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A reportagem sobre “NOVE RESPOSTAS SOBRE ALFABETIZAÇÃO” Com
Texto publicado no Blog: http://richardreinaldo.blogspot.com.br, e extraído
do site EDUCAR PARA CRESCER, nos trás dicas para aprimorarmos a
alfabetização das crianças nos primeiros anos de forma bem simples
confira...

ALFABETIZAÇÃO

Nove Respostas Sobre Alfabetização

Por onde começar? Quando meus alunos precisam estar
alfabetizados? Pode-se alfabetizar na Educação Infantil?
Tire estas e outras dúvidas sobre alfabetização
Texto: Meire Cavalcante e Juliana Bernardino (edição)




                                                              Foto: Fernanda Sá




Estimular a leitura é o primeiro passo para incentivar a escrita

Inserir todas as crianças de seis anos em um ambiente alfabetizador foi um dos
principais objetivos da aprovação do Ensino Fundamental de 9 anos, em
fevereiro de 2006. A medida beneficiou crianças que não tinham acesso à
Educação Infantil, ficando, muitas vezes, completamente distantes da cultura
escrita - o que poderia representar um obstáculo para a sua experiência futura
de alfabetização.
Apesar de a medida ser um passo importante, Telma Weisz, criadora do
Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa), do Ministério
da Educação, acredita que ainda há muito a aprimorar na questão da
alfabetização, sobretudo porque a tarefa não é apenas dos professores das
séries iniciais. "Estamos sempre nos alfabetizando, a cada novo tipo de texto
com o qual entramos em contato durante a vida", afirma.

Por essa razão, tratar leitura e escrita como conteúdo central em todos os
estágios é a maior garantia de sucesso que as escolas podem ter para inserir
os estudantes na sociedade. É o que fazem muitas professoras de 1ª a 4ª série
de Catas Altas (MG), capacitadas pelo Programa Escola que Vale. Mesmo
recebendo crianças que não nunca tiveram contato com o chamado mundo
letrado antes da 1ª série, os educadores conseguem alfabetizar ao final de um
ano.

"Um fator determinante para a alfabetização é a crença do professor de que o
aluno pode aprender, independentemente de sua condição social", diz Antônio
Augusto Gomes Batista, diretor do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da
Universidade Federal de Minas Gerais. Esse olhar do docente abre as portas
do mundo da escrita para os que vêm de ambientes que não ofereceram essa
bagagem.

No município de São José dos Campos (SP), professores de Educação Infantil
tentam evitar essa defasagem, lendo diariamente para os pequenos. Assim,
por meio de brincadeiras, criam situações das quais a língua escrita faz parte.
Já em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, duas especialistas de Língua
Portuguesa e Ciências tiveram de correr atrás do prejuízo com turmas de 5ª
série que ainda apresentavam problemas de escrita. Para isso, aliaram muita
leitura a um trabalho sobre prevenção à aids, que fazia sentido para eles e
tinha uma função social.

Com base nessas experiências, relatadas a seguir, e na opinião de
especialistas, respondemos a nove questões sobre alfabetização, mostrando
ser possível formar leitores e escritores competentes em qualquer estágio do
desenvolvimento.

1- Meus alunos de 1ª série não têm contato com a escrita. Por onde começo?

O pouco acesso à cultura escrita se deve às condições sociais e econômicas
em que vive grande parte da população. O aluno que vê diariamente os pais
folheando revistas, assinando cheques, lendo correspondências e utilizando a
internet tem muito mais facilidade de aprender a língua escrita do que outro
cujos pais são analfabetos ou têm pouca escolaridade. Isso ocorre porque ao
observar os adultos a criança percebe que a escrita é feita com letras e
incorpora alguns comportamentos como folhear livros, pegar na caneta para
brincar de escrever ou mesmo contar uma história ao virar as páginas de um
gibi. Cabe à escola oferecer essas práticas sociais aos estudantes que não têm
acesso a elas. O ponto de partida para democratizar o contato com a cultura
escrita é tornar o ambiente alfabetizador: a sala deve ter livros, cartazes com
listas, nomes e textos elaborados pelos alunos (ditados ao professor) nas
paredes e recortes de jornais e revistas do interesse da garotada ao alcance de
todos. Esses são alguns exemplos de como a classe pode se tornar um espaço
provocador para que a criança encontre no sistema de escrita um desafio e
uma diversão. Outra medida para democratizar esses conhecimentos em sala
de aula é ler diariamente para a turma. "A criança lê pelos olhos do professor -
porque ainda não pode fazer isso sozinha -, mas vai se familiarizando com a
linguagem escrita", explica a educadora Patrícia Diaz, da equipe pedagógica do
Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac), em São
Paulo.

