da Teoria da Mente é a
psicologia popular. Essa psicologia tenta entender como as pessoas no dia a dia
explicam comportamentos, desejos e intenções. Cada cultura terá o seu
repertório próprio de expressar os estados mentais. O conjunto de crenças e
desejos imputado a si e ao outro no dia a dia revelam comportamentos e estados
da mente que validam a teoria da mente.
A psicologia do desenvolvimento e os estudos de Piaget ajudaram a
entender como as crianças elaboravam os seus estados mentais e de outras
pessoas. Piaget chegou à conclusão de que as crianças e a idade pré-escolar
não diferenciavam os estados mentais dos estados físicos. Os sentimentos, as
crenças, os desejos e as intenções não eram diferenciadas dos estados físicos.
Para Piaget, a criança teria que se descolar do seu egocentrismo e perceber
outra realidade para, a partir de então, começar a aquisição da teoria da mente.
3.1.3 Constituição do sujeito
De que maneira o desejo e as crenças que o indivíduo carregam são
capazes de alterar os estados mentais, a ponto de predizer com segurança o
que o outro pensa? Isso também vale para a questão do ensino e da
aprendizagem. Todos os seres humanos são constituídos pelo viés do desejo,
isto é, da vontade de algo que faça sentido. Essa busca de sentido, ou seja, de
significados nos move em certas direções, e essas direções estão putadas pelas
crenças que a pessoa carrega pela vida. O fator “crença” é um elemento muito
importante na formação da teoria da mente, pois faz com que um conjunto de
valores seja mantido e perpetuado ao longo dos anos, podendo sofrer rupturas
ou não. Quando esse conjunto de crenças é colocado em xeque, um novo
paradigma acaba de ser criado e um novo conjunto de valores tem que ser
novamente construído, para que a crença subsista novamente. Essa mesma
crença faz com que o sujeito se constitua e aplique a sua verdade perante os
outros e perante a vida que ele leva. Como a constituição do sujeito pode afetar
a vida de outra pessoa? De que maneira essa crença opera no coletivo? A
35
crença em algo ou em alguma coisa é capaz de alterar os estados da mente e
fazer com que toda ação seja colocada no automático, isto é, as ações são
produzidas inconscientemente. Aquilo que eu creio deve não ser bom somente
para mim, mas para o outro também e desse modo, o sujeito infere de maneira
mais incisiva o seu modo de pensar e agir no coletivo.
Outro fator de constituição do sujeito é a questão do desejo. Todos nós
desejamos algum objeto que possa nos preencher as lacunas que criamos na
vida cotidiana. O marketing já se deu conta de que um produto só é consumido
se é desejado, então, todas as ações para a venda daquele produto devem ser,
antes de tudo, desejadas. O desejo nos move e também é capaz de alterar os
estados da mente. Uma vez desafiada, a nossa capacidade cognitiva pode ser
estimulada para criar novas conexões neurais, ampliando a gama de
possiblidades e de esquemas mentais que sejam capazes de dar conta do
desejo que precisa ser satisfeito.
Esses dois conjuntos de valores, a crença e o desejo alteram os estados
da mente e ajudam e entender a Teoria da Mente.
3.2 Neuroplasticidade cerebral, aprendizagem, memória e as diferentes
inteligências
O cérebro humano possui a capacidade de se reorganizar
estruturalmente, por meio da formação de novos neurônios e funcionalmente,
fazendo com que as conexões neurais sejam criadas e mantidas e que os
impulsos elétricos tenham como se propagar, possibilitando que um grande
número de informações seja codificado, gerando a aprendizagem. Dessa forma,
pode-se dizer que a neuroplasticidade ajuda muito no processo de
aprendizagem.
Essa aprendizagem, por sua vez, pode ser utilizada para fins específicos
e temporais curtos – como ter que saber como funciona uma máquina de café
para tomá-lo em um determinado instante – ou pode ser significativa, de modo
que será utilizada para a vida toda. Ambas irão precisar do aparato cognitivo e
da memória para serem armazenadas e posteriormente utilizadas. A primeira vai
constituir a memória de curto prazo e a segunda vai se utilizar da memória de
longo prazo.
36
A memória vai reter aquilo que ela considera importante para ser usada
posteriormente, ou esse conhecimento retido poderá gerar novos
conhecimentos. Estes são adquiridos ao longo da vida e advêm do
aprimoramento das habilidades inatas e adquiridas que o ser humano possui,
por meio dos estímulos das inteligências múltiplas. Algumas dessas inteligências
são mais desenvolvidas do que outras, mas todas fazem parte da constituição
do indivíduo, permitindo que a capacidade de aprendizagem seja equitativa no
sentido de termos todos a mesma possiblidade cognitiva de busca pelo
conhecimento.
Isso faz com que a neuroplasticidade, a aprendizagem, a memória e as
diferentes inteligências estejam relacionadas entre si, cada uma contribuindo
para a manutenção dos estados mentais.
3.2.1 Neuroplasticidade e a sua importância
Quando o cérebro é capaz de alterar as funções morfológicas e funcionais
em detrimento das alterações ambientais, se adaptando e reorganizando,
dizemos que ele possui a propriedade de plasticidade. As conexões cerebrais
estão sujeitas a se reorganizarem, sempre que uma necessidade de adaptação
surja. Com relação à plasticidade, existem alguns tipos, denotando a importância
da célula nervosa – o neurônio e gliócitos na questão da condução dos impulsos
nervosos.
 Plasticidade regenerativa – acontece com muita frequência no
sistema nervoso periférico e consiste na possibilidade de um novo
crescimento de axônios lesados;
 Plasticidade axônica – ocorre no axônio e em crianças de 0 a 2
anos. Representa uma importante plasticidade, pois pode corrigir
lesões do sistema nervoso logo após o nascimento;
 Plasticidade dendrítica – ocorre na região dos dendritos, que se
alteram em número, comprimento, quantidade, densidade e
disposição espacial. Ocorre nas fases iniciais de uma pessoa;
 Plasticidade somática – esse tipo de plasticidade está envolvido
na regulação da proliferação ou morte das células nervosas.
37
Esses tipos de plasticidade fazem do sistema nervoso um sistema
altamente regenerador, ao contrário do que se pensava antigamente. Hoje,
sabe-se que o poder de adaptação dos neurônios é grande e tem influência nos
processos de aprendizagem. A neuroplasticidade está presente principalmente
nas fases iniciais de desenvolvimento, mas não cessa, apenas diminui com o
passar dos anos. Isso é muito importante, pois a capacidade cognitiva tem a
chance de ser desenvolvida a cada momento.
A neuroplasticidade nos mecanismos de lesão cerebral é de fundamental
importância. Existem três situações de lesão no nível do neurônio: uma que
ocorre no corpo celular do neurônio, provocando a sua morte; uma lesão que
ocorre no axônio ou quando o neurônio se encontra em estado excitatório
diminuído. Estas duas últimas são passives de serem consertadas via
neuroplasticidade.
Um dos objetivos para recuperar as funções do cérebro é promover a
reorganização cerebral. Para isso, estímulos da parte sensório-motora vão
ajudar nesse processo. Determinadas tarefas podem ajudar o córtex motor a se
reorganizar, direcionando o tecido intacto a trabalhar pelo tecido danificado
também – é uma forma de compensação que o cérebro encontra para dar conta
na decodificação das informações.
Exercícios de fisioterapia são importantes para estimular a formação de
novas sinapses, aumentando a capacidade de produção de novos neurônios e
aumentando a plasticidade cerebral. Um dos desafios da fisioterapia é criar
condições para que a aprendizagem motora aconteça e o indivíduo consiga
realizar uma ação ou tarefa.
A neuroplasticidade em pessoas com transtorno do espectro autista (TEA)
pode possibilitar o desenvolvimento de habilidades sensoriais que ofertarão uma
aprendizagem significativa. Nesse caso, a reabilitação ocorre porque os
neurônios são estimulados a se reorganizarem para promover a resposta
adequada ao estímulo sofrido.
38
3.2.2 Memória e aprendizagem
Pode-se dizer que a aprendizagem está ligada à memória e à atenção,
principalmente à memória de logo prazo, pois permite que o conhecimento seja
retido e requisitado a qualquer tempo.
Os estudos sobre memória foram baseados em estudos experimentais
que começaram no século XIX, com os trabalhos de Hermann Ebbinghaus, que
testava sua própria memória, tentando memorizar listas de sílabas e, depois,
tentando relembrar elas. Muller e Pilzecker também realizaram experimentos de
memorização e concluíram que a atenção era um fator chave no processo de
assertividade da memorização. Com esses experimentos, foi possível predizer
a existência de dois tipos de memória: uma memória curta e uma longa.
O aprendizado é a aquisição de novos conhecimentos, e a memória
codifica esse conhecimento e o armazena para posteriormente ser utilizado.
Pode-se dizer que a memória é o aprendizado retido. Várias partes do cérebro
são requisitadas para a formação dos vários tipos de memória:
 Memória de curto prazo: utiliza a memória de trabalho, que é
utilizada para o desenvolvimento de uma ação ou raciocínio,
sendo realizada no córtex pré-frontal;
A memória de trabalho não deixa de ser uma memória de curta
duração. O que diferencia uma da outra é o fato de a memória de curta
duração apenas armazenar a informação de forma passiva por um
curto espaço de tempo, enquanto que a memória de trabalho faz todo
o gerenciamento da informação de forma mais ativa [...] (SOUZA E
SALGADO, 2015, p.143).
 Memória de longo prazo: aqui existem dois tipos – a não
declarativa e a declarativa. Na não declarativa estão aquelas
ações que envolvem a repetição de atividades, seguindo o mesmo
padrão e essas atividades contam com as habilidades motoras e
intelectuais. Por exemplo: a resolução de um exercício. Dirigir ou
andar de bicicleta também são exemplos de ações que se utilizam
da memória não declarativa. Já na memória declarativa, os
processos internos do cérebro ajudam na codificação de fatos
39
vivenciados e por meio de informações adquiridas por meio de um
saber.
Cada vez que um novo aprendizado acontece, uma nova sinapse é
formada. Nossa rede neural está sempre construindo novas conexões e uma das
formas de fazer com que esse novo conhecimento fique enraizado é a repetição.
Os cientistas chamam a esse processo de aprendizagem de primming. Diante
de uma informação, esse conhecimento é acessado de maneira rápida por meio
da memória de longo prazo.
O aprendizado é um processo que conduz ao armazenamento de
informação como consequência da prática, da experiência e ou da
introspecção, produzindo uma alteração relativamente permanente no
comportamento real ou potencial. (SOUZA E SALGADO, 2015, p.145).
Outro fator relacionado ao aprendizado é que os fatores externos são
importantes e afetam a forma como aprendemos. Se o ambiente ofertar
condições estimulantes, mais fácil será o aprendizado; se as metodologias forem
variadas, mais chances existem para que o aprendizado ocorra e, quanto mais
significativo for o que se aprende, mais fácil será, pois ficará retida na memória
de longo prazo. O estado emocional também afeta a aprendizagem. Os estados
de humor também são responsáveis por uma maior possibilidade de aprender,
assim como ter positividade sobre as coisas e pensamento ajuda a nossa mente
a focar nos objetivos, tornando a aprendizagem algo concreto para a realização
dos desejos.
Converse Com Seus Colegas
Converse com seus colegas a respeito de como a memória
afeta a aprendizagem e de que maneira os exercícios que a
reforçam podem auxiliar no fortalecimento de metodologias
ligadas ao ato de aprender.
3.2.3 Inteligências múltiplas
Como já foi visto, a capacidade de aprendizagem depende de fatores
constitutivos do cérebro e também das condições do ambiente. O sistema
40
nervoso é formado pela ectoderme – a camada embrionária mais externa – e
isso é importante porque evolutivamente mostra que o sistema nervoso está
ligado ao externo. Isso posto dá uma dimensão de quanto o ambiente opera na
formação das nossas inteligências e do nosso desenvolvimento.
A denominação de “Inteligências Múltiplas” foi concebida por Howard
Gardner, um psicólogo de Harvard que criou uma teoria para explicar que as
pessoas não possuem somente um tipo de inteligência, mas um conjunto de
habilidades que são direcionadas para dois fins: a resolução de problemas e a
criação de produtos.
Gardner criou essa teoria porque considerava que os testes de QI são
limitados frente à complexidade humana, que se faz valer de vários quesitos para
viver. Ele afirma que o ser humano possui oito habilidades e que estas fazem
parte do seu comportamento, mas que algumas delas são mais desenvolvidas
que as outras, haja vista que o ambiente proporcionará um desenvolvimento em
tempos diferentes. Um exemplo, é uma pessoa que nasce em um ambiente onde
os pais são musicistas. Essa pessoa se desenvolve em um ambiente que
valoriza a música, logo a habilidade musical poderá ser mais desenvolvida do
que em uma pessoa que tem pouco contato com o universo da musicalidade.
Os oito tipos de inteligência são:
 Inteligência espacial-visual: esse tipo de inteligência preconiza todo
o conhecimento e expertise acerca de imagens e produções gráficas.
Ela está ligada à percepção visual. É a capacidade que temos de nos
situarmos espacialmente, sabendo onde estamos e para aonde
queremos ir. É o tipo de inteligência utilizado, por exemplo, na leitura
de um GPS que nos fornece dados para chegarmos a algum lugar.
Nosso poder de abstração e espacialização mental nos ajudará nesse
processo;
 Inteligência verbo-linguística: esse tipo de inteligência está ligado
às formas de expressão que o ser humano possui para se comunicar.
A oralidade, a linguagem e a produção de gestos são formas de
comunicação que são largamente utilizadas;
 Inteligência interpessoal: esse tipo preconiza o entendimento dos
outros. É a forma como o ser humano se relaciona com outra pessoa,
41
entendendo os seus desejos, sentimentos e motivações; é a
expressão da nossa capacidade de se relacionar;
 Inteligência intrapessoal: a inteligência intrapessoal se refere aos
estados mentais que proporcionam um nível de consciência da
própria pessoa. É o ato de reconhecimento dos desejos e intenções
pessoais;
 Inteligência naturalista: esse tipo de inteligência dá a percepção
sobre o mundo natural e se desenvolve na medida em que se tenta
compreender como os processos naturais e biológicos acontecem e
de como interagimos com o meio-ambiente e vice-versa;
 Inteligência corporal-sinestésica: expressa a capacidade de utilizar
o corpo para a produção de linguagens. Trata-se do desenvolvimento
da corporeidade e de sua relação com o meio;
 Inteligência musical: esse tipo envolve as habilidades em se
observar tons, sons e ritmos do universo da música. Algumas pessoas
possuem a habilidade de possuírem um dom musical inato, a ponto
de só de ouvirem uma música saberem como tocar;
 Inteligência lógico-matemática: esse tipo de habilidade se refere à
capacidade de raciocínio lógico que o ser humano possui.
