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Memorial do ConventoMemorial do Convento,,
dede José SaramagoJosé Saramago (1982)(1982)
Narrador
Espaço
Tempo
NarradorNarrador (quanto à participação)(quanto à participação)
Geralmente, é HETERODIEGÉTICO
(na 3.ª pessoa e não participa na ação p. 11)
Por vezes, assume o ponto de vista de algumas
personagens (usando a 1.ª pessoa do singular e até do
plural) sendo assim HOMODIEGÉTICO (quando
assume o pensamento de algumas personagens, como
o Patriarca ou o rei na procissão do Corpo de Deus
(XIII, 162), ou o guia turístico (XIX, p, 254).
Há situações em que aparece como
AUTODIEGÉTICO, quando é protagonista da sua
própria narrativa, como acontece nos sete relatos
pessoais dos trabalhadores no episódio da “epopeia da
HETERODIEGÉTICO
“D. João, quinto na tabela real, irá esta
noite ao quarto de sua mulher, (…)” (p.
11)
HOMODIEGÉTICO
“(…) e esta sou eu, Sebastiana Maria de
Jesus, um quarto de cristã-nova, que
tenho visões e revelações (…)” (p. 53)
AUTODIEGÉTICO
“O meu nome é João Anes, vim do Porto,
e sou tanoeiro (…)” (p. 241)
NARRADORNARRADOR
((quanto àquanto à focalização)focalização)
Geralmente, o narrador assume
uma focalização omnisciente
Revela assim uma perspetiva transcendente
em relação às personagens e move-se à
vontade no tempo, saltando facilmente
entre passado, presente e futuro.
Focalização omniscienteFocalização omnisciente
◦ "Mas também não faltam lazeres, por isso, quando a comichão aperta,
Baltasar pousa a cabeça no regaço de Blimunda e ela cata-lhe os bichos,
que não é de espantar terem-nos os apaixonados e os construtores de
aeronaves, se tal palavra já se diz nestas épocas, como se vai dizendo
armistício em vez de pazes. " [pág. 91]
◦ "Mas em Lisboa dirá o guarda-livros a el-rei, Saiba vossa majestade que na
inauguração do convento de Mafra se gastaram, números redondos,
duzentos mil cruzados, e el-rei respondeu, Põe na conta, disse-o porque
ainda estamos no princípio da obra, um dia virá em que quereremos saber,
Afinal, quanto terá custado aquilo, e ninguém dará satisfação dos dinheiros
gastos, nem facturas, nem recibos, nem boletins de registo de importação,
sem falar de mortes e sacrifícios, que esses são baratos. " [pág. 138]
Focalização internaFocalização interna
Por vezes, o narrador assume a
perspetiva das personagens que vivem a ação,
conferindo mais vivacidade à narrativa.
É o que se passa quando Sebastiana de Jesus,
a mãe de Blimunda, descreve o desfile dos
condenados num auto de fé (V, pp. 52-52)
Ou quando o rei pensa na forma como aplicar as
suas riquezas: “Medita D. João V no que fará a
tão grandes somas de dinheiro, a tão extrema
riqueza (…) (XVIII, p. 234)
FocalizaçãoFocalização
internainterna
“ (…) e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um
quarto de cristã-nova, que tenho visões e
revelações, mas disseram-me no tribunal que era
fingimento, que ouço vozes do céu, mas
explicaram-me que era demoníaco, que sei que
posso ser santa como os santos o são, (…), aqui
vou (…) condenada a ser açoitada em público e a
oito anos de degredo no reino de Angola (...)”
[págs. 52-53]
O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)
Narrador polivalente
Cumpre diversas funções
Narrador heterodiegético:
“El-rei foi a Mafra escolher
o sítio onde há de ser
levantado o convento.” (l. 7)
Narrador homodiegético:
“[…] porém sosseguemos,
a pobre não emprestes, a
rico não devas, a frade não
prometas, e D. João V é rei
de palavra. Haveremos
convento.” (ll. 5-6)
Narrador reflexivo
e descritivo:
“[…] um homem pode ser
grande voador, mas é-lhe
muito conveniente que saia
bacharel, licenciado e doutor,
e então, ainda que não voe, o
consideram.” (ll. 13-15)
“[…] estava a abegoaria em
abandono, dispersos pelo
chão os materiais que não
valera a pena arrumar,
ninguém adivinharia o que ali
se andara perpetrando. Dentro
do casarão esvoaçavam
pardais […]” (ll. 17-20)
Narrador sentenciador
e moralizador:
“Nem sempre se pode ter
tudo […]” (l. 1)
“[…] a pobre não
emprestes, a rico não
devas, a frade não
prometas […]” (ll. 5-6)
Narrador crítico
e irónico:
“[…] com todas as disposições,
licenças e matriculações
necessárias, partiu o padre
Bartolomeu Lourenço para
Coimbra […]” (ll. 25-28)
“[…] uma multidão de homens,
exagero será dizer multidão,
enfim, umas centenas deles
[…]” (ll. 36-38)
“[…] como se vê não há
diferença nenhuma.” (ll. 50-51)
Expressões, 12.º ano
O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)
 Narrador omnisciente
 (gestor da matéria
 histórica e ficcional)
 “Haveremos convento.” (l. 6)
 “Até à vila de Mafra, aonde primeiro vai, não tem a viagem
história, salvo a das pessoas que por estes lugares moram […].”
 (ll. 29-32)
Narrador polivalente
Cumpre diversas funções
Narrador polivalente
Cumpre diversas funções
Narra
Descreve
Reflete
Comenta Critica Ironiza
Manipula (o tempo/a História/a ficção)
Conversa com o(s)
narrador(es) Julga
Moraliza
Recorda e prenuncia
Adaptado de REAL, Miguel, 1996. Narração, Maravilhoso, Trágico e Sagrado em
Memorial do Convento de José Saramago. Lisboa: Caminho
Expressões, 12.º ano
O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)
O espaçoO espaço
Espaço físico – cenários em que decorre a ação
Espaço social – local de acontecimentos sociais,
encontro de multidões, para atos religiosos, trabalho
ou diversão: autos de fé, procissão da Quaresma e do
Corpo de Deus, sagração da basílica.