2- Quando posso pedir que as crianças escrevam?

Elas devem escrever sempre, mesmo quando a escrita parece apenas
rabiscos. Ao pegar o lápis e imitar os adultos, elas criam um "comportamento
escritor". E, ao ter contato com textos e conhecer a estrutura deles, podem
começar a elaborar os seus. No primeiro momento, as crianças ditam e você,
professor, escreve num papel grande. Além de pensar na forma do texto, nessa
hora os estudantes percebem, por exemplo, que escrevemos da esquerda para
a direita. "Mostro que a escrita requer um tempo de reflexão antes de ser
colocada no papel", afirma Cleonice Maria Rodrigues Magalhães, professora de
1ª série da Escola Municipal Agnes Pereira Machado, em Catas Altas (MG).
Ela participou do Programa Escola que Vale, que capacitou professores de 1ª a
4ª série do município durante dois anos e meio. Antes da escrita, as crianças
devem definir quem será o leitor. Assim, quando você lê o texto coletivo, elas
imaginam se ele compreenderá a mensagem. Nas primeiras produções haverá
palavras repetidas, como "daí". Pelo contato diário com textos, os alunos já são
capazes de revisar e corrigir erros. "Com o tempo, antes mesmo de ditar, eles
evitam repetir palavras e pensam na melhor forma de contar a história", afirma
Rosana Scarpel da Silva, professora do Infantil IV (6 anos), da Escola
Municipal de Educação Infantil Maria Alice Pasquarelli, em São José dos
Campos. Em paralelo, é importante convidar a garotada a escrever no papel.
Isso dá pistas valiosas sobre seu desenvolvimento.

3- Como faço todos avançarem se os níveis de conhecimento são muito
diferentes?

Não há nada melhor em uma turma que a heterogeneidade. Como os níveis de
conhecimento são variados, existe aí uma grande riqueza para ser trabalhada
em sala. Organizar os alunos em grupos e duplas durante as atividades é
fundamental para que eles troquem conhecimentos. Mas essa mistura deve ser
feita com critérios. É preciso agrupar crianças que estejam em fases de
alfabetização próximas. Quando você coloca uma que usa muitas letras para
escrever cada palavra trabalhando com outra que usa uma letra para cada
sílaba, a discussão pode ser produtiva. Como elas não sabem quem está com
a razão, ambas terão de ouvir o colega, pensar a respeito, reelaborar seu
pensamento e argumentar. Assim, as duas aprendem. Isso não ocorre, no
entanto, se os dois estiverem em níveis muito diferentes. Nesse caso, é
provável que o mais adiantado perca a paciência e queira fazer o serviço pelo
outro.

4- Posso alfabetizar minha turma de Educação Infantil?