Essas inteligências se referem às capacidades intelectuais que todas as
pessoas possuem e que serão mais ou menos desenvolvidas, por meio dos
processos de ensino e aprendizagem.
Como se pode perceber, aquilo que se configura como Teoria da Mente
molda as relações humanas, fazendo com que o cérebro nunca deixe de criar e
se reorganizar, aproveitando-se das capacidades intelectuais.
Resumo da aula 3
Nesta aula observou-se que a teoria de mente molda as relações
humanas. Viu-se também como a neuroplasticidade e a aprendizagem se
relacionam e como as inteligências podem potencializar as habilidades.
42
Atividade de Aprendizagem
De que maneira as inteligências múltiplas podem ser
estimuladas e qual a consequência desse estímulo?
Aula 4 – O desenvolvimento cognitivo, afetivo e emocional de indivíduos
com TEA
Apresentação da aula 4
Dentro do processo do desenvolvimento humano estão as relações que
as pessoas estabelecem com outras pessoas; essa interação é fruto de uma
relação que ajuda a construir parte do que somos. O homem é um ser social,
que se estabelece via linguagem, dando sentido aos diferentes significados e se
utilizando de simbologias para se comunicar.
Dentro desse processo, ainda faz parte a teoria da mente, pois estabelece
um contato maior por permitir a suposição dos desejos e intenções do outro, o
que torna as relações mais humanas e dotadas de comportamentos baseados
em desejos e crenças.
Converse Com Seus Colegas
Como as pessoas portadoras de TEA conseguem se
relacionar com o mundo, já que parte de sua deficiência está
justamente na interação social?
Os desenvolvimentos cognitivo, afetivo e emocional dos indivíduos com
TEA possuem nuances que precisam ser entendidas, uma vez que a variação e
complexidade de graus variados de sintomas manifestantes vão corroborar para
os mais variados graus de emotividade, afetividade e de cognição.
Independente do grau de severidade ou não do TEA, os indivíduos
acabam se reorganizando, permitindo que seus estados mentais trabalhem em
prol de uma homeostase muito particular.
43
É preciso insistir em ações que estimulem a cognição, a emoção e a
afetividade das pessoas com TEA, não as excluindo, mas aprendendo com elas
uma nova maneira de se comunicar, para que essas capacidades venham à tona
e ajudem no aprimoramento de habilidades mentais que possibilitem a melhora
da condição de vida das pessoas com TEA.
4.1 Caracterização do TEA
O Transtorno do Espectro Autista assim é denominado porque não possui
somente uma forma de manifestação. A palavra “espectro” remete a graus
variados de manifestação dessas desordens neurológicas.
A Associação Americana de Psiquiatria classifica o TEA como
pertencente ao grupo de transtornos do neurodesenvolvimento (APA,2013). Por
definição, o Transtorno do Espectro Autista é caracterizado como um transtorno
neurológico, segundo o qual os indivíduos apresentam déficits nas áreas sociais,
comportamentais e de comunicação.
Não é fácil diagnosticar pessoas com TEA, pois existe uma faixa ampla
que faz parte do rol de pessoas com TEA, pois esses transtornos apresentam
uma gradação de sintomas. Uma característica em comum é o seu
desenvolvimento já na infância. A causa do transtorno é multifatorial, sendo difícil
fechar um diagnóstico preciso sobre, pois mesmo geneticamente ela possui
variantes.
Áreas comprometidas em indivíduos com TEA
Fonte: a autora
44
As áreas comprometidas em indivíduos com TEA são de ordem social,
pois interferem na comunicação, no comportamento e na interação social. Disso
decorre a importância da inclusão como uma forma de inserir as pessoas para
que desenvolvam algum grau em algumas dessas vertentes, melhorando a sua
qualidade de vida, pois a possibilidade de aquisição de novas aprendizagens e
novos comportamentos trazem benefícios muito importantes.
Outro fator a se considerar diz respeito à capacidade intelectual que
também pode apresentar um grau variado, apresentando graus severos de
comprometimento ou graus intelectuais elevados. Essas caracterizações são
importantes pois fornecem elementos diversos para a busca de situações que
levem em consideração o bem-estar e os direitos das pessoas com TEA.
Com relação aos direitos, têm-se buscado, na sociedade, formas
mediante Leis e decretos de garantir às pessoas com TEA alguns direitos
fundamentais, para que sejam respeitadas e possam contar com uma rede de
proteção e apoio efetivos pelo Estado e pela sociedade.
Com relação a isso, para fins de lei, existem alguns critérios clínicos, a
saber:
Deficiência persistente e significativa de comunicação, com
deficiência manifesta em:
 Comunicação verbal e não verbal;
 Sem reciprocidade social;
 Não desenvolvimento e manutenção de relações condizentes ao
seu nível de desenvolvimento.
Padrões de repetição e de restrição comportamentais e de interesses
manifestos em:
 Comportamento motores ou verbais;
 Repetição excessiva de condutas diárias e rotinas muito
repetitivas;
 Interesses fixos e restritos.
45
LEI Nº 12.764/12 Lei Berenice Piana
Art. 1º Esta Lei institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno
do Espectro Autista e estabelece diretrizes para sua consecução.
Essa Lei é importante, pois fornece diretrizes para a garantia dos
seguintes direitos:
 Uma vida digna;
 Integridade física e moral;
 Segurança;
 Lazer;
 Desenvolvimento livre de expressão.
Essa Lei representa um avanço social e reafirma o compromisso do
governo brasileiro de estar em consonância com a Convenção Internacional
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD).
Dois de seus artigos são muito importantes, pois garantem o acesso aos
serviços de saúde e ao serviço educacional, garantindo que as pessoas com
TEA tenham plenos direitos e atendimento a serviços essenciais como saúde e
educação:
Art. 2° É garantido à pessoa com transtorno do espectro autista o
direito à saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS,
respeitadas as suas especificidades.
Art. 4° É dever do Estado, da família, da comunidade escolar e da
sociedade assegurar o direito da pessoa com transtorno do espectro
autista à educação, em sistema educacional inclusivo, garantida a
transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a
educação superior.
4.1.1 Caracterização genética do TEA
Conforme observado, o transtorno do espectro autista não é fácil de ser
identificado e suas causas não são bem estabelecidas. No nível genético e
46
molecular, essa caracterização se torna mais sutil ainda, devido a uma série de
variantes que podem atuar sobre o TEA.
O aconselhamento genético pode ser uma ferramenta extremamente
importante para a detecção da probabilidade do TEA vir a se desenvolver. O
aconselhamento contribui positivamente para se saber da recorrência do
distúrbio, o prognóstico e sua terapêutica. Os estudos científicos têm contribuído
para entender melhor as bases genéticas e moleculares envolvidas no TEA.
Os estudos atuais apontam que o TEA é uma doença heterogênea e
complexa e que várias variantes e suas combinações são responsáveis pela sua
manifestação, em graus variados, tanto fenotipicamente como genotipicamente.
Acredita-se que a hereditariedade esteja presente em torno de 50 a 90%
dos casos diagnosticados para TEA, afetando 1% da população, sendo
prevalente quatro vezes mais em homens do que em mulheres.
Os padrões de herança e as variantes genéticas que atuam sobre o TEA
são variáveis e isso torna o TEA um distúrbio que pode vir a se manifestar:
[...] Como o impacto fenotípico de cada variante é baixo, se um
indivíduo for portador de poucas ou de algumas delas, não
desenvolverá a doença e as variantes continuarão sendo transmitidas
de geração a geração, tornando-se comuns na população.
Consequentemente, a chance de um indivíduo herdar um número
suficiente destas variantes de baixo risco a ponto de desenvolver a
doença não é tão raro (GRIESI-OLIVEIRA E SERTIÉ, 2017, p. 234).
Nesse sentido, acreditava-se que o padrão para a TEA funcionava por um
padrão poligênico, mas descobriu-se que a TEA, em muitos casos, ocorre por
meio de mutações raras com efeitos deletérios.
Existe uma atuação entre variantes comuns e raras, estas combinações
irão resultar no desenvolvimento da TEA.
 Variantes de baixo risco + variantes de risco moderado = TEA;
 Mutação de efeito deletério = TEA;
 Variantes comuns de baixo risco + variantes comuns de baixo risco
= TEA.
O risco de desenvolvimento da doença é maior entre os grupos familiares
do que entre grupos populacionais, pois os alelos de risco estão presentes na
47
família. E como se realiza o aconselhamento genético? Existem alguns passos
a serem dados para que isso aconteça:
1° Passo – explicação aos familiares dos aspectos genéticos da doença;
2° Passo – estudo do histórico familiar e avaliação das condições clinicas do
paciente;
3° Passo – oferta das opções de teste genético;
4° Passo – interpretação dos resultados;
5° Passo – prognóstico e explanação dos tratamentos disponíveis;
6° Passo – comunicação de riscos de recorrência para os familiares.
Deve-se ter em conta que o aconselhamento é complexo e de difícil
assertividade, dado o grau de variantes. A realização de levantamentos da
história familiar e da história clínica pode ajudar muito na assertividade do
diagnóstico.
Os testes bioquímicos e moleculares para síndromes associadas, o
fenótipo clínico e a história familiar, observação empírica dos riscos de
recorrência e a análise cromossômica por microarray são possibilidades de
diagnóstico do TEA.
4.2 O desenvolvimento cognitivo de indivíduos com TEA
A cognição é uma parte importante do desenvolvimento das pessoas e o
ato do conhecimento descortina o mundo para o indivíduo que se lança na sua
busca. Este, por sua vez, é fruto das interações que são realizadas com outras
pessoas e com o ambiente, pois a interação precede ao aparecimento da
linguagem, criando possibilidades não verbais de comunicação desde muito
cedo.
Entretanto, a cognoscência nos indivíduos com TEA se apresenta de
forma heterogênea, uma vez que se, por um lado, não há o desenvolvimento da
48
linguagem; por outro lado há o brilhantismo em resolver com facilidade
problemas evolvendo cálculos complexos ou a leiturização de notas musicais.
De qualquer forma, o importante é que o aparato cognitivo seja sempre
estimulado, para que as funções cerebrais se reorganizem, desenvolvendo
novas habilidades. Não é porque a socialização é um déficit que ela não precisa
ser estimulada, pelo contrário, esses déficits têm que ser muito bem pontuados,
para que a intervenção aconteça com qualidade e assertividade.
Por isso se dá a importância de saber a respeito do histórico de vida
dessas pessoas e ajudá-las segundo o uso de metodologias que sejam capazes
de desafiar a busca, pois é essa mesma que vai criar condições de
reorganização, fazendo com que a parte cognitiva possa ser desenvolvida dentro
da possiblidade de cada indivíduo que possui TEA.
O uso da rotina e da repetição podem trazer resultados benéficos, sendo
utilizados a favor do portador da TEA. A criação de estações de trabalho em sala
de aula, por exemplo, ou a execução repetitiva de gestos e ações positivas
podem fazer com que outras partes sejam ativadas, como a afetividade e o
desenvolvimento emocional.
4.2.2 O desenvolvimento afetivo de indivíduos com TEA
Conforme apresentado anteriormente, indivíduos com TEA não
conseguem predizer as emoções alheias, fazendo com que a Teoria de Mente
não exista. Com isso, a relação com o outro fica deficitária, pois um dos campos
afetados diz respeito à afetividade.
Uma das formas de contato que a criança tem ao nascer e que ela
estabelece com o mundo é a visão. Esse campo mágico de observação a coloca
no mundo, mesmo que não a situe, mas faz com que os processos mentais já
tenham a capacidade de reter o que os olhos são capazes de enxergar. Uma
das características do autismo se refere ao olhar.
Essa falta de identificação do outro interfere na afetividade, pois a
interação social se estabelece pela via afetiva e, no caso de indivíduos com TEA,
isso não acontece. No entanto, pode ser desenvolvido. A reciprocidade não deve
desestimular, pelo contrário, ela deve ser sempre estimulada e evidenciada. O
carinho, a troca de olhar e a fala constituem formas de evidenciar a afetividade
49
e isso não deve ser deixado de lado quando se trata de criar formas para que a
criança receba carinho e amor.
As intersubjetividades primárias que acontecem por volta dos dois a nove
meses e as intersubjetividades secundárias, que ocorrem por volta dos nove aos
quinze meses são afetadas, sendo essa segunda um pouco mais evidente.
Existe um déficit na atenção compartilhada, fazendo com que, por exemplo, o
objeto compartilhado não exista.
4.2.3 O desenvolvimento emocional de indivíduos com TEA
Umas das prerrogativas referentes aos indivíduos com TEA é a de não
conseguirem compreender o que significam os atos emocionais e sociais dos
estímulos. Outro aspecto é que a metarrepresentação nesses casos não existe,
ou seja, não há a representação dos estados mentais de outras pessoas acerca
de seus desejos e intenções. Essa é uma linha para explicar porque as crianças
não interagem e se relacionam com outras pessoas. A falta de sociabilidade seria
pela falta de não possuírem uma teoria da mente.
A emoção é uma forma de expressão dos sentimentos que personificam
alguém ou algum objeto. A emoção pode ser traduzida como um estado de
contentamento e isso é refletido de várias maneiras, não sendo a linguagem
necessariamente a porta-voz da comunicação da expressão.
Essa expressividade pode advir de uma mudança de feição ou outros
gestos que signifiquem esse estado. Os indivíduos com TEA possuem grande
dificuldade em expressar as suas emoções, em parte porque a personificação
não acontece. Eles possuem uma capacidade limitada na percepção de que algo
cause comoção, conforme Fraga:
A ausência de habilidade em perceber e compreender expressões
emocionais em outras pessoas parece relacionar-se com a limitação,
ou mesmo falta da capacidade de imaginar qualquer coisa (FRAGA,
2009, p.11).
Mas essa questão não é impeditiva de que os indivíduos com TEA não
possam desenvolver a habilidade de reconhecimento de estados mentais que
indiquem feições e, desse modo, a emoção entra nesse quesito por permitir que
eles reconheçam esses estados mentais. Exercícios que mostrem feições
50
faciais são um bom exemplo para que haja o reconhecimento desses estados,
aprendendo a assinalar as feições de tristeza ou alegria ao ver uma fotografia.
Trabalhando Expressões Faciais
Fonte: http://obuchalka-dlya-detey.ru/kak-obuchit-rebenka-raspoznavat-emotsii-drugih-
lyudey/
Outra possiblidade é o reconhecimento das emoções por figuras
caricatas, pois estas simbolizam mais os estados por serem desenhados com
mais clareza. Uma terceira possibilidade para se trabalhar as emoções pode ser
por meio de imagens que demonstrem um estado mental, como a possibilidade
de ganhar flores e ficar feliz. Essas associações são importantes, pois, mesmo
não tendo o componente de reconhecimento do outro, o indivíduo pode ter o
contato com os estados mentais que expressam a emoção de outra maneira. É
como se a emoção fosse descolada e apresentada para a pessoa com TEA.