São dois os espaços físicos fulcrais nos quais
se desenrola a ação: Lisboa e Mafra.
Lisboa é um macroespaço que integra:
ROSSIO,
TERREIRO DO PAÇO,
SÃO SEBASTIÃO DA PEDREIRA
Espaço físicoEspaço físico
Terreiro do Paço
Local onde Baltasar trabalha
num açougue, após a sua chegada
a Lisboa.
Aí decorre a procissão
do Corpo de Deus.
“Desce o povo ao Terreiro do Paço, a ver os preparos da festa.” cap. XIII, p.
152)
Rossio
Este espaço aparece no início da obra
como o local onde decorrem
os autos-de-fé
e a procissão da penitência
na Quaresma. (cap III)
O Rossio, em Lisboa Um auto-de- fé
Aqui se faziam os autos de fé. “(…) está o Rossio cheio de
povo, duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de-
fé, nunca se chegará a saber de que mais gostam os
moradores, se disto, se das touradas.” (cap. V, p. 50)
Aqui se conheceram Blimunda e Baltasar, aqui ela o viu
pela última vez – “(…) virou em direção ao Rossio, repetia um
itinerário de há 28 anos. (…) Naquele extremo arde um
homem a quem falta a mão esquerda. (cap. XXV, p. 373)
Terreiro do Paço, em LisboaTerreiro do Paço, em Lisboa
Aqui decorriam as touradas
“(…) vamos às touradas, que é bem bom divertimento.
Em Mafra nunca as houve, diz Baltasar e, não
chegando o dinheiro para os quatro dias da função, que
este ano foi arrematado caro o Terreiro do Paço,
iremos ao último, que é o fim da festa.” (cap. IX, p. 101)
S. Sebastião da PedreiraS. Sebastião da Pedreira
Trata-se de um espaço relacionado com aTrata-se de um espaço relacionado com a “passarola voadora”“passarola voadora”..
Era umEra um espaço ruralespaço rural, onde existiam várias quintas com, onde existiam várias quintas com
palacetes.palacetes.
Diz o padre Bartolomeu: “Vou a S. Sebastião da Pedreira
ver a minha máquina, queres tu vir comigo, a mula pode com
os dois (…). Todas as portas e janelas do palácio estavam
fechadas, a quinta abandonada, sem cultivo. A um lado do
pátio espaçoso ficava um celeiro, ou abegoaria, ou adega,
estando vazio não se podia saber que serventia fora a sua
(…)” (cap. VI, p. 66-67)
Espaço físicoEspaço físico MafraMafra
 Mafra é o segundo macroespaço. Até à construção
do convento, a vida de Mafra decorria na vila velha
e no antigo castelo, próximo da igreja de Sto. André.
 A Alto da Vela foi o local escolhido para a
construção do convento, que deu lugar à vila nova,
à volta do edifício. Nas imediações da obra, surge a
"Ilha da Madeira", onde começaram por se alojar
dez mil trabalhadores, ascendendo, mais tarde,
a 52 mil (sendo 7 mil guardas).
 Além de Mafra, são ainda referidos espaços
como Pêro Pinheiro, a serra
do Barregudo, Montejunto
(onde aterrou a “Passarola Voadora)
e a casa da família Sete-Sóis.
Outros espaços físicosOutros espaços físicos
Há referências à Holanda,
onde o padre foi estudar o
segredo do éter, Espanha,
onde Baltasar ficou ferido e
onde o Padre Bartolomeu
morreu louco; mas também
a várias localidades do Sul,
que Baltasar percorreu até
chegar de Évora a Lisboa e
Monte Junto, onde aterrou a
“passarola voadora” após o
primeiro voo.
OO espaço socialespaço social
É construído, na obra, através do relato de
determinados momentos (ou episódios) e do
percurso de personagens que tipificam um
certo grupo social, caracterizando-o.
Ao nível da construção do
espaço social, destacam-se:
PROCISSÃO DA QUARESMA
AUTOS DE FÉ
A TOURADA
PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS
Obras e sagração do CONVENTO
Espaço socialEspaço social
 Os autos de fé e as touradas caracterizam Lisboa como
um espaço caótico, dominado por rituais religiosos cujo
efeito exorcizante amaldiçoa um mal momentâneo que
motiva a exaltação absurda que envolve os habitantes.
“(...) mas não
faltou povo à festa
[auto de fé]”
Espaço socialEspaço social
 As touradas são vistas como um “(...) bom divertimento (...)”
apreciadas por toda a população “Estão as bancadas e os terrados
formigando de povo (...)” (IX, 101)
“Cheira a carne queimada, mas é um cheiro que não ofende estes
narizes, habituados que estão ao churrasco do auto de fé, (...)”
OO espaço socialespaço social
 Procissão da Quaresma
 excessos praticados durante o Entrudo
(satisfação dos prazeres carnais) e brincadeiras
carnavalescas - as pessoas comiam e bebiam
demasiado, davam "umbigadas pelas esquinas",
atiravam água à cara umas das outras, batiam nas
mais desprevenidas, tocavam gaitas, espojavam-se
nas ruas”. (p. 28)
 penitência física e mortificação da alma após
os desregramentos durante o Entrudo (é tempo de
"mortificar a alma para que o corpo finja
arrepender-se”. (p. 28)
OO espaço socialespaço social
Procissão da QuaresmaProcissão da Quaresma
 descrição da procissão (os penitentes à cabeça, atrás
dos frades, o bispo, as imagens nos andares, as confrarias e
as irmandades)
 manifestações de fé que tocavam a histeria (as
pessoas arrastam-se pelo chão, arranham-se, puxam os
cabelos, esbofeteiam-se) enquanto o bispo faz sinais da cruz
e um acólito balança o incensório; os penitentes recorrem
à autoflagelação
 o narrador afirma que, apesar da tentativa de purificação
através do incenso, Lisboa permanecia uma cidade
suja, caótica e as suas gentes eram dominadas pela
hipocrisia de uma alma que, ironicamente, este define
como "perfumada“.