Sim, desde que a aprendizagem não seja uma tortura. Participar de aulas que
despertem a curiosidade e envolvam brincadeiras e desafios nunca será algo
cansativo. Em turmas que têm acesso à cultura escrita, a alfabetização ocorre
mais facilmente. Por observar os adultos, ouvir historinhas contadas pelos pais
e brincar de ler e escrever, algumas crianças chegam à Educação Infantil em
fases avançadas. Por isso, oferecer acesso ao mundo escrito desde cedo é
uma forma de amenizar as diferenças sociais e econômicas que abrem um
abismo entre a qualidade da escolarização de crianças ricas e pobres. Dentro
dessa concepção, a rede municipal de São José dos Campos implementou
horas de trabalho coletivo para a formação continuada dos professores. Há um
coordenador pedagógico por escola e uma equipe técnica responsável pelo
acompanhamento dos coordenadores. As crianças de 3 a 6 anos atendidas
pela rede aprendem, brincando, a usar socialmente a escrita. Em sala, os
professores lêem diariamente e promovem brincadeiras. Os pequenos
identificam com seu nome pastas e materiais, usam crachás, produzem textos
coletivos que ficam expostos nas paredes e têm sempre à mão livros e
brinquedos. "Nossas atividades incentivam a pensar sobre a escrita, tornando-a
um objeto curioso a ser explorado. E tudo de forma dinâmica, porque a
dispersão é rápida", conta Clarice Medeiros, professora do Infantil III (5 anos)
da escola Maria Alice Pasquarelli. "No ano passado, quando recebi os alunos
de 3 anos, eles já sabiam diversos poemas e conheciam Vinicius de Moraes.
Também identificavam as diferenças entre alguns gêneros textuais", lembra
Liliane Donata Pereira Rothenberger, professora do Infantil II (4 anos). De
acordo com a orientadora pedagógica Helena Cristina Cruz Ruiz, o objetivo é
desenvolver o comportamento leitor desde cedo para que os alunos se
comuniquem bem, produzam conhecimentos e acessem informações.

5- Faz sentido oferecer textos a estudantes não-alfabetizados?

Canções, poesias e parlendas são úteis para se chegar à incrível mágica de
fazer a criança ler sem saber ler. Quando ela decora uma cantiga, pode
acompanhar com o dedinho as letras que formam as estrofes. Conhecendo o
que está escrito, resta descobrir como isso foi feito. Se o aluno sabe que o
título é Atirei o Pau no Gato, ele tenta ler e verificar o que está escrito com
base no que sabe sobre as letras e as palavras - sempre acompanhado pelo
professor. O leitor eficiente só inicia a leitura depois de observar o texto, sua
forma, seu portador (revista, jornal, livro etc.) e as figuras que o acompanham e
imaginar o tema. Pense que você nunca viu um jornal em alemão. Mesmo sem
saber decifrar as palavras, é possível "ler". Se há uma foto de dois carros
batidos, por exemplo, deduz-se que a reportagem é sobre um acidente. Ao
mostrar vários gêneros, você permite à criança conhecer os aspectos de cada
um e as pistas que trazem sobre o conteúdo. Assim, ela é capaz de antecipar o
que virá no texto, contribuindo para a qualidade da leitura.

6- Como seleciono e uso os textos em sala?

Segundo Patrícia Diaz, do Cedac, é preciso ter critérios e objetivos bem
estabelecidos ao escolher os textos. Por exemplo: se ao tentar diversificar os
gêneros você ler um por dia, os alunos não perceberão as características de
cada um. "O ideal é que a turma passeie por diversos gêneros ao longo do ano,
mas que o professor trace um plano de trabalho para se aprofundar em um ou
dois", afirma. Patrícia sugere a narração como base para o trabalho na
alfabetização inicial, pois ela permite ao aluno aprender sobre a estrutura da
linguagem e do encadeamento de idéias. A escolha dos textos deve ser feita
de acordo com o repertório da turma. É preciso verificar se a maioria dos
alunos passou ou não pela Educação Infantil, que experiência eles têm com a
escrita e que gêneros conhecem. Durante a leitura de uma revista, por
exemplo, é importante chamar a atenção para títulos, legendas e fotos. Assim,
as crianças aprendem sobre a forma e o conteúdo. Se o texto é sobre plantas,
percebem que nomes científicos aparecem em itálico. "Por isso é fundamental
trabalhar com os originais ou fotocópias", ressalta Patrícia. Adaptar os textos
também não é recomendável. As crianças devem ter contato com obras
originais, uma vez que, ao longo da vida, serão elas que cruzarão o seu
caminho. Se um texto é muito difícil para turmas de uma certa faixa etária, o
melhor é procurar outro, sobre o mesmo assunto, de compreensão mais fácil.