Dessa maneira, ela pode personificar a emoção e ter a capacidade de
reconhecimento, mesmo que rudimentar.
Resumo da aula 4
Nesta aula observou-se que os desenvolvimentos cognitivo, afetivo e
emocional estão atrelados à tríade: comportamento, interação social e a
comunicação. Viu-se também que o TEA possui características que devem ser
51
levadas em consideração, pois fornecem importantes indícios de como trabalhar
essas questões e ajudar no desenvolvimento delas.
Atividade de Aprendizagem
A Lei Berenice Piana é fruto de uma série de lutas travadas pela
sociedade para que as pessoas com transtorno do espectro
autista tenham seus direitos garantidos, contemplando dois
pontos muito importantes: o direito à saúde e à educação. De
que maneira esses direitos melhoram a qualidade de vida das
pessoas com TEA?
52
Resumo da disciplina
Nesta disciplina apresentou-se que a neurociência tem muito a contribuir
com os vários campos do saber. Viu-se que o conhecimento do cérebro, ao
mesmo tempo em que ajuda a dirimir as dúvidas acerca do seu funcionamento,
suscita outras tantas, pois este órgão continua a ser uma “caixa de pandora”, a
ser descortinada para que patologias como o transtorno do espectro autista
possam ser melhor estudadas e compreendidas e que as pessoas que o
possuem tenham melhores condições de vida e ferramentas diagnósticas e
terapêuticas, assim como prognósticos mais assertivos.
Observou-se como a teoria da mente opera e é importante na construção
das relações humanas, pois todo o conjunto de crenças e de desejos se baseiam
na premissa dessa teoria, construindo as relações e as realidades.
Outro ponto importante é que a neurociência contribui com os processos
educacionais, ajudado na escolha de metodologias mais ativas e assertivas, que
visem e otimizem o conhecimento, tornando-o uma importante ponte de acesso
para a construção de realidades mais humanizadas.
53
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estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2013.
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ethanol on the postnatal morphology of the prefrontal córtex in wistar
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The MIT Press.
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formação de professores: reflexos na educação e na economia. Ensaio:
aval. pd. púb. Educ, Rio de Janeiro, v. 26, n. 98, p. 231-247.
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e Educação Inclusiva: Desafios e Perspectivas. Nova Serrana, Minas Gerais,
2017. p.28.
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o comportamento e abordagens experimentais. Psicologia: Teoria e
Pesquisa, 17(2), 187-194.
FRAGA, Maria Nilda Nabarrete. Ensino de habilidades emocionais para
pessoas autistas. Programa de Desenvolvimento Educaional –PDE, Maringá,
2009.
GRIESE- OLIVEIRA, Karina e SERTIÉ, Andrea Laurato. Transtornos do
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HECKMAN, J. J.; KAUTZ, T. Hard evidence on soft skills. Labour Economics,
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MENDES, P B.; MELO, S. Origem e desenvolvimento da mielina no sistema
nervoso central- um estudo de revisão. Revista Saúde e Pesquisa, v. 4, n. 1,
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MOURÃO-JUNIOR ,Carlos Alberto, ELAINE ,Faria e OLIMPIO Andreia,. (2017).
Neurociência cognitiva e desenvolvimento humano. seer.fclar.unesp.br. 7. 9-
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54
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Juremir Machado da Silva. 2ª ed. – Porto Alegre: Sulina, 1999. 288p.
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U.Porto, 2009. 399p.
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SOUZA, A. B e SALGADO, T.D.M. Memória, aprendizagem, emoções e
inteligência. Revista Liberato, Novo Hamburgo, v.16, n.26, p. 101-220. 2015
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  • 1. 1 Disciplina: O TEA na perspectiva das neurociências Autores: M.e Carla Morales Revisão de Conteúdos: Esp. Murillo Hochuli Castex Revisão Ortográfica: Juliano de Paula Neitzki Ano: 2018 Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral ou de suas páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe da Assessoria de Marketing da Faculdade São Braz (FSB). O não cumprimento destas solicitações poderá acarretar em cobrança de direitos autorais.
  • 2. 2 Carla Morales O TEA na perspectiva das neurociências 1ª Edição 2018 Curitiba, PR Editora São Braz
  • 3. 3 FICHA CATALOGRÁFICA MORALES, Carla. O TEA na perspectiva das neurociências / Carla Morales. – Curitiba, 2018. 54 p. Coordenação Técnica: Marcelo Alvino da Silva. Revisão de Conteúdos: Murillo Hochuli Castex. Revisão Ortográfica: Juliano de Paula Neitzki. Material didático da disciplina de O TEA na perspectiva das neurociências – Faculdade São Braz (FSB), 2018. ISBN 978-85-5475-322-1
  • 4. 4 PALAVRA DA INSTITUIÇÃO Caro(a) aluno(a), Seja bem-vindo(a) à Faculdade São Braz! Nossa faculdade está localizada em Curitiba, na Rua Cláudio Chatagnier, nº 112, no Bairro Bacacheri, criada e credenciada pela Portaria nº 299 de 27 de dezembro 2012, oferece cursos de Graduação, Pós-Graduação e Extensão Universitária. A Faculdade assume o compromisso com seus alunos, professores e comunidade de estar sempre sintonizada no objetivo de participar do desenvolvimento do País e de formar não somente bons profissionais, mas também brasileiros conscientes de sua cidadania. Nossos cursos são desenvolvidos por uma equipe multidisciplinar comprometida com a qualidade do conteúdo oferecido, assim como com as ferramentas de aprendizagem: interatividades pedagógicas, avaliações, plantão de dúvidas via telefone, atendimento via internet, emprego de redes sociais e grupos de estudos o que proporciona excelente integração entre professores e estudantes. Bons estudos e conte sempre conosco! Faculdade São Braz
  • 5. 5 Apresentação da disciplina Ao longo dos anos, a neurociência tem contribuído significativamente para a compreensão dos processos mentais, incluindo a cognição. O ato de aprender ainda é um mistério e várias são as tentativas para saber como o aprendizado pode se tornar cada vez mais significativo, em um contexto em que se pode afirmar que o cérebro humano ainda é uma caixa de Pandora, sendo desvendado aos poucos. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) traz para a neurociência aspectos desafiadores, ainda a serem desvendados por meio do estudo de como funciona o cérebro das pessoas com autismo. No intuito de aprofundar a temática, esta disciplina se propõe a demonstrar como a neurociência se relaciona à educação e como esses processos ajudam a desvendar as questões ligadas à aprendizagem. Nesse sentido, será promovido o diálogo para entender como as pessoas com TEA se desenvolvem cognitivamente, afetivamente, emocionalmente e relacionalmente e como a Teoria da mente pode colaborar para o entendimento desses processos.
  • 6. 6 Aula 1 – Sistema Nervoso Central Apresentação da aula 1 Antes de abordar os processos que envolvem a aprendizagem, é necessário o entendimento de que os seres humanos são dotados de um sistema capaz de captar e decodificar as informações, gerando respostas orgânicas, motoras e de percepção. O Sistema Nervoso Central é responsável pela captação das sensações advindas do meio externo, ajudando também a controlar as funções internas do nosso organismo e, como o próprio nome diz, centralizando as informações, decodificando-as e gerando respostas específicas para cada estímulo sofrido. Nesse sentido, o seu funcionamento é crucial para que os indivíduos possam se relacionar com o ambiente e também no desempenho das funções orgânicas, como o controle da batida do coração ou o controle dos processos homeostáticos, que garantem o correto funcionamento dos sistemas e órgãos humanos. Dessa maneira, entender a sua estrutura e função ajudará a desvendar os processos de recepção de informações, interpretação e elaboração de respostas, para que se possa entender a magnitude dos processos mentais, bem como aprofundar um pouco mais o conteúdo a respeito dos processos cognitivos, afetivo, emocional e relacional de pessoas com TEA. 1.1 Estrutura do Sistema Nervoso Central O Sistema Nervoso Central (SNC) é composto pela medula espinhal, protegida pela coluna vertebral e pelo encéfalo – que se encontra protegido pela caixa craniana. Esse conjunto de estruturas é responsável pelas informações que nos chegam e sua decodificação. Um dos grandes desafios da área da neurociência é justamente o de desvendar os processos presentes no encéfalo, que é diretamente responsável por sentimentos, ações, aprendizagem e memória. Evolutivamente, o Sistema Nervoso Central encontrou formas de se desenvolver proporcionalmente aos desafios encontrados pela humanidade, fazendo do cérebro uma região muito especial. É esse sistema que garante a ação
  • 7. 7 comportamental da parte motora (como comer e andar) e da parte cognitiva (como aprender e memorizar). Anatomia do Sistema Nervoso Central Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_nervoso_central#/media/File:Central_nervous_sys tem.svg A parte denominada de encéfalo compreende o cérebro (formado pelo telencéfalo e diencéfalo), o cerebelo e o tronco encefálico. O cerebelo é responsável pela capacidade de equilíbrio e coordenação motora e o tronco encefálico controla os batimentos cardíacos, a respiração, o sono e a temperatura do nosso corpo. Em termos comportamentais, o sistema nervoso atua junto às percepções advindas do meio externo para a elaboração das respostas. Para Ferrari et al. (2001), o comportamento é fruto de bases filogenéticas, que são aqueles aspectos comportamentais que permitiram à espécie humana sobreviver, bem como a base ontogenética, que são os elementos advindos da interação da espécie humana com o meio externo. Esses comportamentos, principalmente aqueles da base ontogenética, fazem com que o sistema nervoso acabe se modificando em estrutura e função: A interação sistema nervoso-ambiente resulta na organização de comportamentos simples ou complexos, que modificam tanto o ambiente como o próprio sistema nervoso (FERRARI et al., 2001, p. 187).
  • 8. 8 1.2 Encéfalo Para Refletir Você já parou para pensar em como bilhões de células nervosas, por meio de suas sinapses, conseguem estabelecer as bases do comportamento humano como o pensamento e a linguagem, conseguindo interagir com o ambiente na busca pela melhor resposta? O encéfalo se origina da porção anterior do tubo neural na quarta semana, apresentando três regiões: prosencéfalo, mesencéfalo e rombencéfalo. Na quinta semana, o prosencéfalo se subdivide em telencéfalo e diencéfalo e o rombencéfalo se subdivide em metencéfalo (ponte e cerebelo) e mielencéfalo (bulbo). O encéfalo é constituído em seis partes: bulbo, ponte, cerebelo, cérebro (telencéfalo), mesencéfalo e diencéfalo. A região mais desenvolvida do cérebro (telencéfalo), o córtex, é organizada em regiões com funções distintas. O córtex cerebral é a camada externa do cérebro e sua aparência é rugosa, devido aos sulcos e giros existentes. Graças a isso, a área cortical é bem ampla, comportando um número expressivo de células neurais. O córtex possui divisões e estas possuem funções distintas. Suas diferenças se devem basicamente à composição das camadas celulares, bem como sua espessura e do número de fibras nervosas que saem ou chegam dessas regiões (AVERSI-FERREIRA et al., 2004). 1.2.1 Estrutura anatômica do encéfalo O encéfalo é a maior porção do cérebro, sendo dividido em dois hemisférios; o direito e o esquerdo. Fazendo a interligação entre eles, está o corpo caloso.
  • 9. 9 Partes componentes do encéfalo Fonte: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=297213 Para Refletir Você já parou para pensar em como a quantidade de informações que nos chegam diariamente afetam o nosso cérebro? Já parou para pensar na formação do neocórtex e a sua relação com a aprendizagem? 1.2.2 Fisiologia do encéfalo Você já parou para pensar qual seria a finalidade do encéfalo ser dividido em dois hemisférios? Cada hemisfério vai cuidar de determinadas funções. O hemisfério esquerdo será responsável pela linguagem e pelo raciocínio e o hemisfério direito tem funções visuais e espaciais. Tudo o que fazemos e percebemos passa necessariamente pela decodificação no cérebro. Se um indivíduo resolve pegar determinado objeto, por exemplo, o lobo frontal dará essa capacidade; por outro lado, se tem a percepção do tamanho que esse objeto possui, será graças ao lobo parietal. Assim, cada lobo que compõe o córtex cerebral será responsável por determinadas funções.
  • 10. 10  Lobo occipital – é responsável pela percepção visual;  Lobo temporal – reconhecimento das percepções auditivas;  Lobo parietal – está envolvido na integralização das percepções sensoriais advindas da pele, dos músculos e das articulações, além de percepções envolvidas com a dor, o tato, calor e reconhecimento de objetos;  Lobo frontal – está envolvido com a parte motora de precisão. Controla a motricidade voluntária (córtex motor). Regula tanto as ações mecânicas como decisórias para pegar determinado objeto, por exemplo. Também está relacionado às questões da linguagem e do pensamento. As regiões do cérebro não se desenvolvem no mesmo ritmo. Isso porque, na medida em que somos estimulados, o nosso cérebro irá se desenvolver. Imagine uma criança, ela ainda não possui o seu aparato cognitivo desenvolvido, mas o seu córtex cerebral está em franco desenvolvimento, porque as conexões que ela faz com o meio através da visão, por exemplo, são estimuladas. 1.3 Neurônio – a célula do Sistema Nervoso As células que compõem o Sistema Nervoso são os neurônios e a glia. Sempre se ouviu falar da importância do neurônio como célula principal, mas, com o desenvolvimento da neurociência, as células gliais ganham um notório destaque. Estudos sugerem que as células gliais são responsáveis pela formação de novos neurônios e também estão intimamente ligadas ao processo de sinapse. 1.3.1 Estrutura de um neurônio Basicamente, um neurônio é formado por: dendritos, corpo celular, axônio e terminações nervosas.
  • 11. 11 Estrutura básica de um neurônio Fonte: a autora Cada um desses componentes executa uma determinada função:  Dendritos – são estruturas que recebem os impulsos de outras células nervosas e estímulos do meio ambiente;  Corpo Celular – contém o núcleo e outras organelas como Retículo Endoplasmático, lisossomos, citoesqueleto. Elas mantêm o neurônio funcionando;  Axônio – é um prolongamento do neurônio e tem por função a condução dos impulsos nervosos;  Terminações sinápticas – é a porção final do axônio e faz contato com outras células através do botão sináptico. 1.3.2 Tipos de neurônios O Sistema Nervoso é um dos sistemas com a maior diversidade celular existente, isso faz dele um sistema complexo, tanto anatomicamente como fisiologicamente. Nesse sentido, os tipos de neurônios são:  Unipolar – não possui dendrito, tem corpo celular e axônio. Presente em órgãos dos sentidos, músculo liso;  Bipolar – possuem um axônio e um dendrito e também estão ligados aos órgãos dos sentidos;  Multipolares – um axônio é uma ramificação de dendritos presentes no Sistema Nervoso Central.