EEspaço socialspaço social
Os autos-de-féOs autos-de-fé
 Autos de fé no Rossio.
 Neste relato, são de salientar os seguintes aspetos:
 o Rossio está novamente cheio de assistência; a
população está duplamente em festa, porque é
domingo e porque vai assistir a um auto de ­fé (passaram
dois anos após o último evento deste tipo).
 o narrador revela a sua dificuldade em perceber se o
povo gosta mais de autos de fé ou de touradas,
evidenciando com esta afirmação a sua ironia crítica
perante um povo que revela um gosto
sanguinário e procura nas emoções fortes uma
forma de preencher o vazio da sua existência.
OO espaço social -espaço social - Os autos de féOs autos de fé
 a assistência feminina, à janela, exibe as
suas toilettes, preocupa-se com
pormenores fúteis relativos à sua
aparência (a segurança dos sinaizinhos no
rosto, a borbulha encoberta), e aproveita a
ocasião para se entregar a jogos de
sedução com os pretendentes que se
passeiam em baixo.
 a proximidade da morte dos
condenados constitui o motivo do
ambiente de festa; esta constatação
suscita, mais uma vez, a crítica do narrador -
na realidade, o facto de as pessoas saberem
que alguns dos sentenciados iriam, em
breve, arder nas fogueiras não as inibia de se
refrescarem com água, limonada e talhadas
de melancia e de se consolarem com
tremoços, pinhões, tâmaras e queijadas.
 “Grita o povinho furiosos impropérios aos
condenados, guincham as mulheres (…)” (cap.
V, p. 52)
OO espaço social –espaço social – os autos de féos autos de fé
 sai a procissão - à frente os dominicanos;
depois, os inquisidores
 distinção entre os vários sentenciados
(através do gorro e sambenito),
assim como o crucifixo de costas voltadas,
para as mulheres que irão arder na fogueira;
 menção dos nomes de alguns dos
condenados (inclusive o de Sebastiana
Maria de Jesus, mãe de Blimunda)
 punição dos condenados
pelo Santo Ofício –
o povo dança perante as fogueiras.
OO espaço socialespaço social
TouradaTourada
OO espaço social -espaço social - TouradaTourada
Tourada (Terreiro do Paço)
o espetáculo começa e o narrador enfatiza a forma
como os touros são torturados, exibindo o
sangue, as feridas, as "tripas“ ao público que, em
exaltação, se liberta de inibições (“(…)os
homens em delírio apalpam as mulheres delirantes, e
elas esfregam-se por eles sem disfarce” (IX, p. 102)
Dois toiros saem do curro e investem contra bonecos
de barro colocados na praça; de um saem coelhos
que acabam por ser mortos pelos capinhas, de outro,
pombas que acabam por ser apanhadas pela multidão.
A ironia do narrador é ainda traduzida pela
constatação de que, em Lisboa, as pessoas não
estranham o cheiro a carne queimada,
acrescentando ainda numa perspectiva crítica, que a
morte dos judeus é positiva, pois os seus bens são
deixados à Coroa.
OO espaço socialespaço social
Procissão do Corpo de DeusProcissão do Corpo de Deus
 descrição dos "preparos da festa” feita pelo narrador, que
assume o olhar do povo (as colunas, as figuras, os medalhões, as
ruas toldadas, os mastros enfeitados com seda e ouro, as janelas
ornamentadas com cortinas e sanefas de damasco e franjas de ouro),
que se sente maravilhado com a riqueza da decoração).
OO espaço socialespaço social
Procissão do Corpo de DeusProcissão do Corpo de Deus
referência do narrador às damas que aparecem
às janelas, exibindo penteados, rivalizando com
as vizinhas e gritando motes
à noite, passam pessoas que tocam e dançam,
improvisa-se uma tourada
de madrugada, reúnem-se aqueles que irão formar
as alas da procissão, devidamente fardados
OO espaço socialespaço social
Procissão do Corpo de DeusProcissão do Corpo de Deus
 Começa logo de manhã cedo.
Descrição do aparato:
 à frente, as bandeiras dos ofícios da Casa dos Vinte e Quatro,
em primeiro lugar a dos carpinteiros em honra a S. José;
 atrás, a imagem de S. Jorge, os tambores, os trombeteiros, as
irmandades, o estandarte do Santíssimo Sacramento, as
comunidades (de S. Francisco, capuchinhos, carmelitas,
dominicanos, entre outros)
 e o rei, atrás, segurando uma vara dourada, Cristo crucificado
e cantores de hinos sacros
 Realização da procissão:
OO espaço socialespaço social
Procissão do Corpo de DeusProcissão do Corpo de Deus
crítica do narrador às crenças e
interditos religiosos;
visão oficial da procissão como forma de
purificação das almas, que tentam
libertar-se dos pecados cometidos
CRÍTICAS DO NARRADOR:
Censura ao luxo da igreja e à luxúria
do Rei (“varrasco”) (Cap. XIII)
histeria coletiva das pessoas que se batem
a si próprias e aos outros como
manifestação da sua condição de pecadores.
 CRÍTICAS DO NARRADOR
EM SÍNTESEEM SÍNTESE
 As procissões e os autos de fé caracterizam Lisboa
como um espaço caótico, dominado por rituais religiosos
cujo efeito exorcizante esconjura um mal momentâneo que
motiva a exaltação absurda que envolve os habitantes.
 A desmistificação dos dogmas e a crítica irónica do
narrador ao clero subjazem ao ideário marxista que
condena a religião enquanto "ópio do povo", isto é,
condena-se a visão redutora do mundo apresentada
pela Igreja, que condiciona os comportamentos, manipula
os sentimentos e conduz os fiéis a atitudes estereotipadas.