7- Ao fim da 1ª série, todos devem estar alfabetizados?

Não necessariamente, apesar de ser recomendável. Se a criança foi exposta a
textos e leituras variadas e teve oportunidade de refletir sobre a língua e
produzir textos, é bem provável que ela termine essa série alfabetizada. Mas
isso depende de outros fatores, como ter cursado a Educação Infantil e
recebido apoio dos pais em casa. "Crianças que não têm esse contato com
textos e que não convivem com leitores podem precisar de mais tempo para
aprender o sistema de escrita. Mas minha experiência mostra que nenhuma
criança leva mais de dois anos para isso", diz a educadora Telma Weisz, de
São Paulo. Como na educação não existem fôrmas em que se encaixem as
crianças, é papel da escola oferecer condições para que elas se desenvolvam,
sempre respeitando o ritmo de cada uma. Quando se adota o sistema de
ciclos, isso ocorre naturalmente, pois os alunos têm possibilidade de se
aperfeiçoar no ano seguinte. Quando não há essa chance, eles correm o risco
de engrossar os índices de reprovação. O aluno pode iniciar a 2ª série ainda
tendo que melhorar a sua compreensão sobre o sistema de escrita, mas ao fim
do segundo ano a escola teve tempo suficiente para ensinar a todos.

8- Preciso ensinar o nome das letras?

Sim. Como a criança poderá falar sobre o que está estudando sem saber o
nome das letras? Ter esse conhecimento ajuda a turma a explicar qual letra
deve iniciar uma palavra, por exemplo. Para ensinar isso, basta citar o nome
das letras durante conversas corriqueiras. Se a criança está mostrando a que
quer usar e não sabe o nome, basta que você a aponte e diga qual é. Trata-se
de algo que se aprende naturalmente e de forma rápida, sem precisar de
atividades de decoreba que cansam e desperdiçam o seu tempo e o do aluno.

9- Como ajudo alunos de 5ª série que ainda não lêem nem escrevem bem?

É angustiante para o professor receber crianças com problemas de
alfabetização. Por não conhecer o assunto, acredita que a escrita incorreta é
indício de que elas não se alfabetizaram. Mas nem sempre essa avaliação é
verdadeira. O mais comum é a criança já dominar a base alfabética, mas ter
sérios problemas de ortografia e interpretação. Daí a impressão de que ela não
sabe ler e escrever. Foi essa experiência por que passaram as professoras
Valéria de Araújo Pereira, de Língua Portuguesa, e Jaidê Canuto de Sousa, de
Ciências, ambas da Escola Estadual Maria Catharina Comino, em Taboão da
Serra (SP). Em 2005, elas lecionavam para uma turma de 5ª série de
recuperação de ciclos com muitos problemas de escrita, o que as motivou a
procurar a Diretoria de Ensino para participar do programa Letra e Vida,
oferecido pela rede paulista a professores de 1ª a 4ª série. "Fiquei surpresa
com a insistência das duas. Como havia vagas, abrimos uma exceção e valeu
a pena", diz Silvia Batista de Freitas, coordenadora-geral do programa na
Diretoria de Ensino da cidade. O curso iniciou em março. No segundo
semestre, a turma de alunos foi distribuída nas salas regulares. Com o objetivo
de trabalhar a escrita, Valéria e Jaidê elaboraram um projeto sobre aids. Os
alunos assistiram a vídeos, debateram e levantaram o que sabiam e o que
gostariam de saber sobre o assunto. As leituras foram sistemáticas e diárias,
com pesquisas em livros, revistas, enciclopédias, internet e panfletos
informativos - gênero escolhido para ser o produto final do projeto. "Leitura e
escrita não são apenas conteúdos de Língua Portuguesa. São práticas
necessárias em todas as disciplinas e em todas as séries", diz Jaidê. "Por isso,
temos a responsabilidade de conhecer o modo como os alunos aprendem e
assim estimulá-los a ser leitores e escritores mais competentes", conclui
Valéria.
Fonte: http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/dicas-alfabetizacao-403863.shtml