  • 12. 12 Só essas diferenciações anatômicas e sua localização nos tecidos e sistemas garantem uma versatilidade de funcionamento do Sistema Nervoso. As células neuroglias podem ser classificadas como:  Microglia – as células microgliais são responsáveis por defenderem o Sistema Nervoso Central durante processos infecciosos, lesões ou doenças degenerativas do sistema nervoso;  Macroglia – compreendem um conjunto de células como os astrócitos, os oligodendrócitos e os ependimócitos. 1.4 Transmissão do impulso nervoso – recepção, codificação e resposta Em linhas gerais, o impulso nervoso é uma condução elétrica que percorre o neurônio até os botões sinápticos, onde ocorrerá a sinapse. Se estamos falando de condução elétrica, estamos falando de cargas positivas e negativas, além disso, o potássio (K) e o sódio (Na) estão presentes nesse processo. Em um neurônio em repouso, as cargas negativas estão para dentro da membrana plasmática e as cargas positivas se encontram do lado de fora dela. Nessa configuração, o sódio (Na+ ) se concentra mais do lado de fora, sendo bombeado para fora e o potássio (K+ ) é bombeado para o lado de dentro. Esse bombeamento é feito por meio da bomba sódio/potássio. Junto a isso, existe uma proteína carreadora, a ATPase, que irá hidrolisar a molécula de ATP. Isso proporcionará a geração de energia para o transporte do sódio e do potássio. Enquanto três íons de sódio saem, dois íons de potássio entram, porém, devido à membrana ser mais permeável ao potássio, este acaba entrando em maior quantidade. Por isso, as cargas positivas ficam do lado de fora da membrana. Em determinado momento, a alta quantidade das cargas eletrônicas positivas vai fazer com que o potássio não saia. Nesse momento, o neurônio alcança o seu potencial de repouso (-70 milivolts). Ao contrário do potencial de repouso, a célula do neurônio poderá desencadear o seu potencial de ação. A ocorrência de estímulos (mecânicos, químicos ou elétricos) faz com que os canais de sódio/potássio permitam a entrada de sódio dentro da célula; criando um cenário carregado menos positivamente. A isso se denomina despolarização de um neurônio, responsável
  • 13. 13 por gerar um fluxo de corrente elétrica que poderá provocar uma onda de despolarização ao longo do neurônio, causando o impulso nervoso. Nisso, a membrana passa de -70 milivolts para +35 milivolts, provocando uma inversão de carga: as cargas negativas estarão para fora da membrana e as cargas positivas estarão para dentro da membrana. Essa despolarização percorre todo o axônio e a cada trecho em que isso ocorre, imediatamente resulta na repolarização, ou seja, a célula volta ao seu potencial de repouso. Os canais de sódio se fecham e os canais de potássio se abrem, ocorrendo uma redução dos íons positivos dentro do neurônio. 1.4.1 Sinapses O impulso nervoso passa de um neurônio para o outro. O neurônio que envia o impulso é denominado de neurônio pré-sináptico e o neurônio que recebe é chamado de neurônio pós-sináptico. Entre esses dois neurônios está a fenda sináptica. Os neurônios pré-sinápticos possuem em suas terminações, além de muitas mitocôndrias, que irão auxiliar na questão energética, as vesículas contendo os neurotransmissores. Essas substâncias são lançadas na fenda e são captadas por receptores do neurônio pós-sináptico. Essa ligação faz com que os canais de sódio de abram e o impulso nervoso aconteça. A sinapse que não necessita de neurotransmissores, cujo potencial de ação é transmitido de célula a célula, recebe o nome de sinapse elétrica. Já as sinapses que dependem de substâncias químicas utilizam os neurotransmissores para fazer com que o impulso nervoso chegue a outra célula, sendo denominadas de sinapses químicas. 1.4.2 Recepção de informações, interpretação e elaboração de respostas O cérebro humano se organiza anatomicamente e fisiologicamente para conseguir processar os estímulos advindos do meio externo e também na manutenção da homeostase orgânica. Basicamente, o cérebro capta as informações advindas do ambiente e do corpo, as decodifica e retorna com a resposta necessária. No caso do meio externo, esse estímulo pode ser dado pela ação visual, ao olhar uma paisagem. O ato de perceber o ambiente fará com que
  • 14. 14 as partes do cérebro responsáveis pela captação dos estímulos visuais sejam estimuladas a dar uma resposta. O mesmo acontece com relação ao funcionamento interno do organismo, que funciona pela regulação de ações como a secreção dos hormônios, visando a homeostase orgânica. Somado a isso, está o desenvolvimento constante das bases cognitivas, fazendo com que o cérebro tenha seu desenvolvimento garantido até o fim da vida. Vocabulário Homeostase diz respeito à condição de estabilidade da qual o organismo necessita para realizar suas funções adequadamente para o equilíbrio do corpo. 1.5 Aprendizagem e sistema nervoso Quando falamos em Sistema Nervoso, é importante deixar claro qual é a sua função. Ele capta do meio externo as informações que nos chegam e as traduz em ações que podem gerar respostas externas, como levantar um braço para pegar um copo, ou internas, como excretar determinada substância que irá regular o funcionamento de um órgão qualquer. Ele comanda as ações do nosso corpo; no campo da cognição, o cérebro desempenha função central em relação à questão da aprendizagem. Aqui, é bom lembrar que as conexões cerebrais, realizadas por milhares de neurônios, formam um intrincado conjunto neural, complexo e em rede, de passagem de impulso elétrico que irá culminar em informações. 1.5.1 Mielinização, plasticidade neural e motivação Quando se fala em condução elétrica, é necessário entender que a velocidade é um fator importante, gerando um tempo de ação-resposta muito rápido. Isso é muito importante. Imagine que você sofresse um corte na mão, é claro que a sensação de dor é imediata, arde, dói. Isso porque os tecidos lesionados pelo corte possuem terminações nervosas indicando que o corpo sofreu uma injúria e uma das respostas a ação do corte é a dor. Caso contrário,
  • 15. 15 poderíamos cortar a mão e nem sentir dor, o que seria pior, pois perderíamos sangue sem notar. No corpo humano existem regiões em que os impulsos elétricos serão mais lentos e outras nas quais o impulso elétrico será mais rápido. A diferença é que alguns neurônios possuem uma bainha, denominada de bainha de mielina e outros neurônios não a possuem. A mielina é uma substância lipoproteica e, quando presente, aumenta a propagação dos impulsos nervosos, estando intimamente ligada ao processo de aprendizagem. Estudos indicam que algumas regiões do cérebro possuem um número maior de neurônios com mielina do que outras regiões, dependendo do que aquela região cerebral é capaz de executar. Portanto, o processo de mielinização é importante, pois permite um aumento da velocidade dos impulsos nervosos que, por sua vez, estão relacionados à dinâmica cerebral. Outro ponto importante refere-se à plasticidade neural. Por plasticidade, entendemos que seja a capacidade de adaptação frente aos desafios. Quanto maior sua adaptação, maior será a plasticidade e quanto menor for a adaptação, menor será a plasticidade. Portanto, a plasticidade neural se refere à quando as conexões neurais formadas poderão usar meios alternativos frente a um determinado desafio, para continuar o seu processo na transmissão dos impulsos nervosos. Para Mendes e Melo (2011), a plasticidade pode ocorrer durante a fase de desenvolvimento, nos processos que envolvam a aprendizagem e em processos lesionais. A plasticidade neural encaixa-se bem para explicar os diversos níveis de reorganização que o cérebro possui durante o crescimento de uma pessoa. Na medida em que novas capacidades intelectuais e comportamentais vão sendo adquiridas, os neurônios se reorganizam para atender a essa nova demanda. Com o avanço da idade, a plasticidade neural vai diminuindo, logo, a aprendizagem já se torna mais desafiante, pois dependerá de um esforço a mais das pessoas para aprenderem.
  • 16. 16 Importante Por isso que aspectos como a prática regular de exercícios físicos devem ser estimulados na infância, assim como outros hábitos saudáveis. Para que isso aconteça, uma gama de atitudes comportamentais deverá ser criada e cultivada. O comportamento humano depende sobremaneira das condições externas, aquelas que o meio pode ofertar, sejam elas realizadas por meio das relações sociais e da interação com o ambiente. Vários estudiosos do campo da cognição afirmam que o homem é fruto da sua interação com o meio e que também é capaz de influenciar o meio em que vive, ou seja, essa relação estabelece mútuas mudanças, comportamentais no ser humano e de cenário no meio externo. O comportamento, aliado à plasticidade neural e no estabelecimento interno de mielinização, gera uma gama de possibilidades cognitivas, que hoje estão sendo estudadas de formas intensas. A neurobiologia traz importantes conhecimentos, desvendando os mecanismos cerebrais e isso aponta para um novo patamar na compreensão de como nos constituímos e de como elaboramos nossas formas de pensamento e ação, tudo isso permeado pela aprendizagem constante. A maturação biológica nem sempre se encontra em consonância com a maturidade cognitiva, pois esta última depende não somente dos fatores biológicos, mas, sobretudo, dos fatores ambientais, na rede de socialização em que o ser humano cresce e se desenvolve. O Sistema Nervoso Central desempenha a função primordial que é a coordenação dos eventos externos e internos e a sua codificação para nos relacionarmos com o ambiente e mantermos o organismo equilibrado via homeostase. Resumo da aula 1 Nesta aula observou-se que o Sistema Nervoso Central coordena as informações que chegam do meio externo pelo aparato sensorial e ajudam na regulação do organismo, promovendo a homeostase interna. Sua estrutura e funcionamento mostram a complexidade cerebral, bem como a estrutura do neurônio e o seu funcionamento. Verificou-se como a transmissão acontece via neurônio e pôde-se observar a importância que esse evento tem na transmissão
  • 17. 17 do conhecimento, gerando a aprendizagem. Esta, por sua vez, está ligada à maturação do Sistema Nervoso, se munindo de estruturas como as células nervosas mielinizadas, que ajudam no aumento do fluxo de informações, ou até mesmo a questão da plasticidade neural, que mostra claramente que o cérebro pode se adaptar às situações, criando novos caminhos na condução dos impulsos nervosos, sem perder parte da sua funcionalidade. Atividade de Aprendizagem Qual é a vantagem para um neurônio em possuir bainha de mielina e por que ainda assim o organismo necessita de neurônios que não possuem a bainha de mielina? Aula 2 – O papel da neurociência Apresentação da aula 2 Antes de discorrer sobre os processos e subdivisões das neurociências, é necessário entender a importância do papel desta como uma possibilidade dentro da ciência de compreender como o cérebro funciona e de que maneira somos afetados por esse conhecimento. Sabe-se muito sobre o funcionamento do cérebro, mas ainda faltam lacunas importantes a serem preenchidas, como, por exemplo, saber mais sobre os processos da cognição e de como isso pode ser útil às questões que envolvem a aprendizagem. Hoje, uma das grandes preocupações da educação é fazer com que os processos de ensino e aprendizagem sejam efetivos e que de fato isso ocorra nas salas de aulas e nos espaços informais de educação. Outra grande questão levantada por educadores diz respeito à educação inclusiva. A neurociência tem contribuído cada vez mais, ofertando conhecimentos que estão sendo utilizados na criação de metodologias capazes de ajudar no processo de aprendizagem das pessoas com deficiência.
  • 18. 18 A política de inclusão de alunos que apresentam necessidades educacionais especiais na rede regular de ensino não consiste apenas na permanência física desses alunos junto aos demais educandos, mas representa a ousadia de rever concepções e paradigmas, bem como desenvolver o potencial dessas pessoas, respeitando suas diferenças e atentando suas necessidades (CRUZ et al., 2017, p. 6). Dessa forma, não podemos negar as contribuições que a neurociência pode ofertar para a otimização dos processos de ensino e aprendizagem. 2.1 Neurociência, cérebro e educação O estabelecimento da relação entre a neurociência e a educação está no cérebro. Tanto as neurociências como a educação buscam repostas para que os processos ligados ao ensino e à aprendizagem sejam desvendados e que o conhecimento possa ser utilizado de maneira otimizada. Para isso, o cérebro, enquanto estrutura e função, precisa ser compreendido – e é nesse ponto que a educação e a neurociência podem contribuir para gerar respostas que conduzam ao porquê de conseguimos aprender; como nossas emoções são geradas e são importantes na significação do saber; por quais caminhos nossa memória é conduzida. Assim, fica claro que a neurociência e a educação têm muito a contribuir em prol da aprendizagem e da emoção, ajudando a tornar o conhecimento em um produto de significados e significantes. Muito antes do nascimento, durante o desenvolvimento embrionário, o aparato neural já se desenvolve, demonstrando que o cérebro advém de processos que ocorrem initerruptamente, culminando em uma estrutura complexa, em que milhares de neurônios e gliócitos estabelecem relações, otimizando e decodificando as informações que gerarão respostas rumo à homeostase do organismo e de respostas de caráter sensório-motor. Nesse sentido, existe uma sequência ontogenética do sistema nervoso cujo processo final se caracteriza pela mielinização, ou seja, a aquisição de uma camada lipoproteica – essa mielinização dos neurônios faz com que os impulsos nervosos se tornem mais rápidos, sendo relacionada à aprendizagem.
  • 19. 19 Desenvolvimento do aparato neural no embrião Fonte: https://www.bancodasaude.com/cdn/press/0000000003396.jpg Segundo Kolb e Whishaw (2002), existem regiões do córtex que possuem mielinização precoce e outras regiões que possuem mielinização tardia. Estas últimas regiões são responsáveis pelo controle e funções mentais mais complexas. Outra grande contribuição no estudo do cérebro é a descoberta da plasticidade neural, isto é, da capacidade de reorganização por meio de conexões sinápticas, sempre que houver a necessidade do aparato neural se adaptar às novas capacidades intelectuais e comportamentais das crianças. Isso ajuda a entender a importância que a educação tem no processo de inclusão das pessoas com deficiência, pois é por meio dela que se torna possível criar um conjunto de desafios que façam com que a plasticidade neural produza caminhos alternativos para a cognição acontecer. Disso decorre a importância de a educação ter que conhecer os avanços da neurociência, para poder intervir de maneira mais assertiva, com metodologias mais eficazes e que tornem o aprendizado mais significativo para todos. Somado a isso, o comportamento advindo das interações sociais pode ofertar à neurociência caminhos diversos para análises múltiplas de como funciona o cérebro. 2.1.1 O cérebro e a aprendizagem Para Refletir De que maneira aprendemos? Como o cérebro capta as informações e as decodifica em forma de aprendizagem?