 A violência das touradas ou dos autos de fé apraz ao
povo que, obscuro e ignorante, se diverte sensualmente
com as imagens de morte, esquecendo a miséria em que
vive.
O TRABALHO NO CONVENTOO TRABALHO NO CONVENTO
Mafra simboliza o espaço da servidão
desumana a que D. João V sujeitou todos os
seus súbditos para alimentar a sua vaidade.
“Ordeno que a todos os corregedores do reino se
mande que reúnam e enviem para Mafra quantos
operários se encontrarem” (XXI, 302)
Vivendo em condições deploráveis, os cerca
de quarenta mil portugueses foram
obrigados, à força de armas, o abandonar as
suas casas e a erigir o convento para cumprir a
promessa do seu rei e aumentar a sua glória.
Espaço psicológicoEspaço psicológico
o espaço psicológico é constituído pelo conjunto de
elementos que traduz a interioridade das
personagens.
Nesta obra, o espaço psicológico é constituído
fundamentalmente através de dois processos:
os sonhos das personagens, que funcionam como
forma de caracterização das mesmas ou que, num
processo que lhes confere densidade humana,
traduzem relações com as suas vivências (rainha X,
118);
e os seus pensamentos (Patriarca e rei, XIII, 162).
Os sonhosOs sonhos
Salienta-se o sonho do rei e da rainha.
O rei sonha com a sua descendência e com o convento.
“Também D. João V sonhará esta noite. Verá erguer-se do
seu exo uma árvore de Jessé frondosa e toda povoada dos
ascendentes de Cristo (…) um convento de franciscanos.”
(Cap. I, p. 18)
A rainha tem sonhos eróticos com o infante D. Francisco
“Porém, vossa majestade sonha comigo quase todas as
noites, que eu bem no sei, É verdade que sonho, são
fraquezas de mulher guardadas no meu coração. (cap. X, p.
118)
TEMPO
TEMPOTEMPO O tempo diegético (da históriaO tempo diegético (da história))
Trata-se do tempo em que decorre a ação.
O tempo da história é constituído por algumas datas
fundamentais.
A ação inicia-se em 1711. D. João V ainda não fizera vinte e
dois anos e D. Maria Ana Josefa chegara há mais de dois
anos da Áustria. Termina em 1739, quando Blimunda
encontra Baltasar a ser queimado num auto de fé, no Rossio.
O fluir do tempo, mais do que através da recorrência a
marcos cronológicos específicos, é sugerido pelas
transformações sofridas pelas personagens e por alguns
espaços e objetos ao longo da obra.
TEMPOTEMPO O tempo diegético (tempo da históriaO tempo diegético (tempo da história))
O tempo histórico
Logo no início do romance, podemos
inferir que a acção tem início no ano de
1711, através da seguinte referência do
narrador:
"(. ..) S. Francisco andava pelo mundo,
precisamente há quinhentos anos, em mil
duzentos e onze (. . .)"
TEMPOTEMPO  Referências cronológicas
 Em 1711, início da ação
 Em 1717, tem lugar a bênção da primeira pedra do
Convento de Mafra
 em 1717, Baltasar e Blimunda regressam a
Lisboa para trabalhar na passarola do padre
Bartolomeu de Gusmão
 em 1729, celebra-se o casamento de D. José com
Mariana Vitória e de Maria Bárbara com o príncipe D.
Fernando (VI de Espanha) ( XXII, 211)
 em 1730, mais propriamente no dia 22 de Outubro, o
dia do quadragésimo primeiro aniversário do rei,
realiza-se a sagração da basílica do Convento de
Mafra
 a ação termina em 1739, no momento em que
Blimunda vê Baltasar a ser queimado em Lisboa,
num auto-de-fé. (28 anos após o início da ação)
TEMPOTEMPO O tempo diegético (tempo da históriaO tempo diegético (tempo da história))
 Muitas vezes, a passagem do tempo é anunciada por situações
precisas "Para D. Maria Ana é que lhe vem chegando o tempo. A barriga não
aguenta crescer mais por muito que a pele estique (.. .)"
ou por referências temporais que se integram em marcações referenciais
 "(…) tendo partido daqui há vinte meses (…)" p. 72
 "Meses inteiros se passaram desde então, o ano é já outro" p. 77
 "Entretanto, nasceu o infante D. Pedro (...)" p. 88
 "Bartolomeu Lourenço foi à quinta de S. Sebastião da Pedreira, três anos
inteiros haviam passado desde que partira (. .)” p. 117
 "(...) é certo que há seis anos que vivem como marido e mulher (…)" p.
130
 "(...) se não ficou dito já, sempre são seis anos de casos acontecidos (…) "
p. 134
 "(…) e já vão onze anos passados (...)" p. 162
 "(...) passaram catorze anos (…) " p. 214
 "Desde que na vila de Mafra, já lá vão oito anos, foi lançada a primeira
pedra da basílica (…)" p. 231
TEMPOTEMPO O tempo do discursoO tempo do discurso
O tempo do discurso é revelado
através da forma como o narrador
relata os acontecimentos.
Este pode apresentá-los de forma linear,
optar por retroceder no tempo em relação ao
momento da narrativa em que se encontra
(analepses -“(…) quando S. Francisco andava pelo
mundo, precisamente há quinhentos anos, em 1211
(…)” (cap. II, p. 21)
ou antecipar situações (prolepses).
TEMPOTEMPO
As analepses (recuos no tempo)
As analepses explicam, geralmente,
acontecimentos anteriores, contribuindo
para a coesão da narrativa.
É de assinalar, anteriormente ao ano do início da
ação (1711 ), a analepse que explica, em parte, a
construção do convento como consequência
do desejo expresso, em 1624, pelos
franciscanos, de possuírem um convento em
Mafra.