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Nove respostas sobre alfabetização

  • 1. A reportagem sobre “NOVE RESPOSTAS SOBRE ALFABETIZAÇÃO” Com Texto publicado no Blog: http://richardreinaldo.blogspot.com.br, e extraído do site EDUCAR PARA CRESCER, nos trás dicas para aprimorarmos a alfabetização das crianças nos primeiros anos de forma bem simples confira... ALFABETIZAÇÃO Nove Respostas Sobre Alfabetização Por onde começar? Quando meus alunos precisam estar alfabetizados? Pode-se alfabetizar na Educação Infantil? Tire estas e outras dúvidas sobre alfabetização Texto: Meire Cavalcante e Juliana Bernardino (edição) Foto: Fernanda Sá Estimular a leitura é o primeiro passo para incentivar a escrita Inserir todas as crianças de seis anos em um ambiente alfabetizador foi um dos principais objetivos da aprovação do Ensino Fundamental de 9 anos, em fevereiro de 2006. A medida beneficiou crianças que não tinham acesso à Educação Infantil, ficando, muitas vezes, completamente distantes da cultura escrita - o que poderia representar um obstáculo para a sua experiência futura de alfabetização.
  • 2. Apesar de a medida ser um passo importante, Telma Weisz, criadora do Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa), do Ministério da Educação, acredita que ainda há muito a aprimorar na questão da alfabetização, sobretudo porque a tarefa não é apenas dos professores das séries iniciais. "Estamos sempre nos alfabetizando, a cada novo tipo de texto com o qual entramos em contato durante a vida", afirma. Por essa razão, tratar leitura e escrita como conteúdo central em todos os estágios é a maior garantia de sucesso que as escolas podem ter para inserir os estudantes na sociedade. É o que fazem muitas professoras de 1ª a 4ª série de Catas Altas (MG), capacitadas pelo Programa Escola que Vale. Mesmo recebendo crianças que não nunca tiveram contato com o chamado mundo letrado antes da 1ª série, os educadores conseguem alfabetizar ao final de um ano. "Um fator determinante para a alfabetização é a crença do professor de que o aluno pode aprender, independentemente de sua condição social", diz Antônio Augusto Gomes Batista, diretor do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Universidade Federal de Minas Gerais. Esse olhar do docente abre as portas do mundo da escrita para os que vêm de ambientes que não ofereceram essa bagagem. No município de São José dos Campos (SP), professores de Educação Infantil tentam evitar essa defasagem, lendo diariamente para os pequenos. Assim, por meio de brincadeiras, criam situações das quais a língua escrita faz parte. Já em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, duas especialistas de Língua Portuguesa e Ciências tiveram de correr atrás do prejuízo com turmas de 5ª série que ainda apresentavam problemas de escrita. Para isso, aliaram muita leitura a um trabalho sobre prevenção à aids, que fazia sentido para eles e tinha uma função social. Com base nessas experiências, relatadas a seguir, e na opinião de especialistas, respondemos a nove questões sobre alfabetização, mostrando ser possível formar leitores e escritores competentes em qualquer estágio do desenvolvimento. 1- Meus alunos de 1ª série não têm contato com a escrita. Por onde começo? O pouco acesso à cultura escrita se deve às condições sociais e econômicas em que vive grande parte da população. O aluno que vê diariamente os pais folheando revistas, assinando cheques, lendo correspondências e utilizando a internet tem muito mais facilidade de aprender a língua escrita do que outro cujos pais são analfabetos ou têm pouca escolaridade. Isso ocorre porque ao observar os adultos a criança percebe que a escrita é feita com letras e incorpora alguns comportamentos como folhear livros, pegar na caneta para brincar de escrever ou mesmo contar uma história ao virar as páginas de um