  • 20. 20 Nosso cérebro possui milhares de neurônios e células da glia – células nervosas que se comunicam, emitindo sinais elétricos e transmitindo a informação. Por muitos anos, pensou-se que a rede neural, uma vez formada, não se modificava. Hoje, sabe-se que as conexões neurais são criadas e se refazem, dando ao cérebro uma capacidade adaptativa maior do que se imaginava. Somado a essa dinâmica, os fatores sociais, emocionais, fisiológicos e culturais ajudam a moldar os caminhos da aprendizagem. É a partir dessa relação entre cérebro e aprendizagem que surge o conhecimento e que a memória se alimenta, conservando esses conhecimentos já postos e ofertando a oportunidade de novos conhecimentos se somarem a esses, por meio do uso das competências e habilidades que são adquiridas ao longo da vida. A cada novo episódio na busca pelo conhecimento, as estruturas neurais ganham novas configurações, tais como o brotamento de espículas dendríticas e outras modificações estruturais, possibilitando uma reorganização do encéfalo. Quanto maiores forem os estímulos, maiores serão as chances de ocorrer a aprendizagem; por isso, a educação possui um papel fundamental, assim como a neurociência permite conhecer mais sobre os mecanismos morfofisionômicos do cérebro. No entanto, a aprendizagem não depende somente desses fatores. Os fatores emocionais, sociais e culturais colaboram para a efetividade dos processos de aprendizagem. As experiências que os seres humanos carregam e as oportunidades que lhe são dadas ofertam um campo profícuo ao cérebro, desafiando-o e ajudando a criar novas conexões neurais, aumentando o fluxo de informações para que se retenham aquelas que são significativas, a fim de transformar-lhes em habilidades que serão usadas no dia a dia. Outro aspecto ligado à aprendizagem é que ela está relacionada à memória. Os seres humanos têm um tipo de memória chamada de memória de longa duração, esta pode ser explícita – quando é evocada de maneira consciente ou implícita – quando acontece de forma involuntária. A memória explícita pode ser ainda subdividida em: memória episódica, se referindo àquelas situações que envolvem fatos, pessoas, lugares e semântica – quando envolve o significado dos conceitos.
  • 21. 21 Para entender um pouco melhor, pode-se imaginar a seguinte situação: em um dia de sol, você se encontra na praia, olhando o mar e com os pés sendo molhados pela água do mar. Todas as sensações que você capta por meio dos olhos, da audição, do tato, são sentidas de uma só vez, por meio do córtex de associação; essa informação é transferida para o hipocampo, que permitirá fixar essas imagens e as relacionar com outras informações. Feito isso, essa imagem é transferida de volta ao córtex de associação, onde ocorrerá o armazenamento definitivo. Cada vez que essa imagem é evocada, ou parte dela, a memória estará lá, pronta para reavivar e dar sentido ao que se vê novamente. É importante salientar que a memória não traz a informação original, mas uma informação editada, apoiando-se na original. Portanto, é possível estar diante do mesmo cenário, mas vamos senti-lo de modo diferente. Memória e sensações Fonte: http://www.filcatholic.org/wp-content/uploads/2018/04/beach.jpg 2.1.2 Desenvolvimento cognitivo, do pensamento e de inteligências Dentro da neurociência, os desenvolvimentos da cognição, do pensamento e das inteligências ajudam a desvendar os processos cerebrais que estão ligados ao conhecimento e à aprendizagem.
  • 22. 22 O desenvolvimento cognitivo requer a composição de quatro elementos: a percepção, a memória, o raciocínio e a atenção.  Percepção: o ato de perceber envolve o aparato sensorial. O olhar, o tato e o olfato são veículos de mediação entre o sujeito e o objeto. Aquele que percebe, percebe algo ou alguém. Na percepção, ocorrem três situações: a seleção, isto é, o objeto é sentido, a organização, o cérebro organiza as informações recebidas pelo aparato sensorial, formando uma unidade e, por último, a interpretação, em que o cérebro irá decodificar essa informação e “responder” por meio da utilização da memória o que está sendo percebido.  Memória: a memória é responsável pela retenção de informações e nos permite diferenciar, por meio de sensações, as coisas. Pode- se dizer que existem dois tipos de memória: uma memória de curto prazo e uma memória de longo prazo. Os processos da memória requerem três ações: codificação, retenção e recuperação. Quando nos deparamos com algo, isso é captado por meio da memória sensorial e essa imagem é codificada. Logo em seguida, o cérebro ativa a memória de curto prazo, ou seja, ela recebe as informações já codificadas e pode utilizar, descartar ou organizar as informações. É na memória de longo prazo que as informações já organizadas ficarão retidas e poderão ser acessadas quando for necessário.  Raciocínio: o raciocínio é a parte lógica do pensamento. A partir da informação dada pelo ambiente ou meio interno, o nosso cérebro vai decodificar essas informações, vai evocar a memória e vai utilizar-se de elementos lógicos para dar as respostas mais adequadas. O raciocínio segue uma sequência de padrões mentais que vão levar a um tipo de conclusão.  Atenção: podemos conceituar atenção como um estado de percepção pormenorizada sobre algo, alguém ou algum assunto. Ela requer um foco, ou seja, um direcionamento centrado. A atenção é obtida pelo esforço e direcionamento, disciplinando o
  • 23. 23 cérebro a focar em determinadas situações para que a percepção sobre o que chama a atenção seja total e não se perca. Podemos motivar a atenção, fazendo com que o nosso cérebro entenda que naquele momento o foco dará a resolução do problema. 2.1.3 Contribuições das neurociências na compreensão do desenvolvimento e aprendizagem humanos Quando se fala em desenvolvimento humano, se está preconizando que os processos biológicos que acontecem possuem uma sequência de acontecimentos que culminam com a maturação. A maturação não pressupõe o término de algum processo, mas indica a sua otimização, podendo ser comparada ao clímax em ecologia, quando se trata do ápice em um ecossistema em termos de função. 2.1.4 Neurociência e desenvolvimento humano A neurociência tem se valido do desenvolvimento humano para conseguir entender como o cérebro se desenvolve e em que medida ele é essencial na construção dos estados mentais que ajudam esse desenvolvimento a acontecer. Um dos grandes acontecimentos da neurociência foi a descoberta dos neurônios, a unidade funcional do sistema nervoso. Por meio dessa descoberta, foi possível desencadear uma série de estudos de como a informação passa de um neurônio para o outro e de como isso era decodificado pelo cérebro para gerar uma resposta. O desenvolvimento humano depende tanto de fatores hereditários como ambientais. Uma determinada habilidade pode ser intrínseca e ser estimulada por fatores ambientais, mas uma coisa é certa: as conexões neurais promovem parte das condutas humanas. A construção da intersubjetividade, a consciência de si e dos outros, o conhecimento social, a capacidade de entender as intenções alheias,
  • 24. 24 entre tantas outras capacidades, só se constituem na interação e pela interação com os outros (MOURÃO-JÚNIOR et al., 2017 p. 20). Uma das formas encontradas pelo cérebro para continuar a absorver o ambiente é a sua capacidade de plasticidade, isto é, de estabelecer mudanças funcionais e estruturais, modificando a intensidade das conexões celulares e permitindo que sempre haja o aprendizado. Isso é mais notório na infância do que na idade adulta, porém, é um processo que acompanha todas as fases de desenvolvimento e permite que a aprendizagem sempre aconteça. O desenvolvimento humano é marcado por mudanças biológicas, como o crescimento, a maturação sexual e por mudanças socioculturais que vão moldar uma gama de comportamentos e os estados mentais que serão utilizados por si e para inferir aos outros a opinião sobre seus estados mentais. Em ambos os casos, todas as formas de desenvolvimento irão depender de uma série de habilidades e competências que serão adquiridas ao longo do tempo, refinando as fases do desenvolvimento e fazendo com que as operações mentais se tornem cada vez mais complexas para ler e escrever as subjetividades que marcam a realidade do mundo. Por outro lado, na medida em que os estados mentais tornam-se mais complexos, tornam-se mais ricas as formas de interação, agindo sobre o desenvolvimento cerebral, em uma mão dupla de acionamento. Pesquise Quer saber como a cognição se relaciona com o desenvolvimento humano? Leia o artigo Neurociência Cognitiva e Desenvolvimento Humano, que apresenta uma discussão conceitual a respeito da temática. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/tes/article/view/9552/6316. 2.1.5 Neurociência cognitiva Anatomicamente, se atribui ao córtex pré-frontal o desenvolvimento das funções cognitivas, ocupando 29% do espaço total do córtex. Isso corrobora com
  • 25. 25 a ideia de que as funções cognitivas são importantes e promovem uma ação no cérebro na construção de estados metais cada vez mais refinados. A neurociência cognitiva vai tentar entender como as funções cerebrais vão se transformar em percepção, memória, linguagem e consciência, se relacionando diretamente com a teoria da mente. Dentro da história de vida, o encéfalo humano é recente; ele tem aproximadamente 100.000 anos de existência, mas a sua capacidade cognitiva é excepcional. Nossa história de vida e como ela se desenvolveu permitiu que a estrutura cognitiva acompanhasse o ritmo da nossa jornada, trazendo gratas surpresas em relação ao desenvolvimento e capacidade, chegando hoje a patamares muito bons. Só essa caminhada já prova que o cérebro está em consonância com o ambiente, sendo influenciado por ele e capacitado a reorganizar-se para se adaptar às mais diversas transformações. As ações cerebrais são utilizadas para a execução das tarefas básicas como a locomoção, por meio do aparato motor, e também para a execução de tarefas mais complexas, como o pensamento, a fala e a criatividade. Os comportamentos moldam essas ações. Para entender como o desenvolvimento humano é importante, deve-se considerar duas fases distintas da vida humana: uma, a de recém-nascido e a outra um pouco mais adulta. Na primeira fase, não falamos, não andamos, não seguramos objetos. Como então tudo isso se transforma e passamos a falar, a andar, a segurar objetos e a pensar de maneira subjetiva? O que acontece? Duas hipóteses são possíveis: uma é a de que o aparato neural já formado dependerá inteiramente do ambiente para se desenvolver e o outro é que o aparato neural ainda em formação, na medida que a pessoa se desenvolve, também se desenvolverá, ou seja, a maturação ocorre aos poucos. Essa segunda hipótese é a mais plausível para explicar o desenvolvimento humano. Uma pessoa que contribuiu muito nessa área foi Piaget. Para Piaget, o desenvolvimento cognitivo passa por quatro fases:  Fase sensório-motor: nessa fase, a criança explora o ambiente por meio do aparato motor e sensorial para construir esquemas mentais. Essa fase vai de 0 a dois anos.
  • 26. 26  Fase Pré-operacional: nessa fase, a linguagem simbólica é largamente utilizada e a criança vive no seu mundo; ela desconhece o outro e não é capaz de predizer qualquer sensação. Essa fase vai de 2 a 7 anos.  Fase Operacional: aqui, o pensamento está mais organizado, a cognição é realizada por etapas mais lógicas de pensamento para a resolução de problemas. Nessa fase a criança trabalha com o concreto; ela não é capaz de formular hipóteses. Essa fase vai de 7 aos 11 anos.  Fase das operações formais: nessa fase, a criança já é capaz de formular hipóteses, pois seu aparato dedutivo-hipotético está desenvolvido. As representações abstratas são utilizadas na resolução dos problemas. Dessa forma, Piaget contribuiu para explicar como o desenvolvimento cognitivo acontece. Sob essa perspectiva, o comportamento humano e a função cerebral estão relacionados e moldam-se coevolutivamente: A existência animal depende não somente do meio, mas também do conhecimento do meio. Todo progresso do conhecimento beneficia a ação; todo progresso da ação beneficia o conhecimento (MORIN, 1999, p. 63). Saiba Mais Jean Piaget (1896-1930) foi um biólogo e pesquisador suíço, reconhecido por dedicar-se ao entendimento dos processos de aquisição do conhecimento humano. Dentre suas principais contribuições, destacam-se obras acerca dos mecanismos de funcionamento da inteligência e a respeito das diferentes fases do desenvolvimento infantil. 2.1.6 Contribuição da neurociência para a formação dos professores Uma das questões que permeiam o mundo acadêmico é como fazer com que os alunos aprendam. Nesse contexto, uma coisa é certa: o conhecimento só
  • 27. 27 é aprendido se tiver significado; ele deve despertar a atenção e deve ser também fruto das diferentes vivências. Outra questão é: de que maneira a neurociência pode contribuir para a formação de professores, uma vez que a aprendizagem está atrelada ao ensinar. Pode-se afirmar que a aprendizagem está atrelada ao ensino que coloca para pensar, isto é, que provoca a autonomia dos alunos e é capaz de ajudar no desenvolvimento cognitivo. Atualmente, as metodologias ativas têm sido aplicadas com algum resultado positivo, já que os alunos são instigados e, por essa razão, devem usar seu aparato cognitivo na busca das soluções. Outra possibilidade é a utilização prévia dos conhecimentos. Todas as pessoas sabem de antemão alguma coisa, seja estudando, lendo ou recebendo informação de uma outra pessoa sobre determinado assunto. A quantidade de informações geradas e recebidas pelo cérebro faz com que as conexões neurais sejam mantidas em estado informacional o tempo todo. Não paramos um minuto sequer de pensar, de codificar informação. Mas o que ensinar? Como tornar o assunto relevante diante de tanta informação que nos chega? A neurociência pode contribuir porque ela é capaz de decifrar os processos neurais responsáveis pela formação do conhecimento. Existem autores como Heckman e Kautz (2012) que defendem, por meio de estudos realizados sobre educação, que os espaços escolares devem ofertar, além dos conteúdos formais, como Ciências, História, Geografia, Língua Portuguesa, Matemática, outros conteúdos que abordem e ajudem a desenvolver habilidades como: criatividade, motivação e interação social. Aqui no Brasil, isso vem de encontro com um dos princípios que regem a Base Nacional Comum Curricular, que leva em consideração os conhecimentos prévios dos alunos, devendo estes possuir uma carga cognitiva e motivacional que conduza à autonomia e à criatividade. Nesse caso, a motivação pode fazer com que as informações sejam retidas mais facilmente pelo aluno, já que a cognição envolve a atenção, aumentando as chances de o cérebro reter uma quantidade maior de informações e com mais qualidade. Outro ponto importante se refere às emoções – um conteúdo ensinado de maneira lúdica ou de outra forma e que consiga transmitir emoção será mais rapidamente processado e retido na memória de longa duração. Nesse sentido, o artigo de Carvalho e Boas (2018) afirma que:
  • 28. 28 O entendimento de algumas bases biológicas do funcionamento do sistema nervoso auxiliaria o professor a identificar potenciais habilidades e déficits. Além disso, o educador poderia valer-se das características fisiológicas do sistema nervoso para adaptar sua própria metodologia e conteúdo à atividade de ensino (CARVALHO E BOAS, 2018, p. 236). Esses mesmos autores defendem a ideia de que os professores, durante a sua formação, possam ter conhecimentos básicos sobre funções da mente que influenciam a forma como uma pessoa aprende. Um exemplo de como isso pode melhorar o processo de ensino é entender que o cérebro atua de maneira associativa, ou seja, ele recruta várias partes do cérebro, cada qual responsável pela sua área, como, por exemplo, a auditiva, a tátil e a olfativa, associando e codificando a informação, gerando a resposta. Dentro de uma escola, um projeto que alie as mais diferentes áreas do conhecimento, para lidar com um mesmo assunto, estimula a capacidade neural de associações, aumentando as chances reais de aprendizado. Dessa maneira, a neurociência pode colaborar com a educação e ajudar a fortalecer o processo de ensino e aprendizagem. Dentro do processo de formação do professor, está também a questão da aprendizagem, pois, se considerarmos o professor como mediador do conhecimento, veremos que ele será responsável por aquilo que lhe compete, que é trazer elementos provocadores que resultem na resolução de problemas utilizando os conteúdos formais e o aparato cognoscente do próprio estudante. O estudante deverá se sentir motivado, partindo do pressuposto de que o seu interesse levará ao aprendizado. Nesse caso, as habilidades ou lhe são intrínsecas ou são apreendidas em um “saber-fazer”, sempre na interação com a coletividade da escola ou sala de aula. O professor que quiser tornar as aulas mais interessantes e significativas precisará lançar mão de alguns estudos das neurociências para entender que os processos mentais dos alunos possuem configurações mentais e uma grande plasticidade e que isso deve ser levado em conta na hora da elaboração de atividades ou sugestões de atividades que venham de encontro ao interesse dos estudantes. Esses estudantes, por sua vez, terão que considerar sua cognição e sua motivação para conseguirem solucionar os problemas postos, utilizando, para isso, o raciocínio, a lógica, a criatividade e a interatividade, pois o constructo
  • 29. 29 coletivo determinará a facilidade ou dificuldade de encontrar as melhores soluções ou as mais cabíveis. Para Refletir Você já parou para refletir sobre como a formação de professores pode ser beneficiada pela neurociência? Já parou para pensar que o entendimento do cérebro pode auxiliar no entendimento do que é aprender, tornando o processo didático mais claro e assertivo? Como se pode perceber, a neurociência pode contribuir muito com a educação, pois, na medida em que ela consegue desvendar como o cérebro humano é capaz de pensar e aprender, a escola pode se fazer valer desses conhecimentos, tonando os conteúdos mais relevantes. Resumo da aula 2 Nesta aula observou-se que a neurociência pode contribuir com a educação, fornecendo uma série de elementos que ajudam a desvendar o processo de aprendizagem. Atividade de Aprendizagem Discorra sobre a importância do conhecimento para o desenvolvimento humano. Aula 3 – A Teoria da Mente e a neuroplasticidade Apresentação da aula 3 Um dos questionamentos que surge com a Teoria da Mente se refere à consonância de pensamentos dos sujeitos. Será que o que eu sinto, vejo e a
  • 30. 30 forma como processo está em consonância com o que o outro sujeito pensa, sente e processa a informação? Esse questionamento é importante porque as situações de ensino e aprendizagem envolvem justamente essa consonância de situação. O que eu penso e como elaboro essa forma de pensamento e exponho as minhas ideias é claro o suficiente para que o outro entenda da mesma forma? Procuramos elaborar uma forma de expor que o outro possa entender, mas fica a incógnita se realmente essa consonância acontece. Todos nós temos uma constituição interna e externa. A interna é aquilo que carregamos, nossas subjetividades e a constituição externa é moldada pelas relações que são estabelecidas por nós ao longo dos anos. As representações mentais são capazes de criar e recriar a realidade, a partir do desejo, das crenças e das intenções. Outro aspecto importante da mente se refere à questão da neuroplasticidade, conforme a perspectiva de que o cérebro recria “novos caminhos” para não deixar de atender a uma demanda criada. Isso se mostrou muito eficaz em situações em que o cérebro sofre algum tipo de injúria e tem que se reorganizar. Essa reorganização é capaz de fazer com que as funções mentais sejam restabelecidas, não deixando sequelas. O cérebro possui uma enorme capacidade adaptativa, fazendo com que os processos de ensino e aprendizagem sejam eficazes na resolução de problemas e desafios. Aliás, são os estímulos e desafios que vão ajudar na criação de novas conexões neurais que deem conta de responder às situações advindas do meio externo. Portanto, o ambiente externo pode ajudar muito nas questões mentais. Quanto maior o número de estímulos ofertados, mais chances de o cérebro criar conexões neurais que sejam capazes de atender a demanda, aumentando de maneira real as chances de aprendizado. 3.1 Teoria da mente Uma das características da Teoria da Mente reside no fato de que esta procura entender como os processos mentais internos e externos ocorrem e de que maneira é possível predizer e compreender comportamentos. Pensar em pensar como o outro se comporta é um ato mental interessante, na medida em que isto molda as relações existentes e faz com que as predições criem
  • 31. 31 representações mentais e sociais que são capazes de formar um conjunto de juízos de valor. Importante Na medida em que as interações interpessoais acontecem, as pessoas são capazes de predizer o comportamento alheio e conseguir, por meio dos processos mentais internos, “ler” a mente da outra pessoa, predizendo o que ela sente sobre determinado assunto. Isso faz com que as afinidades surjam e os grupos sociais de formem. Nesse quesito, as representações sociais acabam tendo um papel importante na formação das realidades, pois esta é construída pela percepção mental sobre os itens relacionados ao cotidiano. Com relação a isso, as crenças acabam sendo formadas por esta representação que se faz da realidade pela leitura da mente sobre o mundo. Todos nós carregamos um conjunto de crenças tomadas como verdade; por exemplo, houve um tempo em que se acreditou que a Terra ocupava o centro do Universo – o que moldou um conjunto de valores cuja centralidade das coisas manifestava-se no homem. Quando, por sucessivos estudos, se descobriu que o planeta Terra não é o centro do Universo, a ideia de que o homem é o centro do universo se deslocou também, fazendo com que o comportamento humano mudasse em relação a isso. Outro aspecto da Teoria da Mente é a interpretação de comportamentos. As pessoas são capazes de predizer os estados de ânimo a que as pessoas estão sujeitas. Por exemplo, é perto do meio dia e uma pessoa visita sua casa. Ao meio dia, você tem o costume de almoçar. Seu organismo já se prepara para receber alimento e seu cérebro já se organiza e decodifica ações internas como produzir mais ácido. Sua percepção olfativa também fica mais aguçada, fazendo com que o cheiro seja decodificado pelo cérebro. Você está com fome. Nesse momento, você imagina que a outra pessoa também esteja com fome, sofrendo os mesmos efeitos que você, pois, no seu cotidiano, ao meio dia, as pessoas almoçam. A crença determina muitas vezes a realidade das coisas, por meio da predição de comportamentos que se esperam em determinada situação.
  • 32. 32 Estudos dirigidos por Baron-Cohen (1995) desenvolveram uma teoria para explicar e entender como a mente lê o mundo. Para eles, quatro mecanismos atuam:  Detector de intencionalidade;  Detector de direcionamento do olhar;  Mecanismos de atenção compartilhada;  Mecanismo da teoria da mente. Outro aspecto é a questão da importância da coletividade no reforço da teoria da mente – os aspectos da coletividade incluem a empatia, ou seja, você se colocar no lugar do outro. Para isso, o senso de observação tem que ser aguçado e os esquemas mentais devem acontecer na medida em que se olha para a situação e o sujeito da ação, predizendo comportamentos e possíveis soluções. Estudos de caso podem ajudar a desenvolver aspectos da teoria da mente, pois preconizam um conjunto de ações que seriam tomadas; por exemplo; trazer para a sala de aula um desafio que mostre a seguinte situação: uma pessoa precisa atravessar um rio para conseguir alimento. Ela não dispõe de nada para a travessia do rio. Quais seriam as possibilidades de ela atravessar o rio para obter alimento? Nesse momento, os alunos serão compelidos a predizer uma série de comportamentos que se esperariam dessa pessoa, comportamentos esses preditos em função das crenças que cada aluno carrega para resolver a situação – a isso se denomina Teoria da Mente. Esse tipo de comportamento requer a aquisição de vários requisitos básicos que as pessoas deverão ter para conseguir resolver determinada situação. Para Refletir Não se pode dizer se a velocidade está alta ou baixa de um carro se você só dispõe da informação que esse carro anda 164 metros em 10 segundos. Você tem que saber previamente, calcular a velocidade média e transformar a unidade de metros por segundo (m/s) para quilômetros por hora (Km/h), que é a unidade que conhecemos.
  • 33. 33 3.1.2 Campos de estudo da Teoria da Mente Os campos de estudo que se utilizam da Teoria da Mente são inúmeros; aqui vamos nos ater a alguns deles que julgamos serem importantes para entender como essa teoria se delineia. Um dos campos é a filosofia, em que objetividade e subjetividade criam a realidade das coisas e inculcam ao ser humano as sensações de medo, angústia, serenidade ou também aqui a que chamamos de belo, feio, simpático, antipático, ou seja, o campo das nossas inferências sobre aquilo que vemos e julgamos, já que o nosso comportamento mental perante os outros é o de tentar julgar, analisando, sob parâmetros nossos, outra pessoa que também detém esse mesmo modo operante de ver as coisas. Essa cadeia cíclica de acontecimentos permeia a vida e cria as realidades, baseadas no imaginário, dentro de processos mentais pré-estabelecidos. Nisso a filosofia se descortina, tentando entender, entre os mais diversos filósofos, a ideia da relação entre o pensamento e o mundo físico. A filosofia analisa ideias e práticas que tomamos usualmente como garantidas quando pensamos e agimos (ideias como por exemplo ‘tempo’, ‘número’, ‘certo’ e ‘errado’, e práticas tão gerais e básicas como o conhecimento e a linguagem) (MIGUENS, 2009, p.72). Para a filosofia, se não houvesse uma cisão entre o ser pensante e o objeto pensado, haveria uma realidade sem pensamento e, portanto, destituída de valorações e crenças. Outro campo que usa a teoria da mente e que impulsionou os estudos sobre essa teoria é o campo que estuda a cognição animal. Premack e Woodruff (1978) realizaram um experimento para saber se os chipanzés atribuíam estados mentais próprios e em outros seres. Para isso, eles colocaram um filme em que uma pessoa tentava, em vão, alcançar algumas bananas que estavam penduradas. Eles mostraram fotos de situações em que essa mesma pessoa tentava encontrar uma maneira para solucionar a alcançar as bananas. Intuitivamente, o chipanzé escolheu a foto que intencionalmente mostrava uma solução para a pessoa. Isso demonstrou que, ao se deparar com uma determinada situação, o chipanzé se valeu de processos mentais para inferir uma solução que ele “achava” que o outro iria tomar, baseado em suas próprias
  • 34. 34 decisões. Esse estudo provocou em outros cientistas a curiosidade de saber se esse processo ocorria entre os seres humanos, contribuindo assim para a criação da teoria de mente. Outra vertente que tenta explicar a natureza da Teoria da Mente é a psicologia popular. Essa psicologia tenta entender como as pessoas no dia a dia explicam comportamentos, desejos e intenções. Cada cultura terá o seu repertório próprio de expressar os estados mentais. O conjunto de crenças e desejos imputado a si e ao outro no dia a dia revelam comportamentos e estados da mente que validam a teoria da mente. A psicologia do desenvolvimento e os estudos de Piaget ajudaram a entender como as crianças elaboravam os seus estados mentais e de outras pessoas. Piaget chegou à conclusão de que as crianças e a idade pré-escolar não diferenciavam os estados mentais dos estados físicos. Os sentimentos, as crenças, os desejos e as intenções não eram diferenciadas dos estados físicos. Para Piaget, a criança teria que se descolar do seu egocentrismo e perceber outra realidade para, a partir de então, começar a aquisição da teoria da mente. 3.1.3 Constituição do sujeito De que maneira o desejo e as crenças que o indivíduo carregam são capazes de alterar os estados mentais, a ponto de predizer com segurança o que o outro pensa? Isso também vale para a questão do ensino e da aprendizagem. Todos os seres humanos são constituídos pelo viés do desejo, isto é, da vontade de algo que faça sentido. Essa busca de sentido, ou seja, de significados nos move em certas direções, e essas direções estão putadas pelas crenças que a pessoa carrega pela vida. O fator “crença” é um elemento muito importante na formação da teoria da mente, pois faz com que um conjunto de valores seja mantido e perpetuado ao longo dos anos, podendo sofrer rupturas ou não. Quando esse conjunto de crenças é colocado em xeque, um novo paradigma acaba de ser criado e um novo conjunto de valores tem que ser novamente construído, para que a crença subsista novamente. Essa mesma crença faz com que o sujeito se constitua e aplique a sua verdade perante os outros e perante a vida que ele leva. Como a constituição do sujeito pode afetar a vida de outra pessoa? De que maneira essa crença opera no coletivo? A
  • 35. 35 crença em algo ou em alguma coisa é capaz de alterar os estados da mente e fazer com que toda ação seja colocada no automático, isto é, as ações são produzidas inconscientemente. Aquilo que eu creio deve não ser bom somente para mim, mas para o outro também e desse modo, o sujeito infere de maneira mais incisiva o seu modo de pensar e agir no coletivo. Outro fator de constituição do sujeito é a questão do desejo. Todos nós desejamos algum objeto que possa nos preencher as lacunas que criamos na vida cotidiana. O marketing já se deu conta de que um produto só é consumido se é desejado, então, todas as ações para a venda daquele produto devem ser, antes de tudo, desejadas. O desejo nos move e também é capaz de alterar os estados da mente. Uma vez desafiada, a nossa capacidade cognitiva pode ser estimulada para criar novas conexões neurais, ampliando a gama de possiblidades e de esquemas mentais que sejam capazes de dar conta do desejo que precisa ser satisfeito. Esses dois conjuntos de valores, a crença e o desejo alteram os estados da mente e ajudam e entender a Teoria da Mente. 3.2 Neuroplasticidade cerebral, aprendizagem, memória e as diferentes inteligências O cérebro humano possui a capacidade de se reorganizar estruturalmente, por meio da formação de novos neurônios e funcionalmente, fazendo com que as conexões neurais sejam criadas e mantidas e que os impulsos elétricos tenham como se propagar, possibilitando que um grande número de informações seja codificado, gerando a aprendizagem. Dessa forma, pode-se dizer que a neuroplasticidade ajuda muito no processo de aprendizagem. Essa aprendizagem, por sua vez, pode ser utilizada para fins específicos e temporais curtos – como ter que saber como funciona uma máquina de café para tomá-lo em um determinado instante – ou pode ser significativa, de modo que será utilizada para a vida toda. Ambas irão precisar do aparato cognitivo e da memória para serem armazenadas e posteriormente utilizadas. A primeira vai constituir a memória de curto prazo e a segunda vai se utilizar da memória de longo prazo.