TEMPOTEMPO O tempo do discursoO tempo do discurso
a visão globalizante de tempos distintos por
parte do narrador (o tempo da história e, num
tempo futuro, o do momento da escrita) –
cabem aqui as referências aos cravos (outrora,
nas pontas das varas dos capelães; mais tarde,
símbolos da revolução do 25 de Abril)(XIII, 161),
a associação entre os possíveis voos da
passarola e o facto de os homens terem ido à
Lua, no século XX,
a alusão ao tipo de diversões que se vivia no
século XVII e ao cinema, entre outras.
As prolepses (ações futuras)
 A antecipação de alguns acontecimentos serve
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Memorial do convento narrador, espaço e tempo

  • 1. Memorial do ConventoMemorial do Convento,, dede José SaramagoJosé Saramago (1982)(1982) Narrador Espaço Tempo
  • 2. NarradorNarrador (quanto à participação)(quanto à participação) Geralmente, é HETERODIEGÉTICO (na 3.ª pessoa e não participa na ação p. 11) Por vezes, assume o ponto de vista de algumas personagens (usando a 1.ª pessoa do singular e até do plural) sendo assim HOMODIEGÉTICO (quando assume o pensamento de algumas personagens, como o Patriarca ou o rei na procissão do Corpo de Deus (XIII, 162), ou o guia turístico (XIX, p, 254). Há situações em que aparece como AUTODIEGÉTICO, quando é protagonista da sua própria narrativa, como acontece nos sete relatos pessoais dos trabalhadores no episódio da “epopeia da
  • 3. HETERODIEGÉTICO “D. João, quinto na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, (…)” (p. 11) HOMODIEGÉTICO “(…) e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações (…)” (p. 53) AUTODIEGÉTICO “O meu nome é João Anes, vim do Porto, e sou tanoeiro (…)” (p. 241)
  • 4. NARRADORNARRADOR ((quanto àquanto à focalização)focalização) Geralmente, o narrador assume uma focalização omnisciente Revela assim uma perspetiva transcendente em relação às personagens e move-se à vontade no tempo, saltando facilmente entre passado, presente e futuro.
  • 5. Focalização omniscienteFocalização omnisciente ◦ "Mas também não faltam lazeres, por isso, quando a comichão aperta, Baltasar pousa a cabeça no regaço de Blimunda e ela cata-lhe os bichos, que não é de espantar terem-nos os apaixonados e os construtores de aeronaves, se tal palavra já se diz nestas épocas, como se vai dizendo armistício em vez de pazes. " [pág. 91] ◦ "Mas em Lisboa dirá o guarda-livros a el-rei, Saiba vossa majestade que na inauguração do convento de Mafra se gastaram, números redondos, duzentos mil cruzados, e el-rei respondeu, Põe na conta, disse-o porque ainda estamos no princípio da obra, um dia virá em que quereremos saber, Afinal, quanto terá custado aquilo, e ninguém dará satisfação dos dinheiros gastos, nem facturas, nem recibos, nem boletins de registo de importação, sem falar de mortes e sacrifícios, que esses são baratos. " [pág. 138]
  • 6. Focalização internaFocalização interna Por vezes, o narrador assume a perspetiva das personagens que vivem a ação, conferindo mais vivacidade à narrativa. É o que se passa quando Sebastiana de Jesus, a mãe de Blimunda, descreve o desfile dos condenados num auto de fé (V, pp. 52-52) Ou quando o rei pensa na forma como aplicar as suas riquezas: “Medita D. João V no que fará a tão grandes somas de dinheiro, a tão extrema riqueza (…) (XVIII, p. 234)
  • 7. FocalizaçãoFocalização internainterna “ (…) e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, (…), aqui vou (…) condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola (...)” [págs. 52-53]
  • 8. O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303) Narrador polivalente Cumpre diversas funções Narrador heterodiegético: “El-rei foi a Mafra escolher o sítio onde há de ser levantado o convento.” (l. 7) Narrador homodiegético: “[…] porém sosseguemos, a pobre não emprestes, a rico não devas, a frade não prometas, e D. João V é rei de palavra. Haveremos convento.” (ll. 5-6) Narrador reflexivo e descritivo: “[…] um homem pode ser grande voador, mas é-lhe muito conveniente que saia bacharel, licenciado e doutor, e então, ainda que não voe, o consideram.” (ll. 13-15) “[…] estava a abegoaria em abandono, dispersos pelo chão os materiais que não valera a pena arrumar, ninguém adivinharia o que ali se andara perpetrando. Dentro do casarão esvoaçavam pardais […]” (ll. 17-20)
  • 9. Narrador sentenciador e moralizador: “Nem sempre se pode ter tudo […]” (l. 1) “[…] a pobre não emprestes, a rico não devas, a frade não prometas […]” (ll. 5-6) Narrador crítico e irónico: “[…] com todas as disposições, licenças e matriculações necessárias, partiu o padre Bartolomeu Lourenço para Coimbra […]” (ll. 25-28) “[…] uma multidão de homens, exagero será dizer multidão, enfim, umas centenas deles […]” (ll. 36-38) “[…] como se vê não há diferença nenhuma.” (ll. 50-51) Expressões, 12.º ano O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)
  • 10.  Narrador omnisciente  (gestor da matéria  histórica e ficcional)  “Haveremos convento.” (l. 6)  “Até à vila de Mafra, aonde primeiro vai, não tem a viagem história, salvo a das pessoas que por estes lugares moram […].”  (ll. 29-32)
  • 11. Narrador polivalente Cumpre diversas funções Narrador polivalente Cumpre diversas funções Narra Descreve Reflete Comenta Critica Ironiza Manipula (o tempo/a História/a ficção) Conversa com o(s) narrador(es) Julga Moraliza Recorda e prenuncia Adaptado de REAL, Miguel, 1996. Narração, Maravilhoso, Trágico e Sagrado em Memorial do Convento de José Saramago. Lisboa: Caminho Expressões, 12.º ano O narrador em Memorial do Convento (ex. 9.1., pág. 303)
  • 12. O espaçoO espaço Espaço físico – cenários em que decorre a ação Espaço social – local de acontecimentos sociais, encontro de multidões, para atos religiosos, trabalho ou diversão: autos de fé, procissão da Quaresma e do Corpo de Deus, sagração da basílica.