  • 3. gibi. Cabe à escola oferecer essas práticas sociais aos estudantes que não têm acesso a elas. O ponto de partida para democratizar o contato com a cultura escrita é tornar o ambiente alfabetizador: a sala deve ter livros, cartazes com listas, nomes e textos elaborados pelos alunos (ditados ao professor) nas paredes e recortes de jornais e revistas do interesse da garotada ao alcance de todos. Esses são alguns exemplos de como a classe pode se tornar um espaço provocador para que a criança encontre no sistema de escrita um desafio e uma diversão. Outra medida para democratizar esses conhecimentos em sala de aula é ler diariamente para a turma. "A criança lê pelos olhos do professor - porque ainda não pode fazer isso sozinha -, mas vai se familiarizando com a linguagem escrita", explica a educadora Patrícia Diaz, da equipe pedagógica do Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac), em São Paulo. 2- Quando posso pedir que as crianças escrevam? Elas devem escrever sempre, mesmo quando a escrita parece apenas rabiscos. Ao pegar o lápis e imitar os adultos, elas criam um "comportamento escritor". E, ao ter contato com textos e conhecer a estrutura deles, podem começar a elaborar os seus. No primeiro momento, as crianças ditam e você, professor, escreve num papel grande. Além de pensar na forma do texto, nessa hora os estudantes percebem, por exemplo, que escrevemos da esquerda para a direita. "Mostro que a escrita requer um tempo de reflexão antes de ser colocada no papel", afirma Cleonice Maria Rodrigues Magalhães, professora de 1ª série da Escola Municipal Agnes Pereira Machado, em Catas Altas (MG). Ela participou do Programa Escola que Vale, que capacitou professores de 1ª a 4ª série do município durante dois anos e meio. Antes da escrita, as crianças devem definir quem será o leitor. Assim, quando você lê o texto coletivo, elas imaginam se ele compreenderá a mensagem. Nas primeiras produções haverá palavras repetidas, como "daí". Pelo contato diário com textos, os alunos já são capazes de revisar e corrigir erros. "Com o tempo, antes mesmo de ditar, eles evitam repetir palavras e pensam na melhor forma de contar a história", afirma Rosana Scarpel da Silva, professora do Infantil IV (6 anos), da Escola Municipal de Educação Infantil Maria Alice Pasquarelli, em São José dos Campos. Em paralelo, é importante convidar a garotada a escrever no papel. Isso dá pistas valiosas sobre seu desenvolvimento. 3- Como faço todos avançarem se os níveis de conhecimento são muito diferentes? Não há nada melhor em uma turma que a heterogeneidade. Como os níveis de conhecimento são variados, existe aí uma grande riqueza para ser trabalhada em sala. Organizar os alunos em grupos e duplas durante as atividades é fundamental para que eles troquem conhecimentos. Mas essa mistura deve ser feita com critérios. É preciso agrupar crianças que estejam em fases de
  • 4. alfabetização próximas. Quando você coloca uma que usa muitas letras para escrever cada palavra trabalhando com outra que usa uma letra para cada sílaba, a discussão pode ser produtiva. Como elas não sabem quem está com a razão, ambas terão de ouvir o colega, pensar a respeito, reelaborar seu pensamento e argumentar. Assim, as duas aprendem. Isso não ocorre, no entanto, se os dois estiverem em níveis muito diferentes. Nesse caso, é provável que o mais adiantado perca a paciência e queira fazer o serviço pelo outro. 