  • 36. 36 A memória vai reter aquilo que ela considera importante para ser usada posteriormente, ou esse conhecimento retido poderá gerar novos conhecimentos. Estes são adquiridos ao longo da vida e advêm do aprimoramento das habilidades inatas e adquiridas que o ser humano possui, por meio dos estímulos das inteligências múltiplas. Algumas dessas inteligências são mais desenvolvidas do que outras, mas todas fazem parte da constituição do indivíduo, permitindo que a capacidade de aprendizagem seja equitativa no sentido de termos todos a mesma possiblidade cognitiva de busca pelo conhecimento. Isso faz com que a neuroplasticidade, a aprendizagem, a memória e as diferentes inteligências estejam relacionadas entre si, cada uma contribuindo para a manutenção dos estados mentais. 3.2.1 Neuroplasticidade e a sua importância Quando o cérebro é capaz de alterar as funções morfológicas e funcionais em detrimento das alterações ambientais, se adaptando e reorganizando, dizemos que ele possui a propriedade de plasticidade. As conexões cerebrais estão sujeitas a se reorganizarem, sempre que uma necessidade de adaptação surja. Com relação à plasticidade, existem alguns tipos, denotando a importância da célula nervosa – o neurônio e gliócitos na questão da condução dos impulsos nervosos.  Plasticidade regenerativa – acontece com muita frequência no sistema nervoso periférico e consiste na possibilidade de um novo crescimento de axônios lesados;  Plasticidade axônica – ocorre no axônio e em crianças de 0 a 2 anos. Representa uma importante plasticidade, pois pode corrigir lesões do sistema nervoso logo após o nascimento;  Plasticidade dendrítica – ocorre na região dos dendritos, que se alteram em número, comprimento, quantidade, densidade e disposição espacial. Ocorre nas fases iniciais de uma pessoa;  Plasticidade somática – esse tipo de plasticidade está envolvido na regulação da proliferação ou morte das células nervosas.
  • 37. 37 Esses tipos de plasticidade fazem do sistema nervoso um sistema altamente regenerador, ao contrário do que se pensava antigamente. Hoje, sabe-se que o poder de adaptação dos neurônios é grande e tem influência nos processos de aprendizagem. A neuroplasticidade está presente principalmente nas fases iniciais de desenvolvimento, mas não cessa, apenas diminui com o passar dos anos. Isso é muito importante, pois a capacidade cognitiva tem a chance de ser desenvolvida a cada momento. A neuroplasticidade nos mecanismos de lesão cerebral é de fundamental importância. Existem três situações de lesão no nível do neurônio: uma que ocorre no corpo celular do neurônio, provocando a sua morte; uma lesão que ocorre no axônio ou quando o neurônio se encontra em estado excitatório diminuído. Estas duas últimas são passives de serem consertadas via neuroplasticidade. Um dos objetivos para recuperar as funções do cérebro é promover a reorganização cerebral. Para isso, estímulos da parte sensório-motora vão ajudar nesse processo. Determinadas tarefas podem ajudar o córtex motor a se reorganizar, direcionando o tecido intacto a trabalhar pelo tecido danificado também – é uma forma de compensação que o cérebro encontra para dar conta na decodificação das informações. Exercícios de fisioterapia são importantes para estimular a formação de novas sinapses, aumentando a capacidade de produção de novos neurônios e aumentando a plasticidade cerebral. Um dos desafios da fisioterapia é criar condições para que a aprendizagem motora aconteça e o indivíduo consiga realizar uma ação ou tarefa. A neuroplasticidade em pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) pode possibilitar o desenvolvimento de habilidades sensoriais que ofertarão uma aprendizagem significativa. Nesse caso, a reabilitação ocorre porque os neurônios são estimulados a se reorganizarem para promover a resposta adequada ao estímulo sofrido.
  • 38. 38 3.2.2 Memória e aprendizagem Pode-se dizer que a aprendizagem está ligada à memória e à atenção, principalmente à memória de logo prazo, pois permite que o conhecimento seja retido e requisitado a qualquer tempo. Os estudos sobre memória foram baseados em estudos experimentais que começaram no século XIX, com os trabalhos de Hermann Ebbinghaus, que testava sua própria memória, tentando memorizar listas de sílabas e, depois, tentando relembrar elas. Muller e Pilzecker também realizaram experimentos de memorização e concluíram que a atenção era um fator chave no processo de assertividade da memorização. Com esses experimentos, foi possível predizer a existência de dois tipos de memória: uma memória curta e uma longa. O aprendizado é a aquisição de novos conhecimentos, e a memória codifica esse conhecimento e o armazena para posteriormente ser utilizado. Pode-se dizer que a memória é o aprendizado retido. Várias partes do cérebro são requisitadas para a formação dos vários tipos de memória:  Memória de curto prazo: utiliza a memória de trabalho, que é utilizada para o desenvolvimento de uma ação ou raciocínio, sendo realizada no córtex pré-frontal; A memória de trabalho não deixa de ser uma memória de curta duração. O que diferencia uma da outra é o fato de a memória de curta duração apenas armazenar a informação de forma passiva por um curto espaço de tempo, enquanto que a memória de trabalho faz todo o gerenciamento da informação de forma mais ativa [...] (SOUZA E SALGADO, 2015, p.143).  Memória de longo prazo: aqui existem dois tipos – a não declarativa e a declarativa. Na não declarativa estão aquelas ações que envolvem a repetição de atividades, seguindo o mesmo padrão e essas atividades contam com as habilidades motoras e intelectuais. Por exemplo: a resolução de um exercício. Dirigir ou andar de bicicleta também são exemplos de ações que se utilizam da memória não declarativa. Já na memória declarativa, os processos internos do cérebro ajudam na codificação de fatos
  • 39. 39 vivenciados e por meio de informações adquiridas por meio de um saber. Cada vez que um novo aprendizado acontece, uma nova sinapse é formada. Nossa rede neural está sempre construindo novas conexões e uma das formas de fazer com que esse novo conhecimento fique enraizado é a repetição. Os cientistas chamam a esse processo de aprendizagem de primming. Diante de uma informação, esse conhecimento é acessado de maneira rápida por meio da memória de longo prazo. O aprendizado é um processo que conduz ao armazenamento de informação como consequência da prática, da experiência e ou da introspecção, produzindo uma alteração relativamente permanente no comportamento real ou potencial. (SOUZA E SALGADO, 2015, p.145). Outro fator relacionado ao aprendizado é que os fatores externos são importantes e afetam a forma como aprendemos. Se o ambiente ofertar condições estimulantes, mais fácil será o aprendizado; se as metodologias forem variadas, mais chances existem para que o aprendizado ocorra e, quanto mais significativo for o que se aprende, mais fácil será, pois ficará retida na memória de longo prazo. O estado emocional também afeta a aprendizagem. Os estados de humor também são responsáveis por uma maior possibilidade de aprender, assim como ter positividade sobre as coisas e pensamento ajuda a nossa mente a focar nos objetivos, tornando a aprendizagem algo concreto para a realização dos desejos. Converse Com Seus Colegas Converse com seus colegas a respeito de como a memória afeta a aprendizagem e de que maneira os exercícios que a reforçam podem auxiliar no fortalecimento de metodologias ligadas ao ato de aprender. 3.2.3 Inteligências múltiplas Como já foi visto, a capacidade de aprendizagem depende de fatores constitutivos do cérebro e também das condições do ambiente. O sistema
  • 40. 40 nervoso é formado pela ectoderme – a camada embrionária mais externa – e isso é importante porque evolutivamente mostra que o sistema nervoso está ligado ao externo. Isso posto dá uma dimensão de quanto o ambiente opera na formação das nossas inteligências e do nosso desenvolvimento. A denominação de “Inteligências Múltiplas” foi concebida por Howard Gardner, um psicólogo de Harvard que criou uma teoria para explicar que as pessoas não possuem somente um tipo de inteligência, mas um conjunto de habilidades que são direcionadas para dois fins: a resolução de problemas e a criação de produtos. Gardner criou essa teoria porque considerava que os testes de QI são limitados frente à complexidade humana, que se faz valer de vários quesitos para viver. Ele afirma que o ser humano possui oito habilidades e que estas fazem parte do seu comportamento, mas que algumas delas são mais desenvolvidas que as outras, haja vista que o ambiente proporcionará um desenvolvimento em tempos diferentes. Um exemplo, é uma pessoa que nasce em um ambiente onde os pais são musicistas. Essa pessoa se desenvolve em um ambiente que valoriza a música, logo a habilidade musical poderá ser mais desenvolvida do que em uma pessoa que tem pouco contato com o universo da musicalidade. Os oito tipos de inteligência são:  Inteligência espacial-visual: esse tipo de inteligência preconiza todo o conhecimento e expertise acerca de imagens e produções gráficas. Ela está ligada à percepção visual. É a capacidade que temos de nos situarmos espacialmente, sabendo onde estamos e para aonde queremos ir. É o tipo de inteligência utilizado, por exemplo, na leitura de um GPS que nos fornece dados para chegarmos a algum lugar. Nosso poder de abstração e espacialização mental nos ajudará nesse processo;  Inteligência verbo-linguística: esse tipo de inteligência está ligado às formas de expressão que o ser humano possui para se comunicar. A oralidade, a linguagem e a produção de gestos são formas de comunicação que são largamente utilizadas;  Inteligência interpessoal: esse tipo preconiza o entendimento dos outros. É a forma como o ser humano se relaciona com outra pessoa,
  • 41. 41 entendendo os seus desejos, sentimentos e motivações; é a expressão da nossa capacidade de se relacionar;  Inteligência intrapessoal: a inteligência intrapessoal se refere aos estados mentais que proporcionam um nível de consciência da própria pessoa. É o ato de reconhecimento dos desejos e intenções pessoais;  Inteligência naturalista: esse tipo de inteligência dá a percepção sobre o mundo natural e se desenvolve na medida em que se tenta compreender como os processos naturais e biológicos acontecem e de como interagimos com o meio-ambiente e vice-versa;  Inteligência corporal-sinestésica: expressa a capacidade de utilizar o corpo para a produção de linguagens. Trata-se do desenvolvimento da corporeidade e de sua relação com o meio;  Inteligência musical: esse tipo envolve as habilidades em se observar tons, sons e ritmos do universo da música. Algumas pessoas possuem a habilidade de possuírem um dom musical inato, a ponto de só de ouvirem uma música saberem como tocar;  Inteligência lógico-matemática: esse tipo de habilidade se refere à capacidade de raciocínio lógico que o ser humano possui. Essas inteligências se referem às capacidades intelectuais que todas as pessoas possuem e que serão mais ou menos desenvolvidas, por meio dos processos de ensino e aprendizagem. Como se pode perceber, aquilo que se configura como Teoria da Mente molda as relações humanas, fazendo com que o cérebro nunca deixe de criar e se reorganizar, aproveitando-se das capacidades intelectuais. Resumo da aula 3 Nesta aula observou-se que a teoria de mente molda as relações humanas. Viu-se também como a neuroplasticidade e a aprendizagem se relacionam e como as inteligências podem potencializar as habilidades.
  • 42. 42 Atividade de Aprendizagem De que maneira as inteligências múltiplas podem ser estimuladas e qual a consequência desse estímulo? Aula 4 – O desenvolvimento cognitivo, afetivo e emocional de indivíduos com TEA Apresentação da aula 4 Dentro do processo do desenvolvimento humano estão as relações que as pessoas estabelecem com outras pessoas; essa interação é fruto de uma relação que ajuda a construir parte do que somos. O homem é um ser social, que se estabelece via linguagem, dando sentido aos diferentes significados e se utilizando de simbologias para se comunicar. Dentro desse processo, ainda faz parte a teoria da mente, pois estabelece um contato maior por permitir a suposição dos desejos e intenções do outro, o que torna as relações mais humanas e dotadas de comportamentos baseados em desejos e crenças. Converse Com Seus Colegas Como as pessoas portadoras de TEA conseguem se relacionar com o mundo, já que parte de sua deficiência está justamente na interação social? Os desenvolvimentos cognitivo, afetivo e emocional dos indivíduos com TEA possuem nuances que precisam ser entendidas, uma vez que a variação e complexidade de graus variados de sintomas manifestantes vão corroborar para os mais variados graus de emotividade, afetividade e de cognição. Independente do grau de severidade ou não do TEA, os indivíduos acabam se reorganizando, permitindo que seus estados mentais trabalhem em prol de uma homeostase muito particular.
  • 43. 43 É preciso insistir em ações que estimulem a cognição, a emoção e a afetividade das pessoas com TEA, não as excluindo, mas aprendendo com elas uma nova maneira de se comunicar, para que essas capacidades venham à tona e ajudem no aprimoramento de habilidades mentais que possibilitem a melhora da condição de vida das pessoas com TEA. 4.1 Caracterização do TEA O Transtorno do Espectro Autista assim é denominado porque não possui somente uma forma de manifestação. A palavra “espectro” remete a graus variados de manifestação dessas desordens neurológicas. A Associação Americana de Psiquiatria classifica o TEA como pertencente ao grupo de transtornos do neurodesenvolvimento (APA,2013). Por definição, o Transtorno do Espectro Autista é caracterizado como um transtorno neurológico, segundo o qual os indivíduos apresentam déficits nas áreas sociais, comportamentais e de comunicação. Não é fácil diagnosticar pessoas com TEA, pois existe uma faixa ampla que faz parte do rol de pessoas com TEA, pois esses transtornos apresentam uma gradação de sintomas. Uma característica em comum é o seu desenvolvimento já na infância. A causa do transtorno é multifatorial, sendo difícil fechar um diagnóstico preciso sobre, pois mesmo geneticamente ela possui variantes. Áreas comprometidas em indivíduos com TEA Fonte: a autora
  • 44. 44 As áreas comprometidas em indivíduos com TEA são de ordem social, pois interferem na comunicação, no comportamento e na interação social. Disso decorre a importância da inclusão como uma forma de inserir as pessoas para que desenvolvam algum grau em algumas dessas vertentes, melhorando a sua qualidade de vida, pois a possibilidade de aquisição de novas aprendizagens e novos comportamentos trazem benefícios muito importantes. Outro fator a se considerar diz respeito à capacidade intelectual que também pode apresentar um grau variado, apresentando graus severos de comprometimento ou graus intelectuais elevados. Essas caracterizações são importantes pois fornecem elementos diversos para a busca de situações que levem em consideração o bem-estar e os direitos das pessoas com TEA. Com relação aos direitos, têm-se buscado, na sociedade, formas mediante Leis e decretos de garantir às pessoas com TEA alguns direitos fundamentais, para que sejam respeitadas e possam contar com uma rede de proteção e apoio efetivos pelo Estado e pela sociedade. Com relação a isso, para fins de lei, existem alguns critérios clínicos, a saber: Deficiência persistente e significativa de comunicação, com deficiência manifesta em:  Comunicação verbal e não verbal;  Sem reciprocidade social;  Não desenvolvimento e manutenção de relações condizentes ao seu nível de desenvolvimento. Padrões de repetição e de restrição comportamentais e de interesses manifestos em:  Comportamento motores ou verbais;  Repetição excessiva de condutas diárias e rotinas muito repetitivas;  Interesses fixos e restritos.