  • 13. São dois os espaços físicos fulcrais nos quais se desenrola a ação: Lisboa e Mafra. Lisboa é um macroespaço que integra: ROSSIO, TERREIRO DO PAÇO, SÃO SEBASTIÃO DA PEDREIRA
  • 14. Espaço físicoEspaço físico Terreiro do Paço Local onde Baltasar trabalha num açougue, após a sua chegada a Lisboa. Aí decorre a procissão do Corpo de Deus. “Desce o povo ao Terreiro do Paço, a ver os preparos da festa.” cap. XIII, p. 152) Rossio Este espaço aparece no início da obra como o local onde decorrem os autos-de-fé e a procissão da penitência na Quaresma. (cap III)
  • 15. O Rossio, em Lisboa Um auto-de- fé Aqui se faziam os autos de fé. “(…) está o Rossio cheio de povo, duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de- fé, nunca se chegará a saber de que mais gostam os moradores, se disto, se das touradas.” (cap. V, p. 50) Aqui se conheceram Blimunda e Baltasar, aqui ela o viu pela última vez – “(…) virou em direção ao Rossio, repetia um itinerário de há 28 anos. (…) Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. (cap. XXV, p. 373)
  • 16. Terreiro do Paço, em LisboaTerreiro do Paço, em Lisboa Aqui decorriam as touradas “(…) vamos às touradas, que é bem bom divertimento. Em Mafra nunca as houve, diz Baltasar e, não chegando o dinheiro para os quatro dias da função, que este ano foi arrematado caro o Terreiro do Paço, iremos ao último, que é o fim da festa.” (cap. IX, p. 101)
  • 17. S. Sebastião da PedreiraS. Sebastião da Pedreira Trata-se de um espaço relacionado com aTrata-se de um espaço relacionado com a “passarola voadora”“passarola voadora”.. Era umEra um espaço ruralespaço rural, onde existiam várias quintas com, onde existiam várias quintas com palacetes.palacetes. Diz o padre Bartolomeu: “Vou a S. Sebastião da Pedreira ver a minha máquina, queres tu vir comigo, a mula pode com os dois (…). Todas as portas e janelas do palácio estavam fechadas, a quinta abandonada, sem cultivo. A um lado do pátio espaçoso ficava um celeiro, ou abegoaria, ou adega, estando vazio não se podia saber que serventia fora a sua (…)” (cap. VI, p. 66-67)
  • 18. Espaço físicoEspaço físico MafraMafra  Mafra é o segundo macroespaço. Até à construção do convento, a vida de Mafra decorria na vila velha e no antigo castelo, próximo da igreja de Sto. André.  A Alto da Vela foi o local escolhido para a construção do convento, que deu lugar à vila nova, à volta do edifício. Nas imediações da obra, surge a "Ilha da Madeira", onde começaram por se alojar dez mil trabalhadores, ascendendo, mais tarde, a 52 mil (sendo 7 mil guardas).  Além de Mafra, são ainda referidos espaços como Pêro Pinheiro, a serra do Barregudo, Montejunto (onde aterrou a “Passarola Voadora) e a casa da família Sete-Sóis.
  • 19. Outros espaços físicosOutros espaços físicos Há referências à Holanda, onde o padre foi estudar o segredo do éter, Espanha, onde Baltasar ficou ferido e onde o Padre Bartolomeu morreu louco; mas também a várias localidades do Sul, que Baltasar percorreu até chegar de Évora a Lisboa e Monte Junto, onde aterrou a “passarola voadora” após o primeiro voo.
  • 20. OO espaço socialespaço social É construído, na obra, através do relato de determinados momentos (ou episódios) e do percurso de personagens que tipificam um certo grupo social, caracterizando-o. Ao nível da construção do espaço social, destacam-se: PROCISSÃO DA QUARESMA AUTOS DE FÉ A TOURADA PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS Obras e sagração do CONVENTO
  • 21. Espaço socialEspaço social  Os autos de fé e as touradas caracterizam Lisboa como um espaço caótico, dominado por rituais religiosos cujo efeito exorcizante amaldiçoa um mal momentâneo que motiva a exaltação absurda que envolve os habitantes. “(...) mas não faltou povo à festa [auto de fé]”
  • 22. Espaço socialEspaço social  As touradas são vistas como um “(...) bom divertimento (...)” apreciadas por toda a população “Estão as bancadas e os terrados formigando de povo (...)” (IX, 101) “Cheira a carne queimada, mas é um cheiro que não ofende estes narizes, habituados que estão ao churrasco do auto de fé, (...)”
  • 23. OO espaço socialespaço social  Procissão da Quaresma  excessos praticados durante o Entrudo (satisfação dos prazeres carnais) e brincadeiras carnavalescas - as pessoas comiam e bebiam demasiado, davam "umbigadas pelas esquinas", atiravam água à cara umas das outras, batiam nas mais desprevenidas, tocavam gaitas, espojavam-se nas ruas”. (p. 28)  penitência física e mortificação da alma após os desregramentos durante o Entrudo (é tempo de "mortificar a alma para que o corpo finja arrepender-se”. (p. 28)
  • 24. OO espaço socialespaço social Procissão da QuaresmaProcissão da Quaresma  descrição da procissão (os penitentes à cabeça, atrás dos frades, o bispo, as imagens nos andares, as confrarias e as irmandades)  manifestações de fé que tocavam a histeria (as pessoas arrastam-se pelo chão, arranham-se, puxam os cabelos, esbofeteiam-se) enquanto o bispo faz sinais da cruz e um acólito balança o incensório; os penitentes recorrem à autoflagelação  o narrador afirma que, apesar da tentativa de purificação através do incenso, Lisboa permanecia uma cidade suja, caótica e as suas gentes eram dominadas pela hipocrisia de uma alma que, ironicamente, este define como "perfumada“.