4- Posso alfabetizar minha turma de Educação Infantil? Sim, desde que a aprendizagem não seja uma tortura. Participar de aulas que despertem a curiosidade e envolvam brincadeiras e desafios nunca será algo cansativo. Em turmas que têm acesso à cultura escrita, a alfabetização ocorre mais facilmente. Por observar os adultos, ouvir historinhas contadas pelos pais e brincar de ler e escrever, algumas crianças chegam à Educação Infantil em fases avançadas. Por isso, oferecer acesso ao mundo escrito desde cedo é uma forma de amenizar as diferenças sociais e econômicas que abrem um abismo entre a qualidade da escolarização de crianças ricas e pobres. Dentro dessa concepção, a rede municipal de São José dos Campos implementou horas de trabalho coletivo para a formação continuada dos professores. Há um coordenador pedagógico por escola e uma equipe técnica responsável pelo acompanhamento dos coordenadores. As crianças de 3 a 6 anos atendidas pela rede aprendem, brincando, a usar socialmente a escrita. Em sala, os professores lêem diariamente e promovem brincadeiras. Os pequenos identificam com seu nome pastas e materiais, usam crachás, produzem textos coletivos que ficam expostos nas paredes e têm sempre à mão livros e brinquedos. "Nossas atividades incentivam a pensar sobre a escrita, tornando-a um objeto curioso a ser explorado. E tudo de forma dinâmica, porque a dispersão é rápida", conta Clarice Medeiros, professora do Infantil III (5 anos) da escola Maria Alice Pasquarelli. "No ano passado, quando recebi os alunos de 3 anos, eles já sabiam diversos poemas e conheciam Vinicius de Moraes. Também identificavam as diferenças entre alguns gêneros textuais", lembra Liliane Donata Pereira Rothenberger, professora do Infantil II (4 anos). De acordo com a orientadora pedagógica Helena Cristina Cruz Ruiz, o objetivo é desenvolver o comportamento leitor desde cedo para que os alunos se comuniquem bem, produzam conhecimentos e acessem informações. 5- Faz sentido oferecer textos a estudantes não-alfabetizados? Canções, poesias e parlendas são úteis para se chegar à incrível mágica de fazer a criança ler sem saber ler. Quando ela decora uma cantiga, pode acompanhar com o dedinho as letras que formam as estrofes. Conhecendo o que está escrito, resta descobrir como isso foi feito. Se o aluno sabe que o título é Atirei o Pau no Gato, ele tenta ler e verificar o que está escrito com
  • 5. base no que sabe sobre as letras e as palavras - sempre acompanhado pelo professor. O leitor eficiente só inicia a leitura depois de observar o texto, sua forma, seu portador (revista, jornal, livro etc.) e as figuras que o acompanham e imaginar o tema. Pense que você nunca viu um jornal em alemão. Mesmo sem saber decifrar as palavras, é possível "ler". Se há uma foto de dois carros batidos, por exemplo, deduz-se que a reportagem é sobre um acidente. Ao mostrar vários gêneros, você permite à criança conhecer os aspectos de cada um e as pistas que trazem sobre o conteúdo. Assim, ela é capaz de antecipar o que virá no texto, contribuindo para a qualidade da leitura. 6- Como seleciono e uso os textos em sala? Segundo Patrícia Diaz, do Cedac, é preciso ter critérios e objetivos bem estabelecidos ao escolher os textos. Por exemplo: se ao tentar diversificar os gêneros você ler um por dia, os alunos não perceberão as características de cada um. "O ideal é que a turma passeie por diversos gêneros ao longo do ano, mas que o professor trace um plano de trabalho para se aprofundar em um ou dois", afirma. Patrícia sugere a narração como base para o trabalho na alfabetização inicial, pois ela permite ao aluno aprender sobre a estrutura da linguagem e do encadeamento de idéias. A escolha dos textos deve ser feita de acordo com o repertório da turma. É preciso verificar se a maioria dos alunos passou ou não pela Educação Infantil, que experiência eles têm com a escrita e que gêneros conhecem. Durante a leitura de uma revista, por exemplo, é importante chamar a atenção para títulos, legendas e fotos. Assim, as crianças aprendem sobre a forma e o conteúdo. Se o texto é sobre plantas, percebem que nomes científicos aparecem em itálico. "Por isso é fundamental trabalhar com os originais ou fotocópias", ressalta Patrícia. Adaptar os textos também não é recomendável. As crianças devem ter contato com obras originais, uma vez que, ao longo da vida, serão elas que cruzarão o seu caminho. Se um texto é muito difícil para turmas de uma certa faixa etária, o melhor é procurar outro, sobre o mesmo assunto, de compreensão mais fácil. 