  • 45. 45 LEI Nº 12.764/12 Lei Berenice Piana Art. 1º Esta Lei institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e estabelece diretrizes para sua consecução. Essa Lei é importante, pois fornece diretrizes para a garantia dos seguintes direitos:  Uma vida digna;  Integridade física e moral;  Segurança;  Lazer;  Desenvolvimento livre de expressão. Essa Lei representa um avanço social e reafirma o compromisso do governo brasileiro de estar em consonância com a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD). Dois de seus artigos são muito importantes, pois garantem o acesso aos serviços de saúde e ao serviço educacional, garantindo que as pessoas com TEA tenham plenos direitos e atendimento a serviços essenciais como saúde e educação: Art. 2° É garantido à pessoa com transtorno do espectro autista o direito à saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde – SUS, respeitadas as suas especificidades. Art. 4° É dever do Estado, da família, da comunidade escolar e da sociedade assegurar o direito da pessoa com transtorno do espectro autista à educação, em sistema educacional inclusivo, garantida a transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a educação superior. 4.1.1 Caracterização genética do TEA Conforme observado, o transtorno do espectro autista não é fácil de ser identificado e suas causas não são bem estabelecidas. No nível genético e
  • 46. 46 molecular, essa caracterização se torna mais sutil ainda, devido a uma série de variantes que podem atuar sobre o TEA. O aconselhamento genético pode ser uma ferramenta extremamente importante para a detecção da probabilidade do TEA vir a se desenvolver. O aconselhamento contribui positivamente para se saber da recorrência do distúrbio, o prognóstico e sua terapêutica. Os estudos científicos têm contribuído para entender melhor as bases genéticas e moleculares envolvidas no TEA. Os estudos atuais apontam que o TEA é uma doença heterogênea e complexa e que várias variantes e suas combinações são responsáveis pela sua manifestação, em graus variados, tanto fenotipicamente como genotipicamente. Acredita-se que a hereditariedade esteja presente em torno de 50 a 90% dos casos diagnosticados para TEA, afetando 1% da população, sendo prevalente quatro vezes mais em homens do que em mulheres. Os padrões de herança e as variantes genéticas que atuam sobre o TEA são variáveis e isso torna o TEA um distúrbio que pode vir a se manifestar: [...] Como o impacto fenotípico de cada variante é baixo, se um indivíduo for portador de poucas ou de algumas delas, não desenvolverá a doença e as variantes continuarão sendo transmitidas de geração a geração, tornando-se comuns na população. Consequentemente, a chance de um indivíduo herdar um número suficiente destas variantes de baixo risco a ponto de desenvolver a doença não é tão raro (GRIESI-OLIVEIRA E SERTIÉ, 2017, p. 234). Nesse sentido, acreditava-se que o padrão para a TEA funcionava por um padrão poligênico, mas descobriu-se que a TEA, em muitos casos, ocorre por meio de mutações raras com efeitos deletérios. Existe uma atuação entre variantes comuns e raras, estas combinações irão resultar no desenvolvimento da TEA.  Variantes de baixo risco + variantes de risco moderado = TEA;  Mutação de efeito deletério = TEA;  Variantes comuns de baixo risco + variantes comuns de baixo risco = TEA. O risco de desenvolvimento da doença é maior entre os grupos familiares do que entre grupos populacionais, pois os alelos de risco estão presentes na
  • 47. 47 família. E como se realiza o aconselhamento genético? Existem alguns passos a serem dados para que isso aconteça: 1° Passo – explicação aos familiares dos aspectos genéticos da doença; 2° Passo – estudo do histórico familiar e avaliação das condições clinicas do paciente; 3° Passo – oferta das opções de teste genético; 4° Passo – interpretação dos resultados; 5° Passo – prognóstico e explanação dos tratamentos disponíveis; 6° Passo – comunicação de riscos de recorrência para os familiares. Deve-se ter em conta que o aconselhamento é complexo e de difícil assertividade, dado o grau de variantes. A realização de levantamentos da história familiar e da história clínica pode ajudar muito na assertividade do diagnóstico. Os testes bioquímicos e moleculares para síndromes associadas, o fenótipo clínico e a história familiar, observação empírica dos riscos de recorrência e a análise cromossômica por microarray são possibilidades de diagnóstico do TEA. 4.2 O desenvolvimento cognitivo de indivíduos com TEA A cognição é uma parte importante do desenvolvimento das pessoas e o ato do conhecimento descortina o mundo para o indivíduo que se lança na sua busca. Este, por sua vez, é fruto das interações que são realizadas com outras pessoas e com o ambiente, pois a interação precede ao aparecimento da linguagem, criando possibilidades não verbais de comunicação desde muito cedo. Entretanto, a cognoscência nos indivíduos com TEA se apresenta de forma heterogênea, uma vez que se, por um lado, não há o desenvolvimento da
  • 48. 48 linguagem; por outro lado há o brilhantismo em resolver com facilidade problemas evolvendo cálculos complexos ou a leiturização de notas musicais. De qualquer forma, o importante é que o aparato cognitivo seja sempre estimulado, para que as funções cerebrais se reorganizem, desenvolvendo novas habilidades. Não é porque a socialização é um déficit que ela não precisa ser estimulada, pelo contrário, esses déficits têm que ser muito bem pontuados, para que a intervenção aconteça com qualidade e assertividade. Por isso se dá a importância de saber a respeito do histórico de vida dessas pessoas e ajudá-las segundo o uso de metodologias que sejam capazes de desafiar a busca, pois é essa mesma que vai criar condições de reorganização, fazendo com que a parte cognitiva possa ser desenvolvida dentro da possiblidade de cada indivíduo que possui TEA. O uso da rotina e da repetição podem trazer resultados benéficos, sendo utilizados a favor do portador da TEA. A criação de estações de trabalho em sala de aula, por exemplo, ou a execução repetitiva de gestos e ações positivas podem fazer com que outras partes sejam ativadas, como a afetividade e o desenvolvimento emocional. 4.2.2 O desenvolvimento afetivo de indivíduos com TEA Conforme apresentado anteriormente, indivíduos com TEA não conseguem predizer as emoções alheias, fazendo com que a Teoria de Mente não exista. Com isso, a relação com o outro fica deficitária, pois um dos campos afetados diz respeito à afetividade. Uma das formas de contato que a criança tem ao nascer e que ela estabelece com o mundo é a visão. Esse campo mágico de observação a coloca no mundo, mesmo que não a situe, mas faz com que os processos mentais já tenham a capacidade de reter o que os olhos são capazes de enxergar. Uma das características do autismo se refere ao olhar. Essa falta de identificação do outro interfere na afetividade, pois a interação social se estabelece pela via afetiva e, no caso de indivíduos com TEA, isso não acontece. No entanto, pode ser desenvolvido. A reciprocidade não deve desestimular, pelo contrário, ela deve ser sempre estimulada e evidenciada. O carinho, a troca de olhar e a fala constituem formas de evidenciar a afetividade
  • 49. 49 e isso não deve ser deixado de lado quando se trata de criar formas para que a criança receba carinho e amor. As intersubjetividades primárias que acontecem por volta dos dois a nove meses e as intersubjetividades secundárias, que ocorrem por volta dos nove aos quinze meses são afetadas, sendo essa segunda um pouco mais evidente. Existe um déficit na atenção compartilhada, fazendo com que, por exemplo, o objeto compartilhado não exista. 4.2.3 O desenvolvimento emocional de indivíduos com TEA Umas das prerrogativas referentes aos indivíduos com TEA é a de não conseguirem compreender o que significam os atos emocionais e sociais dos estímulos. Outro aspecto é que a metarrepresentação nesses casos não existe, ou seja, não há a representação dos estados mentais de outras pessoas acerca de seus desejos e intenções. Essa é uma linha para explicar porque as crianças não interagem e se relacionam com outras pessoas. A falta de sociabilidade seria pela falta de não possuírem uma teoria da mente. A emoção é uma forma de expressão dos sentimentos que personificam alguém ou algum objeto. A emoção pode ser traduzida como um estado de contentamento e isso é refletido de várias maneiras, não sendo a linguagem necessariamente a porta-voz da comunicação da expressão. Essa expressividade pode advir de uma mudança de feição ou outros gestos que signifiquem esse estado. Os indivíduos com TEA possuem grande dificuldade em expressar as suas emoções, em parte porque a personificação não acontece. Eles possuem uma capacidade limitada na percepção de que algo cause comoção, conforme Fraga: A ausência de habilidade em perceber e compreender expressões emocionais em outras pessoas parece relacionar-se com a limitação, ou mesmo falta da capacidade de imaginar qualquer coisa (FRAGA, 2009, p.11). Mas essa questão não é impeditiva de que os indivíduos com TEA não possam desenvolver a habilidade de reconhecimento de estados mentais que indiquem feições e, desse modo, a emoção entra nesse quesito por permitir que eles reconheçam esses estados mentais. Exercícios que mostrem feições
  • 50. 50 faciais são um bom exemplo para que haja o reconhecimento desses estados, aprendendo a assinalar as feições de tristeza ou alegria ao ver uma fotografia. Trabalhando Expressões Faciais Fonte: http://obuchalka-dlya-detey.ru/kak-obuchit-rebenka-raspoznavat-emotsii-drugih- lyudey/ Outra possiblidade é o reconhecimento das emoções por figuras caricatas, pois estas simbolizam mais os estados por serem desenhados com mais clareza. Uma terceira possibilidade para se trabalhar as emoções pode ser por meio de imagens que demonstrem um estado mental, como a possibilidade de ganhar flores e ficar feliz. Essas associações são importantes, pois, mesmo não tendo o componente de reconhecimento do outro, o indivíduo pode ter o contato com os estados mentais que expressam a emoção de outra maneira. É como se a emoção fosse descolada e apresentada para a pessoa com TEA. Dessa maneira, ela pode personificar a emoção e ter a capacidade de reconhecimento, mesmo que rudimentar. Resumo da aula 4 Nesta aula observou-se que os desenvolvimentos cognitivo, afetivo e emocional estão atrelados à tríade: comportamento, interação social e a comunicação. Viu-se também que o TEA possui características que devem ser
  • 51. 51 levadas em consideração, pois fornecem importantes indícios de como trabalhar essas questões e ajudar no desenvolvimento delas. Atividade de Aprendizagem A Lei Berenice Piana é fruto de uma série de lutas travadas pela sociedade para que as pessoas com transtorno do espectro autista tenham seus direitos garantidos, contemplando dois pontos muito importantes: o direito à saúde e à educação. De que maneira esses direitos melhoram a qualidade de vida das pessoas com TEA?
  • 52. 52 Resumo da disciplina Nesta disciplina apresentou-se que a neurociência tem muito a contribuir com os vários campos do saber. Viu-se que o conhecimento do cérebro, ao mesmo tempo em que ajuda a dirimir as dúvidas acerca do seu funcionamento, suscita outras tantas, pois este órgão continua a ser uma “caixa de pandora”, a ser descortinada para que patologias como o transtorno do espectro autista possam ser melhor estudadas e compreendidas e que as pessoas que o possuem tenham melhores condições de vida e ferramentas diagnósticas e terapêuticas, assim como prognósticos mais assertivos. Observou-se como a teoria da mente opera e é importante na construção das relações humanas, pois todo o conjunto de crenças e de desejos se baseiam na premissa dessa teoria, construindo as relações e as realidades. Outro ponto importante é que a neurociência contribui com os processos educacionais, ajudado na escolha de metodologias mais ativas e assertivas, que visem e otimizem o conhecimento, tornando-o uma importante ponte de acesso para a construção de realidades mais humanizadas.
  • 53. 53 Referências ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2013. AVERSI-FERREIRA, T. A. et al. Effects of acute prenatal exposure to ethanol on the postnatal morphology of the prefrontal córtex in wistar rats. Braz. J. Morphol. Sci.; Campinas, v. 21, p. 97-101, 2004. Baron-Cohen, S. (1995). Learning, development, and conceptual change. Mindblindness: An essay on autism and theory of mind. Cambridge, MA, US: The MIT Press. CARVALHO, Diego de e BOAS, Cyrus, Antônio Villas. Neurociência e formação de professores: reflexos na educação e na economia. Ensaio: aval. pd. púb. Educ, Rio de Janeiro, v. 26, n. 98, p. 231-247. CRUZ, L.H.C; FERREIRA, R. S. C; MATTA, F.S.P; COSTA,F.V. Neurociências e Educação Inclusiva: Desafios e Perspectivas. Nova Serrana, Minas Gerais, 2017. p.28. FERRARI, Elenice A. de Moraes, TOYODA, Margarete Satie S., FALEIROS, Luciane, & CERUTTI, Suzete Maria. (2001). Plasticidade neural: relações com o comportamento e abordagens experimentais. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 17(2), 187-194. FRAGA, Maria Nilda Nabarrete. Ensino de habilidades emocionais para pessoas autistas. Programa de Desenvolvimento Educaional –PDE, Maringá, 2009. GRIESE- OLIVEIRA, Karina e SERTIÉ, Andrea Laurato. Transtornos do espectro autista: um guia atualizado para aconselhamento genético. Einsten, 2017; 15(2):233 -238. HECKMAN, J. J.; KAUTZ, T. Hard evidence on soft skills. Labour Economics, v. 19, n. 4, p. 451–464, 2012. KOLB, Bryan; WHISHAW, Ian Q. Neurociência do comportamento. Barueri, SP:Manole, 2002. MENDES, P B.; MELO, S. Origem e desenvolvimento da mielina no sistema nervoso central- um estudo de revisão. Revista Saúde e Pesquisa, v. 4, n. 1, p. 93-99, jan./abr. 2011 MOURÃO-JUNIOR ,Carlos Alberto, ELAINE ,Faria e OLIMPIO Andreia,. (2017). Neurociência cognitiva e desenvolvimento humano. seer.fclar.unesp.br. 7. 9- 30.
  • 54. 54 MORIN, Edgar. O método 3: a consciência da consciência./Edgar Morin; trad. Juremir Machado da Silva. 2ª ed. – Porto Alegre: Sulina, 1999. 288p. MIGUENS, Sofia. Compreender a Mente e o Conhecimento. 2ª ed.- Porto: U.Porto, 2009. 399p. PREMACK, D. & WOODRUFF, G. (1978). Does the chimpanzee have a "theory of mind"? Behavioural and Brain Sciences, 4, 515-26. SOUZA, A. B e SALGADO, T.D.M. Memória, aprendizagem, emoções e inteligência. Revista Liberato, Novo Hamburgo, v.16, n.26, p. 101-220. 2015 Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral ou de suas páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe da Assessoria de Marketing da Faculdade São Braz (FSB). O não cumprimento destas solicitações poderá acarretar em cobrança de direitos autorais.