  • 25. EEspaço socialspaço social Os autos-de-féOs autos-de-fé  Autos de fé no Rossio.  Neste relato, são de salientar os seguintes aspetos:  o Rossio está novamente cheio de assistência; a população está duplamente em festa, porque é domingo e porque vai assistir a um auto de ­fé (passaram dois anos após o último evento deste tipo).  o narrador revela a sua dificuldade em perceber se o povo gosta mais de autos de fé ou de touradas, evidenciando com esta afirmação a sua ironia crítica perante um povo que revela um gosto sanguinário e procura nas emoções fortes uma forma de preencher o vazio da sua existência.
  • 26. OO espaço social -espaço social - Os autos de féOs autos de fé  a assistência feminina, à janela, exibe as suas toilettes, preocupa-se com pormenores fúteis relativos à sua aparência (a segurança dos sinaizinhos no rosto, a borbulha encoberta), e aproveita a ocasião para se entregar a jogos de sedução com os pretendentes que se passeiam em baixo.  a proximidade da morte dos condenados constitui o motivo do ambiente de festa; esta constatação suscita, mais uma vez, a crítica do narrador - na realidade, o facto de as pessoas saberem que alguns dos sentenciados iriam, em breve, arder nas fogueiras não as inibia de se refrescarem com água, limonada e talhadas de melancia e de se consolarem com tremoços, pinhões, tâmaras e queijadas.  “Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres (…)” (cap. V, p. 52)
  • 27. OO espaço social –espaço social – os autos de féos autos de fé  sai a procissão - à frente os dominicanos; depois, os inquisidores  distinção entre os vários sentenciados (através do gorro e sambenito), assim como o crucifixo de costas voltadas, para as mulheres que irão arder na fogueira;  menção dos nomes de alguns dos condenados (inclusive o de Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda)  punição dos condenados pelo Santo Ofício – o povo dança perante as fogueiras.
  • 28. OO espaço socialespaço social TouradaTourada
  • 29. OO espaço social -espaço social - TouradaTourada Tourada (Terreiro do Paço) o espetáculo começa e o narrador enfatiza a forma como os touros são torturados, exibindo o sangue, as feridas, as "tripas“ ao público que, em exaltação, se liberta de inibições (“(…)os homens em delírio apalpam as mulheres delirantes, e elas esfregam-se por eles sem disfarce” (IX, p. 102)
  • 30. Dois toiros saem do curro e investem contra bonecos de barro colocados na praça; de um saem coelhos que acabam por ser mortos pelos capinhas, de outro, pombas que acabam por ser apanhadas pela multidão. A ironia do narrador é ainda traduzida pela constatação de que, em Lisboa, as pessoas não estranham o cheiro a carne queimada, acrescentando ainda numa perspectiva crítica, que a morte dos judeus é positiva, pois os seus bens são deixados à Coroa.
  • 31. OO espaço socialespaço social Procissão do Corpo de DeusProcissão do Corpo de Deus  descrição dos "preparos da festa” feita pelo narrador, que assume o olhar do povo (as colunas, as figuras, os medalhões, as ruas toldadas, os mastros enfeitados com seda e ouro, as janelas ornamentadas com cortinas e sanefas de damasco e franjas de ouro), que se sente maravilhado com a riqueza da decoração).
  • 32. OO espaço socialespaço social Procissão do Corpo de DeusProcissão do Corpo de Deus referência do narrador às damas que aparecem às janelas, exibindo penteados, rivalizando com as vizinhas e gritando motes à noite, passam pessoas que tocam e dançam, improvisa-se uma tourada de madrugada, reúnem-se aqueles que irão formar as alas da procissão, devidamente fardados
  • 33. OO espaço socialespaço social Procissão do Corpo de DeusProcissão do Corpo de Deus  Começa logo de manhã cedo. Descrição do aparato:  à frente, as bandeiras dos ofícios da Casa dos Vinte e Quatro, em primeiro lugar a dos carpinteiros em honra a S. José;  atrás, a imagem de S. Jorge, os tambores, os trombeteiros, as irmandades, o estandarte do Santíssimo Sacramento, as comunidades (de S. Francisco, capuchinhos, carmelitas, dominicanos, entre outros)  e o rei, atrás, segurando uma vara dourada, Cristo crucificado e cantores de hinos sacros  Realização da procissão:
  • 34. OO espaço socialespaço social Procissão do Corpo de DeusProcissão do Corpo de Deus crítica do narrador às crenças e interditos religiosos; visão oficial da procissão como forma de purificação das almas, que tentam libertar-se dos pecados cometidos CRÍTICAS DO NARRADOR:
  • 35. Censura ao luxo da igreja e à luxúria do Rei (“varrasco”) (Cap. XIII) histeria coletiva das pessoas que se batem a si próprias e aos outros como manifestação da sua condição de pecadores.  CRÍTICAS DO NARRADOR
  • 36. EM SÍNTESEEM SÍNTESE  As procissões e os autos de fé caracterizam Lisboa como um espaço caótico, dominado por rituais religiosos cujo efeito exorcizante esconjura um mal momentâneo que motiva a exaltação absurda que envolve os habitantes.  A desmistificação dos dogmas e a crítica irónica do narrador ao clero subjazem ao ideário marxista que condena a religião enquanto "ópio do povo", isto é, condena-se a visão redutora do mundo apresentada pela Igreja, que condiciona os comportamentos, manipula os sentimentos e conduz os fiéis a atitudes estereotipadas.  A violência das touradas ou dos autos de fé apraz ao povo que, obscuro e ignorante, se diverte sensualmente com as imagens de morte, esquecendo a miséria em que vive.
  • 37. O TRABALHO NO CONVENTOO TRABALHO NO CONVENTO Mafra simboliza o espaço da servidão desumana a que D. João V sujeitou todos os seus súbditos para alimentar a sua vaidade. “Ordeno que a todos os corregedores do reino se mande que reúnam e enviem para Mafra quantos operários se encontrarem” (XXI, 302) Vivendo em condições deploráveis, os cerca de quarenta mil portugueses foram obrigados, à força de armas, o abandonar as suas casas e a erigir o convento para cumprir a promessa do seu rei e aumentar a sua glória.