7- Ao fim da 1ª série, todos devem estar alfabetizados? Não necessariamente, apesar de ser recomendável. Se a criança foi exposta a textos e leituras variadas e teve oportunidade de refletir sobre a língua e produzir textos, é bem provável que ela termine essa série alfabetizada. Mas isso depende de outros fatores, como ter cursado a Educação Infantil e recebido apoio dos pais em casa. "Crianças que não têm esse contato com textos e que não convivem com leitores podem precisar de mais tempo para aprender o sistema de escrita. Mas minha experiência mostra que nenhuma criança leva mais de dois anos para isso", diz a educadora Telma Weisz, de São Paulo. Como na educação não existem fôrmas em que se encaixem as crianças, é papel da escola oferecer condições para que elas se desenvolvam, sempre respeitando o ritmo de cada uma. Quando se adota o sistema de
  • 6. ciclos, isso ocorre naturalmente, pois os alunos têm possibilidade de se aperfeiçoar no ano seguinte. Quando não há essa chance, eles correm o risco de engrossar os índices de reprovação. O aluno pode iniciar a 2ª série ainda tendo que melhorar a sua compreensão sobre o sistema de escrita, mas ao fim do segundo ano a escola teve tempo suficiente para ensinar a todos. 8- Preciso ensinar o nome das letras? Sim. Como a criança poderá falar sobre o que está estudando sem saber o nome das letras? Ter esse conhecimento ajuda a turma a explicar qual letra deve iniciar uma palavra, por exemplo. Para ensinar isso, basta citar o nome das letras durante conversas corriqueiras. Se a criança está mostrando a que quer usar e não sabe o nome, basta que você a aponte e diga qual é. Trata-se de algo que se aprende naturalmente e de forma rápida, sem precisar de atividades de decoreba que cansam e desperdiçam o seu tempo e o do aluno. 9- Como ajudo alunos de 5ª série que ainda não lêem nem escrevem bem? É angustiante para o professor receber crianças com problemas de alfabetização. Por não conhecer o assunto, acredita que a escrita incorreta é indício de que elas não se alfabetizaram. Mas nem sempre essa avaliação é verdadeira. O mais comum é a criança já dominar a base alfabética, mas ter sérios problemas de ortografia e interpretação. Daí a impressão de que ela não sabe ler e escrever. Foi essa experiência por que passaram as professoras Valéria de Araújo Pereira, de Língua Portuguesa, e Jaidê Canuto de Sousa, de Ciências, ambas da Escola Estadual Maria Catharina Comino, em Taboão da Serra (SP). Em 2005, elas lecionavam para uma turma de 5ª série de recuperação de ciclos com muitos problemas de escrita, o que as motivou a procurar a Diretoria de Ensino para participar do programa Letra e Vida, oferecido pela rede paulista a professores de 1ª a 4ª série. "Fiquei surpresa com a insistência das duas. Como havia vagas, abrimos uma exceção e valeu a pena", diz Silvia Batista de Freitas, coordenadora-geral do programa na Diretoria de Ensino da cidade. O curso iniciou em março. No segundo semestre, a turma de alunos foi distribuída nas salas regulares. Com o objetivo de trabalhar a escrita, Valéria e Jaidê elaboraram um projeto sobre aids. Os alunos assistiram a vídeos, debateram e levantaram o que sabiam e o que gostariam de saber sobre o assunto. As leituras foram sistemáticas e diárias, com pesquisas em livros, revistas, enciclopédias, internet e panfletos informativos - gênero escolhido para ser o produto final do projeto. "Leitura e escrita não são apenas conteúdos de Língua Portuguesa. São práticas necessárias em todas as disciplinas e em todas as séries", diz Jaidê. "Por isso, temos a responsabilidade de conhecer o modo como os alunos aprendem e assim estimulá-los a ser leitores e escritores mais competentes", conclui Valéria.