  • 38. Espaço psicológicoEspaço psicológico o espaço psicológico é constituído pelo conjunto de elementos que traduz a interioridade das personagens. Nesta obra, o espaço psicológico é constituído fundamentalmente através de dois processos: os sonhos das personagens, que funcionam como forma de caracterização das mesmas ou que, num processo que lhes confere densidade humana, traduzem relações com as suas vivências (rainha X, 118); e os seus pensamentos (Patriarca e rei, XIII, 162).
  • 39. Os sonhosOs sonhos Salienta-se o sonho do rei e da rainha. O rei sonha com a sua descendência e com o convento. “Também D. João V sonhará esta noite. Verá erguer-se do seu exo uma árvore de Jessé frondosa e toda povoada dos ascendentes de Cristo (…) um convento de franciscanos.” (Cap. I, p. 18) A rainha tem sonhos eróticos com o infante D. Francisco “Porém, vossa majestade sonha comigo quase todas as noites, que eu bem no sei, É verdade que sonho, são fraquezas de mulher guardadas no meu coração. (cap. X, p. 118)
  • 40. TEMPO
  • 41. TEMPOTEMPO O tempo diegético (da históriaO tempo diegético (da história)) Trata-se do tempo em que decorre a ação. O tempo da história é constituído por algumas datas fundamentais. A ação inicia-se em 1711. D. João V ainda não fizera vinte e dois anos e D. Maria Ana Josefa chegara há mais de dois anos da Áustria. Termina em 1739, quando Blimunda encontra Baltasar a ser queimado num auto de fé, no Rossio. O fluir do tempo, mais do que através da recorrência a marcos cronológicos específicos, é sugerido pelas transformações sofridas pelas personagens e por alguns espaços e objetos ao longo da obra.
  • 42. TEMPOTEMPO O tempo diegético (tempo da históriaO tempo diegético (tempo da história)) O tempo histórico Logo no início do romance, podemos inferir que a acção tem início no ano de 1711, através da seguinte referência do narrador: "(. ..) S. Francisco andava pelo mundo, precisamente há quinhentos anos, em mil duzentos e onze (. . .)"
  • 43. TEMPOTEMPO  Referências cronológicas  Em 1711, início da ação  Em 1717, tem lugar a bênção da primeira pedra do Convento de Mafra  em 1717, Baltasar e Blimunda regressam a Lisboa para trabalhar na passarola do padre Bartolomeu de Gusmão  em 1729, celebra-se o casamento de D. José com Mariana Vitória e de Maria Bárbara com o príncipe D. Fernando (VI de Espanha) ( XXII, 211)  em 1730, mais propriamente no dia 22 de Outubro, o dia do quadragésimo primeiro aniversário do rei, realiza-se a sagração da basílica do Convento de Mafra  a ação termina em 1739, no momento em que Blimunda vê Baltasar a ser queimado em Lisboa, num auto-de-fé. (28 anos após o início da ação)
  • 44. TEMPOTEMPO O tempo diegético (tempo da históriaO tempo diegético (tempo da história))  Muitas vezes, a passagem do tempo é anunciada por situações precisas "Para D. Maria Ana é que lhe vem chegando o tempo. A barriga não aguenta crescer mais por muito que a pele estique (.. .)" ou por referências temporais que se integram em marcações referenciais  "(…) tendo partido daqui há vinte meses (…)" p. 72  "Meses inteiros se passaram desde então, o ano é já outro" p. 77  "Entretanto, nasceu o infante D. Pedro (...)" p. 88  "Bartolomeu Lourenço foi à quinta de S. Sebastião da Pedreira, três anos inteiros haviam passado desde que partira (. .)” p. 117  "(...) é certo que há seis anos que vivem como marido e mulher (…)" p. 130  "(...) se não ficou dito já, sempre são seis anos de casos acontecidos (…) " p. 134  "(…) e já vão onze anos passados (...)" p. 162  "(...) passaram catorze anos (…) " p. 214  "Desde que na vila de Mafra, já lá vão oito anos, foi lançada a primeira pedra da basílica (…)" p. 231
  • 45. TEMPOTEMPO O tempo do discursoO tempo do discurso O tempo do discurso é revelado através da forma como o narrador relata os acontecimentos. Este pode apresentá-los de forma linear, optar por retroceder no tempo em relação ao momento da narrativa em que se encontra (analepses -“(…) quando S. Francisco andava pelo mundo, precisamente há quinhentos anos, em 1211 (…)” (cap. II, p. 21) ou antecipar situações (prolepses).
  • 46. TEMPOTEMPO As analepses (recuos no tempo) As analepses explicam, geralmente, acontecimentos anteriores, contribuindo para a coesão da narrativa. É de assinalar, anteriormente ao ano do início da ação (1711 ), a analepse que explica, em parte, a construção do convento como consequência do desejo expresso, em 1624, pelos franciscanos, de possuírem um convento em Mafra.
  • 47. TEMPOTEMPO O tempo do discursoO tempo do discurso a visão globalizante de tempos distintos por parte do narrador (o tempo da história e, num tempo futuro, o do momento da escrita) – cabem aqui as referências aos cravos (outrora, nas pontas das varas dos capelães; mais tarde, símbolos da revolução do 25 de Abril)(XIII, 161), a associação entre os possíveis voos da passarola e o facto de os homens terem ido à Lua, no século XX, a alusão ao tipo de diversões que se vivia no século XVII e ao cinema, entre outras. As prolepses (ações futuras)  A antecipação de alguns acontecimentos serve os seguintes objetivos:
  • 48. Memorial do ConventoMemorial do Convento:: dois sonhos distintosdois sonhos distintos A megalomania real O sonho de voar

Notas do Editor

  1. .